UNIVERSIDADE DE TRÁS-OS-MONTES E ALTO DOURO DISSERTAÇÃO DE MESTRADO EM BIOLOGIA CLÍNICA LABORATORIAL Análise molecular da resistência a antibióticos, factores de virulência e grupos filogenéticos em Escherichia coli e Enterococcus spp. de animais Alexandre Fradeira Gonçalves VILA REAL, 2009 Imagem capa: Escherichia coli Copyright © 2009 Eraxion Dreamstime.com Imagem contra-capa: Enterococcus faecium Copyright © 2009 National Institutes of Health (US) Orientador: __________________________________________ Professora Doutora Patrícia Alexandra Curado Quintas Dinis Poeta (Departamento de Ciências Veterinárias, UTAD) Co-Orientador: _______________________________________ Professor Doutor Gilberto Paulo Peixoto Igrejas (Departamento de Genética e Biotecnologia, UTAD) IV Agradecimentos Ao terminar esta dissertação, desejo manifestar o meu verdadeiro reconhecimento pelo auxílio e pelas contribuições de diversas pessoas a quem estou agradecido. Ao Magnífico Reitor da UTAD, Prof. Doutor Armando Mascarenhas Ferreira, Reitor da UTAD, pela disponibilidade e facilidades concedidas durante a realização deste trabalho. À Prof.ª Doutora Patrícia Poeta pela oportunidade, paciência, dedicação, e apoio que sempre demonstrou. Ao Prof. Doutor Gilberto Igrejas por todo o apoio prestado durante a execução deste trabalho. À Prof.ª Doutora Carmen Torres Manrique, da Universidade de La Rioja, Logroño, Espanha, pelo apoio, orientação e hospitalidade durante a minha estadia. Ao Prof. Doutor Divanildo Monteiro e a todas as pessoas que me ajudaram na recolha das amostras estudadas neste trabalho. Aos meus colegas de trabalho e amigos, em especial à Hajer, Céline, Carlos e Catarina, pelo auxílio e amizade. Ao Sérgio, Maria, Laura e Yoly pelo apoio e instrução prestada durante a estadia em Espanha. Às Técnicas do Laboratório de Microbiologia do Departamento de Ciências Veterinárias pela ajuda prestada. Aos meus Pais, ao Martinho e à Ilda, por todo o apoio e força que me deram ao longo de toda a minha carreira académica. À Ana pelo carinho e paciência ao longo dos últimos anos. Ao David, Matos e Luís Rocha pela amizade única. A todas as pessoas que me apoiaram no decorrer dos trabalhos, o meu muito obrigado. VI Análise molecular da resistência a antibióticos, factores de virulência e grupos filogenéticos em Escherichia coli e Enterococcus spp. de animais. Resumo O reconhecimento da resistência antimicrobiana como um fenómeno emergente em saúde pública, tem constituído um problema a nível mundial A comunidade científica constatou a necessidade de realizar a avaliação da susceptibilidade aos antibióticos em “bactérias indicadoras” de diversas origens, como uma medida para combater o aumento da resistência antimicrobiana. As bactérias comensais Escherichia coli e Enterococcus spp. são colonizadoras do tracto gastrintestinal da maioria dos animais e humanos permitindo realizar estudos de emergência, ocorrência e disseminação da resistência aos antibióticos. Este trabalho teve por objectivo estudar a taxa de resistência a antibióticos em isolados fecais de E. coli e Enterococcus spp. de diferentes origens animais, detectar factores de virulência e analisar os grupos filogenéticos dos isolados de E. coli. Um total de 209 amostras fecais (54 de avestruz, 13 de burro, 30 de suíno comercial, 35 de suíno bísaro e 77 de javali) foram semeadas em Slanetz-Bartley (suplementado e não suplementado com vancomicina) e em Levine (suplementado e não suplementado com cefotaxima). Testou-se a susceptibilidade aos antibióticos pelo método da difusão em disco de acordo com as normas do CLSI, usando-se 16 antibióticos em E. coli: ampicilina, amoxicilina+ácido clavulânico, cefoxitina, cefotaxima, ceftazidima, aztreonam, imipenemo, gentamicina, amicacina, tobramicina, estreptomicina, ácido nalidíxico, ciprofloxacina, trimetropim-sulfametoxazol, tetraciclina e cloranfenicol. Em Enterococcus spp. utilizaram-se 11 antibióticos: ampicilina, ciprofloxacina, cloranfenicol, eritromicina, quinupristina-dalfopristina, tetraciclina, teicoplanina, vancomicina, e aminoglicosídeos de elevada carga (estreptomicina, gentamicina e canamicina). Obtiveram-se sete isolados de Enterococcus spp. resistentes à vancomicina (VRE) de amostras fecais de avestruz e 17 isolados de E. coli produtores de ȕlactamases de amplo espectro (BLAE) de amostras fecais de burro e de suínos (comercial e bísaro). Seis dos sete isolados VRE (quatro isolados da espécie E. durans onde foi detectado o gene vanA e em três isolados onde foi detectado o gene vanC1 que VII codifica uma resistência intrínseca à vancomicina em E. gallinarum) mostraram resistência à tetraciclina e em todos eles foi detectado o gene tet(M). O gene erm(B) foi detectado nos cinco isolados que mostraram resistência à eritromicina. A pesquisa de factores de virulência permitiu identificar o gene hyl, codificador da hialuronidase, nos três isolados VRE da espécie E. gallinarum. Dos 17 isolados BLAE, 16 manifestaram a presença do gene blaCTX-M1 e oito a presença do gene blaTEM (sete em combinação com o gene blaCTX-M1 e um em combinação com o gene blaCTX-M14). O gene tet(A) ou tet(B) foi encontrado em 13 de 15 isolados resistentes à tetraciclina. O gene aadA foi encontrado em nove de 10 isolados resistentes à estreptomicina. Em um isolado resistente ao cloranfenicol e um resistente ao sulfametoxazol-trimetropim não foram detectados os genes que codificam a respectiva resistência (cmlA e sul1, sul2 ou sul3, respectivamente). Os genes gyrA e parC foram amplificados e posteriormente sequenciados nos isolados resistentes às quinolonas. Num isolado resistente ao ácido nalidíxico e à ciprofloxacina foram identificadas duas alterações aminoacídicas no gene gyrA (Ser83Leu + Asp87Asn) e uma no gene parC (Ser80Ile). A pesquisa de factores de virulência evidenciou a presença do gene fimA na totalidade dos isolados BLAE e o gene aer em seis destes. Dos 17 isolados BLAE estudados, 14 pertenceram ao grupo filogenético A e três ao grupo filogenético B1. O estudo da relação clonal dos isolados de E. coli produtores de BLAE permitiu identificar nove padrões de restrição diferentes, sendo alguns dos padrões idênticos em isolados provenientes de diferentes animais. Os isolados de E. coli obtidos de meios não suplementados com cefotaxima apresentaram uma elevada percentagem de resistência à tetraciclina (60,7%), à ampicilina (24,8%) e à estreptomicina (21,3%). Os isolados de Enterococcus spp. obtidos de meios não suplementados com vancomicina apresentaram fenótipos de resistência à tetraciclina (68,1%), eritromicina (21%), canamicina (5%), estreptomicina (4,2%), quinupristina-dalfopristina (3,4%), gentamicina (1,7%) e ampicilina (0,8%). Neste estudo, dependendo das diferentes amostras fecais analisadas, foram detectados diferentes níveis de colonização de enterococos com o gene vanA e também diferentes percentagens de isolados de E. coli produtoras de ȕ-lactamases de amplo espectro. Uma pequena variedade de genes codificadores de factores de virulência foi encontrada nos isolados BLAE. O estudo da resistência antimicrobiana em E. coli e Enterococcus spp., isolados a partir de meios não suplementados com antibiótico, VIII permitiu detectar variações na resistência entre os isolados obtidos de diferentes espécies animais. Os dados obtidos neste estudo são importantes para estabelecer políticas de uso prudente de antibióticos tanto em animais como em humanos bem como, advertir a população humana para os riscos do uso inadequado destes agentes. Palavras-chave: Escherichia coli; Enterococcus spp.; BLAE; VRE; Antibióticos. IX Molecular study of antibiotic resistance, virulence factors and phylogenetic groups in Escherichia coli and Enterococcus spp. strains of animals Summary The bacteria antimicrobial resistance is nowadays a public health emerging dilemma. The scientific community recognize the necessity of accomplish the evaluation of this situation with "indicative bacteria" of several origins as a measure to combat the increase of the problem. Escherichia coli and Enterococcus spp. are commensal bacteria from the gastrointestinal tract of the majority of animals and humans that allow to monitories studies in the occurrence and spread of antibiotic resistance. The objective of this work was to study the antibiotic resistance in fecal E. coli and Enterococcus spp. of different animal origins, to detect virulence factors and to analyze the phylogenetic groups of the strains. A total of 209 fecal samples (54 of ostrich, 13 of donkey, 30 of commercial swine, 35 of bísaro swine and 77 of wild boar) were seeded in Slanetz-Bartley (supplemented and not supplemented with vancomycin) and Levine (supplemented and not supplemented with cefotaxime). Antimicrobial susceptibility was performed by disk diffusion agar method as recommended by the CLSI recommendations. A total of 16 antimicrobial agents were tested against E. coli: ampicillin, amoxicillin-clavulanic acid, cefoxitin, cefotaxime, ceftazidime, imipenem, aztreonam, gentamicin, tobramycin, amikacin, streptomycin, tetracycline, trimethoprim-sulfamethoxazole, nalidixic acid, ciprofloxacin and chloramphenicol. Antimicrobial susceptibility was tested additionally for 11 antibiotics in enterococcal isolates (ampicillin, vancomycin, teicoplanin, chloramphenicol, tetracycline, erythromycin, quinupristin-dalfopristin, ciprofloxacin and high-level resistance for streptomycin, gentamicin, and kanamycin). Seven VRE (vancomycin-resistant-Enterococus) strains isolated from faecal samples of ostrich and 17 extended-spectrum producing beta-lactamases (ESBLs)-Escherichia coli strains isolated from faecal samples of donkey and swine (commercial and bísaro) were obtained in this study. Six of the seven VRE isolates (4 E. durans with vanA gene and 3 E. gallinarum with vanC1 gene) were tetracycline resistant and all of them harbored the tet(M) gene. Additionally the five isolates those were erythromycin resistant posses the erm(B) gene. X The hyl virulent factor gene was detected in the three E. gallinarum isolates. In relation to the 17 ESBLs isolates, 16 of them manifest the presence of the blaCTX-M1 gene and eight the presence of the blaTEM gene (seven in combination with the blaCTX-M1 gene and one in combination with the blaCTX-M14 gene). The tet(A) or tet(B) genes were found in 13 of 15 tetracycline isolates and the aadA gene was found in nine of 10 streptomycin resistant isolates. However, although one strain was chloramphenicol resistant and one trimethoprim-sulfamethoxazole resistant neither showed the corresponded genes (cmlA and sul1, sul2 or sul3, respectively). The gyrA and parC genes were amplified and sequenced in the quinolone-resistant isolates. Two amino acid changes in GyrA (Ser83Leu + Asp87Asn) and one in ParC (Ser80Ile) were identified in the nalidixic acid and ciprofloxacin-resistant isolate. Research of virulence factors evidenced the presence of the fimA gene in the totality of the ESBLs isolates and the aer gene in six of them. Fourteen ESBL-containing E. coli isolates belonged to the A phylogenetic group and three to the B1 phylogenetic group. The clonal relationship of the ESBL-containing E. coli isolates allowed identifying nine different patterns of restriction, being some of them identically and detected in isolates obtained from different animals. The Enterococcus spp. isolates obtained from Slanetz-Bartley not supplemented with vancomycin showed resistance to tetracycline (68,1%), erythromycin (21%), kanamycin (5%), streptomycin (4,2%), quinupristin-dalfopristin (3,4%), gentamicin (1,7%) and ampicillin (0,8%). On the other hand, the E. coli isolates obtained from Levine not supplemented with cefotaxime showed a high percentage of resistance to tetracycline (60,7%), ampicillin (24,8%) and streptomycin (21,3%). In this study it was detected different levels of colonization by vanA enterococcal strains as well different rates of ESBL-containing E. coli isolates depending of the different faecal samples analyzed. A narrow variety of genes encoding virulence factors were detected in ESBL-containing E. coli isolates. On the other hand, differences in the frequency of antimicrobial resistance have been observed when faecal enterococci and E. coli isolates of different origins, obtained without antibiotic supplementation, have been compared. Data obtained in the present work are important to establish policies of careful use of antibiotics in animals and in humans as well as, to notice the human population for the inadequate use and risks of these agents. Keywords: Escherichia coli; Enterococcus XI spp.; ESBL; VRE; Antibiotics. Índice Geral 1. Introdução .................................................................................................................. 1 1.1. O género Enterococcus ...................................................................................... 2 1.2. Interesse do estudo da resistência aos antibióticos em Enterococcus spp. ........ 3 1.3. Escherichia coli ................................................................................................. 5 1.4. Interesse do estudo das resistências aos antibióticos em E. coli ........................ 6 1.5. Mecanismos de acção dos antibióticos .............................................................. 6 1.5.1. Inibição da síntese da parede celular ............................................................. 7 1.5.2. Inibição da síntese de proteínas ..................................................................... 8 1.5.3. Inibição da síntese do ácido fólico ................................................................ 9 1.5.4. Interferência na síntese dos ácidos nucleicos ................................................ 9 1.5.5. Alteração da permeabilidade da membrana celular ..................................... 10 1.6. Mecanismos de resistência aos antibióticos ..................................................... 10 1.6.1. Alteração da permeabilidade da membrana ................................................. 11 1.6.2. Expulsão activa do antibiótico ..................................................................... 12 1.6.3. Modificação ou protecção do alvo............................................................... 13 1.6.4. Modificação ou inibição enzimática do antibiótico ..................................... 16 1.7. Elementos genéticos de aquisição e transferência de genes de resistência ...... 18 1.7.1. Plasmídeos ................................................................................................... 18 1.7.2. Sequências de inserção e transposões .......................................................... 19 1.7.3. Integrões ...................................................................................................... 19 1.8. Mutações em gyrA e parC ............................................................................... 21 1.9. Produção de factores de virulência .................................................................. 22 1.10. Classificação filogenética de Escherichia coli ................................................ 22 2. Objectivos ................................................................................................................ 25 3. Material e Métodos .................................................................................................. 29 3.1. Meios de cultura e provas de identificação ...................................................... 29 3.1.1. Meios de cultura .......................................................................................... 29 3.1.2. Provas de identificação ................................................................................ 30 3.2. Amostras fecais ................................................................................................ 31 XII 3.3. Processamento das amostras ............................................................................ 32 3.3.1. Isolamento de Enterococcus spp. ................................................................ 33 3.3.2. Isolamento de Escherichia coli.................................................................... 33 3.4. Estudo da sensibilidade a antibióticos ............................................................. 34 3.4.1. Antibióticos estudados ................................................................................. 34 3.4.2. Determinação da sensibilidade aos antibióticos pelo método da difusão em agar ..................................................................................................................... 36 3.4.3. Determinação fenotípica da produção de ȕ-lactamases de amplo espectro. 36 3.5. Reacção em cadeia pela polimerase (PCR) ..................................................... 37 3.5.1. Extracção de DNA ....................................................................................... 38 3.5.2. Preparação dos tubos de PCR ...................................................................... 38 3.5.3. Primers e condições de PCR utilizadas ....................................................... 39 4. 3.6. Electroforese em gel de agarose ...................................................................... 46 3.7. Electroforese em campo pulsado (PGFE) ........................................................ 47 3.8. Sequenciação.................................................................................................... 48 Resultados ............................................................................................................... 49 4.1. Enterococcus spp. ............................................................................................ 49 4.1.1. Isolamento de Enterococcus spp. em placas de Slanetz-Bartley suplementadas com vancomicina ............................................................................ 49 4.1.2. Isolamento de Enterococcus spp. em placas de Slanetz-Bartley não suplementadas com vancomicina ............................................................................ 50 4.1.3. Estudo da sensibilidade aos antibióticos nos isolados de enterococos ........ 51 4.1.3.1. Isolados obtidos nas placas de Slanetz-Bartley suplementadas com vancomicina............................................................................................................. 51 4.1.3.2. Isolados obtidos nas placas de Slanetz-Bartley não suplementadas com vancomicina............................................................................................................. 52 4.1.3.3. Caracterização genotípica dos mecanismos de resistência ................... 54 4.1.4. Produção de factores de virulência .............................................................. 55 4.2. Escherichia coli ............................................................................................... 56 4.2.1. Isolamento de E. coli em placas de Levine suplementadas com cefotaxima56 4.2.2. Isolamento de E. coli em placas de Levine não suplementadas com cefotaxima ............................................................................................................... 56 4.2.3. Estudo da sensibilidade aos antibióticos nos isolados de E. coli................. 57 XIII 4.2.3.1. Isolados obtidos nas placas de Levine suplementadas com cefotaxima 57 4.2.3.2. Isolados obtidos nas placas de Levine não suplementadas com cefotaxima .............................................................................................................. 58 4.2.3.3. Caracterização genotípica dos mecanismos de resistência ................... 61 4.2.4. Caracterização dos integrões ....................................................................... 64 4.2.5. Produção de factores de virulência .............................................................. 65 4.2.6. Classificação filogenética de Escherichia coli ............................................ 66 4.2.7. Relação clonal dos isolados de E. coli produtores de ȕ-lactamases de amplo espectro por electroforese em campo pulsado ......................................................... 66 5. Discussão ................................................................................................................. 69 6. Conclusões............................................................................................................... 79 7. Bibliografia .............................................................................................................. 83 XIV Índice das Figuras Figura 1: Mecanismos de acção dos principais grupos de antibióticos ............................ 7 Figura 2: Mecanismos de resistência aos antibióticos .................................................... 10 Figura 3: Estrutura de um integrão e integração de um gene no mesmo ....................... 20 Figura 4: Estirpe com fenótipo positivo para produção de ȕ-lactamases de amplo espectro ........................................................................................................................... 37 Figura 5: Distribuição das amostras fecais em função das espécies animais de origem. 49 Figura 6: Percentagem de resistência aos antibióticos para os isolados de cada origem 53 Figura 7: Imagem do gel de electroforese resultante da amplificação por PCR do gene hyl ................................................................................................................................... 55 Figura 8: Distribuição das amostras fecais, semeadas em Levine suplementado, em função das espécies de origem........................................................................................ 56 Figura 9: Distribuição das amostras fecais, semeadas em Levine não suplementado, em função das espécies de origem........................................................................................ 57 Figura 10: Resistência aos antibióticos nos isolados de E. coli de diferentes origens ... 60 Figura 11: Comparação da sequência nucleotídica do gene gyrA do isolado de burro com a sequência do gene gyrA selvagem ....................................................................... 63 Figura 12: Padrões de PFGE do DNA cromossómico digerido com XbaI, das 17 E. coli produtoras de ȕ-lactamases de amplo espectro .............................................................. 67 XV Índice das Tabelas Tabela 1: Antibióticos e mecanismos de resistência ...................................................... 11 Tabela 2: Antibióticos usados em Enterococcus spp. e respectivo valor dos halos de inibição ........................................................................................................................... 35 Tabela 3: Antibióticos usados em E. coli e respectivo valor dos halos de inibição ....... 35 Tabela 4: Componentes e concentrações usadas para a reacção de PCR. ...................... 38 Tabela 5: Sequência nucleotídica dos primers de PCR para identificação das espécies de Enterococcus spp. ........................................................................................................... 39 Tabela 6: Sequência nucleotídica dos primers de PCR para genes codificadores de resistência a antibióticos em Enterococcus spp.............................................................. 40 Tabela 7: Sequências nucleotídicas dos primers de PCR para genes relacionados com a codificação de factores de virulência em Enterococcus spp. ......................................... 41 Tabela 8: Sequência nucleotídica dos primers de PCR para genes codificadores de resistência a antibióticos em E. coli................................................................................ 41 Tabela 9: Sequência nucleotídica dos primers de PCR para o estudo dos integrões de classe 1 e 2 em E. coli..................................................................................................... 44 Tabela 10: Sequência nucleotídica dos primers de PCR para o estudo dos factores de virulência em E. coli. ...................................................................................................... 45 Tabela 11: Sequência nucleotídica dos primers de PCR para o estudo dos grupos filogenéticos em E. coli. ................................................................................................. 46 Tabela 12: Número e percentagem de espécies de enterococos obtidos nas placas de Slanetz-Bartley não suplementadas com vancomicina. .................................................. 50 Tabela 13: Fenótipo de resistência apresentado pelos isolados VRE............................. 51 Tabela 14: Resistência fenotipica aos antibióticos nos isolados de enterococos obtidos em placas não suplementadas com vancomicina. ........................................................... 52 Tabela 15: Resistência aos antibióticos nos isolados de diferentes origens. .................. 53 Tabela 16: Fenótipos e genótipos de resistências aos antibióticos nos isolados VRE. .. 54 Tabela 17: Fenótipo de resistência aos antibióticos em E. coli obtidas de placas não suplementadas com cefotaxima. ..................................................................................... 58 Tabela 18: Resistência aos antibióticos nos isolados de E. coli. .................................... 59 Tabela 19: Resistência aos antibióticos nos isolados das diferentes origens. ................ 61 Tabela 20: Fenótipos e mecanismos de resistência aos antibióticos detectados nos isolados de E. coli produtoras de ȕ-lactamases de amplo espectro. ............................... 62 XVI Tabela 21: Estudo das regiões variáveis dos integrões de classe 1 em isolados de E. coli resistentes ao sulfametoxazol-trimetropim. .................................................................... 64 Tabela 22: Estudo das regiões variáveis dos integrões de classe 2 em isolados de E. coli resistentes ao sulfametoxazol-trimetropim. .................................................................... 65 XVII Lista de Abreviaturas aac— Aminoglicósido acetiltransferase aad— Gene da adenilase AK— Amicacina AMC— Amoxicilina + Ácido clavulânico AMP— Ampicilina ATM— Aztreonam ATP— Adenosina trifosfato (“Adenosine Triphosphate”) BHI— Infusão de cérebro e coração (“Brain-Heart-Infusion”) bla— Gene codificador de ȕ-lactamases de amplo espectro BLAE— ȕ-lactamases de amplo espectro CAZ— Ceftazidima CHL— Cloranfenicol chuA— Gene codificador de um receptor da membrana externa CIP— Ciprofloxacina. CLSI— Instituto de Padrões Clínicos e de Laboratório (“Clinical and Laboratory Standards Institute”) CMI— Concentração mínima inibitória cmlA— Gene do cloranfenicol CTX— Cefotaxima ddl— Ligase D-alanila-D-alanina DHF— Dihidrofolato DHFR— Dihidrofolato redutase DHFR— Enzima dihidrofolato reductase DHPS— Dihidropteroato sintetase DHPS— Enzima dihidropteroato sintetase DNA— Ácido desoxiribonucleico (“Deoxyribonucleic Acid”) dNTP— Deoxinucleotídeo trifosfato EBI— Instituto Europeu de Bioinformática (“European Bioinformatics Institute”) EDTA— Ácido etilenodiamino tetra-acético erm— Eritromicina ribossoma metilase ERY— Eritromicina XVIII esp— Gene da proteína de superfície extracelular (“Extracellular Surface Protein”) fimA— Gene codificador da proteína fimbrilina FOX— Cefotaxima GEN— Gentamicina gyrA— Gene codificador da DNA-girase hyl— Gene da hialuronidase IMP— Imipenemo Intl— Gene codificador da integrase KAN— Canamicina McFarland— Escala que representa concentrações de bactéria por ml MH— Mueller-Hinton min— Minuto ml— Mililitro MLEE— Electroforese de enzimas multilocus (“Multilocus Enzyme Electrophoresis”) MLST— “Multilocus Sequence Typing” mm— Milímetro. N.D.— Não detectado NAL— Ácido nalidíxico orf— Grelha de leitura aberta (“Open Reading Frame”) PABA— Ácido para-aminobenzóico parC—Gene codificador da topoisomerase IV pb— Pares de bases PBP— Proteínas de ligação à penicilina (“Penicillin Binding Protein”) pbp5— Gene da proteína de ligação à penicilina (“Penicillin-Binding-Protein gene”) PBP5— Proteína de ligação à penicilina (“Penicillin-Binding-Protein”) PCR— Reacção em cadeia pela polimerase (“Polymerase Chain Reaction”) PFGE— Electroforese em campo pulsado (“Pulsed Field Gel Electrophoresis”) Q-D— Quinupristina-Dalfopristina RNA— Ácido ribonucleico (“Ribonucleic Acid”) s— Segundo SB— Slanetz-Bartley STR— Estreptomicina sul— Gene do sulfametoxazol SXT— Sulfametoxazol-Trimetropim XIX TEI— Teicoplanina tet— Gene da tetraciclina TET— Tetraciclina THF— Ácido tetrahidrofólico TOB— Tobramicina TSI— Meio Agar - ferro e triplo açúcar (“Triple Sugar Iron”) tspE4.C2— Fragmento de DNA UFC— Unidades formadoras de colónias van— Gene da vancomicina VAN— Vancomicina vat— Virginiamicina acetiltransferase VRE— Enterococcus resistentes à vancomicina (“Vancomycin Resistant Enterococci”) yjaA— Gene sem função associada conhecida XX 1. Introdução A necessidade de realizar a vigilância e avaliação da susceptibilidade aos antibióticos em bactérias de origem humana, animal e do meio-ambiente surgiu, em diversas reuniões científicas, como uma medida de combate ao aumento da resistência antimicrobiana (WHO, 1997; WHO, 1998; NRCIM, 1998). Por este motivo é necessário uma constante monitorização da resistência bacteriana, principalmente em estirpes “indicadoras de resistência”, dada a sua presença numa grande diversidade de nichos ecológicos permitindo comparar as resistências entre os diversos ecossistemas e avaliar a pressão selectiva exercida devido ao uso dos antibióticos (Sáenz, 2004). O conhecimento da origem dos genes codificadores de resistência na população microbiana global é essencial para a definição de modelos abrangentes de avaliação do ponto de situação e de medidas sustentáveis para o seu controlo (Sáenz, 2004). As bactérias comensais, como Enterococcus spp. e Escherichia coli, são colonizadoras do tracto gastrintestinal da maioria dos animais e dos humanos (Gold, 2001; Todar, 2002). Estas bactérias estão submetidas ao efeito do uso dos antibióticos podendo, desta forma, seleccionar-se estirpes com mecanismos de resistência, constituindo reservatórios de genes capazes de os adquirir e de os transferir a outras bactérias comensais habitantes do intestino ou mesmo a bactérias patogénicas. A transferência/fluxo destes genes entre diferentes espécies e géneros bacterianos é designada por “transferência horizontal” e é facilitada devido à pressão exercida pelos antibióticos (Woo et al., 2003). Enterococcus spp. e Escherichia coli são fundamentais para a monitorização da resistência antimicrobiana existente no domínio animal e para os estudos da emergência, ocorrência e disseminação da resistência, gerada pelo uso destes agentes (OIE, 2000; Hayes et al., 2004). 1 Introdução 1.1. O género Enterococcus Os enterococos são microrganismos que se identificam por métodos bioquímicos como Gram-positivos, catalase negativos e anaeróbios facultativos. Estruturalmente encontram-se em cocos, diplococos ou ocasionalmente em cadeias curtas (estreptococos). São bactérias comensais muito abundantes na flora intestinal do Homem e dos animais, podendo ser isolados em concentrações de 105 a 108 Unidades Formadoras de Colónias (UFC)/grama de fezes, e que, eventualmente, colonizam a cavidade oral e o tracto genital (Bonten et al., 2001; Shepard e Gilmore, 2002). Thiercellin, em 1899, utilizou pela primeira vez a palavra “enterococo” para descrever um diplococo Gram-positivo, de origem intestinal humana. Posteriormente, Sherman definiu que o termo “Enterococcus” devia ser usado especificamente para streptococci que crescem entre temperaturas de 10ºC a 45ºC, a pH 9,6, suportam concentrações de NaCl a 6,5% e sobrevivem a 60ºC durante 30 minutos (Klein, 2003). Através da produção de pigmento, da mobilidade, da reacção positiva ao antisoro do grupo D e das diferenças na fermentação do manitol, do sorbitol, da arabinose e da rafinose, podemos diferenciar os Enterococcus spp. típicos (Enterococcus durans, E. faecalis, E. faecium, E. gallinarum, E. hirae e E. casseliflavus) de outros coccos Grampositivos (Franz et al., 1997; Klein, 2003). No entanto, a essência mutável destas características torna a diferenciação complexa (Facklam e Collins, 1989). Existem, actualmente, vários sistemas automatizados que permitem a identificação das espécies de enterococos, como por exemplo as galerias API 20STREP, API 32STREP, o sistema Microscan, PASCO, entre outros. Contudo, devido a semelhanças entre algumas espécies torna-se díficil a sua distinção (Sader et al., 1995). Torna-se, assim, evidente que os métodos de biologia molecular, baseados na técnica da reação em cadeia da polimerase (“Polymerase Chain Reaction”, PCR) com o uso de “primers” específicos para a diferenciação das espécies, são imprescincíveis e, ao contrário dos sistemas anteriormente referidos, são mais fiáveis (Pérez-Hernández et al., 2002). 2 Introdução 1.2. Interesse do estudo da resistência aos antibióticos em Enterococcus spp. Os enterococos fazem parte da microflora intestinal e são relativamente abundantes em fezes humanas, isolando-se este género em mais de 90% de indivíduos saudáveis (Noble, 1978). Estes microrganismos são dotados de uma grande capacidade de resistência ao stress ambiental, sendo capazes de sobreviver sob uma amplitude extremamente alargada de valores de temperatura, pH e salinidade, assim como de resistir à acção dos detergentes (Costa, 2006). Encontram-se em diferentes ecossistemas como por exemplo no solo, água e produtos alimentares. A ecorresistência desta espécie potencializa a sua persistência num determinado biótopo bem como a colonização de biótopos inacessíveis para outros microrganismos aumentando o número de reservatórios potenciais. Estudos realizados por diversos autores provam a presença de enterococos em instrumentos médicos, apesar da existência de vários protocolos praticados na tentativa de eliminar essa contaminação (Morris et al., 1995; Noskin et al., 1995; Costa, 2006). Os enterococos apesar de terem sido, até ao final da década de 70, considerados como microrganismos inofensivos, nas duas últimas décadas surgiram como organismos patogénicos. Estas bactérias são, actualmente, consideradas como um dos principais desafios clínicos para a medicina, quer pelo número elevado de mecanismos que lhes conferem resistência à maioria dos antibióticos usados na terapêutica, quer pelo acumulado número de resistências intrínsecas que possuem (Bonten et al., 2001; Costa, 2006). Este conjunto de factores favorece a capacidade de sobrevivência dos enterococos, mesmo em locais onde a utilização de antibióticos é elevada, como por exemplo em unidades de cuidados de saúde (Costa, 2006). Esta peculiaridade dos enterococos, apesar da sua relativa baixa virulência, torna-os numa das principais origens de infecção nosocomial, representando a 3.ª causa de infecção hospitalar nos Estados Unidos da América (EUA) (Schaberg et al., 1991). E. faecalis e E. faecium representam cerca de 80% a 90% e de 5% a 15%, respectivamente, das causas de infecções clínicas em humanos. No entanto, outras espécies como por exemplo E. gallinarum ou E. durans, raramente são identificadas em isolados clínicos (Patterson et al., 1995). Alguns exemplos de infecções causadas por E. faecalis e E. faecium em humanos são as do trato urinário, abcessos abdominais, 3 Introdução infecções pós-cirúrgicas, infecções neonatais, entre outras (Charvers et al., 2003; Costa, 2006). Diversos autores defendem uma relacção entre o aumento da incidência das infecções causadas pelos enterococos e o aumento do uso de antibióticos como as quilononas e cefalosporinas, devido ao facto destas bactérias apresentarem uma resistência intrínseca ou susceptibilidade baixa a estes antibióticos usados diariamente no tratamento das infecções. O desafio que se coloca quando se implementam medidas relacionadas com saúde publica é a capacidade dos enterococos poderem adquirir resistências através de mutações ou da transferencia de genes presentes em plasmídeos ou transposões (Poeta, 2006). A pressão exercida devido ao uso de antibióticos pode, desta forma, provocar a selecção de estirpes de enterococos resistentes e ser o factor predominante para o aumento que se verificou no número de infecções hospitalares (Rice, 2001; Martínez, 2008). A vancomicina é o antibiótico várias vezes aplicado em infecções provocadas por bactérias Gram-positivas multirresistentes ou em pacientes alérgicos a antibióticos ȕ-lactâmicos (Costa, 2006). Porém, nas últimas décadas registou-se um enorme aumento no número de enterococos resistentes à vancomicina (VRE), devido ao grande número de prescrições hospitalares do antibiótico e também pela transferência de genes de resistência entre os enterococos pertencentes à microbiota humana. Por outro lado, as espécies pecuárias foram, durante anos, alimentadas com aditivos como a avoparcina (entre outros), um promotor de crescimento estruturalmente análogo à vancomicina e à teicoplanina (McDonald et al., 1997; Costa, 2006). Segundo Hayes, em 2003, nenhuma infecção clínica em humanos foi associada a enterococos de origem alimentar. No entanto, Hayes confirmou a capacidade destes transferirem genes de resistência para estirpes adaptadas ao hospedeiro humano. Ao efectuar a sequenciação nucleotídica do gene vanX, Jensen (1998) verificou que todas as VRE isoladas nos habitantes de um país muçulmano pertenciam ao subtipo característico das VRE isoladas a partir de frangos (variante G) e que nenhum pertencia ao subtipo dominante nas estirpes de origem suína (variante T). Nos países não muçulmanos verificava-se uma distribuição uniforme dos dois subtipos na população humana. 4 Introdução 1.3. Escherichia coli Escherichia coli é uma enterobactéria, anaeróbica facultativa e predominante do sistema gastrintestinal do Homem e diversos animais. Foi identificada pela primeira vez, em 1885, pelo pediatra Alemão Theodor Escherich (Ramos, 2002; Todar, 2002). Foi nesta espécie que se identificou, pela primeira vez, o processo da conjugação bacteriana, em 1946 por Joshua Lederberg e Eduard Tantum. A maioria das estirpes de E. coli são comensais e sintetizam a vitamina K e B12. A bactéria identifica-se, estruturalmente, pela forma de bacilos coliformes móveis com flagelos periféricos e por métodos bioquímicos sendo oxidase negativa, catalase positiva e fermenta a glucose e a lactose. E. coli coloniza o intestino humano imediatamente após o nascimento e encontra-se em concentrações de 106 a 109 UFC/grama de fezes (Thielman e Guerrant, 1999). A espécie E. coli apresenta diversas resistências a factores ambientais, contaminando a água e alimentos, tornando-se um indicador modelo de contaminação fecal (Madigan et al., 2000). A bactéria desempenha um papel protector do intestino contra infecções, simultaneamente com outras bactérias comensais, devido a competir com outras bactérias patogénicas intestinais como por exemplo Shigella e Salmonella. Embora predominantemente comensal, E. coli é responsável por uma grande quantidade de toxinfecções alimentares, infecções extra-intestinais tais como infecções abdominais e do tracto urinário, meningite e, no caso de atingir a corrente sanguínea através do tracto urinário, dos intestinos ou de uma ferida infectada, pode provocar septicemia (Orskov e Orskov, 1985; Guerra et al., 2003; Costa, 2006). As estirpes patogénicas de E. coli apresentam comummente uma série de factores de virulência que, usualmente, não são encontrados em bactérias comensais (Sáenz, 2004). Foram declaradas cinco classes de E. coli, que provocam doenças entéricas, dependendo do tipo de factores de virulência que estas possuem: as enterotoxigénicas, as enteroinvasivas, as enterohemorrágicas, as enteropatogénicas e as enteroagregativas (Todar, 2002; Sáenz, 2004). 5 Introdução 1.4. Interesse do estudo das resistências aos antibióticos em E. coli Escherichia coli pode ser encontrada em nichos ecológicos diferentes, como a microflora entérica de humanos e animais, amostras ambientais como a água e os alimentos e, também, em ambientes clínicos. Nestes nichos ecológicos E. coli encontra diversas situações de stress devido ao uso de antibióticos, o que lhe proporciona a aquisição e disseminação de genes que lhes conferem a resistência a esses agentes (Sáenz, 2004). E. coli é uma excelente “bactéria indicadora” para realizar estudos sobre o impacto do uso de antibióticos em humanos e animais. Este microrganismo permite monitorizar o nível da resistência aos antibióticos e, desta forma, procurar resoluções contra o seu aumento (Sáenz, 2004). O estudo da resistência antimicrobiana em E. coli permite obter ao longo do tempo uma informação antecipada sobre a sua emergência em bactérias potencialmente patogénicas (Schroeder et al., 2004; Costa, 2006). Esta bactéria é um invasor oportunista e representa actualmente o principal agente patogénico em clínica avícola, sendo a principal razão para o uso de antibióticos com fins medicinais nestes animais (Gross, 1991). Num estudo realizado por Yang e colaboradores em 2004, detectaram-se serótipos patogénicos em aves com uma capacidade elevada de dispersão entre animais criados na mesma exploração. Estes serótipos são, desta forma, os que mais vezes são expostos aos antibióticos sofrendo uma maior pressão selectiva. É, adicionalmente, importante referir que E. coli possui uma capacidade exímia para adquirir e transmitir genes de resistência, tal como no caso dos enterococos, mesmo a bactérias filogeneticamente afastadas (Martel et al., 2003; Costa, 2006). 1.5. Mecanismos de acção dos antibióticos Os antibióticos podem ser classificados como bactericidas caso provoquem a morte da bactéria ou como bacteriostáticos caso inibam o seu crescimento. Para além desta classificação, os antibióticos actuam através de diferentes mecanismos tornandose possível distingui-los pelo seu modo de acção (Poeta, 2006). Os cinco modos de acção utilizados pelos antibióticos, conforme representados na Figura 1, são: 1- a inibição da síntese da parede celular, 2- a inibição da síntese de 6 Introdução proteínas, 3- a inibição da síntese do ácido fólico, 4- a interferência na síntese do ácido nucleico e 5- alteração da permeabilidade da membrana celular. Síntese da parede celular: Síntese de DNA: Ǻ-lactâmicos Quilononas Glicopéptidos Síntese de RNA: Rifampicina Síntese de proteínas: Ribossomas Síntese do ácido fólico: Sulfonamidas Tetracilina Cloranfenicol Aminoglicósidos Macrólidos Lincosamidas Estreptogramina Figura 1: Mecanismos de acção dos principais grupos de antibióticos (adaptado de Sáenz, 2004). 1.5.1. Inibição da síntese da parede celular As bactérias são revestidas por uma parede celular rígida composta, maioritariamente, por peptidoglicano. Sendo este tipo de revestimento único para as bactérias torna-se alvo de toxicidade selectiva. Os antibióticos ȕ-lactâmicos onde se incluem as penicilinas, os monobactamos, carbapnemos, cefalosporinas, ácido clavulânico, sulbactam e o tazobactam são o grupo mais usado na terapêutica em medicina humana e veterinária. Este grupo de antibióticos inibe enzimas importantes que intervêm na formação do peptidoglicano (as transpeptidases, carboxipeptidases e transglicosidades), diminuindo a força da parede celular até provocar a lise celular e, consequentemente, a morte da bactéria (Livermore, 1995; Poeta, 2006). A vancomicina e a teicoplanina, antibióticos glicopéptidos, foram descobertas em 1960. Estes antibióticos inibem as ligações cruzadas da cadeia do peptidoglicano. A vancomicina liga-se aos terminais das moléculas D-Alanina-D-Alanina evitando a formação e a incorporação do pentapéptido na cadeia de peptidoglicano que se está a 7 Introdução formar (Cetinkaya et al., 2000). Estes antibióticos são moléculas grandes que não conseguem deslocar-se através dos poros da membrana exterior das bactérias Gramnegativas, logo, são apenas eficientes contra bactérias Gram-positivas (Poeta, 2006). 1.5.2. Inibição da síntese de proteínas É nos ribossomas das bactérias onde a leitura do RNAm permite a síntese das proteínas. Os ribossomas das bactérias são estruturalmente diferentes dos ribossomas dos eucariotas. As bactérias possuem duas subunidades 30S e 50S, enquanto os ribosomas dos eucariotas consistem de duas subunidades 40S e 60S. Os antibióticos com o mecanismo de acção a interferir na síntese de proteínas ligam-se às duas subunidades ribossomais, interferindo com um dos quatro estados da síntese proteica (iniciação, alongação, translocação e terminação) (Sefton, 2002). A tetracilina é um antibiótico de amplo espectro, bacteriostático, que se une e modifica o local de ligação na subunidade 30S do aminoacil-RNAt não havendo produção de proteínas (Walsh, 2003; Poeta, 2006). Este antibiótico penetra na bactéria por difusão passiva, tem uma baixa toxicidade e foi utilizado durante vários anos como promotor de crescimento em explorações pecuárias (Roberts, 1996). O cloranfenicol une-se à subunidade ribossomal 50S o que bloqueia as funções da peptidil transferase, interferindo com a incorporação dos novos aminoácidos na cadeia peptídica em crescimento. Este antibiótico tem uma acção bacteriostática, causa efeitos de toxicidade no fígado e nas células estaminais da medula óssea, tornando o seu uso limitado (Sefton, 2002). Os aminoglicosídeos unem-se à subunidade 30S do ribossoma não permitindo a ligação correcta com a subunidade 50S e a consequente activação ribossómica. Este grupo onde se insere a estreptomicina, a canamicina, a gentamicina, entre outros, têm uma acção bactericida e apresentam, tal como o cloranfenicol, alguns efeitos tóxicos (Sefton, 2002). O grupo dos macrólidos, onde se insere a eritromicina, e o grupo das lincosamidas possuem uma actividade bacteriostática e actuam na subunidade ribossomal 50S, inibindo a fase de alongação na síntese das proteínas (Rice, 2001). A estreptogramina quinupristina-dalfopristina (Q-D) apresenta um mecanismo de inibição semelhante ao referido para os macrólidos. No entanto, são já muitas as 8 Introdução estirpes de E. faecium que possuem um fenótipo que confere à Q-D apenas uma actividade bacteriostática, sendo necessárias concentrações elevadas para que este antibiótico seja eficaz (Rice, 2001). 1.5.3. Inibição da síntese do ácido fólico O ácido fólico desempenha um papel essencial em duas etapas da síntese das purinas e numa fase importante da síntese das pirimidinas. As bactérias necessitam de ácido fólico mas não possuem um sistema de obtenção deste ácido do ambiente que as rodeia tendo, necessariamente, de o sintetizar (Sáenz, 2004). As sulfonamidas, onde se insere o sulfametoxazol e o trimetropim são antibióticos classificados como bacteriostáticos de amplo espectro, utilizados para fazer frente a um grande número de microrganismos. Estes antibióticos actuam imitando o substrato de duas enzimas (o ácido para-aminobenzóico, PABA, e o dihidrofolato, DHF) que produzem a forma activa do ácido fólico, o ácido tetrahidrofólico (THF). A combinação mais usada é denominada de cotrimoxazol e é composta por trimetropim e sulfametoxazol na proporção 1/5, causando um bloqueio duplo para a formação do ácido fólico resultando num efeito bactericida (Huovinen, 2001; Master et al., 2003). 1.5.4. Interferência na síntese dos ácidos nucleicos O grupo das quinolonas, onde se insere a ciprofloxacina e o ácido nalidíxico, penetram no citoplasma das bactérias através dos canais de porinas ou da camada fosfolipídica. No interior da célula, estes antibióticos actuam sobre a replicação dos ácidos nucleicos através de mecanismos complexos que intervêm no enrolamento do DNA. O alvo destes antibióticos é a DNA girase e a Topoisomerase IV, ambas topoisomerases do tipo II (Walsh, 2003). A rifampicina, o antibiótico mais importante das rifampicinas, é muito activa frente a bactérias Gram-positivas. Este antibiótico liga-se à RNA polimerase dependente de DNA, inibindo a iniciação da síntese do RNA. Este antibiótico não inibe a síntese quando esta já se encontra iniciada (Sefton, 2002). 9 Introdução 1.5.5. Alteração da permeabilidade da membrana celular As polimixinas actuam, apenas, em bactérias Gram-negativas. O antibiótico ligase aos fosfolípidos, desorganizando a estrutura, causando a alteração da permeabilidade e saída de constituintes intracelulares através da membrana (Sefton, 2002). 1.6. Mecanismos de resistência aos antibióticos As bactérias desenvolveram vários mecanismos que conferem resistência aos antibióticos (Guardabbasi, 2006). Os mecanismos são muito variados (Walsh, 2003) e alguns dos mais comuns, como ilustra a Figura 2, são os seguintes: (i) alteração da permeabilidade da membrana, (ii) expulsão activa do antibiótico, (iii) modificação ou protecção do alvo e (iv) modificação ou inibição enzimática do antibiótico. antibiótico Alteração de Modificação do alvo permeabilidade da membrana Protecção do alvo Ribossoma Proteína Inactivação do antibiótico Expulsão activa do antibiótico Figura 2: Mecanismos de resistência aos antibióticos (adaptado de Yao e Moellering, 2005). 10 Introdução Embora sejam muitos e variados os mecanismos de resistência aos antibióticos, na Tabela 1 apresenta-se um resumo dos antibióticos mais importantes e dos respectivos mecanismos de resistência. Tabela 1: Antibióticos e mecanismos de resistência (adaptado de Gilbert, 2002). Antibióticos Mecanismos de resistência ȕ-lactâmicos - ȕ-lactamases Penicilinas (ampicilina, amoxicilina) -mutações na PBP Cefalosporinas (cefotaxima, ceftazidima) -diminuição da permeabilidade da membrana Monobactam (aztreonam) -expulsão activa do antibiótico Carbapnemos (imipenemo) Glicopéptidos (vancomicina, teicoplanina) -alteração do alvo do antibiótico (genes van) Tetraciclina -expulsão activa do antibiótico -protecção do alvo (ribossomas) -inibição enzimática Cloranfenicol -inibição enzimática Aminoglicosídeos (estreptomicina, gentamicina, -modificação enzimática canamicina) Macrólidos (eritromicina) e Lincosamidas -modificação do alvo (metilação dos ribossomas) -expulsão activa do antibiótico -inibição enzimática Sulfametoxazol e Trimetoprim -modificação do alvo (mutação em DHFR e DHPS) Quinolonas - modificação do alvo (mutações na DNA girase e na topoisomerase IV) Rifampicina -modificação do alvo (mutação na RNA polimerase) Quinupristina-dalfopristina 1.6.1. -modificação enzimática Alteração da permeabilidade da membrana A redução da permeabilidade, que ocorre por perda ou alteração de canais de porinas, é um mecanismo de resistência importante nas bactérias Gram-negativas. Este mecanismo pode levar à multirresistência e resulta, normalmente, de mutações espontâneas seleccionadas pela pressão exercida pelo uso de antibióticos. Contudo, estas alterações apenas conferem um grau moderado de resistência (Sefton, 2002). Nos ȕ-lactâmicos a diminuição da permeabilidade actua em conjunto com uma enzima ȕ-lactamase localizada no espaço perisplásmico. A alteração das porinas facilita 11 Introdução a hidrólise do antibiótico pela enzima. De uma forma semelhante, a diminuição da permeabilidade às quinolonas diminui a sensibilidade da bactéria a estes antibióticos (Moreillon, 2000). Existem três tipos de porinas principais (OmpA, OmpC e OmpF) e tem-se relacionado a diminuição da expressão das porinas do tipo OmpF com o aumento da resistência não só às quinolonas mas também aos ȕ-lactâmicos, tetraciclina e cloranfenicol (Sáenz, 2004). As porinas podem ser específicas para uma família de antibióticos. No entanto, no caso do imipenemo e do meropenemo, pertencentes à mesma classe de ȕ-lactâmicos, não utilizam os mesmos canais de porinas. Assim, uma estirpe resistente a um agente poderá não ser resistente ao outro (Moreillon, 2000). As bactérias Gram-positivas, embora não possuam invólucro externo, conseguem também alterar a permeabilidade da membrana citoplasmática aos aminoglicosídeos. Podem apresentar resistência intrínseca a concentrações baixas de aminoglicosídeos e/ou moderadas no caso da estreptomicina (concentrações mínimas inibitórias entre 62 a 550 μg/ml), sendo que este valor pode ser diminuído com a utilização da penicilina que facilita a entrada da estreptomicina na célula (Gin e Zhanel, 1996). 1.6.2. Expulsão activa do antibiótico O mecanismo de expulsão activa do antibiótico, dependente de energia, é utilizado pela bactéria para reduzir as concentrações de antibióticos na célula. Estas bombas de expulsão têm como objectivo expulsar substâncias tóxicas, como os metais pesados, podendo expulsar os antibióticos conferindo à bactéria resistência (Moreillon, 2000). Algumas bombas são específicas para determinados antibióticos, como por exemplo a tetraciclina, enquanto outras bombas conseguem expulsar diferentes tipos de antibióticos. No entanto, as primeiras conferem um nível de resistência mais elevado que as segundas ao respectivos antibióticos (Sefton, 2002). No caso da tetraciclina sabe-se que as bactérias resistentes absorvem o agente de forma tão rápida como as sensíveis, mas diferem na capacidade de o expulsar. Sendo esta diferença na capacidade de expulsar o antibiótico que define o carácter resistente das bactérias (Sefton, 2002). Este processo é de igual forma importante em várias bactérias para a resistência à ciprofloxacina. É também conhecido que o processo é 12 Introdução mediado por genes localizados em plasmídeos, logo passíveis de serem transferidos, como é o caso dos genes tet(K) e tet(L) encontrados em Enterococcus spp., codificadores de resistência à tetraciclina (Sefton, 2002). Em estirpes de E. coli resistentes aos ȕ-lactâmicos a expressão das bombas de expulsão de antibióticos desta família confere fenótipos de multirresistência (Sáenz, 2004). A expulsão activa do antibiótico é, em E. coli, um dos principais mecanismos de resistência adquirida aos macrólidos (Sáenz, 2004; Poeta, 2006). 1.6.3. Modificação ou protecção do alvo Este mecanismo de modificação ou protecção do alvo do antibiótico pode resultar de dois processos. O primeiro origina uma alteração, devido a uma mutação, do local específico onde o antibiótico se liga, provocando uma diminuição de afinidade. O segundo origina a produção de uma proteína que se liga ao local específico onde o antibiótico actuaria (Sáenz, 2004). A resistência aos aminoglicosídeos por modificação do alvo traduz-se por mutações de genes codificadores de proteínas ribossomais que causam essa modificação. Assim, por exemplo, em enterococos uma mutação no gene rpsL que codifica uma proteína da subunidade ribossomal 30S, confere resistência à estreptomicina (Moreillon, 2000; Sefton, 2002). Cada aminoglicosídeo possui um alvo distinto na subunidade ribossomal 30S, sendo raro observar qualquer tipo de resistência cruzada entre os distintos antibióticos (Sáenz, 2004). A resistência à rifampicina, no caso dos enterococos, através deste mecanismo é devida a uma mutação do gene rpoB que codifica a subunidade ȕ da RNA polimerase (Moreillon, 2000). A resistência às sulfonamidas e trimetoprim está dependente deste mecanismo de modificação do alvo, estando descritas mutações dos genes codificadores das enzimas dihidropteroato sintetase (DHPS) e dihidrofolato redutase (DHFR) (Sefton, 2002; Sáenz, 2004). No entanto, a aquisição de genes alternativos, transferíveis, é o mecanismo de resistência mais frequente a estes antibióticos. Foram já caracterizados mais de 20 genes dfr diferentes que codificam a resistência ao trimetoprim (produzem variantes da enzima DHFR) e 3 genes sul que codificam a resistência ao sulfametoxazol em bactérias Gram-negativas (produzem variantes da enzima DHPS), sendo estes genes 13 Introdução transferíveis mediante a inclusão em integrões, transposões e/ou plasmídeos (Sáenz, 2004). Estudos realizados em bactérias não produtoras de ȕ-lactamases, de forma ao mecanismo da inibição enzimática do antibiótico não interferir com o mecanismo de modificação do alvo, mostraram que as bactérias são capazes de modificar as enzimas localizadas na membrana plasmática responsáveis pela união do peptidoglicano (Moreillon, 2000). As enzimas envolvidas nesta união são denominadas de proteínas de ligação à penicilina (PBP’s), devido à penicilina e derivados serem um análogo dos precursores do peptidoglicano que se unem às enzimas, bloqueando o seu prolongamento (Poeta, 2006). Os enterococos possuem cerca de cinco tipos de PBP’s diferentes. A PBP5 possui uma afinidade natural baixa para os ȕ-lactâmicos sendo que, o determinante codificador, o gene pbp5 é considerado intrínseco nos enterococos (Rice et al., 2006). Esta PBP5 faz parte da membrana citoplasmática e é capaz de substituir as funções das PBP’s de outro tipo, sempre que estas são inibidas pelo uso dos ȕ-lactâmicos (Fontana et al., 1985). No entanto, a maioria dos isolados clínicos resistentes à penicilina possuem essa resistência devido, maioritariamente, às mutações que ocorrem na PBP5, diminuindo a sua afinidade (Williamson et al., 1983). Este tipo de mecanismo descrito em relação aos ȕ-lactâmicos é mais relevante em bactérias Gram-positivas, do que em Gram-negativas (Sáenz, 2004). A modificação do alvo é o mecanismo mais importante na resistência cruzada aos macrólidos, lincosamidas e estreptograminas (MLS). A resistência resulta da metilação de uma região conservada do RNAr 23S da subunidade 50S do ribossoma bacteriano, diminuindo, desta forma, a afinidade, por exemplo, da eritromicina ao alvo. O gene codificador destas resistências é o erm(B) e, com menor frequência, os genes erm(A) e erm(C) (Torres, 2002). De forma semelhante aos macrólidos, os produtos codificados pelos genes tet(M) e tet(O) ligam-se aos ribossomas impedindo a ligação dos antibióticos ao alvo, provocando a resistência à tetraciclina (Moreillon, 2000). A vancomicina é um antibiótico que altera o desenvolvimento da parede celular das bactérias sendo que a resistência é devida a modificações na referida parede celular (Bonten et al., 2001). Os enterococos, em geral, sintetizam precursores da parede celular terminados em D-alanina-D-alanina (D-Ala-D-Ala), que, quando expostos à vancomicina, se ligam com uma grande afinidade ao antibiótico. Assim, a vancomicina, 14 Introdução nos enterococos produtores de precursores D-Ala-D-Ala, inibe a síntese do peptidoglicano (Shepard e Gilmore, 2002). A presença de um indutor, como a vancomicina, faz com que as estirpes resistentes gerem precursores com diferentes terminais, como por exemplo o D-Alanina-D-Lactato (D-Ala-D-Lac), que possuem menor afinidade para a vancomicina sendo a síntese do peptidoglicano assegurada (Bonten et al., 2001). O fenótipo VanA, que confere resistência a níveis elevados de vancomicina (CMI de 64 a 1000μg/ml) e teicoplanina (CMI de 16 a 512 μg/ml), está associado com a aquisição do gene vanA (Moreillon, 2000; Gold, 2001). Este gene contém um transposão Tn1546 que codifica 9 polipéptidos diferentes. Estes polipéptidos são o ORF1, ORF2, VanA, VanR, VanS, VanH, VanY, VanX, VanZ e tanto podem estar localizados em plasmídeos como no DNA cromossómico. A expressão coordenada de VanA, VanH e VanX é a chave para resistência das bactérias (Poeta, 2006). A proteína VanA é uma ligase que catalisa a formação das ligações entre Dalanina e D-lactato, formando os precursores com menor afinidade à vancomicina. A VanH é uma desidrogenase necessária também para a síntese do D-Ala-D-Lac, pois é responsável pela produção de D-Lactato. A VanX hidrolisa as ligações D-Ala-D-Ala, diminuindo, desta forma, a síntese competitiva e a disponibilidade destes precursores. A transcrição dos genes que codificam estas três proteínas é coordenada e regulada por VanS e VanR, sendo estas duas últimas proteínas que controlam e regulam os genes de resistência aos glicopéptidos (Moreillon, 2000; Shepard e Gilmore, 2002; Poeta, 2006). As proteínas VanY e VanZ, embora não essenciais, promovem um aumento de resistência à vancomicina e à teicoplanina, respectivamente (Gold, 2001; Shepard e Gilmore, 2002; Poeta, 2006). O fenótipo VanB que confere resistência à vancomicina, mas não confere à teicoplanina, está associado ao gene vanB que por sua vez também pode estar presente em plasmídeos e no DNA cromossómico. O gene vanB foi encontrado em dois transposões, Tn1547 e Tn5382, estando o segundo associado também ao transporte de pbp5. Assim, conforme referido em alguns estudos, o cluster vanB está por vezes associado a resistência à vancomicina e à ampicilina (Carias et al., 1998; Gold, 2001). O cluster vanB é funcionalmente similar ao vanA porém difere na sua regulação (Gold, 2001). As estirpes com o fenótipo VanB não são induzidas pela teicoplanina e apresentam sensibilidade a este antibiótico, enquanto o fenótipo VanA é resistente e induzido pela vancomicina e pela teicoplanina (Shepard e Gilmore, 2002; Poeta, 2006). 15 Introdução O fenótipo VanC representa as espécies E. gallinarum (gene vanC1), E. casselifalvus (gene vanC2) e E. flavescens (gene vanC3) resistentes intrinsicamente à vancomicina (com CMI 32μg/ml). De forma diferente das ligases VanA e VanB, as ligases VanC favorecem a produção de precursores com terminais D-Alanina-D-Serina (D-Ala-DSer), mas a produção dos precursores D-Ala-D-Ala não é diminuída sendo esse o motivo da CMI mais baixa neste fenótipo. A diferença encontrada na resistência à vancomicina no fenótipo VanC é explicada pela proporção diferente entre D-Ala-D-Ser e D-Ala-D-Ala encontrada nas bactérias (Murray, 1998; Cetinkaya et al., 2000). O fenótipo VanD é caracterizado de forma semelhante aos fenótipos VanA e VanB. Está associado à resistência à vancomicina (CMI 64 μg/ml) e à teicoplanina (CMI 4 μg/ml) e está localizado no DNA cromossómico (Poeta, 2006). 1.6.4. Modificação ou inibição enzimática do antibiótico Existem bactérias que produzem enzimas as quais podem modificar e inactivar o antibiótico de forma a destruir a sua actividade antimicrobiana. As enzimas mais conhecidas, as ȕ-lactamases, hidrolisam as penicilinas e cefalosporinas sendo estrutural e funcionalmente próximas das PBP’s. Estas enzimas protegem as bactérias inactivando as penicilinas, através da ruptura do anel ȕ-lactâmico impedindo, desta forma, a ligação do antibiótico às PBP’s. Existem ȕ-lactamases específicas, as penicilases e as cefalosporinases. No entanto, quando os genes que codificam a produção destas enzimas sofrem mutações, as ȕ-lactamases podem tornarse mais eficazes contra penicilinas e cefalosporinas, as ȕ-lactamases de amplo espectro (BLAE) (Moreillon, 2000). No caso do cloranfenicol a resistência é devida à produção de enzimas inactivadoras, cloranfenicol acetiltransferases (codificadas pelo gene catA), que acetilam a molécula do antibiótico impedindo a união deste com os ribossomas bacterianos (Sáenz, 2004). Em E. faecium a virginiamicina acetiltransferase, codificada pelos genes vat(D) e vat(E), confere resistência à Q/D (Poeta, 2006). A resistência aos aminoglicosídeos de baixo nível, intrínseca para os enterococos, através da capacidade de diminuir a entrada dos antibióticos pela membrana, é também suportada pela presença de genes codificadores de enzimas 16 Introdução capazes de inactivar estes antibióticos. Este mecanismo de resistência através da acção de enzimas inactivadoras de aminoglicosídeos, é o de maior importância clínica. As enzimas nucleotidiltransferases, acetiltransferases e fosfotransferases, impedem a acção do antibiótico ao torná-lo num metabolito inactivo, resultando em estirpes com valores muito elevados de CMI, (isto é, estirpes muito resistentes). Uma enzima afecta diferentes aminoglicosídeos, o que torna o espectro de acção destas enzimas alargado a muitos membros desta classe de antibióticos (Torres, 2002; Sáenz, 2004). No caso dos enterococos existem vários genes codificadores de resistência. A produção de enzimas modificadas ANT(6’) ou ANT(3’), são responsáveis pela resistência a concentrações elevadas de estreptomicina, enquanto que para a resistência elevada à gentamicina é necessária a produção da enzima 6’-aminoglicósido acetiltransferase – 2’’-aminoglicosídeo fosfotransferase [AAC(6’)-Ie-APH(2’’)-Ia]. A resistência à canamicina e amicacina é interferida pela produção do aminoglicosídeo fosfotransferase [APH(3’)], promovendo a fosforilação dependente de ATP (Shepard e Gilmore, 2002; Torres, 2002). Ainda nos enterococos a resistência a aminoglicosídeos pode ser específica de uma espécie, como por exemplo, a produção de 6’-Naminoglicósido acetiltransferase [AAC(6’)-Ii] codificado pelo gene intrínseco aac(6’), que confere resistência à tobramicina e à canamicina o qual foi, apenas, detectado em E. faecium (Shepard e Gilmore, 2002; Torres, 2002). No caso de E. coli podemos observar outras enzimas modificantes de aminoglicosídeos que conferem fenótipos de resistência a esta classe de antibióticos, tais como, a AAC(3)-I, AAC(3)-II, AAC(3)-IV, AAC(6’)-I, APH(3’)-I/II, APH(3’’)-I, APH(6)-I, ANT(2’’)-I e ANT(3’’)-I (Sáenz, 2004). Existem ainda outros fenótipos de resistência aos aminoglicósidos, que partilham deste mecanismo de acção, porém são menos frequentes (Torres, 2002). 17 Introdução 1.7. Elementos genéticos de aquisição e transferência de genes de resistência Existem elementos genéticos que podem conter vários genes de resistência a diferentes classes de antibióticos conferindo, às bactérias que os possuem, um fenótipo de multirresistência. A localização dos genes de resistência nestes elementos genéticos móveis (os plasmídeos, transposões e os genes cassete dos integrões) torna possível a transferência da resistência (Sáenz, 2004). 1.7.1. Plasmídeos Este elemento genético é uma molécula de DNA de cadeia dupla, superenrolada, que possui a capacidade de se auto-replicar. Pode existir apenas uma ou duas cópias por célula mas, no entanto, quando o plasmídeo é pequeno podem existir mais de 10 cópias. Os plasmídeos são dos elementos genéticos móveis mais importantes porque facilitam a sobrevivência e propagação da espécie. Possuem no seu interior para além de genes de resistência, genes da replicação, metabolismo, fertilidade, resistência a bacteriocinas e/ou bacteriófagos (Sáenz, 2004). É importante referir que a bactéria não necessita destes elementos genéticos para sobreviver, sendo que na ausência da pressão dos antibióticos estes podem desaparecer (Madigan et al., 2000). Uma das maiores dificuldades da terapêutica no combate às infecções causadas por bactérias surge devido à transferência dos plasmídeos que possuem genes de resistência. Estes plasmídeos podem não estar presentes em números expressivos mas, no caso de haver uma pressão selectiva produz-se uma selecção das estirpes que os possuem aumentando, desta forma, o seu número. Um único plasmídeo pode conter vários genes codificadores de resistência e conferir um fenótipo multirresistente à estirpe onde se insere (Sáenz, 2004). Os plasmídeos podem, ainda, estar semi-inseridos em outros elementos genéticos móveis, como integrões e transposões. A obtenção de novas resistências é, maioritariamente, devida a transferências destes elementos genéticos (Sáenz, 2004). 18 Introdução 1.7.2. Sequências de inserção e transposões Estes elementos genéticos fazem parte do cromossoma ou de plasmídeos e são capazes de se moverem dentro do genoma através de transposição (recombinação específica). Estes elementos não possuem a capacidade de replicação autónoma e são parte integrante do genoma de muitas bactérias (Sáenz, 2004). As sequências de inserção (IS) medem entre 700 pares de base (pb) e 1500 pb e possuem extremos repetidos inversamente que são reconhecidos pela transposase, a enzima responsável pela transposição que é codificada por um gene que se localiza na parte central da IS (Sáenz, 2004). Os transposões têm um maior tamanho variando entre 2 a 50 kpb, possuem extremos repetidos inversamente e no centro contêm no mínimo dois genes; um codifica a transposase e outro, eventualmente, um marcador ou, mais relevante, um gene codificador de resistência a um antibiótico. A presença de vários transposões num mesmo plasmídeo é frequente, sendo possível que numa só transferência entre células bacterianas possa haver a troca de vários genes de resistência (Madigan et al., 2000; Sáenz, 2004). 1.7.3. Integrões Os integrões foram descritos no início dos anos 80 e possuem a informação genética para codificar uma proteína capaz de integrar ou libertar elementos móveis tais como os genes de resistência aos antibióticos. Esta proteína, denominada integrase, integra genes (os genes cassete) nos integrões. Este mecanismo ocorre mediante recombinação específica e verifica-se que os integrões possuem, também, um promotor que permite, posteriormente, a expressão dos genes recentemente integrados (Sáenz, 2004). Os integrões são constituídos por três elementos. O gene intI que codifica a integrase responsável pela integração dos genes, o sítio onde ocorre a recombinação específica (attI) e o promotor (P1) que faculta a expressão dos genes integrados. É possível, por vezes, verificar a existência de dois promotores, sendo que o segundo apenas incrementa o grau de expressão dos genes integrados (Sáenz, 2004). Podemos observar um esquema representativo desta estrutura na Figura 3. 19 Introdução Figura 3: Estrutura de um integrão e integração de um gene no mesmo (adaptado de Sáenz, 2004). Os genes cassete podem aparecer sob a forma de moléculas circulares de DNA, mas nos integrões é mais frequente encontrá-los como sequências lineares. Os genes cassete possuem, geralmente, apenas um gene sendo na sua maioria de resistência a antibióticos encontando-se na sua extremidade 3’ uma sequência de recombinação específica (attC). A integrase reconhece esta sequência attC e, através do local receptor attI, permite tanto a integração dos genes como a sua extracção (Figura 3) (Sáenz, 2004). A ligação attI-attC é mais específica que a ligação attC-attC e assim, quando há inserção de um novo gene cassete este vai ficar mais perto do(s) promotor(es) do que o gene cassete mais antigo. O novo gene, como fica colocado mais perto do(s) promotor(es), vai ter uma maior expressão (Collis e Hall, 1995). Através da sequência da integrase foi possível diferenciar 9 classes diferentes de integrões, sendo que apenas as classes 1, 2, 3 e 9 possuem genes cassetes codificadores de resistência aos antibióticos. No entanto, os integrões de classe 9 apenas possuem o gene cassete dfrA1, que codifica resistência ao trimetropim (Sáenz, 2004). Os integrões de classe 1 encontram-se com maior frequência em isolados clínicos. Esta classe caracteriza-se por possuir duas regiões conservadas, a 5’ onde se 20 Introdução encontra o gene da integrase (intI) e a 3’ onde se encontram os genes qacEǻ1 e sulI, associados às resistências a anti-sépticos e à resistência a sulfonamidas, respectivamente. Possuem ainda um fragmento de leitura, orf513 (Sáenz, 2004). Identificaram-se até hoje mais de 60 genes de resistência, onde se incluem os que conferem resistência ao trimetropim (dfr), ao cloranfenicol (cmlA), à estreptomicina (aadA), entre muitos outros (Sáenz, 2004). O grande número de genes de resistência e o facto de muitos desses genes se localizarem em elementos genéticos móveis, com a capacidade, no caso dos integrões, de adquirirem e excluírem os genes, torna a bactéria num organismo versátil e eficaz, sendo capaz de se adaptar rapidamente sempre que exista uma pressão selectiva por parte dos antibióticos. 1.8. Mutações em gyrA e parC As quinolonas actuam no sistema de replicação do DNA, inibindo as enzimas DNA girase e topoisomerases IV. As funções destas enzimas passam por desenrolar o DNA imediatamente antes da duplicação deste e, subsequente à duplicação, levar as cadeias novas ao estado inicial de enrolamento. Em Enterococcus spp. as mutações nos genes gyrA, gyrC e gyrD são relatadas como responsáveis pela resistência às quinolonas através deste mecanismo, mas na sua maioria a resistência a estes antibióticos está mais relacionada com mecanismos de resistência derivados da diminuição intracelular da concentração de antibióticos (Moreillon, 2000; Sefton, 2002). Em E. coli e outras bactérias Gram-negativas, a resistência às quinolonas tem como principal alvo a DNA-girase, pelo que as primeiras resistências têm lugar por mutações produzidas nesta enzima, concretamente no gene gyrA. No entanto, mutações no gene parC, codificante da topoisomerase IV, proporcionam resistência adicional (Sáenz, 2004). Entre as diferentes mutações detectadas no gene gyrA de E. coli, as substituições no tripleto Ser-83 são as mais frequentemente descritas e caracterizam-se por produzir níveis de resistência ao ácido nalidíxico. No entanto, a obtenção de níveis de maior resistência a fluoroquinolonas requer a presença de mutações adicionais, como uma substituição em Asp-87, a segunda posição mais comummente descrita em gyrA (Sáenz, 2004). 21 Introdução As mutações descritas no gene parC de E. coli afectam principalmente os tripletos 80 e 84. Estas mutações, associadas às substituições encontradas no gene gyrA, conferem altos níveis de resistência a fluoroquinolonas (Vila et al., 1996). 1.9. Produção de factores de virulência Os factores de virulência conferem uma vantagem selectiva relativamente às estirpes que os possuem em comparação com as estirpes comensais que não os manifestam. Por exemplo, uma estirpe nosocomial que possua uma proteína de superfície pode colonizar com melhor eficácia o intestino. No caso de doença, se o indivíduo possuir este tipo de estirpe, o risco de uma infecção acontecer é provável e elevado. Um exemplo de um factor de virulência com estas características é uma proteína de superfície, codificada pelo gene esp, que aumenta a capacidade de ligação da estirpe a superfícies epiteliais (Mundy et al., 2000). No caso dos enterococos existem diversos factores de virulência que estão mais relacionados com E. faecalis, como é o caso da citolosina, do factor de agregação, do superóxido extra-celular e de proteínas de superfície, que podem permitir à bactéria a ligação a superfícies epiteliais, escapar à resposta imunitária dos indivíduos, colonizar locais extra-intestinais e, também, aumentar a eficácia na obtenção de nutrientes. Embora existam outros factores de virulência, estes são os mais investigados. Apesar de relacionados com E. faecalis, estes factores não são exclusivos e foram já identificados em outras espécies de enterococos (Mundy et al., 2000; Shepard e Gilmore, 2002; Poeta et al., 2008a). No caso de E. coli existem outros factores de virulência tais como as cápsulas K1 e K5, Į-hemolisina, entre outros que, tal como no caso dos enterococos, para além de tornarem estas estirpes mais competitivas, aumentam a capacidade destas causarem doenças (Robbins, 1974; Cavalieri et al., 1984). 1.10. Classificação filogenética de Escherichia coli E. coli pode ser classificada em 4 grupos filogenéticos diferentes. Os grupos A, B1, B2 e D. Estes grupos foram descritos através da electroforese de enzimas multilocus (MLEE) e de “Multilocus Sequence Typing” (MLST) (Clermont et al., 2000). Actualmente, não é necessário o uso das técnicas referidas e torna-se possível classificar a estirpe em estudo através de PCR, de uma forma mais simples e rápida. 22 Introdução Através da combinação de três PCR distintas, o gene chuA (codificador de um receptor da membrana externa), o gene yjaA (sem função associada conhecida) e um fragmento de DNA tspE4.C2 pode-se, de forma rápida e em larga escala, classificar as estirpes de E. coli (Clermont et al., 2000). O grupo B2 alberga a maioria das estirpes extra-intestinais de E. coli e a maioria dos factores de virulência extra-intestinais estão concentrados neste grupo. Alguns dos clones mais virulentos de E. coli, como por exemplo o O18:K1:H7 e o O4:K12:H5, entre muitos outros, encontram-se neste grupo filogenético (Johnson, 2001a). O segundo grupo mais comum em infecções extra-intestinais é o grupo D possuindo um menor número de factores de virulência quando comparado com o grupo filogenético B2. Alguns dos clones que pertencem a este grupo são o O7:K1:H-, o O15:K52:H1, entre outros (Johnson, 2001a). As estirpes pertencentes aos grupos filogenéticos A e B1, são estirpes tipicamente comensais e, apenas excepcionalmente, são descritas como causa de infecções extra-intestinais, sendo que nesses raros casos é devido à transferência horizontal de genes codificadores de virulência (Johnson, 2001a; Johnson, 2001b). A resistência aos antibióticos não conhece fronteiras e não é um fenómeno novo. A descoberta dos antibióticos e a sua utilização em terapia anti-infecciosa constituiu um progresso inquestionável da medicina do século XX no entanto, a falta de medidas preventivas desde os primeiros casos de resistência antimicrobiana, anteriores à década de 50, transformou este fenómeno numa realidade difícil ameaçando a população humana e animal em todo o globo. A descoberta de novas famílias de antibióticos e a síntese de novos agentes durante várias décadas levou à negligência generalizada usando imprudentemente estes agentes conduzindo a novas resistências antimicrobianas. Actualmente estas resistências atingiram um nível crítico onde o surgir de novos antibióticos torna-se cada vez mais escasso e os incentivos para o desenvolvimento de novas drogas também são menores. A resistência antimicrobiana conduziu ao aumento dos custos dos cuidados de saúde e ameaça aumentar cada vez mais, os tratamentos de doenças infecciosas tornando-se menos eficazes e conduzindo ao sofrimento prolongado do indivíduo. A União Europeia (UE) tomou medidas e tenta adequar novas políticas destinadas a controlar o fenómeno da resistência. Diversos sistemas de vigilância nacionais e internacionais estão a decorrer e outros estão a ser desenvolvidos. O Programa EARSS, financiado pelo ”European Centre for Diseases Prevention and 23 Introdução Control” da Comissão Europeia, é uma rede internacional de sistemas de vigilância nacionais, com o objectivo de reunir dados de resistência aos antibióticos relativos a estirpes bacterianas isoladas de infecções invasivas, sendo esses dados recolhidos por diferentes países participantes. A Organização Mundial de Saúde (OMS) confirmou a emergência e a propagação da resistência aos antimicrobianos como um problema grave a nível mundial, afectando tanto os países desenvolvidos como os países em desenvolvimento. A OMS realizou várias reuniões onde têm sido redigidos diversos documentos onde se apresentam variadas orientações a seguir para combater o aumento da resistência antimicrobiana. Estas orientações passam pela (i) vigilância da resistência; (ii) educação dos prescritores, dos profissionais de saúde e do grande público; (iii) regulamentação em especial na promoção dos antibióticos pela indústria farmacêutica; (iv) investigação, sobretudo pelo estudo dos mecanismos de resistência, da sua disseminação e obtenção de novos agentes actuando sobre novos alvos; (v) prevenção da resistência pelo combate e prevenção da infecção. Os níveis de resistência aos antibióticos em Portugal são pouco conhecidos, em particular no que diz respeito à dinâmica entre a população humana e a animal. É neste contexto que este trabalho se pretende inserir contribuindo para a avaliação da resistência antimicrobiana, estudo dos mecanismos que esta resistência apresenta e os factores que permitem a sua disseminação. 24 2. Objectivos O conhecimento da origem e transmissão dos genes codificadores de resistência, na população microbiana global, é essencial para a definição de modelos abrangentes para a avaliação do ponto de situação e de medidas sustentáveis para o controlo da resistência antimicrobiana. As bactérias comensais como Enterococcus spp. e Escherichia coli colonizadoras do tracto gastrintestinal da maioria dos animais e dos humanos, são submetidas ao efeito do uso dos antibióticos seleccionando-se estirpes com mecanismos de resistência. Os animais, como reservatórios de estirpes resistentes a antibióticos, tornam-se num problema de saúde pública que necessitam de uma vigilância constante. Esta vigilância é aconselhada por diversas organizações, como por exemplo a European Antimicrobial Resistance Surveillance System (EARSS). Neste sentido este trabalho tem por objectivo contribuir para a epidemiovigilância, estudar a taxa de resistência a antibióticos em isolados fecais de Enterococcus spp. e E. coli de diferentes origens animais, detectar factores de virulência que os isolados possam conter e analisar os grupos filogenéticos dos isolados de E. coli. Pretende-se, ainda, verificar se existe uma relação clonal entre as estirpes produtoras de ȕ-lactamases de amplo espectro de diferentes origens. Os objectivos específicos deste trabalho são: 1- Estudar a colonização por estirpes de Enterococcus spp. resistentes à vancomicina (VRE), em amostras fecais de diferentes origens animais (suíno bísaro, suíno comercial e avestruz) a partir de placas com meio de cultura suplementado com vancomicina: a. Fazer a identificação ao nível da espécie das estirpes através de PCR. b. Caracterizar fenotipicamente a resistência a 11 antibióticos (ampicilina, cloranfenicol, tetraciclina, ciprofloxacina, quinupristina- 25 Objectivos c. dalfopristina, eritromicina, estreptomicina, gentamicina e canamicina) e geneticamente os mecanismos de resistência. d. Caracterizar fenotipicamente e genotipicamente a resistência à vancomicina e à teicoplanina (glicopéptidos). 2- Estudar a colonização por estirpes de Enterococcus spp., em amostras fecais de diferentes origens animais (suíno bísaro, suíno comercial e avestruz) a partir de placas com meio de cultura não suplementado: a. Fazer a identificação ao nível da espécie das estirpes através de PCR. b. Determinar os fenótipos de resistência a 11 antibióticos (ampicilina, cloranfenicol, tetraciclina, ciprofloxacina, quinupristinadalfopristina, eritromicina, estreptomicina, gentamicina, canamicina, vancomicina e teicoplanina) e estudar os seus mecanismos de resistência. 3- Detectar através de PCR factores de virulência em estirpes de Enterococcus spp. resistentes à vancomicina. a. 4- Identificar os genes codificadores de virulência (esp e hyl). Estudar a colonização por estirpes de E. coli produtoras de ȕ-lactamases de amplo espectro (BLAE), em amostras fecais de diferentes origens animais (suíno bísaro, suíno comercial, burro), a partir de placas com meio de cultura suplementado com cefotaxima: a. Caracterizar fenotipicamente a resistência a 16 antibióticos (cefoxitina, ceftazidima, gentamicina, amicacina, ciprofloxacina, ácido aztreonam, tobramicina, nalidíxico, sulfametoxazol-trimetropim) e ampicilina, imipenemo, cloranfenicol, tetraciclina, eritromicina, caracterizar estreptomicina geneticamente e os mecanismos de resistência. b. Caracterizar fenotipicamente e genotipicamente a resistência aos ß-lactâmicos através da produção das ȕ-lactamases de amplo espectro (BLAE). 26 Objectivos 5- Estudar a colonização por estirpes de E. coli em amostras fecais de diferentes origens animais (suíno bísaro, suíno comercial, burro e javali), a partir de placas com meio de cultura não suplementado: a. Determinar os fenótipos de resistência a 16 antibióticos (cefoxitina, ceftazidima, gentamicina, amicacina, ciprofloxacina, ácido aztreonam, tobramicina, nalidíxico, ampicilina, imipenemo, cloranfenicol, tetraciclina, eritromicina, estreptomicina e sulfametoxazol-trimetropim) e caracterizar o mecanismo de resistência. 6- Detectar através de PCR, factores de virulência nas estirpes de E. coli produtoras de BLAE e nas que apresentam multirresistência aos antibióticos. a. Identificar os genes codificadores de virulência (fimA, aer, papG, papC e cnf1). 7- Classificar nos respectivos grupos filogenéticos, através de PCR, as estirpes de E. coli produtoras de BLAE e as que apresentam multirresistência aos antibióticos. 8- Estudar a relação clonal das estirpes de E. coli produtoras de BLAE através da electroforese de campos pulsados (PFGE). 27 3. Material e Métodos 3.1. Meios de cultura e provas de identificação 3.1.1. Meios de cultura Os meios de cultura que foram utilizados no decurso deste trabalho estão a seguir descritos: Slanetz-Bartley agar (SB)- Meio selectivo utilizado no isolamento de enterococos. Composição: ¾ Triptose – 20 g/l ¾ Extracto de levedura – 5 g/l ¾ Glicose – 2 g/l ¾ Fosfato dissódico hidratado – 4 g/l ¾ Azida de sódio – 0,4 g/l ¾ Cloreto de trifeniltetrazólio – 0,1 g/l ¾ Agar – 10 g/l Eosin Methylene Blue Agar (Levine) – Meio selectivo utilizado para o isolamento de enterobactérias. Composição: ¾ Peptona – 10 g/l ¾ Lactose – 10 g/l ¾ Fosfato dipotássico hidrogenado – 2 g/l ¾ Eosina Y – 0,4 g/l ¾ Azul-de-metileno – 0,065 g/l ¾ Agar - 15 g/l Bain-Heart-Infusion (BHI) – Meio não selectivo utilizado para o crescimento das bactérias. Composição: ¾ Cérebro de vitelo – 200 g/l 29 Material e Métodos ¾ Coração de vaca – 250 g/l ¾ Bacto protease peptona – 10 g/l ¾ Bacto dextrose – 2 g/l ¾ Cloreto de sódio – 5 g/l ¾ Fosfato dissódico – 2,5 g/l ¾ Agar – 15 g/l (adicionar caso se pretenda o meio sólido) Mueller-Hinton agar (MH) – meio utilizado para a determinação da sensibilidade aos antibióticos. Composição: ¾ Infusão desidratada de carne de vitelo – 300 g/l ¾ Bacto casamino ácidos – 17,5 g/l ¾ Amido – 1,5 g/l ¾ Agar – 15 g/l Meio de leite desnatado, desidratado (Skim-milk) – Meio utilizado a 10% para guardar as estirpes no congelador. 3.1.2. Provas de identificação Canamicina-Esculina-Azida agar – Meio muito nutritivo usado para o crescimento e identificação de enterococos, que degradam a esculina tornando o meio negro. ¾ Peptona de caseína – 20 g/l ¾ Extracto de levedura – 5 g/l ¾ Cloreto de sódio – 5 g/l ¾ Citrato de sódio – 0,1 g/l ¾ Azida de sódio – 0,15 g/l ¾ Sulfato de canamicina – 0,02 g/l ¾ Esculina – 1 g/l ¾ Citrato de amónio de ferro – 0,5 g/l ¾ Agar – 15 g/l 30 Material e Métodos Meio Triple Sugar Iron (Agar - ferro e triplo açúcar, TSI) – prova de identificação de E. coli, baseada na capacidade dos microrganismos fermentarem a frutose, a glucose e/ou a lactose e produzirem gás ou sulfureto de ferro. Catalase – prova de identificação de Enterococcus spp.. Consiste em adicionar algumas gotas de água oxigenada a 7% sobre uma porção de bactéria retirada de uma cultura pura. A presença da enzima catalase é demonstrada pela formação de efervescência. Indol – prova de identificação de E. coli, composto por um caldo de peptona rico em triptofano. Na presença da triptofanase, o aminoácido é degradado em NH4+ e indol. Após 24 horas a 37ºC, adiciona-se umas gotas de reagente Kovac e a reacção positiva forma um anel vermelho à superfície do meio. Metil-Red e Voges-Proskauer (MRVP) – provas de identificação de E. coli. O meio é composto por glicose-fosfato e após inoculação das colónias durante 24 horas a 37ºC a adição dos respectivos reagentes permite identificar, através da mudança de cor, se a reacção é positiva ou negativa. Citrato – prova de identificação de E. coli. Este meio tem como única fonte de energia o citrato. Após a incubação das bactérias, durante 24 horas a 37ºC, a reacção positiva implica a mudança de cor do meio de verde para azul. Ureia - prova de identificação de E. coli. Para se identificar como positivo ou negativo o teste, verificamos se existe uma mudança de cor no meio devido à hidrólise da ureia. 3.2. Amostras fecais Avestruz Recolheram-se 54 amostras fecais de avestruzes (Struthio camelus L.) para consumo. As amostras fecais correspondem a animais com idade superior a 1 ano, tendo sido recolhidas em Novembro de 2007 numa exploração do Alentejo. A nenhum dos animais foi administrado antibióticos nos 4 meses anteriores à recolha das amostras tendo-se usado apenas uma amostra por animal. 31 Material e Métodos Suíno comercial Recolheram-se 30 amostras fecais de suínos (Sus scrofa domestica L.) para consumo. As amostras fecais correspondem a animais com idades compreendidas entre as 5 semanas e a idade adulta. As amostras foram recolhidas em Dezembro de 2007 numa exploração do Norte de Portugal e a nenhum dos animais foi administrado antibióticos nos 4 meses anteriores à recolha das amostras tendo-se usado apenas uma amostra por animal. Suíno bísaro Recolheram-se 35 amostras fecais de suínos de raça bísara (uma raça de suíno autóctone) para consumo. As amostras fecais correspondem a animais com idades compreendidas entre as 5 semanas e a idade adulta. As amostras foram recolhidas em Dezembro de 2007 numa exploração do norte de Portugal e a nenhum dos animais foi administrado antibióticos nos 4 meses anteriores à recolha das amostras tendo-se usado apenas uma amostra por animal. Javalis Recolheram-se 77 amostras fecais de javali (Sus scrofa scrofa L.) em montarias e batidas realizadas durante 2006-2007 no Nordeste de Portugal. Apenas foi usada uma amostra fecal por animal. Burros Recolheram-se no Nordeste de Portugal, 13 amostras fecais de burro de Miranda (uma raça autóctone de Equus asinus L.). As amostras fecais correspondem a animais adultos e foram recolhidas em Novembro e Dezembro de 2007. A nenhum dos animais foi administrado antibióticos nos 4 meses anteriores à recolha das amostras tendo-se usado apenas uma amostra por animal. 3.3. Processamento das amostras De cada animal (avestruz, burro, suíno comercial, suíno bísaro e javali) recolheram-se 10g de fezes que, até chegarem ao laboratório, foram mantidas a 4ºC. Cerca de 2 a 3g de cada amostra foi, posteriormente, diluída em solução salina antes de ser semeada em placas de agar selectivo para Enterococcus spp. e para E. coli. O restante de cada amostra guardou-se a temperaturas de congelação. O isolamento das colónias de Enterococcus spp. e de E. coli, a partir das amostras fecais, foi realizado em 32 Material e Métodos simultâneo de forma a não congelar/descongelar repetidamente e desnecessariamente as mesmas amostras. 3.3.1. Isolamento de Enterococcus spp. As amostras fecais foram semeadas, através de zaragatoas esterilizadas, em placas de meio selectivo Slanetz-Bartley (SB) suplementadas com vancomicina (4 μg/ml) e placas não suplementadas com antibiótico. Incubaram-se as placas na estufa entre 24 horas e 48 horas, a 37ºC. Após sucessivas repicagens de cada uma das placas de Slanetz-Bartley, escolheu-se, aleatoriamente, uma colónia, presumivelmente de enterococos, a qual foi repicada para o meio de BHI agar para potenciar o crescimento exponencial das bactérias. Após 24 horas, as bactérias foram identificadas por métodos microbiológicos, bioquímicos e moleculares de forma a distinguir com exactidão as colónias que correspondiam a enterococos daquelas que se assimilavam fenotipicamente com este género. Para tal cada isolado foi submetido à coloração pelo método de Gram, prova da catalase e repicado para meio de canamicina-esculina-azida agar durante 24 horas, a 37ºC. As bactérias com morfologia de cocos em cadeias curtas, Gram-positivas, catalase negativas e que apresentaram cor negra no meio de canamicina-esculina-azida agar (devido à hidrólise da esculina) foram identificadas como sendo Enterococcus spp. Por fim, os enterococos foram guardados em meio de leite desnatado e de seguida congelado. Posteriormente foi confirmado através de métodos moleculares a espécie de Enterococcus spp. a que cada colónia pertencia. 3.3.2. Isolamento de Escherichia coli As amostras fecais foram semeadas, através de zaragatoas esterilizadas, em placas de meio selectivo Levine suplementadas com cefotaxima (2 μg/ml) e placas não suplementadas com antibiótico. Incubaram-se as placas na estufa entre 24 horas e 48 horas, a 37ºC. Após sucessivas repicagens de cada uma das placas de Levine, escolheuse, aleatoriamente, uma colónia, presumivelmente de E. coli, a qual foi repicada para o meio de BHI agar para potenciar o crescimento exponencial da bactéria. Após 24 horas, as bactérias foram identificadas por métodos microbiológicos, bioquímicos e moleculares de forma a distinguir com exactidão as colónias que 33 Material e Métodos correspondiam a E. coli daquelas que se assemelhavam fenotipicamente com esta espécie. Para tal cada isolado foi submetido à coloração pelo método de Gram e aos testes do indol, vermelho de metilo, “Voges-Proskauer”, TSI, ureia e citrato. As bactérias com morfologia de bacilos, Gram-negativas, com resultados positivos na prova do indol e vermelho de metilo, negativos para “Voges-Proskauer”, teste do citrato e para o teste da ureia e que fermentam a glicose e a frutose com produção de gás, no teste do TSI, foram identificadas como sendo E. coli. Por fim, os isolados de E. coli foram guardados em meio de leite desnatado e de seguida congelado. 3.4. Estudo da sensibilidade a antibióticos 3.4.1. Antibióticos estudados Foi determinada a sensibilidade aos seguintes antibióticos: Enterococcus spp.: ampicilina (10ȝg/ml), ciprofloxacina (5ȝg/ml), cloranfenicol (30ȝg/ml), eritromicina (15ȝg/ml), quinupristina-dalfopristina (Q-D) (15ȝg/ml), tetraciclina (30ȝg/ml), teicoplanina (30ȝg/ml), vancomicina (30ȝg/ml), e aminoglicosídeos de elevada carga, estreptomicina (300ȝg/ml), gentamicina (120ȝg/ml) e canamicina (120ȝg/ml). E. coli: ampicilina (10ȝg/ml), amoxicilina+ácido clavulânico (20+10ȝg/ml), cefoxitina (30ȝg/ml), cefotaxima (30ȝg/ml), ceftazidima (30ȝg/ml), aztreonam (30ȝg/ml), imipenemo (10ȝg/ml), gentamicina (10ȝg/ml), amicacina (30ȝg/ml), tobramicina (10ȝg/ml), estreptomicina (10ȝg/ml), ácido nalidíxico (30ȝg/ml), ciprofloxacina (5ȝg/ml), trimetropim-sulfametoxazol (1,25+23,75ȝg/ml), tetraciclina (30ȝg/ml) e cloranfenicol (30ȝg/ml). No caso dos antibióticos utilizados em enterococos, os aminoglicosídeos de elevada carga foram preparados no laboratório a partir de discos estéreis. Todos os outros antibióticos foram utilizados conforme recomendado pelo CLSI (CLSI, 2007). Os halos de inibição de cada antibiótico estão dispostos na Tabela 2 e 3, para Enterococcus spp. e E. coli, respectivamente. 34 Material e Métodos Tabela 2: Antibióticos usados em Enterococcus spp. e respectivo valor dos halos de inibição (CLSI, 2007). Antibiótico Halos de inibição (mm) Resistente Intermédio Sensível Cloranfenicol 12 13-17 18 Tetraciclina 14 15-18 19 Teicoplanina 10 11-13 14 Q-D 15 16-18 19 Vancomicina 14 15-16 17 Ciprofloxacina 15 16-20 21 Ampicilina 16 - 17 Eritromicina 13 14-22 23 6 7-9 10 Estreptomicina Gentamicina Canamicina Tabela 3: Antibióticos usados em E. coli e respectivo valor dos halos de inibição (CLSI, 2007). Antibiótico Halos de inibição (mm) Resistente Intermédio Sensível Cloranfenicol 12 13-17 18 Tetraciclina 14 15-18 19 Ácido nalidíxico 13 14-18 19 Ciprofloxacina 15 16-20 21 Ampicilina 13 14-16 17 Tobramicina 12 13-14 15 Amicacina 14 15-16 17 Gentamicina 12 13-14 15 Estreptomicina 11 12-14 15 Amoxicilina+ác. clavulânico 13 14-17 18 Ceftazidima 14 15-17 18 Cefotaxima 14 15-22 23 Cefoxitina 14 15-17 18 Aztreonam 15 16-21 22 Imipenemo 13 14-15 16 Trimetropim-sulfametoxazol 10 11-15 16 35 Material e Métodos 3.4.2. Determinação da sensibilidade aos antibióticos pelo método da difusão em agar Este método foi realizado pela técnica de Kirby-Bauer e interpretado seguindo as normas do CLSI (CLSI, 2007). Preparação do inóculo: semeou-se uma colónia, proveniente de uma placa com a estirpe pura, em BHI-agar e incubou-se a 37ºC, durante 24 horas. Desta placa, recolheram-se 3 a 4 colónias para um tubo de ensaio com soro fisiológico esterilizado (NaCl a 0,9%) até se obter uma turvação de 0,5 da escala de McFarland. Inoculação da placa: com o auxílio de uma zaragatoa esterilizada, semeou-se a superfície de uma placa de MH na sua totalidade, de uma forma homogénea. Com uma pinça, colocaram-se até 6 discos de antibiótico por placa. Incubaram-se as placas de MH durante 24 horas a 37ºC ao fim do qual se mediram os halos de inibição. 3.4.3. Determinação fenotípica da produção de ȕ-lactamases de amplo espectro Nos isolados de Escherichia coli, para determinar fenotipicamente se a estirpe é produtora de ȕ-lactamases de amplo espectro (BLAE), colocou-se numa das placas de Muller-Hilton (MH) os antibióticos ceftazidima, cefotaxima, aztreonam e a amoxicilina+ácido clavulânico sendo este último colocado no meio dos restantes três discos. Os discos são colocados a cerca de 2 cm entre eles e a placa incubada durante 24 horas a 37ºC. O fenótipo positivo para produção de BLAE verifica-se quando, junto da área de interface entre os discos de ceftazidima, cefotaxima e aztreonam com o de amoxicilina+ácido clavulânico, se observa uma ampliação do halo de inibição denominada de zona fantasma (“ghost zone”). Esta ampliação do halo deve-se à inibição das BLAE por parte do ácido clavulânico permitindo a actuação da amoxicilina, um antibiótico ȕ-lactâmico. Podemos observar na Figura 4 o fenótipo descrito. 36 Material e Métodos CAZ AH AMC AH CTX ATM Figura 4: Estirpe com fenótipo positivo para produção de ȕ-lactamases de amplo espectro (imagem do autor). AHAmpliação do halo; AMC- amoxicilina+ácido clavulânico; CAZ- ceftazidima; CTX- cefotaxima; ATM- aztreonam. 3.5. Reacção em cadeia pela polimerase (PCR) Para realizar a técnica de PCR foi utilizada a metodologia e material descrito nos passos seguintes: 3.5.1. Extracção de DNA Na extracção de DNA foram realizados dois protocolos diferentes para Enterococcus spp. e E. coli. Enterococcus spp. A extracção foi realizada segundo o protocolo InstaGeneTM Purification Matrix (Bio-Rad). Suspenderam-se em 1ml de água destilada esterilizada, colocada num eppendorf, algumas colónias de uma cultura pura, centrifugando de seguida um minuto a 12.000 rpm. Retirou-se o sobrenadante e adicionou-se 200μl de resina de extracção ao pellet. Ressuspendeu-se o pellet e colocou-se o eppendorf num banho-maria a 56ºC durante 20 minutos. Após passar no vortex colocou-se num banho a 100ºC durante 8 minutos. Agitou-se novamente no vortex e colocou-se na centrifugadora a 13.000 rpm durante 3 minutos. 37 Material e Métodos Após a extracção realizou-se uma medida no espectrofotómetro, medindo a absorção dos ácidos nucleicos a 260 nm, obtendo a concentração e pureza do DNA, por comparação com esta medida a 280 nm. Como parâmetros óptimos para a extracção definimos a absorvância entre 1,90 e 2,00 e a concentração entre 300 e 600 nanogramas (ng). Guardou-se, finalmente, o DNA extraído a 4ºC. E. coli Para E. coli realizou-se um protocolo de extracção mais simples e rápido. Suspendeu-se uma cultura pura, num eppendorf, com 0,5ml de água destilada esterilizada. Colocou-se num banho a 100ºC durante 8 minutos, após o qual se agitou vigorosamente no vortex. Centrifugou-se a 12.000 rpm durante 2 minutos. Mediu-se num espectofotómetro a concentração e pureza do DNA, definindo como valores óptimos a absorvância entre 1,80 e 1,90 e a concentração entre 200 e 800ng. Guardou-se o DNA extraído a 4ºC. 3.5.2. Preparação dos tubos de PCR Cada tubo de reacção da técnica de PCR tem um volume final de 50μl dos componentes descritos na Tabela 4: Tabela 4: Componentes e concentrações usadas para a reacção de PCR. Concentração final da Componentes Concentração Volume por tubo Primer directo 25μM 1μl 0,5μM Primer reverso 25μM 1μl 0,5μM 5U/μl 0.3μl 1,5U BIOTAQ TM DNA polimerase reacção Tampão de reacção 10X 5μl 1X MgCl2 50mM 1,5μl 1,5mM dNTP’s 10mM 1μl 0,2mM DNA - 10μl - Água miliQ esterilizada - Até perfazer 50μl - De referir que os primers utilizados foram sintetizados por Sigma-Aldrich, e que os termocicladores utilizados eram dos modelos Perkin Elmer GeneAmp PCR 2400 e Biometra T3000. Por fim, foram incluídos em todas as reacções de PCR um controlo positivo e dois controlos negativos, um deles sem DNA e outro sem primers. Os 38 Material e Métodos controlos positivos utilizados fazem parte da colecção da Universidade de La Rioja (Espanha). 3.5.3. Primers e condições de PCR utilizadas As sequências dos primers, condições de amplificação da reacção de PCR e o tamanho do fragmento de DNA amplificado em cada caso estão descritos nas tabelas a seguir organizadas, primeiro para Enterococcus spp. e de seguida para E. coli (Tabelas 5 a 11). Enterococcus spp. Tabela 5: Sequência nucleotídica dos primers de PCR para identificação das espécies de Enterococcus spp. Primers (sequência 5’ a 3’) Condições de amplificação Referência (Banda obtida) ddl E. faecalis ATCAAGTACAGTTAGTCT ACGATTCAAAGCTAACTG 94 ºC 94 ºC 54 ºC 72 ºC 72 ºC 2’ 1 ciclo 1’ 1’ 30 ciclos 1’ 10’ 1 ciclo Dutka-Malen et al., 1995 (941 pb) ddl E. faecium TAGAGACATTGAATATGCC TCGAATGTGCTACAATC 94 ºC 94 ºC 54 ºC 72 ºC 72 ºC 2’ 1 ciclo 1’ 1’ 30 ciclos 1’ 10’ 1 ciclo Dutka-Malen et al., 1995 (550 pb) 94 ºC 94 ºC 58 ºC 72 ºC 72 ºC 3’ 1 ciclo 30’’ 2’ 40 ciclos 2’ 6’ 1 ciclo Dutka-Malen et al., 1995 (822 pb) 94 ºC 94 ºC 58 ºC 72 ºC 72 ºC 3’ 1 ciclo 1’ 1’ 30 ciclos 1’ 10’ 1 ciclo Dutka-Malen et al., 1995 (439 pb) E. hirae (murG) GGCATATTTATCCAGCACTAG CTCTGGATCAAGTCCATAAGTGG 94 ºC 94 ºC 60 ºC 72 ºC 72 ºC 2’ 1 ciclo 1’ 15’’ 30 ciclos 1’ 30’’ 7’ 1 ciclo Arias et al., 2006 (521 pb) E. durans (mur2) CGTCAGTACCCTTCTTTTGCAGAGTC GCATTATTACCAGTGTTAGTGGTTG 94 ºC 94 ºC 60 ºC 72 ºC 72 ºC 2’ 1 ciclo 1’ 15’’ 30 ciclos 1’ 30’’ 7’ 1 ciclo Arias et al., 2006 (521 pb) E. gallinarum (vanC1) GGTATCAAGGAAACCTC CTTCCGCCATCATAGCT E. casseliflavus (vanC2-vanC3) CTCCTACGATTCTCTTG CGAGCAAGACCTTTAAG 39 Material e Métodos Tabela 6: Sequência nucleotídica dos primers de PCR para genes codificadores de resistência a antibióticos em Enterococcus spp. Primers (sequência 5’ a 3’) Condições de amplificação Referência (Banda obtida) erm(A) TCTAAAAAGCATGTAAAAGAA CTTCGATAGTTTATTAATATTAGT 93 ºC 93 ºC 52 ºC 72 ºC 72 ºC 3’ 1 ciclo 1’ 1’ 35 ciclos 1’ 5’ 1 ciclo Sutcliffe et al., 1996 (645 pb) erm(B) GAAAAGRTACTCAACCAAATA AGTAACGGTACTTAAATTGTTTAC 93 ºC 93 ºC 52 ºC 72 ºC 72 ºC 3’ 1 ciclo 1’ 1’ 35 ciclos 1’ 5’ 1 ciclo Sutcliffe et al., 1996 (639 pb) erm(C) TCAAAACATAATATAGATAAA GCTAATATTGTTTAAATCGTCAAT 93 ºC 93 ºC 52 ºC 72 ºC 72 ºC 3’ 1 ciclo 1’ 1’ 35 ciclos 1’ 5’ 1 ciclo Sutcliffe et al., 1996 (642 pb) tet(M) GTTAAATAGTGTTCTTGGAG CTAAGATATGGCTCTAACAA 94 ºC 94 ºC 55 ºC 72 ºC 72 ºC 1’ 1 ciclo 1’ 2’ 30 ciclos 2’ 10’ 1 ciclo Aarestrup et al., 2000 (576 pb) tet(L) CATTTGGTCTTATTGGATCG CAATATCACCAGAGCAGGCT 94 ºC 94 ºC 50 ºC 72 ºC 72 ºC 1’ 1 ciclo 1’ 1’ 30 ciclos 1’ 10’ 1 ciclo Aarestrup et al., 2000 (456 pb) tet(K) TTAGGTGAAGGGTTAGGTCC GCAAACTCATTCCAGAAGCA 94 ºC 94 ºC 55 ºC 72 ºC 72 ºC 1’ 1 ciclo 1’ 2’ 30 ciclos 2’ 10’ 1 ciclo Aarestrup et al., 2000 (697 pb) vanA GGGAAAACGACAATTGC GTACAATGCGGCCGTTA 96 ºC 94 ºC 50 ºC 72 ºC 72 ºC 2’ 1 ciclo 30’’ 30’’ 35 ciclos 1’ 10’ 1 ciclo Miele et al, 1995 (732 pb) vanB ATGGGAAGCCGATAGTC GATTTCGTTCCTCGACC 95 ºC 94 ºC 58 ºC 72 ºC 72 ºC 10’ 1 ciclo 30’’ 30’’ 30 ciclos 30’’ 10’ 1 ciclo Dutka-Malen et al., 1995 (635 pb) 40 Material e Métodos Tabela 7: Sequências nucleotídicas dos primers de PCR para genes relacionados com a codificação de factores de virulência em Enterococcus spp. Primers (sequência 5’ a 3’) esp TTGCTAATGCTAGTCCACGACC GCGTCAACACTTGCATTGCCGAA hyl GAGTAGAGGAATATCTTAGC AGGCTCCAATTCTGT Condições de amplificação Referência (Banda obtida) 95 ºC 94 ºC 63 ºC 72 ºC 72 ºC 2’ 1 ciclo 45’’ 45’’ 30 ciclos 1’ 4’ 1 ciclo Eaton e Gasson, 2001 (955 pb) 94 ºC 94 ºC 80 ºC 72 ºC 72 ºC 4’ 1 ciclo 30’’ 30’’ 30 ciclos 30’’ 4’ 1 ciclo Klan et al., 2005 (661 pb) E. coli Tabela 8: Sequência nucleotídica dos primers de PCR para genes codificadores de resistência a antibióticos em E. coli. Primers (sequência 5’ a 3’) Condições de amplificação gyrA TACACCGGTCAACATTGAGG TTAATGATTGCCGCCGTCGG 92ºC 92ºC 64ºC 72ºC 72ºC 3’ 1 ciclo 25’’ 1’ 32 ciclos 2’ 50’’ 3’ 1 ciclo parC AAACCTGTTCAGCGCCGCATT GTGGTGCCGTTAAGCAAA 94ºC 94ºC 55ºC 72ºC 72ºC 3’ 1’ 1’ 1’ 3’ aadA GCAGCGCAATGACATTCTTG ATCCTTCGGCGCGATTTTG 94ºC 94ºC 60ºC 72ºC 72ºC 5’ 1’ 1’ 1’ 8’ cmlA TGTCATTTACGGCATACTCG ATCAGGCATCCCATTCCCAT 94ºC 94ºC 55ºC 72ºC 72ºC 5’ 1’ 1’ 1’ 7’ Referência (Banda obtida) Oram and Fisher, 1991 (648 pb) 1 ciclo 30 ciclos Vila et al., 1996 (395 pb) 1 ciclo 1 ciclo 35 ciclos Madsen et al., 2000 (282 pb) 1 ciclo 1 ciclo 30 ciclos 1 ciclo 41 Sáenz, 2004 (455 pb) Material e Métodos Tabela 8 (continuação): Sequência nucleotídica dos primers de PCR para genes codificadores de resistência a antibióticos em E. coli. Primers (sequência 5’ a 3’) blaTEM ACGCTCAGTGGAACGAAAAC TTCTTGAAGACGAAAGGGC Condições de amplificação 94ºC 94ºC 60ºC 72ºC 72ºC 3’ 1 ciclo 1‘ 1’ 30 ciclos 1’ 10’ 1 ciclo Referência (Banda obtida) Belaaouaj et al., 1994 (1150 pb) blaSHV CACTCAAGGATGTATTGTG TTAGCGTTGCCAGTGCTCG 96ºC 5’ 1 ciclo 96ºC 15‘’ 52ºC 15‘’ 24 ciclos 72ºC 2‘ 72ºC 5’ 1 ciclo blaOXA1 ACACAATACATATCAACTTCGC AGTGTGTTTAGAATGGTGATC 96ºC 96ºC 61ºC 72ºC 72ºC 5’ 1 ciclo 1’ 1’ 35 ciclos 2‘ 10’ 1 ciclo Steward et al., 2001 (813 pb) blaCTX-M9 GTGACAAAGAGAGTGCAACGG ATGATTCTCGCCGCTGAAGCC 94ºC 3’ 1 ciclo 94ºC 45’’ 60ºC 45’’ 35 ciclos 72ºC 45’’ 72ºC 10’ 1 ciclo Simarro et al., 2000 (856 pb) blaCTX-M-3G GTTACAATGTGTGAGAAGCAG CCGTTTCCGCTATTACAAAC 94ºC 7’ 1 ciclo 94ºC 50’’ 60ºC 40’’ 35 ciclos 72ºC 1’ 72ºC 5’ 1 ciclo Pagani et al., 2003 (800 pb) blaCMY GATTCCTTGGACTCTTCAG TAAAACCAGGTTCCCAGATAGC 95ºC 3’ 1 ciclo 94ºC 30’’ 53ºC 30’’ 30 ciclos 72ºC 30’’ 72ºC 3’ 1 ciclo Staplenton et al., 1999 (1800 pb) CGATGTGCAGTACCAGTAA TTAGTGACCAGAATCAGCGG 94ºC 94ºC 52ºC 72ºC 72ºC 5’ 1 ciclo 30’’ 30’’ 35 ciclos 1’ 5’ 1 ciclo Batchelor et al., 2005 (585 pb) ampC AATGGGTTTTCTACGGTCTG GGGCAGCAAATGTGGAGCAA 94ºC 3’ 1 ciclo 94ºC 1’ 57ºC 30’’ 10 ciclos 72ºC 6’ 72ºC 10’ 1 ciclo Staplenton et al., 1999 (1800 pb) blaCTX-MU 42 Pitout et al., 1998 (885 pb) Material e Métodos Tabela 8 (continuação): Sequência nucleotídica dos primers de PCR para genes codificadores de resistência a antibióticos em E. coli. Condições de amplificação Primers (sequência 5’ a 3’) Referência (Banda obtida) sul1 TGGTGACGGTGTTCGGCATTC GCGAGGGTTTCCGAGAAGGTG 94ºC 5’ 1 ciclo 94ºC 30 ‘’ 63ºC 30 ‘’ 30 ciclos 72ºC 1’ 72ºC 8’ 1 ciclo Mazel et al., 2000 (789 pb) sul2 CGGCATCGTCAACATAACC GTGTGCGGATGAAGTCAG 94ºC 5’ 1 ciclo 94ºC 30’’ 50ºC 30’’ 30 ciclos 72ºC 1’ 30’’ 72ºC 8’ 1 ciclo Maynard et al., 2003 (722 pb) sul3 CATTCTAGAAAACAGTCGTAGTTCG CATCTGCAGCTAACCTAGGGCTTTGGA 94ºC 94ºC 51ºC 72ºC 72ºC 5’ 1’ 1’ 1’ 5’ Perreten and Boerlin, 2003 (990 pb) 93ºC 93ºC 52ºC 72ºC 72ºC 3’ 1’ 1’ 1’ 5’ 93ºC 93ºC 52ºC 72ºC 72ºC 3’ 1’ 1’ 1’ 5’ erm(A) TCTAAAAAGCATGTAAAAGAA CTTCGATAGTTTATTAATATTAGT erm(B) GAAAAGRTACTCAACCAAATA AGTAACGGTACTTAAATTGTTTAC 1 ciclo 30 ciclos 1 ciclo 1 ciclo 35 ciclos Sutcliffe et al., 1996a; 1996b (645 pb) 1 ciclo 1 ciclo 35 ciclos Sutcliffe et al., 1996a; 1996b (639 pb) 1 ciclo tetA GTAATTCTGAGCACTGTCGC CTGCCTGGACAACATTGCTT 95ºC 5’ 1 ciclo 95ºC 30’’ 62ºC 30’’ 23 ciclos 72ºC 45’’ 72ºC 7’ 1 ciclo Guardabassi et al., 2000 (937 pb) tetB CTCAGTATTCCAAGCCTTTG CTAAGCACTTGTCTCCTGTT 95ºC 5’ 1 ciclo 95ºC 30’’ 57ºC 30’’ 25 ciclos 72ºC 20’’ 72ºC 7’ 1 ciclo Guardabassi et al., 2000 (416 pb) tetC TCTAACAATGCGCTCATCGT GGTTGAAGGCTCTCAAGGGC 95ºC 5’ 1 ciclo 95ºC 30’’ 62ºC 30’’ 30 ciclos 72ºC 30’’ 72ºC 7’ 1 ciclo Guardabassi et al., 2000 (570 pb) 43 Material e Métodos Tabela 9: Sequência nucleotídica dos primers de PCR para o estudo dos integrões de classe 1 e 2 em E. coli. Condições de amplificação Primers (sequência 5’ a 3’) Intl1 GGGTCAAGGATCTGGATTTCG ACATGGGTGTAAATCATCGTC 94ºC 5’ 1 ciclo 94ºC 30’’ 62ºC 30’’ 30 ciclos 72ºC 1’ 72ºC 8’ 1 ciclo Região variável do integrão de classe 1 (rvintl1) GGCATCCAAGCAGCAAG AAGCAGACTTGACCTGA 94ºC 94ºC 55ºC 65ºC 72ºC qacEǻ1 GGCTGGCTTTTTCTTGTTATCG TGAGCCCCATACCTACAAAGC 94ºC 5’ 1 ciclo 94ºC 30’’ 62ºC 30’’ 30 ciclos 72ºC 1’ 72ºC 8’ 1 ciclo IntI2 CACGGATATGCGACAAAAAGGT GTAGCAAACGAGTGACGAAATG 94ºC 5’ 1 ciclo 94ºC 30 ‘’ 62ºC 30 ‘’ 30 ciclos 72ºC 1’ 72ºC 8’ 1 ciclo 94ºC Região variável do integrão de classe 2 (rvintI2) 94ºC CGGGATCCCGGACGGCATGCACGATTTGTA 60ºC GATGCCATCGCAAGTACGAG 72ºC 72ºC 44 5’ 1’ 1’ 8’ 8’ 5’ 1’ 1’ 6’ 8’ Referência (Banda obtida) Mazel et al., 2000 (483 pb) 1 ciclo Levesque and Roy, 1993 35 ciclos (variável) 1 ciclo Mazel et al., 2000 (287 pb) Mazel et al., 2000 (788 pb) 1 ciclo White et al., 2001 35 ciclos (variável) 1 ciclo Material e Métodos Tabela 10: Sequência nucleotídica dos primers de PCR para o estudo dos factores de virulência em E. coli. Condições de amplificação Primers (sequência 5’ a 3’) papC GACGGCTGTACTGCAGGGTGTGGCG ATATCCTTTCTGCAGGGATGCAATA cnf1 AAGATGGAGTTTCCTATGCAGGAG CATTCAGAGTCCTGCCCTCATTATT 94ºC 3’ 1 ciclo 94ºC 1’ 63ºC 1’ 30 ciclos 72ºC 1’ 72ºC 3’ 1 ciclo 94ºC 94ºC 63ºC 72ºC 3’ 1 ciclo 1’ 1’ 30 ciclos 1’ 72ºC 3’ aer TACCGGATTGTCATATGCAGACCGT AATATCTTCCTCCAGTCCGGAGAAG hly AACAAGGATAAGCACTGTTCTGGCT ACCATATAAGCGGTCATTCCCGTCA 3’ 1 ciclo 1’ 1’ 30 ciclos 1’ 72ºC 3’ fimA GTTGTTCTGTCGGCTCTGTC ATGGTGTTGGTTCCGTTATTC 94ºC 94ºC 55ºC 72ºC papGIII CATTTATCGTCCTCAACTTAG AAGAAGGGATTTTGTAGCGTC Yamamoto et al., 1995 (602 pb) Yamamoto et al., 1995 (1177 pb) Ruiz et al., 2002 (447 pb) 1 ciclo 94ºC 3’ 1 ciclo 94ºC 1’ 55ºC 1’ 35 ciclos 72ºC 1’ 72ºC 3’ 1 ciclo 45 Yamamoto et al., 1995 (498 pb) 1 ciclo 3’ 1 ciclo 1’ 1’ 35 ciclos 1’ 72ºC 3’ Yamamoto et al., 1995 (328 pb) 1 ciclo 94ºC 3’ 1 ciclo 94ºC 1’ 63ºC 1’ 30 ciclos 72ºC 1’ 72ºC 3’ 1 ciclo 94ºC 94ºC 63ºC 72ºC Referência (Banda obtida) Ruiz et al., 2002 (482 pb) Material e Métodos Tabela 11: Sequência nucleotídica dos primers de PCR para o estudo dos grupos filogenéticos em E. coli. Primers (sequência 5’ a 3’) Condições de amplificação 94ºC 5’ Referência (Banda obtida) 1 ciclo chuaA 94ºC 30’’ GACGAACCAACGGTCAGGAT 55ºC 30’’ TGCCGCCAGTACCAAAGACA 72ºC 30’’ 30 ciclos 72ºC 7’ 1 ciclo 94ºC 5’ 1 ciclo yjaA 94ºC 30’’ TGAAGTGTCAGGAGACGCTG 55ºC 30’’ ATGGAGAATGCGTTCCTCAAC 72ºC 30’’ 30 ciclos 72ºC 7’ 1 ciclo 94ºC 5’ 1 ciclo tspE4.C2 94ºC 30’’ GAGTAATGTCGGGGCATTCA 55ºC 30’’ CGCGCCAACAAAGTATTACG 72ºC 30’’ 72ºC 7’ 30 ciclos Clermont et al., 2000 (279 pb) Clermont et al., 2000 (211 pb) Clermont et al., 2000 (152 pb) 1 ciclo 3.6. Electroforese em gel de agarose Após realizar a técnica de PCR, os amplicões obtidos foram visualizados através da electroforese horizontal em gel de agarose. Para preparar os géis utilizou-se uma concentração de agarose D-1, entre 1% a 2%, em relação ao tamanho dos fragmentos esperados. O tampão utilizado foi o TBE 1X (composto por: TBE 5X: 54g/l Tris (hidroximetil) aminometano; 27,5 g/l ácido bórico; 20 ml EDTA 0,5M [pH 8]) e brometo de etídio com concentração final de 0,5μg/ml. Aqueceu-se a mistura até à dissolução da agarose e, de seguida, colocou-se num suporte com um pente para formar os poços. Após o gel solidificar, depositaram-se os poços com 10μl do produto PCR junto com cerca de 2μl de tampão de carga (10% sacarose, 0,0025% azul de bromofenol em TE [10mM Tris (hidroximetil) aminometano, 1mM EDTA pH8]). No primeiro poço de cada gel depositou-se um marcador molecular, por vezes um amplicão positivo já estudado para o gene em questão ou um marcador de tamanho escalado. 46 Material e Métodos A electroforese foi realizada a 96 Volts (V) durante 45 minutos. Para visualizar e fotografar o gel foi utilizado um aparelho que consiste de um transiluminador de luz ultravioleta e um capturador de imagem, modelo Image Store 5000, UVP. 3.7. Electroforese em campo pulsado (PFGE) Todos os isolados produtores de BLAE foram estudados por PFGE para determinar a possível relação clonal. De seguida, descrevem-se os passos realizados. Preparação dos insertos: a partir de uma cultura pura em BHI-agar, colocou-se uma colónia em suspensão em 1ml de tampão SE (75mM NaCl; 25 mM EDTA, pH 8) até se atingir a absorvância de 1,35 a 610nm. Preparou-se a agarose (Chromosomal Grade Agarose BioRad) a 1,5% em tampão TE e manteve-se em agitação a 54ºC. De seguida, misturou-se 0,5ml da suspensão bacteriana com 0,5ml de agarose e repartiu-se pelos moldes moldes. Deixou-se solidificar 5 a 10 minutos no frigorífico. Proteólise bacteriana: adicionou-se 3 ml de tampão de proteólise (50mM Tris; 50mM EDTA; 1% sarcosil; 0,1 mg/ml proteinase K, pH 8) a cada inserto e incubou-se num Banho-Maria a 54ºC, com agitação durante 2 horas. Lavagens dos insertos: depois de eliminar o tampão de proteólise, fizeram-se em banho-Maria, com agitação, a 55ºC as lavagens: a) 10ml de água destilada esterilizada a cada 10 minutos, três vezes. b) 10ml de TE a cada 10 minutos, duas vezes. Os insertos foram guardados a 4ºC e podem ser utilizados até o máximo de um ano após este passo. Digestão enzimática: de cada isolado preparou-se um inserto no qual foi utilizada a enzima de restrição XbaI. O volume final do tampão de digestão foi de 100Pl por tubo ao qual se juntou 40U da enzima XbaI (NewEngland, Biolabs), BSA a 0,01%, o volume necessário do Tampão 10X de enzima e água destilada esterilizada. Deixaram-se a incubar os tubos durante 6h, em Banho-Maria, a 37ºC. Preparação do gel de agarose: preparou-se o gel de agarose (Pulsed Field Certified Agarose, BioRad) a 1% em TBE 0,5X. VErteu-se a agarose fundida no molde para fazer o gel, onde se colocou o pente correspondente e deixou-se solidificar à temperatura ambiente. Encheram-se os poços com os insertos, colocando no primeiro e último o marcador de tamanho, e fecharam-se com agarose a 50ºC. 47 Material e Métodos Electroforese: colocou-se numa tina de electroforese de campo pulsado CHEFDR II (BioRad), 2 litros de TBE 0,5X suplementado com tioureia 75μM. Utilizou-se como gradiente de voltagem de voltagem 6V/cm e manteve-se um pulso de 1 a 30 segundos durante 23 horas a 14ºC. Coloração do gel e visualização: colocou-se o gel em uma solução aquosa de 200ml de brometo de etídio (10Pl/200ml) durante 10 minutos, lavando, posteriormente, com água miliQ. Foi visualizado e fotografado no transiluminador ultravioleta e captador de imagens. Análise dos padrões de PFGE: os padrões compararam-se e foram classificados em indistinguíveis, aproximadamente relacionados, possivelmente relacionados e não relacionados (Tenover et al., 1995). 3.8. Sequenciação Depois de visualizar o produto de PCR, os amplicões de diferentes genes de resistência aos antibióticos foram sequenciados. A sequenciação foi realizada através do uso dos mesmos primers que utilizados para a reacção de PCR. O sistema utilizado foi o ABI Prism 3730 Genetic Analyser (Applied Biosystems) através do serviço de uma empresa especializada (Genome Express - França). A análise das sequências obtidas foram realizadas através de diversas ferramentas alojadas nos links http://molbiol-tools.ca/ e http://www.ebi.ac.uk/ e base de dados (http://blast.ncbi.nlm.nih.gov/Blast.cgi) disponíveis na internet, que permitem obter o alinhamento de sequências, comparar e procurar por possíveis mutações que possam ter ocorrido. 48 4. Resultados 4.1. Enterococcus spp. 4.1.1. Isolamento de Enterococcus spp. em placas de Slanetz-Bartley suplementadas com vancomicina A partir de um total de 119 amostras fecais (54 de avestruz, 30 de suíno comercial e 35 de suíno bísaro), semeadas em placas de meio selectivo Slanetz-Bartley (SB) suplementadas com vancomicina (4 μg/ml), obtiveram-se sete isolados das amostras de avestruz. Estes constituem 13% dos isolados de avestruz e são denominados enterococos resistentes à vancomicina (VRE). Na Figura 5 podemos observar a distribuição das amostras fecais utilizadas no estudo em função da origem animal. Avestruz Porco comercial 29,41% Porco bísaro 45,38% 25,21% Figura 5: Distribuição das amostras fecais em função das espécies animais de origem. Através de métodos moleculares e bioquímicos foram identificados quatro isolados como E. durans e três como E. gallinarum. 49 Resultados 4.1.2. Isolamento de Enterococcus spp. em placas de Slanetz-Bartley não suplementadas com vancomicina A partir das amostras atrás referidas obtiveram-se 119 isolados (54 de avestruz, 30 de suíno comercial e 35 de suíno bísaro). A Tabela 12 refere as espécies de enterococos isolados de acordo com cada origem animal. Tabela 12: Número e percentagem de espécies de enterococos obtidos nas placas de Slanetz-Bartley não suplementadas com vancomicina. Origem animal Espécies Avestruz N=54 de Enterococcus spp. Suíno Total N=119 n.º % Comercial N=30 n.º % Bísaro N=35 n.º % n.º % E. faecium 14 25,9% 2 6,7% 16 45,7% 32 26,9% E. faecalis 0 0% 0 0% 0 0% 0 0 E. hirae 31 57,4% 14 46,7% 9 25,7% 54 45,4% E. durans 0 0% 0 0% 1 2,9% 1 0,8% E. gallinarum 0 0% 0 0% 1 2,9% 1 0,8% E. casseliflavus 2 3,7% 0 0% 0 0% 2 1,7% Enterococcus spp. 7 13% 14 46,7% 8 22,9% 29 24,4% N- número total de isolados; n- número de isolados de determinada espécie de enterococos; %- percentagem de isolados. Dos 54 isolados de avestruz obtidos, 57,4% foram identificados como E. hirae, 25,9% como E. faecium, 3,7% como E. casseliflavus e em 13% não foi possível identificar a espécie (Tabela 12). Dos 30 isolados de suíno comercial obtidos, 46,7% foram identificados como E. hirae, 6,7% como E. faecium e em 46,7% não foi possível identificar a espécie. Dos 35 isolados de suíno bísaro obtidos, 45,7% foram identificados como E. faecium, 25,7% como E. hirae, 2,9% como E. durans, 2,9% como E. gallinarum e em 22,9% não foi possível identificar a espécie (Tabela 12). 50 Resultados Assim, do total de isolados, 45,4% foram identificados como E. hirae, 26,9% como E. faecium, 1,7% como E. casseliflavus 0,8% como E. durans, 0,8% como E. gallinarum. De todos os isolados, 24,4% não foram identificados ao nível da espécie. 4.1.3. Estudo da sensibilidade aos antibióticos nos isolados de enterococos 4.1.3.1. Isolados obtidos nas placas de Slanetz-Bartley suplementadas com vancomicina Os sete isolados VRE obtidos manifestaram fenótipo de resistência à vancomicina, seis apresentaram resistência à tetraciclina, cinco à eritromicina, quatro à teicoplanina e dois à ciprofloxacina (Tabela 13). Tabela 13: Fenótipo de resistência apresentado pelos isolados VRE. Amostra Origem Espécie de enterococos Fenótipo de resistência 36 VRE Avestruz E. durans TET, TEI, VAN, ERY 39 VRE Avestruz E. durans TET, TEI, VAN, CIP, ERY 42 VRE Avestruz E. durans TET, TEI, VAN, ERY 47 VRE Avestruz E. gallinarum TET, VAN 49 VRE Avestruz E. gallinarum TET, VAN 52 VRE Avestruz E. gallinarum VAN, ERY 53 VRE Avestruz E. durans TET, TEI, VAN, CIP, ERY TET- tetraciclina; TEI- teicoplanina; VAN- vancomicina; ERY- eritromicina; CIP- ciprofloxacina. Três dos isolados apresentaram resistência a dois antibióticos, dois a quatro antibióticos e outros dois isolados apresentaram fenótipo de resistência a cinco antibióticos. Os isolados identificados como Enterococcus durans mostraram um fenótipo multirresistente enquanto os isolados de E. gallinarum foram apenas resistentes a dois antibióticos (Tabela 13). 51 Resultados 4.1.3.2. Isolados obtidos nas placas de Slanetz-Bartley não suplementadas com vancomicina Dos 54 isolados de avestruz, 35,2% apresentaram fenótipo de resistência à tetraciclina, 3,7% à eritromicina e apenas, 1,9% à ampicilina, quinupristinadalfopristina, estreptomicina e canamicina (Tabela 14). Todos os isolados de suíno comercial apresentaram fenótipo de resistência à tetraciclina, 23,3% à eritromicina, 10% à quinupristina-dalfopristina e 3,3% à gentamicina. Dos 35 isolados de suíno bísaro, 91,4% manifestaram fenótipo de resistência à tetraciclina, 45,7% à eritromicina, 14,3% à canamicina, 11,4% à estreptomicina e 2,9% à gentamicina. Do total dos isolados, apenas um isolado de avestruz foi resistente à ampicilina. Nenhum isolado manifestou resistência à ciprofloxacina, cloranfenicol, teicoplanina e vancomicina. A maioria dos isolados (68,1%) foi resistente à tetraciclina (Figura 6). Tabela 14: Resistência fenotipica aos antibióticos nos isolados de enterococos obtidos em placas não suplementadas com vancomicina. Isolados de Isolados de suíno Total avestruz Antibióticos Comercial N=30 N=54 N=119 Bísaro N=35 n.º % n.º % n.º % n.º % AMP 1 1,9 0 0 0 0 1 0,8 CIP 0 0 0 0 0 0 0 0 CHL 0 0 0 0 0 0 0 0 ERY 2 3,7 7 23,3 16 45,7 25 21 Q-D 1 1,9 3 10 0 0 4 3,4 TET 19 35,2 30 100 32 91,4 81 68,1 TEI 0 0 0 0 0 0 0 0 VAN 0 0 0 0 0 0 0 0 STR 1 1,9 0 0 4 11,4 5 4,2 GEN 0 0 1 3,3 1 2,9 2 1,7 KAN 1 1,9 0 0 5 14,3 6 5 N- número total de isolados; n- número de isolados resistentes ao antibiótico; %- percentagem de isolados resistentes. AMP- ampicilina; CIP- ciprofloxacina; CHL- cloranfenicol; ERY- eritromicina; Q-D- quinupristina-dalfopristina; TET- tetraciclina; TEI- teicoplanina; VAN- vancomicina; STR- estreptomicina; GEN- gentamicina; KANcanamicina. 52 Resultados 100% 80% 60% Avestruz Porco comercial 40% Porco bisaro 20% 0% AMP CIP CHL ERY Q-D TET TEI VAN STR GEN KAN Figura 6: Percentagem de resistência aos antibióticos para os isolados de cada origem. AMP- ampicilina; CIPciprofloxacina; CHL- cloranfenicol; ERY- eritromicina; Q-D- quinupristina-dalfopristina; TET- tetraciclina; TEIteicoplanina; VAN- vancomicina; STR- estreptomicina; GEN- gentamicina; KAN- canamicina. Dos 54 isolados de avestruz, 61,1% foram susceptíveis a todos os antibióticos, 31,5% foram resistentes a um antibiótico e 7,4% tiveram um fenótipo de resistência a dois antibióticos (Tabela 15). Nenhum dos isolados de suíno comercial foi susceptível a todos os antibióticos, 73,3% foram resistentes a um antibiótico e 20% foram resistentes a dois antibióticos. A percentagem de isolados de suíno comercial com fenótipo de resistência a três ou a quatro antibióticos foi 3,3%. Dos 35 isolados de suíno bísaro, 5,7% são susceptíveis a todos os antibióticos, 42,9% tiveram um fenótipo de resistência a um antibiótico, 37,1% foram resistentes a dois antibióticos, 8,6% a 3 antibióticos e 5,7% a quatro antibióticos. Tabela 15: Resistência aos antibióticos nos isolados de diferentes origens. Isolados de suíno Isolados de avestruz Resistências Total Comercial Bísaro n.º % n.º % n.º % n.º % 0 antibióticos 33 61,1 0 0 2 5,7 35 29,4 1 antibioticos 17 31,5 22 73,3 15 42,9 54 45,4 2 antibióticos 4 7,4 6 20 13 37,1 23 19,3 3 antibióticos 0 0 1 3,3 3 8,6 4 3,4 4 antibióticos 0 0 1 3,3 2 5,7 3 2,5 n- número de isolados resistentes; %- percentagem de isolados resistentes. 53 Resultados Os isolados de avestruz não apresentam fenótipos de resistência a mais de dois antibióticos e os isolados de suíno comercial e suíno bísaro não apresentam a mais de quatro antibióticos. No total dos isolados, 29,4% foram susceptíveis a todos os antibióticos, 45,4% foram resistentes a um antibiótico, 19,3% foram resistentes a dois antibióticos, 3,4% foram resistentes a três antibióticos e 2,5% foram resistentes a quatro antibióticos (Tabela 15). 4.1.3.3. Caracterização genotípica dos mecanismos de resistência Estudou-se, nos isolados VRE, os mecanismos de resistência a diferentes antibióticos. Para determinar os diferentes genótipos de resistência aos glicopétpidos estudou-se, pela técnica de PCR, a presença dos genes vanA, vanB, vanC1, vanC2 e vanD. Dos sete isolados VRE, quatro isolados possuíram o gene vanA (7,4% das amostras fecais de avestruz) e três isolados o gene vanC1 (5,6% das amostras fecais de avestruz) (Tabela 16). Posteriormente, caracterizou-se a resistência destes isolados VRE à tetraciclina, através da presença dos genes tet(M), tet(L) e tet(K), e à eritromicina, através da presença dos genes erm(A), erm(B) e erm(C). Os seis isolados resistentes à tetraciclina possuíam o gene tet(M) e os cinco isolados resistentes à eritromicina possuíam o gene erm(B) (Tabela 16). Tabela 16: Fenótipos e genótipos de resistências aos antibióticos nos isolados VRE. Espécie de Mecanismo de enterococos resistência van Avestruz E. durans vanA TET, TEI, VAN, ERY erm(B), tet(M) 39 VRE Avestruz E. durans vanA TET, TEI, VAN, CIP, ERY erm(B), tet(M) 42 VRE Avestruz E. durans vanA TET, TEI, VAN, ERY erm(B), tet(M) 47 VRE Avestruz E. gallinarum vanC1 TET, VAN erm(B), tet(M) 49 VRE Avestruz E. gallinarum vanC1 TET, VAN tet(M) 52 VRE Avestruz E. gallinarum vanC1 VAN, ERY erm(B) 53 VRE Avestruz E. durans vanA TET, TEI, VAN, CIP, ERY erm(B), tet(M) Amostra Origem 36 VRE Fenótipo de resistência TET- tetraciclina; TEI- teicoplanina; VAN- vancomicina; ERY- eritromicina; CIP- ciprofloxacina. 54 Genótipo de resistência Resultados Como podemos observar na Tabela 16, os isolados VRE com resistência à tetraciclina possuíam o gene tet(M), que modifica a conformação ribossomal e provoca a consequente resistência. Os isolados VRE resistentes à eritromicina possuíam o gene erm(B) que codifica uma enzima metilase que actua no local de ligação do ribossoma ao antibiótico. 4.1.4. Produção de factores de virulência Analisou-se nos isolados VRE, através da técnica de PCR, a presença dos genes codificadores de factores de virulência esp e hyl. O gene esp não foi detectado nos sete isolados e o gene hyl, codificador da hialuronidase, manifestou-se nos três isolados VRE da espécie E. gallinarum. Na Figura 7 pode observar-se a imagem do gel de electroforese com os três isolados VanC1 positivos ao gene hyl. 1 2 3 4 5 6 Figura 7: Imagem do gel de electroforese resultante da amplificação por PCR do gene hyl. Poço 1- isolado 47VRE; Poço 2-isolado 49VRE; Poço 3- isolado 52VRE; Poços 4 e 5- controlo negativo Poço 6- marcador de tamanho. 55 Resultados 4.2. Escherichia coli 4.2.1. Isolamento de E. coli em placas de Levine suplementadas com cefotaxima A partir de um total de 78 amostras fecais (13 de burro, 30 de suíno comercial e 35 de suíno bísaro), semeadas em placas de meio selectivo Levine suplementadas com cefotaxima (2 μg/ml) e isolada uma colónia por placa, obtiveram-se 17 isolados (um de burro, sete de suíno comercial e nove de suíno bísaro). Estes isolados constituem 7,7% das amostras fecais de burro, 23,3% das amostras de suíno comercial e 25,7% das amostras de suíno comercial. Na Figura 8 podemos observar a distribuição das amostras fecais, utilizadas no estudo em função da origem animal. Burro Porco comercial 38,46% 44,87% Porco bísaro 16,67% Figura 8: Distribuição das amostras fecais, semeadas em Levine suplementado, em função das espécies de origem. 4.2.2. Isolamento de E. coli em placas de Levine não suplementadas com cefotaxima A partir de um total de 155 amostras fecais (13 de burro, 30 de suíno comercial, 35 de suíno bísaro e 77 de javali), semeadas em placas de meio selectivo Levine, 56 Resultados obtiveram-se 145 isolados (12 de burro, 29 de suíno comercial, 35 de suíno bísaro e 69 de javali). Na Figura 9 podemos observar a distribuição das amostras semeadas nas placas de Levine não suplementadas em função da origem. 22,58% 49,68% Burro Porco comercial Porco bísaro Javali 19,35% 8,39% Figura 9: Distribuição das amostras fecais, semeadas em Levine não suplementado, em função das espécies de origem. 4.2.3. Estudo da sensibilidade aos antibióticos nos isolados de E. coli 4.2.3.1. Isolados obtidos nas placas de Levine suplementadas com cefotaxima Todos os 17 isolados de E. coli apresentaram fenótipo de resistência à ampicilina, 15 à tetraciclina, 14 à cefotaxima, 11 à estretpomicina, dois ao aztreonam, dois ao ácido nalidíxico, um à ciprofloxacina, um ao cloranfenicol e um à amoxicilina+ácido clavulânico (Tabela 17). Todos os isolados das placas de Levine suplementadas com cefotaxima são produtores de ȕ-lactamases de amplo espectro porque apresentaram uma ampliação dos halos de inibição (ghost zone) entre o disco da amoxicilina + ácido clavulânico e os restantes ȕ-lactâmicos colocados em redor. A produção destas enzimas foi 57 Resultados posteriormente confirmada caracterizando o tipo de ȕ-lactamases de amplo espectro que os isolados produzem (blaCTX-M, blaTEM, blaOXA, blaSHV e blaCMY). Tabela 17: Fenótipo de resistência aos antibióticos em E. coli obtidas de placas não suplementadas com cefotaxima. Amostra Origem Fenótipo de resistência B12 BLAE Burro AMP;CIP; TET; NAL PC8 BLAE Suíno comercial CTX;AMP;TET PC9 BLAE Suíno comercial CTX;ATM;AMP;TET;STR PC11 BLAE Suíno comercial AMP PC12 BLAE Suíno comercial CTX;AMP;TET PC17 BLAE Suíno comercial CTX;AMP;TET; STR PC21 BLAE Suíno comercial AMC;CTX;AMP;TET; CHL PC23 BLAE Suíno comercial AMP;TET PB4 BLAE Suíno bísaro CTX;AMP;TET; STR PB9 BLAE Suíno bísaro CTX;AMP;TET; STR; SXT PB10 BLAE Suíno bísaro CTX;AMP;TET; STR PB12 BLAE Suíno bísaro CTX;AMP;TET; STR PB14 BLAE Suíno bísaro CTX;AMP;TET; STR PB18 BLAE Suíno bísaro CTX;AMP;TET; STR; NAL PB19 BLAE Suíno bísaro CTX;AMP;TET; STR PB25 BLAE Suíno bísaro CTX;AMP;TET; STR PB26 BLAE Suíno bísaro CTX;ATM;AMP;STR BLAE- ȕ-lactamases de amplo espectro; AMP- ampicilina; CIP- ciprofloxacina; TET- tetraciclina; NAL- ácido nalidíxico; CTX- cefotaxima; ATM- aztreonam; STR- estreptomicina; AMC- amoxicilina+ácido clavulânico; CHLcloranfenicol; SXT- sulfametoxazol-trimetropim. Um isolado apresentou resistência a apenas um antibiótico, um foi resistente a dois antibióticos, dois foram resistentes a três antibióticos, nove foram resistentes a quatro antibióticos e quatro foram resistentes a cinco antibióticos (Tabela 17). 4.2.3.2. Isolados obtidos nas placas de Levine não suplementadas com cefotaxima Dos 12 isolados de burro, 8,3% apresentaram fenótipo de resistência à ampicilina e estreptomicina (Tabela 18). 58 Resultados Dos 29 isolados de suíno comercial, 82,8% apresentaram resistência à tetraciclina, 17,2% à estreptomicina, 13,8% à ampiciclina e sulfametoxazol-trimetropim e 3,5% à gentamicina (Tabela 18). Dos 35 isolados de suíno bísaro, 97,1% manifestaram resistência à tetraciclina, 54,3% à estreptomicina, 37,1% à ampicilina, 14,3% a sulfametoxazol-trimetropim e 5,7% foi o valor obtido para as resistências à cefoxitina, ácido nalidíxico, ciprofloxacina e cloranfenicol. A percentagem de resistentes à amoxicilina+ácido clavulânico e ao aztreonam foi de 2,9%. Do total dos isolados nenhum mostrou resistência à cefotaxima, ceftazidima, imipenemo, amicacina e tobramicina. Tabela 18: Resistência aos antibióticos nos isolados de E. coli. Isolados de Antibióticos Isolados de suíno Isolados de suíno Isolados de Burro comercial bísaro Javali N=12 N=29 N=35 N=69 Total N=145 n.º % n.º % n.º % n.º % n.º % AMP 1 8,3 4 13,8 13 37,1 18 26,1 36 24,83« AMC 0 0 0 0 1 2,9 1 1,5 2 1,4 FOX 0 0 0 0 2 5,7 1 1,5 3 2,1 CTX 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 CAZ 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 ATM 0 0 0 0 1 2,9 0 0 1 0,7 IMP 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 GEN 0 0 1 3,5 0 0 1 1,5 2 1,4 AK 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 TOB 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 STR 1 8,3 5 17,2 19 54,3 6 8,7 31 21,4 NAL 0 0 0 0 2 5,7 11 15,9 13 9 CIP 0 0 0 0 2 5,7 0 0 2 1,4 SXT 0 0 4 13,8 5 14,3 9 13 18 12,4 TET 0 0 24 82,8 34 97,1 30 43,5 88 60,7 CHL 0 0 0 0 2 5,7 0 0 2 1,4 AMP- ampicilina; AMC- amoxicilina+ácido clavulânico; FOX- cefotaxima; CTX- cefotaxima; CAZ- ceftazidima; ATM- aztreonam; IMP- imipenemo; GEN- gentamicina; AK- amicacina; TOB- tobramicina; STR- estreptomicina; NAL- ácido nalidíxico; CIP- ciprofloxacina; SXT- sulfametoxazol-trimetropim; TET- tetraciclina; CHLcloranfenicol. A maioria dos isolados apresentou elevada percentagem de resistência à tetraciclina (60,7%) e ainda resistências elevadas a outros dois antibióticos: ampicilina (24,8%) e estreptomicina (21,3%) (Figura 10). 59 Resultados Como podemos observar na Figura 10 os isolados de suíno bísaro apresentaram resistência a um maior número de diferentes antibióticos e oito destes possuíam maior percentagem de resistência que os isolados das restantes origens. Apenas os isolados de suíno comercial e javali apresentaram resistência à gentamicina. Burro Porco comercial Porco bísaro Javali 100% 80% 60% 40% 20% 0% Figura 10: Resistência aos antibióticos nos isolados de E. coli de diferentes origens. AMP- ampicilina; AMCamoxicilina+ácido clavulânico; FOX- cefotaxima; CTX- cefotaxima; CAZ- ceftazidima; ATM- aztreonam; IMPimipenemo; GEN- gentamicina; AK- amicacina; TOB- tobramicina; STR- estreptomicina; NAL- ácido nalidíxico; CIP- ciprofloxacina; SXT- sulfametoxazol-trimetropim; TET- tetraciclina; CHL- cloranfenicol. Dos 12 isolados de burro, 83,3% (10/12) foram susceptíveis a todos os antibióticos e 16,7% (2/12) resistentes a um antibiótico. Não se detectaram isolados de burro com resistência a mais que um antibiótico (Tabela 19). Dos 29 isolados de suíno comercial, 17,2% (5/29) foram susceptíveis a todos os antibióticos, 55,2% (16/29) resistentes a um antibiótico, 13,8% (4/29) foram resistentes a dois antibióticos, 6,9% (2/29) foram resistentes a três antibióticos e 6,9% (2/29) foram resistentes a quatro antibióticos. Não se detectaram isolados de suíno comercial com resistência a mais de 4 antibióticos. Dos 35 isolados de suíno bísaro, apenas um isolado (2,9%) foi susceptível a todos os antibióticos, 25,7% (9/35) foram resistentes a um antibiótico, 22,9% (8/35) foram resistentes a dois antibióticos, 28,6% (10/35) foram resistentes a três antibióticos e 14,3% possuíram resistência a quatro antibióticos. Adicionalmente, 2,3% (1/35) foram resistentes a seis e sete antibióticos. Não se detectaram isolados de suíno bísaro com resistência a cinco ou mais de sete antibióticos. Dos 69 isolados de javali, 50,7% 60 Resultados (35/69) foram susceptíveis a todos os antibióticos, 13% (9/69) foram resistentes a um antibiótico, 15,9% (11/69) foram resistentes a dois antibióticos, 13% (9/69) foram resistentes a três antibióticos, 5,8% (5/69) foram resistentes a quatro antibióticos e 1,5% (1/69) foram resistentes a cinco antibióticos. Não se detectaram isolados de javali resistentes a mais de cinco antibióticos. No total dos isolados, 35,2% (51/145) foram susceptíveis a todos os antibióticos, 24,8% (36/145) foram resistentes a um antibiótico e 14,5% (21/145) foram resistentes a três antibióticos. A percentagem de isolados multirresistentes foi no total 24,2% (35/145) embora, nos isolados de suíno bísaro, este valor seja de 48,6% (17/35). Tabela 19: Resistência aos antibióticos nos isolados das diferentes origens. Isolados de suíno Isolados de Burro Antibióticos Comercial Isolados de Total Javali Bísaro n.º % n.º % n.º % n.º % n.º % 0 antibióticos 10 83,3 5 17,3 1 2,9 35 50,7 51 35,2 1 antibioticos 2 16,7 16 55,2 9 25,7 9 13 36 24,8 2 antibióticos 0 0 4 13,8 8 22,9 11 15,9 23 15,9 3 antibióticos 0 0 2 6,9 10 28,6 9 13 21 14,5 4 antibióticos 0 0 2 6,9 5 14,3 4 5,8 11 7,6 5 antibióticos 0 0 0 0 0 0 1 1,5 1 0,7 6 antibióticos 0 0 0 0 1 2,9 0 0 1 0,7 7 antibióticos 0 0 0 0 1 2,9 0 0 1 0,7 n- número de isolados resistentes; %- percentagem de isolados resistentes. 4.2.3.3. Caracterização genotípica dos mecanismos de resistência Na análise dos isolados de E. coli BLAE procedeu-se com a caracterização dos mecanismos de resistência a diferentes antibióticos (tetraciclina, cloranfenicol, estreptomicina, sulfametoxazol-trimetropim e quinolonas) e confirmação do tipo de ȕlactamases de amplo espectro que os isolados produzem pesquisando e sequenciando os genes blaCTX-M, blaTEM, blaOXA, blaSHV e blaCMY. Através da técnica de PCR realizou-se o estudo dos genes codificadores dos diferentes mecanismos de resistência aos 61 Resultados antibióticos ou, como no caso da resistência às quinolonas, pesquisaram-se mutações que podem levar à respectiva resistência. Para determinar os diferentes mecanismos de resistência à tetraciclina, pela técnica de PCR, foi estudada a presença dos genes tetA, tetB e tetC. Para o sulfametoxazol pesquisaram-se os genes sul1, sul2 e sul3. Para o cloranfenicol analisouse o gene cmlA. No caso das quinolonas pesquisaram-se os genes gyrA e parC e sequenciaram-se os amplicões obtidos para determinar, por comparação com sequências tipo (com os números de acesso no GenBank X06373 e M58408, respectivamente), se existiam mutações que podiam causar a resistência. Na Tabela 20 pode-se observar os isolados de E. coli BLAE obtidos com os respectivos fenótipos e mecanismos de resistência a diferentes antibióticos. Tabela 20: Fenótipos e mecanismos de resistência aos antibióticos detectados nos isolados de E. coli produtoras de ȕ-lactamases de amplo espectro. Mecanismo de resistência Amostra B12 BLAE Origem Burro Mutações Fenótipo de resistência (não ȕ-lactâmicos) TET PC9 BLAE Suíno comercial TET; STR PC11 BLAE Suíno comercial - PC12 BLAE Suíno comercial TET detectados blaCTX-M14;blaTEM1b;tetB CIP; TET; NAL PC8 BLAE Suíno comercial Genes de resistência blaCTX-M1;tetA aminoacídicas gyrA parC S83L;D87N S80I - - blaCTX-M1;blaTEM1b;tetA;aadA - - blaCTX-M1 - - blaCTX-M1;tetA - - PC17 BLAE Suíno comercial TET; STR blaCTX-M1;blaTEM1b; tetA - - PC21 BLAE Suíno comercial TET; CHL blaCTX-M1;tetA - - PC23 BLAE Suíno comercial TET blaCTX-M1;tetA - - blaCTX-M1;blaTEM1b;tetA;aadA - - PB4 BLAE Suíno bísaro TET; STR PB9 BLAE Suíno bísaro TET; STR; SXT blaCTX-M1;tetA;aadA - - PB10 BLAE Suíno bísaro TET; STR blaCTX-M1;blaTEM1b; tetA - - PB12 BLAE Suíno bísaro TET; STR blaCTX-M1;aadA - - PB14 BLAE Suíno bísaro TET; STR blaCTX-M1;blaTEM1b;tetA;aadA - - PB18 BLAE Suíno bísaro TET; STR; NAL blaCTX-M1;blaTEM1b;tetA;aadA n.d. - PB19 BLAE Suíno bísaro TET; STR blaCTX-M1;blaTEM1b;aadA - - PB25 BLAE Suíno bísaro TET; STR blaCTX-M1;blaTEM1b;tetA;aadA - - PB26 BLAE Suíno bísaro STR blaCTX-M1;aadA - - n.d.- não detectada; BLAE- ȕ-lactamases de amplo espectro; CIP- ciprofloxacina; TET- tetraciclina; NAL- ácido nalidíxico; STR- estreptomicina; CHL- cloranfenicol; SXT- sulfametoxazol-trimetropim; S- serina; L- leucina; Dácido aspártico; N- asparagina; I- isoleucina. 62 Resultados Dos 17 isolados produtores de ȕ-lactamases de amplo espectro, 94,1% (16/17) possuíam o gene blaCTX-M-1, dos quais oito se detectaram em conjunto com o gene blaTEM-1b. Um dos isolados, 5,9% (1/17) possuía o gene blaCTX-M-14 em conjunto com o gene blaTEM-1b. O gene blaTEM-1b esteve presente em 52,9% (9/17) dos isolados (Tabela 20). Dos 15 isolados com fenótipo de resistência à tetraciclina, 80% (12/15) manifestaram o gene tetA, 6,7% (1/15) contiveram o gene tetB e 13,3% (2/15) não continham nenhum dos genes pesquisados. Dos 10 isolados com fenótipo de resistência à estreptomicina, 90% (9/10) possuíam o gene aadA. O isolado com fenótipo de resistência ao cloranfenicol não possuía o gene cmlA e o isolado com fenótipo de resistência ao sulfametoxazol-trimetropim não possuía os genes sul1, sul2 ou sul3. Dos dois isolados resistentes às quinolonas, o isolado de burro possuía o gene gyrA com duas mutações que provocam a alterações aminoacídicas (substituição no tripleto 83 da produção de serina por leucina e no tripleto 87 da produção de ácido aspártico por asparagina) e o gene parC com uma mutação que causa alteração aminoacídica (substituição no tripleto 80 da produção de serina por isoleucina). No isolado de suíno bísaro com fenótipo de resistência ao ácido nalidíxico não foram detectadas mutações (Tabela 20 e Figura 11). Figura 11: Comparação da sequência nucleotídica do gene gyrA do isolado de burro com a sequência do gene gyrA selvagem publicado por Swandberg and Wang, 1987. As mutações, nos tripletos que implicam substituições aminoacídicas, estão assinaladas a vermelho. 63 Resultados 4.2.4. Caracterização dos integrões Analisou-se a presença de integrões de classe 1 e 2 nos 19 isolados de E. coli com fenótipo de resistência ao sulfametoxazol-trimetropim. Amplificou-se por PCR um fragmento do gene codificador da integrase do tipo 1 e do tipo 2 (intl1 e intl2, respectivamente) e observou-se a presença de integrões de classe 1 em 15 (79%) dos isolados e de integrões de classe 2 em três (15,8%) isolados. Os dois genes codificadores das integrases foram detectados em simultâneo em dois isolados (um de suíno bísaro e um de javali). Os integrões de classe 1, geralmente, possuem uma região conservada 3’ onde se incluem os genes qacEǻ1 e sul1. Dos 15 isolados que possuem o integrão de classe 1, 12 amplificaram o gene qacEǻ1+sul1. Nos 16 isolados que amplificaram o gene intl1 e/ou o gene intl2, a região variável do integrão de classe 1 e 2, respectivamente, foi analisada através de PCR e posterior sequenciação. Os resultados obtidos estão apresentados nas Tabelas 21 e 22. Tabela 21: Estudo das regiões variáveis dos integrões de classe 1 em isolados de E. coli resistentes ao sulfametoxazol-trimetropim. “Genes cassete” da região Detecção do gene variável do integrão de classe 1 qacEǻ1+sul1 Amostras Suíno comercial: - PC1; PC6; dfrA1+aadA1 Suíno bísaro: + - PB23; PB28; PB29; Javali: - J27; J39; J43; J47; J70; J71 dfrA17+aadA5 Suíno comercial: + - PC6 Suíno comercial: dfrA1 - PC18 - Javali: - J36 dfrA12+orfF+aadA2 Suíno bísaro: - - PB16 PC- Suíno Comercial; PB- Suíno Bísaro; J- Javali 64 Resultados Tabela 22: Estudo das regiões variáveis dos integrões de classe 2 em isolados de E. coli resistentes ao sulfametoxazol-trimetropim. “Genes cassete” da região variável do integrão de Amostras classe 2 Suíno bísaro: - PB23 dfrA1+sat1+aadA1 - PB9 BLAE Javali: - J71 PB- Suíno Bísaro; J- Javali Sequenciaram-se quatro tipos diferentes de regiões variáveis do integrão de classe 1 e apenas um tipo de região variável do integrão de classe 2. Os isolados PB23 de suíno bísaro e J71 de javali possuíam dois integrões, um de classe 1 (dfrA1+aadA1) e outro de classe 2 (dfrA1+sat1+aadA1) (Tabela 21 e 22). Dos 15 isolados que possuem integrões de classe 1, 11 manifestaram a região variável dfrA1+aadA1, dois revelaram a região variável dfrA1, um manifestou a região variável dfrA17+aadA5 e um revelou a região variável dfrA12+orfF+aadA2 (Tabela 21). Os três isolados que possuíam integrões de classe 2 revelaram a região variável dfrA1+sat1+aadA1 (Tabela 22). Os genes encontrados nas regiões variáveis são responsáveis por resistências aos antibióticos. Os genes dfrA1, dfrA12 e dfrA17 conferem resistência ao trimetropim. Os genes aadA1, aadA2 e aadA5 codificam resistência à estreptomicina. O gene sat1 codifica uma acetiltransferase capaz de inactivar a estreptomicina. 4.2.5. Produção de factores de virulência Analisou-se, nos isolados BLAE, através da técnica de PCR, a presença dos genes codificadores de factores de virulência fimA, aer, papGIII, papC, cnf1 e hly. Dos 17 isolados (um de burro, sete de suíno comercial e nove de suíno bísaro), o isolado de burro manifestou os genes fimA e aer, os sete isolados de suíno comercial expressaram o gene fimA e um revelou, igualmente, o gene aer. Os nove isolados de suíno bísaro revelaram o gene fimA e seis destes possuíam, também, o gene aer. A 65 Resultados totalidade revelou o gene fimA e o gene aer manifestou-se em 47,1% (6/17) dos isolados sendo que, os restantes factores de virulência não foram detectados. 4.2.6. Classificação filogenética de Escherichia coli Nos 17 isolados de E. coli BLAE realizou-se o estudo da caracterização do grupo filogenético mediante a técnica de PCR. Dos 17 isolados estudados, 14 pertenceram ao grupo A e três ao grupo B1 (um de burro, um de suíno comercial e um de suíno bísaro). Todos os isolados estudados pertenceram a grupos filogenéticos denominados comensais (A ou B1). 4.2.7. Relação clonal dos isolados de E. coli produtores de ȕ-lactamases de amplo espectro por electroforese em campo pulsado A análise por electroforese em campo pulsado (PFGE) dos isolados de E. coli BLAE está ilustrada na Figura 12. Encontraram-se através da electroforese em campos pulsados nove padrões de restrição diferentes. O isolado de burro B12 BLAE (linha 2) mostrou um padrão de restrição que foi designado de A. O padrão do isolado PC8 BLAE encontra-se possivelmente relacionado com o padrão anterior e foi designado por A1. Os isolados PC12 BLAE, PB10 BLAE, PB14 BLAE, PB18 BLAE e PB25 BLAE apresentaram o mesmo padrão de restrição denominado de B. Os isolados PB4 BLAE e PB19 BLAE apresentaram o mesmo padrão de restrição. Este padrão é aproximadamente relacionado com o padrão B e foi denominado B1 (Figura 12). Os isolados PC21 BLAE e PB9 BLAE apresentaram padrões de restrição aproximadamente relacionados denominados C e C1. Nos restantes 6 isolados foram descritos padrões de restrição individuais denominados D, E, F, G, H e I. A análise por PFGE dos isolados de E. coli BLAE permitiu identificar vários padrões de restrição. No entanto, foram descritos isolados de diferentes origens que possuíam padrões relacionados e/ou semelhantes, como no caso dos padrões A, B e C. Estes resultados evidenciam um movimento de bactérias entre animais o que por sua vez leva à transferência de genes de resistência. 66 Resultados Figura 12: Padrões de PFGE do DNA cromossómico digerido com XbaI, das 17 E. coli BLAE. Poços 1 e 19 – Marcador de tamanho; Poço 2 – Isolado de burro B12 BLAE; Poços 3 a 9 – Isolados de suíno comercial (PC8 BLAE, PC9 BLAE, PC11 BLAE, PC12 BLAE, PC17 BLAE, PC21 BLAE, PC23 BLAE, respectivamente); Poços 10 a 18 – Isolados de suíno bísaro (PB4 BLAE, PB9 BLAE, PB10 BLAE, PB12 BLAE, PB14 BLAE, PB18 BLAE, PB19 BLAE, PB25 BLAE, PB26 BLAE, respectivamente). 67 5. Discussão A relação entre o uso disseminado de agentes antimicrobianos em medicina humana e veterinária e o desenvolvimento de bactérias resistentes tem sido objecto de numerosos estudos sobre bactérias patogénicas e comensais que colonizam o tracto gastrintestinal de seres humanos e animais (Threlfall et al., 1998; Bronzwaer et al., 2002; McEwen e Fedorka-Cray, 2002). A microflora bacteriana intestinal, submetida ao stress do consumo de antibióticos, pode ser um reservatório de genes de resistência e desempenhar um papel importante como dador e receptor destes genes (Davies, 1994; Salyers et al., 2004; Sunde et al. 1998). Portanto, como Escherichia coli e Enterococcus spp. são parte integrante da microflora intestinal de humanos e animais (Sunde et al., 1998) e dada a sua conhecida capacidade de transferir genes de resistência, estas bactérias podem ser consideradas como "indicadoras" da propagação da resistência. Neste estudo caracterizaram-se fenotípica e genotipicamente a resistência a diversos antibióticos em isolados de Enterococcus spp. e de E. coli, recolhidos de amostras fecais de burros de Miranda, suíno comercial, suíno bísaro, avestruz e javali bem como, pesquisaram-se factores de virulência e a relação clonal entre as estirpes de E. coli produtoras de ȕ-lactamases de amplo espectro. 5.1. Identificação, resistência a antibióticos e factores de virulência nos isolados de Enterococcus spp. de diferentes origens Os isolados obtidos neste trabalho pertenceram às espécies E. faecium, E. durans, E. hirae, E. gallinarum e E. casseliflavus. Não se detectou a espécie E. faecalis. As espécies encontradas com maior frequência, a partir de placas de Slanetz-Bartley não suplementadas com vancomicina, foram E. hirae (45,4%) e E. faecium (26,9%). No entanto, 24,4% dos isolados foram identificados como pertencentes ao género não se conseguindo identificar as espécies. O suíno bísaro foi a única origem onde os isolados de E. faecium (45,7%) foram superiores aos de E. hirae (25,7%). Nos isolados, de placas de meio selectivo suplementado, obtiveram-se sete isolados dos quais quatro foram identificados como E. durans e 3 como E. gallinarum. 69 Discussão De acordo com outros autores as espécies detectadas com maior frequência em amostras de diversos animais de companhia e de humanos são E. faecium, E. faecalis e E. hirae (Murray, 1990; Devriese et al., 1992; Schouten et al., 1999). Um estudo realizado por Rodrigues e colaboradores, em 2002 revelou, em amostras fecais de cão e gato, as espécies E. faecium (58%), E. avium (41%) e E. faecalis (1%). Num estudo realizado por Klein, em 2003, as espécies mais detectadas em amostras fecais de suínos e frangos foram E. faecium e E. faecalis sendo E. hirae detectado ocasionalmente. Um estudo realizado por Poeta e colaboradores, em 2005, com amostras fecais de animais selvagens revelou a presença com maior frequência de E. faecalis (52,1%) e E. faecium (32,1%) (Poeta et al., 2005b). Num estudo realizado pelos mesmos autores, em 2006, as espécies mais detectadas em amostras fecais de humanos foram E. faecium (72,6%) e E. faecalis (27,4%); em amostras de frangos foram detectadas com maior prevalência as espécies E. faecalis (60,6%) e E. faecium (35,5%) e, em amostras fecais de animais de companhia, a maior frequência foi de E. faecium (47,2%), E. faecalis (31,7%) e E. hirae (21,1%). No entanto, os valores encontrados no nosso estudo apontam para uma prevalência de E. hirae e E. faecium. A resistência completa ou relativa aos ȕ-lactâmicos é uma característica do género Enterococcus (Gin et al., 1996). Deste modo, uma mutação no gene pbp5, pode aumentar de forma significativa a resistência aos antibióticos ȕ-lactâmicos e poderá explicar o aparecimento do isolado de avestruz resistente à ampicilina (Poeta et al, 2007b). Um estudo conduzido em isolados clínicos de humanos descreve que a ciprofloxacina tem apenas actividade moderada sobre enterococos (Fernandez-Guerrero et al, 1987). Um estudo realizado em amostras fecais de frangos e de animais de companhia detectou 12,5% e 8%, respectivamente, dos isolados resistentes à ciprofloxacina (Poeta et al., 2006). No nosso estudo, obtiveram-se apenas dois isolados VRE resistentes à ciprofloxacina, ambos identificados como E. durans. Nos isolados obtidos das placas de Slanetz-Bartley, não suplementado com vancomicina, não foi detectada resistência à ciprofloxacina. Neste estudo cerca de 68% e 21% dos isolados foram resistentes à tetraciclina e eritromicina, respectivamente. O elevado uso da eritromicina em medicina humana e veterinária pode aumentar o nível da resistência a este antibiótico (Hayes et al., 2003; Poeta et al., 2007a). A relação apontada entre os genes codificadores da resistência à 70 Discussão tetraciclina e à eritromicina pode levar a que a pressão selectiva do uso de um antibiótico favoreça a resistência ao outro (De Leener et al., 2004). A virginiamicina é um macrólido com estrutura semelhante às estreptograminas surgindo resistência cruzada entre estes antibióticos (Hayes et al., 2003; Poeta et al., 2007a). Num estudo realizado por Poeta e colaboradores, em 2006, com amostras fecais de frangos e de animais de companhia a percentagem de isolados resistentes à quinupristina-dalfopristina foi de 33% e 15%, respectivamente. Os isolados de avestruz e suíno comercial com resistência ao antibiótico Q-D detectados neste estudo (1,9%, e 10%, respectivamente) podem ter surgido devido ao uso de virginiamicina como promotor de crescimento (Poeta, 2006). Num estudo realizado por Poeta e colaboradores, em 2006, com amostras fecais de frango, os valores de resistência obtidos aos aminoglicosídeos de elevada carga foram de 1% para a gentamicina, de 2% para a estreptomicina e de 26% para a canamicina. No presente trabalho obteve-se resistência à gentamicina em 1,7% dos isolados, à estreptomicina em 4,2% dos isolados e à canamicina em 5% dos isolados. Neste estudo foram obtidos sete isolados VRE. Destes isolados, quatro foram identificados como E. durans e possuíam o mecanismo de resistência vanA (7,4% das amostras fecais de avestruz), três isolados foram identificados como E. gallinarum possuindo o mecanismo de resistência intrínseca vanC1 (5,6% das amostras fecais de avestruz). Num estudo realizado por Poeta e colaboradores, em 2005, com amostras fecais de aves para consumo obtiveram-se 9,6% de isolados com o mecanismo vanA e 1,3% com o mecanismo vanC1. O facto do nosso estudo apresentar valores inferiores, no caso do mecanismo vanA, pode ser devido à criação das avestruzes de forma não intensiva e assim haver um uso mais ponderado de antibióticos o que diminui a selecção de estirpes resistentes. Estudos efectuados por diversos autores, como por exemplo Aarestrup e Sorum, demonstram uma diminuição de estirpes com o mecanismo vanA. Uma investigação desenvolvida na Dinamarca revelou que a proibição da avoparcina em 1997 foi acompanhada por uma diminuição de estirpes vanA em frangos de 72,7% em 1995 para 5,8% em 2000 (Aarestrup et al., 2001). Noutra investigação efectuada na Noruega refere-se que a prevalência de estirpes VRE em amostras fecais de frangos sofreu uma acentuada diminuição oito anos após a proibição do glicopéptido (Sorum et al., 2006). Dos sete isolados VRE, aqueles que apresentaram resistência à tetraciclina possuíam o gene tet(M) o que vai de acordo com outros estudos realizados em amostras 71 Discussão fecais de animais para consumo (Aarestrup et al., 2000; Poeta, 2006). Os isolados VRE que apresentaram resistência à eritromicina, todos eles apresentam o gene erm(B) consistindo, de igual modo, com os resultados obtidos nos estudos atrás referidos. Além da resistência a antibióticos investigou-se a presença de dois genes (esp e hyl) que codificam factores de virulência. Um dos factores mais importantes que pode contribuir, indirectamente, para a patogenicidade de estirpes de Enterococcus spp. é a resistência aos antibióticos. No entanto, esta resistência não pode explicar a sua virulência. Para se tornarem patogénicas as bactérias necessitam expressar factores de virulência associados com a adesão, invasão, evasão à resposta imunitária e causarem alterações patológicas (Johnson, 1994). No nosso trabalho observou-se a presença do gene hyl, codificador da hialuronidase, em três isolados VRE da espécie E. gallinarum provenientes da avestruz. Em estudos anteriores realizados em isolados clínicos foi observado uma associação do gene hyl com estirpes resistentes à ampicilina/vancomicina (Klare et al., 2005). É importante observar que o gene codificador do factor de virulência foi detectado nos isolados com o mecanismo intrínseco vanC1 e não estava presente nos isolados com o mecanismo vanA. 5.2. Resistência a antibióticos, factores de virulência, grupos filogenéticos e relação clonal dos isolados de E. coli de diferentes origens A frequência de resistência à ampicilina entre os isolados de E. coli de burros (8,3%) foi inferior à encontrada nos isolados de suíno comercial, suíno bísaro e javali (13,8%, 37,1% e 26,1%, respectivamente). Em diversos estudos realizados com amostras fecais de frangos e suínos em Espanha, observaram-se percentagens elevadas de resistência à ampicilina (66% a 72%) (Blanco et al., 1997; Al-Ghamdi et al., 1999; Teshager et al., 2000). Num trabalho realizado por Sáenz e colaboradores, em 2001, com amostras fecais de suínos e outros animais, obtiveram-se 29% dos isolados de suíno resistentes à ampicilina. Os isolados obtidos neste estudo foram susceptíveis ao imipenemo, amicacina e tobramicina o que consiste com resultados obtidos num estudo realizado com amostras fecais de suínos em Espanha (Sáenz et al., 2001). Neste estudo obteve-se uma percentagem de resistência à gentamicina de 3,5% nos suínos comerciais e 1,5% nos javalis. Os isolados de burro e de suíno bísaro não 72 Discussão apresentaram resistência à gentamicina. Estudos realizados em amostras fecais de suínos mostraram uma percentagem de resistência à gentamicina baixa (7%) (Teshager et al., 2000; Sáenz et al., 2001). A frequência de resistência à estreptomicina obtida neste estudo foi de 8,3% nos burros, 17,2% no suíno comercial, 54,3% em suíno bísaro e 8,7% em javali. Num estudo realizado em amostras fecais de animais selvagens obtiveram-se valores de resistência à estreptomicina de 22,3% (Costa et al., 2008). Um estudo realizado por Poeta e colaboradores, em 2008b, com amostras fecais de gaivotas da Ilha Berlenga (Portugal) apresentou 63,63% de isolados, produtores de ȕ-lactamases de amplo espectro, resistentes à estreptomicina. Os isolados de javali obtidos neste estudo apresentaram valores inferiores, tal como os isolados de burro. Os suínos comerciais e de raça bísara são animais residentes em explorações, para posterior abate e consumo, sendo que a maior percentagem de resistência poderá estar associada ao contacto destes animais com antibióticos. A percentagem de resistência ao ácido nalidíxico, nos isolados obtidos das placas sem antibiótico, foi de 5,7% nos isolados de suíno bísaro e 15,9% nos isolados de javali. A resistência à outra quinolona testada, a ciprofloxacina, foi de 4,6% nos isolados de suíno bísaro. Um estudo realizado por Teshager e colaboradores, em 2000, com amostras fecais de suíno apresentou 8% de isolados resistentes à ciprofloxacina. Num estudo realizado por Sáenz e colaboradores, em 2001 com isolados de suíno, o valor de resistência à ciprofloxacina foi de 3% e a percentagem de resistência ao ácido nalidíxico foi de 14%. A percentagem de resistência a estes antibióticos poderá estar associada ao uso de quinolonas. Apenas foram obtidos isolados resistentes ao sulfametoxazol-trimetropim de suíno comercial (13,8%), suíno bísaro (14,3%) e javali (13%). Os valores obtidos são inferiores aos valores encontrados num estudo realizado em Espanha com amostras fecais de suínos (Sáenz et al., 2001). A resistência à tetraciclina, nos isolados obtidos nas placas de Levine não suplementadas, foi a que atingiu valores mais elevados (82,8% dos isolados de suíno comercial, 97,1% de suíno bísaro e 43,5% de javali). Os valores encontrados, no nosso estudo, estão de acordo com outros estudos realizados em amostras fecais de suínos (Teshager et al., 2000; Sáenz et al., 2001). Apenas se encontraram isolados resistentes ao cloranfenicol em isolados de suíno bísaro (5,7%). Os valores encontrados por outros autores em estudos realizados 73 Discussão com amostras fecais de suíno, em Espanha, são superiores às encontradas no presente trabalho (Teshager et al., 2000; Sáenz et al., 2001). A percentagem de multirresistência encontrada no nosso estudo foi de 13,1% em suíno comercial, 48,6% em suíno bísaro e 20,3% em javali. Um estudo realizado em Espanha com amostras fecais de suínos encontrou multirresistência em 35% dos isolados (Sáenz et al., 2001). Nas placas de Levine suplementadas com antibiótico obtiveram-se a partir de 78 amostras fecais (13 de burro, 30 de suíno comercial e 35 de suíno bísaro), 17 isolados (um de burro, sete de suíno comercial e nove de suíno bísaro). Estes isolados apresentaram fenótipo positivo de produção ȕ-lactamases de amplo espectro (BLAE), correspondendo a 7,7% das amostras fecais de burro, 23,3% das amostras fecais de suíno comercial e 25,7% das amostras fecais de suíno bísaro. Um estudo realizado com amostras fecais de animais selvagens detectou 16% de isolados de E. coli produtores de ȕ-lactamases de amplo espectro (Costa et al., 2006). Um trabalho realizado com amostras fecais de gaivotas da Ilha Berlenga (Portugal) apresentou 19,3% de isolados de E. coli BLAE (Poeta et al., 2008b). Num estudo realizado em isolados clínicos de humanos detectaram 1,4% de E. coli BLAE (Brinãs et al., 2005b). Um trabalho realizado com amostras fecais de suínos, em meio de Levine suplementado com cefotaxima a 1μg/ml obteve 36% de isolados BLAE e em meio suplementado com 8 μg/ml obteve 13% (Moreno et al., 2007). Num estudo realizado em Portugal com amostras fecais de cães e gatos obteve-se 5,33% de isolados BLAE (Costa et al., 2004). O gene blaTEM foi detectado em 9 dos 17 isolados BLAE (um de burro, dois de suíno comercial e seis de suíno bísaro), e após sequenciar o amplicão obtido por PCR foi identificado como blaTEM-1b. Esta ȕ-lactamase foi encontrada por diversos autores em animais (Brinãs et al., 2005a; Costa et al., 2006). O isolado de burro além do gene blaTEM-1b possuía também o gene blaCTX-M-14. Os restantes 16 isolados possuíam o gene blaCTX-M-1. Os genes blaCTX-M-14 e blaCTX-M-1 detectados no nosso estudo foram analisados por outros autores estando a sua presença identificada em isolados fecais de animais selvagens, de frangos e outros animais (Brinãs et al., 2003; Brinãs et al., 2005a; Costa et al., 2006; Poeta et al., 2008b). Dos 17 isolados BLAE obtidos, 15 apresentaram um fenótipo de resistência à tetraciclina. Destes 15 isolados, o gene tetA foi detectado em 12 e o gene tetB em um isolado. O mecanismo de resistência à tetraciclina através de bombas de efluxo é o mais abundante em bactérias Gram-negativas, encontrando-se os genes tetA e tetB, como 74 Discussão codificadores de resistência a este agente, mais frequentemente em isolados de E. coli (Costa et al., 2008). Dos 10 isolados com fenótipo de resistência à estreptomicina, nove apresentaram o gene aadA. Este resultado encontra-se de acordo com estudos efectuados por outros autores em amostras fecais de animais selvagens (Costa et al., 2006; Costa et al., 2008; Poeta et al., 2008b). O isolado de burro, resistente ao ácido nalidíxico e à ciprofloxacina, possuía o gene gyrA com mutações no tripleto 83 e 87 que provocam alterações aminoacídicas (serina por leucina e ácido aspártico por asparagina, respectivamente) e o gene parC com uma mutação no tripleto 80 que causa alteração aminoacídica (serina por isoleucina). As mutações encontradas nestes genes foram descritas por outros autores, sendo as mais frequentes (Sáenz, 2004). As mutações no gene gyrA, no caso do tripleto 83 conduzem à incapacidade de formar as pontes de hidrogénio. A substituição no tripleto 87 implica a perda de um aminoácido carregado negativamente. O conjunto destas duas mutações é importante na interacção da quinolona com o complexo DNAgirase-DNA. A substituição no tripleto 87 do gene parC provoca a perda da capacidade para formar pontes de hidrogénio. Estas mutações descritas confirmam que as proteínas GyrA e ParC apresentam uma estrutura e comportamento similar frente à acção das quinolonas (Sáenz, 2004). A presença de integrões com genes cassete que conferem resistência a antibióticos aumenta a frequência de estirpes bacterianas multirresistentes. No nosso estudo encontrámos 15 isolados que continham um integrão de classe 1, três isolados apresentaram um integrão de classe 2 e dois isolados possuíam integrões das duas classes. As diferentes organizações de genes cassete detectadas foram já descritas por outros autores em estudos com amostras fecais de frangos e de alimentos (Sáenz, 2004). Os integrões de classe 1 possuem geralmente na região conservada 3’ os genes qacEǻ1 e sul1, sendo a ausência destes genes descrita com frequência diminuta (Sáenz, 2004; Grape et al., 2005; Sunde, 2005). No nosso estudo, em três dos isolados que possuíam o integrão de classe 1 não foram detectados os genes qacEǻ1 e sul1. Em 2 desses isolados a região variável do integrão de classe 1 possuía o gene cassete dfrA1 e uma continha os genes dfrA12+orfF+aadA2. Esta região variável sem a parte conservada 3’ foi descrita por outro autor num estudo realizado com isolados obtidos de produtos alimentares (Sunde, 2005). 75 Discussão Os isolados que possuíam o integrão de classe 1 apresentaram, maioritariamente, (11 dos 15) a região variável dfrA1+aadA1, dois isolados manifestaram a região variável dfrA1, um isolado apresentou a região variável dfrA17+aadA5 e outro isolado manifestou a região variável dfrA12+orfF+aadA2. A região variável dfrA1+aadA1 foi a mais frequente no nosso estudo o que consiste com estudos realizados por outros autores em isolados de amostras fecais de frangos e produtos alimentares (Sáenz, 2004; Sunde, 2005). As outras regiões variáveis do integrão de classe 1 detectadas foram, igualmente, descritas noutros trabalhos (Sáenz, 2004; Sunde, 2005). Os isolados onde foram detectados integrões de classe 2 apresentaram a região variável composta pelos “genes cassete” dfrA1+sat1+aadA1. Esta região variável encontra-se descrita por diversos autores e é a estrutura principal descrita para esta classe de integrões (Sáenz, 2004; Sunde, 2005). Podemos verificar, pelos resultados obtidos, que a resistência à estreptomicina e ao sulfametoxazol-trimetropim encontra-se nos genes incluídos nos integrões o que lhes confere uma maior capacidade de disseminação. Escherichia coli é uma das maiores causas de infecção bacteriana. Na maioria dos casos as estirpes potencialmente patogénicas estão presentes na flora entérica e o potencial patogénico é dependente da presença de factores de virulência (Tiba et al., 2008). Os isolados de E. coli BLAE estudados, no nosso estudo, apresentaram o gene codificador de virulência fimA e em quase 50% destes foi detectado o gene aer. Estes resultados são similares ao estudo realizado por Ruiz e colaboradores, em 2002 em amostras clínicas, onde o gene fimA e o gene aer foram os mais detectados. No entanto, estes autores, ao contrário do revelado pelo nosso estudo, também descreveram os outros genes codificadores de factores de virulência, onde o gene cnf1 foi detectado em cerca de 60% das estirpes, o gene sat em cerca de 25%, o gene papC em cerca de 55% e o gene papGIII em cerca de 15%. Outro tipo de factor de virulência fimbriae (fimH) foi detectado em isolados clínicos, exibindo um valor percentual superior ao de outros factores de virulência (Tiba et al., 2008). A percentagem de factores de virulência em isolados clínicos é maior que nas estirpes comensais isoladas no nosso estudo. Os grupos filogenéticos de E. coli denominados como A, B1, B2 e D baseiam-se em sequências de DNA utilizadas como determinantes. As estirpes que foram identificadas nos grupos A e B1 são associadas a bactérias comensais não causadoras de infecções extra-intestinais. As estirpes enquadradas nos grupos B2 e D estão associadas a bactérias implicadas em infecções extra-intestinais, mais patogénicas (Clermont et al., 76 Discussão 2000). No nosso estudo, dos 17 isolados de E. coli BLAE, 14 foram identificadas como pertencente ao grupo A e três ao grupo B1. A prevalência de estirpes isoladas em amostras fecais de animais saudáveis, pertencentes aos grupos A e B1 (tipicamente comensais) foi mostrada por diversos autores (Baldy-Chudzik e Stosik, 2007). Em isolados clínicos a percentagem de estirpes pertencentes aos grupos B2 e D é maior (Johnson, 2001). A multirresistência aos antibióticos em estirpes de E. coli intestinais, de animais e de alimentos de origem animal, acarreta a preocupação destas estirpes serem um reservatório de genes de resistência com a possibilidade da transferência destes a outras bactérias do ecossistema intestinal dos animais ou a transferência bidireccional entre animais e humanos. Demonstrar a transferência de bactérias resistentes entre animais ou entre animais e humanos é algo delicado. Para determinar a transferência de bactérias estuda-se a sua relação clonal, entre os isolados de diferentes origens (Sáenz, 2004). Donabedian e colaboradores, em 2003, demonstraram a difusão de estirpes bacterianas resistentes à gentamicina de animais para humanos através dos alimentos, mediante o estudo da relação clonal das estirpes e dos determinantes genéticos de resistência ao referido antibiótico. No nosso estudo estudaram-se os 17 isolados de E. coli produtores de ȕ-lactamases de amplo espectro (BLAE) e através da electroforese em campos pulsados obtiveram-se nove padrões diferentes. O padrão “B” possui isolados de diferentes origens, designadamente suíno comercial e suíno bísaro. Os isolados do padrão “C-C1”, foram descritos como aproximadamente relacionados e provêm de origens diferentes, suíno comercial e suíno bísaro. Os isolados do padrão “A-A1” foram descritos como possivelmente relacionados e provêm de origens diferentes, burro e suíno comercial, contendo o gene blaCTX-M14 e o gene blaCTX-M1, respectivamente. Baseados nos padrões de PFGE detectados podemos observar que as bactérias portadoras dos genes codificadores de ȕ-lactamases de largo espectro podem ter sido transferidas, no caso do suíno bísaro, entre animais diferentes e até entre espécies animais diferentes, como no isolado de suíno comercial com o padrão “B”. A possível relação entre o isolado de burro e de suíno comercial com o padrão “A” apoia, igualmente, a provável transferência de bactérias e genes codificadores de resistência a antibióticos entre os animais. 77 6. Conclusões Os resultados apresentados neste trabalho demonstraram a presença de estirpes comensais de Enterococcus spp. e E. coli de animais, com perfis de resistência distintos a vários agentes antimicrobianos e com genes codificadores de virulência. Desta forma, é imperativo monitorizar as espécies de enterococos e E. coli multirresistentes a antibióticos, tal como é muito importante avaliar o papel de animais para consumo humano e animais selvagens como reservatórios destas bactérias com genes codificadores de resistência. Este tipo de investigações deve, ainda, incluir animais autóctones para se conseguir uma percepção deste problema a nível endémico caracterizando o papel destes animais como reservatórios de estirpes multirresistentes. Deste modo, como principais conclusões, podemos referir: 1. Em Enterococcus spp. 1.1. A detecção de percentagens moderadas de colonização por VRE, com genótipo vanA (7,4%) e genótipo vanC1 (5,6%), de amostras fecais de avestruz, em Portugal. As percentagens de colonização, por VRE, observadas em amostras fecais de suíno comercial e bísaro foram nulas. A detecção dos isolados VRE nas amostras de avestruz, 11 anos depois da proibição da avoparcina, implica a necessidade de considerar outros factores de selecção de bactérias VRE. 1.2. Os isolados VRE de avestruz apresentaram, quase sempre, resistência associada a outros antibióticos, especialmente, tetraciclina e eritromicina. Estes antibióticos são utilizados frequentemente em medicina humana e veterinária. 1.3. Os diferentes níveis de resistência observados, nos isolados obtidos aleatoriamente das amostras fecais dos animais, permitiram discernir diferenças que podem ser um reflexo da diferente pressão selectiva exercida pelos antibióticos nos distintos grupos de animais. 1.4. O gene hyl, codificador de um factor de virulência, foi detectado nos isolados VRE com o genótipo vanC1. Não se detectou a presença do gene codificador de virulência esp nos isolados VRE. 1.5. A existência de estirpes comensais de Enterococcus spp., de animais destinados ao consumo humano, com fenótipo de multirresistência é um 79 Conclusões problema de saúde pública devido à possível transferência, dos genes que conferem a respectiva resistência, a humanos. No entanto, os mecanismos de resistência e os genes que a codificam, assim como os que estão associados a factores de virulência, necessitam de investigação aprofundada de forma a estudar, em pormenor, a epidemiologia da resistência e da patogenicidade. 1.6. É importante investigar a especificidade de cada espécie do género Enterococcus spp. em relação ao hospedeiro. Para isto, é fundamental aumentar o número de animais analisados, pertencentes à mesma espécie. Só com o aumento no número de indivíduos estudados é que se poderá realizar uma análise mais precisa sobre a referida especificidade das espécies de enterococos. 2. Em Escherichia coli 2.1. A detecção de E. coli produtora de ȕ-lactamases de amplo espectro nos isolados de burro (7,7%), de suíno comercial (23,3%) e de suíno bísaro (25,7%). 2.2. A detecção de ȕ-lactamases de amplo espectro do tipo CTX-M e TEM nos isolados de burro (1 isolado com CTX-M-1 e TEM-1b), de suíno comercial (sete isolados com CTX-M-1 dos quais dois possuíam também TEM-1b) e suíno bísaro (nove isolados com CTX-M-1 dos quais seis possuíam TEM-1b). 2.3. Em 70,6% dos isolados BLAE detectaram-se susceptibilidade reduzida a dois ou três antibióticos observando-se, em todos, resistência à tetraciclina. A ȕlactamase do tipo CTX-M-14 detectada no isolado de burro estava associada com a resistência às quinolonas onde foram detectadas mutações nos genes gyrA (no tripleto 83 acarretando a troca aminoacídica de serina por leucina e no tripleto 87 trocando ácido aspártico por asparagina) e parC (no tripleto 80 procedendo à troca aminoacídica de serina por isoleucina). 2.4. Os 17 isolados BLAE apresentaram, quase sempre, resistência a outros antibióticos, especialmente, tetraciclina, estreptomicina e sulfametoxazoltrimetropim. 2.5. Os diferentes níveis de resistência observados, nos isolados obtidos aleatoriamente das amostras fecais dos animais, permitiram discernir diferenças (como uma maior percentagem de resistência à tetraciclina, ampicilina, estreptomicina e sulfametoxazol-trimetropim) que podem ser um reflexo da 80 Conclusões diferente pressão selectiva exercida pelos antibióticos nos distintos grupos de animais. 2.6. A maioria dos isolados de E. coli resistentes ao sulfametoxazol- trimetropim apresentam “genes cassete” incluídos em integrões de classe 1 e/ou classe 2, detectando-se uma diversidade na organização genética destes. A inclusão de genes de resistência em integrões favorece a co-selecção através do uso de diferentes antibióticos, o que pode explicar o surgir do fenómeno das multirresistências. 2.7. Foi identificada a presença de genes codificadores de factores de virulência nos isolados BLAE. O gene fimA foi confirmado em todos os isolados e o gene aer manifestou-se em seis dos 17 isolados BLAE. 2.8. Todos os isolados pertenceram aos grupos filogenéticos A e B1, tipicamente comensais. 2.9. A análise por PFGE reflectiu alguma diversidade clonal sendo identificados nove padrões diferentes entre os isolados BLAE. No entanto, foi observada a presença de padrões relacionados e/ou semelhantes entre isolados de indivíduos da mesma espécie animal e entre isolados de indivíduos de diferente origem animal. O estudo da evolução da resistência a antibióticos em “bactérias indicadoras”, como Enterococcus spp. e E. coli, de diferentes ecossistemas permitiu detectar variações na resistência a determinados antibióticos ou a emergência de novos mecanismos que a codificam. Assim, é necessário continuar a realizar este tipo de monitorização em diferentes animais, realçando a importância de incluir animais selvagens visto estes últimos estarem em menor contacto com o Homem e no caso de manifestação de resistência aos antibióticos por parte das bactérias da flora intestinal poderemos verificar o nível de disseminação deste fenómeno. A União Europeia (UE), por si só, desenvolveu em apenas quatro anos (19992002) projectos de combate à resistência antimicrobiana no valor de 50 milhões de euros. Estes projectos actuaram em diferentes áreas estratégicas e tiveram diferentes aproximações ao problema em questão. As acções prioritárias identificadas foram divididas em quatro áreas-chave onde se complementa a recomendação específica relativa à utilização prudente de agentes antimicrobianos. As acções foram as seguintes: 81 Conclusões a vigilância e a cooperação internacional, a prevenção, a investigação e o desenvolvimento de produtos. A Comissão da União Europeia realça a importância de desenvolver redes coordenadas de vigilância a nível Europeu encorajando a participação de países não pertencentes à UE de forma a melhorar a recolha de dados sobre o consumo de antibióticos e assim promover a cooperação internacional neste problema. Neste sentido a Comissão propôs a aplicação das seguintes estratégias: (i) investir em campanhas educacionais dirigidas a profissionais e ao público em geral e assim, através da consciencialização, evitar a utilização excessiva e indevida de agentes antimicrobianos; (ii) certificar que os antibióticos estão apenas disponíveis na medicina humana e veterinária após prescrição de profissionais; (iii) promover programas de prevenção de infecções; (iv) eliminação da utilização dos antibióticos como promotores de crescimento; (v) desenvolver testes, de diagnóstico e susceptibilidade rápidos e fiáveis; e (vi) encorajar o desenvolvimento de novos antibióticos, vacinas e tratamentos alternativos. Actualmente, os custos estimados para o desenvolvimento de um novo antibiótico são de 500 milhões de euros, mas os investimentos nesta indústria têm sido bastante inferiores o que constitui um obstáculo ao acesso de novos agentes eficazes. Como resultado ao longo dos últimos anos foram escassas as descobertas de novas classes de antibióticos. Assim torna-se imperativo recorrer a todas as outras medidas apresentadas de forma a combater a resistência antimicrobiana. É neste sentido que este trabalho foi realizado sendo todos os dados obtidos neste tipo de estudo importantes para estabelecer políticas de uso prudente de antibióticos tanto em animais como em humanos. 82 7. Bibliografia Aarestrup F. M., Y. Agerso, P. Gerner.Smidt, M. Madsen, and L. B. Jensen. 2000. Comparison of antimicrobial resistance phenotypes and resistance genes in Enterococcus faecalis and Enterococcus faecium from humans in the community, broilers, and pigs in Denmark. Diagnostic Microbiology and Infectious Disease. 37:127137. Aarestrup F. M., A. M. Seyfarth, H. D. Emborg, R. S. Hendriksen, and F. Bager. 2001. 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