PODER JUDICIÁRIO TRIBUNAL REGIONAL FEDERAL DA 5.ª REGIÃO GABINETE DO DESEMBARGADOR FEDERAL JOSÉ MARIA LUCENA APELAÇÃO CÍVEL n.º 570482/RN 0003933-68.2013.4.05.8400 APTE : IBAMA - INSTITUTO BRASILEIRO DO MEIO AMBIENTE E DOS RECURSOS NATURAIS RENOVÁVEIS REPTE : PROCURADORIA REGIONAL FEDERAL - 5ª REGIÃO APDO : ALESAT COMBUSTIVEIS SA ADV/PROC : ANA CAROLINA OLIVEIRA LIMA PORTO E OUTROS ORIGEM : 6ª VARA FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE (COMPETENTE P/ EXECUçõES FISCAIS) RELATOR : DESEMBARGADOR FEDERAL JOSÉ MARIA LUCENA EMENTA DIREITO ADMINISTRATIVO E AMBIENTAL. INFRAÇÃO AMBIENTAL. IBAMA. COMPETÊNCIA PARA FISCALIZAR. LICENCIAMENTO AMBIENTAL. TRANSPORTE DE PRODUTOS PERIGOSOS. EXIGÊNCIA DE LICENÇAS OPERACIONAIS DISTINTAS PARA MATRIZ E FILIAIS. 1. Embora não tenha sido o órgão competente para licenciar, o IBAMA possui competência para fiscalizar a atividade nociva ao meio ambiente, competência essa outorgada pelo próprio texto constitucional (art. 23, VI). Portanto, o exercício do poder de polícia ambiental, comum a todos os entes federativos, não está condicionado à competência para licenciar. 2. O licenciamento ambiental é do empreendimento e não, do empreendedor. Com efeito, o que se licencia é a atividade/o empreendimento, que pode causar impacto ambiental. Portanto, conforme deflui da lógica do licenciamento ambiental, nas atividades de impacto ambiental, em que se inclui o transporte de produtos perigosos, tanto a matriz como a filial devem possuir licença de operação. 3. A solicitação de autorização para o transporte de produtos perigosos exige a informação de todas as unidades da frota da transportadora, sendo vedada a utilização de veículos de terceiros. Sendo assim, não é possível que veículo da frota da matriz se utilize de autorização expedida especificamente para a frota da filial. 4. Na hipótese dos autos, a licença de operação concedida pelo Sudema (órgão estadual ambiental da Paraíba) para as atividades de transporte desenvolvidas pela filial, sediada na Paraíba, não acoberta as atividades de transporte da matriz (a autuada), estabelecida no Rio Grande do Norte –ainda que esta última estivesse em trânsito pelo primeiro Estado. Basta conferir a Licença de Operação apresentada para se concluir que foi ela expedida para o CNPJ 23.314.594/002740, constando expressamente, como local da atividade licenciada, o domicílio da filial, sendo ambos, CNPJ e domicílio, distintos dos da pessoa autuada. Apelação do IBAMA a que se dá provimento. ACÓRDÃO Vistos e relatados estes autos em que são partes as acima indicadas, decide a Primeira Turma do egrégio Tribunal Regional Federal da 5.ª Região, por gabJML/maa 1 PODER JUDICIÁRIO TRIBUNAL REGIONAL FEDERAL DA 5.ª REGIÃO GABINETE DO DESEMBARGADOR FEDERAL JOSÉ MARIA LUCENA APELAÇÃO CÍVEL n.º 570482/RN 0003933-68.2013.4.05.8400 unanimidade, dar provimento à apelação, nos termos do relatório e voto constantes dos autos que integram o presente julgado. Recife, 25 de setembro de 2014 (data do julgamento). JOSÉ MARIA LUCENA, Relator. gabJML/maa 2 PODER JUDICIÁRIO TRIBUNAL REGIONAL FEDERAL DA 5.ª REGIÃO GABINETE DO DESEMBARGADOR FEDERAL JOSÉ MARIA LUCENA APELAÇÃO CÍVEL n.º 570482/RN 0003933-68.2013.4.05.8400 RELATÓRIO O Desembargador Federal JOSÉ MARIA LUCENA (Relator): Trata-se de apelação interposta pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis –IBAMA contra a sentença de fls. 180-184, que julgou procedentes os embargos à execução fiscal, para determinar a desconstituição do crédito consubstanciado na CDA que instrui a demanda executiva. Entendeu o juízo a quo, em suma, que, embora o IBAMA tenha competência para fiscalizar as infrações ambientais, não restou caracterizada a infração discutida nos autos, pois a embargante acostou, em sua defesa administrativa, as licenças de operação concedidas pelos órgãos ambientais estaduais do Rio Grande do Norte (IDEMA) e da Paraíba (SUDEMA), assim como inexiste a obrigatoriedade de se portar cópia da Licença de Operação no interior do veículo. Em suas razões recursais (fls. 186-196), a apelante sustenta, primeiramente, a obrigatoriedade de a empresa transportadora de cargas perigosas portar a licença/autorização de transporte concedida pelo órgão ambiental competente. Alega, ainda, que, conforme o art. 7, § 4º, da IN IBAMA nº 31/2009, são necessários registros distintos, no Cadastro Técnico Federal, por matriz e filial. Nesse sentido, salienta que a Alesat Combustíveis, CNPJ 23.314.594/1000-00, com sede no Rio Grande do Norte, não comprovou possuir autorização para o transporte de carga perigosa na Paraíba, não suprindo tal exigência a licença de operação concedida a sua filial, de CNPJ 23.314.594/0027-40, estabelecida no último estado. Contrarrazões da Alesat Combustíveis S/A às fls. 199-202. RELATEI. gabJML/maa 3 PODER JUDICIÁRIO TRIBUNAL REGIONAL FEDERAL DA 5.ª REGIÃO GABINETE DO DESEMBARGADOR FEDERAL JOSÉ MARIA LUCENA APELAÇÃO CÍVEL n.º 570482/RN gabJML/maa 0003933-68.2013.4.05.8400 4 PODER JUDICIÁRIO TRIBUNAL REGIONAL FEDERAL DA 5.ª REGIÃO GABINETE DO DESEMBARGADOR FEDERAL JOSÉ MARIA LUCENA APELAÇÃO CÍVEL n.º 570482/RN 0003933-68.2013.4.05.8400 VOTO O Desembargador Federal JOSÉ MARIA LUCENA (Relator): Conforme contexto fático-probatório dos autos, caminhão da Alesat Combustíveis S.A (CNPJ 23.314.594/0001-00) estava transportando, no estado da Paraíba, produto perigoso (etanol anidro), quando foi parado em operação de fiscalização do IBAMA. A empresa foi, em seguida, autuada por fazer funcionar atividade potencialmente poluidora sem licença do órgão ambiental competente, o que configuraria infração ambiental nos termos do art. 66 do Decreto nº 6.514/20081 . Em defesa administrativa, a empresa (matriz), estabelecida no Rio Grande do Norte, apresentou Licença de Operação (LO) concedida pela Sudema (órgão estadual ambiental da Paraíba) para sua filial, a Alesat Combustíveis S.A, CNPJ 23.314.594/0027-40, com sede na Paraíba. A autarquia ambiental, contudo, rejeitou a licença apresentada, por considerar que ela foi expedida para CNPJ distinto do que constava na nota fiscal do produto transportado, em nome da matriz. Eis os contornos da lide a ser resolvida. Resta, então, saber se a licença operacional acobertava ou não as atividades da matriz, a autuada. Primeiramente, registro que, embora não tenha sido o órgão competente para licenciar, o IBAMA possui competência para fiscalizar a atividade nociva ao meio ambiente a atividade nociva ao meio ambiente, competência essa outorgada pelo próprio texto constitucional (art. 23, VI). Portanto, o exercício do poder de polícia ambiental, comum a todos os entes federativos, não está condicionado à competência para licenciar. Nesse sentido, destaco os seguintes precedentes do STJ: AMBIENTAL. PROCESSUAL CIVIL. MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL. AÇÃO CIVIL PÚBLICA. LICENCIAMENTO AMBIENTAL. ZONA DE AMORTECIMENTO DO PARQUE NACIONAL DE JERICOACOARA. LEGITIMIDADE ATIVA AD CAUSAM. RECURSO ESPECIAL PROVIDO. 1. Em se tratando de proteção ao meio ambiente, não há falar em competência exclusiva de um ente da federação para promover medidas protetivas. Impõe-se amplo aparato de fiscalização a ser exercido pelos quatro entes federados, independentemente do local 1 “ Art. 66. Construir, reformar, ampliar, instalar ou fazer funcionar estabelecimentos, atividades, obras ou serviços utilizadores de recursos ambientais, considerados efetiva ou potencialmente poluidores, sem licença ou autorização dos órgãos ambientais competentes, em desacordo com a licença obtida ou contrariando as normas legais e regulamentos pertinentes: Multa de R$ 500,00 (quinhentos reais) a R$ 10.000.000,00 (dez milhões de reais).” gabJML/maa 5 PODER JUDICIÁRIO TRIBUNAL REGIONAL FEDERAL DA 5.ª REGIÃO GABINETE DO DESEMBARGADOR FEDERAL JOSÉ MARIA LUCENA APELAÇÃO CÍVEL n.º 570482/RN 0003933-68.2013.4.05.8400 onde a ameaça ou o dano estejam ocorrendo, bem como da competência para o licenciamento. 2. O domínio da área em que o dano ou o risco de dano se manifesta é apenas um dos critérios definidores da legitimidade para agir do parquet federal. Ademais, o poder-dever de fiscalização dos outros entes deve ser exercido quando a atividade esteja, sem o devido acompanhamento do órgão competente, causando danos ao meio ambiente. 3. A atividade fiscalizatória das atividades nocivas ao meio ambiente concede ao IBAMA interesse jurídico suficiente para exercer seu poder de polícia administrativa, ainda que o bem esteja situado em área cuja competência para o licenciamento seja do município ou do estado. 4. Definida a controvérsia em sentido contrário à posição adotada no aresto estadual, deve ser provido o agravo regimental para dar provimento ao recurso especial, reconhecer a legitimidade do Ministério Público Federal e determinar o regular prosseguimento da ação. Agravo regimental provido. (AgRg no REsp 1373302/CE, Rel. Ministro HUMBERTO MARTINS, SEGUNDA TURMA, julgado em 11/06/2013, DJe 19/06/2013) PROCESSUAL CIVIL - ADMINISTRATIVO - AMBIENTAL - MULTA CONFLITO DE ATRIBUIÇÕES COMUNS - OMISSÃO DE ÓRGÃO ESTADUAL - POTENCIALIDADE DE DANO AMBIENTAL A BEM DA UNIÃO - FISCALIZAÇÃO DO IBAMA - POSSIBILIDADE. 1. Havendo omissão do órgão estadual na fiscalização, mesmo que outorgante da licença ambiental, pode o IBAMA exercer o seu poder de polícia administrativa, pois não há confundir competência para licenciar com competência para fiscalizar. 2. A contrariedade à norma pode ser anterior ou superveniente à outorga da licença, portanto a aplicação da sanção não está necessariamente vinculada à esfera do ente federal que a outorgou. 3. O pacto federativo atribuiu competência aos quatro entes da federação para proteger o meio ambiente através da fiscalização. 4. A competência constitucional para fiscalizar é comum aos órgãos do meio ambiente das diversas esferas da federação, inclusive o art. 76 da Lei Federal n. 9.605/98 prevê a possibilidade de atuação concomitante dos integrantes do SISNAMA. 5. Atividade desenvolvida com risco de dano ambiental a bem da União pode ser fiscalizada pelo IBAMA, ainda que a competência para licenciar seja de outro ente federado. Agravo regimental provido. (AgRg no REsp 711405/PR, Rel. Ministro HUMBERTO MARTINS, SEGUNDA TURMA, julgado em 28/04/2009, DJe 15/05/2009) Isto posto, passo ao exame do cerne da controvérsia, que consiste em saber, como visto, se a licença operacional concedida à filial serve também à matriz. O licenciamento ambiental é do empreendimento e não, do empreendedor. Com efeito, o que se licencia é a atividade/o empreendimento, que pode causar impacto ambiental. Nesse sentido, confiram-se os seguintes gabJML/maa 6 PODER JUDICIÁRIO TRIBUNAL REGIONAL FEDERAL DA 5.ª REGIÃO GABINETE DO DESEMBARGADOR FEDERAL JOSÉ MARIA LUCENA APELAÇÃO CÍVEL n.º 570482/RN 0003933-68.2013.4.05.8400 dispositivos da Resolução CONAMA nº 237, editada com fundamento no art. 10 da Lei nº 6.9382, a qual estabelece a Política Nacional do Meio Ambiente: Art. 2º- A localização, construção, instalação, ampliação, modificação e operação de empreendimentos e atividades utilizadoras de recursos ambientais consideradas efetiva ou potencialmente poluidoras, bem como os empreendimentos capazes, sob qualquer forma, de causar degradação ambiental, dependerão de prévio licenciamento do órgão ambiental competente, sem prejuízo de outras licenças legalmente exigíveis. § 1º- Estão sujeitos ao licenciamento ambiental os empreendimentos e as atividades relacionadas no Anexo 1, parte integrante desta Resolução. Portanto, conforme deflui da lógica do licenciamento ambiental, nas atividades de impacto ambiental, em que se inclui o transporte de produtos perigosos, tanto a matriz como a filial devem possuir licença de operação. Tenha-se em conta que a solicitação de autorização para o transporte de produtos perigosos exige a informação de todas as unidades da frota da transportadora, sendo vedada a utilização de veículos de terceiros3. Sendo assim, não é possível que veículo da frota da matriz se utilize de autorização expedida especificamente para a frota da filial. Aliás, é sintomático da exigência de licenças operacionais distintas para atividades vinculadas a CNPJ distintos o registro, no Cadastro Técnico Federal de Atividades Potencialmente Poluidoras ou Utilizadoras de Recursos Ambientais (art. 17, II, da Lei nº 6.9384), ser individual: a matriz e cada filial devem ter o seu próprio. É o que dispõe o art. 7, § 4º, da IN IBAMA nº 31/20095. Deste modo, in casu, a licença de operação concedida para as atividades de transporte desenvolvidas pela filial, sediada na Paraíba, não acoberta as atividades de transporte da matriz, estabelecida no Rio Grande do Norte. Basta conferir a Licença de Operação apresentada (fl. 70) para se concluir que foi ela expedida para o CNPJ 23.314.594/0027-40, constando expressamente, como local “ Art. 10. A construção, instalação, ampliação e funcionamento de estabelecimentos e atividades utilizadores de recursos ambientais, efetiva ou potencialmente poluidores ou capazes, sob qualquer forma, de causar degradação ambiental dependerão de prévio licenciamento ambiental.” 3 Ver fl. 71, em que consta a documentação exigida para o requerimento da autorização ambiental. 4 “ Art. 17. Fica instituído, sob a administração do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis - IBAMA: (...) II - Cadastro Técnico Federal de Atividades Potencialmente Poluidoras ou Utilizadoras de Recursos Ambientais, para registro obrigatório de pessoas físicas ou jurídicas que se dedicam a atividades potencialmente poluidoras e/ou à extração, produção, transporte e comercialização de produtos potencialmente perigosos ao meio ambiente, assim como de produtos e subprodutos da fauna e flora.” 5 “ § 4º O registro no IBAMA será distinto por matriz e filial” . 2 gabJML/maa 7 PODER JUDICIÁRIO TRIBUNAL REGIONAL FEDERAL DA 5.ª REGIÃO GABINETE DO DESEMBARGADOR FEDERAL JOSÉ MARIA LUCENA APELAÇÃO CÍVEL n.º 570482/RN 0003933-68.2013.4.05.8400 da atividade licenciada, o domicílio da filial, sendo ambos, CNPJ e domicílio, distintos dos da pessoa autuada. De resto, a Licença de Operação (fl. 45) concedida pelo Idema, órgão estadual ambiental do Rio Grande do Norte, para a matriz (CNPJ 23.314.594/0001-00) não cobre a atividade então realizada pela autuada. Como consta textualmente no documento, o empreendimento licenciado foi o “ transporte de cargas perigosas da Base de Combustíveis de Guamaré –BAGAM para postos de combustíveis” , sendo que a transportadora partiu desde a Usina de Cruangi S/A, localizada no Estado de Pernambuco (v. nota fiscal à fl. 69). Com fundamento nas razões acima, dou provimento à apelação do IBAMA. ASSIM VOTO. gabJML/maa 8