1 INSTITUTO DE CIÊNCIAS DA SAÚDE FUNORTE / SOEBRÁS EFEITO ESQUELÉTICO NA CORREÇÃO DA MORDIDA PROFUNDA LETÍCIA MARTINS PEREIRA Monografia apresentada ao Programa de Especialização em Ortodontia do ICS – FUNORTE/SOEBRAS NÚCLEO DE ALFENAS, como parte dos requisitos para obtenção do título de Especialista. Alfenas, 2013 2 INSTITUTO DE CIÊNCIAS DA SAÚDE FUNORTE / SOEBRÁS EFEITO ESQUELÉTICO NA CORREÇÃO DA MORDIDA PROFUNDA LETÍCIA MARTINS PEREIRA Monografia apresentada ao Programa de Especialização em Ortodontia do ICS – FUNORTE/SOEBRAS NÚCLEO DE ALFENAS, como parte dos requisitos para obtenção do título de Especialista. Orientadora: Profª. Valéria Medau Alfenas, 2013 3 LETÍCIA MARTINS PEREIRA EFEITO ESQUELÉTICO NA CORREÇÃO DA MORDIDA PROFUNDA Aprovada em: ____/____/_______ Prof. Orientador:_____________________________________________________ Examinador (1):_______________________________________________________ Examinador (2):______________________________________________________ ALFENAS 2013 4 DEDICATÓRIA Dedico esse trabalho aos meus pais, Cida e Pereira, aos meus irmãos, Leandro e Adriano, e ao Gabriel, que com muito amor e carinho não mediram esforços para que eu chegasse até esta etapa da minha vida. Nem tenho palavras para agradecer o quanto fizeram e fazem para que eu esteja aqui hoje. 5 AGRADECIMENTOS Primeiramente, gostaria de agradecer a Deus, por ter me capacitado a vencer esta etapa da vida, me permitindo chegar até aqui e me preservando no meu ir e voltar nestas estradas perigosas. A minha orientadora, Profª. Valéria Medau, pelo profissionalismo, dedicação e pela transmissão de seus conhecimentos. A todos os professores do Instituto Marcelo Pedreira, que enriqueceram nossos conhecimentos durante todo o curso. À Flávia, minha assistente, amiga, por tudo o que fez nesta minha etapa. A todos os funcionários do Instituto Marcelo Pedreira, que, direta ou indiretamente, contribuíram para o nosso sucesso e bem estar durante todo o curso. Aos colegas de turma dessa maravilhosa jornada: Alda, Andressa, Aristides, Caio, Cinthia, Cláudia, Fernando, Gustavo, Hellen, Karina, Marcelo, Mayara, Moisés, Simone, Suelen, Thiago Lemos e Thiago Vianna, pelas horas de estudo e amizade. 6 “Se podemos sonhar, também podemos tornar nossos sonhos realidade.” Walt Disney 7 RESUMO A mordida profunda é uma maloclusão bastante complexa. Sua correção exige mecânicas ortodônticas diferenciadas, de acordo com o diagnóstico. Alguns requerem intrusão dos dentes anteriores, outras, a extrusão dos posteriores e, em alguns casos ainda, a associação das duas mecânicas . Esta revisão da literatura teve como principal objetivo fazer um levantamento bibliográfico sobre os efeitos dentoalveolares e esqueléticos causados pelo tratamento da mordida profunda. Unitermos: Maloclusão. Mordida Profunda. Efeito esquelético. Sobremordida. 8 ABSTRACT The deep bite malocclusion is quite complex. Its correction requires orthodontic mechanics differentiated according to the diagnosis. Some require intrusion of anterior teeth, others extrusion of posteriorese in some cases also the combination of both mechanical. This literature review aimed to do a literature review on the skeletal and dentoalveolar effects caused by treatment Keywords: Malocclusion. Deep bite. Skeletal effect. Overbite. of deep bite. 9 LISTA DE FIGURAS FIGURA 1 - Mordida profunda .............................................................................. 17 FIGURA 2 - Jovem com a Síndrome da Face curta (padrão hipodivergente) ...... 189 FIGURA 3 - Jovem com face curta da amostra de Björk(1963) ............................. 18 FIGURA 4 - Mordida profunda com nenhuma exposição de tecido gengival......... 23 FIGURA 5 - Métodos para avaliar a relação do lábio superior com os incisivos superiores .................................................................................................................21 FIGURA 6 - Esquema das formas de correção da sobremordida...........................24 FIGURA 7 - Fotografia inicial, mostrando grande exposição gengival....................29 FIGURA 8 – Fotografia final, mostrando melhora na exposição gengival..............29 10 SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................... 11 2 PROPOSIÇÃO ...................................................................................................... 13 3 REVISÃO DE LITERATURA ................................................................................. 14 3.1 Conceito de sobremordida ideal e excessiva ..................................................... 14 3.1.1 Mordida profunda de origem dentária .............................................................. 16 3.1.2 Mordida profunda de origem esquelética......................................................... 17 3.2 Critérios de diagnóstico ...................................................................................... 19 3.3 Técnicas de tratamento ...................................................................................... 23 3.3.1 Mecânicas intrusivas ....................................................................................... 24 3.3.2 Mecânicas extrusivas ...................................................................................... 25 3.3.3 Combinação de mecânicas...............................................................................28 3.4 Mecânicas utilizadas para desoclusão posterior ................................................ 29 3.4.1 Dispositivos fixos ............................................................................................. 29 3.4.3 Aparelhos removíveis ...................................................................................... 35 3.5 Alterações dentoalveolares e esqueléticas......................................................... 39 4. DISCUSSÃO ........................................................................................................ 45 5. CONCLUSÃO ...................................................................................................... 50 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ......................................................................... 51 11 1 INTRODUÇÃO A sobremordida, também chamada de mordida profunda, é uma condição oclusal caracterizada pelo excessivo trespasse vertical (overbite) entre o arco dentário superior e o inferior, frequentemente encontrada em pacientes portadores de maloclusão Classe II. O aumento da relação vertical na região dos incisivos pode estar associado à hipodivergência esqueletal, também chamada de síndrome da face curta, acarretando várias conseqüências (BERGERSEN, 1988). A etiologia dessa má oclusão pode estar associada a alterações de crescimento na mandíbula e/ou maxila, modificações na função de lábios e lingua e, principalmente, alterações dentoalveolares (NIELSEN, 1991). É frequentemente a causa de apinhamento dentário anterior, sequelas periodontais como recessão gengival, mobilidade e/ou perdas dentárias, interferências severas nos movimentos excursivos da mandíbula e problemas nas articulações têmporo-mandibulares (RIOLO, 1987; BERGERSEN, 1988). O overbite é uma característica oclusal das mais difíceis de prever em crianças em crescimento, mais difícil de ser tratada com sucesso e muitas vezes está relacionada a casos de recidivas (BERGERSEN, 1988; BRITO ET AL., 2009). Um dos maiores desafios é o tratamento de pacientes com maloclusões Classe II e sobremordida (BURSTONE, 2001). Para que se obtenha sucesso nos tratamentos ortodônticos, é importante que o profissional tenha pleno conhecimento do diagnóstico ortodôntico, conhecendo o processo de crescimento mandibular associado à maloclusão e o funcionamento de tecidos moles, para o correto plano de tratamento (NIELSEN, 1991). 12 Quando os molares estão em oclusão, o trespasse vertical pode ser positivo, zero ou negativo. Positivo é quando os incisivos se sobrepõem, zero, quando as bordas incisais superiores e inferiores estão em situação de topo a topo, e negativo quando as bordas incisais estão verticalmente separadas (RICKETTS, 1961). Para um correto diagnóstico, é importante uma análise criteriosa dos fatores que estão contribuindo para a maloclusão e um exame clínico detalhado. Para a correção da sobremordida , as principais estratégias de tratamento são mecânicas extrusivas, intrusivas, aparelhos fixos, aparelhos removíveis, bráquetes ortodônticos, aparelhos extrabucais, elásticos intermaxilares e a combinação entre essas técnicas. A correção de uma sobremordida é altamente recomendada devido ao comprometimento estético e funcional do paciente, no caso de doenças periodontais e desordens têmporo-mandibulares (NANDA,1981). Quando ocorre um trespasse vertical excessivo, a colagem da aparelhagem fixa nos dentes inferiores fica impossibilitada ou postergada, portanto, dispositivos que resultam em uma abertura da mordida muitas vezes favorecem e agilizam o tratamento ortodôntico. Melhoras nas técnicas e no design dos aparelhos vêm sendo estudadas para alcançar resultados eficientes e maior aceitação no uso pelos pacientes. Utilizam-se frequentemente aparelhos removíveis ou fixos com batente anterior para levantamento oclusal, de maneira que permitam erupção dos dentes posteriores e ocorra uma abertura na mordida (THURMAN et al., 2011). 13 2 PROPOSIÇÃO O objetivo desse trabalho foi elaborar uma revisão da literatura sobre as alterações dentoalveolares e esqueléticas em diferentes mecanismos, dispositivos e técnicas de tratamento em pacientes portadores de mordida profunda. 14 3 REVISÃO DE LITERATURA 3.1 Conceito de sobremordida ideal e excessiva Em uma oclusão normal, os incisivos superiores se sobrepõem aos incisivos inferiores e essa sobreposição pode ser medida em milímetros ou de acordo com a porcentagem em que os incisivos inferiores são cobertos pelos superiores. O trespasse vertical em uma oclusão normal pode variar de 5 a 40%, caso não esteja causando nenhum problema funcional durante os movimentos das articulações têmporo-mandibulares. Um overbite maior do que 2 a 3 mm na região anterior e/ou posterior é denominado mordida profunda e está relacionado a vários fatores. É comum observar clinicamente a curva de Spee acentuada no arco inferior ou reversa no arco superior e dentes inferiores cobertos pelos superiores. Em pacientes padrão face curta as coroas dentárias são mais curtas e a sobremordida pode envolver todos os dentes, impedindo a instalação de acessórios ortodônticos ou aumentar a incidência de descolamentos destes (JANSON E PITHON, 2008). Methenitou et al. (1990) observaram que a sobremordida em crianças com 4 anos de idade aumentava até os 12 anos. As análises mostraram que 88% dos pacientes que possuíam sobremordida maior que 1,5 mm aos 4 anos, tinham essa sobremordida maior do que 3 mm aos 12 anos. Investigaram a possibilidade de limitar o desenvolvimento de uma mordida profunda em crianças com o uso de um aparelho noturno guiando ou impedindo a erupção excessiva dos incisivos durante a troca dos incisivos decíduos. A partir do momento em que os incisivos permanentes estiverem totalmente erupcionados, as fibras colágenas já terão completado sua formação e o momento ideal foi perdido. 15 A prevalência das relações inter-arcos nos sentidos ântero-posterior e vertical de 1201 escolares com idades entre 6 e 12 anos foi avaliada por Gandini et al. (2000). No sentido vertical prevaleceu a relação Normal (45,3%), seguida pela Moderada (37%), Mordida Aberta Anterior (20,1%), Mordida Profunda Acentuada (9,2%) e relação de incisivos Topo a Topo (2,5%). Hans et al. (1994) descreveram que quatro fatores inter-relacionados contribuem para a correção da mordida profunda: extrusão de molares, intrusão de incisivos, inclinação de incisivos e crescimento diferencial de estruturas maxilares e mandibulares. Parker et al. (1995) realizaram um estudo com 132 pacientes apresentando mordida profunda corrigida através de seis modalidades diferentes de tratamento. Os autores descreveram as mudanças esqueléticas e dentárias ocorridas por análises cefalométricas em telerradiografias obtidas antes e após a correção. Os pacientes foram divididos em 3 grupos: Classe I; Classe II, Divisão 1 e Classe II, Divisão 2. Baseados nas medidas cefalométricas, observaram que independente da técnica utilizada, os efeitos foram similares na posição e inclinação de molares e incisivos superiores e inferiores. Baccetti et al. (2011) realizaram um estudo longitudinal em 29 pacientes com mordida profunda não tratados ortodônticamente com idade de 9 a 18 anos. Avaliaram cefalometricamente as alterações de crescimento em diferentes fases de desenvolvimento segundo o método de maturação das vértebras cervicais. A sobremordida piorou em 62% dos pacientes durante o período pré-puberal e melhorou em 79% dos pacientes na puberdade. Do período pré-puberal ao início da vida adulta, a sobremordida mostrou melhora em 83% dos sujeitos e autocorreção em 62%. Encontraram uma associação significantemente positiva na 16 vestibularização inicial dos incisivos superiores com a taxa de prevalência de autocorreção. A melhora significante na sobremordida durante o surto de crescimento puberal parece estar relacionada com a quantidade de crescimento vertical do ramo mandibular e com a erupção dos molares permanentes. Beckmann et al. (1998) em um estudo com 460 indivíduos adultos, mostraram que a mordida profunda estaria relacionada com uma altura facial inferior menor e áreas alveolar e basal maiores. Os autores encontraram uma fraca relação entre a sobremordida e as dimensões da região anterior da maxila. As maloclusões verticais podem ser divididas dentre as que são dentoalveolares de origem e as que são esqueléticas (NIELSEN, 1991). 3.1.1 Mordida profunda de origem dentária Esse tipo de sobremordida ocorre geralmente devido à perda precoce de dentes decíduos, causando uma inclinação lingual ou palatina dos incisivos. A perda e/ou mesialização de uma mordida profunda devido dentes à posteriores diminuição da altura também vertical causam da face. Ocasionalmente também pode estar relacionada a dentes com morfologias diferentes (NANDA, 1981). A mordida profunda se caracteriza por apresentar um trespasse vertical acentuado entre os dentes anteriores (Fig. 1). Esta situação que acomete jovens e adultos pode resultar da irrupção excessiva dos incisivos superiores ou inferiores, da falta de desenvolvimento vertical dentoalveolar posterior e da deficiência esquelética anterior vertical. 17 FIGURA 1 - Mordida profunda Fonte: Almeida et al. (2004) Quando o maior componente envolvido na sobremordida for dentoalveolar, os dentes ântero-inferiores podem estar envolvidos, assim como os molares inferiores. Um ponto importante e muito polêmico diz respeito à forma de correção das sobremordidas. Como salientado por Burstone (1977), frente a esta má oclusão deve-se inicialmente reconhecer a sua natureza para posteriormente aplicar uma terapêutica correta. 3.1.2 Mordida profunda de origem esquelética A sobremordida de origem esquelética está relacionada ao mau relacionamento dos ossos alveolares maxilar e mandibular ou pela falta ou excesso de desenvolvimento de um ou mais segmentos alveolares (ENGELMAN, 1966; NANDA, 1981). Na mandíbula, pode ser manifestado pela curva de Spee acentuada e na maxila pela curva de Spee revertida. Se o problema se encontra na região anterior da maxila, frequentemente ocorrerá um aparecimento excessivo de tecido gengival durante fala ou sorriso (NANDA, 1981). A sobremordida que apresenta um erro esquelético tipicamente é conhecida como Síndrome da Face curta (hipodivergente) predominando um maior 18 crescimento da altura facial posterior sobre a anterior (Fig. 2). Björk (1963) acompanhou longitudinalmente por 6 anos o crescimento maxilomandibular vertical em pacientes hipodivergentes. Evidenciou que o crescimento condilar se expressa para cima e para anterior e a direção de irrupção dos dentes inferiores assume um padrão mesial, denotando um giro da mandíbula no sentido anti-horário. A figura 3 ilustra um destes jovens acompanhado longitudinalmente representando esta síndrome. FIGURA 2 - Jovem com a Síndrome da Face curta (padrão hipodivergente) Fonte: Almeida et al. (2004) FIGURA 3 - Jovem com face curta da amostra de Björk(1963) Fonte: Almeida et al. (2004) por seis anos 19 3.2 Critérios de diagnóstico É importante um exame clínico detalhado dos dentes, oclusão, movimentos mandibulares e padrão de crescimento facial para que se obtenha sucesso no tratamento de casos de mordida profunda, devendo ser considerado o comprimento do osso alveolar, altura vertical da face, posição ântero-posterior da maxila e da mandíbula, musculatura facial, e relação dos dentes com os tecidos moles. Outros parâmetros de diagnóstico importantes especialmente em adolescentes são o tipo de rotação mandibular, hábitos deletérios e o padrão de erupção e esfoliação de dentes decíduos e permanentes. Podem também ser de grande importância no sucesso do tratamento da sobremordida a avaliação da altura dento-alveolar mandibular e maxilar, o formato da sínfise e ângulo goníaco. (CEYLAN E ERÖZ, 2001). Segundo Brito et al., 2009, com referência à sobremordida exagerada, existem dois aspectos que devem ser avaliados detalhadamente, durante o diagnóstico: o nível de exposição gengival durante a fala e o sorriso, e a relação do lábio superior com os incisivos superiores. A análise da figura 4 mostra uma situação clínica de sobremordida exagerada, onde não existe nenhuma exposição gengival no sorriso. A correção dessa má oclusão por meio de intrusão dos incisivos superiores está contraindicada. FIGURA 4 – Mordida profunda com nenhuma exposição de tecido gengival Fonte: Brito et al. (2009) 20 Quando os lábios estão em repouso, é aceitável que haja uma exposição de até 2 mm dos incisivos superiores. Para Brito et al., 2009, a análise dessa informação pode ser feita, clinicamente, através do estudo da face dos pacientes, em repouso, numa vista frontal e lateral, bem como por meio da telerradiografia lateral (Fig. 5). FIGURA 5 – Métodos para avaliar a relação do lábio superior com os incisivos superiores Fonte: Brito et al. (2009) A avaliação de tecidos moles foi introduzida nas medidas cefalométricas por volta de 1950 e foi rapidamente reconhecida como um importante fator no planejamento do tratamento ortodôntico (RIEDEL, 1950; RICKETTS, 1959), resultante de observações clínicas de que um único padrão dental e esqueletal poderia estar associado a uma grande variedade de perfil tegumentar (BURSTONE, 1958). As análises cefalométricas podem ser utilizadas para descrição da morfologia facial, para conhecimento do crescimento, para delinear objetivos do tratamento, tirar proveito de diferentes técnicas de tratamento e são de grande importância para auxiliar no diagnóstico e plano de tratamento (RICKETTS, 1961). Em um estudo longitudinal, Bishara e Jakobsen (1985) descreveram e compararam as relações dento-faciais em três tipos faciais: curto, médio e longo. A maioria dos indivíduos (77%) mantiveram o mesmo tipo facial desde os 5 até o 25,5 21 anos de idade. Dentro de cada biotipo facial, os indivíduos expressaram uma grande variação de tamanho e da relação entre as várias estruturas dento faciais. Anos depois, Bishara e Jakobsen (1998) acompanharam as alterações verticais dentárias e faciais ocorridas em indivíduos normais dos 5 aos 45 anos de idade. Concluíram que embora existam correlações estatisticamente significantes entre a mordida profunda e alterações na altura facial, elas são poucas e sem utilidade clínica. As alterações normais de crescimento nos parâmetros verticais esqueléticos não possuem um papel clinicamente significante na determinação da quantidade de sobremordida de um indivíduo. Fatores como o crescimento do processo alveolar também podem influenciar na sobremordida. Uma vez que o crescimento tende a aumentar a distância vertical entre mandíbula e maxila, é de grande utilidade que o tratamento de mordida profunda em pacientes com padrão facial horizontal seja realizado durante o período de crescimento mandibular, sendo que esses casos possuem significante probabilidade de recidiva (ENGLE et al., 1980). Nanda (1997) relatou que algumas considerações são necessárias para que a correção da mordida profunda obtenha resultados funcionais e estéticos: 1) -Tecidos moles - O espaço entre o lábio superior e inferior na posição de repouso mandibular deve ser de 2 a 3 mm. Em indivíduos com mordida profunda e espaço interlabial aumentado, não é recomendável utilizar mecânicas de extrusão posterior, uma vez que aumentaria esse espaço. A distância normal entre o estômio e a incisal do incisivo central superior é de 3 a 4 mm, portanto em pacientes com uma distancia estômio-incisivo normal é contraindicada a intrusão anterior maxilar, pois poderá causar um aspecto de desdentado ao paciente. Durante o sorriso, o lábio superior deve estar próximo da junção amelodentinária dos incisivos superiores. No caso do indivíduo possuir um 22 encurtamento do lábio superior, pode ocorrer também um grande espaço interlabial ou uma distância estômio-incisivo aumentada. Pacientes com hiperatividade ou tensão dos músculos labiais podem apresentar recidivas em casos de inclinação dentária devido à pressão muscular exercida na região de incisivos. 2)- Relacionamento Vertical da Face - Considerações sobre o tipo facial representam um papel importante no planejamento de um tratamento ortodôntico e no prognóstico do caso, particularmente as relações verticais, uma vez que fornecem dados quanto à direção de crescimento do complexo maxilo-mandibular (COLLETT E WEST, 1993). A extrusão de dentes posteriores resulta em uma rotação posterior e inferior mandibular, aumento do terço inferior da face, da convexidade do terço médio e espaço interlabial sendo, portanto contraindicado em casos de pacientes com altura facial aumentada. 3) - Plano Oclusal Convencionalmente - um dos objetivos em um tratamento ortodôntico é um plano oclusal plano, mas se não for considerado em conjunto com altura facial e labial, poderá resultar condições instáveis e indesejáveis. 4) - Espaço Interoclusal - A distância entre as faces oclusais dos dentes superiores e inferiores na posição de repouso mandibular deve ser entre 2 a 4 mm. A extrusão posterior que invadir esse espaço pode resultar em recidivas causadas pelos músculos da mastigação e em alterações patológicas nas articulações têmporo-mandibulares. 5) - Tempo de tratamento e Idade do paciente - Em casos em que o tempo de tratamento pode ser muito longo, deve ser dada ao paciente a opção de 23 uma correção através de cirurgia ortognática e o plano de tratamento deve ser feito em conjunto com um cirurgião. 3.3 Técnicas de tratamento Para Engel et al. (1980), existem basicamente 4 maneiras de corrigir a mordida profunda: (1) nivelamento do arco através de erupção dos pré-molares associado a uma rotação mandibular no sentido horário, aumentando a altura facial inferior; (2) intrusão dos incisivos superiores e/ou inferiores; (3) inclinação labial dos incisivos; e (4) extrusão de molares. Segundo Bennett e McLaughlin (1994), clinicamente pode-se corrigir a mordida profunda por meio da (A) extrusão posterior, (B) distalização / verticalização dos molares, (C) vestibularização dos incisivos e (D)intrusão dos incisivos (Fig. 6). FIGURA 6 - Esquema das formas de correção da sobremordida Fonte: Almeida et al. (2004) 24 A aplicação dos métodos de correção está alicerçada na diferenciação morfológica do padrão facial dos pacientes. A tipificação do padrão de crescimento craniofacial do paciente com sobremordida, bem como a má oclusão, são importantes fatores que devem ser reconhecidos pelo clínico. Para os pacientes que se apresentam com um padrão de crescimento equilibrado, objetiva-se extruir os dentes posteriores. Nos pacientes que possuem sobremordida com padrão de crescimento vertical deve-se preferir a intrusão dos incisivos como recurso terapêutico, a fim de se evitar a rotação mandibular horária. Burstone (1977) afirmou que a extrusão dos dentes posteriores gira a mandíbula no sentido horário agravando uma Classe II por retrusão mandibular. A correção da sobremordida pode ser alcançada através de extrusão dos dentes posteriores (HELLSING ET AL., 1996; JACKSON E SANDLER, 1996; JANSON E PITHON, 2008), intrusão dos incisivos maxilares e/ou mandibulares (BURSTONE, 1977; BURZIN, NANDA, 1993; BURSTONE, 2001), ou a combinação de ambos (MARCOTTE, 1990). A mecânica para redução do trespasse vertical deverá ser o primeiro fator a ser determinado para iniciar o tratamento e será de acordo com o diagnóstico estrutural do problema vertical (BURSTONE, 1977). 3.3.1 Mecânicas intrusivas A intrusão é indicada para pacientes com padrão de crescimento vertical onde a estética facial seria prejudicada pelo aumento da altura facial ântero-inferior (AFAI). Entre as mecânicas utilizadas estão o arco base de intrusão (técnica segmentada), arco de intrusão dos incisivos (sobrearco), mecânica segmentada de 25 Burstone, arco base de Ricketts, arco superior com acentuação da curva de Spee e arco inferior com a reversão da curva de Spee e a colagem dos acessórios nos dentes superiores e inferiores mais para a incisal (JANSON E PITHON, 2008). Outra possibilidade seria o levantamento oclusal dos dentes posteriores com coroas de aço nos molares decíduos ou resinas na superfície oclusal dos dentes posteriores(MAYES, 1997). O sistema de intrusão possui componentes estáveis como o arco do segmento anterior (4 incisivos), segmento posterior (pré-molares e molares) e um arco palatino e componentes ativos como um arco de intrusão ou aparelho extra-oral (NANDA, 1981; NANDA,1997). A ancoragem vertical durante a intrusão em massa de canino a canino é muito difícil, por isso, geralmente, somente os 4 incisivos estão envolvidos na intrusão. E dependendo da inclinação inicial dos incisivos, a força de intrusão pode gerar movimentos indesejáveis (MARCOTTE, 1990). A intrusão anterior quando comparada com a extrusão posterior é mais complexa mecanicamente e leva maior tempo de atendimento clínico e do ponto de vista periodontal, é uma mecânica mais arriscada, podendo causar reabsorção de ápice radicular (NOROOZI E MOEINZAD, 2002). 3.3.2 Mecânicas extrusivas A extrusão dos dentes posteriores é indicada para pacientes que apresentam um padrão de crescimento horizontal ou equilibrado de maneira que um aumento no AFAI não compromete a estética facial (JANSON E PITHON, 2008). A extrusão dos molares durante o tratamento ortodôntico resulta em abertura da 26 mordida na região anterior, de maneira que 1 mm de extrusão posterior, resulta em 2 a 2,5 mm de abertura na região incisal (NANDA, 1997). Segundo Nanda (1981), o levantamento de mordida atua criando espaço interoclusal posterior e permitindo a erupção dentária passiva dos molares e prémolares até o contato oclusal. Pode ser realizado através de placas desoclusoras fixas ou removíveis e batentes anteriores fixos. Em seu estudo, utilizou uma placa oclusal maxilar com plataforma palatina em acrílico. Os incisivos mandibulares em contato com a plataforma causam a desoclusão dos dentes posteriores, permitindo a extrusão passiva dos molares. A extrusão posterior também pode ser obtida com o uso de aparelhos ortodônticos fixos, utilizando fios de aço redondo com curva de Spee invertida ou com arcos redondos com loopings. Aparelho extra-bucal com apoio cervical, plataforma oclusal anterior, elásticos intermaxilares e mecânica de arcos contínuos com curvas incorporadas ao arco são algumas técnicas que podem causar extrusão posterior (BURSTONE, 1977; NOROOZI E MOEINZAD, 2002). Noroozi e Moeinzad(2002) propuseram uma técnica de extrusão dos molares para nivelamento oclusal sem causar protrusão dos incisivos. Com a utilização de um segmento de arco anterior e 2 segmentos posteriores combinaram a simplicidade clínica da mecânica de arcos contínuos com melhor posição de incisivos. Norrozi (1999) relata que o movimento de abertura da boca é causado por uma combinação de rotação e translação mandibular e como os primeiros 25 mm aproximadamente de abertura resultam em movimento de rotação, o movimento causado pela extrusão posterior se encontra na faixa de pura rotação mandibular. A proporção de distância côndilo-incisivo (CI) e distância côndilo-molar (CM) em média para um adulto é de 1,5, portanto, 1 mm de extrusão de molar causa 27 aproximadamente 1,5 mm de abertura da mordida. Entretanto, essa razão é afetada por fatores da tipologia facial como altura de ramo mandibular, ângulo goníaco e posição ântero-posterior e vertical dos dentes mandibulares. O autor enfatiza a importância do controle vertical no tratamento ortodôntico uma vez que pequenos aumentos de extrusão molar podem resultar em uma abertura de mordida significante e deve ser determinada individualmente para cada caso. Janson e Pithon (2008) induziram a extrusão dos molares através de um batente fixo na região palatina dos incisivos permitindo a oclusão apenas dos incisivos inferiores e fornecendo espaço entre os dentes posteriores para correção da mordida profunda. 3.3.3 Combinação de mecânicas Em algumas situações, as características clínicas e esqueléticas dos pacientes indicam a correção da sobremordida por meio da associação da extrusão posterior à intrusão anterior. Brito et al., 2009, descreveram um caso de uma paciente classe I com sobremordida exagerada, presença de dois planos oclusais e grande exposição gengival no sorriso(Fig. 7). 28 FIGURA 7 – Fotografia inicial, mostrando grande exposição gengival Fonte: Brito et al. (2009) Paciente foi tratada através de alinhamento e nivelamento dos arcos, com fios flexíveis e arcos para manipular a curva de Spee, corrigindo a sobremordida com pequena extrusão posterior e intrusão anterior, acompanhada de vestibularização. Ao final do tratamento, as características faciais foram mantidas, com uma melhora importante na quantidade de exposição gengival no sorriso(Fig. 8). Figura 8 – Fotografia final, mostrando melhora na exposição gengival Fonte: Brito et al. (2009) 29 3.4 Mecânicas utilizadas para desoclusão posterior 3.4.1 Dispositivos fixos Desde o inicio dos anos 80, estão disponíveis no mercado os aparelhos linguais fixos através de sistema adesivo e apresentam diferenças mecânicas dos mais comumente utilizados bráquetes labiais (GORMAN E SMITH, 1991). Carano et al. (2001) sugeriram um método simples e efetivo para correção de sobremordida. Utilizaram bráquetes linguais colados na face palatina dos incisivos superiores que serviam como planos de mordida fixos. A oclusão gera forças intrusivas próximas ao Centro de Resistência dos incisivos superiores e à frente do Centro de Resistência dos incisivos inferiores. O Overjet deve ser menor do que 4 mm para que os incisivos inferiores ocluam nos bráquetes. A abertura instantânea da oclusão permite colagem imediata no segmento anterior da mandíbula. Concluíram que o método proposto está em concordância com os princípios de intrusão listados por Burstone, utilizando ótimas magnitudes de forças produzidas pela própria musculatura do paciente, induzindo intrusão simultânea e controlada dos incisivos superiores e inferiores. Relataram que a abertura da mordida resulta em um leve aumento na tendência a erupção dos dentes posteriores. Jackson e Sandler (1996) sugeriram a utilização de planos de mordida fixos para desoclusão posterior, permitindo movimentos dentários ântero-posteriores, impedidos pela mordida profunda. Utilizaram em seu estudo cimento de ionômero de vidro, Aquacem (Dentsply International), para confecção dos dispositivos. Após manipulado o pó do cimento com água destilada, aplicaram nas superfícies palatinas limpas e secas dos dentes anteriores (canino a canino) 30 com altura suficiente para a desoclusão dos dentes posteriores. Em casos de mordida profunda com cruzamento anterior, o plano de mordida pode ser colocado nos molares superiores para levante oclusal, permitindo a colagem do aparelho fixo e o descruzamento anterior da mordida. Os autores sugerem os planos de mordida fixos como uma boa indicação, uma vez que garantem uso integral dos dispositivos, não tem a incoveniência de um aparelho removível, os pacientes se adaptam rapidamente com a fala e a aparelhagem fixa pode ser iniciada imediatamente. O cimento de ionômero de vidro possui um custo relativamente baixo e o tempo de confecção requer por volta de 5 minutos. Philippe (1996) relatou uma técnica de confecção de planos de mordida fixos utilizando cimento adesivo Transbond (3M Unitek) na superfície palatina dos incisivos superiores. Adaptou um bloco do material no modelo de gesso e após esculpido, separado dente a dente e polido, o dispositivo foi transferido para a boca através de uma placa de silicone e cimentado nos dentes. A mandíbula é destravada e assim sua mobilidade e capacidade de realizar os movimentos excursivos aumentam consideravelmente, de modo que o crescimento mandibular não é mais inibido, podendo diminuir a relação de Classe II. O equilíbrio muscular determina a quantidade apropriada de intrusão dos incisivos e extrusão dos molares. Na dentição permanente, os planos de mordida fixos podem ser usados como auxiliares no tratamento com aparelhos fixos, sendo que os bráquetes mandibulares podem ser colados na mesmo sessão que os planos de mordida. Os movimentos dos dentes posteriores não sofrem interferências oclusais, os bráquetes mandibulares raramente se soltam e, não é necessário nenhum arco específico para correção da sobremordida. Após o levante vertical, os molares reestabelecem o contato oclusal por volta de 3 a 4 meses em crianças e 4 a 6 meses em adultos, mas os planos 31 de mordida só devem ser removidos após o estabelecimento da oclusão com uma normal relação de incisivos. O autor mencionou que o descolamento acidental do plano de mordida é raro pois as forças oclusais são moderadas por reflexos proprioceptivos e a maior parte da pressão ocorre nas faces dentárias. Silva Filho et al. (2010) demonstraram um método simples para a correção da mordida profunda aliando a técnica do arco contínuo com o levantamento da mordida anterior associado ao uso de elásticos na região posterior. Para provocar um levantamento da mordida, utilizaram acessórios colados na superfície palatina dos incisivos centrais superiores chamados de “Stop e Guia” (Morelli), visando a colagem dos bráquetes nos dentes inferiores. Para se definir a altura em que os acessórios deveriam ser colados, utilizaram uma placa de mordida posterior em cera para determinar a quantidade de desoclusão necessária para a correção da mordida profunda e fixaram o acessório palatino por um sistema adesivo. Para potencializar o efeito de extrusão dos dentes posteriores, foram utilizados elásticos intermaxilares. Segundo os autores, a mecânica mostrou-se de fácil execução e bastante eficaz para a correção da sobremordida. Forsberg e Hellsing (1984) estudaram o efeito de um aparelho com arco lingual e uma placa anterior de acrílico em contato com a mucosa palatina nas correções de mordida profunda. O aparelho foi fixo nos primeiros molares superiores através de bandas ortodônticas soldadas a um arco lingual confeccionadas com fio 1.0mm e a distância entre molares superiores e inferiores foi de aproximadamente 4mm. O objetivo do estudo era avaliar cefalometricamente as mudanças causadas pelo uso do aparelho em 20 crianças de 9 a 13 anos comparadas a 20 pacientes do grupo controle. A abertura da mordida foi alcançada por alterações dentárias e esqueléticas. 32 Hellsing (1990) selecionou aleatoriamente 20 pacientes entre 9 e 13 anos, com má oclusão classe II e mordida profunda. Todos foram tratados por meio de um aparelho de arco lingual com um plano de mordida em acrílico anterior fixado em bandas ortodônticas nos primeiros molares superiores obtendo uma distância entre os primeiros molares superiores e inferiores de aproximadamente 4 mm. A fim de avaliar as alterações resultantes do tratamento, duas telerradiografias foram tiradas de cada paciente, antes do tratamento e outra quando os dentes posteriores se encontravam em oclusão. Vinte indivíduos não tratados com a mesma má oclusão foram usados como grupo controle. Os primeiros molares obtiveram contato em oclusão após 0,3 anos de tratamento. No estudo em questão, o plano de mordida foi o único dispositivo ortodôntico a ser utilizado, no entanto, na prática clínica o plano de mordida é sempre combinado com outros aparelhos. Foram realizados exames funcionais, incluindo palpação dos músculos e da ATM e avaliação da mobilidade mandibular. Não haviam sinais de distúrbios funcionais do sistema mastigatório que poderiam ser diretamente relacionados com a terapia de plano de mordida. Hellsing e Hellsing (1995) investigaram as alterações verticais na região dos incisivos e molares causadas por um tratamento com levantamento oclusal e aumento na dimensão vertical. A terapia inicial consistia no uso de um aparelho maxilar fixo com bandas ortodônticas ligadas por um arco palatino a uma placa anterior de acrílico, como descrito por Hellsing (1990). Utilizaram 15 pacientes com 15 a 24 anos e sobremordida maior ou igual a 4mm. A placa acrílica mantinha uma separação das arcadas superior e inferior de aproximadamente 4 mm através de contato oclusal com a incisal dos 6 dentes anteriores inferiores. O tratamento foi continuado com o uso de terapia Edgewise convencional para buscar os resultados necessários e a placa maxilar só foi removida após a arcada inferior estar 33 estabilizada com fio 0.016”. Três medições foram feitas para cada paciente: antes do tratamento, imediatamente após instalação da placa e após remoção da placa. Os resultados mostraram que o aumento da dimensão vertical ocorreu por um fenômeno de dobradiça com uma relação entre a região frontal e posterior de 2:1. Os movimentos eruptivos dos molares ocorreram acompanhados de uma rotação dos segundos molares ao redor de um eixo imaginário mesio-distal, sendo que as cúspides palatinas dos superiores desceram mais e as vestibulares dos inferiores subiram mais do que as vestibulares e linguais, respectivamente. Hellsing et al. (1996) investigaram cefalometricamente os efeitos do levante oclusal nas articulações têmporo-mandibulares de oito adultos de 15 a 24 anos. Realizaram tratamentos de sobremordida com aparelho maxilar fixo e um plano de mordida anterior como descrito por Hellsing (1990), causando uma separação nos dentes anteriores de 4 a 7 mm e nos posteriores de 2 a 4 mm. Após 3,5 a 5 meses de tratamento foi estabelecido o contato oclusal entre os molares, o aparelho foi removido e a correção da sobremordida foi mantida por um aparelho Edgewise. Após correção da mordida profunda, nenhuma imagem apresentou sinais de remodelamento de tecido duro, concluindo que outros fatores além da mudança de posição condilar são responsáveis pelo efeito terapêutico da abertura de mordida. Pacientes utilizando aparelho de Jasper Jumper para correção de maloclusão Classe II, mostraram nítida intrusão dos incisivos inferiores e como consequência, redução na sobremordida (WEILAND et al.,1997). Mayes(1997) apresentou os Bite Turbos (ORMCO), um dispositivo de abertura imediata de mordida, colado nos incisivos superiores, que estimula a erupção vertical dos dentes posteriores. Permitem a colagem imediata dos 34 bráquetes inferiores, evitando as quebras. Sua inclinação ântero-posterior, além de propiciar abertura de mordida, permite um suave avanço mandibular e consequentemente uma desprogramação muscular, alterando a posição de máxima intercuspidação e a posição de repouso mandibular e condilar. São de fácil higienização, pois não possuem aletas e nem slots, de simples instalação e remoção, e baixo custo. Nobrega et al. (2004) apresentaram o mesmo dispositivo, o Bite Turbo (ORMCO) funcionando como uma placa de mordida fixa. As vertentes incisais dos dentes anteriores inferiores ocluem em planos de mordida paralelos ao plano oclusal dos Bite Turbos de maneira similar à placa de mordida removível. Cortese (2004) observou o comportamento cefalométrico em indivíduos portadores de má oclusão mordida profunda, em idade de crescimento, com o uso de aparelho Bite Turbo. Segundo o autor, o tratamento de mordida profunda com plano de mordida fixo anterior é indicado em casos de pacientes com padrão braquifacial ou mesofacial, com pouca projeção de pogônio, altura facial inferior diminuída, perfil balanceado ou convexo e exposição adequada dos incisivos no sorriso. Vanlaecken et al. (2006) obtiveram melhora do overbite e overjet com a técnica de Edgewise Herbst, em que o aparelho fixo é utilizado juntamente com a coroa Herbst para maximizar os efeitos do tratamento, em pacientes portadores de maloclusão Classe II. Segundo Janson e Pithon (2008), o levantamento de mordida por meio de batentes anteriores ou posteriores possibilita ao ortodontista agilizar a colagem dos acessórios e trabalhar imediatamente no arco inferior, corrigindo mais rapidamente a curva de Spee. Assim, os autores apresentaram diversas formas de levantamento 35 de mordida e propuseram o JANPI. Esse dispositivo favoreceu a extrusão dos molares e pré-molares, nivelando a curva de Spee e corrigindo a sobremordida. Para a confecção do JANPI, os autores esculpiram peças em cera 7 com formato piramidal de forma a criar 3 tamanhos (pequeno, médio e grande), criando uma convexidade na superfície que entrará em contato com a face lingual dos incisivos centrais superiores e uma superfície plana perpendicular aos incisivos inferiores para ocluir com a incisal. Foi feito um molde de silicone para servir como matriz para a produção dos batentes em resina acrílica autopolimerizável transparente. Os autores concluíram que o dispositivo possui uma relação custo/beneficio vantajosa, apresentando uma fácil confecção e instalação, possibilitando ajustes por desgaste ou acréscimos diretamente na cavidade bucal, diminuindo o tempo de cadeira, e não necessita da colaboração do paciente. Vanetti (2011) realizou uma revisão de literatura sobre a utilização de dispositivos ortodônticos fixos pré-fabricados em casos de sobremordida, mostrando o favorecimento da instalação precoce dos bráquetes no arco inferior devido ao levantamento oclusal. Relatou sobre a necessidade de novos estudos, uma vez que os resultados encontrados são muito divergentes. Dentre as marcas comercias existentes, encontram-se: 1)- Stop & Guia – Morelli, Sorocaba/SP, BR; 2)- Bite Turbo – Ormco Corp, Glendora/CA, EUA; 3)- Bite Ramps- GAC International, Bohemia/NY, EUA; 4)- Opal- OrthoBiteRamps, Opal Orthodontics, Salt Lake City/UT, EUA. 3.4.3 Aparelhos removíveis 36 Segundo Nobrega et al. (2004), planos ou placas de mordida removíveis têm sido utilizados em casos em que a mordida profunda está relacionada à falta de erupção posterior, permitindo somente a oclusão dos incisivos inferiores na parte acrílica do aparelho e um espaço livre de vários milímetros na região dos molares, que se encontram livres para erupcionar até que encontrem os antagonistas. Mas, para que a abertura da mordida seja efetiva, é necessário que o paciente use o aparelho por tempo integral, ficando o tratamento dependente da colaboração do paciente. Bergersen (1984, 1985), desenvolveu um aparelho pré-fabricado em acrílico para correção de maloclusões chamado de Eruption Guidance Appliance (EGA) (ORTHO- TAIN, Inc, Bayamon Gardens, PR). Possui características de um aparelho funcional com avanço mandibular e abertura vertical na região anterior permitindo o desenvolvimento vertical posterior. Os planos de mordida podem possuir acessórios para impedimento da erupção, através de cobertura em acrílico (encapsulamento) ou com fios de aço. Com o impedimento da erupção dos molares superiores, espera-se melhora na relação Classe II de molar, enquanto que se a erupção dos molares inferiores for restringida e a dos superiores for liberada, poderá ocorrer uma melhora na relação Classe III de molares (VIG E VIG, 1986). Para avaliar os efeitos clínicos da desoclusão dental no crescimento mandibular, Moore et al. (1989) acompanharam 16 crianças com dentição mista utilizando uma placa de mordida maxilar de Hawley com um degrau incisal para ocluir nos incisivos inferiores e desocluir a mandíbula em 1mm ou um regulador funcional de Fränkel. Após 9 meses de tratamento, o grupo com a placa de Hawley 37 apresentou extrusão dos molares e um aumento na altura facial inferior com tendência a uma mordida aberta anterior. Methenitou et al. (1990) utilizaram um aparelho noturno chamado NiteGuide da Occlus-o-Guide, guiando ou impedindo a erupção excessiva dos incisivos durante a troca dos decíduos. A correção do overjet e overbite foi alcançada, uma vez que os permanentes ficam impedidos de erupcionar além do nível oclusal posterior, prevenindo um crescimento vertical exagerado. Toth e McNamara (1999) compararam os efeitos do tratamento com aparelho Twin-block e Regulador Funcional de Fränkel (FR-2) a um grupo controle e observaram significante diminuição no overjet e overbite e aumento na altura facial inferior. Observaram aumento vertical, no terço inferior da face, maior em pacientes tratados com aparelho Twin-block quando comparados com os tratados com Regulador Funcional de Fränkel (FR-2). Comparados com pacientes não tratados, o grupo do FR-2 apresentou palatinização dos incisivos superiores e leve aumento na erupção dos molares inferiores. Em nenhum dos grupos foi observada extrusão de molares superiores. Após utilização de aparelho regulador funcional pelo período de 28 meses, Janson et al. (2003), observaram redução do overjet e overbite e aumento na altura facial inferior. Cozza et al. (2004) investigaram cefalometricamente alterações esqueletais, dentais e de tecido mole em pacientes com maloclusão Classe II causada por retrognatismo mandibular. 40 pacientes tratados com aparelho ativador de duplo recobrimento oclusal foram comparados com 30 pacientes do grupo controle. O ativador foi confeccionado através de uma mordida construtiva posicionando a mandíbula anteriormente em uma situação de topo a topo e durante 38 o tratamento os molares inferiores foram induzidos a erupcionar pelo desgaste do acrílico na região oclusal e lingual, aumentando a altura facial anterior e melhorando a mordida profunda. Emami et al. (2007), para investigar as influências de um plano inclinado anterior nas mudanças dentoesqueletais, utilizaram um simples aparelho intermaxilar removível proporcionando liberdade nos movimentos mandibulares alterando a atividade do sistema muscular oral de maneira similar aos aparelhos ortopédicos funcionais. Após compararem radiografias e fotografias pré e pós tratamento de 25 pacientes em crescimento com maloclusão Classe II e sobremordida, observaram abertura na mordida com extrusão dos dentes posteriores. Stec-Slonicz et al.(2008) obtiveram a correção do overjet e overbite em pacientes com maloclusões Classe II, divisão 1 utilizando aparelhos removíveis em acrílico chamados Jumping-the-bite. Singh et al. (2010) observaram que o tratamento com terapia miofuncional das desarmonias esqueléticas pode ser imediatamente seguido por uma terapia com aparelhos fixos para refinar a oclusão e dar estabilidade na nova relação maxilomandibular. Thurman et al. (2011) utilizaram aparelho extra-oral combinado a uma placa oclusal maxilar removível com uma superfície plana anterior em acrílico para desoclusão dos circunferenciais dentes nos posteriores, molares. arco Observaram vestibular melhora superior e grampos na mordida profunda e desinclinação dos incisivos superiores. Os planos de mordida podem ser horizontais ou inclinados, anterior ou posterior e possuir contato oclusal com um só dente ou em grupo. Normalmente são confeccionados em resina acrílica, mas podem ser feitos 39 de fio metálico ou qualquer outro material, localizando-se na parte anterior ou posterior do arco dentário. O platô anterior atua na erupção diferencial dos dentes posteriores, impedindo a erupção ou extrusão dos incisivos e na redução da sobremordida, enquanto que o platô posterior apresentaria os efeitos opostos. Segundo Jackson e Sandler (1996), os aparelhos removíveis de acrílico dependem muito da cooperação integral do paciente. Quando mal ajustados, podem causar traumas na mucosa e quando mal higienizados, podem induzir o surgimento de candidíase. 3.5 Alterações dentoalveolares e esqueléticas Hemley (1938) parafraseou as palavras de Macewen, uma notável autoridade em crescimento ósseo: “A existência de cartilagem nas epífises de cada extremidade dos ossos longos é evidência do crescimento ósseo contínuo na região. Uma das condições necessárias para uma efetiva proliferação osteoblástica é a ausência de pressão.” Com isso, o autor relatou que na cavidade oral ocorre uma área de baixa resistência criada pelas placas oclusais mantendo os dentes posteriores livres de oclusão causando efeito de crescimento no osso alveolar. Os dentes, privados dos antagonistas, buscam por contato oclusal e as estruturas alveolares acompanham. Qualquer condição que cause um distúrbio na quantidade de pressão que deve permanecer durante a erupção dos molares e pré-molares permanente irá afetar a quantidade de crescimento do osso alveolar nessa região. Se houver pressão excessiva, haverá uma falta de crescimento alveolar na região posterior, podendo ser resultados de uma hipertonicidade muscular ou pelo fato das células ósseas serem incapazes de resistir à pressão normal. O uso da placa de mordida alivia a pressão muscular anormal permitindo o crescimento alveolar. 40 Segundo Schudy (1968), é importante direcionar o tratamento para uma estimulação da erupção dos molares inferiores e superiores e inibição da extrusão dos incisivos, para melhores resultados em casos de mordida profunda. A intrusão dos incisivos inferiores pode causar recidiva da sobremordida. Forsberg e Hellsing (1984) ao estudar o efeito de um aparelho que causava desoclusão posterior, observaram que a maxila apresentou uma rotação anterior e a mandíbula uma rotação posterior. O desenvolvimento vertical do terço superior da face foi inibido enquanto que houve um aumento na altura do terço inferior da face. Os incisivos inferiores mostraram pouca alteração enquanto que os molares inferiores apresentaram significante erupção. O tratamento possui um efeito favorável nos sintomas de distúrbios funcionais existentes. Para Vig e Vig (1986), os planos de mordida produzem alterações basal e dento-alveolar agindo através da erupção dentária. O desimpedimento da erupção dos dentes posteriores pode também resultar em uma rotação posterior mandibular, tendendo a um aumento da altura facial inferior e diminuição do prognatismo mandibular. Moore et al. (1989), ao induzir desoclusão mandibular de 1mm, observaram aumento no ângulo do plano mandibular com pouco ou nenhum crescimento mandibular horizontal associado à extrusão dos molares e um aumento na altura do terço inferior da face. Methenitou et al. (1990) utilizaram um aparelho ortopédico funcional com encaixes pré-ajustados para os dentes permanentes com a finalidade de guiar a erupção dos incisivos permanentes através dos encaixes. Após comparação estatística do grupo controle com pacientes tratados, mostraram que a redução do overjet e overbite foi alcançada exclusivamente por modificação do problema 41 dentário sem afetar o padrão de crescimento facial normal, sendo que a mordida profunda foi corrigida por restrição da erupção excessiva dos incisivos superiores com o uso noturno dos aparelhos. Hellsing (1990) em seu estudo realizou um levantamento da oclusão com um aparelho e observou um efeito de desenvolvimento vertical nos segmentos laterais dentais, em particular na mandíbula. O padrão esquelético foi alterado para uma rotação posterior da mandíbula, rotação anterior da maxila e aumento da altura facial inferior. O desenvolvimento vertical da altura da face superior foi retardado. Hans et al. (1994) compararam alterações cefalométricas verticais de 45 pacientes utilizando aparelho extra-bucal com apoio cervical, 50 pacientes utilizando Bionator e 95 pacientes do grupo controle. Ambos os aparelhos produziram alterações dentárias e esqueléticas similares, sendo que o extra-bucal maximizou a intrusão dos incisivos superiores e o bionator inibiu a erupção normal dos incisivos. Hellsing et al. (1996) verificaram se a abertura de mordida com um plano anterior causava alteração na posição condilar e/ou remodelamento de tecidos duros adjacentes. Os autores encontraram uma grande variação na direção de movimento da cabeça da mandíbula, não somente entre pacientes, mas também entre lado direito e esquerdo do mesmo paciente e um achado significante foi que o movimento nunca ocorreu na direção ântero-superior. Nelson et al. (1999) realizaram o tratamento de maloclusão Classe II, Divisão 1 com aparelhos fixos através da técnica de Begg. Verticalmente, os efeitos dentários e esqueléticos obtidos foram aumento no ângulo do plano mandibular e na altura do terço inferior da face. Janson et al. (2000) avaliaram cefalometricamente os possíveis efeitos do Eruption Guidance Appliance (EGA) (ORTHO- TAIN, Inc, Bayamon Gardens, PR) no 42 complexo crânio-facial em 30 pacientes portadores de maloclusão Classe II, Divisão 1. Após 26 meses de tratamento, os resultados apresentaram significante aumento na altura inferior e total da face, retrusão e palatinização dos incisivos superiores assim como uma diminuição no overjet e overbite e inibição de desenvolvimento vertical dos incisivos superiores. Concluíram que os efeitos do EGA foram na maior parte dentoalveolares, mas com significante efeito esqueletal. A mudança da posição sagital e vertical mandibular gera modificações nas forças musculares resultando em alterações ortopédicas e ortodônticas. Janson et al. (2003) avaliaram os efeitos de um aparelho regulador funcional de Fränkel (Fr-2) nos componentes dentoesqueletais e observaram desenvolvimento vertical dos molares inferiores, redução do overjet e overbite e retrusão e inclinação palatina dos incisivos superiores. Entretanto, o aparelho não induziu nenhuma alteração no desenvolvimento maxilar e no padrão de crescimento dos indivíduos. Cortese (2004) relatou que o uso de aparelhos Bite Turbo em pacientes em crescimento resultou em extrusão de molares e em aumento estatisticamente significante das medidas verticais lineares e angulares. Cozza et al. (2004), em um estudo utilizando um aparelho ativador para reposicionar a mandíbula em uma situação de topo a topo, observaram um posicionamento anterior das estruturas mandibulares, melhorando as relações maxilo-mandibulares e de tecidos moles faciais devido a um remodelamento no complexo côndilo-fossa glenóide. As alterações dentoalveolares ocorridas foram intrusão dos incisivos superiores e inferiores devido ao recobrimento de acrílico melhorando a sobremordida e mudanças na região de molares. O tratamento com o 43 ativador se mostrou eficaz em aumentar o desenvolvimento vertical mandibular devido a uma rotação posterior da mandíbula. No estudo de Arat (2005), o desenvolvimento vertical do osso alveolar apresentou diferenças de acordo com o período de crescimento puberal, importante para o estabelecimento de relações normais de oclusão e padrão facial, devendo ser sempre considerado no tratamento e na estabilidade do tratamento de discrepâncias faciais verticais. Vanlaecken et al. (2006) investigaram as alterações dentárias e esqueléticas utilizando aparelho Herbst de Edgewise. Os incisivos inferiores apresentaram intrusão de 1,6 mm em média e o overbite melhorou 2,4 mm em média, comparado ao grupo controle. Ocorreu intrusão dos molares superiores e extrusão dos molares inferiores, sendo que no sexo feminino os molares inferiores erupcionaram 1,2 mm e no sexo masculino, 0,7 mm. Emami et al. (2007) utilizaram um plano inclinado anterior para avaliar as mudanças dentoesqueletais. Esse método se mostrou eficaz em redirecionar o crescimento mandibular anterior e vertical, impedindo a extrusão dos incisivos superiores e inferiores e proporcionando uma grande extrusão dos molares inferiores ajudando na abertura da mordida. As análises estatísticas não mostraram alterações significantes nos parâmetros verticais esqueléticos. Thurman et al. (2011) testaram a hipótese de que existem significantes diferenças esqueletais e/ou dentais entre pacientes tratados com aparelho extra-oral comparados a pacientes tratados com aparelho extra-oral combinado a uma placa oclusal maxilar removível. Examinaram radiografias pré e pós tratamento e encontraram maior diminuição do overbite e da inclinação dos incisivos superiores nos pacientes tratados com o aparelho associado ao plano de mordida. Todas as 44 outras alterações verticais e ântero-posteriores não foram estatisticamente significantes entre os dois grupos. Vanetti (2011) concluiu em seu estudo que os dispositivos fixos de levantamento temporário da mordida auxiliam na terapêutica ortodôntica, promovendo rotação anti-horária da mandíbula em pacientes com retrusão mandibular e retroinclinação de incisivos superiores. 45 4. DISCUSSÃO Parker et al. (1995) não encontraram diferenças estatisticamente significantes entre os 6 mecanismos de correção da sobremordida. Esses resultados surpreendem vários autores (SCHUDY, 1968; BURSTONE, 1997) que indicaram preferências no mecanismo de tratamento como intrusão de incisivos ou extrusão de molares. Existe na literatura uma controvérsia considerável sobre o tratamento de mordida profunda, especialmente quando o paciente apresenta um padrão facial horizontal. Schudy (1968) apresentou que em quase todos os casos, a extrusão de molares e pré-molares para rotacionar a mandíbula é o seu tratamento de escolha, enquanto que Ricketts (1979) possui preferência em intrusão de incisivos, particularmente os inferiores. De acordo com Nanda (1997), a extrusão de dentes posteriores deve ser usada cuidadosamente e unicamente em casos de maloclusão Classe II divisão 2 e altura inferior da face diminuída. O autor relata que esta é provavelmente a técnica mais comum e mais fácil, embora não sempre a mais indicada para correção da sobremordida. De acordo com o autor, para a maioria dos pacientes com mordida profunda, a intrusão dos incisivos é a melhor maneira para a correção tanto em adultos, como em crianças. Collett e West (1993) contra indicam a extrusão posterior em casos de pacientes com altura facial aumentada, uma vez que resulta em aumento do terço inferior da face, da convexidade do terço médio e espaço interlabial. Resultados clínicos sugerem que a abertura da mordida ocasionada pela oclusão dos incisivos inferiores nos batentes maxilares anteriores aumenta a altura facial inferior através de extrusão dos dentes posteriores (ALEXANDER et al., 1982; GORMAN et al., 1983, CORTESE, 2004). Essa extrusão dos molares pode gerar 46 rotação posterior da mandíbula (ALEXANDER et al., 1982; GORMAN et al., 1983; COLLETT E WEST, 1993) em pacientes com retrusão mandibular e ocorre devido a retroinclinação de incisivos superiores (VANETTI, 2011). Segundo Alexander et al. (1982), o contato dos incisivos inferiores nos dispositivos linguais superiores pode causar intrusão de incisivos superiores e inferiores. O desenvolvimento vertical do osso alveolar apresentou diferenças de acordo com o período de crescimento puberal, importante para o estabelecimento da oclusão e padrão facial (ARAT, 2005). De acordo com Singh et al. (2010) e Marsan (2007), o melhor momento para terapia miofuncional de pacientes com maloclusão Classe II foi durante ou logo após o surto puberal, na maioria dos casos com o término da dentição decídua. Ruf e Pancherz (1998 e 1999) relatam que a estimulação do crescimento condilar e remodelamento da cavidade glenóide ocorrem de maneira similar, tanto em crianças e adolescentes quanto em pacientes adultos. Uma vez que o crescimento tende a aumentar a distância vertical entre mandíbula e maxila, o tratamento de mordida profunda em pacientes com padrão facial horizontal é mais indicado durante o período de crescimento mandibular, sendo que esses casos apresentam grande probabilidade de recidiva (ENGLE et al., 1980). Placas removíveis que causam a desoclusão posterior são muito utilizadas para casos de mordida profunda (MOORE et al., 1989; METHENITOU et al., 1990; COZZA et al.,2004; EMAMI et al.,2007). Cozza et al. (2004) utilizaram um aparelho ativador de duplo recobrimento oclusal posicionando a mandíbula anteriormente em topo a topo de maneira que os 47 molares inferiores foram induzidos a erupcionar pelo desgaste do acrílico na região oclusal e lingual. Proporcionando liberdade nos movimentos mandibulares, Emami et al. (2007) utilizaram um aparelho intermaxilar removível similar aos aparelhos ortopédicos funcionais. Moore et al. (1989) avaliaram os efeitos clínicos de uma placa de mordida maxilar de Hawley com um degrau incisal para ocluir nos incisivos inferiores e desocluir a mandíbula. Methenitou et al. (1990) controlaram a erupção excessiva dos incisivos durante a troca dos decíduos através de um aparelho noturno chamado Nite-Guide da Occlus-o-Guide. Bergersen (1984, 1985) desenvolveu um aparelho pré-fabricado em acrílico chamado de Eruption Guidance Appliance, com características de um aparelho funcional permitindo o desenvolvimento vertical posterior. Outras opções de aparelhos removíveis encontradas na literatura são: aparelho regulador funcional (JANSON et al., 2003 e SINGH et al., 2010); Twin-block e Regulador Funcional de Fränkel (FR-2) (Toth e McNamara, 1999), Jasper Jumper (WEILAND et al.,1997), Jumping-the-bite (STEC-SLONICZ et al., 2008). Alguns autores dão preferência ao uso de dispositivos fixos para a abertura da mordida. Carano et al. (2001) utilizaram bráquetes linguais colados na face palatina dos incisivos superiores que serviam como planos de mordida fixos. Jackson e Sandler (1996) sugeriram a utilização de cimento de ionômero de vidro para a confecção dos dispositivos de desoclusão posterior, afirmando que possui custo baixo e o tempo de confecção curto. Philippe (1996) relatou uma técnica de confecção de planos de mordida fixos utilizando cimento adesivo Transbond (3M Unitek) na superfície palatina dos incisivos superiores. Silva Filho et al. (2010) detalharam um protocolo para correção da sobremordida aliando a técnica do arco 48 contínuo e acessórios colados na superfície palatina dos incisivos centrais superiores chamados de “Stop e guia” (Morelli) provocando um levantamento da mordida. Forsberg e Hellsing (1984), Hellsing (1990), Hellsing e Hellsing (1995) e Hellsing et al. (1996) estudaram o efeito de um aparelho com arco lingual e uma placa anterior de acrílico em contato com a mucosa palatina, fixo nos primeiros molares superiores através de bandas ortodônticas soldadas a um arco lingual. Ao proporcionar a desoclusão posterior, Forsberg e Hellsing (1984) observaram que a maxila apresentou uma rotação anterior e a mandíbula uma rotação posterior, não observando alterações no desenvolvimento vertical do terço superior da face, enquanto que houve um aumento na altura facial inferior com significante erupção de molares inferiores. Hellsing (1990) observou um efeito de desenvolvimento vertical nos segmentos laterais dentais da mandíbula, rotação anterior da maxila, aumento da altura facial inferior e rotação posterior da mandíbula, enquanto que o desenvolvimento vertical superior da face foi retardado. Hellsing et al (1996) encontraram uma grande variação na direção de movimento da cabeça da mandíbula. Janson e Pithon (2008) apresentaram uma alternativa de batente fixo com confecção pelo próprio profissional ou auxiliares, chamado JANPI, em resina acrílica autopolimerizável transparente, não necessitando da colaboração do paciente e apresentando fácil confecção e instalação. As alterações dentoalveolares ocorridas foram intrusão dos incisivos superiores e inferiores, aumentando o desenvolvimento vertical mandibular devido a uma rotação posterior da mandíbula. Moore et al. (1989) observaram um aumento na altura facial inferior ocorrido através de um aumento no ângulo do plano mandibular e extrusão 49 posterior. Emami et al. (2007) preveniram a extrusão dos incisivos superiores e inferiores e induziu extrusão dos molares inferiores, redirecionando o crescimento mandibular anteriormente e verticalmente, parâmetros verticais esqueléticos. Para Janson et al. (2003), o aparelho não induziu nenhuma alteração no desenvolvimento maxilar e no padrão de crescimento dos indivíduos. Entretanto, observaram desenvolvimento vertical dos molares inferiores, redução do overjet e overbite e retrusão e inclinação palatina dos incisivos superiores. Thurman et al. (2011) avaliaram pacientes tratados com aparelho extra-oral combinado a uma placa oclusal maxilar removível e encontraram redução da sobremordida e desinclinação dos incisivos superiores. Em um estudo, Methenitou et al. (1990) mostraram que a sobremordida foi corrigida por restrição da erupção excessiva dos incisivos superiores, portanto a redução do overjet e overbite foi alcançada exclusivamente por modificação do problema dentário sem afetar o padrão de crescimento facial normal. Vanetti (2011) constatou que os dispositivos fixos de levantamento temporário da mordida promovem rotação anti-horária da mandíbula em pacientes com retrusão mandibular e retroinclinação de incisivos superiores. 50 5 CONCLUSÃO A sobremordida exagerada é um tipo de má oclusão que apresenta etiologia multifatorial e necessita de um diagnóstico diferencial elaborado e específico. As principais estratégias de tratamento são: extrusão dos dentes posteriores, a intrusão dos dentes anteriores ou a combinação dessas. Dois aspectos devem ser avaliados durante o diagnóstico: o nível de exposição gengival durante a fala e o sorriso, e a relação do lábio superior com os incisivos superiores. O padrão facial também deve ser avaliado, por exemplo, num paciente com padrão vertical de crescimento é contra indicado a extrusão dos dentes posteriores para corrigir a mordida profunda. Quando for indicado a extrusão dos dentes posteriores, é possível obter alterações dentoalveolares e esqueletais, abertura da mordida, rotação posterior da mandíbula e aumento da altura facial inferior. 51 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALEXANDER, C. M.; ALEXANDER, R. G. GORMAN JC. Lingual orthodontics: a status report. J ClinOrthod, v. 16, p. 255-62, 1982. ALMEIDA, M. R. et al. O uso da sobrecarga na correção da mordida profunda. Revista Clínica Ortodontica Dental Press. V.3, n.1, p. 14-30, fev./mar., 2004. BACCETTI, T.; FRANCHI, L.; MCNAMARA, J.A. JR. Longitudinal growth changes in subjects with deepbite. Am J OrthodDentofacialOrthop, v.140, n.2, p.202-9, aug 2011. BECKMANN, S. H. et al. Alveolar and skeletal dimensions associated with overbite. 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