PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE MINAS GERAIS Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Relações Internacionais SEGURANÇA, DESENVOLVIMENTO E RECONSTRUÇÃO DE ESTADOS: O caso da Libéria (2003-2008) Letícia Carvalho de Souza Belo Horizonte 2010 Letícia Carvalho de Souza SEGURANÇA, DESENVOLVIMENTO E RECONSTRUÇÃO DE ESTADOS: O caso da Libéria (2003-2008) Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, como requisito parcial para obtenção do título de Mestre em Relações Internacionais. Orientador: Paulo Luiz Moreaux Lavigne Esteves Belo Horizonte 2010 Letícia Carvalho de Souza Segurança, Desenvolvimento e Reconstrução de Estados: O caso da Libéria (2003-2008) Dissertação de Mestrado submetida à banca examinadora designada pelo Colegiado do Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, como parte dos requisitos necessários para obtenção do grau de Mestre em Relações Internacionais. Belo Horizonte, 2010. ___________________________________________ Prof. Dr. Paulo Luiz Moreaux Lavigne Esteves (Orientador) – PUC Minas ___________________________________________ Prof. Dr. João Pontes Nogueira – PUC Rio ___________________________________________ Prof.ª Dra. Matilde de Souza – PUC Minas Para o meu querido Otávio, senhor das magias coincidentes, encantador de computadores e melhor companheiro do mundo, que torna minha vida muito mais feliz... E mais fácil também! AGRADECIMENTOS Agradeço ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – CNPq – Brasil, pelo apoio e financiamento concedidos por meio do Programa Renato Archer de Apoio à Pesquisa em Relações Internacionais. Ao meu orientador, a pessoa mais brilhante e generosa que conheço, por todas as lições (aprendidas ou não), pela adoção durante todos esses anos... Vou sentir demais a sua falta! À minha mãe, confidente e colaboradora de todas as minhas idéias maluquinhas, pela curiosidade e pelos olhos atentos que devem ter passado por essas páginas quase tanto quanto os meus. Ao meu pai, que sempre me viu correndo mundo e me faz ir mais longe. Ao meu irmão Pedro, que me acha tão sabida e me ensina tanto... Ao meu querido Otávio, pelo amor e pela compreensão em todas as coisas, grandes e pequeninas. Aos meus avós, que trouxeram alegria para o meu nome e a renovam, sempre, me ensinando a colorir a vida. Às minhas tias Marta, Ana e Rita, à Helena e à galera do sítio, por tudo. À Lelena, amiga querida, companheira de andanças e guardiã das minhas palavras. Aos meus caros amigos, pela compreensão diante dos encontros que perdi, dos convites que não pude aceitar e dos filmes que não vimos nos últimos tempos, com açúcar, com afeto! Aos meus professores, colegas e a todo o pessoal do Mestrado, por terem tornado esses anos muito mais interessantes, agradáveis e divertidos do que eu jamais imaginei! RESUMO A dissertação trata das principais transformações dos mecanismos de segurança coletiva após o fim da Guerra Fria, com ênfase nas operações de manutenção da paz (OMP) e reconstrução de Estados, realizadas pela ONU. Mais especificamente, pretende-se discutir o processo de emergência das operações multidimensionais e a reorganização das atividades relacionadas a elas em três grandes áreas – segurança, assistência humanitária e assistência ao desenvolvimento – e a abertura à participação de um leque diverso de atores, com base na operação realizada na Libéria, entre 2003 e 2008. A pesquisa orientou-se por duas hipóteses de trabalho: (i) a reformulação das OMP relacionou-se à emergência de um novo entendimento acerca da paz e dos caminhos para alcançá-la, informada pela consolidação de um nexo discursivo entre segurança e desenvolvimento; e (ii) tal nexo rearticulou a segurança como condição para o desenvolvimento e, paralelamente, o desenvolvimento como elemento essencial para a manutenção da segurança a longo prazo. Palavras-chave: Segurança; Desenvolvimento; Operações de Governamentalidade; Paz Democrática; Libéria. Manutenção da Paz; ABSTRACT This dissertation explores major transformations of collective security mechanisms after the Cold War, emphasizing UN peacekeeping operations and State reconstruction processes. Specifically, it discusses the emergence of multidimensional operations, the reorganization of its tasks in three critical areas – security, humanitarian assistance and development assistance – and the participation of various actors, based on the operation that took place in Liberia, between 2003 and 2008. The research sets out two hypothesis: (i) the rise of multidimensional peacekeeping operations relates to the emergence of a new understanding of peace and the means that lead to its establishment, informed by a securitydevelopment nexus; and (ii) this nexus rewrites security as a condition for development, and, at the same time, development as an essential condition for long-term security. Key-words: Security; Development; Peacekeeping Operations; Governmentality; Democratic Peace; Liberia. LISTA DE FIGURAS FIGURA 1: Mecanismos de manutenção da paz ............................................................... 49 FIGURA 2: Fases e principais atividades das operações de manutenção da paz multidimensionais ............................................................................................................ 50 FIGURA 3: Organograma da UNMIL .............................................................................. 78 FIGURA 4: Organograma do Escritório Imediato do Representante Especial do Secretário-Geral ............................................................................................................... 79 FIGURA 5: Distribuição das Políticas de Reconstrução do Estado na Libéria nas áreas de Segurança (OMP), Assistência Humanitária (CAP) e Assistência ao Desenvolvimento (UNDAF) ............................................................................................ 104 FIGURA 6: Distribuição das Organizações que participam do processo de reconstrução da Libéria nas áreas de Segurança (OMP), Assistência Humanitária (CAP) e Assistência ao Desenvolvimento (UNDAF) ........................................................ 106 FIGURA 7: Processo de reconstrução da Libéria e a formulação da UNDAF ................... 137 LISTA DE MAPAS MAPA 1: Deslocamento das milícias, confrontos com o governo e fluxos populacionais na Libéria (2003) ....................................................................................... 74 LISTA DE GRÁFICOS GRÁFICO 1: Número de Operações de Paz realizadas pela ONU por década. .................. 38 GRÁFICO 2: Voz e Accountability na Libéria (1996-2008) .............................................. 124 GRÁFICO 3: Qualidade da Regulação na Libéria (1996-2008) ........................................ 124 GRÁFICO 4: Estabilidade Política na Libéria (1996-2008) .............................................. 124 GRÁFICO 5: Primado da Lei na Libéria (1996-2008) ...................................................... 124 GRÁFICO 6: Efetividade do Governo na Libéria (1996-2008) ......................................... 124 GRÁFICO 7: Controle da Corrupção na Libéria (1996-2008) .......................................... 124 GRÁFICO 8: Performance econômica (evolução do PIB per capita em dólares norteamericanos) e tensão política na Libéria (1960-2005) ....................................................... 129 LISTA DE QUADROS QUADRO 1: Principais componentes da Doutrina Capstone ............................................ 47 QUADRO 2: OMP realizadas pela ONU (1948-1989) e principais componentes do mandato ........................................................................................................................... 53 QUADRO 3: OMP realizadas pela ONU (1990-2009) e principais componentes do mandato ........................................................................................................................... 57 QUADRO 4: Componentes da UNMIL e Ocorrência por Ano (2003-2008) ..................... 85 QUADRO 5: Componentes da UNMIL e Elementos a eles relacionados (2003-2008) ...... 86 QUADRO 6: Componentes do CAP e Ocorrência por Ano (2003-2008) .......................... 91 QUADRO 7: Componentes do CAP e Elementos a eles relacionados (2003-2008) ........... 92 QUADRO 8: Componentes da UNDAF e Ocorrência por Ano (2003-2008) .................... 99 QUADRO 9: Componentes da UNDAF e Elementos a eles relacionados (2003-2008) ..... 100 QUADRO 10: Principais objetivos da PRS, UNDAF e sua relação com as Metas de Desenvolvimento do Milênio ........................................................................................... 136 LISTA DE TABELAS TABELA 1: Valores adicionados por setor na Libéria (1987-2005), em dólares norteamericanos ....................................................................................................................... 129 LISTA DE SIGLAS ACNUR – Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados ACS – American Colonization Society AG – Assembleia Geral BM – Banco Mundial BoB – Bureau of Budget CAP – Consolidated Appeal Process CBL – Banco Central da Libéria CBO – Organização de Base Comunitária CCA – Common Country Assessment CDU – Conduct and Discipline Unit CHAP – Consolidated Humanitarian Appeals CSH – Comissão sobre Segurança Humana COE – Contingent Owned Equipment System CS – Conselho de Segurança CGG – Comissão sobre Governança Global CSO – Organização da Sociedade Civil DDRR – Desarmamento, Desmobilização, Reabilitação e Reintegração DFS – Department of Field Support DPKO: Department of Peacekeeping Operations DST – Doenças Sexualmente Transmissíveis EACDH – Escritório do Alto Comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos ECOMIL: Economic Community of West African States‘ Mission in Liberia ECOMOG: Economic Community of West African States‘ Monitoring Group ECOWAS: Economic Community of West African States EUA – Estados Unidos da América FAO – Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação FFT – Food for Training (Trabalho por Instrução) FFW – Food for Work (Trabalho por Comida) FMI – Fundo Monetário Internacional GAC – Comissão Geral de Auditoria GEMAP – Governance and Economic Management Assistance Program GOL – Governo da Libéria GRC – Comissão de Governança e Reforma GSA – Agência de Serviços Gerais GTZ – Deutsche Gesellschaft für Technische Zusammenarbeit HIV/AIDS – Vírus da Imunodeficiência Humana/Síndrome da Imunodeficiência Adquirida IBRD – International Bank for Reconstruction And Development ICISS – International Commission on Intervention and State Sovereignty ICRC – Comitê Internacional da Cruz Vermelha IDPs – Internally Displaced Persons IEC – Informação, Educação e Comunicação IFC – International Finance Corporation IMPP – Integrated Mission Planning Process ITS – Integrated Training Service JAM – Joint Assessment Missions LPRC – Corporação de Refino de Petróleo da Libéria LSD – Logistics Support Division LURD – Liberians United for Reconciliation and Democracy MIGA – Multilateral Investment Guarantee Agency MLME – Ministério da Fazenda, Mineração e Energia MODEL – Movement for Democracy in Liberia MoF – Ministério das Finanças MTP – Medium Term Plan NFI – non-food items NPA – Autoridade Portuária Nacional NPFL – National Patriotic Front of Liberia OCHA – Office for the Coordination of Humanitarian Affairs OI – Organização Internacional OIM – Organização Internacional para as Migrações OIT – Organização Internacional do Trabalho OMP – Operações de Manutenção da Paz ONG – Organização Não-Governamental ONU – Organização das Nações Unidas ONUC – United Nations Operation in the Congo OTAN – Organização do Tratado do Atlântico Norte OUA – Organização da União Africana PBPS – Peacekeeping Best Practices Section PCNA – Post-Conflict Needs Assessment PETD – Policy Evaluation and Training Division PIB – Produto Interno Bruto PNUD – Programa das Nações Unidas Para o Desenvolvimento PRC – People‘s Redemption Council PRS – Poverty Reduction Strategy PRSP – Poverty Reduction Strategy Papers SGBV – Sexual and Gender-Based Violence (Violência Sexual e de Gênero) TI – Tecnologia da Informação UNAIDS – United Nations Joint Programme on HIV/AIDS UNAMSIL: United Nations Mission in Sierra Leone UNCT – United Nations Country Team UNDAF – United Nations Development Assistance Framework UNDG – United Nations Development Group UNDOF – United Nations Disengagement Observer Force UNEF I – First United Nations Emergency Force UNEF II – Second United Nations Emergency Force UNESCO – United Nations Economical Social and Cultural Organization UNFICYP – United Nations Peacekeeping Force in Cyprus UNFPA – Fundo de População das Nações Unidas UNIFEM – Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas para a Mulher UNIFIL – United Nations Interim Force in Lebanon UNMIL – United Nations Mission in Liberia UNMOGIP – United Nations Military Observer Group in India and Pakistan UNOL – United Nations Peace-building Support Office in Liberia UNOMIL – United Nations Observer Mission in Liberia UNOPS – United Nations Office for Project Services UNTSO – United Nations Truce Supervision Organization URSS – União das Repúblicas Socialistas Soviéticas WATSAN – Abastecimento de Água e Saneamento WBG – World Bank Group WFP – World Food Programe WVI – World Vision International SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO ........................................................................................................... 17 2 OPERAÇÕES DE MANUTENÇÃO DA PAZ E TRANSFORMAÇÕES DO SISTEMA DE SEGURANÇA COLETIVA .................................................................. 22 2.1 Paz e Estabilidade no Sistema Internacional da Guerra Fria ................................ 23 2.2 Pós Guerra Fria: uma Agenda para a Paz .............................................................. 30 2.3 Transformações Operacionais ................................................................................. 38 2.4 Doutrina Capstone .................................................................................................... 46 2.5 Transformações do Sistema de Segurança Coletiva ............................................... 52 3 SEGURANÇA, ASSISTÊNCIA HUMANITÁRIA, ASSISTÊNCIA AO DESENVOLVIMENTO E RECONSTRUÇÃO DO ESTADO NA LIBÉRIA ............ 68 3.1 Breve História da Libéria ........................................................................................ 69 3.2 UNMIL: multidimensionalidade e reconstrução do Estado na Libéria ................. 73 3.3 Organização da Missão ............................................................................................ 82 3.3.1 Segurança ............................................................................................................... 83 3.3.2 Assistência Humanitária ........................................................................................ 88 3.3.3 Assistência ao Desenvolvimento ............................................................................. 95 3.3.4 Nexo entre segurança, desenvolvimento e assistência humanitária ....................... 102 4 GOVERNAMENTALIDADE E TRANSFORMAÇÃO SOCIAL ............................ 108 4.1 Governamentalidade e constituição de Estados na Modernidade .......................... 109 4.2 Emergência de um espaço internacional governamentalizado ............................... 113 4.3 Governamentalização internacional pela via liberal-democrática ......................... 118 4.4 Segurança, desenvolvimento e transformação social na Libéria ............................ 128 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS ...................................................................................... 139 REFERÊNCIAS ............................................................................................................. 141 APÊNDICE .................................................................................................................... 162 17 1. INTRODUÇÃO 1 Os processos de construção e reconstrução de Estados são recorrentes ao longo da história do que se conhece hoje como sociedade internacional. Seja nas guerras de independência do século XVIII, ou nas Operações de Manutenção da Paz (OMP) multidimensionais do XXI, a criação de arranjos estatais foi tomada como a principal maneira de promover a estabilidade nas regiões em conflito e, de forma mais ampla, a manutenção da ordem no sistema internacional. Ainda que os objetivos gerais tenham sido preservados, a forma de realizá-los sofreu importantes transformações por séculos afora, com destaque para a crescente participação das organizações internacionais. Particularmente, a partir da Segunda Guerra Mundial, a (re)construção de Estados teve lugar em torno da Organização das Nações Unidas (ONU), que se constituiu, desde então, em fórum de reconhecimento e ator fundamental para tais processos. O final da Guerra Fria marcou um importante ponto de inflexão para as atividades da ONU, especialmente no que se refere às ações voltadas para a manutenção da paz e da estabilidade internacionais. Nesse período, além do aumento da quantidade de operações, pode-se observar uma mudança significativa dos tipos de conflito que demandaram intervenção por parte da Organização. Se, no período da bipolaridade, as tropas da ONU eram normalmente mobilizadas para auxiliar a resolução de conflitos entre Estados, agora se viam compelidas a agir para solucionar conflitos internos e combater a deterioração das condições econômicas, políticas, sociais e humanitárias. Como resposta a esses desafios, a ONU iniciou um enorme esforço no sentido de estabelecer novas diretrizes de ação para intervir em conflitos, o que culminou na produção de uma série de agendas e relatórios que inauguraram o que Weiss, Forsythe e Coate (2004) chamaram de uma nova geração de operações de paz, caracterizadas, fundamentalmente, pela multidimensionalidade. Para além da demarcação de fronteiras e da restituição da soberania, as operações de manutenção da paz multidimensionais prevêem a reconstrução ampla das instituições e da infraestrutura dos Estados, de acordo com princípios de democracia e boa governança. Para tanto, documentos como a Doutrina Capstone (2008), sugerem a divisão das ações relacionadas à reconstrução em três áreas – segurança, assistência humanitária e assistência ao desenvolvimento – e a participação mais incisiva, em cada uma delas, de atores 1 A elaboração do trabalho considerou as mudanças decorrentes da reforma ortográfica da língua portuguesa (VOLP, 2009). 18 especializados; como, por exemplo, as diversas agências da ONU, Organizações Internacionais, Organizações Não Governamentais Nacionais e Internacionais, coordenadas pela missão da ONU no país em reconstrução. Essas novas diretrizes parecem emergir em meio à consolidação de um nexo discursivo entre segurança e desenvolvimento, no qual, cada vez mais, a segurança passa a ser colocada como condição para que um Estado possa conseguir, junto à sociedade internacional, os recursos necessários para levar à cabo seu desenvolvimento; paralelamente, o desenvolvimento e a melhoria das condições de vida das populações são redefinidos como bases para a construção da paz e para a manutenção da segurança e da estabilidade a longo prazo. A elaboração do trabalho pautou-se na analítica interpretativa e na genealogia foucaultianas, como instrumentos de re-descrição das práticas que produzem, reproduzem e transformam a dinâmica social e política, moldando a forma como elas se apresentam para nós hoje (RABINOW; DREYFUSS, 1995). Ambas dão atenção especial à linguagem e ao discurso como elementos centrais da atividade cognitiva. Para Foucault, não existem verdades exteriores ao discurso, e, mesmo as estruturas mais gerais de inteligibilidade e conhecimento, são constituídas discursivamente. A linguagem não é vista a partir de sua suposta função referencial, e, sim, como um estoque de ativos discursivos que constituem identidades, habilitam espaços sociais e agenciam práticas políticas (SHAPIRO, 1992). Os atos discursivos podem ser caracterizados pela pretensão de criar verdade e inteligibilidade, o que só pode ser realizado quando aquele que enuncia é dotado de autoridade discursiva (SHAPIRO, 1992). Essa autoridade é dada pela articulação entre poder e conhecimento e sustenta as justificativas institucionalizadas e sistemáticas que afirmam como verdade determinados atos discursivos. Os enunciados autorizados, isto é, capazes de articular poder e saber, geram práticas discursivas que traçam linhas separando o que é considerado normal e patológico; verdadeiro e falso. Essas distinções resultam de um embate discursivo entre pretensões concorrentes de verdade, e de sua capacidade de normalizar o mundo, valendo-se de práticas políticas que têm impacto material. O que a genealogia faz é lançar um olhar diacrônico em relação à história, em uma tentativa de dissolver a coerência das estruturas de verdade que sustentam a ordem e seus processos de normalização (RABINOW; DREYFUSS, 1995). A genealogia permite ver como político aquilo que é tido como natural (SHAPIRO, 1992), além de possibilitar uma compreensão crítica da ordem e dos sistemas de significados que regem o mundo presente. Como observa Foucault, ―para a genealogia não há essências fixas, nem leis subjacentes, nem finalidades metafísicas. A genealogia busca descontinuidades ali onde desenvolvimentos 19 contínuos foram encontrados‖ (FOUCAULT, 1979b, p.18). A verdade profunda que interessa ao genealogista ―é o segredo de que [as coisas] não têm essência, ou que sua essência foi construída, peça por peça, a partir de figuras que lhe eram estranhas‖ (p. 19). Diferente das abordagens históricas tradicionais, que tomam aquilo que prevalece como natural e ignoram possibilidades alternativas apresentadas por discursos derrotados, ―Foucault, como Nietzsche, entende que há um leque indeterminado de ‗subjetividades‘ possíveis e que toda versão institucionalizada da ‗subjetividade‘ representa uma vitória política‖ (SHAPIRO, 1992, p. 16, tradução livre). 2 É importante notar que, para Foucault (1979c), o poder tem caráter dinâmico e produtivo, não simplesmente repressivo; participa da constituição e da sustentação de sistemas de valores e significados, da produção de sujeitos, da construção das identidades e do conhecimento, perpassando a organização de todas as sociedades. Segundo o autor, o poder deve ser considerado como uma ―rede produtiva que atravessa todo o corpo social, muito mais do que uma instância negativa que tem por função reprimir‖ (FOUCAULT, 1979c, p. 8). Assim, as práticas discursivas sancionadas pelo poder, e articuladas a ele, convertem-se em economias políticas historicamente produzidas de significados, valores e práticas. Partindo dessa perspectiva, estudou-se as principais transformações normativas, institucionais e operacionais relacionadas às operações de manutenção da paz, em geral, e à reconstrução de Estados, mais especificamente, para compreender como ocorre a distribuição das ações da ONU nas três grandes áreas – segurança, assistência humanitária e assistência ao desenvolvimento – e a interação entre elas, à luz de seu papel como instrumentos do sistema de segurança coletiva. O recorte proposto refere-se às operações realizadas pela ONU após a Guerra Fria, com ênfase no processo de reconstrução do Estado na Libéria, entre 2003 e 2008. A pesquisa orientou-se por duas hipóteses de trabalho: (i) o processo de reformulação normativa, institucional e operacional das operações de paz no pós Guerra Fria relacionou-se à emergência de um novo entendimento acerca da paz e dos caminhos para alcançá-la, informada pela consolidação de um nexo discursivo entre segurança e desenvolvimento; e (ii) tal nexo rearticulou a segurança como condição para o desenvolvimento e, paralelamente, o desenvolvimento como elemento essencial para a manutenção da segurança a longo prazo, o que se refletiu na porosidade das fronteiras entre as áreas, fazendo com que a maior parte dos projetos fosse desenvolvida de forma interligada. 2 ―Foucault, like Nietzsche, assumes that there is an indeterminant range of possible selves and that every institutionalized version of the self represents a political victory‖. 20 Para estudar a pertinência das hipóteses propostas, utilizou-se o método da análise de discurso, tal como proposto por Lene Hansen (2006), no qual os textos são tomados simultaneamente como únicos (individuais) e interligados (dividem concepções), de modo que os significados não podem ser apreendidos com base em um só texto. Assim, a análise recorre à ideia de intertextualidade, ―que ressalta que os textos estão situados entre e contra outros textos, os quais são citados na construção de identidades e políticas, revisão e apropriação do passado e construção de autoridade‖ (HANSEN, 2006, p.55, tradução livre). 3 A intertextualidade, portanto, toma um texto em relação a outro, construindo uma rede que permite compreender como os textos se ligam, como constroem autoridade e uma certa estabilidade na maneira de lidar com assuntos particulares. Mais do que isso, permite estudar a ligação de diferentes modos de autoridade, construção, interligação e mobilização de discursos que viabilizam o exercício do poder (HANSEN, 2006). De acordo com os objetivos do trabalho, a utilização da análise de discurso procurou viabilizar a construção de uma rede intertextual que permitisse perceber as categorias-chave com base nas quais a ONU opera na manutenção da paz e na reconstrução de Estados – como segurança, desenvolvimento e democracia –, bem como a forma pela qual essas categorias são traduzidas dos documentos que propõem diretrizes políticas, para a linguagem dos operadores de campo. As transformações das diretrizes normativas, institucionais e operacionais dos instrumentos utilizados pela ONU para manter a paz e reconstruir Estados, desde sua criação até o ano de 2008, foram abordadas no Capítulo 1, que enfatizou a reorganização das atividades relacionadas a esses instrumentos em três áreas – segurança, assistência humanitária e assistência ao desenvolvimento –, como reflexo da incorporação do desenvolvimento a uma nova agenda de segurança internacional. No Capítulo 2, com base no caso da OMP realizada na Libéria (2003 a 2008), procurou-se identificar evidências da tradução das diretrizes gerais para a linguagem dos operadores de campo, por meio da análise de documentos que detalham as atividades realizadas pela ONU e seus parceiros no país, com vistas à identificação dos principais componentes e elementos que integram suas atribuições e das diversas formas de interação entre eles. Esse esforço foi complementado pela identificação das agências e organizações encarregadas do desenvolvimento dessas atividades, e das áreas de atuação de cada uma delas. Finalmente, no Capítulo 3, a reformulação dos meios pelos quais a sociedade internacional passou a promover a paz e a segurança, a partir 3 ―It highlights that texts are situated within and against other texts, that they draw upon them in constructing their identities and policies, that they appropriate as well as revise the past, and that they build authority by reading and citing that of others‖. 21 do final da Guerra Fria, foi reinterpretada, com base no conceito de governamentalidade, formulado por Foucault, como uma forma de colonização do espaço social internacional, e de suas fronteiras, por meio da difusão de modos de existência liberais, inspirados pela consolidação de um nexo entre segurança e desenvolvimento, que se articula em torno da ideia de Paz Democrática. 22 2 OPERAÇÕES DE MANUTENÇÃO DA PAZ E TRANSFORMAÇÕES DO SISTEMA DE SEGURANÇA COLETIVA Os processos de construção e reconstrução de Estados são recorrentes ao longo da história do que se conhece hoje como sociedade internacional. Seja nas guerras de independência do século XVIII, ou nas Operações de Manutenção da Paz (OMP) multidimensionais do XXI, a criação de arranjos estatais foi tomada como a principal maneira de promover a estabilidade nas regiões em conflito e, de forma mais ampla, a manutenção da ordem no sistema internacional. Ainda que os objetivos gerais tenham se mantido, a forma de realizar essa tarefa sofreu importantes transformações por séculos afora, com destaque para a crescente participação das organizações internacionais. Particularmente, a partir da Segunda Guerra Mundial, a (re)construção de Estados teve lugar em torno da Organização das Nações Unidas (ONU), que se constituiu, desde então, em fórum de reconhecimento e ator fundamental para tais processos. O capítulo aborda o papel desempenhado pela ONU na (re)construção de Estados à luz de sua função mais ampla de manter a ordem e a estabilidade no sistema internacional. Inicialmente, serão discutidos os principais instrumentos de pacificação e reconstrução utilizados pela Organização, bem como as modificações sofridas por eles, desde sua criação até o ano de 2008, com ênfase no período posterior à Guerra Fria. Nesse período, serão discutidas as novas diretrizes normativas, institucionais e operacionais das OMP, e a incorporação do desenvolvimento como componente de uma nova agenda de segurança internacional. Tal incorporação, como aqui defendida, ocorre de duas maneiras: conceitualmente, por meio da consolidação da noção de segurança humana; e, operacionalmente, com a criação das operações multidimensionais. Finalmente, pretende-se tratar da nova estrutura das missões de paz, tal como proposta na Doutrina Capstone (2008). Nesse sentido, interessa principalmente perceber como as tarefas realizadas pelas missões são reorganizadas em torno de três áreas: segurança, assistência humanitária e assistência ao desenvolvimento. Pretende-se ainda identificar e descrever o processo de atribuição de papéis entre atores, dentro e fora do sistema ONU – tais como agências estatais e organizações não governamentais (ONGs) –, e de interação entre eles para realização de tarefas cada vez mais complexas que constam da agenda das operações de paz que envolvem (re)construção de Estados. 23 2.1 Paz e Estabilidade no Sistema Internacional da Guerra Fria Para Bartelson (1995), a constituição do mundo moderno teria partido do questionamento sobre a origem da relação entre homem, linguagem e nação, em decorrência do qual esses três elementos, além de historicizados, passaram a ser entendidos dentro de um ―jogo de espelhos‖, obedecendo às mesmas regras e constituindo as condições de conhecimento, com base na reflexividade entre ser e saber. Isso permitiu que comunidades interpretativas ganhassem existência objetiva e atribuiu ao Estado uma subjetividade análoga à do homem (BARTELSON, 1995). O Estado passou a ser entendido como uma pessoa moral e a soberania foi despersonalizada, isto é, deixou de referir-se à pessoa do soberano e passou a ser atribuída à nação. Nesse sentido, os Estados nacionais modernos são constituídos por meio da lógica de exclusão que separa o interno e o externo. Por analogia, as relações externas dos Estados foram interpretadas com base na mesma lógica de exclusão territorial, fazendo da soberania o princípio organizador das relações sociais no interior dos Estados e entre eles (BARTELSON, 1995). Essa dualidade possibilitou a emergência do internacional como um regime de poder que produz a sociedade internacional, gerando indivíduos – Estados nacionais – e normalizando as relações entre eles – sociedade internacional. Assim, pode-se considerar a soberania como o dispositivo 4 que, reunindo poder e conhecimento, constituiu Estados como sujeitos e os dispôs em uma ordem social: a sociedade internacional (ESTEVES, 2006). O funcionamento adequado dessa sociedade, ou seja, a manutenção da ordem, pressupõe a observância de regras e depende da capacidade de expansão do modelo para outros espaços, o que é feito por meio de várias estratégias de poder, tecnologias e técnicas. 5 Valendo-se delas, a sociedade internacional pode transformar comunidades políticas em Estados nacionais soberanos e transplantar para eles uma série de padrões de organização do governo, das relações políticas e sociais que compõem o modelo de sujeito internacional. 4 O conceito de ―dispositivo‖ é entendido, segundo a obra de Foucault, como um conjunto de práticas coerentes que organizam a realidade social, reúnem poder e saber, e estabelecem relações de forças, produzindo formas de subjetividade consistentes com o regime de poder a que se encontram referidos (RABINOW; DREYFUSS, 1995). 5 Entende-se aqui estratégia como o emprego da racionalidade na escolha dos meios para alcançar um objetivo, obter uma vantagem ou uma vitória. As estratégias de poder, por sua vez, seriam o ―conjunto dos meios operados para fazer funcionar ou para manter um dispositivo de poder.‖ (RABINOW; DREYFUSS, 1995, p.248). Já o conceito de técnica vem do grego techné, saber fazer, e se refere ao conjunto de processos de uma arte ou ciência, especificamente relacionados à prática. Essa ideia de saber fazer, conforme entendida pelos antigos, se opõe à de saber pensar, relacionada ao conceito de tecnologia, entendida como conjunto de conhecimentos, especialmente princípios, que se aplicam a um determinado ramo de atividade. 24 Com isso, promove a disciplina nas relações entre comunidades políticas, criando unidades homogêneas capazes de atuar na sociedade de Estados de acordo com regras preestabelecidas que garantirão a perpetuação do próprio regime de poder que as constituiu. A construção de Estados, ou pelo menos de unidades administrativas que reproduziam, em larga medida, a forma de organização das relações políticas e sociais proposta pelos arranjos estatais, foi, historicamente, uma das principais estratégias de expansão do modelo de sujeito internacional para além das fronteiras europeias. Inicialmente, essa expansão se deu pelo recurso a técnicas como o processo de colonização empreendido pelos europeus ao redor do mundo, que, de acordo com a descrição oferecida por Watson (2004), baseou-se nos princípios que regiam a própria sociedade européia. Em seguida, com a primeira onda de processos de liberação nacional – ou descolonização – coube aos europeus administrar a reinserção das antigas colônias em seu sistema de Estados, agora como unidades soberanas. Ainda segundo Watson (2004), a preponderância exercida pelos europeus no sistema teria sido solapada diante da destruição provocada pela segunda Guerra Mundial, que teve como efeitos principais, por um lado, a transferência do controle sobre o sistema para as mãos dos grandes vitoriosos do conflito, os Estados Unidos (EUA) e a União Soviética (URSS); e, por outro, o desencadeamento de uma nova onda de movimentos de reivindicação de independência entre as colônias e possessões das antigas potências, principalmente na África e na Ásia. A prerrogativa de reconstruir a ordem internacional no pós-guerra impôs às potências dois grandes desafios. O primeiro deles, a recomposição de um sistema de segurança coletiva, no intuito de devolver a estabilidade às relações entre os Estados e garantir a perpetuação do modelo de relacionamento entre eles. O segundo, a administração dos processos de reivindicação de independência para garantir que seu desenrolar não ameaçasse a existência das unidades que já constituíam o sistema. Nesse período, a construção de Estados se aliou a duas outras estratégias – demarcação das zonas de influência das potências e descolonização – como parte do esforço de redefinição dos contornos da ordem internacional, de acordo com a lógica da Guerra Fria. A demarcação das zonas de influência previa a divisão do mundo em dois blocos, um alinhado à URSS e outro aos EUA, sendo que caberia a cada uma das potências preservar a ordem e a estabilidade dentro de seu bloco. A descolonização, por sua vez, garantiria independência às regiões coloniais sob domínio europeu, sua inscrição, agora como Estados, nas zonas de influência, e seria uma forma de legitimar a nova ordem e por um fim definitivo à proeminência europeia no sistema (WATSON, 2004). 25 Em parte, a operação do sistema de segurança coletiva, bem como a entrada dos novos Estados no sistema internacional foram relegadas à ONU, criada em 1945, para preservar a paz e a estabilidade. Os processos de construção de Estados liderados pela ONU ocorreram pelo recurso a duas grandes técnicas: as operações de paz, desenvolvidas para restaurar a segurança em casos de conflito; e a tutela, delineada especialmente para lidar com casos de descolonização. A primeira será tratada detalhadamente, ao passo que a segunda será descrita de forma breve, para fornecer base de comparação. Em ambos os casos, é possível perceber que a atuação da ONU foi pautada pelo respeito à noção de equilíbrio de poder e ao princípio da soberania, o que denota a importância dos instrumentos de controle dos Estados nacionais para a governabilidade e a preservação do sistema internacional. Dessa forma, a Organização procurou garantir a demarcação das fronteiras dos Estados e o estabelecimento de governos fortes que pudessem exercer controle efetivo sobre seu território e sua população, garantindo a preservação da ordem interna. Paralelamente, a reorganização das comunidades políticas na forma de Estados permitiria sua inscrição no sistema de zonas de influência criado pelas potências. A tutela funcionou, no imediato pós-guerra, como substituta para o sistema de mandatos da Liga das Nações, com o objetivo de conduzir povos considerados atrasados ao autogoverno. Para tanto, a Carta da ONU determinou a criação do Conselho de Tutela como um dos seis órgãos da Organização. 6 O Conselho era composto por representantes dos Estados-membros cuja atuação deveria centrar-se na coleta de informações, discussões e recomendações sobre os territórios tutelados para as nações responsáveis por sua administração, ainda que sem poderes coercitivos legais (ZIRING; RIGGS; PLANO, 2002). 7 Pelos acordos firmados em 1946 e 1947, os mandatos dos territórios que, de acordo com os 6 Os outros cinco órgãos são a Corte Internacional de Justiça, a Assembléia Geral, o Conselho de Segurança, o Conselho Econômico e Social e o Secretariado. O último território sob mandato do Conselho de Tutela, a Ilha de Palau, tornou-se independente em 1994. Desde então, as atividades do Conselho foram interrompidas, mas, para evitar emendas à Carta, o órgão continua a existir formalmente (WEISS; FORSYTHE; COATE, 2004). 7 O órgão tinha também a prerrogativa de receber petições enviadas por nativos diretamente, além do direito de enviar missões aos territórios tutelados, para averiguar as condições em primeira mão (ZIRING; RIGGS; PLANO, 2002). Vale ressaltar que os países encarregados da administração dos territórios tutelados procuraram, ao longo do tempo, desenvolver mecanismos para resguardar sua capacidade de controle em relação à interferência da ONU. Exemplo disso foi a salvaguarda conseguida pelos Estados Unidos sobre a administração das ilhas do Pacífico, que previa que, se os territórios tutelados estivessem comprovadamente envolvidos em questões estratégicas, os assuntos relacionados a eles sairiam do âmbito do Conselho de Tutela e passariam para a jurisdição do Conselho de Segurança (ZIRING; RIGGS; PLANO, 2002). 26 critérios da Liga, pertenciam às classes B e C 8 foram automaticamente colocados sob tutela, enquanto os da classe A ficaram dispostos em uma escala para definição rápida da independência 9. Além dos territórios herdados da Liga, a Carta da ONU colocava a tutela como uma opção para a administração dos territórios retirados dos Estados derrotados na Segunda Guerra Mundial (ZIRING; RIGGS; PLANO; 2002). Os territórios entravam no sistema de tutela por meio de acordos desenhados pelos Estados-membros que exerciam autoridade administrativa sobre eles e submetidos à aprovação da Assembléia Geral. Uma vez aprovados os acordos, a ONU estabelecia os termos dos mandatos, designava um tutor para cada caso, o que poderia ser o país que propôs o acordo, ou não, ficando as decisões submetidas à supervisão do Conselho (ZIRING; RIGGS; PLANO; 2002). Como lembram Ziring, Riggs e Plano (2002), ainda que o poder da ONU sobre os administradores não fosse tão grande, estes eram obrigados a lidar com os possíveis constrangimentos da supervisão internacional. Segundo os autores, as petições e missões viabilizadas pelo Conselho teriam contribuído para o aumento da pressão internacional sobre os administradores para ampliação das fontes de informação sobre as condições dos territórios tutelados e do espaço para que os nativos pudessem expressar opiniões sobre seu futuro. Assim, ―considerada como um todo, a tutela ajudou a elevar os padrões de administração nos territórios tutelados e apressou a chegada da independência‖ (ZIRING; RIGGS; PLANO, 2002, p.309, tradução livre). 10 Além disso, teria encorajado demandas nacionalistas nativas; preparado as regiões para o autogoverno; contribuído para que a transição do poder fosse pacífica; e aberto caminho para o que, em alguns anos, tornar-se-ia um combate veemente das 8 A Liga das Nações classificava os territórios administrados em A, B ou C, segundo critérios, como, desenvolvimento político, condições econômicas e posição geográfica. Os territórios de classe A eram aqueles considerados de maior sofisticação política e melhores condições econômicas, que, no entender da Liga, estariam aptos ao autogoverno após um período relativamente curto de assistência e conselhos administrativos providos pela nação mandatária. Os territórios assim classificados foram reconhecidos como provisoriamente independentes; consequentemente, os mandatos dos encarregados de sua administração tinham previsão de encerramento no curto prazo. No outro extremo da classificação estariam os territórios de classe C, habitados por povos tidos como incapazes de se autogovernarem, no curto ou médio-prazo, devido a fatores como dispersão populacional, tamanho reduzido do território ou localização remota em relação ao que a Liga considerou ser o centro da civilização. Esses territórios que incluíam, por exemplo, a África do Sudoeste (atual Namíbia) e algumas ilhas alemãs no Pacífico, deveriam ser administrados pelas nações mandatárias como parte integral de seus próprios territórios e por prazos indefinidos. À classe B foram relegados os territórios intermediários, os quais não seriam anexados e sim governados como colônias, sem previsão explícita de independência definitiva ou autogoverno. Esse era o status, por exemplo, das demais possessões alemãs na África (ZIRING; RIGGS; PLANO, 2002). 9 Os territórios de classe A da Liga que passaram para a administração do Conselho de Tutela foram Transjordânia (Jordânia); Síria; e Líbano, independentes em 1946, além da Palestina. Ainda que o estado palestino não tenha saído do papel, Israel tornou-se independente em 1948 (ZIRING; RIGGS; PLANO, 2002). 10 ―Considered as a whole, trusteeship helped raise standards of administration in the trust territories and hastened the coming of independence‖. 27 Nações Unidas contra a colonização (ZIRING; RIGGS; PLANO, 2002). Até 1975, todos os territórios sob tutela tornaram-se independentes ou uniram-se, por meio de plebiscitos aprovados pela ONU, a Estados independentes, exceto as Ilhas do Pacífico, que só conquistaram autonomia nos anos 1990. 11 À parte do debate sobre a descolonização, a ONU assumiu a responsabilidade pela operação do sistema de segurança coletiva, especialmente nas regiões que não despertavam grande interesse das potências. Para tanto, o principal mecanismo encontrado pela Organização foram as operações de manutenção da paz (OMP), entradas em cena pela primeira vez em maio de 1948, com o estabelecimento da UNTSO (United Nations Truce Supervision Organization), um grupo não armado de observadores militares enviados para monitorar o armistício entre o recém criado estado de Israel e seus vizinhos árabes (ONU, 2009a). Logo em seguida, em janeiro de 1949, foi criado o UNMOGIP (United Nations Military Observer Group in India and Pakistan), também com objetivo de observar e monitorar a resolução do conflito (ONU, 2009). Essas operações – ambas estendidas até hoje – marcaram o início de um tumultuado processo de definição de princípios e prerrogativas das OMP como instrumento de manutenção da paz e da segurança internacionais. Como lembram Weiss, Forsythe e Coate (2004), o conceito de operação de manutenção da paz (peacekeeping) não consta na Carta da ONU e teria sido idealizado pela reunião de medidas previstas em dois capítulos do documento: o VI, que trata dos métodos de solução pacífica de disputas; e o VII, que prevê a possibilidade de respostas mais incisivas por parte da Organização – inclusive o uso da força – em situações nas quais já houve quebra da paz. Dessa forma, as OMP se enquadraram no que o então Secretário-Geral Dag Hammarskjöld chamou de ―Capítulo VI e meio.‖ Além de terem enfrentado o que os autores chamaram de falta de base constitucional (WEISS; FORSYTHE; COATE, 2004), essas operações tinham que lidar com a desconfiança dos países em relação às intenções uns dos outros nas intervenções militares e às diversas possibilidades de interpretação dos artigos da Carta (ROBERTS, 2004). Segundo Dobbins et al (2005), essa desconfiança era reforçada pela própria lógica da Guerra Fria, na qual os conflitos regionais foram muitas vezes entendidos como moedas na disputa entre os blocos, de modo que a preocupação com sua resolução ficasse subordinada a outra, que dizia respeito à possibilidade de um dos lados auferir ganhos relativos da situação. 11 Para Ziring, Riggs e Plano (2002), a tutela não apresentou grandes inovações em relação aos mandatos da Liga, o que poderia ser creditado ao fato de as potências não considerarem vantajoso investir nesse tipo de arranjo. 28 Esse clima de desconfiança e disputa implicou enorme dificuldade para alcançar um consenso sobre as OMP. Em decorrência disso, o posicionamento da ONU em relação aos conflitos internacionais no período teve duas características principais: primeiro, o exercício sistemático do poder de veto por parte das potências em reuniões do Conselho de Segurança nas quais eram discutidas possibilidades de intervenção 12 ; e depois, o privilégio dado à manutenção do status quo em conflitos nos quais as potências concordavam sobre a necessidade de intervir, o que se consolidou sob a prédica do respeito ao princípio da soberania. Como reflexo dessas características, Weiss, Forsythe e Coate (2004) afirmam que, para que as OMP pudessem navegar nas águas turbulentas da Guerra Fria, tiveram que ser incorporadas a elas regras como imparcialidade e suporte da ONU; limitação da escala e do escopo das missões; emprego reduzido da força e consentimento das partes. Assim, as operações de manutenção da paz foram definidas pelo Subsecretário-Geral Marrack Goulding como: Operações de campo das Nações Unidas nas quais pessoal internacional, civil e/ou militar entra em ação com o consentimento das partes e sob o comando das Nações Unidas para ajudar no controle e solução de conflitos internacionais reais ou potenciais ou conflitos internos com dimensões internacionais claras (GOULDING, 1991 apud WEISS; FORSYTHE; COATE, 2004, p.54, tradução livre). 13 De modo geral, essas operações tinham como objetivo: (i) observar a paz por meio do monitoramento e da produção de informações sobre acordos de cessar-fogo; (ii) manter a paz pela separação dos beligerantes e pelo estabelecimento de zonas de desengajamento entre eles; e (iii) dar suporte a esforços políticos de construção de confiança e resolução dos conflitos por meios pacíficos (WEISS; FORSYTHE; COATE, 2004; ONU, 2009a.). Para tanto, passavam pela restauração da soberania do(s) Estado(s) afetado(s) pelo conflito (ROBERTS, 2004) ou pela construção de unidades soberanas para controlar regiões instáveis. Ainda que a ausência de consenso sobre o modus operandi das OMP tenha resultado em improvisações segundo exigências conjunturais específicas de cada caso (WEISS; FORSYTHE; COATE, 2004), é possível afirmar que, durante a Guerra Fria, as operações se dedicavam à (re)construção de Estados de forma limitada, como parte de uma agenda de segurança que visava principalmente à estabilidade das relações no plano internacional. Tal 12 A sistematicidade do poder de veto acabou por gerar o que Roberts (2004) chamou de uma percepção geral de paralisia do Conselho durante a Guerra Fria. 13 United Nations field operations in which international personnel, civilian and or military are deployed with the consent of the parties and under United Nations command to help control and resolve actual or potential international conflicts or internal conflicts which have a clear international dimension. 29 agenda excluía preocupações referentes à organização interna dos Estados, tais como formas de governo ou bem-estar da população, além de, na maioria das vezes, ignorar as causas dos conflitos e os fatores que os sustentavam. Nesse sentido, Dobbins et al (2005) afirma que o objetivo das missões ―[...] não era garantir a solução dessas longas disputas, e sim desencorajar sua escalada‖ (DOBBINS et al, 2005, p.213, tradução livre). 14 Segundo David Chandler (2007), a preponderância de uma agenda de segurança informada por preocupações geopolíticas sobre outras pode ser considerada traço definidor da política internacional durante a Guerra Fria, especialmente no que se refere às intervenções internacionais. Entre essas agendas, pode-se citar a do desenvolvimento, que, no período, estaria condicionada ―ao reconhecimento e ao compartilhamento do compromisso geral acerca da manutenção da estabilidade internacional e [...] ao posicionamento em relação aos dois grandes blocos ideológicos‖ (SANTOS FILHO, 2005, p.36). Para Chandler (2007), a segurança privilegiava ameaças militares e interesses geoestratégicos dos blocos, ao passo que as políticas de desenvolvimento eram utilizadas, principalmente, entre os capitalistas, como forma de atrair e dar suporte a aliados políticos. 15 Dessa forma, ainda que políticas de desenvolvimento contribuíssem para a vigência da ordem, elas não desempenhavam papel importante no combate aos conflitos internacionais; consequentemente, não constavam nos mandatos das OMP, idealizadas para responder direta e quase exclusivamente à agenda de segurança 16 (DOBBINS et al, 2005; ROBERTS, 2004; WEISS; FORSYTHE; COATE, 2004). Com o fim da bipolaridade, as atribuições das OMP se tornaram mais abrangentes e, cada vez mais, passaram a incluir questões relacionadas ao combate às causas dos conflitos e à reconstrução da estrutura interna de um número crescente de Estados afetados pela guerra. As principais transformações normativas, institucionais e operacionais das OMP no pós Guerra Fria, bem como a redefinição de seu lugar como grande instrumento de manutenção da ordem e da estabilidade no sistema internacional serão tratadas nas próximas seções. Tais 14 ―[...] was not to enforce resolution of these longstanding disputes but rather to discourage their escalation‖. Nesse período, a agenda do desenvolvimento englobava basicamente o aporte de conhecimento tecnológico e de capital para catalisar a mudança das estruturas de produção dos países considerados atrasados, aumentar a eficácia produtiva do conjunto das forças de trabalho e, assim, gerar crescimento econômico e prosperidade, possibilitando ao país o atendimento das necessidades humanas (SANTOS FILHO, 2005). 16 A primeira OMP armada foi a UNEF I (First United Nations Emergency Force), enviada para combater a crise de Suez, em 1956. Nos anos 1960, a ONU realizou a primeira operação de larga escala, a ONUC (United Nations Operation in the Congo), que envolveu mais de 20 mil soldados e revelou a fragilidade das bases operacionais das OMP. Nos anos 1960 e 1970, a organização deu início a intervenções de longa duração no Chipre (UNFICYP) e no Oriente Médio (UNEF II, UNDOF e UNIFIL). Até os anos 1990, a ONU realizou 13 OMP (ONU, 2009). Os principais elementos dos mandatos dessas missões estão relacionados no Quadro 2 (p.53), e evidenciam sua relação quase exclusiva com uma agenda de segurança voltada à manutenção da estabilidade. 15 30 transformações seriam decorrentes da emergência de um novo entendimento acerca da segurança internacional no período, no qual preocupações geoestratégicas acabaram por ceder espaço a temas até então subsumidos a elas, como o desenvolvimento. A hipótese é que a inserção da agenda do desenvolvimento – também modificada pelas propostas de reconfiguração do sistema internacional – como componente da agenda de segurança articulou-se ao surgimento de uma nova geração de operações de paz nos anos 1990 de duas maneiras: conceitualmente, pela noção de segurança humana; e, operacionalmente, com as OMP multidimensionais. 2.2 Pós Guerra Fria: uma Agenda para a Paz O final da Guerra Fria inaugurou um período de grandes transformações no sistema internacional. Por um lado, cresceu enormemente o número de conflitos violentos e guerras civis; por outro, o aumento da interdependência entre os Estados sinalizava o fortalecimento do multilateralismo e o maior engajamento das organizações multilaterais nos assuntos internacionais. De uma forma ou de outra, a velha ordem, gerida por duas superpotências, estava arruinada, o que abriu espaço para um embate discursivo entre propostas para o estabelecimento de uma nova ordem, capaz de devolver o equilíbrio ao sistema internacional. Entre essas propostas, destacou-se um conjunto de princípios de cunho liberal que afirmava a primazia dos direitos individuais e apontava para a possibilidade de que tais direitos fossem realizados e garantidos internacionalmente. Para os defensores dessas ideias, os anos 1990 inaugurariam uma nova era de paz e prosperidade para a sociedade internacional, na qual a superação da barreira criada pela ideologização, pela profunda clivagem entre os blocos e pelos conflitos entre as potências criaria um ambiente de aproximação e diálogo entre os povos, cada vez menos limitados pelas fronteiras nacionais. De forma geral, parecia haver a expectativa de consolidação de uma grande comunidade, da qual fariam parte todos os habitantes do planeta. Essa comunidade seria protagonizada pelas pessoas, que, imbuídas de forte senso de internacionalismo e compartilhando valores comuns, favoreceriam a criação de uma ordem internacional mais justa, capaz de se sobrepor àquela dos Estados nacionais. As organizações internacionais teriam papel fundamental na conformação dessa nova ordem, atuando como orquestradoras da 31 governança internacional, formulando regras e garantindo sua implementação segundo valores universais e uma ética de responsabilidade. Não por acaso, essas ideias ganharam eco nos posicionamentos oficiais de várias dessas organizações, que tentavam traduzi-las em propostas consistentes de reformulação sistêmica. Com intuito de tomar a frente nesse esforço, a ONU realizou, em 31 de janeiro de 1992, a primeira reunião do Conselho de Segurança a contar com a presença dos chefes de estado e do governo dos Estados-membros. A pauta enfocou as transformações recentes no cenário internacional e os caminhos para ampliar o peso e a eficiência da atuação da Organização em um novo contexto. Os temas e estratégias abordados no encontro culminaram com a elaboração da ―Agenda Para a Paz‖, um relatório encaminhado pelo então Secretário Geral Boutros-Ghali ao Conselho, ainda em 1992. No documento, o Secretário afirmava que o fim do antagonismo entre as potências daria uma nova oportunidade para a ONU; uma segunda chance para que os Estados pudessem se comprometer com os princípios da Carta e garantir a realização dos objetivos e o cumprimento das promessas nela enunciadas. Nesses últimos meses, cresceu a convicção entre as nações, grandes ou pequenas, que uma nova oportunidade foi dada para alcançar os grandes objetivos da Carta – uma Organização das Nações Unidas capaz de manter a paz e a segurança internacionais, proteger a justiça e os direitos humanos e promover, nas palavras da Carta, ‗progresso social e melhores condições de vida em um ambiente de maior liberdade‘. Tal oportunidade não pode ser desperdiçada. A Organização não deve nunca mais ser paralisada como o foi na era que agora se encerra (ONU, 1992, § 3, tradução livre). 17 Entretanto, para que pudesse aproveitar essa oportunidade, a ONU teria que contar com o compromisso de seus membros e enfrentar uma série de desafios, como a nova natureza dos conflitos, que passaram a ocorrer em menor escala entre os Estados e aumentaram sensivelmente dentro deles. Na tentativa de lidar com esses desafios, ―seu braço de segurança, antes desabilitado por circunstâncias que não foi criado ou equipado para controlar, emergiu como instrumento central para a prevenção e a resolução de conflitos e para a preservação da paz‖ (ONU, 1992, § 15, tradução livre). 18 Um dos grandes objetivos da Agenda para a Paz foi, exatamente, propor maneiras de tornar mais forte e eficiente esse braço, revisitando os conceitos de diplomacia preventiva, peacemaking e peacekeeping 17 In these past months a conviction has grown, among nations large and small, that an opportunity has been regained to achieve the great objectives of the Charter - a United Nations capable of maintaining international peace and security, of securing justice and human rights and of promoting, in the words of the Charter, "social progress and better standards of life in larger freedom". This opportunity must not be squandered. The Organization must never again be crippled as it was in the era that has now passed. 18 ―Its security arm, once disabled by circumstances it was not created or equipped to control, has emerged as a central instrument for the prevention and resolution of conflicts and for the preservation of peace‖. 32 (OMP) e acrescentando outro, intimamente relacionado aos anteriores: o peacebuilding pósconflito. De acordo com a Agenda, cada um dos instrumentos desempenharia um papel específico na promoção e manutenção da segurança internacional. Cada papel relacionar-se-ia a um dos novos objetivos da atuação da ONU, que seriam: (i) identificar, o mais cedo possível, situações potencialmente conflituosas e neutralizá-las, por meio da doplomacia preventiva, antes que resultem em violência; (ii) uma vez iniciado o conflito, engajar-se em interrompê-lo e buscar soluções para suas causas, o que seria feito via peacemaking; (iii) com o peacekeeping (OMP), trabalhar para preservar a paz e assistir a implementação de acordos onde as batalhas tiverem sido suspensas; e (iv) assistir a reconstrução das instituições e da infraestrutura dos Estados afetados pela guerra e construir laços pacíficos e mutuamente benéficos entre países, por meio do peacebuilding pós-conflito (ONU, 1992, § 15). Entre as consequências das transformações propostas pela Agenda, parece especialmente interessante aos propósitos do trabalho, a que trata da emergência de um novo entendimento acerca das OMP, no qual o foco foi redirecionado para atividades de reconstrução, ―[...] cada vez mais aplicadas a conflitos intra-estatais e guerras civis‖ (ONU, 2009, p.3, tradução livre) 19. Em vez de simplesmente estabilizar a situação – como ocorria no período anterior –, as operações de paz deveriam, agora, se preocupar em prevenir a retomada das hostilidades, buscando solucionar os problemas que as precipitaram. Para tanto, as OMP tradicionais seriam suplementadas pelo peacebuilding, como forma de ―[...] identificar e dar suporte a estruturas capazes de fortalecer e solidificar a paz com vistas a evitar a volta do conflito‖ (ONU, 1992, § 21, tradução livre). 20 Nesse sentido, a ONU passou a defender que ―[…] somente um trabalho sustentado e cooperativo que trate os problemas econômicos, sociais, culturais e humanitários que subjazem aos conflitos podem garantir uma fundação durável à paz alcançada‖ (ONU, 1992, § 57, tradução livre). 21 Como resultado, as OMP foram reinterpretadas como um primeiro estágio do processo de reconstrução e pacificação, no qual a deposição das armas abre caminho para o ―[...] suporte à transformação de estruturas nacionais deficientes e capabilities 19 ―[…] increasingly applied to intra-State conflicts and civil wars‖. ―[…] identify and support structures which will tend to strengthen and solidify peace in order to avoid a relapse into conflict‖. 21 ―[…] only sustained, cooperative work to deal with underlying economic, social, cultural and humanitarian problems can place an achieved peace on a durable foundation‖. 20 33 e para o fortalecimento de novas instituições democráticas‖ (ONU, 1992, § 59, tradução livre) 22 , descrito na Agenda como obrigação da ONU. A definição de novos caminhos para a paz, tal como enunciada na Agenda para a Paz (1992), refletiu a transformação da própria ideia de segurança internacional. Para a ONU, o final da Guerra Fria ―mudou a configuração da sociedade global, mudou também a natureza da segurança global‖ (CGG, 1996, p.59). A lista de ameaças à segurança, antes protagonizada pelas disputas entre os Estados ou as potências, passou a incluir fatores difusos, que não respeitam as fronteiras, como, por exemplo: a proliferação de armas convencionais e de destruição em massa; os problemas ambientais; o terrorismo; ou o transbordamento de conflitos civis para Estados vizinhos, seja pela luta armada em si ou pelas ondas de refugiados e pelo fortalecimento de alianças capazes de disseminar a instabilidade por continentes inteiros (ONU, 1992). Diante das novas ameaças, ―o conceito de segurança global deve ser ampliado, passando a abranger não só a tradicional segurança dos Estados, como também a segurança das pessoas e do planeta‖ (CGG, 1996, p.57). Dessa forma, consolidou-se um discurso que afirmava que o princípio de segurança coletiva – focado na estabilização das relações entre os Estados – precisava dar lugar ao de segurança comum, segundo o qual a segurança internacional só será duradoura quando compartilhada pela humanidade como um todo. Para que isso fosse possível, a ONU apontava para a necessidade de combater as ―causas profundas dos conflitos: desespero econômico, injustiça social e opressão política‖ (ONU, 1992, § 15, tradução livre). 23 A articulação dessas propostas parece ter ocorrido em torno do conceito de segurança humana, definido pela primeira vez no Relatório de Desenvolvimento Humano, publicado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) em 1994. Segundo o documento, a ―segurança humana abrange a proteção contra ameaças crônicas, como fome, doenças e repressão, e também contra o rompimento dos padrões da vida cotidiana‖ (apud CGG, 1996, p.59) e desdobrar-se-ia em sete áreas: segurança econômica; alimentar; pessoal; comunitária; política; de saúde e do meio ambiente (PNUD, 1994). O sucesso inicial do conceito foi reforçado pela publicação, ainda em 1994, de uma série de estudos do Banco Mundial, intitulada Voices of the Poor. Na realização dos estudos, o Banco entrevistou mais de 60 mil pessoas de 60 países pobres sobre suas condições de vida, as principais necessidades, anseios e preocupações em relação ao futuro. Surpreendentemente, 22 ―[…] support for the transformation of deficient national structures and capabilities, and for the strengthening of new democratic institutions‖. 23 ―[…] the deepest causes of conflict: economic despair, social injustice and political oppression‖. 34 os resultados indicavam a segurança como a primeira preocupação entre os mais carentes, deixando para trás necessidades básicas, como abrigo e comida (CHANDLER, 2007). De acordo com os estudos, a segurança seria condição de possibilidade para a melhoria das condições de vida das populações mais pobres, especialmente as diretamente afetadas por conflitos violentos. Entretanto, naquele contexto, a segurança não poderia significar simplesmente a observância dos interesses estratégicos dos Estados mais poderosos, tal como no passado; o conceito teria de ser alargado para incluir elementos da ordem interna relacionados à melhoria das condições de vida das populações. Conforme a definição da ONU, a Segurança humana, em sua forma mais ampla, engloba muito mais que a ausência de conflitos violentos. Inclui direitos humanos, boa governança, acesso à educação e à saúde e a garantia de que cada indivíduo tenha oportunidades e escolhas que proporcionem a realização de todo o seu potencial. Cada passo nessa direção é também um passo rumo à redução da pobreza, ao crescimento econômico e à prevenção de conflitos (CSH, 2003 p.4, tradução livre). 24 A consolidação do conceito de segurança humana marcou a inserção definitiva do desenvolvimento como componente da agenda de segurança internacional. O novo papel das políticas de desenvolvimento na ordem internacional foi sistematizado na Agenda para o Desenvolvimento (1994), documento no qual o Secretário-Geral afirmou que o ―desenvolvimento é um direito humano fundamental [e] a base mais segura para a paz‖ (ONU, 1994, § 3, tradução livre). 25 Esta relação entre desenvolvimento e paz deu azo à noção, enunciada no relatório final da Carnegie Commission on Preventing Deadly Conflict (1997), de que o sucesso da prevenção de conflitos pelo tratamento de suas causas profundas (estruturais) dependeria da capacidade da sociedade internacional, em geral, e das organizações internacionais, mais especificamente, de induzir e coordenar processos de transformação das sociedades em conflito, baseados na consolidação de estruturas de proteção dos direitos fundamentais, instituições democráticas e políticas de desenvolvimento. Com isso, a segurança humana se firmava como um conceito capaz de informar a reestruturação de todo o leque de políticas de combate às ameaças à paz e à segurança internacionais implementadas pelas mais diversas agências da ONU. 24 Human security in its broadest sense, embraces far more than the absence of violent conflict. It encompasses human rights, good governance, access to education and health care, and ensuring that each individual has opportunities and choices to fulfill his or her own potential. Every step in this direction is also a step towards reducing poverty, achieving economic growth and preventing conflict. 25 ―Development is a fundamental human right. Development is the most secure basis for peace‖. 35 A apropriação do conceito logrou especial sucesso no campo das operações de paz, servindo de base para a emergência de debates em torno do problema da intervenção humanitária, bem como para a enorme diversificação das atividades incluídas nos mandatos das missões a partir dos anos 1990. Em meio a esse processo, as OMP tradicionais acabaram por dar lugar às operações multidimensionais (DPKO, 2007b), mais ambiciosas e intrusivas, lançadas ―[...] com o objetivo de auxiliar a reconstrução das bases políticas, econômicas e sociais dos países em vias de sair de processos de guerras civis [...]‖ (PARIS, 2007, p.405, tradução livre) 26 e, assim, ―[...] aliviar o sofrimento humano, criar condições e construir instituições para a paz auto-sustentável‖ (DPKO, 2007a, tradução livre). 27 De acordo com o Departamento de Operações de Paz (DPKO), as principais atribuições das missões de paz conduzidas pela ONU passaram a ser: (i) prevenir a eclosão do conflito ou sua difusão alémfronteiras; (ii) estabilizar situações conflituosas depois do cessar-fogo com vistas à criação de um ambiente no qual as partes possam chegar a um acordo de paz duradouro; (iii) assistir a implementação dos acordos de paz; e (iv) guiar Estados ou territórios na transição para governos estáveis, baseados em princípios democráticos, boa governança e desenvolvimento econômico (DPKO, 2007a). Em face disso, pode-se afirmar que o foco da maior parte das operações de paz deixou de ser simplesmente a interrupção imediata das hostilidades, conforme ocorria durante a Guerra Fria, para abranger a transformação das sociedades marcadas pela violência. Nas palavras de Dobbins et al (2007): Durante a Guerra Fria, as tropas da ONU foram normalmente empregadas para separar combatentes, policiar zonas desmilitarizadas e para monitorar cessar-fogos. Nos últimos anos, os objetivos dessas missões se expandiram, passando a incluir a reunião de sociedades divididas, desarmamento de adversários, desmobilização de ex-combatentes, organização de eleições, instauração de governos representativos e promoção de reforma democrática e crescimento econômico (p.XVII, tradução livre). 28 As novas operações de paz, portanto, ―[...] envolvem o uso da força como parte de um esforço mais amplo para promover reformas políticas e econômicas com objetivo de transformar aquelas sociedades saindo de conflitos em sociedades em paz consigo mesmas e 26 ―[...] aimed to help reconstruct the political, economic and social foundations of countries that were just emerging from civil wars […]‖. 27 ―[…] to alleviate human suffering, and create conditions and build institutions for self-sustaining peace‖. 28 During the Cold War, UN troops were usually deployed to separate combatants, to police demilitarized zones, and to monitor ceasefires. In recent years, the objectives for these missions have expanded to include reuniting divided societies, disarming adversaries, demobilizing former combatants, organizing elections, installing representative governments, and promoting democratic reform and economic growth. 36 com seus vizinhos‖ (DOBBINS et al, 2007, p.XVII, tradução livre). 29 Dessa forma, em consonância com as ideias de segurança humana e prevenção, a implementação de políticas de desenvolvimento e a construção de instituições democráticas foram colocadas como parte do processo de pacificação das sociedades sujeitas à intervenção. Sobre a relação entre paz, desenvolvimento e democratização, Dobbins et al (2007) esclarecem que O principal objetivo da maioria das missões é tornar pacíficas as sociedades violentas, não tornar prósperas sociedades pobres, ou democráticas as sociedades autoritárias. Contudo, esses três elementos estão interconectados e a maior parte das missões bem sucedidas alcança os três, ainda que em graus diferentes. Assim, transformações bem sucedidas de sociedades violentas em sociedades pacíficas são quase sempre acompanhadas por algum grau de desenvolvimento econômico e reforma política (DOBBINS et al, 2007, p.189, tradução livre). 30 É importante ressaltar que, por mais que as propostas de reformulação das operações de paz retomadas aqui façam referência a noções como direitos individuais e ressaltem o papel da sociedade internacional na pacificação das regiões em conflito, a garantia da segurança a longo prazo continua a passar pela construção – ou reconstrução – de arranjos estatais. Mesmo nas formulações mais universalistas, a defesa dos direitos básicos dos indivíduos cabe fundamentalmente a Estados particulares, e só deve ser assumida pela sociedade internacional quando estes mostrarem-se incapazes de garanti-la. Seguindo essa lógica, na Agenda para a Paz, a ONU reconhece ―[...] a importância e a indispensabilidade do Estado soberano como entidade fundamental desta comunidade internacional‖ (ONU, 1992, §10, tradução livre). 31 Em outro trecho, o documento faz referência à forma soberana dos Estados, reafirmando sua importância para a pacificação da sociedade internacional. Paralelamente, sugere que o exercício das prerrogativas soberanas deve estar cada vez mais atrelado a um conteúdo específico, composto de práticas de boa governança. A base desse trabalho é e deve continuar sendo o Estado. O respeito por sua soberania e integridade fundamentais é crucial para todo progresso internacional comum. Contudo, o tempo da soberania absoluta e exclusiva já passou; sua teoria 29 ―[…] involve the use of armed force as a part of a broader effort to promote political and economic reforms with the objective of transforming a society emerging from conflict into one at peace with itself and its neighbors‖. 30 The prime objective of most missions is to make violent societies peaceful, not to make poor societies prosperous or authoritarian societies democratic. Nevertheless, the three are interconnected, and most successful missions accomplish all three, albeit to different degrees. Successful transformations of violent societies into peaceful ones are thus almost always accompanied by some degree of economic development and political reform. 31 ―[…] the importance and indispensability of the sovereign State as the fundamental entity of this international community‖. 37 nunca esteve de acordo com a realidade. É tarefa dos líderes dos Estados hoje entender isso e encontrar um equilíbrio entre as necessidades da boa governança interna e as exigências de um mundo cada vez mais interdependente (ONU, 1992, §17. Tradução livre, tradução livre). 32 O reforço da importância dos Estados para a manutenção da paz e a necessidade de reformar muitos deles para que possam dar conta de tal tarefa fizeram com que as doutrinas de operações de paz incluíssem, de forma marcante, orientações para a reconstrução da estrutura estatal em todos os seus aspectos, o que está na base da ideia de multidimensionalidade. Essa orientação amplia o escopo das missões e as torna mais complexas. Em meio a esse processo de reestruturação, é interessante perceber como as missões de paz do pós Guerra Fria passam a prever a participação de um número crescente de agências da própria ONU e agências governamentais, além de atores não estatais, como ONGs, e atribuem a eles papéis cada vez mais relevantes. Nesse sentido, Paris (2007) afirma que as operações de paz teriam ressurgido a partir dos anos 1990 como uma […] rede vasta, complexa e crescente de agências privadas e públicas que fornecem um tipo de ‗suporte à vida‘ a estados frágeis emergindo de conflitos – um sistema descentralizado (e algumas vezes caótico) para reestruturar a sociedade civil pacífica, a governança efetiva e a vida econômica nos estados tomados pela guerra (p.410, tradução livre, tradução livre). 33 Para dar conta da multiplicidade e da complexidade das tarefas e do número cada vez maior de atores envolvidos em sua realização, as operações de paz passaram por um amplo processo de reformulação operacional, que teve início ainda em meados dos anos 1990 e se estendeu pelos primeiros anos do novo século. Essas transformações procuraram redefinir as regras de engajamento das forças da ONU e de elaboração dos mandatos das missões; consolidar os processos de captação e utilização de recursos; integrar os projetos realizados; reforçar os mecanismos de coordenação dos atores envolvidos; e fornecer orientações táticas e estratégicas para as equipes das OMP no campo. Em meio a esse processo, é possível identificar a reorganização das missões em três grandes áreas: segurança; desenvolvimento; e assistência humanitária. A reestruturação operacional da arquitetura das OMP, a definição das três áreas e a interação entre elas serão analisadas nas próximas seções. 32 The foundation-stone of this work is and must remain the State. Respect for its fundamental sovereignty and integrity are crucial to any common international progress. The time of absolute and exclusive sovereignty, however, has passed; its theory was never matched by reality. It is the task of leaders of States today to understand this and to find a balance between the needs of good internal governance and the requirements of an ever more interdependent world. 33 [...] a vast, complex, and growing network of private and public agencies that provided a kind of ‗life support‘ to fragile states just emerging from conflict – a decentralized (and at times chaotic) system for reconstituting a peaceful civil society, effective governance and economic life in war-torn states. 38 2.3 Transformações Operacionais Seguindo as primeiras modificações nos propósitos e regras das OMP, observa-se um rápido crescimento do número de operações. Entre 1989 e 1994, o Conselho de Segurança autorizou 20 operações, aumentando o contingente das OMP de 11 para 75 mil (ONU, 2009). O Gráfico 1 mostra o número de operações de paz realizadas pela ONU por década e ilustra o maior espaço reservado a elas na tentativa de manter a segurança internacional. É importante ressaltar que, além do aumento quantitativo, as operações do início dos anos 1990 mudaram qualitativamente, passando a incluir em seus mandatos atividades como construção de instituições democráticas; monitoramento da situação dos direitos humanos; desarmamento, desmobilização e reintegração de ex-combatentes; retorno de refugiados e deslocados internos (IDPs); e programas de conciliação nacional (DPKO; DFS, 2008). Gráfico 1: Número de Operações de Paz realizadas pela ONU por década. Adaptado de: ONU, 2009. Para a ONU, essas mudanças fizeram com que as expectativas em relação às OMP se tornassem maiores do que a capacidade da Organização para realizá-las, o que se deveu, principalmente, a falhas na definição dos mandatos, envio de contingente menor do que a situação exigia; falta de recursos ou de suporte político; e envio de tropas a lugares nos quais os conflitos ainda não haviam cessado e as partes envolvidas não conseguiam chegar a um acordo (ONU, 2009). Em casos como o da antiga Iugoslávia, Somália e Ruanda, esses 39 problemas minaram a capacidade da ONU de consolidar o fim das hostilidades e prosseguir com o processo de reconstrução e pacificação, tendo a Organização sido envolvida em verdadeiras catástrofes humanitárias – incluindo alto índice de baixas entre os contingentes das OMP – que minaram sua reputação (ONU, 2009). Os fracassos dessas operações e as consequentes críticas fizeram com que o Conselho de Segurança limitasse o número de operações nos anos que se seguiram 34 e iniciasse amplos debates sobre as OMP (ONU, 2009). Com a redução do número e da importância das operações entre 1995 e 1999 – e, consequentemente, do número de tropas empregadas, a Assembléia Geral determinou que o DPKO deixasse de usar os funcionários emprestados pelos Estados, conhecidos como ―gratis personnel” (A/RES/51/243, 1997). 35 Segundo William Durch et al (2003), esses funcionários, especializados em planejamento, logística e atividades operacionais diversas relacionadas às missões, foram fundamentais para que a ONU conseguisse lidar com o rápido crescimento das OMP nos anos anteriores. A dispensa dos funcionários ‗gratis‘ foi concluída em fevereiro de 1999 e, para o autor, ―[...] minou drasticamente boa parte da capacidade de suporte operacional e da memória institucional de planejamento militar e logístico do DPKO‖ (DURCH et al, 2003, p.3, tradução livre). 36 Poucos meses depois, uma nova onda de conflitos fez com que a demanda pelas OMP retomasse seu crescimento. Em apenas um ano, [...] as Nações Unidas foram chamadas para: administrar o Kosovo, sob proteção das forças terrestres da OTAN; substituir as forças lideradas pela Austrália no TimorLeste e governar, em caráter temporário, a nação emergente; substituir as forças regionais lideradas pela Nigéria em Serra Leoa e implementar um [...] acordo de paz; supervisionar um frágil cessar-fogo no conflito regional que tinha se entranhado na República Democrática do Congo; [...] monitorar o cessar-fogo e dar suporte ao acordo de separação de forças entre Etiópia e Eritréia (DURCH et al, 2003, p.4-5, tradução livre). 37 34 Mesmo com a redução do número de operações a partir de 1995, a ONU deu continuidade às operações de longo prazo no Oriente Médio, Índia, Paquistão e Chipre e autorizou novas operações em Angola, Croácia, Bósnia-Hezergovina, Haiti e Guatemala (ONU, 2009), além de algumas operações de observação. Contudo, a maior parte das operações foi considerada de pequena escala e sem grande importância (DURCH et al, 2003). 35 De acordo com a Resolução, a utilização de ‗gratis personnel‘ só continuaria a ser permitida em casos de urgência, ou diante da indisponibilidade de funcionários especializados para a realização de funções especiais. 36 ―[…] left much of DPKO‘s operational support capacity and institutional memory for military and logistical planning severely depleted‖. 37 […] the United Nations was called on to: administer Kosovo under the protection of NATO ground forces; to replace Australian-led forces in East Timor and provide a temporary government for that emerging nation; to replace Nigerian-led regional forces in Sierra Leone implementing a […] peace accord; and to oversee a shaky cease-fire in the regional war that had engulfed the vast Democratic Republic of Congo; […] help verify a ceasefire and support a force separation agreement between Ethiopia and Eritrea. 40 Mesmo com as tropas triplicadas, mais de dois terços dos contingentes à disposição da ONU foram empregados nessas missões, o que, aliado às dificuldades operacionais enfrentadas, trouxe novamente à tona as antigas fraquezas das operações de paz e as limitações de um já sobrecarregado DPKO, sugerindo o que Durch et al (2003) chamou de uma crise potencialmente terminal das OMP. Diante dessa situação, em março de 2000, o Secretário-Geral Kofi Annan estabeleceu o ―Painel sobre as Operações de Paz das Nações Unidas‖ 38 , ―[...] composto por especialistas em prevenção de conflitos, OMP e peacebuilding, no intuito de avaliar as falhas do sistema existente e fazer recomendações específicas e realistas para mudanças‖ (ONU, 2009, p.3, tradução livre). 39 O relatório final do Painel, que ficou conhecido como Relatório Brahimi – em referência ao Subsecretário-Geral Lakhdar Brahimi, que chefiou a equipe – foi concluído em agosto de 2000 e enviado por Annan para a Assembléia Geral, o Conselho de Segurança e os chefes de estado e governo, que logo começaram a trabalhar em sua implementação (DURCH et al, 2003). O Painel concentrou-se nas OMP, consideradas ―[...] o mais custoso e visível aspecto das operações de paz‖ (DURCH et al, 2003, p.6, tradução livre) 40 e também o mais ameaçado pelos problemas enfrentados nos últimos anos. Além disso, os especialistas concluíram que o sucesso das atividades de reconstrução dependeria da capacidade das forças de intervenção de manter a segurança nas regiões que receberiam as equipes da ONU; portanto, qualquer esforço de reforma deveria concentrar-se neste instrumento (ONU, 2000). De forma geral, o Relatório Brahimi convocava os Estados-membros a renovarem seu comprometimento político com as operações de paz e ressaltava a necessidade de maior suporte financeiro e da realização de uma série de reformas institucionais (ONU, 2009). Segundo os especialistas, para serem efetivas, as missões precisariam de equipes maiores e mais completas, recursos e equipamentos adequados e de um novo entendimento que elevasse as tarefas realizadas pelos escritórios centrais de suporte às operações ao grupo de atividades centrais das Nações Unidas (ONU, 2009). Além disso, deveriam ser estabelecidas regras robustas de engajamento e caberia ao Conselho de Segurança dar, a cada operação, um mandato ―claro, crível e alcançável‖ (ONU, 2000, p.10, tradução livre). 41 O Relatório também contemplou especificidades de áreas centrais das OMP, como a comunicação entre oficiais da ONU, Estados e equipes; planejamento, logística e liderança 38 ―Panel on United Nations Peace Operations‖. ―[…] composed of individuals experienced in conflict prevention, peacekeeping and peacebuilding, to assess the shortcomings of the existing system and to make specific and realistic recommendations for change‖. 40 ―[…] the most costly and visible aspect of peace operations […]‖. 41 ―Clear, credible and achievable‖. 39 41 das operações; disponibilidade e envio rápido de tropas, contingentes policiais e civis; e questões relacionadas aos direitos humanos e ao primado da lei (DURCH et al, 2003). Apesar do grande número de temas incluídos, Durch et al (2003) consideram que o Painel não conseguiu tratar adequadamente diversas questões importantes, tais como treinamento, segurança, cuidados médicos e estratégias de saída das equipes no campo; o problema do HIV/AIDS; e questões relacionadas a gênero, que foram retomadas na sequência do processo de implementação. De qualquer maneira, a publicação do Relatório Brahimi (2000) marcou a intensificação do processo de reformulação das operações de paz, que se estendeu por toda a década. Em meio a esse processo é possível destacar, do ponto de vista normativo, o relatório da ICISS (International Commission on Intervention and State Sovereignty), de 2001, que tinha como objetivo revisitar os conceitos de segurança internacional e direitos humanos e estabelecer novas bases que ampliassem a capacidade da ONU de lidar com questões sensíveis relacionadas a eles, como genocídios, crimes de guerra, limpeza étnica e crimes contra a humanidade (ICISS, 2001). O título do relatório, ―A Responsabilidade de Proteger‖ é bastante elucidativo em relação ao seu conteúdo, uma defesa da ideia de que os Estados soberanos têm a responsabilidade de proteger seus próprios cidadãos de catástrofes que podem ser evitadas; porém, quando estes se mostrarem incapazes ou pouco empenhados na realização dessa tarefa, a responsabilidade pela vida e bem-estar de sua população recairá sobre a comunidade de Estados, e, especialmente, sobre a ONU (ICISS, 2001). Em 2003, outro relatório, desta vez da Comissão sobre Segurança Humana (CSH), afirmava que era chegado o momento de as pessoas – e não mais os Estados – serem colocadas como protagonistas da segurança internacional e preocupação central das organizações encarregadas de preservá-la. Mais do que isso, o ―Human Security Now‖ (2003) redefinia os termos da responsabilidade da sociedade internacional em relação às pessoas e afirmava que a melhor maneira de defendê-las das ameaças enfrentadas seria garantir a segurança humana, pela reunião dos ―[...] elementos humanos da segurança, dos direitos e do desenvolvimento‖ (CSH, 2003, p.4, tradução livre). 42 De acordo com a Comissão, a segurança das pessoas estaria intimamente relacionada à dos Estados: ―liberdade em relação à necessidade; liberdade em relação ao medo; e liberdade para as futuras gerações herdarem um 42 ―[…] the human elements of security, of rights, of development‖. 42 ambiente natural saudável – estes são os blocos fundamentais e inter-relacionados da segurança humana e, portanto, nacional‖ (CSH, 2003, p.4, tradução livre). 43 Para garantir a realização e a preservação da segurança humana, o ―Human Security Now‖ (2003) prevê que ―a responsabilidade dos Estados e da comunidade internacional de proteger as pessoas nos conflitos deve ser complementada pela responsabilidade de reconstruir – inclusive depois de intervenções militares internacionais‖ (2003, p.57, tradução livre). 44 Assim, de acordo com o relatório, ―a medida do sucesso de uma intervenção não é a vitória militar – é a qualidade da paz deixada por ela‖ (CSH, 2003, p.57, tradução livre) 45 , que seria traduzida pelo avanço do desenvolvimento e do processo de construção de instituições democráticas que respeitassem os direitos humanos e fossem capazes de empoderar as pessoas (CSH, 2003). Apesar das medidas sugeridas em ambos os relatórios darem conta das transformações normativas propostas, a capacidade das OMP de realizar as novas tarefas atribuídas a elas ainda dependia de amplo processo de reformulação institucional e operacional, capazes de traduzir em diretrizes práticas os novos conceitos adotados pela ONU, questão abordada em documentos subsequentes. Foi com esse objetivo que o documento final do World Summit (2005) propôs a criação de um mecanismo institucional para reforçar o suporte às operações de paz, em especial aos seus componentes de reconstrução e reconciliação: a Comissão de Peacebuilding. No documento, os membros reconhecem o papel vital da ONU para recuperar, reintegrar e reconstruir Estados saindo de conflitos e afirmam a necessidade de integrar esforços e estratégias nesse sentido (ONU, 2005). Assim, a Comissão deveria focar esforços de reconstrução física e institucional para que os Estados possam se: [...] recuperar do conflito, e dar suporte ao desenvolvimento de estratégias integradas para lançar as bases do desenvolvimento sustentável. Além disso, [a Comissão] deve dar recomendações e informações para melhorar a coordenação de todos os atores relevantes, dentro e fora da ONU; desenvolver melhores práticas; ajudar a garantir o financiamento dos gastos previstos para as primeiras atividades de recuperação; e ampliar o período de assistência da comunidade internacional à recuperação pósconflito (ONU, 2005, § 98, tradução livre). 46 43 ―Freedom from want, freedom from fear and the freedom of future generations to inherit a healthy natural environment—these are the interrelated building blocks of human, and therefore national, security‖. 44 ―The responsibility of states and the international community to protect people in conflict should be complemented by a responsibility to rebuild – including after an international military intervention‖. 45 ―The measure of an intervention‘s success is not a military victory—it is the quality of the peace that is left behind‖. 46 […] recovery from conflict and support the development of integrated strategies in order to lay the foundation for sustainable development. In addition, it should provide recommendations and information to improve the coordination of all relevant actors within and outside the United Nations, develop best practices, help to ensure predictable financing for early recovery activities and extend the period of attention by the international community to post-conflict recovery. 43 Sobre o financiamento das atividades de reconstrução, o documento chamava atenção para a necessidade de aumentar a transparência e o volume de dados disponíveis para os principais contribuintes, de modo a aumentar a confiança, garantir a continuidade e, se possível, a ampliação da ajuda. Com esse intuito, ficou estabelecido que as reuniões da Comissão de Peacebuilding seriam acompanhadas por representantes do Banco Mundial (BM), do Fundo Monetário Internacional (FMI) e das demais instituições doadoras que dão suporte à reconstrução em cada caso (ONU, 2005, §102). Ainda em 2005, os aspectos administrativos e orçamentários das missões de paz foram objeto do relatório ―Peace Operations 2010‖ (2005), produzido pelo DPKO, que discutia a implantação de políticas e procedimentos que ampliariam a capacidade de suporte do Departamento às missões de paz na próxima década. De acordo com o relatório, para que as recentes mudanças nas atribuições das operações surtissem efeitos positivos, estas deveriam ser acompanhadas por ampla reformulação da maneira de conduzir as operações em cinco áreas centrais: recursos; pessoal; parcerias; estrutura organizacional e doutrina (ONU, 2005). As recomendações foram incorporadas a um documento enviado pelo secretariado à Assembléia Geral (A/60/696) no ano seguinte, e, com a aquiescência dos Estados-membros, teve início a reforma do DPKO – ainda não concluída. De imediato, foram realizados investimentos em tecnologia e informação; comunicação estratégica; capacidade de envio rápido de tropas; revisão do perfil dos cargos, recrutamento e treinamento de pessoal; e monitoramento de disciplina e conduta. Além disso, o DPKO se esforçou para melhorar a integração entre a ONU e outras organizações no planejamento e condução das atividades previstas nos mandatos das missões, estabelecendo regras de cooperação e realizando treinamentos conjuntos. Entre estas parcerias, merece destaque a firmada entre o DPKO e o Banco Mundial, baseada no reconhecimento de que ―[...] nos Estados saindo de conflitos, nem a segurança militar nem a assistência econômica são, em si mesmas, suficientes para fazer florescer a recuperação sustentável‖ (ONU, 2005, §18, tradução livre). 47 Assim, ambas as organizações acreditavam que ações internacionais concertadas aumentariam as chances de sucesso das atividades pós-conflito, especialmente no que se refere ao restabelecimento da autoridade e das instituições estatais (ONU, 2005). É interessante notar que a parceria com o Banco Mundial não se limitou à realização de reuniões regulares e treinamentos conjuntos entre as 47 ―[…] in post-conflict States, neither military security nor economic assistance is, in itself, sufficient to bring about sustainable recovery‖. 44 equipes; incluiu também projetos de pesquisa sobre os grandes desafios encontrados no campo, a busca de soluções operacionais inovadoras e o intercâmbio de equipes para dar suporte ao processo de formulação de políticas específicas para os casos (ONU, 2005). A estrutura organizacional do DPKO e das próprias missões também foi bastante discutida no documento e sofreu algumas mudanças, a começar pelo diálogo estratégico com o PNUD para esclarecer a atribuição de papéis e responsabilidades às diferentes agências da ONU e demais organizações na realização de tarefas integradas nas operações. Nesse sentido, as principais demandas eram: (i) o estabelecimento de estruturas mais flexíveis, capazes de integrar escritórios centrais e atividades de campo para prover o suporte adequado às diferentes fases das missões de paz; e (ii) a criação de grupos integrados de especialistas para dar suporte ao pessoal de campo relacionado a conduta, disciplina, treinamento conjunto, formulação de políticas e execução de atividades primordiais, como DDR (ONU, 2005). Entretanto, o próprio DPKO reconhecia que, para que as mudanças fossem efetivas, seria preciso esclarecer, definir e articular o que as OMP podem e não podem fazer, realizar estudos sobre as atividades primordiais das missões e as funções de suporte mais importantes, estabelecer metas e padrões claros para os escritórios centrais e as atividades de campo e formular orientações específicas sobre como alcançá-los, tanto para profissionais da ONU quanto de outras organizações (ONU, 2005). Nesse sentido, o DPKO considerou que seria fundamental reunir as experiências colecionadas ao longo dos quase 60 anos de operações de paz e utilizar as práticas testadas e aceitas para guiar as equipes na realização de suas funções e responsabilidades, seja em novas missões seja em novas atribuições para operações já em curso. Nas palavras do Departamento, o resultado desse esforço deveria ser a elaboração de uma nova doutrina de OMP, bem como de um conjunto completo de manuais com coordenadas sobre expectativas e procedimentos da Organização, dirigidos principalmente ao pessoal de campo e disponibilizados na internet (ONU, 2005). No fundo, o DPKO defendia a institucionalização do processo de aprendizagem sobre as operações de paz e a padronização das atividades centrais, inclusive as de seus parceiros, independentemente do contexto local ou temporal de sua realização. Para permitir a elaboração dessa nova doutrina, em 1 de julho de 2007 foi criada a Divisão de Políticas, Avaliação e Treinamento (Policy, Evaluation and Training Division, PETD), reunindo a Peacekeeping Best Practices Section (PBPS), Integrated Training Service (ITS) e pequenos grupos dedicados à avaliação e às parcerias (DPKO, 2009). A função da Divisão seria prover 45 Capacidade integrada de desenvolver e disseminar políticas e doutrinas; desenvolver, coordenar e realizar treinamento padronizado; avaliar o progresso da missão em relação à implementação do mandato; e desenvolver políticas e frameworks operacionais para a cooperação estratégica entre diversos parceiros dentro da ONU e externos (DPKO, 2009, p.1, tradução livre). 48 Na mesma época da criação da Divisão, a Assembléia Geral determinou o estabelecimento do Department of Field Support (DFS), pensado para complementar o trabalho do DPKO pela prestação direta de auxílio às atividades de campo. Logo de início, o DFS assumiu a responsabilidade sobre as 13 operações em curso lideradas pelo DPKO, contando com um orçamento de mais de cinco bilhões de dólares (GA/10602, 2007). Dentro do DFS, funcionam o LSD (Logistics Support Division), responsável por implementar e monitorar todas as atividades logísticas das operações de paz (LSD, 2009), e a CDU (Conduct and Discipline Unit,) 49, que formula procedimentos disciplinares e de conduta, monitora sua aplicação, treina funcionários e investiga denúncias de abuso ou conduta imprópria, além de realizar estudos, elaborar relatórios e divulgar informações para os parceiros do DPKO/DFS e para a mídia (CDU, 2009). O DFS também é o responsável pela operação do Contingent Owned Equipment System (COE System), que organiza e supervisiona as contribuições dos Estados para a realização das operações de paz (DFS, 2009). Finalmente, é importante mencionar que, como resultado do processo de reforma, a Policy Division do DPKO foi fortalecida, e o Departamento passou a contar com os escritórios de Assuntos Militares (Office of Military Affairs) e de Primado da Lei e Segurança (Office of Rule of Law and Security), o que robusteceu sua estrutura institucional e operacional (GA/10602, 2007). Paralelamente, os estudos realizados pelo DPKO – agora em conjunto com o DFS – continuaram e acabaram resultando na publicação de um documento que sistematiza as principais mudanças das OMP ao longo de sua história, redefine suas bases e atribuições, organiza a participação dos parceiros e oferece orientações sobre como as pessoas ligadas às operações devem proceder na realização de seu trabalho. A Doutrina Capstone (Capstone Doctrine), de março de 2008, talvez seja o mais completo inventário já produzido pela ONU sobre as operações de paz e veio suprir a demanda levantada em vários documentos por orientações normativas, institucionais e operacionais das quais as missões careciam desde o final da Guerra Fria. Dessa forma, a Doutrina Capstone (2008) acaba por enunciar alguns dos 48 an integrated capacity to develop and disseminate policy and doctrine; develop, coordinate and deliver standardized training; evaluate mission progress towards mandate implementation; and develop policies and operational frameworks for strategic cooperation with various UN and external partners. 49 Em 2005, com objetivo de aumentar a transparência e accountability das missões de paz, a ONU criou o Conduct and Discipline Team (CDT). Em meio às reformas do DPKO em 2007, o CDT teve seu mandato reformulado e passou a fazer parte do DFS como a Conduct and Discipline Unit (CDU). 46 elementos-chave para compreender as operações de paz realizadas pela ONU, especialmente no século XXI. A próxima seção deverá analisar o conteúdo do documento e a reconfiguração das OMP para que, no próximo capítulo, possa ser analisada a operação realizada na Libéria a partir de 2003 à luz de suas determinações. 2.4 Doutrina Capstone De acordo com o Subsecretário-Geral para Operações de Paz, Jean-Marie Guéhenno, a Doutrina Capstone (2008) veio suprir a demanda pela codificação de um conjunto de princípios e experiências – de maneira geral não escrito – que informou e informa as OMP, para proporcionar aos que as colocam em prática um melhor entendimento acerca de seus conceitos, operação, potencialidades e limitações (DPKO; DFS, 2008). Trata-se de ―[...] uma publicação interna do DPKO/DFS‖ (DPKO; DFS, 2008, p.9, tradução livre) 50 que deveria servir de guia para suas atividades, de modo que todas ―[...] as diretivas, orientações, procedimento de operação, manuais e materiais de treinamento formulados pelo DPKO/DFS [...]‖ (p.9, tradução livre) 51 sejam adequadas ao seu conteúdo. O documento é composto por 10 capítulos, dispostos em três partes: (i) evolução das OMP; (ii) planejamento das operações; e (iii) estratégias de sucesso na implementação do mandato. A descrição dos principais conteúdos dos capítulos que compõem cada uma das partes encontra-se no Quadro 1. 50 ―[…] an internal DPKO/DFS publication‖. ―[…] directives, guidelines, standard operating procedures, manuals and training materials issued by DPKO/DFS‖. 51 47 Parte Capítulos Capítulo 1: Framework normativo para as Operações de Paz das Nações Unidas Principais Conteúdos Carta da ONU Direitos Humanos Direito Humanitário Papel do Conselho de Segurança Espectro das Atividades de Paz e Segurança: prevenção de conflitos; peacemaking; peacekeeping (OMP); peace enforcement; peacebuilding. I: Evolução das OMP das Nações Unidas Capítulo 2: Evolução do papel das Operações de Paz das Nações Unidas Discussão sobre interseções e vínculos entre as atividades. Diferenças entre OMP tradicionais e multidimensionais: participação direta nos esforços políticos para a resolução do conflito. OMP Tradicionais: (i) observação, monitoramento e produção de relatórios, com consentimento das partes; (ii) supervisão de cessar-fogo e suporte a mecanismos de verificação; (iii) interposição entre as partes e construção de confiança. OMP Multidimensionais: (i) criar ambiente estável e seguro, fortalecer a habilidade do Estado de prover segurança, com respeito às leis e aos direitos humanos; (ii) facilitar processo político, promover diálogo e conciliação e dar suporte ao estabelecimento de instituições de governança legítimas e efetivas; (iii) garantir condições para que a ONU e seus parceiros possam realizar suas atividades no país de maneira coerente e coordenada. Reconstrução nas OMP: restaurar a capacidade do Estado de prover segurança e manter ordem pública; fortalecer o primado da lei e o respeito aos direitos humanos; dar suporte à emergência de instituições políticas legítimas e processos de participação; promover recuperação e desenvolvimento social e econômico, incluindo retorno e restabelecimento de IDPs e refugiados. Suporte a outros atores para realização de tarefas específicas, especialmente recuperação e desenvolvimento social e econômico. Capítulo 3: Princípios Básicos das OMP das Nações Unidas (i) consentimento das partes (pode ser necessário usar a força para induzi-lo); (ii) imparcialidade (em relação às partes, não ao mandato); e (iii) não utilização da força, exceto para autodefesa (e defesa do mandato, ressalva acrescentada no pós Guerra Fria). Aos princípios, são acrescentados mais três fatores de sucesso: (a) legitimidade da missão (mandato do CS); (b) credibilidade (efetividade e capacidade de corresponder às expectativas); (c) promoção de ownership (reconstrução das instituições, capacidade nacional e devolução do controle à população local). 48 II: Planejando as OMP das Nações Unidas Capítulo 4: Decidindo o envio de uma OMP das Nações Unidas Capítulo 5: Planejando uma OMP das Nações Unidas Capítulo 6: Estabelecimento e atividades iniciais das Operações de Paz das Nações Unidas Capítulo 7: Administrando OMP das Nações Unidas III: A arte de implementar mandatos com Capítulo 8: Suporte sucesso e Sustentação das OMP das Nações Unidas Opções e condições de engajamento: comprometimento das partes com acordos de paz; comprometimento dos vizinhos e engajamento das organizações regionais nos processos de paz; suporte de CS; mandato alcançável e disponibilidade de recursos. Consulta aos contribuintes para planejar, decidir e implementar, garantindo a chegada dos recursos. Processo de planejamento integrado entre a ONU e seus parceiros: assistência humanitária (CAP/CHAP); assistência ao desenvolvimento (CCA/UNDAF); reconstrução (JAM/PCNA); e estratégias de redução da pobreza (PRSP). Detalhamento das fases do estabelecimento da missão. Envio das tropas. Administração do processo de estabelecimento da missão. Relação entre escritórios e campo. Integração e coordenação. Participação de novos atores. Logística e administração. Recursos humanos. Segurança das equipes. Capítulo 9: Administração dos impactos da missão. Mantendo o Suporte Comunicação. à Missão Capítulo 10: Transição e Saída Parcerias e planejamento da transição. Transferência de atribuições e redução da presença. Quadro 1: Principais componentes da Doutrina Capstone Adaptado de: DPKO; DFS, 2008. A análise do Quadro 1 nos permite perceber que, entre os temas abordados no documento, ênfase é dada à natureza multidimensional das operações, bem como às formas de organizar e coordenar os papéis desempenhados pelos mais diversos atores nas operações de paz. A questão da multidimensionalidade aparece logo no Capítulo 2, que afirma que a mudança da natureza dos conflitos nos quais a ONU é chamada a intervir a partir dos anos 1990 levou a uma dissolução parcial das fronteiras entre os principais instrumentos da Organização para a manutenção da paz e da segurança: diplomacia preventiva; peacemaking; peace enforcement; peacekeeping (OMP) e peacebuilding. Como resultado, as OMP passaram a ser vistas como parte de um processo político mais amplo de reconstrução pós-conflito e prevenção de sua recorrência e também como medidas mais intrusivas para induzir a paz – inclusive o uso da força –, como ilustra a Figura 1. 49 Figura 1: Mecanismos de manutenção da paz Adaptado de: DPKO; DFS, 2008, p.19. Nesse novo contexto, a quantidade e a complexidade das tarefas que devem ser realizadas no curso das operações aumentam consideravelmente, tornando indispensável a participação de novos atores nos processos de paz. Assim, cada vez mais, a função das operações passa a ser a criação de condições para que estes possam desempenhar suas funções de maneira coordenada, para potencializar seus resultados. De acordo com a Doutrina Capstone (2008), o processo de paz poderia ser dividido em três grandes fases – estabilização; consolidação da paz; e recuperação e desenvolvimento a longo prazo –, sendo que cada uma delas seria caracterizada por um conjunto específico de tarefas a serem realizadas e, portanto, deveria contar com determinado grupo de atores responsáveis. A Figura 2 ilustra a sucessão das fases (note-se a sobreposição entre elas), os principais objetivos de cada uma delas e os atores relacionados à sua realização. 50 Figura 2: Fases e principais atividades das operações de manutenção da paz multidimensionais Adaptado de: DPKO; DFS, 2008, p.23. Entretanto, o documento chama atenção para o fato de que o encadeamento bem sucedido dessas fases não ocorre de forma espontânea; pelo contrário, depende de um planejamento amplo, cuidadoso e integrado da missão, com participação de todos os atores envolvidos. A organização e condução do planejamento das missões é atribuição do DPKO e é a principal questão abordada na Parte III, especialmente no Capítulo 5, dedicado ao Processo Integrado de Planejamento da Missão (IMPP: Integrated Mission Planning Process). De acordo com a Capstone (2008), o processo de planejamento deve centrar-se na definição de entendimentos comuns sobre os objetivos estratégicos de cada missão, com engajamento de todos os atores relevantes envolvidos e de modo a refletir considerações orçamentárias. Mais especificamente, o planejamento deve prover um ―[...] framework inclusivo para o engajamento de parceiros externos‖ (DPKO; DFS, 2008, p.56, tradução livre) 52 cuja participação ―[...] é necessária para que as Nações Unidas alcancem seus objetivos mais amplos‖ (p.56, tradução livre). 53 Além do planejamento próprio das OMP (segurança), voltado para a estabilização e para as primeiras atividades de reconstrução, a Doutrina ressalta duas outras áreas que requerem planejamento específico, as ações humanitárias e o desenvolvimento. É interessante notar que, tal como as fases das operações, as atividades dessas áreas se sucedem e se sobrepõem. Antes mesmo de as missões serem autorizadas formalmente, organizações de assistência humanitária ligadas à ONU iniciam suas atividades nas regiões em conflito e, muitas vezes, são responsáveis pelo repasse de informações determinantes para o estabelecimento das missões. No caso da Libéria, por exemplo, essas organizações 52 53 ―[…] an inclusive framework to engage external partners‖. ―[…] is necessary for the United Nations to achieve its broader objectives‖. 51 elaboraram um documento que detalhava a situação e as principais necessidades humanitárias na região, e definia estratégias de intervenção ainda durante a fase mais violenta do conflito, quando as equipes da ONU tinham sido retiradas do país (CAP LIBERIA, 2003). Esse documento foi citado no relatório do Secretário-Geral que recomenda a instituição da OMP na Libéria, inclusive como uma das fontes de um estudo encomendado por ele para definir as prioridades da missão e delinear estratégias de intervenção (S/2003/875, 2003). Uma vez que as tropas da ONU chegam à região, passam a trabalhar em conjunto com as organizações humanitárias na estabilização da situação. Nesse sentido, o mandato da UNMIL classifica o suporte à assistência humanitária como uma das prioridades da missão, o que seria feito pela garantia de acesso amplo e seguro das organizações de ajuda à população necessitada (S/RES/1509, 2003). Paralelamente, o estabelecimento da OMP foi determinante para que o trabalho das organizações humanitárias fosse ampliado, inclusive por meio do retorno ao país das equipes que tinham saído em decorrência do conflito e da chegada de novos grupos, recursos e equipamentos (CAP LIBERIA, 2004). A garantia de níveis mínimos de segurança e o início do processo de reconstrução das instituições e da infraestrutura do Estado marcam o início da fase de consolidação da paz, na qual entram em cena as organizações vinculadas ao desenvolvimento, como, por exemplo, os órgãos do Banco Mundial voltados para a reconstrução e promoção de investimentos nos países mais pobres, sem grande apelo para o capital internacional. 54 De acordo com seus formuladores, a assistência ao desenvolvimento funcionaria como elo entre o alívio das condições humanitárias, a manutenção da segurança e o processo de reconstrução, assegurando que a paz promovida pelas agências e organizações internacionais possa ser preservada a longo prazo (UNDAF LIBERIA, 2003). No caso da Libéria, é interessante observar que as ações de desenvolvimento tiveram como foco a reforma das instituições do estado de acordo com padrões (e práticas) internacionais de boa governança, inspiradas, principalmente, nos estudos realizados pelo Banco Mundial (UNDAF LIBERIA, 2003). Essas medidas, aliadas à garantia da segurança e da melhoria das condições de vida básicas da população – inclusive a recuperação do mercado interno – foram consideradas imperativas 54 Esses órgãos compõem o chamado Grupo do Banco Mundial (WBG, World Bank Group). Entre eles, citam-se o IBRD (International Bank for Reconstruction and Development), que financia projetos de promoção do desenvolvimento humano sustentável nos países mais pobres, inclusive naqueles em reconstrução (IBRD, 2009); a IFC (International Finance Corporation), que financia o setor privado nos países pobres e em desenvolvimento (IFC, 2009); e a MIGA (Multilateral Investment Guarantee Agency), que promove o Investimento Externo Direto (IED), também nos países pobres e em desenvolvimento, provendo garantias aos investidores interessados em fazer negócios nesses países (MIGA, 2009). Todas essas organizações participam do processo de reconstrução da Libéria, inclusive em parceria com a UNMIL, conforme será tratado no próximo capítulo. 52 para que o processo de recuperação e desenvolvimento ganhe força e comece a ser realizado pelo contato direto entre o governo local e as organizações internacionais, como o Banco Mundial propriamente dito e o FMI (UNDAF LIBERIA, 2003). Na Libéria, o sucesso, pelo menos parcial, da reforma do Estado foi atestado pela publicação da Estratégia de Redução da Pobreza (PRS), um plano de reconstrução e desenvolvimento, elaborado pelo governo eleito, que transplantava as boas práticas relacionadas à governança para o contexto local, e que passou a balizar toda a assistência prestada ao país pelas agências e organizações internacionais ligadas ao desenvolvimento (UNDAF LIBERIA, 2008; LIBÉRIA, 2008). De acordo com a Doutrina Capstone (2008), a organização da assistência humanitária teria como base dois tipos de documentos, o CHAP (Consolidated Humanitarian Appeal Process), e o CAP (Consolidated Appeal Process), que apresentam, anualmente, a descrição dos projetos propostos por agências da ONU, ONGs e governos de outros países para determinado país/emergência, o percentual de financiamento que cada um deles recebeu, e o status dos projetos listados nos relatórios do ano anterior (DPKO; DFS, 2008; CAP LIBERIA 2003; 2004; 2005; 2006; 2007; 2008). Já a assistência ao desenvolvimento seria determinada com base em dois grupos de documentos: o primeiro, produzido pelo UNDG (United Nations Development Group), trataria com maior especificidade as fases iniciais do processo de reconstrução, e seria composto pelo JAM (Joint Assessment Missions) e pelo PCNA (PostConflict Needs Assessments); e o segundo, composto pelo CCA (Common Country Assessment), UNDAF (United Nations Development Assistance Framework), e PRSP (Poverty Reduction Strategy Papers), que contêm a descrição dos projetos a serem realizados e estabelecem as bases para a cooperação entre o sistema ONU, governo e parceiros do desenvolvimento, como ONGs locais e internacionais (DPKO; DFS, 2008; UNDAF LIBERIA, 2003). Finalmente, o planejamento detalhado das atividades a serem realizadas especificamente na área de segurança deveria constar no mandato das missões e nos orçamentos anuais, elaborados pelo DPKO/DFS e aprovados pelo Conselho de Segurança. 2.5 Transformações do Sistema de Segurança Coletiva A criação da ONU teve lugar em um contexto de reconstituição do sistema internacional de segurança coletiva, que tentava devolver a estabilidade às relações entre os Estados como reação ao legado de profunda instabilidade deixado pela Segunda Guerra 53 Mundial. Em meio a esse esforço, a concepção wilsoniana de paz, universal e indivisível, foi reescrita como limitação e proscrição do uso da força; e classificação do ato de agressão como uma espécie de ―ilícito internacional‖, ao qual todos os demais Estados estariam compelidos a responder de forma conjunta. Entretanto, o fim da Guerra marcou também a emergência de duas superpotências e de uma nova ordem internacional, forjada por elas, na qual não havia espaço para um mecanismo de reação indiscriminada contra os violadores da paz. Mesmo assim, alguns elementos do sistema de segurança coletiva foram preservados, com o endosso das potências, na construção da nova ordem, com destaque para as ideias de limitar o uso da força entre os demais integrantes do sistema internacional; e de combater a escalada dos conflitos. Esta última, reforçada pelo temor de que o envolvimento de norte-americanos e soviéticos em disputas regionais pudesse precipitar entre eles uma guerra nuclear de proporções desastrosas para todos. De fato, entre seus inúmeros efeitos, a divisão do mundo impingiu às potências grande parte das responsabilidades e dos custos envolvidos na operação do sistema de segurança coletiva, cada uma em seu bloco. Com isso, o recurso a mecanismos multilaterais para combater ameaças à paz, como os oferecidos pela ONU, foi bastante esvaziado, e, em geral, reservado a casos que não atraiam grande atenção das potências. As OMP foram a fórmula clássica encontrada para lidar com esses casos, e se mantiveram consistentes com o objetivo de limitar o uso da força e estabilizar as situações, principalmente por meio da separação entre os beligerantes e restituição da autoridade soberana nas áreas afetadas. A proeminência desses elementos fica bastante evidente nos mandatos das operações realizadas entre 1948 e 1989, sintetizados no Quadro 2. Sigla Nome da Operação UNTSO United Nations Truce Supervision Organization UNMOGIP United Nations Military Observer Group in India and Pakistan Local Mandato Início Término Palestina Auxiliar o Mediador das Nações Unidas; supervisionar a observância da trégua (os Acordos Gerais de Armistício de 1949 e o cessar-fogo na área do Canal de Suez e nas Colinas de Golã); auxiliar e cooperar com a UNDOF e a UNIFIL. Maio 1948 Presente Janeiro 1949 Presente Supervisionar o cessar-fogo nas Índia e províncias de Jammu e Paquistão Kashemira firmado entre a Índia e o Paquistão. 54 UNEF I First United Nations Emergency Force UNOGIL United Nations Observation Group in Lebanon ONUC United Nations Operation in the Congo UNSF United Nations Security Force in West New Guinea UNYOM United Nations Yemen Observation Mission UNFICYP United Nations Peacekeeping Force in Cyprus Assegurar e supervisionar o fim das hostilidades, incluindo a retirada das forças armadas da França, de Israel e do Reino Unido do território egípcio e, Novembro Junho Suez após a retirada, atuar como 1956 1967 tampão entre as forças israelenses e egípcias; prover supervisão imparcial do cessarfogo. Garantir, como um grupo de observação, que não haja entrada ilegal de pessoal ou Junho Dezembro Líbano suprimentos de armas e outros 1958 1958 materiais pelas fronteiras libanesas. Prover assistência militar ao governo até que as forças de segurança nacionais estejam prontas para cumprir plenamente com suas funções; garantir a retirada das forças belgas; e auxiliar o governo a manter a lei e a ordem. A função da ONUC foi posteriormente Julho Junho Congo modificada para incluir também: 1960 1964 a manutenção da integridade territorial e a independência política do Congo, a prevenção de conflitos civis e a certificação da retirada do Congo de todo o pessoal estrangeiro militar, paramilitar e de assessoria que não estejam sob o comando da ONU. Manter a paz e a segurança no território sob a Autoridade Nova Executiva Temporária das Outubro Abril Guiné Nações Unidas; monitorar o 1962 1963 Ocidental cessar-fogo; e auxiliar na promoção da lei e da ordem durante o período de transição. Iêmen Observar e certificar a implementação do acordo de desengajamento entre a Arábia Saudita e as Repúblicas Árabes Unidas. Julho 1963 Setembro 1964 Chipre Prevenir a recorrência de lutas entre as comunidades cipriotas gregas e turcas e contribuir para a manutenção e restauração da lei e da ordem. Depois do estabelecimento de um cessar- Março 1964 Presente 55 DOMREP UNIPOM UNEF II UNDOF UNIFIL fogo em 1974, o mandato do UNFICYP foi expandido para incluir também: a supervisão do cessar-fogo e a criação de uma zona de segurança entre as linhas. Observar a situação na Mission of the República Dominicana e Representativ comunicar o Conselho de República e of the Segurança em caso de SecretaryDominicadescumprimento do cessar-fogo General in the na ou qualquer outro evento que Dominican possa afetar a manutenção da paz Republic e da ordem no país. Maio 1965 Supervisionar o cessar-fogo ao United longo da fronteira entre Índia e Nations IndiaPaquistão (exceto nas províncias Índia e Setembro Pakistan de Jammu e Kashmira) e o recuo Paquistão 1965 Observation de todas as tropas para as Mission posições em que se encontravam antes de 5 de Agosto de 1965. Outubro 1966 Março 1966 Supervisionar o cessar-fogo entre Egito e Israel; supervisionar a remoção das forças egípcias e israelenses; e administrar e controlar as zonas de segurança estabelecidas pelos acordos de 1974 e 1975. Outubro 1973 Julho 1979 United Nations Colinas de Disengageme Golã nt Observer Force Manter o cessar-fogo entre Israel e Síria; supervisionar a remoção das forças israelenses e sírias; e supervisionar as áreas de separação e limitação. Junho 1974 Presente United Nations Interim Force in Lebanon Garantir a retiradas das forças israelenses do Líbano; restaurar a paz e a segurança; auxiliar o governo libanês a restaurar sua efetiva autoridade na região. Devido à crise de Julho/Agosto de 2006, o Conselho de Segurança ampliou o efetivo da força e decidiu que, além de seu mandato original, também iria, entre outras coisas: monitorar o Março 1978 Presente Second United Nations Emergency Force Suez e Sinai Líbano 56 cessar das hostilidades; acompanhar e dar suporte às forças armadas libanesas à medida que estas se instalassem no sul do Líbano; e estender sua assistência para ajudar a garantir o acesso das ações humanitárias às populações civis e o retorno seguro e voluntário dos deslocados civis. United Nations Good Afega nisOffices UNGOMAP tão e Mission in Paquistão Afghanistan and Pakistan UNIIMOG United Nations IranIraq Military Observer Group Irã e Iraque Ajudar a garantir a implementação dos Acordos sobre a Resolução da Situação no Afeganistão; investigar e relatar possíveis violações a qualquer das previsões dos Acordos. Maio 1988 Março 1990 Verificar, confirmar e supervisionar o cessar-fogo e a retirada de todas as forças para as fronteiras internacionalmente reconhecidas, enquanto se aguardava uma solução definitiva. As atividades da UNIMOG foram encerradas em Fevereiro de 1991, depois que Irã e Iraque fizeram a retirada completa de suas forças para as referidas fronteiras. Agosto 1988 Fevereiro 1991 Quadro 2: OMP realizadas pela ONU (1948-1988) e principais componentes do mandato Adaptado de: DPKO, Current Operations, 2010; DPKO, Past Operations, 2010. Conforme foi discutido, o epílogo da Guerra Fria deu azo à emergência de um novo entendimento acerca da paz e da segurança, no qual a observância de direitos individuais tidos como universais e a garantia de condições básicas de vida e bem-estar a todos os seres humanos ganharam proeminência. Em decorrência dessa transformação, os mecanismos de combate às ameaças, especialmente às OMP, também mudaram. A partir desse momento, não se tratava mais de limitar a força e restituir a soberania pura e simplesmente; era necessário reconstruir o Estado como um todo: instituições; infraestrutura; capacidade de conduzir a população no caminho do desenvolvimento humano sustentável; e, assim, eliminar as causas dos conflitos violentos e evitar sua recorrência. O novo corolário das OMP se refletiu na mudança notável de seus objetivos, em relação àqueles observados no período anterior, como pode ser percebido pelos novos componentes dos mandatos das missões realizadas a partir dos anos 1990, sintetizados no Quadro 3. 57 Sigla UNAVEM I UNTAG ONUCA UNIKOM Nome da Operação United Nations Angola Verification Mission I United Nations Transition Assistance Group United Nations Observer Group in Central America United Nations IraqKuwait Observation Mission Local Mandato Início Término Angola Verificar a retirada das tropas cubanas do território angolano. Janeiro 1989 Junho 1991 Namíbia Costa Rica, El Salvador, Guatemal a Honduras e Nicarágua Iraque e Kuwait Entre outras funções, auxiliar o Representante Especial do Secretário-Geral a garantir a Abril independência da Namíbia 1989 por meio de eleições livres e justas, sob a supervisão e controle da ONU. Verificar o cumprimento, pelos governos da América Central, da decisão de cessar toda a ajuda a forças irregulares e movimentos insurgentes na região e de impedir a utilização de seu território para que estes lancem Novembro ataques a outros estados. Além 1989 disso, coube à ONUCA auxiliar na desmobilização voluntária da Resistência Nicaraguense e monitorar o cessar-fogo e a separação das tropas tal como acordado entre as partes no processo de desmobilização. Monitorar a zona desmilitarizada ao longo da fronteira entre Iraque e Kuwait, Abril além de deter possíveis 1991 violações a essa fronteira e comunicar o Conselho sobre qualquer ação hostil. Março 1990 Janeiro 1992 Outubro 2003 58 MINURSO United Nations Mission for the Referendum in Western Sahara UNAVEM II United Nations Angola Verification Mission II ONUSAL United Nations Observer Mission in El Salvador UNAMIC United Nations Advance Mission in Cambodia Monitorar o cessar-fogo; verificar a redução das tropas marroquinas no território; monitorar o confinamento das tropas marroquinas e da Frente POLISARIO aos locais designados; negociar com as Saara partes a libertação de todos os Ocidental prisioneiros políticos de Saara Ocidental; acompanhar as trocas de prisioneiros de guerra; implementar o programa de repatriamento; identificar e registrar eleitores; além de organizar um referendum livre e justo. Verificar o cumprimento das decisões acordadas pelo governo de Angola e a União Nacional para a Independência Total de Angola, com o fim de Angola monitor o cessar-fogo e a atuação da polícia angolana durante esse período, além de acompanhar as eleições, de acordo com os Acordos de Paz. Verificar a implementação de todos os acordos entre o governo de El Salvador e a Frente Farabundo Marti para la Liberacíon Nacional, incluindo El o cessar-fogo, a reforma e a Salvador redução das forças armadas, a criação de uma nova força policial, a reforma do judiciário e do sistema eleitoral, e proteção aos direitos humanos, entre outros. Auxiliar na manutenção do cessar-fogo entre as partes do conflito no Camboja, além de treinar a população civil Camboja cuidados com minas terrestres. Posteriormente, o mandato passou a incluir também um programa de retirada de minas. Abril 1991 Presente Junho 1991 Fevereiro 1995 Julho 1991 Abril 1995 Outubro 1991 Março 1992 59 UNPROFOR United Nations Protection Force UNTAC United Nations Transitional Authority in Cambodia UNOSOM I United Nations Operation in Somalia I ONUMOZ United Nations Operation in Mozambique Garantir a desmilitarização das áreas designadas; dar suporte à entrega de ajuda humanitária; monitorar as zonas de voo proibido e as Fevereiro Iugoslávia zonas de segurança. O 1992 mandato foi posteriormente estendido para incluir o monitoramento preventivo nas áreas de fronteira na Macedônia. Garantir a implementação dos Acordos de Ampla Resolução Política do Conflito no Camboja, assinado em 1991. O mandato incluía aspectos relacionados a direitos humanos, organização e Março realização de eleições, Camboja 1992 reformas militares, administração civil, manutenção da lei e da ordem, repatriação e reassentamento de refugiados e deslocados internos, e reabilitação da infraestrutura cambojana. Monitorar o cessar-fogo em Mogadísco e acompanhar entregas de suprimentos humanitários. O mandato foi ampliado posteriormente para Abril Somália permitir a proteção aos 1992 comboios humanitários e o estabelecimento de um ambiente seguro para a atuação da assistência humanitária. Ajudar na implementação do Acordo Geral de Paz; monitorar o cessar-fogo e a retirada das forças MoçambiDezembro estrangeiras; dar segurança às que 1992 linhas de suprimentos; e prover assistência técnica e acompanhamento a todo o processo eleitoral. Março 1995 Setembro 1993 Março 1993 Dezembro 1994 60 UNOSOM II UNOMUR UNOMIG United Nations Operation in Somalia II United Nations Observer Mission UgandaRwanda United Nations Observer Mission in Georgia Tomar as ações necessárias, incluindo medidas de coação, para estabelecer em toda a Somália um ambiente seguro para a assistência humanitária. Com esse fim, a UNOSOM II deveria completar, por meio do desarmamento e reconciliação, a missão iniciada pela Unified Task Force para restaurar a paz, a estabilidade, a ordem e a lei. Março 1993 Março 1995 Monitorar a fronteira entre Uganda e Uganda e Ruanda e assegurar Ruanda que nenhuma ajuda militar fosse provida por ela. Junho 1993 Setembro 1994 Somália Geórgia UNOMIL United Nations Observer Mission in Liberia Libéria UNMIH United Nations Mission in Haiti Haiti Averiguar o cumprimento do acordo de cessar-fogo entre o Agosto governo da Geórgia e as 1993 autoridades do Abkhaz na Geórgia. Exercer bons ofícios em suporte aos esforços da Comunidade Econômica de Estados da África Ocidental e do Governo Nacional de Transição da Libéria para a implementação dos acordos de paz; investigar as possíveis violações ao cessar-fogo; auxiliar na Setembro 1993 desmobilização de combatentes; dar suporte à assistência humanitária; averiguar violações aos direitos humanos e ajudar grupos locais de direitos humanos; além de observar e verificar a realização de eleições. Ajudar o governo a estabelecer um ambiente estável, a profissionalizar as Setembro forças armadas e a criar uma 1993 força policial separada, além de auxiliar a condução de eleições livres e justas. Junho 2009 Setembro 1997 Junho 1996 61 UNAMIR United Nations Assistance Mission for Rwanda UNASOG United Nations Aouzou Strip Observer Group UNMOT UNAVEM III UNCRO UNPREDEP Ruanda Ajudar a implementar o Acordo de Paz de Arusha, assinado em 1993. O mandato da UNAMIR foi alterado diversas vezes frente aos trágicos acontecimentos de genocídio que se seguiram. Outubro 1993 Março 1996 Chade Verificar a retirada das tropas e da administração líbia da Faixa de Aouzou de acordo com a decisão da Corte Internacional de Justiça. Maio 1994 Junho 1994 United Nations Monitorar o cessar-fogo Dezembro Mission of Tajiquistão acordado entre o governo e a 1994 Observers in oposição. Tajikistan Auxiliar o governo de Angola United e a União Nacional para a Nations Independência Total de Angola Fevereiro Angola Angola (UNITA) a restaurar a paz e a 1995 Verification alcançar a reconciliação Mission III nacional. Realizar as funções designadas a ela pelo acordo de cessar-fogo de 29 de Março de 1994; colaborar com a implementação do acordo econômico de 2 de Dezembro United de 1994; monitorar a Nations passagem de pessoal militar, Confidence Maio Croácia equipamento, suprimentos e Restoration 1995 armas pelas fronteiras Operation in internacionais especificadas; Croatia facilitar a chegada de assistência humanitária à Bósnia e Herzegovina pelo território croata; monitorar a desmilitarização da península Prevlaka. Continuar desempenhando as funções antes exercidas pela United UNPROFOR, tais como: Nations Março monitorar as áreas de Preventive Macedônia fronteira e comunicar qualquer 1995 Deployment fato possa abalar a estabilidade Force da Macedônia ou ameaçar seu território. Maio 2000 Junho 1997 Janeiro 1996 Fevereiro 1999 62 UNMIBH UNTAES UNMOP Coordenar as atividades da ONU na Bósnia-Hezergóvina relacionadas a ajuda United Bósnia- humanitária e aos refugiados, Nations Dezembro Mission in Hezergó- retirada de minas, proteção 1995 aos direitos humanos, Bosnia and vina realização de eleições, Herzegovina reabilitação da infraestrutura e reconstrução econômica. Ajudar a reintegrar pacificamente a Slavonia Oriental, a Baranja e a Sirmium United Ocidental à Croácia; Nations supervisionar e acompanhar Transitional a desmilitarização; monitorar Administratio o retorno de refugiados; Janeiro n for Eastern Croácia contribuir para a manutenção 1996 Slavonia, da paz e da segurança; Baranja and estabelecer um força policial Western temporária; realizar funções Sirmium relacionadas a administração civil e de serviços públicos; e organizar eleições, entre outras atividades. United Nations Mission of Observers in Prevlaka UNSMIH United Nations Support Mission in Haiti MINUGUA United Nations Verification Mission in Guatemala Monitorar a desmilitarização Croácia e da península de Prevlaka, Iugoslávia dando sequência ao trabalho desempenhado pela UNCRO. Coordenar as atividades do Sistema ONU nas ações de reconstrução institucional, reconciliação nacional e Haiti reabilitação econômica, além de auxiliar o governo a profissionalizar sua polícia e a manter um ambiente seguro e estável. Supervisionar a implementação do Acordo de Cessar-fogo Definitivo Guatemala assinado pela governo da Guatemala e a Unidade Revolucionária Nacional Guatemalteca. Dezembro 2002 Janeiro 1998 Janeiro 1996 Dezembro 2002 Julho 1996 Julho 1997 Janeiro 1997 Maio 1997 63 MONUA United Nations Observer Mission in Angola UNTMIH United Nations Transition Mission in Haiti MIPONUH UNPSG MINURCA UNOMSIL Angola Auxiliar as partes em conflito em Angola a consolidar a paz e alcançar uma reconciliação nacional, ampliando a confiança mútua e criando um ambiente favorável à estabilidade de longo prazo, ao desenvolvimento democrático e à reabilitação do país. Junho 1997 Fevereiro 1999 Haiti Auxiliar o governo do Haiti, dando suporte e contribuindo para a profissionalização da Polícia Nacional Haitiana. Agosto 1997 Dezembro 1997 Auxiliar o governo a profissionalizar a Polícia United Nacional, em especial Nations treinando unidades policiais Civilian Dezembro Haiti especializadas. Outras funções Police 1997 incluíam avaliar a atuação da Mission in polícia e acompanhar os Haiti policiais em suas atividades rotineiras. Continuar com o monitoramento da performance da polícia croata UN Civilian na região do Danúbio, Police particularmente com respeito ao Janeiro Croácia Support 1998 retorno de deslocados Group internos, além de assumir funções de vigilância antes a cargo da UNTAES, devido ao fim do mandato desta. Auxiliar na manutenção e fortalecimento da segurança e United da estabilidade em Bangui e Nations arredores; supervisionar, República Mission in the estocar e monitorar a deposição Abril Centro Central de armas advindas do processo 1998 Africana African de desarmamento; ajudar na Republic capacitação da força policial; e fornecer suporte técnico para as eleições. Monitorar a situação em Serra Leoa, em especial quanto à United segurança e ao processo de Nations desarmamento e Julho Observer Serra Leoa desmobilização de ex1998 Mission in combatentes. Também tinha Sierra Leone como missão a de ajudar a monitorar o respeito às leis humanitárias internacionais. Março 2000 Outubro 1998 Fevereiro 2000 Outubro 1999 64 UNMIK UNAMSIL UNTAET MONUC UNMEE UNMISET Exercer o papel de administração de transição e, ao mesmo tempo, gerar as condições para o desenUnited volvimento de instituições de Nations auto-governo democráticas, Interim Junho Kosovo com vistas a restaurar a paz e Presente Administratio 1999 a normalidade para a população n Mission in do Kosovo. Progressivamente, Kosovo a UNMIK se deslocou da posição administrativa para a de monitoramento e suporte às instituições locais. Cooperar com o governo e as United outras partes para a imNations plementação do Acordo de Paz Outubro Dezembro Serra Leoa Mission in de Lome e auxiliar o processo 1999 2005 Sierra Leone de desarmamento, desmobilização e reintegração. Administrar o território, United exercer a autoridade exeNations cutiva e legislativa durante o Transitional Timor Outubro Maio período de transição e dar Administratio Leste 1999 2002 suporte ao desenvolvimento n in East das condições de autoTimor governo. United Monitorar o cessar-fogo e o Nations República desengajamento das forças e Organization Democrá- fazer com que todas as partes Novembro Mission in the Presente continuem respeitando o 1999 tica do Democratic Acordo de Cessar-fogo, entre Congo Republic of outras funções. the Congo Manter contato com todas as partes e estabelecer um mecanismo para verificar o United cessar-fogo. A partir de Nations Etiópia e Setembro de 2000, a UNMEE Julho Julho Mission in Eritréia também ficou responsável por 2000 2008 Ethiopia and monitorar o cessar de Eritrea hostilidades e ajudar a garantir a observância aos compromissos firmados. United Nations Mission of Support in East Timor Timor Leste Prover assistência ao Timor Leste por um período de dois anos até que todas as responsabilidades operacionais fossem plenamente transferidas às autoridades locais. Maio 2002 Maio 2005 65 UNMIL UNOCI MINUSTAH ONUB United Nations Mission in Liberia United Nations Operation in Côte d'Ivoire United Nations Stabilization Mission in Haiti United Nations Operation in Burundi Auxiliar na implementação do acordo de cessar-fogo e no processo de paz; proteger as instalações, o staff e os civis da ONU; dar suporte às atividades humanitárias e de Setembro 2003 direitos humanos; e ajudar na reforma da segurança nacional, incluindo treinamento de policiais e formação de uma nova e reestruturada força militar. Presente Costa do Marfim Auxiliar na implementação, pelas partes do conflito na Costa do Marfim, do acordo de paz assinado em 2003, dando continuidade ao trabalho desenvolvido anteriormente pela MINUCI. Abril 2004 Presente Haiti Manter a ordem e a segurança pública; proteger pessoal e instalações da ONU; garantir liberdade de ir e vir; monitorar e reformar a polícia nacional; proteger civis; promover primado da lei, dar suporte aos processos constitucional e político, promover governança democrática e desenvolvimento institucional; dar suporte ao processo eleitoral, diálogo e reconciliação nacional; estender autoridade nacional e boa governança em todo o país; monitorar, promover e proteger os Direitos Humanos (incluindo refugiados e IDPs), evitar abusos e prestar assistência às vítimas. Junho 2004 Presente Burundi Dar suporte à implementação dos compromissos assumidos pelos burundianos para estabelecer uma paz duradoura e a reconciliação nacional, tal como disposto no Acordo de Arusha. Junho 2004 Dezembro 2006 Libéria 66 UNMIS United Nations Mission in the Sudan Sudão UNMIT United Nations Integrated Mission in Timor-Leste TimorLeste Dar suporte à implementação do Acordo Amplo de Paz; monitorar e verificar o respeito ao acordo de cessarfogo e averiguar possíveis violações; manter contato com os doadores bilaterais; observar e monitorar a movimentação de grupos armados; auxiliar o programa de desarmamento, desmobilização e reintegração; promover o entendimento a respeito do processo de paz e do papel da UNMIS por meio de campanhas informativas; auxiliar a reestruturação do serviço policial no Sudão; ajudar as partes a promover o primado da lei e a proteger os direitos humanos; dar suporte à realização de eleições; incentivar e acompanhar o retorno voluntário de refugiados e deslocados internos; coordenar a assistência humanitária; prover auxílio para as atividades de limpeza de áreas minadas; atuar no sentido da proteção de civis. O mandato também prevê que a UNMIS estaria autorizada a tomar todas as ações necessárias para proteger o pessoal da ONU, suas instalações, além de civis sob ameaça iminente. Dar suporte ao governo para que este possa consolidar a estabilidade, fortalecer a cultura de governança democrática, e incentivar o diálogo político entre stakeholders timorenses, com vistas a promover uma ampla reconciliação nacional e fomentar a coesão social. Março 2005 Presente Agosto 2006 Presente 67 UNAMID African Union-United Nations Hybrid Operation in Darfur Sudão Proteger os civis, contribuir para a segurança da assistência humanitária, monitorar e verificar a implementação dos acordos, colaborar para a promoção dos direitos humanos e o primado da lei, e relatar ao Conselho sobre a situação ao longo das fronteiras do Sudão com o Chad e a República Centro Africana. Julho 2007 United Contribuir para a proteção de Nations República civis, promover os direitos Mission in the Centro humanos e o primado da lei e Setembro MINURCAT Central Africana e auxiliar no processo de 2007 African Chad estabelecimento da paz na Republic and região. Chad Presente Presente Quadro 3: OMP realizadas pela ONU (1989-2009) e principais componentes do mandato Adaptado de: DPKO, Current Operations, 2010; DPKO, Past Operations, 2010. Os novos objetivos dos mandatos podem ser reinterpretados como novos meios para manter a segurança internacional, caracterizados pela inclusão de elementos da agenda do desenvolvimento e da assistência humanitária na acepção mais tradicional da segurança. Tal inclusão motivou a reformulação das OMP como mecanismos de preservação e promoção dessa segurança internacionalmente e consolidou sua reorganização em três áreas, quais sejam, segurança, assistência humanitária e assistência ao desenvolvimento, cuja dinâmica alterna momentos de integração e especialização, tanto de objetivos quanto de atores. Essas mudanças foram circunscritas pela ONU à rubrica da multidimensionalidade. No próximo capítulo, deverá ser mostrado, por meio da análise da missão realizada na Libéria, no período de 2003 a 2008, como se processa a divisão de tarefas (e de atores) entre essas três grandes áreas; e a interação entre elas, com vistas a fornecer elementos para discutir a hipótese da articulação de um nexo entre segurança coletiva, assistência humanitária e assistência ao desenvolvimento no âmago das OMP pós Guerra Fria. 68 3 SEGURANÇA, ASSISTÊNCIA HUMANITÁRIA, ASSISTÊNCIA AO DESENVOLVIMENTO E RECONSTRUÇÃO DO ESTADO NA LIBÉRIA Como discutido no capítulo anterior, se tomadas em conjunto, as transformações normativas, institucionais e operacionais das missões de paz que tiveram lugar a partir dos anos 1990 podem ser entendidas como parte do processo de emergência de uma nova geração de OMPs conduzidas pela ONU. Entre as características de tais operações, podem-se destacar a multidimensionalidade e a participação de novos atores, que evidenciam o envolvimento mais consistente da sociedade internacional nos processos de pacificação e reconstrução de Estados nacionais. Contudo, é interessante observar que, apesar da cadência e coerência aparentes entre propostas e decisões, a reconstituição dessas operações como instrumentos de manutenção da paz e da segurança internacionais após a Guerra Fria foi muitas vezes marcada pela descontinuidade. Grande parte das inovações hoje codificadas em documentos como a Doutrina Capstone (2008), resultou, de fato, da compilação de experiências realizadas de maneira ad hoc, para atender a necessidades específicas impostas pelas particularidades, internacionais ou domésticas, que cercaram cada um dos casos nos quais a ONU se envolveu. Outra questão digna de nota diz respeito ao fato de que, sob a égide da multidimensionalidade, as operações passaram a ser mais intrusivas – especialmente no que concerne ao princípio de soberania estatal –, e destinadas a realizar tarefas complexas. Consequentemente, tornaram-se mais dispendiosas, tanto política quanto economicamente, e seu sucesso, traduzido aqui como realização efetiva dos projetos e programas tidos como essenciais, progressivamente condicionado ao suporte dado pelos Estados à operação. Dessa forma, a aplicação dos novos conceitos, padrões e técnicas relacionados às operações de paz dependeu não só de seu desenvolvimento e disponibilidade, como também do apoio internacional recebido em cada caso. Ao longo dos anos, as operações capazes de combinar inovações e recursos de forma bem sucedida foram utilizadas pela ONU na definição de um rol de práticas testadas e aceitas (melhores práticas) que serviriam de base para experiências subsequentes. Entre essas operações, merece destaque a realizada na Libéria a partir de 2003, considerada pela ONU como um dos casos de maior sucesso em sua história (UN FORUM, 2005; UN FOUNDATION, 2009). Além de incorporar princípios e técnicas desenvolvidos até então, a UNMIL (United Nations Mission in Liberia) teve êxito em criar novas soluções e incorporar, ao longo de sua atuação, práticas que se mostraram eficientes em outros casos. 69 Dessa forma, a missão foi considerada pela ONU uma das mais bem acabadas representantes da nova geração das operações de paz, tornando-se referência para futuras intervenções e uma das principais fontes para documentos como a Doutrina Capstone (2008). Neste capítulo, pretende-se descrever a montagem e o funcionamento da operação na Libéria e identificar evidências das orientações normativas, institucionais e operacionais que informam os processos de pacificação e reconstrução de Estados após a Guerra Fria, tratadas no capítulo anterior. Especialmente, pretende-se detalhar o processo de divisão de tarefas e interação entre elas nas três grandes áreas isoladas anteriormente – segurança, assistência humanitária e assistência ao desenvolvimento – para discutir em que medida a multidimensionalidade implica a definição de um novo papel para a ONU nas OMP, qual seja, o de coordenar um processo de divisão de trabalho entre agências e organizações cada vez mais especializadas, de modo a garantir objetivos comuns, definidos como a preservação da paz e da estabilidade. A hipótese de trabalho é que as transformações sofridas pelas OMP refletem uma redefinição do que significa a paz e dos meios pelos quais ela deve ser alcançada, principalmente no que concerne à mudança dos regimes. Finalmente, pretende-se reunir evidências que permitam discutir como se processa o nexo entre segurança coletiva, assistência humanitária e assistência ao desenvolvimento no pós Guerra Fria. 3.1 Breve História da Libéria A Libéria é um pequeno país da África Ocidental, que ganhou notoriedade por ter sido o primeiro Estado africano a declarar independência, em 1847, sem ter vivido intensa dominação colonial. Apesar disso, sua história é marcada por grande instabilidade política e profunda ligação com o exterior, especialmente com os Estados Unidos (MORGAN, 2006). A região, conhecida como ―Costa da Pimenta‖, foi descoberta pelos portugueses no século XV, mas a dominação durou pouco e, nos anos seguintes, a zona litorânea que hoje compõe o território da Libéria foi disputada por corsários e exploradores, especialmente britânicos e holandeses, que procuraram estabelecer entrepostos comerciais para lidar, sobretudo, com compra e venda de escravos (DAVID, 1984; SAWYER, 2004). Em 1821, a região do Cabo Mesurado – a mesma que recebeu os portugueses séculos antes – foi adquirida pela American 70 Colonisation Society (ACS) 55 , uma organização fundada nos Estados Unidos em 1816, com objetivo de enviar de volta à África os escravos negros que, segundo eles, não teriam mais lugar na sociedade norte-americana; expandir as relações comerciais dos EUA com a África; e civilizar a população nativa (ANING, 1999; WICKSTROM, 1960; DAVID, 1984). No ano seguinte, aportaram os primeiros colonos e o empreendimento logo foi copiado por outras sociedades colonizadoras norte-americanas, que estabeleceram assentamentos ao longo da costa e acabaram por fundar uma espécie de commonwealth, com o lema ―o amor pela liberdade nos trouxe até aqui‖ (NELSON, 1984). 56 Como observam Aning (1999) e Sayle et al (2009), desde sua criação, a Libéria contou com um aparato administrativo semelhante ao colonial, no qual a ACS exercia o papel de um quase Estado, organizando a produção, o comércio e as relações sociais. Sobre esse último aspecto, Nelson (1984) e Levitt (2005) destacam a submissão imposta pelos imigrantes vindos dos EUA aos nativos, classificados como ―aborígenes não civilizados‖ (NELSON, 1984, p.XXIV), que teve início no período de administração branca (1822-1842), foi legalizada na Constituição de 1847 – posterior à independência –, e perdurou, pelo menos, até os anos 1980, ainda que não mais constitucionalmente. Mesmo depois da independência, os laços entre a Libéria e os EUA continuaram fortes, com a promulgação de uma constituição de inspiração norte-americana e a ascensão ao poder de um presidente negro nascido na Virgínia. Além disso, grande parte das atividades produtivas desenvolvidas no país era financiada por empresas ou pelo governo dos EUA, que também concedia empréstimos frequentes ao governo local (ANING, 1999). Se comparada à maior parte dos Estados africanos, é possível afirmar que, após a independência, a Libéria passou a desfrutar de uma posição política relativamente tranquila no cenário internacional (SAYLE et al, 2009). Contou com o reconhecimento e o apoio das potências europeias e dos EUA e participou da fundação da ONU, obtendo inclusive certo destaque na defesa da independência das colônias africanas na Organização. Paralelamente, a política interna do país era marcada pela fragilidade estrutural e institucional e pela 55 A ACS, fundada por Robert Finley, era composta, majoritariamente, por brancos e seus recursos eram provenientes da venda de certificados de pertença e do apoio de seus membros, instituições religiosas e até do Congresso dos EUA. Apesar de não se tratar de uma organização do governo, a ACS recebeu o apoio do presidente James Monroe (a capital da Libéria, Monróvia, recebeu esse nome em homenagem a ele) e dos estados da Virgínia, Maryland, Kentucky, Carolina do Norte e Missouri, inclusive por meio de contribuições em dinheiro. No final do século XIX, a ACS entrou em decadência e passou a se dedicar a atividades educativas e ao envio de missionários para diversas regiões, até sua dissolução em 1964 (PURVIS, 1997). 56 Entre as sociedades colonizadoras que criaram assentamentos na costa da Libéria, Aning (1999) cita a Colonisation Society of Virginia; Young Men’s Colonisation Society of Pennsylvania; Colonisation Society of New York; e Mississippi Colonisation Society. O nome ―Libéria‖, do latim ―terra livre‖, foi oficializado em 1824, já com o lema ―The Love of Liberty Brought Us Here‖ (ANING, 1999; NELSON, 1984). 71 inabilidade dos líderes políticos de mediarem relações sociais tensas, especialmente com as tribos nativas (ANING, 1999). Em 1980, essa tensão culminou com a deposição e execução do então presidente William Tolbert Jr a mando do sargento Samuel Doe, do Conselho de Redenção Popular (People’s Redemption Council, PRC), eleito presidente em 1985, em um pleito que excluiu a oposição (ADEBAJO, 2002). Durante os anos de seu governo, Doe fomentou rivalidades internas e disputas étnicas, além de ter se beneficiado de maneira ilícita dos recursos naturais explorados na Libéria (HARRIS, 1999). Mesmo assim, o presidente contou com o apoio dos Estados Unidos que, interessados em manter um aliado contra os soviéticos na África, destinaram à Libéria mais de US$ 500 milhões entre 1980 e 1989 (HOWE, 2001). Em 1989, grupos guerrilheiros, a maioria composta por integrantes de minorias étnicas perseguidas por Doe, liderados pela NPFL (National Patriotic Front of Liberia) se rebelaram contra as forças do governo, dando início à guerra civil (ADEBAJO, 2002). De acordo com dados da ONU, o conflito deixou mais de 200 mil mortos – inclusive o presidente – e desalojou cerca de 80% da população do país (que é de 2,5 milhões de pessoas), entre deslocados internos (IDPs) e refugiados, que contribuíram para o agravamento da já precária situação dos Estados vizinhos, especialmente Serra Leoa e Costa do Marfim (UNDAF, 2003). A primeira tentativa internacional de intervir na Libéria foi liderada pela Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental (Economic Community of West African States, ECOWAS), com o envio de uma força de paz em 1990, a ECOMOG (ECOWAS Cease-fire Monitoring Group), que contou com o apoio da ONU e da Organização da Unidade Africana (ANING, 1999). Em 1992, o Conselho de Segurança decidiu enviar um representante para auxiliar a ECOWAS nas negociações com as partes em conflito e determinou que, de acordo com o Capítulo VII da Carta das Nações Unidas, [...] todos os Estados devem, com o propósito de estabelecer a paz e a estabilidade na Libéria, implementar imediatamente o embargo geral e completo de todas as entregas de armas e equipamentos militares à Libéria, até que o Conselho de Segurança decida o contrário (S/RES/788, 1992, §8,tradução livre). 57 Entretanto, mesmo depois do embargo, a participação da ONU no caso da Libéria se manteve indireta por um período de quase um ano. Somente quando a ECOWAS conseguiu negociar o cessar-fogo entre as partes (Acordo de Paz de Cotonou, 1993), o Conselho de 57 Under Chapter VII of the Charter of the United Nations, [...] all States shall, for the purposes of establishing peace and stability in Liberia, immediately implement a general and complete embargo on all deliveries of weapons and military equipment to Liberia until the Security Council decides otherwise. 72 Segurança determinou a criação de uma OMP na região, a UNOMIL (United Nations Observer Mission in Liberia), a primeira na história da ONU a ser realizada em conjunto com uma operação preexistente conduzida por outra organização, neste caso a ECOWAS (S/RES/866, 1993). No que concerne ao mandato, a UNOMIL pode ser enquadrada na transição entre as OMPs tradicionais e as novas, inspiradas nas propostas da Agenda para a Paz (1992), discutidas no capítulo anterior. Por um lado, o estabelecimento da missão indica a disposição da ONU para intervir em um conflito intraestatal/guerra civil; e de fazê-lo contando com o apoio de outros atores, como a ECOWAS e algumas organizações de assistência humanitária, práticas pouco usuais durante a Guerra Fria e que a Agenda classificou como necessárias para lidar com os conflitos que se apresentavam a partir dos anos 1990. Por outro lado, as tarefas realizadas pela UNOMIL, como o próprio nome indica, eram bastante limitadas à observação e monitoramento de uma série de quesitos, como acontecia nas operações realizadas nas décadas anteriores, sendo as ações de reconstrução, tão enfatizadas na Agenda, praticamente ausentes. De acordo com o texto do Conselho, a UNOMIL tinha como atribuições principais: monitorar o cumprimento [...] do Acordo de Paz [...] e verificar sua aplicação imparcial; assistir o monitoramento do cumprimento do embargo ao fornecimento de armas e equipamentos militares à Libéria e o alojamento, desarmamento e desmobilização dos combatentes; observar e verificar o processo eleitoral [...]; assistir a coordenação das atividades de assistência humanitária no campo [...]; planejar e angariar recursos para a desmobilização de combatentes; comunicar qualquer violação grave do direito humanitário internacional [...]; coordenar, em conjunto com a ECOMOG, a identificação de minas e bombas e assistir seu desarmamento (S/RES/866, 1993, § 3, tradução livre). 58 Em 1995, após o reaparecimento de focos de tensão na região, o mandato da UNOMIL foi ajustado – ainda que não de forma significativa –, dando à missão papel mais ativo na implementação de acordos e programas e suporte às atividades de assistência humanitária e aos grupos de direitos humanos, além da recomendação de medidas para prevenir a retomada do conflito (S/RES/1020, 1995). Com a realização de eleições e o estabelecimento de um novo governo em 1997, a ONU considerou que a tarefa da missão havia sido cumprida e encerrou suas atividades em 30 de setembro daquele ano. Ainda em 1997, o Conselho de 58 To monitor compliance […] of the Peace Agreement […] and to verify its impartial application; to assist in the monitoring of compliance with the embargo on delivery of arms and military equipment to Liberia and the cantonment, disarmament and demobilization of combatants; to observe and verify the election process […] to assist […] in the coordination of humanitarian assistance activities in the field […];to develop a plan and assess financial requirements for the demobilization of combatants; to report on any major violations of international humanitarian law […]; in cooperation with ECOMOG, coordinate the identification of mines and assist in the clearance of mines and unexploded bombs. 73 Segurança determinou a criação da UNOL (United Nations Peace-building Support Office in Liberia), que deveria trabalhar junto com o governo da Libéria para facilitar a promoção de reconciliação nacional e boa governança e ajudar a mobilizar suporte internacional para planos de reconstrução e desenvolvimento (UN, 2000). A UNOL foi a primeira experiência de organização de suporte à reconstrução pós conflito criada pela ONU; contudo, suas atividades foram posteriores à OMP na região, e não parte dela 59 . Para Adebajo (2002), os esforços e recursos da UNOL foram claramente insuficientes para alterar a situação no país, que continuou a sofrer com a fome, infraestrutura precária e corrupção generalizada (HOFFMAN, 2006). Dessa forma, ainda que apresentasse alguns traços característicos das operações de paz do pós Guerra Fria, a missão realizada na Libéria entre 1993 e 1997 não tinha como objetivo a reconstrução das instituições e da infraestrutura estatais; tampouco sua abordagem definida como multidimensional. Isso posto, o período não será objeto da análise proposta no trabalho, que deverá concentrar-se na missão iniciada em 2003 e com término previsto para 2010; esta sim, multidimensional e com vistas à ampla reconstrução do aparato estatal. O estabelecimento da missão e a realização de suas atividades serão descritos e analisados nas próximas seções, na tentativa de identificar os elementos que redefinem a ideia de paz e os passos necessários para alcançá-la, especialmente depois do ano 2000. Nesse sentido, interessa, principalmente, fornecer evidências que ajudem a entender como se processa o nexo entre segurança coletiva, assistência humanitária e assistência ao desenvolvimento, forjado no âmago das OMPs multidimensionais. 3.2 UNMIL: multidimensionalidade e reconstrução do Estado na Libéria Com a posse do presidente Charles Taylor e o encerramento da missão da ONU em 1997, a tensão que permeava as relações sociais na Libéria voltou a emergir. Grupos rebeldes e milícias passaram a contestar a autoridade do governo e assumiram o controle sobre algumas regiões do país, dando início à escalada de violência, abusos sistemáticos dos direitos humanos, perseguições e criminalidade generalizada, praticados não só pelos milicianos como 59 As atividades da UNOL foram encerradas em 2003, quando, em decorrência da retomada dos conflitos, a ONU estabeleceu uma nova operação de paz na Libéria, a UNMIL, cujas atividades serão descritas e discutidas em seguida. 74 também pelo governo (SAWYER, 2004). Entre os rebeldes, destacaram-se o LURD (Liberians United for Reconciliation and Democracy), que estabeleceu domínio paralelo no norte; e o MODEL (Movement for Democracy in Liberia), cuja preponderância crescia no sul (SAYLE et al, 2009). Esses grupos foram apoiados pelos países vizinhos – Guiné e Serra Leoa –, que mantinham relações conflituosas com a Libéria, principalmente em decorrência do suporte dado pelo presidente Taylor a milícias contrárias aos governos desses países (ICG, 2003). Célebre exemplo desse apoio foi o treinamento oferecido por Taylor a integrantes do RUF (Revolutionary United Front), grupo guerrilheiro acusado de cometer verdadeiras atrocidades durante os conflitos em Serra Leoa, em troca de participação na exploração de minas de diamantes no país (NDUMBE; BABALOLA, 2005). A precariedade das condições de vida na Libéria catalisou o fortalecimento das milícias, fazendo com que, já em 2003, apenas um terço do território permanecesse controlado pelo governo (SAYLE et al, 2009; HOFFMAN, 2006). Em pouco tempo, o acesso ao sul foi bloqueado pelo MODEL, enquanto o LURD cercava a capital Monróvia, o que marcou o reinício da guerra civil (S/2003/875, 2003). O Mapa 1 ilustra o deslocamento das milícias, seus confrontos com as forças do governo e a direção dos fluxos populacionais decorrentes do conflito. Mapa 1: Deslocamento das milícias, confrontos com o governo e fluxos populacionais na Libéria (2003) Fonte: CAP LIBERIA, 2003. 75 Diante do agravamento do conflito e da proposta da ECOWAS, apoiada pelos EUA, de enviar tropas para região, o então Secretário-Geral Kofi Annan remeteu uma carta ao Conselho de Segurança na qual sugeria a realização de intervenção internacional na Libéria, a ser desdobrada em três fases: (i) envio de tropas da ECOWAS; (ii) envio de força multinacional; e (iii) estabelecimento de OMP da ONU (S/2003/769, 2003). Em resposta, o Conselho autorizou o envio imediato dos contingentes, ancorando sua ação no Capítulo VII da Carta da ONU, visando à criação de condições para o estabelecimento de uma OMP, a qual deveria ser delineada pelo Secretário o mais rápido possível (S/RES/1497, 2003). Paralelamente ao envio das tropas, a ONU passou a negociar o acesso livre e seguro de todos os atores humanitários à população da Libéria (S/2003/875, 2003). Assim que foi firmado um acordo de paz entre as partes (Accra Comprehensive Peace Agreement), possibilitando o estabelecimento do governo provisório, o Secretário-Geral elaborou um relatório sobre a situação na Libéria, no qual recomendava a criação imediata da OMP e delineava seus termos (S/2003/875, 2003). Acatadas as sugestões, o Conselho de Segurança determinou a instituição da UNMIL (United Nations Mission in Liberia), ainda em 2003, com mandato de 12 meses (S/RES/1497, 2003). As atividades foram iniciadas em seguida e, após sucessivas prorrogações do mandato, seu encerramento está previsto para setembro de 2010 (S/RES/1855, 2009). Conforme descrito pela ONU, a partir de 2003, o caso da Libéria demonstra claramente como a deterioração das condições humanitárias e a continuidade dos conflitos internos podem ultrapassar fronteiras nacionais e impingir riscos ao sistema internacional como um todo. Mais do que isso, o diagnóstico e o corolário de medidas proposto pela Organização vai ao encontro das ideias de que (i) a manutenção da paz e da estabilidade dependem da habilidade de combinar o combate às ameaças no presente à sua prevenção no futuro; e (ii) que isso seria viabilizado por uma abordagem multidimensional voltada, principalmente, para a reforma das instituições e da infraestrutura estatal e para a realização de programas de desenvolvimento econômico e social, responsáveis por minar as causas mais profundas das disputas violentas. Nesse sentido, o Conselho de Segurança reconheceu a relação entre a degeneração das condições humanitárias e a intensificação do conflito e afirmou que a situação ―[...] constitu i ameaça à paz e à segurança internacionais, à estabilidade na subregião da África Ocidental; e ao processo de paz na Libéria‖ (S/RES/1497, 2003, p.1, tradução livre). 60 60 Tal situação seria ―[…] constitutes a threat to international peace and security, to stability in the West Africa subregion, and to the peace process for Liberia‖. 76 agravada, principalmente, pelo ―[...] deslocamento generalizado da população, pobreza, alto índice de desemprego e proliferação de pequenas armas [...]‖ (S/2003/875, 2003, § 23, tradução livre) 61 , falência das instituições, corrupção generalizada, falta de confiança no Estado, infraestrutura deteriorada, tensão permanente entre grupos sociais – incluindo disputas territoriais e elementos criminais –, violação e abusos generalizados dos direitos humanos e do direito humanitário internacional e militarização e fragmentação da sociedade civil (S/2003/875, 2003). Finalmente, o Secretário-Geral concluiu que o equacionamento dessas questões ―[...] requer uma resposta abrangente, multidimensional e sustentada da comunidade internacional‖ (S/2003/875, 2003, § 116, tradução livre) 62 , por meio de ações coordenadas entre a OMP e as mais diversas organizações envolvidas em atividades para atenuar os efeitos do conflito na Libéria e evitar sua recorrência no futuro (S/2003/875, 2003).63 A coordenação entre diversos atores e a multidimensionalidade da abordagem sustentavam todo o leque de medidas recomendadas pelo Secretário e apropriadas pelo Conselho. Sobre esse aspecto, é interessante notar que as recomendações basearam-se em estudos encomendados pelo próprio Secretário-Geral, que detalhavam as condições que a OMP encontraria na Libéria; definiam prioridades relacionadas à manutenção da paz e da estabilidade; e delineavam planos e cronogramas de ação para que os objetivos da ONU na região fossem alcançados (S/2003/875, 2003). Compunham as equipes responsáveis pelos estudos funcionários das mais diversas agências da ONU e OIs – com destaque para o Banco Mundial (S/2003/875, 2003). As propostas das ONGs vinculadas à assistência humanitária também foram contempladas, mediante inclusão nas propostas do CAP/CHAP, de documento elaborado por elas – em parceria com agências da ONU e doadores – que contém a lista de projetos a serem desenvolvidos em ―setores vitais‖ (S/2003/875, 2003, § 40). 64 De acordo com as recomendações incorporadas ao mandato, a grande prioridade da UNMIL seria estabilizar a situação de segurança na Libéria e oferecer suporte às organizações humanitárias ali presentes. Mais especificamente, a instituição da missão deveria garantir o acesso dessas organizações à população local, criando condições para a ampliação da ajuda e 61 ―[…] widespread population displacement, poverty, high unemployment and a proliferation of small arms […].‖ 62 ―[…] requires a comprehensive, multidimensional and sustained response from the international community.‖ 63 Na descrição do Secretário, é interessante notar o papel preponderante exercido pela OMP no sentido de garantir a segurança dos demais atores e seu acesso à população, além de prover a eles amplo suporte logístico e assumir a coordenação geral das atividades realizadas no país. Entre as organizações consideradas, encontram-se agências da ONU, OIs, ONGs, Organizações da Sociedade Civil (CSOs) e Organizações de Base Comunitária (CBOs). 64 ―Vital sectors‖. A relação de setores e projetos será descrita e discutida posteriormente. 77 para o estabelecimento, na região, das principais agências da ONU relacionadas à assistência humanitária, permitindo a plena realização dos projetos propostos de forma conjunta no CAP/CHAP de 2003 (e dos anos seguintes) para a Libéria (S/2003/875, 2003). Em seguida, caberia à UNMIL dar início à reconstrução das instituições e da infraestrutura do Estado, com destaque para o setor de segurança; e conduzir o processo eleitoral, tarefas que seriam realizadas ora em conjunto com o governo provisório, ora assumindo funções de Estado (S/RES/1509, 2003). O peso dado pelo mandato às ações de reconstrução, principalmente institucionais; assistência humanitária; e à coordenação das atividades realizadas pelos parceiros, em especial pelas ONGs, fica evidente na observação do organograma da missão (Figura 3). Nele, pode-se perceber que o comando da operação, que fica a cargo do Representante Especial do Secretário-Geral, é dividido em quatro dimensões: duas relacionadas ao suporte institucional, a Divisão de Administração e o Comando das Forças; e duas relacionadas à reconstrução e à ajuda, o Setor de Operações e Primado da Lei, e o Setor de Coordenação Humanitária, Reabilitação, Recuperação e Reconstrução (A/58/539, 2003). 78 Figura 3: Organograma da UNMIL Adaptado de: A/58/539, 2003. 79 As duas primeiras dimensões dão suporte ao pessoal de campo, incluindo setores de orçamento, pessoal, contratos, logística e suprimentos, além da manutenção da segurança de instalações-chave e das equipes e instalações da ONU e de alguns parceiros, responsabilidade do comando geral das tropas (A/58/539, 2003). Já as últimas concentram ações de reconstrução, como a reforma dos sistemas legal, judiciário e prisional e da infraestrutura, além da coordenação dos trabalhos, que ganhou unidade especial (A/58/539, 2003). As tarefas de reconstrução são reforçadas pelo Escritório Imediato do Representante Especial do Secretário-Geral (Figura 4), dedicado ao planejamento político e à introdução de boas práticas, com unidades de consultoria e treinamento de profissionais (A/58/539, 2003). Figura 4: Organograma do Escritório Imediato do Representante Especial do Secretário-Geral Adaptado de: A/58/539, 2003. Finalmente, o texto do Conselho reconheceu que, para que a paz e a estabilidade alcançadas se perpetuassem, seria necessário considerar como a comunidade internacional ―[...] pode ajudar o desenvolvimento econômico futuro na Libéria, com vistas a alcançar estabilidade a longo prazo [...] e a melhorar o bem-estar de seu povo.‖ (S/RES/1509, 2003, §15, tradução livre). 65 As conclusões sobre os caminhos da assistência ao desenvolvimento seriam apresentadas inicialmente no CCA (Common Country Assessment) e, de forma mais 65 ―[…] might help future economic development in Liberia aimed at achieving long-term stability […] and improving the welfare of its people‖. 80 completa, na UNDAF (United Nations Development Assistance Framework), (UNDAF Libéria, 2003), que reúne os projetos de desenvolvimento a serem empreendidos no país de 2003 a 2005 e, posteriormente de 2008 a 2012, em esforços conjuntos de agências da ONU, ONGs e OIs, com destaque para o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional (FMI). O desenrolar das atividades da UNMIL, como descrito no mandato da operação (S/RES/1509, 2003), pode ser relido de acordo com a dinâmica do processo de paz proposta pela Doutrina Capstone (2008) 66 , e dividido em três momentos: (i) estabilização; (ii) consolidação da paz; e (iii) recuperação e desenvolvimento a longo prazo, cada um deles contando com um conjunto mais ou menos específico de atores responsáveis. Relacionada à divisão em estágios, é também possível identificar uma classificação das tarefas em três grandes áreas, que são planejadas de forma integrada e devem operar da mesma maneira: (a) segurança e reorganização institucional do Estado, detalhada no mandato e demais documentos de planejamento da OMP; (b) assistência humanitária, delineada nos documentos do CAP/CHAP; e (c) assistência ao desenvolvimento, cujo planejamento final é apresentado na UNDAF. Contudo, é importante ressaltar que a divisão entre as etapas e entre as áreas não pode ser demarcada de forma precisa; pelo contrário, os limites entre elas são fluidos, com grandes zonas de sobreposição e interseção. De qualquer maneira, é possível perceber que o planejamento e organização da UNMIL incorporaram, de forma marcante, as orientações normativas, institucionais e operacionais relacionadas à redefinição da própria noção de paz e dos caminhos para sua consecução, observada no período posterior à Guerra Fria. Com a inclusão da assistência humanitária e da assistência ao desenvolvimento como eixos norteadores das atividades da OMP – ao lado da segurança – e como pilares da construção de um cenário de paz e estabilidade duradouro, os oficiais da ONU consideraram que a UNMIL teve êxito em colocar em prática a ideia da multidimensionalidade, o que a levou a ser inscrita entre operações de maior sucesso conduzidas pela Organização em prol da segurança coletiva. Para que isso fosse possível, além da incorporação de técnicas aceitas e inovações que se provaram úteis, a operação contou com considerável apoio internacional, principalmente dos EUA, e com o engajamento de ONGs e OIs parceiras, refletidos na grande quantidade de projetos e recursos destinados à melhoria das condições na Libéria. Como evidência tanto da ampliação do escopo da operação quanto do apoio recebido, pode-se citar o volume expressivo de recursos humanos e materiais envolvidos na realização 66 Ver Figura 2 na página 50. 81 da missão e o volume de contribuições recebidas. Enquanto a missão realizada anteriormente na Libéria, a UNOMIL (1993-1997) contou com um contingente militar máximo de 303 pessoas e orçamento de cerca de US$ 103,7 milhões (UNOMIL, 2009), a UNMIL chegou a contar com 15250 soldados, entre 2005 e 2006 (UNMIL, 2009), e um orçamento de mais de US$ 4,1 bilhões, considerando-se os gastos realizados entre 2003 e 2009 e os aprovados até setembro de 2010, quando está previsto o encerramento do mandato (A/58/539, 2003; A/58/744, 2004; A/59/630, 2005; A/60/653, 2006; A/61/783, 2007; A/63/734, 2008; A/63/734, 2009; A/C.5/63/25, 2009; A/59/736/Add.11, 2004; A/61/852/Add.7, 2006; A/62/781/Add.10, 2007; A/63/746/Add.8, 2008). A/60/852, 67 2005; Além disso, os recursos empregados na ajuda humanitária somam cerca de US$ 400 milhões entre 2003 e 2008, considerando exclusivamente os fundos contabilizados no CAP (OCHA, 2003; 2004; 2005; 2006; 2007; 2008). 68 Dadas essas condições, a UNMIL consagrou-se como uma das mais bem acabadas representantes da nova geração de OMP e tornou-se um exemplo a ser seguido por operações futuras, sendo, inclusive, uma das grandes fontes de documentos que contém, de forma precisa, conceitos e técnicas para informar seu planejamento e realização efetiva, como a Doutrina Capstone (2008). As próximas seções serão dedicadas à identificação e descrição mais detida dos componentes em torno dos quais se estruturou o processo de paz conduzido pela ONU na Libéria (2003-2008), bem como das ações e atores a ele relacionados. Tal identificação/descrição será realizada tomando por base as três grandes áreas identificadas anteriormente – segurança e reorganização institucional do Estado; assistência humanitária; e assistência ao desenvolvimento. Finalmente, será produzida uma matriz geral da atuação da ONU e de seus parceiros na Libéria, com intuito de mostrar a disposição de ações e atores em relação a cada uma das áreas, as zonas de afastamento e interseção entre elas. Com isso, pretende-se reunir elementos que possam ajudar a compreender a complexa rede discursiva 67 Os dados sobre o contingente de civis e voluntários envolvidos nas missões não são muito claros, por isso; foi considerado somente seu componente militar. Quanto ao custo de cada uma das operações, no caso da UNOMIL foram consideradas as despesas totais informadas pela ONU para o período de 1993 a 1997 (UNOMIL, 2009). Já no caso UNMIL, como essa conta ainda não foi fechada, somaram-se os gastos previstos nos orçamentos anuais da missão (A/58/539; A/58/744; A/59/630; A/60/653; A/61/783; A/63/734) e confirmados pelos relatórios financeiros de 2003 a 2008 (A/59/736/Add.11; A/60/852; A/61/852/Add.7; A/62/781/Add.10; A/63/746/Add.8) e os gastos aprovados no orçamento até 30 de setembro de 2010 (A/63/734; A/C.5/63/25), sobre os quais ainda não há relatórios financeiros disponíveis. 68 Não foram encontrados dados disponíveis sobre os gastos com ajuda humanitária entre 1993 e 1997. Em 2009, a Libéria deixou de ser classificada pelo OCHA como um caso de emergência complexa e a ajuda humanitária enviada ao país foi exclusivamente destinada a combater uma infestação de insetos (OCHA, 2009). Como esses recursos não estão destinados a programas ligados às atividades da missão, os mesmos foram desconsiderados. Até 15 de janeiro de 2010, ainda não havia nenhum registro de apelo ligado à Libéria especificamente (OCHA, 2010). Os recursos empregados na assistência ao desenvolvimento durante os períodos analisados não são apresentados de forma clara ou consolidada; portanto, também foram desconsiderados. 82 que sustenta as inovações normativas, institucionais e operacionais que emergiram a partir dos anos 1990, especialmente no que se refere à forma como parece ter se processado o nexo entre segurança coletiva, assistência humanitária e assistência ao desenvolvimento no período. 3.3 Organização da Missão A abordagem multidimensional das OMPs conduzidas pela ONU implicou, ao longo dos anos, em progressivo aumento do leque de atividades desenvolvidas nas regiões sob intervenção internacional. Com isso, a realização efetiva dos programas e projetos considerados essenciais para que as operações resultem em paz duradoura passou a exigir um número também crescente de recursos e profissionais especializados. Essa demanda articulouse a um discurso que afirmava a universalidade dos princípios que orientavam a instituição das operações e a definição de suas prioridades, como democracia e desenvolvimento, o que, no limite, funcionaria como garantia de comunhão de objetivos entre os mais diversos atores interessados em engajar-se nos processos de paz. A consolidação dessas ideias abriu espaço para que as OMPs passassem a incorporar grande número de novos atores e promover a divisão, entre eles, de uma parte do trabalho relacionado ao processo de paz. Entretanto, para que tal divisão surtisse efeito positivo no campo, era necessário ampliar e aperfeiçoar os mecanismos de coordenação das atividades entre os envolvidos, tarefa que foi incluída entre as atribuições do DPKO/DFS. Esse processo possibilitou ao Departamento concentrar seus esforços na manutenção da segurança – definida como condição sine qua non para a realização de qualquer tarefa – e nos aspectos centrais da reconstrução do Estado, especialmente as leis, instituições e infraestrutura. Ao conduzir uma operação de paz, portanto, o DPKO/DFS ficou responsável por forjar as bases sobre as quais a paz pudesse ser edificada, mediante trabalho coordenado de sua equipe e demais agências e organizações parceiras. Dessa forma, é possível reinterpretar o processo de reorganização das atividades – que deu azo à emergência da assistência humanitária e da assistência ao desenvolvimento como áreas das OMP –, como um de divisão do trabalho relacionado à paz e à segurança, que se articulou às transformações normativas, institucionais e operacionais sofridas por elas desde o epílogo da Guerra Fria. A relação entre as três áreas pode ser descrita como de simbiose, na qual observam-se traços de integração – relacionados principalmente aos fins e ao processo de planejamento –, e 83 de independência – garantida pela especificidade dos caminhos trilhados por cada uma delas. Conforme fica claro na Doutrina Capstone (2008), o Processo Integrado de Planejamento da Missão (IMPP) visa à definição de objetivos comuns entre os parceiros das OMPs; porém, ―esses atores têm diferentes papéis, processos de tomada de decisão, cronogramas de engajamento, procedimentos, pressões orçamentárias e autoridades de supervisão‖ (ONU, 2008, p.55, tradução livre). 69 Isso implica que, ainda que os objetivos sejam comuns, os processos são paralelos, cabendo aos coordenadores da missão ―[...] manterem-se informados sobre os demais processos de avaliação e planejamento [...] e buscarem ativamente a criação de integração substantiva entre eles, sempre que possível‖ (ONU, 2008, p.56, tradução livre).70 A montagem das operações de paz é bastante elucidativa em relação a esse aspecto e mostra que, apesar de serem pensadas separadamente, as atividades desenvolvidas pelas três áreas são parte de um todo comum. Esse processo será discutido com base no caso da Libéria, considerando em um primeiro momento, as três áreas separadamente; e depois, a dinâmica da interação entre elas. A utilização de um caso concreto permitirá acessar, de forma mais direta, as políticas desenvolvidas no campo e, com base nelas, perceber como os principais conceitos que informam as OMPs são transpostos das doutrinas da ONU para o dia-a-dia dos profissionais que atuam no campo. Ademais, será possível notar como as tarefas compreendidas em cada uma das áreas acabam por se misturar, o que muitas vezes torna difícil reconstituir as fronteiras entre elas. 3.3.1 Segurança O processo de instituição da OMP na Libéria a partir de 2003, como relatado nas seções anteriores, seguiu o mesmo caminho de grande parte das operações: inicialmente, recomendada e delineada pelo Secretário-Geral; e, posteriormente, autorizada pelo Conselho de Segurança, órgão responsável também por definir os termos finais da intervenção. Ainda que em outros casos o processo possa ocorrer de forma um pouco distinta, uma vez autorizada a missão, cabe ao secretariado remeter à Assembleia Geral (AG) o orçamento anual das 69 ―These actors have different roles, decision-making processes, deployment time-lines, procedures, budgetary pressures and supervising authorities‖. 70 ―[...] be aware of the other assessment and planning processes [...] and actively seek to create substantive linkages between them wherever possible‖. 84 atividades, como foi feito para a UNMIL (A/58/539, 2003), composto pelo resumo da situação na região; pela descrição do mandato, das atividades a serem desenvolvidas, dos recursos requeridos; e da estrutura da missão, incluindo a especificação do pessoal envolvido. Para que os trabalhos prossigam, é necessário que esse documento seja aprovado pela AG, que, em seguida, libera os recursos. Esse procedimento se repete anualmente, salvo alguma eventualidade 71, enquanto durar a missão. No caso da UNMIL, o mandato da operação foi dividido em cinco grupos de medidas (S/RES/1509, 2003), que foram traduzidas no orçamento como cinco componentes da missão: (i) Cessar-fogo; (ii) Direito Humanitário e Direitos Humanos; (iii) Reforma do Setor de Segurança; (iv) Processo de Paz; e (v) Suporte (A/58/539, 2003). Esses componentes se mantiveram relativamente constantes durante todo o período considerado (2003-2008). As principais alterações foram realizadas em 2007, mas se limitaram à denominação do componente, sem se estender de maneira significativa ao seu conteúdo. A única exceção é o componente ―Cessar-fogo‖, que foi oficialmente excluído das atribuições da missão nessa época, quando a ONU considerou que as atividades essencialmente relacionadas a ele já tinham sido concluídas, ou poderiam ser plenamente realizadas pelo governo local dali em diante. 72 A relação dos componentes da UNMIL e sua ocorrência por ano, como aparece nos orçamentos anuais (2003-2008), estão resumidas no Quadro 4, a seguir. 71 Invariavelmente são elaborados orçamentos anuais das OMPs. Entretanto, ao longo do ano, esses orçamentos podem ser suplementados por outros, o que ocorre, principalmente em decorrência de eventos inesperados que alteram o curso das atividades, como catástrofes naturais ou epidemias. Outra possibilidade de mudança é a prorrogação do mandato. O orçamento de 2010 da UNMIL, por exemplo, cobria as atividades até 30 de junho, quando estava previsto o encerramento da missão; porém, com a prorrogação do prazo até setembro (S/RES/1855, 2009), foi necessário elaborar um orçamento suplementar (A/C.5/63/25, 2009). 72 Cabe aqui uma ressalva relacionada ao DDRR: concluída a fase de desarmamento e desmobilização, em julho de 2005, as tarefas de reabilitação e reintegração foram transferidas para o componente "Direitos Humanitários e Direitos Humanos" (posteriormente ―Primado da Lei‖), e o DDRR deixou de integrar o componente cessar-fogo. 85 2003 2004 2005 2006 Cessar-fogo Cessar-fogo Cessar-fogo Cessar-fogo Direitos Direitos Direitos Direitos Humanitários Humanitários Humanitários Humanitários e Direitos e Direitos e Direitos e Direitos 73 Humanos Humanos Humanos Humanos Reforma do Reforma do Reforma do Reforma do Setor de Setor de Setor de Setor de Segurança Segurança Segurança Segurança Processo de Processo de Processo de Processo de Paz Paz Paz Paz Suporte Suporte Suporte Suporte 2007 - 2008 - Primado da Lei Primado da Lei Setor de Segurança Setor de Segurança Consolidação Consolidação da Paz da Paz Suporte Suporte Quadro 4: Componentes da UNMIL e Ocorrência por Ano (2003-2008) Adaptado de: A/58/539, 2003; A/58/744, 2004; A/59/630, 2005; A/60/653, 2006; A/61/783, 2007; A/63/734, 2008 (Orçamentos); A/59/736/Add.11, 2004; A/60/852, 2005; A/61/852/Add.7, 2006; A/62/781/Add.10, 2007; A/63/746/Add.8, 2008 (Relatórios de Desempenho Financeiro). Nesses orçamentos, a ONU também define, para cada um dos componentes, um conjunto de ações, resultados esperados e indicadores de sucesso, que são atualizados de acordo com o andamento das atividades. Paralelamente, são divulgados Relatórios de Desempenho Financeiro, também anuais, que contêm a prestação de contas da missão, ações realizadas, resultados obtidos e avaliação geral de acordo com os indicadores de sucesso. Tais informações são ainda apresentadas, de maneira sumária, no orçamento do ano seguinte. Partindo da análise das informações apresentadas nos documentos referentes à UNMIL, foi possível isolar uma lista de elementos relacionados a cada um dos componentes previstos nos orçamentos. Os resultados dessa análise foram sintetizados no Quadro 5, com objetivo de reunir indícios que permitam inferir definições mais claras para os termos empregados pela ONU na definição dos objetivos da UNMIL e das OMPs em geral. 73 O termo original utilizado nos documentos relacionados à UNMIL é ―Humanitarian and Human Rights‖. 86 Componentes Cessar-fogo Primado da Lei, Direitos Humanitários e Direitos Humanos Reforma do Setor de Segurança Processo de Paz Suporte Principais Elementos Garantir liberdade de ir e vir Garantir ausência de armas não autorizadas DDRR Garantir segurança de instalações-chave, das equipes e instalações da ONU e organizações parceiras Facilitar a assistência humanitária, garantir acesso amplo e seguro à população Melhorar condições humanitárias Promover e proteger direitos individuais, liberdades fundamentais e reconciliação nacional Reabilitar e Reintegrar ex-combatentes Consolidar a lei da ordem; criar capacidade operacional efetiva para a polícia nacional Criar instituições judiciais e correcionais sustentáveis Reestruturar o exército Reconstruir instituições governamentais e estrutura administrativa Restabelecer e consolidar autoridade nacional em toda a Libéria Organizar eleições nacionais Dar suporte logístico, administrativo, médico, comunicação/ informação e transporte à missão Quadro 5: Componentes da UNMIL e Elementos a eles relacionados (2003-2008) Adaptado de: A/58/539, 2003; A/58/744, 2004; A/59/630, 2005; A/60/653, 2006; A/61/783, 2007; A/63/734, 2008 (Orçamentos); A/59/736/Add.11, 2004; A/60/852, 2005; A/61/852/Add.7, 2006; A/62/781/Add.10, 2007; A/63/746/Add.8, 2008 (Relatórios de Desempenho Financeiro). Nesse sentido, observa-se que os elementos relacionados aos componentes ‗Cessarfogo‘ e ‗Reforma do Setor de Segurança‘ são condizentes com o objetivo de devolver ao Estado a capacidade de manter a segurança internamente e o monopólio sobre os meios de violência, além de possibilitarem a reconstituição da sociedade civil, especialmente após os processos de desmobilização e desarmamento. No componente ‗Processo de Paz‘, os elementos de reconstrução institucional e da estrutura administrativa fazem parte dos esforços para reerguer as bases do Estado soberano para que ele possa, progressivamente, recuperar sua independência em relação aos principais estados e atores no nível internacional e, no nível doméstico, estender autoridade por todo o território sob sua jurisdição. Além disso, com a inclusão da condução do processo eleitoral entre os elementos do processo de paz, percebe-se que a independência desse Estado que será recriado como sujeito da sociedade internacional não inclui a prerrogativa de definir a forma de organizar as relações políticas internamente. 87 Nesse quesito, a democracia se impõe como modelo universal e único caminho possível para levar à paz. A inclusão dos elementos de proteção e promoção dos direitos fundamentais e liberdades individuais revela a importância atribuída à definição de marcos legais e jurídicos, característicos dos Estados de direito. Novamente, a intervenção internacional procura garantir que aspectos da ordem interna do Estado em construção sejam adequados a modelos de governar, circunscritos à rubrica da boa governança, e que lograram êxito em se afirmar como ideais no plano internacional. A permanência de elementos relacionados à assistência humanitária ao longo dos anos de intervenção, além de viabilizar o controle de uma situação de emergência, procura garantir a melhoria das condições de vida básicas da população, como o acesso à educação, à saúde e a padrões apropriados de nutrição. O componente conta ainda com o elemento de reabilitação e reintegração, relacionado, essencialmente, a ensinar ofícios a ex-combatentes e grupos afetados pela violência em troca de alimentos e/ou remuneração; e, posteriormente, da criação de empregos e financiamento das atividades produtivas por eles desenvolvidas. Assim, além de a população ter oportunidades de trabalho e sustento, o mercado interno seria reconstituído tanto do ponto de vista da produção quanto do consumo. A existência de mercado interno, aliada à segurança e ao suporte oferecido pelos marcos jurídico-legais e de padrões internacionais liberais de gestão dos recursos e das relações econômicas, credenciaria o novo Estado a receber investimentos e empréstimos externos para fomentar sua recuperação e participar do mercado internacional. Tomando por base os componentes e elementos 74 constitutivos da missão, percebe-se que o processo de reconstrução empreendido pela UNMIL na Libéria não visa à edificação de um Estado qualquer, e, sim, de um Estado democrático de direito, com mercado interno livre e sólido e administração pública pautada por padrões de boa governança. Tal Estado seria capaz de trabalhar para garantir melhores condições de vida para sua população e atuar como membro pleno da sociedade internacional e de suas principais instituições. A concretização desse projeto, contudo, depende do suporte oferecido, por um lado, por ações humanitárias, e, por outro, por programas de desenvolvimento, que serão discutidos a seguir. 74 Como o componente ―Suporte‖ e os elementos a ele relacionados dizem respeito à organização da missão e não ao processo de reconstrução propriamente dito, o mesmo foi desconsiderado, pelo menos por hora. 88 3.3.2 Assistência Humanitária No caso da Libéria, como ocorre na maior parte dos casos de intervenção, as atividades de assistência humanitária, principalmente aquelas empreendidas por ONGs de ajuda, precederam a própria autorização da UNMIL e, posteriormente, foram adaptadas para acompanhar o desenrolar da missão. Os principais projetos desenvolvidos pelas organizações humanitárias em qualquer país considerado em situação de emergência são apresentados nos documentos do CAP (Consolidated Appeals Process), que reúnem os apelos por recursos das diversas organizações de ajuda. O órgão responsável pelo desenvolvimento do CAP é o OCHA (Office for the Coordination of Humanitarian Affairs), que o define como ―[...] uma ferramenta desenvolvida pelas organizações de ajuda em um país ou região para angariar fundos para a ação humanitária bem como para planejar, implementar e monitorar suas atividades em conjunto‖ (OCHA, 2009b, § 1, tradução livre). 75 Ainda de acordo com o OCHA, desde sua criação, em 1992, o CAP tornou-se a principal referência da comunidade humanitária, da qual participam ―organizações não governamentais, agências da ONU e demais organizações locais e internacionais‖ (OCHA, 2009b, § 3, tradução livre). 76 Nesse período, o CAP teria promovido o que o OCHA (2009b) chamou de ―abordagem mais estratégica‖ (§ 2, tradução livre) 77 para a provisão de ajuda e fomentado a cooperação das agências entre si e com governos e doadores (OCHA, 2009b). 78 Como acontece em muitos países, o diagnóstico de deterioração das condições humanitárias em decorrência dos longos anos de tensão, motivou a inclusão da Libéria na lista de emergências complexas e a elaboração de apelos humanitários (CAP LIBÉRIA, 2003). Com a explosão da guerra civil em 2003, esses apelos foram revisados e o CAP daquele ano passou a apresentar uma abordagem mais completa para o caso (CAP LIBÉRIA, 2003). Entretanto, dado o grau de instabilidade e segurança na região, grande parte das equipes das organizações de ajuda teve que deixar o país, permanecendo somente aquelas dedicadas a 75 ―[…] a tool developed by aid organisations in a country or region to raise funds for humanitarian action as well as to plan, implement and monitor their activities together‖. 76 ―[...] non-governmental organisations, United Nations agencies, and other international and local organizations‖. 77 ―[…] a more strategic approach‖. 78 De fato, o CAP apresenta os projetos das organizações de ajuda e solicita recursos para sua realização a toda a comunidade internacional. A maior parte desses recursos é doada pelas próprias organizações envolvidas no apelo (incluindo as agências da ONU) e pelos Estados-membros, muitas vezes por meio de agências de assistência humanitária e cooperação. Os recursos podem ser destinados a financiar o CAP como um todo, ou dirigidos a um ou mais projetos especificamente. 89 prestar assistência altamente emergencial e, mesmo assim, em número reduzido (CAP LIBÉRIA, 2003). Dessa forma, ainda que os projetos do CAP tivessem sido apresentados em grande número e considerassem um leque bastante abrangente de questões, a maior parte deles não teria implementação imediata, ficando à espera de apoio internacional, principalmente relacionado à segurança (CAP LIBÉRIA, 2003). Essa situação, classificada como a primeira fase do trabalho de ajuda, foi descrita no documento da seguinte maneira: os conflitos continuam dentro e ao redor de Monróvia, matando e ferindo civis em áreas distantes das frentes de batalha. Toda a equipe internacional da ONU foi evacuada da Libéria e a equipe nacional opera em um ambiente de segurança severamente constrangido. Um pequeno número de equipes de ONGs internacionais e do ICRC [Comitê Internacional da Cruz Vermelha] continua ativo nos setores de saúde, água e saneamento. Agências da ONU e organizações humanitárias perderam e continuam a perder suprimentos, veículos, geradores, equipamentos de escritório e outros materiais para saqueadores armados. Durante esta fase, a assistência humanitária, conduzida pela equipe nacional da ONU e ONGs parceiras, permanecerá concentrada em intervenções multissetoriais para salvar vidas, quando e onde o conflito diminuir. A equipe internacional da ONU continuará de prontidão fora da Libéria, mas poderia retornar se uma pausa nas batalhas fosse acompanhada de garantias suficientes de segurança. […] Suprimentos humanitários serão alocados nos países vizinhos e de lá transportados para a Libéria para serem distribuídos como e quando for possível. Navios serão posicionados para oferecer abrigo seguro para a equipe internacional, bem como para transportar itens de socorro altamente prioritários e para o repatriamento de refugiados, assim que possível (CAP LIBERIA, 2003, p.5, tradução livre). 79 A interrupção do conflito e as garantias de segurança que, de acordo com o texto do CAP, permitiriam a volta das equipes de assistência humanitária e a ampliação de suas frentes de trabalho, foram mencionadas pelo Secretário-Geral e pelo Conselho de Segurança e classificadas como ações prioritárias relacionadas à Libéria e uma das razões para o estabelecimento de OMP na região (S/2003/769, 2003; S/RES/1509, 2003). Posteriormente, o Direito Humanitário, juntamente com os Direitos Humanos, foi definido como um dos cinco componentes de UNMIL (A/58/539, 2003), e o acesso amplo e seguro das equipes de ajuda à população, como sendo elemento a ele relacionado. Mais do que isso, a melhoria das 79 Fighting is continuing in and around Monrovia, and indiscriminate mortar fire is killing and injuring civilians in areas away from the front line. All UN international staff have been evacuated from Liberia, and national staff are operating in a severely constrained security environment. A small number of international NGO and ICRC staff remains active in the health and water and sanitation sectors. UN agencies and humanitarian organisations have lost and continue to lose relief supplies, vehicles, generators, office equipment, and other assets to armed looters. During this phase, humanitarian assistance, managed by UN national staff and NGO partners, will continue to concentrate on multi-sector, life-saving interventions whenever and wherever the fighting subsides. UN international staff will remain on standby outside Liberia, but would return if a pause in the fighting were to be accompanied by sufficient security guarantees. […] Humanitarian supplies will be prepositioned in neighbouring countries and then transported into Liberia for distribution as and when feasible. Ships will be chartered for the purposes of establishing an offshore safe haven for international staff, as well as for the purposes of transporting high priority relief items and for refugee repatriation at the first opportunity. 90 condições humanitárias serviria de suporte ao processo de paz tendo sido relegada, em larga medida, às organizações de ajuda, conforme planejamento previsto no CAP. Com o desdobramento das forças internacionais, teria início a segunda fase da assistência humanitária, cujo ―foco será no aumento significativo da assistência às populações afetadas pela guerra em Monróvia e seu entorno‖ (CAP LIBERIA, 2003, p.5, tradução livre).80 Nessa fase, estariam previstos ainda o início da assistência a IDPs e refugiados, o início da substituição das unidades de saúde temporárias por permanentes e a reabilitação do sistema de distribuição de água (CAP LIBERIA, 2003). Com o estabelecimento da OMP e a garantia de segurança em todo o país, o CAP prevê o início da terceira e última fase, na qual o retorno completo das equipes das organizações humanitárias criaria as condições para uma ―[...] assistência humanitária massiva para responder ao colapso da infraestrutura e ao subdesenvolvimento crônico que vinham se prolongando‖ (CAP LIBERIA, 2003, p.6, tradução livre). 81 Assim como nos orçamentos das missões, os projetos do CAP são classificados em componentes (subáreas), aos quais relacionam-se elementos e projetos. O documento inclui ainda a descrição sumária dos projetos a serem realizados em cada componente, aponta os responsáveis por sua condução, faz a estimativa dos custos e presta contas em relação ao status de financiamento obtido por cada um dos projetos, incluindo a origem dos recursos. Os Quadros 6 e 7 a seguir, elaborados com base nos CAPs relacionados à Libéria de 2003 a 2008, sintetizam os componentes e elementos da assistência humanitária no país, e sua ocorrência por ano (no caso dos componentes). Como pode-se observar, a lista se mantém relativamente constante ao longo de todo o período. 80 ― The focus will be on significantly increasing the delivery of relief assistance to war affected populations in Monrovia and environs.‖ 81 ―[…] massive humanitarian assistance to respond to the prolonged collapse of infrastructure and chronic underdevelopment‖. 91 2003 2004 2005 Agricultura Agricultura Agricultura Serviços de Serviços de Serviços de Coordenação e Coordenação Coordenação Suporte e Suporte e Suporte Educação Educação Educação Alimentação Alimentação Alimentação Saúde Saúde Saúde Ação antiminas83 Multissetorial84 Multissetorial Multissetorial Proteção, Proteção, Proteção, Direitos Direitos Direitos Humanos e Humanos e Humanos e Primado da Primado da Primado da Lei Lei Lei Segurança da Segurança da equipe e das equipe e das operações operações Abrigo e Itens Abrigo e Itens Abrigo e Não Não Itens Não Alimentícios Alimentícios Alimentícios Água e Água e Água e Saneamento Saneamento Saneamento Recuperação Recuperação Econômica e Econômica e Infraestrutura Infraestrutura Setor Não Setor Não 85 Especificado Especificado 2006 Agricultura Serviços de Coordenação e Suporte Educação Saúde 2007 Agricultura 2008 Agricultura - - Educação Saúde Alimentação82 Saúde - - - Multissetorial Multissetorial Proteção, Proteção, Direitos Direitos Humanos e Humanos e Primado da Primado da Lei Lei Abrigo e Itens Não Alimentícios Água e Saneamento Recuperação Econômica e Infraestrutura Setor Não Especificado - - - - Abrigo e Itens Não Alimentícios Água e Água e Saneamento Saneamento Recuperação Econômica e Infraestrutura Setor Não Setor Não Especificado Especificado Quadro 6: Componentes do CAP e Ocorrência por Ano (2003-2008) Adaptado de: CAP LIBERIA, 2003; 2004; 2005; 2006; 2007; 2008. 82 Volta associada à ampliação do acesso às escolas. Principais ações: levantamento de ocorrência, verificação de rotas e campanhas de conscientização e combate. Como o componente só aparece em 2003 e o número de minas terrestres na Libéria não era significativo, ele foi desconsiderado. 84 Atividades relacionadas, principalmente, à assistência prestada a refugiados e IDPs 85 Não há descrição dos projetos e a maioria não recebeu financiamento efetivo; portanto, o componente foi desconsiderado. 83 92 Componentes Principais Elementos Distribuição de insumos agrícolas, recomposição de rebanhos, propagação e diversificação de mudas, sementes e tubérculos Treinamento em agricultura, serviços veterinários, gerenciamento ambiental e controle de pestes Agricultura e Segurança Desenvolvimento de sistemas de irrigação e instalação de Alimentar poços Coordenação de atores e projetos, gestão da informação, monitoramento e desenvolvimento de sistemas de aviso (earlywarning systems) Fundos de respostas emergenciais e serviços humanitários gerais Serviços de Coordenação e Centros logísticos, serviços de transporte e telecomunicações Suporte Planejamento, capacity-building, coleta, gestão e divulgação de informações, coordenação de atores e projetos Reabilitação de infraestrutura, gestão de recursos naturais, disponibilização de microcrédito e desenvolvimento de microempresas Recuperação Econômica e Programas para sustento de famílias, contratações diretas, Infraestrutura geração de emprego, programas de trabalho por comida e treinamento (FFW/FFT), cursos para desenvolver habilidades Suporte para participantes dos programas de DDRR, seus dependentes e comunidades receptoras Construção de escolas (incluindo FFW), construção de unidades temporárias de aprendizado Educação Suprimento de materiais e equipamentos para as escolas, suporte e treinamento de professores Ações de educação para a paz e reconciliação Distribuição de alimentos, FFW, alimentação para as escolas Suporte logístico para transporte e armazenamento de Alimentos alimentos, manutenção de estoques Monitoramento das condições de segurança alimentar, subsistência e nutrição Provisão temporária (direta ou indireta) de cuidados médicos primários e secundários; provisão de materiais; transfusão de sangue; respostas médicas e psicossociais a problemas mentais e violência sexual; tratamento e suporte a pessoas desabilitadas; alimentação suplementar e terapêutica Saúde Imunização; controle vertical de doenças (ex. Malária); respostas emergenciais a epidemias; saúde ambiental (controle de vetores); prevenção e tratamento de HIV/AIDS e DSTs; saúde reprodutiva 93 Monitoramento das condições nutricionais e de saúde; treinamento e capacity-building; educação sobre cuidados preventivos e cuidados com a saúde; suporte para o restabelecimento da provisão permanente de materiais e treinamento (incluindo reabilitação) Assistência multissetorial a refugiados e IDPs; repatriação, realocação e reintegração; suporte à subsistência Multissetorial Preparação para emergências, sistemas de aviso (early warning systems), pré-posicionamento Serviços multissetoriais ou diversos Proteção de civis, IDPs, refugiados, repatriados, crianças; monitoramento e reunificação de famílias Advocacy, monitoramento, treinamento e capacity-building para DH (princípios e convenções); educação e treinamento em cultura para a paz e resolução de conflitos; prevenção e combate à impunidade em casos de violência sexual e de Proteção, Direitos gênero; promoção de reconciliação, peace-building, prevenção Humanos e Primado da Lei de conflitos; suporte ao judiciário e enforcement da lei; prevenção e tratamento da violência; educação cívica Suporte legal; defesa de direito à propriedade e à terra (especialmente para IDPs); registros de nascimento; monitoramento das condições de detenção e tentativa de garantir padrões mínimos (Direito Internacional Humanitário); produção e divulgação de informações e relatórios Estabelecimento de postos de segurança Segurança da Equipe e das Envio de oficiais de segurança Operações Segurança das comunicações Armazenamento e pré-posicionamento de artigos não alimentícios (NFI, non-food items) Abrigo e Artigos Não Abrigos temporários, distribuição de NFI/kits de repatriação, Alimentícios transporte e logística Abrigos semipermanentes pós-emergência Suprimento temporário e/ou emergencial de água e saneamento (campos de IDPs e refugiados, emergências de saúde) Suprimento, a médio e longo prazo, de água e saneamento Água e Saneamento (áreas de reassentamento, ou campos semipermanentes de IDPs e refugiados) Capacity-building, suporte institucional, teste e monitoramento da qualidade da água, tratamento de água, preparação para a seca Quadro 7: Componentes do CAP e Elementos a eles relacionados (2003-2008) Adaptado de: CAP LIBERIA, 2003; 2004; 2005; 2006; 2007; 2008. Observando a divisão da assistência humanitária em fases e sua organização de acordo com os componentes e elementos apresentados no Quadro 7, pode-se classificar a ajuda em 94 duas categorias: assistência humanitária emergencial e assistência vinculada à reconstrução. A primeira começou a ser entregue antes mesmo da instituição da UNMIL (ainda na fase I do CAP), sendo composta, principalmente, pela provisão de cuidados médicos e sanitários, água e proteção a alguns civis, refugiados e IDPs (especialmente crianças), tudo em caráter emergencial e, na maioria das vezes, em instalações provisórias (CAP LIBERIA, 2003). A assistência à reconstrução, por sua vez, só teve início quando a vigência da OMP foi capaz de garantir condições básicas de segurança para as organizações humanitárias, que puderam, assim, aumentar as equipes e ampliar as frentes de trabalho. Os projetos de reconstrução já constantes do CAP de 2003 ganharam mais peso nos apelos dos anos seguintes, passando a ocorrer paralelamente às atividades emergenciais, que também se estenderam, ainda que em menor grau, até o final do período considerado (CAP LIBERIA 2004; 2005; 2006; 2007; 2008). Se com a UNMIL, a ONU seria capaz de assegurar, progressivamente, ao novo Estado o monopólio dos meios de violência, garantindo a segurança em sua acepção mais tradicional, a assistência humanitária concentrou-se em desenvolver a capacidade desse Estado de prover a segurança em seus aspectos humanos, como citado na definição do PNUD. Seguindo essa definição, a segurança econômica seria alcançada por meio de investimentos diretos nas atividades produtivas – como as realizadas por ex-combatentes, IDPs e refugiados assentados e nas comunidades que os receberam –, como a disponibilização de microcrédito, distribuição de insumos produtivos e realização de cursos de capacitação de trabalhadores (CAP LIBERIA 2003; 2004; 2005; 2006; 2007; 2008). A segurança alimentar é objeto, simultaneamente, das ações de distribuição direta de alimentos, em caráter emergencial, dos programas de ―trabalho por comida‖ (DDRR); e de fomento à produção agrícola e às demais atividades econômicas (CAP LIBERIA 2003; 2004; 2005; 2006; 2007; 2008). Esses programas relacionam-se ainda à segurança comunitária, fomentada pelas próprias atividades de suporte à economia e de melhoria dos níveis de nutrição, e também por projetos de reconciliação e educação para a convivência pacífica e democrática entre os habitantes de uma mesma região (CAP LIBERIA 2003; 2004; 2005; 2006; 2007; 2008). Em sua dimensão pessoal e política, a garantia de segurança seria sustentada pelo fortalecimento das instituições e da infraestrutura estatal. Para tanto, as organizações humanitárias se dedicaram à implementação de projetos e programas voltados para a criação de leis e de um sistema judiciário sólidos, forjados com base no respeito aos direitos humanos e à manutenção da paz, da proteção direta de civis e da criação de mecanismos de monitoramento das condições. Além disso, essas organizações passaram a dar suporte à 95 difusão da democracia entre os funcionários e pessoas públicas e também entre os civis, por meio de treinamentos, construção de capacidades, programas de reconciliação nacional e educação para a paz (CAP LIBERIA 2003; 2004; 2005; 2006; 2007; 2008). Os programas de treinamento de pessoal e educação seriam ainda centrais para auxiliar a garantia da segurança ambiental, interessados, principalmente, em ensinar maneiras mais eficientes e justas de gerir os recursos naturais do país, de modo que os mesmos possam ser usados para a melhoria geral das condições de vida da população (CAP LIBERIA 2003; 2004; 2005; 2006; 2007; 2008). Finalmente, a segurança relacionada à saúde seria asseverada pela melhoria das instalações, distribuição de água e saneamento. A provisão direta de cuidados médicos e o treinamento de equipes locais para planejar e implementar políticas de saúde (profiláticas e de tratamento) e prestar assistência à população, complementariam este trabalho (CAP LIBERIA 2003; 2004; 2005; 2006; 2007; 2008). De acordo com as agências, os esforços para aumentar a capacidade do Estado de proteger e cuidar de sua própria população, com democracia, crescimento econômico, redução da pobreza e melhoria generalizada das condições de vida, têm impacto direto na prevenção da recorrência de conflitos e catástrofes humanitárias (CAP LIBERIA 2003; 2004; 2005; 2006; 2007; 2008). Entretanto, a obtenção dos melhores resultados para os projetos e programas relacionados nos CAPs não depende somente das ações de assistência humanitária e das desenvolvidas diretamente pela OMP. Sua sustentabilidade, a longo prazo, dependeria da suplementação e integração às políticas de desenvolvimento, planejadas e implementadas, principalmente, de acordo com as propostas da UNDAF, que serão discutidas a seguir. 3.3.3 Assistência ao Desenvolvimento A UNDAF (United Nations Development Assistance Framework) foi criada em 1997, como parte de um programa de reforma para melhorar e trazer maior coerência ao trabalho das Nações Unidas no campo do desenvolvimento, especialmente no nível local (UNDAF LIBERIA, 2003). Trata-se de um ―[...] framework de planejamento que consiste em objetivos comuns, estratégias de cooperação e cronogramas [que] [...] lançam as bases para a cooperação entre o Sistema ONU, governo e demais parceiros do desenvolvimento‖ (UNDAF 96 LIBERIA, 2003, p.2, tradução livre). 86 Contudo, os Estados em vias de deixar para trás situações de conflito ou crise violenta por meio de ações de reconstrução, muitas vezes, apresentam necessidades que vão além das contempladas na UNDAF tradicional. Para atender a esses países, a ONU desenvolveu a ―UNDAF Modificada‖ (UNDAF LIBERIA, 2003, p.2, tradução livre) 87, especialmente pensada para ―[...] combinar assistência humanitária e peacebuilding em um continuum de desenvolvimento‖ (UNDAF LIBERIA, 2003, p.2, tradução livre). 88 O documento resume as principais ações de desenvolvimento a serem empreendidas em uma região como forma de complementar a reconstrução do Estado e a assistência humanitária e, assim, consolidar o processo de paz (UNDAF LIBERIA, 2003). O texto da UNDAF, elaborado para dar conta do caso da Libéria, expõe as motivações e objetivos gerais das ações previstas no documento. De acordo com a equipe de assistência ao desenvolvimento, paz, segurança, direitos humanos e desenvolvimento são agora reconhecidos como condições independentes para o progresso humano. O objetivo da UNDAF modificada será definir uma rota estratégica para acelerar o processo de recuperação nacional e reconstrução e institucionalizar uma abordagem que liga construção da paz e desenvolvimento. A UNDAF modificada ampliará o impacto da cooperação do Sistema ONU com vistas a equacionar as necessidades e prioridades nacionais da Libéria (UNDAF LIBERIA, 2003, p.2, tradução livre). 89 Para tanto, a definição das ações leva em conta o plano de reconstrução nacional e a estratégia de desenvolvimento propostos pelo governo provisório (MTP, Medium Term Plan), com 86 ―[…] planning framework which consists of common objectives, common strategies of cooperation and time frames […] lays the foundation for cooperation among the UN System, government and other development partners‖. 87 ―Modified UNDAF‖. 88 ―[...] bring together humanitarian assistance and peace-building in a development continuum.‖ 89 Peace, security, human rights and development are now recognized as interdependent conditions for human progress. The objective of the modified UNDAF will be to define a strategic path that will accelerate the national recovery and reconstruction process and institutionalize an approach linking peace-building and development. The modified UNDAF will increase the impact of cooperation of the UN system in addressing Liberian national needs and priorities. 97 auxílio das equipes internacionais de reconstrução, além das prioridades estabelecidas pelo time da ONU no local (UN Country Team) e pelo CAP (UNDAF LIBERIA, 2003). 90 De acordo com o diagnóstico apresentado na UNDAF, a raiz da guerra civil na Libéria estaria na relação de causalidade mútua entre conflitos e pobreza. Conflitos induzem a pobreza. Conflitos deslocam populações, arruínam atividades produtivas, destroem infraestruturas sociais, como escolas, instalações de saúde, distribuição de água e energia. Além disso, a gestão inadequada dos recursos naturais os impede de participar do desenvolvimento. Como efeito colateral, os conflitos minam a capacidade efetiva do governo de governar. No limite, todas essas condições levaram à redução do padrão de vida do povo da Libéria. Da mesma maneira, a pobreza leva ao conflito. A pobreza é um solo fértil para a violência. A pobreza induz conflitos e gera oportunidades para o enriquecimento pessoal (UNDAF LIBERIA, 2003, p.5, tradução livre). 91 Assim, tanto o equacionamento quanto a prevenção dos conflitos dependeriam de uma ―[...] abordagem integrada, holística e multifacetada para aliviar a pobreza [...], uma vez que suas causas são múltiplas‖ (UNDAF LIBERIA, 2003, p.4, tradução livre). 92 A identificação dessas causas é a base de todo o trabalho proposto na UNDAF, que as traduz como determinantes da pobreza e afirma que a relação entre elas e os conflitos passa por sua capacidade de solapar o desenvolvimento humano sustentável (UNDAF LIBERIA, 2003). De forma mais precisa, o documento classifica como principais determinantes da pobreza: ―taxa de crescimento populacional; desemprego; educação; habitação; insegurança alimentar; 90 A UNDAF é um mecanismo frequentemente utilizado pela ONU para estabelecer orientações comuns para as políticas de desenvolvimento e coordená-las de forma mais eficiente, em um leque amplo de países. Nesses casos, utiliza-se a UNDAF regular (modelo clássico). A UNDAF modificada, por sua vez, é utilizada para atender às necessidades de desenvolvimento que normalmente se apresentam nos primeiros estágios de reconstrução de um país, enquanto a maior parte das funções que caberiam ao governo local é exercida pela OMP. Quando o governo nacional é restabelecido em caráter permanente, cabe a ele formular um documento que contemple as ações de desenvolvimento que devem ser realizadas para consolidar a paz, traduzidas em termos de uma Estratégia de redução da Pobreza (PRS, Poverty Reduction Strategy), e formulado com auxílio de consultores internacionais. Com base nesse documento, o Grupo de Desenvolvimento das Nações Unidas reavalia as ações de desenvolvimento que a ONU e seus parceiros julgam pertinentes para dar apoio ao governo na consecução de seus objetivos, por meio da formulação de uma nova UNDAF, dessa vez, regular. No caso da Libéria, a UNDAF modificada foi planejada para o período de 2003 a 2005 e teve suas principais atividades estendidas ao longo dos anos de 2006 e 2007. Em seguida, o governo da presidente eleita Ellen Johnson Sirleaf, que tomou posse em 2006, elaborou a PRS, apresentada em abril de 2008, na qual as Metas de Desenvolvimento do Milênio aparecem com grande destaque. Desde então, as ações de desenvolvimento da ONU no país têm sido orientadas por esse documento, conforme fica claro pela leitura da nova UNDAF elaborada para a Libéria, que cobre o período de 2008 a 2012, com ênfase na conclusão do processo de transição das atribuições da UNMIL para o governo nacional (UNDAF LIBERIA, 2008). 91 Conflicts induce poverty. Conflicts dislocate populations, disrupt productive activities, destroy social infrastructures such as schools, health facilities, water works and power installations. Besides, the mismanagement of natural resource divert national resources from development. Collaterally, conflicts undermine government capacity to govern effectively. All of these ultimately lead to a lowered standard of living of the Liberian people. Conversely, poverty leads to conflict. Poverty is a breeding ground for violence. Poverty induces conflicts and provides opportunities for self-enrichment. 92 ―[…] an integrated, holistic, multifaceted approach to alleviating it […] [s]ince the causes of poverty are multiple‖. 98 acesso seguro à água potável, saneamento e aos serviços de saúde; e a prevalência do HIV/AIDS [...] o estado da infraestrutura [...] [e] finalmente, governança‖ (UNDAF LIBERIA, 2003, p.4, tradução livre). 93 Problemas de governança, aliás, seriam o centro das mazelas que assolavam a Libéria, e se manifestariam de diversas formas, em particular na ―falta de transparência e accountability; desrespeito ao primado da lei; baixa participação popular na formulação das políticas nacionais; sanção contra oponentes; e abusos de direitos humanos‖ (UNDAF LIBERIA, 2003, p.4, tradução livre). 94 Partindo desse pressuposto, a UNDAF foi dividida em uma série de componentes e elementos que, em sua maioria, estão relacionados à reconstrução do Estado na Libéria e à institucionalização de uma abordagem capaz de ligar ―[...] construção da paz, assistência humanitária e alívio da pobreza com vistas à promoção do desenvolvimento humano sustentável‖ (UNDAF LIBERIA, 2003, p.6). Os Quadros 8 e 9, a seguir, resumem os principais componentes e elementos da UNDAF que basearam os projetos e programas desenvolvidos pelas organizações de assistência ao desenvolvimento na Libéria. 93 ―population growth rate; unemployment; education; housing; food insecurity; access to safe drinking water, to sanitation, and to health services; and HIV/AIDS prevalence […] [t]he state of infrastructures […] [and] [f]inally, governance‖. 94 ―the lack of transparency and accountability; disrespect for the rule of law; low popular participation in national policy formulation; sanctions of opponents; and human rights abuses‖. 99 2003 Resolução de Conflitos, PeaceBuilding e Alívio 2004 Resolução de Conflitos, PeaceBuilding e Alívio 2005 Resolução de Conflitos, PeaceBuilding e Alívio Boa Governança Boa Governança Boa Governança Segurança Segurança Alimentar e Alimentar e Recuperação Recuperação Sustentável Sustentável Saúde Saúde Reprodutiva, Reprodutiva, Combate ao Combate ao HIV/AIDS, HIV/AIDS, malária e malária e outras outras doenças doenças - - Segurança Alimentar e Recuperação Sustentável Saúde Reprodutiva, Combate ao HIV/AIDS, malária e outras doenças - CrossCross-Cutting Cutting Cross-Cutting Issues Issues Issues (gênero, (gênero, (gênero, proteção à proteção à proteção à criança, meio criança, meio criança, meio ambiente) ambiente) ambiente) 2006 2007 2008 - - Paz e Segurança - - Boa Governança e Primado da Lei - Desenvolvimento Sócioeconômico Equitativo - - HIV/AIDS: Prevenção, tratamento e cuidado - - - - - Quadro 8: Componentes da UNDAF e Ocorrência por Ano (2003-2008) Adaptado de: UNDAF LIBERIA 2003-2005; 2008-2012 Educação e Saúde Cross-Cutting Issues (juventude, gênero, meio ambiente, DH, conflitos, desenvolvimento de capacidades) 100 Componentes Principais Elementos Diálogo político e reconciliação nos níveis nacional e subregional Reabilitação e reintegração de ex-combatentes Resolução de Conflitos, Restabelecimento e reintegração de IDPs, refugiados e peace-building e Alívio retornados Reestruturação e construção de capacidade das forças de segurança Construção de confiança e educação para a paz Suporte ao processo eleitoral Fortalecimento do judiciário, primado da lei e capacidade nacional para promover e proteger Direitos Humanos Ampliação da capacidade nacional de gerenciamento Boa Governança econômico e reformas políticas (capacity-building, suporte técnico e logístico para reformas políticas) Melhoria e uniformização de sistemas de produção de dados estatísticos para garantir produção e publicação de dados confiáveis com regularidade Melhoria da segurança alimentar, níveis de nutrição e aumento da renda do setor agrícola Suporte ao financiamento de microempresas e às iniciativas do setor privado Segurança Alimentar e Suporte à recuperação do setor de saúde Recuperação Sustentável Suporte à recuperação do setor de educação Suporte à recuperação do setor de saneamento e distribuição de água Suporte à recuperação do setor de Acessibilidade Promoção da conscientização e apoio (IEC) para prevenção do HIV/AIDS, controle de doenças prioritárias e saúde reprodutiva por meio de mudança de comportamento Saúde reprodutiva, combate Suporte ao planejamento e desenvolvimento do protocolo de ao HIV/AIDS, malária e tratamento do HIV/AIDS outras doenças Melhorar acesso a artigos e serviços de saúde reprodutiva e suporte aos infectados pelo HIV/AIDS Suporte a programas de saúde reprodutiva, expectativa de vida e fertilidade Equidade de gênero e empoderamento das mulheres Cross-Cutting Issues (Gênero, proteção à criança Promover proteção à criança e meio ambiente) Melhorar gestão do meio ambiente e dos recursos naturais Quadro 9: Componentes da UNDAF e Elementos a eles relacionados (2003-2008) Adaptado de: UNDAF LIBERIA 2003-2005; 2008-2012 101 Analisando os dados, pode-se perceber que a maior parte das ações está relacionada à reconstrução da capacidade do Estado de governar, com legitimidade, seus recursos e sua população. Nesse sentido, as atividades incluem: fortalecimento das instituições e reconstrução da confiança das pessoas no Estado; recuperação de setores chave (como educação, saúde, distribuição de água e saneamento), no que se refere não só à infraestrutura como também à capacidade de formular e implementar políticas públicas, monitorar e avaliar seus resultados; redução das desigualdades; e fomento das atividades de geração de renda. O desenvolvimento humano sustentável, de forma geral, e o desenvolvimento econômico, mais especificamente, seriam a conquista final do processo de reconstrução da Libéria. De acordo com os formuladores da UNDAF, a atração de investimentos do setor privado e a assistência oficial ao desenvolvimento dependeriam de um ambiente estável de paz e segurança, capaz de inspirar confiança aos parceiros e garantir que a população do país tenha condições básicas de viver e buscar a realização plena de seu potencial (UNDAF LIBERIA, 2003). A estabilidade política na Libéria é, assim, um imperativo social, econômico e político. É a fundação da reabilitação e reconstrução pós-conflito da Libéria, bem como de sua recuperação econômica e crescimento. É o único caminho lógico para o desenvolvimento humano sustentável. Se a Libéria deve começar o processo de renovação nacional, então não lhe resta alternativa senão assegurar e manter a paz duradoura (UNDAF LIBERIA, 2003, p.5, tradução livre). 95 O imperativo da paz, segurança e estabilidade se reflete na atuação das principais organizações internacionais de assistência ao desenvolvimento, o Banco Mundial e o FMI. Quando do lançamento da UNDAF, em 2003, a participação do BM, por exemplo, foi retomada (depois de mais de uma década de ausência) e ocorria quase exclusivamente por meio de seus órgãos voltados para reconstrução e assistência aos países mais pobres (IBRD; IFC; MIGA), e não de forma direta (UNDAF LIBERIA, 2003). 96 O FMI, por sua vez, só passou a atuar na Libéria depois que a OMP e as demais atividades empreendidas na região encontravam-se em estágio relativamente avançado, em 2008, e o novo Estado já contava com arcabouço institucional, mercado e atividade econômica interna mínimos, capazes de fornecer alguma garantia de retorno dos investimentos. Interpretando de outra maneira, a relação direta 95 Political stability in Liberia is thus a social, economic and political imperative. It is the foundation of Liberia‘s post-war rehabilitation and reconstruction as well as her economic recovery and growth. It is the only logical route to sustainable human development. If Liberia must begin the process of national renewal, then Liberia has no alternative but to secure and maintain a durable peace. 96 Como será discutido no próximo capítulo, a normalização das relações entre o Banco e a Libéria só ocorreu em 2007. 102 entre um Estado e as principais organizações internacionais depende de esse Estado preencher requisitos básicos de pertencimento à sociedade internacional, como instituições democráticas, respeito aos direitos individuais e padrões liberais de regulação da atividade econômica. Tomando por base as ações previstas na UNDAF, pode-se perceber que tais requisitos articulam-se em torno de práticas de boa governança (boas práticas) professadas por essas organizações. Nesse sentido, a atuação das organizações de assistência ao desenvolvimento na Libéria tem em vista a adequação das instituições, governantes e população do país a essas práticas, dando a eles a prerrogativa e a capacidade efetiva de manter relações diretas com elas, inclusive após o fim do suporte fornecido pela OMP e demais parceiros da ajuda humanitária e do desenvolvimento. 97 3.3.4 Nexo entre segurança, desenvolvimento e assistência humanitária Apesar de as áreas de segurança (OMP), assistência humanitária e assistência ao desenvolvimento terem caráter bastante distinto, o objetivo de manter a paz parece ser uma constante entre elas. Além disso, a análise dos elementos que cada uma elenca entre os caminhos para que seu projeto se perpetue permite identificar a emergência de uma acepção de paz diferente da ―ausência de conflito armado‖, que parece ter sido comum durante a Guerra Fria. Mais do que preservar a capacidade dos Estados soberanos de governar sua população de forma independente e de fazê-lo amparado pelo monopólio dos meios de violência dentro do território sob sua jurisdição, o conceito de paz que emergiu, discursivamente, no final do século XX e início do XXI, parece ter tido sucesso em incluir nessa lista aspectos que dizem respeito ao modo de governar e organizar as relações internas. Essa inclusão, ao que tudo indica, pautou-se na consolidação de uma versão do pensamento liberal que afirma a existência de um rol de direitos universais e a relação direta entre a preservação desses direitos e a manutenção da paz (DOYLE, 1996; OWEN, 1996). Pela reivindicação de universalidade, os partidários dessa versão se julgam capazes de fornecer modelos que podem (e devem) ser aplicados em qualquer país, de modo que a paz e o desenvolvimento sejam difundidos e fortalecidos em todo o mundo. Entretanto, a suposta 97 Essa tentativa de transplantar padrões internacionais para o contexto de organização das relações econômicas, políticas e sociais domésticas será mais bem discutida por meio do conceito de ownership e da análise das estratégias de desenvolvimento formuladas pelo governo eleito da Libéria (PRS), no próximo capítulo. 103 universalidade dos modelos tem ainda outra implicação, esta mais diretamente ligada às OMPs, à assistência humanitária e ao desenvolvimento em Estados que tentam por fim aos conflitos internos: a comunhão de objetivos e propostas entre os agentes da reconstrução; e a possibilidade de incluir novos atores entre eles, como as organizações não governamentais. Uma vez que os objetivos são reescritos como universais, as agendas humanitária, de segurança e de desenvolvimento tornam-se progressivamente convergentes, o que se reflete na aproximação entre as políticas circunscritas a cada uma delas. Tal aproximação fica clara pela observação da Figura 5, um diagrama elaborado com base nos documentos referentes à organização das três áreas, analisados nas seções anteriores, e na lista de ações definidas em cada um deles como parte do processo de reconstrução do Estado na Libéria. O diagrama mostra a distribuição das políticas de reconstrução entre as áreas de Segurança (OMP), Assistência Humanitária (CAP) e Assistência ao Desenvolvimento (UNDAF), referentes ao caso da Libéria. 104 Figura 5: Distribuição das Políticas de Reconstrução do Estado na Libéria nas áreas de Segurança (OMP), Assistência Humanitária (CAP) e Assistência ao Desenvolvimento (UNDAF) Adaptado de: A/58/539, 2003; A/58/744, 2004; A/59/630, 2005; A/60/653, 2006; A/61/783, 2007; A/63/734, 2008 (Orçamentos); A/59/736/Add.11, 2004; A/60/852, 2005; A/61/852/Add.7, 2006; A/62/781/Add.10, 2007; A/63/746/Add.8, 2008 (Relatórios de Desempenho Financeiro); CAP LIBERIA, 2003; 2004; 2005; 2006; 2007; 2008; UNDAF LIBERIA 2003-2005; 2008-2012 105 O diagrama mostra a notável convergência entre as políticas desenvolvidas, o que fica evidente pela densidade da zona de interseção entre as três áreas e, em menor grau, entre pelo menos duas. De forma geral, as ações de reconstrução e recuperação são empreendidas nas três áreas, de forma mais ou menos conjunta, o que denota o transbordamento da multidimensionalidade das OMPs para a prestação de assistência humanitária e ao desenvolvimento. Mesmo assim, é possível observar certa especialização entre as áreas: as OMPs concentram ações de reconstrução das instituições básicas do Estado e de manutenção da segurança, especialmente voltadas para o controle de armas e reestruturação das forças de segurança; a assistência humanitária (CAP) se dedica ao apoio mais direto às vítimas dos conflitos, principalmente aos refugiados e deslocados internos, muitas vezes habitantes de campos; finalmente, a assistência ao desenvolvimento (UNDAF) se destaca por ações de recomposição do mercado e das atividades econômicas, bem como de adequação às exigências dos mercados e organizações internacionais. A convergência marcante entre as áreas, somada à abertura de espaço para a participação de novos atores, sugere a possibilidade de divisão do trabalho de reconstrução do Estado entre agências e organizações especializadas, ficando a cargo da ONU, por meio da OMP, a coordenação das atividades desses atores. Para discutir essa possibilidade, foi elaborado outro diagrama (Figura 6), que mostra os principais participantes da reconstrução da Libéria e sua distribuição entre as três áreas. 98 A identificação das agências e organizações listadas foi feita com base nos participantes indicados nos programas e projetos constantes nos documentos analisados anteriormente. 99 98 A lista das organizações que aparecem no diagrama encontra-se no Apêndice (pág. 162). Apesar de bastante representativa, a lista de parceiros não é exaustiva. Muitas vezes a descrição dos programas e projetos é vaga em relação aos responsáveis por sua realização, especialmente quando os mesmos são Organizações da Sociedade Civil (CSOs) ou Organizações de Base Comunitária (CBOs), normalmente incorporados de forma genérica. 99 106 Figura 6: Distribuição das Organizações que participam do processo de reconstrução da Libéria nas áreas de Segurança (OMP), Assistência Humanitária (CAP) e Assistência ao Desenvolvimento (UNDAF) Adaptado de: A/58/539, 2003; A/58/744, 2004; A/59/630, 2005; A/60/653, 2006; A/61/783, 2007; A/63/734, 2008 (Orçamentos); A/59/736/Add.11, 2004; A/60/852, 2005; A/61/852/Add.7, 2006; A/62/781/Add.10, 2007; A/63/746/Add.8, 2008 (Relatórios de Desempenho Financeiro); CAP LIBERIA, 2003; 2004; 2005; 2006; 2007; 2008; UNDAF LIBERIA 2003-2005; 2008-2012; ONU, 2009 (UN in Liberia, At Work Together). 107 Pelo diagrama, percebe-se que a maior parte das agências da ONU (em negrito) atua nas três áreas, o que condiz com a função de coordenar o trabalho dos demais atores envolvidos. As principais organizações governamentais e não governamentais (como ICRC, WVI, OXFAM e CARE) de atuação internacional, bem como algumas agências de cooperação de governos (ex. GTZ, USAID) também atuam em todas as áreas, ainda que, muitas vezes, em projetos distintos. Paralelamente, é possível perceber que, entre as agências e organizações, a especialização ocorre de forma mais marcante, principalmente no caso da assistência humanitária. Em suma, a ideia de que, nas operações multidimensionais, ocorreria a divisão de tarefas entre organizações e agências especializadas e que caberia à ONU coordenar a realização das atividades parece se confirmar. Finalmente, vale observar que a convergência das políticas implementadas e a divisão de tarefas entre as organizações apontam para a existência de um nexo entre segurança coletiva, assistência humanitária e assistência ao desenvolvimento no âmago das operações de paz multidimensionais. Tal nexo sugere uma importante transformação institucional que aponta para a consolidação de novas ideias acerca da manutenção da paz e da estabilidade, cada vez mais pautadas pela redefinição de elementos da ordem interna dos Estados em reconstrução, como, por exemplo, a forma de governar, e pelo esforço de adequar esses elementos a padrões aceitos internacionalmente, como as práticas de boa governança. 108 4 GOVERNAMENTALIDADE E TRANSFORMAÇÃO SOCIAL A transformação dos meios pelos quais a sociedade internacional passou a promover a paz e a segurança a partir do final da Guerra Fria, como discutido nos capítulos anteriores, pode ser relida como a emergência de novas técnicas para operacionalizar o transplante dos padrões internacionais de boa governança para os Estados em reconstrução, conduzindo-os pelo caminho que levaria do conflito e da pobreza, à paz e ao desenvolvimento. Este capítulo pretende rediscutir esse processo com base no conceito de governamentalidade, formulado por Foucault, como uma forma de colonização do espaço social internacional e de suas fronteiras, por meio da difusão de modos de existência liberais, articulados na ideia de Paz Democrática. Especificamente, pretende-se enfocar a fase de conclusão do trabalho dos atores internacionais de reconstrução na Libéria, resumida em dois documentos principais: a Estratégia de Redução da Pobreza (PRS), formulada pelo governo, e a nova UNDAF, agora regular, que delineia os termos das políticas de assistência ao desenvolvimento a serem realizadas no país pela ONU e seus parceiros durante o processo de transição do poder e, posteriormente, como suporte ao governo nacional. A retomada das rédeas do desenvolvimento pelo governo, traduzida pela ONU como ownership, consolidaria o transplante de padrões internacionais de boa governança para o Estado em reconstrução. Esse transplante, marcaria a transição entre o status de objeto das práticas de ajuda para o de sujeito da sociedade internacional, o que credenciaria o Estado a estabelecer relações diretas com suas principais organizações, e a apresentar demandas nacionais em um contexto sistêmico, sem necessidade de mediação por parte dos agentes de reconstrução. Em outros termos, a capacidade de agência do Estado no sistema internacional seria, progressivamente, (re)construída. Inicialmente, pretende-se retomar o conceito de governamentalidade, como formulado por Foucault, para, posteriormente, reler as principais transformações dos mecanismos de manutenção da paz a partir dos anos 1990, como parte de um processo de rearticulação internacional do conceito. Finalmente, deverá ser enfocada a conclusão dos trabalhos de reconstrução na Libéria, com vistas a discutir a formação de um nexo entre segurança e desenvolvimento, amarrado pelas instituições democráticas e pelos padrões de boa governança, que promoveriam a transformação das sociedades marcadas pelo conflito para unidades políticas estáveis, dispostas a compartilhar a causa da paz. 109 4.1 Governamentalidade e constituição de Estados na Modernidade Segundo Foucault (1979a), a governamentalidade pode ser tomada como um discurso histórico-político, que emergiu no final do século XVIII como resultado de uma série de transformações históricas dos mecanismos utilizados para nortear condutas e organizar relações entre os indivíduos nas mais diversas sociedades. O governo 100 , entendido como ―condução da conduta‖, sempre foi uma questão presente nas discussões acerca da produção da ordem social, seja nos tratados para aconselhar o comportamento dos príncipes, seja nas doutrinas de obediência professadas pela Igreja. Contudo, a partir do século XVI, essa questão passou a ser progressivamente problematizada, diante de dois movimentos concomitantes e distintos: por um lado, a dispersão do governo das almas e da vida privada com a dissidência religiosa; e, por outro, a concentração do poder na forma do Estado territorial centralizado (FOUCAULT, 1979a). Nesse contexto, a superioridade das racionalidades cosmo-teológicas de produção da ordem social foi desafiada pela razão de Estado, e a figura divinizada do príncipe cedeu lugar a princípios seculares, considerados inerentes à razão humana e ao Estado ele mesmo. Esse momento teria marcado o início da emergência do discurso da governamentalidade como uma racionalidade autônoma em relação ao soberano (GORDON, 1991). Foucault (1979a), no entanto, afirma que o discurso da governamentalidade só se consolidou como método de governo capaz de influenciar a luta política após o século XVIII, quando se fez possível o desbloqueio da arte de governar, até então limitada por um conjunto de leis, decretos e regulamentos produzidos pelo mercantilismo, que reforçava as estruturas institucionais e mentais da soberania, ao mesmo tempo em que restringia a economia à casa e à família. Para o autor, somente na modernidade, quando a economia foi incorporada à política – e assim deixou de ser uma questão de comando da família e tornou-se associada à população 101 –, foi possível reformular a compreensão acerca do fundamento da soberania, com a introdução de um novo componente: a sociedade. A necessidade de lidar com a população como um elemento da soberania tornou mais complexa a arte de governar e 100 A palavra ‗governar‘, embora tenha adquirido uma conotação política forte na era do absolutismo, tem um sentido semântico mais amplo e se refere a todos os cuidados que se pode proporcionar aos indivíduos por meio do exercício de uma atividade de mando ou de prescrição sempre benevolente. Alude, assim, ao domínio sobre os corpos, individuais ou coletivos, e não sobre o Estado ou o território (FOUCAULT, 1979a). 101 Ao tratar a emergência da população como um problema, Foucault (1979a) se refere ao reconhecimento de fenômenos próprios à população, que foram identificados pelo desenvolvimento da estatística, que passa a revelar as regularidades do domínio demográfico. A partir desse momento, essa nova realidade, agora quantificada e classificada, não pode mais ser reduzida à esfera da família. 110 demandou o desenvolvimento de técnicas mais apuradas de disciplina e controle. Na formulação de Foucault (1979a), a ideia de um novo governo da população torna ainda mais agudo o problema do fundamento da soberania e ainda mais aguda a necessidade de desenvolver a disciplina. Devemos compreender as coisas não em termos de substituição de uma sociedade de soberania por uma sociedade disciplinar e desta por uma sociedade de governo. Trata-se de um triângulo: soberania-disciplina-gestão governamental, que tem na população seu alvo principal e nos dispositivos de segurança seus mecanismos essenciais ( p.171). Nota-se que Foucault não tratou a emergência da governamentalidade como fenômeno característico de um único Estado; pelo contrário, a definiu como uma faceta que compõe o diagrama da modernidade e participa da consolidação do modelo de Estado soberano moderno como principal forma de organização das relações políticas e sociais. A governamentalidade, assim, teria perpassado o processo de ―legar populações, que estiveram sujeitas a fontes de autoridade que se sobrepunham, a comandantes soberanos, tidos como responsáveis primários pelo governo das populações dentro de seu território‖ (HINDESS, 2004, p. 27 tradução livre). 102 Nesse sentido, pode ser pensada em meio a um movimento transversal de dispersão de estratégias de poder, tecnologias e técnicas, que ocorreu para além de qualquer fronteira; portanto, internacional como a modernidade ela mesma. Em outros termos, a governamentalização pode ser interpretada como reconfiguração dos atributos e da forma de exercer a soberania, tanto para dentro quanto para fora das fronteiras dos Estados. Ainda que Foucault (1979a) tenha tratado a governamentalidade como algo que não se limita às fronteiras de qualquer Estado, é importante lembrar que o autor não avançou na problematização das possibilidades de articulação internacional do conceito. Seu objetivo era desconstruir o mito do Estado soberano como uma unidade indivisível, dotada de individualidade e existência absoluta. Em vez de descrever o Estado como uma realidade concreta, Foucault (1979a) propunha pensá-lo como uma combinação plural de métodos de governo que não se resumia à lógica do soberano. Nesse sentido, a soberania deveria ser lida como uma racionalidade que, na modernidade, aliou-se à disciplina e à governamentalidade na conformação do Estado Moderno. Segundo Husyman, a soberania é uma matriz de governo particular, definida por uma tensão entre dois entendimentos de governo, um como primado da lei, e outro como decisão executiva, na ausência ou nos limites da ordem constitucional. Ela também separa o 102 ―assigning populations that had been subject to overlapping sources of authority to sovereign rulers who were acknowledged as having primary responsibility for the government of populations within their territories‖. 111 governo doméstico – onde o primado da lei é considerado prática normal – e o governo internacional – onde a decisão executiva é a prática normal e o primado da lei é a exceção (2006, p.38, tradução livre). 103 Dessa forma, a consolidação da governamentalidade na sociedade moderna foi possível somente quando outras racionalidades conseguiram impor-se discursivamente em relação ao domínio até então exclusivo do soberano. Quando a condução da população – não apenas como uma massa indistinta e subordinada ao soberano, mas em seus detalhes e em suas nuances – foi definida como objetivo central de governo, os múltiplos aparatos e saberes específicos sobre como gerenciar essa população ganharam um peso considerável em relação ao próprio regime de leis. A governamentalidade, assim, teria feito a ligação entre a capacidade totalizadora da soberania e a característica individualizadora da disciplina (GORDON, 1991), ao articular uma estratégia de governo que tem seu lugar privilegiado nas práticas estatais, mas que não pode ser reduzida a elas. Nas palavras de Foucault (1979a), ―o que é importante para nossa modernidade, para nossa atualidade, não é tanto a estatização da sociedade, e sim o que chamaria de governamentalização do Estado‖ (p. 171). Valendo-se da confluência entre emergência da população, instrumentalização do saber econômico e dos dispositivos de segurança, a governamentalidade permitiu que a arte de governo se desvinculasse da razão de Estado e se transformasse em uma forma de gerenciamento plural, capilarizada e produtiva. 104 Essa nova forma de governar teria refletido o triunfo de ideias liberais como uma lógica capaz de organizar as relações sociais e políticas e estabelecer os limites para o exercício do poder soberano, ao informá-lo sobre ―[...] como o governo é possível, o que lhe é permitido fazer e a quais ambições ele deve renunciar para dar conta de tudo o que está sob seu poder‖ (GORDON, 1991, p.15, tradução livre). 105 Assim, a população deixou de ser mero objeto das vontades do soberano e foi reconfigurada como elemento ativo do governo, no sentido tanto de problematizar a ordem baseada na razão de Estado, quanto de oferecer uma ordem alternativa, baseada no que seria uma capacidade natural dos indivíduos de regularem a si próprios por meio da criação de arranjos que garantissem a realização de objetivos de comuns, como a paz e a prosperidade. 103 Sovereignty is a particular matrix of government defined by a tension between government as rule of law and government as executive decision in the absence or at the limits of the constitutional order. It also separates domestic government where the rule of law is considered the normal practice and international government where the executive decision is the normal practice and the rule of law the exception. 104 ―O que faz com que o poder se mantenha e que seja aceito é simplesmente que ele não pesa só como uma força que diz não, mas que de fato ele permeia, produz coisas, induz ao prazer, forma saber, produz discurso. Deve-se considerá-lo como uma rede produtiva que atravessa todo o corpo social, muito mais do que uma instância negativa que tem por função reprimir‖ (FOUCAULT, 1979c, p.8). 105 ―[...] how government is possible, what it can do, and what ambitions it must needs renounce to be able to accomplish what lies within its powers‖. 112 A lógica do raciocínio liberal, conforme descrita por Owen (1996), pressupõe que todos os homens compartilhariam o interesse fundamental na autopreservação e no bem-estar material. Dessa forma, haveria uma tendência natural à harmonia de interesses entre os indivíduos, desde que estes tivessem garantida a liberdade de agir de acordo com suas próprias preferências e o fizessem sem violar a liberdade dos demais de agir da mesma maneira. Por isso, o respeito à liberdade individual foi definido como princípio essencial do liberalismo, apoiado na existência de um conjunto de instituições voltadas para a organização da vida pública dos indivíduos de modo a assegurar a proteção de seus direitos fundamentais (DOYLE, 1996). As instituições – e, de forma mais geral, o próprio liberalismo –, portanto, apostariam na racionalidade e no comportamento público dos indivíduos e seriam uma forma de organizar um grupo de seres racionais que demandam leis gerais para sua sobrevivência, mas que buscam isentar-se e estabelecer suas constituições de maneira que, apesar de as atitudes privadas serem opostas, estas atitudes privadas constranjam umas às outras de tal maneira que este [seu] comportamento público seja semelhante ao que seria se eles não tivessem tais atitudes egoístas (KANT, 1795 apud DOYLE, 1996, p.5, tradução livre). 106 Seguindo esse raciocínio, a existência de boas instituições seria a chave para converter vícios privados em benefícios públicos, para lembrar a fábula de Mandeville. Como consequência da valorização do individuo frente ao soberano, o liberalismo, mais do que uma doutrina filosófica, passou a funcionar como racionalidade norteadora das relações sociais e definiu a preservação das liberdades e o amadurecimento da razão individual como fins últimos da política. Para a consecução desses fins, os liberais apostavam na existência de instituições capazes de garantir um conjunto de direitos – civis, sociais, econômicos e participativos – e princípios normativos – isonomia jurídica, economia de mercado, propriedade privada e soberania externa (DOYLE, 1996). Tomados desde uma perspectiva foucaultiana, tal arcabouço de direitos e princípios pode ser lido como um conjunto de técnicas governamentais voltadas não para a coerção dos comportamentos, e sim para sua condução com vistas ao aperfeiçoamento moral dos indivíduos. 107 Nesses termos, ―o liberalismo é uma lógica particular de governo – uma forma de poder característica da 106 To organize a group of rational beings who demand general laws for their survival, but of whom each inclines toward exempting himself, and to establish their constitutions in such a way that, in spite of the fact that private attitudes are opposed, these private attitudes mutually impede each other in such a manner that [their] public behavior is the same as if they did not have such evil attitudes. 107 O poder liberal pressupõe a existência de sujeitos individualizados, que possam ser controlados, monitorados e disciplinados por meio de uma gramática normativa de direitos e deveres na qual o próprio indivíduo se torna, ao mesmo tempo, seu governante e seu guarda. O objetivo do governo, nesse caso, não é restringir ou impedir a conduta, mas normalizá-la para que ela possa ser livre. Nesse domínio, o poder tem a capacidade de produzir sujeitos disciplinados pela norma. 113 sociedade moderna, que opera indiretamente pela produção de indivíduos autônomos e responsáveis mediante a ‗condução da conduta‘ e de um conjunto de ‗técnicas governamentais‘‖ (NEUMANN; SENDING, 2007, p.694, tradução livre). 108 Ainda que as faces nacional e internacional da governamentalidade estejam intrinsecamente relacionadas – uma sendo condição de possibilidade para a outra – pode-se pensar que o discurso histórico-político da soberania acabou por circunscrever a problemática da população e o desenvolvimento das artes de governo às preocupações próprias do espaço doméstico. Ao plano internacional, por sua vez, caberiam preocupações outras, que não a forma como cada Estado procura controlar e conduzir sua população. Entretanto, após a Guerra Fria, esse ―como‖ tornou-se uma questão importante para a definição do lugar de cada Estado na ordem internacional. 4.2 Emergência de um espaço internacional governamentalizado Até aquele momento, a força do discurso histórico-político da soberania, recuperada pela lógica da balança de poder, previa que os principais instrumentos de governabilidade internacional voltados para o controle da população seriam aqueles dos Estados nacionais. A preservação da soberania garantiria a contiguidade entre Estado, povo e território, maximizaria a eficácia dos mecanismos de controle e, assim, levaria à estabilização das relações não só entre indivíduos e Estados, como também da relação entre os próprios Estados soberanos. Dessa forma, os aparatos de governamentalização, como sistemas de educação, saúde e encarceramento, eram pensados como políticas de Estado, destinadas a conter e controlar uma população marcada fundamentalmente pelo pertencimento nacional. Esse entendimento se refletiu na conformação do sistema internacional durante a Guerra Fria, pautada pelo respeito à noção de equilíbrio de poder e ao princípio da soberania como as principais formas de garantir a ordem e a estabilidade, conforme foi discutido no Capítulo 1. Outro reflexo dessas ideias, também discutido anteriormente, pode ser observado na forma pela qual a ONU conduzia os processos de paz e (re)construção de Estados até o início dos anos 1990, privilegiando a demarcação das fronteiras, a restituição da soberania e o 108 ―Liberalism is a particular logic of governing – a form of power that is characteristic of modern society, which operates indirectly by shaping and fostering autonomous and responsible individuals through the ‗conduct of conduct‘ and the ensemble of ‗governmental techniques‘‖. 114 estabelecimento de governos fortes, que pudessem exercer controle efetivo sobre seu território e sua população e, com isso, garantir a preservação da ordem interna. Naquele contexto, o somatório de unidades soberanas domesticamente estáveis e internacionalmente dispostas no esquema da bipolaridade seria suficiente para garantir a paz e a ordem na sociedade de Estados, independente dos mecanismos de governo utilizados por cada Estado em particular, com exceção da predileção demonstrada por eles em relação à proposta ideológica de cada bloco. Mesmo com o fim da Guerra Fria, o Estado se manteve como o principal responsável por dirigir a aplicação de mecanismos de governo. Entretanto, a partir daquele momento, as formas de governar foram progressivamente problematizadas, à luz da redefinição de diretrizes sobre como exercer um bom governo – ou sobre como governar da melhor maneira possível –, lançadas internacionalmente com intensa participação das organizações internacionais. Nesse cenário, a agenda de segurança internacional, antes tomada por preocupações estratégicas, passou a incluir uma gama bastante diversificada de questões, como desenvolvimento, direitos humanos, participação política, meio ambiente e melhoria geral das condições de vida. Essas questões foram reunidas com a formulação do conceito de segurança humana e consolidação da ideia de que só seria possível haver paz na medida em que ela fosse compartilhada por todos os habitantes do planeta (CGG, 1996). Mais do que isso, a garantia dessa segurança seria possível por meio da aplicação de critérios e metodologias, também formulados pelas organizações internacionais, que incidiam sobre a relação entre governantes e população e apontavam para a redução do poder discricionário de cada Estado sobre a condução da conduta dos indivíduos que habitam seu território. Essas ideias foram reforçadas por diagnósticos recorrentes, que associavam o declínio da ordem bipolar ao enfraquecimento do controle dos Estados sobre suas populações e, de forma mais ampla, ao aumento do número de conflitos devido a essa falta de controle. Ignatieff (2003), por exemplo, afirmou que o fim do suporte dos grandes blocos aos governos nacionais, aliado a dificuldades econômicas, infraestrutura precária, multiplicidade de grupos étnicos e religiosos e instituições políticas incapazes de se estenderem por todo o território, teria provocado a erosão das bases de muitos Estados e diminuído a habilidade das elites locais de controlar ou conciliar os interesses dos diversos grupos internos. Como resultado, vários desses Estados teriam passado por processos de desagregação e falência, que teriam aberto espaço para a atuação de grupos que contestavam a autoridade do governo, e precipitado a ocorrência de guerras civis. Para os defensores dessa abordagem, os conflitos estabeleceriam uma relação de causalidade mútua com a deterioração das condições de vida, 115 um ciclo vicioso no qual pobreza e violência resultariam em milhares de vítimas, deslocados internos, refugiados e migrantes, além de uma infinidade de relacionamentos ilegais e extralegais entre rebeldes e governos, que alimentariam a própria continuidade dos conflitos (DUFFIELD, 2001). A identificação das raízes do conflito na Libéria, como proposta por uma série de autores, incluindo a própria ONU, e recuperada no Capítulo 2, é condizente com esse tipo de diagnóstico. Sayle et al (2009), por exemplo, destacou que a disputa entre as potências foi determinante para o apoio recebido dos EUA pelo governo de Samuel Doe nos anos 1980, mesmo diante da constatação de que o presidente recorria amplamente às ameaças e à perseguição política contra seus opositores e fomentava disputas sangrentas entre os grupos étnicos da Libéria para se manter no poder. Como evidência da utilização desses métodos, o autor lembra que, em 1985, Doe mandou assassinar cerca de três mil pessoas das etnias Gio e Mano, do condado de Nimba, que faziam oposição ao governo, o que teria provocado profunda revolta da população local (SAYLE et al ,2009). Paralelamente, Charles Taylor, antigo aliado de Doe que fora hostilizado pelo presidente, firmou uma aliança com o ditador líbio Muammar Kadafi, que ofereceu treinamento a Taylor em troca do combate aos aliados norte-americanos na África (SAYLE et al ,2009). Para Sayle et al (2009), quando as atenções dos EUA se voltaram para os acontecimentos que poriam fim à Guerra Fria, e, consequentemente, reduziram seu apoio ao governo Doe, foram criadas as condições para que Taylor pudesse engendrar um golpe contra o presidente, o qual contou com o apoio maciço da população de Nimba. A retirada do apoio norte-americano e a guerra civil que se seguiu teriam causado o colapso da economia na Libéria e reforçado o ciclo entre pobreza e violência que, de acordo com Sayle et al (2009), somou-se à gestão corrupta e precária dos governos seguintes e ao domínio de parte do território do país por grupos rebeldes como as principais causas do novo conflito, a partir de 2003, que motivou a intervenção da ONU. Diagnósticos como esses, que apontavam a incapacidade de governo do Estado sobre os indivíduos, reforçaram o aspecto potencialmente problemático das questões populacionais, tanto no que se refere à relação entre Estado e população quanto à relação entre Estados. Para muitos autores, a incapacidade apresentada por alguns Estados de controlar (IGNATIEFF, 2003) ou proteger (SHUE, 2004) sua população, em um contexto de distensão das relações entre as potências e de porosidade cada vez maior das fronteiras, aumentaria as chances de transbordamento dos conflitos internos para os países vizinhos e de criação de instabilidade regional, ou, até mesmo, internacional. Vale ressaltar que tais diagnósticos e entendimentos não se limitaram aos estudiosos de conflitos; pelo contrário, podem ser claramente percebidos 116 nos documentos do Conselho de Segurança a partir de 1990, entre eles a Resolução que determinou a instituição da OMP na Libéria (S/RES/1497, 2003), baseada no reconhecimento de que a situação no país constituía uma ameaça à estabilidade em toda a região da África Ocidental, bem como à paz e à segurança internacionais. Em situações como essas, a ONU teria a responsabilidade de intervir para proteger a vida e o bem-estar da população (ICISS, 2001) e de reconstruir as instituições e a infraestrutura do Estado, como forma de garantir a preservação da segurança humana a longo prazo (ONU, 2003). De forma geral, a conclusão desses diagnósticos parece ter sido que o acordo básico de coexistência entre os Estados, baseado na troca de reconhecimento de jurisdições soberanas e na prerrogativa de agir como guardiães legítimos dos interesses de cada comunidade política (BULL, 2002), teria se tornado insuficiente para garantir a paz. Se considerar-se o relativo sucesso em consolidar tais diagnósticos como enunciados válidos, é possível tomar o final da Guerra Fria como um momento de reabertura – pelo menos parcial – do embate discursivo sobre o estatuto da soberania, especialmente no que se refere às regras de autodeterminação e não intervenção, como forma de organizar as relações no plano internacional. A releitura com lentes foucaultianas permite perceber que, ao chamarem atenção para as raízes internas dos conflitos internacionais, tais discursos acabaram por reconstruir a população como personagem político para as relações internacionais. Um personagem já conhecido pelos Estados desde o século XVIII (FOUCAULT, 1979a), mas que, até então, não havia sido enquadrado como um problema a ser tratado nas relações entre eles. Assim, várias questões relacionadas à população foram classificadas como problemas internacionais e desafios à própria ordem estatal. A recolocação do problema da população e de como conduzi-la em termos sistêmicos desafiou a premissa de que os Estados soberanos seriam os guardiões legítimos da ordem internacional, tomada como dada nas teorias tradicionais de Relações Internacionais. Esse desafio funcionou como condição de possibilidade para que técnicas governamentais fossem apropriadas como instrumentos para a produção de estabilidade no sistema internacional. A produção dessa estabilidade passaria pela atualização dos instrumentos de governo, o que seria facilitado por um conjunto de metodologias pré-testadas e comprovadamente eficientes, definidas como ―boas práticas‖. O desenvolvimento e a difusão dessas boas práticas pode ser reinterpretado como um desbloqueio da arte de governar populações no domínio internacional, o que indicaria uma tentativa de sistematização de técnicas governamentais dispersas como parte de um projeto político de governança desse espaço social. Com isso, o Estado 117 [...] re-emerge simultaneamente como resultado de técnicas de governo e como um princípio que integra simbolicamente essas práticas governamentais diversas em uma redenção da comunidade política, [assim] a questão central é se e em que medida o estado realmente funciona como princípio e domínio de aplicação dessas técnicas de governo (HUYSMAN, 2006, p. 41-42, tradução livre). 109 Quando a governamentalização passou a ser articulada internacionalmente como um conjunto de técnicas de governo voltadas para um horizonte de estabilidade, tornou-se necessária a redefinição dos lugares e papéis desempenhados por indivíduos e populações no sistema internacional. Entre as propostas que pretendiam dar conta dessa redefinição, ganhou força uma versão atualizada do liberalismo do século XVIII, cuja particularidade estava na construção de um aparato que possibilitaria a operacionalização de seu caráter universalista, agora também, no domínio internacional. 110 A expressão máxima dessa nova aposta do liberalismo foi a ideia de Paz Democrática, que tem como pano de fundo a crença na democracia como o princípio, por excelência, de arranjos institucionais capazes de conduzir o sistema internacional à paz. Para os defensores da paz democrática, dado que os indivíduos compartilhariam o interesse natural pela paz e que instituições democráticas garantiriam a liberdade e a passagem das preferências dos cidadãos para a dimensão da tomada de decisão estatal, a vigência de regimes democráticos seria capaz de constranger possíveis comportamentos agressivos dos Estados democráticos, uns em relação aos outros. De acordo com essa lógica, a difusão do modelo liberal-democrático implicaria a consolidação de padrões de governança que informariam a conduta interna e internacional dos Estados, tendo como base a primazia do indivíduo. Nesse sentido, é importante notar que a noção de paz democrática pressupõe a existência de um conjunto de características e direitos fundamentais, inerentes à condição humana, que devem ser garantidos incondicionalmente. Tal afirmação revelaria o caráter cosmopolita do liberalismo, que o tornaria passível de universalização e aplicação em um leque populacional diverso, como mecanismo de estabilização política e social. Na modernidade recente, esse passo lógico teria autorizado democracias liberais a falar em nome 109 […] re-emerges as both an outcome of techniques of government and as a principle that symbolically integrates these diverse governmental practices into a rendition of political community, [thus] the central question is whether and the degree to which the state functions indeed as the principle and domain of application of these techniques of government. 110 Uma das características centrais do liberalismo é sua pretensão de realizar modelos universais. Entretanto, até esse momento, tal pretensão esteve articulada a uma lógica de soberania exclusivista, que afirma que o melhor caminho para se chegar à universalidade seriam desenvolvimentos particulares, empreendidos pelos estados. A ideia defendida aqui é que os discursos que se apropriaram da lógica liberal no pós Guerra Fria, em especial o da Paz Democrática, propõem novos caminhos para a concretização de ideais universais, abrindo espaço para que a sociedade civil ou arranjos multilaterais possam participar do processo. 118 de um novo referente político, a população, que, agora dotada de características universais, passaria a ser confundida com a própria humanidade. Esse duplo movimento, por um lado, de redefinição da população como um problema em termos de ameaças difusas para dentro e para fora das fronteiras do Estado; e, por outro, de contenção e condução dessa população – entendida como humanidade – nos termos da Paz Democrática, teria permitido o ―desbloqueio da arte de governo‖ no espaço social internacional. Além disso, teria criado condições para a emergência da governamentalidade como uma estratégia para ordenar as relações sociais, que se coloca como alternativa à lógica até então predominante da balança de poder. 111 Ainda que não seja possível falar em uma vitória absoluta do discurso liberal-democrático como resposta à configuração atual do problema da população, pode-se afirmar que o conjunto de seus princípios tem sido efetivamente traduzido em uma série de técnicas, competências e saberes específicos. Esse aparato reformulou a arte de governo de acordo com métodos que não se sustentam apenas na relação doméstica cidadão/Estado; orientam-se por certos tipos de identidades e comportamentos considerados legítimos e efetivos na sociedade internacional. A operacionalização desse conjunto de princípios pode ser lida como um esforço de rearticulação internacional da governamentalidade. 4.3 Governamentalização internacional pela via liberal-democrática Uma das condições para que certos discursos normativos possam emergir e cristalizarse na conformação dos sujeitos é a existência de estratégias políticas que os sustentem, ainda que tais estratégias possam carregar consigo discursos conflitantes (RANSOM, 1997). O discurso liberal, articulado nos termos da Paz Democrática, consolidou-se pela pluralização e constante atualização de técnicas governamentalizantes, destinadas a adequar sujeitos às (boas) artes de governo. O trunfo da estratégia política que orienta esse discurso está na afirmação da universalidade do modelo liberal-democrático, por meio de dois passos: primeiro, a estabilização das vontades dos indivíduos, entendidas como derivadas da própria 111 Durante os séculos XVII, XIX e XX, o princípio da balança de poder entre os Estados foi amplamente reconhecido tanto pelas práticas quanto pelo pensamento político daquele período. Atualmente, apenas a escola realista argumenta a preponderância desse principio, como sendo o único capaz de garantir a ordem nas relações internacionais, desconsiderando aspectos normativos (RENGGER, 1999). Por isso, enquanto a lógica da balança de poder foi capaz de subjugar discursos de ordem concorrentes, não havia espaço para a problematização das artes de governo no âmbito internacional, uma vez que a razão de estado se sobressaía à lógica da população. 119 condição humana, e não mais do pertencimento a uma sociedade ou Estado específico; e segundo, a proposição de um modelo institucional, também universal, para garantir a realização dessas vontades, qual seja, a democracia. Seguindo esse raciocínio, os homens compartilhariam valores que se sobreporiam à ordem dos Estados, o que possibilitaria a criação de padrões e instrumentos sistêmicos de governança, que deveriam orientar a conduta dos Estados no que tange à garantia de direitos e interesses fundamentais dos indivíduos, e até mesmo à prerrogativa de agir em caso de falha de outros Estados na proteção desses direitos. 112 Isso seria possível na medida em que, por ser capaz de identificar um modelo universal de indivíduo, a lógica liberal forneceria elementos para prever não só seus interesses, como também as possíveis causas de conflitos entre eles e entre os Estados. O raciocínio liberal ofereceria ainda modelos de arranjos institucionais destinados a tratar essas causas e prevenir a ocorrência ou a recorrência dos conflitos. Logo, a difusão desses arranjos – baseados em princípios democráticos e liberais – seria a grande estratégia para reorganizar comunidades políticas; conter e proteger populações; e, consequentemente, manter a paz no sistema internacional. A relação entre a democratização dos Estados e a paz internacional, como formulada pelos liberais, ganhou espaço privilegiado nas propostas de edificação de um novo ordenamento internacional, formuladas pelas organizações internacionais no pós Guerra Fria. Especialmente no campo das operações de paz, ela serviu de base para repensar a atuação dessas organizações em casos de guerra e processos de reconstrução, como o que está em curso na Libéria. Nesse sentido, a ONU afirma que a expansão da democracia é uma das tendências mais animadoras dos últimos anos. Só a democracia permite que as questões de um país sejam conduzidas – e seu desenvolvimento direcionado – de forma a atender aos interesses e anseios dos povos. A democracia cria condições para que a proteção dos direitos fundamentais dos cidadãos fique assegurada. É ela que provê a base mais sólida para a paz e a estabilidade nas relações internacionais (CGG, 1996, p.43). Entretanto, a própria ONU reconhece que, apesar de seus atrativos – especialmente ligados às políticas de proteção aos direitos – a democracia não seria capaz de se difundir e se consolidar no sistema internacional espontaneamente. A constituição de uma ordem internacional democrática e pacífica dependeria da capacidade de seus defensores de atrair 112 Buchanam e Keohane (2004), por exemplo, defendem a criação de arranjos institucionais ―desenvolvidos para proteger países vulneráveis contra intervenções injustificadas [...], de modo a garantir que as regras que regulam o uso preventivo da força sejam aplicadas de maneira justa‖ (p.1). No original, ―designed to help protect vulnerable countries against unjustified interventions [...], ensuring the fairness of rules governing the preventive use of force‖. 120 novos adeptos, compelindo os Estados a promover a paz e a tentar evitar a guerra. Os resultados das políticas de desenvolvimento econômico seriam um dos grandes atrativos dessa nova ordem, trazendo prosperidade e progresso a seus participantes. Isso porque a difusão das trocas econômicas via mercado possibilitaria a configuração de um acordo de divisão internacional do trabalho cooperativo, que permitiria que os Estados aproveitassem suas vantagens comparativas, gerando bem-estar material, fortalecendo a formação de alianças e de laços de interdependência (DOYLE, 1996). 113 Apoiadas na lógica liberal, as Organizações Internacionais definiram o desenvolvimento como elemento fundamental para a difusão da democracia – portanto, para a paz sistêmica –, e assumiram uma relação de complementaridade entre o que seriam os três pilares da nova ordem internacional: paz, democracia e desenvolvimento. Para a ONU, a construção da paz, como descrita em ‗Agenda para a Paz‘, requer o fortalecimento daquelas instituições que mais contribuem para consolidar o senso de confiança e bem-estar entre as pessoas. Torna-se cada vez mais claro que os elementos fundamentais desse processo são a democracia e o desenvolvimento. As democracias raramente entram em choque. A democratização sustenta a causa da paz. A paz, por sua vez, é pré-requisito do desenvolvimento. Portanto, a democracia é essencial para que o desenvolvimento se sustente ao longo do tempo. E sem desenvolvimento não há democracia. As sociedades que não dispõem de um mínimo de bem-estar tendem a entrar em conflito. Por isso, essas três grandes prioridades estão interligadas (BOUTROS-GHALI, 1993, apud, CGG, 1996, p.44). A crença na interdependência entre essas três prioridades constituiu a base dos projetos de reestruturação dos mecanismos de governança internacional propostos pelas organizações internacionais no pós Guerra Fria. Neles, democracia, desenvolvimento e paz foram relacionadas à vontade popular e definidas, simultaneamente, como objetivo universal e funcional dessas organizações (ZANOTTI, 2005), credenciando-as como promotoras e gestoras do que seria uma nova ordem. Como parte dessa tarefa, caberia ao corpo técnico das OIs traduzir o ideal da paz democrática em princípios e técnicas efetivas de governo, capazes de conduzir sociedades e indivíduos a esse ideal. Como foi discutido na análise da operação de paz na Libéria (2003-2008), a essa tradução ocorreu, em parte, pela divisão do processo de reconstrução do Estado em três áreas – segurança, assistência humanitária e assistência ao desenvolvimento, que teriam como objetivos principais assegurar a interrupção definitiva dos conflitos violentos; dar início à reconstrução das instituições e da infraestrutura do Estado, proteger e prestar assistência a ex-combatentes e civis, em especial refugiados e IDPs, 113 Além disso, a ampliação da dimensão do mercado na vida das sociedades acabaria por retirar uma série de decisões da esfera dos estados, deixando-os fora de muitas crises (DOYLE, 1996). 121 recuperar atividades produtivas e recriar as bases para o desenvolvimento sustentável. Pela descrição dos componentes e elementos das três áreas, foi possível perceber que esses objetivos seriam alcançados por medidas como: realização de eleições nacionais livres e democráticas; reconstrução das instituições estatais, ancorada em princípios como direitos humanos, participação, transparência e accountability; consolidação do primado da lei; reforma do setor de segurança; ampliação da capacidade nacional de gerenciamento e reforma; provisão de serviços básicos à população e garantia da segurança alimentar; recuperação da atividade econômica; e utilização dos recursos naturais de forma equitativa e sustentável, de modo a promover o bem-estar para toda a população. Essas medidas se repetem entre as três áreas e têm sido descritas nos arranjos multilaterais como formas de garantir que o Estado reconstruído seja capaz de cumprir sua responsabilidade com a população, conduzindo-a ao caminho da segurança, da democracia, do desenvolvimento, e, sobretudo, da paz; ou, simplesmente, como difusão de práticas de ‗boa governança‘. O conceito de boa governança foi elaborado, inicialmente, pelo Banco Mundial, que acabou transformando-se em ator central para sua difusão e definição como racionalidade política das principais organizações internacionais nos anos 1990 (ZANOTTI, 2005). O Banco definiu governança como ―a maneira pela qual o poder é exercido na gestão dos recursos econômicos e sociais de um país, com vistas ao seu desenvolvimento‖ (BANCO MUNDIAL, 1992 apud ZANOTTI, 2005, p.5, tradução livre). 114 A boa governança, por sua vez, ―[...] se refere à eficiência do serviço público; primado da lei e respeito aos contratos; à eficiência do setor judiciário; respeito aos direitos humanos; imprensa livre e uma estrutura institucional pluralista‖ (ZANOTTI, 2005, p.5 tradução livre). 115 Observando essas definições, é possível perceber que a noção de boa governança, como formulada pelo Banco Mundial, se apoia na crença liberal de que a existência de boas instituições seria a chave para o bom funcionamento das relações políticas e sociais, regulando, controlando e transformando a vida das populações de modo a conduzi-las à paz e ao desenvolvimento. Como percebe Moynihan, ―a verdade central dos conservadores é que a cultura, e não a política, determina o êxito de uma sociedade. A verdade central dos liberais é que a política pode mudar a cultura e salvá-la de si mesma‖ (apud HARRISON; HUNTINGTON, 2002, p.13). Pouco a pouco, a boa governança tornou-se um dispositivo em torno do qual as organizações internacionais passaram a propor e desenvolver aparatos para subsidiar a 114 ―The manner in which power is exercised in the management of a country's economic and social resources for development‖. 115 ―[…] refers to efficiency in public service, rule of law with regard to contracts, an effective judiciary sector, respect for human rights, a free press, and pluralistic institutional structure‖. 122 expansão universal do modelo liberal-democrático, como pré-condição para a manutenção da paz. Como parte desse esforço, em 1997, a ONU definiu a boa governança como conceito central para a reestruturação de suas atividades voltadas para a manutenção da paz e da estabilidade internacionais. Tais atividades passaram a ter como foco a otimização de arranjos institucionais considerados adequados, entendidos como meios para canalizar demandas sociais e fazer com que estas sejam discutidas e equacionadas de forma não violenta. 116 O caso da Libéria ilustra bem esse trabalho, que, além das instituições próprias do Estado, também tem em vista o apoio à construção e ao fortalecimento de organizações da sociedade civil ou de base comunitária, como, por exemplo, grupos de defesa dos direitos humanos ou relacionados à imprensa, em um horizonte de participação democrática e educação para a paz. Para Zanotti (2005), a boa governança é um projeto global de engenharia estatal que trata das instituições do estado, mas não se limita a tanto. Ela também promove programas de institucionalização difusa de processos sociais [...]. Isso leva à difusão capilarizada de mecanismos institucionais no corpo social, à proliferação de processos codificados e à padronização das informações, de modo que as demandas sociais possam ser canalizadas, compreendidas e processadas pelos centros de governo (p.7, tradução livre). 117 Com isso, alguns processos essenciais, como a produção de diagnósticos, classificação e categorização daquilo que se considera o sujeito/objeto a ser normalizado, bem como o próprio processo de governamentalização daqueles que ainda não desfrutam do status de ―bons membros‖ da comunidade internacional são reconfigurados transnacionalmente, 118 permitindo a emergência de artes de governo que circunscrevem a arena internacional como um todo. A formulação e disseminação dessas artes de bom governo permitiriam às organizações internacionais atuarem de forma mais direta no conhecimento e controle das 116 De acordo com Zanotti (2005), a ONU descreve as atividades com esse propósito como formas de promover o empoderamento da sociedade civil. Essas atividades visam facilitar a construção de um conjunto de instituições (ONGs, partidos, grupos de interesse e assim por diante) interessadas em recolher as demandas dos cidadãos e canalizá-las para os centros de decisão, bem como em prover serviços sociais. 117 Good governance is a global project of state engineering that addresses, but does not limit itself to, state institutions. It also promotes programs of diffused institutionalization of social processes […]. This process leads to a capillary diffusion into the social body of institutional mechanisms, a proliferation of codified processes, and a standardization of information so that social demands can be channeled, understood, and processed by governing centers. 118 Para Huysman (2006), ―a questão é como a transnacionalização das técnicas para governar a insegurança estão moldando e integrando práticas dispersas na forma de domínios políticos transnacionais, como sociedades em rede, nas quais as práticas tanto de governo quanto da liberdade são exercidas‖ (p.42 tradução livre). No original, ―the question is how the transnationalization of techniques of governing insecurity are modulating and integrating dispersed practices into transnational political domains, such as a network society, where the practice of both freedom and government is exercised‖. 123 populações, evidenciando o esforço desses organismos para a sistematização da governamentalidade na esfera internacional. Nesse sentido, o Banco Mundial, desenvolveu uma série de indicadores para medir os graus de governança alcançados por 212 países e territórios, que dizem respeito ao que seriam as seis dimensões da governança, de acordo com o Banco: (i) voz e accountability, relacionada à participação popular, liberdade de expressão, associação e imprensa; (ii) estabilidade política e ausência de violência, que avalia a estabilidade e a probabilidade do governo ser destituído por meios inconstitucionais ou violentos; (iii) efetividade do governo, que diz respeito à qualidade e independência em relação a pressões políticas dos serviços públicos e civis, à qualidade da formulação e implementação de políticas e à credibilidade do comprometimento do governo para com essas políticas; (iv) qualidade da regulação, que trata da habilidade do governo para formular e implementar políticas e regulações relevantes, que permitam e promovam o desenvolvimento do setor privado; (v) primado da lei, relacionado à confiança e obediência às regras da sociedade, particularmente cumprimento de contratos, direitos de propriedade, polícia, tribunais e probabilidade de ocorrência de crimes ou violência; e (vi) controle da corrupção, associado à utilização do poder público para a consecução de benefícios privados (KAUFMANN; KRAAY; MASTRUZZI, 2009a). Os dados da pesquisa são coletados anualmente, desde 1996, pelo próprio Banco Mundial, organizações internacionais, agências de análise de risco, ONGs, agências multilaterais e governamentais e organizações do setor público. De acordo com o Banco, esses dados não são utilizados diretamente na alocação de recursos entre os países; todavia, servem como parâmetro para propostas de melhoria dos padrões de governança, bem como para análises de risco realizadas por investidores e até mesmo doadores (KAUFMANN; KRAAY; MASTRUZZI, 2009a). O mau desempenho dos países em relação à governança é frequentemente apontado como uma das principais causas dos conflitos internos, como ocorre, por exemplo, na análise da UNDAF (2003) sobre a guerra civil na Libéria, que relaciona a má governança à pobreza e à violência. Consequentemente, o documento prevê que o processo de reconstrução do Estado deveria enfocar a melhoria institucional como forma de prevenir a retomada do conflito (UNDAF LIBERIA, 2003). Tanto o diagnóstico quanto a profilaxia propostos na UNDAF parecem ser endossados pela análise dos indicadores de governança na Libéria, realizada pelo Banco Mundial, conforme apresentação nos Gráficos 2 a 7. 124 Gráfico 2: Voz e Accountability na Libéria (19962008) Fonte: KAUFMANN; KRAAY; MASTRUZZI, 2009b Gráfico 3: Qualidade da Regulação na Libéria (1996-2008) Fonte: KAUFMANN; KRAAY; MASTRUZZI, 2009b Gráfico 4: Estabilidade Política na Libéria (19962008) Fonte: KAUFMANN; KRAAY; MASTRUZZI, 2009b Gráfico 5: Primado da Lei na Libéria (1996-2008) Fonte: KAUFMANN; KRAAY; MASTRUZZI, 2009b Gráfico 6: Efetividade do Governo na Libéria (1996-2008) Fonte: KAUFMANN; KRAAY; MASTRUZZI, 2009b Gráfico 7: Controle da Corrupção na Libéria (19962008) Fonte: KAUFMANN; KRAAY; MASTRUZZI, 2009b 125 Nos gráficos, pode-se observar que o desempenho do país em quase todos os indicadores é extremamente ruim no período que antecede a guerra. A partir da instituição da UNMIL (2003) e do início do processo de reforma do Estado, os indicadores começam a apresentar melhora, o que coincide com a ampliação do fluxo de assistência humanitária (CAP, 2003) e ao desenvolvimento (UNDAF, 2003). A presença da ONU possibilitou a retomada, em 2003, da concessão de recursos do Banco Mundial à Libéria – que esteve suspensa por mais de uma década –, como parte do programa de reconstrução (BM, 2009). Entretanto, a normalização das relações entre o país e o Banco só ocorreu em 2007, depois da consolidação do governo eleito, quando a Libéria pôde, inclusive, se beneficiar do alívio parcial das dívidas, concedido a países pobres altamente endividados (BM, 2009). No ano seguinte, acompanhando a conclusão da fase inicial das reformas empreendidas pelo governo e a melhoria dos índices de governança, o Fundo Monetário Internacional também retomou suas relações com a Libéria (LIBÉRIA, 2008). De acordo com Zanotti (2005), a boa governança, semelhante ao governo governamentalizado de Foucault, multiplica os instrumentos para conhecer populações e transformar massas indistintas em ‗sociedades civis‘. Ela promove mecanismos plurais, capilarizados e difusos para conhecer, ordenar e realizar cálculo em relação a espaços indistintos e desregulados ( p.7, tradução livre). 119 Esses espaços indistintos coincidem com as localidades ainda não normalizadas pelas artes da boa governança. No discurso da paz democrática, o subdesenvolvimento e a ausência de democracia caracterizariam esses espaços como inseguros, construindo-os como outsiders em relação à nova sociedade internacional, e também como ameaças à forma de existência agora defendida por ela, cada vez mais relacionada aos conteúdos da liberdade e da democracia. Com isso, a preservação do modo de vida liberal-democrático depende da sua capacidade de colonizar suas fronteiras, transformando as sociedades tidas como perigosas por meio de arranjos institucionais eficientes que as conduziriam à modernização. Se até a Guerra fria, as preocupações de expansão de normas internacionais limitaramse a garantir a sujeição das comunidades políticas (em especial os recém-descolonizados) ao ideal regulatório oferecido pela forma do Estado soberano, e a estabilizar a relação entre eles na dimensão sistêmica, de acordo com a lógica bipolar, o fim da ameaça soviética permitiu uma rearticulação espaço-temporal em que a pertença à sociedade internacional ganhou um 119 Good governance, similarly to Foucault's governmentalized government, multiplies instruments for knowing populations and transforming indistinct masses into ‗civil societies‘. It promotes plural, yet capillary and widespread mechanisms for knowing, ordering, and calculating unregulated and indistinct spaces. 126 conteúdo claro, enraizado em estruturas de sentido liberais. Segundo Walker (2006), mais recentemente, a autorização para a participação de indivíduos e Estados nessa sociedade tem passado por um processo de convergência entre critérios temporais e espaciais, nos quais padrões de organização interna dos Estados nacionais foram elencados entre os requisitos básicos para o estabelecimento da ordem e a manutenção da integridade sistêmica. Com efeito, observou-se uma mudança [...] da forma para substância, do mero sujeito/soberano moderno para a expressão apropriada da democracia modernizante, de maneira a intensificar a contradição entre a regra que afirma a jurisdição doméstica e a regra que afirma a necessidade de incluir/excluir jurisdições domésticas em nome da integridade sistêmica (WALKER, 2006, p.72, tradução livre). 120 Com isso, características referentes à ordem interna, como democracia e economia de mercado, foram classificadas como novos atributos para legitimar a condição de Estado soberano e a participação como membro no sistema de Estados (WALKER, 2006). Esse processo, no qual a essência dos sujeitos modernos passa a ser articulada internacionalmente, cria espaço para que a delimitação de fronteiras entre normal/anormal seja desenhada com base em modelos universais. Essa reivindicação de universalidade permite que a prerrogativa de tomada de decisão seja, em alguma medida, transferida das mãos do soberano para as de burocratas internacionais, que detém conhecimento específico sobre as boas práticas de governo e acreditam fielmente em suas técnicas como sendo as mais racionais e acertadas, de forma que aparências de soberania tomam forma no campo da governamentalidade (JABRI, 2006; BUTLER, 2004). A governamentalização internacional implica, assim, uma articulação específica entre poder e conhecimento, na qual questões politicamente controversas são tecnicamente enquadradas por meio de uma linguagem neutra que ―tem como objetivo criar visibilidade no lugar da obscuridade, transparência no lugar da opacidade, accountability no lugar da corrupção, eficiência no lugar da redundância, efetividade no lugar da imprecisão, direitos no lugar dos abusos, primado da lei no lugar da imprevisibilidade‖ (ZANOTTI, 2005, p.13 tradução livre). 121 Esse processo fica evidente no caso da reconstrução da Libéria, no qual técnicas voltadas para a produção de ordem interna foram idealizadas e implementadas por atores 120 […] from form to substance, from the merely modern sovereign/subject to the appropriate expression of modernizing democracy, so as to intensify the contradiction between the rule affirming domestic jurisdiction and the rule affirming the need to include/exclude domestic jurisdictions on grounds of systemic integrity. 121 ―aims at creating visibility out of obscurity, transparency out of opacity, accountability out of corruption, efficiency out of redundancy, effectiveness out of aimlessness, rights out of abuses, rule of law out of unpredictability‖. 127 internacionais. Nesse sentido, a pretensa universalidade dos modelos não só deu azo à participação direta e multidimensional desses atores, como também possibilitou a enorme convergência entre as políticas desenvolvidas por eles no país, conforme mostrado no diagrama de distribuição das políticas de reconstrução na Libéria, no capítulo anterior (p.104). Paralelamente, o enquadramento técnico das questões governamentais levou à especialização dos atores envolvidos nas missões de paz, dedicados a alterar pequenas partes do quadro geral encontrado no país, sob coordenação da ONU. Tanto a especialização das agências, divididas entre OMP, assistência humanitária e assistência ao desenvolvimento, quanto a coordenação das atividades, realizada pela ONU, foram ilustradas pelo outro diagrama, também apresentado no capítulo anterior (p.106), que mostra a distribuição das organizações e agências que participam da reconstrução. 4.4 Segurança, desenvolvimento e transformação social na Libéria Para Mark Duffield (2001), como resultado do processo de globalização, ―[...] houve uma notável transformação de relações hierárquicas, territoriais e burocráticas de governo para relações mais poliárquicas, não territoriais e interligadas de governança‖ (p.11, tradução livre). 122 Tal transformação funcionaria como condição de possibilidade para a emergência de redes de governança global, bem como para uma nova articulação entre os discursos de segurança e desenvolvimento. Essa nova articulação discursiva seria marcada por dois processos que se complementam: por um lado, a reproblematização da segurança, na qual o subdesenvolvimento passou a ser entendido como perigoso; e, por outro, a radicalização do desenvolvimento, que passou a implicar a transformação das sociedades como um todo (DUFFIELD, 2001). Tanto a reproblematização da segurança quanto a radicalização do desenvolvimento podem ser claramente identificadas nos diagnósticos e tratamentos propostos pelas organizações e agências internacionais, e até pelo próprio governo nacional, em relação ao conflito na Libéria. A UNDAF (2003), por exemplo, defendeu a existência de uma relação de causalidade mútua entre subdesenvolvimento e conflito, que teria sido a responsável pela 122 ―[…] there has been a noticeable move from hierarchical, territorial and bureaucratic relations of government to more polyarchical, non-territorial and networked relations of governance‖. 128 violência e pelo agravamento dos problemas humanitários no país. De acordo com o documento, um ciclo vicioso entre conflito armado, proliferação de pequenas armas, alto índice de desemprego, especialmente entre os jovens, governança precária e o comércio ilícito de recursos minerais, como diamantes e madeira, que alimentavam o conflito, exacerbaram o espiral de violência e pobreza que impediu a resolução do conflito, a recuperação sustentada e o respeito pelo primado da lei e pelos direitos humanos. Combinados, o conflito e a pobreza levam ao subdesenvolvimento, que, por sua vez, promove mais conflito e mais pobreza. Assim, o trio formado por pobreza, conflito e subdesenvolvimento cria um jogo de ‗soma zero‘, no qual o desenvolvimento humano sustentável fica comprometido (UNDAF LIBERIA, 2003, p. 5, tradução livre). 123 Essa mesma relação entre subdesenvolvimento e conflito foi recuperada pelo governo da Libéria, em 2008, para descrever as causas do colapso do Estado nos anos anteriores. Baseado em dados do Banco Mundial, o governo traçou um paralelo entre exclusão e marginalização de parte da população das instituições de governança e do aproveitamento de recursos econômicos; governança precária; má administração dos recursos do país; corrupção; colapso econômico; e aumento das tensões políticas e da violência ao longo dos anos, culminando na explosão da guerra civil (LIBÉRIA, 2008). Essa relação foi ilustrada pelo Gráfico 8, reproduzido a seguir. 123 A vicious circle between armed conflict, the proliferation of small arms, a high level of unemployment, particularly among youths, weak governance, and the illicit trade of mineral resources, such as diamonds and timber, used to fuel the conflict have exacerbated a spiral of violence and poverty that have hindered conflict resolution, sustained recovery and respect for the rule of law and human rights. Combined, both conflict and poverty lead to underdevelopment, which in turn, promotes more conflict and more poverty. Accordingly, the trio of poverty, conflict, and underdevelopment conspire and create a ―zero-sum‖ game in which sustainable human development is ultimately compromised. 129 Gráfico 8: Performance econômica (evolução do PIB per capita em dólares norteamericanos) e tensão política na Libéria (1960-2005) Fonte: LIBÉRIA, 2008, p.14. Reforçando a causalidade, o governo, assim como a UNDAF (2003) ressaltam a relação entre os efeitos do conflito e o agravamento do quadro de subdesenvolvimento do país, constatado por meio de dados do FMI que demonstram a piora de todos os indicadores econômicos, bem como de provisão de serviços, que revelam a deterioração da infraestrutura (LIBÉRIA, 2008). A Tabela 1, reproduzida a seguir, reúne esses indicadores. TABELA 1 Valores adicionados por setor na Libéria (1987-2005), em dólares norte-americanos PIB Real Agricultura e Pesca Borracha Café Cacau Arroz Mandioca Outros Silvicultura Troncos e tábuas Carvão e Lenha Mineração e Garimpo Minério de Ferro Outros 1987 1167 368,7 59,9 0,9 5,9 117,1 57,4 127,6 56,6 34,4 22,2 124,9 116,2 8,7 2005 401,7 177,9 41,5 0,1 1,2 28,4 44 62,7 59 0 59 0,7 0 0,7 Redução (%) 65,6 51,8 30,7 90,8 79,5 75,7 23,3 50,9 -4,3 100 -166,2 94,4 100 91,9 130 Manufatura Cimento Bebidas e Cerveja Outros Serviços Água e Eletricidade Construção Comércio, Hotéis, etc Transportes e Comunicação Instituições Financeiras Serviços Governamentais Outros Serviços 86,9 23 52,5 11,4 529,9 18,2 39 71,5 89,5 141,8 129 40,9 51,7 14,9 33,7 3,2 112,3 2,7 8 19,2 27,6 10 31,5 13,3 40,5 35,5 35,9 71,8 78,8 85,3 79,4 73,1 69,2 93 75,6 67,4 Adaptado de: LIBÉRIA, 2008, p.16 Em ambos os documentos, a intervenção da ONU é descrita como uma oportunidade para quebrar o ciclo de subdesenvolvimento e conflitos e recolocar a Libéria no caminho da paz e do desenvolvimento sustentável. Para trilhar esse caminho, contudo, ―a sociedade propícia ao conflito que se encontra na Libéria precisa dar lugar a uma sociedade de paz, tolerância, justiça e acesso igual às oportunidades‖ (UNDAF LIBERIA, 2003, p.5, tradução livre). 124 Segundo Mark Duffield (2001), quando as modalidades de subdesenvolvimento são tomadas como perigosas, a relação entre segurança e desenvolvimento se modifica e a transformação das sociedades pela substituição de valores e modos de organização tradicionais pelos liberais torna-se condição fundamental para o estabelecimento de um tipo específico de paz, a saber, a paz liberal, que combina e mescla ‗liberal‘ (como nas doutrinas liberais políticas e econômicas contemporâneas) com ‗paz‘ (a atual predileção política com vistas à resolução de conflitos e à reconstrução social). Reflete o atual consenso de que a melhor abordagem para o conflito no Sul é um conjunto de medidas conectadas de melhoria, harmonização e, especialmente, transformação. Ainda que isso possa incluir a provisão de alívio imediato e assistência para a reabilitação, a paz liberal incorpora um humanitarismo novo, ou político, que dá ênfase a coisas como resolução e prevenção de conflitos, reconstrução de redes sociais, fortalecimento de instituições civis e representativas, promoção do primado da lei e reforma do setor de segurança no contexto de uma economia de mercado efetiva. Em muitos aspectos, ainda que 124 ―Liberia's conflict prone society has to give way to an enbling society of peace, tolerance, justice and equal access to opportunities‖. 131 contestada e longe de estar garantida, a paz liberal reflete uma agenda radical de desenvolvimento e transformação social (DUFFIELD, 2001, p.11, tradução livre).125 A paz liberal, portanto, pode ser entendida como um projeto político em si mesmo, cujo objetivo seria prevenir conflitos e ―transformar as sociedades disfuncionais e afetadas pela guerra que se encontram em suas fronteiras em entidades cooperativas, representativas e, especialmente, estáveis‖ (DUFFIELD, 2001, p.11, tradução livre). 126 A promoção e preservação dessa paz se dão pela atuação de complexos estratégicos, redes de atores ―estatais-não-estatais, militar-civis e público-privados na busca de seus objetivos‖ (DUFFIELD, 2001, p.12, tradução livre). 127 Nesse emaranhado de atores, encontram-se ―ONGs internacionais, governos, estabelecimentos militares, Instituições Financeiras Internacionais, companhias de segurança privada, Organizações Governamentais Internacionais, o setor privado, entre outros‖, que podem ser considerados ―estratégicos no sentido de perseguirem uma agenda radical de transformação social, interessados na estabilidade global‖ (DUFFIELD, 2001, p.12, tradução livre). 128 Essa nova concepção de paz sugere a consolidação de um nexo discursivo entre segurança e desenvolvimento, amarrado pela transformação das sociedades por meio do transplante de instituições e práticas de boa governança, informadas pelo corolário da democracia liberal. Inicialmente, a operação desse transplante seria feita pelas redes de atores chamadas por Duffield (2001) de complexos estratégicos. Contudo, a conclusão desse processo, e, de forma mais ampla, seu sucesso seriam evidenciados pela capacidade das estruturas governamentais de passar a formular demandas por meio dos padrões e canais institucionais criados pelos parceiros internacionais responsáveis pela reconstrução. Assim, a condução da conduta dos indivíduos por parte do governo teria que incorporar a arte da boa governança, como articulada internacionalmente, o que permitiria a esses países se 125 Combines and conflates ‗liberal‘ (as in contemporary liberal economies and political tenets) with ‗peace‘ (the present policy predilection towards conflict resolution and societal reconstruction). It reflects the existing consensus that conflict in the South is best approached through a number of connected, ameliorative, harmonizing and, especially, transformational measures. While this can include the provision of immediate relief and rehabilitation assistance, liberal peace embodies a new or political humanitarianism that lays emphasis on such things as conflict resolution and prevention, reconstructing social networks, strengthening civil and representative institutions, promoting the rule of law, and security sector reform in the context of a functioning market economy. In many respects, while contested and far from assured, liberal peace reflects a radical developmental agenda of social transformation. 126 ―[…] to transform the dysfunctional and war-affected societies that it encounters on its borders into cooperative, representative and, especially, stable entities‖. 127 ―[...] state-non-state, military-civilian, and public-private actors in pursuit of its aims‖. 128 ―[...] international NGOs, governments, military establishments, IFI‘s, private security companies, IGOs, the business sector, and so on. They are strategic in the sense of pursuing a radical agenda of social transformation in the interests of global stability‖. 132 recolocarem na confluência entre consolidação da paz, promoção do desenvolvimento e recuperação da capacidade de agência no sistema internacional. Na linguagem proposta pela Doutrina Capstone (2008), uma das evidências da chegada desse momento seria a elaboração de um documento, no qual o governo nacional eleito traduzisse a consolidação da paz e da segurança nos termos de uma Estratégia de Redução da Pobreza (PRS), reforçando o nexo entre segurança e desenvolvimento. Para lembrar a sucessão das fases de reconstrução descrita pela Doutrina – estabilização, consolidação da paz e recuperação e desenvolvimento a longo prazo – a Estratégia de Redução da Pobreza estaria na transição entre a segunda e a terceira fase, na qual, gradualmente, as rédeas do desenvolvimento deixam as mãos dos atores internacionais e são legadas ao Estado reconstruído (LIBÉRIA, 2008; LOPES; THEISOHN, 2003). Vale ressaltar que, mesmo que o processo de reconstrução contribua efetivamente para a melhoria da capacidade de gestão do Estado e para alguma recuperação econômica, a situação desses países permanece, em geral, bastante frágil. Dessa forma, quaisquer que sejam as políticas de desenvolvimento planejadas pelo Estado, sua implementação efetiva ainda carece, em larga medida, do suporte e dos recursos dos parceiros internacionais, sejam eles agências da ONU, organizações não governamentais, OIs, investidores privados ou doadores. Entretanto, as regras que balizam a atuação desses atores preveem, normalmente, uma lista de critérios que os países precisam preencher para se tornarem elegíveis para as políticas de desenvolvimento, a despeito das necessidades físicas ou sociais que possam apresentar (LOPES; THEISOHN, 2003). Baseado no conhecimento que dispõem sobre cada país e sobre a conduta de seus governos, esses atores selecionam aqueles que apresentam, pelo menos, um conjunto mínimo de elementos que participam da definição da condição de membros da sociedade internacional, o que indicaria sua capacidade de absorver os recursos provenientes das parcerias que possam firmar e utilizá-los para aprimorar suas técnicas de governo, consagrando-se como bons membros dessa sociedade. O status de bom membro seria medido, inicialmente, pelo avanço em relação a quatro metas, definidas como pilares da Estratégia de Redução da Pobreza: consolidação da paz e da segurança; revitalização da economia; fortalecimento da governança e do primado da lei; e reabilitação da infraestrutura e da provisão de serviços básicos (LIBÉRIA, 2008). Quanto maiores os avanços, maior a autonomia do Estado para negociar os termos de sua relação com os atores internacionais. Nesse sentido, os Estados teriam sua capacidade de agência progressivamente restituída (ou reconstruída), o que lhes permitiria traduzir suas particularidades em termos de demandas a 133 serem consideradas na formulação de projetos e no fechamento de acordos de financiamento, inclusive no que concerne à negociação das condicionalidades e salvaguardas normalmente impostas (LOPES; THEISOHN, 2003). Nas negociações com o Banco Mundial, por exemplo, um pais ganha mais recursos quanto melhor for a implementação de suas políticas sociais e econômicas na promoção de crescimento econômico e redução da pobreza. Entretanto, esse critério normalmente funciona contra os países que se recuperam de conflitos, que tipicamente tem desempenho ruim na implementação dessas políticas, justamente no momento em que mais precisam de recursos financeiros. O Banco, portanto, desenvolveu um novo conjunto de indicadores mais condizente com a situação dos países pós-conflito, como segurança humana e progresso rumo à paz e à governança (ONU, 2003, p.188, tradução livre). 129 A formulação da Estratégia de Redução da Pobreza (PRS) pelo governo da Libéria, como era de se esperar, ocorreu quando as atividades da missão de paz no país já encontravam-se em estágio avançado de implementação, em abril de 2008. Para garantir que as metas definidas atendessem aos critérios estabelecidos por seus parceiros em potencial, como o Banco Mundial, o processo de elaboração da PRS foi marcado por inúmeras consultas, realizadas tanto com a população local quanto com atores internacionais (LIBÉRIA, 2008). As demandas apresentadas por ambos os grupos eram repassadas para um comitê responsável por traçar as linhas gerais das políticas de reconstrução e desenvolvimento, composto pela presidente do país; representantes dos ministérios das Finanças, Defesa, Planejamento e Assuntos Econômicos e Serviços Públicos; ONU; Banco Mundial; Fundo Monetário Internacional; União Africana; Comissão Européia; ECOWAS; e pelos governos dos Estados Unidos e da China (LIBÉRIA, 2008, p.42). Os quatro pilares foram relacionados ao avanço na implementação das Metas de Desenvolvimento do Milênio, à garantia da segurança e à melhoria dos indicadores de governança (LIBÉRIA, 2008). Segundo a Estratégia, paz e segurança são pré-requisitos para o progresso econômico sustentado e a redução da pobreza. Sem paz, o crescimento econômico e a redução da pobreza não procedem. Da mesma maneira, a paz e a segurança nacional serão severamente ameaçadas se a pobreza crônica continuar a crescer. A paz sustentável dependerá, em larga medida, da habilidade de criar oportunidades econômicas inclusivas e prover serviços sociais básicos em todo o país. De forma similar, a infraestrutura básica é necessária para o crescimento mais amplo e para a provisão de serviços nação afora, e provê as bases para sistemas descentralizados de governança. A 129 A country gets more resources the better its implementation of economic and social policies that promote growth and poverty reduction. This often works against post-conflict countries, however, since they typically have performed poorly on this front at the very time they most need financial resources. The Bank, therefore, devised a new set of indicators better tailored for post-conflict countries, such as human security and progress towards peace and governance. 134 governança e o primado da lei garantem as bases institucionais para o desempenho econômico consistente e alívio da pobreza, e a justiça necessária para assegurar que as queixas sejam resolvidas por meio do diálogo dentro do sistema político, como oposição à violência (LIBÉRIA, 2008, p.44, tradução livre). 130 Entre os esforços empreendidos pelo governo da Libéria para a melhoria da governança no país, merece destaque o Programa de Governança e Gestão Econômica (GEMAP) 131 , desenvolvido, desde 2006, em parceria entre o Governo da Libéria (GOL) e a comunidade internacional 132 ―[...] para garantir que os fundos das instituições da Libéria e os recursos naturais cheguem ao governo, que o governo administre esses fundos de maneira correta e transparente, e os empregue com efetividade na reconstrução do país‖ (GEMAP, 2009, p.1, tradução livre). 133 Uma das principais estratégias do Programa é o recrutamento de consultores internacionais para trabalhar nos escritórios das principais instituições da Libéria134, para treinar líderes locais, construir capacidades, e produzir relatórios sobre o funcionamento dos sistemas de governança no país, especialmente sobre receitas e gastos públicos. A expectativa é que o GEMAP ―[...] ajude a promover maior confiança, do povo da Libéria e da comunidade internacional no governo‖ (GEMAP, 2009, p.1, tradução livre) 135, e possibilite que os recursos e investimentos retornem à Libéria, como forma de patrocinar as políticas de desenvolvimento idealizadas pelo governo do país. Para Lopes e Theisohn (2003), o exercício de controle e comando sobre as atividades de desenvolvimento, das ideias aos resultados, garantiria aos Estados a propriedade (ownership) sobre seu futuro e marcaria a passagem da ajuda para o desenvolvimento. Ainda segundo os autores, essa ―[...] propriedade significa que os governos internalizaram as reformas de tal maneira que estão preparados para defendê-las diante do público doméstico‖ 130 Peace and security are pre-requisites for sustained economic progress and a reduction of poverty. Without peace, economic growth and poverty reduction cannot proceed. Likewise, peace and national security will be severely threatened if chronic poverty continues to rise. Sustainable peace will largely depend upon the ability to create inclusive economic opportunities and deliver basic social services throughout the country. Similarly, basic infrastructure is required for broad-based growth and delivery of services nationwide, and provides the basis for decentralized governance systems. Governance and the rule of law provide the institutional base for strong economic performance and poverty alleviation, and the justice that is needed to ensure that grievances are settled through dialogue within the political system, as opposed to violence. 131 Governance and Economic Management Program. 132 Os parceiros do GEMAP são os mesmos que compõem o comitê de reconstrução na formulação da Estratégia de Redução da Pobreza, com exceção do governo da China (GEMAP, 2009). 133 ―[…] to ensure that the funds from Liberia‘s institutions and natural resources flow into the government, that the government manages those funds well and transparently, and spends it effectively on rebuilding the country‖. 134 Até hoje, os consultores do GEMAP trabalharam no Ministério das Finanças (MOF); Banco Central da Libéria (CBL); Bureau de Orçamento (BOB); Ministério da Fazenda, Mineração e Energia (MLME); Autoridade Portuária Nacional (NPA); Corporação de Refino de Petróleo da Libéria (LPRC); Comissão Geral de Auditoria (GAC); Agência de Serviços Gerais (GSA); e Comissão de Governança e Reforma (GRC), entre outros órgãos governamentais (GEMAP, 2009). 135 ―[…] helps provide the Liberian people and the international community greater confidence in the government‖. 135 (LOPES; THEISOHN, 2003, p.30, tradução livre). 136 Em outras palavras, isso significa que o governo estaria preparado para participar da transformação social no país e se recolocar como membro ativo da sociedade internacional, não mais como receptor passivo da ajuda. Assim, na carta que abre a Estratégia de Redução da Pobreza, a presidente da Libéria, Ellen Johnson Sirleaf, afirma que as políticas ali previstas são ―[...] verdadeiramente nossas – cultivadas em casa, por todos nós‖ (LIBÉRIA, 2008, p.7, tradução livre) 137 , como resultado do processo de reconstrução do país e de sua entrada no campo de desenvolvimento, e pede que os parceiros internacionais ―[...] redirecionem suas políticas e programas, de acordo com a Estratégia‖ (p.7, tradução livre). 138 Como a reconstrução da Libéria foi considerada um caso de relativo sucesso, o esforço do governo de recuperar a propriedade sobre o processo de desenvolvimento do país recebeu um voto de confiança da sociedade internacional. Como evidência disso, a nova UNDAF elaborada pelo Grupo de Desenvolvimento das Nações Unidas (UNDG) para atender às necessidades da Libéria, levou em conta as propostas da PRS e foi formulada para auxiliar o governo na consecução das metas propostas. A primeira UNDAF regular da história do país foi aberta por uma carta do Ministro do Planejamento e dos Assuntos Econômicos da Libéria, Amara Konneh, na qual reafirmava o comprometimento do povo e do governo com a paz, a segurança e a realização das Metas de Desenvolvimento do Milênio, para, em seguida, pedir apoio internacional para a implementação dos projetos da PRS (UNDAF LIBERIA, 2008). Em seguida, a Representante Especial do Secretário Geral e coordenadora da UNMIL, Ellen Margrethe Løj, atestou o sucesso do trabalho de reconstrução até aquele momento e o comprometimento do governo, além de ter ressaltado a oportunidade histórica, representada pela PRS, de a Libéria retomar o caminho da paz e do desenvolvimento. As palavras da Representante foram reforçadas pelos representantes das agências da ONU no país 139 , que ainda se comprometeram a contribuir para o sucesso da PRS. Com a participação do governo e o aval dos parceiros internacionais, a UNDAF (2008) foi pensada para dar suporte à PRS, que, de acordo com o documento, é composta por ―[...] estratégias de desenvolvimento sensíveis à questão do conflito e que procuram tratar suas causas estruturais, ao mesmo tempo em que asseguram que o desenvolvimento contribua e equacione, de forma séria, os desafios da construção da paz‖ (UNDAF LIBERIA, 2008, p.5, 136 ―[…] ownership will be taken to mean that governments have internalized reforms to such extent that they are prepared to defend them before their domestic constituencies‖. 137 ―[…] truly ours – home grown by all of us‖. 138 ―[…] refocus their policies and programs in alignment with the Strategy‖. 139 Assinaram o documento os representantes da FAO; UNESCO; WFP; OIT; UNFPA; OMS; OIM; ACNUR; BM; EACDH; UNICEF; OCHA; UNAIDS; UNIFEM; PNUD; UNOPS. 136 tradução livre). 140 Além disso, a UNDAF pretendia auxiliar reformas essenciais, além de assistir o processo de transferência definitiva das responsabilidades da UNMIL para o governo nacional, que deve ser concluído em 2010, ainda no período de vigência da UNDAF, que se estende até 2012 (UNDAF LIBERIA, 2008). A convergência entre os objetivos da PRS (LIBÉRIA, 2008), da UNDAF (2008) e as Metas de Desenvolvimento do Milênio 141 pode ser observada no Quadro 10, que resume esses objetivos. Pilares da PRS Objetivos da UNDAF Consolidação da Paz e da Segurança Paz e Segurança Revitalização da Economia Desenvolvimento Sócioeconômico Equitativo Fortalecimento da Governança e do Primado da Lei Boa Governança e Primado da Lei Reabilitação da Infraestrutura e Provisão de Serviços Básicos Educação e Saúde _ HIV/AIDS: Prevenção, Tratamento e Cuidados Metas de Desenvolvimento do Milênio Declaração do Milênio: paz, conflito e desarmamento 1. Erradicar a fome a pobreza extrema 3. Promover igualdade de gênero e empoderamento das mulheres 7. Assegurar sustentabilidade ambiental 8. Criar uma parceria global para o desenvolvimento De acordo com a Declaração do Milênio, intervenções relacionadas à boa governança têm impacto em todas as metas 2. Educação Universal Primária 3. Promover igualdade de gênero e empoderamento das mulheres 4. Reduzir a mortalidade infantil 5. Reduzir mortalidade materna 6. Combate ao HIV, AIDS, Malária e outras doenças Quadro 10: Principais objetivos da PRS, UNDAF e sua relação com as Metas de Desenvolvimento do Milênio. Adaptado de: LIBÉRIA, 2008; UNDAF LIBERIA, 2008. Como foi discutido, a implementação da UNDAF (2008-2012) acompanharia a conclusão do trabalho de reconstrução e o início de um relacionamento mais direto entre a Libéria e os parceiros do desenvolvimento. Na linguagem das organizações internacionais, o 140 ―[…] conflict-sensitive development strategies that address the structural causes of conflict, while at the same time ensuring that development contributes to and seriously addresses peacebuilding challenges‖. 141 A relação entre seus objetivos e as Metas de Desenvolvimento do Milênio é descrita na própria UNDAF (2008). 137 país teria dado mais um passo no caminho que leva do conflito ao desenvolvimento, da mera condição de objeto da ajuda para a de sujeito da sociedade internacional e representante legítimo dos anseios de seu povo perante essa sociedade. Segundo essas organizações, esse seria o passo a ser dado pela Libéria, agora, ainda que o desenvolvimento e o pertencimento pleno levem mais tempo. A Figura 7, retirada da UNDAF (2008), resume todo o processo de reconstrução empreendido pela ONU, agências e organizações internacionais, ONGs, setor privado e doadores na Libéria e ilustra essa ideia de passagem da guerra para a paz, da reconstrução para o desenvolvimento. Figura 7: Processo de reconstrução da Libéria e a formulação da UNDAF Fonte: UNDAF LIBERIA, 2008. Acompanhando a linha do tempo (eixo inferior), observam-se os apelos apresentados pelos atores vinculados à assistência humanitária (CAP, CHAP), situados no início do processo; um pouco acima, os projetos apresentados individualmente pelas agências da ONU e pelo time da organização no país (CCA); e, finalmente, os documentos de planejamento do próprio governo nacional, que tem na PRS sua expressão máxima. A seta no centro da figura leva do conflito e dos esforços iniciais de recuperação do pessoal da ajuda, em 2004, ao desenvolvimento descentralizado, relacionado às Metas do Milênio e coordenado pelo governo, como representante de todos os cidadãos, situado no futuro. Em meio a tudo isso, fazendo mediação entre o passado e o futuro, entre as prioridades do governo e os padrões 138 internacionais de condução da conduta, encontra-se a UNDAF e, no limite, as propostas de desenvolvimento apresentadas pela sociedade internacional por meio da ONU. Essa posição reforça o nexo entre segurança e desenvolvimento, citado anteriormente e sugere um novo papel para as políticas de desenvolvimento, qual seja, a expansão do modo de vida liberal para outros espaços mediante suas instituições e práticas de boa governança e de mercado; e a garantia última para a manutenção da paz e da segurança no sistema internacional. De acordo com Zanotti (2006), ―a extensão de mecanismos de governo consistentes, claros e contínuos não é apenas o principal fundamento para a ‗boa governança‘ de cada Estado em particular, mas é também uma precondição para a ascensão a estruturas supranacionais‖ (p.13). O acesso a essas estruturas sinaliza o passo fundamental para que as comunidades políticas possam sair de um caminho de guerra e iniciar um caminho de paz. Seguindo essa crença, organizações internacionais comprometidas com tarefas de governamentalização, especialmente aquelas em torno da órbita das Nações Unidas, passaram a assumir uma posição estratégica na (re)definição de quem já estivesse no caminho da paz – poderia ser beneficiado por montantes significativos de financiamento para o desenvolvimento –; já os que estivessem fora desse caminho, demandariam cuidados especiais no âmbito de um intensivo programa de normalização. Para além de uma simples divisão de trabalho, as múltiplas dimensões que constituem essa passagem entre os momentos de estabilização, consolidação da paz e desenvolvimento sustentado podem ser relidas como uma linha temporal, na qual cada etapa representa a adição de um novo conteúdo ao processo de modernização. Tal divisão temporal, além de conduzir esses novos seres em direção à atualização de conteúdos programáticos, relaciona a superação de cada estágio ao alcance de um conjunto de direitos e deveres que autoriza a capacidade de agência desses seres na sociedade internacional. Se as operações de paz se encarregam de incutir procedimentos básicos de vida civilizada – construção de sujeitos – a cooperação para o desenvolvimento supõe a observância a esses procedimentos como prerrequisito de uma troca que, por um lado, irá atualizar os conteúdos desses sujeitos/seres; por outro, ampliar a massa de estados e cidadãos capazes de agir de forma livre e responsável – desenvolvimento de agentes. 139 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS O trabalho procurou abordar as principais transformações normativas, institucionais e operacionais relacionadas às operações de manutenção da paz a partir da Guerra Fria, bem como a tradução dessas diretrizes gerais para a linguagem de seus operadores no campo, como forma de fornecer evidências que permitissem repensar o processo mais amplo de mudança estrutural do próprio sistema internacional no período. Nesse sentido, é importante considerar que a descrição tanto da reorganização das atividades da ONU relacionadas à manutenção da segurança e da estabilidade, quanto do processo de reconstrução do Estado na Libéria, que perpassou os três capítulos, não foi utilizada com o intuito de avaliar a capacidade da ONU de realizar as promessas e objetivos estabelecidos por ela, como, por exemplo, aqueles implicados no conceito de segurança humana; tampouco a qualidade das instituições construídas na Libéria, ou a solidez da paz implantada no país. Pretendeu-se, de fato, identificar as diretrizes e os meios de atuação dos agentes internacionais, na tentativa de acessar o processo pelo qual a própria ideia de paz vem sendo reconstruída no sistema internacional. A identificação dos componentes da paz e dos principais elementos a eles relacionados, que foi possível, especialmente, por meio da análise da operação desdobrada na Libéria, evidenciou a incorporação de novas dimensões, como o desenvolvimento ou os direitos humanos, à agenda da segurança internacional, sugerindo uma redefinição do significado de paz e dos caminhos que levariam a ela, articulados em torno dos diagnósticos e profilaxias previstos no corolário da Paz Democrática. As atividades relacionadas à consolidação da paz, como mostradas no diagrama construído no segundo capítulo, apontam para a superação da noção de equilíbrio de poder como a principal maneira de garantir a perpetuação dessa paz no sistema internacional, e para sua progressiva substituição por uma abordagem que aposta na possibilidade de difundi-la pela mudança dos regimes de governança. Essa mudança seria uma forma de induzir a transformação das sociedades afetadas pelo conflito em sociedades democráticas, nas quais o respeito a direitos considerados fundamentais e a operação do livre mercado trabalhariam juntas no sentido de prevenir a ocorrência (ou a recorrência) de conflitos violentos. Assim, propor um nexo entre segurança, assistência humanitária e assistência ao desenvolvimento permite compreender o papel da ONU na reconstrução de Estados como expressão da própria reconfiguração da noção de paz no sistema internacional, e não como 140 idealizadora de métodos e técnicas de combate efetivo às causas de conflitos com dimensões potencialmente internacionais. Entretanto, esse passo lógico só é possível com o recurso a ideias e conceitos que permitam abordar as propostas de reordenamento das relações internacionais de forma mais ampla, como o de governamentalidade, que oferece um entendimento alternativo, pautado na reconfiguração dos atributos e da forma de exercer a soberania pela inclusão de outros elementos. Na linguagem das organizações internacionais, o processo de governamentalização teria sua interface na ideia de ownership, conforme apresentada no terceiro capítulo, que evidencia a necessidade de assimilação desses novos atributos como condição para a restituição da capacidade de agência no sistema internacional. Finalmente, vale ressaltar que casos como o da Libéria, no qual atores internacionais autorizados entram em cena para construir, ou reconstruir, sujeitos de sua sociedade, podem ser tomados, com base na abordagem de Foucault, como situações-limite, que têm lugar nas fronteiras do sistema internacional como se apresenta hoje, participando do traçado das linhas que separam aqueles que fazem ou não parte dele, e da redefinição do tratamento reservado a cada um deles. Tais situações seriam nichos privilegiados no sentido de permitir ao observador perceber alguns dos embates que participam da construção de seu próprio tempo e repensá-los com uma postura crítica. 141 REFERÊNCIAS ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS. Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa. 5.ed. São Paulo: Global, 2009. 976p. ADEBAJO, Adekeye. Liberia’s Civil War: Nigeria, ECOMOG and Regional Security in West Africa. London: Lynne Reinner Publishers, 2002. ANING, Emmanuel Kwesi. 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Orlando: Harcourt College Publishers, 2002. 162 APÊNDICE – Lista de Organizações da Figura 6 AASMAM - Anti- AIDS/STD/Malaria Awareness Movement Inc ACBF - African Capacity Building Foundation ACDI/VOCA - (ONG norte-americana) ACF - Action Contre la Faim ACTED - Agency for Technical Cooperation and Development ADB - African Development Bank ADEN - African Development Network (ONG local) ADRA - Adventist Development and Relief Agency AEL - Association of Environmental Lawyers AEL - Association of Evangelical of Liberia AFELL - Association of Female Lawyers of Liberia Africare AGENDA - Actions for Genuine Democratic Alternatives AGRHA - Action for Greater Harvest AGROSPHERE AHA - African Health Assistance AI - Amnesty International ANDP - Aid for the Needy Development Programme ANPPCAN - African Net for the Prevention & Protection against Child Abuse and Neglect ANPPCAN - African Network for the Prevention & Protection Against Child Abuse ARC - American Refugee Committee-International ASUR (ONG Francesa) AU - African Union AVSI - Associazione Volontari Il Servizio Internazionale (Itália) AWEPA - Association for European Parliamentarians for Africa CADI - Children Aid Direct CAI - Church Aid Inc CAL - Community Aid Liberia CAM - Christian Aid Ministries CARD - Comunity Assistance for Rural Development (ONG local) 163 CARE CARITAS Catholic Hospital CBOs - Community Based Organizations CCC - Concerned Christian Communities CCF - Christian Children's Fund CEDE - Center for Democratic Empowerment CEEP - Center for Environmental Education and Protection CEMESP - Center for Media Studies & Peacebuilding CEMIR - Conférence Episcopale pour les Migrants et les Réfugiés CENAP - Centre d'Alerte et de Prévention des Conflits CENTAL - Center for Transparency & Accountability in Liberia CES - Catholic Education Secretariats CESP - Christian Empowerment & Sustainable Program CGD - Center for Global Development CHAL - Christian Health Association of Liberia CHERISH International Child Art CHS - Catholic Health Service CI - Conservation International CIRID - Centre Independant de Recherches et d'Initiatives pour le Dialogue CISV - Communita Impregno Servizio Volontariato CIVICUS - World Alliance for Citizen Participation CJPC - Catholic Justice and Peace Comission COBEC-AIDS - Community-Based Education and counselling for HIV/AIDS CONCERN Worldwide CONWASA - Concern Women Against the Spread of AIDS (ONG local) COOPI - Cooperazione Internazionale (ONG italiana) CORD (ONG do UK) Cordaid (ONG Holanda) CPAR - Canadian Physicians for Aid and Relief CPD - Center for Peacebuilding and Democracy CRID - Center for the Rehabilitation of the Injured and Disabled 164 CRS - Catholic Relief Service Crusaders for peace CS - Combat Stress (ONG local) CSOs - Civil Society Organizations CTCCR - Center for Trauma Counseling and Conflict Resolution CUAMM - Medici con l'Africa Cuamm (ONG italiana) CUSD - Community Union for Sustainable Development CUSS - Community United for Sanitation Services CVT - Center for Victims of Torture DEN'L - Development Education Network for Liberia DFID - Department for International Development - United Kingdom DKH - Diakonie Katastrophenhilfe Don Bosco Homes DRC - Danish Refugee Council DWHH - Deutsche Welthungerhilfe ECOWAS - Economic Community of West African States ECREP - Evangelical Children Rehabilitation Programme EFA - Environmental Foundation for Africa EMSF - Enfance Meurtie Sans Frontiere EPA - Environmental Protection Agency EQUIP ERADRO - Environment Relief and Development Research Organization ERF Emergency Response Fund ERS - Emergency Rehabilitation Services (ONG local) EU - European Union FACE - Farmers Associated to Conserve the Environment FAO - Food and Agriculture Organization of the United Nations FAWE - Forum for African Women Educationalist FCA - Finn Church Aid FFI - Fauna and Flora International FHRD - Foundation for Human Rights and Democracy FIND - Foundation for International Dignity FLY - Federation of Liberian Youth 165 FOHRD - Foundation for Human Rights & Democracy FOL - Friends of Liberia FPAL - Family Planning Association of Liberia FRC - Finnish Refugee Council GAA - German Argo Action / Deutsche Welthungerhilfe GFTAM - Global Fund for Tuberculosis, HIV/AIDS and Malaria Girls in Crisis Gold Child (ONG local) Goya Medical Association GTZ - Gesellschaft Fűr Technische Zusammerenarbeit GWSS - Global Water Supply and Sanitation HDF - Human Development Foundation HDP - Human Development Program HELP Liberia Foundation HI - Hope International HR - Horn Relief HRGSH - Human Rights Group to Save Humanity HRPF - Human Rights and Protection Open Forum HU - Humanity United Humanist Watch IAS - Initiative pour une Afrique Solidaire IAVE - International Association for Volunteer Effort Ibis Education for Development ICG - International Crisis Group ICRC - International Committee of the Red Cross ICTJ - International Center for Transitional Justice IFESH - International Foundation for Education and Self Help IFRC - International Federation of Red Cross and Red Crescent Societies ILO - International Labour Organization IMC - International Medical Corps IMC - International Missionaries of Charity IMDD - Institute for Media Development and Dignity IMF - International Monetary Fund 166 INTERSOS - Organizzonazione Umanitaria per L‘emergenza IOM - International Organization For Migration IRC - International Rescue Committee IRD - International Relief and Development JFK Hospital JSI - John Snow, Inc. JUWADA - Julijuah Ward Development Association JVC - Jesuit Volunteer Corps LAPS - Liberia Association of Psychosocial Services (ONG local) LATRU - Lakayta Township Resettlement Union (ONG local) LCDF - Liberia Community Development Foundation LCIP - Liberian Community Infrastructure Program LDI - Liberia Democratic Institute LEAP - Local enterprise assistance programme LEHSO (ONG local) LIFE - Liberia Indigenous Forum for the Environment LINFU - Liberia National Farmers Union LINNK - Liberian NGOs Network LIURD - Liberia Islamic Union of Reconstruction and Development LMDA - Liberia Medical and Dental Association LNGG - Liberia National Girls Guides LNRC - Liberia National Red Cross LOIC - Liberia Opportunities Industrialization Center LUHWASA - Liberians United Humanitarian Water & Sanitation Agency LUSH - Liberians United to Save Humanity LWF - Lutheran World Federation LWI - Liberian Women's Initiative LWMAC - Liberian Women Media Action Committee MALAO - Movement Contre les Armes Légerès em Afrique de l'Ouest (ONG Senegal) MARWONET - Mano River Women's Peace Network MC - Mercy Corps MCI - Mines Clearance International MDA - Médecins d'Afrique 167 MDM - Medicins du Monde Medica Mondiale - (ONG alemã) MENTOR - Malaria Emergency and Technical Operational Response MERCI - Medical Emergency Relief Cooperative International MERLIN - Medical Emergency Relief International MOSWOM - Maryanne's Outreach for Single Women and Mothers MRU - Mano River Union MSF - Médecins Sans Frontières MSG - Management Steering Group MTI - Medical Teams International MUSH - Men United to Save Humanity NARDA - New African Research and Development Agency New Era Integrated Agriculture and General Construction NFPR - National Federation for Peacebuilding and Reconciliation NMC - National Muslim Council NRC - Norwegian Refugee Council NUOD - National Union of the Organization of the Disable NWMTI - Northwest Medical Teams International (ONG cristã) OCAM - Organisation for Children and Adolescent Mothers OCHA - Office for the Coordination of Humanitarian Affairs OCPH - Organisation Catholique pour la Promotion Humaine OFDA - Office for Disaster Assistance (ONG norte-americana) OHCHR - Office of the High Commissioner of Human Rights OSIWA - Open Society Initiatve for West Africa OXFAM PAP - Prisioners Assistance Programme PARACOM (ONG local) PBRC - Peace Building Resource Center PCG - Protection Core Group Phebe Hospital PMU - Pentecostal Mission Unlimited Inter-life POCAL - Pollution Control Association of Liberia PRECA - Prisioner Rehabilitation & Empowerment 168 PSI - Population Services International PU - Premier Urgence PUL - Press Union of Liberia PWJ - Peace Winds Japan READ - Rural Economic & Agricultural Development Corp Refugee Care SCF - Save the Children Fund SCNL - Society for the Conservation of Nature of Liberia SDA - Service and Development Agency SDC/SHA - Swiss Agency for Development and Cooperation/Swiss Humanitarian Aid Unit SDP - Sustainable Development Promoters SECADEV - Secours Catholique et Developpement SEWODA - Southeastern Women Development Association SFCG - Search for Common Ground Smile Africa Solidarité - Aide Humanitaire d'Urgence SPI - Samaritan's Purse International Stichting Vluchteling Susukuu (ONG local) Swedish Civil Contingencies Agency (MSB) TCC - The Carter Center TEARFUND (Christian org) THINK - (ONG local) Trocaire - (ONG irlandesa) UCCA-AIDS - United Christians Campaigning Against AIDS UMCOR - United Methodist Church Committee on Relief UNAIDS - Joint United Nations Programme on HIV/AIDS UNDEF - United Nations Democracy Fund UNDP - United Nations Development Programme UNDSS - United Nations Department of Safety and Security UNEP - United Nations Environment Programme UNESCO - United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization 169 UNFPA - United Nations Populations Fund UNHABITAT - United Nations Human Settlements Programme UNHCHR - United Nations High Commissioner for Human Rights UNHCR - United Nations High Commissioner for Refugees UNICEF - United Nations Children's Fund UNIDO - United Nations Industrial Development Organization UNIFEM - United Nations Development Fund for Women UNMAS - United Nations Mine Action Service UNOPS - United Nations Office for Project Services UNSECOORD - United Nations Security Coordinator US Embassy USAID - United States Agency for International Development VETAID VIA - Visions in Action WACSI - West Africa Civil Society Institute WAH - Women Against Hunger WANP - West Africa Network for Peacebuilding - Liberia WB - World Bank Group: WB, IBRD, IFC, MIGA* WDB - World Development Bank WFP - World Food Programme WHDN - Women's Health Development Network WHO - World Health Organization WIPNET - Women in Peacebuilding Network WLCU - World Lebanese Cultural Union WONGOSOL - Women NGO Secretariat of Liberia WR - World Relief WVI - World Vision International YAEHD - Youth Aid Education Health & Development Liberia YAI - Youth Action International YMCA - Young Men's Christian Association YOCAD - Youth Capacity Development International (ONG local) YUSUD - Youth United for Sustainable Development YWCA - Young Women Christian Association 170 ZOARC - Zoa Refugee Care ZODWOCA - Zorzor District Women Care (ONG local)