XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012
OS DESAFIOS E AS POSSIBILIDADES IDENTIFICADAS NAS ATIVIDADES
DE ESTÁGIO CURRICULAR SUPERVISIONADO NO CURSO DE
LICENCIATURA EM MATEMÁTICA DA UNIVERSIDADE FEDERAL DA
GRANDE DOURADOS
Renata Viviane Raffa Rodrigues - UFGD
Irio Valdir Kichow - UFGD
RESUMO
O artigo se propõe a discutir o desenvolvimento das atividades de Estágio Curricular
Supervisionado no curso de Licenciatura em Matemática da Universidade Federal da
Grande Dourados - UFGD dentro de uma perspectiva investigativa de reflexão e ação
sobre a prática e de acordo com o regulamento de estágio vigente. Dentro do contexto
histórico e geográfico em que se localiza o curso são encontrados desafios e
possibilidades na tentativa de se efetivar a proposta de estágio e de se estabelecer uma
parceria entre a Universidade e Escola. As escolas visitadas pelos orientadores de
estágio têm se mostrado interessadas em melhorar seus indicadores nas avaliações
externas realizadas pelas Secretarias de Educação e pelo próprio Ministério da
Educação. Todavia, o problema consiste na expectativa da Escola ao considerar que os
estagiários podem auxiliá-los nesse processo. Tal realidade revela que a concepção e os
anseios da Escola em relação ao estagiário do curso de Matemática não têm coincidido
com os da Universidade. No âmbito da universidade destaca-se a dificuldade enfrentada
pelo orientador de estágio, em promover reflexões sobre as atividades de estágio com
fundamentação teórica e metodológica necessárias, diante da desarticulação dos
conhecimentos específicos e pedagógicos desencadeada pela própria estrutura curricular
ao diluir boa parte da carga horária das Práticas como Componente Curricular em
disciplinas do núcleo duro do curso. Os aspectos levantados convergem para o desafio e
a importância da implementação de espaços de discussão com professores de
Matemática das escolas das Redes Estadual e Municipal de Dourados, docentes do
curso de Matemática da UFGD, estagiários e acadêmicos da disciplina Prática de
Ensino na busca de um caminho para reduzir essas divergências e encontrar um
denominador comum entre Escola, Universidade e Projeto Pedagógico do Curso no que
tange ao Estágio Supervisionado.
Palavras-chave: Estágio Curricular Supervisionado. Formação de Professores de
Matemática. Regulamento de Estágio. Parceria Universidade e Escola.
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INTRODUÇÃO
Este artigo apresenta e discuti os desafios vivenciados e possibilidades que se
mostram nas atividades de Estágio Curricular Supervisionado – ECS – no curso de
licenciatura em Matemática da Universidade Federal da Grande Dourados – UFGD.
Com o propósito de apresentar uma escrita mais estruturada ao leitor,
organizamos esse trabalho em subtítulos. Iniciamos com um breve histórico do curso
em questão por considerarmos relevante destacar de onde falamos e quais os caminhos
que já foram percorridos. Segue então uma apresentação de como o Estágio Curricular
Supervisionado – ECS tem sido conduzido no curso de Matemática da Universidade
Federal da Grande Dourados – UFGD, quais os desafios vivenciados e as possibilidades
que estão emergindo das ações e reflexões vivenciadas pelos protagonistas. Finalizamos
o mesmo com algumas conclusões sucintas, mas que podem remeter o leitor a
indagações que não estão contemplados nesse trabalho uma vez que é impossível tratar
de toda a constituição que um tema permeado de tanta multiplicidade e profundidade
como esse apresenta.
BREVE HISTÓRICO
As origens do curso em questão encontram-se na implantação da habilitação em
Matemática do curso de Ciências, licenciatura curta, no ano de 1984 no Centro
Universitário de Dourados - CEUD, campus da Universidade Federal de Mato Grosso
do Sul – UFMS. Em 1987, esse curso é transformado em Licenciatura Plena em
Matemática e no ano de 2005, com a transformação do campus CEUD/UFMS em
Universidade da Grande Dourados – UFGD, passa a integrar um dos cursos dessa
instituição, inserido na Faculdade de Ciências Exatas e Tecnologia – FACET. Desse
modo, estaremos abordando desafios e possibilidades de um curso com uma história de
aproximadamente 28 anos, período em que o mesmo também sofre algumas mudanças
em função da força da legislação, porém sempre com o componente curricular Estágio
Supervisionado presente na sua história.
As expectativas e desafios evidenciam-se quando localizamos o curso no
contexto geográfico regional. A UFGD intitula-se como uma universidade da “região da
grande Dourados”, isto é, segundo a Secretaria de Meio Ambiente, do Planejamento, da
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Ciência e Tecnologia de Mato Grosso do Sul – SEMAC/MS, essa região é um conjunto
de 12 municípios tendo Dourados como pólo e uma população de aproximadamente
300.000 habitantes. Entretanto a UFGD tem entre seus alunos nos diversos cursos
discentes oriundos de vários municípios da Microrregião da Grande Dourados. Esta é
composta por 37 municípios com uma população de aproximadamente 500.000
habitantes.
Dentro desse contexto histórico e geográfico o curso foi construindo seu atual
Projeto Pedagógico de Curso – PPC que se encontra em vigor desde 2010. O Estágio
Curricular Supervisionado compõe esse PPC e é regido por regulamento aprovado em
julho de 2011 pelo Colegiado competente da instituição. Porém, sua construção foi
iniciada em meados de 2007 por uma equipe de professores da área de Educação
Matemática que integrava o curso. Em 2008, esses pesquisadores perderam sua vida em
acidente automobilístico e o regimento só foi retomado em 2010 com a contratação do
primeiro docente da área de Educação Matemática no curso após o acidente. Desse
modo, o curso desenvolveu suas atividades por quase dois anos sem um regulamento de
estágio aprovado. As atividades de estágio supervisionado eram orientadas tomando-se
por referência o esboço que havia sido construído.
A institucionalização de um regulamento específico representou um avanço para
o curso, haja vista que foram dados os primeiros passos para que o Estágio, por
oportunizar ao discente a inserção no universo escolar, constitua-se efetivamente em um
espaço de articulação entre os conhecimentos matemáticos, os conhecimentos didáticopedagógicos e a vivência da realidade da escola.
DESENVOLVIMENTO DO ESTÁGIO
O Regulamento de Estágio Supervisionado no curso de Matemática da UFGD
prevê que sua carga horária seja desenvolvida observando-se os seguintes critérios: 50%
da carga horária para atividades de regência; 33% da carga horária para o planejamento
e elaboração das atividades de estágio e 17% da carga horária para a participação em
seminários realizados pela disciplina Estágio Supervisionado. Caracterizam-se como
atividades de regência ministrar aulas, executar projetos de ensino-investigação e
participar das aulas ministradas pelo professor supervisor.
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Essa prescrição do regulamento de estágio permite a inserção na grade horária
do curso de um percentual de horas específicas para a orientação na universidade e
outro percentual para realização das atividades na Escola de Educação Básica.
No curso de Matemática da UFGD há um entendimento que o estágio tenha seu
horário assegurado no período regular de aulas, uma vez que muitos estabelecimentos
de ensino básico de Dourados e cidades adjacentes oferecem aulas das séries finais do
Ensino Fundamental e do Ensino Médio somente no horário matutino, que é o mesmo
horário de funcionamento do curso. Levando isso em consideração, não haveria escolas
disponíveis para a realização do estágio se o horário da disciplina não ficasse assim
assegurado.
Conforme pode ser observado no Artigo 7º do Regulamento de Estágio, a
perspectiva de estágio assumida pelo curso define que
As atividades do Estágio Supervisionado compreendem situações de
planejamento, observação/familiarização com o contexto das instituições
educacionais, diagnóstico, análise, avaliação do processo pedagógico,
regência, mini-cursos, oficinas, organização, administração e gestão,
interação de professores, relacionamento escola/comunidade, relacionamento
com a família e relatórios. (DOURADOS, Regulamento de Estágio
Supervisionado do Curso de Matemática da FACET/UFGD, 2011, p.3).
Nessa direção, a proposta de realização do Estágio Supervisionado para os
acadêmicos do curso de Matemática da UFGD está em consonância com Pimenta
(2010), quando afirma que o estágio “terá por finalidade propiciar ao aluno uma
aproximação à realidade na qual irá atuar” (PIMENTA, 2010, p.13). Assim o estágio
não é a práxis efetiva da docência, mas sim um processo pelo qual o acadêmico terá a
oportunidade de imersão no universo escolar.
Nessa perspectiva, num primeiro momento, os licenciandos se familiarizam com
a realidade do contexto escolar de Ensino Fundamental e Médio, por meio de sua
participação nas aulas ministradas pelos docentes dessas unidades escolares numa
postura colaborativa, isto é, aprendem sobre a dinâmica escolar observando e
registrando o cotidiano na sala de aula bem como auxiliando o professor da escola no
transcurso das aulas, sempre em estreita sintonia esse docente.
O segundo momento do Estágio Supervisionado consiste na implementação de
um projeto de ensino-investigação desenvolvido pelos discentes da UFGD. Orienta-se
que o projeto parte da vivência junto aos alunos da Escola que fornecerão informações
sobre suas maiores dificuldades perante a disciplina de Matemática. Essa ação não tem
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por objetivo ministrar aulas de reforço ou ação similar. O que se pretende é que os
licenciandos recorram a uma abordagem diferenciada desses conteúdos. Para tanto são
desenvolvidas atividades em forma de oficina na escola em horário diferenciado
daquele em que os alunos assistem a suas aulas regulares. A participação dos alunos da
escola nessas oficinas é voluntária.
A realização das referidas oficinas acontece mediante a apresentação à escola e
ao professor da Disciplina de Estágio Supervisionado de um projeto que conste
detalhadas as ações a serem desenvolvidas, tais como: cronograma, aporte teórico e
metodologia.
Essa proposta compartilha do pressuposto de que o estágio,
[...] tem como característica básica desenvolver a formação continuada dos
licenciandos dentro de um espírito investigativo e de reflexão que lhes
proporcione um conhecimento que gere atitudes que conduzam à necessidade
de uma atualização permanente, formando profissionais capazes de exercer
uma liderança social, intelectual e política na Educação de nosso país.
(PAIVA, p. 99, 2002)
OS DESAFIOS E AS POSSIBILIDADES
Para a realização da proposta de estágio os orientadores de ECS vão às escolas
do município de Dourados iniciar os contatos com os diretores, coordenadores e
professores em busca de um acordo que viabilize a realização do estágio. Essa busca é
uma via de mão dupla: A universidade, via curso, possui a necessidade da parceria da
escola para formar o futuro docente e a escola precisa e quer da universidade uma
contrapartida para sanar alguns de seus anseios, muitas vezes mais imediatos, como
ações que permitam a essa escola melhorar seus indicadores nas avaliações externas
realizadas pelas Secretarias de Educação e pelo próprio Ministério da Educação – MEC.
Assim, forma-se um universo em que orbitam interesses mútuos que atendem
necessidades de duas instituições educacionais complementares, mas que se portaram ao
longo da história como instituições disjuntas.
Nossa realidade tem nos apresentado uma escola que se mostra bastante
receptiva com os orientadores de estágio e os estagiários. No entanto, a concepção e os
anseios da Escola de Educação Básica em relação ao estagiário do curso de Matemática
não são coincidentes com os da Universidade. Assim, temos que caminhar na busca de
um denominador comum entre escola e universidade no que tange ao Estágio
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Supervisionado. Exemplo dessas necessidades da escola é a expectativa de que os
estagiários resolvam os problemas do ensino e aprendizagem da matemática dos alunos
da escola. Não tardam então propostas para que o estagiário ministre “aulas de reforço”
aos alunos da escola. Quando mencionamos nesse trabalho a expressão “aulas de
reforço” o fazemos na concepção de aulas de simples resolução de exercícios com a
ênfase de uso dos algoritmos. Não são aulas que possibilitariam uma abordagem
didática diferente daquela que o aluno da escola já vivenciou no horário regular de suas
aulas. Esse tem sido um dos desafios encontrados: convencer a escola de que o sucesso
na aprendizagem do aluno passa pelo uso de diferentes metodologias de ensino e,
porque não dizer, de diferentes concepções da Matemática Escolar.
Cabe então salientar que a proposta de estágio prevê que as oficinas sejam
construídas pelos estagiários sob a orientação do professor orientador de estágio, nas
quais o licenciando planeja e execute uma unidade, constituinte do programa do
professor da escola. Assim, essa prática didática não tem por objetivo primeiro a fixação
de regras por meio repetição de técnicas e procedimentos matemáticos, tão pouco adotar
recursos similares aos observados em aulas de reforço. O que se pretende é buscar
estratégias metodológicas para o ensino dos conteúdos visando a aprendizagem e um
melhor desempenho escolar por parte dos alunos que, muitas vezes, sentem-se
incapacitados em compreender a matemática.
Buscando criar um espaço para discutir essa e outras questões que se apresentam
no cotidiano da sala de aula e estão articuladas com o estágio, constituímos um fórum
com professores de Matemática das escolas das Redes Estadual e Municipal de
Dourados, docentes do curso de Matemática da UFGD, estagiários e acadêmicos da
disciplina Prática de Ensino para discutir essas incongruências e propor ações para
dirimi-las. A implementação desse espaço ocorreu no ano de 2011 via projeto de
extensão. Os encontros realizados mensalmente durante as horas/atividades dos
professores oportunizaram o levantamento e discussão do ensino e aprendizagem dos
números inteiros e fracionários, das dificuldades dos alunos com a linguagem
Matemática, do livro didático, do currículo e de problemas educacionais, tais como: a
falta de interesse dos alunos em estudar e a ausência de conhecimentos elementares da
Matemática, como o domínio das quatro operações. A partir das experiências
vivenciadas pelos professores participantes foi possível efetivar uma abordagem
reflexiva na tentativa de entender os reais motivos que geraram este quadro.
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Para Campos e Spazziani (2011, p. 11) “a escola é o local de realização do
estágio e o lócus da formação de professores”, portanto, tal iniciativa aponta uma
possibilidade de estabelecer uma parceria entre universidade e escola que favoreça a
superação de práticas tradicionais de modo a compartilhar a responsabilidade de ambos
os envolvidos na orientação e supervisão do estágio.
Outro desafio é na verdade uma explicitação do contraditório. A escola solicita
da universidade que sejam apresentados projetos de “reforço escolar”, mas não
consegue disponibilizar infraestutura mínima, como por exemplo, salas de aula ou
laboratórios para essas ações. Os próprios diretores reconhecem esse problema, entre
outros, e esclarecem que os gestores do Ensino Básico – Estado e Município – têm
exigido que todos os espaços das escolas sejam transformados em salas de aula.
Assim, de um modo geral as escolas não possuem espaço físico para o
desenvolvimento dos projetos, em razão das salas disponíveis para esta finalidade terem
se tornado salas de aula convencionais devido à demanda do Município e Estado. Além
disso, o desenvolvimento das oficinas no contra turno dificulta a participação dos
alunos, dado ao fato que muitos não têm como voltarem à escola. A escola aponta como
justificativa para o baixo quantitativo de alunos nas oficinas implementadas pelos
estagiários a falta de incentivo dos pais para que o aluno vá à escola no período em que
não há aulas regulares.
Um terceiro desafio tem sido a compreensão das diretrizes curriculares das
redes. A rede Municipal de Dourados publicou as Diretrizes no final de 2011. Antes
dessa divulgação o professor tomava o livro didático como sua Diretriz Curricular. Já, a
rede Estadual de MS tem como Diretriz curricular apenas o rol de conteúdos a serem
ministrados em cada ano escolar. Não há recomendações didáticas ou metodológicas no
mesmo.
Nesse quadro esboçado da realidade escolar que o estagiário encontrará,
incorpora-se ainda o protagonista da ação didática em sala de aula: o professor. Ele é,
juntamente com o acadêmico, o outro ator inserido nesse cenário chamado escola. Do
ponto de vista da discussão do estágio supervisionado, ele é também qualificado no
regulamento de Estágio Supervisionado do curso de Matemática da UFGD como
Supervisor de Estágio. Talvez seja ele o mais importante formador do estagiário,
podendo determinar, em certa medida, o sucesso ou fracasso na formação do futuro
docente. Esse personagem já esteve no papel de estagiário e nele experimentou
elementos de expectativas profissionais que podem ou não ter se concretizado. Como é
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ele quem convive de fato com o estagiário no ambiente escolar o mesmo tem o poder de
cativar ou repelir o acadêmico para a docência.
Outro aspecto sobre a conexão entre o professor da escola e o discente é a
relação de confiança, competição e avaliação que se estabelece entre esses dois
personagens, gerando uma resistência no docente por se sentir em processo de avaliação
pelo estagiário. Nas palavras de Silva, Güllich e Ferreira (2011),
A observação no Estágio pode ser um fator de medo ou de ameaça aos
professores que recebem os estagiários. Isso porque usualmente, longe de ser
uma etapa na qual o licenciado vai se apropriar, no caso, do processo de
organização e desenvolvimento cognitivo das/nas aulas preparadas pelo
professor da escola, ocorre uma observação restrita da prática pedagógica,
evidenciando-se, normalmente, aspectos negativos relativos à falta de
didática e às falhas conceituais desse professor na exposição dos conteúdos.
(SILVA; GÜLLICH; FERREIRA, 2011, p. 276)
Isso pode ocorrer com muita facilidade, já que o acadêmico em seu estágio não
acompanha as aulas e práticas didáticas de maneira continuada. Normalmente o faz de
modo esparso por não poder estar na escola todos os dias, mas às vezes uma ou duas
vezes na semana. Com isso não visualiza o trabalho do docente de modo contínuo.
Por esse motivo, entre outros, é imperativo ressaltar a importância do orientador
de estágio em estabelecer uma parceria com a escola, incluindo direção, professores e
alunos. O regulamento de estágio supervisionado do curso de Matemática da UFGD
define, em seu artigo 11, parágrafo único que “O Orientador do Estágio Supervisionado
será um professor do curso de Matemática que apresente perfil, formação e experiências
compatíveis com a área”. O mesmo procura acompanhar todo o processo: explica a
proposta do estágio, conhece os docentes de Matemática da escola e assiste ao menos
uma das regências do licenciando aos alunos. Todas essas ações fornecem a matéria
prima para reflexão com os acadêmicos nos encontros na universidade. Posteriormente
voltam às escolas para novas ações provenientes da reflexão sobre as ações anteriores,
caracterizando um processo de ação e reflexão. Segundo Cruz (2009, p.5) “Pode-se
considerar a relevância de as atividades práticas serem permeadas por uma prática
reflexiva, tomando como objeto a reflexão sobre a própria prática”.
Um último desafio aqui exposto diz respeito a complexidade do trabalho
desenvolvido pelo orientador de estágio e sua repercussão no âmbito da universidade.
Segundo consta na Resolução do Conselho Nacional de Educação (CNE/CP 2/2002, art.
I, § 2) o estágio curricular supervisionado é previsto a partir da segunda metade do
curso, ou seja, em um curso com oito semestres, o ECS deve iniciar no quinto semestre.
Por esse motivo, espera-se que o acadêmico ao iniciar o Estágio tenha conhecimentos
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matemáticos e que sejam capazes de elaborar tais conhecimentos no âmbito do ensino,
de modo a planejar e desenvolver, reflexiva e criticamente, as atividades de estágio.
Em virtude disso, questionamos: Como o orientador de ECS pode propiciar uma
discussão e análise das questões educacionais observadas pelos futuros professores em
sala de aula? Em que momento é possível problematizar os diferentes pontos do
processo de ensino e aprendizagem da Matemática?
Com isso, a nossa realidade explicita como uma das dificuldades na orientação
de estágio, em um mesmo espaço de tempo, fazer reflexões sobre as atividades de
estágio com fundamentação teórica e metodológica necessárias, sem prejudicar com
isso o tempo que deve ser dedicado para o acadêmico estar na escola de Educação
Básica.
Fazemos essa ponderação porque sentimos certa desarticulação entre o ECS e as
Práticas como componente curricular. Nossa instituição diluiu boa parte da carga
horária das Práticas em disciplinas do núcleo duro do curso a exemplo de Cálculo
Diferencial e Integral II, Cálculo Diferencial e Integral III e Álgebra linear. Essas
disciplinas possuem 25% de sua carga horária como sendo práticas. Essa não foi uma
opção do curso, mas consequência da leitura e implantação do Programa REUNI do
governo federal através do Projeto: Reestruturação e Expansão da Universidade Federal
da Grande Dourados (REUNI UFGD). Por consequência, hoje o curso conta com
apenas 120 horas em disciplinas que efetivamente trabalham com prática de ensino.
Salientamos que o conhecimento pedagógico construído por meio da articulação
entre a teoria e a prática educativa, como explicam Silva, Güllich e Ferreira (2011),
[...] é de grande complexidade e exige que o professor saiba estruturar a
disciplina que ministrará sob diversos pontos de vista, tendo sempre em
mente o seu ensino. Aliás este saber é que diferenciará os professores dos
especialistas (SILVA; GÜLLICH; FERREIRA, 2011, p. 271).
Dessa concepção, emerge a pergunta: Será que o desenvolvimento desse saber
pode ser realizado em outros momentos, como por exemplo, nos projetos de Prática
como Componente Curricular?
Não estamos questionando a carga horária do Estágio, mas procurando refletir
acerca da influência da estrutura curricular na desarticulação da Prática de Ensino,
atualmente assumida pelo Parecer CNE/CP 21/2001 como Prática como Componente
Curricular (PCC) do Estágio Curricular Supervisionado.
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PARA CONCLUIR
Das componentes curriculares previstas nos Projetos Pedagógicos de Curso, o
Estágio Supervisionado é com certeza a de maior potencial catalisador na formação
inicial do docente. Por essa razão talvez seja ela também a mais complexa de ser
executada, pois seu sucesso depende da articulação entre duas instituições de forte
influência na sociedade: A Universidade e a Escola. Entendemos que já existe uma
aproximação, porém a mesma ainda é muito frágil. Essa relação tende a se fortalecer na
medida em que o diálogo entre ambas for mais frequente e isso exige ações que
ultrapassem as formalidades institucionais.
Como o Estágio Curricular Supervisionado desenvolve de modo mais direto suas
ações articulando anseios dos acadêmicos e professores da Escola Básica, entendemos
que o espaço para o diálogo entre ambos deve ser privilegiado.
Um grande desafio posto para a universidade é de compreender como as Práticas
devem ser trabalhadas para que o ECS possa ser potencializado e efetivamente
proporcionar aos acadêmicos condições para que vivenciem na escola um recorte mais
apurado do exercício da prática didática.
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