O ACONTECIMENTO NA PERSPECTIVA
DAS NARRATIVAS HISTÓRICA E JORNALÍSTICA:
ELEMENTOS PARA UMA DISCUSSÃO
Gustavo Fortes Said prof. UFPI, mestrando UFRJ *
Resumo:
As evidências de aproximação entre as narrativas do jornalismo e da história são cada vez
mais frequentes, sobretudo a partir do momento em que a historicidade dos acontecimentos
passou a estar vinculada à sua noticiabilidade. O artigo que ora se apresenta tem o objetivo
de levantar elementos para uma discussão sobre o processo de narração dos acontecimentos
sociais pelo jornalismo e pela história, destacando a forma como ambas as narrativas se
mesclam e produzem um ambiente teórico-metodológico multidisciplinar.
I - Introdução
Não raro se discute a possibilidade de aproximação entre a atividade jornalística e a pesquisa
de caráter histórico. Poucas vezes, no entanto, a discussão tem levado a um lugar de
consenso, embora do ponto de vista epistemológico - de uma nova teoria do jornalismo e de
uma nova teoria da história – as evidências deste diálogo tenham se tornado cada vez mais
frequentes.
Fácil identificar as variáveis que possibilitaram a abertura do diálogo entre historiadores e
jornalistas: sobretudo neste final de século, são os meios de comunicação que dão
visibilidade histórica a determinados acontecimentos, advindo daí o motivo pelo qual passam
a ser considerados fontes históricas primárias. Por outro lado, parece que dificilmente as
reflexões de historiadores e jornalistas convergem para um locus teórico em que tanto os
acidentes históricos quanto o material produzido pelos meios de comunicação se situem na
intersecção de abordagens diversas, de diferentes ramos do conhecimento. Essa perspectiva
transdisciplinar, apesar de resguardar as especificidades próprias de cada área, revela pontos
em comum e aponta para a necessidade de se estabelecer comparações entre metodologias
diversas de apreensão dos fenômenos sociais, como em uma teoria do jornalismo e em uma
teoria da história.
Uma das questões primeiras que se impõem ao debate está em se perceber que os saberes
científicos também são fundados numa relação de poder, e esta, por sua vez, é estabelecida a
partir das formulações discursivas que constituem estes saberes. Foucault (1996) explica que
as sociedades sempre controlam e organizam os discursos, inclusive os de caráter científico,
a partir do que ele chama de procedimentos de exclusão – a palavra proibida, a segregação
da loucura e a vontade de verdade. As grandes mutações científicas, para ele, são o
resultado da necessidade de legitimação de determinado saber através de verdades
estabelecidas discursivamente pela lógica constitutiva (os objetos, os métodos, as
proposições, as regras e técnicas) de cada disciplina setorizada. Assim, Foucault acredita
que as disciplinas são princípios controladores da produção discursiva: “uma disciplina não é
a soma de tudo o que pode ser dito de verdadeiro sobre alguma coisa; não é nem mesmo o
conjunto de tudo o que pode ser aceito, a propósito de um mesmo dado, em virtude de um
princípio de coerência ou sistematicidade.” (1996:31). Portanto, formular verdades, para
Foucault, significa obedecer a regras de uma espécie de polícia discursiva que opera em cada
discurso.
As disciplinas tanto controlam os dispositivos discursivos internos, inerentes a cada uma
delas, quanto aqueles que dizem respeito à sua exterioridade, à relação que estabelecem com
outras disciplinas. As suas proposições ultrapassam a sua lógica discursiva interna e se
implantam como verdades irrefutáveis em outras áreas, às vezes, conferindo-lhes
legitimidade científica em função mesmo das verdades por elas postuladas. Neste sentido, ao
se estabelecer uma relação de interdependência entre campos de conhecimento distintos, é
necessário negar-se a concepção dogmática e proselitista que tenta priorizar uma ou outra
disciplina, em detrimento daquela à qual se subjuga, conferindo-lhe assim a função de
instituir um outro/novo saber, fundado a partir de um saber já existente, porque, do ponto
de vista teórico–metodológico, toda sua fundamentação depende do campo heurístico que
ora o instituiu.
Inútil discutir-se a supremacia de dois campos teóricos que já não podem trabalhar em
separado, embora seja frequente a tentativa, tanto por parte de historiadores quanto de
jornalistas, de mostrar a relevância do seu trabalho e o vínculo de dependência que ele cria
com outras áreas. Da relação entre jornalismo e história não pode resultar a criação de um
novo campo teórico. Ambas as áreas temáticas – jornalismo e história – são segmentos de
um continente do saber, campos de conhecimento distintos, cujo objeto, em algumas
circunstâncias, pertence a um domínio comum. Este duplo pertencimento do objeto é que
instaura uma epistemologia de outra ordem, fundada na relação multidisciplinar.
Por certo, foi a atividade jornalística que, voltando-se contra o rigor metodológico de um
tipo de história construída com base na metafísica, ampliou as possibilidades metodológicas
deste ambiente teórico que anteriormente lhe outorgara apenas o direito de ser utilizado
como fonte de pesquisa. O registro jornalístico deslocou-se, portanto, do mero posto de
fonte de dados e informações para instalar-se também em outras disciplinas, especialmente a
história, exportando para elas suas técnicas de reprodução da realidade, de apropriação da
temporalidade da vida cotidiana, expressa nas notícias. A partir daí, o jornalismo se impôs
como técnica de pesquisa, deixando de ser apenas um objeto do conhecimento para adquirir
o status de campo heurístico.
Todo este movimento de reformulação do ambiente teórico-metodológico que
fundamentava a ciência histórica tem seu ápice naquilo que mais tarde vai se chamar de
história das mentalidades1. Trabalhando com a história do cotidiano, os historiadores
ultrapassaram a narrativa metafísica2 para centrar a pesquisa na singularidade da vida diária e
1
A revolução epistemológica iniciada com a Escola dos Anais – Febvre, Bloch e,
principlamente, Braudel – vai ampliar-se com a inclusão do pensamento de autores como
Jacques Le Goff, Michel Vovelle, Le Roy Laduriere, até receber a designação de história das
mentalidades. Em suma, o que vai caracterizar este tipo de abordagem na história é a
relevância que passam a ter a vida comum, ordinária, e, por conseguinte, o tempo de curta
duração, no qual acontecem os eventos do cotidiano.
2
Segundo Ana Paula Goulart Ribeiro (1994), na narrativa metafísica o tempo é apresentado
como algo absoluto, independente das coisas e processos, numa clara interferência dos
princípios da mecânica clássica de Newton.
nos discursos produzidos pela sociedade, algumas vezes utilizando técnicas similares às
empregadas pelos jornalistas e se servindo do referencial teórico-metodológico das ciências
da linguagem, das quais faz parte a comunicação social, e, em especial, da semiologia dos
discursos, então em fase de recrudescimento no ambiente acadêmico.
Dentro desta lógica – a de tratar os acontecimentos do cotidiano a partir da sua formação
discursiva - ,Ana Paula Goulart Ribeiro esboça a necessidade de aproximação entre a
história e a semiologia:
“A materialidade dos fatos só pode se dar via discursos. É porque os fenômenos se
incorporam em matérias significantes que é possível o trabalho do historiador. A realidade
histórica existe; é fato. Mas só através de discursos concretos ela pode ser apreendida. Os
textos (verbais e/ou não-verbais) são o ponto de partida empírico de qualquer pesquisa
historiográfica. Os fatos históricos, repetindo, não são passíveis de ser apreendidos em si
mesmos, mas apenas através das fontes, que são (a despeito do suporte material sobre o
qual ‘repousam’) sempre de natureza discursiva.” (1994:39)
Desta forma é que as disciplinas jornalismo e história passam a se submeter a uma lógica de
produção discursiva cujas regras se aproximam, mas que, como áreas distintas de
conhecimento, apresentam também pontos discordantes. Os objetivos deste trabalho estão
justamente voltados às questões relativas às regras de produção do conhecimento histórico e
do saber jornalístico: quais as diferenças, no plano do discurso e da construção do sentido,
entre campos de conhecimento como a História e o Jornalismo? Se também a história é
construção discursiva, operando sobre uma lógica de operacionalização de determinadas
técnicas e de regras linguísticas na construção do texto, estaria também ela submetida à
produção do acontecimento e, portanto, à sua transformação em notícia ou fato histórico?
Identificar focos de aproximação e possíveis dissonâncias entre as narrativas construídas
pelo discurso da história e do jornalismo é a pretensão deste pequeno ensaio. Por ser apenas
um vislumbre da possibilidade de se executar uma pesquisa mais exaustiva, as idéias aqui
apresentadas são tão somente uma antecipação metodológica daquilo que se pretende
executar ao longo do curso de mestrado em comunicação.
II – Regras de Produção da Notícia e da Narrativa Histórica
A realidade se revela enquanto discurso. Aquilo que os sujeitos sociais percebem do real é
uma formatação discursiva que opera dentro de uma certa lógica, determinada por uma
conjunção de fatores diversos. Não há, portanto, separação entre o real e o discurso, tendo
em vista que a expressão do real e a sua percepção pelos sujeitos sociais só se faz mediante
um jogo discursivo construído sob certas condições de produção e consumo.
Por conseguinte, conforme havia sido tratado na introdução deste trabalho, a prática
científica deve ser entendida como uma atividade meramente discursiva, fundada em certas
regras que procuram lhe conferir uma legitimidade epistemológica (por exemplo, as
verdades científicas, mencionadas anteriormente). Por esse motivo, Ana Paula Goulart
Ribeiro (1994) afirma que toda ciência pressupõe um tipo de atividade discursiva, que ela
chama de “escritura”. Sobre a disciplina História, ela acredita que a sua prática é
semiológica por natureza:
“a (...) História sempre cria relatos escritos (descritivos e/ou explicativos): são as obras
históricas, que produzem sentidos e instauram intelegibilidade sobre o passado. (...) O
historiador (como qualquer enunciador) é um homem de seu tempo e, por isso, dialoga com
certos ‘textos’ e não com outros. No seu discurso estão presentes algumas vozes,
organizadas (‘orquestradas’) de determinada maneira, em função da qual certos efeitos de
sentido são produzidos e ofertados.”(1994:17)
Partindo da asserção anterior - de que também a história é uma experiência discursiva,
sujeita, portanto, às regras de produção que orientam a construção textual - compreende-se
perfeitamente a importância das técnicas de narração para a estruturação do conhecimento
histórico. Neste sentido, todo discurso, seja a notícia jornalística ou a narrativa histórica,
cristaliza um determinado fato social e, por conseguinte, a ele confere uma espécie de
contrato de leitura, que, segundo Fausto Neto (1996), significa um conjunto de normas e
prescrições que se impõem como condições de interpretação do texto. As regras de
produção de um discurso estabelecem o tipo de contrato de leitura e, por esse motivo,
devem ser analisadas à luz do momento histórico em que o discurso foi produzido.
Para se compreender o sentido produzido por um discurso qualquer, é necessário
entender as condições de sua produção. Milton José Pinto (1995:06) afirma que “as
condições de produção devem ser definidas em diversos níveis de abstração, que vão desde
as forças sócio-históricas ou psíquicas mais profundas, que fornecem o quadro ou cenário
do ritual comunicativo, até níveis mais superficiais, como o das cristalizações que conduzem
as falas de um diálogo verbal a se estruturar (...)”.
Seguindo a mesma linha de raciocínio, sobre as regras de produção do discurso jornalístico,
Fausto Neto (1991:32 ) diz que
“o processo de enunciação (...) é regulamentado através de procedimentos mais
generalizados e que se encontram estabelecidos em espécies de ‘macrocódigos’: a língua, as
matrizes culturais, as regras sociais, a ética e as ideologiais. Mas também, os
‘microcódigos’, como por exemplo, os dispositivos que são criados, internamente, no
interior dos próprios meios de comunicação, como códigos particulares de onde devem ser
manejados e mobilizados os instrumentos enunciativos, e que, neste caso, são, por exemplo,
os chamados manuais de redação.”
A afirmação de Fausto Neto diz respeito à lógica de produção do material jornalístico,
sempre subordinada aos imperativos culturais (a língua, os valores éticos, as normas e regras
sociais), à maneira como se estrutura o trabalho nas empresas de comunicação (a estrutura
burocrático-administrativa, com seus rigores e valores profissionais) e às questões de ordem
técnica (as técnicas específicas de produção da notícia, os manuais de redação). Estas
questões apontadas pelo autor evidenciam um tipo de metodologia que deve orientar a
análise de discurso: a produção do sentido se dá no entrecruzamento da dimensão
situacional (contexto sócio-cultural e profissional) e da dimensão discursiva (regras de
produção). Portanto, o contexto social sempre revela as condições de produção do discurso,
mas, por assim se constituir, a análise de discurso também evidencia aspectos de natureza
contextual que anteriormente poderiam não se revelar à análise do pesquisador.
Roberto Elisio dos Santos aponta a lógica de produção (1989) do material jornalístico como
reveladora do contexto social no qual este material está inserido. Para tanto, é preciso
recorrer ao método da análise de discurso, formalizando a análise em dois pontos já
mencionados: a dimensão situacional e a dimensão discursiva. Para ele (1989:158),
“todo produto cultural incorpora em seu conteúdo as condições objetivas do momento
histórico em que foi produzido (um filme histórico ou uma telenovela de época fala mais do
seu tempo do que dos tempos históricos abordados, assim como o remake de um
determinado produto ou a transposição de uma obra literária para o Cinema ou Tv incorpora
elementos que só podem ser identificados à luz do momento de sua produção).”
Na análise de Roberto Elísio, a lógica da produção do material jornalístico forneceria
elementos indispensáveis para a reconstrução de determinados contextos sociais, que
passariam a ser percebidos no entroncamento de fatos aparentemente distintos, mas que
guardam uma relação muito forte de interdependência e reciprocidade e que não acontecem
ao acaso, ao devir, mas como resultado da ação, por parte dos sujeitos sociais, de uma
intertextualidade discursiva.
É preciso identificar fatores desta mesma ordem que se inserem no processo de produção
das narrativas históricas. A rigor, neste caso, ainda que resguardadas as diferenças entre o
trabalho do historiador e do jornalista, também a história se constróe através dos discursos e
submete-se, por conseguinte, à sua lógica produtiva.
Michel de Certeau (apud Ana Paula Ribeiro, 1994) aponta para uma metodologia similar
que deve percorrer a análise dos textos historiográficos. Ele define a produção
historiográfica como resultado da combinação de lugares sociais e práticas científicas. Ana
Paula Goulart Ribeiro (1994:17-18), comentando o pensamento de Certeau, diz que ”toda
pesquisa historiográfica é articulada a partir de um lugar de produção sócio-econômico,
político e cultural, em função do qual se instaura um método, se precisa uma tipologia de
interesses, se faz indagações aos documentos, se define, enfim, o que é ou não histórico.
Certeau considera esse lugar em relação a duas dimensões: a da subjetividade (...) e da
instituição do saber”.
A análise dos textos historiográficos deve percorrer o mesmo caminho traçado para o
discurso jornalístico, situando-se no cruzamento da dimensão situacional com a dimensão
discursiva. Assim, o discurso historiográfico passa a ser produzido em função da relação que
se estabelece entre fatores de ordem sócio-cultural e profissional e fatores de ordem técnica.
No primeiro caso, que diz respeito aos macrocódigos aludidos por Fausto Neto (1991),
podem ser incluídos as matrizes culturais, a língua, a cultura profissional e, principalmente,
os paradigmas científicos – na acepção adotada por Kuhn3 – aos quais se vinculam os
historiadores. No que tange aos microcódigos, são as técnicas específicas empregadas e os
rigores metodológicos que determinam certas regras de produção do discurso
historiográfico.
Neste sentido, inúmeros são os fatores que se impõem como condição para a produção
historiográfica. Além dos paradigmas científicos e dos seus rigores metodológicos, os
valores e as regras estabelecidos nos ambientes acadêmicos e intelectuais e as imposições de
determinadas editoras, responsáveis muitas vezes pela publicação do material coletado,
funcionam como determinantes do processo de produção das narrativas históricas.
Ana Paula Goulart Ribeiro comenta (1994:18): “a produção historiográfica sempre é
configurada pelo sistema onde a pesquisa é elaborada. Esta (realizada seja na universidade,
seja em qualquer centro de pesquisa) se organiza necessariamente em torno de equipes, de
instituições de financiamento, de proximidades políticas e de alguns ’líderes’ (os
orientadores, chamados, por Certeau, de a ‘intelligentsia acadêmica’)”.
Tanto o discurso jornalístico quanto historiográfico se submetem a regras de produção de
uma mesma natureza (a dimensão situacional e a dimensão discursiva), mas as marcas
deixadas no processo de enunciação podem apresentar-se diferentemente, por conta da
3
Para Thomas Kuhn, as idéias de uma tradição científica são chamadas de paradigma.
Comentando o pensamento deste autor, Immacolata Vassalo Lopes (1990:30) diz que “o
paradigma pode ser considerado a visão de mundo partilhada por uma comunidade
científica, que se expressa através do trabalho teórico. Ele determina quais problemas são
investigados, quais são considerados pertinentes, que técnicas de investigação são utilizadas
e que tipos de solução se admitem aos problemas. O paradigma também consiste de
orientações para a resolução de problemas referentes à construção de inferências...”
própria adversidade das condições que geraram os textos. Há, assim, diferenças marcantes
entre a produção discursiva do jornalismo e da história, no entanto, isto não impede que se
amplie a possibilidade do diálogo entre estes campos do saber, afinal, mesmo que
resguardadas as especificidades e os dispositivos enunciativos de cada discurso, tanto a
estrutura narrativa da notícia quanto dos textos da história objetivam reconstituir a
temporalidade do evento. Como os discursos jornalístico e historiográfico operam sobre a
temporalidade dos fatos narrados?
III – A Temporalidade da Notícia e da Narrativa Histórica
Ambas as atividades – historiográfica e jornalística – estão diretamente vinculadas à
existência dos fatos sociais. Para a História, os acontecimentos sociais, transformados em
fatos históricos, é que vão determinar a maneira pela qual se compreende o presente, a
transformação das sociedades, a partir da processualidade e da sucessão destes
acontecimentos. Como não é dado ao historiador o poder de narrar todos os fatos, por
consequência, apenas uma parcela não muito significativa dos mesmos, por razões
explicadas no item anterior deste trabalho, ganha o status de acontecimento histórico. O
mesmo procedimento é utilizado pelos jornalistas para determinar que fatos sociais devem
ser elevados à condição de notícia. O jornalista trabalha com a divulgação de fatos que,
embora tenham acontecido num passado bastante próximo (semanas, dias, horas atrás),
procuram traduzir – pelo menos em tese – as condições do momento atual. O momento da
divulgação, pela mídia, de determinados eventos sociais, transformados em notícia, eleva-os
também à condição de fatos históricos.
Se o jornalismo não trabalha com a noção de processo, tão cara à ciência histórica, como os
fatos sociais, transformados em acontecimentos históricos após sua veiculação pelos meios
de comunicação de massa, apresentam-se estruturados numa narrativa que visa reconstituir
sua temporalidade? Os textos jornalísticos servem apenas como fonte para a pesquisa
histórica ou eles próprios já podem ser considerados textos historiográficos?
No caso específico da notícia jornalística, a causalidade do fato está implicitamente expressa
na sua estrutura narrativa, através das técnicas utilizadas para a construção da mesma. A
notícia tenta reconstituir a temporalidade do acontecimento, conferindo-lhe uma certa
atualidade, embora o fato, na maioria das vezes, já tenha acontecido. Os recursos técnicos e
estéticos visam, portanto, criar uma espécie de ilusão referencial do presente, onde fatos do
passado são apresentados com uma certa atualidade, afinal, um dos critérios que movem a
atividade noticiosa é a atualidade conferida a determinados eventos. Os acontecimentos tem
que apresentar-se dentro desta lógica, numa espécie de cronologia da atualidade, numa
reconstituição do instante. Para isso, o jornalismo utiliza o presente narrativo, mesmo que os
fatos já tenham acontecido. Este tipo de recurso é bastante visível no processo de titulação
das matérias, principalmente as que figuram na primeira página, onde o jornalista usa, quase
que invariavelmente, verbos no presente do indicativo.
A relação mantida entre o discurso jornalístico e a história que ele narra está contida no
próprio discurso, no processo de sua produção. Há, portanto, uma temporalidade interna ao
discurso construído que tenta voltar-se ao tempo do acontecimento real. O momento em
que se dá a passagem de uma temporalidade real para uma temporalidade reconstruída no
discurso, e desta, num percurso inverso, para uma temporalidade real, no momento em que
o texto é consumido, só pode ser analisado a partir das condições de produção e recepção
deste discurso.
A respeito disso, numa referência aos trabalhos dos pesquisadores Roman Jakobson e Eliseo
Veron, a professora Cremilda Medina (1988) explica que a linguagem jornalística (narrativa
textual, fotografias, manchetes e demais recursos gráficos) apresenta uma função referencial.
Sobre esta ilusão referencial da realidade, ela diz, apoiada nos autores citados:
“A linguagem jornalística procura um prolongamento da linguagem do momento real, mas
naturalmente não é mais o momento, é um momento posterior (...) Examinando o jornal,
realmente o fato referenciado não está ali vivo na página do jornal, está substituído por
comunicação indireta, mas o que é importante: persegue com todos os esforços conscientes
e inconscientes uma contiguidade recriada. A sequência metonímica da realidade se
reconstrói pelos recursos do analogon jornalístico: daí todas as formulações de dinamismo
por meio de fotografia, do desenho, das palavras e estruturas narrativas, da
diagramação.”(Cremilda Medina,1988:93-94)
Análise similar é proposta por Fausto Neto (1991:30): “ Ora, se o tempo do ‘fato bruto’ de
um episódio qualquer é um e o tempo do discurso se constitui num outro, impossível a
superposição de ambos, restando apenas o recurso do sujeito à mediação dos procedimentos
de linguagem, para ‘reconstituir’ o tempo do ‘fato bruto’.” Percebe-se, portanto, que
também o pensamento de Fausto Neto conduz à idéia de que as técnicas jornalísticas
procuram trabalhar no sentido de reconstiuir a temporalidade do acontecimento.
Em se tratando das narrativas de cunho historiográfico4, há a evidência de que –
diferentemente do jornalista - o historiador trabalha com uma cronologia do passado, do
atraso, porque, para ele, o imperativo é de que o acontecimento já tenha se realizado, já que
a história é a ciência dos fatos passados. Logo, a função referencial deste discurso diz
respeito a fatos passados que devem ser tratados como eventos não atuais, mas que
guardam um princípio de causalidade com relação ao presente. Nesta relação causal é que
reside o elo de ligação entre as narrativas da história e do jornalismo: no momento em que
as notícias são publicadas, quase que instantaneamente as mesmas se transformam em
acontecimentos passados, e, como tal, sujeitas a serem tratadas como fatos históricos.
Se a notícia, ao ser publicada, determina o caráter histórico de um fato, então a história
estaria submetida a todas as regras de produção da notícia, sejam aquelas que dizem respeito
à seleção dos acontecimentos noticiáveis até as que indicam o tratamento narrativo que as
mesmas devem receber?
É preciso reconhecer que a história não se inscreve apenas nos textos produzidos pela
historiografia; ela é uma prática que remete à mudança social e, como tal, confunde-se com
todo o universo da cultura. Circunscrever a história apenas à produção historiográfica, como
também à produção noticiosa, significa retroceder do ponto de vista epistemológico,
retornar às teorias totalizadoras da modernidade, de um viés metafísico, com suas propostas
4
Não está em questão, neste momento do trabalho, o fato de se considerar ou não as
narrativas jornalísticas como material historiográfico. Isto remete a um outro tipo de
abordagem teórica.
teleológicas, e esquecer que o universo de práticas culturais e, portanto, históricas
dissemina-se por todos os ambientes sociais. Do ponto de vista de uma teoria de
comunicação, isto representaria o esquecimento ou a negação dos fatores que mediatizam a
relação entre os fatos sociais, a cultura e a história. Sob certo aspecto, um retorno a uma
teoria de comunicação que nega as mediações culturais e submete o trabalho do jornalista a
um modelo transmissional e unilinear. Uma prática como esta seria condutora de um tipo de
história e estaria, por consequência, fundamentada numa epistemologia da modernidade.
Retorna-se ao início deste ensaio, em que se abordava a relação entre a história e o
jornalismo. Não há mais como separar fenômenos que guardam uma estreita relação de
interdependência. Se uma teoria da história não for capaz de mergulhar seu olhar sobre as
narrativas jornalísticas, tampouco uma teoria do jornalismo poderá desvencilhar-se das
análises reducionistas e dos conceitos mecanicistas e partir para uma ampliação da dimensão
dada às notícias. Em linguagem figurada, separar o joio do trigo é tareja inútil, afinal, nem a
história nem o jornalismo, neste ambiente teórico que ora se desenvolve, sabem ao certo
quem produz os acontecimentos e constróe a história. Essa construção, na análise de
discurso, está relacionada aos aspectos que mediatizam a produção, a veiculação e o
consumo dos textos, daí a importância da dimensão cultural, porque a história não se
constróe apenas através dos textos da historiografia e do jornalismo. Há outros textos
semantizados em práticas sociais não tão difundidas quanto estas. Mas é que as ciências, as
disciplinas e também as instituições sociais conferem a si próprias o estatuto da verdade e o
poder de dizê-las.
Perceber a forma do que foi dito pelos textos da história e do jornalismo, mas também
enxergar o não dito, o silenciado, conduz a uma análise semiológica da cultura e da história.
O silêncio também “fala”, mas a partir do momento em que se “tira a fala” do silêncio – ou
se produz ou atribui sentido à sua mudez - ele emudece uma outra parte de si, ele enuncia
apenas uma de suas muitas falas. Qualquer sentido para a história é possível, antes da
enunciação; depois dela, seja na forma de notícia jornalística ou de narrativa histórica, o
sentido se revela nas condições de produção, veiculação e consumo dos acontecimentos. E
estes são coisa de um outro tempo – o passado, que, assim como o presente, tem uma parte
que fala e outra que cala.
* Gustavo Fortes Said é professor de Teoria da Comunicação da UFPI e mestrando em
Comunicação e Cultura pela UFRJ
IV – Bibliografia
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NETO, Antônio Fausto. Mortes em Derrapagem – os casos Corona e Cazuza no
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PINTO, Milton José. Contextualizações (comunicação). Brasília: COMPÓS, 1995.
RIBEIRO, Ana Paula Goulart. A História do seu Tempo – a imprensa e a produção do
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SANTOS, Roberto Elísio. História e Comunicação - Elementos para uma teoria. IN:
Comunicação e Sociedade - Comunicação e Realidade Brasileira (Revista Semestral de
Estudos de Comunicação). São Bernardo: Editora Metodista, 1989, p. 147 - 167.
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