Rodrigues, D.J.C. 1998. Dieta Estival e Risco de Saturnismo do Pato-real (Anas platyrhynchos)
nos arrozais da Quinta do Canal. Airo 9: 33-40.
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DIETA ESTIVAL E RISCO DE SATURNISMO DO PATO-REAL (Anas
platyrhynchos) NOS ARROZAIS DA QUINTA DO CANAL
David José De Carvalho Rodrigues
Departamento de Engenharia Florestal, Instituto Superior de Agronomia,
Tapada da Ajuda, 1399 Lisboa Codex - Portugal
Durante as caçadas de fins de Agosto de 1991 e 1992 retiraram-se os papos e as
moelas a 75 Patos-reais abatidos. Dos 31 papos com quantidades de alimentos
consideráveis, concluiu-se que a dieta, no local e nos períodos referidos, baseou-se em
sementes (94.1%), quer de arroz (70.2%), quer das infestantes da cultura do arroz, com
destaque para a Echinochloa crus-galli (10.4%). A componente animal representou
cerca de 6%, sobretudo os Artrópodes e Pulmonados do género Physa. Para cobrir as
suas necessidades energéticas, cada Pato-real deveria ingerir diariamente cerca de 98.4g
de alimento da dieta observada.
As sementes apresentam um elevado teor de hidratos de carbono e,
particularmente o arroz, um elevado valor nutritivo. A sua ingestão permite aos patos
acumularem reservas, possibilitando uma melhor resistência aos rigores do Inverno e
contribuindo para o sucesso da posterior época de reprodução. A componente animal é
importante e complementa a dieta em termos de proteínas, uma vez que o arroz e as
outras sementes ingeridas são relativamente pobres em azoto.
Das 75 moelas observadas 5.33% tinham chumbo. No restante Baixo Mondego,
a taxa de ingestão de bagos de chumbo deverá ser mais elevada do que a verificada na
Quinta do Canal porque, com o decorrer da época venatória, o chumbo dos tiros tenderá
a acumular-se sobre a superfície do terreno.
Discute-se a importância dos arrozais para a alimentação dos Patos-reais do
Baixo Mondego e da Ria de Aveiro, a sua diminuição em área e a adopção de novas
práticas culturais. Também se discute a necessidade de tomar medidas com vista à
substituição do chumbo dos cartuchos de caça por materiais não tóxicos.
INTRODUÇÃO
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nos arrozais da Quinta do Canal. Airo 9: 33-40.
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O Pato-real (Anas platyrhynchos) é o Anatídeo nidificante mais abundante em
Portugal (Rufino, 1989; Costa e Guedes, !992), e em particular no Baixo Mondego. Em
Portugal, pouco se sabe sobre a ecologia e biologia desta importante espécie. É espécie
cinegética e muito apreciada pelos caçadores. Frequenta regularmente os campos
agrícolas, em particular os arrozais, visto estes constituírem um meio de transição entre
o meio aquático natural e o meio agrícola terrestre. No Baixo Mondego verifica-se uma
utilização dos arrozais particularmente elevada, dada a abundância de terrenos agrícolas
ocupados pela cultura do arroz.
Com este trabalho pretende-se estudar a alimentação do Pato-real nos arrozais,
numa época em que o arroz está a completar a sua maturação, para assim tirar ilações ao
nível bio-ecológico, mas também para ter bases científicas que permitam avaliar os
prejuízos provocados pelos patos na cultura do arroz. Pretende-se também estudar a
presença de chumbo na moela dos patos de forma a estimar o risco de envenenamento
provocado pela ingestão de bagos de chumbo resultantes dos tiros dos caçadores. A
doença resultante do envenenamento pelo chumbo - Saturnismo - pode causar
debilitação dos patos e, em último grau, a morte (e.g. Mauvais, 1993).
ÁREA DE ESTUDO
A Quinta do Canal (40º07’N, 8º49’W) fica situada junto à foz do Rio Mondego,
entre este e o Rio Pranto. É uma Zona de Caça Nacional com cerca de 280 ha de área,
na sua quase totalidade ocupada por arrozais. Em 1991 era a zona de alimentação da
população de Anas platyrhynchos (avaliada em 1000 indivíduos através de contagens
realizadas dois dias antes da primeira caçada de 1991) que tinha como zona de refúgio a
Ínsua (cerca de 50 ha de salinas e pisciculturas abandonadas). Em 1992 seria a zona de
alimentação da população do complexo Paul do Taipal/Paul da Madriz/Paul de Arzila
(D. Rodrigues, dados não publicados), pois entretanto a zona de refúgio da Ínsua foi
destruída por drenagem. Por esta razão, em 1992 não foi possível quantificar a
população que se alimentava na Quinta do Canal.
MÉTODOS
Nas caçadas realizadas na Quinta do Canal do nascer do dia até às 12 horas dos
dias 24 e 31 de Agosto de 1991, e 29 de Agosto e 5 de Setembro de 1992, foram
abatidos e recuperados, respectivamente, 130, 86, 109 e 21 patos. A 51 patos em 1991 e
a 24 em 1992 foram extraídos no local o papo (esófago + proventrículo) e a moela.
Estes foram conservados no local através da injecção de 2 ml de formalina no interior
da moela e, no papo, pela injecção de quantidades de formalina proporcionais ao
volume aparente do seu conteúdo, sendo posteriormente transportados em mala térmica
e congelados à chegada a Lisboa. O cuidado posto na conservação foi resultado da
conhecida sensibilidade de certos alimentos à digestão (Malone, 1965; Swanson e
Bartonek, 1970).
Na análise do papo, este foi considerado como um todo, não se distinguindo o
esófago do proventrículo, procurando-se desta forma maximizar a quantidade e,
sobretudo, a diversidade de alimentos, uma vez que há elevadas diferenças de
velocidade de propagação dos alimentos no tubo digestivo dos patos (Malone, 1965;
Swanson e Bartonek, 1970). O conteúdo do papo foi separado em sementes, outro tipo
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de material vegetal e material animal. As sementes foram identificadas e tratadas por
espécies, apenas se agrupando Scirpus mucronatus e Scirpus tabaernamontani em
Scirpus sp. para o tratamento estatístico. Na identificação recorreu-se às descrições de
Vasconcellos (1958) e à comparação com o banco de sementes do herbário do
Departamento de Botânica do Instituto Superior de Agronomia. O material animal foi
identificado até à ordem, por vezes conseguindo-se chegar à família e ao género, mas
foi tratado como Artrópodes, Physa e Ciprinídeos. Na identificação dos animais
recorreu-se a Chinery (1984), Dethier (1986). Na medição dos itens foi utilizado o
método volumétrico e o método da pesagem a seco, seguindo-se a recomendação de
Korschgen (1971) e facilitando-se a comparação com os diversos trabalhos publicados.
O volume foi medido por deslocamento líquido depois de removida a humidade exterior
dos alimentos (Swanson e Bartonek, 1970) com toalha de papel. O peso seco foi obtido
através da secagem em estufa durante 48 horas à temperatura de 70ºC, arrefecimento em
exsicador (para não ocorrer absorção de humidade atmosférica por parte dos alimentos)
e pesagem em balança electrónica com precisão até à centésima de grama. Nas moelas
não se quantificaram a presença de alimentos, uma vez que estas tendem a acumular os
alimentos mais duros (Swanson e Bartonek, 1970), pelo que os seus resultados seriam
enviesados. Os dados foram tratados por percentagem de ocorrência, percentagem
absoluta e percentagem ponderada (Swanson et al, 1974), sendo que apenas foram
considerados os alimentos com pelo menos 0.05 g e 0.5 ml (alimentos ingeridos em
valores inferiores aos limites estabelecidos foram tomados como vestigiais). Os valores
foram tratados em conjunto para os dois sexos, após se ter verificado que nos dados de
1991 não existiam diferenças de alimentação entre os machos e as fêmeas (Rodrigues e
Ferreira, 1993).
O conteúdo das moelas foi removido e o material orgânico separado do
inorgânico por decantações sucessivas. O chumbo foi pesquisado por análise
macroscópica do material inorgânico. Foi registado o número de moelas com chumbo,
para calculo da Taxa de Ingestão (Ti), e o número de chumbos por moela. Estes dados
não estimam directamente o grau de envenenamento, mas permitem apreciar o risco
potencial de intoxicação (Schricke e Lefranc, 1994).
RESULTADOS
Apenas 24 papos de 1991 e 7 de 1992 apresentaram quantidades consideráveis
de alimento, estando os restantes vazios ou com quantidades vestigiais de alimento.
Os alimentos identificados constam na Lista 1, sendo que os resultados
encontram-se sumariados no Quadro 1.
Lista 1. Material encontrado nos papos
MATERIAL ANIMAL
Pulmunata
Physidae
Physa
Coleoptera
Hydrophilidae
Berosus - larvas
Haliplidae
Haliplus - larvas
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Peltodytes - larvas
Dytiscidae - larvas e adultos
Hemiptera
Pleidae
Plae - adultos
Notonectidae
Anisops - adultos
Odonata - ninfas e adultos
Diptera - pupas e adultos
Neuroptera - adultos
Cypriniformes
Cyprinidae - juvenil
Material não identificado
MATERIAL VEGETAL
Oryza sativa - sementes
Echinochloa crus-galli - sementes
Glyceria declinata - sementes
Digitaria sanguinalis - sementes
Paspalum paspalodes - sementes
Scirpus mucronatus - sementes
Scirpus tabaernamontani - sementes
Material não identificado
Quadro 1. Dieta do Pato-real na Quinta do Canal. PV - percentagem de volume, PP percentagem de peso seco, POC - percentagem de ocorrência, PVP - percentagem de
volume ponderada, PPP - percentagem de peso seco ponderada.
Total Vegetal
Oryza sativa
Echinochloa crus-galli
Glyceria declinata
Paspalum paspalodes
Digitaria sanguinalis
Scirpus sp.
Total Animal
Artropoda
Physa sp.
Cyprinidae
PV
95.5
85.3
3.2
1.9
4.2
0.5
0.4
4.4
3.8
0.5
0.1
PP
98.3
91.0
3.0
2.1
1.7
0.3
0.2
1.6
1.0
0.5
<0.1
POC
96.8
74.1
25.8
16.1
6.5
9.7
6.5
38.7
29.0
12.9
3.2
PVP
91.3
68.8
10.0
5.5
3.3
1.8
1.9
9.6
6.4
1.9
0.3
PPP
94.1
70.2
10.4
6.2
3.5
1.8
2.0
5.9
4.4
1.4
0.1
Todos os alimentos em quantidades consideráveis foram identificados e o
material vegetal quantificável foi exclusivamente constituído por sementes de arroz e
suas infestantes. Estas representam a base da alimentação dos patos, em especial o arroz
(Oryza sativa). O material animal também foi ingerido frequentemente, tendo uma
contribuição para a dieta superior à esperada.
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Das 75 moelas analisadas observou-se a presença de chumbo em 4 destas, o que
representa uma Ti de 5.33%. Apenas uma moela tinha dois chumbos, tendo as restantes
somente um.
DISCUSSÃO
Os resultados apresentados em volume e em peso seco têm valores semelhantes
para a generalidade dos alimentos, excepto para os artrópodes e os Ciprinídeos que têm
baixas densidades e elevados teores de água, assim como para as sementes de Paspalum
paspalodes que também têm uma baixa densidade (Rodrigues, 1991). Em termos
nutricionais faz mais sentido utilizar os pesos secos que tomam valores mais constantes
e referem-se a alimentos com os teores de água reduzidos a valores semelhantes. Os
volumes poderão variar com o grau de compactação a que os alimentos são sujeitos no
papo e no processo de conservação. Da mesma forma, variarão com o teor de água dos
alimentos no momento em que são ingeridos.
Por comparação dos resultados em percentagens absolutas e em percentagens
ponderadas obtêm-se conclusões semelhantes às de Swanson et al (1974): as
percentagens absolutas são muito sensíveis às variações individuais. Neste estudo
encontraram-se seis indivíduos que ingeriram quantidades de arroz muito elevadas,
resultando na obtenção de percentagens absolutas de arroz claramente superiores às
percentagens ponderadas. O método das percentagens ponderadas permite contornar
este inconveniente e faz mais sentido ecologicamente, no entanto pode sobrevalorizar
alimentos ingeridos em quantidades pequenas e em papos com pouca diversidade. Neste
estudo observou-se um papo contendo apenas 0.09 g e 0.5 ml de Odonata. Deste modo
as percentagens ponderadas de artrópodes resultaram bastante superiores às
percentagens absolutas. Contudo, a grandeza deste inconveniente é muito inferior ao
primeiro referido.
Na área e época do ano em estudo, o Pato-real baseia a sua alimentação em
sementes de arroz e suas infestantes, com particular destaque para a Echinochloa
crus-galli. A elevada ingestão de sementes coincide com os resultados de estudos
realizados nesta época do ano noutros países (Street, 1975; Landers et al, 1976,
Swanson, 1985). As sementes têm elevado teor de hidratos de carbono e a sua ingestão
permite o aumento das reservas lipídicas das aves, o que possibilita uma melhor
resistência ao Inverno e contribui para o sucesso da época de reprodução posterior
(Street, 1975; Whyte, Baldassare e Bolen, 1985; Heitmeyer e Frederickson, 1990). O
arroz assume uma importância relevante na alimentação da população de anatídeos em
estudo, pois é ingerido em elevada percentagem, tem um valor energético elevado e é
dos cereais agrícolas mais nutritivos (Loesch e Kaminski, 1982). Delnicki e Reinecke
(1986) constataram uma relação positiva entre a alimentação nos arrozais e a
percentagem de ocorrência de invertebrados nos papos dos patos, com especial relevo
para os Pulmonados. Este facto implica uma diminuição da quantidade de energia
ingerida, pois os invertebrados, e em especial os caracóis, têm baixa energia
metabolizável. Segundo os referidos autores, a ingestão de invertebrados é explicada
por o arroz, à semelhança das outras sementes de Gramíneas, ser pobre em azoto e sais
minerais. Os patos ultrapassam esta carência ingerindo matéria animal, que é mais rica
em proteínas e, em especial os Physa, em sais minerais. Desta forma poderá estar
explicada a elevada ingestão de alimentos animais que se verificou neste estudo, quando
comparado com os outros estudos para esta época do ano (Street, 1975; Landers et al,
1976, Swanson, 1985). Há a destacar que, neste estudo, o Lagostim-vermelho
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nos arrozais da Quinta do Canal. Airo 9: 33-40.
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(Procambarus clarkii) não faz parte da dieta do Pato-real, no entanto, estudos em curso
noutra área de arrozais do Baixo Mondego permitem apontá-lo como fazendo parte da
dieta dos patos (D. Rodrigues, dados não publicados).
Considerando que: a dieta resultante dos pesos secos ponderados como a mais
correcta; que o Pato-real precisa de 294 kcal/dia (Sugden, 1979); que o arroz tem 3.3
kcal/g (Reinecke et al, 1989); que as sementes das infestantes terão cerca de 2.5 kcal/g
(Payne, 1992); e que os animais terão 3.5 kcal/g (Reinecke et al, 1989), sendo que os
Physa como têm maior teor de cinza consideramos apenas 2.5kcal/g; concluímos que os
patos deverão consumir diariamente 98.4g de alimento (peso seco). Se considerarmos
que na Quinta do Canal se cultivam 250 ha de arroz; que a produção média será, no
mínimo, de 4000 kg/ha (arroz seco em secadores agrícolas ou industriais, logo com um
teor de água semelhante ao do arroz seco em estufa para este trabalho); que os patos
tiveram 45 dias desde o arroz estar minimamente formado até ser colhido; que a
população de 1000 patos (contagens de 1991) alimentava-se exclusivamente na Quinta
do Canal, obtemos uma redução na produção de arroz de 0.299 %.
Em termos de prejuízos para os rendimentos dos agricultores, estes não parecem
ser significativos na época em que incidiu o estudo, e mesmo que considerássemos que
os patos só ingeriam arroz, a diminuição da produção seria de apenas 0.4 % (tomando
como referência os valores acima referidos). Com efeito, deve-se registar que, muitas
vezes, os agricultores queixam-se mais dos estragos provocados pelos caçadores que
dos prejuízos provocados directamente pelos patos. Durante a época da sementeira os
patos poderão causar diminuições de produção mais significativas, mas depois desta e
até as sementes de arroz estarem minimamente formadas, o impacte na cultura do arroz
deverá ser positivo, pois os patos só poderão ingerir sementes de infestantes
(geralmente de formação mais precoce do que o arroz), pragas do arroz e outros
alimentos que não a planta do arroz, contribuindo para a sanidade da cultura.
Os arrozais são a principal área de alimentação do Pato-real no Baixo Mondego
(Rodrigues, 1991; Rodrigues e Ferreira, 1993) e dados recentes ainda não publicados
(D. Rodrigues) apontam para que as populações do Baixo Mondego e Ria de Aveiro
constituam uma só. Assim, é preocupante a diminuição da área de arrozais no Baixo
Mondego, que conduz à diminuição da quantidade de alimento disponível, que, como o
verificado neste trabalho, é de elevado valor energético e nutritivo nos arrozais. Da
mesma forma, a adopção de novas práticas culturais (especialmente o nivelamento dos
terrenos por LASER) e fito farmacológicas que dão origem a searas de arroz mais
compactas, mais uniformes e com menos infestantes, resultam na diminuição da
diversidade de alimentos e na diminuição do período em que estes estão disponíveis.
A Ti nas moelas observadas não é muito elevada quando comparada com
valores de outros países (Schricke e Lefranc, 1994). Contudo, há a referir que esta pode
estar subestimada por defeito da observação, pois Pain e Eon (1993) obtiveram
eficiências de observação visual simples da ordem dos 65% (por comparação com o
Raio X). Também poderá subavaliar a taxa de ingestão de chumbo que se verifica nos
restantes arrozais do Vale do Mondego pois, se na área em estudo apenas se caça aos
patos duas vezes por ano, nas restantes caça-se ao longo de toda a época de caça (15
Agosto a 31 Janeiro), sendo de esperar uma progressiva acumulação de chumbo na
superfície do terreno. Reforçando esta suspeita, trabalhos em realização noutra área de
arrozais do Baixo Mondego (D. Rodrigues) já contaram 99 bagos de chumbo no interior
duma moela de um pato abatido. O facto de os arrozais serem mobilizados todos os
anos e, por vezes, com o terreno inundado, poderá permitir o enterrar dos bagos de
chumbo, contribuindo para a menor Ti no princípio da época de caça.
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Embora sabendo que o grau de saturnismo não depende apenas da quantidade de
chumbo ingerida, mas também do teor de proteínas da alimentação e do teor de Cálcio
da alimentação e dos inertes ingeridos (Mauvais, 1993), se levarmos em conta que
Bellrose (1959) estimava uma taxa de mortalidade devida ao saturnismo em 3% para as
populações de Anatídeos dos Estados Unidos da América; que um pato que ingira um
bago de chumbo fica com danos cerebrais irreversíveis (Dieter e Finley, 1979), e que
tem uma probabilidade de ser abatido 1.5 a 2.3 vezes superior e que pode morrer
envenenado (Bellrose, 1959); conclui-se da conveniência de medidas que promovam a
substituição do chumbo dos cartuchos de caça por materiais não tóxicos. Anderson,
Havera e Montgomery (1987) observaram uma diminuição significativa na taxa de
ingestão de bagos de chumbo pelos patos imediatamente a seguir à substituição de
chumbo pelo aço nos cartuchos de caça. Contudo, referem que o saturnismo mantém-se
como um factor de mortalidade dos patos enquanto existirem bagos de chumbo
disponíveis no terreno.
AGRADECIMENTOS
O presente trabalho foi suportado em parte pela Bolsa de Doutoramento do autor
(JNICT - Programas CIENCIA e PRAXIS), e em parte por projecto do Programa
STRIDE da mesma Instituição.
O autor deseja agradecer à Engª. Ester Mateus pela assistência no trabalho de
campo e de laboratório, ao Prof. António Fabião pelas sugestões fornecidas e revisão do
texto, à Profª. Teresa Ferreira pela orientação e acompanhamento de parte do trabalho,
aos Engºs. Luis Pinheiro e Duarte Pessoa e à Delegação da Beira Litoral do IF pela
abertura e apoio dados, aos Engºs. Alberto Cavaco e Emídio Santos e aos Serviços de
Caça do IF pela colaboração e apoio dado no trabalho de campo.
SUMMARY
During a two day hunting period in late August of 1991 and 1992, we obtained
oesophagus, proventriculus and gizzards from 75 shot Mallards. From 31 stomachs with
considerable amounts of foods, we concluded that the diet, in the area and period in
study, was based on seeds (94.1%), both from rice (70.2%) and from rice weeds,
especially Echinochloa crus-galli (10.4%). Animal component represented about 6%,
especially the Artropoda and Physa. To cover the energetic needs, each Mallard should
eat daily about 98.4g (dry weight) of the observed diet.
Seeds present high level of carbohydrates and, especially the rice, a high
nutritional value. Their ingestion make it possible for the ducks to build up reserves that
allows better resistance to the winter and contributes to posterior breeding season
success. The animal component is important and complements the diet in terms of
protein, because rice and the other ingested seeds are poor in nitrogen.
From the 75 observed gizzards 5.33% had led shot. On the rest of the Mondego
Lowlands, the ingestion rate of led shot, should be higher than that observed in Quinta
do Canal because, with the evolution of the hunting season, the lead from shots will
accumulate on the surface of fields.
The importance of rice fields for the feeding of Mallards in the Mondego
Lowlands and Vouga Lowlands have been discussed, together with its decrease in area
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and the adoption of new culture practises. We have also discuss the necessity of taking
measures to replace lead shot with other non-toxic materials.
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DIETA E SATURNISMO DO PATO-REAL (Anas platyrhynchos)