XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 OS DESAFIOS E AS POSSIBILIDADES IDENTIFICADAS NAS ATIVIDADES DE ESTÁGIO CURRICULAR SUPERVISIONADO NO CURSO DE LICENCIATURA EM MATEMÁTICA DA UNIVERSIDADE FEDERAL DA GRANDE DOURADOS Renata Viviane Raffa Rodrigues - UFGD Irio Valdir Kichow - UFGD RESUMO O artigo se propõe a discutir o desenvolvimento das atividades de Estágio Curricular Supervisionado no curso de Licenciatura em Matemática da Universidade Federal da Grande Dourados - UFGD dentro de uma perspectiva investigativa de reflexão e ação sobre a prática e de acordo com o regulamento de estágio vigente. Dentro do contexto histórico e geográfico em que se localiza o curso são encontrados desafios e possibilidades na tentativa de se efetivar a proposta de estágio e de se estabelecer uma parceria entre a Universidade e Escola. As escolas visitadas pelos orientadores de estágio têm se mostrado interessadas em melhorar seus indicadores nas avaliações externas realizadas pelas Secretarias de Educação e pelo próprio Ministério da Educação. Todavia, o problema consiste na expectativa da Escola ao considerar que os estagiários podem auxiliá-los nesse processo. Tal realidade revela que a concepção e os anseios da Escola em relação ao estagiário do curso de Matemática não têm coincidido com os da Universidade. No âmbito da universidade destaca-se a dificuldade enfrentada pelo orientador de estágio, em promover reflexões sobre as atividades de estágio com fundamentação teórica e metodológica necessárias, diante da desarticulação dos conhecimentos específicos e pedagógicos desencadeada pela própria estrutura curricular ao diluir boa parte da carga horária das Práticas como Componente Curricular em disciplinas do núcleo duro do curso. Os aspectos levantados convergem para o desafio e a importância da implementação de espaços de discussão com professores de Matemática das escolas das Redes Estadual e Municipal de Dourados, docentes do curso de Matemática da UFGD, estagiários e acadêmicos da disciplina Prática de Ensino na busca de um caminho para reduzir essas divergências e encontrar um denominador comum entre Escola, Universidade e Projeto Pedagógico do Curso no que tange ao Estágio Supervisionado. Palavras-chave: Estágio Curricular Supervisionado. Formação de Professores de Matemática. Regulamento de Estágio. Parceria Universidade e Escola. Junqueira&Marin Editores Livro 2 - p.006792 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 2 INTRODUÇÃO Este artigo apresenta e discuti os desafios vivenciados e possibilidades que se mostram nas atividades de Estágio Curricular Supervisionado – ECS – no curso de licenciatura em Matemática da Universidade Federal da Grande Dourados – UFGD. Com o propósito de apresentar uma escrita mais estruturada ao leitor, organizamos esse trabalho em subtítulos. Iniciamos com um breve histórico do curso em questão por considerarmos relevante destacar de onde falamos e quais os caminhos que já foram percorridos. Segue então uma apresentação de como o Estágio Curricular Supervisionado – ECS tem sido conduzido no curso de Matemática da Universidade Federal da Grande Dourados – UFGD, quais os desafios vivenciados e as possibilidades que estão emergindo das ações e reflexões vivenciadas pelos protagonistas. Finalizamos o mesmo com algumas conclusões sucintas, mas que podem remeter o leitor a indagações que não estão contemplados nesse trabalho uma vez que é impossível tratar de toda a constituição que um tema permeado de tanta multiplicidade e profundidade como esse apresenta. BREVE HISTÓRICO As origens do curso em questão encontram-se na implantação da habilitação em Matemática do curso de Ciências, licenciatura curta, no ano de 1984 no Centro Universitário de Dourados - CEUD, campus da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul – UFMS. Em 1987, esse curso é transformado em Licenciatura Plena em Matemática e no ano de 2005, com a transformação do campus CEUD/UFMS em Universidade da Grande Dourados – UFGD, passa a integrar um dos cursos dessa instituição, inserido na Faculdade de Ciências Exatas e Tecnologia – FACET. Desse modo, estaremos abordando desafios e possibilidades de um curso com uma história de aproximadamente 28 anos, período em que o mesmo também sofre algumas mudanças em função da força da legislação, porém sempre com o componente curricular Estágio Supervisionado presente na sua história. As expectativas e desafios evidenciam-se quando localizamos o curso no contexto geográfico regional. A UFGD intitula-se como uma universidade da “região da grande Dourados”, isto é, segundo a Secretaria de Meio Ambiente, do Planejamento, da Junqueira&Marin Editores Livro 2 - p.006793 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 3 Ciência e Tecnologia de Mato Grosso do Sul – SEMAC/MS, essa região é um conjunto de 12 municípios tendo Dourados como pólo e uma população de aproximadamente 300.000 habitantes. Entretanto a UFGD tem entre seus alunos nos diversos cursos discentes oriundos de vários municípios da Microrregião da Grande Dourados. Esta é composta por 37 municípios com uma população de aproximadamente 500.000 habitantes. Dentro desse contexto histórico e geográfico o curso foi construindo seu atual Projeto Pedagógico de Curso – PPC que se encontra em vigor desde 2010. O Estágio Curricular Supervisionado compõe esse PPC e é regido por regulamento aprovado em julho de 2011 pelo Colegiado competente da instituição. Porém, sua construção foi iniciada em meados de 2007 por uma equipe de professores da área de Educação Matemática que integrava o curso. Em 2008, esses pesquisadores perderam sua vida em acidente automobilístico e o regimento só foi retomado em 2010 com a contratação do primeiro docente da área de Educação Matemática no curso após o acidente. Desse modo, o curso desenvolveu suas atividades por quase dois anos sem um regulamento de estágio aprovado. As atividades de estágio supervisionado eram orientadas tomando-se por referência o esboço que havia sido construído. A institucionalização de um regulamento específico representou um avanço para o curso, haja vista que foram dados os primeiros passos para que o Estágio, por oportunizar ao discente a inserção no universo escolar, constitua-se efetivamente em um espaço de articulação entre os conhecimentos matemáticos, os conhecimentos didáticopedagógicos e a vivência da realidade da escola. DESENVOLVIMENTO DO ESTÁGIO O Regulamento de Estágio Supervisionado no curso de Matemática da UFGD prevê que sua carga horária seja desenvolvida observando-se os seguintes critérios: 50% da carga horária para atividades de regência; 33% da carga horária para o planejamento e elaboração das atividades de estágio e 17% da carga horária para a participação em seminários realizados pela disciplina Estágio Supervisionado. Caracterizam-se como atividades de regência ministrar aulas, executar projetos de ensino-investigação e participar das aulas ministradas pelo professor supervisor. Junqueira&Marin Editores Livro 2 - p.006794 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 4 Essa prescrição do regulamento de estágio permite a inserção na grade horária do curso de um percentual de horas específicas para a orientação na universidade e outro percentual para realização das atividades na Escola de Educação Básica. No curso de Matemática da UFGD há um entendimento que o estágio tenha seu horário assegurado no período regular de aulas, uma vez que muitos estabelecimentos de ensino básico de Dourados e cidades adjacentes oferecem aulas das séries finais do Ensino Fundamental e do Ensino Médio somente no horário matutino, que é o mesmo horário de funcionamento do curso. Levando isso em consideração, não haveria escolas disponíveis para a realização do estágio se o horário da disciplina não ficasse assim assegurado. Conforme pode ser observado no Artigo 7º do Regulamento de Estágio, a perspectiva de estágio assumida pelo curso define que As atividades do Estágio Supervisionado compreendem situações de planejamento, observação/familiarização com o contexto das instituições educacionais, diagnóstico, análise, avaliação do processo pedagógico, regência, mini-cursos, oficinas, organização, administração e gestão, interação de professores, relacionamento escola/comunidade, relacionamento com a família e relatórios. (DOURADOS, Regulamento de Estágio Supervisionado do Curso de Matemática da FACET/UFGD, 2011, p.3). Nessa direção, a proposta de realização do Estágio Supervisionado para os acadêmicos do curso de Matemática da UFGD está em consonância com Pimenta (2010), quando afirma que o estágio “terá por finalidade propiciar ao aluno uma aproximação à realidade na qual irá atuar” (PIMENTA, 2010, p.13). Assim o estágio não é a práxis efetiva da docência, mas sim um processo pelo qual o acadêmico terá a oportunidade de imersão no universo escolar. Nessa perspectiva, num primeiro momento, os licenciandos se familiarizam com a realidade do contexto escolar de Ensino Fundamental e Médio, por meio de sua participação nas aulas ministradas pelos docentes dessas unidades escolares numa postura colaborativa, isto é, aprendem sobre a dinâmica escolar observando e registrando o cotidiano na sala de aula bem como auxiliando o professor da escola no transcurso das aulas, sempre em estreita sintonia esse docente. O segundo momento do Estágio Supervisionado consiste na implementação de um projeto de ensino-investigação desenvolvido pelos discentes da UFGD. Orienta-se que o projeto parte da vivência junto aos alunos da Escola que fornecerão informações sobre suas maiores dificuldades perante a disciplina de Matemática. Essa ação não tem Junqueira&Marin Editores Livro 2 - p.006795 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 5 por objetivo ministrar aulas de reforço ou ação similar. O que se pretende é que os licenciandos recorram a uma abordagem diferenciada desses conteúdos. Para tanto são desenvolvidas atividades em forma de oficina na escola em horário diferenciado daquele em que os alunos assistem a suas aulas regulares. A participação dos alunos da escola nessas oficinas é voluntária. A realização das referidas oficinas acontece mediante a apresentação à escola e ao professor da Disciplina de Estágio Supervisionado de um projeto que conste detalhadas as ações a serem desenvolvidas, tais como: cronograma, aporte teórico e metodologia. Essa proposta compartilha do pressuposto de que o estágio, [...] tem como característica básica desenvolver a formação continuada dos licenciandos dentro de um espírito investigativo e de reflexão que lhes proporcione um conhecimento que gere atitudes que conduzam à necessidade de uma atualização permanente, formando profissionais capazes de exercer uma liderança social, intelectual e política na Educação de nosso país. (PAIVA, p. 99, 2002) OS DESAFIOS E AS POSSIBILIDADES Para a realização da proposta de estágio os orientadores de ECS vão às escolas do município de Dourados iniciar os contatos com os diretores, coordenadores e professores em busca de um acordo que viabilize a realização do estágio. Essa busca é uma via de mão dupla: A universidade, via curso, possui a necessidade da parceria da escola para formar o futuro docente e a escola precisa e quer da universidade uma contrapartida para sanar alguns de seus anseios, muitas vezes mais imediatos, como ações que permitam a essa escola melhorar seus indicadores nas avaliações externas realizadas pelas Secretarias de Educação e pelo próprio Ministério da Educação – MEC. Assim, forma-se um universo em que orbitam interesses mútuos que atendem necessidades de duas instituições educacionais complementares, mas que se portaram ao longo da história como instituições disjuntas. Nossa realidade tem nos apresentado uma escola que se mostra bastante receptiva com os orientadores de estágio e os estagiários. No entanto, a concepção e os anseios da Escola de Educação Básica em relação ao estagiário do curso de Matemática não são coincidentes com os da Universidade. Assim, temos que caminhar na busca de um denominador comum entre escola e universidade no que tange ao Estágio Junqueira&Marin Editores Livro 2 - p.006796 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 6 Supervisionado. Exemplo dessas necessidades da escola é a expectativa de que os estagiários resolvam os problemas do ensino e aprendizagem da matemática dos alunos da escola. Não tardam então propostas para que o estagiário ministre “aulas de reforço” aos alunos da escola. Quando mencionamos nesse trabalho a expressão “aulas de reforço” o fazemos na concepção de aulas de simples resolução de exercícios com a ênfase de uso dos algoritmos. Não são aulas que possibilitariam uma abordagem didática diferente daquela que o aluno da escola já vivenciou no horário regular de suas aulas. Esse tem sido um dos desafios encontrados: convencer a escola de que o sucesso na aprendizagem do aluno passa pelo uso de diferentes metodologias de ensino e, porque não dizer, de diferentes concepções da Matemática Escolar. Cabe então salientar que a proposta de estágio prevê que as oficinas sejam construídas pelos estagiários sob a orientação do professor orientador de estágio, nas quais o licenciando planeja e execute uma unidade, constituinte do programa do professor da escola. Assim, essa prática didática não tem por objetivo primeiro a fixação de regras por meio repetição de técnicas e procedimentos matemáticos, tão pouco adotar recursos similares aos observados em aulas de reforço. O que se pretende é buscar estratégias metodológicas para o ensino dos conteúdos visando a aprendizagem e um melhor desempenho escolar por parte dos alunos que, muitas vezes, sentem-se incapacitados em compreender a matemática. Buscando criar um espaço para discutir essa e outras questões que se apresentam no cotidiano da sala de aula e estão articuladas com o estágio, constituímos um fórum com professores de Matemática das escolas das Redes Estadual e Municipal de Dourados, docentes do curso de Matemática da UFGD, estagiários e acadêmicos da disciplina Prática de Ensino para discutir essas incongruências e propor ações para dirimi-las. A implementação desse espaço ocorreu no ano de 2011 via projeto de extensão. Os encontros realizados mensalmente durante as horas/atividades dos professores oportunizaram o levantamento e discussão do ensino e aprendizagem dos números inteiros e fracionários, das dificuldades dos alunos com a linguagem Matemática, do livro didático, do currículo e de problemas educacionais, tais como: a falta de interesse dos alunos em estudar e a ausência de conhecimentos elementares da Matemática, como o domínio das quatro operações. A partir das experiências vivenciadas pelos professores participantes foi possível efetivar uma abordagem reflexiva na tentativa de entender os reais motivos que geraram este quadro. Junqueira&Marin Editores Livro 2 - p.006797 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 7 Para Campos e Spazziani (2011, p. 11) “a escola é o local de realização do estágio e o lócus da formação de professores”, portanto, tal iniciativa aponta uma possibilidade de estabelecer uma parceria entre universidade e escola que favoreça a superação de práticas tradicionais de modo a compartilhar a responsabilidade de ambos os envolvidos na orientação e supervisão do estágio. Outro desafio é na verdade uma explicitação do contraditório. A escola solicita da universidade que sejam apresentados projetos de “reforço escolar”, mas não consegue disponibilizar infraestutura mínima, como por exemplo, salas de aula ou laboratórios para essas ações. Os próprios diretores reconhecem esse problema, entre outros, e esclarecem que os gestores do Ensino Básico – Estado e Município – têm exigido que todos os espaços das escolas sejam transformados em salas de aula. Assim, de um modo geral as escolas não possuem espaço físico para o desenvolvimento dos projetos, em razão das salas disponíveis para esta finalidade terem se tornado salas de aula convencionais devido à demanda do Município e Estado. Além disso, o desenvolvimento das oficinas no contra turno dificulta a participação dos alunos, dado ao fato que muitos não têm como voltarem à escola. A escola aponta como justificativa para o baixo quantitativo de alunos nas oficinas implementadas pelos estagiários a falta de incentivo dos pais para que o aluno vá à escola no período em que não há aulas regulares. Um terceiro desafio tem sido a compreensão das diretrizes curriculares das redes. A rede Municipal de Dourados publicou as Diretrizes no final de 2011. Antes dessa divulgação o professor tomava o livro didático como sua Diretriz Curricular. Já, a rede Estadual de MS tem como Diretriz curricular apenas o rol de conteúdos a serem ministrados em cada ano escolar. Não há recomendações didáticas ou metodológicas no mesmo. Nesse quadro esboçado da realidade escolar que o estagiário encontrará, incorpora-se ainda o protagonista da ação didática em sala de aula: o professor. Ele é, juntamente com o acadêmico, o outro ator inserido nesse cenário chamado escola. Do ponto de vista da discussão do estágio supervisionado, ele é também qualificado no regulamento de Estágio Supervisionado do curso de Matemática da UFGD como Supervisor de Estágio. Talvez seja ele o mais importante formador do estagiário, podendo determinar, em certa medida, o sucesso ou fracasso na formação do futuro docente. Esse personagem já esteve no papel de estagiário e nele experimentou elementos de expectativas profissionais que podem ou não ter se concretizado. Como é Junqueira&Marin Editores Livro 2 - p.006798 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 8 ele quem convive de fato com o estagiário no ambiente escolar o mesmo tem o poder de cativar ou repelir o acadêmico para a docência. Outro aspecto sobre a conexão entre o professor da escola e o discente é a relação de confiança, competição e avaliação que se estabelece entre esses dois personagens, gerando uma resistência no docente por se sentir em processo de avaliação pelo estagiário. Nas palavras de Silva, Güllich e Ferreira (2011), A observação no Estágio pode ser um fator de medo ou de ameaça aos professores que recebem os estagiários. Isso porque usualmente, longe de ser uma etapa na qual o licenciado vai se apropriar, no caso, do processo de organização e desenvolvimento cognitivo das/nas aulas preparadas pelo professor da escola, ocorre uma observação restrita da prática pedagógica, evidenciando-se, normalmente, aspectos negativos relativos à falta de didática e às falhas conceituais desse professor na exposição dos conteúdos. (SILVA; GÜLLICH; FERREIRA, 2011, p. 276) Isso pode ocorrer com muita facilidade, já que o acadêmico em seu estágio não acompanha as aulas e práticas didáticas de maneira continuada. Normalmente o faz de modo esparso por não poder estar na escola todos os dias, mas às vezes uma ou duas vezes na semana. Com isso não visualiza o trabalho do docente de modo contínuo. Por esse motivo, entre outros, é imperativo ressaltar a importância do orientador de estágio em estabelecer uma parceria com a escola, incluindo direção, professores e alunos. O regulamento de estágio supervisionado do curso de Matemática da UFGD define, em seu artigo 11, parágrafo único que “O Orientador do Estágio Supervisionado será um professor do curso de Matemática que apresente perfil, formação e experiências compatíveis com a área”. O mesmo procura acompanhar todo o processo: explica a proposta do estágio, conhece os docentes de Matemática da escola e assiste ao menos uma das regências do licenciando aos alunos. Todas essas ações fornecem a matéria prima para reflexão com os acadêmicos nos encontros na universidade. Posteriormente voltam às escolas para novas ações provenientes da reflexão sobre as ações anteriores, caracterizando um processo de ação e reflexão. Segundo Cruz (2009, p.5) “Pode-se considerar a relevância de as atividades práticas serem permeadas por uma prática reflexiva, tomando como objeto a reflexão sobre a própria prática”. Um último desafio aqui exposto diz respeito a complexidade do trabalho desenvolvido pelo orientador de estágio e sua repercussão no âmbito da universidade. Segundo consta na Resolução do Conselho Nacional de Educação (CNE/CP 2/2002, art. I, § 2) o estágio curricular supervisionado é previsto a partir da segunda metade do curso, ou seja, em um curso com oito semestres, o ECS deve iniciar no quinto semestre. Por esse motivo, espera-se que o acadêmico ao iniciar o Estágio tenha conhecimentos Junqueira&Marin Editores Livro 2 - p.006799 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 9 matemáticos e que sejam capazes de elaborar tais conhecimentos no âmbito do ensino, de modo a planejar e desenvolver, reflexiva e criticamente, as atividades de estágio. Em virtude disso, questionamos: Como o orientador de ECS pode propiciar uma discussão e análise das questões educacionais observadas pelos futuros professores em sala de aula? Em que momento é possível problematizar os diferentes pontos do processo de ensino e aprendizagem da Matemática? Com isso, a nossa realidade explicita como uma das dificuldades na orientação de estágio, em um mesmo espaço de tempo, fazer reflexões sobre as atividades de estágio com fundamentação teórica e metodológica necessárias, sem prejudicar com isso o tempo que deve ser dedicado para o acadêmico estar na escola de Educação Básica. Fazemos essa ponderação porque sentimos certa desarticulação entre o ECS e as Práticas como componente curricular. Nossa instituição diluiu boa parte da carga horária das Práticas em disciplinas do núcleo duro do curso a exemplo de Cálculo Diferencial e Integral II, Cálculo Diferencial e Integral III e Álgebra linear. Essas disciplinas possuem 25% de sua carga horária como sendo práticas. Essa não foi uma opção do curso, mas consequência da leitura e implantação do Programa REUNI do governo federal através do Projeto: Reestruturação e Expansão da Universidade Federal da Grande Dourados (REUNI UFGD). Por consequência, hoje o curso conta com apenas 120 horas em disciplinas que efetivamente trabalham com prática de ensino. Salientamos que o conhecimento pedagógico construído por meio da articulação entre a teoria e a prática educativa, como explicam Silva, Güllich e Ferreira (2011), [...] é de grande complexidade e exige que o professor saiba estruturar a disciplina que ministrará sob diversos pontos de vista, tendo sempre em mente o seu ensino. Aliás este saber é que diferenciará os professores dos especialistas (SILVA; GÜLLICH; FERREIRA, 2011, p. 271). Dessa concepção, emerge a pergunta: Será que o desenvolvimento desse saber pode ser realizado em outros momentos, como por exemplo, nos projetos de Prática como Componente Curricular? Não estamos questionando a carga horária do Estágio, mas procurando refletir acerca da influência da estrutura curricular na desarticulação da Prática de Ensino, atualmente assumida pelo Parecer CNE/CP 21/2001 como Prática como Componente Curricular (PCC) do Estágio Curricular Supervisionado. Junqueira&Marin Editores Livro 2 - p.006800 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 10 PARA CONCLUIR Das componentes curriculares previstas nos Projetos Pedagógicos de Curso, o Estágio Supervisionado é com certeza a de maior potencial catalisador na formação inicial do docente. Por essa razão talvez seja ela também a mais complexa de ser executada, pois seu sucesso depende da articulação entre duas instituições de forte influência na sociedade: A Universidade e a Escola. Entendemos que já existe uma aproximação, porém a mesma ainda é muito frágil. Essa relação tende a se fortalecer na medida em que o diálogo entre ambas for mais frequente e isso exige ações que ultrapassem as formalidades institucionais. Como o Estágio Curricular Supervisionado desenvolve de modo mais direto suas ações articulando anseios dos acadêmicos e professores da Escola Básica, entendemos que o espaço para o diálogo entre ambos deve ser privilegiado. Um grande desafio posto para a universidade é de compreender como as Práticas devem ser trabalhadas para que o ECS possa ser potencializado e efetivamente proporcionar aos acadêmicos condições para que vivenciem na escola um recorte mais apurado do exercício da prática didática. Junqueira&Marin Editores Livro 2 - p.006801 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 11 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BRASIL.CONSELHO NACIONAL DE EDUCAÇÃO. RESOLUÇÃO CNE/CP 01/ 2002 - Institui Diretrizes Curriculares Nacionais para formação de professores da Educação Básica em nível superior, curso de licenciatura de graduação plena. BRASIL. CONSELHO NACIONAL DE EDUCAÇÃO. RESOLUÇÃO CNE/CP 2/ 2002 - Institui a duração e a carga horária dos cursos de licenciatura, de graduação plena, de formação de professores da Educação Básica em nível superior. CAMPOS, L. M. L.; SPAZZIANI, M. de L. O Estágio Curricular nos cursos de Licenciatura: subsídios para a elaboração de uma proposta de diretrizes gerais para os estágios curriculares obrigatórios dos cursos de licenciatura da UNESP. In: FÓRUM DAS LICENCIATURAS DA UNESP - I ENCONTRO DAS LICENCIATURAS DA UNESP E III SIMPÓSIO: A PRÁTICA DE ENSINO EM QUESTÃO. DE 12 a 14 de setembro de 2011, Araraquara, Anais eletrônicos... Disponível em: <http://iage.fclar.unesp.br/licenciaturas/PDFs/OEstagio.pdf>. Acesso em: 23 de jan. 2012. CRUZ, M. A. S. 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