PARTE II
COMPORTAMENTO
MANUTENÇÃO .............................................................................................
Geral ..................................................................................................
Reação ...............................................................................................
Variedades de Comportamento Reativo ..................................................
Comportamento Reflexo ....................................................................
Comunicação e Vocalização ..............................................................
Reatividade Submissa e Preventiva ..................................................
Reatividade Agonística ......................................................................
Ingestão .............................................................................................
Cuidado Corporal ...............................................................................
Movimento ..........................................................................................
Comportamento Exploratório .............................................................
Comportamento Territorial .................................................................
Descanso e Sono ...............................................................................
Associação .........................................................................................
Aspectos de Sanidade da Manutenção .............................................
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COMPORTAMENTO SOCIAL E AFILIAÇÃO ............................................... 1097
RELAÇÕES SOCIAIS ENTRE O HOMEM E OS ANIMAIS .......................... 1098
COMPORTAMENTO SOCIAL DAS ESPÉCIES ...........................................
Comportamento Social dos Cães ............................................................
Comportamento do Filhote ................................................................
Comportamento Social dos Gatos ...........................................................
Comportamento Social dos Grandes Animais .........................................
Comportamento Social das Galinhas ......................................................
Comportamento Social dos Perus Domésticos .......................................
Comportamento Social dos Patos ...........................................................
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COMPORTAMENTO REPRODUTIVO ..........................................................
Fêmea .....................................................................................................
Macho .....................................................................................................
Comportamento Coital .............................................................................
Características do Comportamento Reprodutivo em Aves Domésticas ..
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ESTRESSE COMPORTAMENTAL ............................................................... 1108
Controle de Síndromes Comportamentais ............................................... 1114
Síndromes .......................................................................................... 1115
SANIDADE ANIMAL .....................................................................................
Introdução ................................................................................................
Características .........................................................................................
Objetivos ..................................................................................................
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Comportamento 1086
COMPORTAMENTO
MANUTENÇÃO
Muito organizado, o comportamento “padrão” é reconhecido em animais domésticos e de laboratório como parte importante de sua programação genética relacionada à manutenção. Ações cinéticas, ingestivas e reativas inerentes representam
atividade comportamental importante; estas incluem reação, ingestão, cuidado
corporal, movimento, exploração, territorialismo, descanso e associação. Podem
ser expressas regularmente, ou de acordo com a necessidade das circunstâncias,
ou ainda, podem-se sobrepor a fim de serem expressas simultaneamente, ou de
serem substituídas de acordo com as exigências de bem-estar. Esta interação
de várias modalidades etiológicas como método principal de integração entre o
animal e o ambiente pode ser descrita como um ecossistema.
O comportamento de manutenção, muito do qual é geneticamente determinado,
é motivo de trabalho, um fator biológico de suma importância como meio de tática
de existência. A homeostasia comportamental, assim como a física, determina a
aptidão biológica do animal no ambiente ao qual ele tem de se adaptar. Assim, o
comportamento típico de uma espécie contribui para a aptidão biológica de forma
que tais aptidões e produtividade estejam em considerável associação.
A maior parte da produção animal é baseada em manutenção. Por exemplo, a
produtividade depende do comportamento ingestivo e de autopreservação eficientes: a seleção para o crescimento pode ser baseada grandememente na seleção de
comportamento ingestivo. O comportamento de produção, entretanto, não é isolado;
o comportamento é uma seqüência de componentes. Os comportamentos espacial
e social inatos representam outras atividades comportamentais importantes, que
podem ser vistas como necessidades etológicas adicionais no interesse da integridade funcional do animal e sua harmonia com as circunstâncias da domesticação.
Geral
Várias formas de comportamento de manutenção servem a vários propósitos. As
reações são usadas pelos animais como precauções de segurança, formas de
expressão e manifestação de sua presença, estado e intenção hipotética. São
formas importantes de comunicação entre animais, a base de um estado equilibrado
de entendimento. Grande parte do comportamento de consumação, logicamente,
relaciona-se à manutenção. O movimento é um componente importante do estímulo
equilibrado que um animal exige. A liberdade substancial de movimento, o uso do
ambiente e a associação com os outros são claramente exigidos para produzir uma
variedade de atividades comportamentais incluídas nos comportamentos de manutenção.
Os comportamentos de manutenção devem ser restritos a um certo grau em
sistemas protetores de criação, por exemplo, o comportamento ingestivo é inibido
em ungulados, os quais são geneticamente codificados para pastar e procurar
alimento, ao passo que o confinamento proíbe tal comportamento. A criação
restritiva também reduz a atividade afiliativa e, como resultado, os animais confinados não podem sempre expressar harmoniosamente um comportamento social
organizado. Uma vez que alimento e abrigo são providenciados, os animais não
requerem o uso de todos os comportamentos de manutenção que não são, ou
podem não ser, exibidos nestas circunstâncias; entretanto, estes ainda devem ser
reconhecidos em produção animal desde que surja a questão se tais comportamentos normais podem ser “inibidos” quando a sua manifestação é bloqueada, e então
ser expressos em momentos inapropriados.
Comportamento 1087
A homeostasia etológica tipicamente envolve multissistemas ligados ao comportamento, resulta da motivação variada e providencia manutenção com sucesso (ver
TABELA 1). Atividades autodeterminantes são quase sempre complexas e envolvem
comportamento intencional, por exemplo, a procura associa, seleção de comida,
escolha de locais para descanso e excreção, e desenvolvimento arranjos sociais.
Estas atividades contribuem para a função composta do animal, da qual o propósito
é a integração do animal com seu ambiente. As manifestações refletem necessidades comportamentais com variabilidade de animal para animal e de momento para
momento.
Os animais buscam homeostasia não apenas para comer, beber e socializar,
mas também para recompensar um ambiente “enfadonho” por um menos monótono, ganhar acesso a companhias sociais quando mantidos em confinamento
solitário e evitar a dor e extremos ambientais. Enquanto um estímulo exagerado
pode agir como agente estressante, os animais também podem-se esforçar para
evitar um estímulo muito leve. Assim sendo, em alguns tipos de criação, a
subestimulação é tão estressante quanto a superestimulação.
Reação
O comportamento reativo é uma classe primária de atividades utilizadas pelos
animais para mantê-los em harmonia com o seu ambiente e ajustá-los a mudanças
ambientais súbitas que são efetiva ou potencialmente prejudiciais. Estão incluídos
o comportamento reflexo, a comunicação, as reações preventiva e submissa e o
comportamento agonístico. Todos se relacionam às muitas circunstâncias rotineiras
como parte do manejo normal de animais de fazenda.
As formas de comportamento que são um resultado de animais associados a
outros são variadas, e mostram o substrato das atividades sociais na vida em
rebanho. Devido ao fato do confinamento reduzir a oportunidade para atividades
sociais, os de animais confinados não podem ser capazes de expressar seu
altamente organizado comportamento social normal; daí, tal oportunidade ser um
componente importante da saúde animal.
A sensação de movimento é uma exigência importante de animais para a
manutenção de um relacionamento funcional com o seu ambiente. O esforço
muscular que acompanha o movimento voluntário é hoje considerado como uma
exigência sensorial de função animal. O sistema sensorial cinético responde ao
estresse mecânico devido à gravidade agindo no corpo de acordo com mudanças
no movimento e posição. Este é um componente do arsenal de estímulos para que
o animal crie uma mistura de sensações.
O fenômeno total de reatividade é um comportamento estímulo-dependente e
portanto funciona como uma chave importante através da operação dos sentidos.
Os órgãos dos sentidos detectam estímulos específicos e gerais e os transferem,
aos receptores internos no sistema nervoso; quando devidamente sensibilizado,
direcionado e acionado, o comportamento reativo aparece como resposta motora.
O movimento resultante abrange várias formas, da atividade reflexa no nível da
medula espinhal, até toda uma série de ações conativas com informação sensorial
processada no nível cortical. As ações conscientes estão envolvidas em muitas
reações ambientais, tais como a escolha de comida e abrigo.
Muito da reatividade é influenciado pelo sistema nervoso autônomo. Os efeitos
comportamentais principais de estimulação simpática relacionam-se aos estados
de medo ou raiva, e preparam o animal para “lutar ou fugir”. Alterações fisiológicas
específicas resultantes da estimulação simpática incluem pressão sangüínea e
batimentos cardíacos aumentados, expansão dos tubos brônquicos e supressão da
atividade gastrointestinal, tudo isso assegurando boa oxigenação da musculatura
Comportamento
1088
TABELA 1 – Características de Homeostasia Comportamental Relacionadas à Manutenção
Categoria
comportamental
Características primárias
Características secundárias
Cuidado corporal
Limpeza, procura de conforto
Evacuação, modos de comportamento excretório
Movimento
Alterações de posição e postura,
movimentos de exercício
Esforços investigativos e atenciosidade
Utilização de espaço individual para
funções básicas
Brincadeira e espreguiçamento
Sonolência, repouso e sono em
decúbito em fases diurnas
Ligações; atos sociais positivos, por
exemplo, afiliação
Inatividade em várias posições
Exploração
Territorialismo
Repouso
Associação
Atividades empíricas em geral
Comportamento possessivo no cuidado do abrigo e alimentação
Socialização, afinidade de grupo
Papel na manutenção
Três funções homeostáticas de higiene superficial, excreção e estado confortável são básicas para a saúde
Certos processos de movimento exigem expressão regular para manter a aptidão
Estímulo, com quantidade e variabilidade, necessário para satisfação sensorial e aprendizagem
Necessidades espaciais são tanto quantitativas
como qualitativas para várias exigências de
automanutenção, por exemplo, nutrição, abrigo, defesa, reprodução
Autoconservação física, restauração fisiológica
Associação a grupo social e estabilidade de
interação
Comportamento 1089
para ação instantânea. O sistema nervoso autônomo também age como integrador
comportamental; todo o seu papel se resume na modulação e elaboração da
intensidade das respostas comportamentais, em geral, e comportamento emocional
em particular.
VARIEDADES DE COMPORTAMENTO REATIVO
Algumas reações são autodeterminantes, outras são genéricas; a maior parte
delas são respostas corporais, outras são vocais; algumas são positivas, algumas
são negativas. Entre as várias formas, várias classes importantes de reatividade
podem ser reconhecidas, incluindo: 1. ação reflexa; 2. comunicação e vocalização;
3. resposta a fatores ambientais específicos (inclusive sazonais); 4. reação preventiva; 5. reação reprodutiva; 6. reação agonística. Algumas reações envolvem
combinações destas categorias.
Comportamento reflexo
Muitas formas de comportamento reativo ocorrem como simples reflexos, por
exemplo, extensão ou retração de um membro em resposta à dor local. A reação
à dor, junto com a sensação (de alguma forma), pode estabelecer a base do
sofrimento. Os reflexos dos membros têm funções protetoras ou posturais. A
evacuação reflexa (envolvendo defecação ou micção súbitas) é comum, por
exemplo, em bovinos e ovinos seguindo-se a uma invasão de seu espaço
individual. Os esforços reflexos de fuga são prontamente vistos em animais postos
subitamente em contenção fechada. A vocalização reativa ocorre imediatamente
após a separação de pares formados e em outras formas de rompimento de grupo.
Os reflexos de orientação podem ser negativos, como quando os bovinos direcionam
seus quartos traseiros em direção à chuva em curso. O papel homeostático da
reatividade coletivamente compreende uma grande variedade de comportamentos que ocorrem como respostas reativas.
Comunicação e vocalização
Sons vocais, individual e coletivamente, podem ser de considerável uso nos
ajustes dos animais às suas circunstâncias. A comunicação, que usa linguagem
corporal e fonação em vários graus, é uma característica importante de reatividade.
A vocalização, particularmente em reatividade social, é uma característica de
comunicação; por exemplo, sinais vocais ocorrem como trocas entre mãe e neonato,
entre macho e fêmea reprodutores, e por indivíduos ligados quando separados. À
medida que a reatividade aumenta, as vocalizações tendem a aumentar em volume,
quantidade e complexidade. Sons vocais graves freqüentemente acompanham
exibições de ameaça de machos adultos. Muitas vocalizações são incorporadas em
respostas relacionadas com alarme e ameaça.
Como característica principal de suas associações grupais, cães, ovinos, bovinos e eqüinos mantêm contato visual. Os suínos usam mais comunicação auditiva
com congêneres, enquanto gatos usam tanto contato visual como auditivo.
Reatividade submissa e preventiva
Durante a reunião de grupos ao natural ou em situações de alta densidade, os
indivíduos podem ser forçados a violar o espaço individual de outros. A reatividade
em condições tão próximas depende das posições hierárquicas dos animais. A
ordem hierárquica, quando estável, requer de cada animal: 1. reconhecimento de
indivíduos; 2. um encontro inicial quando a posição social é primeiramente estabelecida; 3. uma memória duradoura que permita a cada animal reagir ao outro de
acordo com o seu status social estabelecido.
Comportamento 1090
A reação preventiva mais notável é a fuga, que pode ser socialmente controlada
ou descontrolada. Quando a fuga do rebanho é controlada, os animais fogem em sua
ordem normal de viagem, na qual uma fêmea da alta posição hierárquica é
geralmente a líder. Quando ocorre pânico, há uma fuga descontrolada e desorganizada. A prontidão de fuga em eqüinos evoluiu como uma tática de sobrevivência
vital.
As reações preventivas entre indivíduos podem ser passivas ou ativas em
resposta à aproximação ameaçadora. A prevenção de uma relação de agressão na
forma de submissão social tem posturas características em cada espécie. Podem
variar da forma mais comum, um leve abaixamento de cabeça com desvio contrário
ao estímulo, até a exibição grosseira de submissão hipotônica na qual o animal
assume posição de repouso e nega-se a se levantar. Este último comportamento é
uma condição confundível quando uma doença intercorrente leva à prostração. O
reconhecimento de reações submissas é essencial no manejo de qualquer rebanho
doente ou “abaixador”, para assegurar que sua saúde receba consideração apropriada. A inércia geral, ou submissão, é uma característica comum, constituída por
um nível anormalmente baixo de reatividade a estímulos que geralmente levam a
alguma alteração de posição ou postura.
Reatividade agonística
O comportamento agressivo é quase sempre observado quando grupos de
animais são formados pela primeira vez. A produção de leite, o ganho de peso e
outras respostas fisiológicas podem ser afetados por vários dias durante as
interações sociais agressivas resultantes. Embora os ovinos raramente exibam
dominação social explícita, os machos competem no início de cada estação de
reprodução e podem exibir cabeçadas agressivas se as condições de criação
intensiva aumentarem a competição por comida, espaço ou área de descanso. As
cabeçadas em bovinos e ovinos, mordeduras de pescoço ou chutes em eqüinos,
olhares fixos e rosnados em cães, golpes em gatos, e empurrões e mordeduras em
suínos são atividades agonísticas comuns. A retaliação, prevenção, fuga e submissão são reatividades dependentes.
Luta – A reatividade típica de uma espécie é notável na forma de luta. Muitos
cães, gatos e eqüinos- problema são considerados imprevisíveis, sobretudo quando
agressivos, por exemplo, “mordedores de medrosos”. Sua resposta a um alarme ou
ameaça pode ser fuga (ou tentativa de fuga) ou ataque, dependendo grandemente
de seu temperamento, condicionamento e da situação específica. Todo o rebanho
reage a ameaças a distâncias estabelecidas, que variam com a reação potencial, o
indivíduo e as distâncias “críticas”, quando as áreas invisivelmente cercadas são
ameaçadoramente invadidas. Cada uma destas distâncias é o ponto no qual a dada
distância entre o animal e o sujeito que avança esteja tão reduzida que o animal
atingido possa reagir. Em distância de fuga, o animal fugirá do intruso se possível.
Se, entretanto, o intruso que se aproxima alcançar a distância crítica, o animal mais
provavelmente atacará. A distância individual circunda imediatamente o animal e é
reservada para conhecidos especiais. Estas distâncias variam de acordo com o
temperamento, experiência, treinamento domesticado, competição, alojamento,
alimentação, etc., inerentes ao animal.
A luta é mais intensa quando os adultos são colocados juntos pela primeira vez.
Se uma porca estranha for introduzida em um grupo estabelecido, o comportamento
agressivo coletivo do grupo direcionado ao estranho provavelmente irá resultar em
grave lesão física. Demonstrações de luta entre vacas não duram normalmente mais
do que alguns minutos, mas podem-se prolongar se os animais forem igualmente
correspondidos. Neste caso, o animal ao ser atacado por um lado vira-se paralelamente ao outro e empurra sua cabeça (e chifres) à região do flanco inferior do outro.
Comportamento 1091
Esta aproximação de flanco quase sempre interrompe a luta por vários minutos
antes de a ação ser recomeçada. Quando um animal se submete, ele se vira; se
nenhum se submete, a luta pode continuar até ambos se cansarem.
Simulação de luta – Como uma característica de reatividade social, a “simulação de luta” é observada como uma variante do brinquedo (ver pág. 1093). A forma
é de alguma maneira ritualizada, e ocorre em todas as espécies de animais de
criação quando estão agrupados. A atividade inicial é de solicitação, na qual o animal
que se aproxima vai de encontro ao animal associado com engraçados movimentos
de cabeça. A fase seguinte é geralmente uma luta na qual um empurra ou aplica o
peso sobre o outro; é comum os animais andarem em círculos. Tais movimentos
circulares são característicos do comportamento de simulação de luta em potros,
bezerros e leitõezinhos. As simulações de luta geralmente terminam sem conseqüência e não levam a vingança ou perseguição. A luta limitada pode ocorrer quando
animais novos brigam por autodeterminação na hierarquia social e de denominação
do rebanho.
Ingestão
O comportamento ingestivo inclui os atos de comer e beber, preferências
alimentares, padrões diários de alimentação e as mecânicas de apreensão, mastigação, consumo, e algumas vezes, estocagem de comida. Muitas espécies têm
suas próprias características de ingestão. Os animais em aleitamento tateiam com
o focinho sobre as tetas e sugam o leite. Os ruminantes adultos ingerem grandes
quantidades de vegetação com mastigação mínima, mas este material é sujeitado
a nova mastigação algumas horas após, durante a ruminação. Os animais carnívoros têm tipicamente dentes caninos bem-desenvolvidos que facilitam o rasgamento
da carne; o consumo é rápido com mastigação mínima. Os eqüinos e suínos usam
molares para mastigação, antes da deglutição. Os roedores tipicamente roem e
despedaçam a comida com seus dentes incisivos. O consumo instantâneo é visto
em uma grande variedade de espécies, incluindo muitas aves (ato de bicar) e
répteis; o objeto levado à boca deve ser apropriado tanto em aparência como em
tamanho para consumo.
O comportamento alimentar é composto por várias características associadas:
1. necessidades metabólicas (por exemplo, as fêmeas em lactação exibem uma
exigência aumentada); 2. exigências quantitativas de apetite (quantidade necessária para os ruminantes); 3. ritmo diurno de alimentação (os gatos freqüentemente
comem à noite); 4. seletividade de alimentos preferidos (os gatos e outras espécies
podem adquirir preferências alimentares enquanto jovens); 5. consumo de fluidos
(aumentado em condições de baixa umidade ou alta temperatura); 6. exigências
digestivas (coprofagia por parte do filhote pode estabelecer a microflora intestinal);
7. competição com associados (a competição pode aumentar o consumo, enquanto
os dominantes podem fazer com que os subordinados comam menos); 8. mecânica
de alimentação (os cães engolem, os suínos “fossam”, os roedores mordiscam);
9. técnicas de procura de alimento (os ungulados pastam grandes áreas, os
carnívoros caçam , as aves ciscam); e 10. esquemas diários de atividade geral
(os herbívoros têm picos diurnos, os roedores e gatos são noturnos, os eqüinos
geralmente são contínuos).
O comportamento alimentar é fortemente influenciado por padrões e preferências adquiridos, palatabilidade dos alimentos, o ambiente no qual a alimentação
ocorre, e as associações sociais de alimentação. A herança do comportamento
alimentar também deve ser considerada. Padrões espécie-específicos são herdados, embora os componentes específicos possam ter contribuições genéticas
e ambientais – como cada uma delas afeta os centros de fome e saciedade no
cérebro ainda é obscuro.
Comportamento 1092
A sede é uma característica ocasional do impulso ingestivo, e os centros
cerebrais que a controlam e medeiam são localizados na porção hipotalâmica do
sistema límbico. A sede total e a manutenção de um nível crítico de fluido no corpo
em todas as circunstâncias são reguladas por um complexo sistema influenciado por
hormônios, consumo de sal, conteúdo úmido do alimento e fatores ambientais.
Cuidado corporal
O comportamento de cuidado corporal está sob seu próprio controle nervoso,
embora a motivação seja necessária para que se assegure que as necessidades
sejam supridas. A predominância de qualquer comportamento adquirido é sempre
temporária e pode ser substituída por comportamentos de maior importância (por
exemplo, autopreservação).
Características componentes do cuidado corporal – O cuidado com o corpo
é um sistema permanente de comportamento envolvido em manutenção. Quatro
categorias principais podem ser reconhecidas: 1. higiene da pele; 2. termorregulação; 3. procura de conforto; e 4. eliminação. A coçadura, a sacudida e a lambedura
são freqüentemente reconhecidas como “arrumação”, o principal tipo de comportamento de cuidado com o corpo. O propósito primário de tal comportamento é de
higiene apropriada da pele e do pelame (ou penas). Atividades de auto-arrumação
são quase sempre breves e freqüentemente variadas em forma, mas coletivamente
representam uma porção significativa da manutenção. A arrumação mútua entre
animais intimamente associados é também digna de nota.
A “arrumação” pode envolver ferramentas naturais como dentes ou pés, ou
auxílios ambientais como ramos de árvores ou lama. Poeira ou material seco que
tenha se instalado no pelame pode ser facilmente desalojado por uma sacudida
vigorosa; isto também remove restos naturais de pele. As aves praticam o comportamento de limpeza e de banhos de poeira pelas mesmas razões.
Na termorregulação, sob condições naturais, os animais procuram abrigo, áreas
de descanso secas, sombras e formas de se refrescarem ou de se aquecerem. Os
animais usam o chão em várias atividades deliberadas direcionadas ao efeito
corporal. Antes de escolherem um local no qual se deitar, eles podem arranhar a
superfície da área pretendida. Depois disso, eles quase sempre giram seus corpos
ao redor da cama pretendida antes de se deitar. Podem também esfregar-se na
superfície do chão e rolar sobre suas costas, torcendo-se e virando-se de várias
formas (por exemplo, eqüinos e cães). Os cães podem esfregar seus corpos em
substâncias fétidas, as quais aumentam grandemente o odor corporal individual.
Sob condições de calor, alguns animais podem criar poças de lama se nenhuma
estiver disponível. Tais poças de lama permitem que a superfície do corpo seja
refrescada tanto por meio de irradiação como de evaporação, ou podem permitir que
a lama forme uma camada protetora na pele. Os comportamentos de procura de
conforto estão associados também com outras situações, tais como coçadura para
aliviar uma coceira e achar um lugar confortável para descansar.
Quando é fornecido espaço suficiente, os animais, exceto possivelmente os
ruminantes, normalmente evacuam de forma a assegurar que os locais de descanso
não sejam sujos. Quando evacuando, os animais adotam posturas espécieespecíficas que ajudam a manter a cauda e os membros posteriores limpos. Além
do mais, muitas espécies usam urina (por exemplo, borrifos de urina pelos gatos)
como um marcador olfatório para indicar um território, deixando uma mensagem
identificável, ou ajudando na “publicidade” reprodutiva.
Cuidado corporal na doença – Na doença, a automanutenção torna-se diminuída ou é impedida, e a homeostasia é perdida; o comportamento de cuidado corporal
é marcadamente reduzido, e os animais com doenças persistentes têm uma
Comportamento 1093
aparência suja. Essa negligência conserva energia para usar no metabolismo
exacerbado da febre. As manchas ao redor dos olhos, nariz, ou boca são uma
indicação clara de automanutenção deficiente e do estado da doença. O comportamento de cuidado corporal retorna quando começa a convalescença e se recupera
a homeostasia.
Movimento
O movimento é vital para animais de vida livre para encontrar comida e abrigo.
A forma na qual os animais se empenham voluntariamente em atividades não
específicas indica que o comportamento de movimento tem sua própria motivação. A deprivação intensa de oportunidade cinética resulta em comportamento
anormal – mesmo a falta de exercício apropriado pode causar problemas. Os
exemplos incluem várias formas de atividade de “movimentos bucais” anormais.
Embora os animais afetados possam permanecer em más condições físicas,
suas alterações comportamentais indicam manejo insatisfatório de um ponto de
vista de saúde.
Brincadeiras – Alguns comportamentos nos animais existem na forma de puro
movimento sem propósito óbvio. Os animais exigem movimento para se exercitar,
o que ajuda a manter saudáveis os sistemas musculoesquelético e cardiovascular.
A necessidade de exercício é maior nos animais jovens, e eles se empenham em
um comportamento mais puramente cinético na forma de brincadeira. Os animais
jovens brincam melhor se tiverem outros semelhantes como companhia, pois a
maior parte das brincadeiras exige contato social. Embora isto não seja um
comportamento social verdadeiro, as atividades espécie-específicas exploram a
disponibilidade dos animais associados como fontes de estímulo, as quais ajudam
o desenvolvimento do sistema nervoso e da coordenação motora, e o seqüenciamento
de padrões de comportamento (ver também SIMULAÇÃO DE LUTA, pág. 1091).
Atividades cinéticas gerais – Em geral, a cinesia inclui muitas formas espécieespecíficas como saltos, corridas, disparadas, escavações, escaladas, nados,
agitações de braço, espreguiçamento e arranhão em um substrato. O último é um
notável comportamento normal de gatos. Os animais se espreguiçam de várias
formas, inclusive extensão da cabeça e pescoço, arqueamento do pescoço,
estreitamento do dorso e extensão dos membros (tanto anteriores como posteriores, quase sempre um par após o outro). Os membros anteriores podem ser
estendidos sozinhos ou juntos, como quando o animal abaixa o seu tronco até o
chão, enquanto as pernas traseiras estão superestendidas. Os membros posteriores podem ser espreguiçados conforme o animal empurra o tronco para a frente de
tal forma que finalmente os dedos das patas posteriores sejam arrastados junto ao
chão por uma curta distância. Os membros posteriores individualmente podem ser
superestendidos um após o outro, mais comumente logo após o animal ter levantado
depois do descanso.
Nas aves domésticas, muito da atividade cinética ocorre na forma de bicadas e
andaduras. As aves também realizam atividades de espreguiçamento rotineiras, por
exemplo, extensão vigorosa de uma asa após a outra é comum. Quase sempre,
quando uma asa é superestendida em uma direção traseira, a perna do mesmo lado
também é estendida para trás. O batimento das asas representa outra forma de
exercício, embora muitas formas de engaiolamento o evitem.
Comportamento exploratório
Os animais normalmente exibem uma forte motivação para explorar e investigar
seu ambiente. Esta atividade diminui uma vez que o ambiente tenha se tornado
familiar, mas reaparece quando há alguma mudança ou novidade no ambiente. Esta
Comportamento 1094
reserva de comportamento exploratório permite ao animal ajustar suas ações
consideravelmente quando o ambiente exige adaptação.
A informação sensorial que resulta das atividades exploratória e investigadora
alerta o sistema nervoso a produzir formas apropriadas de comportamento no
ambiente em alteração. Em animais de vida livre, o comportamento se ajusta
continuamente, e pode ser considerado um componente básico na automanutenção
homeostática. Em confinamento, entretanto, as ações exploratórias diminuem e
qualquer motivação para exploração tem poucas chances de se manifestar.
Em confinamento intensivo e crônico – típico de produção animal intensiva
comercial e de manejo de animais de laboratório – o comportamento exploratório
pode-se tornar redirecionado e produzir comportamento alternativo. Um confinamento crônico, similarmente pode afetar de maneira adversa o comportamento de
animais de estimação e pode resultar em atividades repetitivas ou destrutivas.
O comportamento exploratório quase sempre assume a forma de atividade de
tentativa e erro; isto é muito mais evidente entre neonatos. Logo após o nascimento,
o animal se envolve em atividades exploratórias e investigadoras incluindo seu
ambiente imediato e sua mãe. Isto permite que animais jovens aprendam a identidade de suas mães e outros contatos sociais, como os seus companheiros de ninhada.
Necessidade perceptiva – O sistema exploratório no comportamento é evidente
em muitas atividades. A organização deste sistema pode ser listada na seguinte
seqüência de desenvolvimento: 1. necessidade no animal de perceber os fatores
ambientais que estimularão seus sentidos; 2. ativação do comportamento exploratório,
o qual se torna direcionado às interações entre o animal e seu ambiente; 3. recepção
de retorno sensorial do ambiente para satisfazer sua necessidade original; 4.redução na motivação como resultado de satisfação sensorial; 5. retorno do ciclo ao nível
basal de prontidão, presumivelmente com os eventos anteriores em memória de
curta ou longa duração.
Comportamento territorial
O espaço disponível influencia as atividades animais. Existem dois tipos gerais
de espaço: 1. o espaço real é tido como território para prover limites adequados
dentro dos quais o animal possa praticar as atividades necessárias para viver; 2. o
espaço “individual” é estabelecido para propósitos de autoproteção, autodeterminação e autocuidado. Algumas formas de comportamento se relacionam conjuntamente ao território propriamente dito e ao espaço individual (pessoal). Muito do
comportamento social relaciona-se ao espaço conquistado, determinando a posse
do espaço e realizando privilégios espaciais. A agressividade é um componente
comum dos métodos territoriais.
Território – Uma área que é ativamente defendida, um território pode ser estabelecido para um propósito específico, por exemplo, reprodução, ou pode ser usado
para atividades gerais diárias. Nem todas as espécies usam territórios e algumas
podem somente usá-los para propósitos específicos ou em certas épocas do ano.
Espaço individual – A necessidade espacial mínima e mais básica é um espaço
suficiente para um animal deitar-se, ficar em pé, virar-se, limpar-se e espreguiçarse. Isto pode ser definido como espaço primário, e apenas associados íntimos são
permitidos dentro dele. Este espaço básico tem que estipular uma bolha imaginária
de espaço ao redor do animal e será defendido.
O espaço adicional que se relaciona à atividade completa do indivíduo pode ser
definido como espaço secundário. Este é necessário para permitir atividades tais
como prevenção contra um vizinho; alteração radical na posição, direção ou
locação; e movimentação.
Incorporado à exigência espacial secundária está o espaço social, a distância
mínima que um animal adulto rotineiramente mantém entre ele mesmo e outros
Comportamento 1095
membros da mesma espécie. É comumente visto como “distância ao vizinho mais
próximo” ou “distância social”. (Muitos animais jovens não criam espaço social para
si mesmos.) Outro componente do mesmo fenômeno é o número máximo de
vizinhos que um animal permitirá dentro de um dado raio. Quando o espaço social
é inadequado, ocorre a lotação, que, em termos etológicos, pode ser definida
simplesmente como espaço social inadequado destinado ao animal. Uma característica adicional do espaço individual é a “distância de fuga”, a qual é modificada
quando os animais se tornam acostumados à manipulação e ao manejo.
Todas as formas de espaço individual podem ser consideradas como portáteis
– elas tendem a ir aonde o animal for. A dominância é grandemente relacionada com
a afirmação de um animal sobre outros na aquisição de prioridade espacial, e assim
se relaciona ao espaço individual. Tal prioridade espacial dá ao animal mais
altamente ranqueado preferência de escolha para áreas disputadas para atividades
como alimentação e descanso. Como resultado, os espaços individuais normalmente se tornam integrados e pedem freqüentes reajustes comportamentais para
conseguir harmonia espacial.
Descanso e sono
O sono ocupa muito tempo do animal. Os animais mais evoluídos apresentam
tipos de sono que correspondem aos do homem, embora as características do sono
de uma espécie possam ser bastante distintas. O descanso e o sono permitem
restauração do estado fisiológico. Durante o sono, ocorre recuperação metabólica
em curto espaço de tempo. Durante o descanso, o corpo pratica conservação
máxima de energia. Na prática de tal conservação, o descanso é usado mais
taticamente que o sono.
Diferentes espécies têm necessidades diferentes para quantidades de sono.
Tipicamente, os animais predadores dormem menos e dividem o sono em numerosas e pequenas frações. Se esses animais vivem em grupos, o descanso em turnos
é uma tática de sobrevivência que permite vigilância para avisar membros em
descanso ou adormecidos.
Formas de sono – O sono verdadeiro ocorre em duas formas, “sono cerebral”
e “sono corporal”. No sono cerebral, há uma emissão de ondas elétricas lentas; por
esta razão, é geralmente definido como “sono de ondas lentas” – e é uma forma
particularmente silenciosa de sono. No sono corporal, algumas correntes elétricas
do cérebro são do mesmo padrão que as que ocorrem quando o animal está
acordado. Devido a esse paradoxo, esta forma é também definida como “sono
paradoxal”. Devido aos olhos se moverem freqüentemente de forma rápida por
detrás de pálpebras fechadas, esta forma de sono é também conhecida com “sono
de movimento rápido dos olhos” (REM — “rapid eyes movement”). É nesta fase que
uma pessoa sonha e os cães vocalizam ou movimentam seus pés.
Descanso – Todas as espécies de animais domésticos gastam muito tempo
descansando, durante o qual o animal pode ficar sonolento, ou simplesmente deitarse inerte mas desperto. As posições de descanso variam de ficar em pé (por
exemplo, no caso do eqüino) a decúbito lateral ou esternal, ou uma combinação na
qual a parte dianteira fica em decúbito esternal e a traseira em decúbito lateral. O
decúbito lateral é exigido para sono REM, a menos que o animal possa se escorar
em alguma coisa.
Associação
Os animais que vivem em grupos fechados sob circunstâncias naturais são
definidos como animais sociais. As interações sociais são importantes na autodeterminação e na estabilidade social. Por esta razão, os animais de rebanho mantidos
Comportamento 1096
em isolamento social geralmente desenvolvem comportamento anormal (por exemplo, comportamento bucal patológico). Suas atividades sociais são mais restritas
que as dos outros de sua espécie, e sua habilidade para enfrentar mudanças quase
sempre é afetada.
As manifestações de comportamento associativo são extremamente variadas,
numerosas e circunstanciais, e providenciam informação vital sobre o comportamento em grupo; não nos é suficiente conhecer o comportamento natural de nossos
animais domesticados – devemos também saber sobre suas capacidades, adaptabilidades e limitações. O manejo de animais como grupos ao invés de indivíduos tem
sido ressaltado recentemente. O uso de grupos é o principal método de criação em
produção animal pecuária e no manejo de animais de laboratório.
A associação serve a muitos propósitos; um produto importante do comportamento social, ela é motivada por uma força que mantém a coesão intra-específica.
Por meio da associação, as estratégias dinâmicas de uma espécie são implementadas. As afiliações sociais transmitem aprendizado e o “efeito de grupo” (“facilitação
social”) influencia atividades comunais. A associação íntima de indivíduos permite
a organização em unidades homogêneas, grupos reprodutivos, rebanhos e colônias. Em virtude de os indivíduos serem disciplinados pela força da associação em
grandes grupos, a perseguição comum de táticas exigida para se alcançar harmonia, sobrevivência, e proliferação é assegurada.
Associação organizada – Muitas formas de comportamento são reguladas por
interações sociais. As interações entre um par formado e equilibrado são notáveis.
Entre animais estritamente confinados, são observados comportamentos sociais
modificados, dependendo do sistema de criação e do número de animais em um
grupo. Ver também COMPORTAMENTO SOCIAL E AFILIAÇÃO, adiante.
Aspectos de sanidade da manutenção
As características comportamentais de automanutenção estão se tornando
reconhecidas como indicativas – e provavelmente definitivas – da variedade de
necessidades de sanidade animais (ver também pág. 1126). A separação e a
lotação podem ser estressantes e provocar síndromes de comportamento anormal.
Os problemas têm sido associados com métodos de criação comercial, por exemplo,
aqueles envolvidos na produção intensiva de bezerros, bovinos, ovinos, suínos e
aves. Os problemas são também comuns na criação de animais de laboratório,
principalmente primatas.
Ambientes empobrecidos e criação confinada têm mostrado afetar as habilidades de aprendizado nos jovens e contribuem para o desenvolvimento de padrões
estereotipados. A estimulação deficiente afeta adversamente a habilidade final do
animal para se ajustar ao seu ambiente imediato e às mudanças dentro dele. Os
comportamentos anormais indicam aflição e uma tentativa por parte do animal de
enfrentar a situação. Por fim, a saúde e o bem-estar animais podem não ser
efetivamente preservados sob essas condições. A criação animal racional tem de
reconhecer as necessidades etológicas de animais utilizados intensivamente,
alcançar suas necessidades comportamentais e amortecer o impacto do estresse
do confinamento. Os últimos fatores estão interligados no complexo de causas de
problemas de saúde animal.
As exigências da sanidade, conforme são etologicamente concebidas, têm de
ser alcançadas com mais que provisão de alimento, água e abrigo. As exigências
de maior prioridade são as que incluem itens fundamentais de reação e ingestão.
Os comportamentos de cuidado corporal, movimento, exploração, territorialismo,
descanso e associação corporal são as prioridades próximas. Cada categoria
comportamental representa necessidades combinadas que devem ser consideradas na sanidade.
Comportamento 1097
Um retorno ao ambiente livre e “natural” não é sugerido como forma de criação
praticável desde que o manejo protetor seja essencial à produção animal moderna
tanto comercial como de animais de laboratório. A “liberdade” seria, na verdade,
cruel para muitos animais. O gado leiteiro e os coelhos, por exemplo, encontrariam
um clima hostil, predadores, dietas pobres e outros agentes estressantes. Entretanto, a consideração das exigências de espaço (ver COMPORTAMENTO TERRITORIAL,
pág. 1094) como uma necessidade premente é importante.
COMPORTAMENTO SOCIAL E AFILIAÇÃO
A maioria dos animais de fazenda e de estimação é composta por espécies
altamente sociais. O sistema de criação e o tamanho do grupo afetam a
freqüência e a natureza do comportamento social. Interações sociais, incluindo
respostas dominantes ou subordinadas, são afetadas pela ordem relativa dos
animais dentro da hierarquia social dominante presente no grupo. Respostas
similares tendem a ser apresentadas em todos os encontros entre os mesmos
animais. A estabilidade dos relacionamentos sociais requer que todos os membros do grupo sejam capazes de reconhecer-se um aos outros, que a composição
do grupo seja estável (sem doenças ou remoções temporárias) e que os
indivíduos observem seu status e atuem de acordo com ele. Em sistemas de
criação extensiva, a formação voluntária de subgrupos quase sempre acontece
se os rebanhos forem suficientemente grandes.
A reunião normal de grupos animais ou em casos de alta densidade populacional
pode forçar seus membros a violarem o espaço individual de outros. A freqüência
de interações sociais em tais confinamentos aumenta e o resultado depende da
posição dos animais na ordem de dominância. Encontros agressivos entre animais
em um determinado grupo são mais freqüentes enquanto o grupo está desenvolvendo sua própria hierarquia social. Quando o grupo alcança estabilidade social e
obtém espaço adequado, os encontros agressivos se tornam mínimos. Um animal
recentemente introduzido em um rebanho aumentará o número de encontros
agressivos dentro do grupo até que sua posição dentro da hierarquia seja estabelecida. Essa agressão pode afetar a produção de todo o grupo.
Fortes vínculos são uma característica do comportamento associativo entre
pares ou pequenos grupos, e não estão restritos ao relacionamento entre a mãe e
a cria. Dentro de rebanhos, o pareamento discreto por meio de seleção mútua do
companheiro é um evento social comum que ocorre para vantagem de ambos,
particularmente em situações agonísticas ou de limpeza envolvendo outros animais
dominantes. A partir da associação livre de indivíduos, estabelece-se a organização
das unidades familiares, grupos de criação, rebanhos, manadas e colônias. Tais
afiliações asseguram a adaptação comum das táticas necessárias para o sucesso
reprodutivo, assim como a sobrevivência do indivíduo e do grupo.
A importância do comportamento social para o entendimento das muitas atividades do animal doméstico necessita maior elucidação, e algumas características
sociais de espécies em particular serão consideradas adiante com mais detalhes
(ver pág. 1099).
O comportamento alelomimético, algumas vezes denominado comportamento
contagioso ou amigável, refere-se a atividades comuns apresentadas pela maioria
dos membros de grupos, manadas e rebanhos, quando eles agem juntos. Os
primeiros vínculos formados entre pais e filhotes podem ser generalizados para
incluir outros membros da espécie. Geralmente, os grupos tornam-se mais capazes
de ficar juntos se os membros coexistem pacificamente. As hierarquias sociais
Comportamento 1098
dominantes, os relacionamentos de liderança-seguimento, as associações para
limpeza mútua e outras respostas sociais são características das espécies domésticas e devem ser consideradas como relativas ao manejo e à saúde do animal.
Relacionamentos de liderança-seguimento – Porcos são relutantes a se
mover em áreas estranhas e necessitam ser guiados; porém, grupos de bovinos,
ovinos e cavalos, que desenvolvem relações de liderança-seguimento quando em
condições de criação livre, movem-se mais prontamente. Em rebanhos naturalmente constituídos de ovinos, a ovelha mais velha geralmente lidera, enquanto em
rebanhos de vacas leiteiras, os animais de dominância mediana lideram. O homem
pode treinar certos animais (“Judas”) para liderar o grupo, explorando, assim, os
padrões de movimentos naturais das espécies em questão. Ovinos, bovinos e
eqüinos podem ser treinados para liderar, e pares de bovinos unidos após o
desmame ensinam um ao outro como liderar. Em vacas leiteiras, a ordem de
movimentação na área de ordenha é melhor fixada por um dado período, embora
os animais seguidores sejam mais consistentes que os “líderes”. A ordem da
ordenha não é necessariamente a mesma ordem de liderança-seguimento apresentada quando os animais se movem em áreas de pastagem. Em condições de
liberdade, especialmente para as espécies “seguidoras” como ovinos e eqüinos, o
animal mais velho pode transferir informações acerca das mudanças sazonais, boas
áreas de pastagens e pontos de “obtenção” de água para a sua prole se a ligação
mãe-cria não for interrompida antes do desmame natural. Desta maneira, áreas
familiares podem ser mantidas por gerações. Grandes rebanhos de ovinos em
pastos de , 250 acres (100ha) podem estabelecer até três áreas familiares
diferentes, e subgrupos do rebanho inteiro trabalham com a mínima sobreposição
nessas regiões.
Em pequenas pastagens, touros leiteiros com idade entre 4 e 5 anos estabelecem territórios individuais sob condições do rebanho. O súbito ataque dos touros
leiteiros a seus tratadores pode ser causado por essa mudança relacionada à idade,
levando a um comportamento territorial agressivo.
RELAÇÕES SOCIAIS ENTRE O HOMEM
E OS ANIMAIS
As características comportamentais básicas de cada espécie são ligeiramente
alteradas por meio da domesticação, embora o comportamento social normal possa
ser transferido ao proprietário ou responsável. Por exemplo, a maioria dos cães se
ajusta a famílias porque reagem às pessoas como reagiriam a outros membros da
matilha.
Durante a socialização, um animal jovem aprende a aceitar a presença de sua
própria espécie e de outras. O processo de aprendizado é restrito a um período de
tempo espécie-específico. Por exemplo, em espécies tardias (imaturas ao nascimento) tais como o cão, a melhor época para socialização é de 4 a 6 semanas de
idade (variação de 3 a 12 semanas). Com espécies precoces (bem-desenvolvidas
ao nascimento) tais como ovinos, o melhor período é do nascimento até 4 a 6 dias.
Se as ligações com o homem se tornam muito exclusivas durante este período, tais
animais criados tão intimamente podem se relacionar sexualmente com seres
humanos ao invés de sua própria espécie.
Um animal doméstico dependente de seu tratador humano é para alguns ou
todos os seus cuidados e bem-estar, e o homem começa a fazer parte das reações
sociais destes animais. Uma relação de liderança-seguimento pode ocorrer à
medida que o animal segue de perto a pessoa. Em espécies que desenvolvem
Comportamento 1099
hierarquias de dominância social, é importante para o tratador ser o dominante,
particularmente quando os animais adultos são potencialmente perigosos. Pode-se
assegurar o aumento de dominância com a maturidade e o crescimento. O papel
dominante do homem é melhor estabelecido na época apropriada para as espécies,
geralmente em idade precoce quando pouca ou nenhuma punição pode ser
necessária. Desde que as interações de dominância social são específicas para os
indivíduos, o fato de uma pessoa ser dominante para o animal não é garantia de que
outra poderá sê-lo (ver também pág. 1100).
A interação íntima de um proprietário pode resultar em um comportamento social
indesejável. O isolamento precoce e completo de um animal de sua própria espécie
pode levar a dificuldades em posterior acasalamento, agressividade ou timidez
aumentadas perante estranhos e comportamento maternal deficiente. A superlotação e um manejo geral deficiente também podem levar a um comportamento
social anômalo e resultar em vício, dano ou desperdício de alimento. Um bom criador
ou veterinário pode prever muitas destas condições por meio da avaliação do
comportamento social dos animais e tomando atitudes preventivas ou curativas
antes que a condição de criação piore.
COMPORTAMENTO SOCIAL DAS ESPÉCIES
COMPORTAMENTO SOCIAL DOS CÃES
São poucas as diferenças sociais entre o comportamento de cães e lobos. Os
lobos geralmente percorrem as trilhas da caça e urinam, defecam e arranham o chão
como uma forma de fazer “trilha de cheiro” ou “marcação de lugares”. Similarmente,
cães selvagens se movem em rotas regulares, utilizando as “trilhas de cheiro”. Os
machos viajam mais que as fêmeas e são mais aptos a reconhecer a “trilha de
cheiro”. O estímulo para a demarcação é o cheiro de urina ou fezes de animais
estranhos enquanto operam dentro de um dado território. O comportamento de
“trilha de cheiro” mantém os machos informados a respeito de quais animais já
passaram por ela e da receptividade sexual da fêmea. Durante o estro, a urina e as
secreções vaginais da cadela têm um odor particular que exita os machos. A fêmea
é atrativa para o macho alguns dias antes do início do sangramento do proestro,
porém não são receptivas até o estro.
Tanto o lobo como a loba cooperam para a alimentação da cria (vomitando a
comida) quando os filhotes começam a comer alimentos sólidos, com , 3 semanas
de idade. O desmame ocorre entre 7 a 10 semanas, e os lobos jovens são vistos
caçando junto com a alcatéia com , 4 meses de idade. Em geral, a mesma situação
é observada nos cães domésticos. Vestígios do comportamento parental selvagem
são observados na tendência das cadelas vomitarem a fim de alimentar suas crias.
Como o lobo, o cão é basicamente um animal que vive em matilhas, e outros cães
ou pessoas podem satisfazer sua necessidade de companhia. Pequenos períodos
de isolamento de um cão podem agir como punição, por exemplo, durante alguns
tipos de treinamento. Os animais que vivem em matilhas ou alcatéias agem dentro
de relacionamentos de dominação e subordinação, que os permitem viver em
grupos sociais estáveis. Uma ordem social estável auxilia por meio da inibição de
lutas em situações competitivas, tais como as relacionadas a alimentação, espaço
vital e desejo de atenção humana. Principalmente o tamanho, a força e o sexo
determinam a dominância social, e estes relacionamentos são desenvolvidos
durante o amadurecimento dos filhotes. Cães estranhos de uma mesma raça são
atacados e rejeitados mais freqüentemente em um grupo social fechado do que
Comportamento 1100
cães de uma raça diferente, embora existam diferenças raciais na tolerância a
estranhos. Há pouca evidência de que tanto lobos como cães desenvolvam qualquer
sistema forte de liderança.
Comportamento afiliativo e protetor – Cães adultos de certas raças geralmente
guardam o território ao redor de suas casas e mantêm os estranhos afastados por
meio de ameaça ou ataque. Longe de seu território familiar raramente causam
problemas e, se removidos para um novo lar, demoram até 10 dias para estabelecer
seu novo território. Os cães também podem atacar se os membros de sua matilha (ou
família) forem ameaçados. Isso corresponde a uma reação instintiva e não deve ser
excessivamente encorajada, pois os proprietários perderão o controle do cão quando
qualquer um que não aquele pertencer à família se aproximar. Um animal bem
treinado e bem controlado apresenta poucos problemas.
Comportamento social anormal – Embora o proprietário do cão possa dominar
seu animal, um indivíduo qualquer não pode – e pode ser mordido se tentar fazê-lo.
Quando se permite que um cão brigue com outros cães ou pessoas, logo ele
desenvolve hábitos que podem torná-lo um perigo ou um incômodo. Quando
severamente ameaçado, um cão pode morder por medo; esta atitude pode se tornar
um hábito em um típico “mordedor por medo”. Quando se permite a um cão jovem
persistir com comportamentos aparentemente prejudiciais, tais como montar nas
pernas do dono, masturbar-se com objetos, marcar trilhas com urina, e exibir
ansiedade por separação (incluindo mastigação e escavação destrutivas), tais
comportamentos podem-se desenvolver para problema mais sério. Se houver um
certo grau de satisfação individual, como na escavação, o problema é difícil de ser
detido. Se os problemas ocorrerem somente quando os proprietários estiverem fora,
a punição atrasada é contraprodutiva.
Relacionamento homem-cão – O homem e o cão interagem em pelo menos três
planos: 1. dependência – iniciando-se na primeira infância do animal, o cão se torna
um dependente perpétuo; 2. dominância social – o homem deve ser o dominante ou
corre o risco de ser ameaçado ou mordido em casos de situações competitivas. O
proprietário estabelece melhor a dominância utilizando contenção firme ao invés de
punição intensa. A maioria dos cães se submeterá quando for levantada do chão pela
pele solta do pescoço, ou quando for mantida em decúbito lateral (os proprietários
devem adotar medidas para se proteger se o cão for particularmente agressivo); 3.
relacionamento de liderança-seguimento – na maioria dos cães é necessário
treinamento para se produzir este relacionamento.
Comportamento do filhote
Treinamento familiar – Até que os filhotes comecem a ingerir alimentos sólidos,
com , 3 semanas, a cadela os mantém limpos, lambendo-os e ingerindo seus
excrementos. Após isto, os filhotes evitarão sujar sua cama saindo para urinar e
defecar; porém não usarão áreas específicas até , a oitava semana. Os filhotes
devem ser mantidos sob rigorosa supervisão a partir da idade de 7 semanas a fim de
se impedir que utilizem áreas impróprias. Eles podem ser amarrados em uma correia
curta, mantidos em um engradado pequeno ou confinados a um quarto entre saídas
ao quintal, e podem em breve ser liberados em um quarto após terem estado do lado
de fora. Devem ter acesso a áreas de toalete após despertarem, comerem ou se
tornarem ativos. Caso se queira eliminar as incursões externas quando adulto, é
melhor treinar o filhote dessa forma; a maioria dos cães não realiza facilmente a
transição entre papel e grama.
Desenvolvimento social – Existe uma variação considerável no comportamento de cães de diferentes raças e linhagens. Temperamento e “treinabilidade”,
geralmente citados como fatores importantes quando se escolhe um filhote, não são
facilmente acessíveis em tenra idade. Uma vez que a idade mais adequada para se
Comportamento 1101
desenvolver um forte relacionamento entre o cão e seu dono é entre 3 e 12 semanas,
o novo filhote deve ser selecionado com , 6 semanas e deve ser levado para casa
tão logo quanto possível (ver também RELACIONAMENTO HOMEM -CÃO, anteriormente).
Os filhotes criados em canis, muito distantes do contato humano, podem nunca
ser capazes de se adaptar ao relacionamento homem-cão se adquiridos após 12
semanas; um treinamento cuidadoso e paciente pode ajudar a familiarizar o cão com
algumas pessoas, mas pode não obter sucesso. Tais cães freqüentemente desenvolvem a síndrome de “cão de canil”; não possuem confiança e podem ser
agressivos ou “mordedores por medo”, ou então extremamente submissos. Estes
comportamentos podem desaparecer se o cão retornar ao seu canil de origem. Cães
mantidos em canis podem manter relacionamentos mais fortes com outros cães e
aceitar o canil como seu “lar” e, como resultado, podem não se tornar bons animais
de estimação.
Cães criados exclusivamente com o homem podem ter dificuldades no acasalamento porque pensam que o homem é sua própria espécie e não reconhecem
outros cães. Em virtude de os cães serem animais de matilha por natureza, sua
primeira experiência social (antes das 12 semanas de idade) deve incluir os tipos de
pessoas e raças de cães com os quais eles estarão em contato por toda vida.
Fundamentos do treinamento – Todos os cães devem obedecer a comandos,
tais como não, senta, pare, venha, pule, iniciando-se na oitava semana de idade. Um
cão treinado obedece prontamente às ordens de seu dono. Apenas 10min diários
são suficientes para se obter um cão bem-treinado por volta da 16ª semana de vida.
Estas lições devem ser breves, ocorrer sem interrupções e devem-se iniciar com
ordens simples que os filhotes possam realizar. Repetição moderada, compatibilidade, elogios por um bom desempenho dados logo após a resposta desejada ser
apresentada e firmeza em comportamentos indesejáveis dentro de um relacionamento baseado em confiança e afeição mútua são os fundamentos do treinamento.
Aulas de obediência mais formais com , 6 meses de idade, reforçam os conceitos
e ajudam a melhorar as primeiras lições.
COMPORTAMENTO SOCIAL DOS GATOS
Os gatos são animais não sociais e tendem a ser solitários em seu modo de vida.
Ocasionalmente formam uma amizade aparente, mas vão passar a maior parte do
tempo sozinhos. Muitos comportamentos felinos centram-se em seu modo de vida
solitário, incluindo comportamentos social, ingestivo e reprodutivo. Não existe
dominância na forma tradicional. Em um grupo, um gato “possui” o território, 1 ou 2
estão em categorias sociais extremamente baixas e o resto divide uma posição
social média. Esta ordem territorial vai variar entre os mesmos indivíduos se houver
mudança para outra área. Os gatos que dividem uma posição tendem a brigar
freqüentemente. Para um acasalamento bem-sucedido, o macho tem de estar
presente no momento apropriado. As vocalizações são usadas como atrativo e a
ovulação induzida garante que os óvulos e esperma se encontrem no momento
apropriado.
Desenvolvimento social dos gatinhos – Os gatinhos são sociais porque
dependem da mãe para aquecimento e alimento e dos seus companheiros de
ninhada para aquecimento e, mais tarde, brincadeiras. A brincadeira social se
desenvolve gradualmente ao redor da terceira semana. Essas interações ajudam o
gatinho a desenvolver coordenação; ensinam técnicas adultas de caça, eliminação
e sobrevivência; e concluem a maturação fisiológica e comportamental.
Quando os gatinhos atingem 6 a 8 meses de idade, eles são capazes de
sobreviver sozinhos. Os momentos de brincadeiras se tornam mais curtos e
terminam em contendas agressivas que se tornam mais intensas e compridas. Eles
Comportamento 1102
tendem a manter os companheiros de ninhada afastados e introduzir o modo de vida
solitário. Os proprietários freqüentemente notam uma mudança na personalidade
do seu gato nessa época, ficando desapontados por terem ficado menos amigáveis
e, às vezes, mais agressivos.
COMPORTAMENTO SOCIAL DOS G RANDES ANIMAIS
Estrutura de grupo ou rebanho – Animais domésticos associam-se em grupos,
mesmo em um sistema de criação extensiva. Ovinos, bovinos e eqüinos mantêm
contato visual. Os suínos gastam mais tempo em contato real uns com os outros, e
utilizam vocalizações. Se perturbados, ovinos e eqüinos primeiramente se agrupam
e, se ameaçados, correm para longe da fonte de distúrbio. Bovinos e suínos
movimentam-se em grupo sem coesão e podem resistir à razão do perigo. Durante
a aglomeração do grupo de animais na natureza ou em situações com alta
densidade, os indivíduos podem ser forçados a violar o espaço individual de outros.
Interações sociais nestes casos dependem da posição dos animais na ordem de
dominância. Uma vez que o comportamento agressivo é mais observado em
bovinos, porcos ou cavalos, quando os grupos estão sendo formados, mudanças
freqüentes entre os membros dos grupos devem ser evitadas. A produção de leite
e outras respostas fisiológicas podem ser afetadas por vários dias quando interações sociais agressivas estejam ocorrendo. Embora os ovinos raramente apresentem dominância social clara, ocorrem interações intensas mas sutis, sobretudo com
os machos durante a época de reprodução. Chifradas em bovinos e ovinos;
mordidas na garupa, pescoço, ou dorso em cavalos; e empurrões, mordidas e
ferimentos com as presas em canhaços são formas comuns de comportamento
agonístico.
Desenvolvimento da dominância social – Os leitões apresentam algumas
brigas pelas tetas preferidas da porca com apenas alguns dias após o nascimento;
uma vez que a ordem de aleitamento nas tetas seja estabelecida, a seqüência se
transfere para as futuras posições de dominância. Outras espécies não desenvolvem uma ordem social estável até algum tempo após o desmame. Os efeitos da
dominância social podem ser importantes para rebanhos de alta densidade ou com
um esquema pobre de criação. Espaço inadequado no cocho, corredores estreitos,
espaços inadequados nas áreas cobertas ou falta de comedouros podem fazer com
que os animais dominantes obtenham recursos às expensas dos submissos. Os
últimos irão sofrer e a sua saúde e a produção geral podem ser afetadas. Em casos
extremos de dominância, apenas a presença do indivíduo dominante pode diminuir
fisiologicamente a salivação e a fome dos inferiores. Exemplos comprovados
mostraram altas porcentagens de parasitas internos em algumas cabras submissas
e alta taxa de mortalidade durante a seca quando a comida escassa foi consumida
pelos animais dominantes. Deve haver um limite máximo no número de membros
do grupo para que possam ser reconhecidos ou lembrados por cada indivíduo; este
número pode ser de 50 a 70 para bovinos e de 20 a 30 para suínos.
O cavalo é responsivo a pequenas mudanças de postura ou pressão na pele, e
estas dicas, durante as interações de dominância-submissão, são utilizadas por um
bom criador de cavalos. Algumas vezes foram utilizados tranqüilizantes para auxiliar
a tolerância social quando porcos estranhos foram criados juntamente com outros,
ou quando cavalos selvagens foram domesticados.
COMPORTAMENTO SOCIAL DAS GALINHAS
O pintinho apresenta respostas precoces ainda quando está no ovo, por
exemplo, pode dar pequenos piados quando está com frio, ou curtos trinados de
alegria quando está aquecido. Os pintos chocados a temperaturas levemente
Comportamento 1103
subnormais dão pequenos piados quando sua penugem úmida seca e perdem
contato com a casca do ovo. O contato com uma galinha choca ou outro objeto
aquecido impede estes piados. Os pintinhos recentemente chocados são atraídos
para a galinha por calor, contato, pressão e movimentos corporais; esta atração é
maior no dia da eclosão. Eles aprendem a comer, ciscar, beber e evitar inimigos na
companhia da mãe.
Em pintinhos, o período mais sensível para fixação à mãe é entre 9 a 20h após
a eclosão, e o medo é demonstrado a partir do terceiro dia. A ligação à mãe depende
primariamente do som de sua voz e aparência. Quando a penugem começa a
desaparecer de suas cabeças, os pintinhos são rejeitados pela galinha. Ela os bica
e a ninhada começa a se dispersar e tornar-se mais independente.
Galinhas e galos apresentam hierarquias de bicagem separadas, sendo as dos
galos menos estável. A hierarquia de dominância é vista mais claramente na
competição por alimento ou parceiros sexuais, e as galinhas subordinadas podem
ficar com tão pouca comida que a produção é afetada. Em um plantel mantido em
estado de desorganização social por motivo de remoção e substituição, as aves
comem menos, podem perder peso ou crescer pouco e tendem a botar menos ovos.
Alimentação e água adicionais colocadas em cochos distribuídos pelo galinheiro
permitem que as galinhas subordinadas se alimentem sem serem molestadas, e um
número adequado de ninhos dará melhores condições a essas aves para a
ovoposição. Grupos > 80 aves tendem a se separar em 2 grupos distintos, e pelo
menos 2 hierarquias de bicagem separadas parecem se estabelecer.
Comportamento de plantel – O agrupamento é a base da organização do
plantel. Um pintinho criado isoladamente tende a permanecer fora do plantel e
apresenta uma conversão alimentar menor que as aves deste. A formação de um
plantel adulto depende de tolerância mútua. Os estranhos são atacados e são
integrados ao plantel apenas gradualmente. Os novos integrantes são geralmente
relegados a baixas posições na ordem social.
COMPORTAMENTO SOCIAL DOS PERUS DOMÉSTICOS
Perus domésticos e selvagens possuem padrões semelhantes de agrupamento e organização social, porém as práticas de manejo determinam o tamanho e
a composição dos grupos domésticos. A ordem de dominância social é menos
estável que a das galinhas, particularmente no caso de machos criados em
galinheiro. Certas variedades de perus tendem a dominar outras; por exemplo,
preto sobre bronze sobre cinza, e em grupos nos quais há mistura de sexo, os
machos dominam as fêmeas.
Como nas galinhas, o confronto entre pares mais comum é uma ameaça simples,
com uma ave se subordinando à outra. Por outro lado, eles podem-se ameaçar em
círculos sempre com a plumagem das asas abertas e a cauda em leque, e ambos
emitem um alto trinado. Então, um ou ambos alçam vôo e se atacam com as patas.
O que empurrar, puxar ou prensar a cabeça do outro no chão normalmente vencerá
o combate. As lutas geralmente duram poucos minutos. Muito sangue pode ser
espalhado nestas ocasiões, pois áreas da pele altamente vascularizadas podem ser
atingidas, porém o dano físico real é pequeno e as aves não costumam lutar até a
morte. Entretanto, uma ave ferida de posição inferior deve ser mantida afastada do
grupo até que sua ferida cicatrize, pois as outras tentarão bicá-la e agravar o
ferimento.
Os peruzinhos se movem livremente após a eclosão,e devem se ligar socialmente à mãe durante o primeiro ou o segundo dia. Normalmente os peruzinhos formam
grupos fortemente ligados que podem inicialmente se amontoar para prover o
aquecimento, porém continuam coesos mesmo em locais aquecidos. As aves
tendem a se alimentar e perambular em grupos e, se estão com a mãe, ela é o foco
Comportamento 1104
da atividade. Sinais visuais e vocais são utilizados pelos pais e pelos peruzinhos
para manter contato até ≥ 8 semanas de idade. Brigas são raras até os 3 meses de
idade, mas aumentam até que se atinja o pico aos 5 meses, quando a ordem social
é estabelecida.
COMPORTAMENTO SOCIAL DOS PATOS
Os patos domésticos são, em sua maioria, originários de duas espécies – o pato
mallard (Anas platyrhynchos ) e o pato almiscareiro (Cairina moschata ). No
pato almiscareiro, ambos os sexos são desprovidos de penas na face.
Comportamento social dos patos almiscareiros – Os patos almiscareiros são
promíscuos. Os machos adultos, que são 2 vezes mais pesados que as fêmeas,
são solitários e agressivos para com outros machos. Sua aparência é primitiva e
seus chamados são simples. A fêmea, quando alarmada, emite um grasnido fraco;
o macho emite um ruído sibilante com batimento da cauda e encrespamento das
penas, e o balanço da cabeça dos machos atua como ameaça a outros machos ou
como exibição sexual para as fêmeas. Como as fêmeas geralmente evitam machos
em exibição, eles podem persegui-las até a exaustão antes que o acasalamento seja
possível. Após a fertilização, as fêmeas se retiram para seus ninhos e botam um ovo
por dia. O ninho não é ocupado continuamente até que a incubação se inicie com
os dois últimos ou com o último ovo. Os ovos eclodem após 35 dias. O macho ataca
sexualmente qualquer fêmea que encontre e não toma parte na seleção do ninho,
incubação, ou cuidados com os patinhos.
Comportamento social dos patos mallards – Os patos mallards selvagens são
monogâmicos e permanecem juntos da metade do inverno até o começo da
incubação, por um período de 5 meses. Em situações domésticas, isto pode não ser
possível se o número de animais por sexo não for equivalente.
Os machos estimulados sexualmente se exibem sozinhos ou em grupos para
algumas fêmeas em particular, que por sua vez incitam os machos com uma
exibição mais formalizada, que alterna ameaças e submissão com um chamado
característico. A ameaça é dirigida a um macho estranho e a submissão é mostrada
ao macho preferido, que então nada na direção da fêmea e estica seu pescoço em
sua direção. As lutas, perseguições e exibições de plumagem são comuns entre os
machos mas não são importantes para a formação dos casais.
As aves pareadas deixam o grupo, porém em algumas situações domésticas, as
fêmeas não podem evitar o ataque dos machos não pareados e podem ser
sufocadas ou perseguidas até a exaustão. A fêmea é protegida por seu companheiro
até que a ovoposição seja completada. A incubação leva 28 dias e o patinho deixa
o ninho após o primeiro dia. A fêmea sofre sua muda anual por volta de 6 a 8 semanas
após os patinhos começarem a voar.
Os filhotes normalmente ligam-se à mãe durante os primeiros dias após a
eclosão dos ovos. O reconhecimento da espécie ocorre mais gradualmente para
assegurar o acasalamento com a própria espécie na idade adulta.
COMPORTAMENTO REPRODUTIVO
FÊMEA
O estado de acasalamento das fêmeas obviamente possui fatores fisiológicos e
comportamentais. O termo estro é freqüentemente reservado para descrever componentes comportamentais e não fisiológicos. Os ovários podem passar por mudanças associadas com o estro sem que a fêmea apresente sinais de comportamento estral.
Comportamento 1105
Rotinas comportamentais normais são alteradas durante a estro manifestado, e
existe tipicamente uma diminuição nos comportamentos de alimentação e descanso, enquanto os comportamentos locomotor, agonístico, investigativo e vocal
aumentam. Estas respostas são secundárias em relação ao caráter essencial do
estro, isto é, a disposição da fêmea para aceitar o acasalamento.
O comportamento de monta entre fêmeas é típico do estro de vacas de grandes
rebanhos e algumas vezes é observado em cadelas, mas raramente em éguas,
gatas ou ovelhas. A égua no cio geralmente assume uma postura particular, que
envolve freqüente afastamento dos membros posteriores, enquanto a urina é
eliminada em pequenas quantidades e o clitóris é exposto em eversões rítmicas
repetidas. A égua procura a companhia de outros eqüinos e exibe um interesse
particular pelo macho. Na presença do garanhão, a égua no cio direcionará seus
quartos traseiros para ele e assim permanecerá. As porcas começarão a seguir os
cachaços ou quase qualquer coisa que se mova.
Os períodos e ciclos estrais variam consideravelmente nas éguas, possivelmente porque são selecionadas para ovular no começo de fevereiro – uma época não
natural do ano. O período estral geralmente dura de 4 a 10 dias e os ciclos se repetem
a cada 28 dias. Um período de anestro ocorre tipicamente durante a estação de
menor período de luz do dia, embora algumas éguas possam exibir estro comportamental e/ou fisiológico.
O estro na maioria das cadelas ocorre em intervalos de , 6 meses, independentemente da época do ano. A rhodesian ridgeback e a basenji tendem a manter uma
estação reprodutiva única e sazonal por ano, como a loba, sua ancestral. Algumas
das raças toy ciclam 3 vezes por ano. O sangramento pró-estral e o linhaço vulvar
são características exclusivas da cadela (ver também PSEUDOPRENHEZ, pág. 821).
O estro nos gatos tem uma periodicidade de 3 semanas, com picos no início da
primavera ou verão. A receptividade dura de 4 a 6 dias se ocorrer o acasalamento,
ou de 6 a 10 dias se não ocorrer. A vocalização do cio (“choro”) é usada para atrair
os machos, e uma vez que estejam por perto, os comportamentos de rolamento,
esfregação e lordose indicam o estado hormonal da gata.
Acasalamentos repetidos em ambientes naturais tendem a diminuir a duração de
estro nos bovinos por até 8h. Algumas fêmeas estimuladas por machos
vasectomizados mostram uma duração menor de estro. Estes exemplos confirmam
a visão moderna de que o estro não está somente sob controle endógeno e que sua
manifestação está sujeita, em parte, a fatores ambientais, inclusive bioestimulação.
As duas condições naturais comuns responsáveis pelo anestro, por exemplo, em
éguas e jumentas, são a sazonalidade e a prenhez. Cerca de 2% das vacas prenhes
apresentam estro durante a gestação e quase a mesma proporção exibe cios
silenciosos enquanto cicla.
MACHO
A libido no animal macho se desenvolve na puberdade e persiste, em certos
níveis, por toda a vida do animal. Ela depende da produção de testosterona e sua
manifestação é determinada por características herdadas. Pode ser alterada como
conseqüência de ações físicas ou inibida como resultado de situações adversas. Sob
condições naturais, um macho de baixa libido deixa pouca prole, porém em situações
domésticas, uma baixa libido pode ser perpetuada. Evidências experimentais e
circunstanciais indicam certa base genética para a libido. A nutrição exerce uma
influência leve; entretanto, um alto padrão nutricional pode inibir a produção de
testosterona em alguns machos jovens, enquanto uma subnutrição intensa pode
prejudicar a libido.
Desde que não haja correlação significante entre comportamento sexual e
qualidade do sêmen, uma avaliação adequada da habilidade de procriação do
reprodutor deve assegurar ambos os fatores.
Comportamento 1106
A libido se manifesta durante a corte do macho. O “dobramento do lábio”, ou
“flehmen”, é demonstrado na maioria dos ungulados. O macho estende a cabeça e
o pescoço, contrai as narinas e levanta e enrola o lábio superior. Isto geralmente
ocorre após ele cheirar a urina ou o períneo da fêmea e envolve o olfato.
COMPORTAMENTO COITAL
“Disposição” para o coito é freqüentemente observada nos machos que
cortejam as fêmeas imediatamente antes e durante o estro. A livre associação
dos parceiros para o acasalamento pode estabelecer uma aliança temporária
(“ligação coital”), que facilita a repetição do acasalamento e assegura condições
ideais para fertilização. Algumas formas de cutucões ocorrem no comportamento
pré-coital na maioria dos ungulados. Ao empurrar os quartos traseiros da fêmea,
o macho é capaz de sentir se ela se afasta, como no proestro, ou se aceita. Este
é um comportamento comum nos touros. Os garanhões testam o estro na égua,
cheirando mordendo e beliscando regiões do corpo, desde os quartos traseiros
até o pescoço da égua.
Uma das funções da corte é orientar o macho a encontrar maneiras de realizar
a penetração. A monta apropriada é parcialmente adquirida pelo aprendizado. Os
machos normalmente montam em fêmeas de sua própria espécie, porém
garanhões podem montar em jumentas e jumentos podem montar em éguas
(resultando em mulas). Ocasionalmente, caprinos e ovinos poderão se acasalar.
Mais raramente pode ocorrer a monta de éguas por touros, novilhas por garanhões,
e várias espécies por cães. Um afeiçoamento inadequado na infância é geralmente a base para tais relacionamentos. A corte também permite ao macho conseguir
uma ereção completa, de forma que um período longo de corte é muito importante
em espécies com pênis vascular, ao contrário das espécies que possuem pênis
fibroelástico.
A fase de acasalamento do comportamento sexual masculino compreende vários
componentes comportamentais. Incluem-se entre eles a monta, abraços, investidas
pélvicas, penetração e ejaculação. As “montas falsas”, pelos machos, ocorrem se
não se conseguir a penetração e se forem necessárias mais de uma tentativa para
se conseguir o acasalamento; por exemplo, nos garanhões, 2 ou 3 montas falsas são
antes de se conseguir o acasalamento. No touros, carneiros e bodes, a penetração
consiste de uma única investida pélvica, seguida por desmonta. Nos garanhões, há
um longo período de investida pélvica antes da ejaculação. Os suínos têm uma fase
de acasalamento relativamente longa, com a ejaculação durando até 20min. O
acasalamento em gatos ocorre muito rapidamente; assim que o gato retira seu pênis,
as espículas penianas estimulam o epitélio vaginal, fazendo com que a gata se vire
e ataque o gato. Nos cães, ocorre um “engate” durante a penetração à medida que
a musculatura vulvovaginal se retesa atrás do bulbo do pênis. Este engate é mantido
por 10 a 30min, mesmo que o macho desmonte e passe um membro posterior por
sobre o dorso da fêmea, de forma que fique de costas para ela.
A fase pós-acasalamento inclui a desmonta, a limpeza genital em algumas
espécies, e um período refratário em que não há interesse em fêmeas no estro. Um
rápido retorno à presteza de acasalamento é visto em machos que receberam a
oportunidade de acasalar com uma nova fêmea.
As fêmeas normalmente são cobertas várias vezes durante cada período
estral. A freqüência é influenciada por vários fatores, incluindo o número de
fêmeas no cio, machos competidores, serviços anteriores e o grau de receptividade
nas fêmeas no cio. Quando existe competição entre as ovelhas por um número
limitado de carneiros, as mais velhas geralmente conseguem obter maior número
de montas que as mais jovens.
Comportamento
1107
TABELA 2 – Coito, Gr An
Tempo de reação
do macho
Eqüinos
5min em média
Bovinos
Geralmente 2min
Média de 12min
Média para raças de corte
20min
Suínos
1 a 10min
Ovinos
De 30s a 5min
Comportamento pré-coital
do macho
Modo de
penetração
Duração da penetração
e local da inseminação
Repetição dos
acasalamentos
Cheira a região genital.
Reflexo olfatório genital.
Morde a região da garupa. Pênis ereto
Cheira a vulva. Reflexo olfatório genital. Alinhamento. Lambe o quarto traseiro
De 1 a 4 montas. Várias
oscilações pélvicas. Fase
inativa terminal
1min, intracervical
Investida pélvica única combinada com reflexo de
“abraço”
5 a 10s, intravaginal
Aproxima-se da porca dando uma série de grunhidos. Cheira a vulva vigorosamente. “Mastiga” ruidosamente a mandíbula
e espuma pela boca
Cheira a vulva. Reflexo olfatório genital. Arranha
com as patas dianteiras.
Balindo, dá patadas com
as patas dianteiras e rápidos abraços. Reflexo olfatório genital
Pequenas protrusões do
pênis espiral repetidas até
que a penetração ocorra.
Oscilações pélvicas seguidas de fase sonolenta
9min, intra-uterina
Muitos cachaços servirão às
porcas 3 a 7 vezes por
período de estro
Investida pélvica única muito rápida, com “abraço”
dos membros anteriores
5s, intravaginal
Os carneiros algumas vezes
servirão à ovelha em estro
várias vezes. Alguns carneiros adultos servirão a
cada ovelha apenas 1 vez
Os cruzamentos são geralmente arranjados de
modo a permitir 2 a 4 serviços por estro
Os touros ao ar livre servirão às vacas 3 a 10 vezes
no período de estro
Comportamento 1108
CARACTERÍSTICAS DO COMPORTAMENTO REPRODUTIVO
EM AVES DOMÉSTICAS
Comportamento sexual – À medida que o frango atinge a maturidade, a
produção de testosterona resulta em características sexuais secundárias, incluindo
o crescimento de crista e barbelas e o surgimento do canto do galo. As atividades
de corte do macho incluem o ciscamento do chão, o balançar das asas e a dança
do acasalamento, que leva à cópula. O canto, que é raro nos capões, informa a
localização do macho e seu território para as pretendentes e as afasta de outros
machos. A interferência masculina na cópula é comum quando existem vários
machos em um pequeno galinheiro com poucas fêmeas.
À medida que a franga atinge a maturidade, os hormônios do córtex ovariano
estimulam o crescimento de ovidutos, inibem a plumagem masculina, e são
responsáveis pelo agachamento sexual, quando o galo coloca um pé em seu dorso
antes de acasalar. Barbelas e cristas modificadas também podem-se desenvolver.
Comportamento parental – Exceto em raças “sem choco”, a incubação se inicia
quando um certo número de ovos já foi posto. Durante o choco, os ovos são virados,
impedindo assim a adesão no interior da casca. Uma área de choco altamente
vascularizada, aquecida e sem penas se desenvolve em cada lado do tórax. A
galinha ao chocar cacareja e arrepia suas penas se perturbada. Sob condições de
perigo, um elaborado comportamento de aproximação confunde seus predadores
e permite às galinhas retornarem a seus ninhos sem serem percebidas. Durante a
incubação (20 a 22 dias), a prolactina reduz a atividade ovariana e o comportamento
sexual e assim a ovoposição cessa. Após a eclosão, a galinha se utiliza de
vocalizações curtas, repetitivas e baixas para conduzir os pintinhos e indicar as
fontes de alimento. Ela os afasta dos predadores aéreos e terrestres por meio do
cacarejo ou de um grito abafado.
Os perus são reprodutores sazonais; o pico de atividade é na primavera, porém
com o uso de luz artificial, pode-se mantê-los sexualmente ativos por todo o ano. Os
machos iniciam uma corte elaborada (cada uma pode durar até 10min) com posturas
e movimentos, porém são ignorados por todos, exceto por fêmeas receptivas. A
receptividade dura , 2 dias. As fêmeas abaixam-se em resposta ao “pavoneamento”
do macho, permanecendo quietas com a cabeça recolhida perto do corpo. O macho
se aproxima devagar, monta, pisa e realiza o contato cloacal com o oviduto evertido
da fêmea. A ejaculação se segue rapidamente, o macho desmonta e a fêmea
executa um encrespamento pós-copulatório das penas e uma corrida breve. Os
machos têm um breve período refratário e podem chegar a se acasalar com cerca
de 10 fêmeas em 30min. Não se formam pares, porém os machos dominantes
podem possuir um harém que irão defender contra outros machos. Apenas os
machos de posições superiores completam o acasalamento com sucesso. Fêmeas de
posição inferior são acasaladas mais freqüentemente que as de posição superior,
contudo botam ovos menores e em menor quantidade. Após um único acasalamento, ovos férteis podem ser botados por cerca de 5 a 6 semanas. Quando os ovos são
removidos periodicamente, o comportamento de choco pode ser adiado.
ESTRESSE COMPORTAMENTAL
O controle exercido pelo homem sobre os animais domésticos continua a
aumentar, e novas fases de criação intensiva continuam a ser implementadas.
Existe um aumento de demanda pública por veterinários para avaliar condições de
manejo e sanidade do grande número de animais mantidos em condições intensivas
Comportamento 1109
em ambientes artificiais. Os estressantes são fatores ambientais que induzem
estados de estresse em animais de rebanho. O estresse pode ser indicado por
mudanças no comportamento dos animais e estratégias que estes adotam para
superar os fatores estressantes: 1. os animais necessitam de algum estímulo
para superar o estresse ou “tédio” em um ambiente inóspito; 2. o animal pode
apresentar uma resposta adaptativa efetiva aos estressantes normais; e 3. além de
um nível crítico de estresse, o animal pode não ser capaz de se adaptar da maneira
esperada e produzir respostas anormais ou anômalas. Muito da pesquisa já
realizada concentrou-se sobre as necessidades nutricionais, sanidade e higiene; as
necessidades comportamentais e sociais dos animais foram pouco compreendidas.
A superlotação e/ou confinamento levam a vários efeitos estressantes e os padrões
comportamentais resultantes quase sempre têm sido definidos como “vícios”.
Várias tentativas têm sido feitas para que se avaliem os vários estressantes de um
ambiente e se calcular um índice estressante. Uma dificuldade é que um estressante
para um indivíduo ou raça pode não o ser para outro.
Alguns dos padrões anômalos ou anormais apresentados pelos animais em
estresse quando se encaixam em sistemas de comportamento são discutidos adiante.
Comportamento anômalo – No passado existia comparativamente pouco
conhecimento disponível sobre as respostas dos animais mantidos sob sistemas
intensivos de criação. Muitas formas de comportamento anormal são relacionadas
a estímulos nocivos ou estressantes no ambiente. Ambientes inferiores parecem
estar fortemente relacionados a comportamentos anômalos, tais como canibalismo,
redução do apetite, movimentos estereotipados, pouco cuidado parental,
superagressividade, falta de responsividade, mordedura de caudas e cochos,
mastigação destrutiva, escavação, comportamento de limpeza excessivo e vários
outros. Os comportamentos que anteriormente eram vistos como vícios são formas
de comportamento anômalo que surgem à medida que um animal tenta enfrentar
restrição, superlotação ou falta de estímulos diversificados no ambiente.
Algumas tentativas recentes têm sido feitas para classificar as várias respostas
comportamentais anômalas observadas nos animais domésticos. Embora nenhuma seja inteiramente satisfatória, um destes sistemas pode ser utilizado para tentar
esclarecer este difícil campo de estudo. Comportamentos anômalos podem ser
caracterizados por sua forma, freqüência e pelo sistema comportamental no qual
ocorre.
Anomalias reativas – Muitas das formas anômalas de comportamento descritas
ocorrem enquanto o animal está excitado. Estas anomalias (ver TABELA 3) incluem
a volteadura a esmo em cavalos, a esfregadura de focinho em porcos e a limpeza
de penas deslocadas em aves. Elas são em sua maioria atividades estereotipadas
dos movimentos corporais e, freqüentemente, surgem como resultado de atos
deslocados.
Comportamento oral/ingestivo anômalo – Síndromes comportamentais anômalas que envolvem respostas orais ou ingestivas são uma outra subclasse (ver
TABELAS 4 e 5). As deficiências nutricionais são somente um fator contribuinte no
animal que exibe movimentos bucais anormais ou anomalias ingestivas. Cãezinhos
alimentados artificialmente na mamadeira com um grande furo no bico continuavam
a sugar as orelhas de seus companheiros logo após a ingestão do leite disponível.
Da mesma maneira, bezerros criados na mamadeira freqüentemente desenvolvem
o hábito de “sugar” seus companheiros. Tais desordens devem estar envolvidas
com mudanças nas práticas comuns de criação.
Anomalias reprodutivas – Ver TABELA 6. Várias respostas de má-adaptação
relacionam-se com atividades sexual, maternal ou neonatal. Respostas anômalas relacionadas ao estro e à libido representam sérios problemas para a indústria
animal.
Comportamento 1110
TABELA 3 – Anomalias do Comportamento Reativo
Condição
Animais
envolvidos
Etiologia
Seqüelas clínicas
Volteadura a esmo
Cavalos
Contenção
Emaciação
Dorso dolorido
Sacudidela da
cabeça
Aves
Cavalos
Espécies exóticas
“Frustração”
Desconhecidas
Inclinação da
cabeça
Cavalos
“Frustração”
Problemas dentários
Desconhecidas
Esfregadura do
focinho (nariz)
Suínos
Cães
Gatos
Lotação
Incertas
Andadura estereotipada
Cavalos
Aves
Cães
Espécies exóticas
Confinamento
“Frustração”
Emaciação
Agitação das patas
Cavalos
Touros
Incerta
Desconhecidas
Automutilação
Cavalos
Cães
Confinamento
“Frustração”
Lesões
Esfregadura da cabeça
Suínos
Gado
Isolamento
Desconhecidas
Esfregadura da cauda
Cavalos
Variada
Desconhecidas
Atividades de
deslocamento
Todas as espécies
“Frustração”
Desconhecidas
Posição de pé crônica
Cavalos
Bezerros
Incapacidade
e restrição
Fadiga
Sentada de cachorro
sonolenta
Porcas
Cavalos
Gado
Variada
Geralmente
nenhuma
Infecções urinárias
Morte súbita por
insuficiência renal
Sucção do flanco
Cães
“Frustração”
Provavelmente
nenhuma
Comportamento
destrutivo
Cães
Gatos
Cavalos
“Frustração”
Nenhuma
Necessidades comportamentais – Existem muitos debates a respeito da importância das necessidades etológicas dos animais domésticos. Os suínos necessitam
chafurdar quando confinados, ou galinhas necessitam de um local para banho de pó
quando em pequenas gaiolas? Quando as condições permitirem, os suínos chafurdarão para regular a temperatura corporal, ou então, durante períodos de recreação. Se
um porco bem-criado possui uma temperatura ambiente confortável, ele tem a
necessidade de chafurdar; há um efeito adverso no porco se a chafurdação não for
Comportamento 1111
TABELA 4 – Anomalias do Comportamento Ingestivo Localizadas na Boca
Condição
Animais
envolvidos
Etiologia
Seqüelas clínicas
Mordedura do cocho
Cavalos
Confinamento
Emaciação
Cólicas ocasionais
Afinamento do cocho
(lambedura)
Cavalos
Cães
Gatos
Confinamento
Nervosismo
Desconhecidas
Mordedura da cauda
Suínos
Cavalos
Cães
Complexa; envolve
nutrição deficiente,
lotação,
“frustração”
Emaciação
Abscessos nos quartos
traseiros
Puxamento da língua
Cavalos
Incerta
Desconhecidas
Mordedura de grade
Suínos
Confinamento
Produção reduzida e
subfertilidade
Sucção prolongada
Bezerros
Leitões
Cãezinhos
Gatinhos
Desmame precoce
Formação de chumaços
de pêlos (tricobezoares)
Trauma em outros
Limpeza corporal
excessiva
Bezerros
Cães
Gatos
Confinamento
“Frustração”
Formação de chumaços
de pêlos
Granuloma por lambedura
Arrancamento de lã
(pêlos)
Ovinos
Primatas
Confinamento
“Frustração”
Perda do velo ou de pêlos
Enrolamento da língua
Gado
Confinamento
Desconhecidas
Mastigação de vácuo
Suínos
Confinamento
Notável perda de peso e
baixa fertilidade
Bicagem das penas
Aves
Criações em altas
densidades
Perda de penas
Trauma
feita; ele ficará frustado, estressado ou mesmo sentirá dor? Argumenta-se freqüentemente que suínos que tiveram experiências prévias de chafurdação dela necessitarão; a necessidade seria a mesma em um porco que nunca a experimentou? Estas
áreas são difíceis de pesquisar, embora sejam matérias de constantes debates.
O veterinário pode responder apenas intuitivamente. Um determinado ambiente
fechado pode ser particularmente restritivo e permitir apenas algumas poucas
oportunidades de limpeza, espreguiçamento, exibição ou mesmo contato social
com os membros deste confinamento. Com possibilidades limitadas para atividades, algumas espécies tendem a adotar anormalidades orais. Os suínos têm uma
profunda necessidade de fossar ou roçar a boca em alguns materiais. Quanto mais
característica de uma espécie for a resposta comportamental que foi frustada, mais
provavelmente uma necessidade etológica não estará sendo suprida. O debate está
ligado à importância das necessidades comportamentais dos animais e seu relacionamento com a sanidade animal. Pode-se acreditar que as muitas necessidades
comportamentais não sejam essenciais, porém, se preenchidas, ou se substituídas
por alternativas, o animal pode-se desenvolver melhor. Estudos demonstram que
bons cuidados na infância, comunicação com animais estabulados, etc. possuem
Comportamento 1112
TABELA 5 – Anomalias do Comportamento Ingestivo
Condição
Deglutição de vento
(aerofagia)
Animais envolvidos
Manifestações
Cavalos
O ar é repetidamente engolido, sozinho ou em associação com uma ação
de mordedura
Mastigação de madeira
(lignofagia)
Cavalos, gado,
carneiros
Retirada de cascas de árvores e mastigação de cercas restritivas ou cercados internos
Ingestão de fezes
(coprofagia)
Cavalos, porcos,
cães
Normal em coelhos e em filhotes da
maioria das espécies. Em animais
adultos, por exemplo, cavalos, cães
e porcos confinados. Em porcos,
pode seguir-se à atividade de massagem anal
Ingestão de pêlos
(tricofagia)
Carneiros, gado,
cavalos, gatos,
coelhos
Ingestão de pelagem, isto é, pêlos ou
lã, própria ou de outros. Pode ocorrer
como seqüela de limpeza excessiva
ou sucção corporal
Ingestão anômala de leite
(galactofagia)
Gado (leiteiro), cordeiros, gatos
Sucção cruzada por animais adultos
Ingestão de terra
(geofagia)
Cavalos, gado, gatos, cães
Ingestão de terra e areia em quantidades substanciais
Empanturramento
(hiperfagia)
Cavalos, gado,
cães, gatos
Superingestão e deglutição rápida de
alimentos de forma habitual ou esporádica
Ingestão excessiva de água
(polidipsia)
Cavalos, carneiros,
porcos, aves
Consumo excessivo de água por meio
da ingestão freqüente, demonstrada
em animais confinados com suprimento de água à vontade. Pode ser
um processo patológico, porém, mais
freqüentemente é um distúrbio comportamental
“Pica”
Gado, carneiros,
cães, gatos
Mastigação de objetos estranhos tais
como ossos velhos, roupas, etc. Sugere deficiência, por exemplo, afosforose
Ingestão de camas
Cavalos, aves, gatinhos
Ingestão de camas limpas ou sujas,
particularmente pedaços de madeira ou palha
Ingestão das penas
Aves (galinhas)
Bicagem e deglutição das penas de
outras aves. Respostas alimentares
maldirigidas na criação de aves mantidas em grupos compactos com ração concentrada
Ingestão dos ovos
Aves (galinhas) (em
camas)
Quebra das cascas dos ovos por bicadas e ingestão do conteúdo
Mordedura ou bicagem do
corpo
Aves, porcos
Morder ou “bicar” várias partes do corpo, tais como cabeça, cauda, orelha,
dorso, ânus, dedos e vísceras
prolapsadas
Comportamento 1113
TABELA 6 – Anomalias do Comportamento Reprodutivo
Condição
Cio silencioso
Animais envolvidos
Éguas, vacas e cadelas
Impotência sonolenta
Touros
Desalinhamento coital
Touros, bodes
Impotência da penetração
Touros, carneiros
Síndrome monossexual
Carneiros, touros,
cachaços e novilhos em confinamento
Rejeição do neonato
Todas as espécies
Deficiência materna
Todas as espécies
Roubo de outras crias
Éguas, vacas e ovelhas
Esforço de sucção deficiente
Todas as espécies
Agressão puerperal
Rebanho parturiente
Canibalismo materno
Porcas, ovelhas,
cadelas e gatas
Pseudociese
Cadelas
Manifestações
Estro comportamental ausente ou em baixos níveis em uma fêmea que possua as
outras características fisiológicas do estro
fértil
Alinhamento correto do macho atrás da
fêmea em estro, porém com adoção da
condição de sonolência inativa; a cabeça
geralmente repousa no dorso da fêmea
Adoção de uma posição pelo macho, na qual
há desvio do alinhamento da fêmea e não
ocorre a monta (“monta pela cabeça”)
Monta ativa, ocorre o abraço mas com
pouca investida e penetração insuficiente persistente
Monta sexual de outros machos à exclusão
de fêmeas, por exemplo, em carneiros
criados em grupos unissexuais densos.
Síndrome do touro-novilho: tolerância dos
novilhos à monta freqüente por outros
novilhos quando em grupos confinados
Reação agressiva persistente em direção
ao recém-nascido ou deserção ativa pela
mãe
Reação materna negativa persistente em
direção ao recém-nascido, que não tem
permissão para mamar. Deficiência na
“descida do leite”
Esforços pré-parto de uma mãe para adotar as crias pertencentes a outras fêmeas.
Freqüentemente é uma função de densidade de rebanho e parturição sincronizada ou altas densidades de rebanho
Deficiência do recém-nascido para apresentar o comportamento positivo de procura da teta
Desenvolvimento súbito de comportamento
agressivo violento (pós-parto), direcionado anti-socialmente e ocorrendo temporariamente
Marrãs recém-paridas com sua primeira
leitegada podem comer sua cria quando
agitadas. Ovelhas confinadas, ocasionalmente, comem as caudas e pés de
seus cordeiros recém-nascidos. As cadelas podem continuar a morder o coto
umbilical, romper a parede abdominal e
consumir as vísceras, bem como, ocasionalmente, os pés de suas crias
Cadelas com corpo lúteo persistente adotam comportamento parturiente, incluindo a formação de ninhos e a “adoção” de
objetos inanimados
Comportamento 1114
TABELA 7 – Anomalias de Comportamento Agonístico
Condição
Agressão clara intensa
Animais envolvidos
Todas as espécies
domésticas
Manifestações
Investir, empurrar ou atacar agressivamente animais intrusos ou que
estão se aproximando de espécies
diferentes ou da mesma espécie (inclusive o homem)
Alarme excessivo
Todas as espécies
domésticas
Ameaça
Todas as espécies
domésticas
Cabeçada
Ruminantes, notadamente bovinos,
bodes e carneiros
Mordedura
Cavalos, cães, gatos e porcos
Reações claras e intensas: estouro de
boiada, disparadas, fuga histérica
em aves
Exibição de ameaça clara e intensa,
particularmente quando da aproximação humana
Investir com a cabeça, ferir com os
chifres, empurrar a cabeça contra
objetos ou pessoas competitivas/intrusas/acessíveis
Dentadas ou mordidas anti-sociais
habituais
Atacar agressivamente com uma pata
ou perna
1. Atacar frontalmente com uma pata
dianteira
2. Erguer o quarto traseiro e atacar
violentamente para trás com ambas
as patas
3. Escoicear para baixo e para trás
com uma pata traseira
4. Escoicear para a frente com uma
pata traseira
5. Escoicear para o lado com uma pata
traseira
Refugo, empacamento, reações por
sobressalto. Evita certas situações,
características ambientais ou eventos. Reações de alarme intensas;
podem incluir arremesso da cabeça,
empinamento, saltos e retirada imediata
Repouso, paralisação e imobilidade
tônica persistente em formas de repouso reativo. Recusa a levantar-se
como resposta a uma solicitação
urgente. Uma forma de acinesia ou
inércia funcional
Coice e ataque
1. Cavalos
2. Cavalos
Alarme por sobressalto
Paralisação (hipotonia)
3. Todas as espécies domésticas
4. Todas as espécies domésticas
5. Mulas, burro, gado
Todas as espécies,
mais comumente
em cavalos
Todas as espécies.
Mais comum em
bovinos e outros
ruminantes, galinhas e cães
um efeito benéfico no crescimento e na produção e diminuem as chances do animal
sucumbir por doenças e estresse, o que pode refletir sobre as conseqüências da
atenção às necessidades etológicas.
CONTROLE DE SÍNDROMES COMPORTAMENTAIS
Tem se argumentado que uma anomalia comportamental induzida por estresse
(como movimento estereotipado e repetitivo) seja um sinal de adaptação; em outras
Comportamento 1115
palavras, a homeostasia comportamental diminui ou elimina o estresse. Outros
argumentam que essa interpretação, em termos de saúde animal, é ilógica. A
persistência de um comportamento anômalo pode ser adaptativa se os fatores
causais ainda estiverem presentes; entretanto, os comportamentos freqüentemente
persistem após os fatores terem sido removidos. Estudos indicam que antagonistas
narcóticos podem deter tal comportamento por pouco tempo, o que sugere que esse
comportamento possa liberar endorfinas. A deterioração posterior, tanto comportamental quanto fisiológica, pode ocorrer e afetar a conversão alimentar, a saúde, a
produtividade, o crescimento e a resistência a doenças. O controle de anomalias
comportamentais é ética e fisiologicamente desejável. Adiante, métodos de controle
de anomalias comportamentais são indicados, quando praticáveis.
Síndromes
Volteadura a esmo – Reconhecida como desordem comportamental de animais
enjaulados ou confinados, é comum em eqüinos que tenham sido mantidos por muito
tempo em baias. O animal fica em uma posição, mas volteia de lado a lado ou pode
balançar-se para trás e para frente. Uma vez adquirida, a volteadura a esmo é
extremamente difícil de controlar, e acredita-se que a anomalia possa ser induzida
em outros eqüinos em um estábulo por associação. Até certo ponto, pode ser
controlada amarrando-se o eqüino com cordas atravessadas de forma a limitar o
movimento lateral de sua cabeça. Grilhões nos membros anteriores também tendem
a limitar o movimento em um estábulo. Sem exercício, porém, o problema raramente
é controlado. Teoricamente, os animais afetados devem ser retirados para pastejo,
mas quando isso não for possível, devido à falta de espaço, um exercício reforçado
pode ser feito através da cavalgadura, disparadas ou uso de exercitador mecânico.
Agitação das patas – O controle da agitação das patas é difícil, particularmente
porque a causa é desconhecida. Já que ocorre mais freqüentemente em eqüinos
confinados e isolados, pode ser aliviada retirando-se o animal afetado para pastejo
com outros eqüinos. Grilhões ou correntes para evitar coice podem ser usados em
eqüinos problemáticos com pouco sucesso.
Andadura estereotipada – Nos eqüinos, ela é definida como “marcha de
cocheira”. É um comportamento comum em animais de circo e zoológico que
estejam confinados a pequenos espaços. Também ocorre em cães que tenham sido
mantidos em canis por longo tempo e em aves. No caso das aves, parece ser
induzida por aves frustradas que estejam não só esfomeadas, mas também em
estado de grande expectativa. As aves afetadas tipicamente mostram movimentos
de andadura repetitivos, ocupando toda a extensão de um lado do galinheiro ou
gaiola. Uma vez que a condição tenha-se transformado em comportamento estabelecido em um eqüino ou ave, não pode ser controlada sem liberdade ambiental.
Sacudidela da cabeça – É mais comum em aves engaioladas que em galinhas
criadas no chão. É também vista quando a proporção de reposição das aves é
aumentada. É reduzida quando as aves são transferidas a um ambiente novo em um
galinheiro de maior espaço. Os eqüinos e animais de zoológico também podem exibir
sacudidela da cabeça.
Inclinação da cabeça – Várias formas desta anomalia comportamental em
eqüinos, a qual é semelhante à sacudidela de cabeça, ocorrem como comportamento estereotipado. Uma vez estabelecida a condição, o controle é difícil. Um par de
antolhos bem pesados pode distrair um eqüino nesta prática. Se o comportamento
estiver começando, deve-se ter cuidado com dentadas.
Esfregadura da cabeça – É algumas vezes observada em suínos ou bovinos
sujeitos a confinamento crônico em baias solitárias e estreitas. O controle deste
comportamento (como de outras ações estereotipadas somáticas semelhantes)
parece exigir alívio do confinamento crônico.
Comportamento 1116
Esfregadura da cauda – Este comportamento em eqüinos não é específico.
Para eliminar a possibilidade de parasitismo (ver pág. 242), o eqüino deve ser
examinado e receber um parasiticida se necessário.
Esfregadura do nariz (focinho) – Tem sido observada em certos tipos de
suínos e ocasionalmente em cães e gatos. O comportamento anômalo de
massagem anal por esfregadura do focinho e ingestão de fezes, visto em suínos,
é uma anomalia composta. A condição ocorre tipicamente entre suínos em
crescimento mantidos em condições de lotação, e tem sido mais observada
desde que o corte da cauda se tornou claramente universal no controle da
mordedura desta.
A melhora de condições de lotação pode controlar a esfregadura do focinho e
a coprofagia associada (ver pág. 1122) e é mais eficiente na prevenção. Já que
a anomalia pode ser induzida em chiqueiros contíguos por associação visual,
recomenda-se a adoção de chiqueiros com paredes sólidas. A esfregadura do
focinho também pode ser reduzida pelo fornecimento de objetos que os suínos
possam mastigar e fossar.
Automutilação – A fricção corporal vigorosa ou a mordedura de flanco é uma
anomalia comportamental severa em eqüinos, principalmente naqueles confinados
e isolados. Os cães exibem automutilação ao mastigarem destrutivamente suas
caudas ou lamberem granulomas. Tranqüilizantes maiores e menores e, experimentalmente, antagonistas narcóticos têm sido usados para deter o comportamento. O aumento de exercício e a diminuição de estresse são importantes. A sucção
do flanco em dobermans e alguns outros cães é vista durante estresse; o cão
mantém sua boca em seu lombo ou flanco, deixando uma mancha úmida, mas
raramente causando um problema. Enquanto os animais afetados não exibirem
qualquer afecção cutânea patológica, parasitismo, neuromas ou afecção clínica
gastrointestinal, estas possibilidades devem ser investigadas.
Atividades de deslocamento – As atividades de deslocamento são comportamentos normais expressados em momentos inapropriados. Várias delas podem ser
reconhecidas em animais de fazenda. Estão quase sempre na forma de unidades
individuais de comportamento alimentar ou de limpeza, e são mostradas como
“trocas enérgicas” em situações de conflito. Embora todos esses casos não devam
ser considerados como comportamentos anômalos, uma alta incidência de atividade de deslocamento implica em casos individuais.
Posição de pé crônica – Antigamente, não era incomum que os cavaleiros
fornecessem a esses animais uma corrente de viga forte ligada a postes traseiros
de uma cocheira, para que o animal apoiasse os quartos traseiros neles e assim
conseguisse descansar e dormir.
Sentada de cachorro – É vista em porcas reprodutoras confinadas na maior
parte de sua prenhez em cocheiras solitárias e estreitas. Uma forma semelhante
é vista às vezes em vitelos após confinamento demorado em engradados
estreitos. Também, de vez em quando, as posições de sentada de cachorro são
vistas em animais de criação mais pesados, como touros e alguns eqüinos. A
sentada de cachorro anômala pode ser controlada por alterações na forma de
criação; entretanto, uma vez que esses estilos de criação geralmente representam condutas eficazes na indústria de produção animal, tais alterações podem
ser difíceis de ser empreendidas.
Anomalias reativas – As manifestações de temperamento anômalo são
predominantemente hiper-reações de atitude. As etoanomalias reativas são um
problema particular entre animais de companhia, sobretudo cães. A reatividade
anômala individual pode ser determinada por observação, utilizando-se julgamento clínico. As formas individuais de comportamento reativo anômalo são
vistas a seguir com referências para controle.
Comportamento 1117
Agressão móvel – O comportamento agressivo na intenção de atacar um
indivíduo que se aproxima é notável em cães. É visto também em todas as espécies
de criação, de tempos em tempos, mais comumente em machos e mães de animais
recém-nascidos. O ataque agressivo é comum em cães com território ao ar livre, em
éguas com potros jovens, em gansos ao ar livre e em vacas recém-paridas de certas
raças, por exemplo, galloway e brahman. Também é comum entre garanhões e cães
na forma de agressão intermasculina. O controle reside na forma de contenção ou
prevenção.
Alarme móvel – Uma tendência anormal à fuga repentina é observada em
alguns animais. A fuga é uma forma extensiva de reação de alarme, a qual é muito
normal e adaptativa entre animais que seriam predados em vida selvagem, ou
mesmo sob condições de vida livre em animais domésticos. Sua ocorrência dentro
dos sistemas de criação sem estímulo apropriado é mal-adaptativa. A tendência a
esta síndrome nas aves é chamada “estouvamento”. O estouvamento é uma
anormalidade mais proeminente em algumas linhagens de aves do que em outras
(ver adiante). Também visto em outras espécies quando cercadas e acumulam
energia. Os eqüinos com esta tendência quase sempre reagem a pequenos
estímulos e podem derrubar seus cavaleiros. O controle exige a eliminação dos
estímulos prováveis e exercício crescente para eliminar a energia extra.
Histeria – A reação de alarme extensivo nas aves é quase sempre denominado
como histeria. O estouvamento nas galinhas domésticas aparece em diferentes
tipos de comportamento histérico e nervoso em diferentes ambientes e faixas
etárias. A histeria nas poedeiras é caracterizada por fuga repentina com grasnidos
e tentativas de se esconder. O controle está relacionado à densidade populacional.
A incidência de histeria em aves criadas em galinheiros é intimamente relacionada
à densidade populacional: plantéis de 40 aves têm apresentado 90% de incidência,
enquanto plantéis-controle de 20 aves têm uma incidência de 22%. A remoção das
unhas dos dedos em aves tem contribuído para reduzir a histeria, mas não deve ser
considerada ética. Para algumas linhagens de aves, prefere-se o engaiolamento;
sem dúvida, este procedimento controla um pouco a histeria, embora ela possa se
espalhar por todo um plantel em gaiolas enfileiradas.
Ameaça – O hábito de apresentar uma demonstração de ameaça é uma característica comum de temperamento anômalo em alguns animais, mais freqüentemente
em machos não castrados. Assume-se a forma de demonstração de ameaça típica da
espécie quando o animal está em associação íntima ao homem. É tipicamente um tipo
estático e não a exibição móvel de agressão considerada anteriormente. Nos cães, as
mostras de ameaça têm várias características principais comuns, incluindo tensão
muscular, atividade pilomotora, levantamento da cabeça, vocalização, olhar fixo e
orientação em direção ao intruso tanto direta como obliquamente. Isto pode potencializar o ataque e é uma característica de agressão dominadora nos cães. Os eqüinos
quase sempre viram suas orelhas para trás e mostram os dentes quando pessoas se
aproximam de suas baias, mesmo com comida. Alguns investem contra uma pessoa
que tenta entrar na cocheira. A contenção a fim de promover segurança deve ser
considerada. A punição pelo comportamento ou recompensa por comportamento
desejável pode diminuir o problema.
Cabeçada – Alguns ruminantes têm o hábito de atacar agressivamente com a
cabeça, não importando se têm ou não chifres. A condição pode ser agravada por
pessoas que brincam com a cabeça do animal; deve-se ter cuidado ao trabalhar-se
perto destes animais.
Mordedura – Um vício comportamental exibido ocasionalmente por cães e
eqüinos, a mordedura ocorre geralmente na forma de abocanhamento e dentada
com os dentes incisivos direcionados a outro animal ou pessoa que chegue muito
perto. Os gatos também podem morder. O mordedor típico morde com sinais de
Comportamento 1118
aviso, como voltar as orelhas para trás, retrair os lábios e mostrar os dentes, embora
alguns possam usar este comportamento apenas como um ato brincalhão. As
tentativas de mordedura geralmente são súbitas. O amordaçamento é um controle
eficiente. A punição a cada ocorrência também pode ajudar.
Coice e ataque – Os animais que exibem comportamento de coice anômalo são
considerados como hiper-reativos em temperamento. O empinamento e o ataque
com as patas dianteiras são hábitos perigosos de alguns eqüinos, mais comumente
de garanhões e eqüinos desorientados, e o golpe com um membro dianteiro pode
ser feito sem empinamento. Outros eqüinos escoiceiam com um dos dois membros
traseiros e podem mirar alvos específicos ou apenas procurar alvos aleatórios. O
controle do coice habitual é difícil. O condicionamento negativo pode ser tentado por
métodos que inflijam dor ao animal quando este escoicear, mas o sucesso depende
de ter cada coice punido com um método que seja doloroso o suficiente para que o
animal pare. Grilhões e correntes anticoice têm sido utilizados. Os animais implicados devem ser manejados com cuidado.
Refugo (sobressalto/aversão) – O refugo é mais notável em eqüinos, mas pode
ocorrer em outros animais de criação. O controle, quando julgado necessário, pode
ser parcialmente alcançado pela provisão de um animal para companhia em um
cercado, por exemplo. O refugo é geralmente resultado de um objeto se movendo
muito rapidamente para que o eqüino consiga focalizá-lo; a reação instintiva que se
segue é a fuga. Os eqüinos que tendem a refugar são quase sempre aparelhados
com “antolhos” nas rédeas, um auxílio comum usado durante a cavalgada, já que
o refugo a qualquer momento pode ser perigoso.
Imobilidade tônica – O reconhecimento da imobilidade tônica anômala (inércia
submissa) ou discinesia tônica, é essencial no manejo racional do animal de criação
prostrado ou “caído”, de qualquer espécie. Corresponde ao clássico comportamento
exibido pelo gambá, no qual a catalepsia é um mecanismo instintivo para não
estimular as respostas persecutórias dos predadores. Alguns acreditam que, em
alguns casos, a vaca caída (ver pág. 669) possa ser um exemplo de “imobilidade
tônica” ou catalepsia. Em tais casos, a condição não constitui muito uma incapacidade para se levantar, mas sim uma forte relutância a tentar se levantar. A relutância
não só simula um estado corporal patológico como logo estabelece um. É possível
que o controle da “imobilidade tônica” em animais resida no contexto do diagnóstico
diferencial.
Atividade oral patológica – Uma síndrome genérica complexa e importante que
compreende uma variedade de manifestações de comportamento bucal excessivas
e anormalmente orientadas (ver também pág. 1093). A maioria das formas desta
síndrome está associada a circunstâncias combinadas de contenção crônica,
hipoestimulação e talvez energia excedente.
Mordedura de coelho – Um “mordedor comedor” agarra a lateral da manjedoura
(cocho) ou algum outro acessório conveniente com os dentes incisivos. Os incisivos
superiores são quase sempre usados sozinhos. O animal pressiona os dentes para
baixo e comprime a mandíbula; o palato mole é forçado a se abrir. A deglutição de
ar também pode ocorrer. Os eqüinos quase sempre desenvolvem o problema
quando já são mastigadores de madeira (ver pág. 1121). (“Deglutição de Vento” [ver
pág. 1121] é uma forma mais intensa desta condição. Não exige um lugar de
descanso para os dentes.)
A melhor abordagem é assegurar exercício e pastejo adequados para o eqüino.
Embora isso freqüentemente obtenha sucesso, os proprietários podem querer uma
solução mais simples, o que dificulta o controle. A medida mais comum consiste em
prender uma correia ao redor da garganta, suficientemente apertada para fazer com
que o arqueamento do pescoço se torne desconfortável. Alguns tipos dessas
correias têm uma “peça de garganta” de metal que possui um orifício no qual se
Comportamento 1119
encaixa a traquéia, e que permite que o aparelho seja usado sem o perigo de afetar
a respiração. Tais correias geralmente precisam ser removidas durante a alimentação. Existem outros aparelhos preventivos, mas geralmente são dolorosos para o
animal. Os mordedores podem parar com o hábito se forem alojados em um cubículo
avulso com paredes lisas e alimentados a partir de um cocho que seja removido tão
logo a alimentação tenha-se consumado; entretanto, outros comportamentos estereotipados podem aparecer. A cirurgia para seccionar alguns músculos da garganta
essenciais para o comportamento é algumas vezes realizada como último recurso
(ver AEROFAGIA, pág. 1121). Antagonistas narcóticos têm-se constituído em promessa
para ajudar esses animais.
Puxamento da língua – Nesta condição, o eqüino afetado repetidamente
permite que sua língua fique pendurada para fora da boca, quase sempre dobrandose longitudinalmente sobre si mesma, por períodos consideráveis. O eqüino pode
ou não encolher sua língua. Os métodos de controle variam desde dor na língua
causada por cabresto até a contenção da língua. A amputação da ponta da língua
tem sido usada, porém não deve ser considerada ética.
Afinamento do cocho (lambedura) – Alguns eqüinos sujeitos a confinamento
crônico colocam o corpo da língua vagarosa mas repetidamente ao redor da lateral
de alguma parte da cocheira. Em alguns casos, a provisão de um bloco de sal para
lamber parece aliviar o hábito, o qual pode indicar uma necessidade ou que o
excesso de sal inibe o problema. Ocasionalmente, cães, gatos (geralmente positivos para leucemia felina) e cavalos lambem objetos por razões inexplicadas. O
nervosismo pode fazer com que os eqüinos lambam seus tratadores, quase sempre
enquanto estão sendo exibidos.
Enrolamento da língua – O equivalente bovino do puxamento da língua em
eqüinos, que consiste em movimentos irregulares de língua no interior ou exterior
da boca. A língua é tipicamente exposta e enrolada para trás dentro de uma boca
aberta ou em direção às narinas num exagero do normal. Pode também ocorrer
deglutição de ar. As tentativas de controle têm tido sucesso apenas parcial. Correias
para deglutição de vento ou a inserção de um anel de metal através do freio da língua
têm sido tentados. Em alguns casos, alcançou-se o sucesso por meio da provisão
de misturas de sal. A liberdade de movimentos e exercícios forçados também são
sugeridos. O enrolamento da língua pode ser aprendido pela observação de animais
problemáticos, e alguns indivíduos podem herdar a tendência.
Mordedura da cauda – A mordedura da cauda em suínos tem atraído muita
atenção. Várias condições são suspeitas de predisposição, incluindo tipo de raça
(por exemplo, landrace), denso agrupamento de suínos em crescimento rápido de
, 45kg de peso corporal, espaço de cocho insuficiente, disponibilidade insuficiente
de bebida e componentes ambientais adversos (altos índices de barulho, gases
nocivos, umidade, temperatura). A combinação destes outros fatores leva a inquietação dentro do grupo, o que evidentemente cria irritabilidade, superexcitabilidade,
e atividade aumentada. Afora esses fatores aparentemente estimuladores, o
agrupamento intensivo em chiqueiros pequenos consiste em um ambiente empobrecido, com pouca oportunidade para atividades mais variadas.
A amputação da metade distal da cauda tem-se tornado uma prática de controle
padrão na indústria suína contemporânea. A parte remanescente da cauda fica
suficientemente sensível, a ponto de os suínos reagirem efetivamente quando uma
tentativa de mordedura da cauda for feita.
Os animais que mordem caudas devem ser mantidos juntos, já que geralmente
essa medida reduz a mordedura recíproca da cauda. Outras formas potenciais de
estresse também devem ser assinaladas. Os fatores atmosféricos dentro de uma
construção devem receber atenção. O chiqueiro de suínos em crescimento deve ser
subpovoado quando o grupo for formado pela primeira vez, ou transportado para
Comportamento 1120
chiqueiros maiores, que são freqüentemente suficientes para assegurar a aquisição
de tamanho adequado quando os membros do grupo aumentarem o dobro de
tamanho. A melhora geral na forma de criação é também freqüentemente benéfica
para controlar esta condição.
A mordedura da cauda também ocorre em eqüinos, principalmente lactentes e
menores de 1 ano de idade; quantidades adequadas de proteína na dieta geralmente controlam o problema. Nos cães, a mordedura da cauda é geralmente
autodirecionada e é parte do comportamento de perseguição da mesma; é considerada como automutilação (ver pág. 1116).
Mordedura de grade – Este comportamento anômalo ocorre em porcas
reprodutoras mantidas em um único engradado. Pode ser parcialmente controlado
pelo enriquecimento ambiental, tal como o fornecimento de palha ou serragem como
cama na qual o animal possa mastigar ou fossar, ou pela alimentação com
suplemento rugoso, por exemplo, grama, sabugo ou péletes de ração.
Mastigação de vácuo – Observada em porcas, tipicamente naquelas mantidas
solitariamente em baias sem cama; o animal afetado mastiga vigorosamente sem
conteúdo oral. O controle é essencialmente semelhante ao descrito para mordedura
de grade (ver anteriormente).
Sucção prolongada (sucção recíproca) – A sucção em outro animal ou em um
objeto é tipicamente observada em animais que são desmamados precocemente ou
que não conseguem mamar, por exemplo, os órfãos (ver também GALACTOFAGIA,
pág. 1123). Os melhores resultados de controle são obtidos por meio da provisão
de condições de alimentação que lembrem as de um padrão ingestivo normal em
animais jovens. A alimentação de bezerros com mamadeiras automáticas com tetas
e períodos de sucção durando , 30min parece eliminar o problema. A prevenção
de desmame precoce em cães, gatos e suínos também reduz a freqüência do
problema. Amarrar os bezerros por 1h após a alimentação em uma caçamba
evidentemente proporciona tempo para que o “ímpeto” de sucção diminua. O
suprimento de suplemento rugoso, como de palha, parece suprimir a desordem.
Limpeza excessiva (autolambedura) – A limpeza excessiva provavelmente é
um comportamento relacionado ao estresse. Ocorre comumente em vitelos isolados
em baias solitárias, garanhões de corrida confinados a baias e gatos e cães com
alterações importantes em seu ambiente. A limpeza excessiva pode criar lesões
superficiais tais como granulomas por lambedura (ver AUTOMUTILAÇÃO, pág. 1116).
Em gatos, as áreas afetadas parecem ter sido tosquiadas.
Arrancamento de lã – Um comportamento anormal que ocorre em ovinos em
enclausuramento restritivo e sistemas de criação intensiva. A lotação em cercados
é um fator contribuinte, mas uma deficiência de feno da dieta também pode contribuir.
O controle se torna possível por meio da redução na densidade do cercado. Cercados
de , 20m2 podem conter 10 ovinos adultos, mas o arrancamento de lã se torna
provável neste nível de população. A redução de 50% dessa densidade é eficaz no
controle; neste nível, a anomalia pode ser eliminada, especialmente se for fornecido
feno de qualidade com regularidade. O feno é ideal, mas a palha também pode ser
útil; qualquer exigência nutricional associada necessita aparecer para relacionar a
inadequação da alimentação estruturada em vez de qualquer fator nutriente específico. O controle também pode ser alcançado pela liberação dos animais ao ar livre em
condições de criação extensiva por longos períodos (ver também TRICOFAGIA, pág.
1122). Os primatas de laboratório podem arrancar pêlos quando mantidos em
ambientes relativamente monótonos. O enriquecimento comportamental tem sido
útil na eliminação dos problemas se iniciado cedo.
Bicagem das penas – Sob condições de manejo intensivo, pode ocorrer em
todas as idades e em várias espécies incluindo galinhas, perus, patos, codornas,
perdizes e faisões (ver também pág. 1124). O controle é mais comumente alcançado
Comportamento 1121
pela debicagem, que envolve a remoção da parte anterior (6mm) do bico superior.
Embora isso não elimine completamente a bicagem agressiva ou previna o desenvolvimento de hierarquia de bicagem, as aves debicadas são menos capazes de
arrancar penas. Outro método de controle consiste em limitar a visão das aves pelo
escurecimento dos galinheiros e alteração da luz para uma coloração avermelhada,
usando-se de lâmpadas infravermelhas ou pintando-se os painéis das janelas de
vermelho. A visão de cada ave pode ser restrita pela fixação de anéis de alumínio
no bico superior ou aplicação de “cegantes”, embora o uso destes artifícios seja
proibido em alguns países. Onde os cegantes podem ser empregados, o arrancamento
das penas é mínimo.
Comportamento ingestivo anômalo – O comportamento ingestivo anômalo é
exprimido por várias manifestações. No passado, acreditava-se que esses animais
teriam deficiências nutricionais e portanto estes recebiam aditivos na alimentação
(por exemplo, sangue, farinha de carne, farinha de osso e farinha de chifre) na
tentativa de diminuir a desordem. O conhecimento atual, no que tange às causas
desta anomalia, ainda é incompleto. Em alguns casos, isto pode ser devido a
deficiências nutricionais, mas em outros se torna claro que a prática alimentar não é
uma causa contribuinte. O confinamento restritivo funciona como agente estressante.
Aerofagia – Esta anormalidade comportamental de eqüinos pode ser distinguida
em 2 formas diferentes, a saber, do afinamento de cocho (ver pág. 1119) e
deglutição de vento pura. Em ambas as formas, ingere-se ar anormalmente, por
deglutição. Na deglutição de vento pura, o eqüino balança sua cabeça e pescoço
várias vezes antes de fazer um esforço de ingestão. Então vira sua cabeça para
cima, abre sua boca, toma ar, levanta a língua e contrai a musculatura da faringe de
modo que o ar seja forçosamente engolido quando o pescoço é flexionado. O som
característico de deglutição de ar pode ocorrer quando um pouco do ar for expulso
ou engolido. A ação é praticada repetidamente.
Como conseqüência de aerofagia persistente, a musculatura da garganta sofre
hipertrofia devido ao uso excessivo. Também pode ocorrer o timpanismo de
estômago; esse por sua vez, pode levar à formação de catarro gastrointestinal e
episódios de cólica. A ingestão de alimento pode diminuir consideravelmente, e
estes eqüinos passam a apresentar baixa alimentar.
O controle da mastigação de cocho, deglutição de vento, afinamento de cocho
e puxamento da língua é tentado com vários métodos. Os eqüinos afetados quase
sempre melhoram com abundância de trabalho e exercício. Nos estágios iniciais, a
deglutição de vento pode ser desestimulada pela remoção de todos os objetos
aproximadamente à altura da boca que possam ser roídos, sugados ou lambidos.
As bordas de cochos, comedouros e manjedouras podem ser recobertas com metal.
Aversão de gosto também pode ser usada, assim como a provisão de bastante feno.
Um método comum de prevenção de aerofagia é o caso de uma correia para
engolidor de vento, a qual é amarrada firmemente ao redor da garganta, e tem uma
peça em forma de coração de couro grosso que se situa entre os ângulos das
mandíbulas com uma extremidade pontiaguda projetando-se em direção à área
faríngea. Com este aparelho no lugar certo, são causados dificuldade e desconforto
aparente ao eqüino quando seu pescoço é flexionado na tentativa de engolir vento.
Alguns eqüinos continuam a prática apesar do aparelho e finalmente adquirem
ferimentos de pressão quando a correia é pressionada.
Vários métodos cirúrgicos têm sido tentados para deter a aerofagia; entretanto,
geralmente são menos que satisfatórios. A prevenção funciona melhor.
Lignofagia (mastigação de madeira) – A mastigação e ingestão de madeira
não é incomum em eqüinos em alojamentos restritivos ou paddocks; de todas as
etopatias orais eqüinas, a mastigação de madeira é a mais comum. Não está restrita
a eqüinos estabulados, e pode ser observada em eqüinos mantidos em cercados
Comportamento 1122
externos; os eqüinos em pastejo podem derrubar troncos de árvore. Deve ser
providenciada nutrição adequada. Os eqüinos devem ter acesso a sal e feno. Em
estudos realizados, a mastigação de madeira severa foi detida quando forneceu-se
feno a 100g/kg de peso corporal. A inclusão de serragem em uma dieta altamente
concentrada, focinheiras e aversão de gosto pode ser considerada, quando o
acesso ao pastejo não for possível. O exercício ajuda no caso de um eqüino
entediado.
Coprofagia – Uma forma normal de ingestão em algumas espécies, principalmente coelhos, e nos jovens da maioria das espécies, esta anormalidade é
particularmente inaceitável ao proprietário, sobretudo de cães. Entre os cães, a
condição é geralmente observada pela primeira vez em cãezinhos de 4 a 9 meses
de idade. Há uma grande variação individual na intensidade deste comportamento
quando este se estabelece. Na maioria dos casos, entretanto, o hábito tende a
diminuir em intensidade após 1 ano de idade. Embora muitos superem o comportamento, outros continuam a exibi-lo periodicamente e em alguns casos, ele persiste
além do período de filhote.
Certas condições clínicas são consideradas como causas de coprofagia em
cães. Entre elas estão a insuficiência pancreática crônica, malabsorção, pesadas
cargas parasitárias e inanição. Nos estados patológicos que resultam em alimento
não digerido sendo perpetuado nas fezes, acredita-se que o material se torne
aceitável ao animal para simples necessidades ingestivas. O hidrocéfalo pode
também ser um fator causador. Na maioria dos casos, entretanto, a condição é
reconhecida como anormalidade comportamental e a causa desta forma é reconhecida atualmente como ansiedade ou entediamento.
O tratamento exige retreinamento do animal. Deve-se colocar ênfase no impedimento do ganho de acesso às fezes pelo animal. O amordaçamento do cão é útil
quando iniciado no curso do retreinamento. Outras formas de prevenção são óbvias
e incluem manutenção do cão em corrente e retorno à sua casinha imediatamente
após a defecação no ambiente externo. O retreinamento exige um compromisso
considerável por parte do proprietário. Além disso, o animal deve receber uma dieta
de boa qualidade, rica em proteínas e pobre em carboidratos. Em muitos casos, a
adição de óleo vegetal à dieta ajuda bastante. A alimentação deve ocorrer duas
vezes ao dia em um esquema regular. Tais alterações dietéticas mantida por um
período de 2 meses suspendem esse comportamento em muitos casos. Entretanto,
nenhum tratamento definitivo para esta condição foi determinado. Os animais que
falham ao responder representam um problema ético particular, já que a ligação
entre o animal e o proprietário é quase sempre destruída como resultado.
Tricofagia (ingestão de pêlos) – Esta anomalia se relaciona à ingestão de
pêlos ou lã, geralmente removidos dos corpos de animais associados (ver
também pág. 1120). A forma mais suave é a autolimpeza durante épocas de
queda de pêlo normal. Os animais jovens algumas vezes removem parte do
pelame de sua mãe, enquanto empiricamente estão lambendo e sugando partes
do corpo dela que não as glândulas mamárias. Essa anomalia ocorre quando os
animais são densamente agrupados. Entre os ovinos, fatores causais podem se
relacionar a um sistema de confinamento imposto à ovelha e ao cordeiro. Desde
que a maior parte dos cordeiros mostre preferência por lã suja, pode haver uma
implicação de apetite depravado. A deficiência de fósforo tem sido suspeita, mas
sua implicação não foi provada.
As bolas de pêlo, que são problemas ocasionais nos estômagos de gatos,
coelhos e bezerros, podem agir como agentes irritantes para provocar vômito ou
bloquear a passagem de alimento através do trato gastrointestinal. A ingestão
de pêlo em eqüinos é uma anormalidade intimamente relacionada à mastigação de
madeira. A mordedura da cauda quase sempre pode ser detida pela adição de
Comportamento 1123
proteína à ração. Desde que fatores nutricionais são suspeitos em qualquer animal,
a avaliação cuidadosa da dieta é importante. Os arranjos espaciais são outros
métodos racionais de controle.
Ingestão anômala de leite (galactofagia) – Uma anomalia comportamental na
qual os animais “mamam” em outros que não sejam suas mães naturais ou adotivas
(ver também pág. 1120). Os bovinos que “mamam” em seus companheiros de
rebanho caracteristicamente escolhem o mesmo animal em lactação, o que leva a
um arranjo pareado. Tais pares algumas vezes mamam-se mutuamente, tanto
simultânea quanto alternadamente.
A anomalia pode estar relacionada a uma predisposição hereditária em alguns
casos; entretanto, está relacionada à forma de criação em muitos outros, e pode
aumentar em freqüência como resultado de imitação. Ao contrário do bezerro jovem,
a galactofagia no adulto é mais comum em sistemas de criação extensiva.
O rebanho deve ser extensivamente inspecionado quando um caso de “amamentação cruzada” adulta estiver sendo suspeito. Por estes meios, os animais
envolvidos podem ser determinados e a disseminação endêmica por mímica pode
ser detida. Como medida preventiva, uma maior quantidade de feno pode ser
incluída à dieta, preferivelmente durante períodos em que o tédio esteja sendo
favorecido. Desde que se suspeite da hereditariedade do problema, pode não ser
conveniente cruzar animais que exibam a desordem quando adultos.
No passado, o controle foi tentado pela utilização de aparelhos com dentes
pontiagudos para a região facial e nasal do animal que “mama” para assegurar uma
reação aversiva em qualquer animal que dele se aproxime. Infelizmente, alguns
desses aparelhos podem atrapalhar a alimentação natural do animal afetado. Da
mesma forma, se o animal afetado for persistente, pode infligir ferimentos em outros.
Um aparelho elétrico preso à testa que dispara choques elétricos ao usuário quando
o circuito é fechado por pressão facial tem tido resultados. Uma vez que o choque
é recebido pelo animal que mama este método é mais apropriado que aqueles em
que o estímulo aversivo é direcionado ao animal-alvo no ato de mamar. Em alguns
casos, o animal afetado deve ser separado ou descartado.
Ingestão de terra (geofagia) – Eqüinos, bovinos, e algumas vezes cães e gatos
podem ingerir terra ou outro material estranho. O comportamento está relacionado
à pica (ver adiante). Tais animais são suscetíveis a disfunções gastrointestinais. A
condição pode ser resultado de dietas deficientes em minerais. Sabe-se que as
deficiências de fósforo e ferro são responsáveis em alguns casos, mas as deficiências nutricionais não são observadas em outros animais afetados. Os gatinhos
tipicamente exibem o comportamento em poucos dias, após o início do uso de
caixas de areia para defecação.
O controle deve levar em consideração a possibilidade de deficiência mineral.
Além disso, os animais afetados podem ser examinados para verificação de anemia
e de carga parasitária, e um tratamento apropriado deve ser providenciado quando
indicado. Como acontece com outras síndromes orais relacionadas, os eqüinos
afetados devem ser exercitados mais rigorosamente.
Hiperfagia (empanturramento) – Alguns animais são extremamente vorazes e
comedores rápidos, alguns podem engasgar no meio da deglutição de seu alimento.
Muitos foram nutricionalmente privados quando jovens. Outros estiveram em dieta. Já
que o alimento não é completamente mastigado, desordens gastrointestinais ocorrem
em alguns eqüinos. Quando esses animais ganham acesso a grandes quantidades
de comida, consomem volumes excessivos; isto pode levar a problemas gastrointestinais sérios e possivelmente fatais (ver também SOBRECARGA DE G RÃOS, pág. 210).
O controle da hiperfagia envolve alimentação tática. Pequenas quantidades de
alimento podem ser fornecidas. O espalhamento de grãos em uma camada fina no
cocho e a colocação de grandes pedras lisas no fundo do cocho são métodos usados
Comportamento 1124
para fazer com que os grãos fiquem difíceis de serem consumidos rapidamente
pelos eqüinos. O suplemento de grãos em vários horários diferentes no dia pode ser
de ajuda. A alimentação com feno antes dos grãos é muito útil. É muito importante
evitar o acesso a grandes quantidades de grãos altamente energéticos.
Polidipsia nervosa – Excesso de líquidos é encontrado em várias espécies
quando em confinamento intensivo; o consumo de água geralmente é de 2 a 4 vezes
normal. A polidipsia nervosa é vista em alguns eqüinos que são isolados e
confinados em cocheiras com água fornecida à vontade. Alguns eqüinos consomem
, 140L por dia, ou , 3 a 4 vezes a quantidade normal. Isso pode-se espalhar por
um período de tempo ou se concentrar dentro de 2 a 3h. A polidipsia também pode
ser secundária a um consumo excessivo de sal, comum em eqüinos estabulados.
A poliúria pode ser a primeira indicação da anomalia.
A polidipsia não aparenta se fixar firmemente no comportamento do animal, e
permite ser controlada por manejo apropriado, que inclui o fornecimento de água
racionada. Desde que o “entediamento” é um fator contribuinte, o hábito pode ser
controlado e interrompido por aumento no nível regular de exercícios. A polidipsia
em outros animais mantidos em confinamento pode ser aparentemente controlada
por uma alteração apropriada na forma de criação.
Pica – Um apetite depravado exibido por animais que procuram material
estranho para ingestão. A condição é muito aparente em animais que tendem a
comer e mastigar lã, roupas, ossos velhos e madeira. A lambedura ou ingestão de
lã por gatos pode ter um componente genético desde que ocorra quase exclusivamente em siameses e mestiços desta raça.
Deficiências nutricionais, por exemplo, de fósforo, devem ser corrigidas se
existirem. Os gatos que comem ou lambem lã devem ser examinados para aferição
de baixos níveis de hormônios tireóideos. Geralmente, mesmo assim, o problema
é controlado pela prevenção de acesso a objetos preferidos, limitando o acesso a 1
ou 2 itens, ou usando aversão ao gosto para quebrar o padrão.
Ingestão de cama – Os animais confinados estão sujeitos a comerem suas
camas mesmo após terem sido sujas. Quase todos os eqüinos estabulados comem
camas sujas de vez em quando, mas com alguns isso é habitual. Os gatinhos
também comem cama ou sujeira por alguns dias antes de alterações na evacuação
do reflexo anogenital se auto-iniciarem. O hábito se desenvolve em eqüinos e aves,
mesmo quando comida adequada for disponível. Geralmente, a ingestão de cama
visa partículas e maravalhas de madeira, tanto que pode representar, em algum
grau, um apetite por celulose.
A ingestão de cama em galinhas e perus é mais comum quando estes são criados
em cama de madeira ou maravalha, com incidência maior em plantéis que não
tenham espaço suficiente para comer no comedouro. Desde que a incidência é mais
alta em algumas raças e linhagens de aves que em outras, pode haver uma
predisposição genética. A condição pode ser diminuída em muitas aves pelo
suprimento de saibro em abundância.
Para controlar a ingestão de cama em aves, deve haver espaço abundante para
se comer no comedouro, tanto que as aves em posições baixas dentro da ordem
hierárquica possam encontrar espaço seguro no mesmo. Nos eqüinos, o controle
exige avaliação do alimento para assegurar quantidade, qualidade e variedade
adequadas. A alimentação e o exercício devem ser mantidos em um esquema
preciso. Os eqüinos com cargas parasitárias devem receber tratamento apropriado.
Ingestão das penas – Intimamente relacionada à bicagem das penas (ver
pág. 1120) e ao canibalismo (ver BICAGEM CORPORAL, adiante) em galinhas. A
bicagem de penas marca o início do comportamento canibal em muitos casos. Na
ingestão das penas, as aves arrancam as penas de locais preferidos das outras
como a cauda e a ponta da asa. Embora mais comum em adultos, a bicagem das
Comportamento 1125
penas ocorre em todas as idades desde pintos de um dia até aves idosas. Já que
o problema é relacionado a uma alimentação errônea, o controle é direcionado a
uma alimentação e nutrição corrigidas. A alimentação feita exclusivamente com
rações específicas pode interferir nas atividades envolvidas em ciscagem de
alimento e resultar em volume alimentar insuficiente; assim, com a privação destes
comportamentos introduz-se a ingestão das penas. A terapia pode incluir a mistura
de grãos ao alimento para aumentar a ciscagem; o volume pode ser aumentado pela
adição de sabugos de milho e forragem verde à dieta.
Ingestão de ovos – Um hábito encontrado em pequenos plantéis de galinhas
mantidas em galinheiros que parece ocorrer igualmente entre plantéis submetidos a ninho fundo e a piso de tela aramada. O comportamento começa com uma
ave bicando um ovo até ele se quebrar. O conteúdo é então parcialmente
ingerido. Quando uma ave adquire este hábito, é provável que aumente a prática
e que outras aves também possam desenvolver o problema. Quando quantidades significativas de casca de ovo são comidas, isso pode indicar que a dieta das
aves afetadas seja deficiente em saibro. O controle envolve a eliminação de aves
afetadas, mas pode ser difícil a identificação em um plantel grande. Um corante
alimentar concentrado pode ser injetado dentro de um ovo para ser deixado no
chão; a ave que comer esse ovo ficará marcada pela coloração na cabeça. O
saibro deve ser providenciado em longos comedouros de forma que todas as aves
possam ocasionalmente ter acesso a ele. Até certo ponto, os problemas dessa
natureza popularizaram a introdução do engaiolamento em série algumas décadas atrás. O engaiolamento pode ainda ser considerado como um método de
controle desta condição em pequenos plantéis sem acesso a passeios externos.
As aves com acesso ao ar livre podem sair regularmente ao meio-dia, pois
durante esse horário o período de pôr ovos já terminou.
Bicagem corporal – Em diferentes formas, isso ocorre como vício comportamental em aves sob manejo intensivo. Em contraste à bicagem (ver pág. 1120),
o bico é usado na bicagem corporal para ações combinadas de perfuração e
depenamento. A ingestão de partes arrancadas também ocorre. Esta é uma
forma de canibalismo que aparece em galinhas domésticas, outras aves galináceas (por exemplo, perus, faisões, codornas) e patos. A bicagem corporal é
freqüentemente dirigida a ferimentos abertos quando as penas já estão arrancadas.
A bicagem dos dígitos ou costas é mais comum em aves mais jovens. A bicagem
do ânus ocorre em todas as idades mas é mais séria em poedeiras, enquanto
a bicagem da cabeça é observada em aves engaioladas mais velhas.
A prevenção e o controle apropriados da bicagem corporal exigem a oportunidade de fuga espacial para aves subordinadas na hierarquia de bicagem. A
debicagem é o método de controle mais comum, mesmo que ela só atinja o
problema e não a causa.
Ingestão de urina – Este problema tem sido relatado em alguns rebanhos
leiteiros na Grã-Bretanha e na França. Evidentemente é praticada durante o
inverno por vacas confinadas a sistemas de cubículos e currais comunais onde
o piso de concreto permite a formação de poças de urina. Uma vaca pode beber
dessas poças, ou algumas vezes diretamente de uma vaca que esteja urinando.
O problema se torna evidente quando os bebedouros estão muito próximos uns
dos outros ou são insuficientes em número de forma que as vacas dominantes
evitam que algumas subordinadas se aproximem dos bebedouros ou cochos de
sal apropriados. Quando a disponibilidade de água e sal é uniformemente
distribuída em currais bovinos, o problema desaparece. O comportamento
também cessa quando o bovino tem acesso ao pastejo.
Sanidade Animal 1126
SANIDADE ANIMAL
INTRODUÇÃO
O bem-estar dos animais é uma responsabilidade primária dos veterinários. Eles
são chamados a diagnosticar e tratar doenças animais, desenvolver programas de
medicina preventiva e executar uma variedade de regulamentos relacionados a
higiene e controle epidêmico. Também auxiliam os criadores a preservar padrões
éticos na indústria ou em casa.
Existem várias definições de sanidade, porém do ponto de vista prático, deve-se
perguntar: “Os métodos gerais de manejo e criação adotados impõem um pouco de
estresse (em sua conotação negativa) nos animais desta espécie nesta idade, peso,
estágio de desenvolvimento, etc?” O estresse pode ser medido por vários índices
fisiológicos e pelo comportamento apresentado pelo(s) animai(s). A partir dessas
informações que as decisões sobre o manejo devem ser tomadas.
Outras questões importantes, também envolvidas com a sanidade animal,
são: 1. se o homem tem o direito de domesticar e utilizar outros animais para
alimentação, matéria-prima, pesquisa, tração, esporte e companhia; 2. se a
intervenção humana deve organizar criações ideais pelo equilíbrio da situação
ideal com práticas diárias na indústria animal; 3. se o cuidado e o controle
abrangentes do sofrimento em animais, sob várias condições de manejo, são
uma responsabilidade essencial; 4. se a saúde animal geral requer consideração
para que se encontrem importantes necessidades físicas, sociais e etológicas
dos animais; 5. se a sanidade animal e seus custos se transferirão à sociedade
como um todo e não apenas aos criadores (um retorno econômico adequado está
implícito em qualquer fazenda). Existe também a pressão da sociedade por
alimentos baratos, o que implica aumentos na intensificação da indústria animal;
entretanto, existe a crescente pressão dos habitantes de áreas urbanas por uma
melhor sanidade dos animais de criação, freqüentemente tendo perspectivas que
não são realísticas ou naturais para a espécie envolvida. A personificação dos
animais pode ser um problema. Se os proprietários dos animais se indisporem e
se tornarem cínicos, um grande sofrimento poderá cair sobre milhares de animais
em sistemas de produção em larga escala ou sobre o consumidor a longo prazo.
Em outros dois campos, os veterinários podem auxiliar no bem-estar do
animal. Eles devem encorajar os criadores a selecionar animais com características e temperamentos desejáveis a uma criação em larga escala intensiva. A
reprodução seletiva é lenta — porém importante, pois a população mundial
deverá estar bem alimentada no futuro. O segundo é encorajar os criadores e
tratadores a pré-condicionar seus animais para futuras mudanças. Manter animais não familiares em currais adjacentes antes de misturá-los em um único
grupo poderia reduzir brigas sociais subseqüentes. A familiarização da vaca com
a sala de ordenha antes de colocá-la juntamente com o bezerro é outro exemplo
de como o manejo precoce e o condicionamento cuidadosos do animal podem
gerar dividendos na produção e sanidade.
O desenvolvimento dos regulamentos de sanidade, as formas que estes
deveriam assumir e como deveriam ser policiados são também preocupações
importantes dos veterinários. O aspecto mais positivo disto é o encorajamento da
maneira pela qual os animais são tratados. Pode-se aplicar a legislação em casos
extremos de crueldade, porém no grau atual de sanidade de animais urbanos e
rurais, os códigos são mais flexíveis para que programas de cuidados preventivos
sejam integrados. A legislação é insuficiente para provocar mudanças na mente
do criador e reordenar suas motivações básicas.
Sanidade Animal 1127
Há épocas na história humana em que o relacionamento homem-animal é
reexaminado: o crescimento de interesse com relação à sanidade animal indica que
estamos em uma destas épocas. Os veterinários como os mais intimamente
envolvidos têm um importante papel a desempenhar com relação a isso, pois
desempenham um papel intermediário no relacionamento criador-animal.
CARACTERÍSTICAS
A sanidade animal é caracterizada por componentes definitivos derivados de suas
ligações racionais com a ética, forma de criação e saúde do animal. São eles: 1. uso
ético do animal; 2. padrões de criação e produção que encontrem um nível atingível;
3. provisão de cuidado veterinário; 4. controle do sofrimento para o bem-estar do
animal; e 5. manejo ecológico. Com estes 5 fatores, a sanidade animal pode ser
incorporada a um conceito unificado.
Como uma disciplina composta e global, a sanidade animal tem uma relevância
imediata à medicina veterinária, à pesquisa animal, à criação animal e à etologia
animal aplicada. Como resultado, a sanidade animal é multidisciplinar. Seus princípios racionais utilizam essas ciências colaterais e são substancialmente científicos,
devido aos seus relacionamentos. Na prática, está envolvida em todas as esferas da
indústria animal e traz consigo comandos éticos e reguladores.
Como acontece com outras disciplinas científicas aplicadas, a sanidade deve
estabelecer objetivos práticos. O objetivo principal é a prevenção e alívio do
sofrimento. O sofrimento pertence ao domínio clínico e assim sendo se torna a base
de muitos assuntos clínicos, os quais respondem por que muitas considerações de
sanidade estão incluídas no conhecimento veterinário.
Em situações acompanhadas de dor, angústia, ou medo, certas manifestações
comportamentais constituem evidência inequívoca de sofrimento (ver também
pág. 1129). Vocalizações intensas, agressividade, tremores, comportamento
depressivo passivo e comportamento agitado são expressões externas de estados
mentais e refletem estados de sofrimento. É importante reconhecer um relacionamento entre comportamento e sanidade animais. As principais características da
sanidade animal providenciam sua estrutura definitiva como se vê adiante.
Uso ético do animal – Mesmo dentro de regiões, nações e culturas, as opiniões
das modalidades de uso animal que podem ser consideradas éticas (ou permissíveis)
são freqüentemente polarizadas nos extremos de natureza humanitária e utilitária.
Em geral, o grosso da opinião veterinária não está dividido em extremos polarizados.
As atitudes culturais relacionadas ao uso aceitável de animais podem ter sido
derivadas da história ou da religião prevalentes em uma dada comunidade. De
qualquer forma, um pacto comunitário se desenvolve sobre o que pode ser feito com
e para os animais usados para alimento, vestuário, recreação e trabalho. Entretanto,
os assuntos éticos não são baseados em bases subjetivas, emotivas e religiosas
totalmente sem a observação de princípios objetivos.
Padrões de criação e produção – Os padrões de criação animal são ensinados
aos estudantes de medicina veterinária e agronomia. Mesmo padrões normalmente
aceitáveis podem quase sempre ser melhorados. A forma de criação que resulta em
altos níveis de morbidade e mortalidade no plantel ou rebanho é provavelmente
reconhecida como deficiente. Padrões deficientes podem resultar de ignorância,
erros grosseiros ou negligência deliberada. Um objetivo de sanidade animal consiste
em retificar e eliminar padrões deficientes de criação, sejam para animais de
produção, de estimação, de laboratório ou animais silvestres cativos.
Para assegurar um equilíbrio entre o ideal e o básico, algum sistema de vigilância
pode ser necessário. Esse pode-se constituir em uma força reguladora de inspetores,
ou de uma sociedade voluntária reconhecida pela comunidade como sendo legítima
Sanidade Animal 1128
e preocupada em prevenir falhas na sanidade. Em muitos países, ambas as forças
operam separada mas simultaneamente.
Cuidado veterinário – O desenvolvimento de sistemas de “saúde de rebanho”
para animais de produção é um ramo especializado do cuidado veterinário que
consiste basicamente em medicina preventiva. É nesta característica que a sanidade animal se situa em sua forma mais científica e sistemática. As práticas de
sanidade sistemáticas asseguram, tanto a interesses econômicos como humanitários, que a conduta da operação de manutenção animal seja sadia, realisticamente
mais favorável e completamente compatível com as exigências reguladoras.
A prática veterinária humanitária para animais sob manejo intensivo, tanto
comercial como experimentalmente, requer que a manutenção seja desenvolvida
para evitar problemas previsíveis em saúde e sanidade. Tal manutenção inclui boa
higiene, uma dieta balanceada apropriada e água de bebida limpa, boas condições
de repouso, ventilação adequada, temperatura ambiente apropriada e contenção
dentro de boas instalações com espaço adequado. A saúde deve ser monitorada
para providenciar detecção precoce de qualquer afecção patológica. As medicações e as vacinações de rotina também são utilizadas para prevenir ocorrência de
desordens previsíveis. A prática preventiva incorpora atenção veterinária convencional quando necessário.
A saúde e a sanidade animais estão obviamente relacionadas. Um dos objetivos
práticos básicos em sanidade animal é a prevenção de doenças, o domínio especializado da medicina veterinária denominado Saúde Animal. Um programa de Saúde
Animal é posto em prática na maioria dos países por um serviço nacional que
providencie um método central de monitoração em sanidade animal em nível nacional.
À medida que tais serviços se expandem, se consolidem, e se sofisticam, o nível
de sanidade previsto neles continua a melhorar e aumentar proporcionalmente.
Os veterinários constituem o pessoal especializado em Saúde Animal, portanto
podem aconselhar sobre práticas de manejo, vacinação e profilaxia, com o reconhecimento de que o estresse é um componente na etiologia de muitas doenças no
espectro moderno. O alívio do estresse é uma ação profilática adicional que
demanda uma melhor consideração.
Controle do sofrimento – A sanidade animal tem um papel implícito para
providenciar ajuda ao animal em estados de crise, adversidade e sofrimento. Este
é o componente humanitário da sanidade animal, que assegura ajuda médica ou no
manejo em qualquer sofrimento. Esse tipo de intervenção é mais freqüentemente
realizado pelos próprios proprietários e usuários dos rebanhos, com ou sem o
suporte de instrumentos tais como o serviço veterinário. Essa ação interventora é
habitualmente ampla; cobre uma grande variedade desde o alívio de partos difíceis
até a realização de sacrifícios humanitários. Seu objetivo é minimizar o sofrimento.
A maioria dos animais de criação tem suas vidas terminadas pelo abate.
Enquanto os métodos para realizá-lo variam, o objetivo humanitário é matar o animal
por um método que o deixe insensível e inconsciente o mais rápido possível. O
manejo pré-abate e o transporte de rebanho também devem ser levados em
consideração. Os projetos modernos para abatedouros, que favorecem um manejo
menos estressante dos animais por meio da manipulação de seu comportamento,
são uma notável aquisição em sanidade animal.
Apesar de os sinais comportamentais de sofrimento não exteriorizado serem
prováveis de receber atenção, eles são identificáveis. Quanto mais a criação
moderna exerce controle sobre a manutenção e a reprodução animal, mais existe
para se aprender sobre “sofrimento comportamental”. Isto também é de interesse
veterinário. As duas principais características no comportamento do sofrimento são
atividade estimulada ou deprimida. Mas o sofrimento ocorre em várias formas,
incluindo circunstâncias patológicas e relacionadas ao estresse. Muitas delas são
Sanidade Animal 1129
de ocorrência imprevisível. As formas de promover sanidade várias vezes podem
variar desde primeiros-socorros até terapia e resgate. O animal em processo de dor
pode precisar de anestesia, tranqüilização ou analgesia. O tratamento médico é
necessário no tratamento do sofrimento associado à doença.
Manejo ecológico – O conhecimento comportamental pode ser usado para
fornecer ao animal condições que permitam a exteriorização do comportamento
necessário para automanutenção. Os sistemas de homeostasia etológica são
reconhecidos como formas de trabalho comportamental que os animais produzem
para se manterem em harmonia eficaz com seu ambiente; são essencialmente os
comportamentos de manutenção (ver pág. 1086). Em virtude de as indústrias de
produção animal terem o objetivo adicional de conveniência, a automanutenção do
animal é algumas vezes comprometida.
O grande propósito ecológico corresponde à integração do animal com o
ambiente por meio da homeostasia. Os procedimentos comportamentais básicos de
animais utilizados podem ser modificados apenas por gerações de reprodução
seletiva. Como este problema se torna mais agudo para animais intensivamente
confinados, os princípios de sanidade animal criam uma consciência de que esses
animais possuam características comportamentais ecológicas evoluídas que ajudam na automanutenção.
OBJETIVOS
A sanidade animal tem dois objetivos principais: evitar ou reduzir o sofrimento e
promover o bem-estar.
Sofrimento – A prevenção e alívio do sofrimento são obviamente os objetivos
principais na obtenção de sanidade animal. Submissão a uma imposição ou
resistência a uma condição que seja dolorosa, angustiante ou prejudicial correspondem ao significado geral de sofrimento. A resistência sugere um elemento de
continuidade. Em medicina veterinária, sanidade serve como um termo de significado extenso que cobre todos os componentes provavelmente afetivos que possam
coexistir com qualquer situação nociva.
Um alto grau de julgamento clínico e etológico é necessário para avaliação
qualitativa do sofrimento animal. Entretanto, um sistema simples de classificação
pode ser utilizado tal como nas formas aguda, subaguda ou crônica. A cronicidade
pode somar-se à intensidade do sofrimento, porém o sofrimento agudo que provoca
alterações no comportamento pode também ser intenso, se estiver aliado a dor
intensa. O sofrimento subagudo tipicamente assume uma forma transitória, embora
a recidiva freqüente possa fazer com que essa forma adquira importância real,
dependendo do grau de alteração no comportamento associado.
As condições fisiopatológicas normalmente exibem evidências imediatas de
sofrimento animal. Numerosas afecções clínicas, incluindo processos patológicos
e incidentes traumáticos, se tornam aparentes inicialmente por meio de um conjunto
de indicadores comportamentais de sofrimento. De fato, a alteração comportamental é a característica mais provável de apontar o nível de sofrimento. Tais alterações
acontecem quando atividades homeostáticas são completamente detidas e substituídas por demonstrações de dor ou comportamento aberrante persistente.
Quando acontece o sofrimento, comportamentos de manutenção sistêmicos,
como alimentação, limpeza, ou afiliação, são quase sempre substituídos por
agitação, depressão, isolamento, anorexia, etc. Alterações significativas em comportamento acontecem e incluem formas incomuns de conduta, movimentos corporais deficientes, atividades reduzidas e perda de apetite. Tais sinais são usados para
propósitos diagnósticos quando os animais doentes ou feridos são avaliados. Eles
ajudam a determinar a natureza e a extensão da disfunção do animal e também o
Sanidade Animal 1130
tratamento apropriado. A evidência de sofrimento clínico é tão variável e vasta que
sua avaliação exige habilidade veterinária. Entre as características do sofrimento
clínico estão sinais vitais anormais, alterações físicas e comportamentais, lesões
patológicas e alteração de temperamento.
O sofrimento agregado é geralmente manifestado indiretamente quando a
própria disfunção clínica é originada por manejo problemático. Entretanto, em
alguns casos, por exemplo, trauma, o alívio do sofrimento real e agudo pode ser um
objetivo imediato antes que a disfunção física ou corporal receba atenção específica. Expressões exteriorizadas de estados mentais em afecções clínicas acompanhadas por dor, angústia ou medo (ver também pág. 1128) são evidências
inconfundíveis de sofrimento. Se correlatos fisiopatológicos estão ausentes, a
constatação de sofrimento pode estar relacionada a estresse.
Uma vez que a dor é a essência do sofrimento severo, qualquer concepção de
sofrimento deve incluir uma apreciação de várias características relacionadas à dor.
A dor é uma experiência altamente variável e subjetiva, mas sua existência em
animais é abundantemente evidente em reações típicas, por exemplo, inatividade,
postura curvada, inquietação, membros rígidos ou agitadiços, contorção, mordidas
auto-infligidas e vocalização anormal. Todos esses critérios devem ser considerados em conjunto com a natureza de qualquer processo patológico presente. O
comportamento resultante da dor é facilmente observado, reconhecido e interpretado por qualquer um com experiência e conhecimento apropriados para a dada
espécie, tanto em estado normal como de doença.
Bioética – Enquanto os objetivos mais importantes na prática da sanidade se
relacionam ao alívio de sofrimento, a promoção do bem-estar (ou do estado de
sanidade do ou no animal) é um objetivo ético. Os dois termos, sanidade e bemestar, não são sinônimos. O bem-estar é a condição interior do animal; é um estado
de boa saúde e harmonia entre o animal e seu ambiente. A sanidade certamente
incorpora muito da definição anterior, mas é principalmente um sistema externo de
serviços (os quais têm o estado de bem-estar como um de seus objetivos). Em
outras palavras, a sanidade é exógena enquanto o bem-estar é endógeno.
A ética requer que o bem-estar geral dos animais, usados materialisticamente,
deva ser assegurado por padrões adequados de sanidade. A última deve ser obtida
durante o período de vida destes animais, por mais breve que este possa ser. Isto
está em total acordo com os objetivos vocacionais inerentes à medicina veterinária.
Adicionalmente, as práticas éticas no mundo da reprodução animal devem manter
problemas de sanidade em mente. Física e comportamentalmente, as raças, tipo ou
cruzamentos inadequados não devem ter sua reprodução promovida na ocorrência
de um resultado provavelmente estressante, por exemplo, distocia, síndromes de
estresse, etc. Mesmo ambientes comuns na fazenda, no meio urbano ou no
laboratório podem ser estressantes para certos tipos raciais.
A bioética animal é uma constituição de princípios éticos integrados que guiam
práticas de sanidade animal e servem ao controle do sofrimento. Os quatro grandes
princípios da bioética têm sido definidos como: 1. manejo animal responsável, com
formas de criação global apropriadas; 2. fornecimento de conforto físico, função
comportamental básica e saúde animal; 3. prevenção ou alívio de dor ou sofrimento
desnecessário; e 4. uso de vida animal consciente para razões completamente
justificadas. O papel do veterinário nestes assuntos é óbvio e tradicional e um forte
envolvimento veterinário deve continuar.
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altamente