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ENSINO DE SOCIOLOGIA EM CUIABÁ E VÁRZEA GRANDE: ESTUDO DAS
CONDIÇÕES DE TRABALHO
Marlene Renck1
Marinete Covezzi2
Resumo
Apresenta-se neste artigo os resultados de uma pesquisa realizada com professores que
ministram a disciplina de Sociologia no Ensino Médio, nas escolas públicas de Cuiabá e
Várzea Grande. A decisão de pesquisar as condições de trabalho dos docentes de Sociologia
foi marcada pela necessidade em identificar quais são as reais condições de trabalho para o
futuro graduado em Ciências Sociais. Para realizar esse estudo buscou-se conhecer o universo
das escolas em que trabalham os profissionais, o bairro em que se encontram localizadas, a
estrutura física da escola, as condições em que são realizadas as atividades diárias e as rotinas
escolares ou relacionadas à docência, independentemente dos professores serem formados em
Ciências Sociais. Os dados da pesquisa foram obtidos por meio de questionário com 38
questões objetivas e subjetivas, às quais foram respondidas por 36 professores.
Metodologicamente, optou-se por uma abordagem que permitiu entender a concepção do
professor numa perspectiva psicossocial, bem como coletar e organizar dados, sem perder a
objetividade da pesquisa científica. Portanto, trata-se de um estudo de caso com um grupo de
36 professores. A análise dos dados evidenciou que os docentes investigados são submetidos
a situações precárias de trabalho, ao mesmo tempo, a situações de violência e a um processo
que indica controle e burocratização de seu trabalho, o que os deixam inseguros, insatisfeitos
e frustrados.
Palavras-chave: Sociologia; trabalho; trabalho docente; condições de trabalho
Resumen
Presentamos en este artículo los resultados de una investigación realizada con profesores que
enseñan la disciplina de sociología en las escuelas secundarias públicas de Cuiabá y Várzea
Grande. La decisión de investigar las condiciones de trabajo de los profesores de sociología se
ha caracterizado por la necesidad de identificar cuáles son las condiciones reales de trabajo
para el futuro graduado en Ciencias Sociales. Para realizar este estudio se buscó conocer el
universo de las escuelas en que trabajan los profesionales, el barrio en que ellas se encuentran,
la estructura física de las escuelas en que se llevan a cabo las actividades diarias y las
condiciones de enseñanza, independientemente de maestros que capacitados en Ciencias
Sociales. Los datos de la investigación fueron obtenidos por un cuestionario con 38 preguntas
objetivas y subjetivas, que fueron respondidas por 36 profesores. Metodológicamente, se optó
por un enfoque que permite entender la concepción del profesor en una perspectiva
psicosocial, así como la recopilación y organización de datos, sin perder la objetividad de la
investigación científica. Por lo tanto, es un estudio de caso con un grupo de 36 maestros. Las
análisis de los datos mostró que los profesores investigados se someten a situaciones de
trabajo precario, mientras que la violencia y a un proceso que indica el control y la
burocratización de su trabajo, lo que les deja inseguro, infeliz y frustrado.
Palabra clave: Sociología; trabajo; enseñanza; condiciones de trabajo.
1
Graduada em Ciências Sociais UFMT
2
Professora do Departamento de Sociologia e Ciência Política – ICHS UFMT
2
ENSINO DE SOCIOLOGIA EM CUIABÁ E VÁRZEA GRANDE: ESTUDO DAS
CONDIÇÕES DE TRABALHO
Marlene Renck
Marinete Covezzi
Introdução
A disciplina Sociologia entra como conteúdo no currículo do ensino secundário
brasileiro no início do século XX.
A inclusão dessa disciplina ocorreu a partir de um
movimento ocorrido na década de 1930, realizado por pensadores, professores e simpatizantes
da área das Humanidades, num cenário de diversas reformas na educação brasileira, em que a
disciplina foi considerada como importante para formação dos professores que atuariam nas
escolas brasileiras.
Apesar de a disciplina ter sido considerada importante, sua permanência no ensino
médio tem sido intermitente, sendo integrada e excluída dos currículos do ensino médio em
diversos momentos da história da educação brasileira (Meucci, 2000). Atualmente, após ficar
oficialmente fora dos currículos do ensino médio por quase trinta anos, retornou como
disciplina oficial, com a aprovação da Resolução CNE nº 04/2006, que instituiu as disciplinas
Sociologia e a Filosofia como disciplinas obrigatórias no ensino médio (BRASIL, 2006).
A importância dessa disciplina para o Ensino Médio, se encontra nas Diretrizes
Curriculares Nacionais para o Ensino Médio (DCENEM), que define como uma das tarefas da
disciplina Sociologia a preparação dos jovens para o exercício da cidadania e para o universo
do trabalho, em cumprimento ao artigo 22 da Lei de Diretrizes e Bases da Educação de 1996
(LDB). Tendo em vista que para essa disciplina ter êxito é necessário um corpo de professores
qualificados na área e condições de trabalho adequadas, esse estudo foi realizado no sentido
de se conhecer as condições em que trabalham os professores que atuam no Ensino Médio nas
escolas públicas estaduais de Cuiabá e Várzea Grande.
A pesquisa foi realizada com 36 professores que responderam um questionário com
questões objetivas e subjetivas sobre suas condições de trabalho. A análise dos dados foi
realizada com base em teorias que buscam definir o trabalho docente contemporâneo,
considerando essas teorias como fundamentais para se compreender essa modalidade de
trabalho. Desse modo, o artigo está organizado em duas partes, na primeira, far-se-á uma
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exposição de teorias e autores que analisam o trabalho docente e na segunda parte, será
apresentada a análise dos dados da pesquisa.
Trabalho docente
A análise sobre trabalho docente e as condições materiais em que se realiza essa
atividade, remete à compreensão desse tipo de trabalho. No dicionário Aurélio encontra-se a
seguinte definição: Docente é o profissional qualificado para o exercício de ensinar; mestre;
educador; professor (2003).
Em algumas análises econômicas o trabalho de ensinar tem sido considerado como
uma ocupação secundária em relação ao trabalho material, e, neste sentido, a docência fica
subordinada à esfera da produção, já que sua atribuição inicial é ensinar os trabalhadores para
o mercado de trabalho. Porém, para os autores da obra O Trabalho Docente, esta atividade
está:
(...) longe de ser uma ocupação secundária ou periférica em relação à
hegemonia do trabalho material, o trabalho docente constitui uma das chaves
para a compreensão das transformações atuais das sociedades do trabalho.
(TARDIF & Lessard, 2012, p. 17)
Na obra Profissão Professor (1999), Antônio Nóvoa, faz uma reflexão sobre uma
complexidade de concepções do “ser professor” que permeia a vida docente. Para o autor, é
importante refletir sobre a imagem e a função do professor ao longo do tempo e como elas se
estabelecem atualmente. Esse autor afirma que “[...] os professores estão presentes em todos
os discursos sobre a educação. Por uma ou por outra razão, fala-se sempre deles. Mas muitas
vezes está-lhes reservado o “lugar do morto” [...]” (p.10).
Outro autor, Mariano Fernández Enguita (1991), em sua obra A ambiguidade da
docência: entre o profissionalismo e a proletarização, considera que os docentes vivenciam
uma crise de identidade, mal estar social e ocupacional, vivendo em meio a uma polêmica
entre a profissionalização e a proletarização do trabalho docente. Mas, para esse autor, o nível
de formação do profissional docente é tão complexo, quanto o de outras profissões. E, por
esse fator, essa categoria de trabalhadores luta por ampliar sua autonomia no processo de
trabalho e distribuição da renda e prestígio social, que foi perdendo historicamente.
Ao discutir o exercício docente nesta comunicação, parte-se da compreensão que o
trabalho docente tem uma função específica e socialmente instituída, cujo cerne diz respeito
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às atividades de ensino de elementos da cultura considerados socialmente relevantes e que se
efetiva por meio de práticas pedagógicas. Mas, esses profissionais para realizar seu trabalho
enfrentam um sistema vulnerável, burocrático e fragmentado, se configurando como uma
atividade profissional que invade sua vida privada.
O trabalho docente atual acompanha o professor onde ele estiver, invade sua
intimidade, roubando-lhe o tempo do ócio, do espaço da criatividade, da observação, da
reflexão, do gestar projetos, que deveria ser uma das condições básicas para o trabalho
docente. Isso denota a perda de autonomia, de criatividade transformando o docente em um
mero transmissor de conteúdos, que no ensino médio pode ficar restrito ao conteúdo dos
manuais de ensino.
Dalila Andrade Oliveira (2004) em A Reestruturação do Trabalho Docente:
precarização e flexibilização, assinala que a década de 1990 foi marcada por um novo
processo a respeito das demandas educativas e desde os anos de 1960 ocorreu no Brasil, a
adequação da educação às exigências do padrão de acumulação fordista e às ambições do
ideário nacional desenvolvimentista, os anos de 1990 demarcam uma nova realidade: o
imperativo da globalização. (p. 1129).
Esse novo momento na educação brasileira implicou na mudança de paradigma que
norteava as ações educacionais. Portanto, as reformas educacionais desencadeadas nessa
década tiveram como base a educação para a equidade social, princípio firmado na
Conferência Mundial Sobre Educação para Todos, realizada em Jomtien, em 1990, para os
países mais pobres e populosos do mundo. Nessa conferência, parte-se do pressuposto que o
sistema escolar deveria preparar o aluno com as competências e habilidades necessárias para o
mercado de trabalho.
Atribui-se à educação escolar, um caráter de políticas sociais compensatórias, que
objetivasse a contenção da pobreza, ao democratizar o seu acesso. O sistema escolar deveria
ser reorganizado em sua composição, estrutura e gestão, sobretudo das redes públicas de
ensino, com medidas que alterassem a configuração de seus aspectos físicos e
organizacionais. Assentando-se essa proposta em conceitos de produtividade, eficácia,
excelência e eficiência, importando, mais uma vez, das teorias administrativas as orientações
para o campo pedagógico. (UNESCO, 1990)
Esta reestruturação levou a um novo paradigma, o trabalho docente não deveria ser
restrito as atividades de ensino, incluindo como função dos docentes a gestão da escola, com
dedicação dos professores ao planejamento. Além disso, algumas estratégias de gestão, como
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por exemplo, o comunitarismo, o voluntariado (Amigos da Escola), incidem e reforçam o
sentimento de desqualificação e de profissionalização do docente.
Espera-se que os professores preparem seus jovens alunos para ingressarem e
prosperarem na sociedade do conhecimento, e o professor devem despertar tal motivação,
bem como o raciocínio mais elevado, inventividade; que tenham iniciativa, liderança,
autonomia,
cooperação,
inteligência
coletiva,
confiança,
adaptação,
informação,
comunicação, inovação, transformação, flexibilidade, criação e aproveitamento de
oportunidades, entre outras.
Exige-se também dos professores que sejam os intermediários dessa mesma sociedade,
contribuindo com a compreensão crítica e reflexiva sobre os custos da economia do
conhecimento e das ambiguidades da globalização. (HARGREAVES, 2004).
Porém, como afirma Wanderley Codo (1999) em sua obra Educação: carinho e
trabalho, o trabalho docente é “um trabalho, na prática, desvalorizado, mas importante o
suficiente para que se culpe o professor por todas as mazelas da sociedade” (p.299).
A categoria dos professores que atuam na rede pública da educação básica tem
percebido um distanciamento entre o discurso que enaltece o valor da educação na construção
de uma sociedade melhor e a desvalorização no interior das práticas, “quer através do
tratamento precário que o Estado lhe reserva, vide os salários dos professores, quer porque
através da crise de emprego e das modificações do trabalho o diploma deixou de ser um
salvo-conduto para uma vida melhor”. (CODO, 1999, p.294).
Ocorrências como essas geram um clima de insegurança, tensão e estresse constantes
para professores, corpo técnico, funcionários e os próprios alunos e revelam um agravamento
nas condições de vida e trabalho dos docentes, interferindo, sobretudo, nos resultados do
trabalho docente.
Análise das condições de trabalho dos professores de Sociologia
Os dados da pesquisa foram sistematizados em três itens: no primeiro, apresentam-se
os dados do perfil socioeconômico, analisando dados sobre faixa etária, sexo, estado civil e
renda. No segundo item são analisados dados sobre a formação dos professores e suas
trajetórias enquanto professor de Sociologia. No terceiro item são analisadas as condições de
trabalho nas escolas.
Os dados do perfil socioeconômico dos professores indicam que 61,1% pertencem ao
sexo feminino (22) e 38,9% são do sexo masculino (14), embora não se tenha dados sobre o
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total de professores que atuam com o ensino médio nessas escolas, esses dados demonstram
uma tendência de que a maioria das vagas de Sociologia é ocupada por mulheres.
Quanto a idade, os dados indicam que a maioria dos professores são professores
jovens, e início da carreira (47,22%), na faixa etária de 26 a 34 anos; seguidos das faixas
etárias de 35 - 44 anos, e 45 - 54 anos, ambos correspondendo a 25%.
Quanto ao estado civil, 50% dos professores são solteiros, 36,11% casados, 5,56% são
desquitados ou separados judicialmente, apenas 2,77% vive união estável.
Em relação à renda, a maioria, dos professores (44,44%) declarou rendimento mensal
entre R$ 1.603,40 e R$ 2.290,60. A faixa de R$ 3.105,02 a R$ 3.415,51, corresponde a
16,67%; e as faixas de R$ 1.043,52 - R$ 1.603,39 e 2.290,61- R$ 2.519,65; correspondendo
ambas com (11,11%) dos professores. Apenas 2,78% declararam rendimentos entre R$
4.581,20 a R$ 5.039,30.
No segundo item, foram analisados os dados sobre o tempo de graduação, de atuação
como professor, área de formação, escolas que trabalham e jornada de trabalho.
Observa-se que, 94,44% (34) dos pesquisados trabalham predominantemente na rede
pública, apenas 5,6% (2) atuam tanto na rede pública quanto na rede privada.
Do universo pesquisado, 63,89% (23) pertencem ao quadro efetivo de professores,
enquanto que 36,11% (13) possuem contratos temporários de prestação de serviços.
Quanto aos dados sobre o tempo de conclusão da graduação, observa-se que a maioria
(38,89%) (14), concluiu a graduação entre 5 e 8 anos; 36,11%, e 16,67% concluíram entre 2
e 4 anos, apenas 3 professores estão graduados a mais de 12 anos.
Observa-se que há certa proporcionalidade entre o tempo de criação do curso de
Ciências Sociais na Universidade Federal de Mato Grosso (2003), a exigência de inclusão da
Sociologia como disciplina obrigatória no Ensino Médio e o tempo de conclusão da
graduação dos professores de Sociologia, o que leva à predominância de professores com
pouco tempo de formação.
Quanto à carga de trabalho semanal, observa-se que 14 professores lecionam entre 11
e 20 horas aula (39,0%), 15 professores lecionam entre 21 e 30 horas aula (41,6%) e 7
professores lecionam entre 31 e 40 horas aula (19,4%). Cabe destacar que as respostas obtidas
na pesquisa sobre a carga horária estão de acordo com o vínculo trabalhista, de 20, 30 ou 40
horas semanais. As horas que os professores necessitam para preparar suas atividades,
participar de projetos nas escolas, melhorar sua qualificação, bem como as condições de
deslocamento de uma instituição para outra, não estão computadas nessas horas, o que
ocasiona uso do tempo do lazer e/ou descanso para o trabalho.
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Quando questionados sobre o número de escolas que trabalham, 26 professor4es
(72,23%) trabalham em uma única unidade escolar; 8 (22,23%) professores trabalham em 2
unidades escolares; 1 (2,77%) professor trabalha em 3 unidades escolares e 1 (2,77%)
professor trabalha em quatro ou mais unidades escolares.
Observa-se
pelos
dados
analisados,
que
os
contratos
de
trabalho,
que
predominantemente são de escolas públicas exigem qualificação adequada, observa-se
também que não há valorização financeira e social. Os salários são muito baixos o que exige,
em alguns casos, que o professor dobre sua jornada de trabalho. Isso se agrava quando os
docentes são contratados temporariamente, o rendimento mensal diminui sensivelmente, uma
vez que não há vínculo trabalhista, inexistindo direitos sociais, apesar da jornada de trabalho
ser intensa, sujeita às mesmas condições dos demais docentes efetivos. A necessidade de atuar
em outras disciplinas para completar a carga horária, a utilização do tempo destinado ao lazer
e descanso para preparar suas atividades, tem exigido um esforço extra, sem a devida
valorização financeira e social.
Sobre as disciplinas que ministram 22,22% (8) responderam ministrar somente
Sociologia; o mesmo percentual 22,22% (8) ministra Sociologia e Filosofia; 16,67% (6)
ministram Sociologia e História; o mesmo percentual 16,67% (6) ministra Sociologia,
Filosofia e História; 8,32% (3) além da Sociologia ministram Geografia; 5,56% (2) Educação
Religiosa além da Sociologia; 5,56% (2) ministram História e Geografia além da Sociologia e
2,78% (1) responderam ministrar Sociologia, História, Geografia e Filosofia.
Sobre a área de conhecimento os dados demonstram que 41,67% (15) dos professores
que ministram a disciplina Sociologia são formados em outros cursos. Tal situação decorre do
fato de serem poucas as aulas de Sociologia em cada escola de Ensino Médio e os professores
para não lecionam em mais de uma unidade escolar, optam em trabalhar com outras
disciplinas para completar a carga horária. Esse fato ocorre em diversas localidades no país,
assim como, com professores de outras disciplinas das humanidades.
Quanto à formação complementar observa-se que 21 profissionais (58,33%)
responderam possuí-la, enquanto 15 profissionais (41,67%) responderam não possuir
formação complementar. Entre os que possuem formação complementar com pós-graduação,
57,14% possuem pós-graduação stricto sensu, em nível de mestrado, (4) são mestres em
História, 28,57%; (2) não especificaram seu mestrado, e 14,29% (1) são Mestres em Filosofia
e pretendem dar continuidade a sua formação.
Do universo de 15 professores (41,67%) que ainda não possuem formação
complementar, 14 (93,33%) responderam que acredita ser fundamental a educação contínua e
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apenas 1 (6,67%) não crê ser necessário. Deste número,, 1 (6,66%) possui Gestão Parlamentar
com Ênfase em Ciências Política, 1 (6,66%) tem Especialização em Docência no Ensino
Superior, 1 (6,66%) possui Especialização em Avaliação em Educação, 2 (13,35%) possuem
Especialização em Educação de Jovens e Adultos PROEJA, 1 (6,66%) possui Didática e
Docência em Ensino Superior, 1 (6,66%) tem Administração escolar e docência, 1 (6,66%)
tem Especialização em Gestão Escolar, 5 (33,34%) não identificaram e 2 (13,35%) não
especificaram sua especialização.
Sobre o ambiente em que se realiza o trabalho, as respostas evidenciam que a sala de
aula (41,68%) é o espaço predominante de realização das aulas de Sociologia. Porém, para
melhorar a interação, despertar o interesse e diferenciar as aulas, algumas alternativas
encontradas nas escolas são o uso da biblioteca (22,23%), o laboratório de informática
(5,56%), o auditório (13,89%) e aulas de campo (16,64%). A maior parte dos professores
pesquisados (55,56%) considera as condições oferecidas por esses espaços como razoáveis;
38,88% as consideram boas e 5,56% consideram ruins.
Do total pesquisado, 69,44% acreditam que os espaços/condições oferecidos
favorecem o ensino/aprendizagem, embora não sejam as condições ideais. Almejam melhor
infraestrutura técnico-didática, salas mais e melhor ventiladas/climatizadas, menor número de
alunos por turma, enfim, melhores condições sociais e de trabalho. Percebem que as aulas
melhor articuladas possibilitam ao aluno explorar com maior aproveitamento o material
didático oferecido, estimulando a dinâmica das aulas.
Consequentemente instiga os
estudantes à leitura e escrita – fundamentais para um bom desempenho escolar e social.
Quanto às condições em que são planejadas as atividades escolares, 66,66% dos
professores considera que dispõe de autonomia necessária para o fim proposto; 33,34%
considera que a autonomia concedida é relativa, correlacionada a um ethos autoritário, que faz
da escola a reprodutora de violências; o professor precisa convencer alguns alunos que
precisam estudar, enquanto aqueles que pretendem fazê-lo, não tem a devida atenção por parte
de professores, coordenadores e direção.
Para 75,54% (17) dos professores o ambiente de trabalho é estressante, burocrático,
desestruturado e desagradável; apenas 24,46% (4) julgam-o prazeroso, adequado e razoável.
Os professores enfatizam que as relações e condições de trabalho, de estrutura,
políticas sociais e educacionais, conferem ao cotidiano inúmeras situações que degradam os
vínculos entre o ambiente e o agente. Na escola esta característica se potencializa, já que são
muitas pessoas que por ali transitam, agem e interagem.
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Questionados sobre sua saúde, que é uma das variáveis do bem estar físico e
psicológico, que influencia no desempenho profissional, 47,22% (17) dos professores
responderam que fazem acompanhamento de rotina anualmente; 30,57% (11) fazem
acompanhamento médico somente quando necessário; 5,55% (2) fazem acompanhamento
semestralmente; o mesmo percentual faz acompanhamento mensal e 11,11% (4) não faz
nenhum tipo de acompanhamento médico. Note-se que este último grupo são professores do
sexo masculino. Analisando os dados até agora vistos, a saúde dos profissionais da educação
está intimamente relacionada às condições que o trabalho oferece.
A docência, pela característica peculiar da atividade - trabalho interativo necessita
além da qualificação adequada, condições físicas e psicológicas para desenvolvê-lo. Se o
profissional se afasta do ambiente de trabalho devido aos problemas de saúde, percebe-se que
as condições em que este é realizado, interferem no quadro. Foi observado que dores de
cabeça constantes, dores musculares e insônia são recorrentes entre os professores e muitas
vezes desencadeiam um quadro mais grave como estresse, hipertensão ou depressão.
Os professores também foram questionados sobre situações de violência contra os
professore que acarretam danos à saúde e as respostas foram: 13,88% (5) já tiraram licenças
médicas; 8,34% (3) já se afastaram temporariamente; 16,66% (6) pediram transferência de
escola; 8,34% (3) já tiraram licenças médicas ou abandonaram o cargo; 5,56% (2) solicitaram
transferência para outras escolas ou afastamentos temporários; 5,56% (2) solicitaram licenças
médicas, afastamentos temporários, transferências ou abandonaram o cargo; 16,66% (6)
solicitaram licenças médicas ou afastamentos temporários; 2,78% (1) abandonaram o cargo,
pois foi assaltado no momento da entrada na escola e 22,22% (8) não responderam.
As situações de violência contra os professores no ambiente escolar acarretam além de
desestímulo, estresse e diversos problemas de saúde, necessitando de afastamentos
temporários, licenças médicas, transferências e em casos mais graves, abandono de cargo. Os
tipos de doenças mais comuns são dores de cabeça/musculares constantes ocupam 44,44%;
gastrites, insônias, hipertensão, estresse, depressão ocupam 38,89% e 16,67% dos professores
não tiveram nenhum diagnóstico de saúde desfavorável. Na opinião dos pesquisados, 86,11%
acreditam que estas doenças podem estar relacionadas ao trabalho, enquanto que 13,89% não
creem nesta associação.
Considerações Finais
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Se os professores e suas condições de trabalho estão no centro do debate, no que diz
respeito à implantação de políticas para a melhoria da qualidade da educação, este estudo
indica que há um distanciamento grande entre o discurso que enaltece o valor da educação na
construção de uma sociedade melhor e a desvalorização no interior das práticas, “quer através
do tratamento precário que o Estado lhe reserva, vide os salários dos professores, quer
porque através da crise de emprego e das modificações do trabalho o diploma deixou de ser
um salvo-conduto para uma vida melhor”. (CODO, 1999, p.294)
No que diz respeito a aspectos do perfil socioeconômico, infere-se que os professores
pesquisados, predominantemente são mulheres, jovens entres 36 a 34 anos, solteiras, cuja
renda mensal compreende na faixa de R$ 1.603,40 a R$ 2.290,60. Além disso, em relação ao
vínculo de trabalho, 34 são professores somente na rede pública e destes, 23 são efetivos,
enquanto que 13 mantêm contrato temporário de prestação de serviços junto ao Estado – estes
dados são significativos porque demonstram a necessidade de concurso público, umas vez que
os direitos trabalhistas socialmente adquiridos, não são pagos aos contratados e o Estado se
desobriga de encargos trabalhistas e sociais, além de outras consequências ao longo da
trajetória desses trabalhadores.
Observa-se assim, que há certa proporcionalidade entre o tempo de criação do curso de
Ciências Sociais na Universidade Federal de Mato Grosso (2003), a exigência de inclusão da
Sociologia como disciplina obrigatória no Ensino Médio e o tempo de conclusão da
graduação dos professores de Sociologia, o que leva à predominância de professores com
pouco tempo de formação, pois os dados indicam que 14 dos pesquisados concluíram suas
graduações entre 5 e 8 anos e 13 entre 2 e 4 anos.
Cabe destacar que as respostas obtidas na pesquisa sobre a carga horária, estão de
acordo com o vínculo trabalhista de 20, 30 ou 40 horas semanais e a faixa predominante está
entre 21 e 30 horas semanais. As horas que os professores necessitam para preparar suas
atividades, participar de projetos nas escolas, melhorar sua qualificação, bem como as
condições de deslocamento de uma instituição para outra, não tem sido computada nessas
horas, o que ocasiona usos do tempo do lazer e/ou descanso para o trabalho. A questão da não
valorização da função docente é histórica, e se apresenta ligada ao processo de
institucionalização da função.
Pelo fato de serem poucas as aulas semanais de Sociologia em cada escola, além de
optarem por não se deslocar para outras unidades escolares, muitos professores ministram
outras disciplinas para completar a carga horária semanal, embora sejam formados em outros
cursos como História, Geografia, Pedagogia, Filosofia e mesmo Engenharia Elétrica. Conclui-
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se então, que embora haja um esforço da parte dos professores, a qualidade das aulas fica
comprometida, uma vez que cada disciplina possui sua especificidade. Predominam, neste
cenário, as formações complementares em pós-graduação stricto sensu, em nível de mestrado
em História e Filosofia, uma vez que ainda não está aprovado esse tipo de especialização para
a Sociologia em Cuiabá.
Quanto às condições em que são ministradas as aulas, as salas de aula são os espaços
predominantes embora não sejam os mais adequados. Os professores percebem que aulas
melhor articuladas possibilitam ao aluno explorar com maior aproveitamento o material
didático oferecido, estimulando a dinâmica das aulas.
Consequentemente, instiga os
estudantes à leitura e escrita – fundamentais para um bom desempenho escolar e social.
Quanto ao planejamento das aulas, a maior parte dos professores diz ter autonomia, embora
concorde que seja de forma relativa, pois a escola está correlacionada a um ethos autoritário,
que faz dela a reprodutora de violências. Admitem que seu ambiente de trabalho é estressante,
desgastante, burocrático e desagradável. Os professores enfatizam que as relações e condições
de trabalho, de estrutura, políticas sociais e educacionais, conferem ao cotidiano inúmeras
situações que degradam os vínculos entre o ambiente e o agente. Na escola esta característica
se potencializa, já que são muitas pessoas que por ali transitam, agem e interagem,
ocasionando problemas recorrentes de saúde, como dores de cabeça, dores musculares e
insônia que muitas vezes desencadeiam um quadro mais grave como estresse, hipertensão ou
depressão, algumas vezes afastando os professores de suas funções.
A docência, pela característica peculiar da atividade é um trabalho interativo, (Tardif
& Lessard, 2012) necessita, além da qualificação adequada, condições físicas e psicológicas
para desenvolvê-lo. Se o profissional se afasta do ambiente de trabalho devido a problemas de
saúde, as condições em que esse trabalho é realizado podem estar interferindo nas suas
condições físicas e de bem estar. Assim como ao fato de que ocupam posição desprestigiada
política e socialmente, e esse desprestígio ao mesmo tempo em que se expressa nas condições
objetivas às quais os docentes estão submetidos, as determina. São problemas estruturais,
relacionados ao lugar ocupado pelos professores socialmente, e também conjunturais,
estabelecidos na nova configuração do capitalismo na atualidade. É nessas condições de
trabalho que os docentes exercem sua função, desenvolvem aprendizagens que se cristalizam
como cultura escolar.
As análises aqui apresentadas merecem ser aprofundadas com novas pesquisas para
ser possível estabelecer relações entre as condições objetivas de trabalho dos professores, o
exercício da docência e a violência social, uma vez que podem auxiliar na compreensão das
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práticas estabelecidas, seja no sentido de valorizar as boas práticas, mas também de enfrentar
aquilo que pode estar contribuindo para situações de não aprendizagem dos alunos,
desestímulo dos professores e conflitos na escola. Compreender as formas como se dão o
trabalho docente e suas condições é fundamental para que se compreenda a função que a
escola exerce na sociedade.
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