António Alves de Matos, (ex-)presidente do Colégio da Especialidade de Reumatologia e membro do novo Conselho Directivo “Há um vazio entre os reumatologistas e o Colégio da Especialidade” Q Enquanto se aguarda as eleições nos Colégios das Especialidades que não apresentaram candidaturas, o Conselho Directivo (CD) eleito para o de Reumatologia espera pelo dia da tomada de posse. Foi, por isso, uma oportunidade única para falar com o presidente do CD do mandato anterior, enquanto não se sabe se irá também presidir o futuro. 12 uando, há 15 anos, ingressou na Direcção do Colégio da Especialidade de Reumatologia, tudo lhe parecia um pouco “nebuloso”. Volvidos vários mandatos, António Alves de Matos continua a lutar pela aproximação dos reumatologistas ao Colégio, salientando o seu papel essencial, em particular na promoção e na garantia da qualidade da formação prestada aos internos ao definir os critérios de idoneidade dos respectivos centros. B.I.: As eleições para o novo Conselho Directivo (CD) do Colégio da Especialidade de Reumatologia decorreram no passado dia 21 de Maio. Só havia uma lista, apresentada por si, que foi eleita. Sabe com quantos votos? A. Alves de Matos: Sei os resultados referentes às zonas Sul e Centro: dos cerca de 80 inscritos que compõem estas duas secções, houve 14 votos, 13 na lista A e um deles nulo, porque faltava a assinatura. Embora não tenha sido manifestado desagrado pelos reumatologistas que votaram, houve, na verdade, uma grande falta de participação. Houve mudanças na constituição do CD em relação ao mandato anterior? Mantêm-se no CD do Colégio, além de mim, o Dr. Luís Miranda, o Dr. Melo Gomes e a Dr.ª Maria João Salvador. A Dr.ª Maria José Santos foi substituída pela Dr.ª Viviana Tavares; o Dr. José Miguel Bernardes ocupou o lugar do Dr. José Pinto; a Dr.ª Manuela Costa substituiu o Dr. Carlos Rosa. Saíram também a Dr.ª Lúcia Costa, substituída pelo Dr. Sérgio Alcino, e o Dr. Guilherme Figueiredo, substituído pelo Dr. Mário Rodrigues. Deixe-me agradecer a todos os que agora abandonam a Direcção do Colégio a dedicação e interesse que manifestaram pela causa da Reumatologia. Foram todos excelentes Colegas. Vai continuar a presidir o Colégio de Especialidade de Reumatologia? O facto de eu ter organizado esta lista e de ter feito os convites não significa que serei o Presidente. Isso dependerá da decisão que for tomada na primeira reunião, que decorrerá após a tomada de posse do novo CD, a qual só acontecerá em Julho. O que propôs na candidatura a lista vencedora? Não é costume haver uma candidatura com um programa. Talvez o devamos fazer... Porém, temos em projecto uniformizar os exames de titulação, ou seja, os exames de final de estágio em Reumatologia, e dar mais atenção à formação e aos internos, sensibilizando-os para a vivência do Colégio e da própria especialidade. Por um lado, os internos parecem começar a ter interesse nisso, mas, por outro, os recém-especialistas não se estão a inscrever no Colégio da Especialidade. A inscrição no Colégio não é obrigatória? Para poderem verdadeiramente exercer a especialidade, os reumatologistas deveriam estar inscritos. Mas parece não haver nada que os obrigue…e não me consta que os “não-inscritos” estejam desempregados ou a dedicar-se a outra actividade. É uma das falhas dos mecanismos de controlo ou de regulação, não sei bem como lhe chamar. Em alguns hospitais, o reumatologista só necessita de apresentar um certificado que prova ter tido êxito no exame final para ser contratado… E isso não implica que esteja inscrito no Colégio. Mas considera que os reumatologistas não se apercebem da importância que tem o Colégio da Especialidade da Reumatologia? Só quem está ou tenha passado pela Direcção do Colégio é que se percebe a sua importância. A missão desta instituição, as decisões que têm de ser tomadas e as demais actividades envolvidas são desconhecidas da maioria. Durante o anterior mandato, tentei implementar uma estratégia de divulgação do Colégio, mas acabei por não o conseguir fazer, por incapacidade própria ou falta de tempo, apesar de a própria Ordem dos Médicos nos ter disponibilizado um local no site deles para o efeito. No futuro, considero ser essencial dar a conhecer o Colégio, os seus problemas e as actividades a que se dedica. E porquê este grau de abstenção tão elevado nas eleições do novo CD do Colégio? Porque os reumatologistas estão divorciados não só do Colégio, mas da própria Ordem dos Médicos. Isto na minha opinião, embora me pareça ser partilhada por muitos. Aliás, existe um certo afastamento da Ordem dos Médicos em relação aos verdadeiros problemas dos médicos. Eu próprio tentei fazer com que a Ordem dos Médicos se pronunciasse, por exemplo, sobre aspectos gerais dos critérios de idoneidade que se aplicassem a todos os centros de formação, como, por exemplo, o controlo de qualidade, a existência de um quadro fixo de pessoas dedicadas à formação e outros parâmetros básicos. Não conheço qualquer posição dos órgãos máximos da Ordem sobre estes assuntos. Mas o mais curioso é que existe um documento da lavra do Conselho Nacional Executivo, datado de 2002, mas que nunca foi posto em prática ou sequer divulgado perante os Colégios, e que formula os critérios com que devem ser avaliados os Centros de Formação. “Nuances” políticas... Foi este documento que utilizámos quando reformulámos o novo inquérito às capacidades formativas e à idoneidade dos Centros de Reumatologia. O mesmo se passa com o Programa de Formação de Reumatologia. Este não pode, na minha opinião – e que não é só minha, pois tem surgido esta questão a nível internacional –, ser apenas um programa de formação de ordem técnica… O médico não é somente um indivíduo que olha para um doente, descobre uma doença e a trata, abstraindo-se da pessoa, dos recursos existentes e da sociedade que os rodeia. Quisemos incluir estes vários aspectos no novo Programa de Formação, mas não nos permitiram. Só pudemos incluir o que estava estipulado na lei [Portaria 183/2006 de 22 de Fevereiro que aprova o novo Regulamento do Internato Médico] e que é meramente técnico. Toda a parte humana e social da actividade médica teve de ser colocada de parte, um assunto de que a própria Ordem dos Médicos deveria tomar conta, para além dos critérios de idoneidade que deveriam ser comuns a todos os centros de formação. E é também reflexo desse “divórcio” só ter havido uma lista candidata? Há um vazio entre os reumatologistas e a direcção do Colégio. Eu, quando não pertencia ao Colégio, não percebia muito bem a razão da sua existência. Há cerca de 15 anos, quando fiz parte, pela primeira vez, de um CD, e tive de assumir essa responsabilidade, é que percebi o quão era importante o Colégio. É, do ponto de vista institucional, o órgão da Reumatologia mais perto do poder político e que, assim, deveria ter mais impacto nas suas opiniões, mas que não tem tido a projecção adequada. Penso que isso se deve, por um lado, à política que a Ordem tem vindo a conduzir desde há muitos anos e, por outro, à nossa incapacidade em passar a mensagem aos especialistas. O “novo” Programa de Formação Mencionou atrás o novo Programa de Formação de Reumatologia, disponível inclusive no site da Sociedade Portuguesa de Reumatologia. Já está em vigor? O Programa de Formação foi finalizado há cerca de dois anos e aprovado pelo Conselho Nacional Executivo. Não está ainda em vigor, porque é necessária a sua publicação em Diário da O Programa de Formação é extremamente importante. É o bilhete de identidade da especialidade.” República. Desconheço porque não o foi, como, aliás, nenhum, de qualquer outra especialidade, o foi. Que pontos destaca deste Programa de Formação? O Programa de Formação é extremamente importante. É o bilhete de identidade da especialidade. Define, no fundo, os saberes e as competências inerentes à actividade profissional dos reumatologistas, delineando, também, as fronteiras da própria especialidade. Quais são as principais diferenças em relação ao anterior? O primeiro Programa de Formação, que tem mais de 20 anos, foi um marco na especialidade porque a definiu pela primeira vez. Constituía, no fundo, um repositório das patologias reumáticas. Este novo Programa de Formação, que começou a ser feito há cerca de 15 anos e ainda não foi publicado, como já disse, por circunstâncias que desconheço, tenta fornecer orientações sobre os modernos conteúdos dos saberes, competências e capacidades da Reumatologia. É extremamente didáctico neste sentido. Inclui também, como já referi, outro pormenor extremamente importante: a grelha de avaliação para o exame de titulação, que a respectiva portaria, publicada em 2006, define, e que é composto por três provas: teórica, prática e curricular. Em relação às avaliações teóricas escritas, estas têm tido grandes críticas, isso sim… Como antes não havia critérios de avaliação, ninguém contestava. Agora, com regras que incluem algum rigor e alguma objectividade na avaliação, há quem fique aborrecido. É normal… Penso que, se a grelha de avaliação for devidamente utilizada, todos terão a ganhar: candidatos e examinadores. Falou há pouco dos critérios de idoneidade dos centros de formação. Não existe, actualmente, forma de os assegurar? Actualmente, não há forma de comprovar o que os centros dizem cumprir ou possuir, à excepção da primeira visita, quando são inaugurados. Não existem recursos para uma vigilância sobre o cumprimento continuado de todas essas declarações que os centros obrigatoriamente nos fornecem todos os anos. Seria bem melhor que estes nos mostrassem, por exemplo, que têm procedimentos de controlo da qualidade. Penso que os novos Critérios de Idoneidade vão colmatar um pouco estas falhas. No seio das competências dos reumatologistas, as inerentes à ecografia do aparelho locomotor e à densitometria óssea já são consideradas no Programa de Formação? São competências que tiveram que ser consideradas opcionais, porque não podemos exigi-las a todos os internos e não podem ser consideradas como essenciais à própria Reumatologia. Por outro lado, a nossa organização formativa não está construída para dar formação formal desse tipo a todos os internos. De modo que, actualmente, alguns vão ao estrangeiro, nomeadamente a Espanha, fazer formação de alguns meses e voltam realmente a saber e a praticar a ecografia, por exemplo. Há, depois, um impasse entre os reumatologistas que detêm essas competências, e que as aplicam, e os mais novos. É um defeito bem português: não sabemos ou não conseguimos fazer escola... Que expectativas tem para este novo mandato? Em primeiro lugar, aumentar a qualidade dos centros de formação, se houver verbas financeiras e outros recursos. Mas é obrigação do próprio Colégio mostrar-lhes a necessidade de isso ser feito e de os sensibilizar para a melhoria da prestação dos serviços. Em segundo, passar a mensagem do próprio Colégio aos reumatologistas. Finalmente, uniformizar a prova teórica nacional, o que vai ser uma aventura; não faz sentido as provas variarem consoante os centros de formação. Se o Colégio arranjar um instrumento anual que seja aplicado aos internos, mais ou menos uniforme ao longo dos anos, isso será muito útil quer para os internos quer para o júri. Espero, por isso, que os colegas que me acompanham no novo CD venham com espírito de missão, de entrega e de dedicação a estes problemas. 13