QUINTAS: A HETEROGENEIDADE DE SUA FORMAÇÃO
Aline Constância de Figueiredo e Souza
Ana Lúcia Ferreira de Melo
Cecília Bezerra de Medeiros
Danielle Silva Santos Feitoza
Érica Nazaré Arrais Pinto
Francisca Iara Cunha
Rulyanne Paiva de Castro
Tarcimária Rocha Lula Gomes da Silva
Graduandas em Pedagogia
João Batista Cortez
Mestre em Educação - UFRN
A HISTÓRIA ATRAVÉS DA HISTÓRIA
1.1 –REFOLES
Refoles, refere-se ao francês Jacques Riffault, que guardava sua embarcação na curva do
rio. Um frei pronunciava Rifot e os portugueses Rifoles e Refoles, conforme Cascudo (1999,
p.247).
Em 04 de agosto de 1677, o Senado da Câmara doou as terras do trecho acerca da referida
curva ao capitão Pedro da Costa Falheiro. Neste espaço, bom para plantio de mandioca, instalaramse residências de agricultores.
De tão longe que era da cidade de Natal que foi criado um abrigo em 1849 onde os doentes
de varíola ficaram confinados.
Em 1908, foi criada a Escola Regional de Refoles. Era local de formação do Ministério da
Marinha. Os oficiais, alunos e funcionários, ao saírem em busca de suas residências, criaram um
caminho para Natal. Hoje é a rua Sílvio Pélico.
As linhas das duas estradas de ferro, a Central e a Great Western, trouxeram para as
proximidades um outro bairro, a Guarita.
1.2 - QUINTAS
Em 1717, o Senado fez uma doação de área devoluta para o casal de nome Antônio da
Gama Luna e sua mulher Dona Maria Borges, que lá cultivaram árvores, fruteiras e roçados.
Construíram uma casa e este espaço ficou denominado Quinta Velha.
Já em 1731, a área era em extenso pedaço de terra pertencente a um capitão português,
Pedro Novoa, que institui na sua propriedade uma forma peculiar de arrendamento, já que nem
todos os arrendatários possuíam dinheiro para pagar o aluguel do seu espaço arrendado. Poderiam
pagar com a quinta parte da produção da colheita. O que aqui no Brasil é denominado como granja,
em Portugal se chama quinta.
1.3 - GUARAPES
Em 1859, o pernambucano Fabrício Gomes Pedroza, comerciante, à época denominado de
mascate, buscou novo lugar onde fixar-se. Segundo Cascudo (1999, p. 258), a área Guarapes, a
colina solitária coberta de árvores, a curva doce do rio, amplo, igual, tranqüilo.
O presidente Nunes Gonçalves após conhecer os Guarapes fez o seguinte comentário: "
Reunindo as precisas condições de salubridade e fertilidade do terreno, pode brevemente
constituir-se um ponto comercial intermediário desta Cidade a todo o interior da Província, e em
uma época talvez não muita remota ser para ali transferida a sede da Província, visto ainda o
grande favor que lhe assiste de um ancoradouro quase tão extenso e profundo, como o que aqui se
oferece aos navios de maior lotação".
1.4 - ANALISANDO AS INFORMAÇÕES
O que se pode observar nas histórias destas três localidades é que o Refoles e os Guarapes
foram de extrema importância para que Quintas fosse povoada. Este bairro não surgiu de um
momento para outro.
Foi através dos anos, quando a localidade passou a ser caminho de acesso, desde quando
foi fundada a Escola Regional de Refoles, e seus alunos iam em direção ao interior do estado. Mais
adiante no tempo, quando os Guarapes abrigavam um ponto comercial de entrada de mercadorias, a
estrada hoje denominada rua Dr. Mário Negócio, era caminho dos tropeiros que buscavam
encomendas.
Os viajantes precisavam fazer paradas para descanso ou refeições. Isto trouxe a
possibilidade de algumas residências oferecerem atendimento a eles. O comércio passou a
concentrar-se ao longo da estrada tornando-se referência para a região.Suas margens próximas ao
rio eram fecundas e a parte alta permitia a observação dos tropeiros que passavam. Por estarem
próximo a este caminho, os terrenos em torno dele tornaram-se povoados com vilas e casas
geminadas.
Assim, tornou-se estratégica para os que buscavam onde se fixar. As pessoas que moravam
no interior do RN e vieram para Natal em busca de uma vida melhor, se instalaram nas vilas e
traziam para o bairro suas raízes culturais adquiridas em seu lugar de origem. As Quintas também
recebeu influência das obras destinadas ao serviço público de saúde. É o bairro contando sua
própria história.
ASPECTOS ARQUITETÔNICOS
2.1 - INTRODUÇÃO
Objetivando o embasamento deste trabalho, realizamos uma excursão pelo bairro das
Quintas em que tivemos oportunidade de observar vários prédios, vilas, casas residenciais,
travessas, etc. Nesse trabalho, fizemos algumas fotos, realizamos um filme, entrevistamos pessoas.
Tudo dentro de uma abordagem em termos de arquitetura.
Posteriormente, de posse de fotografias, solicitamos a ajuda da professora Doutora Edja,
do Departamento de Arquitetura da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, para que fosse
possível uma leitura arquitetura situando historicamente o estilo e o período de cada exemplar
registrado.
2.2 - A OBSERVAÇÃO
Dentre os assuntos pesquisados sobre o bairro das Quintas, a arquitetura é um dos aspectos
que guarda características nitidamente interioranas. Tais particularidades estão enquadradas dentro
de estilos arquitetônicos próprios de cada período.
Identificamos alguns aspectos trazidos do interior do estado pelos seus moradores, quais
sejam: casas com paredes conjugadas, desenhos com detalhes na fachada, divisórias com paredes
baixas, telhados tipo chalé, moldura e uso de elementos vazados. Muitos desses detalhes
evidenciam a situação de baixa renda de seus proprietários.
Um exemplo disso, são as vilas que surgiram da necessidade de aumentar a renda familiar.
Como havia terrenos extensos, os donos aproveitavam os espaços de seus quintais e construíam
pequenas casas para alugar.
Antes de fazermos a análise de cada prédio, em particular, é necessário que façamos uma
pequena ressalva sobre a maneira como se dá a evolução cultural dentro do nosso país. Há um
intervalo de aproximadamente 10 anos de atraso entre o surgimento de uma nova escola literária,
artística (arquitetônica), etc. Assim, quando surgem os primeiros exemplares de arquitetura neo-
clássica no Rio de Janeiro esse mesmo estilo só será apropriado no nordeste após 10 ou 20 anos.
Levando em consideração essa distância, analisamos a arquitetura do bairro.
Dentro dessa visão, podemos dizer que é o ecletismo de transição para o modernismo, o
estilo arquitetônico que predomina neste bairro. Apreciando as particularidades de cada prédio foi
possível determinar, aproximadamente, a provável década a que pertence cada exemplar estudado.
Porém, alguns prédios são objetos de sucessivas reformas o que torna difícil, às vezes, situar seu
estilo. Todavia, encontramos um exemplar interessante na antiga Escola Tiradentes que, após
consecutivas reformas ainda perdurou um detalhe importante de sua primitiva arquitetura: a
cumeeira. Todo o restante da construção foi totalmente descaracterizado.
Outro tipo de descaracterização prende-se ao fato de algumas residências familiares terem
sido transformadas em pontos comerciais inserindo, portanto, nesses espaços, fatores que mutilaram
sua morfologia original.
Um fato digno de nota é que o caráter de verticalização encontra-se ainda em fase
embrionária pois, foram pouquíssimos os prédios encontrados com mais de um andar e, mesmo
assim, não se observa além de poucos andares. Portanto, esse bairro permanece ainda muito
horizontal em sua arquitetura.
Alguns prédios, dos mais antigos do bairro, caracterizam-se por uma altura excessiva
proveniente do desnível dos terrenos. Principalmente, os localizados na av. Mário Negócio.
Registramos um exemplar ilustre e antigo, da década de 40, em que o estilo arquitetônico, neocolonial, foi totalmente preservado. Esse prédio está localizado à rua Mário Negócio, 1799 e é
digno de ser observado.
Dentre os principais prédios, registramos o Grupamento de Fuzileiros Navais (antigo
CIAT), um exótico castelo, na rua Vinte e Cinco de Março, e a Igreja de Nossa Senhora do
Perpétuo Socorro. Esses exemplares se enquadram dentro da arquitetura militar e religiosa e são
geralmente atípicos, não obedecendo a nenhum estilo puro ou mesmo híbrido. São antes de tudo,
modelos que obedecem aos desejos mais delirantes de quem os construiu. Observa-se uma
excentricidade em seus detalhes que nos remetem a era medieval.
Ainda, relativamente aos principais prédios, destacamos, também, os hospitais Drª Gizelda
Trigueiro (estilo modernista), o hospital da Liga Norte-Rio-Grandense contra o Câncer "Dr. Luiz
Antônio" (protótipo modernista) e o mercado público (estilo eclético de transição com telha
francesa muito usada na década de 30).
As principais vias de acesso são as avenidas Dr. Mário Negócio e a Bernardo Vieira, que
são ruas de movimento muito intenso. Esta última, também se constitui em via de acesso e
escoamento da Zona Norte, motivo pelo qual é alvo de constantes congestionamentos de trânsito.
Uma observação , feita orgulhosamente pelos moradores, é o fato de todo o bairro ser privilegiado
com pavimentação.
2.3 - REFLEXÕES
"A cidade tem o privilégio de ser o lugar onde o usuário inscreve a história do urbano e
preserva a memória do seu repertório coletivo." (Lucrécia d'Aléssio Ferrara) Através da nossa
pesquisa, percebemos as expressivas transformações que ocorreram na arquitetura do bairro das
Quintas desde a sua origem, na qual se constituía, em sua totalidade, de granjas e sítios, dando-lhe
portanto, características mais campestres, até a sua contemporaneidade em que se percebe traços
específicos que evidenciam os fatores determinantes dessas modificações: origem natural dos
moradores, situação econômica, objetivo de vida dos mesmos, etc.
Um dado importante, analisado pelo grupo, é a interação dialética que a arquitetura tem
com a vida das pessoas pois, em sua forma de ser - paredes conjugadas, das casas, as vilas e
travessas - permitem que os moradores mantenham uma relação cotidiana mais intimista com um
certo ar de familiaridade entre eles.
Acrescentamos também, e isso através de uma olhar mais semiótico, que cada espaço
investigado, desde o mais simples ao mais exótico, compõe um contexto urbano que nos permite
fazer uma leitura poética, apesar de toda carência econômica encontrada no bairro. Assim, à medida
que fomos andando nas ladeiras, visualizando o rio Potengi, fotografando as casas mais antigas com
suas formas interioranas preservadas, a estação do trem, as travessas e vilas tão estreitas, o jeito das
pessoas decorarem as casas, enfim, toda essa linguagem nos levou a comprovar que a definição de
que, o que é belo, está além do que percebemos superficialmente.
E, essa estética que para muitos não é motivo de admiração, está repleta de significados
para as pessoas que as usam, nos revelando sobre suas vidas, o que pensam, o que desejam e
desprezam, as dificuldades, suas escolhas, seus prazeres. Desta forma, todos esses elementos que
compõem a arquitetura do bairro estão repletos de história. E mais, essa história, que foi construída
por cada morador, influencia de forma determinante a fotografia que o bairro apresenta hoje, onde
o passado permanece enraizado no presente, em todos os seus aspectos, e acima de tudo na
arquitetura. Ficamos felizes, ao percebermos, no processo deste trabalho e agora em sua finalização,
que a nossa maneira de enxergar as coisas se modifica devido às leituras e discussões que tivemos
no grande grupo.
Tivemos momentos de muita angústia e ansiedade, porém, unidos a estes sentimentos,
acrescentamos o prazer que sentimos em nossas buscas pelo conhecimento, e de como esse pouco
conhecimento conquistado interferiu de forma qualitativa nas nossas vidas. Todo bairro tem suas
particularidades. Seja pela localização, o período histórico durante o qual teve início sua formação
ou os fatos políticos e econômicos que exerceram influências durante toda a sua existência até os
dias de hoje. Qualquer um desses fatores está presente em toda uma cidade. Mas, no bairro das
Quintas, especificamente, há a influência de seus moradores.
Lá, o romantismo está presente nas ruas estreitas, nas casas de paredes conjugadas, nos
traços interioranos trazidos pelos imigrantes. Suas ruas derramam-se em busca do rio, que empresta
seu espelho d’água para refletir a imagem de um bairro belo.
MANIFESTAÇÕES CULTURAIS
3.1 - QUADRILHAS
As quadrilhas chegaram ao Brasil oriundas das cortes portuguesas e espanholas. Elas
faziam parte da cultura nobre destes países. Espalharam-se transformando-se em festas populares,
adquirindo características matutas.
O bairro das Quintas é um berço rico em manifestações folclóricas como: os Pastoris,
Fandango, escolas de samba, tribos de índio, Lapinha, que são manifestações do dia-a-dia do lugar
no qual cultivar as raízes, é a principal meta dos moradores.
Algumas destas manifestações surgiram em função da catequese feita por Severino Pereira
de Vasconcelos, mais conhecido por Severino Cordeiro. O bairro chegou a ter 25 arraiás, que, aos
poucos, foram sendo substituídos pelas quadrilhas estilizadas. Sobrevivendo apenas o arraiá "da
Quatro Bocas".
A quadrilha Barauê, fundada pelo ator e folclorista Marcílio Canário, é a mais famosa do
bairro. Ela possui mais de 60 componentes e completou 17 anos, sendo uma das melhores do
estado. Já ganhou mais de 80 troféus, fazendo parte do projeto pioneiro do bairro de festividades
juninas. A Barauê, como também outras quadrilhas estilizadas, sofreu influências do sul e sudeste
do país e possui padrões europeus. Viraram atração turística e hoje estão participando dos festivais
promovidos pela mídia.
3.2 - LAZER
Na década de 60, o Cine São José foi fundado pelo comerciante José Avelino da Silva .
Ainda carentes de opções de lazer, os moradores do bairro tinham como principais divertimentos
passear na rua São Geraldo e ir ao cinema.
Nesta época, e ainda hoje, as apertadas ruas das Quintas revelam hábitos simples da
população que ainda joga o “aliado” (jogo de dados sobre um tabuleiro), e gosta de conversar nas
calçadas ao entardecer.
Encontra-se também no bairro a Associação Norte- Riograndense de futebol de mesa,
criada há mais de 22 anos. Possui ótimos jogadores e exporta times de botão para todo país e até já
ganhou com seu time o título de bicampeã brasileira, além de diversos campeonatos regionais.
Na opinião dos jovens, o bairro deixa muito a desejar no quesito diversão, faltam praças e
áreas verdes. O único ponto de encontro do bairro é a lanchonete do Antônio, localizada em frente
ao mercado, onde todos os sábados às 19 horas se reúnem para conversar.
3.3 - FESTIVIDADES
Para resgatar a história e as tradições das Quintas, o vereador Edivan Martins promove
todo dia 1º de Setembro o aniversário do bairro.
O “forró dos idosos” é outro grande evento do bairro. Organizado pela Pastoral dos idosos
da igreja católica, reúne todas as terças e quintas-feiras, mais de 500 velhinhos na sede do Conselho
Comunitário para conversarem e dançarem. O evento é tão conhecido que até pessoas de outros
bairros vêm conferir o chamado “arrasta-pé”. Festas e mais festas, parece que o bairro vive de
diversão.
Outro grande evento das Quintas, que ainda não possui tradição, mas promete que chegou
para ficar, é a festa Quintas Bacana, na qual se comemora o aniversário da Rua 1º de janeiro.
ASPECTOS GERAIS
4.1 - POLÍTICOS E ECONÔMICOS
As Quintas é característico de ser, notavelmente, um bairro bastante popular e populoso.
Atende aos interesses dos políticos de grandes oligarquias existentes em Natal, onde o povo se
caracteriza por ser humilde e carente de consciência política e de uma participação política efetiva
no bairro. Portanto, o bairro representa, atualmente, um grande universo eleitoral, fértil de
manobras políticas imagináveis.
Sua principal característica política é de que sempre foi palco de muita manipulação
desde a década de 60. Ocorreram muitas dominações políticas, principalmente por parte das
campanhas populistas de Aluísio Alves, onde ele utilizava como termo de campanha a expressão
“minha gentinha” referindo-se à população das Quintas.
Para alguns, esse termo teria um significado pejorativo, para outros, apenas um termo
carinhoso. Contudo, foi na década de 60 que as Quintas se tornou um palco de campanhas
populistas. Em Natal, existem vários políticos que utilizam as Quintas como curral eleitoral. Todos
eles visitam o bairro mas, o único político que se destaca é EDIVAN Martins. Ele sempre morou no
bairro, passou toda a sua infância lá, cresceu no bairro e sempre esteve envolvido com os problemas
do bairro. Por esses motivos, EDIVAN Martins se identifica, no momento, como vereador do bairro
da Quintas. Ele sempre prestou serviço ao bairro, realizou atividades, criou fundações, sempre foi a
voz do bairro. É o único político, atualmente, presente no bairro.
Existiu nas Quintas um estabelecimento social que, de uma certa forma, atendia a algumas
necessidades básicas da população local. Chamava-se Conselho Comunitário das Quintas. O
conselho funcionava no antigo prédio do “Quintas Clube”, que foi comprado e doado ao Conselho
Comunitário pela prefeitura durante a gestão do prefeito Garibaldi Alves. O prédio, em termos
físicos, se encontra em frangalhos, mas ainda é o ponto de encontro do "Grupo de Jovens Missão
Terrestre". Atualmente, não se tem uma informação correta de que ainda exista um presidente de
conselho. A ultima eleição para presidente foi realizada no ano de 1994. No entanto, o conselho,
hoje, não existe nem de fato, nem de direito, nem fisicamente, nem ideologicamente, está
totalmente desativado devido ao desinteresse por parte dos políticos e dos moradores do bairro que
já não acreditam mais em falsas promessas.
Em termos econômicos, o bairro das Quintas sempre foi considerado popular e de baixa
renda, onde a principal origem de sua população seria de migrantes que vinham do interior, fugindo
da seca e das dificuldades econômicas. Estes migrantes, ao longo do tempo, foram se instalando em
terrenos abandonados e terras devolutas, formando casebres e barracos às margens do rio das
Quintas, onde hoje é conhecido como o rio das lavadeiras.
Quintas sempre foi visto como um bairro pobre, periférico, de subúrbio, um bairro muito
carente. Mas, atualmente, já é saneado, com todas as ruas pavimentadas e asfaltadas, é um ponto de
passagem entre o centro da cidade e a zona norte de Natal. Apesar de já possuir uma infra-estrutura
mas, por ser um bairro popular, ainda sofre preconceitos. Não é um bairro totalmente harmônico.
Tem os seus conflitos, seu grau de violência, seus atritos sociais, precisa de ajuda, de um trabalho
sério e consciente, pois, é um bairro de um povo humilde, trabalhador, honesto, de um povo que
acredita que dias melhores virão.
4.2 - MEIOS DE TRANSPORTE
Em termos de transportes, as Quintas é um bairro bem abastecido. Existem várias linhas de
ônibus de passagem, que vêm da zona norte, de Felipe Camarão, Bom Pastor, e algumas especiais
que vêm da zona sul, no caso a linha 65 e a 50, passando pelas Quintas.
Há também duas garagens de ônibus. Uma chamada de Santo Antônio, que se localiza à
rua Marcos Cavalcante e a outra localizada na rua Leão Veloso, responsável por alugueis de ônibus,
chamada de Tropical eventos.
Existem também duas estações de trens nas Quintas. Uma fica localizada à rua Rio Potengi
e a outra na Travessa Sampaio Corrêa.
4.3 – POPULAÇÃO
A população* das Quintas é constituída de 35.265 habitantes, sendo 23.322 alfabetizados.
A faixa etária da população é de 0 a 80 anos.
A população de mulheres é um pouco mais elevada do que a dos homens. São 18.771
mulheres, sendo 12.715 alfabetizadas. Já a população masculina é de 16.494, sendo que 10.607
alfabetizados.
Em relação ao domicílio, os dados mais atuais são de 1998, os quais são 7.892 casas, 289
aglomerados, 28 apartamentos e 09 casas isoladas ou de condomínio. Ao todo são 8.007
condomínios.
4.4 – ESTABELECIMENTOS COMERCIAIS
O comércio do bairro das Quintas é abastecido de inúmeros pontos comerciais que vão
desde farmácias até os mercadinhos. Através do comerciante, José Avelino da Silva, falecido em
1967, foi que chegaram melhorias como estradas de barro, cacimbões para o abastecimento de água
e o mercado público. Por isso, ele é considerado um dos fundadores do bairro. A rua São Geraldo
era uma rua tipicamente residencial, hoje 50% da rua é de estabelecimentos comerciais.
Devido às condições financeiras da população do bairro, geralmente os moradores põem
um pequeno ponto comercial para ajudar na renda da família. Assim, atualmente existe o trabalho
artesanal, muitas bodegas e mercearias. No bairro das Quintas, além dos estabelecimentos
comerciais, existem também as feiras como atividade econômica.
Tem a feira do carrasco, que se localiza na rua dos Paianazes (proximidades do bairro), e é
realizada às quartas-feiras, no horário das 5:00hs às 18:30hs aproximadamente. Ela recebe este
nome “Carrasco” devido ao nome do local.
E, existe também no bairro a feira das Quintas, localizada na rua São Geraldo que é
realizada aos domingos, das 6:00hs ao 12:00hs. Os feirantes chegam ao local bem cedo para
arrumar as barracas. Eles se deslocam das suas casas para a feira de transporte coletivo, alguns de
táxi e outros a pé (geralmente os que moram no bairro). Alguns pagam o aluguel das barracas que
custa de R$ 3,00 a R$ 4,00 a unidade, para outros a barraca é própria. A rua é liberada para os
feirantes durante a realização das feiras. O local das barracas é delimitado, ou seja, as barracas só
*
Fonte de dados: censo do IBGE de 1991.
podem ser armadas naquele local. Os fiscais, contratados pela prefeitura, supervisionam os locais
das barracas. Alguns feirantes são cadastrados. A maioria dos feirantes mora em outros bairros e
fazem outras feiras além dessas duas. Eles têm a feira como principal, se não a única, fonte de renda
para sustentar a família. São vários os produtos vendidos pelos feirantes, entre eles: frutas, verduras,
roupas, calçados, carnes, peixes, cereais, temperos, produtos medicinais, produtos de beleza, fumo,
etc. Segundo suas declarações, as vendas aumentam no final do ano. No inicio do mês, o
movimento é maior, devido ao pagamento dos salários.
Os produtos mais vendidos são as frutas e verduras que vêm geralmente da CEASA, onde
os fornecedores levam para os feirantes, não sendo necessário pagar frete. Segundo os feirantes, as
vendas dos produtos já foram melhores. Antes a população tinha o hábito de ir à feira mas, hoje em
dia devido à concorrência dos produtos vendidos nos supermercados, a procura diminuiu. Outro
fato que também afastou as pessoas das feiras foram os muitos assaltos e confusões, mas o
policiamento contribuiu com a diminuição dos roubos. Após às 17:00hs a feira do Carrasco é
chamada de “feira do grito”, por que é neste horário que os feirantes gritam para vender seus
produtos com o preço mais barato.
Um estabelecimento comercial para a realização de compras que o bairro possui é o
mercado público. Localizado também na rua São Geraldo, é considerado como uma construção
histórica, devido à sua antigüidade.
4.5 – ASPECTOS SOCIAIS
O bairro da Quintas sofre de problemas sociais constantes, como é o caso das gangues
originárias de outros bairros próximos como Novo Horizonte e Guarita. Sempre foi considerado um
bairro carente, mas a população se esforçou bastante para melhorá-lo. Os moradores são, na sua
maioria, de origem rural e tiveram uma criação, de uma certa forma, rígida.
Atualmente, o bairro já tem um índice muito elevado de universitários e de professores
formados ensinando nas escolas de Natal e na Universidade Federal. Existem inúmeras favelas no
bairro, tais quais: favela Beira rio, favela do Mosquito, favela do Japão, favela do Curtume, Nova
Jerusalém...
Os moradores mais antigos do bairro não esquecem das famosas lavadeiras do rio das
Quintas na época em que o rio ainda não estava poluído. As mulheres lavavam roupa enquanto
cantavam o dia todo, mas, com o passar do tempo o rio foi ficando poluído e as condições de
trabalho foram ficando difíceis. A partir daí foi que surgiu o movimento das lavadeiras.
O movimento surgiu com a iniciativa do Mobral, onde todas as lavadeiras se reuniram e
realizaram uma passeata da Catedral velha até o Palácio dos Esportes, reivindicando ao então
governador Lavoisier Maia e ao prefeito José Agripino, condições melhores de trabalho para as
lavadeiras. "Dona" Celina Ferreira Bezerra foi a principal representante das lavadeiras. Ela
conseguiu reuni-las e formar uma Associação das Lavadeiras. Um dia, elas se reuniram e foram até
o prefeito José Agripino e pediram duas lavanderias, uma na Redinha e outra na favela do Japão. O
prefeito atendeu ao pedido delas. Todas as lavadeiras da Associação tinham uma carteirinha e
contavam muito com a ajuda do Mobral.
Com o passar do tempo, elas fizeram um outro pedido à então prefeita Wilma de Faria: a
construção de um muro nas lavanderias para que as crianças pudessem brincar seguras enquanto as
mães trabalhavam. A prefeita atendeu, novamente, a mais um pedido das lavadeiras. O avanço no
consumo de máquinas de lavar gerou um problema para as lavadeiras: as patroas não as contratam
mais para lavarem suas roupas devido ao uso das máquinas, deixando-as numa situação difícil de
conseguir o pão de cada dia. "Dona" Celina, junto com as lavadeiras, há 14 anos, sofria bastante
porque elas não tinham onde morar, então, pediram ao governador da época, José Agripino, e à
prefeita Wilma, um conjunto, onde as lavadeiras pudessem morar. O governador atendeu o pedido
das lavadeiras e a distribuição foi feita através de sorteio. Algum tempo depois, a prefeita Wilma
também construiu algumas casas e distribuiu entre as lavadeiras.
No governo de Geraldo Melo, "Dona" Celina pediu à senhora Edinólia Melo a construção
de mais algumas casas. O Governador atendeu o pedido, mas surgiram alguns conflitos entre
"Dona" Celina e um pessoal que queria invadir as casas. Ela conseguiu combater a invasão e tudo
ficou em paz. Ao todo, foram três etapas de construção de casas para as lavadeiras.
Um acontecimento interessante foi o Encontro Nacional das Lavadeiras que ocorreu em
Brasília. Quando "Dona" Celina foi empossada como presidente da Associação das Lavadeiras, o
Governador a convidou para ir até Brasília. "Dona" Celina, "Dona" Lurdinha, e "Dona" Beta
Ramalho (presidente do conselho estadual da Mulher), seguiram viagem até Brasília, mas "Dona"
Celina achou pontos negativos quanto à recepção dispensada às representantes do Rio Grande do
Norte.
Atualmente, a prefeitura ainda ajuda muito às lavadeiras. Mantém vigias, envia o material de
limpeza, e algumas vezes, reforma a lavanderia. "Dona" Celina foi homenageada pela prefeita com
a medalha Nísia Floresta. Foi a maior homenagem, já feita, a uma mulher de Natal.
CONCLUSÃO
O trabalho de campo desenvolvido pelo grupo, sob a orientação do professor Cortez, foi de
extrema importância e significação para nós. A pesquisa, que tinha por objetivo realizar um
levantamento sócio-educacional, econômico e cultural do bairro das Quintas, permitiu-nos
questionar, indagar, retratar e conhecer mais de perto a realidade de uma dos bairros da cidade do
Natal-Brasil. Inicialmente, prevalecia a idéia, entre o grupo, de que o bairro era compreendido
como popular e populoso, que em sua grande maioria era composto por pessoas humildes e que era
uma bairro que não tinha muito o que pesquisar e descobrir.
Mas, a partir do contato com os moradores do bairro, com a história das pessoas e
intelectuais deste, abrimos nossos sentimentos e passamos a ter conhecimento dos principais
aspectos e destaques dali. A cada pessoa entrevistada, procurada, para fornecer-nos esclarecimentos
e contribuir com a nossa pesquisa, descobrimos ali, um local de tradições, manifestações e que
recebeu diversas influências culturais.
Segundo Thompson (1992) "...a natureza da entrevista implica uma ruptura da fronteira
entre a instituição educacional e o mundo... o historiador vem para a entrevista para aprender:
sentar-se ao pé de outros que, por provirem de uma classe social diferente, ou por serem menos
instruídos, ou mais velhos, sabem mais a respeito de alguma coisa."
Ao longo do trabalho deparamo-nos com aspectos positivos e negativos do bairro. Mas,
durante o levantamento dos dados, pudemos observar que o bairro das Quintas não se resumia
apenas àquilo mas, que muitas descobertas estavam sendo feitas.
Encontramos um bairro com uma história rica, arquitetura diversificada, repleto de
tradições e rico, principalmente, em manifestações culturais vastas e heterogêneas. È o bairro
contando sua própria história.
BIBLIOGRAFIA
CASCUDO, Luís da Câmara. História da Cidade do Natal. Natal: RN Econômico, 1999.
LARAIA, Roque de Barros. Cultura: Um conceito Antropológico. Rio de Janeiro: Jorge Zahar
Editor, 1999.
LÉVI-STRAUSS, Claude. Antropologia Estrutural Dois. Rio de Janeiro: Biblioteca Tempo
Universitário nº 45, 1976.
MELO, Luís Gonzaga. Antropologia Cultural: iniciação, teoria e temas. Petrópolis: Vozes, 1987.
THOMPSON, Paul. A voz do passado: história oral. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992.
WELMANN, Reinaldo Aloysio. Antropologia: O homem e a Cultura. Petrópolis: Ed.Vozes, 1991.
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