PARECER Proposta de Calendário Venatório para a Época Venatória de 2006/2007 Reunidos alguns contributos, a LPN elaborou um parecer geral à Proposta de Calendário Venatório para a Época Venatória de 2006/2007, passando a expor-se as principais considerações registadas. A LPN considera que a diferenciação positiva nos terrenos ordenados, com maiores períodos de caça, deveria ser alargada às espécies migradoras, pelas mesmas razões invocadas para as espécies residentes. Contudo, os limites diários máximos terão que existir, mesmo nos terrenos ordenados, visto serem espécies migradoras ou com grande mobilidade. A contaminação das zonas húmidas pelo chumbo das munições usadas na caça e a sua influência (saturnismo) nas populações de patos, por exemplo, é um problema real, reconhecido na maioria dos países europeus, mas ao qual Portugal continua sem dar resposta, apesar de alguma informação científica estar já disponível a nível nacional. Este problema é mais uma vez esquecido perdendo-se uma boa oportunidade de lançar as bases para uma profunda mudança. Estudos levados a cabo em países onde a caça com chumbo foi já abolida demonstram que a toxicidade persiste muito após o fim do uso destas munições dado que o chumbo fica acumulado no solo e disponível para ingestão. É imperativo que o uso do chumbo das munições de caça seja banido no mais curto espaço de tempo possível. A LPN considera que não faz sentido que o limite diário da galinha-d’água seja de 10 exemplares, pois embora seja uma espécie comum, é basicamente residente e as densidades actuais são reduzidas. Com estes valores, pode-se extinguir a espécie nalguns locais. A LPN sugere a alteração para um limite diário de 3 a 5 animais. Considerando que a caça da galinha-d’água foi separadas dos patos e galeirões, com o objectivo de melhorar a gestão das populações, então convirá separar também os seguintes grupos: - Galeirão (populações nacionais também basicamente residentes), limite diário sugerido de 3 animais; 1 - Pato-real e Frisada (o primeiro é basicamente residente e a segunda tem populações residentes, para além dos invernantes – é também a menos abundante), limite diário de 5 animais; - Restantes patos – limite diário de 5 animais. Assim promovem-se as populações nacionais, mantendo-se ou aumentando-se os limites diários máximos no Inverno como compensação. Relativamente ao início da caça aos patos, galeirões e galinhas-d’agua, a LPN considera que deve ser adiado, idealmente para o início de Outubro (como no regime geral). No entanto, uma solução de compromisso seria nos terrenos não ordenados começar em simultâneo com o regime geral (como se faz em Espanha e em França) e nos terrenos ordenados começar no último Domingo de Agosto. Em França, esta foi a data adoptada para a abertura antecipada em algumas zonas húmidas. As razões para este atraso na abertura da caça a estas aves aquáticas são: – Mais de 50% das fêmeas de Pato-real estão a fazer ou têm de fazer a muda das penas primárias depois de 15 de Agosto, com mais de 30% depois de 1 de Setembro e mais de 8% depois de 1 de Outubro (ver artigo em anexo), logo estas estão mais vulneráveis à caça porque não voam ou voam mal, e mesmo que o voo não seja limitativo, estão mais vulneráveis à caça pois têm baixa condição corporal e têm de procurar mais alimento que os machos, logo expõem-se mais; – Na segunda quinzena de Agosto ainda há alguns juvenis de Pato-real que não voam (ver artigo em anexo); – No caso das Frisadas, como nidificam mais tardiamente que os patos-reais, logo os valores indicados correspondem a 2 a 4 semanas mais tarde, relativamente ao patoreal; – No início de Outubro a maioria dos machos já têm plumagem nupcial, logo são melhores troféus e permitem uma selecção positiva por parte dos caçadores, que devem poupar as fêmeas; – Nos arrozais a taxa de patos não recuperados é muitas vezes superior aos patos recuperados, logo não é sustentável; – No Verão os agricultores queixam-se mais do arroz que os caçadores estragam do que o que os patos comem. Nos terrenos não ordenados a caça às aves aquáticas deveria acabar no fim da geral (Dezembro), incluindo a caça às Narcejas pois são mortos muitos patos em Fevereiro quando andam a caçar Narcejas no terreno livre. Esperando que estes contributos possam ser considerados válidos e tidos em conta na revisão do calendário venatório para 2006/2007, a LPN coloca-se à disposição para quaisquer esclarecimentos adicionais. Lisboa, 19 de Maio de 2006 A Direcção Nacional LIGA PARA A PROTECÇÃO DA NATUREZA A Liga para a Protecção da Natureza (LPN), fundada em 1948, é uma Organização Não Governamental de Ambiente (ONGA) de âmbito nacional. É uma Associação sem fins lucrativos com estatuto de Utilidade Pública. É membro do EEB (European Environmental Bureau), IUCN-The World Conservation Union, CIDN (Conselho Ibérico para a Defesa da Natureza), MIO-ECSDE (Mediterranean Information Office for Environment, Culture and Sustainable Development), SAR (Seas at Risk), EUCC (European Union for Coastal Conservation) e é a Agência Nacional do Centro Naturopa do Conselho da Europa. 2 Trabalhos nacionais que abordaram o problema do Saturnismo Teses Rodrigues, D.J.C. 2001. Ecologia e Ordenamento de Populações de Pato-real (Anas platyrhynchos L.) em zonas húmidas de Portugal. Tese de Doutoramento. Instituto Superior de Agronomia, Universidade Técnica de Lisboa. 132 pp. Figueiredo, M.E.M.A. 2003. Ecologia e Ordenamento de Marrequinha (Anas crecca L.) no Centro de Portugal. Tese apresentada para a obtenção do grau de Mestre. Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra. 54 pp. Oliveira, D.M.C.A.T. 2004. Intoxicação e Quantificação dos teores de Chumbo em Anatídeos Selvagens. Tese apresentada para a obtenção do grau de Mestre. Universidade de Aveiro. 60 pp. Publicações Rodrigues, D.J.C. 1991. Estudo Biométrico e Alimentar de uma população de Patoreal (Anas platyrhynchos L.) dos arrozais do Baixo Mondego. Trabalho de Fim de Curso de Engenharia Florestal. Instituto Superior de Agronomia, Universidade Técnica de Lisboa. 25 pp. Rodrigues, D.J.C. 1998. Dieta Estival e Risco de Saturnismo do Pato-real (Anas platyrhynchos) nos arrozais da Quinta do Canal. Airo 9: 33-40. Rodrigues, D.J.C., Figueiredo, M.E.M.A. & Fabião, A.M.D. 2001. Mallard Lead Poisoning Risk in Central Portugal. Wildfowl 52: 169-174. Rodrigues, D. & Fabião, A. 2001. O Saturnismo nas aves aquáticas. Qual é a real gravidade da situação em Portugal? Calibre12 113: 17-22. Rodrigues, D., Figueiredo, M. & Fabião, A. 2003. Calendário venatório para aquáticas. Porque é que se deve cumpri-lo? Calibre12 143: 18-22. Comunicações Rodrigues, D.C., Figueiredo, M.E. & Fabião, A. 2001. O Risco de Saturnismo em Pato-real (Anas platyrhynchos L.) do Centro de Portugal. III Congresso de Ornitologia da Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves – SPEA. Novembro, Castelo Branco. Rodrigues, D., Figueiredo, M., Fabião, A. & Tenreiro, P. 2001. Será a exploração cinegética de Anatídeos e Ralídeos uma utilização sustentável da diversidade biológica? Um exemplo no Baixo Mondego. IV Congresso Florestal Nacional. Novembro, Évora. Rodrigues, D.J.C. 1995. Dieta Estival e Risco de Saturnismo do Pato-real (Anas platyrhynchos) nos arrozais da Quinta do Canal. Simpósio sobre Ecologia Alimentar de Aves. SPEA. Dezembro, Lisboa. Rodrigues, D., Figueiredo, M., Oliveira, D., Fabião, A., Vaz, M.C., Sarmento, G., França, J. & Bacelar, J. 2003. Duck Lead Poisoning in Portugal. 26th Congress of the International Union of Game Biologists – IUGB. Setembro, Braga. Rodrigues, D., Figueiredo, M., Oliveira, D., Fabião, A., Vaz, M.C., Sarmento, G., França, J. & Bacelar, J. 2002. Saturnismo em populações portuguesas de Anatídeos e Ralídeos. Impacto nas suas taxas de sobrevivência e acumulação de Chumbo nas rapinas suas predadoras – resultados preliminares. I Encontro Ibérico de Recuperação e Conservação de Fauna Selvagem. Outubro/Novembro, Castelo Branco. Oliveira, D., Rodrigues, D., Figueiredo, M., Fabião, A. & Bacelar, J. 2002. A intoxicação por Chumbo em patos selvagens. Colóquio sobre a Sanidade da Fauna Silvestre e a Conservação da Natureza. Novembro, Coimbra. Rodrigues, D., Figueiredo, M., Oliveira, D., Fabião, A., Vaz, M.C., Sarmento, G., França, J. & Bacelar, J. 2003. “Poster” Saturnismo em Anatídeos de Portugal. IV Congresso de Ornitologia e II Jornadas Ibéricas de Ornitologia. Novembro/Dezembro, Aveiro. 3 Rodrigues, D., Figueiredo, M., Oliveira, D., Fabião, A., Vaz, M.C., Sarmento, G., França, J. & Bacelar, J. 2005. O Saturnismo em Anatídeos de Portugal. Para quando uma solução? V Congresso Florestal Nacional. Maio, Viseu. 4