JUVENTUDE VERSÃO PRELIMINAR Dezembro de 2014 Juventude SUMÁRIO 1- APRESENTAÇÃO ........................................................................................................... 4 2- INTRODUÇÃO ............................................................................................................... 6 2 3- ARTIGOS ....................................................................................................................... 7 3.1. Juventude Negra e os Desafios de um Novo Brasil (FELIPE DA SILVA FREITAS – SEPPIR) .................................................................... 7 3.2. Dois (entre vários) desafios para a juventude brasileira (CARLOS HENRIQUE CORSEUIL; MAÍRA P A FRANCA – IPEA) ........................... 13 3.3.CONJUVE, CNPD e os desafios para a agenda de juventude (ALESSANDRO MELCHIOR – CONJUVE).............................................................. 20 3.4. Juventude na esfera pública: causas, conquistas e novas indagações. (REGINA NOVAES – UFRJ)................................................................................... 26 3.5. Fala proferida durante a 5ª Discussão Temática - Juventude - da Comissão Nacional de População e Desenvolvimento (CNPD). (ELISA GUARANÁ DE CASTRO – SNJ/SG/PR) ..................................................... 46 4. DEBATE EM ORDEM CRONOLÓGICA.......................................................................... 54 2 Juventude ÍNDICE DE ILUSTRAÇÕES ARTIGO 1 – FELIPE DA SILVA FREITAS Tabela 1: Média de horas trabalhadas na semana. .............................................................. 14 Tabela 2: Distribuição do tempo de percurso casa-trabalho (em %). ................................... 15 Tabela 3: Percentual de empregados com carteira assinada por tipo de jornada. ............... 16 Tabela 4: Percentual de estudantes e/ou trabalhadores que deixam filhos de 0 a 6 anos em creches ou pré-escolas, de acordo com a presença de outro filho adulto no domicílio. ....................................................................................................................................... 17 Tabela 5: Chance de permanecer desempregado. ................................................................ 17 Tabela 6: Características do primeiro emprego ..................................................................... 18 3 3 Juventude 1- APRESENTAÇÃO A criação da CNPD, pelo decreto nº 1.607, de 28 de agosto de 1995, foi influenciada pelas Recomendações do Programa de Ação da Conferência Internacional sobre População e 4 Desenvolvimento, que ocorreu em Cairo em 1994. Passou por uma primeira reorganização pelo decreto nº 4.269, de 13 de junho de 2002 e em 15 de maio de 2013, por meio do Decreto 8.009, a CNPD passou a integrar a estrutura da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República. A CNPD vislumbra promover avanços no debate especializado e na promoção de ações de fortalecimento da agenda de população e desenvolvimento e, tendo por base seu plano de trabalho de 2014, propõe-se a concentrar esforços em três objetivos: Apoiar a atuação internacional do Brasil nas Conferências Internacionais e Regionais sobre População e Desenvolvimento; Desenvolver, em parceria com outras instituições, um sistema de monitoramento dos avanços do país com relação as ações e metas acordadas na Conferência do Cairo e suas atualizações internacionais e regionais; e Aprofundar conceitualmente e analiticamente temas estratégicos relacionados à população e desenvolvimento. Com o objetivo de maior aprofundamento dos temas relevantes para a agenda de população e desenvolvimento, a CNPD decidiu pela realização de reuniões plenárias, em que são promovidas discussões aprofundadas de cada um desses temas. Os resultados das reuniões plenárias, sobre os assuntos em questão, são apresentados na forma de uma série temática, após organização e edição. Sob o tema ‘Juventude’, este volume foi produzido pela Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República (SAE/PR), com o apoio do Fundo de População das Nações 4 Unidas no Brasil (UNFPA). Como uma versão preliminar, é formada de artigos, exposições e debates resultantes da reunião plenária ocorrida em 24 de maio de 2014, em Brasília. Além de cinco artigos, produzidos para nortear as apresentações feitas na referida reunião, traz, sob a forma de discussão temática, as principais contribuições dadas pelos participantes do evento durante os debates que se sucederam às mesas de discussão. 5 5 Juventude 2- INTRODUÇÃO O Brasil conta hoje com 50 milhões de jovens. Nunca tivemos nem nunca mais teremos um contingente de população jovem tão elevado. Essa geração não apenas representa a maior das juventudes, mas irá também constituir-se na maior força de trabalho que o País já teve ou terá, brindando-nos com um substancial bônus demográfico. É um direito da juventude e dever de toda sociedade garantir que cada jovem tenha amplo acesso a oportunidades tanto para desenvolver plenamente suas potencialidades como para utilizar de forma produtiva suas habilidades e dessa forma percorrer uma trajetória de vida de sua livre escolha, em que possa contribuir de forma efetiva para si, sua família e sua comunidade. Garantia o direito ao pleno desenvolvimento certamente requer legislação, ações, monitoramento e orçamento específicos. Mas acima e antes de tudo, requer escutar os jovens. Embora todo momento seja o momento certo para refletir sobre a juventude, avaliar, expandir e adequar as ações dirigidas a promover o desenvolvimento dos jovens, o momento atual é particularmente ímpar. A Conferência de Cairo completa seus 20 anos, a maior onda populacional da história do País se encontra na juventude e o Brasil celebra a instituição do Estatuto da Juventude. Assim, é oportuno analisar e avaliar: Que os anseios e necessidades típicos da juventude brasileira ainda não fomos capazes de atender? Quais os novos desafios e necessidades? Que tipo de desenvolvimento demanda e busca construir a nova juventude? Em que medida as ações públicas existentes têm sido capazes de atender em quantidade e qualidade os desejos da juventude? Em que medida as ações e os programas disponíveis são adequados às necessidades e aos interesses da juventude atual? Em que medida a trajetória atual de desenvolvimento do País é coincidente ou ao menos compatível com a visão de desenvolvimento das novas gerações? 6 6 Juventude 3- ARTIGOS 3.1. JUVENTUDE NEGRA E OS DESAFIOS DE UM NOVO BRASIL Felipe Da Silva Freitas1 Farei uma exposição a partir das minhas atuais experiências como gerente de projetos da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial da Presidência da República buscando dialogar com as questões formuladas na proposta desta mesa – Juventude e superação da pobreza – a partir das perspectivas com as quais temos trabalhado na elaboração de políticas públicas para o combate ao racismo e promoção da igualdade racial entre as juventudes brasileiras no âmbito do governo federal. Neste sentido, utilizarei dois documentos: a) os dados da pesquisa Agenda Juventude Brasil2 (Brasil, 2013) e b) o texto elaborado pela SEPPIR como subsídio ao debate da III Conferência Nacional de Promoção da Igualdade Racial (Brasil, 2013a). A proposta é pensar quais seriam as demandas das Juventudes negras na agenda do desenvolvimento e dos direitos no país. O desafio a que somos chamados é o de pensar como a juventude negra está experimentando as mudanças recentes no Brasil e quais novas demandas vão sendo criadas para que se possa enfrentar o racismo nas suas múltiplas e sofisticadas manifestações. Um primeiro ponto para entender estas mudanças recentes pelas quais a sociedade brasileira vem passando em termos de mentalidade é a percepção de que, junto com o 1 Mestrando em Direito pela Universidade de Brasília, coordenador do Plano de Prevenção a Violência contra Juventude Negra pela Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial da Presidência da República e membro do Conselho Nacional de Juventude. 2 A Pesquisa Agenda Juventude Brasil buscou levantar as questões da Juventude Brasileira de forma ampla e abrangente, de modo a possibilitar a análise e reflexão sobre perfil, demandas e formas de participação da juventude brasileira. A pesquisa ocorreu entre os dias 13 de abril e 19 de maio de 2013 em 187 municípios brasileiros, estratificados por localização geográfica (capital e interior, áreas urbanas e rurais e por municípios pequenos, médios e grandes), contemplando as 27 Unidades da Federação. Foram entrevistados 3.300 jovens de 15 a 29 anos. 7 7 fenômeno do significativo contingente de jovens existente hoje no país – já largamente destacado e analisado3 nos debates da CNPD – há um fenômeno de maior autoidentificação desta geração de jovens como negros e negras. Segundo os dados do Censo 2010 do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) a população jovem brasileira (de 15 a 129 anos de idade) é de 51,3 milhões pessoas, das quais 7,9% se declararam pretos e 45,9% identificam-se como pardos, ou seja, 53,8% dos jovens se auto-identificam negros no Brasil, média superior à do conjunto da população (colocar o percentual do conjunto da população). Tal tendência – de maior autoidentificação dos jovens como pretos e pardos em relação aos adultos – é confirmada pela pesquisa Agenda Juventude Brasil segundo a qual seis em cada dez jovens brasileiros se identificam como negros (pretos ou pardos). Este aumento da auto-identificação dos jovens como negros e negras tem relação com os sucessivos esforços do movimento negro no sentido de superar os estigmas e representações negativas sobre a população negra e também com as políticas de ações afirmativas – com destaque para as ações de reserva de vagas para negros nas universidades – que possibilitaram um amplo “debate sobre o racismo, as desigualdades raciais, mérito e justiça social, rompendo a invisibilidade e a negação do racismo promovidas pelo mito da democracia racial” (BRASIL, 2013a). Ao mesmo tempo, esta geração de jovens reconhece o racismo como significativo problema do país e tem posições críticas às discriminações. Nesta linha, é expressivo o crescente reconhecimento da temática racial no conjunto das organizações de juventude no Brasil. Tanto no Conselho Nacional de Juventude como em outros espaços de participação juvenil nota-se que a situação dos negros e negras vem sendo tratada como importante questão do país (BRASIL, 2010). Um em cada quatro jovens brasileiros afirma que o racismo é um dos três principais assuntos mais importantes para ser discutido pela sociedade. Segundo a A genda 3 O Brasil vive um processo demográfico peculiar com um contingente de jovens bastante significativo e um quadro conhecido como “bônus demográfico” com número de produtores maior que o de consumidores. Este quadro encontra-se no seu ápice e deve permanecer até 2020, quando esse tipo de relação deverá se inverter. Segundo os estudos das ciências sociais e da demografia tais quadros demográficos são oportunos para a promoção da inclusão e para o fomento ao desenvolvimento nacional. 8 8 Juventude Brasil quando perguntados sobre qual o problema do país que mais o incomodava, a questão do racismo e outras formas de discriminação foi apontada por 34% do conjunto dos entrevistados, sendo que entre os jovens negros (36%) houve mais menções ao racismo do que entre os jovens brancos (30%) (BRASIL, 2013). Esta maior sensibilidade das juventudes às discriminações já foi investigadas no projeto Juventudes Sul-americanas: diálogos para a construção da democracia regional4, que constatou a partir de entrevistas e grupos focais com jovens sulamericanos que: 9 (...) o sentimento de discriminação é maior entre jovens que entre pessoas adultas. É possível dizer que os jovens(as) são sempre mais sensíveis e acusam, em maior proporção, a existência de desigualdades e discriminações. Manifestam opinião mais homogênea que as pessoas adultas, sendo suas respostas menos permeadas por diferenças de renda e escolaridade, fatores que tendem a pesar bastante, no conjunto, na percepção da existência de discriminações. (NOVAES e RIBEIRO, 2010, p. 54) É preciso aprofundar a análise sobre o que é “ser jovem negro” num tempo em que já não é mais majoritária a posição de que não há racismo no país e em que, mesmo persistindo as desigualdades, começam a surtir efeito os primeiros esforços realizados nas décadas anteriores para adoção de políticas de enfrentamento as desigualdades. Os jovens negros desta geração estão impactados pelas primeiras políticas de promoção da igualdade racial posto que nasceram num período em que os movimentos negros já vinha lutando para que o Estado brasileiro e as organizações internacionais reconhecessem o racismo como problema social a ser enfrentado em nossa sociedade. Fenômenos como os “rolezinhos”, ocorridos no início deste ano, ou as reiteradas denúncias de discriminação racial em estádios de futebol evidenciam este novo momento da questão racial em nosso país e apontam um desafio típico desta experiência geracional. Diferentemente de outros momentos em que a questão racial não esteve – senão de forma 4 Trata-se de estudo coordenado no Brasil pelo Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase) e pelo Instituto de Estudos, Formação e Assessoria em Políticas Sociais (Polis). 9 periférica – apontada como desafio da sociedade brasileira, esta geração de jovens sabe que o racismo é um problema que aparece cada vez mais na cena política do país. Tal realidade torna-se possível pela existência de espaços que antes eram frequentados quase exclusivamente por pessoas brancas e que hoje passam a ser acessados por pessoas negras – como shoppings centers, universidades e aeroportos. É por esta convivência em espaços antes tidos como exclusivos dos não negros que se visualiza de modo mais contundente o racismo no país. Na mesma linha podemos inferir que a maior visibilidade dos casos de discriminação racial nos aponta a maior consciência das pessoas negras de que é possível denunciar o racismo. E este é o conflito que está posto neste momento posterior à derrubada do mito da democracia racial. “Como os jovens negros se situam neste novo momento?” A ampliação do poder de compra das pessoas negras e o acesso destas pessoas a direitos básicos de cidadania demandam um debate sobre quais valores estão sendo promovidos socialmente para conviver com estes “novos consumidores” e, ao mesmo tempo, nos provoca a pensar sobre quais outros direitos, além da ampliação do poder de consumo destes jovens, que precisamos garantir. Por fim, destaco ainda a questão da morte violenta de jovens negros (designada pelos movimentos sociais como extermínio ou genocídio da juventude negra) e apontada pelos jovens como a sua maior preocupação (45% dos jovens negros e 42% dos jovens brancos). Segundo dados do Ministério da Saúde (Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância à Saúde: Sistema de Informações sobre Mortalidade) o número de homicídios de jovens brancos caiu de aproximadamente 9 mil no ano de 2000 para 6 mil em 2011 enquanto para os jovens negros este número cresceu de cerca de 14 mil para aproximadamente 19 mil homicídios no mesmo período. Ao mesmo tempo, 54% dos jovens negros declaram que já perderam companheiros de mesma idade (irmãos, primos, amigos, namorados..) de forma violenta e 28% afirmam já terem sofrido algum tipo de discriminação. A experiência de perder um companheiro de mesma idade de forma violenta, a exposição às armas, o “medo de morrer” ou de ser violentado no espaço público marcam esta atual geração de jovens e a distingue especialmente de todas as outras gerações de jovens do país. Em tempo algum tantos jovens foram mortos no país. 10 10 É uma tragédia que desafia os poderes públicos, a sociedade civil e as organizações internacionais preocupadas com o desenvolvimento, a democracia e os direitos humanos no Brasil e na região. É preciso explicar o paradoxo de que, justamente no período histórico em que conseguimos avançar mais significativamente na inclusão econômica das pessoas negras, e na promoção dos seus direitos por meio de políticas de ações afirmativas, é que se verificam os maiores índices de mortes deste segmento da população. É preciso reconhecer que, sem a garantia do direito à vida e à não-discriminação todos os esforços até aqui empreendidos podem perder seu sentido e sua efetividade. Como destaca o texto 11 base da CONAPIR: É preciso estar vivo para desfrutar de direitos. É preciso ser livre para usufruir a democracia. É preciso não ser discriminado para ampliar habilidades e conhecimentos como seres humanos. No caso brasileiro, a violação de direitos, expressa nas manifestações cotidianas e generalizadas de racismo e discriminação racial, é a base da violência letal a que a população negra é submetida. (2013a) É como se este grande contingente de jovens estivesse sendo consumido pela violência e pelo racismo no Brasil. Não se trata mais de pensar a questão racial como uma questão das minorias ou como tema periférico na agenda do desenvolvimento nacional. A questão do enfrentamento ao racismo – e mais especificamente da garantia dos direitos da juventude negra – nos desafia a repensar as noções com as quais vimos falando em desenvolvimento e a democracia no país. É preciso ultrapassar as leituras usuais dos “jovens como problema” e pensar sobre como podemos contribuir para que estes jovens possam experimentar processos de emancipação com segurança e garantia de direitos por parte do Estado. Para a juventude negra tais condições só serão criadas se tivermos capacidades políticas de tematizar a questão em toda a sociedade, criando “intervenções sobre o fenômeno da discriminação racial e do racismo que levem em conta a necessidade de se criar contextos pedagógicos que levem pessoas e instituições a mudarem mentalidades, comportamentos e procedimentos que tendem a naturalizar estas mortes.” (BRASIL, 2013a) 11 Referências Bibliográficas BRASIL, Secretaria Nacional de Juventude. Agenda Juventude Brasil: perfil nacional sobre perfil e opinião dos jovens brasileiros. Brasília: SNJ, 2013. BRASIL, Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial. III Conferência Nacional de Políticas de Promoção da Igualdade Racial: subsídios ao debate. Brasília: SEPPIR, 2013a. BRASIL. Conselho Nacional de Juventude (CONJUVE). Comissão de Articulação e Diálogo com a sociedade. Conselhos de Juventude: Fortalecendo Diálogos, Promovendo Direitos. Brasília, 2010. Disponível em <http://www.juventude.gov.br/conjuve/gruia-de-conselhosde-juventude). Acesso em: 04 de junho de 2014. NOVAES, Regina; RIBEIRO, Eliane (org.), Livro das Juventude Sul-Americanas. Rio de Janeiro: IBASE, 2010. SOARES, Sergei. A demografia da cor: a composição da população brasileira de 1890 – 2007. In: THEODORO, Mário; JACCOUD, Luciana; OSÓRIO, Rafael Guerreiro; SOARES, Sergei (orgs.). As políticas públicas e a desigualdade racial no Brasil: 120 anos após a abolição. Brasília: IPEA, 2008, p. 97 – 118. WAISELFISZ, J. J., Mapa da Violência: os Jovens do Brasil, Brasília: Ritla, Instituto Sangari, Ministério da Justiça, 2013. WERNECK, Jurema. Racismo Institucional: uma abordagem conceitual. Brasília: Geledes / CFEMEA, 2013. 12 12 3.2. DOIS (ENTRE VÁRIOS) DESAFIOS PARA A JUVENTUDE BRASILEIRA Carlos Henrique Corseuil 5e Maíra P. A. Franca6 Introdução O presente texto documenta o material exposto na discussão temática sobre juventude organizada pela CNPD no dia 23 de maio de 2014. A discussão foi motivada pelos desafios enfrentados pela juventude brasileira nos dias de hoje, num cenário onde a concentração de jovens na população brasileira alcança níveis sem precedentes. No momento da construção desse texto, o tema juventude ganha destaque entre aqueles analisados pelo IPEA, em particular na diretoria de estudos e políticas sociais. As reflexões aqui contidas partem de material elaborado para dois importantes projetos sobre juventude conduzidos no IPEA. O primeiro consiste num relatório para subsidiar a construção do plano nacional de trabalho decente para a juventude7. O segundo projeto consiste num livro voltado para a análise dos desafios encontrados pelos jovens em suas trajetórias profissionais. Entre um enorme volume de informações geradas em ambos os projetos citados acima, optei por escolher apenas dois temas cujas informações a respeito me parecem pouco disseminadas e merecedoras de mais atenção. O primeiro tema diz respeito à possibilidade dos jovens conciliarem estudos, trabalhos e vida familiar. Esse tema vem a ser uma das quatro prioridades definidas na agenda nacional de trabalho decente para a juventude. O segundo tema que escolhi para esse texto é a questão do primeiro emprego dos jovens. Esse tema será abordado em comparação aos empregos subsequente dos jovens, tanto no que diz respeito ao tempo de busca como no que diz respeito às condições de trabalho. A análise que segue sugere um elo entre esses dois temas, qual seja, a de que ambos os desafios podem estar contribuindo para uma concentração dos jovens em postos de pior qualidade. 5 Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (IPEA) Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (IPEA) 7 O relatório é uma iniciativa da OIT que visa uma atualização das informações contidas no relatório que subsidiou a construção da agenda nacional de trabalho decente para a juventude. 6 13 13 O desafio de conciliar estudos, trabalho e vida familiar A inserção dos jovens no mercado de trabalho é marcada pelas desigualdades sociais. Os jovens de famílias mais pobres em geral possuem menor nível educacional, o que limita suas possibilidades dentro do mercado de trabalho, gerando um círculo vicioso entre a baixa escolaridade e a ocupação destes jovens em empregos precários. Para romper este ciclo é essencial promover certas condições no mercado de trabalho que permitam aos jovens conciliar o trabalho e a escola. Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), em 2012 havia mais de 46 milhões de jovens de 15 a 29 anos no Brasil8. Destes, 57% estavam trabalhando e apenas 13% trabalhavam e estudavam 14 ao mesmo tempo. 14 Num primeiro momento investigaremos, portanto, em que medida a jornada dos jovens que conciliam estudo e trabalho é de fato menor do que a dos jovens que não estudam. Para isso levantamos as evidências reportadas na tabela 1 abaixo com base na PNAD-IBGE de 2012. Entre os jovens trabalhadores de 15 a 29 anos, apenas 20% trabalhava meia jornada (até 30 horas). Cabe destacar que para os jovens de 15 a 17 anos, que ainda estão em idade escolar, este percentual era bem mais elevado, 50%. A jornada parcial é umas das condições para que o jovem consiga conciliar a condição de trabalho com a permanência na escola. De fato, entre os jovens que trabalhavam e estudavam, a média de horas de trabalho semanais era menor do que a dos que estavam apenas trabalhando. Para os estudantes, a média de horas de trabalho, em 2012, era de 30 horas na faixa etária de 15 a 17 anos, 37 horas para os jovens de 18 a 24 anos e 39 horas para aqueles de 25 a 29 anos. Entre os jovens que apenas trabalhavam, as médias eram de 39 horas para os mais novos (15 a 17 anos), e 42 horas para os demais. Tabela 1: Média de horas trabalhadas na semana. Faixa Etária Estudante 15 a 17 18 a 24 25 a 29 30,2 36,7 38,9 Não estudante 38,7 41,7 41,9 Fo nte: Elabo ração do s auto res a partir de dado s da P NA D-IB GE 8 Dados da amostra da PNAD excluindo a região norte rural. Outro fator influente na decisão de trabalhar que interfere tanto na conciliação com os estudos quanto na vida familiar é o tempo gasto no deslocamento da casa ao ambiente de trabalho. Segundo os dados da PNAD de 2012 reportados na tabela 2, este não parece ser um entrave, visto que 67% dos jovens de 15 a 29 anos levavam menos de meia hora no trajeto casa-trabalho, em 2012. Considerando apenas as regiões metropolitanas, em que esses deslocamentos normalmente são mais difíceis, este percentual cai para 45%, representando, ainda assim, uma proporção elevada. Para os jovens de 15 a 17 anos, os mais envolvidos com o estudo, 78% demorava menos de meia hora para se deslocar de casa ao trabalho. 15 15 Tabela 2: Distribuição do tempo de percurso casa-trabalho (em %). Faixa Etária Até 30 minutos Mais de 30 min até 1 hora Mais de 1 hora 15 a 17 18 a 24 25 a 29 78,4 66,6 65,5 16,2 23,1 24,1 5,3 10,3 10,3 Fo nte: Elabo ração do s auto res a partir de dado s da P NA D-IB GE O conjunto completo de resultados acima parece apontar que, ao menos para os jovens ocupados, é possível compatibilizar as atividades. No entanto, para romper o ciclo vicioso que leva os jovens a ocupar postos de baixa qualidade é desejável que essa compatibilização seja atrelada a uma maior inserção em empregos decentes. As evidências que reportamos na tabela 3 não vão nessa direção. Para os jovens de 15 a 17 anos que trabalhavam em período parcial, apenas 14% possuíam carteira assinada em 2012. Entre os que trabalhavam em jornada integral este percentual chegava a 30%. Nas demais faixas etárias, a diferença era ainda maior, cerca de 20% dos que trabalhavam meio período apresentavam carteira assinada, e entre os que trabalhavam acima de 30 horas este percentual estava acima de 60%. Tabela 3 - Percentual de empregados com carteira assinada por tipo de jornada. Dessa forma, a jornada parcial, que possibilita ao jovem conciliar as horas de trabalho com a vida escolar, muitas vezes está associado a vínculos informais de trabalho. A possibilidade de compatibilizar as atividades de estudo ou trabalho se torna mais complexa de acordo com a estrutura familiar. Para os jovens que se tornaram pais precocemente, a decisão de trabalhar ou estudar irá depender da oferta de creches, ou então da disponibilidade de outro adulto, que possa se responsabilizar pelas crianças em sua ausência. De acordo com a tabela 4, a proporção de jovens que deixam seus filhos na creche ou préescola para trabalhar ou estudar é maior em famílias monoparentais. Na faixa etária de 18 a 24 anos, 57% dos jovens que moravam em domicilio sem outro adulto deixavam seus filhos na creche. Para os jovens de 25 a 29 anos este percentual chegou a 62,4%. Já entre os jovens que viviam com outro adulto, a proporção era menor, 36% dos jovens de 18 a 24, e 44,5% dos jovens de 25 a 29 anos deixavam seus filhos na creche ou pré-escola. Na faixa etária de 15 a 17 anos, o número de jovens trabalhadores ou estudantes, com filhos, e que moravam em domicílio sem outro adulto é pouco expressivo, o que poderia comprometer a análise. Vale mencionar que existe no Brasil um déficit de creches públicas, o que dificulta ainda mais a inserção de jovens com filhos no mercado de trabalho, principalmente para as mulheres. 16 16 Tabela 4: Percentual de estudantes e/ou trabalhadores que deixam filhos de 0 a 6 anos em creches ou pré-escolas, de acordo com a presença de outro filho adulto no domicílio. Faixa Etária Com outro adulto Sem outro adulto 18 a 24 25 a 29 35.8 44.8 56.9 62.4 Fo nte: Elabo ração do s auto res a partir de dado s da P NA D-IB GE O desafio de conseguir um primeiro emprego decente A tabela 5, a seguir, mostra que a busca por trabalho é muito mais demorada para os jovens quando visam o primeiro emprego. Setenta e dois por cento dos jovens procurando o primeiro permanecem desempregados após seis meses. Depois de dois anos, quase a metade dos jovens ainda continuam desempregados. Entre os jovens que tiveram experiência anterior no mercado de trabalho, a situação é bem mais favorável, melhor até do que a dos adultos. De acordo com a tabela 5, nesses dois últimos grupos, metade dos indivíduos desempregados consegue emprego após seis meses. Tabela 5: Chance de permanecer desempregado. Fonte: Elaboração dos autores a partir de dados da PME-IBGE 17 17 Os resultados da tabela 5 mostram, portanto, que parece haver uma barreira dificultando a inserção dos jovens sem experiência prévia. Essa barreira pode levar, eventualmente, o jovem que se encontra na situação de desemprego a se transferir para um posto de trabalho de pior qualidade. A tabela 6 apresenta as características do primeiro emprego para jovens recém-ingressados no mercado de trabalho, e para jovens e adultos ocupados há pelo menos três meses. Nota-se que a média dos rendimentos dos jovens no primeiro emprego corresponde a quase a metade da média dos rendimentos dos indivíduos na mesma faixa etária com experiência no mercado de trabalho, sendo ainda quase quatro vezes menor do que a média dos rendimentos dos adultos. 18 Tabela 6: Características do primeiro emprego. Fonte: Elaboração dos autores a partir de dados da PME-IBGE A tabela 6 também mostra que o primeiro emprego geralmente apresenta condições bem mais precárias do que os demais postos de trabalho. Entre os jovens no primeiro emprego, percebe-se uma participação muito menor de empregos com carteira de trabalho. Além disso, contratos por tempo determinado, ou seja, contratos de trabalho temporários, e empregos em tempo parcial são bem mais comuns entre os jovens no primeiro emprego do que entre os demais grupos representados na tabela 6. 18 Discussão dos resultados Os resultados acima sugerem dois possíveis fatores que estariam levando os jovens, ou pelo menos uma parcela deles, a ocupar postos de trabalho de pior qualidade. O primeiro fator está atrelado ao desejo de muitos jovens de compatibilizar trabalho com estudos e vida familiar. A compatibilidade dessas atividades é facilitada em vínculos profissionais de natureza flexível. Em havendo uma maior oferta desse tipo de vínculo em postos de pior qualidade, haveria uma concentração de jovens nos postos de pior qualidade, especialmente daqueles que desejam (ou necessitam) compatibilizar trabalho com estudos e/ou vida familiar. O outro possível fator que estaria levando os jovens a ocuparem postos de pior qualidade consiste numa maior dificuldade que esse grupo tem para encontrar o primeiro emprego. Nesse cenário o jovem pode se conformar com um primeiro emprego de pior qualidade para ao menos furar a barreira de entrada no mercado de trabalho e se credenciar para melhores empregos subsequentes. As implicações resultantes dessa análise em termos de temas a serem aprofundados seriam: i) Investigar se há alguma dificuldade na oferta de vínculos de natureza flexível em postos de boa qualidade; ii) Investigar os motivos da maior dificuldade de se encontrar um emprego quando se trata da primeira experiência profissional. O melhor entendimento dos desafios que enfrentam a juventude brasileira, e as discussões subsequentes sobre políticas públicas para amenizar os problemas aqui relatados, depende fundamentalmente das respostas a duas perguntas. 19 19 3.3. O CONSELHO NACIONAL DE JUVENTUDE, A CNPD E OS DESAFIOS PARA A AGENDA DE JUVENTUDE Alessandro Melchior9 Considerações inicias O Conselho Nacional de Juventude, assim como a Secretaria Nacional de Juventude, tem discutido e colaborado muito no intuito de promover um exercício de formulação de políticas de juventude e de desenvolvimento, especialmente para o momento que o Brasil vive. Esta discussão tem sido feita norteada pelo princípio número 7 do Plano de Ação do Cairo, que trata das ações de erradicação da pobreza. Esse princípio traz um elemento importante, que é a necessidade do desenvolvimento de ações de erradicação da pobreza vinculadas ao combate à desigualdade e à redução das disparidades entre padrões de vida. O enfrentamento da pobreza em si é um elemento importante, pois a desigualdade social é algo perceptível tanto no Brasil como nos países subdesenvolvidos e impacta o discurso feito à juventude. Mais do que a pobreza em si, a desigualdade social impacta a qualidade de vida, as trajetórias, o processo de vivência da juventude. Boa parte das organizações que compõem o Conselho Nacional de Juventude, juntamente com representantes dos ministérios que executavam políticas de juventude e faziam parte do conselho, se dedicaram com muito afinco no sentido de olhar a juventude a partir de uma perspectiva integral, do ponto de vista do desenvolvimento do jovem, da sua relação com a sociedade a partir do desenvolvimento integral, qualidade de vida e vida segura, que perfazem o conjunto de políticas, dimensões, aspectos das respostas do Estado, mas também da relação do jovem com a sua formação, perfazendo essa integralidade. O Conselho Nacional de Juventude procura articular educação e o trabalho, que são duas dimensões muito próximas da construção da juventude, da identidade juvenil e das vivências, a fim de perceber e identificar como essas políticas, contribuem ou não para a erradicação da pobreza, para a redução das disparidades e das desigualdades sociais. Esses pontos têm relação com a conciliação entre escola e trabalho, mas também a partir da 9 Presidente do Conselho Nacional de Juventude 20 20 perspectiva do primeiro emprego e da necessidade do trabalho como um elemento que dá autonomia e emancipação ao jovem. Destacam-se dois elementos importantes para a construção da identidade juvenil: (1) o jovem se constitui a partir do espaço da escola, ou a partir da necessidade de frequentar a escola, mas também a partir do encerramento dessa segunda fase de juventude, que há um bom tempo chamava-se de jovem adulto; (2) a partir da busca por emprego e do processo de transição de sair da casa dos pais para construir sua autonomia, sua emancipação. Ao longo dos últimos anos, o Conselho Nacional de Juventude tem se mantido nessa trajetória de discutir trabalho e educação, como desafios centrais para a superação da pobreza e da desigualdade social. Todavia, tem um elemento importante, um falso antagonismo, que tem sido colocado entre os dois universos e, principalmente, a partir das organizações de juventude: trata-se da possibilidade de ampliação da escolaridade e da necessidade da inserção no mercado de trabalho. O fato de estudar ou não, de trabalhar ou não, ou de estudar e trabalhar ou não fazer nenhuma das coisas está muito relacionado com a faixa etária, e quando se fala de faixa etária não é só do ponto de vista do que se entende como juventude - dos 15 aos 29 anos -, mas, a partir das divisões entre os segmentos, pois para os mais jovens a possibilidade de inserção e a relação com o universo da escolarização e da educação é maior, do que para os mais velhos, mas também jovens. Quando se tem 15, 17, 18 anos, os jovens estudam mais, têm mais relação com o processo de escolarização, do que os jovens mais velhos. Outro elemento relevante é a renda, que também influencia em sua capacidade de atingir o primeiro emprego, de se manter na escola, de ficar na escola durante mais tempo para concorrer às vagas de emprego mais qualificadas. Desafios Portanto, nesta lógica dois desafios relacionados à juventude para a superação da pobreza: (1) a relação da educação e trabalho a partir da faixa etária; e o outro (2) relação educação e trabalho a partir da renda. Jovens de baixa têm mais dificuldades de acesso à educação, a 21 21 empregos mais bem renumerados, mais qualificados ou que respeitem direitos trabalhistas e isso aparece na quase totalidade das pesquisas sobre esse tema. Ainda na questão da falsa contradição levantada anteriormente é importante destacar que ao longo dos últimos anos, uma parte das organizações de juventude, pelo menos nesse período inicial (2006) defendiam com muito afinco a discussão de uma política que contemplasse programas de financiamento da inatividade juvenil, e isso tem aparecido no Brasil nos últimos cinco, seis anos, talvez com menos força. As formulações mais conhecidas focam no financiamento da inatividade juvenil como um instrumento para que o jovem de classe mais baixa - num processo de redução das disparidades, tenha mais condições e oportunidades igualitárias de acesso ao mercado do trabalho ou mesmo de conciliação da escola com o trabalho. As formulações recentes em torno desse tema apontam para a inexistência de contradição entre a inserção no mercado de trabalho e o financiamento da inatividade juvenil. Do ponto de vista do desenvolvimento, o financiamento da inatividade juvenil é importante, pois ajuda na erradicação e na redução das disparidades. Ao mesmo tempo existe a necessidade de empregabilidade dos jovens. O Conselho Nacional de Juventude avalia que as organizações de juventude, a partir das conferências e outros fóruns, tentam garantir opções para os jovens que desejam construir a sua autonomia, sair da casa dos pais e constituir família e possam ter possibilidade de acesso a vagas de emprego qualificadas. É, portanto, preciso construir políticas públicas para o enfrentamento desde desafio. É importante, também, avaliar a formulação relacionada à I Conferência Nacional de Juventude, de 2008, que apresentou 22 resoluções. Entre elas, àquelas relacionadas à erradicação da pobreza, enfretamento da miséria e desenvolvimento integral dos jovens. Por exemplo, políticas de assistência estudantil, políticas de garantias de acesso e permanência do jovem na escola e na universidade também estão entre as formulações da II Conferência, porque até então se pensava política de acesso e permanência só na universidade, não no ensino técnico, como se no ensino técnico não houvesse a necessidade de políticas de permanência, mas também políticas de trabalho que tivessem menos relação com uma iniciativa específica de olhar para o jovem, mas tivessem mais 22 22 relação com a macroeconomia e com a reforma das relações trabalhistas, no que tange à redução da carga horária, redução da jornada de trabalho sem redução da remuneração. O processo de erradicação da pobreza e redução das disparidades, também se dá com políticas específicas para a juventude que contemplem os desafios de garantir a permanência na escola e também o acesso ao mercado de trabalho em postos qualificados. Durante a Pré-Conferência de Juventude das Américas realizada no Brasil, em 2010, dois desafios foram apontados em relação a esses dois aspectos: a inserção dos jovens na vida produtiva a partir de programas de transferência de renda condicionados à permanência na escola e o investimento na formação escolar que garanta a permanência do jovem em todos os processos de escolarização para além da universidade. Na II Conferência Nacional de Juventude (2011), foram organizadas discussões sobre esse eixo do desenvolvimento integral, com a perspectiva do enfrentamento da pobreza e da erradicação da miséria. Nas duas ocasiões, sete propostas foram apresentas nesse eixo e cinco foram relacionadas ao trabalho e à educação, sendo que cinco surgiram a partir do financiamento da inatividade juvenil, da redução de jornada de trabalho e do oferecimento de alternativas de qualificação mais imediatas para trabalho de nível técnico para os jovens. O financiamento da inatividade juvenil é importante, mas em algumas iniciativas recentes do governo federal e das próprias organizações, têm se restringido ao ensino superior. Iniciativas recentes que visam garantir qualificação profissional mais imediata para jovens que não desejam cursar o nível superior e que respondam a uma demanda por mão de obra de nível técnico, precisariam também vir acompanhadas de financiamento da inatividade juvenil. O Pronatec, por exemplo, no que tange à expansão da rede pública de educação tecnológica e profissional, mantém a mesma estrutura que filtra o acesso de jovens a partir do elemento de renda, pois os jovens que entram nas escolas técnicas do governo federal são obrigados a passar por um processo de vestibulinho, e como ainda essas escolas técnicas ainda não estão disponíveis no Brasil inteiro, mesmo a universalização tendo avançado muito nos últimos anos, esses jovens ainda dependem de financiamento dos pais, pois ainda não há nenhuma política de permanência no ensino técnico. 23 23 Então, a política de postergação da entrada no mercado de trabalho, no que tange à educação superior, tem avançado com financiamento de políticas de assistência estudantil, mas a resposta mais imediata de curso de qualificação técnica, não. Emergenciais de dois, três anos, para suprir uma carência de mão de obra nesse nível no Brasil, que ainda são muito elitizados do ponto de vista do acesso da permanência. Outros desafios devem ser avaliados, como é o caso do bônus demográfico e da violência. A juventude tem sido consumida pela violência e pelo racismo institucional no Brasil, conforme comprova o Ipea, por meio de estudo realizado ano passado onde apresenta o custo da morte precoce para o Brasil. O bônus demográfico no Brasil foi menos aproveitado no sentido de garantir o processo de desenvolvimento, transferência de renda, geração de recurso para o desenvolvimento, e muito mais aproveitado para garantir prejuízo na contribuição que os jovens poderiam dar nesse processo de desenvolvimento. São R$ 79 bilhões de prejuízo por ano, daquilo que os jovens deixam de contribuir com o desenvolvimento da sociedade. Este prejuízo em parte é puxado pela morte - extermínio de jovens negros. Nos últimos 30 anos houve um aumento de 300% no número de jovens negros exterminados no Brasil. Portanto, o processo de bônus demográfico é acompanhado de um processo de erradicação deste mesmo bônus. Do ponto de vista do desenvolvimento, existe a redução da expectativa de vida em diversos estados em até três anos, causada pela morte de jovens negros que impacta em um indicador do desenvolvimento, que é a expectativa de vida ao nascer, de jovens homens negros. Então, um elemento central também parte do enfrentamento ao genocídio de jovens negros no Brasil. Não é possível pensar em desenvolvimento sem pensar na contribuição que essa população deixa de dar. Outros aspectos precisam ser considerados ao discutir o assunto, entre eles está a atual política nacional de drogas e sua relação com os jovens, com o tráfico de drogas, com o enfrentamento com a polícia - os autos de resistência e o encarceramento maciço de jovens no Brasil. Um relatório produzido pelo Ministério Público, no ano passado, aponta que 75% dos jovens encarcerados em unidade de internação e em internação provisória têm relação com o universo das drogas. Cabe destacar, que o encarceramento não tem relação com o consumo, mas por conta da legislação atual, que prende o jovem que faz 24 24 aviãozinho na favela. O jornal O Globo, ano passado, publicou uma matéria que analisava que a prisão de jovens por envolvimento com tráfico de drogas aumentou três vezes no estado, pois com o surgimento das UPPs, os jovens das comunidades passaram a desder para o “asfalto” para fazer a ação de tráfico e foram presos. A política de drogas também é um eixo central do atual sistema. Em 2008, ano que estourou a crise financeira internacional, a lavagem de dinheiro no sistema financeiro internacional, oriundo do tráfico de drogas, representou cerca de 1/3 daquilo que o sistema financeiro perdeu, ou seja, resgatou um terço daquilo que o sistema financeiro internacional perdeu naquela crise. No mesmo ano, no México, o HSBC foi multado por conta de lavagem, do cartel das drogas naquele país. Naquele mesmo ano 50 mil jovens morreram assassinados por conta do envolvimento com o tráfico de drogas. Isso demonstra que a repressão não é um elemento plausível, pois os Estados Unidos investem em política repressiva e nenhum dado melhorou. O controle de fronteiras também não é um elemento, mesmo os Estados Unidos sendo um dos países que tem fronteiras mais controladas, e mesmo assim é o lugar por entra mais droga no mundo. Para pensar na contribuição do jovem e no seu desenvolvimento, é preciso discutir esses temas. Pensar o desenvolvimento do Brasil, pensar a contribuição do jovem, passa por repensar a atual política de drogas, porque ela está na fonte de algumas desigualdades, está na fonte do encarceramento maciço de jovens e que se pretende ampliar com a proposta da redução da maioridade penal. Esses dados demonstram que o extermínio e o encarceramento são maiores do que o número de vítimas civis em algumas guerras, como do Iraque. 25 25 3.4. JUVENTUDE NA ESFERA PÚBLICA: CAUSAS, CONQUISTAS E NOVAS INDAGAÇÕES. Regina Novaes10 Considerações iniciais Em 1998, participei de um grande Seminário, intitulado Jovens Acontecendo na Trilha das Políticas Públicas, promovido pela CNPD. Vários estudiosos colaboraram com as discussões e com a publicação de dois volumes. O primeiro volume reuniu artigos que trataram das características socio-demograficas da juventude brasileira e, também, de questões ligadas à morbidade e à saúde. Já os artigos do volume II trouxeram contribuições sobre Educação, Trabalho e Previdência; Cultura, drogas, religião, sexualidade e, por fim, a última parte deste volume tratou de gastos públicos e políticas públicas. O Seminário e a publicação expressam bem um momento de mudança na maneira de conceber as relações entre juventude e ações governamentais no Brasil. Vale lembrar que, até então, via de regra, a educação era pensada como “a” politica pública que resumia a ação do Estado voltada para este contingente populacional. Mas, justamente, naquele momento a expressão “políticas públicas de juventude” começava a se disseminar e, com ela, a idéia de que as várias dimensões da vida dos jovens deveriam ser levadas em conta. Neste sentido, a contribuição da CNPD foi importante seja pelo título que expressa bem aquela conjuntura, seja pelo conjunto dos temas tratados. Esta lembrança faz desta reunião de hoje uma espécie de continuidade bastante oportuna e promissora. Passaram-se 14 anos, e podemos perguntar o que se acumulou nesses anos? Construiu-se um novo ator social com demandas próprias? Consolidou-se a ideia de jovem como um específico “sujeito de direitos”? Como se caracteriza a condição juvenil? Qual é a situação dos jovens brasileiros? Quais os novos desafios conceituais e práticos que acompanharam tais mudanças? Quais Programas e Ações públicas existem ou deveriam existir assegurar direitos universais e específicos dos jovens brasileiros? 10 Professora na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) São muitas perguntas e as 26 26 respostas não são fácies. Contudo, através destas e de outras indagações, podemos iniciar um debate esperando despertar interesse e outras oportunidades de diálogo. Quando e como os “problemas da Juventude” passaram a ter um lugar de destaque na agenda pública? A juventude passou a fazer parte da questão social brasileira no ápice da nova divisão internacional do trabalho. No final dos anos de1980, o aprofundamento dos processos de globalização dos mercados; a desterritorialização dos processos produtivos; a flexibilização das relações de trabalho atingiram, particularmente, a vida presente e as perspectivas de futuro dos jovens. Desemprego e violencia se apresentaram na agenda pública como “os problemas da juventude”. As buscas de soluções para estes problemas mobilizaram energias de diferentes atores sociais, agenda pública, agentes de cooperação internacional, agências bilaterais. Ao mesmo tempo, no Brasil, assim como em vários países da América Latina, estes processos coincidiram com o final dos regimes autoritários, fazendo com que as iniciativas democratizantes fossem interrompidas para dar lugar a projetos de ajuste e “enxugamento do Estado”. Priorizar o equilíbrio fiscal e o corte de gastos eram orientações advindas do Consenso de Washington. Para combater a pobreza, os governos adotaram políticas compensatórias de transferência de renda por meio de programas alimentares e empregos temporários. Bem como, organismos oficiais e agências de cooperação internacional desenvolveram metodologias e motivaram “parcerias” entre organismos internacionais, governos e a sociedade civil, via de regra, representada pelo chamado “terceiro setor”. Neste contexto, uma parcela da população juvenil, considerada em “situação de risco”, tornou-se “publico alvo” para programas e ações de contenção e prevenção da violência e do desemprego. Por outro lado, também nos anos de 1990, órgãos governamentais, organizações não governamentais (ONGs), igrejas desenvolveram “Projetos Sociais” voltados, especificamente, para jovens “em situação de risco”: via de regra, moradores de periferias urbanas consideradas pobres e violentas. Viabilizados por recursos da cooperação internacional ecumênica, de governos europeus e de bancos/agências de desenvolvimento foram se criando espaços frequentados por “jovens de projetos” (Novaes, 2006). Estes Projetos tinham como objetivos “ressocializar para combater a 27 27 violência”, “promover o retorno aos bancos escolares”, “capacitar para o trabalho”, “inserir os jovens em dinâmicas de integração social”, “aumentar a autoestima” “fomentar o voluntariado” e, ainda, desenvolver o “protagonismo juvenil”. Importante notar que a noção de “protagonismo juvenil”, tal como difundida nos projetos da década 1990, estimulava um papel proativo dos jovens. Por meio consigna “jovem não é problema, é soluçao”, tal protagonismo era um recurso pedagógico que não se traduzia em ampliação da participação social e em exigencias de políticas públicas. Ao contrário, a concepção de protagonismo, veiculada naquele momento, minimizava responsabilidades do Estado. a concepção de protagonismo Ou seja, condizente com a meta de enxugamento do Estado, ações voltadas para jovens eram vistas mais como antídotos à violência e à fragmentação social, e menos como parte dos direitos dos jovens cidadãos. A ótica era mais de proteção e prevenção do que de efetivação de direitos. Contudo, podemos dizer que os efeitos sociais destes Projetos foram múltiplos e nem sempre na direção prevista por seus formuladores. Por exemplo, entre os “jovens de Projeto” surgiram grupos culturais, redes e movimentos com demandas de direitos e de politicas públicas. Neste percurso, destacaram-se os “grupos culturais”. Surgidos a partir dos anos de 1990, ampliaram espaços de agregação juvenil, experimentação e de criação estética. Autônomos, independentes e/ou lançando mão de recursos materiais e simbólicos de mediadores (das igrejas, agências internacionais ou organizações não governamentais e fundações locais), estes grupos valorizam as chamadas “comunidades”, favelas e periferias desenvolvendo estratégias para ter acesso à cidade e à cidadania. Outro destaque: o tema da ecologia aos poucos foi se tornando um motivador de associativismo juvenile. Assim como as questões geracionais passaram a ter lugar no interior de movimentos identitários: surgem coletivos de jovens negros e negras; jovens mulheres; juventude indígena; jovens LGBT. Também as pastorais católicas e evangélicas, grupos de jovens de outras religiões afro- brasileiras, ou de minoritárias, colocam em pauta novas demandas geracionais. Assim, se até os anos de 1970, os atores juvenis estavam praticamente restritos aos jovens estudantes das classes médias e às juventudes partidárias, ao final dos anos de 1990 tornou-se muito mais diversificada a face social dos jovens que se mobilizavam (Abramo, 1997) ganharam visibilidade várias formas de movimentação entre jovens provenientes de distintos setores sociais. Assim a noção de juventude (com todas as suas clássicas imprecisões) se estendeu para além da condição de “estudante” e passou a incluir outras 28 28 identidades, condições e situações sociais motivando a criação de Secretarias ou Coordenadorias de Juventude em alguns Municípios e em poucos Estados brasileiros já no final da década de 1990 e início dos anos 2000. Neste percurso, reconhecer a “diversidade juvenil” tornou-se condição necessária para legitimar a criação de espaços institucionais especificos, de juventude, em diferentes territórios. O uso do plural “juventudes” foi importado da Academia e passou a ser correntemente usado por jovens militantes e por gestores públicos. Assim, aos poucos, foi se construindo uma linha divisória: a noção de “direito”, ausente na primeira fase dos projetos voltados para jovens excluídos, foi se incorporando na argumentação de grupos organizados e de gestores do poder publico. Tratava-se agora de acionar a sociedade e os governos para criar oportunidades superar os obstáculos que dificultavam a inserção social de jovens no tempo presente remetendo-se aos direitos constitucionais, pensados na ótica dos Direitos Humanos. Levado a reconhecer demandas de grupos, redes e movimentos juvenis, criou-se no Brasil uma Politica Nacional de Juventude, anunciada no dia 1º de fevereiro de 2005. Para ser aprovada, a medida provisória contou com o apoio de parlamentares de diferentes partidos, sendo sancionada pelo presidente da República em julho do mesmo ano. Considerando os jovens brasileiros, de 15 a 29 anos, a lei vigente (Lei 11.129, de 30/06/2005) criou a Secretaria Nacional de Juventude (SNJ) integrada à Secretaria Geral da Presidência da República “responsável por coordenar a Política Nacional de Juventude, além de articular e propor programas e ações voltadas para o desenvolvimento integral dos jovens”. A SNJ coordena o Conselho Nacional de Juventude (Conjuve) e coordenou o Programa Nacional de Inclusão de Jovens (Projovem) até o início da atual gestão presidencial. O Conselho Nacional da Juventude (Conjuve) tem o objetivo de formular diretrizes, discutir prioridades e avaliar programas e ações governamentais voltados para jovens. Segundo documento oficial, “a constituição do conselho transforma em política de estado a questão da juventude e revela um pacto pelos direitos dos jovens”. Tem caráter consultivo, é formado por representantes do poder público (1/3) e (2/3) da sociedade civil. O Conselho Nacional de Juventude (Conjuve) tem sido um espaço relevante para o debate em torno das políticas públicas de juventude. Embora existam várias dificuldades para que o Conjuve se consolide enquanto instância de controle social de Programas eAções, este 29 29 Conselho têm sido uma referência importante tanto para a criação e atuação de conselhos estaduais e municipais de carater consultivo ou deliberativo quanto junto ao poder Legislativo onde foi aprovada uma emenda constitucional (PEC) e mais recentemente o Estatuto da Juventude. No momento atual o Conjuve está dividido em quatro Comissões: Articulação e Diálogo; Acompanhamento de Políticas e Programas; Comunicação e Comissâo Parlamentar.Além destas Comissões, funcionam no Conjuve quarto grupos de trabalho permanentes, a saber: Juventude Negra; Meio Ambiente; Pacto pela Juventude e GT Relações Internacionais. Além disto, neste mesmo percurso, vale a pena destacar as Conferências de Juventude. A 1ª Conferência Nacional de Juventude foi realizada em 2008, pela Secretaria Nacional de Juventude e pelo Conjuve. Foi um importante disparador, no nível dos estados e municípios, da discussão sobre desenhos institucionais para a juventude, provocando a criação de coordenações, assessorias e conselhos de juventude. Também trouxe inovações importantes no aspecto metodológico, especialmente na inclusão da modalidade de conferência livre, possibilitando que qualquer grupo pudesse se expressar, sugerindo propostas que foram consideradas no debate durante a etapa nacional. A idéia já foi multiplicada em conferências de outros campos e segmentos, como a 1ª Conferência Nacional de Segurança Pública. Seu lema foi: Juventude, levante suas bandeiras. Reunidos durante quatro dias, os dois mil delegados eleitos nas etapas preparatórias, participaram da escolha de 22 prioridades (disponível em <http://www.juventude.gov.br>). Chama a atenção nos resultados desta Conferência o lugar destacado para osdireitos de jovens negros e negras (primeira prioridade). Também se atribui à presença e à pressão de jovens da conferência em visita à Câmara dos Deputados, a aprovação da PEC da Juventude e, ainda, a volta da tramitação do Plano Nacional de Juventude, naquele momento estacionado na Câmara. A II CNPPJ contou com a presença de cerca de 3000 participantes, sendo cerca de 1400 delegados credenciados, eleitos em conferências municipais, estaduais e livres por todo país. Seu lema central foi “Conquistar direitos e desenvolver o Brasil. E os direitos da juventude foram organizados em cinco eixos: 1) Direito ao desenvolvimento integral (Trabalho, Educação, Cultura e Comunicação); 2) Direito ao território (Povos tradicionais, Jovens Rurais, Direito à Cidade, ao Transporte, ao Meio ambiente); 3) Direito à experimentação e qualidade de vida (saúde, esporte, lazer e tempo livre) 4) Direito à 30 30 diversidade e vida segura (segurança, diversidade e direitos humanos) e 5) Direito à participação. Em suma, neste novo contexto, a linguagem dos “direitos” passou a organizar e ressignificar um conjunto de demandas de juventude. Nesta Conferência, os delegados foram indagados sobre quais os três direitos de cidadania que deveriam ser priorizados nas políticas públicas de juventude. O direito à educação (85,7%), ao trabalho (46,5%) e à participação (40,5%) apresentam as maiores frequências junto aos 830 delegados que responderam a esta questão. Os direitos à comunicação (6,9%), ambientais (4,9%) e sexuais e reprodutivos (4,5%) ocupam colocações abaixo com pequenas diferenças percentuais. Mesmo sem a pretensão de esgotar o tema, vale agora destacar algumas questões em torno das principais demandas que tem sido, recorrentemente, destacadas tanto nas pesquisas quanto em espaços de juventude. As demandas: os diagnósticos e as singularidades da atual condição juvenil. Nos últimos anos, iniciativas de grupos e organizações levam demandas para o espaço publico e suscitam respostas governamentais. Neste cenário, os programas e ações voltados voltadas para juventude deveriam combinar: ações de urgencia com medidas distributivas (de acessos e oportunidades) contemplando tanto o reconhecimento das diferenças quanto suas específicas vulnerabilidades. Na perspectiva dos direitos, os problemas e demandas da juventude se relacionam tanto com questões (re) distributivas mais gerais da sociedade excludente quanto com questões de reconhecimento e valorização de sua diversidade e, ainda, evocam a dimensão participativa que tem grande importância na fase da vida na qual se busca a emancipação. Tal classificação ajuda a sistematizar as demandas juvenis, mas suas linhas divisórias não devem ser vistas de maneira estanque. Isto porque as demandas comportam interdependências, zonas intermediárias e híbridas.Vou destacar aqui alguns exemplos – a meu ver - que podem contribuir para os debates no interior da CNPD. 31 31 Estudo e Trabalho: geração “nem- nem” ou trajetórias juvenis “sem-sem”? Estudo e trabalho são dois temas fundamentais quando se fala em juventude. Não por acaso o Programa Nacional de Inclusão de Jovens (o Projovem) foi criado como um programa de caráter emergencial, originalmente voltado para jovens de 18 a 24 anos que não concluíram o ensino fundamental. Além de concluir o ensino fundamental, o jovem deveria aprender uma profissão de acordo com as vocações produtivas de sua região e participa de ações comunitárias, recebendo um auxílio de cem reais. Todo o material didático, produzido especialmente para o programa, tem a “juventude” como tema central. Seus seis eixos temáticos – que articulam os conteúdos de forma interdisciplinar – sempre trazem a questão da juventude em suas relações com a cultura, a cidade, o trabalho, a comunicação; a tecnologia e a cidadania. Também o material preparado para o curso de inglês apresenta situações próximas do universo desses jovens. A informática é pensada não só como “capacitação” para o trabalho como meio de conhecimento e instrumento de comunicação. Passados alguns anos de implantação, as avaliações do Projovem mostraram que os jovens inscritos no Programa tinha um histórico de várias entradas e saídas na Escola e no Mercado de trabalho. Se fizessemos um retrato fixo, eles estavam fora da escolar e do mercado de trabalho, seriam “nem-nem” para usar esta expressão que caiu no gosto da mídia. Contudo, se ao invez de um retrato fixo fizessemos um filme, que retratasse a história destes jovens, veríamos que eles deveriam ser classificados como “sem-sem”, sem acessos, sem garantia de continuidade de estudo ou de viabilizar combinações entre escola e trabalho. Classificar estes jovens como “nem-nem” é anular sua história, apagar suas experiências, ignorar suas buscas. É significativo o número de jovens que se inscreveram no Projovem tendo chegado até a quarta série do ensino fundamental. Como disse um deles: “estudei à prestação, de pouco em pouco, como no crediário”. Por outro lado, as pesquisas com egressos, realizadas pela UNIRIO, mostram que muitos deixaram o Programa por necessidade de trabalhar. Evasão escolar? Este conceito dá conta desta realidade? Ou seria necessário encontrar outro conceito mais adequado para avaliar a questão da desistência em Programas Educacionais que se realizam fora do sistema regular de ensino, onde há recorrente distorção dos pressupostos “idade/série? Ou seja, resultados de avaliação do Programa mostram trajetórias de jovens “sem” condições de ter uma 32 32 escolaridade regular e “sem” condições de garantir continuidade em Programas que lhes são oferecidos como “segunda chance”. Ou seja sem acesso a oportunidades e direitos. Também a partir de avaliações quantitativas e qualitativas, outras modificações foram feitas no Programa. No momento que o Projovem foi pensado, a ideia era atingir jovens que estavam for a do Mercado de trabalho, o que deveria ser verificado por meio da carteira assinada. No entanto, em um segundo momento, quase quatro anos depois, surgiu a questão das empregadas domésticas que tinham carteira assinada e não tinham concluido o ensino fundamental. Por que jovens empregadas domésticas não deveriam ter acesso ao Projovem? Esta, e outras situações similares, fizeram cair a exigência de “não 33 trabalhar” para frequentar o Programa. Ainda no que tange às questões de gênero, outra modificação importante foi feita recentemente, depois que o Projovem passou parao MEC. As avaliações mostravam tanto jovens mães que voltavam a estudar depois da implantação do Projovem, quanto aquelas que abandonavam o Programa por não ter onde deixar os filhos. Foi aí que – com a participação ativa do Conjuve em reuniões com a coordenação do ProJovem no MEC - se pensou nas “salas de acolhimento” nas quais as jovens mães podem deixar seus filhos enquanto assistem aulas. Depois de quase dois anos, a avaliação é que estas salas estão contribuindo para diminuir os casos de desistência do Programa. Enfim, como os demógrafos já indicaram, mudou a sociedade e mudaram os padrões de passagem da juventude para a idade adulta. Se anteriormente a expectativa era que a juventude pudesse estudar/se formar/entrar no mercado de trabalho/constituir uma novafamília/ter filhos, hoje as trajetórias juvenis se mostram múltiplas e a sucessão de eventos não é necessariamente linear. Essa geração tem mais escolaridade que seus pais, mas tem mais dificuldades de inserção produtiva do que a geração anterior. Para os jovens “sem-sem”, diferentes situações de vulnerabilidade impõem várias entradas e saídas no mercado da escola, e no mercado de trabalho, formal ou informal. Contudo, enquanto seus pais encurtaram a infância e anteciparam a idade adulta, entrando no mercado de trabalho de maneira precoce mas definitiva, são mudanças no mundo do trabalho que influenciam a circulação de jovens entre escolas e ocupações. Em tempos de rápidas mudanças tecnológicas, de mercado de trabalho restritivo e mutante, a cada ano se enterram velhas profissões e se criam novas ocupações. Entre elas, destacam-se os motoboys e os trabalhadores do telemarketing. Os jovens de motocicletas 33 (motoboys) se tornaram essenciais nos serviços de entrega e de transporte das grandes cidades, que sofrem com o grande congestionamento do trânsito, e começam a ganhar importância também para vencer as distâncias no mundo rural. O termo “geração ioiô” foi cunhado por José Machado Paes, pesquisador português, para caracterizar as idas e voltas – entre a dependencia e a emancipação – dos jovens de hoje.Até aqui falamos de jovens com baixa escolaridade. Contudo, para aprofundar esta discussão, também seria importante fazer referências aos jovens que conseguem concluir seus estudos. Por um lado, temos um fenômeno novo: os diplomas são importantes passaportes para entrar no Mercado de trabalho, mas não garantem a viagem. Isto, seja porque nesta geração há jovens que se empregam em postos de trabalho que não correspondem ao nível de escolaridade atingida, seja porque há grande instabilidade e fortes exigencias de produtividade nos postos de trabalho oferecidos. Situações de assédio moral estão acontecendo em vários lugares onde imperam critérios de produtividade submetendo jovens a tensões e humilhações de diferentes tipos. Silvia Viana, em um livro intitulado Rituais do Sofrimento, publicado pela Editora Boitempo, compara situações vivídas no mercado de trabalho com o Big Brother, o reality anualmente levado pela TV Globo. Nas empresas, é o Departamentos Pessoal ou de Recursos Humanos que arma o “paredão” por meio de “avaliações participativas”. Um avalia o trabalho de outro e pensa: se não for ele, sou eu… Assim, todos entram no “jogo”. Afinal, em tempos de capitalismo flexível, é preciso “salvar-se do paredão” e cumprir as metas estipuladas pela empresa. No atual contexto, o termo “nem-nem” poderia até ser estratégico para chamar a atenção, sensibilizar, para ampliar possibilidades de comunicação sobre problemas geracionais de hoje. Mas, seu uso é também um risco, pois o termo homogeneiza situações muito diferentes e, também, não favorece o inicio de uma discussão mais profunda sobre temas urgentes para as novas gerações, tais como: a necessária revisão de curriculos e flexibilização dos tempos escolares; a adequação do conceito de evasão escolar para pensar trajetórias de jovens com várias entradas e saídas no sistema escolar; possibilidades de aproximação entre diferentes tipos de aprendizado no mundo inter-conectado; o reconhecimento de atuais e diferenciados padrões de passagem da juventude para idade adulta; novas possibilidades de conciliar trabalho, estudo e vida familiar como propõe o Pacto pela Juventude da OIT. 34 34 Além disto, aprofundar a discussão sobre juventude/trabalho/estudo significa também levantar questões sobre condições de trabalho e legislação trabalhista em vigor. Menos do que flexibilizar “direitos” conquistados, trata-se propor novas conquistas que – diferentes entre si - possam corresponder às atuais situações de trabalho, assalariado ou autonomo nos moldes do século XXI. Violência e Segurança: o que muda quando falamos em direitos da juventude? No Brasil atual, a questão da violência tem sido traduzida em demandas de distribuição, de reconhecimento e de participação. A geografia da violência revela desigualdades sociais, disparidades regionais e segregações urbanas. Estes situações remetem a demandas de distribuição de renda, de acesso a equipamentos urbanos no local de moradia, assim como de acesso a aparato policial confiável e capacitado. Ao mesmo tempo, situações de violência vivídas pelos jovens geram demandas de reconhecimento de atores sociais em sua diversidade. Isto porque são cotidianamente retroalimentadas por preconceitos e discriminações relativas à cor da pele, à orientação sexual, à aparência, ao local de moradia e ao simples fato de “ser jovem”. Assim sendo, para enfrentar esta questão torna-se imprescindível contar com a participação juvenil para seu mapeamento, para a elaboração de Projetos e ações e para sua avaliação e controle social. O que não tem sido fácil, nem simples. Com efeito, na caracterização da atual condição juvenil, quando se fala de formas de exclusão social, temos que destacar a “discriminação por endereço”. A segregação espacial tem sido produzida pela combinação de três fatores: a presença precária do poder público; a violência e poder dos traficantes e violência e a corrupção policial. Tal combinação faz com que os jovens sejam criminalizados e discriminados em função do lugar onde moram. Em face desta situação, os jovens têm criado redes que afirmam o pertencimento local, denunciam injustiças e se tornam canais de participação (por eles denominadas de “midiativismo”). No entanto, ainda que se destaquem tentativas de Projetos e Ações que objetivem discriminalizar estes territórios, notícias recentes demonstram a urgência de mudanças profundas nas polícias e na gestão pública de recursos municipais, estaduais e federais. 35 35 Além disto, é preciso levar em conta que no Brasil a desigualdade racial se cruza umbilicalmente com a condição social. Ou seja, a cor da pele- como fator de desigualdade retroalimenta a exclusão econômica e social. Neste contexto, a questão racial (urgente e prioritária) acaba por englobar velhas dívidas sociais e se desdobrar em novas outras demandas dos jovens de hoje. As lutas por cotas raciais tem resultado em políticas afirmativas nas universidades e em alguns nichos do mercado de trabalho inibindo expressões de preconceitos e ampliando oportunidade de inserção educacional e laboral de jovens negros e negras. Aqui cabe destacar também a importancia do hip hop que – enquanto expressão cultural - tem sido um canal renovado e poderoso de afirmação da negritude. Por outro lado, os recentes “rolezinhos” – ida programada aos shoppings em grupos- podemos ver um desdobramento tanto do preconceito racial quanto das lutas para combatê-lo. Em outras palavras, se por um lado, os avanços sociais inibem (ainda que não cheguem a coibir) o preconceito em espaços de educação e trabalho, por outro lado, a discriminação racial e ações de resistência (como o “rolezinho”) se deslocam para a area de lazer ou de consumo, para o direito de ir e vir e se apropriar de diferentes espaços quecompõem a cidade. Ou seja, para além da violência física, é preciso levar em conta diferentes tipos de violência simbólica. Nesta perspectiva, Programas e ações voltadas para o combate do “genocídio da juventude negra” devem incluir dimensões que deveriam estar presentes mesmo que não houvesse estas mortes inaceitáveis. Este parece estar sendo o caminho do Programa Juventude Viva. Iniciativa da Secretaria de Políticas da Igualdade Racial e da Secretaria Nacional de Juventude este Programa parte da constatação que os homicídios são aprincipal causa de morte de jovens de15 a 29 anos e atingem especialmente negros do sexo masculino, moradores de favelas e periferias. Priorizando 142 municípios com maiores indices de homicídios de jovens, o Programa Juventude Viva se propõe a criar oportunidades de inclusão e autonomia por meio de oferta de serviços públicos nos territories promovendo os direitosda juventude, em especial da juventude negra. Para tanto, as ações do Plano estão estruturadas em quarto eixos, a saber: 36 36 1. Desconstrução da cultura da violência (articular atores e sensibilizar aopinião pública); 2. Transformação de Territórios (ampliação de espaços de convivência; oferta de equipamentos; serviços públicos e atividades de cultura, esporte elazer); 3. Inclusão, emancipação e garantia de direitos (levar para o território programas e ações que contribuam para que os jovens sejam reconhecidos e construam suas trajetórias de vida); 4. Aperfeiçoamento institucional (ações para enfrentar o racismo nas escolas, no sistemadesaúde, na polícia, no sistema previdenciário e de Justiça). 37 37 Como se pode observar, mesmo que não estivessemos neste nível de violência física, tais programas e ações deveriam existir e ser vistos da ótica dos direitos. No entanto, não se trata apenas de acertar na formulação e no desenho. Para que este Plano seja eficaz, há que superar fronteiras entre caixinhas de políticas setoriais e “entes federativos” que disputam recursos e legitimidade. Isto sem falar na urgência de mudanças profundas nas estruturas e na mentalidade das policias. Programas e ações para “fixar” os jovens no campo ou para ampliar suas possibilidades de escolha? De 2000 para 2010 a população rural decresceu em 2 milhões desse total 50% corresponde a faixa de 15 a 29 anos. Contudo, se não houvesse “êxodo rural”, não haveria necessidade de políticas públicas para jovens no campo? Essa pergunta - hipotética serve principalmente para provocar reflexão. A situação dos jovens rurais hoje causa preocupação pelo nível de escolaridade e renda. No entanto, as explicações que remetem à “atração” dos jovens do campo pelas “luzes da cidade” e ao seu desinteresse pelo trabalho agrícola não têm o mesmo peso argumentativo de décadas passadas. Estudos demonstram que são múltiplas as razões que contribuem para a circulação de jovens entre municípios pequenos e entre campo e cidade. O que pode, ou não, representar uma “saída” definitiva do meio rural. Tal circulação pode ser em função de ausência de trabalho no campo, como também busca de continuidade de estudos; bem como tem sido motivada por redes familiares e de sociabilidade. (CASTRO, E.G, 2013) Neste cenário é importante pensar sobre como usar a noção de “êxodo rural”. Tal noção remete, principalmente, a um momento específico de nossa história em que a mudança social no país foi pensada por meio da combinação entre urbanização e industrialização. Nesta época, algumas correntes políticas, propunham a desconcentração fundiária e a diversificação da produção agrícola. A Reforma Agrária deveria garantir a produção de alimentos baratos para a classe operária que se formava e, ao mesmo tempo, para conter a migração e o inchamento das cidades. O que demandam hoje os jovens do campo? Em documentos públicos, estes jovens também assumem a bandeira mais geral da reforma agrária e fazem demanda específicas de acesso à terra e ao crédito agrícola. Ao mesmo tempo, demandam acesso às escolas de ensino médio e à universidade, demandam currículos e calendários condizentes com a realidade e sazonalidade das atividades agrícolas. Também o acesso à cultura e às novas tecnologias de comunicação e informação faz parte das demandas dos jovens da zona rural. Por outro lado, práticas ecológicas agregam um valor positivo ao “ficar no campo”, antes só visto pela ótica do atraso. Por meio da ecologia os jovens procedentes da zona rural se conectam com as questões de seu tempo, fazendo dialogar velhos problemas com novas motivações. Assim, em defesa da “sustentabilidade socioambiental”, conectam-se as agendas de jovens indígenas, quilombolas, rurais e urbanos. De fato, a preocupação ecológica têm poder de articular questões imediatas com questões gerais da sociedade. Impasses da pequena produção agrícola, frente a processos de concentração de terras e ao agronegócio, ganham novas conotações para grupos de jovens do campo e das florestas. Neste contexto, num momento em que se afunilam oportunidades nas carreiras tradicionais, surgem novas áreas de profissionalização ambiental, valorizadas ou (re) valorizadas com o fortalecimento de uma consciência ecológica, também acenam com novos espaços de inserção para os jovens (Carvalho, 2004). Assim a idéia de “ficar no campo” hoje incorpora também a possibilidade de criação de novas ocupações rurais não agrícolas, de pluriatividades, de circulação de jovens entre cidade e campo. Assim, Projetos e ações voltadas para jovens do campo podem ser inovadores e contribuir para a construir sustentabilidade ambiental . 38 38 Por outro lado, neste tópico devemos também lembrar de jovens rurais que migram sazonalmente para o corte de cana, sobretudo em São Paulo. Estes jovens – recrutados sobretudo no Nordeste e no Vale do Jequetinhonha em Minas Gerais – assinam contratos temporários de trabalho. Com sua energia e seu corpo, estes jovens chegam a cortar bem mais do que 10 toneladas de cana de açúcar por dia. A carteira de trabalho é assinada, não há nada de ilegal nesse tipo de contrato no qual se ganha por produtividade. Contudo, as câimbras, as doenças - e até mortes precoces – são os efeitos colaterais da superexploração do trabalho juvenil. Alojados nos acampamentos, estes jovens sequer chegam às cidades onde ficam as sedes das Usinas consideradas as mais modernas do país. Estigmatizados localmente, estes jovens também passam meses sem frequentar espaços de lazer e desociabilidade. Via de regra, estes jovens com pouca escolaridade e pouco acessos nos locais de origem, o que faz esta migração para o corte da cana torna-se a única alternativa para alcançar determinados ganhos. Felizmente, recentemente começaram haver reações dos jovens que buscam romper contratos com as usinas quando as condições de alojamento e de trabalho são por demais precárias. Uma greve, que teve como objetivo romper um contrato de trabalho, foi registrada em um video-documentário intitulado Conflito, dirigido por Beto Novaes e disponível no You Tube. Foram os próprios jovens que fizeram em seus celulares uma parte das imagens que compõem o documentário. Alí se pode observar as péssimas condições de trabalho e de alojamento que lhes eram oferecidas. O que fez com que 400 trabalhadores decidissem procurar a Procuradoria para interromper o contrato e voltar ao Nordeste. Enfim, passados tantas décadas, com tantas mudanças nos circuitos migratórios e transformações nas relações campo-cidade, até que ponto podemos tratar a saída de jovens do campo como “exodo rural” e colocar sua “fixação” como objetivo central de Programas e Ações voltadas para a juventude no campo? A meu ver, as políticas de juventude no meio rural devem garantir direitos para os jovens que - em suas trajetórias em busca de autonomia e emancipação – escolherem ficar no campo de maneira parcial ou total. Um Programa recente desenhado pela Secretaria Nacional de Juventude pode contribuir para apoiar estas escolhas. A Secretaria Nacional de Juventude (SNJ- SGPr), lançou o Programa de Fortalecimento da Autonomia Econômica e Social da Juventude Rural (Pajur), 39 39 que reúne um conjunto de ações específicas para os jovens que vivem no campo. A iniciativa foi desenvolvida conjuntamente com o Ministério do Desenvolvimento Agrário, incluindo o Incra e a Conab, e com os Ministérios das Comunicações e da Cultura, além de contar com a parceria do CNPq, apoio de fundações, universidades federais, organizações e grupos juvenis. O Pajur associa a formação cidadã, com base nos preceitos agroecológicos e sustentáveis, estimulando o intercâmbio de experiências e a ampliação do acesso às políticas públicas e às tecnologias sociais. A ideia é assegurar a ampliação do acesso às políticas públicas, capacitação e o apoio a microprojetos produtivos, fortalecendo a autonomia e emancipação da agricultura familiar, camponesa e dos povos e comunidades tradicionais. Uma série de ações subsidiaram a construção do Programa, a exemplo do edital de Inclusão Digital para os Jovens Rurais; o edital de Articulação de Grupos de Economia Solidária; o Curso de Formação Agroecológica e Cidadã com Geração de Renda, que integra as ações do Plano Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica (Planapo); o Programa Estação Juventude Itinerante Rural e o Curso de Capacitação de Jovem em Agricultura Sustentável, Gestão e Inovação Tecnológica. Os movimentos juvenis que participaram do lançamento do Pajur, em julho deste ano, criticaram o Programa por considerar poucos os recurso e restritos os territorios que serão contemplados nesta etapa. Contudo, está colocado o desafio da implantação deste Programa que – mesmo em carater experimental – pode contribuir para que os jovens que vivem nas áreas rurais no Brasil possam ser visto como cidadãos com direitos de ir e vir, circular, de fazer escolhas no presente e decidir sobre como construir suas trajetórias de vida. Nesta ótica, a juventude rural dará uma contribuição específica para o desenvolvimento de uma metodologia mais adequada para o desenho, validação, implantação e avaliação dos Programas e Ações voltados para a juventude. Nota final Nas últimas décadas, os jovens brasileiros têm se apresentado no espaço público por meio de múltiplas identidades. Diferentes experiências de discriminação podem se somar na vida de um mesmo jovem (ser jovem, ser negro, ser favelado, ser homossexual, ser mulher, ser da área rural). Estas identidades são acionadas de acordo com as disputas em questão. 40 40 Pesquisas recentes têm demonstrado que os jovens somam “causas”. Isto nos convida a evitar esquemas empobrecedores que se ancoram em substantivação de identidades únicas e fixas (IBASE, 2008). Por exemplo, o movimento estudantil universitário tem sido levado a renovar sua pauta tanto quando abraça causas específicas referentes à educação tanto quando incorpora em sua agenda de novos temas debatidos na sociedade como a questão do meio ambiente, o debate sobre cotas raciais e direitos humanos. Nos encontros culturais da UNE, destacam-se os espaços reservados para o movimento hip hop. Outro exemplo, que vale destacar aqui, diz respeito ao chamado “midiativismo”. Não só a bandeira por “software livre” foi ganhando crescente destaque em diferentes organizações juvenis, como também motivaram grupos, redes e movimentos específicos que se reúnem em torno da comunicação virtual destacando questões de democratização de instrumentos tecnológicos e qualidade do acesso. Hoje podemos dizer que a grande maioria das redes, movimentos e grupos juvenis movimentam redes virtuais difundindo causas, convocando para eventos e manifestações e, em certas ocasiões, pautando a grande mídia. Podemos dizer que nestes anos ampliaram-se incrivelmente, não só as oportunidades para os jovens dessa geração em termos de consumo, mas, também, em termos de articulação baseada na complementaridade entre o virtual e o presencial. Cabe ainda destacar aqui a demanda por transporte. Esta demanda remete às contradições de um modelo de “transporte coletivo” baseado em manipuláveis concessões públicas para exploração privada que se caracteriza pela sofrível qualidade e distribuição desigual na oferta deste serviço. Em junho de 2013, em um movimento de espiral, o “direito ao transporte público” foi puxando a educação, saúde, segurança, terra, etc. – todas áreas de demandas de políticas públicas, cuja ausência ou ineficiência foram atribuídas fundamentalmente a práticas de corrupção, ao mal uso do dinheiro público, aos gastos indevidos com grandes eventos, dentre outros. Ao mesmo tempo, as recentes manifestações não podem ser vistas como “um raio em meio de um céu azul”. Creio que os acontecimentos de 2013 produziram inédita conjugação de fatores na qual foi bastante importante não só o Movimento Passe Livre, mas de outro heterogêneo conjunto de jovens que reivindicaram direitos de cidadania. Após estas experiências, se ampliará ainda mais a face dos jovens que participam dos movimentos juvenis que já existem ou que venham a existir. 41 41 Isto porque, com todas as desigualdades que persistem na sociedade brasileira, não há como negar que – nos últimos anos – políticas sociais significativas garantiram mais acessos a mais jovens brasileiros. Os resultados da Pesquisa Agenda Juventude Brasil (SNJ-SGPr, 2014) demonstram que os jovens entrevistados têm mais anos de escolaridade e apresentam melhorias na qualidade de vida em relação a de seus pais. Esta pesquisa nacional mostra que - no Brasil de hoje - os jovens valorizam: a possibilidade de estudar; a diminuição da pobreza, a democracia e a liberdade de expressão. Por outro lado, como problemas graves reconhecem a violência, a corrupção, a desigualdade e o racismo. Cabe ainda salientar que uma parcela significativa dos entrevistados associa a noção de direito às políticas públicas. Como desafios que ainda precisam ser vencidos, os jovens destacam: qualidade da educação; ofertas de formação profissional; mecanismos de inserção e garantia de trabalho: atendimento à saúde e ações de segurança que não vitimizem os próprios jovens. Como se pode observar, há expectativas de que as demandas de distribuição, de reconhecimento e de participação possam ser efetivadas. Trata-se de uma combinação entre políticas universais, políticas atrativas para esta faixa etária e, finalmente, políticas específicas para um determinado segmento etário. Como políticas universais temos, com destaque, o acesso a diferentes modalidades de ensino, ao trabalho e à saúde. Ao mesmo tempo, Programas e ações culturais são exemplos de políticas atrativas. Elas não são só para os jovens mas tem uma afinidade com esse momento da vida, que é um momento de experimentação, de construção de identidade, é um momento de poder “ir e vir”. Já as políticas específicas para jovens são aquelas que são voltadas apenas para essa faixa etária como – por exemplo – o ProJovem, o Plano Juventude Viva, o Pajur, já citados neste texto. Tais políticas respondem (ou deveriam responder) a diferentes dimensões da vida dos jovens e estão sob a responsabilidade de diferentes ministérios, secretarias e outros organismos governamentais. Tal segmentação tem sido um obstáculo para dar visibilidade e promover a integração de programas e ações voltados para jovens, comprometendo sua transversalidade, condição sine qua non para sua efetividade. Ou seja, se o jovem indagar “o que existe para mim?” - em termos de Programas e Ações-, ele dificilmente encontrará a resposta em apenas um ministério ou secretaria setorial. Quem deveria responder quando o jovem perguntasse “o que tem para mim”? O que tem para mim no entorno onde vivo, o que tem para mim na minha cidade? A dificuldade de 42 42 encontrar esta resposta parece ter motivado a Secretaria Nacional de Juventude (SNJ/SGPr) a criar o Programa Estação Juventude, cuja finalidade é "promover a inclusão e emancipação dos jovens, com a ampliação do acesso às políticas públicas por meio destes equipamentos públicos ". O Estação Juventude oferece informações sobre programas e ações para os jovens, além de orientar, encaminhar e dar apoio para que eles próprios tenham condição de construir as suas trajetórias e buscar as melhores formas para a sua formação. Os espaços do programa Estação Juventude contam com gestores capacitados para fornecer informações e desenvolver atividades que facilitem o acesso dos jovens a serviços e políticas públicas que 43 atendam às suas necessidades. O objetivo principal do programa Estação Juventude é instaurar espaços públicos de atendimento à juventude visando: Ampliar o acesso de jovens de 15 a 29 anos – sobretudo aqueles que vivem em áreas vulnerabilizadas – a políticas, programas e ações que assegurem seus direitos de cidadania e ampliem a sua capacidade de inclusão e participação social; oferecer tecnologia social para o desenvolvimento de Políticas para Juventude; PPJs permanentes e locais para e com a juventude, por meio de ações que instauram conexões sociais e geram novos serviços; criar redes para emancipação da juventude, em especial para os jovens de territórios com dificuldades de garantia de acesso aos direitos11. Iniciado em 2013, este Programa – por meio de seleção feita a partir de Editais Públicos – firmou Convênios com 35 municípios. Em fase experimental, o Programa Estação Juventude seleciona Projetos que devem se propor a desenvolver uma ação específica escolhida, pelos gestores locais, como prioritária. Ao mesmo tempo, a Secretaria Nacional de Juventude oferece um Banco de Dados e metodologias que contribuam para que todas as Estações possam buscar respostas sobre ações públicas existentes nos território onde vivem os jovens. Neste processo busca-se formar de redes de de apoio, de comunicação e de emancipação que possam ser acionadas pelos jovens. Para tanto, cada Estação Juventude deve realizar Oficinas de Percurso onde os jovens participantes construirão seu MAPA (Metas e Ações Para a Autonomia). Ou seja, a partir da reconstituição da trajetória de um jovem, visualiza-se suas possibilidades, por exemplo: retornar ao estudo; distintas 1111 Essas e outras informações podem www.juventude.gov.br/estacao-juventude. ser buscadas no seguinte endereço: 43 combinações entre trabalho e estudo; diferentes inserções no mundo do trabalho. Em um Programa como este, ao invez de fazer o diagnóstico e afunilar (oferecendo um caminho), ao fazer o diagnóstico busca-se ampliar as possibilidades de escolha dos jovens. Levando em conta tais aspectos, seria possível enfrentar uma prática recorrente na área das Políticas Públicas de Juventude: os diagnósticos reconhecem “juventudes”, trajetórias e demandas, no plural, mas – via de regra – os Programas sugerem uma “solução” no singular, homogeneizando a juventude (o “público alvo” e suas demandas). Se assim for, ao fazer conexões entre diferentes iniciativas setoriais; entre redes e territórios, entre recursos locais e federais; entre trajetórias individuais e um campo de possibilidades social, o Programa Estação Juventude poderia contribuir fortemente para a produção de um “modo de atendimento da juventude” que resultasse em uma espécie de “tecnologia social” que pudesse ser utilizada por outras iniciativas governamentais e não governamentais. Mas para chegar a um “modo de atendimento da juventude”, é preciso que as informações quantitativas sejam sempre complementadas com informações qualitativas. Esta combinação será útil para complexificar costuras explicativas e revelar a complexidade social. E deverá ser útil também para construir “indicadores de monitoramento e avaliação” que, realmente, combinem critérios quantitativos e qualitativos. Temos que sair desta situação em que o que vale é o dado numérico e o qualitativo – depoimentos e histórias de vida - servem apenas para ilustrar. Ainda é cedo para dizer se inicia, agora, um novo ciclo de Políticas Públicas de Juventude. Mas, para que isto venha a acontecer será preciso fortalecer os organismos de juventude em nível municipal, estadual e federal. O que não é facil. Tanto no aparelho de estado, como na sociedade, o lugar das “políticas da juventude não está estabelecido”. Diferentes atores perguntam: para que “política de juventude”? Para uns, o jovem é um cidadão e, desta forma, seus direitos já estão definidos, não haveria especificidade nenhuma. Para outros, a juventude é uma fase de formação, transitória e, por isto, não se justificam políticas específicas, a não ser a educação. Contudo, o tempo da juventude não deve ser pensado como uma mera transição, mas como um periodo de desenvolvimento que tem a mesma importancia que as demais etapas do ciclo de vida, que não são chamados de transitórios (Krauskopf, 2003). 44 44 Referências Bibliográficas ABRAMO, H. Considerações sobre a tematização social da juventude no Brasil. Revista Brasileira de Educação, edição especial, n. 5-6, 1997. CARVALHO, M. I. Ambientalismo e juventude: o sujeito ecológico e o horizonte da ação política contemporânea. In: NOVAES, R.; VANUCCI, P. Juventude e sociedade: trabalho, educação, cultura e participação. São Paulo: Instituto Cidadania, Fundação Perseu Abramo, 2004. IBASE; POLIS; IDRC. O que jovens a adultos pensam sobre suas juventudes? Resultado de uma pesquisa regional. Santiago do Chile: Edição Cipda, 2008. _____CASTRO, E. G. Entre Ficar e Sair: uma etnografia da construção social da categoria juventude rural. Rio de Janeiro: Contra Capa/Faperj, 2013. KRAUSKOPF, Dina. La construcción de políticas de juventud en Centroamérica. In: LEÓN, Oscar (Ed.). Políticas públicas de juventud en América Latina: políticas nacionales. Viña del Mar, Chile: Cidpa, 2003. NOVAES, R.. Os jovens de hoje: contextos, diferenças e trajetórias in Culturas Jovens. Novos mapas do afeto. São Paulo: J. Zahar Ed., 2006. _____ VANUCCI, P. Juventude e sociedade: trabalho, educação, cultura e participação. São Paulo: Instituto Cidadania, Fundação Perseu Abramo, 2004. Vianna, Silvia. Rituais de Sofrimento, Editora Boitempo, 2012. 45 45 3.5. FALA PROFERIDA DURANTE A 5ª DISCUSSÃO TEMÁTICA - JUVENTUDE - DA COMISSÃO NACIONAL DE POPULAÇÃO E DESENVOLVIMENTO (CNPD). Elisa Guaraná De Castro12 Introdução Proponho nesse debate discutir os possíveis avanços e desafios no que concerne às políticas públicas de juventude na sua interface com os objetivos da Comissão Nacional em Populações e Desenvolvimento, especialmente no que diz respeito às ações da Secretaria Nacional de Juventude. Antes gostaria de retomar rapidamente um histórico. Desde o surgimento da SNJ sempre houve um esforço de diálogo nos foros internacionais. Mais recentemente a Secretaria tem focado sua intervenção na defesa da concepção de juventude como sujeito de direitos. Boa parte da nossa intervenção em fóruns internacionais tem sido em consonância com esse debate no Brasil e sido vistos como muito proativos. O Estatuto da Juventude (Lei nº 12.852, de 5 de agosto de 2013) é um instrumento reconhecido nesses fóruns e desperta um enorme interesse, e foi, sem dúvida, um dos maiores avanços para as políticas públicas de juventude no Brasil. Considero que o Estatuto deva ser foco de atenção da CNPD como marco legal que avança sobremaneira nos direitos da população juvenil, em especial no que tange ao direito a autonomia, mas também que fortalece o reconhecimento da sua diversidade. Institucionalização as políticas de juventude Mas avançando no nosso debate gostaria de começar com a importância da institucionalização as políticas de juventude e em especial dos seus marcos legais. Temos hoje uma mudança tanto na importância que o tema tomou na sociedade quanto nos governos federal, estaduais e municipais, ainda que falte muito a ser alcançado. Uma das mais importantes conquistas é o reconhecimento como sujeito de direitos. E mais ainda, o fato de tanto nas políticas públicas quanto nos marcos legais esse reconhecimento ter 12 Assessora na Secretaria Nacional de Juventude 46 46 caminhado para uma juventude com direito a autonomia e não juventude como um problema social. O debate sobre o Estatuto da Juventude durou 10 anos. Um dos temas que permeou essa discussão é seu possível sombreamento com o Estatuto da Criança e do Adolescente em função de ambos tratarem dos direitos de uma população de 15 a 18 anos. Essa questão abre a possibilidade de debatermos de que maneira os marcos legais podem somar para diferentes perspectivas da vida da população brasileira. Nesse sentido, a população juvenil a que se refere o Estatuto da Juventude demarcada pela faixa etária entre 15 a 29 anos, tem necessidades distintas e que precisam ser consideradas. No recorte da população jovem de 15 a 17 anos - compreendida no ECA como adolescente, e que pode ser definida como jovem-adolescente - pode-se reforçar a defesa legal do direito à proteção do Estado, coberto pelo ECA e também reforçado no Estatuto da Juventude. No entanto, esse(a) mesmo(a) jovem que necessita da proteção do Estado para garantir o acesso à educação formal, por exemplo, no período previsto como adequado, busca inserções que possam construir sua autonomia. E das quais a educação é uma delas. Reforçando o que foi colocado por Felipe Freitas, por Alessandro Merchior e por Regina Novaes, a juventude deve ser vista nas suas múltiplas trajetórias. Nesse sentido observamos na Pesquisa Agenda Juventude Brasil, realizada no ano de 2013 , que a juventude brasileira articula escola e trabalho. E entra e sai desses dois mundos compondo distintas trajetórias. Também observamos que a pobreza juvenil tem perfil são jovens das periferias urbanas, e das regiões rurais, são negros em sua maioria e são mulheres. E ainda, que o número de mulheres com filhos é muito maior que o de homens, em todas as faixas etárias. Assim como no Estatuto a institucionalização das políticas públicas também vem sendo marcada pela mudança da concepção juventude problema, que promovia mais exclusão social, para juventude sujeito de direitos. Saímos da percepção de uma juventude que só era tratada como uma população de risco, e esse era o principal foco das ações do Estado. Esse enfoque trazia no mínimo duas consequências: só determinada população juvenil era tratada como juventude pelo Estado brasileiro, especificamente a juventude em risco, vulnerável à cooptação do tráfico, por exemplo, a juventude favelada. O que excluía as outras populações juvenis, e ainda marcava essa como uma juventude perigosa, de risco. A concepção de juventude sujeito de direitos é inclusiva e permite que as múltiplas 47 47 identidades sejam reconhecidas e ainda que o foco juventude problema não mais sirva como caminho para construção de políticas públicas. Nesse sentido, sem dúvida que a participação política e social da juventude é valorizada e tem sido parte da construção dessa concepção, dos marcos legais e das políticas públicas. A experiência brasileira, no que pese a necessidade de avançarmos ainda mais nos mecanismos de participação social e política é referência internacional especialmente no caso da participação juvenil. Novamente a Pesquisa Agenda Juventude Brasil iluminou o tema da participação e mostrou que são múltiplas as formas e entendimentos da participação por parte da juventude, que não se opõem necessariamente. A política é importante para 83% da juventude. 81% dos jovens tinham título de eleitor. Do total dos jovens entrevistados 55% tiraram o titulo antes dos 18 anos. Então há um entendimento de que essa forma de participação é legítima. Quase a metade dos jovens informou que já participou ou participa politicamente. Para melhorar o Brasil as formas de atuação mais importantes para os entrevistados são as mobilizações de rua e a atuação em grupos que se organizam por alguma causa. Podemos afirmar que não há uma contradição entre as diferentes formas de atuação. Ou seja, os jovens reforçam e contribuem de formas diversas para aprofundar a democracia brasileira. A pesquisa realizada em abril de 2013 captou o momento anterior as Jornadas de Junho e Julho, mas soma para refutarmos de vez a ideia de apatia política associada à juventude. Se essa percepção foi derrubada pelas Jornadas, já aparece de forma clara na pesquisa que realizamos. O tema central nas ruas sobre “mais e melhores” políticas públicas, também apareceu na pesquisa. E não menos políticas públicas e menos presença do Estado. Contudo a educação e o trabalho são questões consideradas muito importantes para esses jovens. E a violência uma das maiores preocupações. A pesquisa mostrou um dado forte e estarrecedor a metade deles já perdeu uma pessoa próxima (parente ou amigo) de forma violenta. Se considerarmos exclusivamente as mortes por assassinato teremos ¼ da população jovem do Brasil na condição de ter tido uma pessoa muito próxima vítima de homicídio. Isso configura uma experiência geracional de alta dramaticidade, que explica o peso que o tema da violência alcança dentre as preocupações dos jovens. Mas para a melhoria das ações do estado de modo a enfrentar a violência e outras questões como trabalho e melhoria do atendimento em saúde. A principal recomendação dos jovens entrevistados é a melhoria 48 48 dos recursos humanos. Isso é bastante interessante pois confirma a demanda que vimos nas ruas mais e melhores políticas públicas. A pesquisa demonstrou ainda, um importante reconhecimento por parte da juventude, de que houve mobilidade social no país. Os jovens consideram que vivem em melhores condições do que os seus pais. Os entrevistados reconhecem, por exemplo, que ela tem mais acesso a educação do que os pais tiveram. No entanto, consideram o que à qualidade dessa educação ainda deve ser melhorada. Sobre políticas públicas para a juventude entrevistada a principal política reconhecida é o PROJOVEM. Há uma queixa de que o governo conhece os problemas, mas que as politicas públicas para juventude ainda não são suficientes. 49 49 Agenda para a CNPD Pensando no que foi proposto aqui para gente como desafio: qual a agenda para a CNPD? Essa agenda vem sendo desenhada por parte da SNJ ouvindo diretamente a juventude de muitas formas. Seja recebendo, as pautas e as agendas políticas das juventudes organizadas, seja, por exemplo, nas I e II Conferências Nacionais de Juventude, ou ainda em outros fóruns e em outros espaços em um diálogo direto e muito intenso com CONJUV. E o que essas demandas apontam é que as agendas são múltiplas. Um bom exemplo é a juventude rural, colocando que ainda existem necessidades básicas que precisam ser atendidas pelas políticas públicas. E isso a gente tem certeza, ainda não conseguimos efetivamente dar conta das demandas que estão sendo apresentadas há quase uma década pela juventude rural, que é justamente uma qualidade de vida, para que possam fazer uma escolha, se querem ou não ficar no campo. Recuperando o que o Evandro falou mais cedo, pensar a soberania alimentar e agroecologia, e avançou-se muito nesse debate, não há dúvidas do que o CONSEA avançou, o MDS, e isso é excepcional para a nossa trajetória como nação, sem fortalecer a geração que vai efetivamente realizar esse projeto, e vem realizando, porque vem debatendo e vivendo esse projeto, é uma contradição, é uma das contradições que estamos buscando caminhos para superar. Mas é ainda mais complexo se pensarmos que a juventude rural é uma categoria que abarca uma enorme diversidade de identidades: camponeses, agricultores familiares, quilombolas, faxinalenses, fundo de pasto, quebradeiras de coco e pescadores, dentre muitas outras formas de se representarem. O desafio é grande porque temos numa ponta jovens que ainda vivem formas de exclusão e desigualdade social, na outra ponta temos jovens com múltiplos interesses, que estão em outro lugar, que estão vivenciando outras experiências, então a gente tem uma juventude urbana, que teve melhorias sim de condições de vida, isso aí está claro. E essas condições de vida, por exemplo, permitem ou expressam, ainda contradições que enfrentamos, como as que o Felipe colocou, recuperando a fala da principal liderança dos rolezinhos: “Eu não uso réplica, eu uso marca.” Ou seja, eu quero consumir aquilo que a classe média consome. E você ouvir empresas discutindo como é que fazem para que esse jovem não consuma, porque não querem a sua marca associada a essa população. Então nós temos contradições no momento, extremamente complexas, no que diz respeito a populações e desenvolvimento, que eu acho que envolve o que a gente discutiu ao longo desse seminário. Temos um avanço econômico claro e evidente, melhorias na condição de vida, de acesso à educação, os nossos indicadores sociais avançaram bastante, mas a gente tem desafios que permanecem, e estes desafios não são pequenos, esses são desafios que apontam para gente: bom, como a gente vai conseguir dar conta dessa diversidade, das necessidades, das desigualdades que ainda permanecem? A discussão iniciada ao final da manhã e começo da tarde aponta que os desafios são grandes para ampliar o acesso às políticas já existentes, que avance no acesso aos direitos universais, mas respeitando essa diversidade da juventude brasileira. Como transformar a escola que é mais acessada que a 20 anos, por exemplo, numa escola que, efetivamente, seja mais interessante do que ela é hoje para a juventude. Como garantir trabalho descente – e tudo que foi dito sobre o tema, estou absolutamente de acordo, tanto com a leitura do Carlos Henrique quanto com as questões que o Alessandro e a Regina colocaram – e reduzir a precariedade especialmente no primeiro emprego. E o tema do trabalho hoje é complexo justamente porque a nossa juventude é trabalhadora. Nossa pesquisa demonstrou que a maioria da juventude brasileira trabalha ou está procurando trabalho 74%. E em, sua maioria, vivendo realidades precárias. Os arranjos da juventude para conciliar o estudo e o trabalho são múltiplos. Nesse caso a pesquisa colheu um dado um pouco diverso sobre o que tem sido denominado “juventude nem-nem”. Consideramos inclusive essa uma denominação que contribui pouco para compreendermos a realidade da 50 50 juventude brasileira. Mas dentre os entrevistados, se separarmos dos que afirmaram que não estudam e nem trabalham aqueles que compõem a força de trabalho (ou seja, os que procuram emprego), chegamos a 11%. Mas temos que ir além para compreender o que isso significa. A pesquisa mostrou que as mulheres são a imensa maioria dos que estão nessa condição (83%), e soma ainda a esse dado o fato de serem as jovens a maioria dos jovens com filhos. Por tanto, como se enfrenta esses temas e os múltiplos interesses e trajetórias da juventude. Avanços nos desafios 51 Bom do ponto de vista da SNJ um importante avanço foi ampliar o foco das ações para a juventude que está excluída e que enfrenta desigualdades sociais e situações de violência. Assim se o Projovem é sem dúvida um marco para as politicas públicas de juventude, ter avançado, no processo de passagem do programa para o MEC, na criação das casas de acolhimento para atender pais com filhos, foi fundamental para reduzir a evasão. Ter o Juventude Viva como uma das mais importantes políticas da SNJ é parte dessa estratégia como tem sido as demais ações com foco em populações específicas, buscando caminhos para que essa juventude que ainda se encontra vivendo processos de exclusão possa ser incluída social e economicamente e assim tratar a diversidade dessas agendas. E por isso a Secretaria tem como seu maior programa o Juventude Viva, mas também vem atuando fortemente com a juventude rural, com as jovens mulheres, LGBT ainda que com desafios a serem superados. Mas a gente vem fazendo um esforço nessa direção, que eu acho que dialoga bastante com a nossa pauta aqui na CNPD, que é justamente, dizer que a juventude é diversa, não só pela renda, embora isso seja fundamental, mas também ela é diversa em relação a outras questões. Isso traz grandes desafios, por um lado, por outro são grandes conquistas nesses últimos 10, 15 anos de debate sobre juventude. Foi grande o avanço no debate na sociedade brasileira sobre a diversidade e com forte contribuição da juventude. Os espaços de discussão sobre juventude e com a juventude, via de regra, eles enfrentam o tema da diversidade, e de forma bastante qualificada, porque está presente, e cada vez mais a juventude indígena, rural, LGBT, sindicalizada, a juventude negra, as jovens mulheres, das periferias urbanas, organizada ou não, discutindo como pensar em suas múltiplas necessidades, a partir de uma ideia de juventude, ou seja, são as juventudes em diálogo enfrentando as tensões que envolvem debater a diferença. Então, eu acho que 51 uma das coisas que a gente precisa construir, em termos de maior escuta é, justamente, o que ganhamos em termos de acúmulo no que essa juventude vem trazendo para esse debate, não só de demandas, mas, de entendimento sobre a própria juventude. Os mecanismos de participação social e de auto-organização da juventude tem somado e seus resultados precisam se cada vez mais reconhecidos no que diz respeito ao entendimento da juventude ela mesma e sobre a sociedade brasileira. Essas construções precisam ter a mesma relevância da produção dos espaços acadêmicos e de foros importantes como a CNPD. E cada vez mais incluir e ampliar a presença da juventude nesses espaços de formulação. De que forma se pode ampliar a participação da juventude nos espaços de formulação das decisões sobre essas políticas e assim o controle social das políticas públicas. Esse ainda é um grande desafio, ampliar ainda mais a participação política e social da juventude, garantindo ao máximo a sua diversidade, especialmente nas esferas de decisão do Estado. Outro desafio que eu gostaria de deixar como tema pra discutirmos na Comissão é ainda a respeito das políticas públicas. A pesquisa trouxe algo bem interessante perguntamos: o que você acha que é mais positivo no Brasil hoje? Como resposta tivemos: acesso à educação; liberdade de expressão e estabilidade econômica, como as mais escolhidas. Em outra questão perguntamos: Quais são os problemas que mais lhe preocupam atualmente? responderam: violência, emprego, saúde e educação. O que é que isso diz para a gente? Que há um entendimento de mais acesso, mas que ainda não chegamos à qualidade. Em termos de políticas públicas temos muitas ações, por exemplo, no caso da educação, algumas políticas extremamente importantes, corroborando muito com o que o Felipe colocou, a gente tem uma geração que teve acesso ao REUNI, ai PROUNI, ao PNAES, que é o Programa de Assistência Estudantil, de bolsa permanência, política de cotas, há um sistema unificado de seleção, que é o ENEM. Isso trouxe um campo de probabilidades para a juventude que inexistia a 10 anos. E falo com tranquilidade, porque eu sou fruto da crise vivida pela universidade pública, seja como aluna ou como professora. Em 15 anos na universidade pública como professora, eu vivi, exatamente, a virada da crise, o sentimento de que a universidade pública ia acabar e a retomada dessa universidade e a mudança da cara desse aluno dentro da universidade pública. Atende o que a gente espera? Ainda não, mas a gente tem 7.000.000 de jovens inscritos no ENEM, isso é uma percepção de probabilidade. O sentimento de que, se você vai investir naquele 52 52 caminho pode dar um resultado, coisa que em outro período não acontecia. Ou seja, você tem uma juventude que acredita que é possível chegar no ensino superior público, vai lá, se inscreve no ENEM e, em muitos casos, entra e fica. Desafios ao avanço O que ainda é um desafio? Ainda não se conseguiu esse mesmo avanço no ensino médio, e isso representa um hiato importante. Se os indicadores melhoraram muito ainda permanece um sentimento de que o ensino médio pode não ser para ele, ele pode não chegar. Então, a gente tem hoje alguns desafios, como esses, que é da nossa contradição de construção de políticas, tudo ao mesmo tempo, que é a gente não perder o que a gente conseguiu consolidar e avançar ainda mais, por exemplo, no ensino superior, em termos de democratização desse acesso e, ao mesmo tempo, garantir que esse ensino médio enfrente ao desafio da diversidade de interesses e da ampliação do acesso, aonde a juventude não consegue ter acesso, aonde ele não consegue conciliar com o trabalho, efetivamente, aonde esse aluno não permanece e goste desse ensino, aonde faz a diferença. Tanto para o jovem de classe média alta, do centro de São Paulo, que vive num bairro central de São Paulo, com toda estrutura para poder ter acesso a ensino médio, ou se você é um jovem que acumula o que a gente chama de marcadores de desigualdade, infelizmente, no Brasil, se você é um jovem negro, pobre, de periferia. Se for mulher, então, bom, vamos somando, se for mulher e LGBT, o enfrentamento do espaço para o ensino escolar hoje ainda é mais complexo. Então, assim, a gente tem ainda esse gap que ainda é um dos nossos grandes desafios. Como manter o avanço de acesso universal a algumas políticas que se estabeleceram de forma eficaz e, ao mesmo tempo, dar conta dessa diversidade, fortalecendo o direito à autonomia, o direito a poder fazer, não só ter o acesso, mas, ter o acesso da maneira como achar mais interessante, ou seja, garantindo as suas possibilidades de escolha. Então, acho que fico por aqui, mas era a ideia de a gente tentar juntar um pouco as pontas do que a gente vem discutindo esses dias aqui. 53 53 Juventude 4. DEBATE EM ORDEM CRONOLÓGICA ► Ricardo Paes de Barros (SAE/PR e Presidente da CNPD): Contradição no discurso do debate da manhã em relação ao discurso do debate à tarde. Num, ênfase à melhora absolutamente fantástica do Brasil em alguns quesitos – recorde mundial, de redução da pobreza; noutro, destaque ao tamanho da população jovem e às questões que perpassam este grupo, algumas delas tornando difícil de se enxergar as tais melhoras fantásticos. Necessário, então, que se pense sobre quais são as políticas públicas em curso para este grupo e, também, sobre se estamos em outro estágio em relação ao combate a pobreza. ► Richarlls Martins (CNS): Abriu seu comentário dizendo que em 2006, quando cursava psicologia na URFJ, foi convidado para um seminário, onde foi apresentado o Plano Nacional de Juventude, onde Regina Novaes falou naquela época e que este foi o seu primeiro contato com políticas públicas de juventude e o “motor” da sua formação e militância. Também ressaltou que a Conferência Internacional sobre População e Desenvolvimento realizada em 1994 no Cairo traz juventude como um elemento importante e, portanto, é preciso revisitar os capítulos 01, 04, 06, 08, 11 e 14, que falam do tema. Para ele, a grande lacuna é a questão no que tange a juventude e a agenda e Cairo é a educação sexual e, se este desafio não for enfrentado não será possível avançar nos temas de população e desenvolvimento e inegavelmente na questão da juventude negra e do genocídio. ► Ângela Maria Da Silva Gomes (CNPIR): Fez um rápido comentário e ressaltou a importância de que as políticas públicas se entrecruzem e afirmou que a questão racial no Brasil não é residual. 54 54 ► Carlos Cuenca (MRE): Afirmou que o tema juventude é pouco explorado internacionalmente e que não existe nenhum acordo ou convenção de âmbito global sobre este tema. Além disso, ressaltou que existe um déficit de representação. Sobre emprego, declarou que sentiu falta dimensão de gênero. Em relação ao genocídio da juventude negra no Brasil afirmou que é um dos fenômenos mais dramáticos que se tem e que o debate tem se localizado em problemas como a evasão escolar e a vulnerabilidade dos jovens a criminalidade, entretanto, ressaltou que existe uma dificuldade em debater o assunto com aqueles que estão na segurança pública - eles quase nunca estão presentes nos debates relacionados a este tema, não obstante precisem estar. ► Cássio Turra (ABEP): Dialogando com as falas de Felipe Da Silva Freitas e de Alessandro Melchior sobre o bônus demográfico. Ressaltou que o bônus demográfico pode ser usado de uma forma mais propositiva, inclusive para a população negra jovem e esclareceu que bônus demográfico significa o aumento de produtores efetivos, em relação a consumidores efetivos, na população, em função de mudança da estrutura etária, portanto, com o bônus passa-se a ter mais produtor líquido do que consumidor líquido. Ressaltou que no contexto atual qualquer jovem passa a ter um valor econômico muito maior do que tinha antes e que, por isso, existe uma oportunidade grande de aproveitar o fim deste bônus, como pressão política para investimento nos subgrupos de jovens. Perguntou ao Alessandro Melchior: como os grupos articulados de jovens, politicamente, pensam a previdência? Finalizou alertando que os jovens poderiam estar sendo educados em questões financeiras, para que sejam capazes de planejar o futuro. 55 55 ► Ana Laura Lobato (SNJ): Comentou que vem sendo feito um esforço grande na Secretaria Nacional de Juventude, de relacionar a questão da política nacional de juventude, com a reflexão sobre pobreza e o desenvolvimento. Ressaltou que a política nacional de juventude está centrada na autonomia e que pensar em autonomia para a juventude hoje não é só uma questão de acesso a serviços, mas, sobretudo, a direitos. Alertou que ao refletir sobre a pobreza devese considerar que não significa apenas pensar em estratégias para tirar este grupo da qualidade de pobres e sim, encontrar meios para evitar a reprodução da pobreza, porque, muitas vezes ao sair da casa dos pais os jovens constituem outras famílias, também pobres, e entram em um ciclo de reprodução da pobreza. Ademais, quase 60% das jovens mulheres são mães, sendo esta a complexidade do problema que estamos lidando. ► Evandro José Morello (CNPS): Em resposta ao Ricardo Paes De Barros, declarou que existe um hiato entre política de combate a miséria, que tem foco nas crianças, mulheres, idosos e as políticas de juventude. Declarou que existe um grande desafio em relação a entrada do jovem no mercado de trabalho, mesmo para aqueles que tiveram acesso à educação. Sobre a violência destacou que o fenômeno se apresenta como um fator relevante para a reflexão do problema e declarou que se existisse uma educação integral, certamente não existiria uma geração perdida e/ou sofrendo as consequências da violência. Dialogando com a fala de Regina Novaes, comentou que na década de 1970, o êxodo trabalhava sem uma perspectiva de retorno e que hoje a relação do campo e da cidade está tão próxima, inclusive em um cenário de pluriatividade, sobretudo, para o cidadão que mora em uma cidade de interior, que trabalha no campo e ao mesmo tempo mora cidade. Ressaltou que a despeito desse novo cenário, a migração continua existindo, sem perspectiva de retorno e perguntou: que oportunidades estão sendo geradas para que as pessoas, especialmente os jovens, façam escolhas? ► Elisa Guaraná De Castro (SNJ): Em resposta ao Evandro José Morello, afirmou que existe um avanço nos últimos dez anos, no entendimento de que juventude é uma categoria social sujeita a direitos, que somada a 56 56 outros fatores, resultou em um esforço continuo para tentar entender a juventude, suas necessidades e como ela se coloca para o mundo e para o Brasil. Lembrou que em 2005, foi institucionalizado o entendimento da importância da diversidade das mulheres, dos negros. Entretanto, ressaltou que não foi possível na mesma velocidade, enquanto governo, dar respostas em forma de políticas públicas para as apresentas como centrais pela juventude. Portanto, apesar dos avanços, concordou com Evandro José Morello que existe um hiato, em ao menos alguns casos específicos e deu como exemplo a juventude rural. Ainda sobre este seguimento específico concorda com a reflexão Evandro José Morello sobre o êxodo rural e especialmente sobre o sentimento de que a essa população, sobretudo os jovens, não é dado o direito de fazer escolhas. Sobre a pobreza, destacou que apesar deste grupo não estar nas piores condições de vida em termos médios, existe uma juventude em extrema pobreza ou que em determinados momentos da vida, passará pelo estado de extrema pobreza, e que é exatamente esta dinâmica complexa que precisa ser observada com mais atenção. Muitos jovens - sobretudo do sexo feminino - abrem mão de possibilidades futuras - por exemplo, sair de casa - em nome da necessidade presente de garantir sua sobrevivência e a de seus filhos. Isso nos impõe pensar sobre quais são as possibilidades de escolha e de opções de trajetórias que estamos construindo para este público. Em resposta ao Carlos Cuenca, ressaltou que a Secretaria Nacional de Juventude tem feito um grande esforço, ainda sem sucesso de criar um fórum permanente na ONU. Alertou também que este é um tema que está para além da atuação da Secretaria Nacional de Juventude e do Conselho Nacional de Juventude e que isso ficou muito nítido durante as reuniões preparatórias para a Conferência Internacional sobre População e Desenvolvimento, realizada em abril em Nova Iorque, porque naquelas reuniões o tema juventude foi um dos temas centrais para o Brasil. Em resposta ao Ricardo Paes de Barros, destacou ao mesmo tempo em que o governo tenha que ter um papel articulador, para que efetivamente, políticas que são universais, sejam também universais para a juventude, a SNJ serviu como uma espécie de incubadora de algumas iniciativas, como o PROJOVEM. Finalizou afirmando que existem avanços, mas que a política pública ainda não está chegando a esta população da forma como deveria. Entretanto, destacou também que algumas ações, entre elas o Juventude Viva, anunciou alguns debates, a despeito de seu 57 57 resultado final almejado não ser esse, mas sim reduzir a extermínio da juventude negra. Como desafio apontou a dificuldade de colocar a juventude como uma questão central para as políticas públicas, como por exemplo, na agenda do trabalho. Destacou o fenômeno de algumas iniciativas como a dos Pontos de Cultura, que não é uma política orientada para os jovens, mas que eles se reconhecem nela. Finalizou afirmando que existe sim um hiato, avanços, imensos desafios e que será preciso pensar que passos deverão ser dados, especialmente para deixar claro para o próximo governo que chegará, que não serão permitidos retrocessos e que este tema se torne o centro do debate. ► Regina Novaes (UFRJ): Em resposta ao Ricardo Paes De Barros, disse que esses são os paradoxos da democracia. Concordou com o otimismo da manhã e afirmou que nada será como antes, porque este é outro país e ressaltou que quanto mais se espalha a categoria direitos, mais direitos serão exigidos, pois para cada passo que se dá, novos impasses aparecerão. Como exemplo citou as manifestações de junho, onde a categoria direitos estava no centro do debate. Teceu comentários sobre os dados, que na visão dela necessitam de “costuras explicativas”, que incorporem o que se passa além do dado frio, ou seja, divulgar os dados e partir deles, reconhecer sucessos e identificar novas questões. Sobre os indicadores, destacou que o desafio está em construí-los antes dos projetos para que se tenha reais dimensões dos resultados e para que as informações qualitativas não figurem apenas como ilustração dos resultados quantitativos. Especificamente sobre juventude, ressaltou que se ampliaram incrivelmente não só as oportunidades para os jovens desta geração em termos de consumo, mas também em termos de articulação. Sobre a previdência social, destacou que a juventude é o “espelho retrovisor” da sociedade e que os movimentos juvenis são de certa forma o espelho retrovisor do debate da sociedade e que portanto, vão se encontrar várias posições sobre isso. Serão encontrados jovens que colocam ou não isso na agenda, como jovens dentro dos sindicatos que estão debatendo o tema. O jovem sindicalista quer ter o salário, tempo para se reciclar e se possível estudar. As mulheres querem discutir o direito ao corpo, do direito ao trabalho e vão falar também de novas formas de constrangimento, como aquelas que acontecem a partir da aparência. Os jovens sem religião são os que mais crescem, que necessariamente não são ateus. E esses conflitos é que compõem o que entendemos por condição juvenil. 58 58 Dialogando com a fala do Carlos Cuenca, ressaltou que é preciso enfrentar a questão, porque a droga não é uma problema restrito a favela e aos jovens. Diferente disso, a lavagem de dinheiro das drogas está nas grandes economias e as favelas e os jovens são apenas um ponto disso. Por isso, é preciso enfrentar o debate e trazer a segurança pública para a discussão. Por último, destacou que a primeira política de juventude é educação. Depois, com a figura do jovem em situação de risco e então surgem as políticas de emprego e combate a violência. No terceiro momento, descobre-se os jovens enquanto sujeitos de direitos passa-se a trabalhar com uma questão emergencial e neste momento nasce o Programa Nacional de Inclusão de Jovens (PROJOVEM). No ciclo atual está colocada a articulação como fator central, a articulação em rede, de territórios, individuo e coletivo, porque na mesma família pobre pode-se ter um filho que ingressa na universidade e outro no Educação de Jovem e Adultos (EJA) entre outras possibilidades. Portanto, ressaltou que a SNJ jamais dará conta de todas as dimensões colocadas, mas, que tem um grande papel para que os jovens saibam o que existe em termos de políticas públicas para eles e impulsioná-los para acessá-las. Ressaltou ser este o momento atual. Não se trata de fazer um grande programa nacional, mas de localizar os jovens, seus territórios e mostrar o que se tem para eles. O lugar das políticas de juventude não está estabelecido. As pessoas ainda se perguntam o por quê das políticas de juventude. ► Felipe Da Silva Freitas (SEPPIR): Em resposta ao Cássio Turra, sobre o bônus demográfico afirmou que está nítido para a Seppir que se trata de quadro demográfico absolutamente oportuno para que se promova inclusão e o desenvolvimento do país. Entretanto, destacou que hoje no Brasil se tem um bônus demográfico e um contingente populacional de jovens significativo e que portanto, ao se referir ao consumo e a violência que está se perpetrando é em relação a este significativo contingente populacional e isso tem impacto do não aproveitamento do bônus demográfico no seu pico. Concordou com a fala de Regina Novaes, em resposta ao Ricado Paes de Barros e que o debate da tarde só foi possível porque o Brasil mudou e, por consequência, o padrão de qualidade do debate faz com que as pessoas exijam mais. O reconhecimento das mudanças é importante, caso contrário, pode-se passar a crer que a cultura só muda com mudança de indicadores. Pelo contrário, é justamente porque a 59 59 cultura mudou que precisamos seguir lutando para que haja mais mudanças nos indicadores. Destacou que para o Brasil, superar a miséria, a pobreza extrema e reduzir as desigualdades exige-se mais do que melhorar a circulação de renda no país, porque alguns ativos que não estão ligados apenas a questão econômica e que não são mensuráveis estatisticamente, como é o caso da questão racial, impactam no alcance do resultado e de melhores metas e na qualidade delas. A contrapartida de haver negritude e isso ser uma desvantagem no Brasil é existir branquitude e isso ser privilegio, sendo este um ativo que as pessoas brancas acionam para sair da condição de pobreza, como uma transferência imaterial de poder. Portanto, os resultados que foram discutidos de manhã e a tarde são duas faces do que se produziu no país. 60 60 ► Alessandro Melchior (CNJ): Resposta ao Ricardo Paes De Barros, afirmou que um jovem não “institucionalizado”, não teria conseguido participar nem da mesa de debates da manhã, tampouco da tarde. Sobre a legislação trabalhista, destacou que não acredita existir uma possibilidade para a flexibilização entre trabalho e escola, porque o que se tem construído em relação a primeiro emprego e outras políticas, é que a condição estrutural impacta mais nesses casos do que a condição legal, ou seja, o jovem se coloca na condição de estudar durante a semana e trabalhar no final de semana é aquele que precisa passar por esta situação. Destacou também algo similar e verifica ao observar os jovens universitários que fazem estágios desenvolvendo atividades laborais, que muitas vezes não têm relação com o seu curso e que fazem isso não porque gostam, mas porque precisam. Afirmou com isso, que mais que uma mudança legislativa é preciso garantir condições estruturais, que significam mais investimento em políticas de financiamento da inatividade. Também informou acreditar que o governo federal tem uma posição muito contraditória em relação a isso. Exemplo desta contradição é que, por um lado institui o Bolsa Família como o programa de distribuição de renda e dinamização da economia local, e por outro sucateia as políticas de juventude, que são construídas também com base na redistribuição de renda e financiamento de jovens. Tal é o caso do PROJOVEM Adolescente e do PROJOVEM Urbano, que prevêem bolsa e têm sido sucateados ao longo dos anos. Sobre o comentário do Cássio Turra, afirmou que não estava falando de coisas diferente, porque parte-se de uma compreensão que o bônus demográfico é a relação ente produtores efeitos e consumidores efetivos, não a partir da ação de vinculação laboral, mas da estada do jovem na faixa de população ativa. Portanto, a discussão está em torno, por exemplo, de como o extermínio de jovens negros impacta no tamanho do número de produtores efetivos, especialmente para territórios e comunidades especificas, onde isso pode significar um ônus. Sobre a previdência, concordou com a fala da Regina Novaes e afirmou que essa discussão é reduzida do ponto de vista das organizações de juventude. Quem mais debate o tema são as organizações que estão vinculadas à relação direta de capital e trabalho. ► Fernanda Lopes (UNFPA): 61 Declarou que para o UNFPA este é um espaço estratégico, para compreender como a CNPD, nas suas mais diversas matizes, vem delineando e identificando elementos para fazer avançar a agenda de população e desenvolvimento, com vistas a responder aos desafios atuais. Reiterou a importância do registro mas, sobretudo, da construção coletiva, paulatina, mas não lenta. Segundo ela, o processo de registro e compilação do que vem sendo discutido na CNPD será importante para contribuir na ampliação do debate nos temas da agenda de população e desenvolvimento para um grupo maior de pessoas. Trará subsídios para o debate político e para o advocacy para ampliação do repertório e ampliação de direitos para todas as pessoas. ► Alessandro Melchior (CNJ): Solicitou que a CNJ seja convidado a participar como convidado permanente das próximas reuniões, mesmo não sendo membro da CNPD. ► Ricardo Paes De Barros (SAE/PR e Presidente da CNPD): Respondeu dizendo que a discussão foi feita ontem e que a decisão foi de manter o CNJ como convidados permanente em todas as reuniões da CNPD. 61 ► Ricardo Paes De Barros (SAE/PR e Presidente da CNPD): Sugeriu que o Cássio Turra veja como encaminhar a demanda e que na próxima reunião da CNPD se reserve um tempo para retomar o assunto e discutir o IBGE, o Datasus entre outros sistemas relevantes a partir de uma perspectiva para os próximos dez anos. 62 62