MELHORES PRÁTICAS DE MANEJO PARA MINIMIZAR EMISSÕES DE GASES DE EFEITO ESTUFA ASSOCIADAS AO USO DE FERTILIZANTES 1 Cliff S. Snyder2 Tom W. Bruulsema3 Tom L. Jensen4 A s alterações climáticas e o aquecimento global continuam a ser tópicos de debate científico e de interesse público. De forma crescente, a agricultura é vista como grande contribuidora para as emissões de gases de efeito estufa (GEE), os quais normalmente aumentam o potencial de aquecimento global (PAG), e o uso de fertilizantes nitrogenados tem sido identificado como fator crucial neste processo. Este artigo apresenta um resumo da literatura científica sobre os impactos do uso e manejo dos fertilizantes nas emissões de GEE. A agricultura desempenha importante papel no equilíbrio dos três mais importantes GEE, cujas emissões são influenciadas pelo homem. Os três gases são: CO2, N2O e CH4. O PAG de cada um desses gases é expresso em termos de equivalente de CO2. Os PAGs do N2O e do CH4 são 296 e 23 vezes maiores, respectivamente, do que uma unidade de CO2. A agricultura representa menos que 8% do total das emissões de GEE no Canadá e menos que 10% nos Estados Unidos, e não está aumentando (Figura 1)5. Para a economia como um todo, as emissões de CO2 são mais importantes mas, no que diz respeito à agricultura, o mais importante é o N2O. Figura 1. Emissões de gases de efeito estufa nos Estados Unidos, por setor, em bilhões (109) de toneladas de CO2 equivalente. As emissões de CH4, principalmente as provindas de animais domésticos, também representam contribuições substanciais para o PAG. Embora o N2O constitua uma pequena parte das emissões de GEE, torna-se o maior foco desta revisão porque a agricultura representa sua maior fonte, e está associado ao manejo do solo e à utilização de fertilizantes nitrogenados. As concentrações atmosféricas de N2O aumentaram de aproximadamente 270 partes por bilhão (ppb), durante a era pré-industrial, para 319 ppb em 2005. As emissões de N2O da superfície terrestre aumentaram em até 40-50% em relação aos níveis do período pré-industrial como resultado da atividade humana. A proporção de emissões de N2O de áreas cultivadas diretamente induzida por fertilizantes são estimadas em aproximadamente 23% no mundo todo. Fertilizante nitrogenado: fonte, dose, época e forma de aplicação Os princípios do manejo adequado de fertilizantes baseiamse na utilização do produto correto, na dose certa, na época de aplicação adequada e com a localização correta (ROBERTS, 2007)6. A maior parte dos estudos tem demonstrado que condições do solo, como quantidade de água nos espaços porosos, temperatura e disponibilidade de carbono solúvel, têm influência dominante nas emissões de N2O. Fatores como fonte de fertilizante e manejo da cultura também podem afetar as emissões de N2O mas, devido às interações com as condições do solo, torna-se difícil chegar a conclusões gerais. O manejo inadequado de dose, fonte, época de aplicação e localização do fertilizante nitrogenado e a ausência de um balanço adequado com outros nutrientes podem intensificar as perdas de nitrogênio (N) e a emissão de N2O. Quando o N é aplicado acima da dose adequada econômica, ou quando o N disponível no solo (especialmente na forma de NO3-) excede a absorção pela cultura, aumenta-se o risco de emissões de N2O. As leguminosas ou outras espécies fixadoras de N, quando incluídas no sistema de rotação de culturas, também podem contribuir para emissões de N2O após a colheita, durante a decomposição dos resíduos vegetais. Pesquisas no mundo todo demonstram resultados constratantes nas emissões de N2O de várias fontes de N. Abreviações: C =carbono; CH4 = metano; CO2 = dióxido de carbono; COS = carbono orgânico do solo; GEE = gases de efeito estufa; MOS = matéria orgânica do solo; MPMs = melhores práticas de manejo de fertilizantes; N = nitrogênio; N2O = óxido nitroso; NO3– = nitrato; PAG = potencial de aquecimento global. 1 Este artigo é o resumo de uma revisão de literatura do IPNI. O artigo completo encontra-se disponível no link: http://www.ipni.net/ipniweb/portal.nsf/ 0/d27fe7f63bc1fcb3852573ca0054f03e/$FILE/IPNI%20BMPs%20&%20GHG.pdf 2 Diretor do Programa de Nitrogênio do IPNI; email: [email protected] 3 Diretor do IPNI - Região Nordeste dos Estados Unidos. 4 Diretor do IPNI - Região Norte das Grandes Planícies dos Estados Unidos. 5 Segundo informação pessoal do Dr. Carlos Eduardo Pellegrino Cerri, professor da ESALQ/USP, a agricultura é responsável por 9,6% do total das emissões de gases de efeito estufa do Brasil. Mais informações podem ser obtidas no site: www.mct.gov.br/clima 6 Para mais detalhes, consultar o artigo completo na página 11 deste jornal. Fonte: Better Crops with Plant Food, Norcross, v. 91, n. 4, p. 16-18, 2007. INFORMAÇÕES AGRONÔMICAS Nº 121 – MARÇO/2008 13 Inibidores da urease, da nitrificação e produtos de maior eficiência agronômica Fertilizantes de maior eficiência agronômica (fertilizantes de liberação lenta ou controlada e fertilizantes nitrogenados estabilizados) têm sido considerados como produtos que minimizam as perdas potenciais de nutrientes para o ambiente, quando comparados com fertilizantes-padrões solúveis. Inibidores da urease ou de nitrificação mostraram bom potencial de aumento na retenção no solo e recuperação pelas plantas do N aplicado, mas pouco se sabe sobre seus impactos nas reduções das emissões de N2O. Fertilizantes de liberação lenta ou controlada e fertilizantes estabilizados podem levar a um aumento na recuperação pela cultura e diminuição nas quantidades de N perdidas por lixiviação. Os benefícios destes na redução das emissões de N2O não foram estudados com a mesma intensidade. Evidências recentes sugerem que eles podem ser eficientes na redução das emissões a curto prazo, mas os efeitos a longo prazo são menos claros. Estudos estão em andamento para melhor quantificar estas emissões e seus benefícios potenciais. Potencial de aquecimento global e cultivo intensivo Embora considerada como fonte de GEE, em algumas condições a agricultura pode servir para seqüestrar CO2 e, conseqüentemente, levar a uma redução geral no potencial de aquecimento global (PAG). A adubação adequada pode contribuir para aumentar o conteúdo de matéria orgânica do solo (MOS) ou diminuir o seu declínio. A adubação insuficiente limita a produção de biomassa das culturas e pode resultar em menos carbono seqüestrado pelo solo, menores conteúdos de MOS e mesmo impossibilitar elevadas produtividades a longo prazo. Adições adequadas de N são essenciais para produtividades elevadas e estabilização da MOS. A combinação adequada de fonte, dose, época de aplicação e localização de fertilizantes que leva à otimização da produtividade das culturas minimiza ao mesmo tempo o PAG por unidade de produção e reduz a necessidade de se converter áreas silvestres em agricultura. Práticas intensivas de manejo que aumentam a absorção dos nutrientes, além de elevar as produtividades, podem ser a forma principal de se obter reduções nas emissões de GEE em áreas agrícolas. Culturas com elevado potencial de produtividade podem elevar o estoque de carbono do solo. Os fatores de manejo da cultura, solo e fertilizantes que ajudam a minimizar a emissão de GEE são: (1) escolha da combinação correta de variedades ou híbridos adaptados, data de semeadura ou plantio e população de plantas para maximizar a produção de biomassa das culturas; (2) manejo adequado da água e do N, incluindo aplicações parceladas de N, visando a utilização eficiente deste elemento, com oportunidades mínimas para emissão de N2O; (3) manejo adequado dos resíduos vegetais de tal forma que se favoreça o aumento da MOS, como resultado de elevadas quantidades de resíduos restituídos ao solo. Dados recentes, mostrados na Tabela 1, indicam que os fatores que mais contribuem para as diferenças no PAG líquido entre sistemas de produção estão ligados a mudanças no estoque de carbono do solo e a emissões de N2O. Tabela 1. Comparação de sistemas de cultivo agrícola selecionados quanto ao potencial de aquecimento global (PAG). PAG em CO2 equivalentes (kg ha-1 ano-1) Sistema de cultivo C do solo6 Produção Combustível N fert.7 Principais culturas (t ha-1) N 2O PAG líquido Milho Trigo Soja Prod. alimento1 (Gcal ha-1 ano-1) Local Rotação4 Cultivo5 MI 2 M-S-T CC 0 270 160 520 1.140 5,3 3,2 2,1 12 MI 2 M-S-T SD -1.100 270 120 560 140 5,6 3,1 2,4 13 MI 2 M-S-T com baixo input de leguminosa CC -400 90 200 600 630 4,5 2,6 2,7 12 1,6 2,7 9 MI 2 M-S-T orgânica com leguminosa CC -290 0 190 560 410 3,3 NE3 MC MPMs CC -1.613 807 1.503 1.173 1.980 14,0 48 NE 3 MC intensivo CC -2.273 1.210 1.833 2.090 3.080 15,0 51 NE 3 M-S MPMs CC 1.100 293 1.283 917 3.740 14,7 4,9 35 NE3 M-S intensivo CC -73 660 1.613 1.247 3.740 15,6 5,0 37 MI 2 Conversão de cultura a floresta SD -1.170 50 20 100 -1.050 1 Quantidade de energia do alimento calculada a partir da produtividade das culturas e do banco nacional de dados sobre nutrientes do USDA (http://riley.nal.usda.gov/NDL/index.html). 2 Estado de Missouri; sistema de produção natural (ROBERTSON et al., 2000). 3 Estado de Nebraska; sistema de produção irrigado (ADVIENTO-BORBE et al., 2007). 4 M-S-T = rotação milho-soja-trigo; MC = cultivo contínuo de milho; M-S = rotação milho-soja; MPMs = melhores práticas de manejo de fertilizantes. 5 CC = cultivo convencional; SD = semeadura direta. 6 Estimativas da quantidade líquida de carbono do solo são baseadas em modificações no C do solo medidas à profundidade de 7,5 cm, em estudo conduzido no Estado de Missouri, e a 30 cm, em estudo no Estado de Nebraska. Amostragens superficiais tendem a superestimar o seqüestro de carbono em sistemas de plantio direto. 7 Considerou-se que os valores do potencial de aquecimento global para a produção e o transporte de fertilizante nitrogenado foram de 4,51 e 4,05 kg de CO2/kg N nos estudos conduzidos nos Estados de Missouri e Nebraska, respectivamente. 14 INFORMAÇÕES AGRONÔMICAS Nº 121 – MARÇO/2008 Os mesmos dados mostram que um aumento na utilização de fertilizante nitrogenado nem sempre leva a um aumento do PAG líquido, e que sistemas intensivos de produção, onde se utilizam doses maiores de N, podem apresentar menor PAG líquido por unidade de produção do que em sistemas com baixo uso de insumos ou sistemas de produção orgânica. Preservação de áreas silvestres através de sistema agrícola de produção intensiva A produção intensiva pode resultar em mais alimento produzido por unidade de área. Por exemplo, sistemas menos intensivos no Estado de Missouri, Estados Unidos, exigiram quase três vezes mais área cultivada do que os sistemas em Nebraska para atingir a mesma produção de milho (Tabela 1). Melhores práticas de manejo de fertilizantes (MPMs) e práticas relacionadas que tendem a elevar a recuperação do N aplicado nas culturas, além de aumentar a produtividade e reduzir o risco das emissões de GEE, incluem: fonte apropriada de N, dose, época de aplicação e localização; regulagem adequada dos equipamentos; manejo dos resíduos culturais; uso adequado de inibidores da conversão de N (urease, nitrificação) e de fontes mais eficientes, além da consideração mais detalhada das características do solo e das práticas de conservação da água, uma vez que estes fatores podem interagir com outras práticas de manejo e também servir como alternativa secundária de defesa para limitar as perdas de nutrientes no ambiente. Ações relacionadas ao manejo de fertilizantes: desafios ambientais e oportunidades Esta revisão evidenciou vários desafios quanto ao manejo adequado dos efeitos combinados dos diferentes sistemas de cultivo nas emissões de GEE. Um desafio crítico diz respeito à falta de aferição simultânea dos três gases (CO2, N2O e CH4) em intervalos longos, em estudos agronômicos e ambientais. Ficou evidente durante esta revisão que muitos estudos se baseiam nas emissões de apenas um dos gases, e ainda com base em períodos curtos, na maioria das vezes menores que 30 dias. Esta avaliação parcial das emissões de GEE limita a habilidade de se determinar de forma mais precisa os efeitos das culturas e do manejo de nutrientes no PAG. Outro aspecto importante diz respeito à forma inadequada de se amostrar o solo em diferentes sistemas de produção. Em vários estudos, as amostragens foram realizadas em profundidades de no máximo 15 cm, as quais resultam em medidas imprecisas e inexatas da massa de carbono armazenada, devido a diferenças na densidade do solo, no sistema radicular e na biologia da rizosfera. Existem muitas oportunidades para expandir nosso conhecimento acerca dos efeitos completos das práticas adequadas de manejo de nutrientes no ambiente no que diz respeito à redução de GEE e, conseqüentemente, no PAG. Maior colaboração entre cientistas da área agronômica e ambiental será necessária no futuro para se atingir metas relacionadas a produção de alimento, fibra e energia e ainda proteção ambiental. Algumas destas oportunidades de pesquisa são identificadas na conclusão do trabalho e incluem: manejo adequado de nutrientes para culturas (anuais e perenes) destinadas à produção de biocombustível a partir da celulose; avaliação a longo prazo das perdas de nutrientes através da lixiviação/ percolação/perda superficial e medidas simultâneas das emissões de CO2, N2O, CH4 para a atmosfera de sistemas importantes de pro- INFORMAÇÕES AGRONÔMICAS Nº 121 – MARÇO/2008 dução; e estudos amplos em condições de campo relacionados a fontes e doses variáveis de N no sentido de incluir medidas de emissão dos gases e outros aspectos ambientais. Conclusões gerais desta revisão de literatura 1. O uso adequado de fertilizantes nitrogenados ajuda a aumentar a produção de biomassa necessária para estabelecer e manter os conteúdos de MOS; 2. As MPMs para fertilizantes nitrogenados desempenham papel importante na minimização do nitrato residual, o que auxilia na diminuição dos riscos relacionados à emissão de N2O. 3. As práticas de cultivo que mantém resíduos de cultura na superfície do solo podem aumentar os conteúdos de MOS mas apenas se a produtividade das culturas for mantida ou elevada; 4. Diferenças entre fontes de N na emissão de N2O dependem do local e das condições de clima; 5. Os sistemas de cultivo intensivo não necessariamente aumentam as emissões de GEE por unidade de produto colhido; na realidade, estes sistemas podem auxiliar na preservação de áreas silvestres e permitir a conversão de áreas selecionadas em florestas para elevar a mitigação dos GEE, enquanto se supre o mundo com as quantidades necessárias de alimento, fibra e biocombustível. A curto prazo, grande ênfase é necessária na educação dos praticantes da atividade agrícola sobre: (1) os princípios básicos de produtividade e de manejo do sistema de cultivo; (2) rotas de perda de nutrientes para o ar e para os mananciais; (3) oportunidades para mitigar as emissões de GEE através da MPMFs, as quais contemplam rotas de perda; (4) maior diálogo entre os cientistas da área agronômica e da ambiental, o que irá encorajar entendimento mútuo e colaboração para evitar a polarização e as relações confrontantes quanto às emissões de GEE e ainda a outros aspectos ambientais. As discussões sobre as emissões de GEE aumentam a necessidade de manejo correto de fertilizantes no sistema de cultivo. Como em todas as práticas de manejo de fertilizantes, aquelas selecionadas necessitam ser avaliadas no contexto da mitigação das emissões dos GEE em relação ao resto do sistema de cultivo. REFERÊNCIAS ADVIENTO-BORBE, M. A. A.; HADDIX, M. L.; BINDER, D. L.; WALTERS, D. T.; DOBERMANN, A. 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