O SIGNIFICADO DO ENSINO DE BIOLOGIA PARA OS
ALUNOS DA EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS
Maikon dos Santos Silva1
Mirian Pacheco Silva2
RESUMO: Muitos alunos da Educação de Jovens e Adultos não relacionam a Biologia com o seu
cotidiano e não reconhecem as relações da Biologia com as outras disciplinas. Com o objetivo de
diagnosticar as percepções dos alunos da EJA sobre o ensino de Biologia, e analisar a importância da
educação científica neste nível de ensino, desenvolvemos esta pesquisa qualitativa. Como metodologia
realizamos entrevistas semi-estruturadas com oito alunos do Ensino Médio, na modalidade EJA. Como
resultados parciais verificamos que a compreensão destes sobre a contextualização realizada pelos
professores é superficial, eles pouco contribuem para as discussões em sala de aula e não revelam
clareza em identificar a contribuição do ensino de Biologia para a sua vida cotidiana.
PALAVRAS-CHAVES: Educação de Jovens e Adultos, Educação Científica, Ensino de Biologia.
INTRODUÇÃO
Um dos problemas mais comuns do ensino de Biologia, no Brasil, se relaciona com uma
apresentação dos conteúdos de forma segmentada, onde normalmente ocorre pouca inter-relação
entre os diversos conteúdos trabalhados, ou entre os conteúdos trabalhados e o cotidiano
(MACEDO, 2005). O trabalho em sala de aula continua marcado profundamente pelo conteudismo
e a consequência disso é a descontextualização e a ausência de relações com as demais disciplinas
do currículo (TEIXEIRA, 2003).
Essa forma de ensinar provoca nos alunos uma visão ingênua da Ciência e distante da
realidade do trabalho científico. Muitos dos antagonismos e conflitos que surgem durante a
construção do conhecimento científico são omitidos nas aulas. Além disso, a Ciência e os seus
autores são ensinados como algo neutro e desinteressado. Esses fatores provocam a ineficiência do
ensino de Ciências. Uma tentativa de romper com esse modelo tradicional surgiu na década de 1970
a partir do movimento CTS (Ciência, Tecnologia e Sociedade) que propõe uma forma diferenciada
de desenvolvimento do ensino de Ciências. No artigo de Auler e Bazzo (2001) alguns objetivos
desse movimento são citados:
1
Universidade Federal de Goiás [email protected]
2 Universidade Federal de Goiás [email protected]
1
Promover o interesse dos estudantes em relacionar a Ciência com as aplicações tecnológicas e os
fenômenos da vida cotidiana, abordar o estudo daqueles fatos e aplicações científicas que tenham
uma maior relevância social, abordar as implicações sociais e éticas relacionadas ao uso da Ciência
e da tecnologia e adquirir uma compreensão da natureza da Ciência e do trabalho científico.
Embora haja controvérsia entre os objetivos da alfabetização cientifica e do movimento
CTS, uma questão parece ser consenso entre os autores: os objetivos apontam para a formação de
um educando apto a exercer cidadania. Assim, é preciso romper com o modelo tradicional de
educação científica para que possamos formar cidadãos com autonomia de decisão, capazes de
interpretar as relações entre a Ciência a Tecnologia e a Sociedade, aptos a participar de discussões
sobre Ciência e Tecnologia de modo a tornar as decisões sobre esses termos mais democráticas.
(TEIXEIRA 2003, apud SANTOS e SCHNETZLER, 1997)
Os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) apontam como um dos principais objetivos
do ensino de Ciências Naturais a compreensão do raciocínio científico trazendo a capacidade de
observar fenômenos, interpretá-los e propor explicações. São propostos também o desvinculo entre
o senso comum e o pensamento científico. Para que esses objetivos sejam alcançados, uma das
preocupações mais recorrentes é envolver elementos do cotidiano no processo de ensino e
aprendizagem. Porém para que isso ocorra é necessário que o professor seja conhecedor da
realidade de seus alunos.
Neste sentido, algumas perguntas ligadas à Educação de Jovens e Adultos nos instigam:
Como os alunos contribuem para que aconteça a contextualização em sala de aula? Qual o
significado que os alunos atribuem ao conteúdo de Biologia? Quais são as contribuições do ensino
de Biologia para a vida cotidiana dos alunos? Nosso objetivo neste artigo é analisar as percepções
dos alunos da EJA sobre o ensino de Biologia, e analisar a importância da educação científica neste
nível de ensino
EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS
A Educação de Jovens e Adultos (EJA), compreendida como uma modalidade de ensino
voltada para um público que não estudou no tempo regular, atende a uma demanda significativa
da população. Na maior parte das vezes, esse público busca alcançar, por meio da formação, a
inserção ou permanência no mercado de trabalho, melhores salários ou a possibilidade de ter
condições de ingressar no ensino superior, visando à conquista de uma melhor qualidade de vida.
O que se observa na maioria das salas de aula é uma heterogeneidade em relação aos alunos que
participam do curso, em termos de idade, cultura, gênero, cor, origem social e principalmente
trajetória de vida.
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Na escola, a heterogeneidade existente entre os alunos indica que ela não é simplesmente
um espaço onde se busca o acúmulo de conhecimentos teóricos, mas também um local em que
ocorre uma série de vivências. Dessa forma, é possível haver aprendizado sem a interferência direta
do professor ou dos conhecimentos teóricos. Esse conceito muitas vezes é obscuro no pensamento
dos alunos já que, motivados talvez por fatores históricos, identificam a escola como somente um
dos meios, senão o único, de alcançar ascensão social. Isso pode ser percebido através de relatos
dos próprios estudantes que afirmam perceberem, após um tempo de retorno para a escola,
mudanças nas suas relações com os familiares, na sua postura social, nas relações interpessoais e
aumento de auto-estima, além da elevação profissional (COURA, 2007).
Os alunos, ao regressar aos estudos através da EJA, trazem consigo um arcabouço de
conhecimentos da experiência que produzem diferentes entendimentos sobre o conceito de escola.
Essa diversidade de conceitos pode gerar diferentes expectativas em relação ao curso e estas vão ao
encontro dos projetos de vida de cada um. Isso facilita a aprendizagem dos conhecimentos
científicos, ou, em alguns casos, dificulta esse aprendizado. Segundo Coura (2007 apud
DAYRELL, 1996):
(...) os alunos que chegam à escola são sujeitos sócio-culturais, com um saber, uma cultura, e
também com um projeto, mais amplo ou mais restrito, mais ou menos consciente, mas sempre
existente fruto das experiências vivenciadas dentro de um campo de possibilidades de cada um.
Assim, no ensino de Biologia é cada vez mais reconhecida a importância da utilização de
elementos do cotidiano dos alunos para facilitar a aprendizagem. Na EJA essa idéia é ainda mais
reforçada para despertar o interesse dos alunos que já possuem uma maior experiência de vida, do
que os alunos do ensino regular. Embora a necessidade da contextualização esteja bem difundida
entre os educadores, é preciso indagar se de fato os alunos compreendem a contextualização
realizada pelos professores.
METODOLOGIA
Buscou-se nesse artigo promover uma análise qualitativa das entrevistas semi-estruturadas,
que foram realizadas com oito alunos, que cursam o terceiro período do Ensino Médio na
modalidade EJA. Esses alunos estudam em um colégio situado na cidade de Goiânia no estado de
Goiás. A metodologia de ensino adotada pelo colégio para a EJA até o ano de 2008 era o Telecurso
2000, atualmente atualizados para o Novo Telecurso. Os alunos foram selecionados de forma
aleatória, mas apenas participaram das entrevistas aqueles que se dispuseram espontaneamente.
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As entrevistas foram realizadas numa sala isolada onde estavam apenas o entrevistado e o
entrevistador. O entrevistador gravou as falas dos alunos, e posteriormente realizou a transcrição
sem alterar o que foi dito pelo mesmo. A fala dos entrevistados era livre e foram feitas perguntas de
caráter amplo. Não haviam fatores que limitassem seu discurso, como cortes ou limitação de tempo.
As perguntas tinham o cunho de investigar o papel da Biologia no cotidiano dos alunos e
sobre sua visão dessa disciplina. Foi feita uma análise subjetiva das falas dos educandos para
verificar se eles entendem o que estudam em Biologia, além de investigar onde eles percebem a
Biologia em seu cotidiano.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
A partir da interpretação das falas dos sujeitos nas entrevistas construímos duas categorias
de análise, são elas: Percepção dos alunos da EJA sobre a disciplina de Biologia; e Importância da
Educação Científica na EJA.
Categoria 1: Percepção dos alunos da EJA sobre a disciplina de Biologia
Uma característica marcante da EJA é que os alunos, em sua maioria, são trabalhadores,
porém eles quase não percebem as relações entre o que estão estudando em Biologia com seu
trabalho. Apesar da maioria dos alunos não apresentarem falas diretas relacionadas com o
aprendizado destes conteúdos, verificamos que eles conseguem estabelecer a relação da Biologia
com o cotidiano durante suas falas.
Ela (Biologia) me ajuda tipo na alimentação, no dia a dia, me ajudou a cooperar com a
preservação do meio ambiente, que antigamente, antes de conhecer a Biologia, eu não tava nem
ai! Jogava lixo no meio da rua, agora eu procuro reciclar, jogar papel no lugar de papel, plástico
no lugar de plástico... (R.R.O.).
A fala do aluno RRO evidencia a relação da Biologia com a vida. Porém eles não
conseguem explicar de forma consistente a presença da Biologia em seu cotidiano. Este fato sugere
que os professores, talvez não utilizem os elementos do cotidiano dos alunos com a prática didática
em sala de aula.
Esses dias eu tava na casa de uma cliente minha e ai eu tava vendo, na casa dela tem um coqueiro
né? E eu tava vendo uma manchinha lá, um negócio que eu acho que é até fungo... E eu ai eu disse
olha Cláudia isso aqui eu vi lá no SESI que a professora me ensinou... E tal e tudo... Isso aqui é
um líquen... (L.A. R.).
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Durante a pesquisa foi constatado que os temas ligados à saúde e meio ambiente não foram
trabalhados em sala de aula e como esses temas são recorrentes na mídia, podemos inferir que os
alunos, de alguma forma, associam temas amplamente discutidos na mídia com o aprendizado
escolar.
Acho que em tudo tem Biologia, por exemplo a maquiagem que eu uso, meu alimento, a água que
eu bebo, é, acho que é isso, não sei (L.C.S.)
Em muitas entrevistas os alunos afirmam que a Biologia está em tudo. Porém na maioria
dos casos eles exemplificam seus discursos discorrendo sobre saúde e meio ambiente. Desse modo
é possível compreender que o entendimento em Biologia ocorre, de modo mais significativo, nesses
temas, devido ao reforço que a mídia exerce ao abordar massivamente esses temas. Dessa forma os
alunos parecem entender que a Biologia estuda somente os temas relacionados diretamente ao ser
humano.Esse fator pode ser encarado como um reflexo de um contexto histórico onde a natureza é
vista de forma altamente antropocêntrica, tanto pelos professores, quanto pela mídia, embora o PCN
e as diretrizes da EJA sugiram um rompimento com essa forma de estudar a natureza.
Categoria 2: Importância da Educação Científica na EJA
Agente conversa melhor, ta mais por dentro de determinado assunto... (A.L.M.)
Na EJA o estudo das Ciências naturais causa melhoria na qualidade de vida dos alunos,
pois muitos relatos mostram que os alunos quando conseguem repassar o conhecimento adquirido
na escola em seu convívio social ocorre um importante acréscimo na autoestima. Esse fator é
altamente positivo já que é característica dos alunos da EJA, em boa parte, serem oriundos de
fracasso escolar tendo, portanto a autoestima baixa. Isso se mostra como algo capaz de interferir
positivamente tanto no desempenho do aluno, quanto no seu crescimento estudantil e intelectual.
Você já sabe mais ou menos o que você pode comer o que ajuda na sua alimentação, o que é bom
pra você comer, isso já ajuda muito... (P.R.R.A.).
Alguns alunos passaram a compreender melhor, informações veiculadas em revistas e
telejornais e que dessa forma passaram a ter uma prática social diferente. Isso revela que o retorno à
escolarização melhora a qualidade de vida dos alunos por meio de acréscimo de autoestima.
Como a EJA é uma modalidade de ensino que atende, na maioria dos casos, alunos
trabalhadores e de acordo com as entrevistas, os alunos quase não fazem relações entre a Biologia e
seu mundo de trabalho, podemos inferir que os professores não utilizam de forma satisfatória os
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elementos do cotidiano dos alunos em suas aulas. Desta forma os alunos pouco contribuem para a
contextualização em sala de aula. Esse é um fator preocupante porque sugere uma passividade do
educando no processo de ensino e aprendizagem.
CONCLUSÕES
A EJA é uma modalidade de ensino distinta que exerce uma importante função na
sociedade atual: recuperar a escolarização de indivíduos que por algum motivo se viram obrigados a
abandonar a escola no período regular. Devido as suas singularidades é necessário ampliar os
estudos sobre essa modalidade de ensino para que se possa desenvolver um trabalho eficiente no
sentido de educar.
O aluno da EJA traz consigo uma série de experiências que devem ser consideradas ao
desenvolver o trabalho em sala de aula. A diversificação dessas experiências causa pluralidade entre
os conceitos de escola e esse fator modifica as motivações, expectativas e objetivos dos alunos ao
regressar a escola.
Considerando o ensino de Biologia, é necessário que se modifiquem as práticas educativas,
visto que os alunos em sua grande maioria não atingem um grau satisfatório de compreensão do
pensamento cientifico. Isso se deve ao fato da realidade atual sofrer reflexos do modelo de educação
tecnicista empregado na história recente da educação. Assim, os professores mesmo dominando os
modelos modernos de educação científica, não conseguem se desvincular da forma com que foram
educados. Portanto, o trabalho em sala de aula permanece semelhante ao modelo antigo, fator este
que reflete no aprendizado dos alunos.
Ainda que o aprendizado dos alunos não se dê num nível satisfatório, é importante ressaltar
que o regresso à escola provoca alterações positivas na qualidade de vida dos alunos. Isso se dá não
só na forma de ascensão profissional, mas também através de alteração na forma como o aluno se
identifica no meio social.
REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS
AULER, D.BAZZO, W. A. Reflexões para a implementação do movimento CTS no contexto
educacional brasileiro. Ciência & Educação, 2001.
COURA, Isamara G. M. A terceira idade na EJA: expectativas e motivações. In: 16ª COLE Congresso de Leitura do Brasil - Unicamp, 2007, Campinas. caderno de Atividades - Resumos/
Anais do 16º COLE, 2007. v. 1.
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BRASIL. Ministério da educação e cultura, Diretrizes Curriculares Nacionais para Educação de
Jovens e Adultos, Resolução CNE/CB n 1, de s de julho de 2000.
MACEDO, E. F. Esse corpo das Ciências é o meu?. In: Martha Marandino; Sandra Escovedo
Selles; Marcia Serra Ferreira; Antono Carlos Rodrigues Amorim. (Org.). Ensino de Biologia:
conhecimentos e valores em disputa. 1 ed. Niterói: EdUFF, 2005, v. 1, p. 131-140.
TEIXEIRA, P.M.M, A educação cientifica sob a perspectiva da pedagogia histórico-crítica e do
movimento CTS no ensino de Ciências: Ciência & Educação, v. 9, n. 2, p. 177-190, 2003.
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