OS DESAFIOS DO CONTROLE SOCIAL ATRAVÉS DA RELIGIÃO. A TEORIA DE FATO SOCIAL DE ÉMILE DURKHEIM Ana Beatriz Biscolla de Freitas, Valéria Pinheiro do Nascimento Orientadores: Antônio Carlos Machado Guimarães, Luiz Carlos de Andrade Aquino, Maurício Martins Alves UNIVAP/FACULDADE DE DIREITO, São José dos Campos, [email protected] UNIVAP/FACULDADE DE DIREITO, São José dos Campos, [email protected] Resumo- Este trabalho apresenta a visão de Durkheim sobre fato social e analisa, dentro desse escopo, a atuação da religião como forma de controle social. Através de breve análise do conceito de Fato Social e com base nos dados sobre violência (medida nas taxas de homicídios dolosos) das cidades do Vale do Paraíba, verificaremos o papel da homogeneidade de crença religiosa como fator de controle social. A proporção maior de mesma crença religiosa seria, isoladamente, capaz de conter seus membros? A realidade mostra a religião como um fator decisivo, dentre outros fatores influenciadores. Palavras-chave: Religião, fato social, controle social, Durkheim Área do Conhecimento: Ciências Sociais Aplicadas Introdução Segundo o conceito de fato social de Émile Durkheim, alguns acontecimentos na sociedade poderiam ser diretamente atribuídos a uma associação de ações e sentimentos particulares de vários indivíduos desta sociedade. Essa associação de ações e sentimentos, com poder coercitivo sobre seus indivíduos, não teriam o mesmo efeito se isolados em uma única consciência, ou seja, seriam uma força atuante de coerção coletiva, não se tratando de mero agrupamento de sentimentos particulares, mas sim “ações e sentimentos particulares, ao serem associados, combinados e fundidos, fazem nascer algo novo e exterior àquelas consciências e às suas manifestações”. (QUINTANEIRO, 2001, p. 62) Em sua obra, Durkheim descreve os fatos sociais como “toda maneira de agir fixa ou não, suscetível de exercer sobre o indivíduo uma coerção exterior, ou então ainda, que é geral na extensão de uma sociedade dada, apresentando uma existência própria, independente das manifestações individuais que possa ter”, as “maneiras de agir, de pensar e de sentir exteriores ao indivíduo, dotadas de um poder de coerção em virtude do qual se lhe impõem” (apud QUINTANEIRO, 2001, p. 61). Alguns tipos de fatos sociais como a religião, apesar de coativos não se fazem sentir como forma de coação, mas, se apresentam como “coisas agradáveis de que gostamos e que desejamos espontaneamente”. (apud QUINTANEIRO, 2001, p. 68) Na sociedade moderna, numa época em que os valores morais têm sido cada vez mais deteriorados, a maior proporção de crença religiosa de uma população seria capaz de, isoladamente, deter a violência? Metodologia Utilizaremos dados de violência referentes ao ano 2000 (ano do censo) obtidos na página da Fundação SEADE e números do IBGE relativos à religião, também relativos a 2000. Adotamos como índice de homogeneidade a maior proporção dos que se declararam fiéis da igreja católica, tendo em vista a Igreja Católica Apostólica Romana apresentar a maior proporção de participação declarada em todos os municípios do Vale do Paraíba. Através das estatísticas de violência do ano 2000 (ano do censo), buscaremos estabelecer uma relação entre a teoria de fato social de Émile Durkheim e o papel da religião na contenção da violência medida pela taxa de homicídios dolosos nas cidades do Vale do Paraíba. Desenvolvimento É importante ressaltar que os fatos sociais são adquiridos pelos indivíduos através de processos XIII Encontro Latino Americano de Iniciação Científica e IX Encontro Latino Americano de Pós-Graduação – Universidade do Vale do Paraíba 1 educativos, portanto eles não são criados, mas já existem fora de suas consciências. Podemos dividir os fatos sociais em dois tipos: 1) as maneiras de agir como as correntes de opinião e movimentos coletivos, e 2) formas mais definidas e claras na sociedade como as maneiras de ser ou pensar que incluem, por exemplo, os dogmas religiosos, as regras jurídicas, etc. Um componente fundamental no fato social são os valores de uma sociedade. Se um membro desta sociedade não segue alguns de seus padrões, tem de enfrentar determinados obstáculos. Alguns tipos de fatos sociais como a religião, apesar de coativos não se fazem sentir como forma de coação, mas, se apresentam como “coisas agradáveis de que gostamos e que desejamos espontaneamente”. “O ser proibido, que não se ousa violar, mas é também o ser bom, amado, procurado”. (apud QUINTANEIRO, 2001, p. 68-69). Pensemos na religião como forma de controle social. Segundo Durkheim, o “seu efeito é necessariamente fixar, instituir, certas maneiras de agir e certos julgamentos que existem fora de nós e que não dependem de cada vontade particular tomada a parte” (FORACCHI, MARTINS, 1980, p. 30). Considerando-se que “a mentalidade dos grupos, não é a mesma dos particulares” (FORACCHI, MARTINS, 1980, p. 26), e que ainda o indivíduo quando não segue os padrões de sua coletividade, acaba pagando por isso de alguma forma, lembramos que a função do “comportamento moral deve responder a necessidade social de regular, “normalizando” as relações dos indivíduos numa certa direção” (FERNANDO, PONTES). Com base nesse pensamento, podemos afirmar que a religião tem algum poder de contenção na violência. Propomos, para estudo desta tese, confrontar os dados apresentados na tabela 1. Adotamos a religião Católica como índice em função da maior proporção de indivíduos que se declararam seus fiéis. Como se pode notar na tabela 1, os dados colhidos indicam forte relação entre a taxa de homicídios dolosos e a proporção de crença religiosa. Tabela 1 Católicos Cidade Aparecida Apostólicos Romanos (%) 90,36 Taxa de homicídio por 100 mil habitantes 14,32 Arapeí 89,04 0 Areias 91,14 0 Bananal 79,53 0 Caçapava 77,22 21,01 C.Paulista 77,94 7,35 C.Jordão 79,44 20,33 Canas 85,82 0 Caraguatatuba 62,31 60,82 Cruzeiro 76,34 5,44 Cunha 78,64 0 Guaratinguetá 78,64 11,51 Igaratá 83,74 0 Ilhabela 65,59 23,99 Jacareí 71,93 43,38 Jambeiro 83,61 0 Lagoinha 95,06 0 Lavrinhas 78,36 0 Lorena 79,96 33,33 M. Lobato 81,91 0 N. Serra 84,41 0 Paraibuna 89,74 11,75 Pindamonhangaba 72,40 15,07 Piquete 79,26 0 Potim 86,03 14,70 Queluz 81,77 0 R.Serra 91,35 24,7 Roseira 77,30 11,65 Santa Branca 82,31 7,68 S.A.Pinhal 81,58 0 S.B. Sapucaí 91,05 0 S.J. Barreiro 91,88 0 S.J.Campos 75,01 49,13 S.L.Paraitinga 93,19 19,17 S. Sebastião 65,36 56,85 Silveiras 92,59 0 Taubaté 77,24 16,79 Tremembé 76,23 22,97 Ubatuba 58,58 43,37 XIII Encontro Latino Americano de Iniciação Científica e IX Encontro Latino Americano de Pós-Graduação – Universidade do Vale do Paraíba 2 Visualizamos o comportamento conjunto das duas variáveis: grau de proporção de crença religiosa e taxa de homicídios dolosos. Aplicando o diagrama de dispersão (gráfico 1) e, através da aplicação do coeficiente de correlação linear de Pearson que resultou em 0,6195, observamos a indicação de uma forte relação entre a taxa de homicídios e o grau de homogeneidade/proporção religiosa. Analisando os extremos, observamos que quanto mais alta a proporção de mesma crença religiosa, menor a taxa de homicídios, principalmente nas cidades maiores (com mais de 10.000 habitantes). Dessa forma, a religião apresenta-se como capaz de conter seus membros a não cometer crimes. Gráfico 1 Referências - AMARAL, Luiz Otavio. Violência e Crime, Sociedade e Estado. Compreendendo o problema. Disponível em: http://jus2.uol.com.br/doutrina/texto.asp?id=945. Acesso em 09 jun, 2009. - BRASIL. Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Disponível em : http://www.ibge.gov.br/home/. Acesso em 09 jun, 2009. - DURKHEIM, Émile. As regras do método sociológico. São Paulo: Ed. Martin Claret, 2001. - FERNANDO, Adelson. PONTES, Miquéias. Religião, Cultura e Controle Social: Os fundamentos da moral cristã. Disponível em: http://www4.mackenzie.br/fileadmin/Graduacao/ES T/Revistas_EST/III_Congresso_Et_Cid/Comunicac ao/Gt02/Adelson_Fernando__e_Miqueias_Pontes. pdf. Acesso em 09 jun, 2009. - FORACCHI, Marialice Mencarini. MARTINS, José de Souza. Sociologia e Sociedade (Leituras de introdução a Sociologia). São Paulo. Ed. Livros Técnicos e Científicos S.A., 1980. Contudo, encontramos exceções que devem ser explicadas por outro fator. Como exemplo, na cidade de Redenção da Serra a homogeneidade de crença religiosa atinge os 91,35%, mas encontramos taxa de homicídio relativamente alta, na casa dos 24,7 casos por 100 mil habitantes. Conclusão A proporção de crença religiosa é um fator importante na contenção da violência, porém não é um fator exclusivo. Em sua obra, quando trata de outros conceitos fora da teoria de fato social, Durkheim admite um enfraquecimento do poder da igreja, além de outros fatores influenciadores como por exemplo, o desemprego, o aumento da desigualdade social (FERNANDO, PONTES, P.2). Segundo Amaral, “... o declínio da normatividade intima (independente de juízos valorativos) da religião, tudo isto se não é determinante, por certo, é fortemente condicionante. ” (AMARAL, 2009) A realidade nos mostra a religião como um fator decisivo (mas não exclusivo), entre outros fatores influenciadores na contenção da violência. - MORAES, Manoel Ribeiro. 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