MEMÓRIA DO TRABALHO DIDÁTICO DAS NORMALISTAS DO INSTITUTO EDUCACIONAL DE DOURADOS (1959-1969)1 Ana Paula Gomes Mancini (FAED/GRM/UFGD)2 Magda Sarat (FAED/GRM/UFGD)3 Paula Nudmila de Oliveira Silva(FAED/GRM/UFGD)4 Nosso objetivo nesse texto foi o de analisar o trabalho didático do professor formado no Instituto Educacional Dourados de 1959 a 1969. A pesquisa sobre o trabalho didático do professor compreendeu vislumbrar a formação teórica e as atividades práticas apresentadas para o normalista que estudou no Instituto neste período. Desta forma, analisar o trabalho docente implica em examinar a dimensão subjetiva – formação teórica – e a dimensão objetiva – atuação prática do professor. A metodologia utilizada foi a da história oral, vista aqui como método de produção de fontes para a história da educação. A memória vista como um movimento de reconstrução psíquica e seletiva de um passado vivido coletivamente (HALBWACHS, 1990), pode ser a opção de perceber a escola como um dos lugares representativos para a manutenção e socialização da história de uma comunidade. Uma das características da memória é a sua capacidade de recuperar a história, fazendo com que as pessoas retirem do presente lembranças que ficaram no passado, e dando forma e ordenação a alguns elementos que consideram importantes, ou seja, é a memória seletiva que traz a tona aspectos que dão pistas para pensarmos questões atuais. Pierre Nora caracteriza a memória como “um fenômeno sempre atual, um elo vivido no eterno presente” (1993, p. 9) 1 Este trabalho integra as reflexões da pesquisa em andamento que compõe e projeto “História e Memória da Educação no município de Dourados/MS (1940-1990)” desenvolvido pelas pesquisadoras na Universidade Federal da Grande Dourados, está vinculado ao grupo de pesquisa Grupo de Reflexão e Memória da Educação – GRM da Faculdade de Educação. 2 Ana Paula Gomes Mancini. Doutora em educação pela Universidade Estadual Paulista Julio de Mesquita Silva, Professora da Faculdade de Educação da Universidade Federal da Grande Dourados – UFGD, [email protected]. 3 Magda Sarat. Doutora em Educação pela Universidade Metodista de Piracicaba – UNIMEP, Professora da Faculdade de Educação da Universidade Federal da Grande Dourados – UFGD, [email protected]. 4 Paula Nudimila de Oliveira Silva. Aluna do Curso de Pedagogia, Bolsista de Iniciação Científica- PIBICCNPq, [email protected]. 2 Nesse contexto, cabe-nos analisar a memória e a forma como se edificou uma das mais tradicionais escolas privadas do município de Dourados. O espaço físico desta instituição, ainda hoje se identifica com a paisagem e a história da cidade. Mas uma parte dessa história está sendo esquecida, que é a memória das normalistas. Tais personagens foram destaques em determinado período, reverenciadas nas lembranças de gerações mais antigas, pelo seu papel de “missionárias do saber”, representantes legais de um espaço dedicado à sabedoria e aos esforços em prol da educação. As normalistas tinham segundo o discurso social a “nobre função” de educar e instruir futuras gerações, depositárias dos sonhos de progressos e esperanças do país. Nessa direção foi necessário trabalhar com a recuperação de algumas histórias a partir da realização de entrevistas com duas normalistas do município. Tais normalistas estudaram no Instituto e durante toda a sua trajetória profissional desempenharam o trabalho de professoras nas escolas públicas do município de Dourados. As professoras formadas pelo Instituto em sua maioria acabavam destinando-se as escolas do município e região, com a incumbência de desenvolver uma prática docente imbuída dos princípios discutidos na sua formação. Nesse sentido, podemos refletir acerca da formação docente quando consideramos que para o professor poder (re) significar sua prática docente é necessário que ele tenha elementos que lhe possibilitem analisar as circunstâncias internas e externas que configuram e/ou permeiam o seu fazer pedagógico. O “fazer pedagógico” das normalistas pode ser verificado na sua formação teórica e em sua prática pedagógica considerando que o significado do trabalho do professor também é composto pela finalidade da ação de ensinar e para tanto é preciso considerar o conteúdo concreto efetivado através de uma prática pedagógica consciente. No caso das normalistas de Dourados o trabalho didático desenvolvido em suas práticas docentes esteve intimamente ligado à sua formação enquanto alunas do Instituto Educacional de Dourados. Sendo possível observar nas falas das professoras que suas aulas buscavam reproduzir o que haviam aprendido na escola, e foram responsáveis pela educação da infância durante duas décadas. Assim, pretende-se, nos limites deste texto, tentar apreender algumas evidências que ainda podem ser identificadas nas normalistas que estudaram na Escola Normal do Instituto Educacional de Dourados, na tentativa de transformar um objeto aparentemente insignificante em um objeto de pesquisa. Assim, adotamos a postura de Bourdieu (2000) que é a de pensar relacionalmente nosso objeto de pesquisa para além das representações que possamos ter sobre ele. 3 A história da educação e especificamente a história das instituições escolares auxiliadas pela História Cultural vem ganhando espaços cada vez maiores no âmbito da historiografia, o que nos possibilita pensar a história a partir de novas abordagens, novos objetos, novas fontes. Nesse espaço de novas escolhas é que optamos em trabalhar com relatos orais, entendidos aqui além das técnicas de coleta de dados e com fontes documentais encontrados na Instituição Escolar e em arquivos particulares das normalistas entrevistadas. O trabalho didático nesse momento histórico estava sempre permeado das idéias vigentes. O ensino normal no Instituto Educacional de Dourados era visto como o melhor numa região em que a formação profissional de meninas esteve intimamente ligada a necessidade de prepará-las para exercer uma profissão que desde o século XIX é vislumbrado como uma profissão essencialmente feminina. Às mulheres era atribuído o trabalho docente como vocação, pois se acreditava que a mulher era “naturalmente” a melhor pessoa para dar aulas e educar a infância, associando tais concepções a maternidade que era própria às mulheres por isso o “dom” para a docência. A discussão em torno da “feminização” 5 do magistério é sem dúvida bastante complexa e diversos autores se debruçam sobre a temática conforme citado na bibliografia deste texto. A título de observação, no entanto, vale ressaltar que no final do século passado, algumas correntes de pensamento - que certamente exerceram influência nas medidas educacionais adotadas pelo governo brasileiro - propunham que havia diferenças "naturais" entre homens e mulheres. Nesse caso, supunha-se que às mulheres, por sua constituição natural, cabia socializar as crianças, como parte de suas funções maternas. Sendo o ensino primário entendido como extensão da formação moral e intelectual recebida em casa, foi fácil admitir que a educação das crianças estivesse mais bem cuidada por uma mulher, a professora. Dessa forma, mesmo com o reconhecimento do papel da mulher como formadora dos cidadãos para o Estado, havia a preocupação em manter a imagem feminina associada à função de mãe e esposa, desviando a mulher das inclinações naturais de seu sexo. Entretanto, de educadora dos filhos, como passaram as mulheres a professoras nas escolas públicas? 5 É necessário esclarecer que a nomenclatura Feminização foi retirada das idéias de Zeila Demartini.in DEMARTINI, Zeila de Brito Fabri e ANTUNES, Fátima Ferreira. Magistério primário: profissão feminina, carreira masculina. Cadernos de Pesquisa. São Paulo. Número 86.p.5-14,agosto de 1993. 4 No final o século passado, algumas correntes de pensamento que discutia a existência de diferenças “naturais” entre os sexos, tais como caráter, temperamento e tipo de raciocínio, acabaram influenciando todas as medidas adotadas na área educacional, acentuando ainda mais os preconceitos e a ordem estabelecida. Segundo essas correntes, a mulher, e apenas ela, era biologicamente dotada da capacidade de socializar crianças, como parte de suas funções maternas. E, sendo o ensino da escola elementar visto como extensão dessas atividades, o magistério primário passou a ser encarado como profissão exclusivamente feminina.6 Para homens e mulheres, o magistério esteve sempre associado ao sacerdócio. Mesmo nas sociedades liberais, onde se pretendia a desvinculação com as idéias religiosas, a imagem do professor era confundida com a do sacerdote. As próprias palavras de Guizot, Ministro da Educação da França pós-revolucionária, explicitavam bem tal conjuntura: formar os "sacerdotes laicos" do Estado Burguês. No Brasil a partir de 1850, a educação feminina passou a ser questão discutida nos jornais femininos do Rio de Janeiro. Também em Desterro os jornais publicados na época referendavam a instrução feminina. A mulher descrita nos periódicos era ao mesmo tempo frágil e forte. Frágil pela natureza de seu sexo e forte pela sua missão de educadora”. Segundo Joana PEDRO (1994:45), na constituição dos ‘homens melhores’ que formariam a nação brasileira, além da escola era necessária à formação no lar, e esta deveria ser ministrada por uma mãe instruída. Foi dentro desta filosofia que se reivindicou a educação pública para meninos e, principalmente, para meninas. O jornal O Santelmo, explica: Missão da família; a mulher é tudo nela. - Influencia da religião da moralidade da mulher, mui poderosa sobre a moralidade da família e do estado. Estava posta a necessidade de se investir na instrução das mulheres. “Afinal, eram elas as construtoras da boa sociedade”. 7(grifos da autora) Assim, exercer a função de professor e professora exigia abnegação e dedicação, até mesmo colocando em segundo plano a importância do pagamento pelo seu trabalho. A profissionalização da mulher no magistério público deu-se em meio ao entendimento de que a educação escolar era uma extensão da educação dada em casa, logo, a função de mãe na família era estendida à escola pela pessoa da professora. Estava assim criado o círculo que permitiria a profissionalização do magistério feminino: as mulheres, mães e educadoras por “natureza”, passavam agora a estender sua função para as escolas na profissão de professoras. 6 BRUSCHINI, Cristina & AMADO, Tina. Estudos sobre mulher e educação: algumas questões sobre o magistério. Cadernos de Pesquisa, São Paulo, n. 64, p. 4 – 13, fev. 1988. p.5. 7 SCHAFFRATH, Marlete dos Anjos Silva. Profissionalização do magistério feminino: uma história de emancipação e preconceitos. Florianópolis: Dissertação (mestrado em Educação) Universidade Federal de Santa Catarina, 1999. 5 No contexto, disseminou-se o conceito de “vocação”, que desde então serviu para legitimar o crescente aumento do número de mulheres ingressando no magistério. A idéia foi usada como mecanismo eficiente para induzir as mulheres a escolherem profissões menos valorizadas socialmente. Melhor dizendo, em nome da natureza feminina e de uma suposta vocação natural, as mulheres assumiram o magistério de primeiras letras como profissão adequada para o seu sexo. Ao contrário, a conciliação dessas duas tarefas se dava em duas vias, a saber: na prática, os horários de trabalho na escola não prejudicavam seus afazeres domésticos; na teoria, a conciliação entre o ideal tradicional de dedicação feminina ao lar, a família e a atividade intelectual. Ao analisarmos o ideário neoliberal nos deparamos com a educação de massas. Esta era a maneira de formar trabalhadores com um mínimo de conhecimentos necessários para lidar com o mercado de trabalho. A expansão da educação básica promovida pelo Estado possibilita o aumento do número de professores e concomitantemente a entrada de um grande número de mulheres. A incorporação das mulheres no magistério parece indicar uma estratégia política de lucro, já que historicamente a mulher ganha menos que o homem e o magistério nas séries iniciais, lócus onde se encontra um grande número de mulheres professoras. Dessa forma, o magistério é uma profissão doméstica, pouco especializada e não competitiva no que se refere ao mercado de trabalho. Tais pensamentos representavam as estratégias políticas, o que podia favorecer a concessão do espaço público da instrução para as mulheres, porque os processos de formação eram marcantes e os fatores de ordem social, cultural e econômica estavam associados à aceitação das mulheres como profissionais do magistério. Nesse contexto, a expressão “feminilização” destaca uma tendência essencialista que pode ser encontrada no tratamento da questão, na medida em que fatos políticos, administrativos e institucionais tendem a ser justificados com base no argumento “natureza feminina”, como que decorrente de uma imanência inseparável e dada previamente às mulheres, independente de suas relações. Por outro lado, à expressão feminil, talvez por estar associada a uma conotação depreciativa, pouco agradável e desvalorizante da mulher, é pouco empregada, sendo prevalente o uso de feminização do magistério .8 8 Verificar Zeila Demartini.in DEMARTINI, Zeila de Brito Fabri e ANTUNES, Fátima Ferreira. Magistério primário: profissão feminina, carreira masculina. Cadernos de Pesquisa. São Paulo. Número 86.p.5-14,agosto de 1993. 6 Contudo, os elementos discutidos aqui apontam para algumas observações que podem ajudar a compor a história da feminização do magistério. Em primeiro lugar, é preciso considerar a história como processo resultante de determinações sociais e que, ao mesmo tempo, determina relações. A história a mulher no magistério foi, portanto determinada por um conjunto de relações sociais ao longo da história. Observa-se, em primeiro lugar, que a mulher foi requisitada como agente civilizador dos novos cidadãos; o que não impediu a discriminação com o sexo feminino que se estendia ao trabalho da mulher professora. Esse fato provavelmente esteve vinculado ao processo de urbanização e industrialização, iniciado nos finais do século XIX. Tal processo ampliou as oportunidades de trabalhos para os homens. Em segundo lugar, como determinação de sua época, a profissão de professora esteve circundada por valores determinados. Neste bojo, o magistério esteve assemelhado ao sacerdócio logo o conceito de vocação, tamanha era a dedicação exigida. Além da vocação, a educação feminina deveria atender aos preceitos religiosos da época. Segundo Louro (1997, p. 447) “A educação feminina não poderia ser concebida sem uma sólida formação cristã, que seria a chave principal de qualquer projeto educativo. Deve-se notar que, embora a expressão cristã tenha um caráter mais abrangente, a referencia para a sociedade brasileira da época era, sem dúvida, o catolicismo”. No caso das normalistas do município de Dourados, a formação católica era parte integrante. O Instituto Educacional Dourados funcionava junto à Escola Confessional da Ação Social Franciscana Patronato de Menores. Nas Escolas Confessionais era necessário o controle emocional, a boa morigeração, a apresentação de si, a dedicação e a modéstia. O programa da escola privilegiava uma formação literária e estética. Assim o espaço de instrução garantia muito mais uma formação moral do que profissional. Dessa forma, se traduzia as lutas dos grupos familiares para controlar a educação e ajustá-las às estratégias de reprodução social. Nesta pesquisa foi possível localizar um caderno de rascunho de uma das normalistas que estudou no Instituto Educacional Dourados. O caderno trazia lições de Biologia, Economia Doméstica, Puericultura, Educação Física e Ensino Religioso. Na parte de estudos religiosos, as normalistas estudavam os versículos da Bíblia e tais estudos salientavam os textos que chamavam a atenção para a missão sagrada das mulheres, ou seja, 7 ser mãe, ainda para a manutenção de valores como a pureza feminina, a caridade, a moral cristã, o recato, a perfeição moral e a missão de educar seus filhos. Finalmente, não se pode deixar de salientar a idéia de sacerdócio, o que talvez explique os baixos salários da profissão e poucos investimentos na educação pública. A fim de desvelar o conceito de vocação, alguns estudos admitem que tal conceito foi utilizado como mecanismo de legitimação do preconceito contra o sexo feminino. Trabalhar como professora e sujeitar-se a uma baixa remuneração fazia parte do perfil vocacional imposto as mulheres, o que ocorre ainda no presente se observarmos as lutas pela carreira no magistério. O TRABALHO DIDÁTICO SOB A ÓTICA DAS NORMALISTAS Ao realizar as entrevistas com as normalistas que estudaram no Instituto Educacional Dourados, hoje Escola Particular Imaculada Conceição, foi possível observar que há grande saudosismo nas palavras das professoras e também boas recordações de suas práticas docentes. A memória recuperada nos relatos traz a tona fatos marcantes da sua história, acrescentada pela documentação oficial e também pelos arquivos pessoais das próprias normalistas, agora reconhecidos pela representatividade de uma fase de suas histórias de vida. São vestígios marcados por um valor estimativo, que se constituem de documentos contextualizados e reveladores da história do trabalho didático desenvolvido no Instituto Educacional Dourados. Tais professoras depois que se formaram na escola normal exerceram a carreira docente durante toda a vida até a aposentadoria como professoras. Uma das entrevistadas ao ser indagada sobre sua trajetória escolar e profissional afirma: “eu sou orgulhosa de ter estudado no Imaculada9, de ter feito esses quatro anos de professora normalista na Região. Assim que terminei esses quatro anos, ainda de menor, comecei a lecionar, por que era o sonho e desisti do curso ginasial onde eu havia me matriculado. Pra ser professora normalista na Região a gente confeccionou vários materiais que depois eu até passei pra filha. Na minha vida de professora, supervisora, fui delegada de ensino, trabalhei como Secretária de Educação. Eu sempre tive muito envolvimento com escola”. 9 È importante salientar que a Escola Particular Imaculada Conceição foi o lócus de funcionamento da primeira Escola Normal de Dourados. Esta escola recebeu á época o nome de Escola Normal Instituto Educacional Dourados. 8 È importante observar que a carreira de professor se estendeu a família, sendo herdada pela sua filha que também foi professora, pois quando se refere aos materiais confeccionados para o desenvolvimento de suas aulas diz que foram repassados até para a filha depois de serem utilizados durante toda a vida profissional. Outro aspecto é que o trabalho didático estava fundamentado nas atividades desenvolvidas enquanto alunas do Instituto Educacional Dourados. Numa fala podemos perceber que uma das professoras entrevistadas afirma que uma das práticas comuns na sua vida de professora foi o hábito de utilizar poesias como uma técnica de ensino. A professora afirma que teve muito tempo pra se dedicar à educação conforme seu relato: “a gente confeccionava..., nós confeccionávamos... Vou falar pra você das coisas marcantes que foram o que deu muito trabalho, as poesias ... Eu fazia as poesias em um caderno de poesias, conforme o calendário comemorativo, e que se comemorava todas as datas... Eu vejo hoje, parece que essas datas cívicas passam em branco, ou pelo menos em tempo passou, não sei hoje? No nosso tempo isso era muito forte, muito acentuado...” Ao analisarmos a prática pedagógica desta professora foi possível também estabelecer algumas comparações com sua formação teórica. É nesse sentido que podemos afirmar que em as duas dimensões do trabalho didático permeiam a prática profissional dos professores entrevistados conforme seu relato “a gente estudava, estudava bastante, pelo menos ler... tinha que ler! E a gente tinha aqueles livros e acervos além da gente ter que adquirir os livros de Filosofia, Psicologia, da área de educação... Todas essas disciplinas a gente lia, ainda lia outros, outros livros e quem que foi o responsável, a própria escola! Às vezes o professor, a gente trabalhava bastante com livros assim emprestados dos professores, os professores também se viravam por aí... eles também tinham o seu material. Eles passavam isso pra gente... foi muito bom! Por que assim que eu terminei o normal regional eu fui pra sala de aula, e eu dava aula no próprio Educandário Santo Antonio, aí eu já era nomeada, eu já era professora. Eu já era professora de verdade! Eu nunca me esqueço de quando eu assumi essas aulas...” A professora depoente deixa claro que ao assumir as aulas no Educandário Santo Antonio realiza-se profissionalmente e que ser professora era a coroação da sua trajetória como normalista. Em um momento da entrevista a professora esclarece que seu trabalho como professora foi a mola propulsora de sua carreira na educação. A professora afirma: “Só em 80 que eu assumi definitivamente a sala de aula! Não que eu não assumia sempre, mais depois eu nunca mais sai da sala de aula... fui nomeada, e assumi sala de aula em 1º de março de 9 1974, lá nesse Patronato de menores (tenho xérox do diário). De 1964 a 1980 eu abracei de uma vez por todas a educação como professora! Fui supervisora de ensino, diretora de escola, da secretaria, assim como secretária de educação, trabalhamos com a merenda escolar, com as comemorações cívicas... Então eu fui assim durante essa jornada, eu fui uma pessoa voltada exclusivamente para a Educação por que eu só me casei em 1974, e ainda continuava no departamento de educação, na sede de ensino ... Assim eu tive muito tempo pra me dedicar a educação!” O trabalho didático previsto na prática das normalistas fica claro na fala de outra professora que estudou no mesmo Instituto ingressando na turma de 1965. Ao comentar sobre a sua entrada no curso normal a professora lembra que: “o que me levou a fazer o curso normal é porque eu gostava muito de trabalhar com crianças! Sempre eu tive essa vontade de trabalhar com crianças, a gente sabe que não se poderia trabalhar com crianças se não fizesse um curso específico... Então é o amor mesmo que eu tinha pelas crianças!” Nesse relato podemos perceber que o trabalho didático estava permeado pela concepção de um curso que proporcionasse estar junto com as crianças numa perspectiva da afetividade e da vocação presente na escolha da profissão. Na frase “eu gostava de crianças”, ou “é o amor que me fez optar por essa profissão” demonstram tais concepções associadas à maternidade e ao zelo pelo trabalho educativo com crianças pequenas que fazia parte do imaginário da época no tocante a formação feminina para o magistério. Quanto às atividades que permeavam o trabalho didático um dos depoimentos ilustra bem como era desenvolvido este trabalho quando ela relata: “confeccionávamos um caderno que traz todas essas datas, mas assim, é mais escrito! Os trabalhos que a gente fazia, quem tinha uma figura pregava, quem não tinha, tinha que desenhar! Trabalhamos também com muita colagem, dobradura, recorte disso na sala de aula. E uma coisa que era muito importante, e que eu não sei hoje, não sei hoje como se faz, mas nós confeccionávamos esses materiais em sala de aula, acompanhado pelo professor. Outra coisa, não era só confeccionar, esse material também era cobrado nas avaliações e as provas escritas e tal, cobravam o material. Então, eu lembro assim quando a gente trabalhou frações, meu Deus a gente tinha aquilo tudo, meio, terço, inteiro, que eu já nem sei mais, pra colocar no flanelógrafo que a gente confeccionava! Era um quadro que tinha um feltro, e você ia falando e colocando as gravuras! Outra coisa que eu sofri muito, é que a gente tinha que preparar as historinhas e confeccionar o material. Confeccionava, se encontrasse uma gravura ali, se não, tinha que desenhar! E atrás da gente colava aquela flanelinha pra depois... Ou aquela 10 lixa pra depois grudar, toda professora tinha que ter o seu cartaz de prega também pra trabalhar as unidades, as dezenas, tudo pendurado”. É possível perceber na fala da professora, as mesmas atividades apreendidas na sua vida como normalista eram utilizadas em suas práticas em sala de aula. O trabalho didático era baseado nos ensinamentos do curso normal. Dessa forma, podemos apontar que houve uma transposição das atividades formativas para o trabalho didático desenvolvido em sala de aula, pois o curso também tinha um caráter prático de formação para o trabalho. Ou seja, além das instruções teóricas com relação ao material, as alunas eram obrigadas a confeccioná-lo, dando ao curso um caráter de oficina no qual a produção do material era essencial. Mesmo porque, depois em sala de aula elas teriam muita dificuldade em encontrar nas escolas uma gama de materiais para utilizar nas aulas. Nesse sentido, a normalista era um profissional que ao formar levava consigo seus próprios instrumentos de trabalho visando sua atuação posterior em sala de aula junto aos futuros alunos. As duas normalistas entrevistadas afirmam que a prática de sala de aula era toda baseada no aprendizado da escola normal. Dessa forma as professoras, investidas dos sentimentos maternos, traziam no bojo de sua formação e percebiam o magistério como uma extensão da maternidade, os alunos como seus “filhos espirituais” e a docência sentida como um momento em que poderiam exercer “o amor e a doação” aos seus alunos. Tais concepções são tão marcantes no período que muitas professoras acabavam ficando solteiras e “casavamse” com a profissão, nesses casos, a profissão tinha um caráter de sacerdócio, dedicação e exclusividade para a educação como numa relação celibatária exercida pelas religiosas. Dessa forma, o trabalho didático visto como extensão da maternidade e, sobretudo como uma estratégia de corroborar a vocação das mulheres para a docência, vai propor também uma maneira de educar as massas, ainda que tais preceitos não sejam atingidos de forma tão extensa, mas os saberes disseminados colaboraram para propagar um modelo de escola aos professores, especialmente as professoras do sexo feminino. Finalmente, podemos concluir até o presente momento, pois a pesquisa se encontra em andamento e outras experiências de escolarização estão sendo investigadas, que no município de Dourados a formação de docentes feita nas escolas normais não deixa nada a desejar com relação as demais experiências nas escolas normais no país do mesmo período. Tais concepções são representadas pela formação de uma nação civilizada feita por uma profissional do sexo feminino, a professora, que tinha a incumbência de dar continuidade a manutenção dos valores da 11 família para a sociedade. É possível dizer ainda que tal formação dava ênfase a preceitos femininos e de caráter privado, à medida que preparava a mulher para exercer uma profissão quase que no âmbito doméstico, expresso na forma como ela se relacionava com os alunos valorizando aspectos como maternidade, afetividade, vocação, devoção e tornando a profissão uma “missão” quase religiosa, com o objetivo de formar uma sociedade civilizada. 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