Universidade Pedagógica de Moçambique de volta à academia: evidências da UP-Delegação de Quelimane1. Dulce Maria Passades2 e Stella Pinto Novo Zeca3 Resumo Moçambique é um país ‘Jovem’ e historicamente ligado a Portugal pelo seu passado colonial. Até à década de setenta, o sistema de ensino no país era feito à luz do currículo português, situação que muda após a independência do país e, consequentemente, com a entrada em vigor do Sistema Nacional da Educação em 1983. O campo sócio-histórico moçambicano é relevante neste cenário, pois ele estabelece pontes com o campo das dinâmicas do ensino superior no país. Na época colonial, Moçambique contava apenas com uma instituição, a dos Estudos Gerais Universitários de Moçambique (EGUM), em 1962, (que posteriorimente passa a Universidade de Lourenço Marques (ULM) em 1968, que é a actual Universidade Eduardo Mondlane (UEM). MAas o cenário muda na década de oitenta, com a introdução do Instituto Superior Pedagógico (actual Universidade Pedagógica de Moçambique- UP, em 1985). O objectivo deste artigo é de partilhar o quotidiano da Universidade Pedagógica de Moçambique, através do seu percurso académico, uma vez que se trata de uma Instituição de Ensino Superior com características peculiares, ou seja, nos meados da década de oitenta, ela foi instituída na capital moçambicana, mas, passadas duas décadas, ela representa a maior Instituição de Ensino Superior no país. Frisar que, em 1989, a UP inicia a sua expansão, com a entrada em funcionamento de uma delegação fora da capital do país. Hoje, a UP encontra-se em todas as províncias de Moçambique: Maputo (Sede), Beira, Nampula, Quelimane, Gaza, Niassa, Massinga, Maxixe, Manica, Montepuez, Tete. A Universidade Pedagógica é, estatutariamente, responsável pela formação de professores para todos os níveis do Sistema de Educação no Moçambique (pré-escolar, primário, secundário, 1 Comunicação a ser apresentada na 2ª conferência da FORGES em Macau, 2012. Docente da Universidade Pedagógica de Moçambique (UP), Delegação de Quelimane. Licenciada em Psicologia e Pedagogia pela UP- Delegação de Nampula (2000-2005) e Mestre em Dinâmica de Saúde e bem-estar pelo programa Erasmus Mundus pelas seguintes Universidades: Universidade de Évora, Universidade Autónoma de Barcelona, Linkoping University e École des Hautes Etudes en Sciences Sociales (EHESS-PARIS) (2008-2010). Coordenadora para área de Pós-graduação, Pesquisa e Extensão na Delegação. 3 Docente da Universidade Pedagógica de Moçambique, Delegação de Quelimane. Licenciada em Biologia pela UPMaputo (1997-2003) e Mestranda em Formação de Formadores pela UP-Maputo em parceria com a Universidade de Minho (2009-2011), Directora Pedagógica da Delegação. 2 1 técnico profissional e superior), e de outros profissionais para a área de educação e afins. Em 2006, a Instituição, que era concebida na sua missão e filosofia de formação de professores, introduz dinâmicas académicas ligadas a diversidades de cursos a leccionar, por um lado, e um aumento exponencial de números de estudantes, por outro lado. Diante deste cenário, a sociedade ‘assusta-se’ e fica estupefacta com a massificação de cursos e de estudantes e, como consequência directa, a missão da instituição é questionado pela sociedade e pela mídia. Estas dinâmicas académicas trouxeram mudanças directivas e curriculares à UP. Como estratégia para resgatar a imagem da Instituição, a nova liderança da UP instituiu como lema e plano de acção o slogan: De volta à academia. É sobre o regresso à academia que nos propusemos partilhar este percurso com maior enfoque no quotidiano da UP-Delegação de Quelimane, que entrou em funcionamento em 2003. Palavras-chave: Universidade Pedagógica- Delegação de Quelimane, Academia, Qualidade, Quotidiano. University Pedagogic of Mozambique back to the academy: evidences from Pedagogic University-Quelimane Branch. Mozambique is a young country and historically linked to Portugal by its colonial past. Until the seventieth decade, the teaching system in the country was taken under the light of Portuguese curriculum. This situation only changed after the independence in the country and consequently with the entrance of the National System of Education in 1983. The socio-historic Mozambican field is relevant in this scenery, because it establishes bridges with the dynamic field of the higher teaching in the country. In the colonial era, Mozambique counted only with the Lourenço Marques university, the current (Eduardo Mondlane University), but the scenery changed in the eightieth decade, with the introduction of the Higher Pedagogic Institute, currently Pedagogic University of Mozambique, in 1985). The objective of this article is to share the daily of the Pedagogic University of Mozambique, through its academic path, once it is an institution of Higher Teaching with peculiars features. In the mid of eightieth decade, it was settled in the Mozambican capital city, but after two decades, she represents the major institution of Higher Teaching in the country. We need to underline that, in 1989; the Pedagogic University started its expansion, with the new branch out from the capital city of Mozambique. Today, we find the university in all provinces: Maputo (The Headquarter), Beira, Nampula, Quelimane, Gaza, 2 Niassa, Massinga, Maxixe, manica, Montepues, Tete. The pedagogic University is responsible for the teachers training for all levels of the Education System in Mozambique (primary, secondary, professional-training and higher levels), and professionals for the education areas among others. In 2006, the institution was conceived in its mission and philosophy of training teachers. It introduced academic dynamics linked to several courses and the exponential increase of the number of students. Due to this facts, the society threatens and becomes worried with the spread of courses and students, and as direct consequence, the mission of the institution is questioned by the society and the media. These academic dynamics brought directive and curriculums changes to the Pedagogic University. As a strategy to overtake the image of the institution, the new leadership of the Pedagogic University set as a plan of action, the slogan: Back to academy. It is about the coming back to academy that we thought of sharing this article with major focus on daily actions of Pedagogic University-Quelimane Branch, which started in 2003. Key words: Pedagogic University-Quelimane Branch, Academy, Quality, Everyday life. Introdução Moçambique é um país da África Sub-sahariana, construído por com onze províncias e 20.226.296 de habitantes. A língua oficial do país é a língua portuguesa ( e tem mais de dez línguas locais). Segundo Mazula (1995), o ensino moçambicano era caracterizado por práticas educativos portuguesas, com auxílio da igreja católica, através dos missionários que tinham como missão educar a população local. Salientar que todo este processo que era caracterizado pela inferiorização da população nativa, era consubstanciado pela pesquisa dos antropólogos 4 da época. Este grupo de nativos frequentava na maioria, até a terceira classe elementar 5. 4 Segundo Rodney citado Taimo “O principal propósito do sistema educacional colonial era treinar africanos para servir como homens da administração a um plano extraordinariamente baixo e fornecer mão-de-obra para as firmas capitalistas privadas, pertencentes a europeus. Isso significava na pratica a selecção de alguns africanos para participar no domínio e na exploração do continente e no seu todo. Não era um sistema de educação proveniente das condições concretas da sociedade africana nem destinada a promover uma utilização mais racional dos recursos materiais e sociais. Não era um sistema educativo destinado a transmitir aos jovens o orgulho e a confiança de membros da sociedade africana mas sim a implantar um sentimento de submissão face ao europeu e ao capitalista. 5 Este cenário foi caracterizado como superior as culturas e saberes locais” (2010, p,.67). 3 Com a independência, em 1975, a dinâmica política do país pauta por uma educação ‘socialista moderna’ que rompia com as práticas e saberes locais por caracterizá-los como obscuros, eliminando os aspectos negativos da ‘cultura’6, ou seja, com o fim do sistema colonial houve um corte radical com as práticas do colono, mas o novo projecto ideológico educativo do país continuava a não dar um lugar de destaque às práticas e saberes locais. (Basílio, 2006; Gonçalves; 2009, Mazula, 1995). Este processo social e histórico é marcado pelo surgimento da primeira universidade no país, em 1968: a Universidade de Lourenço Marques7. Contudo, como frisa Donaciano (2011, p,.22), “a Universidade de Lourenço Marques (ULM) era a única instituição de ensino superior em Moçambique e destinava-se maioritariamente aos filhos dos colonos, tendo apenas 40 estudantes negros moçambicanos, o que correspondia a cerca de 2% dos estudantes.” Salientar que esta primeira instituição surge em resposta à pressão exercida pela colónia portuguesa, embora albergasse uma pequena elite de moçambicanos assimilados (Plano Estratégico do Ensino Superior [PEES] 2000). Na década oitenta, são criadas mais duas Instituições de Ensino Superior no país: o Instituto Superior Pedagógico em 1985, ligado à Faculdade de Educação da Universidade Eduardo Mondlane, destinado à formação de professores e técnicos do Sistema Nacional de Educação, e o Instituto de Relações Internacionais em 1986 (Donaciano, 2011). Em 19838, o Ministério da Educação introduz o SNE, que visava, necessariamente, a criação do homem novo. 6 Como frisa Arnfred (2011) na perspectiva de estudos de género: abaixo o lobolo, abaixo a poligamia e abaixo os ritos de iniciação. 7 Com independência do país, em 1975, a universidade muda de nome e passa a chamar-se Universidade Eduardo Mondlane em 1976. 8 Lei 4/83 de 23 de Março de 1983. Frisar que dados estatísticos da década setenta apontavam para índices altos de analfabetismo no país, nomeadamente 90 %. Mas as campanhas de alfabetização de adultos levados acabo no âmbito do SNE jogaram um papel chave na reversão deste cenário. 4 A massificação do saber versus universidades O campo epistemológico moçambicano, desde a época da luta colonial, através das zonas libertadas, sempre teve o campo educativo na agenda política da FRELIMO. A mensagem dos dirigentes partidários sempre privilegiou a educação nos seus discursos, pois ela era concebida como a arma capaz de libertar o povo da opressão. Segundo o PEES (2000), a evolução do subsistema de ensino superior no país obedece a quatro etapas: 1ª Etapa 1662-1968- Génese e desenvolvimento da primeira instituição de ensino superior na então colónia de Moçambique; 2ª. Etapa: 1968 1 1976- Criação desenvolvimento da primeira universidade em Moçambique, a Universidade de Lourenço Marques (ULM); 3ª. Etapa:1976 a 1985- Transformação da Universidade de Lourenço Marques (ULM) em Universidade Eduardo Mondlane (UEM), a primeira universidade nacional; 4ª. Etapa1985 a 2000- Pluralidade de Instituições de Ensino superior; Importa referir que, Moçambique tinha uma universidade9 na década sessenta e na década oitenta passa a ter duas Instituições de Ensino Superior10, e, actualmente, no século XXI, conta com uma amostra de quarenta e quatro (44) Instituições de Ensino Superior, que surgem como consequência da demanda e mutação social. O ensino superior em Moçambique é oferecido aos cidadãos pelas Instituições Públicas e privadas11. Até finais da década oitenta, as Instituições de Ensino Superior estavam situava-se na capital moçambicana, cidade de Maputo, como defendem Matos & Mosca (2010, p,. 297) “Após a independência nacional, e sobretudo depois dos primeiros anos da década dos anos 90, o 9 Universidade de Lourenço Marques. Instituto Superior Pedagógico (1985) e Instituto de Relações Internacionais (1986). 11 No que se refere as universidades privadas, elas surgem pela lei 1/93, Lei de Ensino Superior, que cria espaço para existência no país de Instituições de Ensino Superior Privadas, oque facultou a existência destas instituições no país a partir de 1995 (Noa, n.d). Frisar que no país as duas primeiras instituições de ensino superior privadas foram o Instituto Superior Politécnico Universitário (ISPU) e Universidade Católica de Moçambique (UCM). Julgamos ser relevante a análise destas instituições no processo da massificação do ensino superior. 10 5 ensino superior expandiu-se em número de alunos e instituições em todo o território nacional, embora inicialmente com alguma concentração em Maputo”. A partir da década seguinte até à actual notabilizou-se um processo de expansão das universidades e institutos superiores para as províncias, numa fase inicial, e para os distritos, posteriorimente. Frisar que a Universidade Pedagógica pode ser considerada como pioneira neste processo de expansão universitária, processo iniciado em 1989, com a entrada em funcionamento da delegação da Beira; em 1995 em Nampula; em 2001, em Quelimane; em 2004, nas províncias de Gaza e Niassa, em 2007, em Massinga; em 2008, em Manica e Montepuez; e, em 2009 em Tete. A expansão universitária para as províncias e, actualmente, para os distritos é orientada pela ideologia de fazer chegar o ensino superior ao povo moçambicano, quebrando com o paradigma elitista do ensino superior em Moçambique. No passado, a localização das Instituições de Ensino Superior na capital de país constituía um entrave para muitos jovens, e não só, para a própria desenvoltura do país. A nossa experiência como alunas da escola secundaria da década noventa permitiu-nos aferir este fenómeno, através de casos de alunas e alunos que, passando ou não aos exames de admissão das universidades públicas12, por barreiras económicas, não ingressavam ao ensino superior pelo facto de estas localizarem-se apenas na capital do país. O quotidiano do ensino superior é caracterizado pela existência qualitativa e ‘quantitativa’ destas instituições nas cidades capitais e nos distritos, o que pode nutrir algumas hipóteses, como: o conhecimento mais próximo do povo e particularmente das camadas mais desfavorecidas; valorização das províncias e distritos pela existência destas instituições visto que temos provinciais no país que mudaram qualitativamente a sua desenvoltura como consequência da existência de universidades, o que tem alterado o quotidiano destas cidades. Por um lado, verificamos que os residentes locais passam a ter acesso ao ensino superior e, por outro, temos vientes nas cidades; a cultura da pesquisa é instituída nestes contextos e verificasse rompimento com o paradigma elitista destas instituições. 12 Na época eram a Universidade Eduardo Mondlane (UEM), Universidade Pedagógica (UP) e Instituto de Relações Internacionais (ISRI). 6 O ensino superior em Moçambique até princípios do século XXI, abarcava apenas o nível de Licenciatura. Actualmente, as instituições já têm programas de Mestrado e Doutoramentos. Estes programas de pós-graduação estão em expansão para algumas províncias. Até ao momento, são programas de Mestrado, sendo que os de Doutoramentos estão ainda na capital do país, pelo facto de maior número de doutores do país ainda se localizarem lá. Frisar que a UP tem programas de mestrados em parceria com universidades europeias e brasileiras nas cidades de Maputo, Beira e Nampula e, para o presente ano (2012) introduziu o programa de Doutoramento em Educação e Currículo. Segundo o reitor da UP, Rogério Uthui (2012), este doutoramento surge para melhorar a qualidade de ensino na UP e em todas escolas nacionais, visto que a UP é a instituição ligada ao campo da educação no país. Toda a dinâmica aqui exposta levanta inquietações no seio da comunidade académica e da sociedade no que tange às políticas e qualidade de ensino superior. Pois, a quantificação do ensino superior é um processo que deve ser feito no binómio qualificação e quantificação. Segundo Rodrigues & Cassy13 (n.d), Em Moçambique a política e a qualidade das instituições de ensino têm sido alvo de debate pela sociedade. Nesse contexto, o governo no seu papel de monitoria e supervisão de todo o sistema de educação e responsável por prover á sociedade uma educação com excelência, vem pressionando as Instituições de Ensino Superior (IES) a voltarem-se mais para a qualidade, o que é fundamentado pela actualização dos dispositivos legais que regulam a actividade do ensino superior. A expansão quantitativa do ensino superior no país deve ser percepcionada nos dois cunhos da moeda: maior número de adolescentes, jovens e adultos com acesso ao ensino superior e pelo desafio que as mesmas instituições se deparam no processo no campo de promover e maximizar constantemente a qualidade do ensino. Estas Instituições de Ensino Superior (IES) moçambicanas são chamadas ao processo de aferimento da qualidade. Este processo de análises académicas e socias no campo da qualidade de ensino não passou despercebida ao governo do país. Em Moçambique o ensino superior é coordenado pelo Ministério de Educação (MINED), através da Direcção para Coordenação do Ensino Superior (DICES): 13 Académicos da Universidade Unizambeze de Moçambique. 7 O desafio das universidades moçambicanas é de formar com qualidade cada vez mais estudantes capazes de contribuírem qualitativa e quantitativamente no combate a pobreza absoluta. Segundo Taimo (2010, p,.161), “A expansão do acesso, a melhoria de qualidade e relevância, o financiamento e por último o Estado e as instituições privadas constituem as estratégias a serem adotadas para o ensino superior. A formação pós-graduada teve uma evolução semelhante, primeiro no exterior e mais recentemente com mestrados e alguns doutoramentos em Moçambique, a maioria com parcerias de instituições de ensino superior estrangeiras”. A qualidade do ensino superior, aliada à relevância e às reformas curriculares, deve ser incorporada nas dinâmicas de expansão do ensino superior. Universidade Pedagógica de Moçambique: “De Volta à Academia” 2007-2009 Como frisamos anteriormente, a UP é uma Instituição de Ensino Superior moçambicana que surgiu na década oitenta 14 , sendo a segunda a surgir no país. Actualmente, ela é a maior Instituição de Ensino Superior no país, com aproximadamente trinta e cinco mil estudantes, com dez delegações nas dez das onze provinciais do país. Salientar que três destas delegações funcionam nos distritos, como é o caso da delegação da UP-Montepuez (Província de cabo Delgado), UP Massinga e UP Maxixe (Província de Inhambane). A massificação da UP aconteceu cronologicamente entre os anos 2005-2009, processo este caracterizado por um crescente exponencial de estudantes. Importa frisar que parte destes estudantes eram e são professores do SNE, que leccionam nas escolas primárias e secundarias do país, mas, pelo facto de não terem formação superior ingressam para a UP15 para obtê-la. O ingresso a UP é feito via exame de admissão e via documental, sendo esta última para os candidatos das instituições com as quais à UP tem protocolos e memorandos de entendimentos, como é o caso de Ministério de Educação. O título da maior universidade no país não aconteceu sem sobressaltos. Como frisa o Plano Estratégico da Universidade Pedagógica [PEUP] (2010, p,.13), 14 UP surge como Instituto Superior Pedagógico pelo diploma ministerial número 73/85, como uma Instituição vocacionada para a formação de professores para todos os níveis do SNE e de quadros da educação. 15 Salientar que actualmente a UP tem cinco faculdades: Faculdade de Ciências de Educação e Psicologia, Faculdade de Ciências Sociais, Faculdade de Ciências da Linguagem, Comunicação e Artes, Faculdades de Ciências Naturais e Matemática e Faculdade de Educação Física e Desporto, também tem duas escolas, Escola Superior de Contabilidade e Auditoria, e Escola Superior de Técnica. 8 O rápido crescimento dos efectivos escolares da Universidade Pedagógica não foi, contudo, devidamente acompanhada do necessário redimensionamento do seu corpo docente em quantidade e qualidade, das suas infraestruturas e do seu sistema de gestão aos níveis pedagógicos e administrativos. A expansão rápida teve ainda com efeito um fraco desenvolvimento nas áreas de pesquisa e extensão. A componente qualidade de ensino é questionada, a formação do corpo docente, a questão de infraestrutura própria, e, sobretudo, a gestão universitária, que é fundamental, também sofre sobressaltos, e, por último, a pesquisa e extensão não se desenvolveram de forma acentuada. Perante o cenário, a UP desafia a si mesma ao traçar o Plano de Acção: “De Volta à Academia” durante o período 2007-2009, cuja meta era resgatar o bom nome da instituição, garantir qualidade nos cursos e expandir o ensino de professores para mais provinciais. Para tal, o Plano apresentou principais áreas estratégicas, como: Área estratégica: Excelência e Qualidade, com as seguintes vertentes: expansão e garantia de qualidade, que incorpora os seguintes projectos: a) de volta à academia: trazer de volta para o campus da UP todos os estudantes matriculados; b) melhorar os métodos e meios de ensino; c) estabelecer a outras delegações da UP no país; d) desenvolver o ensino à distância; 1. Desenvolver da investigação e pós-graduação, que inclui os seguintes projectos: iniciar programas de mestrado na UP e desenvolver a investigação na UP; 2. Extensão Universitária: priorizar os planos nacionais de desenvolvimento, que enfatizem a articulação entre a UP e o distrito. Área estratégica: Eficiência de gestão, incorpora os seguintes projectos: 1. Reforma organizacional, que visa actualizar o quadro legal e normativo da UP; 2. Desenvolvimento de recursos humanos e criação de um sistema de assistência social para os docentes e corpo técnico administrativo. Área estratégica: Modernização da UP, sustentada por dois projectos: 1. Desenvolvimento de infraestrutura; 2. Informatização da UP. Área estratégica: Sustentabilidade, com as seguintes vertentes: 9 1. Cooperação, comunicação e imagem da UP que visa revitalizar a cooperação com as universidades da região e do mundo; 2. Criação da Fundação UP; 3. Geração e gestão de recursos da UP (PEUP, 2010). Universidade Pedagógica- Delegação de Quelimane (UPQ) A Universidade Pedagógica-Delegação de Quelimane foi fundada em 2001, mas entra em funcionamento em 2003, com apenas três cursos. Aquando da sua criação, a instituição começou a funcionar em instalações cedidas pela Escola Secundária 25 de Setembro e pelo Instituto de Formação de Professores, instalações não concebidas para um ensino superior. Evidências do Plano de Acção “ De volta à academia” Excelência e qualidade, com as seguintes vertentes: A) De volta à academia: trazer de volta para o campus da UP todos os estudantes matriculados. A explosão da UPQ fez-se sentir em 2006, com a introdução de novos cursos em regime póslaboral, tendo o número de estudantes aumentado bruscamente de 379 existentes em 2005 para 2388, em 2007. Em 2003 (quando entra em funcionamento), os docentes eram todos contratados, com vínculos em outras instituições (nem todas do ensino superior). A partir de 2004, a UPQ começa a recrutar docentes para o quadro. Estes docentes (com a excepção dos membros da direcção) eram todos licenciados, na maioria jovens recém-graduados, sem experiência de leccionação no ensino superior. No campus, existiam apenas 10 salas de aulas, com capacidade para cinquenta estudantes. O que significava que quase metade dos estudantes estava “fora da academia”, tendo aulas em instalações concebidas para escola primária ou institutos médios. A universidade usava apenas as salas de aula nestes espaços. E como este grupo de estudantes era maioritariamente dos cursos pós-laborais, na sua maioria adultos, funcionários em diversas instituições, que só se faziam às 10 aulas a partir de 18h, já era de se supor que quase não tinham contacto com as infraestruturas da universidade (bibliotecas, salas apropriadas, laboratórios, etc) Era preciso trazê-los de volta para o campus. A medida imediata foi a construção e reabilitação de salas de aulas para ampliar o campus e imediata redução do número de ingressos bem como a descontinuidade de alguns cursos. Apesar do aumento do número de salas (10 para 23) e aumento de número de docentes (de 52 existentes em 2006 para 129, em 2012), o número de estudantes manteve-se praticamente constante, ou seja, nota-se uma estabilidade de número de estudantes, mas, em contrapartida observa-se a melhoria na gestão universitária e crescimento em infraestruturas universitárias. (PESUPQ, 2011) B) Melhorar os métodos e meios de ensino, Com a introdução dos cursos de pós-graduação, a realizar-se na UP sede, com apoio de instituições nacionais e estrangeiras de renome, envolvendo docentes, mestrandos das várias delegações a UPQ elaborou o seu plano de formação para os seus docentes frequentarem os cursos de mestrado em educação nas suas áreas profissionais. Isso permitiu que aprimorassem as suas competências, uma vez que, durante a formação no nível de licenciatura, os métodos desenvolvidos não eram muito adequados ao ensino superior. Frisar que, em 2008, aquando do início do mestrado do primeiro grupo, eram apenas 10 e, actualmente, são 88 docentes a frequentar o mestrado. C)Extensão universitária A UPQ começa a participar activamente nos planos de desenvolvimento das comunidades. Através de acordo com entidades locais, intervém na elaboração dos planos de desenvolvimento dos distritos, especificamente formando jovens e funcionários de diversas áreas (empreendedorismo, pecuária, metodologias de ensino, meio ambiente, saúde sexual e reprodutiva, género e VIH/SIDA, etc). Realiza investigações em cooperação ou não com outras instituições científicas, na sua maioria para análise e procura de soluções dos problemas que afectam a sociedade. 11 Eficiência de gestão- incorpora os seguintes projectos: 1. Reforma organizacional, que visa actualizar o quadro legal e normativo da UP. Salientar que as delegações, e, particularmente, a UPQ, passaram a ser envolvidas activamente nas reformas. Modernização da UP- sustentada na seguinte vertente: Desenvolvimento de infraestrutura; Na UPQ, inicia-se a construção de um campus de raiz em 2011. O actual campus foi reabilitado e adaptado. No cenário anterior, nos anos 2007 a UP contava com apenas 14 computadores para toda a população estudantil. A maioria dos estudantes da UPQ é de baixa e média renda, sem possibilidades de ter um computador. Hoje, a UPQ possui a maior sala da província e tem disponível, para os estudantes, 160 computadores, o que de certa forma melhorou o acesso a este meio indispensável. Conclusões A preocupação com a qualidade é prioridade nas práticas quotidianas da UPQ. Porém, importa frisar que toda a temática da qualidade no ensino superior representa um grande desafio para o país, pois existe uma relação entre a conjuntura social, política, cultural e económica do país com o campo académico. Esta conjuntura obriga-nos a reflectir sobre que estratégias devem ser usadas pois, afectam em grande medida execução de diversas actividades. Tendo em conta a situação financeira de Moçambique que é um país em vias de desenvolvimento, os pesquisadores e as Instituições reguladoras de qualidade garantem que o ensino universitário e investigação sejam dotados de qualidade, apesar de existirem restrições orçamentais. São exemplos disso, a introdução de Mestrados e Doutoramentos na UP e noutras universidades públicas e privadas. Mesmo assim, assumimos que o caminho para o aprimoramento da qualidade é muito longo, exigindo que se abram cada vez mais portas (criação de alternativas para superação dos desafios) para que se alcance a qualidade almejada. 12 Bibliografia Basílio, G. (2006). Os Saberes Locais e o Novo Currículo de Ensino Básico. Dissertação de Mestrado. Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Brasil. Goncalves, A. (2009). “Modernidades” Moçambicanas, Crise de Referencias e a Ética no Programa de Filosofia para o Ensino Médio. Tese de doutoramento. Universidade Federal de Minas Gerais, Brasil. Donaciano, B. (2011). Vivências Académicas, Métodos de Estudo e Rendimento Escolar em Estudantes da Universidade Pedagógica. Tese de doutoramento, Universidade de Minho, Portugal. Matos, N. & Mosca, J. (2010). Desafios do Ensino Superior. IESE, 297. Mazula, B. (1995). Educação, Cultura e Ideologia de Mocambique:1975-1985. Edições Afrontamento. Noa, F. (n.d). Ensino Superior em Moçambique. Politicas, Formação de Quadros e Construção de Cidadania. PEUP 2011-2017 (2010). Plano Estratégico da Universidade Pedagógica. Imprensa Universitária da UP, Maputo. PEES 2000-2010 (2000). Plano Estratégico de Ensino Superior em Moçambique. Ministério do Ensino Superior Ciência e Tecnologia, Maputo. PESUPQ 2011-2017 (2011). Plano Estratégico Sectorial da Universidade Pedagógica, Delegação de Quelimane. Quelimane. Rodrigues, M. & Cassy, B. (n.d). A gestão Académica como a Determinante de Qualidade de Ensino. 13 Taimo, J. (2010). Ensino Superior Em Moçambique: História, Política e Gestão. Tese de doutoramento, Universidade Metodista de Piracicaba, Brasil. 14