“NENHUM BICHO BARBADO SE ATREVEU A MANTER A DISCIPLINA”:
debate sobre a indicação de Esther Pedreira de Mello para a direção da
Escola Normal do Distrito Federal
(1920- 1923)
Heloisa Helena Meirelles dos Santos
UERJ
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A Escola Normal na berlinda1
A imprensa cotidiana da cidade do Rio de Janeiro clamava por um diretor que
moralizasse a Escola Normal do Distrito Federal, o que acreditavam que o professor
Ignácio Azevedo do Amaral não fazia, e a Prefeitura nomeia, então, a “tão conhecida e
não menos ilustre pedagoga Esther Pedreira de Mello para Directora da Escola Normal” 2
(Jornal das Moças3, 20//04/1920, ano VIII, nº 254, p.1).
Merece todos os aplausos o acto do prefeito hontem nomeando D.
Esther Pedreira de Mello para dirigir a Escola Normal. Quando hontem
mesmo profligamos os fatos que determinaram o pedido de demissão do
dr. Ignacio Amaral, indicámos o nome da brilhante pedagoga como o
único capaz, dadas as circumstancias da occorrencia, de substituir, em
benefício da instrucção pública e da moralidade administrativa o diretor
demissionário. Felizmente o Sr. Sá Freire soube corrigir com uma
solução acertada o desastre do incidente, que ia atingindo de morte
aquelle instituto. Severos ao julgar o escândalo que feriu fundo a
disciplina d Escola Normal e as condições de sua eficiência, sentimonos bem agora, aplaudindo o acerto da nomeação. D. Esther Pedreira de
Mello tem, ao serviço do ensino municipal, uma tradição incontestável
de competência, energia e elevação moral, o que basta para garantir o
êxito de seus novos encargos. Educada no estabelecimento cuja direção
acaba de assumir e tendo granjeado, no magistério, um prestigio de rara
evidencia pelas suas extraordinárias qualidades de educadora, ella está
por assim dizer, em família nas funcções que lhe foram tão justamente
confiadas. É de esperar que não se criem embaraços de nenhuma ordem
à sua acção. Esta será, com certeza, útil, proveitosa e dos mais
assignalados benefícios. (Correio da Manhã4, 17/04/1920, p.3)
Por que Esther Pedreira de Mello era a “única capaz de substituir em benefício da
instrução pública e da moralidade administrativa, o diretor demissionário”, como publica,
em texto laudatório o jornal Correio da Manhã?
Em 1920 as representações sobre a mulher estavam sendo modificadas pelo fim
da primeira guerra mundial que “reorganizou”, modificou e resignificou o mundo, tal
como era conhecido. Mas a moralidade era, ainda, inerente à mulher 5. Ela era, ainda, na
representação da sociedade carioca, aquele indivíduo capaz de educar e imprimir valores
considerados dignos a quem educava. Elias (1990) explica este movimento lento do
tecido social face à uma representação, reafirmando sua existência, face às condutas e os
códigos delas advindos que se operam pausadamente porque a assimilação deles pela
sociedade não é imediata (p.94).
Naquele momento, por conta de novas representações sociais que surgiam no pósguerra, era visível o confronto de paradigmas, as estratégias de dominação de um grupo
por outro e os discursos contraditórios que apareciam nos jornais, especialmente quanto à
mulher. Ao encontrar e selecionar os textos dos jornais como fonte tive primeiro que
entendê-los como “bens simbólicos” impregnados de “usos e significações diferenciadas”
(CHARTIER, 1991, p. 172). Assim, a escrita de cada matéria apresentava, nas
entrelinhas, a legitimação do domínio da representação de gênero, sua desqualificação ou
sua fragilização, tomada por hegemonia. Essa escritura era traduzida na linha política do
jornal, na representação que desejava ajudar a construir/desqualificar e, no lucro material
ou simbólico a ser auferido com a circulação do periódico.
Se, por um lado o ideário republicano propiciava às mulheres uma certa
abertura – pela valorização que o ideário positivista conferiu ao gênero
feminino e pelas possibilidades de autonomia individual introduzidas
pelo pensamento liberal – a posição conservadora agia como freio a
essas pretensões com base, sobretudo, nas concepções católicas e na
atuação dos imigrantes ligados a esta confissão. (TINDADE, 2005,
p.489).
O que podia parecer interesse oposicionista governamental; ou lucro maior da
venda maciça de exemplares; ou defesa/infâmia de pessoas específicas, governos ou
instituições, são tomados como intuito de instituir ou consolidar um bem simbólico
(BOURDIEU, 2007), e dentre outras reproduções sociais, uma nova representação de
gênero6 de modo a modernizar, ainda sobre uma ótica civilizatória, a cidade e o país.
Creio ser este o caso do Correio da Manhã. Relevante notar, no entanto, que a
matéria deste jornal cita haver indicado o nome de Esther Pedreira de Mello para ocupar
o posto de diretora da Escola Normal. Teria a imprensa, e este jornal especificamente,
este poder de “indicar”?
Diz Ruy Castro (2009) que o Correio da Manhã7 era um jornal independente,
fundado em 1901, por Edmundo e Paulo Bittencourt, que “fez oposição a quase todos os
presidentes, desde Artur Bernardes” e, na República Velha “demitia ministros com um
editorial”. Assim, é possível que a indicação tenha de fato ocorrido.
Chartier (1995), ao estudar a tensão do movimento de alteridade masculino versus
feminino se interroga quais são os critérios de ligação da oposição entre feminino e
masculino na escrita, e expõe as características indicativas de um gênero e outro. Neste
momento de transição brasileiro, onde o que é visível esconde sombras de teor
latifundiário e escravista, numa sociedade republicana, urbana e pós-abolicionista que se
industrializava, o tema gênero oscilava, na imprensa, entre o que se queria e o que se
deveria dizer sobre o sexo feminino. Ainda que os postulados, assim como o discurso da
imprensa, fossem aparentemente liberais, o cotidiano e a escrita deixavam demarcado o
autoritarismo, o que incluia o apadrinhamento, através de lutas simbólicas entre as
representações: a que se impunha e a que se queria ultrapassar. É possível pensar, então,
que Esther tenha sido indicada pelo jornal, para servir a uma “prática que se adaptava à
estruturas e, portanto [a professora] tinha condições de reproduzir estas mesmas
estruturas” (BOURDIEU, 2007, p.296);
Desde o final do século XIX a mulher ocupava fábricas, aprendia novas
profissões, lançava-se ao trabalho fora de seu ambiente doméstico. A mulher, embora
aparentemente “fora do lar”, continuava com os encargos, a tutela e a subserviência de
antes. A imprensa, preocupada em vender jornais e ocupar, com seu produto, material e
simbólico, este nicho mercantil feminino, buscava atendê-lo pela publicidade, por revistas
femininas, em espaços específicos das folhas noticiosas e por novas tiragens e
reportagens urbanas que visavam às mulheres. Até os jornais femininos eram, em grande
parte, escritos por homens ou dele tinham a editoria, o que permitia, de certo modo, o
coercimento de novas representações sociais.
Só pude conhecer o que levara o Diretor da Instrução Pública a exonerar o diretor
da Escola Normal do Distrito Federal, e o Prefeito Pereira Passos a ocupar este cargo com
a inspetora-escolar Esther Pedreira de Mello, primeira mulher nesta função de inspeção e
primeira, do sexo feminino, a dirigir uma escola pública de formação de professores na
capital federal, através dos indícios desta “luta de classificação” da representação de
gênero (CHARTIER, 1990), nos discursos dos jornais diários da cidade do Rio de
Janeiro, constantes do acervo da Biblioteca Nacional 8.
Não havia, por parte da imprensa local, à época, nenhuma informação que
levasse o leitor a questionar a razão de tantos problemas na Escola Normal após a saída
da Praça da Aclamação para a Rua São Cristóvão, no Estácio, mas embora a mudança
fosse aparentemente a causa das dificuldades, o discurso era individual, sempre injurioso
e buscava, nas informações trazidas
à público que o leitor fosse saciado na sua
curiosidade diariamente, em pequenos capítulos.
Desde sua criação a Escola Normal era tida, pela população do Rio de Janeiro,
como uma instituição séria, cuidadosa com a moral e os “bons costumes”, em uma
postura apropriada, segundo a sociedade carioca, a quem vai “formar” professores. Era
esta a representação que se fazia da instituição pautada nas características do feminino e
do masculino, usando para isso o fato de um sexo ser, supostamente, emocional e passivo
e outro sexo ser, supostamente, ativo e racional (RAGO, 1998, p.98).
Os periódicos, desde os primeiros dias de janeiro de 1920, vinham denunciando
irregulares na Escola Normal de toda ordem, rendendo várias e ininterruptas notícias
diárias, mas não havia, ainda, um fato relevante que alteração a situação institucional de
qualquer modo possível, pela Instrução Pública. Os jornais colocavam em notas
pequenas, na primeira, segunda ou terceira página, em destaque, em crônicas e pequenos
artigos, as novidades da Educação face à civilização que se pretendia, dentre essas, as
relacionadas com a Escola Normal, até porque os professores do educandário eram
também os jornalistas, que emitiam opiniões em diferentes seções destes tabloides.
Entender o que significava “ser civilizado” [...] implica atentar para o
jogo de forças que preside as significações inscritas nessa construção.
Desvelá-las passa pela leitura do gênero de sua própria produção, como
também de outras dimensões que lhe são constitutivas, de forma a
permitir perceber como aquela leitura opera no estabelecimento das
desigualdades entre os sexos ao imprimir diferentes “significados para
as diferenças corporais” (SCOTT, 1994, p.13)
A imprensa reclamava dos exames “que eram verdadeiras bombas”(Gazeta de
Notícias, 3/1/1920,p.3), de “diplomas falsos das candidatas” (Correio da Manhã,
13/1/1920, p.2), de uma amanuense “que era o árbitro soberano dentro da Escola”
(Gazeta de Notícias, 18/1/1920, p.1), que “alunos sem média conseguiam fazer as
provas” (Correio da Manhã, 18/1/1920, p.3), que houve uma grave e séria discussão,
“quase chegando às vias de fato”, entre um pai de aluna e um professor, depois que “a
alumna desacatara uma banca de professores[...]”: ”[...]uma scena![...]”(A Noite,
8/4/1920,p.2). Até que O Imparcial, de 16/4/1920 noticia que “era pensamento do Sr,
prefeito convidar para ocupar o cargo [de diretora] D. Esther Pedreira de Mello,
inspectora-escolar” (p.3). Havia notícia para os jornais. Havia público para ler. Havia
construções de códigos e símbolos a serem aprendidos e partilhas culturais a serem
determinadas, considerando que “não há prática ou estrutura que não seja produzida pelas
representações, contraditórias e em confronto, pelas quais os indivíduos e os grupos dão
sentido ao mundo” (CHARTIER, 1991, p.177)
A Escola Normal não tem mais um director: tem uma directora9
Notas e Notícias
A Escola Normal não tem mais um diretor: tem uma diretora, que é a
sra. D. Esther Pedreira de Mello. Poderá essa professora normalizar um
estabelecimento que só tem de normal o nome? Não, ninguém acredita
que o consiga. Por melhores que sejam suas qualidades para o exercício
do cargo e por mais acentuados os propósitos de bem servil-o, é
humanamente impossível à distincta preceptora vencer a anarchia ali
implantada e que promete subir ao auge com ostensivo e escandaloso
inccentivo do próprio diretor da Instrucção. Constrange confessal-o,
mas a verdade é que a Escola Normal marcha para o completo
desconceito. E o que é mais triste é que o mal vem do alto [...] Em taes
circumstancias, não nos parece que haja motivos para dar os parabéns à
Sra. D. Esther (Gazeta de Notícias10, 17 de abril de 1920, primeira
página)
Chegava a nova diretora, ex-aluna e ex-professora da Escola Normal. Uma mulher
solteira de 40 anos, uma “solteirona” como se dizia. Circunspecta, autoritária, enérgica.
Estava ali para “moralizar a instituição”, conforme o jornal Correio da Manhã. Mas a
explicação deste jornal seria suficiente? A Gazeta de Notícias, jornal conservador, de
oposição ao Prefeito, não parabenizava a nova diretora esclarecendo que, “de normal a
Escola só tinha o nome”. Possivelmente o periódico acreditava que, face ao
“desconceito” institucional, só um homem teria o “saber” para resolver o problema.
Tomando este saber como um conhecimento de gênero, é possível imaginar que “o saber
é que estabelece [ria] significados para as diferenças corporais” (SCOTT, 1994, p.13) que
o jornal citava na matéria.
Não acredito que a notícia de uma mulher a dirigir a Escola Normal tenha sido
bem recebida pela Congregação. Ainda que a mulher tivesse sido ex-aluna da instituição,
e da maioria dos professores que a compunham. A Congregação era conservadora, era
praticamente autônoma para decidir sobre o educandário e neste caso, não decidiu. Era
composta de intelectuais que se reuniam para debater e discutir sobre vários assuntos
(SANTOS, 2011). Aceitariam ser presididos por uma mulher? Aceitariam ser presididos
por D. Esther Pedreira de Mello que, ainda normalista, fora alçada pelo Prefeito
Rodrigues Alves à professora de Pedagogia, ocupando lugar nas sessões e dando opiniões
nos assuntos discutidos na Congregação?
Em 6 de maio o Jornal das Moças publicou uma página inteira sob o título
“Chronica”, onde se posiciona contra a prepotência de Esther junto aos normalistas, uma
contradição, pois que havia saudado a entrada dela como “dois outros triunphos
femininos fizeram-se notáveis no magistério publico, a nomeação da tão conhecida e não
menos illustre pedagoga Esther Pedreira de Mello para diretora da Escola Normal e da
Dra. Myrthes de Campos, uma das glórias do magistério publico, para inspectoraescolar[...]”(29/4/1920,p.1). O jornal reclamava das medidas tomadas: de que as
normalistas não podiam frequentar os estabelecimentos da região, somente podiam sair
da Escola Normal duas a duas, não podiam dirigir-se aos professores sem a presença de
uma inspetora, etc. Medidas que os jornais clamavam, denominando-as de “moralização”.
O Jornal das Moças usou, em sua crítica, de modo satírico, o poema “As Pombas”, de
Raimundo Corrêa11, conhecido e muito lido nas revistas femininas:
“Vae-se a primeira pomba despertada.”
E com o despertar da pomba a primeira normalista que pressurosa se
ergue, para o apresto de vestuário e para a partida e demanda da Escola
Normal.
“Vae-se outra mais... mais outra... enfim, dezenas
De pombas vão-se dos pombaes, apenas
Raia, sanguínea e fresca a madrugada.”
Tal qual as normalistas que, como um passaredo em revoada,
barulhento, a volitar, despertam ao romper d’alva, ao dealbar do dia
para receber ensinamentos na escola Normal e submeter-se ao jugo
prepotente da onisciente D. Esther Pedreira de Mello. Porém, se as
pombas vão-se quando raia a madrugada sanguínea e fresca, vão as
normalistas, ainda que quente e chuvoso tenha sido o dilúculo. É que
sobre ellas pesa o ameaçador livro de chamadas e a vigilância cerberea
das inspectoras ferrenhas, apegadas a teorias insultas.[...](p.1)
Importante ressaltar que O Jornal das Moças, publicado no Rio de Janeiro, a
partir de 1914, fundado por Agostinho Menezes e editado pela Editora Jornal das Moças
Ltda., (SANTOS, 2008) se enquadrava no aproveitamento do nicho comercial feminino
pela imprensa. Apesar do nome sugestivo, alusivo ao sexo feminino, era redigido por
homens. Deste modo suas posições se mostram ambíguas e contraditórias: ora saúdam
uma mulher a dirigir a Escola Normal, ora reclamam satiricamente das atitudes desta
mulher no exercício daquele cargo porque as diferenças entre os sexos são aspectos
primeiros da organização social e estabelecem diferenças fundamentalmente culturais que
impedem, de certo modo, que um gênero fale pelo outro imparcialmente (KOFES, 1992).
As memórias de Paschoal Lemme (2004), que trazem de volta o aluno normalista
de 1920, fornecem indícios, de como Esther foi recebida na Escola Normal:
Assim foi a revolta, principalmente dos rapazes, contra a nomeação de
Ester Pedreira de Melo para diretora da escola, a primeira mulher a
ascender a essa posição, apesar de ser professora de renome e também
uma das primeiras a ocupar o cargo de inspetora escolar. (p.120)
Os alunos normalistas rapazes eram poucos, segundo o próprio memorialista, mas
eram 2.950 normalistas, de ambos os sexos12, matriculados em 1919. Embora poucos, os
rapazes reclamavam, e a imprensa que estava atenta à Escola Normal, usou o sexo da
diretora para designá-la intrigante e conflituosa, omitindo as palavras, talvez por conta do
novo Código de 1916, que faria o jornal enfrentar um processo:
Em tempos passados o Instituto de Música tinha o paradoxal privilegio
de ser a casa... das desarmonias. Por um nada fervia, dentro do
estabelecimento, um “imbróglio” de todos os diabos: director contra
professores, alunos contra diretor. E ninguém se entendia. Agora o
Instituto vai sendo desbancado, vantajosamente, pela Escola Normal, o
que mostra que o ensino nesta capital anda em maré de má sorte.
Effectivamente, em poucos dias, a Escola tem sido agitada por uma
série de conflitos e intrigas que fariam inveja a qualquer hospedaria de
má nota. E quando se pensava que, entregue o estabelecimento a uma
direção feminina, as virtudes peculiares ao sexo – a bondade a ternura –
iam ali dominar surge um novo desaguisado. É a própria diretora que
arma o charivari com suas medidas de extrema severidade e com os
actos de seu antecessor. Não damos parabéns a D. Esther, por sua estréa
barulhenta.(Gazeta de Notícias, 10/05/1920, primeira página)
Em 8 de maio A Noite, sob o título de “A Escola Normal em fóco, um protesto
oportuno”, publica carta do antigo Diretor, Ignácio Amaral, contra Esther Pedreira de
Mello. O missivista usa o sexo de sua opositora, no sentido de, através dele, insultá-la:
“Uma tal agressão, partida de um homem seria por todos os modos condenável[...]
emanada de uma mulher [...] assume proporções [...] que me abstenho de qualificar
[...]”(p.2).
O antigo diretor, provavelmente aborrecido e até mesmo humilhado por haver
sido exonerado, fez acusações contra a nova direção, numa atitude de oposição. Mas
todas as medidas por ele citadas na longa carta, tinham causado diversas matérias nos
jornais. A moralidade estava abalada, não tanto pelas atitudes, ou falta delas, do diretor
da Escola Normal. O espaço geográfico agora ocupado pela instituição diferia
culturalmente do outro e por esta razão não era compreendido, era tido por ameaçador à
moralidade, daí provavelmente a proibição de as normalistas frequentarem os
estabelecimentos comerciais do entorno; também pelo grande número de alunos
matriculados no educandário, rapazes e moças, que conviviam juntos, boa parte do dia, o
que dificultava a disciplina imposta pelos inspetores; o local, vizinho às casas de
meretrício poderia, acreditavam, também, influenciar a aprendizagem dos jovens
normalistas, que iniciavam sua sexualidade, e efetivamente o fazia. Todos estes
“inconvenientes morais” conviviam com a cultura escolar formal, desafiando regras
morais do educandário de formação até então consideradas inatacáveis.
Caulfield (1996), ao discutir as relações de gênero nos anos 1920, mostra que,
pelo Código Criminal de 1918, que reflete a sociedade onde foi construído, houve
manutenção de alguns valores “morais” e declínio de outros, face à vida moderna da
mulher, o que incluía o trabalho fora do lar, denotando a transição social entre uma
representação de gênero antiga e outra nova que desejava instalar-se:
Diante de mulheres que assumiam novas identidades na década de
1920, os juristas reinterpretaram os conceitos de honestidade e
virgindade, de maneira que podiam incluir ou excluir a mulher moderna'
dependendo da posição do juiz e das circunstâncias de cada caso.
Alguns juristas lamentaram o declínio da família e dos valores
tradicionais e categoricamente declaravam que a mulher moderna
carecia de virtude. Outros — incluindo conservadores que deploravam
o efeito da modernidade nos papéis de gênero e uma minoria de
progressistas que o aplaudiam — achavam que as mulheres modernas,
não mais recolhidas em casa, tinham sabedoria suficiente para
resguardar sua própria virgindade. (p,169)
Paschoal Leme (2004) relembra os anos de 1920 na Escola Normal e primeiros
anos de iniciação sexual dele e de seus colegas do sexo masculino, normalistas, que
reflete o porquê da “moralização”:
Era o período da complementação da iniciação sexual, da "descoberta
da mulher" e, naturalmente, esse problema constituía uma das
preocupações marcantes entre nós. Acrescia que aquele contato com
mais de dois milhares de jovens de outro sexo, de todas as procedências
e tipos de educação, com a familiaridade e a proximidade física que se
estabelecia diariamente, nas salas de aula, nos próprios bancos
escolares, nos recreios, exacerbava ainda mais as manifestações dessa
natureza; criava um ambiente da atividade ruidosa e descuidada de
namoros, amores, paixões intensas, intrigas amorosas, brigas, ciumadas
e reconciliações, trocas de juras através de versos e encontros reais
[...]Éramos levados em passagens furtivas por aquelas ruas, onde
apreciávamos eletrizados a nudez daquelas mulheres, as chamadas
"francesas", mas na realidade "polacas", com seus enormes seios e
coxas à mostra, a nos fazer sinais amistosos e que nos atendiam, quase
maternalmente [...](p.121)
Em 9 de maio, no mesmo jornal, A Noite, com o mesmo título “Escola Normal em
fóco”, Esther Pedreira de Mello respondeu ao antigo diretor ” Dirijo a Escola Normal
segundo orientação exclusivamente minha. É inútil S. Ex. tentar recorrer à arma da intriga.”(p.2),
encerrando a discussão.
Em 11 de maio, em ampla reportagem, A Gazeta de Notícias, com foto das
normalistas nas escadarias, e o título sugestivo, quase um lead,13 na verdade: “A
Reabertura da Escola Normal. Os melhoramentos introduzidos. Uma circular do Diretor
de Instrução. Rápida “enquete” entre as normalistas. O jornal mostra, então, contradição
em relação à campanha que fazia contra a nova direção, usando por retórica palavras
afáveis à mulher:
O Estácio de Sá voltou aos seus dias álacres. Fechada a escola com o
encerramento das aulas dir-se-ia que aquele trecho do bairro de S.
Christóvão perdera o encanto e a graça que a vivacidade das normalistas
lhe emprestava. Dezembro levara, numa inquieta revoada, as últimas
borboletas daquele jardim de estudos. [...] Enquanto isso, tudo se
transformava. Novas providencias eram tomadas no sentido de
promover o melhoramento do prédio e a direção do ensino, até então
entregue à austera competência de um representante do sexo forte,
passava à orientação de uma representante do sexo frágil. Agora o
Estácio reconquista o seu ar festivo. [...]De novo recomeça a luta: de
novo as moças se lançam à conquista de um diploma[...] Em todo caso
isso representa um bello symptoma do nosso progresso. A mulher
brasileira se ilustra, se emancipa do grosseiro conceito de que “as
nossas patrícias são ignorantes”.[...] Presente grande número de
alumnas, D. Esther Pedreira de Mello leu um longo memorial pedindo
às suas discípulas a fiel observância do regulamento interno do
estabelecimento, fazendo sentir que para manter a boa disciplina no
recinto da escola contava com o auxílio das próprias alumnas. Os
professores, por sua vez, antes de iniciarem suas prelecções [...] leram a
circular do Diretor de Instrucção. [...] Tivemos a ocasião de visitar o
estabelecimento [...] verificando a boa ordem em que tudo está disposto.
[...] Tentamos, então, abordar um grupo de alumnas que faziam “lunch”
na sala de Gymnastica [...] – Não senhor, não posso consentir. As
meninas não têm opinião. Elas estão satisfeitas porque já me conhecem
de há muito...[...] Não desanimamos, porém. Abordámos outro grupo.
Todas a quem nos dirigimos estão satisfeitas com D. Esther. Uma
senhora, disse a “leader”, sempre sabe compreender melhor os desejos
de uma moça, que um homem carrancudo.[...] Em companhia do Sr.
Leitão da Cunha, à 1 hora da tarde, esteve acompanhando o Sr. Sá
Freire em visita à escola Normal. (p.3)
O que gerava problemas, e mostrava o medo de uma cultura diferenciada, o que a
imprensa apenas reverberava, era o entorno escolar: as favelas São Carlos e Matos
Rodrigues, e a poucos metros de vizinhança, as casas de meretrício. O entorno de modo
algum facilitava as metas de “pudor, recato e moralidade” que a instituição gozava e
preservava na Praça da Aclamação, no centro de poder federal e municipal instalado nos
prédios de sua antiga vizinhança e que a sociedade carioca acreditava salutar para as
moças, principalmente, que eram a maioria do corpo discente. A Escola Normal, em
outro endereço teve que conviver com outra cultura – a dos foragidos do “bota-abaixo”,
dos pobres, dos imigrantes, dos negros e das prostitutas das muitas casas de meretrício.
Eram culturas diferentes: a da escola e a do lugar onde, naquele momento, ela estava
situada. A cultura do lugar era espontânea, não era presa a regras de etiqueta ou da “boa
educação”, ou ao “recato” que, como categorias diferentes do tecido social deram
significado como representação social. A cultura “popular” era apenas uma visão de
mundo diferenciada, com outros símbolos, marcas e códigos próprios, mas, com “um
espaço entre a norma e o vivido, entre a injunção e a prática, entre o sentido visado e o
sentido produzido, um espaço onde podiam insinuar-se reformulações e deturpações”
(CHARTIER, 1995, p.182).
O que provocava debates e vendia jornais, eram os debates, os comentários que
desqualificam tanto um quanto outro gênero, como d’A Lucta, em primeira página, no
espaço Chroniquetas, com o título “Feminismo”, de 16 de junho, assinada por Justus:
A mór parte dos especimens do sexo barbado tem o veso ruim de
classificar de fraco o sexo elegante, e negar-lhe capacidade physica,
moral e intelectual para umas tantas coisas dessa vida velha, difícil e
cara. E em auxilio de suas rebarbativas afirmações costuma essa gente
evocar o facto de não possuir o Brazil uma Ruy Barbosa, a França uma
Joffre e Portugal uma Colombo.[...] Nos fins do anno passado, uma
senhorita no Rio inscreveu-se junto com uma chusma de bacharéis num
concurso para amanuense do Ministério do Exterior e apesar dos srs.
Lentes pretenderem espichal-a foi ella classificada em primeiro logar e
logo nomeada para o cargo o que aliás valeu-lhe uma ironias de um
jornalista que, satyricamente se anunciou para amma secca.Em dias
deste anno o tribunal do Jury da Capital Federal regorgitava de gente
para assistir a estréa de uma bacharela na tribuna da defesa e esta
portou-se tão brilhantemente que a numerosa assistência, esquecendo do
augusto recinto irrompeu na mais delirante ovação. Ainda há poucos
dias, o dr. Leitão da Cunha, diretor da Instrução pública no Rio, para
resolver uma crise na direção da eschola normal, teve que nomear
diretora da mesma D.Esther Pedreira de Mello porque nenhum bicho
barbado se atreveu a manter a disciplina daquele importante
estabelecimento, completamente anarchizado, depois que o número de
alumnas subiu a mil. E lá está a sra. Esther, dirigindo algumas dezenas
de professores de barbas pretas e grisalhas e algumas centenas de
alumnas histéricas e melindrosas com uma energia e
inquebrantabilidade de que ninguém julgaria capaz uma representante
do sexo calumniado[...]
Na verdade a matéria mostrava o que Chartier (1995) denominou de lutas de
classificação, quando há embates entre uma representação que deseja instaurar-se e outra,
já existente. A representação de gênero, representada por D. Esther, que ampliou o espaço
do lar e incluiu a mulher no mercado de trabalho, principalmente após a guerra, vai se
impondo a tal ponto que, a própria necessidade urbana e capitalista auxiliou neste
processo de mudança.
Em 9 de junho de 1920, a Gazeta de Notícias já publicava entrevista do novo
prefeito do Distrito Federal Carlos Sampaio 14, onde ele anunciava a demissão, a pedido
de Esther Pedreira de Mello, enfatizando que “Foi o meu primeiro acto no governo da cidade”
(p.2). Este comentário do prefeito Carlos Sampaio inflamou o ambiente da Escola Normal
possibilitando aos jornais vários dias de matéria Em 11 de junho, na primeira página, a
Gazeta de Notícias sentencia:
Quando o Sr. Sá Freire em um de seus habituaes momentos de
obtusidade, entregou a direção daquele importante estabelecimento de
ensino à digna inspetora-escolar, fomos dos que previram um desastre
retumbante para o feminismo... e o ensino.[...] A nova diretora ao ver-se
nas alturas que a guindaram, perdeu o prumo... Cada um dos cincoenta e
quatro dias da sua administração foi marcado por um acto de
originalidade... que desse na vista...[...]
Conclusão
O debate provocado pela imprensa à entrada, permanência e saída da inspetoraescolar Esther Pedreira de Mello na direção da escola Normal do Distrito Federal é
significativo de uma mudança na representação de gênero na cidade do Rio de Janeiro,
em 1920. A cidade absorvia através dos jornais, as notícias do mundo que apresentavam,
em suas primeiras páginas, um mundo novo fruto da 1ª Guerra que tinha acabado: mais
informação, anúncios comerciais para e sobre as mulheres, peças de teatro, consolidação
do cinematógrafo, das fotos mais elaboradas, anúncios de cursos, de novas tecnologias
usadas para o ensino profissional15 e de novas representações sociais, dentre elas o novo
papel da mulher de uma trabalhadora fora do lar. O Código Criminal, de 1918, já
descriminalizava algumas situações e incluía outras mostrando um tecido social de
transição de representações. Sem entrar no mérito do acerto ou erro das medidas tomadas
por Esther Pedreira de Mello, era pelo que representava, em termos de gênero, que os
jornais julgavam, se contradiziam ou defendiam, poucas e raras vezes, a diretora. O
tratamento, quando era de defesa da representação, deixava que o leitor se impregnasse
de imagens recorrentes à mulher: docilidade, romantismo e subserviência, como fez a
Gazeta de Notícias, ao noticiar a abertura do ano letivo. Se o objetivo era um julgamento
contra a representação, mas que desejasse incluir, dentre seus leitores a mulher, usavam,
como o fez o Jornal das Moças, versos de um poeta conhecido e lido por mulheres,
Capistrano de Abreu. Mas tais jornais também se contradiziam mostrando que a
representação de gênero não estava, ainda consolidada em novos paradigmas. Os 54 dias
de administração de Esther Pedreira de Mello frente à Escola Normal foram decisivos
para deixar visível, nos discursos jornalísticos dos periódicos diários da cidade do Rio de
Janeiro, a luta de representação social de gênero em prol da dominação de uma
representação pela outra.
Referências
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de 1916. a 1923); Periódico Correio da Manhã, da cidade do Rio de Janeiro (exemplares
de 1920 a 1923); Periódico Gazeta de Notícias, da cidade do Rio de Janeiro (exemplares
de 1920 a 1923); Periódico Jornal das Moças, da cidade do Rio de Janeiro (exemplares
de 1920); Periódico Na Barricada: jornal de combate e de crítica social, da cidade do
Rio de Janeiro (exemplares de 1915 e 1916); Periódico O Imparcial, da cidade do Rio de
Janeiro (exemplares de 1920)
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TEDESCHI, Losandro Antônio. História das mulheres e representações do feminino.
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1
Manchete do jornal Correio da Manhã, de 20de janeiro de 1920, p.3
Tratada por Tedeschi (2008) como uma “construção histórica filosófica dos vários discursos que em certa
época conferiram um caráter científico e natural aos papéis da mulher, do que significa ser mulher”(p. 12).
3
O Jornal das Moças circulou entre 1914 e 1965. Era apresentado como "Revista Semanal Ilustrada"..
Circulava às quartas-feiras, e era anunciado como “Jornal das Moças - A revista de maior penetração no
lar”. Fundado em 1913 por Agostinho Menezes, era propriedade da Editora Jornal das Moças Ltda. Possuía
75 páginas, com textos e ilustrações, inspirado nos magazines ilustrados e revistas de variedades do século
XIX, abordando assuntos de interesse da mulher. .
4
“Fundado por Edmundo Bittencourt, foi um dos mais longevos e importantes jornais brasileiros do século
XX. Desde a primeira edição, em 15 de junho de 1901, caracterizou-se, nas palavras de Nelson Werneck
Sodré, por um “ferrenho oposicionismo, de extrema virulência”, em contraste, segundo o historiador, com o
“extremo servilismo” de jornais concorrentes.” (Arquivo Nacional, disponível em
http://hemerotecadigital.bn.br/historicos?page=2 Acesso em 20/12/2012)
5
Rago (2006) ao descrever a representação construída para as mulheres, mostra que depende do grupo que,
culturalmente, a define, elas eram “frágeis e infelizes para os jornalistas, perigosas e “indesejáveis” para os
patrões, passivas e inconscientes para os militantes políticos, perdidas e “degeneradas” para os médicos e
juristas”, isto é, a “construção masculina da identidade das mulheres trabalhadoras [é que] define a
percepção de sua condição sexual, social e individual” (p.579)
6
“Recupera-se aqui certa dimensão do caráter classificatório embutido na noção de gênero e, ao mesmo
tempo, com as noções de pessoa (formas objetivadas de relações, agentes virtuais), agente (“agent”: autor
de pensamento e ação), ação, eventos e relações sociais, coloca-se em cena a dimensão das relações sociais
e dos atores sociais” (KOFES 1992, p.22)
7
“O Correio da Manhã deixou de circular em 1974, mas pode-se datar sua morte de alguns anos antes: 13
de dezembro de 1968. Naquela noite, assim que o locutor Alberto Curi terminou a comunicação do AI-5 ao
país pela televisão, agentes do DOPS (Delegacia de Ordem Política e Social) atravessaram a rua e
invadiram a sede do jornal” (Ruy CASTRO, 2009).
8
A professora Esther Pedreira de Mello embora citada pela historiografia, nunca foi designada com
qualquer cargo que ocupou: professora de Pedagogia da Escola Normal (1902), inspetora-escolar do 2º
distrito (1902), membro do Conselho Superior de Instrução (a partir de 1904), diretora da Escola Normal
(1920), presidente (1916-1919) e depois redatora (1919-20) da Sociedade Anonyma “A Escola Primária”,
diretora da Escola Secundária Profissional, membro da Conferência Interestadual do Ensino Primário
(1921), representando o Distrito Federal e responsável pela Comissão de Educação, da I Conferência pelo
Progresso Feminino (1922) .
9
Manchete da notícia publicada na primeira página da Gazeta de Notícias, em 17 de abril de 1920.
10
O periódico Gazeta de Notícias foi publicado no Rio de Janeiro, de 1875 até 1942. Fundado por Manuel
Carneiro, Ferreira de Araújo e Elísio Mendes era inovador abrindo espaço para a literatura. Neste jornal foi
iniciada a campanha abolicionista por José do Patrocínio. Escreveram para o jornal: Machado de Assis,
Capistrano de Abreu, Euclides da Cunha, Eça de Queiróz e Ramalho Ortigão, entre outros.
11
O soneto “As pombas” foi publicado originalmente no livro "Sinfonias", Livraria Editora de Faro & Lino
- Rio de Janeiro, 1883, e extraído de "Poesias completas", organização, prefácio e notas de Múcio Leão, Ed.
Nacional - São Paulo, 1948, p.38.
12
O número de moças na Escola Normal era infinitamente maior do que o de rapazes.
2
13
“Na estruturação da notícia, o jornalismo adotou as técnicas norte-americanas do lead e da "pirâmide
invertida". O lead era a abertura do texto, o primeiro parágrafo, que devia resumir o relato do fato principal,
respondendo a seis perguntas básicas: quem?, fez o quê?, quando?, onde?, como? e por quê?
Símbolo máximo do jornalismo moderno, o lead veio substituir o "nariz de cera", texto introdutório longo e
rebuscado, normalmente opinativo, que antecedia a narrativa dos acontecimentos e que visava a ambientar
o leitor.”(RIBEIRO, 2003, p.149)
14
Carlos César de Oliveira Sampaio (1861 - 1930) foi político e engenheiro. De 1920 a 1922 substituiu o
Eng. Sá Freire como Prefeito do Distrito Federal.
15
Encontramos anúncios da Escola Secundária feminina com uso de máquinas de escrever Remington, para
as aulas de datilografia ( A Noite, 4/4/1916, p.2)
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“Nenhum bicho barbado se atreveu a manter a disciplina”: