CONFIABILIDADE METROLÓGICA Análise e perspectivas dos processos de medição do laboratório de resistência elétrica do Inmetro Com o objetivo de prover maior confiabilidade metrológica para o seu laboratório de resistência elétrica, o Inmetro está implantando um sistema de padronização primária baseado no efeito Hall quântico [Zulmara Virgínia de Carvalho, Hélio Schechter e Janice de Brito Fernandes] A “Convenção do Metro” estabeleceu como uma das missões do Bureau Internacional des Poids et Mesures (BIPM) a guarda dos padrões internacionais de medida. Contudo, com o avanço do conhecimento científico, foi concedido aos próprios Institutos Nacionais de Metrologia (INM’s) o estabelecimento de seus padrões. Para garantir a equivalência destes, o BIPM ganha uma nova missão: operacionalizar o Acordo de Reconhecimento Mútuo (MRA, do inglês Mutual Recognition Arrangement), do Comitê Internacional de Pesos e Medidas (CIPM), entre os INM’s. Atualmente assinado por representantes de 67 institutos, o MRA é uma ferramenta que contribui na superação de barreiras técnicas, dinamizando economias que o atende. O Brasil é seu signatário desde sua implantação, em 14 de outubro de 1999 [1]. O acordo estabelece dois tipos de comparação que serão levados em conta para efeitos de avaliação dos INM´s: as comparações-chave e as comparações suplementares, assim como a operação de um sistema de qualidade, no Brasil, por meio da norma NBR ISO/ IEC 17025. Nesse contexto, o Comitê Consultivo de Eletricidade e Magnetismo (CCEM), do CIPM, no âmbito da grandeza resistência elétrica, realizou as seguintes comparações- chave: CCEM-K1, resistorpadrão de 1 Ω, CCEM-K2, resistores-padrão de 10 MΩ e 1 GΩ, que teve como título “Intercomparação de Resistência entre os Laboratórios do SIM - 2006/2007”, tendo como laboratório piloto o National Institute 150 • www.banasqualidade.com.br • Setembro • 2009 of Standards and Technology (NIST). Participaram do processo os INM´s que possuíam sistemas que apresentassem incertezas melhores que 0,5 Ω/Ω para os resistores de 1 Ω, melhores que 5 Ω/Ω para 1 MΩ e melhores que 50 Ω/Ω para 1 G Ω. A implantação do sistema Hall quântico no Lares viabilizará a participação das comparações-chave dos padrões baseados no efeito Hall quântico, o que aumenta a confiabilidade metrológica da instituição. Histórico dos resistores-padrão Em 1893, a unidade de resistência elétrica foi formalmente baseada no ohm de mercúrio e os padrões de trabalho, a ele rastreados, eram resistores confeccionados de uma liga de cobre, níquel e manganês: o manganin. Nesse período, os resistores eram construídos no Reichsanstalt, laboratório nacional da Alemanha. Após 1910, o ohm internacional foi mantido no “Nacional Bureau of Standards” por meio de um grupo de resistores de 1 ohm, de um tipo desenvolvido por E. B. Rosa. No começo de 1931, um novo tipo, com parede dupla, desenvolvido por J. L. Thomas, foi introduzido e, por muito tempo, foi usado exclusivamente para manter o ohm. Em função da dependência da resistência com a temperatura, todos esses resistores foram projetados para a imersão em um banho de óleo, para mantê-los em temperatura constante. Em termos de SI, o ohm é uma unidade derivada a partir da unidade de base ampère. A realização da unidade, segundo sua definição, CONFIABILIDADE METROLÓGICA (1) resulta em medições com reprodutibilidade na ordem de 10-7. A realização mais exata é obtida a partir de um capacitor calculável de ThompsonLampard [2]. Por outro lado, em 1980 o físico alemão Klaus von Klitzing e colaboradores descobriram o efeito Hall quântico (QHE, do inglês: Quantum Hall Effect) – que mudaria o cenário da metrologia elétrica! A partir do efeito, a unidade ohm não precisa mais ser realizada a partir de um artefato, podendo ser reproduzida em termos de constantes fundamentais da natureza, com um nível de exatidão na ordem de 10-9 [2-5]. O efeito é observado em um gás de elétrons bidimensional (2 DEG, do inglês: two-dimensional electron gas) que assume, na presença de campos magnéticos altos e em baixas temperaturas, valores quantizados de resistência (2) onde h é a constante de Planck, e é a carga elementar e i(=1, 2, 3,...) o nível de Landau ocupado no 2 DEG [4]. Laboratório de Resistência Elétrica do Inmetro – Lares. Atualmente, o Lares é rastreado ao BIPM a partir dos resistores padrão, de valores nominais 1 e 10 k, tipo Thomas e ESI-SR-104, respectivamente. Baseado nestes padrões, o Inmetro estabelece uma cadeia de rastreabilidade que assegura aos laboratórios secundários a ele referenciados a consistência às referências internacionais. A realização da escala do ohm se dá por meio de pontes comparadoras de fabricação da Measurements International Limited (MIL) e da Guildline Instruments. 152 • www.banasqualidade.com.br • Setembro • 2009 O Lares possui sete resistores do tipo Thomas, de valor nominal de 1 , dos quais 2 são padrões de referência, diretamente rastreados ao BIPM, que calibram os resistores de trabalho de baixo e médio valor ôhmico (100 Ω a 1 kΩ), como ilustra a figura 1. Para a calibração dos resistores de trabalho de altos valores ôhmicos (10 k Ω a 1 GΩ), o padrão de referência rastreado ao BIPM é um resistor tipo ESISR-104 de 10 kΩ. Por meio dos resistores de trabalho, é feita a calibração dos medidores digitais, transfers, décadas resistivas e pontes. Fabricado pela Leeds & Northrup Company, os resistores de referência TH1 e TH2, modelo 4210-B, tiveram sua primeira calibração, em 1967 e 1982 respectivamente, realizada em 25 oC e, nos anos seguintes, a 20 oC. Contudo, durante a 20a reunião do Comitê Consultivo de Eletricidade, em 1995, o BIPM alterou a temperatura de calibração dos resistores para 23 oC. A partir dessa resolução, uma avaliação do comportamento dos padrões de referência e de trabalho do Lares foi feita em função temperatura. Nessa análise, foram determinados os coeficientes de correção alfa e beta, de primeira e segunda ordem, respectivamente, relativos à expressão: (3) onde RT é a resistência na temperatura T (oC), R0 é a resistência na temperatura T0 e alfa e beta são constantes, alfa variando ligeiramente com a temperatura, como pode ser observado na figura 2. É esperado que alfa e beta não mudem significantemente com o tempo. CONFIABILIDADE METROLÓGICA Nos anos 80, acreditava-se que resistências-padrão exibiam uma sensibilidade insignificante em relação as mudanças de pressão ambiente (na média: a mudança de 0,02 bar, equivalente a 15 mm de Hg, resultaria em uma mudança de resistência de 0.03 ppm). Contudo, com a experiência e o aumento da exatidão das medidas, tal variação passou a ser importante (4) sendo necessário também obter o coeficiente de pressão gama para corrigir os valores medidos. Na expressão 4, Rp é a resistência na pressão p (kPa), R0 é a resistência na pressão p0 e gama é constante. Na figura 3 é possível ver que a incerteza relativa típica de uma realização do ohm é da ordem de 0,5 x 10-6. A partir de 1990, os resistores-padrão passam a ser calibrados por meio do efeito Hall quântico. Contudo, é com a utilização do comparador de corrente criogênico que a determinação na incerteza atinge sua melhor performace: 1,5 x 10-8. O comportamento da resistência de um padrão em função do tempo, t, é descrito por um modelo linear (5) que permite calcular a resistência a qualquer tempo, bem como sua incerteza. O comportamento da estabilidade e dos drifts dos sete resistores-padrão tipo Thomas do Lares, considerando as calibrações do últimos dez anos, pode ser visto na figura 4. Sistema Hall Quântico Baseado no efeito Hall quântico, o QHS é formado por duas partes: o sistema de referência (QHR, do inglês: 154 • www.banasqualidade.com.br • Setembro • 2009 Quantum Hall Resistance) e uma ponte comparadora de corrente criogência (CCC, do inglês: Cryogenic Current Comparator). O Lares adquiriu um QHS da parceria Cryogenics/NPL (National Physical Laboratory: órgão oficial de metrologia da Inglaterra), que foi entregue ao Inmetro em maio desse ano. O sistema de referência contém a amostra onde o QHE é produzido. Para tal, um dispositivo semicondutor, que produz o 2DEG, é mantido em 300 mK, por meio de um refrigerador 3He, e submetido a um campo magnético de até 14 T, gerado por um CONFIABILIDADE METROLÓGICA magneto supercondutor - essas condições são necessárias para a observação dos platôs Hall. A amostra é montada em uma ponta de prova, cuja construção permite medidas tanto dc quanto ac. Atualmente, a ponte CCC é o melhor instrumento para explorar a exatidão do QHE. O circuito da ponte dc contém duas fontes de corrente completamente independentes e isoladas, que fornecem corrente para dois resistores, um sob teste, permitindo que tais correntes possam ser comparadas e controladas com uma exatidão melhor do que 10-9. Além disso, com ele, calibrações a quatro terminais também são possíveis. O dispositivo, incluindo o detector de zero do SQUID, é montado dentro de uma única ponta de prova, que é instalada dentro de um criostato mantido a 4,2 K. Com a implantação do QHS, uma das expectativas é prover uma maior estabilidade dos resistores do Lares por meio da eliminação da incerteza histórica, isto é, a resultante da variação da resistência com o tempo. A partir de simulação numérica (figura 5), é possível calcular as incertezas expandidas dos padrões calibrados pelo Lares, considerando tanto incertezas de medição, quanto históricas. Tomando por exemplo o resistor de trabalho TH3, da figura 5, a expectativa é que sua incerteza expandida passe de 0,73 / para 0,11 / - análises preliminares em todos os resistores do laboratório indicam a mesma ordem de redução na incerteza expandida, a partir do uso do QHS. Comparações-chaves A partir da implantação do MRA, O BIPM tem a missão de coordenar as comparações-chaves – ferramenta que visa prover base técnica para acordos mais amplos no comercio internacional. Os resultados são disponibilizados na página do próprio BIPM. No caso do padrão de resistência Hall quântico e sua escala para outros valores de resistência, as medidas são conduzidas pelo BIPM desde 1993 e permanecem em andamento. O dispositivo de tranferência é o padrão Hall quântico e resistores do BIPM e são verificadas as reguintes razões de resistência: 100 ohms/RH(2), 10 k/100 , e 100 /1 . Os participantes das comparações-chaves de resistência (BIPM. EM-K12) são: Bureau National de Métrologie - Laboratoire Central des Industries Electriques (BNM-LCIE). France, EUROMET, 1993, [6]; Swiss Federal Office of Metrology (METAS). Switzerland, EUROMET, 1994, [7]; Physikalisch-Technische Bundesanstalt (PTB) Germany, EUROMET, 1995, [8]; National Physical Laboratory (NPL) United Kingdom, EUROMET, 1997, [9] e o National Institute of Standards and Technology (NIST). United States, SIM, 1999 – ver resultados na tabela 1 onde x é a diferença relativa entre o resultado medido no laboratório do INM e no BIPM e uc é a incerteza padrão combinada da medida. www.banasqualidade.com.br • Setembro • 2009 • 155 CONFIABILIDADE METROLÓGICA Tabela 1. Resultado das comparações-chaves dos padões de resistência baseadas no efeito Hall quântico entre o BIPM e outros INM’s Comparações-Chave entre o BIPM e Razões de resistência, padrões de resistência baseados no QHE. x/10-9 uc/10-9 x/10-9 uc/10-9 x/10-9 uc/10-9 BNM-LCIE -1.2 3.0 2.2 3.3 -3.2 4.4 METAS 0.9 1.7 0.1 1.8 0.8 2.7 PTB -0.6 1.9 -0.4 1.9 1.2 2.6 NPL 0.1 3.9 3.3 3.2 2.8 4.8 NIST 1.2 2.0 5.9 5.5 3.8 3.1 100 Ω/RH(2) 10 000 Ω/100 Ω 100 Ω/1 Ω O resultado, incluindo matriz de equivalências, das comparações chaves de razões de resistência coordenadas pelo BIPM com os institutos nacionais de metrologia da França, Alemanha, Inglaterra, Suíça e EUA foi publicado em 2000. Nesse contexto, a expectativa com a implantação do sistema Hall quântico no Lares é a participação das comparações-chave dos padrões baseados no efeito Hall quântico, o que aumenta a confiabilidade metrológica da instituição – conforme ilustra a figura 6. Além de viabilizar comparações-chaves com outros INM´s, que possuem o QHS, a implantação da padronização quântica da unidade ohm proporcionará mais estabilidade as medidas realizas no laboratório, o que se refletirá em valores menores de incerteza nos serviços de calibração. Referências [1] Bureau International des Poid et measures. Homepage disponível em http://www. bipm.fr/en/home/. Acesso em: outubro, 2007. [2] F. Delahaye, “Present State of Quantized-Hall-Resistance Metrology”, Metrologia, vol. 25, pp. 73-79, Springer-Verlag, 1988. [3] K. von Klitzing G Dorda and M. Pepper, “New Method for High-Accuracy Determination of the Fine-Structure Constant Based on Quantized Hall Resistance”, Phys. Rev. Lett., vol. 45, no. 6, pp. 494-497, Aug. 1980. [4] B. N. Taylor and T. J. Witt, “New Internacional Electrical Standards Based on the Josephson and Quantum Hall Effects”, Metrologia, vol. 26, pp. 47-62, SpringerVerlag, 1989. [5] L. Bliek, “Present Understanding of the Quantum Hall Effect”, Metrologia, vol 25, pp. 67-72, Springer-Verlag, 1988. [6] F. Delahaye and et al,“Comparison of quantum Hall effect resistance standards of the BNM-LCIE and the BIPM”, IEEE Trans. Instrum. Meas., vol. 44, pp. 258-261, 1995 [7] F. Delahaye and et al, “Comparison of quantum Hall effect resistance standards of the OFMET and the BIPM”, Metrologia, vol. 32, pp. 385-388, Springer-Verlag, 1995 [8] F. Delahaye and et al, “Comparison of quantum Hall effect resistance standards of the PTB and the BIPM”, Metrologia, vol. 34, pp. 211-214, Springer-Verlag, 1995 [9] F. Delahaye and T. J. Witt,“Comparison of quantum Hall effect resistance standards of the NPL and the BIPM”, Rapport BIPM-99/18, BIPM Publications, 1999 Zulmara Virgínia de Carvalho, Hélio Schechter e Janice de Brito Fernandes são servidores do Inmetro - [email protected]; [email protected]; [email protected] 156 • www.banasqualidade.com.br • Setembro • 2009