XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012
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A PRÁTICA DE ENSINO DE BIOLOGIA EM ESCOLAS PÚBLICAS:
PERSPECTIVAS NA VISÃO DE ALUNOS E PROFESSORES
Patricia da Cunha Gonzaga
Secretaria Estadual de Educação do Piauí
Conceição de Maria Ribeiro dos Santos
Prefeitura Municipal de José de Freitas
Francisca Maria da Cunha de Sousa
Universidade Federal do Piauí
Maria Lemos da Costa
Universidade Federal do Piauí
Resumo
Este artigo resulta de uma pesquisa sobre a prática de ensino da disciplina Biologia nas
escolas públicas de nível médio, do município de José de Freitas – PI, na perspectiva de
alunos e professores, em que partimos do pressuposto da necessidade de um ensino
voltado não apenas ao acúmulo de conhecimentos, mas à aquisição de competências que
permitam ao aluno compreender as informações, bem como refletir sobre o mundo e
nele agir com autonomia, fazendo uso dos conhecimentos adquiridos da ciência e da
tecnologia. Diante disso, este trabalho teve como objetivo analisar o desenvolvimento
da prática de ensino desses profissionais que ministram a disciplina, observando se sua
metodologia está de acordo com os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN’s), e se
está sendo eficiente na aprendizagem dos alunos. Mediante os resultados, apresentamos
propostas aos docentes, a fim de otimizar o ensino da Biologia, conciliando a teoria com
a prática. Para o suporte desta pesquisa nos embasamos em teóricos, como: Krasilchik
(1996), Santos (1992), Schön (2000), Tardif (2002) dentre outros que estudam a
temática, como também os PCN’s (2000), a LDB Nº 9394/96 e Orientações
Curriculares para o Ensino Médio (2008), que direcionam a educação brasileira. Tratase de uma pesquisa empírica, descritiva e quanto-qualitativa, realizada com 10
professores de Biologia do Ensino Médio e 120 alunos do 3º ano do Ensino Médio.
Como técnica de coleta de dados utilizamos: observações, entrevistas e aplicação de
questionários. De acordo com os resultados, podemos constatar que o ensino nesta área
é memorístico, desvinculado da realidade dos educandos, não propiciando, portanto, o
desenvolvimento do pensamento científico e lógico dos alunos. Assim, torna-se
necessário que o professor se apóie em instrumentos que viabilizem práticas adequadas,
que focalizem o desempenho do educando na sua capacidade de agir com autonomia no
mundo da ciência.
Palavras-Chave: Educação. Ensino de Biologia. Práticas Docentes
Introdução
Nas últimas décadas, o ensino de Biologia vem sendo marcado por uma
dicotomia, que constitui um desafio para os educadores. Seu conteúdo e sua
metodologia no Ensino Médio voltados, quase que exclusivamente, para a preparação
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do aluno para os exames vestibulares, em detrimento das finalidades atribuídas pela Lei
de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei Nº 9394/96) à última etapa da
educação básica. Além disso, temas relativos à área de conhecimento da Biologia vêm
sendo mais e mais discutidos pelos meios de comunicação, jornais, revistas, ou pela
rede mundial de computadores – internet –, instando o professor a apresentar esses
assuntos de maneira a possibilitar que o aluno associe a realidade do desenvolvimento
científico atual com os conceitos básicos do pensamento biológico. Assim, um ensino
pautado pela memorização de denominações e conceitos e pela reprodução de regras e
processos – como se a natureza e seus fenômenos fossem sempre repetitivos e idênticos
– contribui para a descaracterização dessa disciplina enquanto ciência que se preocupa
com os diversos aspectos da vida no planeta e com a formação de uma visão do homem
sobre si próprio e de seu papel no mundo (BRASIL, 2008).
Dessa forma, o papel da ciência e da tecnologia na sociedade contemporânea
merece a atenção especial do professor de Biologia, para evitar tanto posturas de
respeito temeroso alienante como uma atitude de desconfiança, atribuindo aos cientistas
muitos dos atuais problemas da humanidade. Um conceito cada vez mais presente nas
discussões dos educadores é o da “alfabetização biológica”, referindo-se a um processo
contínuo de construção de conhecimentos necessários a todos os indivíduos que
convivem nas sociedades atuais. Espera-se, portanto que, ao completar o Ensino Médio,
o aluno esteja alfabetizado e, desse modo, além de compreender os conceitos básicos da
disciplina, seja capaz de pensar independentemente, adquirir e avaliar informações,
aplicando seus conhecimentos na vida diária (KRASILCHIK,1996).
Nesse sentido, o nosso interesse pela temática resultou das angústias e
inquietações enquanto professora de Biologia no ensino médio da rede estadual, quando
nos deparamos com um ensino mecanizado, de metodologias repetitivas, desvinculado
da realidade dos educandos, sem a dimensão reflexiva, proposta por Schön (2000),
ocasionando preocupações sobre o modelo de educação empregado no contexto escolar,
fundamentado apenas na racionalidade técnica, em que não propicia o desenvolvimento
do pensamento científico e lógico dos alunos.
Por isso, para o suporte desta pesquisa buscamos alicerce nos teóricos:
Krasilchik (1996), Santos (1992), que estudam a temática; os PCN”s (2000) e
Orientações Curriculares para o Ensino Médio (2008), que direcionam os trabalhos na
educação brasileira; e, quanto ao aspecto geral, nos embasamos nas idéias de Schön
(2000), Tardif (2002), dentre outros.
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Diante deste contexto, fez-se necessário uma pesquisa sobre a prática de
ensino do professor de Biologia nas escolas públicas de nível médio, do município
de José de Freitas-PI, em que buscamos analisar como se constitui a prática desses
profissionais. Primeiramente, identificamos a metodologia utilizada pelos professores
de Biologia, e sua conseqüente assimilação pelos alunos, evidenciando suas principais
dificuldades no tocante ao ensino. Logo após, analisamos a prática de ensino de
Biologia dos professores nas escolas públicas do referido município, observando se
estas apresentam-se em consonância com os Parâmetros Curriculares Nacionais
(PCN’s). E, finalmente, apresentamos propostas a fim de otimizar o ensino de Biologia,
conciliando a teoria com o cotidiano e ambiente no qual o aluno está inserido.
Objeto de estudo da Biologia
É objeto de estudo da Biologia o fenômeno vida em toda sua diversidade de
manifestações, que se caracteriza por um conjunto de processos organizados e
integrados, no nível de uma célula, de um indivíduo, ou ainda de organismos no seu
meio (BRASIL, 2000).
Dessa forma, o aprendizado da Biologia deve permitir a compreensão da
natureza viva e dos limites dos diferentes sistemas explicativos, a contraposição entre os
mesmos e a compreensão de que a ciência não tem respostas definitivas para tudo,
sendo uma de suas características a possibilidade de ser questionada e de se transformar
(op.cit.).
Nesse sentido, o conhecimento de Biologia deve subsidiar o julgamento de
questões polêmicas, que dizem respeito ao desenvolvimento, ao aproveitamento dos
recursos naturais e à utilização de tecnologias que implicam intensa intervenção humana
no ambiente, cuja avaliação deve levar em conta a dinâmica dos ecossistemas, dos
organismos, enfim, o modo como a natureza se comporta e a vida se processa (BRASIL,
2008).
A prática de ensino de Biologia
Muitos educadores admitem que a Biologia, além das funções que já
desempenha no currículo escolar, deve passar a ter outra, preparando os jovens para
enfrentar e resolver problemas, alguns dos quais nítidos componentes biológicos, como
aumento da produtividade agrícola, preservação do ambiente, dentre outros. De acordo
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com essa concepção, os objetivos do ensino de Biologia são: aprender conceitos
básicos, analisar o processo de investigação científica e analisar as implicações
sociais da ciência e da tecnologia (KRASILCHIK, 1996).
A adoção desse conjunto de objetivos determina que novos assuntos devam
fazer parte dos programas, incluindo não só aspectos de Ciência pura como também
aqueles que tratam da sua aplicação para a solução de problemas concretos. Então, o
tratamento desses novos temas exigirá do professor uma relação estreita com a
comunidade, de forma a contribuir para a melhoria da sua qualidade de vida. Porém,
tradicionalmente, as escolas brasileiras possuem pequena ligação com o resto da
comunidade, e a nova visão do ensino da Biologia incluirá, necessariamente, uma maior
comunicação entre esses dois elementos, envolvendo os alunos na discussão de
problemas que estejam vivendo e que fazem parte de sua própria realidade, (op.cit.).
De acordo com a Lei nº 9.394/96, uma das finalidades do Ensino Médio é “a
compreensão dos fundamentos científico-tecnológicos dos processos produtivos,
relacionando a teoria com a prática, no ensino de cada disciplina” (art. 35, § IV). Por
isso, o grande desafio do professor é possibilitar ao aluno desenvolver as habilidades
necessárias para a compreensão do homem na natureza, sendo o mediador, aquele
responsável por apresentar problemas ao aluno que o desafiem a buscar a solução,
usando estratégias de aprendizagem, como jogos, seminários, debates, simulação,
propostas que possibilitam a parceria entre professor e alunos.
Enfim, é essencial o desenvolvimento de posturas e valores pertinentes às
relações entre os seres humanos, entre eles e o meio, entre o ser humano e o
conhecimento, contribuindo para uma educação que formará indivíduos sensíveis e
solidários, cidadãos conscientes dos processos e regularidades de mundo e da vida,
capazes assim de realizar ações práticas, de fazer julgamentos e de tomar decisões
(BRASIL, 2000).
Metodologia
A realização de pesquisa científica exige do pesquisador não apenas as
escolhas teóricas, mas também as opções metodológicas, pois são estas que norteiam e
orientam a execução dos objetivos pretendidos.
Nesse sentido, a escolha pelo método mais adequado revela-se num constante
processo de mudanças, como assevera Gatti (1998, p. 10) “não é apenas uma questão de
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rotina de passos e etapas, de receitas, mas de vivência, com pertinência e consistência
em termos de perspectivas e metas”, mas tecido no exercício da prática e vivência da
pesquisa, estando em constante processo de construção e movimento.
Nesse aspecto, esta pesquisa foi realizada numa abordagem quanto- qualitativa,
sendo empírica, descritiva, desenvolvida no município de José de Freitas – PI, em duas
escolas da rede estadual de ensino, sendo as únicas existentes no local com a
modalidade Ensino Médio.
A Unidade Escolar Pedro Freitas (ESCOLA ALFA), escola pública estadual,
com a modalidade Ensino Médio, regular, atende jovens e adultos, onde suas famílias
na maioria apresentam baixo poder aquisitivo. Situa-se na Avenida Lucídio Portela, nº
346, no bairro Matadouro, funcionando em apenas dois turnos: vespertino e noturno (1º,
2º e 3º ano), totalizando 1564 alunos.
A Unidade Escolar Antônio Freitas (ESCOLA BETA), escola pública estadual,
com as modalidades de Ensino Fundamental e Médio, regular, atende também jovens e
adultos, onde suas famílias na maioria, também apresentam baixo poder aquisitivo.
Situa-se na Avenida Petrônio Portela, s/n, centro, funcionando nos três turnos: matutino,
vespertino e noturno (1º, 2º e 3º ano), totalizando 2134 alunos.
A condução da pesquisa consistiu na coleta de dados, com aplicação de
questionários, para alunos do 3º ano do Ensino Médio, por já estarem na etapa final do
Ensino Médio; e aos professores de Biologia; em efetivo exercício em sala de aula,
também caracterizando as escolas pesquisadas, no intuito de traçarmos o seu perfil.
Foram entrevistados 120 alunos no total, sendo 60 da escola pública ALFA (2
turmas de 3º ano, uma vespertina e outra noturna), e 60 alunos da escola BETA (
também 2 turmas de 3º ano – matutina e noturna).
O questionário dos alunos teve como objetivo conhecer a opinião dos mesmos
em relação ao ensino da disciplina Biologia; e o dos professores almejou conhecer a sua
formação e práticas, e o seu ponto de vista sobre o ensino de Biologia. Foram
entrevistados 10 professores de Biologia da rede pública de ensino. O estudo foi
complementado com observações e entrevistas, solidificando a pesquisa quanto à
veracidade dos fatos. Posteriormente os dados foram tabulados e analisados.
Resultados
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A pesquisa realizada mostra que os alunos das duas escolas demonstram
afeição pela disciplina, sendo um dos fatores importantes para um bom desempenho dos
discentes. Os 10% que responderam não gostar da disciplina, do turno da noite,
afirmaram que a mesma seria de difícil entendimento, com termos complicados e
palavras desconhecidas. Mas, percebe-se que a carga horária noturna é bem reduzida,
sendo o tempo insuficiente para um melhor esclarecimento de conteúdos. Reforçando o
resultado citado, percebemos que o professor tem grande influência na aprendizagem do
aluno, sendo que, em sua maioria, gostam da forma como seu professor ministra as
aulas. Sendo assim, a imagem que o professor tem da ciência que ensina, influencia não
só o que ele ensina, mas também como a ensina (SANTOS, 1991).
A questão seguinte buscava saber qual das áreas da Biologia os alunos sentiam
maior dificuldade, e a rejeição dos discentes da escola Alfa foi a FISIOLOGIA, com
82%, onde uma das prováveis causas para tal resultado deve-se ao fato da grande
preocupação com o vestibular, fazendo estes conteúdos serem, na maioria das vezes,
abordados apenas de forma teórica, repassada apenas à sala de aula. Já na escola Beta, a
disciplina apontada mais difícil foi a GENÉTICA, com 78%, justificada pela falta de
aulas práticas, afirmando ser uma disciplina complexa e que precisaria de tempo para
melhor assimilá-la. Portanto, a falta de aulas práticas é um fator que contribui para a
aversão e desinteresse dos alunos
Dando continuidade às questões da pesquisa observamos que, ambas escolas
associam esta deficiência principalmente à falta de apoio didático (laboratório de
Ciências, computador com datashow, atividades extras fotocopiadas,...). Outro motivo
associado a esta dificuldade foi a metodologia utilizada pelo professor, sem uma
didática que facilitasse a aprendizagem. Outros motivos apontados pela escola Alfa
foram:
os
assuntos
complicados,
a
baixa
auto-estima
dos
professores,
e
conseqüentemente dos alunos, falta de aulas práticas, aulas passeio, entre outros. Já
outros fatores apontados pela escola Beta foram: a preocupação com o vestibular, onde
o professor objetiva demasiadamente os conteúdos, sem relacioná-los com a realidade.
Quanto ao material que os professores provavelmente utilizam para realizar
suas aulas, 25% dos alunos da escola Alfa responderam que sim, que os professores
utilizam material para realizar suas aulas. Dentre esses materiais, o que o professor mais
utiliza são apostilas e o livro didático (50%), e o computador com datashow (38%). Os
75% que responderam não, justificam que a utilização desses materiais é deficiente,
devido haver apenas um computador com datashow para toda a escola, não ter livros
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para pesquisas (biblioteca) e a existência de um laboratório móvel e sua não utilização,
onde os professores justificam o tempo deficiente e a falta de treinamento dos mesmos.
Já na escola Beta, o material mais utilizado também é o livro didático (40%). O
computador com datashow também é um recurso bastante utilizado pelos professores
(40%). O vídeo (10%) é o menos utilizado. A escola Beta possui laboratório de
Ciências, o qual também é pouco utilizado (2%).
Quanto às aulas práticas, experimentos e demonstrações em sala de aula ,
detectamos que o ensino público ainda demonstra deficiência na prática de ensino da
Biologia, tão necessária na aprendizagem e assimilação de conteúdos. 22% dos alunos
da escola Alfa responderam que sim, que o seu professor utiliza demonstrações em sala
de aula, já os 78%, responderam que não, que nunca assistiram a um experimento no
Ensino Médio. Na escola Beta, o resultado não foi tão diferente, onde 28% dos alunos
responderam sim, e 72% responderam não. Vê-se, portanto, que as duas escolas não
priorizam a prática em relação à teoria.
Logo após, o questionamento traz sugestões dos alunos para os professores
tornarem suas aulas mais atraentes e proveitosas. Na escola Alfa, as aulas passeio foram
as mais sugeridas (53%), logo após as aulas práticas (31%), e em seguida o uso de
recursos audiovisuais, com 16%. Nenhum aluno deu outra sugestão. Na escola Beta, a
maioria sugere aulas práticas (45%), pois consideram os professores muito preocupados
em repassar conteúdos, no menor tempo possível, devido as provas de vestibular, e não
usam a prática para melhor assimilá-los. Depois vêm as aulas passeio (28%), como
forma de complementar os assuntos vistos em sala e, logo após, a utilização de recursos
audiovisuais, para melhor fixá-los (27%). Também nenhum aluno deu outra sugestão.
Os percentuais qualificam o ensino de Biologia nas escolas de nível médio, na
cidade de José de Freitas-PI, como razoável, já que a maioria dos alunos gosta da
disciplina, aprovam as aulas dos professores. Porém, constata-se uma deficiência ligada
à falta de práticas adequadas, à metodologia aplicada, visto que os próprios alunos
declaram ter dificuldades de aprendizagem associadas ao tempo insuficiente de
explanação de conteúdos, à falta de materiais e ambiente específico para o ensino.
Para conhecer a opinião dos professores, aplicamos questionários elaborados
com o objetivo de esclarecer o rendimento dos alunos, as estratégias de ensino mais
produtivas para a aprendizagem da Biologia e os recursos disponíveis para desenvolver
seu trabalho. Verificou-se que a aprendizagem dos alunos está relacionada ao
conhecimento de seus professores, que, segundo Tardif (2002) “a idéia tradicional do
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docente enquanto educador parece ultrapassada. O docente cuida da instrução dos
alunos; a formação integral da personalidade não é mais da sua competência”. Dessa
forma, o que está acontecendo na educação reflete o que acontece em outras áreas: uma
crise de confiança no conhecimento profissional, que despoleta a busca de uma nova
epistemologia da prática profissional. Por isso, pesquisou-se a formação dos
professores, sendo que 100% dos professores do ensino público possuem Ensino
Superior Completo, sendo licenciados em Ciências Biológicas, e apenas 01 docente
(10%) possui Pós-Graduação, em Genética e Evolução.
90% dos discentes se consideram professores idealistas e conscientes, e apenas
10% se consideram em fim de carreira, devido estar à espera de aposentadoria.
Em relação aos recursos que suas escolas dispõem, a Alfa oferece quadro
acrílico, livros didáticos, retroprojetor, laboratório móvel de Biologia, Química e Física
(inativo), internet (com acesso para professores e alunos fazerem pesquisas), aparelho
de DVD, televisão e computador com datashow(somente um aparelho para todas as
turmas). Na escola Beta, os recursos disponíveis são o quadro acrílico, aparelho de
DVD, televisão, livros didáticos, retroprojetor, computador com datashow, laboratório
de Ciências e internet (disponível apenas para os professores).
Quando os professores foram indagados sobre a realização de experimentos,
demonstrações em sala de aula, 40% responderam que realizavam experimentos em
sala, principalmente nas aulas de Botânica e Zoologia. 10% afirmaram que realizavam
experimentos nas aulas de Fisiologia. E, 50% dos discentes afirmaram não realizar
demonstrações em sala de aula, justificando-se a falta de tempo e materiais.
Em relação à metodologia, a maioria dos professores de Biologia utiliza, com
maior freqüência, apenas aulas expositivas. Apenas 10% afirmaram utilizar seminários
(freqüentemente) em suas turmas. 20% afirmaram que, além das aulas expositivas,
utilizam também grupos de discussão com freqüência.
Com relação às áreas da Biologia trabalhadas no Ensino Médio, as que
apresentam maior dificuldade de serem repassadas, segundo os docentes, tanto da rede
pública como privada, é a Botânica, pela complexidade dos termos e o tempo
insuficiente, devido à baixa carga horária.
As sugestões dos professores para melhorar o ensino de Biologia são inúmeras,
dentre elas o aumento da carga horária, ainda resumida em 2 aulas por semana no 1º e
2º ano, e 3aulas semanais no 3º ano. Também, em unanimidade, incitam a melhoria dos
laboratórios para aulas práticas, com disponibilização de materiais para realizá-las, e,
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adequação de horários dedicados às aulas práticas. Aulas de campo foram sugeridas
pelos professores das duas escolas, como também propuseram a formação de turmas
com um número reduzido de alunos por sala, bem como um maior investimento na
educação por parte dos governantes.
Reflexões Conclusivas
O contato com a prática educacional mostra-nos que, devido a fatores de
diferentes ordens, o que ocorre é que o ensino de Biologia na cidade de José de FreitasPI é totalmente distante da realidade do aluno, e das proposições dos Parâmetros
Curriculares Nacionais. As estratégias utilizadas pelos professores em geral recorrem à
memorização de fatos e fenômenos.
Como o ensino médio local é preferencialmente dedicado à preparação para o
vestibular, e os conteúdos exigidos são extensos, a utilização de aulas práticas torna-se
ainda mais difícil. Tal realidade é conseqüência de uma série de fatores: a má formação
e informação dos docentes, a precariedade na distribuição dos benefícios às escolas
públicas, e, a falta de valorização profissional , fator culminante para uma educação de
qualidade.
Também detectamos que os professores sentem dificuldades em ministrar
determinados conteúdos, devido o pouco conhecimento dos mesmos, da sobrecarga de
atividades, cansaço físico e mental, diminuição de tempo disponível para a preparação
das aulas, e do tempo insuficiente para explorar determinadas disciplinas. Assim,
percebemos que os mesmos devem ser preparados para a utilização mais consistente dos
PCN’S, por meio de cursos e atividades de formação continuada, para que o ensino
torne-se mais significativo para os discentes.
Teoria e prática devem andar juntas. Aulas teóricas e atividades práticas se
completam, reforçam e garantem a solidez dos conhecimentos adquiridos, tornando-se
assim indispensável o uso de laboratório. Como as escolas não dispõem de materiais
convencionais de laboratório, deve-se recorrer ao uso de materiais alternativos, onde os
próprios alunos contribuam para a confecção dos mesmos, observando e concretizando
a teoria.
A montagem de exposições e feiras científicas proporcionam ao aluno
oportunidades de desenvolver sua criatividade, raciocínio lógico, capacidade de
pesquisa e conhecimento, de expor à comunidade seus trabalhos, suas descobertas.
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Portanto, para dinamizar o ensino da Biologia podem ser utilizadas técnicas
como: debates, trabalhos em grupo, painéis, murais, dramatizações, palestras, pesquisas
bibliográficas, apresentação de filmes, jogos, experimentações, textos informativos,
aulas passeio, dentre outras, diversificando sua prática, e conseqüentemente permitindo
a esses alunos uma melhor compreensão do mundo.
Finalmente, espera-se que este estudo seja tomado como uma alternativa
inovadora, servindo de suporte aos profissionais do ensino de Biologia para a
construção de uma educação mais crítica e reflexiva, proporcionando aos seus alunos
um novo olhar sobre o seu cotidiano.
Referências
BRASIL. Lei Nº 9394, de 20 de dezembro de 1996.
BRASIL, Secretaria da Educação Básica. Orientações Curriculares para o Ensino
Médio. Ciências da Natureza, Matemática e suas Tecnologias. Vol 2. Brasília:
Ministério da Educação, 2008.
BRASIL, Secretaria de Educação Média e Tecnológica. Parâmetros Curriculares
Nacionais: Ensino Médio. Brasília: Ministério da Educação, 2000
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2000.
KRASILCHIK, Myriam. Prática de Ensino de Biologia. 3ª ed. São Paulo: Editora
Harbra ltda, 1996.
SCHÖN, D. A. Educando o Profissional Reflexivo: um novo design para o ensino e a
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SANTOS, M. E. V. M. Didática da Biologia. Lisboa: Universidade Aberta,1991.
TARDIF, M. Saberes docentes e formação profissional. Petrópolis (RJ): Vozes, 2002
Junqueira&Marin Editores
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