Paulo Roberto de Araújo Porto ORIGEM DOS SERES VIVOS, ORIGEM DO HOMEM E DA MULHER: O PERCURSO PELO ENSINO MÉDIO DE ESTUDANTES DE UMA ESCOLA CONFESSIONAL CATÓLICA. Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós-graduação em Educação em Ciências e Saúde, Núcleo de Tecnologia Educacional para a Saúde, Universidade Federal do Rio de Janeiro, como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de Mestre em Educação em Ciências e Saúde. Orientadora: Profª Drª Eliane Brígida Morais Falcão Professora doutora NUTES- UFRJ RIO DE JANEIRO 2009 Porto, Paulo Roberto de Araújo Origem dos seres vivos, origem do homem e da mulher: o percurso pelo ensino médio de estudantes de uma escola confessional católica / Paulo Roberto de Araújo Porto – Rio de Janeiro: UFRJ / NUTES, 2009. xii, 69 f. : il. ; 31 cm. Orientador: Eliane Brígida Morais Falcão Dissertação (mestrado) -- UFRJ, NUTES, Programa de Pósgraduação em Educação em Ciências e Saúde, 2009. Referências bibliográficas: f. 67-69 1. Antropologia social. 2. Religião e ciência. 3. Evolução. 4. Biogênese. 5. Ensino fundamental e médio. 6. Psicologia social. 7. Adolescentes. 8. Tecnologia Educacional para a Saúde - Tese. I. Falcão, Eliane Brígida Morais. II. Universidade Federal do Rio de Janeiro, NUTES, Programa de Pós-graduação em Educação em Ciências e Saúde. III. Título. Paulo Roberto de Araújo Porto ORIGEM DOS SERES VIVOS, ORIGEM DO HOMEM E DA MULHER: O PERCURSO PELO ENSINO MÉDIO DE ESTUDANTES DE UMA ESCOLA CONFESSIONAL CATÓLICA. Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós-graduação em Educação em Ciências e Saúde, Núcleo de Tecnologia Educacional para a Saúde, Universidade Federal do Rio de Janeiro, como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de Mestre em Educação em Ciências e Saúde. Aprovada em 21 de Julho de 2009. _________________________________ Profa.. Dra. Eliane Brígida Morais Falcão NUTES/UFRJ _________________________________ Prof. Dr. Michel Jean Marie Thiollent COPPE/ UFRJ __________________________________ Profa. Dra. Denise Rocha Correa Lannes IBQM/ UFRJ Dedico esse trabalho aos meus pais, minha esposa e todos meus familiares. AGRADECIMENTOS Primeiramente a Deus, que me deu forças, inspiração e coragem para concluir esse trabalho. A minha esposa, que com paciência e carinho, soube me acompanhar nessa caminhada. A meus pais e meus irmãos, que souberam compreender minha ausência em momentos significativos. A meu filho Richard e esposa que sempre me motivaram, mesmo nos momentos mais difíceis. A professora e orientadora Eliane Brígida Morais Falcão pelos ensinamentos, amizade e companheirismo, estando sempre presente na elaboração desse trabalho. Aos integrantes do Laboratório de Ciências, que dividiram comigo as alegrias, angústias e ansiedades durante essa caminhada. Um agradecimento especial à Carolina de Lima Alves Belo. Aos professores e colegas da turma 2007, que muito contribuíram para meu crescimento profissional e acadêmico. A Lúcia e ao Ricardo, funcionários da secretária, sempre prontos a ajudar e encontrar soluções nos momentos de desespero. A direção e aos estudantes da escola pesquisada, que possibilitaram esse trabalho. Um agradecimento especial aos meus colegas, professores do Ensino Médio: Andiara Dias, Hamilton Medeiros, Maria José Vieira e Mônica Ribeiro, que contribuíram muito para a finalização desse trabalho. Quando pensávamos que a natureza correspondia às nossas esperanças e confortos -todas as coisas belas e brilhantes, tudo a serviço de nossos eus superiores então caímos facilmente na armadilha de igualar, verdade com direito. Mas quando sentimos o fascínio diferente dos caminhos da evolução, da história de mudanças e da espantosa riqueza de diversidade da vida, com o Homo sapiens representando apenas um ramo ocasional na mais luxuriante de todas as árvores, então finalmente nos tornamos livres para separar nossa busca pela verdade ética e por um significado espiritual, de nossa busca científica para entender os fatos e os mecanismos da natureza. Darwin, ao definir a verdadeira “grandeza dessa visão da vida” (para citar a última linha de A origem das espécies), liberou-nos de exigir muito da natureza, deixando-nos livres para compreender o terrível fascínio que pode estar” lá fora”, confiantes de que nossa busca por decência e significado não será ameaçada e só poderá surgir de nossa consciência moral. (Stephen Jay Gould, 1998). RESUMO Porto, Paulo Roberto de Araújo. Origem dos seres vivos, origem do homem e da mulher: o percurso pelo ensino médio de estudantes de uma escola confessional católica. Dissertação (Mestrado em Educação em Ciências e Saúde), Núcleo de Tecnologia Educacional para a Saúde, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2009. O trabalho identificou e analisou as representações sociais dos estudantes de uma escola confessional católica sobre a origem dos seres vivos com destaque para origem do homem e da mulher durante o percurso pelo ensino médio. Fez-se uso de questionário individual em dois momentos do ensino médio. Os dados obtidos foram analisados utilizandose a metodologia de análise do discurso do sujeito coletivo (DSC) e os resultados mostraram que o grupo investigado tem fortes características religiosas, mas mostrou abertura para as explicações científicas. Seus discursos revelaram conhecimento das hipóteses científicas para o tema abordado, mas também revelaram influências religiosas. Entretanto as influências religiosas não se mostraram obstáculos à aprendizagem das explicações científicas para o tema em questão. Mostraram, antes, sinais de lacunas na abordagem educacional escolar do tema, principalmente pela falta de maior reflexão sobre as explicações trazidas pelo campo da ciência e da religião. Influências familiares nas representações sociais dos estudantes para origem dos seres vivos mostraram-se mais relevantes do que aquelas vindas dos professores e atividades escolares. Palavras chave: REPRESENTAÇÕES SOCIAIS, CIÊNCIA E RELIGIÃO, ORIGEM E EVOLUÇÃO DOS SERES VIVOS, ENSINO DE BIOLOGIA, ENSINO MÉDIO. ABSTRACT Porto, Paulo Roberto de Araújo. Origem dos seres vivos, origem do homem e da mulher: o percurso pelo ensino médio de estudantes de uma escola confessional católica. Dissertação (Mestrado em Educação em Ciências e Saúde), Núcleo de Tecnologia Educacional para a Saúde, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2009. The research identified and analyzed social of student’s representation from high school about living things origin with distinction to man and woman arising during the high school. It was used individual questionnaire in two different moments of high school. The data obtained were analyzed through subject collective discourse (SCD) and the results showed that the investigated group has strong religious characteristic, but showed opening to scientific explication. Their discourses, revealed religious influence as knowledge of scientific supposition about the topic. However religious influence did not denote obstacle apprehension of teaching content in science scope. They showed before, gap sign in school educational approach of theme, mainly by lack of more reflection about explanation showed in science and religious area. Family influence in social students’ representation show more eminent than that from school activities. Key words: SOCIAL REPRESENTATION, SCIENCE AND RELIGION, ORIGIN AND LIVING THINGS EVOLUTION, BIOLOGY TEACHING, HIGH SCHOOL. LISTA DE ILUSTRAÇÕES Quadro 1: DSC Origem dos seres vivos (conjunto total dos estudantes ) 52 Quadro 2: DSC Origem do homem e da mulher (conjunto total dos estudantes) 54 Quadro 3: Fontes de influências para explicações dadas sobre origem dos seres vivos 55 Quadro 4: DSC Origem dos seres vivos ( estudantes que se identificaram ) 78 Quadro 5: DSC Origem do homem e da mulher ( estudantes que se identificaram) 80 Quadro 6: Referências citadas pelos estudantes sobre as fontes que influenciaram suas respostas 82 LISTA DE TABELAS Tabela 1: Perfil sócio-cultural dos estudantes 50 Tabela 2: Religiosidade dos pais, mães e estudantes 51 Tabela3: Escolaridade dos pais e mães, crenças religiosas dos pais, mães e estudantes 51 LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS DSC – Discurso do Sujeito Coletivo. ENEM - Exame Nacional do Ensino Médio. IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. IC – Idéia central. LEC – Laboratório de Estudos da Ciência. NUTES - Núcleo de Tecnologia Educacional em Educação e Saúde. PCN – Parâmetros Curriculares Nacionais. PCNEM - Parâmetros Curriculares Nacionais do ensino médio. UFRJ – Universidade Federal do Rio de Janeiro. SUMÁRIO 1.INTRODUÇÃO...................................................................................................................13 2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA......................................................................................17 2.1 CIÊNCIA E RELIGIOSIDADE........................................................................17 2.2 CONCEPÇÕES PRÉVIAS................................................................................20 2.3 REALIDADE SOCIAL E CONCEPÇÕES PRÉVIAS.....................................25 2.4 TEORIA DAS REPRESENTAÇÕES SOCIAS................................................30 3. RELEVÂNCIA DO TEMA ORIGEM E EVOLUÇÃO DOS SERES VIVOS................35 4. OBJETIVOS, METODOLOGIA E CONTEXTUALIZAÇÃO DO ESPAÇO PESQUISADO.......................................................................................................................40 5. RESULTADOS..................................................................................................................47 6. DISCUSSÃO DOS RESULTADOS.................................................................................63 7. CONCLUSÃO....................................................................................................................66 8. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS................................................................................67 ANEXOS.................................................................................................................................70 13 INTRODUÇÃO O processo de ensino-aprendizagem chama minha atenção desde que iniciei minha prática no magistério, na educação básica, como professor de ciências e biologia, há cerca de vinte anos. Tive uma formação tradicional, que reproduzia, no início da minha carreira, tal prática, ou seja, na sala de aula transmitia, de forma expositiva, os conhecimentos científicos propostos para o conteúdo abordado, sem considerar a possibilidade de ouvir as idéias dos estudantes a respeito dos temas que ensinava, ou mesmo buscar estratégias para uma melhor compreensão dos estudantes durante as aulas. Para mim, naquela época, o conhecimento que transmitia era o único a ser considerado, pois trazia a verdade científica. Se os resultados nas avaliações não eram satisfatórios, a responsabilidade era atribuída aos estudantes. Eu acreditava que tinha ensinado da melhor maneira e, consequentemente, se, os estudantes não tinham sido “capazes” de aprender, o problema estaria com eles. Porém, após algum tempo convivendo com muitas dificuldades de aprendizagem, comecei a refletir sobre meu trabalho com os estudantes, e a partir daí, senti necessidade de repensar minha prática docente, razão por que ingressei em cursos que propunham novas metodologias para o ensino de ciências. Dessa forma percebi que era possível buscar novos caminhos para facilitar o aprendizado dos estudantes e que “dar aulas”, era muito mais do que, apenas, repetir conteúdos encontrados nos livros didáticos. Nesse aspecto a minha visão sobre os problemas de aprendizagem começou a ter uma nova configuração, ou seja, o fracasso na aprendizagem também me envolvia, pois tratava-se de um problema de ensino-aprendizagem. Com esse intuito, retomei estudos a respeito do processo ensino-aprendizagem, fazia atualização, mas senti necessidade cursos de de uma formação mais sólida que me permitisse compreender as bases científicas desse processo. Foi quando conheci o NUTES (Núcleo de Tecnologia Educacional em Educação e Saúde) e, através dele, iniciei meus estudos em uma disciplina ministrada pela professora doutora Eliane Brígida Morais Falcão. Tratava-se da disciplina de sociologia do conhecimento científico, que me permitiu enxergar a ciência sob outro ângulo, ou seja, também como uma construção social. Os conhecimentos que obtive foram relevantes para continuar repensando minha prática em sala de aula. Ingressei no programa de pós-graduação do Nutes, como aluno do mestrado, no Laboratório de Estudos da Ciência (LEC), onde conheci o projeto de pesquisa sobre Ciência e religiosidade coordenado pela professora Eliane Brígida Morais Falcão. Nesse projeto as pesquisas que focavam a origem e a evolução dos seres vivos chamaram a minha atenção de imediato, pois percebi que o ensino de tais temas, por várias 14 vezes, estimulou discussões acaloradas com os estudantes. Nessas discussões alguns estudantes traziam seus conhecimentos construídos a partir de suas crenças religiosas e nem sempre consegui conduzir bem essa situação, pois ainda me sentia inseguro analisar outros conhecimentos que não fossem científicos e sobre os quais estava habituado a discutir. Como exemplo, posso relatar situações em que a tentativa de focar o conceito científico da origem e evolução dos seres vivos, defendido pelas ciências biológicas, foi de encontro à formação religiosa dos estudantes. Em uma das situações, trabalhava com uma turma de 6ª série, hoje, 7º ano e durante a aula cujo tema era a origem e evolução dos seres vivos, uma estudante, após ouvir minha explicação, levantou a mão e disse que o pastor de sua igreja, no final de semana anterior, tinha feito uma pregação abordando esse tema e que baseada na leitura que fizeram na igreja, e na sua formação religiosa, ela acreditava que Deus criara todos os seres vivos e o universo. Portanto, não acreditava na versão apresentada pelo livro e, muito menos, na minha explicação. Faltaram-me, naquela época, conhecimento, equilíbrio e sabedoria, pois, de forma rude, informei à estudante que estávamos na escola, na aula de ciências e que por isso, o conhecimento científico é que deveria ser considerado. Além disso, que as informações ouvidas na igreja, fossem guardadas para os momentos lá vivenciados. Após minha fala, percebi um mal estar em toda a turma, pois, embora apenas uma estudante tenha se manifestado, encontrava-me em uma escola cuja comunidade era constituída por grande número de evangélicos. Algum tempo depois, descobri que causei uma grande repulsa nos estudantes e mesmo aqueles que participavam de minhas aulas, a partir desse episódio, se silenciaram. Em outro momento uma estudante, evangélica, do primeiro período do curso de licenciatura em Ciências Biológicas, ao término de uma brilhante redação sobre o tema origem e evolução dos seres vivos, fez o seguinte relato: “[...] Por considerar que tal conhecimento faz parte de um dos paradigmas das ciências biológicas, tentei descrevê-lo de forma técnica. No entanto, quero ressaltar que, particularmente, discordo de tais idéias, por acreditar que a vida nada mais é do que uma prerrogativa de Deus, que criou todo o universo, inclusive o homem [...]”. Além desses dois fatos, muitos outros ocorreram, razão por que, fui percebendo, aos poucos, que precisava considerar as concepções trazidas pelos estudantes, a respeito desse tema. Não se tratava de uma situação circunscrita aos evangélicos e, sim, à maioria dos estudantes, pois refletia significados construídos ao longo de suas vidas, reflexo da grande cultura religiosa existente em nossa sociedade. Isso trazia um novo desafio no que 15 se refere ao aprendizado desse tema, pois certamente, na sala de aula, mesmo em situação de silêncio aparente, haveria sempre explicações diferentes, por parte dos estudantes. Envolvido com tais questões ingressei, então, na equipe de pesquisa do projeto Ciência e Religiosidade para estudar as representações sociais acerca da origem e evolução dos seres vivos no LEC, que já contava com um grande acervo, tanto na análise das representações sociais dos estudantes do ensino médio e universitário, como de professores do curso de Ciências Biológicas. Descobri que, nesse campo, há possibilidade de outras visões, inclusive a que valoriza os conhecimentos trazidos pelos estudantes (concepções prévias também chamadas de concepções alternativas), e que é possível haver troca de informações entre professor e estudante. Comecei, então, a valorizar o conhecimento trazido pelos estudantes e percebi que minhas aulas ficaram mais dinâmicas, mais atrativas e que os estudantes obtiveram melhores resultados. A partir daí, iniciei meu projeto de pesquisa. Dando continuidade aos resultados já obtidos em pesquisas anteriores, no projeto “Crenças religiosas entre cientistas e estudantes em formação científica”1 (TRIGO, 2005; NICOLLINI, 2006; GUIDA, 2007), propus investigar as representações sociais acerca da origem dos seres vivos e da origem do homem e da mulher, entre estudantes de uma escola confessional católica, durante o percurso dos mesmos pelo ensino médio. Considerando-se que o tempo previsto para a conclusão do curso de mestrado é de dois anos, a pesquisa aqui apresentada refere-se à análise dos resultados do primeiro e segundo ano. Verificou-se que, durante esse período, segundo a proposta curricular da escola, encontra-se previsto o estudo dos conteúdos sobre a origem dos seres vivos, além de abordagens sobre a evolução dos seres vivos, diluídos em temas como o estudo da biodiversidade e genética, na disciplina de Biologia. Essa escolha foi motivada por se tratar de uma escola onde há grande presença religiosa, tanto no espaço físico como na sua proposta pedagógica. Em seu espaço físico, destaca-se, ao lado da entrada principal, uma capela freqüentada por alguns estudantes e a aberta à comunidade, e uma imagem de Nossa Senhora. Nas salas de aula, encontram-se crucifixos, e nos corredores, imagens de santos. Além disso, há aulas de ensino religioso e, no início da primeira aula, diariamente, é lida uma mensagem religiosa e reza-se o Pai nosso. Muitos estudantes estudam aí, desde o início de sua vida escolar, pois são oferecidos desde a educação infantil até o ensino médio. A escola, também, tem tradição de bom nível de ensino, 1 Projeto da Prof.ª Eliane Brígida Morais Falcão apoiado pelo CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico). 16 pois seus estudantes têm bom desempenho em exames como o ENEM2 (Exame Nacional de Ensino Médio) e em vestibulares de universidades públicas. Diante dessas características, vi aí um local privilegiado para investigar a relação entre as explicações científicas e religiosas, sobre a origem e evolução dos seres vivos. Na elaboração de meu projeto, algumas perguntas aguçavam meu espírito investigativo: uma escola confessional, onde os sinais religiosos são tão presentes, poderia influenciar na formação científica dos estudantes, especialmente no que diz respeito às explicações científicas sobre a origem e evolução dos seres vivos, que encontram explicações concorrentes do cristianismo? O destaque dado pelo cristianismo à criação divina do homem e da mulher, poderia levar os estudantes a uma distinção entre a criação dos seres vivos e a criação do homem e da mulher? As diferentes religiões poderiam influenciar diferentemente aquele conjunto de estudantes na aceitação da explicação científica sobre a origem dos seres vivos? As influências familiares teriam relevância na aceitação da explicação científica sobre a origem dos seres vivos? Haveria influência da metodologia utilizada pelo professor, mesmo em um espaço tão influenciado por sinais religiosos?Que outras questões poderiam influenciar as explicações dos estudantes a respeito desse tema? Nessa caminhada contei com a colaboração da escola, dos estudantes, toda equipe do LEC e, principalmente, da minha orientadora, professora doutora Eliane Brígida Morais Falcão. Esta dissertação encontra-se dividida em seis capítulos. No primeiro encontra-se a fundamentação teórica que inclui as seguintes seções: 2.1 Ciência e Religiosidade, 2.2 Concepções prévias, 2.3 Realidade social e concepções prévias 2.4 Teoria das representações sociais. No segundo capítulo faremos considerações gerais sobre a relevância do tema origem e evolução dos seres vivos no ensino médio. No terceiro capítulo, descrevo a metodologia utilizada, com foco nas representações sociais e no Discurso do Sujeito Coletivo (DSC) e os objetivos dessa pesquisa, no quarto capítulo, serão apresentados os resultados da pesquisa. A discussão dos resultados compõe o quinto capítulo e no sexto capítulo as considerações finais (conclusões) encerram a dissertação. 2 ENEM O Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) é um exame realizado anualmente, individual, de caráter voluntário, aos estudantes que estão concluindo ou que já concluíram o ensino médio em anos anteriores. Seus objetivos principais são possibilitar uma referência para auto-avaliação e utilização da nota em exames de vestibulares. Este exame tenta valorizar a capacidade de raciocínio fazendo com que o individuo seja estimulado a pensar(...). O Enem incentiva o ´´aprender a pensar´´, a refletir e a “saber como fazer”. Valoriza, portanto, a autonomia do jovem na hora de fazer escolhas e tomar decisões. <http://www.enem.org.br/Cms/Site/Pag1x2.asp?m=4&e=198>: acessado em 19.06.09. 17 2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA 2.1 CIÊNCIA E RELIGIOSIDADE A relação entre ciência e religião não é uma questão atual pois vem sendo pensada e discutida desde o surgimento do que se chama comumente de ciência moderna. Por isso, antes de tratarmos dessa discussão na atualidade, seria interessante voltar, mesmo que de uma forma breve, ao passado para entender como essa relação se constituiu e tomou forma ao longo da história. Até meados do século XVI, o mundo Ocidental permaneceu mergulhado numa realidade construída a partir de referenciais religiosos, mais precisamente a partir de ideais cristãos e nesse sentido, qualquer forma de expressão do mundo impregnava-se de religiosidade. Assim sendo, arte, medicina, filosofia, magia, ideologias e outros campos do saber erguiam-se a partir de uma concepção de mundo fundamentalmente judaico-cristã, sem uma distinção clara entre religião e outras formas de conhecimento. A Filosofia Natural é um exemplo desse tipo de saber pois unia campos que, mais tarde, foram se diferenciando e constituindo especialidades cada vez mais distintas. Tratavase de um corpo de explicações teóricas acerca do mundo material herdado da filosofia da Antiga Grécia. O historiador John Henry (1998) afirma que, nessa época, a técnica e a prática eram conhecimentos menos privilegiados e considerados sinais de pouca instrução. No Renascimento, com o surgimento das cidades, os artesões, profissionais típicos na era medieval, foram substituídos pelos engenheiros e os arquitetos, doravante responsáveis pela construção das edificações que fariam parte dos novos cenários urbanos. Esses profissionais trazem consigo conhecimentos matemáticos e técnicos até então relegados a categorias secundárias na hierarquia dos saberes. As pretensões expansionistas dos reinados europeus, naquela época, promoveram, então, a colonização de terras distantes, como as Américas, a África e a Ásia. Esse empreendimento demandou o aperfeiçoamento de técnicas e instrumentos de navegação, conferindo oportunidade aos técnicos, engenheiros socialmente, de ascenderem e matemáticos, antes preteridos ao patamar social ocupado, anteriormente, apenas pelos intelectuais. Ao mesmo tempo, uma nova classe social não só se estabeleceu, como acumulou capital. Eram os mercadores dos burgos, que passaram a ser denominados burgueses. Esse quadro de profundas mudanças econômicas e sociais provocou uma revolução no pensamento da sociedade européia, instituindo não só uma nova ordem econômica, mas, também, uma outra visão de mundo. 18 Aos poucos, a Filosofia Natural aristotélica, antes dominante nos meios universitários da época, foi perdendo terreno para a física e as ciências matemáticas e, no século XVII, a matematização da representação do mundo estaria consolidada. Henry aponta o livro de Newton denominado Os Princípios Matemáticos de Filosofia Natural como um marco nesse sentido: Embora seu livro tenha enfrentado algumas críticas violentas, não se levantou um murmúrio sequer contra ele sob esse aspecto. A batalha já havia sido ganha, e, em certo sentido, a história já se completara antes que Newton pisasse no palco. Certamente, no final do século XVII, o matemático era visto não como um mero subordinado do filósofo natural, mas como um membro da elite intelectual. ( HENRY J., 1998, p. 33) Porém a matematização da natureza demandou a incorporação do método experimental à ciência, uma vez que, aos instrumentos próprios dos cálculos matemáticos, como astrolábios, quadrantes, somaram-se outros que auxiliavam a observação dos fenômenos, como telescópio, o microscópio, o barômetro e o termômetro, por exemplo. O experimentalismo passou, aos poucos, a ocupar papel importante em campos antes dominados apenas pela Filosofia Natural, como nas escolas de medicina, onde as aulas de anatomia uniam, à teoria, práticas de dissecação. A Filosofia Natural absorveu essa abordagem empírica do conhecimento natural e foi justamente esse aspecto pragmático que evoluiu no século XVIII, para a face propriamente “científica” da filosofia natural, colaborando para uma diferenciação cada vez mais clara desse corpo de conhecimentos em relação aos demais, sobretudo ao destacar-se do contexto religioso no qual outros domínios do saber estavam mergulhados. Esse período de intensas modificações na forma de conhecer e explorar a natureza dos fenômenos físicos, químicos e biológicos, foi caracterizado, pelos historiadores da ciência, como Revolução Científica. A partir daí, inaugurou-se um tempo de legitimidade crescente da ciência, embora o processo de diferenciação do conhecimento científico moderno, a partir da religiosidade reinante nos séculos anteriores, não tenha se dado de forma abrupta, como pensam alguns. Fica claro o entrelaçamento desses dois campos, no alvorecer da ciência moderna, no comentário: Repetidamente podemos ver a importância que as questões religiosas tinham para os pensadores mais destacados, fornecendo uma motivação geral para suas filosofias naturais e moldando seus detalhes precisos. Kepler, por exemplo, via a si mesmo como um sacerdote “ do Deus Altíssimo com respeito ao Livro da Natureza” que, ao descobrir o padrão que Deus impusera ao cosmo, estava, “pensando os pensamentos de Deus à maneira de Deus.” ( HENRY J., 1998, p. 83). 19 O século XVII, época do surgimento da ciência moderna, foi palco tanto de um florescimento de obras alquímicas como, também, de um enorme crescimento da matemática. Esse diálogo crítico entre tradições e teorias diversas é comum a todas as épocas e o período do surgimento da ciência não foi diferente. Mas ao mesmo tempo em que a “nova ciência” surgia representava uma descontinuidade com a tradição, pois os cientistas que a desenvolveram estavam imersos e eram parte dessa tradição. O que pode parecer estranho é que na época do surgimento da ciência conviviam perspectivas pertencentes a mundos culturais que atualmente parecem para muitos de nós inconciliáveis entre elas. Tal fato nos permite deduzir o descompasso que permeava a relação ciência e religiosidade embora, segundo Henry (1998) uma época em que os mundos da religião e da ciência pareciam tão inconciliáveis, e em que muitos cientistas tentaram, através do diálogo e do debate conciliá-los, esses mundos culturais, convivessem muito mais próximos do que se imagina. Um exemplo dessa conciliação é encontrado nos trabalhos de Descartes. Esse autor usou a filosofia mecânica para endossar o dualismo extremado segundo o qual havia no mundo dois tipos de substâncias: uma coisa ou um corpo externo (res extensa) e uma coisa pensante, mente ou alma (res cogitans) Acreditava-se que a mente escapava aos limites da mecânica filosófica e ele permaneceu silencioso com relação à substância imaterial, que poderia levar o corpo a efetuar atos deliberados da vontade (Henry, j., op. cit). O fato de Descartes, apesar das dificuldades, nunca ter abandonado seu compromisso com seu sistema dualista e ter sempre parecido encará-lo como uma maneira de demonstrar a imortalidade da alma revela a influência das preocupações religiosas em seu pensamento. As diferenças de detalhes das várias explicações podem ser relacionadas às diferenças de perspectiva religiosa. A religião foi um estímulo fundamental para o filosofar de Descartes e uma profunda influência sobre os detalhes do desenvolvimento e da forma final de seu pensamento. O mesmo poderia ser dito acerca de praticamente todos os outros pensadores importantes na revolução científica. Não pode haver, portanto, nenhuma incompatibilidade entre pensamento religioso e científico. (HENRY, J., op. cit p. 89). As fronteiras que iriam separar a ciência da religião, da metafísica e da magia foram construídas aos poucos, em cima de um discurso que ia se constituindo sobre o que era a própria ciência e também sobre o que passava a ser entendido como religião. Por essa razão no final do século XVII, essas fronteiras eram tecidas por homens que, além de estabelecerem os fundamentos da ciência moderna, eram religiosos devotos. Foi fundamentalmente a partir do Iluminismo, no século XVIII, que começou a se desenhar uma imagem da ciência como totalmente oposta à religião. O teísmo em si mesmo 20 não opunha ciência e religião, mas levou cada vez mais a ciência a investigar o universo como se Deus não existisse. Era também comum a vários pensadores iluministas considerar a religião como algo pertencente ao passado da humanidade e associado a uma época primitiva que, com o tempo, seria superada e deixada para trás. Essa previsão parece cada vez mais distante, inclusive dentro do mundo científico, pois várias investigações feitas com pesquisadores que convivem em ambientes cercados de tecnologia avançada e que realizam pesquisas de ponta permitiram a observação de sinais evidentes de significativa presença de crenças religiosas (FALCÃO, 2008). Historiadores da ciência mostram que os conflitos históricos entre ciência e religião estiveram, frequentemente, relacionados a confrontos de poderes institucionalizados e, portanto, não se pode afirmar a existência de conflitos intrínsecos entre crenças religiosas e conhecimento científico. Ciência e religião tratariam de diferentes objetos ou de áreas diversas da cultura humana (BROOKE, 1991; HENRY, J. 1998; MENDELSONH, 1993; apud FALCÃO, 2006 p. 30). Entretanto, percebe-se que religião e ciência são duas construções sociais que exercem grande influência nos seres humanos. Tais construções interagem nos meios sociais, chegando a locais que se supunham isentos de tais influências e a sala de aula é um espaço propício para o encontro dessas duas construções, principalmente quando se propõe o estudo dos conceitos da origem e evolução das espécies, que possuem explicações científicas e religiosas. Diante disso, alguns questionamentos surgem: será que esta dubiedade pode causar possíveis bloqueios na recepção dos conceitos científicos? Que explicação terá maior significação para o estudante: a apresentada pela escola baseada nos conhecimentos científicos, ou aquela construída durante sua vida, decorrentes de suas interações sociais, principalmente religiosas? Nesse sentido, propõe-se neste trabalho uma pesquisa das concepções prévias acerca da “origem e evolução dos seres vivos e do homem e da mulher” com estudantes de uma escola confessional religiosa católica, durante seu percurso pelo ensino médio. 2.2 CONCEPÇÕES PRÉVIAS Na medida em que a ciência e a tecnologia foram reconhecidas como essenciais no desenvolvimento econômico, cultural e social, o ensino de ciências em todos os níveis foi aumentando sua importância, sendo objeto de inúmeros movimentos de transformação do ensino. Um episódio muito significativo ocorreu durante a "guerra fria", nos anos 60, quando os Estados Unidos, para vencer a batalha espacial, fizeram grandes investimentos em recursos humanos e financeiros justificando que a formação de uma elite que garantisse a hegemonia norte-americana na conquista do espaço dependia, em boa parte, de uma escola secundária em 21 que os cursos de ciências identificassem e incentivassem jovens talentos a seguir carreiras científicas. Esse movimento envolveu sociedades científicas, universidades e acadêmicos renomados, apoiados pelo governo. Nessa perspectiva, a ciência era considerada uma atividade neutra, isentando os pesquisadores de julgamento de valores sobre o que estavam fazendo (KRASSILCHIK, 2000). Pretendia-se, no ensino de ciência, formar jovens cientistas, buscando assim, desenvolver a racionalidade, a capacidade de fazer observações controladas, preparar e analisar estatísticas e respeitar a exigência de replicabilidade dos experimentos. Os agravamentos dos problemas ambientais do pós-guerra, a tomada de consciência de muitos intelectuais com relação às questões éticas, a qualidade de vida da sociedade industrializada, a necessidade da participação popular nas decisões públicas, estas cada vez mais sob o controle de uma elite que detém o conhecimento científico e, sobretudo, o medo e a frustração decorrentes dos excessos tecnológicos levaram a um novo modo de produção do conhecimento. Esse novo modo de produção acarretou um aumento da responsabilidade social dos produtores de conhecimento científico e tecnológico. Nele, os diferentes profissionais se uniram no interesse comum de resolver grandes problemas, como a cura da AIDS, a escassez ou má distribuição de alimentos, as questões ambientais, etc. Isso passou a exigir do novo cientista uma maior reflexão e, sobretudo, a capacidade de dialogar com outras áreas para participar da análise de tais problemas em uma perspectiva multidisciplinar. Diante desse contexto, em 1996, foi aprovada uma nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação, nº 9.394/96, a qual estabelece, no parágrafo 2o do seu artigo 1o, que a educação escolar deverá vincular-se ao mundo do trabalho e à prática social. O artigo 26, também, estabelece que "os currículos do ensino fundamental e médio devem ter uma base nacional comum, a ser complementada pelos demais conteúdos curriculares especificados nesta Lei e em cada sistema de ensino". A formação básica do cidadão, na escola fundamental, exige, então, o pleno domínio da leitura, da escrita e do cálculo, a compreensão do ambiente material e social, do sistema político, da tecnologia, das artes e dos valores em que se fundamenta a sociedade. O ensino médio tem a função de consolidação dos conhecimentos e a preparação para o trabalho e a cidadania para continuar aprendendo. Nessa perspectiva, a formação científica sistematicamente estabelecida para a educação básica, deve permitir ao estudante um aprendizado que vá além do conhecimento técnico, possibilitando uma cultura mais ampla e desenvolvendo meios para a articulação de uma visão de mundo natural e social. Baseados nessa visão encontram-se os objetivos dos 22 PCNEM3 (Parâmetros Nacionais para o Ensino Médio), para as disciplinas relacionadas às ciências da natureza: (...) envolver, de forma combinada, o desenvolvimento de conhecimentos práticos, contextualizados, que respondam às necessidades da vida contemporânea e o desenvolvimento de conhecimentos mais amplos e abstratos, que correspondam a uma cultura geral e uma visão de mundo. Para a área de ciências da natureza, isto é particularmente verdadeiro, pois a crescente valorização do conhecimento e da capacidade de inovar demanda cidadãos capazes de aprender continuamente, para o que é essencial uma formação geral e não apenas um treinamento específico. Com esta compreensão o aprendizado deve contribuir não só para o conhecimento técnico, mas também para uma cultura mais ampla, desenvolvendo meios para a interpretação de fatos naturais, a compreensão de procedimentos e equipamentos do cotidiano social e profissional, assim como para a articulação de uma visão de mundo natural e social. (PCNEM p. 208). Entretanto, apesar das mudanças propostas, o período marcante e crucial na história do ensino de ciências, durante a guerra fria, influi, até hoje, nas tendências curriculares das várias disciplinas, tanto no ensino médio como no fundamental, (KRASSILCHIK, 2000). Isso pode ser verificado em situações em que os conhecimentos científicos são apresentados como verdade inquestionável numa tentativa de submissão de todos os estudantes a uma cultura única, disfarçada de transmissão de conhecimento. Essa prática assume freqüentemente a forma de uma ideologia denominada cientificismo (SMOLIEZ &NUNAN, 1975; OGAWA, 1998 apud DORVILLÉ, 2008). Por essa razão seria importante favorecer, de algum modo, o acesso de nossos estudantes a uma formação cultural mais ampla, desenvolvendo meios para a interpretação de fatos naturais e sociais, permitindo assim a articulação de uma visão de mundo natural e social, já que tais propostas estão previstas nos parâmetros curriculares. Entretanto, a experiência docente indica que essa prática ainda não é uma realidade, chegando a ser um desafio, pois, muitas vezes, como professores das disciplinas relacionadas às ciências da natureza, temos tendência a uma visão cientificista. Essa tendência se relaciona as nossas próprias convicções e a nossa formação. Porém no mundo atual, é direito de nossos estudantes terem o acesso ao conjunto de explicações fornecidas pelas ciências para entender o mundo a sua volta. Deve-se, portanto, buscar um equilíbrio entre a base de conhecimentos, poderosa, que a ciência oferece (porque tais conhecimentos provocam modificações nas nossas formas de vida) e a contextualização no amplo espectro das culturas humanas. O erro é tentar 3 Os Parâmetros Curriculares Nacionais para o Ensino Médio (PCNEM) fazem referência explícita às disciplinas, vinculadas às três áreas do conhecimento, propondo, entretanto, uma visão integradora das disciplinas de modo a se reconhecer a relação entre aquelas de uma mesma área e entre as de áreas diversas. Apresenta, também, os objetivos específicos de cada área do conhecimento reunidos em torno de competências gerais. (Orientações Curriculares para o e Ensino Médio, ciências da natureza e suas tecnologias, 2006). 23 apresentar as ciências como única perspectiva de valor para se descrever e entender o mundo e esperar que todos os estudantes, oriundos dos mais diversos contextos culturais, adotem, igualmente, o mesmo ponto de vista. Os estudantes são pessoas que trazem para a sala de aula seus pensamentos, seus valores, suas visões de mundo, relacionados aos temas estudados. Principalmente quando os objetos ou fenômenos estudados têm interfaces com construções culturais muito arraigadas como aquelas relacionadas à religiosidade, como se observa nos conteúdos da origem e evolução da vida. Nessa perspectiva, é importante destacar estudos realizados pela educação em ciências nos últimos anos, sobre as concepções prévias dos estudantes. No final dos anos 60, as idéias de Jean Piaget, sobre desenvolvimento intelectual começaram a ser conhecidas e discutidas. Passa, assim, a ter papel central no processo de ensino-aprendizagem da ciência uma perspectiva cognitivista, enfatizando o chamado construtivismo. (Krasssilchik, 2000). A partir da década de 70, começou a aparecer, na literatura, um grande número de estudos preocupados, especificamente, com os conteúdos das idéias dos estudantes em relação aos diversos conceitos científicos aprendidos na escola. Essas pesquisas surgiram como um desdobramento crítico àquelas realizadas por Piaget e colaboradores, fruto de uma preocupação específica com o ensino dessas noções, presentes nesses trabalhos e ausentes nos de Piaget. (MORTIMER, 1996) No final da década de 70(AGUIAR JR., 2001) os estudiosos obtiveram um amplo repertório de conhecimentos sobre as concepções dos estudantes, o que levou a caracterizar os processos de aprendizagem em ciências como resultado de mudanças conceituais. Objetivando, inicialmente, explicar ou descrever "as dimensões substantivas do processo pelo qual os conceitos centrais e organizadores das pessoas mudam de um conjunto de conceitos a outro, incompatível com o primeiro" (POSNER, STRIKE, HEWSON & GERTZOG, 1982 apud AGUIAR JR. 2001) elaboraram, depois, o modelo que buscava investigar as idéias dos estudantes. O modelo proposto baseava-se, fundamentalmente, em dois componentes básicos: a ecologia conceitual4 e as condições para que as mudanças ocorram. A ecologia conceitual é constituída por elementos que organizam, selecionam ou impedem o avanço do conhecimento do sujeito, sendo composta por anomalias, compromissos epistemológicos e crenças metafísicas. Quanto às condições para mudanças, estas decorrem de uma avaliação por parte do sujeito da aprendizagem quanto à plausibilidade, inteligibilidade e poder 4 Ecologia conceitual: Conjunto de conhecimentos prévios que propicia o contexto no qual a acomodação e assimilação de novas idéias devem ter lugar, é um conhecimento tácito contendo suposições implícitas que nunca ou raramente são examinadas, interpretações naturais, mas influenciam todos os atos de significação. (POSNER apud EL-HANI & BIZZO 2002). 24 explicativo das novas concepções, assim como de certa insatisfação quanto às concepções anteriores. Este modelo ficou conhecido como modelo da mudança conceitual5 sobre as explicações para os diversos fenômenos naturais. Esses estudos deram origem ao que podemos chamar de movimento das “concepções alternativas”, em vista da constatação de que os estudantes apresentam molduras teóricas coerentes com suas experiências, mas que diferem das idéias científicas (EL-HANI & BIZZO, 2002). Porém, o relativo fracasso das iniciativas destinadas a promover a mudança conceitual em sala de aula conduziu a novas pesquisas nesse campo (AGUIAR JR., 2001). Isso permitiu o levantamento de novas questões para a investigação, o que resultou na busca e a proposição de modelos diversos para lidar com a complexidade dos processos de aprendizagem escolar. (El-Hani & Bizzo 2002). Algumas críticas foram dirigidas ao modelo de mudança conceitual de Posner, dentre elas destaca-se o fato de o modelo proposto basear-se na idéia de que concepções conflitantes não podem ser simultaneamente plausíveis para uma mesma pessoa. Isso conduz a uma expectativa de rompimento dos indivíduos com suas concepções. Além disso, esse modelo traz implícito o conceito de superioridade das concepções científicas sobre as demais, na tarefa de dar sentido ao mundo. A impossibilidade de sustentar, simultaneamente, concepções científicas e não científicas foi posta em questão por muitos pesquisadores (COBERN, 1994, MORTIMER, 1996). Eles consideraram que tal situação seria possível na ecologia conceitual de um indivíduo, desde que elas fossem empregadas em contextos diferentes. Para esses autores, é necessário reconhecer que o estudante é um sujeito que, em torno de uma visão de mundo6, valores e crenças, constituíram uma identidade a partir de sua cultura social e familiar. Uma das respostas veio de uma abordagem que mereceu grande atenção nas últimas décadas, a qual passou a levar em conta a relação entre educação científica e o ambiente cultural, do qual, os estudantes são oriundos. Esta idéia expandiu ainda mais a noção de construtivismo, no que COBERN (1994) denominou construtivismo contextual. Para o ensino de ciências, segundo ele, a abordagem construtivista vai além, ao defender que o 5 Uma concepção inteligível será plausível para o indivíduo, caso pareça ter a capacidade de resolver anomalias com as quais se defronta uma concepção anterior. O significado de uma concepção emerge, então, de suas conexões com os demais elementos da rede de conceitos que constitui a ecologia conceitual do indivíduo. (...) (...)Uma vez insatisfeito com uma dada concepção, a expectativa é a de que o aprendiz a elimine de sua ecologia conceitual. O objetivo das estratégias para mudança conceitual é precisamente produzir no estudante, mediante a manipulação pelo professor, situações conflitivas, uma insatisfação com suas concepções prévias e, eventualmente uma substituição destas por idéias científicas. (POSNER, apud EL-HANI & BIZZO 2002). 6 A expressão “visão de mundo” ,nessa dissertação pode ser entendida no sentido resumido por Hodson (1999): conjunto de crenças, mantida consciente ou inconscientemente, sobre a natureza da realidade e que predispõe pessoas a sentir, pensar e atuar em caminhos específicos. 25 aprendizado ocorre no interior de visões defendidas socialmente a respeito do que faz sentido e do que é significativo. Assim, o aprendizado por parte dos estudantes se encontra inserido em um meio cultural. Esse meio cultural já existia mesmo antes dos estudantes nascerem, influenciou e continua influenciando as suas vidas. Desse meio, através das relações sociais estabelecidas por eles, ao longo de suas vidas, resulta uma construção social, na qual idéias, valores, crenças e visão de mundo se estabelecem. Não se pode desprezar que essas construções produzam significados diversos para os estudantes, numa dinâmica em que eles são atores e espectadores, pois estão mergulhados nesses significados. O homem é um animal suspenso numa teia de significados que ele mesmo teceu (GEERTZ, 1998). Sob essa perspectiva, o objetivo do ensino de ciências é tornar a concepção científica compreensível aos estudantes, pois consideram suas características sócio-culturais. A resposta teórica predominante segue na direção da receptividade dos conhecimentos prévios: estes precisam ser reconhecidos pelos docentes, sem que se estabeleça sua extinção, como objetivo do ensino de ciências. Sendo assim, as concepções prévias dos estudantes necessitam não só serem conhecidas, mas de serem consideradas como uma outra forma de conhecimento, diferente daquele levado pela escola e que podem permanecer com o estudante, que poderá enxergar, no novo conhecimento apresentado, uma outra forma de compreensão sobre temas, para os quais já tinham explicações construídas. As construções sociais realizadas durante a vida dos estudantes, também terão referências afetivas (VILLANI & CABRAL, 1997) pois o homem inicia a aprendizagem assim que nasce, na maioria das vezes, em ambientes cercados de influência afetiva, ou seja o ambiente familiar. Nesse caso, o primeiro contato do ser humano com o mundo social institucionalizado se dá com seus familiares, cujos integrantes já possuem valores e crenças, inclusive os relacionados a religiosidade. Por isso, alguns temas, como os conceitos de origem e evolução dos seres vivos, que podem ser explicados tanto pela ciência como pela religião, poderão ser apresentados aos estudantes desde o início de suas vidas Sendo assim as concepções alternativas relacionadas a tais conceitos podem, portanto, apresentar muitos aspectos além daqueles considerados cognoscíveis, uma vez que a doutrinação religiosa é um processo que também envolve fatores afetivos e motivacionais. 2.3 REALIDADE SOCIAL E CONCEPÇÕES PRÉVIAS O referencial teórico dessa seção esta baseado nos trabalhos dos sociólogos Berger, Luckmann e Giddens, e do antropólogo Geertz. Nenhum indivíduo nasce membro da sociedade. Ele nasce com a predisposição para a sociabilidade e torna-se membro da sociedade. Por conseguinte, na vida de cada indivíduo 26 existe uma seqüência temporal no curso da qual ele é induzido a tomar parte na dialética da sociedade. O ponto inicial desse processo é a interiorização, ou seja, a apreensão ou interpretação imediata de um acontecimento objetivo como dotado de sentido, isto é, como manifestação de processos subjetivos de outrem que, dessa maneira, torna-se subjetivamente significativo para ele. Assim, uma criança ao ser inserida no mundo social tem, em seus pais, a representatividade de um mundo institucionalizado que possui um caráter da realidade histórica e objetiva. Os pais transmitirão à criança o seu sentido da realidade, pois o mundo institucional em que eles vivem tem uma história que antecede o nascimento daquela criança. A socialização conecta várias gerações umas com as outras. O nascimento de uma criança alerta as vidas daqueles que são responsáveis pela sua criação – e eles mesmos, portanto, passam por novas experiências de aprendizado. Os cuidados dos pais comumente ligam as atividades dos adultos às crianças para o restante de suas vidas. As pessoas mais velhas, é claro, permanecem pais quando se tornam avós, produzindo então outro conjunto de relações, ligando diferentes gerações umas com as outras. (GIDDENS, 2005, p. 43). Além disso, tal história antecede o nascimento dos próprios pais. Dessa forma este mundo não é acessível à lembrança biográfica da criança, pois já existia antes de ela ter nascido e continuará a existir depois que ela morrer. Essa transmissão dos conhecimentos do mundo institucionalizado pelos pais pode ser denominada socialização primária, e cria na consciência da criança uma abstração progressiva dos papéis e atitudes que ela exercerá posteriormente. A socialização primária ocorre na primeira infância e na infância e é o mais intenso período de aprendizado cultural. É o tempo em que as crianças aprendem a língua e os padrões básicos de comportamento que formam a base para o aprendizado posterior. A família é o principal agente de socialização durante essa fase. (GIDDENS, 2005, p. 42) Na socialização primária não há problemas de identificação, pois a criança é colocada em um mundo institucionalizado dos seus significados. Não há escolha de outros significados, pois a criança só conhece este mundo e não existe outra possibilidade de descoberta. Além disso, a socialização primária implica mais do que o aprendizado puramente cognoscitivo, pois ocorre em circunstâncias carregadas de alto grau de emoção. A socialização primária termina quando o conceito do outro generalizado (e tudo quanto o acompanha) for estabelecido na consciência do indivíduo. Nesse momento, ele é um membro efetivo da sociedade e possui subjetivamente uma personalidade e um mundo. (BERGER&LUCKMANN, 1999) Entretanto enquanto a socialização primária não pode ser realizada sem a identificação e é carregada de emoção da criança com seus outros significados, a maior parte da socialização secundária pode dispensar esse tipo de identificação e prosseguir eficientemente 27 só com a quantidade de identificação mútua incluída em qualquer comunicação entre seres humanos. A socialização secundária tem lugar mais tarde na infância e na maturidade. Nessa fase, outros agentes de socialização assumem algumas das responsabilidades que antes eram da família. As escolas, os grupos de iguais, as organizações, a mídia e finalmente o lugar de trabalho se tornam formas socializantes para os indivíduos. As interações sociais nesses contextos ajudam as pessoas a aprenderem os valores, as normas e as crenças que constituem os padrões de sua cultura. (GIDDENS, 2005 p.42.) A escola, nesse momento, representa um local importante nas interações da socialização secundária, por isso destaca-se o papel que ela representa também como local de construção de conhecimentos, pois os estudantes, ali, terão contato com outras idéias, referências e explicações. Os estudantes da educação básica chegam à escola com explicações a respeito de muitos conhecimentos. Tais explicações muitas vezes, construídas desde a socialização primária, podem ter envolvido, pessoas e momentos valiosos, certamente, essa concepção prévia não será abandonada ou mesmo questionada diante de uma nova explicação, muitas vezes apresentada de forma racional, como uma verdade inquestionável. Isso pode ocorrer durante a explicação científica da origem e evolução dos seres vivos, que segundo os parâmetros curriculares para o ensino médio e suas diretrizes curriculares, figura como um dos conhecimentos que possuem outras explicações e também considerados conhecimentos estruturantes do ensino da biologia. Tais conceitos trazem para a sala de aula a possibilidade de concepções prévias dos estudantes ( e por vezes também dos professores) que se inserem em contextos sociais e culturais que preconizam outras hipóteses para essa questão. Tais concepções prévias são construídas na medida em que a vida cotidiana apresentase como uma realidade interpretada pelos homens e subjetivamente dotada de sentido para eles, já que forma um mundo coerente que é tomado como realidade pelos membros da sociedade e se origina no pensamento e na ação dos homens comuns, daí seu caráter real. Portanto, a vida cotidiana acaba por constituir tipificações para identificar objetos, coisas, fatos e até mesmo pessoas, produzindo um conhecimento compartilhado, que permite estabelecer referências utilizadas para identificar (tipificar) certas condutas, objetos ou idéias. A estrutura social é a soma dessas tipificações e dos padrões recorrentes de interações estabelecidas por meio delas (BERGER & LUCKMANN, 1997), incluindo-se aí as concepções religiosas. Por outro lado as interações permitem processos de institucionalização e tipificação das ações habituais e, dessa forma, tornam-se acessíveis a todos os membros do grupo social. 28 A interação entre os indivíduos na vida cotidiana é, por conseguinte, constantemente afetada por participações que constroem conhecimentos que vão constituir um acervo comum, disponibilizado a todos. A participação nesse acervo de conhecimentos se traduz em aprendizados que vão além das relações com seus contemporâneos, indo aos predecessores e sucessores. Isso significa que uma idéia ou concepção pode ser difundida por várias gerações que durante a história dos grupos sociais, vão agregando novas idéias ou concepções, possibilitando a formação de outros conhecimentos, criando uma dinâmica entre os conhecimentos partilhados. A linguagem é uma poderosa forma de concretização dos conhecimentos, pois é através dela que se constrói objeto de conhecimento por todos aproveitável. permitindo sua incorporação a um conjunto mais amplo de tradições por via da instrução moral, da poesia inspiradora, da alegoria religiosa e outras coisas mais. Por isso é fundamental destacar-se a linguagem por sua capacidade de comunicar significados que não são expressões diretas da subjetividade do “aqui e agora”. Desse modo, ela é capaz de se tornar o repositório objetivo de vastas acumulações de significados e experiências, o que pode, então, preservar no tempo e transmitir às gerações seguintes concepções como as que se relacionam com a origem e evolução da vida. “A imagem de uma natureza humana constante, independente de tempo, lugar e circunstância, de estudos e profissões, modas passageiras e opiniões temporárias, pode ser uma ilusão, que o que o homem é pode estar tão envolvido com onde ele esta, quem ele é e no que ele acredita, que é inseparável dele. É precisamente o levar em conta tal possibilidade que deu margem ao surgimento do conceito de cultura e ao declínio da perspectiva uniforme do homem”. (GEERTZ, 1989, p. 26). A interação social precede a formação biológica, ou seja, nascemos mergulhados em um mundo socialmente institucionalizado, sendo por isso, referência relevante na formação do homem. Podemos tratar essas duas vertentes (biológica e social) de forma dialética, onde as interações são decisivas na formação dos indivíduos. O homem é biologicamente predestinado a construir e habitar um mundo com os outros. Este mundo torna-se para ele a realidade dominante e definitiva. Seus limites são estabelecidos pela natureza, mas uma vez construído, este mundo atua de retorno sobre a natureza. Na dialética entre a natureza e o mundo socialmente construído, o organismo humano se transforma. Nesta mesma dialética o homem produz a realidade e com isso se produz a si mesmo (BERGER & LUCKMANN, 1999, p. 214). A humanização é variável no sentido sócio-cultural. Em outras palavras, não existe natureza humana como um substrato biologicamente fixo, que determine a variabilidade das formações sócio-culturais. É mais significativo dizer que o homem constrói sua própria natureza, ou, mais simplesmente, que o homem se produz a si mesmo. 29 Desse modo a influência cultural não pode ser desprezada no desenvolvimento humano, pois a cultura antecede o indivíduo. Nascemos e somos inseridos em um ambiente cultural que já existia. Esse fato determina uma série de comportamentos que serão apresentados ao novo integrante daquele grupo social. Por outro lado, ao nascer, o homem, é totalmente dependente de seus pais, pois biologicamente ainda não concluiu seu desenvolvimento, pelo menos no que diz respeito ao sistema nervoso. O desenvolvimento ontogenético humano consiste em um período fetal que se estende por todo o primeiro ano após o nascimento. Importantes desenvolvimentos orgânicos que no animal se completam no corpo da mãe efetuam-se no lactente humano depois que se separa do útero [...] [...]O organismo humano, por conseguinte, está ainda desenvolvendo-se biologicamente quando já se acha em relação com seu ambiente. O processo de tornar-se homem efetua-se na correlação com o ambiente e consequentemente com uma ordem cultural e social específica, que é mediatizada para ele pelos outros significativos que o têm a seu cargo. (BERGER E LUCKMANN, 1999 , p. 71). Pode-se ir além ao considerar que a cultura antecede ao próprio surgimento da espécie humana. Isso pode ser verificado quando a história evolutiva do Homo sapiens, é analisada sob duas perspectivas: o avanço biológico e cultural do homem. A evolução do Homo sapiens iniciou-se há cerca de quatro milhões de anos, com o aparecimento do Australopitecíneo e culminou com a emergência do próprio sapiens, há apenas duzentos ou trezentos mil anos. Assim, formas elementares de atividade cultural ou, se desejar, protocultural (a feitura de ferramentas simples, a caça e assim por diante) parecem ter estado presentes entre alguns dos Austrolopitecíneos. Há, então, uma superposição de mais de um milhão de anos entre o início da cultura e o aparecimento do homem como hoje o conhecemos. (GEERTZ, 1989). Essas evidências permitem considerar a cultura como processo intrínseco ao ser humano, tanto do ponto de vista ontogenético7 como filogenético8. Enfim a afirmação de que “o homem é pode estar tão envolvido com onde ele esta, quem ele é e no que acredita,” nos dá um significado maior para o processo de ensino aprendizagem, pois não se pode considerar métodos e estratégias uniformes para pessoas tão diferentes, não se pode acreditar que todos os estudantes compreendam os conteúdos apresentados de maneira uniforme. Pensar de maneira diferente é considerar que estamos diante de uma perspectiva uniforme do homem. Diante de tais referências não se pode negar a importância da educação em ciência considerando a perspectiva do construtivismo contextual (COBERN, 1996), no qual as 7 O desenvolvimento de um organismo individual desde o zigoto fertilizado até a morte. ( FUTUYMA, 2003) A genealogia de um grupo de táxons tais como espécies, também aplicada a genealogia de genes derivados de um gene ancestral comum ( FUTUYMA, 2003). 8 30 referências culturais são consideradas ao se analisar o processo de ensino-aprendizagem. Ao se focar apenas o homem biológico na busca do entendimento de processos cognitivos, ou mesmo do conhecimento do funcionamento do cérebro, para buscar explicação a cerca do processo de aprendizagem, perde-se a dimensão do homem cultural, que convive com suas construções sociais e as valoriza, tendo nelas sua referência de realidade. Sendo assim a consideração das concepções prévias dos estudantes, como conhecimentos que merecem atenção, durante o processo de ensino-aprendizagem, pressupõe a visão do homem de forma mais integral. Por tudo isso essas concepções serão tratadas nesta pesquisa como construções sociais envolvendo valores culturais que resultam de interações que, ao longo do tempo, vão constituindo um conhecimento valorizado e utilizado por todos, ou seja, o conhecimento de senso comum. 2.4 A TEORIA DAS REPRESENTAÇÕES SOCIAIS. O conceito de representação social abre um espaço novo, fecundo e renovador para as ciências psicológicas e sociais que entendem os fenômenos intelectuais como o produto da atividade concreta dos grupos humanos, de suas normas, de seus valores. A partir dos trabalhos de Moscovici, o conceito de representação social se efetua dentro de uma perspectiva construtivista e interacionista, ou seja, de natureza social. Aqui, o social tem um estatuto de fenômeno estruturante da construção da realidade, da gênese das representações sociais. Durkheim (1947) utilizou pela primeira vez o termo representação coletiva no prefácio da segunda edição do seu livro “As regras do método sociológico” (Anadon e Machado, 2003). Durkheim utilizou o termo representações coletivas para explicar uma forma de ideação social à qual se opõe a representação individual. Esse termo foi por ele aplicado a sociedades estáticas, tradicionais, ou seja, não estavam sujeitas a inovações. Dessa forma compreendia-se como representação social diversos tipos de produções mentais e sociais (como a ciência, a religião, a ideologia, os mitos e outros). Observa-se que Durkheim concebia leis da ideação social no jogo que se mantém entre elas, abstendo-se de discutir os aspectos cognitivos da representação e a sua produção pelos grupos sociais. Moscovici, em seu livro “A psicanálise, sua imagem e seu público”, retoma o ponto de vista de Durkheim em relação à sociedade e, soma a essa perspectiva, novas especificações. Moscovici mostra que é possível a construção de um conhecimento válido pelo senso comum e que se pode apreender o conhecimento em uma dimensão psicossociológica. O autor vai mais além e se debruça sobre uma forma de conhecimento, apropriada ao mundo contemporâneo, na qual predominam mudanças constantes e o pluralismo de idéias e de 31 doutrinas, quer políticas, quer religiosas, filosóficas e morais, em uma sociedade em que essa dinâmica convive com uma ciência isolada e elitista que fala uma linguagem esotérica9, sem dar conta da diversidade e da mobilidade dos diversos grupos sociais e dos indivíduos que os compõem. Estudando a psicanálise, uma teoria científica, Moscovici mostra que a mesma se modifica a medida que penetra na sociedade e é apropriada pelos diferentes grupos sociais escolhidos, segundo a sua posição social, suas visões religiosas e políticas e seu nível sociocultural. Isso demonstra que o saber científico é transformado em uma dimensão de senso comum, pelos diversos grupos estudados. Por isso o avanço da teoria de Moscovici em relação à proposta de Durkheim permitenos melhor entendimento da dinâmica da sociedade moderna e de sua pluralidade, pelo fato das interações sócio-culturais serem decisivas na biografia individual, que lançam o indivíduo num mundo de relações sociais pré-existentes, permitindo a apropriação dos universos simbólicos relacionados ao seu contexto, e sua construção junto a esse coletivo das representações sociais. Essa multiplicidade de relações com disciplinas próximas confere ao tratamento psicossociológico da representação como estatuto transverso que interpreta e articula diversos campos de pesquisa, reclamando não uma justaposição, mas uma real coordenação de seus pontos de vista. (JODELET, D. 2001) As representações sociais ocupam o lugar em nossa sociedade pensante, que antigamente era determinado pela distinção entre uma esfera sagrada - digna de respeito e veneração e, desse modo, mantida bastante longe de todas as atividades intencionais humanas - e uma esfera profana, em que são executadas atividades triviais e utilitaristas. Esses mundos separados e opostos, em diferentes graus, determinam as esferas de suas forças, dentro de cada cultura e de cada indivíduo. O que nós podemos mudar e o que nos muda, o que é obra nossa e o que é obra alheia. Todo conhecimento pressupõe tal divisão da realidade e uma disciplina que estivesse interessada somente em uma das esferas, seria totalmente diferente de uma disciplina que estivesse interessada na outra; as ciências sagradas não teriam nada em comum com as ciências profanas. (MOSCOVICI, 2003). Essa distinção foi abandonada ao ser substituída por outra, mais básica, entre universos consensuais e reificados. No universo consensual, a sociedade é uma criação visível, contínua, permeada de sentido e finalidade, possuindo uma voz humana de acordo com a existência humana agindo e reagindo, como um ser humano. Em outras palavras, o ser 9 Todo o ensinamento ministrado a círculo restrito e fechado de ouvintes. Saber secreto. Em oposição, exotérico é o saber público, aberto a todos. <www.ceismael.com.br/filosofia/filosofia013.htm> acesso em : 23.06.09 32 humano é, aqui, a medida de todas as coisas. Já no universo reificado, a sociedade é transformada em um sistema de entidades sólidas, básicas, invariáveis, que são indiferentes à individualidade e não possuem identidade. Essa sociedade ignora a si mesma e a suas criações, que ela vê somente como objetos isolados, tais como pessoas, idéias ambientes e atividades. Nessa concepção a sociedade também é vista como um sistema de diferentes papéis e classes, cujos membros são desiguais e somente a competência adquirida determina seu grau de participação de acordo com o mérito. Isso decide seu direito de trabalhar em uma determinada profissão, por exemplo. É facilmente constatável que as ciências são os meios pelos quais nós compreendemos o universo reificado, enquanto as representações sociais tratam do universo consensual (MOCOVICI, 2003). Entretanto, ciência e representações sociais são tão diferentes entre si e ao mesmo tempo tão complementares, que nosso mundo reificado aumenta com a proliferação da ciência, na medida em que as informações e acontecimentos se multiplicam, os mundos devem ser duplicados e reproduzidos em um nível mais imediato e acessível, através da aquisição de uma forma e energia próprias. Em outras palavras, todas as informações são transferidas a um mundo consensual, circunscrito e re-apresentado. Representação social é uma forma de conhecimento, socialmente elaborada e partilhada, com um objetivo prático, e que contribui para a construção de uma realidade comum a um conjunto social. Igualmente designada como saber de senso comum ou ainda saber ingênuo, natural, esta forma de conhecimento é diferenciada, entre outras, do conhecimento científico. (JODELET, D. 2001, p.22). A ciência era antes baseada no senso comum e fazia o senso comum menos comum; mas agora senso comum é a ciência tornada comum. Não é fácil transformar palavras não familiares, idéias ou seres em palavras usuais, próximas e atuais. É necessário, para dar-lhes uma feição familiar, pôr em funcionamento os dois mecanismos de um processo de pensamento baseado na memória e em conclusões passadas e o primeiro mecanismo tenta ancorar idéias estranhas, reduzi-las a categorias e a imagens comuns, ou seja, colocá-las num contexto familiar. Esse mecanismo é denominado ancoragem. Através da ancoragem damos nomes e classificamos as coisas, pois coisas que não são classificadas e não possuam nomes são estranhas, não existentes e ao mesmo tempo ameaçadoras. Nós experimentamos uma resistência, um distanciamento, quando não somos capazes de avaliar algo, de descrevê-lo a nós mesmos e a outras pessoas. O segundo mecanismo tem a função de objetivar, ou seja, transformar algo abstrato em algo quase concreto, transferir o que está na mente em algo que exista no mundo físico. 33 Para Moscovici (1961) a objetivação se dá em três fases. Inicialmente, ocorre a fase de construção seletiva, em que os membros de um grupo social descontextualizam e selecionam o objeto diante do qual se encontram. No caso de uma teoria científica, como a psicanálise, por exemplo, há uma triagem em torno das informações circulares. Utilizando critérios culturais e normativos, os grupos sociais submetem essas informações à sua hierarquia de valores retendo apenas aquilo em que se coaduna o seu mundo de valores. Dessa forma, o grupo social passa à margem dos elementos apresentados pelos cientistas que destoam dos seus elementos valorativos, e assumem como seus, deles se apropriando, os outros elementos que terminam sendo projetado como fatos pertencentes ao seu próprio universo. A segunda fase é a da esquematização estruturante em que o grupo social, a partir dos elementos que são retidos e apropriados, constrói aquilo que Moscovici(op.cit, 1961) chama de “núcleo figurativo”. Esse núcleo possui um forte caráter existencial envolvendo quer o consciente (evocação da vontade, do aparente, do realizável), quer o inconsciente (evocação do involuntário, do oculto, do impossível), sendo esses confrontados em clima de tensão, conflito e contradição, de forma complexa. A terceira fase, chamada de naturalização, é entendida como a concretização dos elementos do núcleo figurativo. Tal concretização é percebida tanto em si como nos outros que pertencem ao mesmo grupo social. Dá-se então uma integração dos elementos da ciência em uma realidade que orienta as percepções, juízos e condutas a partir de uma realidade socialmente construída. O processo de ancoragem consiste em incorporar os elementos de saber não familiares que criam problemas no interior da rede de categorias que é própria do indivíduo. Ele representa o enraizamento social da representação e se opera em referência a crenças, valores e saberes que preexistem e dominam nesse mesmo grupo. Convém lembrar aqui que se o objeto faz sentido é porque está integrado em uma rede de significações. Segundo Guimelli (1994 apud Anadon Machado, 2003), a ancoragem permite, assim, juntar alguma coisa que é nova a alguma coisa que é antiga para poder interpretá-la e assegurar a orientação do comportamento e das relações sociais. Nas palavras de Moscovici (2003), um exemplo de ancoragem seria: “uma pessoa religiosa tenta relacionar uma nova teoria, ou o comportamento de um estranho, a uma escala religiosa de valores” (op.cit.), já conhecida ou familiar. De forma sumária, o primeiro assegura a inclusão do estranho no universo consensual e o segundo busca transformar algo abstrato em algo quase concreto, transferir o que está na mente em algo que exista no mundo 34 físico (id, p.61). Ou seja, une a idéia de não-familiaridade com o que podemos chamar de realidade. Moscovici considera o processo de objetivação especialmente importante porque: [...] é um processo muito mais atuante do que a ancoragem [...] objetivar é descobrir a qualidade icônica de uma idéia, ou ser impreciso; é reproduzir um conceito em uma imagem. Comparar é já representar, encher o que está naturalmente vazio, com substância (op.cit. p.70-71). A análise das representações sociais sobre a origem e a evolução dos seres vivos, e origem e evolução do homem e da mulher dos estudantes investigados, é portanto uma ferramenta importante para avaliar as possíveis ancoragem e objetivações feitas por eles durante o estudo dos temas propostos. Além disso, através das representações sociais do grupo em questão, será possível ter dados a respeito das idéias circulantes relacionadas a origem e evolução da vida que apresentam maior aceitação de plausibilidade e aquelas que parecem ser mais rejeitadas, devido as representações sociais que o grupo pesquisado possui em relação ao tema em questão. 35 3.RELEVÂNCIA DO CONTEÚDO ORIGEM E EVOLUÇÃO DOS SERES VIVOS. Os Parâmetros Curriculares Nacionais para o Ensino Médio (PCNEM), no que se refere a aprendizagem e ensino de ciências, indica a compreensão e a utilização conhecimentos científicos planejar, executar para explicar o funcionamento do mundo, bem como dos para e avaliar as ações de intervenção na realidade (PCNEM, 1999). Tal incumbência não é uma tarefa fácil, pois esses conhecimentos podem apresentar interfaces com outros, ou mesmo se chocar com crenças, valores e outras explicações já adquiridas anteriormente pelos estudantes. Nesses casos os conhecimentos científicos, compreendidos como uma forma racional de explicar os fenômenos naturais, podem parecer um amontoado de informações sem sentido, que disputam espaço com outras informações construídas ao longo da vida dos estudantes que, certamente, possuem valores sociais, culturais e afetivos. Isso poderá comprometer a plausibilidade do conhecimento científico pois, ao invés de ser visto como uma outra forma de explicar fenômenos já compreendidos, pode provocar o surgimento de obstáculo para o aprendizado, ou por se chocar com concepções prévias dos estudantes, ou por se distanciar de evidências comuns na vida dos mesmos. Assim, o professor de ciências, ao apresentar o conhecimento científico aos estudantes, pode considerar a sala de aula como apenas um espaço em que se discute o pensamento científico, isto é, qualquer outra manifestação, fora desse contexto, deverá ser ignorada. Nesse caminho, ele poderia defender a ciência como a melhor forma de descrever a realidade porque tem método rigoroso para isso. Desse modo, seria atribuída ao conhecimento científico uma maior valoração como forma de percepção do real em detrimento de todas as demais formas de conhecimento, muito embora seja possível apresentar a ciência, seguindo autores da sociologia da ciência como Bloor( 1983), Latour& Wooglar ( 1997), Bourdieu ( 1990 ) entre outros, como uma das possíveis formas de apreensão do real e como tal sujeita à falhas, descontinuidades e fruto das idéias hegemônicas em determinada época. As diferentes posturas citadas nos levam a uma reflexão de como o espaço da sala de aula pode proporcionar, ou não, momentos de interação, inovação e aprendizagem, inclusive para o professor. Se se considera a sala de aula um local em que cabe apenas discutir o conhecimento científico, sem estabelecer o diálogo com outros saberes trazidos pelos estudantes, o empobrecimento reflexivo será a conseqüência previsível, uma vez que aos estudantes não será franqueada a palavra. Assim muitos fracassos nas escolas têm a ver com algumas posturas dos docentes inspirada em tal convicção que poderíamos chamar de cientificistas: apresentar a ciência descontextualizada de toda uma realidade cultural e social. 36 Por isso, diferentes caminhos têm sido tomados diante de tais constatações e um deles é ampliar as pesquisas em torno de problemas específicos de ensino. A diversidade de explicações do processo de ensino-aprendizagem e a própria dinâmica social são fatores que contribuem para que as pesquisas não se esgotem e, ao mesmo tempo, apontem novos desafios. Dentre os variados desafios nas Ciências Biológicas, destacam-se os que permeiam o estudo do tema relacionado aos conceitos científicos de origem e evolução dos seres vivos10. Esses conceitos fazem parte de conhecimentos considerados fundamentais ao entendimento dessa ciência e também estão cercados de concepções prévias, baseadas na diversidade cultural e religiosa dos estudantes. Pode-se observar que os PCNEM destacam esse tema, como um tema que possui outras explicações, além da científica, por isso é necessária atenção especial ao abordá-lo: Ao longo da história da humanidade, várias foram as explicações para o surgimento e a diversidade da vida, de modo que os modelos científicos conviveram e convivem com outros sistemas explicativos como, por exemplo, os de inspiração filosófica ou religiosa. O aprendizado da Biologia deve permitir a compreensão da natureza viva e dos limites dos diferentes sistemas explicativos, a contraposição entre os mesmos e a compreensão de que a ciência não tem respostas definitivas para tudo, sendo uma de suas características a possibilidade de ser questionada e de ser transformada. Deve permitir, ainda, a compreensão de que os modelos na ciência servem para explicar tanto aquilo que só podemos inferir; que tais modelos são produtos da mente humana e não a própria natureza, construções mentais que procuram sempre manter a realidade observada como critério de legitimação (BRASIL, 1999, p. 219). Há referências, também, sobre as interfaces deste tema em pesquisas do ensino de ciências como, por exemplo, as feita por Bizzo, que ao investigar o ensino da teoria evolutiva não só afirma a extensão das dificuldades de ensino da teoria evolutiva em diferentes partes do mundo como relaciona tais dificuldades com a presença de fatores extracientíficos. Quer dizer, o tema da origem da vida e evolução dos seres vivos é atravessado por diferentes áreas da cultura humana envolvidas com sua compreensão. Por isso, tais conceitos são muito apropriados para ajudar na investigação do mundo social dos estudantes, pois é dele que trazem visões, informações e valores em relação aos temas abordados na escola. É nos espaços de seu mundo social que, a partir de interações diferentes, construções sociais são produzidas, possibilitando explicações distintas da 10 Deve-se lembrar que a definição científica da vida, ainda hoje, encontra diversas correntes de pensamento. Emmeche( 1997) propõe pelo menos três definições de vida na biologia teórica: Neodarwinismo, autopoiese e biossemiótica. Nessa pesquisa optou-se por considerar apenas o conceito Neodarwinista pois trata-se do paradigma de maior aceitação entre alunos e professores e consta no livro didático utilizado e no planejamento da escola investigada, além de ser o encontrado nos conteúdos relacionados para o estudo da evolução dos seres vivos no PCN+ (BRASIL, 2006). 37 científica. Assim, a sala de aula é um espaço muito rico, pois ali se encontram indivíduos diferentes, com construções sociais diferentes, marcados por significados diversos, proveniente de suas histórias de vida. É ai que diferentes visões de mundo se encontram e, no que se refere ao conceito científico de origem e evolução dos seres vivos, outras explicações surgem, e, certamente, fundamentadas em religiões, pois sendo o Brasil um país de grande religiosidade (IBGE, 2000), nas salas de aula, há grande chances de encontrarmos estudantes que trazem tais concepções. Dessa forma a explicação científica apresentada na sala de aula, para esses estudantes, será mais uma explicação sobre um tema abordado anteriormente, seja pela igreja ou sua família. Trata-se, portanto, de tema atravessado por diferentes compreensões, uma delas a religiosa com a qual tantos professores de ciências se defrontam. Estudos vêm apontando que estudantes adeptos de uma religião, em diferentes momentos e níveis de escolarização, parecem não hesitar em contrapor-se ao professor que lhes apresenta a ótica da compreensão científica para origem da vida e evolução dos seres vivos. El-hani & Sepúlveda(2001) investigaram a experiência de uma estudante evangélica plena de inquietações ao se defrontar com as explicações científicas para a origem da vida e a evolução. Gibertoni & Falcão ( 2003), também em pesquisa que focalizava o nível universitário, relacionaram a mudança do perfil de crenças religiosas entre estudantes de Biologia à apreensão dos conteúdos da disciplina, sobretudo aqueles relacionados à teoria da evolução. Ao final do curso de Biologia, estudantes, que no início se afirmavam como católicos ou de outra confissão cristã, não tinham abandonado suas crenças religiosas, mas as revelavam de forma mais abstrata desvinculando-a de descrições bíblicas, algo próximo à idéia de “ um espírito ou energia” que não teria uma imagem definida; Falcão, Guida & Luiz (2008), em investigação comparativa entre o primeiro e o terceiro ano do ensino médio de uma escola pública observaram que a forte resistência à aceitação das explicações científicas para a origem da vida e a teoria da evolução estava tanto relacionada à presença de numerosas igrejas evangélicas no contexto social da escola, das famílias e dos estudantes quanto às deficiências do ensino de ciências oferecido aos alunos. Por isso, a apresentação de tal tema deve exigir atenção especial, por parte do professor, para que as diferentes visões de mundo possam ser respeitadas, criando-se um ambiente de receptividade para a explicação da ciência. Além disso, o impedimento da expressão das concepções religiosas dos estudantes, por julgar que as mesmas não se traduzem em conhecimentos científicos e, conseqüentemente, não lhes cabe no espaço da sala de aula, não trará benefícios para a aprendizagem, porque 38 ignorar as concepções prévias é impedir que esses indivíduos se expressem. Tal atitude pode consolidar as concepções dos estudantes, pois a impossibilidade de se expressar, em vez de enfraquecer uma concepção prévia poderá, ao contrário, provocar um fortalecimento de tais idéias. “Não tendo condições de se expressar de forma livre, os estudantes e mesmo os professores, e outros componentes da vida acadêmica, estariam todos sendo estimulados, ou mesmo provocados, a defender suas crenças, vistas como algo puramente “seu”, de foro íntimo. Assim, a religiosidade estaria sendo posta como tema indiscutível, não intercambiável, simplesmente indesejável. Restrições ou encolhimento do que poderia ser um espaço livre e dinâmico de trocas culturais seria o desejável para o que se convencionou chamar de “academia”? O cultivo do silêncio sobre as crenças religiosas nos laboratórios e outros espaços universitários e escolares, necessariamente, não colaboraria para extinguir ou enfraquecer essas crenças previamente estabelecidas em seus estudantes e cientistas. Tal fato poderia até mesmo ser um facilitador da manutenção dessas crenças” (FALCÃO, 2006 p. 43). Entretanto, lidar com essas nuances exige do professor muito mais do que o domínio técnico do conhecimento científico. Exige formação cultural para que possa compreender e aceitar a presença religiosa no espaço da sala da aula. Por isso ao se abordar temas como origem e evolução da vida, as visões, valores, idéias trazidas pelos estudantes sobre tais temas devem se consideradas e fazer parte do universo da sala de aula, ser objeto de atenção docente. Uma possibilidade desta atenção educacional é buscar um entendimento dos conhecimentos prévios dos estudantes abordando-os como representações sociais11, pois se tratam de construções coletivas, construídas nos mais variados ambientes de convivência. Os estudantes são pessoas que têm como todos os seres humanos, identidade social. Suas visões de mundo, socialmente estabelecidas, são o pano de fundo para sua formação científica. Essa convivência entre os conhecimentos da ciência e os conhecimentos trazidos pelos estudantes, não tem sido encontrada nos resultados de pesquisas que investigam esse tema. (GUIDA, A.,2006, CERQUEIRA, A. V., 2009 ) Ao invés disso, observa-se que muitas vezes, por deficiências em sua formação12, ou por medo de possíveis polêmicas decorrentes de explicações religiosas trazidas pelos estudantes, os professores fazem a opção de evitar o ensino do tema origem e evolução dos seres vivos, ou fazem o seu estudo de forma sucinta. Essas atitudes podem comprometer a compreensão de um conhecimento, que segundo alguns 11 As representações sociais devem ser vistas como uma maneira específica de compreender e comunicar o que nós já sabemos. Elas ocupam, com efeito, uma posição curiosa, em algum ponto entre conceitos, que têm como seu objetivo abstrair sentido do mundo e introduzir nele ordem e percepções, que reproduzam o mundo de uma forma significativa. Elas sempre possuem duas faces, que são interdependentes, como duas faces de uma folha de papel: a face icônica e a face simbólica. Nós sabemos que: representação = imagem/significação; em outras palavras, a representação iguala toda imagem a uma idéia e toda idéia a uma imagem. (MOSCOVICI, 2003). 12 Nicolini, Falcão & Faria (2008) constataram o pouco estudo sistemático do ensino da origem da vida em importante faculdade de Biologia de uma universidade pública. Este dado poderia explicar parte dos problemas encontrados no ensino médio de tal tema. 39 autores da biologia é considerado um conteúdo estruturador e unificador: “O conceito de origem e evolução das espécies, que se relaciona com o pensamento evolutivo é eixo central e unificador da Biologia (DOBZHANSK, 1973, apud DORVILLÉ2008, FUTUYMA, 2003). Além dessas referências de estudiosos da área, as orientações curriculares para o ensino médio, também fazem destaque ao tema: “Um tema de importância central no ensino de biologia é a origem e evolução da vida. Conceitos relativos a esse assunto são tão importantes que devem compor não apenas um bloco de conteúdos tratados em algumas aulas, mas constituir uma linha orientadora das discussões de todos os outros temas do ensino de Biologia (...) A presença do tema origem e evolução da vida ao longo de diferentes conteúdos não representam a diluição do tema evolução, mas sim a sua articulação com outros assuntos, como elemento central e unificador no estudo da Biologia (BRASIL, 2006 p. 22)”. Isso justifica investigações sobre o estudo desse tema nas salas de aula, no ensino médio, para que se conheça um pouco mais as variáveis envolvidas nesse processo. Por isso, o presente trabalho foca a interface da explicação científica sobre origem e evolução da vida com a explicação religiosa que traz para a sala de aula conhecimentos prévios, alicerçados na cultura e religiosidade dos estudantes. Tal questão se manifesta de modo mais claro na oposição entre o criacionismo fixista e o evolucionismo. (DORVILLÉ, 2008 ) Tendo em vista os argumentos apresentados propõe-se nesta pesquisa a investigação das representações sociais relativas ao conceito de origem e evolução dos seres vivos e origem do homem e da mulher, de um grupo de estudantes do ensino médio de uma escola de confissão religiosa (católica) durante o percurso dos mesmos pelo ensino médio. 40 4. OBJETIVOS, METODOLOGIA DA PESQUISA E CONTEXTUALIZAÇÃO DO ESPAÇO INVESTIGADO Trata-se de uma pesquisa descritiva, que buscou analisar e comparar resultados de um grupo de estudantes do ensino médio de uma escola confessional católica. A pesquisa investigou o mesmo grupo de estudantes ao longo de dois anos. O foco da pesquisa foi investigar se mudanças ocorreriam nas visões, idéias e valores dos estudantes para a origem dos seres vivos e humanos ao longo do período escolar destinado ao estudo científico de tal tema, ou seja, os dois primeiros anos do ensino médio na escola investigada. Estas visões supostamente conteriam elementos religiosos, não só tendo em vista a cultura brasileira, como o ambiente escolar bastante marcado pelas referências católicas, além de oferecer aulas de ensino religioso obrigatório, O objeto de pesquisa foi, portanto, investigar se as visões, idéias e valores que os estudantes expressavam para a origem dos seres vivos mudariam ao longo de um período escolar específico, assim como o alcance das influências religiosas em suas visões. Como, no contexto do cristianismo13, a origem dos seres humanos tem o destaque de ter sido “ à imagem e semelhança de Deus”, a investigação interessou-se, também, por esse aspecto: a origem dos seres humanos traria um compromisso maior dos estudantes, desta escola, ou seja, poderia limitar a aceitação da explicação científica? O processo metodológico foi o qualitativo com o uso de questionários individuais aplicados em dois momentos: o primeiro quando os estudantes cursavam o primeiro ano (Maio/2007), após o estudo do conteúdo origem dos seres vivos e o segundo no início do terceiro ano (Fevereiro/2009) já tendo sido estudado todo o conteúdo relativo ao primeiro e o segundo ano do ensino médio. Dos setenta e três estudantes que cursavam o primeiro ano, setenta responderam ao primeiro questionário e, desse total, apenas 43 permaneceram na escola e tiveram o segundo questionário analisado no início do terceiro ano. Trabalhou-se com o conceito de Representações Sociais. Para Moscovici (2003), representando-se uma coisa ou uma noção, não produzimos unicamente nossas próprias idéias e imagens: criamos e transmitimos um produto - uma representação social progressivamente elaborada em inúmeros lugares, segundo regras variadas (p.63). Nesse processo, os indivíduos adquirem um repertório comum de interpretações e explicações, regras e procedimentos que podem ser aplicados à vida cotidiana e, por isso, guardam estreitos vínculos com os contextos 13 Embora outras religiões como o Judaísmo e Islamismo compartilhem explicações semelhantes, o Cristianismo está, nesse trabalho, em destaque por ser a referência religiosa principal dos estudantes pesquisados. 41 sociais nos quais são produzidos. (op. cit, p.53). As representações sustentadas pelas influências sociais da comunicação constituem as realidades de nossas vidas cotidianas e servem como o principal meio para estabelecer as associações com as quais nós nos ligamos uns aos outros (MOSCOVICI, 1978). Devemos sempre lembrar que a representação é uma construção do sujeito enquanto sujeito social. Sujeito que não é apenas produto de determinações sociais nem produtor independente, já que as representações são sempre construções contextualizadas, resultados das condições em que surgem e circulam. Segundo Moscovici (2003), tais processos visam à transformação do “não-familiar em familiar”. Tendo em vista que pretendíamos captar, justamente, um produto (explicação da origem dos seres vivos) “progressivamente elaborado em inúmeros lugares, segundo regras variadas”, esse foi o referencial teórico escolhido: buscar a representação social dos estudantes. Queríamos, portanto, evitar pedir ao estudante a “explicação correta” (ou seja, a científica oferecida pelo ensino de Biologia) e dele obtermos a resposta que ele entenderia ser a desejada pela escola e não a de que ele de fato estaria convencido. Assim, com a metodologia do Discurso do Sujeito Coletivo (DSC) trabalhou-se no processo de identificação e análise da representação social dos estudantes investigados. O processo metodológico proposto por Lefèvre&Lefèvre (2002 e 2003), a análise do discurso do sujeito coletivo (DSC), tem, por finalidade, a identificação da representação social de um determinado tema, ou objeto, de um grupo, a partir das expressões orais ou escritas expressas individualmente em entrevistas ou questionários. Para os autores, o que as pessoas pensam ou emitem como respostas a uma indagação reflete o compartilhamento de um imaginário social, comum, coletivo, existente num determinado momento. Dessa forma, os pensamentos contidos em expressões individuais apresentam mais do que um indivíduo pensa sobre um dado tema; eles revelam elementos do imaginário coletivo de um grupo. A análise do sujeito coletivo busca, a partir dessas expressões individuais, chegar às representações de um grupo social num dado momento. Assim: O DSC tem a função de reconstruir, com pedaços de discursos individuais, como em um quebra cabeças, tantos discursos-síntese quantos se julgue necessário para expressar uma dada figura, ou seja, um dado pensar ou representação social sobre um fenômeno (LEFÈVRE, 2000 p. 19). O discurso do sujeito coletivo (DSC) é produzido a partir de trechos de expressões dos indivíduos de uma coletividade. Esse discurso, ao integrar vários discursos individuais, transmuta-se num único discurso e descreve, significativamente, as representações do coletivo investigado. Pode-se encontrar mais de um discurso coletivo ou discurso-síntese para um determinado tema e a construção de um, ou vários, discursos síntese, é possível mediante 42 definição e identificação de idéias centrais e expressões chaves nas expressões individuais do grupo analisado. Os vários discursos revelam, como um mapa, as diferentes faces do imaginário do grupo em relação ao tema pesquisado, ou seja, as diferentes faces de sua representação social. Segundo a metodologia, as expressões-chave são constituídas por transcrições literais de partes dos depoimentos dos sujeitos analisados e organizadas em grupos, de acordo com a idéia central que exprimem. As idéias centrais são a(s) afirmação (ões) que permite(m) traduzir o essencial do conteúdo discursivo explicitado pelos sujeitos em seus depoimentos. É possível construir, durante a análise, quantas idéias centrais se julguem necessárias. Com a matéria-prima das expressões-chave, são construídos os discursos do sujeito coletivo (DSC) que visam a tomar clara a representação do grupo analisado. Os questionários aplicados foram compostos de questões que buscaram dados sócioeconômicos e perfil das crenças religiosas dos estudantes e de seus pais. Esses dados tiveram abordagem quantitativa. Os questionários incluíram, também, as questões específicas para investigar o tema proposto: origem e evolução dos seres vivos e origem e evolução do homem e da mulher. Para isso, abordaram de forma clara as explicações religiosas que os estudantes poderiam ter. Optou-se por este caminho considerando-se o perfil de suas crenças religiosas e ambiente de influência religiosa da escola, ou seja, procurou-se deixar os estudantes à vontade para falarem sobre suas visões, valores e idéias. Para a realização desta pesquisa, buscou-se, antecipadamente, a autorização da direção da escola. No momento da aplicação dos questionários, foram feitos esclarecimentos aos estudantes antes do início de seu preenchimento e foi dito que tratava-se de uma pesquisa não vinculada à escola que os resultados seriam para o uso, apenas, do pesquisador, que a participação era livre e que quem não quisesse, não precisava responder. Foi também dito que a pesquisa teria um possível desdobramento14 e que, quem quisesse, poderia se identificar para participar, embora, naquele momento, tal identificação não fosse necessária. Após a aplicação dos dois questionários, observou-se que 25 estudantes se identificaram em ambos. Isso permitiu uma análise comparativa individualizada dos dados obtidos por esse grupo, demonstrando suas idéias acerca do tema pesquisado, no primeiro e no início do terceiro ano do ensino médio. Utilizaram-se duas perguntas para essa investigação: Questão 1: Na sua opinião, Deus foi o criador, isto é, deu origem aos seres vivos? Questão 2: Na sua opinião, Deus foi o criador, isto é, deu origem ao homem e a mulher? 14 A pesquisa previa um desdobramento de acompanhamento por entrevistas ao longo de três anos. 43 Portanto, em maio de 2007, quando o questionário foi aplicado pela primeira vez, os estudantes já tinham estudado os processos básicos iniciais que condicionaram a origem da vida e, consequentemente, dos seres vivos, segundo a hipótese de evolução química( reações químicas entre gases que existiam na atmosfera da Terra primitiva, surgimento e associação, ao acaso, de moléculas). Em maio de 2009, quando o questionário foi aplicado pela segunda vez, os estudantes, já no terceiro ano, tinham estudado a estrutura básica dos seres vivos e as transformações que ocorreram ao longo do tempo: célula e a estrutura que permite a reprodução, a ação da seleção natural, o processo lento e gradual que possibilitou a evolução das espécies, incluindo a espécie humana como resultado desse processo. Por considerar que os estudantes, no início do terceiro ano já estariam mais maduros e teriam mais condições de elaborar reflexões sobre as questões propostas, acrescentou-se, no segundo questionário, uma nova pergunta, questão 16: “Você escreveu sua opinião quanto à origem do universo, dos seres vivos e do homem e da mulher, agora tente lembrar: como você chegou a essas opiniões? Há alguma fonte de informação pessoa, ou pessoas, que mais o ajudou, ou o ajudaram a ter sua opinião sobre a origem do universo, dos seres vivos e do homem e da mulher? Justifique.” Buscou-se, com essa questão, investigar, com maior profundidade, as origens das concepções prévias apresentadas pelos estudantes. Em resumo, a metodologia buscou captar, através das respostas dos estudantes, as perguntas abertas e inspiradas, no contexto de suas claras influências religiosas e suas representações sociais para os temas investigados. Buscou-se o universo de explicações presentes no imaginário dos estudantes construídas até aquele momento a respeito dos temas pesquisados. A escola pesquisada é uma instituição localizada no município do interior do estado do Rio de Janeiro e dirigida por uma irmandade católica. Essa condição caracteriza tanto seu espaço físico como, também, sua proposta pedagógica. Ao mesmo tempo, ela caracteriza-se por prestar uma educação de qualidade, o que pode ser notado através dos resultados obtidos em provas como o ENEM, cuja média, nos últimos três anos, é superior a 6, 5, e através da aprovação dos estudantes em vestibulares de grandes universidades públicas. É importante registrar que ela teve o melhor resultado nas provas do ENEM, nos dois últimos anos, em relação a todas as escolas de ensino médio na cidade onde se encontra. A escola é o local em que os estudantes passam boa parte de seu tempo, durante o percurso pelo ensino médio. Tal condição elege esse espaço como um local privilegiado, onde há evidências de um ensino de qualidade e um ambiente com grande presença de símbolos 44 religiosos, possibilitando uma investigação entre essas duas construções humanas, ou seja, a ciência e a religião. Situa-se em uma área isolada, sendo cercada por uma mata e uma grande área destinada ao pátio, com quadra de esportes coberta e área de lazer. Na entrada principal, encontra-se uma grande imagem de Jesus Cristo. Ao lado do portão de entrada para os estudantes, há uma igreja com uma grande cruz sobre a porta principal. Nessa igreja são realizadas missas semanalmente, sendo a mesma freqüentada tanto pelos estudantes como pela comunidade. Muitos estudantes, católicos, fizeram aí, sua primeira comunhão. No corredor, encontram-se imagens dos fundadores, que eram religiosos, além de algumas imagens de Nossa Senhora. Nas salas de aula, há retratos dos fundadores da congregação (um padre e uma freira) e crucifixos. É lida, diariamente, no início da primeira aula, uma mensagem religiosa. Logo após a leitura da mensagem, reza-se o Pai Nosso. Os estudantes participam de aulas de ensino religioso com freqüência de duas aulas semanais durante o ensino fundamental e uma aula semanal durante o ensino médio O conteúdo das disciplinas de ensino religioso, segundo os professores e coordenadores dessa disciplina, tem uma proposta humanista, com enfoque em valores morais, éticos e sociais e no ensino fundamental são intensificados os estudos bíblicos. Os temas origem do universo e dos seres vivos, só são abordados, se o texto bíblico estudado apresentar referências aos mesmos. Em documento escrito, a escola expõe o que ela considera ser um dos objetivos da educação: evangelizar. Nesse sentido, segundo o documento, é possível desenvolver todas as habilidades e competências da pessoa humana e formar nela as condições necessárias, que, de acordo com a filosofia cristã fará dela um ser humano mais completo. A educação é vista como meio de libertação, segundo a perspectiva cristã católica, de todas as alienações e de comprometimento com a construção de uma sociedade mais justa e solidária. Este documento apresenta a filosofia cristã da escola. A direção da escola não solicita a abordagem de temas religiosos nas aulas do currículo normal. De certa forma, pode-se dizer que são atividades separadas. Há aulas de ensino religioso, comemorações e eventos religiosos como: leitura de mensagens cristãs, diariamente, no início da primeira aula, convite aos estudantes católicos para participar de missas e da primeira comunhão, resguardando-se a liberdade de escolha dos mesmos. Ao mesmo tempo, não se interfere nos conteúdos programáticos ou conhecimentos científicos propostos nas diferentes disciplinas, inclusive no que se refere a origem e evolução da vida. No primeiro ano do ensino médio, os estudantes possuem quatrocentas e quarenta horas/aula de ensino das disciplinas de ciências da natureza. Essas quatrocentas horas/aula são 45 divididas, semanalmente, em quatro horas/aula de Física, três horas/aula de Química e três horas/aula de Biologia. Uma vez por semana, durante o período vespertino, os estudantes possuem uma hora/aula prática da disciplina de Química no laboratório. As aulas práticas de Biologia, não são obrigatórias, podendo ocorrer, caso os professores solicitem e haja disponibilidade de laboratório. No segundo ano do ensino médio, os estudantes possuem mais quatrocentas e quarenta horas/aula de ensino das disciplinas de ciências da natureza (Química, Física e Biologia), obedecendo à mesma distribuição semanal proposta para o primeiro ano. Durante o primeiro ano do ensino médio, a disciplina de Biologia tem seu conteúdo dividido em dois blocos: o primeiro aborda: “Introdução à Biologia e Biologia celular” com duas horas/aula semanais; e o segundo: “Ecologia” com uma hora/aula semanal. Em introdução à Biologia são estudados os conteúdos relacionados aos níveis de organização e caracterização dos seres vivos. Faz-se referência às etapas da história da ciência com abordagem das idéias sobre abiogênese e biogênese e finalmente, são apresentadas explicações atuais para a origem e evolução da vida, destacando-se o estudo da hipótese de evolução química. Em Biologia celular estudam-se os conteúdos relacionados à estrutura e funcionamento das células, incluindo divisão celular (mitose e meiose). No estudo da Ecologia, abordam-se os conteúdos relacionados às cadeias e teias alimentares, pirâmides ecológicas, ciclos biogeoquímicos, os diferentes biomas e os desequilíbrios ecológicos causados pela poluição do ar, do solo e das águas. Os conteúdos apresentados são trabalhados por dois professores, um em cada bloco. No primeiro ano, totalizam-se 120horas/aulas para cumprir o conteúdo citado, incluindo, aí, a realização de avaliação e revisão de conteúdos. As aulas de Biologia, durante o segundo ano, têm seus conteúdos também divididos em dois blocos. No primeiro, encontra-se o estudo da “Taxonomia, embriologia, microbiologia e estudo da biodiversidade, com duas horas/aula semanais. No segundo bloco estuda-se Genética com uma hora/aula semanal. O estudo da taxonomia inclui abordagem das normas de organização e classificação dos seres vivos, inclusive as que se baseiam na filogenia, incluindo, aí, a proposta de classificação cladística. No estudo da embriologia, há, a abordagem das etapas embriológicas dos vertebrados, com um destaque para a embriologia humana. Em microbiologia, aborda-se o estudo dos vírus e bactérias, no estudo da biodiversidade há abordagem dos grandes grupos de seres vivos e sua divisão em reinos, destacando-se o estudo do reino animal. Nesse último tópico, há a inclusão da espécie humana, como sendo mais uma, dentre as demais espécies no grupo dos mamíferos, ou seja, aborda-se a espécie humana como mais um dos ramos evolutivos do grupo dos cordados. No estudo de genética é abordada a transmissão dos caracteres hereditários. Neste conteúdo, os 46 estudantes tiveram acesso aos conhecimentos produzidos por Mendel (1ª e 2ª Leis), herança com genes ligados, polialelia, interação gênica, heranças ligada ao sexo, herança quantitativa e estudos das mutações gênicas e cromossômicas e variabilidade genética. Não faz parte do conteúdo da segunda série, nova abordagem da origem da vida. Assim como no primeiro ano, os conteúdos referentes a cada bloco são trabalhados por dois professores diferentes.Durante o ano totalizam-se, também, 120horas/ aulas para o estudo dos conteúdos previstos para o segundo ano, incluindo aí, avaliações e revisões. A escola pesquisada tem um sistema padronizado de avaliação, tanto para o primeiro como para o segundo ano. Os estudantes são submetidos, a cada trimestre, a testes, provões, pesquisas existindo, ainda, nota de participação e interesse nas aulas. Essa última é computada a partir de dados como cumprimento das tarefas propostas, responsabilidade com o material didático e postura colaborativa , em sala de aula, com os colegas e professores. Cada professor é livre para marcar a data do teste e só cobra o conteúdo ministrado por ele. O provão é feito em data estipulada pela escola, e contempla todo o conteúdo do trimestre. Tanto nos testes como nos provões, há questões objetivas e discursivas, referentes a vestibulares recentes e provas do ENEM. As pesquisas propostas são feitas em equipe e cada disciplina propõe o tema a ser pesquisado. A nota final do estudante é obtida com a seguinte proporcionalidade: provão; 50%; testes: 30%; pesquisas: 15%; participação e interesse: 5%. A escola também realiza um simulado por trimestre, que é feito aos sábados. O simulado é constituído por 60 questões objetivas, retiradas de provas de vestibulares recentes e provas do ENEM. A nota obtida no simulado é utilizada como bônus e o estudante pode acrescer até 1,0 na média final, respeitando-se a seguinte proporcionalidade: acerto de 19 a 39 questões acréscimo de 0, 5, acerto de 40 a 60 acréscimo de 1,0 na média final em todas as disciplinas. Não têm bônus os estudantes que acertam até 18 questões. Para ser aprovado, o estudante necessita obter nota igual ou maior que 6,0. Há recuperações paralelas após o fechamento da nota de cada período. 47 5. RESULTADOS Na escola, além das aulas, os estudantes pesquisados também participaram de outras atividades. Foram levantadas, junto à direção e equipe pedagógica, as principais atividades, que os estudantes participaram nos anos de 2007 e 2008. Para melhor descrição as atividades realizadas serão divididas, aqui, naquelas em que se relacionam com os desenvolvimentos cultural, esportivo e socializador e nas que buscam melhorar o desempenho na aprendizagem dos estudantes. Com relação ao primeiro grupo destacaram-se, no ano de 2007, a comemoração de cem anos de fundação da congregação a qual a escola pertence, homenageando seus fundadores. Essa comemoração foi cercada de atividades relacionadas a artes cênicas, plásticas e literárias. Foram feitas pesquisas biográficas sobre os fundadores, (um padre e uma freira espanhóis). Nos anos de 2007 e 2008, ocorreram os seguintes eventos: o balcão de profissões “despertando talentos” trata-se de uma atividade que envolve os estudantes do ensino médio, cujo objetivo é fornecer informações a respeito dos cursos de graduação e das oportunidades no mercado de trabalho nas diferentes carreiras profissionais. A tradicional festa junina onde os estudantes do ensino médio participam organizando barracas com comidas típicas. O dinheiro arrecadado é utilizado nas obras sociais da congregação. Há participação de professores, pais, alunos e toda comunidade escolar. O Festival de dança, atividade tradicional da escola, que envolve os estudantes do ensino médio que formam equipes e escolhem ritmos que serão apresentados em um festival. Campeonatos esportivos interclasse de futebol de salão e vôlei envolvendo as diferentes turmas. As partidas foram realizadas durante o recreio. Gincana solidária realizada com os estudantes do ensino médio, cujo objetivo é envolvê-los em uma competição, em que as turmas se organizam para o cumprimento de tarefas propostas pelos organizadores. Entre as tarefas há coleta de alimentos que serão levados, pelos estudantes às comunidades carentes. Com relação às atividades que buscam melhorar o desempenho dos estudantes, destacaram-se: projetos interdisciplinares e pesquisas envolvendo o tema da campanha da fraternidade de 2007 e 2008. Também ocorreu o trabalho desenvolvido na disciplina de Inglês sobre o tema “Pensar global e agir local, em parceria com a agenda 21”, as olimpíadas internas: Matemática e Física além de simulados objetivando uma convivência, dos estudantes, com os modelos das provas aplicadas nos vestibulares e no ENEM. 48 No ano de 2008 foi realizada uma excursão para as cidades históricas de Minas Gerais, com visita a gruta de Maquiné. Essa excursão teve por objetivo enriquecer os conhecimentos dos estudantes nas disciplinas de História, Geografia e Literatura. Nessa escola, alguns aspectos da teoria da evolução serão finalizados ao longo do terceiro ano15, mas a base conceitual16 que permite a sua compreensão é ensinada durante os dois primeiros anos. Assim, os conteúdos de Biologia nos dois primeiros anos do ensino médio17 abordam, entre outros, os conceitos da origem da vida, acaso, variabilidade genética, freqüência gênica, mutação, estudo da biodiversidade e filogenia, que sustentam a hipótese científica da origem e evolução dos seres vivos. Os conteúdos programados e previstos em cada período escolar são acompanhados tanto pelos coordenadores de área quanto pelos pais através da internet. Qualquer mudança é imediatamente observada e comunicada à escola ou ao professor, o que garante o estrito cumprimento dos conteúdos e do ritmo de sua apresentação aos estudantes. Na pesquisa, no entanto, buscou-se confirmar o ensino dos conteúdos de interesse tanto do primeiro quanto do segundo ano, mediante levantamento de outras informações como análise dos conteúdos, do livro didático, entrevista com os dois professores e coordenador de área da disciplina de Biologia da escola e também exame dos diários de classe. Os dados obtidos mostraram que os conceitos citados foram apresentados ao longo dos dois anos. Segundo depoimentos dos professores que ministraram tais conteúdos, as aulas transcorreram no ritmo previsto no planejamento escolar, que dedica para o estudo de todos os conteúdos do primeiro e do segundo ano, cerca de 240 horas/aulas, incluindo as avaliações e revisões. As aulas foram, em sua maioria, expositivas, buscando uma integração com os estudantes através de questionamentos a respeito dos conteúdos apresentados. Para o estudo dos conteúdos de citologia, biologia molecular e estudo da biodiversidade, por exemplo, foram utilizados recursos como retro-projetor e data-show. Segundo o professor que ministrou o conteúdo origem da vida, nem sempre a linguagem do livro didático18 era acessível aos estudantes do primeiro ano, porque parte do detalhamento era feito com explicações da 15 No terceiro ano, segundo o planejamento da escola, serão estudados conteúdos relacionados às idéias da evolução biológica, segundo Lamarck e Darwin, seleção natural e neodarwinismo. 16 De acordo com o PCN+ no tema origem da vida e evolução biológica deve-se considerar os seguintes conteúdos: hipótese sobre a origem da vida, mutação, recombinação gênica, seleção natural, freqüência gênica, deriva gênica, filogenia, incluindo a origem do homem, e as idéias da evolução biológica de Lamarck e Darwin (BRASIL 2006). 17 Deve-se lembrar que os estudantes já trazem conhecimentos relacionados a origem e evolução da vida adquiridos no ensino fundamental, no entanto, essa pesquisa investigou apenas os conteúdos abordados no ensino médio. 18 BIO ; Lopes, S. ,volume único, Saraiva : São Paulo, 2004, foi utilizado tanto para estudo dos conteúdos como para resolução de exercícios tanto no primeiro como no segundo ano. 49 química orgânica, que os alunos ainda não dominavam no primeiro ano. Foi necessário compensar essas dificuldades com textos complementares, construídos a partir dos problemas vividos pelos estudantes. Para os demais conteúdos destacados, os professores não fizeram relatos de maiores dificuldades por parte dos estudantes, com a linguagem encontrada no livro didático. A apresentação do primeiro questionário deu-se logo após o estudo do conteúdo origem da vida. Como esse conteúdo permite reflexões sobre outras explicações a respeito do tema em questão, inclusive a religiosa, o pesquisador preocupou-se em buscar mais informações sobre as aulas referentes a esse conteúdo, pois assim poderia ter detalhes tanto do conhecimento científico apresentado, como as observações feitas pelo professor, com relação a participação dos estudantes durante a apresentação desse conteúdo. Isso foi feito através da análise do livro didático, depoimento do professor que apresentou esse conteúdo e análise das avaliações aplicadas aos estudantes. O livro adotado é utilizado tanto para o estudo do conteúdo, durante as aulas, como para a resolução dos exercícios. A abordagem ao conteúdo origem da vida inicia-se com uma explicação sobre a formação do planeta, há cerca de 4,5 bilhões de anos, a seguir são relacionadas as características iniciais da Terra primitiva demonstrando que eram impróprias para a existência dos seres vivos. Faz-se uma descrição sumária, sem detalhes de explicação de processos químicos, sobre o resfriamento do planeta e cita que os registros da existência de vida datam de 3,5 bilhões de anos. A seguir, há uma apresentação dos conceitos de abiogênese (geração espontânea) e da biogênese (surgimento de seres vivos a partir de seres vivos pré-existentes). Após tais conceituações, é feita uma descrição histórica relacionando os experimentos que, gradativamente, refutaram a teoria da abiogênese. A seguir são citadas três possibilidades para explicar a origem da vida: a origem extraterrestre (panspermia), a origem por criação divina (criacionismo) e a origem por evolução química. A autora chama a atenção para a hipótese da origem por evolução química, explicando que essa é a hipótese aceita, atualmente, pela maior parte dos cientistas. A seguir é feita uma descrição detalhada da hipótese da origem por evolução química, citando os trabalhos de Oparin e Haldane. Nesse tópico, há utilização de conhecimentos da disciplina de química, para explicar como se deram as reações envolvendo os gases presentes na Terra primitiva: amônia (NH3), metano (CH4), hidrogênio (H2) além do vapor de água (H2O), para a formação das moléculas orgânicas. A partir dessas reações surgem estruturas mais complexa, como os coacervados, dos quais, ainda segundo essa hipótese, surge os seres vivos. A seguir há relato do experimento de Miller e Urey, que comprova os passos 50 defendidos pela hipótese da evolução química. Após essas explicações não há referência ao surgimento de moléculas capazes de realizar a replicação, nem a citação de possibilidades de mutações, que segundo a teoria de evolução dos seres vivos - Neodarwinismo-, aceita atualmente, são processos essenciais no entendimento da evolução dos seres vivos. A autora segue abordando o metabolismo e aproveita para citar as hipóteses heterotróficas e autotróficas (quimiossíntese). Novamente, há utilização de muitos conhecimentos da química orgânica para explicar conceitos importantes como fotossíntese, quimiossíntese, respiração e fermentação. Segundo o professor, as aulas destinadas ao tema origem da vida transcorreram, de modo que permitissem aos estudantes expressarem suas concepções prévias, num clima de diálogo. Ele não saberia dizer o alcance de seus esclarecimentos e também observava que alguns estudantes permaneciam calados. Informou ainda que a apresentação do conteúdo seguiu a proposta do livro didático, dando ênfase ao estudo da hipótese da evolução dos componentes químicos. Os testes e o provão aplicados, após estudo desse tópico, continham questões ligadas ao ambiente da terra primitiva, a processos químicos responsáveis pelo surgimento do ser vivo e experimentos que buscam comprovar a base das explicações científicas. O professor relatou, ainda, que não houve dificuldades especiais entre os estudantes para resolver as perguntas propostas. Entretanto tais perguntas buscavam respostas direcionadas a aspectos científicos bem específicos não oferecendo possibilidades de confronto com explicações mais gerais e propostas por religiões. Para os conteúdos estudados, durante o primeiro e o segundo ano, relacionados a origem e evolução dos seres vivos(origem da vida, recombinação gênica e variabilidade genética, mutação e filogenia) foram destinadas aproximadamente 6 horas a cada ano. Dos 73 estudantes que cursavam o primeiro ano do ensino médio em 2007 apenas 43 permaneceram no terceiro ano em 2009 porque a escola é rigorosa e exige bom desempenho para aprovação. Desses, 25 se identificaram e permitiram enriquecer a interpretação dos resultados uma vez que tornou possível analisar mudanças no comportamento individual ao longo dos dois anos. A seguir estão as tabelas com os dados de perfil dos estudantes e de seus pais: Tabela 1 perfil sociocultural dos estudantes Faixa etária Primeiro 14 anos Tempo que estuda na escola 25% Menos de 1 ano 15% Gênero Masc Fem 51 ano 15 anos 68% Mais de 2 anos 35% 16 anos 7% Sempre estudou 50% Terceiro 16 anos 37% Menos de 1 ano - ano 17 anos 58% Mais de 2 anos 26% 18 anos 5% Sempre estudou 74% 33% 67% 30% 70% Tabela 2 Religiosidade dos pais, mães e estudantes. Primeiro ano Pais Não tem religião,Não Tem religião acredita em Deus respondeu 84 % 12 % 4% Maio/2007 Mães 95,5% Terceiro ano Ateu - 1,5% 3% - Estudantes 93% 4% - 3% Pais 84% 16% - - 100% - - - Fevereiro/2009 Mães Estudantes 89 % 9% 2% Tabela 3 Crenças religiosas dos pais, mães, estudantes e escolaridade dos pais e mães. Crenças religiosas Catol Evan Esp Escolaridade dos pais e mães Bud Um N/R Fun Méd Grad Pós N/R kar ban Gr Primei Pais 81% 5 % 8% 2% 2 % 2% 4% 17% 49% 27% 3% ro ano Mães 67 % 7 % 18 % 1,5% 5% 1,5% 3% 24% 59% 14% - 2007 Estudantes 70% 7% 17% 1,5% 3% 1,5% - - - - - Tercei Pais 66% 8 % 14% - - 12% 2% 16% 49% 33% ro ano Mães 49% 12% 27% - - 12% 3% 19% 57% 21% - Estudantes 68 % 10% 22% - - 2009 - - - - - - O exame das tabelas mostra que os estudantes se encontravam na faixa etária esperada para cursar o primeiro e o terceiro ano do ensino médio. Eram eles filhos de pais e mães escolarizados pelo menos com o ensino médio, sendo que mais da metade frequentou graduação e, parte desses, tinha pós-graduação. Os estudantes pertenciam assim a um 52 contexto social que possibilita acesso a informação e onde há valorização da escolaridade. Quase a totalidade dos pais acreditava em Deus no contexto de uma religião (católica, a maioria) ou fora dela e como seus pais, a quase maioria dos estudantes tinha crenças religiosas, predominando as da religião católica. O fato de a grande maioria de estudantes ser do sexo feminino pode ser explicado pela tradição que a escola manteve durante vários anos. Fundada há cerca de 50 anos, a escola objetivava, inicialmente, atender apenas as meninas; havia outra escola, também confessional católica, que recebia os meninos. O ingresso de estudantes do sexo masculino teve início em meados da década de 1980, mas ainda hoje é dominante o contingente de estudantes do sexo feminino. A seguir são apresentados, nos Quadros 1 e 2, os discursos que revelaram a representação social dos estudantes para a origem dos seres vivos e para origem do homem e da mulher. O percentual de adesão dos estudantes foi incluído ao fim de cada discurso. O Quadro 3 sumariza as respostas à questão só apresentada aos estudantes do terceiro ano e que abordou as fontes de influência percebidas para suas respostas às questões relacionadas aos temas da pesquisa. Na seqüência, os discursos são discutidos, incluindo-se os dados obtidos com a análise individualizada dos estudantes que se identificaram e também os outros dados obtidos pela pesquisa. Quadro 1 DSC Origem dos seres vivos Idéia Central DSC - Primeiro ano. DSC - Início do terceiro ano. (IC) Ano de 2007 (70 estudantes) Ano de 2009 (43 estudantes) 1. Sim, Deus Deus fez a terra para que nós, seres Por que desde que nos entendemos criou todos os vivos, vivêssemos nela. Todos que por gente e de acordo com a bíblia seres vivos. tem fé em Deus acreditam que ele Deus criou o universo. A Terra foi possa ter criado tudo. Fomos criada e Deus colocou nela todas as criados conhecendo a história da coisas. Acreditamos que só Deus Bíblia, a história de Deus e mesmo pode ter criado seres tão perfeitos, agora, conhecendo desenvolvidas as pela teorias cada um com sua respectiva ciência, característica, ele é poderoso. Deus continuamos acreditando que Deus foi um ser que criou tudo e tem o foi o criador, pois ainda existem poder de mudar e consertar nosso pontos que a ciência não explica. destino. Sem Deus não há vida. (44%) (44%) 2-Deus criou Ele deu origem ao universo, as Não sabemos de onde viemos, mas 53 as condições coisas foram se desenvolvendo, também achamos que por meio da ideais para surgindo e evoluindo originado de evolução ou do criacionismo que os seres reações no universo. A partir de um encontramos maneiras de Deus ter vivos ser vivo colocado na terra por Deus, nos criado. Deus criou tanto o surgissem e outros seres vivos foram surgindo, universo quanto as propriedades evoluíssem. ou seja, deu os principais meios para para existir nele, essas foram a natureza continuar. Deus permitiu evoluindo e com essas propriedades que todo aquele processo da “teoria foram evoluindo e os seres vivos de Oparin” e da seleção natural foram aumentando. Acreditamos acontecesse, desde os primeiros que ele possibilitou o surgimento seres até ocorrer a evolução e chegar dos seres vivos, mas que eles até nós. (23%) surgiram biologia efetivamente explica como (com a o resfriamento do planeta). A ciência não desmente Deus. (25%) 3- Não, ciência a A teoria científica tem mais A ciência explica muito bem a tem possibilidades. Alguns cientistas origem do universo. De acordo com outras formularam teorias que podem as teorias científicas, várias explicações, os explicar a origem dos seres vivos, partículas se juntaram há bilhões de seres vivos sem a relacionar com Deus. Ao anos atrás, a partir da existência de surgiram partir a longo deste ano estudamos sobre a água na Terra formando os seres. de origem do ser vivo. Com base na Acreditamos que tenham surgido a agrupamentos teoria de Oparin, de moléculas. desenvolveram-se, os não seres partir de reações químicas. A criação sendo dos seres vivos ocorreu naturalmente criados pela força vital. Os seres por causa dos efeitos do big-bang, vivos foram criados a partir do devido à modificação dos seres que agrupamento de moléculas ocorrido surgiram ocasionalmente aqui. Os há bilhões de anos. (32%) seres vivos foram evoluindo a partir de uma célula que passou por processos químicos. Os seres vivos passaram por diversas transformações, não surgiram “do nada” e sim a partir de reações 54 químicas. (31%) Não 1% 0% responderam Quadro 2 Idéia Central DSC Origem do homem e da mulher DSC – Primeiro ano. DDSC - Início do terceiro ano. (IC) 1- Sim, Deus Se ele foi o criador dos seres A terra foi criada e Deus colocou criou o vivos, logo foi o criador também do nela todas as coisas. Após homem e a homem e da mulher. Deus colocou criação dos seres vivos Deus criou mulher a sua na Terra um homem e uma mulher, os homens em geral. De acordo imagem e e a partir deles, outros homens e com a bíblia, Deus fez o homem semelhança. outras mulheres a foram surgindo. do pó e a mulher da costela do Deus criou um ser mais parecido homem. Deus nos fez sua imagem com Ele e que tivesse capacidade e semelhança. Ele criou o homem e de pensar e ter sentimento. Deus a mulher com o intuito destes criou Adão e Eva dando um começo continuarem com a criação à sociedade. Conhecendo a história formando famílias. É difícil de da Bíblia, a história de Deus e aceitar que várias células foram se mesmo conhecendo desenvolvidas as pela teorias desenvolvendo durante milhões de ciência, anos para que chegasse até ao acreditamos que Deus foi o criador, homem. pois ainda existem pontos que a (51, %) ciência não explica. (53%) 2-Deus criou Por meio do criacionismo ou da A ciência não desmente Deus. Não condições evolução. Quem sabe se a maneira sabemos de onde viemos, mas para que o de Deus criar o homem não foi também acho que por meio da homem e a através da evolução? Aconteceu por evolução mulher um processo evolutivo e este foi encontramos maneiras de Deus ter surgissem da iniciado por Deus. Ele deu origem nos criado. A evolução pode ter evolução de a um ser, que depois foi se sido o modo de dar origem ao outros seres aprimorando e tornou o homem e a homem que Ele escolheu. Ele criou vivos. mulher. Deus não criou o homem bactérias onde com a junção de ou criacionismo 55 com barro como se diz, achamos outras, foi evoluindo até chegar a que ele fez o mundo para que fosse um organismo como o nosso, nós possível a existência do homem e da estamos em plena evolução. Com mulher, mas que esses surgiram da essa evolução dos seres vivos, as evolução dos macacos. A história de células, o macaco deu origem ao Adão e Eva não é concreta, digamos homem. (19%) que seja uma “lenda”, apenas para mostrar o poder de Deus. (20% ) que Os seres vivos passaram por 3-O homem e Não acreditamos na versão a mulher Deus criou o homem e a mulher de diversas surgiram da sua costela. Acho isso fanatismo, fé- surgindo evolução de cega. Com base na teoria outros seres Oparin, vivos. desenvolveram-se, os do nada. não A ciência de explica muito bem a origem do vivos universo. O homem e a mulher seres não transformações, sendo surgiram de modificações em seres criados pela força vital. O homem e primitivos ao longo dos anos. a mulher se originaram através de Acreditamos que eles tenham espécies que se desenvolveram. Eles surgido como a biologia explica. surgiram pela das Eles evoluíram de outras espécies, evolução espécies. Acreditamos que o homem evoluímos do macaco. vem do macaco. Os seres vivos, as Acreditamos que foi de acordo células foram evoluindo até com a teoria de Darwin. (30%) constituírem o homem e a mulher. Todos os seres vivos têm que se reproduzir. Com base na teoria de Oparin, os seres desenvolveram-se, não vivos sendo criados pela força vital. (23%) Não 4% 0% responderam Quadro 3 - Fontes de influência para explicações da origem dos seres vivos citados pelos estudantes. Fonte citada Escola Religião Família Amigos Mídia Conclusões próprias Total 56 Número de citações 12 18 25 07 11 13 86 Percentual 14% 21% 29% 8% 13% 15% 100% Os Quadros 1 e 2 mostram que três discursos compõem a representação da origem dos seres vivos e do homem e da mulher nos dois momentos de aplicação do questionário: discurso religioso, discurso de compatibilização e discurso científico. Os três discursos em ambos os quadros podem ser resumidos: discurso religioso (DSC-1) onde há a referência a Deus como criador; discurso de compatibilização (DSC-2), onde há combinação de explicação científica e explicação religiosa; e o discurso científico (DSC-3) onde a referência é a ciência como base explicativa. Os discursos foram excludentes, ou seja, cada estudante expressou em suas respostas apenas uma idéia central. A análise da composição social de cada subgrupo de estudantes que aderiu a cada idéia central permitiu a identificação de elementos relevantes para a compreensão da dinâmica dos três discursos no âmbito de todo o grupo. Nos três discursos, em relação às duas perguntas, encontram-se estudantes com o mesmo perfil sócio-cultural e religioso, ou seja, refletem o perfil do conjunto de todos os investigados. Ressalte-se, portanto, que a diversidade de religiões foi encontrada nos três discursos, com a especificidade dos ateus (representados por dois estudantes no primeiro ano e um no terceiro ano). Por um lado, pode-se dizer que haveria uma tendência destacada de adesão ao discurso religioso em relação aos outros dois discursos, entretanto, se focamos a leitura nos discursos de compatibilização e científico, constataremos uma clara e significativa influência da ciência dado o uso de termos e explicações científicas. Foi possível comparar os comportamentos de cada estudante identificado nos dois momentos de resposta ao questionário e um dado interessante se revelou: cerca de 30% dos estudantes mudaram de um discurso para o outro sem um padrão nesta mudança, isto é, houve mudança de discurso religioso para o científico e vice versa como houve mudança do discurso de compatibilização para o religioso ou para o científico. Este resultado trouxe um elemento a mais para a compreensão da dinâmica das explicações religiosas e científicas no âmbito do conjunto completo dos estudantes (identificados e não-identificados). Como se trata de uma população homogênea, objetiva e subjetivamente falando, em princípio, seus diferentes discursos poderiam ser intercambiados (MOSCOVICI, 2003 e LEFEVRE &LEFEVRE, 2004). Essa interpretação pode ser reforçada ao ser articulada a característica comum aos três 57 discursos: todos fazem referências à ciência e à religião, ainda que por diferentes pontos de vista, sem desmerecer ou atacar um ou outro campo como os fragmentos de discurso a seguir exemplificam: [...] conhecendo as teorias desenvolvidas pela ciência[...] (Quadro 1, DSC 1, primeiro ano) e Ele (Deus) permitiu que todo aquele processo da “teoria(sic)19 de Oparin” e da seleção natural acontecesse[...](Quadro 1, DSC 2, primeiro ano) e também [...]acreditamos que Deus foi o criador, pois ainda existem pontos que a ciência não explica. [...] ( Quadro 2, DSC 1, primeiro ano) e [...]A ciência não desmente Deus.[...][...] A evolução pode ter sido o modo de dar origem ao homem[...](Quadro 2, DSC 2, terceiro ano). E o mesmo aconteceu com referencias religiosas encontradas no discurso científico e de compatibilização como nos exemplos: [...] cientistas formularam teorias que podem explicar a origem dos seres vivos, sem a relacionar com Deus. [...] (Quadro 1, DSC 3, primeiro ano) e também[...] A evolução pode ter sido o modo de dar origem ao homem que Ele escolheu[...]( Quadro 2, DSC 2, terceiro ano). Não parece haver nesse conjunto de discursos uma radical rejeição da ótica científica ou religiosa. Ao se considerar a faixa etária e correspondentes características psicológicas desse grupo – adolescência – pode-se aproximar a compreensão desse resultado ao pensamento de dois autores da psicanálise – Winnicott (2005) e Dolto (2008). Segundo eles, a adolescência é um período de vida plena de contradições uma vez que os jovens vivem as transformações do crescimento biológico e do desenvolvimento psicológico. Por exemplo, eles têm características físicas semelhantes à criança e já apresentam características do adulto; ao mesmo tempo que buscam o afastamento familiar, encontram na família sua referência de estabilidade; oscilam entre a necessidade de ter “opinião própria” e de ter apoio social. Com essas características e sem o exercício necessário da reflexão em torno do tema (com diferentes explicações religiosas e científicas) aqui abordado, possivelmente sentem-se incapazes de uma formulação problematizadora e optam pela explicação linear onde está presente apenas uma face das explicações que lhes foram oferecidas. Pode-se supor que suas opções estariam também influenciadas pelo que pensam ser, em seus contextos, o desejado. Os três discursos compunham o seu imaginário, mas sem a estabilidade de resposta articulada e bem compreendida, sem alcance da problematização do tema em foco. Dito de outra forma, sem haver uma rejeição à ótica científica ou religiosa, pode-se afirmar que a representação social dos estudantes referente aos temas investigados expressa 19 Foi feita transcrição do discurso dos estudantes por isso mantém-se a palavra teoria, embora de acordo com as convenções da biologia, tal conhecimento seja considerado uma hipótese. 58 um imaginário não monolítico de uma comunidade20 católica aberta. Os estudantes, nesse contexto, parecem não sofrer restrições declaradas no sentido de pensar e de se posicionar diante das questões religiosas e científicas que permeiam seu ambiente escolar e mesmo familiar, o que explicaria a presença dos três discursos como que disputando sua atenção. Em outras palavras, o conjunto dos dados da pesquisa parece mostrar que os alunos não se sentem declaradamente pressionados em direção a nenhum dos discursos. Simplesmente expressaram o que lhes tem sido oferecido: explicação científica e religiosa para os mesmos temas. Nos discursos de compatibilzação tanto do primeiro como do terceiro ano, percebe-se, que a plausibilidade da ciência não é comprometida ao se comparar esse discurso com as idéias expressas nos discurso científico. Seguem-se os fragmentos: [...]Ele (Deus) permitiu que todo aquele processo da “teoria de Oparin” e da seleção natural acontecesse, desde os primeiros seres até ocorrer a evolução e chegar até nós. [...] (DSC-2, Quadro 1, primeiro ano).[...] Com base na teoria de Oparin, os seres desenvolveram-se, não sendo criados pela força vital.[...](DSC-3, Quadro 1, primeiro ano).Em ambos há referência as idéias de Oparin, conteúdo estudado no primeiro ano. Não se percebe no discurso de compatibilização evidências de dúvidas ou cisões com as idéias de oparin sobre a origem da vida. O discurso de compatibilização traz as mesmas informações do discurso científico, incluindo, apenas, o controle de Deus sobre o processo comprovado por Oparin. No terceiro ano, podemos encontrar: [...]Ele(Deus) possibilitou o surgimento dos seres vivos, [...]que surgiram efetivamente como a biologia explica (com o resfriamento do planeta)[...] (DSC-2, Quadro 2, terceiro ano). [...]Os seres vivos passaram por diversas transformações, não surgiram “do nada”. A ciência explica muito bem a origem do universo. [...](DSC-3, Quadro 2, terceiro ano). Há em ambos referências claras a ciência e mais uma vez o discurso de compatibilização acrescenta apenas o controle de Deus sobre os eventos da evolução. No que se refere a origem do homem e da mulher pode-se destacar: [...]Ele (Deus) fez o mundo para que fosse possível a existência do homem e da mulher, mas que esses surgiram da evolução dos macacos. [...] (DSC-2, Quadro1, primeiro ano) e ainda [...] o homem vem do 20 O conceito de “comunidade” não é unívoco nas ciências sociais. Entretanto, nesse trabalho, o termo é usado no sentido de caracterizar o que se aproxima de uma unidade social: “grupo de pessoas dentro de uma área geográfica limitada que interagem dentro de instituições comuns e que possuem um senso comum de interdependência e integração.” (OUTHWAITE & BOTTOMORE, 1996). Note-se: tanto o grupo de estudantes investigados quanto seus pais e mães são católicos em sua grande maioria; os alunos freqüentam a escola há pelo menos três anos; a escola católica foi escolhida pelos pais para seus filhos tanto por afinidades religiosas quanto por oferecer boa qualidade de ensino; trata-se de escola de reconhecida tradição na cidade, onde antigos alunos matriculam seus filhos há pelo menos 30 anos; diferentes reuniões ou eventos (festivos, de objetivos escolares ou religiosos) na escola e também pela internet (há um sistema de informação da escola que funciona como possibilidade de comunicação entre famílias e escola) mantêm a regularidade das interações dos estudantes, suas famílias e profissionais da escola; a religião católica sobressai como relevante referência dos envolvidos. 59 macaco. Os seres vivos, as células foram evoluindo até constituírem o homem e a mulher. [...] (DSC-3, Quadro 1, primeiro ano). A citação da evolução biológica para explicar a origem do homem e da mulher, mesmo trazendo alguns comprometimentos nos conceitos expressos, encontrada no discurso de compatibilização, é muito similar às encontradas no discurso científico. No terceiro ano pode-se destacar: [...]Ele(Deus) criou bactérias que com a junção de outras, foi evoluindo até chegar a um organismo como o nosso, nós estamos em plena evolução[...](DSC-2, Quadro 2, terceiro ano).[...]O homem e a mulher surgiram de modificações em seres primitivos ao longo dos anos. [...] (DSC-3, Quadro 2, terceiro ano). No terceiro ano, nota-se que o discurso de compatibilização se aproxima muito do científico, com claras referências a processos evolutivos que tem como ponto de partida seres microscópicos ou primitivos, ou seja, inclui-se aí, informações da história evolutiva da espécie humana, juntamente com os demais seres vivos. Esses resultados demonstram que o discurso de compatibilização, expressa visões de mundo dos estudantes, relacionadas as suas crenças religiosas e associam a elas idéias científicas apresentadas pela escola, sem indícios de obstáculos para a aceitação da plausibilidade do conhecimento científico. Pode-se, portanto, destacar que há uma convivência entre essas duas idéias: Os alunos compreendem as novas concepções, mesmo que possam eventualmente não acreditar nelas. Embora a visão de mundo de um aprendiz possa acarretar dificuldades para a compreensão de idéias científicas, é razoável pensar-se que ela não representa necessariamente um obstáculo para tal compreensão. Em contrapartida, o domínio de um conceito científico também não implica necessariamente a rejeição de uma visão de mundo. (EL-HANI&BIZZO, 2002 p. 18). Além disso, a aprendizagem não pode ser entendida como um processo linear onde estudantes com visões de mundo diferentes, tenham igual tempo de aprendizagem, principalmente quando se trata de conteúdos com fortes enraizamentos culturais, como o tema pesquisado. Há de se pensar que inclusive os estudantes que ainda aderem ao discurso religioso, terão ainda mais um ano de estudos, onde conteúdos importantes relacionados a origem e evolução da vida, serão estudados. Isso poderá permitir avanços no entendimento das explicações científicas para origem e evolução da vida para esse conjunto de estudantes. A leitura dos discursos permitiu identificar, ainda, não só o uso de expressões técnicas da ciência para explicar o surgimento dos seres vivos como aproximações de compreensão da teoria evolutiva previstas para o nível de escolarização dos estudantes. E notou-se que os discursos do terceiro ano (à exceção do discurso religioso) trouxeram um aperfeiçoamento explicativo em relação ao primeiro ano. Isso demonstra que a escola contribuiu para avanços na aprendizagem dos estudantes. A seguir destacam-se fragmentos que constatam esses 60 aperfeiçoamentos nos discursos expressos sobre a origem dos seres vivos: com relação ao conceito da origem da vida, são feitas referências a condições que antecederam o surgimento da vida,[...]surgindo e evoluindo originado de reações no universo[...](Quadro 1, DSC-2, primeiro ano).Esta referência não expõe com clareza quais são essas reações no universo e nem relacionam as mesmas ao ambiente da Terra primitiva. No terceiro ano encontra-se o seguinte fragmento [...]eles surgiram efetivamente como a biologia explica (com o resfriamento do planeta[...] (Quadro 1, DSC-2, terceiro ano). Aqui são feitas referências a um planeta em transformação e que remete à compreensão das características ambientais do planeta necessárias ao surgimento da vida, note-se também[...]Os seres vivos foram criados a partir do agrupamento de moléculas ocorrido há bilhões de anos [...](Quadro 1, DSC-3, primeiro ano). Não há, ainda, referências mais evidentes às características do ser vivo como a célula, por exemplo. No discurso do terceiro ano encontra-se[...]Os seres vivos foram evoluindo a partir de uma célula [...] ( Quadro 1 DSC-3, terceiro ano), esse fragmento apresenta a célula21 como estrutura diferenciadora dos seres vivos, o que indica referência ao estudo de citologia, realizado no segundo ano. Note-se também que o conceito de acaso não é lembrado em nenhum discurso do primeiro ano, no entanto, pode-se destacar no discurso do terceiro ano clara referência[...]seres vivos que surgiram ocasionalmente22 aqui[...] (Quadro, 1 DSC-3, terceiro ano). Com relação a origem do homem e da mulher constatou-se, também, que os discursos do início do terceiro ano expõem explicação cientificamente mais completa sobre a origem do homem e da mulher do que os discursos do primeiro ano. [...] Ele fez o mundo para que fosse possível a existência do homem e da mulher, mas que esses surgiram da evolução dos macacos [...].(Quadro 2, DSC-2, primeiro ano). No terceiro ano [...] Ele criou bactérias que com a junção de outras, foi evoluindo até chegar a um organismo como o nosso (Quadro 2, DSC-2, terceiro ano). No terceiro ano, há elementos que permitem uma associação da origem do homem e da mulher com estruturas primitivas (bactérias) indicando uma base ancestral comum para todos seres vivos. Pode-se dizer que essa descrição se aproxima mais dos conhecimentos científicos apresentados para os estudantes, durante o estudo da 21 A diversidade de espécies teria sido criada pela bipartição repetida de linhagens desde um único ancestral comum de todos os seres vivos (RIDLEY, 2006). 22 Na evolução dos seres vivos influem concomitantemente fatores estocásticos (acontecimentos casuais, que ocorreram ao acaso, como a deriva genética) e determinísticos (acontecimentos que ocorrem como consequência da causalidade, por exemplo, a origem de novas espécies pela atuação da seleção natural). (FREIRE- MAIA , 1986). 61 filogenia, no segundo ano, do que aquele encontrado no discurso do primeiro ano, em que o macaco é destacado como ponto de partida para a evolução dos seres humanos. Nos discursos não há referências a mutações e variabilidade genética, estudados ao longo do segundo ano, isso pode indicar que os estudantes não associaram tais conceitos com os conhecimentos a respeito da origem e evolução dos seres vivos. Além disso, pode-se destacar algumas falhas de compreensão dos conhecimentos científicos, encontradas nos discursos de compatibilização e científico, como demonstrado a seguir: [...] o homem vem do macaco. Os seres vivos, as células foram evoluindo até constituírem o homem e a mulher. (Quadro 2, DSC-3, primeiro ano). O discurso pode ser interpretado como um processo direcionado em que as células foram evoluindo até constituírem o homem, ou seja, iniciam com formas de vida inferiores, indo para formas de vida superiores, dando um entendimento de progresso23. Isso compromete a compreensão da idéia científica de evolução biológica, como um processo sem direcionamento. Nesse mesmo discurso há a citação, repetida em outros discursos, de que “ o homem vem do macaco”. Essa afirmação é um equívoco freqüente entre os estudantes, que tanto não é cientificamente correta como carrega o ônus de acentuar conflitos entre os estudantes religiosos, ou seja, eles são levados a contra atacar “ o homem não veio do macaco porque ele foi feito à semelhança de Deus”. A idéia de que o homem veio do macaco é uma distorção da teoria evolutiva, que permeia as representações sociais acerca da origem do homem e da mulher em nossa sociedade. Tanto pode provocar o conflito dos estudantes com suas crenças religiosas como também se opor a compreensão atual da ciência, que estabelece o processo evolutivo como gradativo, sem direcionamentos e coloca a espécie humana apenas como mais um dos vários ramos evolutivos que originaram toda biodiversidade atual. A pergunta dezesseis24 inserida no segundo questionário teve por objetivo investigar as origens das idéias expressas nas respostas dos estudantes sobre a origem dos seres vivos e origem do homem e da mulher. Dos quarenta e três estudantes, investigados, três não responderam. A análise das respostas dos demais estudantes permitiu construir o quadro 3, que indica as referências encontradas nas respostas dos estudantes. 23 A evolução biológica é confundida como “progresso” das formas de vida inferiores às superiores, mas é impossível definir quaisquer critérios não arbitrários pelos quais tal “progresso” possa ser medido. A própria palavra “progresso” implica direção, se não mesmo o avanço em relação a um objetivo, mas nem direção nem objetivo são fornecidos pelos mecanismos da Evolução Biológica (Futuyma , 2003). 24 Você escreveu sua opinião quanto à origem do universo, dos seres vivos e do homem e da mulher, agora tente lembrar: como você chegou a essas opiniões? Há alguma fonte de informação pessoa, ou pessoas, que mais o ajudou, ou o ajudaram a ter sua opinião sobre a origem do universo, dos seres vivos e do homem e da mulher? Justifique. 62 Destacam-se no conjunto total dos estudantes muitas referências à família, e a religião, por outro lado a escola é pouco lembrada, o que pode demonstrar que as explicações científicas levadas pela escola, não tiveram muito impactos sobre os estudantes. Outro dado a ser observado é que as referências feitas à religião estão, em sua maioria, associadas aquelas feitas a família, o que pode demonstrar que as idéias religiosas expressas por esses estudantes, que aparecem no discurso religioso e de compatibilização, tem suas origens na religião e na família, principalmente. Isso é confirmado ao se analisar os dados obtidos na análise do perfil dos pais, onde se verifica que quase totalidade é religiosa e frequentam uma religião. Podese então apontar que há influências, tanto da religião como da família, nesses discursos e que ele é o resultado de construções sociais muito consolidadas, ligadas a socialização primária ( Guidens, 2004, Berger & Luckmann, 1999), envolvendo afetividade e referências a pessoas de grande representação para esses estudantes. Embora as explicações religiosas não tenham se traduzido em obstáculos para a aceitação das idéias científicas, pelos estudantes, certamente uma melhor compreensão desses conhecimentos, demandaria um trabalho mais detalhado, em que atividades pedagógicas voltadas para discussão dos campos da ciência e da religião, relacionadas a origem e evolução da vida, por exemplo, possibilitaria um maior convívio desses estudantes, com as idéias científicas, possibilitando maior reflexão sobre idéias que se contrapõe a outras tão arraigadas em suas vidas, isso poderia aumentar a compreensão dos estudantes das idéias científicas, melhorando assim o entendimento sobre a origem e evolução da vida. 63 6. DISCUSSÃO DOS RESULTADOS Foi possível identificar alguns pontos relevantes a serem cuidados no ensino dos temas investigados. Esses pontos podem ser divididos sob duas óticas: nos conteúdos específicos das explicações científicas e nas formas educacionais de lidar com eles na sala de aula. Não basta, apenas, que no âmbito do imaginário do conjunto dos estudantes, as explicações científicas se mostrem presentes, é necessário, também, que os estudantes tenham oportunidade, na escola, de elaborarem esse conjunto de conteúdos. Considera-se nessa discussão que a ótica dessa pesquisa foi a das representações sociais dos estudantes em relação ao tema pesquisado e, não, a das respostas, apenas, cientificamente corretas. Entretanto, a discussão permite que alguns dados trazidos pelos estudantes em seus discursos remetam a falhas de compreensão no que eles próprios associam como explicações vindas da ciência. Incluir tais elementos na discussão enriquece os resultados desse trabalho e pode ser útil como ponto de reflexão sobre o ensino de ciências. Nesse sentido, alguns pontos sobressaem dos resultados dessa pesquisa: 1 - A hipótese da evolução química, apresentada na escola em questão, para explicar a origem da vida, demanda entendimento, por parte dos estudantes, de conceitos trazidos de diferentes áreas da ciência e a Química é uma delas. Nesse campo destacam-se os conhecimentos necessários para compreender o surgimento de moléculas orgânicas, a partir de moléculas simples, que existiam na atmosfera primitiva. Alguns discursos citam as idéias de Oparin, no entanto, não fazem referências aos fatos demonstrados por ela, que envolvem o surgimento de moléculas orgânicas. Isso pode ser constatado no seguinte fragmento: [...] Com base na teoria de Oparin, os seres desenvolveram-se, não sendo criados pela força vital DSC-3, quadro 1, primeiro ano[...]. Um estudante do primeiro ano, que ainda não teve noções básicas sobre compostos orgânicos, pode ter dificuldades para compreender como se processam tais reações. Mesmo considerando que o professor de biologia, domina tal conhecimento, o limitado tempo oferecido para o aprendizado desses princípios químicos, poderá comprometer, ainda mais, o estudo da hipótese científica de origem da vida. Um trabalho conjunto entre os professores de química e biologia, poderia buscar estratégias que permitissem o ensino concomitante de conhecimentos similares nas duas disciplinas, promovendo, assim, uma aprendizagem mais integrada, permitindo ao estudante uma visão menos fragmentada das ciências. A revisão do planejamento aproximando os conteúdos 64 similares previstos para a biologia e para a química, possivelmente já auxiliaria o aprendizado dos estudantes. 2 - O surgimento da origem dos seres humanos se mostrou um ponto delicado no ensino da origem dos seres vivos. Os troncos ancestrais que antecedem o surgimento dos seres humanos mostraram-se nos discursos dos estudantes carentes de esclarecimentos. Há necessidade de melhor entendimento da história evolutiva humana. O exemplo mais expressivo desse ponto é a explicação de que “os homens vêm dos macacos”. Além de cientificamente errada, tal compreensão favorece possivelmente confrontos com as crenças religiosas que afirmam que os homens vieram da criação divina. Além disso, nessa explicação, há a ideia equivocada de processos evolutivos direcionados, tendo na espécie humana seu ápice. Outra possibilidade implícita nessa explicação, relaciona-se com a cultura antropocêntrica, muito arraigada em nossa sociedade. A correta explicação cientifica poderá levar os estudantes, sem confrontos desnecessários, a identificar o maior ou menor grau de parentesco, entre diversos seres vivos em clima de reflexão e possível aceitação. Sem tempo e dedicação a esclarecimentos desses aspectos, pode-se dificultar, desnecessariamente, tanto o processo de aprendizagem dos conteúdos científicos como a necessária distinção entre os campos da ciência e religião. Incluem-se, também, a ausência de associação da origem e evolução dos seres vivos a processos reprodutivos. Embora tenham estudado temas relacionados à genética, variabilidade genética e mutação, os estudantes não citam tais conceitos em seus discursos, o que também pode apontar uma demanda de trabalho docente. 3 - O reconhecimento de que os temas aqui tratados têm uma longa história de explicações que envolve um conhecimento arraigado na cultura, principalmente em um país de grande religiosidade como o Brasil é reforçado pelo perfil familiar da maioria desses estudantes, que é religioso. Ainda assim, a ciência aparece como uma explicação importante ao lado da explicação religiosa. Os discursos científicos e religiosos parecem igualmente relevantes para os estudantes e por isso estavam presentes (positivamente) no imaginário deles e, pela análise realizada, mostrando-se intercambiáveis. Isso pode explicar a presença clara e objetiva dos três discursos identificados nesta pesquisa. E este resultado pede, ou sugere , necessidade de acréscimo de atividades educacionais, isto é, atividades de impactos mais abrangentes na abordagem deste tema, tanto em relação à incorporação das diferentes disciplinas como a incorporação na sua discussão dos diferentes grupos sociais da escola ( estudantes de diferentes series, professores, coordenadores, pais e outros), que, direta ou indiretamente, estão envolvidos com as explicações para a origem e evolução da vida, essa pode ser uma 65 demanda implícita nesse contexto. Palestras e debates, relatos de pesquisa e avanços tecnológicos afins, feiras culturais, exposições de textos desenhos, etc., que envolvessem mais amplamente a escola, ou seja, atividades que provocassem o interesse e a exploração das hipóteses evolutivas propostas ao longo da história da ciência e integração das disciplinas envolvidas nesse tema como biologia, química, geografia e história, também seria importante. 4 - A indistinção entre os campos da ciência e da religião, isto é, a ausência de reflexão com os estudantes dos objetivos, conhecimentos e práticas religiosas e da ciência é um limitante do desenvolvimento dos mesmos. A leitura de seus discursos nos Quadros 1 e 2 permite tanto identificar pontos de dúvidas em relação aos temas abordados como oferece pistas para conduzir a reflexão em sala de aula. Observe-se os fragmentos de seus discursos [...]Ele permitiu que todo aquele processo da “teoria de Oparin” e da seleção natural acontecesse, desde os primeiros seres até ocorrer a evolução e chegar até nós [...](Quadro-1, DSC 2, primeiro ano). As construções trazidas pelos estudantes incluem a ciência e a religião e nelas pode ser feito o trabalho de distinção. A abordagem compreensiva desses discursos permite a introdução das diferenças epistemológicas entre ambas e o debate esclarecedor das questões dos estudantes. Em contextos de livre expressão do pensamento, os caminhos da convivência podem ser aprendidos porque favorecem abertura para compreensão das diferenças entre o alcance e os limites de ambas (explicações científica e religiosa) para o mesmo tema, o que pode aumentar a plausibilidade da explicação científica sem que se exclua a presença de crenças religiosas. 66 7. CONCLUSÃO Três discursos foram identificados na análise das representações sociais dos estudantes para origem dos seres vivos e origem do homem e da mulher: o religioso, o de compatibilização e o científico. Foi possível inferir que tais discursos são intercambiantes no conjunto dos estudantes porque foram identificados sinais de mobilidade entre os discursos ao lado de sinais de aprendizagem dos conteúdos científicos. Seus discursos, ao revelarem influências religiosas, não indicaram que estas eram obstáculos à apreensão dos conteúdos ensinados no âmbito das ciências e em alguns casos, como nos discursos de compatibilização, percebe-se a coexistência de explicações científicas com as religiosas, ou seja, as concepções trazidas pelos estudantes não comprometeram sua aceitação da plausibilidade da explicação científica. Entretanto foi possível identificar necessidade de maior trabalho docente no sentido de pensar estratégias para estimular a reflexão dos estudantes sobre as explicações dos temas em questão. Ainda que as influências familiares, no comportamento das crianças e adolescentes sejam relevantes, pode-se questionar o fato de ter sido a escola tão pouco mencionada como fonte de influência para as visões dos estudantes em relação à origem dos seres vivos e do homem e da mulher, um tema que lhe cabe tratar, seja por sua importância cultural, seja por ser matéria de importantes estudos científicos. O conjunto dos resultados da pesquisa relatada permite afirmar que há potencial no âmbito estudantil pesquisado para maior crescimento no que diz respeito à compreensão das explicações científicas para a origem dos seres vivos e também do homem e da mulher. A presença das crenças religiosas no perfil cultural deste grupo não se mostrou um elemento de obstáculo a isso, mas os estudantes parecem precisar de mais tempo e atenção docente no que podemos chamar de demandas implícitas de seus discursos, ao longo de seus anos no ensino médio. Diante de um tema tão carregado de história cultural em seus sentidos, particularmente de sentidos religiosos, poderíamos perguntar se o conjunto das atividades oferecidas aos estudantes em cerca de seis horas de aula, a cada ano, para se discutir o tema origem e evolução da vida nos dois anos pesquisados seria suficiente, mesmo que se considere que, esses estudantes, terão mais algumas horas pela frente, no terceiro ano para o estudo da teoria evolutiva. Os resultados sugerem que não. 67 8. REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS AGUIAR JR, Mudanças conceituais (ou cognitivas) na educação em ciências. Revisão crítica e novas direções para a pesquisa: Faculdade de educação da UFMG, 2001. 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No início do questionário há um espaço destinado para a identificação do aluno (Nome completo), mas você tem toda a liberdade de preferir não colocar seu nome. Caso você queira se identificar, fique tranqüilo, suas respostas não serão expostas a outras pessoas, apenas poderei conversar com você em outro momento, se for necessário à pesquisa e se você aceitar. Se você tiver alguma dúvida, pode perguntar. Desde já agradeço a sua participação. Paulo Roberto de Araújo Porto Nome completo (opcional) __________________________________________ Sexo: ( ) masculino ( ) feminino Idade: ____________ Escola que estuda: _________________________ Estuda há quanto tempo nesta Escola? a)( ) Menos de 1 ano b)( ) Mais de dois anos c)( ) Sempre estudei aqui Para quem marcar a letra a indique o nome da Escola que estudava anteriormente ___________________________________________________________________________ 1º) Na sua opinião, Deus foi o criador, isto é, deu origem ao universo? Sim ( ) Justifique: Não ( ) Justifique: ________________________________ _____________________________________ ________________________________ _____________________________________ ________________________________ _____________________________________ ________________________________ _____________________________________ ________________________________ _____________________________________ ________________________________ _____________________________________ 71 2) Na sua opinião, Deus foi o criador, isto é, deu origem aos seres vivos? Sim ( ) Justifique Não ( ) Justifique ________________________________ _____________________________________ ________________________________ _____________________________________ ________________________________ _____________________________________ ________________________________ _____________________________________ ________________________________ _____________________________________ ________________________________ _____________________________________ ________________________________ _____________________________________ ________________________________ _____________________________________ 3) Na sua opinião, Deus foi o criador, isto é, deu origem ao homem e a mulher? Sim ( ) Justifique Não ( ) Justifique: ________________________________ _____________________________________ ________________________________ _____________________________________ ________________________________ _____________________________________ ________________________________ _____________________________________ ________________________________ ___________________________________ 4º) Na sua opinião, a origem do universo pode ser explicada sem a participação de Deus? Sim ( ) Justifique: Não ( ) Justifique: ________________________________ _____________________________________ ________________________________ _____________________________________ ________________________________ _____________________________________ ________________________________ _____________________________________ 5º) Na sua opinião, a origem dos seres vivos na Terra, pode ser explicada sem a participação de Deus? Sim ( ) Justifique Não ( ) Justifique ________________________________ _____________________________________ ________________________________ _____________________________________ ________________________________ _____________________________________ ________________________________ _____________________________________ 72 6º) Na sua opinião, a origem do homem e da mulher na Terra, pode ser explicada sem a participação de Deus? Sim ( ) Justifique Não ( ) Justifique __________________________________ __________________________________ __________________________________ __________________________________ __________________________________ __________________________________ __________________________________ __________________________________ 7º) Você acredita em Deus? Sim ( ) Não ( ) Justifique Como você definiria Deus? __________________________________ __________________________________ __________________________________ __________________________________ __________________________________ __________________________________ __________________________________ __________________________________ __________________________________ __________________________________ 8º)Você tem religião? Sim ( ) Não ( ) Caso afirmativo assinale o espaço que corresponde a sua religião ( ( ( ( ( ) Budismo ( )Candomblé ( )Católica )Judaísmo ( )Kardecismo ( )Messianismo )Mórmon ( )Umbanda ( )Wicca )Evangélico - qual denominação?_______________________________ )Outra_____________________________________________________ 9º) Se você tem religião, você freqüenta com regularidade e espontânea vontade a sua igreja, templo, terreiro, etc. Sim ( ) Não ( ) 10º) Você participa de alguma atividade relacionada com a sua igreja? Sim ( ) Não ( ) Qual?______________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ 73 11º) Seu pai tem religião? Sim ( ) Não ( ) Qual?___________________________________________ 12º) Sua mãe tem religião? Sim ( ) Não ( ) Qual?____________________________________________ 13º) Seus pais freqüentam a igreja, templo, terreiro, etc., com regularidade? (semanalmente) ( ) Sim ambos freqüentam ( ) Não eles não freqüentam ( ) Apenas minha mãe freqüenta ( ) Apenas meu pai freqüenta 14º) Indique a formação escolar de seu pai ou responsável. ( ) Ensino Fundamental ( ) Ensino Médio ( ) Graduação ( ) Pós- ) Graduação ( ) Pós- graduação 15º) Indique a formação escolar de sua mãe ou responsável. ( ) Ensino Fundamental graduação ( ) Ensino Médio ( 73 74 ANEXO II Questionário aplicado em Fevereiro de 2009 QUESTIONÁRIO II Caros estudantes; Como vocês devem lembrar, participo de um projeto de pesquisa na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e gostaria de contar com a colaboração de vocês através do preenchimento deste questionário. Queremos conhecer melhor nossos estudantes do Ensino Médio, para melhorar a qualidade de nossas escolas. Por isso estou aqui novamente e busco conhecê-los um pouco mais. As perguntas são semelhantes porque estou acompanhando vocês ao longo do ensino médio. Quero que vocês saibam que apenas eu lidarei com os questionários, ou seja, este questionário não está relacionado com nenhuma atividade desta escola. Esta escola apenas permitiu que a pesquisa fosse feita aqui também. No início do questionário há um espaço destinado para a identificação do aluno (Nome completo), mas você tem toda a liberdade de preferir não colocar seu nome. Ou seja, o questionário pode ser anônimo. Se você tiver alguma dúvida, pode perguntar. Desde já agradeço muito a sua participação. Paulo Roberto de Araújo Porto Nome completo (opcional) __________________________________ Sexo: ( ) masculino ( ) feminino Idade:____________ Escola que estuda: _ ____________________ Estuda há quanto tempo nesta Escola? a)( ) Menos de 1 ano b)( ) Mais de dois anos c)( ) Sempre estudei aqui Para quem marcar a letra “a” indique o nome da Escola que estudava anteriormente ___________________________________________________________________________ 1º) Na sua opinião, Deus foi o criador, isto é, deu origem ao universo? Sim ( ) Justifique: Não ( ) Justifique: ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ _______________________________________________ 2) Na sua opinião, Deus foi o criador, isto é, deu origem aos seres vivos? 74 75 Sim ( ) Justifique Não ( ) Justifique __________________________________ __________________________________ __________________________________ __________________________________ __________________________________ __________________________________ __________________________________ _______________________________ 3) Na sua opinião, Deus foi o criador, isto é, deu origem ao homem e a mulher? Sim ( ) Justifique Não ( ) Justifique: ________________________________ _____________________________________ ________________________________ _____________________________________ ________________________________ _____________________________________ ________________________________ _____________________________________ _______________________________ _____________________________________ 4º) Na sua opinião, a origem do universo pode ser explicada sem a participação de Deus? Sim ( ) Justifique: Não ( ) Justifique: ________________________________ _____________________________________ ________________________________ _____________________________________ ________________________________ _____________________________________ ________________________________ _____________________________________ 5º) Na sua opinião, a origem dos seres vivos na Terra, pode ser explicada sem a participação de Deus? Sim ( ) Justifique Não ( ) Justifique __________________________________ __________________________________ __________________________________ __________________________________ __________________________________ __________________________________ __________________________________ __________________________________ 75 76 6º) Na sua opinião, a origem do homem e da mulher na Terra, pode ser explicada sem a participação de Deus? Sim ( ) Justifique ( )Não Justifique __________________________________ __________________________________ __________________________________ __________________________________ __________________________________ __________________________________ __________________________________ ____________________________ 7º) Você acredita em Deus? Sim ( ) Como você definiria Deus Não ( ) Justifique ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ _____________________________ 8º)Você tem religião? Sim ( ) Não ( ) Caso afirmativo assinale o espaço que corresponde a sua religião ( ( ( ( ( ) Budismo ( )Candomblé ( )Católica )Judaísmo ( )EspiritismoKardecista ( )Messianismo )Mórmon ( )Umbanda ( )Wicca )Evangélico - qual denominação?_______________________________ )Outra_____________________________________________________ 9º) Se você tem religião, você freqüenta com regularidade e espontânea vontade a sua igreja, templo, terreiro, etc. Sim ( ) Não ( ) 10º) Você participa de alguma atividade relacionada com a sua igreja? Sim ( ) Não ( ) Qual?______________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ 11º) Seu pai tem religião? 76 77 Sim ( ) Não ( ) Qual?___________________________________________ 12º) Sua mãe tem religião? Sim ( ) Não ( ) Qual?___________________________________________ 13º) Seus pais frequentam a igreja, templo, terreiro, etc., com regularidade? ( ) Sim, ambos freqüentam. ( ) Não, eles não frequentam. ( ) Apenas minha mãe freqüenta. ( ) Apenas meu pai freqüenta. 14º) Indique a formação escolar de seu pai ou responsável. ( ) Ensino Fundamental ( ) Ensino Médio ( ) Graduação ( ) Pós-graduação. 15º) Indique a formação escolar de sua mãe ou responsável. ( ) Ensino Fundamental ( ) Ensino Médio ( ) Graduação ( ) Pós-graduação. 16º) Você escreveu sua opinião quanto à origem dos seres vivos e do homem e da mulher, agora tente lembrar: como você chegou a essas opiniões? Há alguma fonte de informação, pessoa, ou pessoas, que mais o ajudou, ou o ajudaram a ter sua opinião sobre a origem dos seres vivos e do homem e da mulher? R: ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ _________________________________________________________________________ 77 78 ANEXO III Quadro 4 DSC Origem dos seres vivos - Estudantes identificados nos dois questionários Questão 2 Na sua opinião, Deus foi o criador, isto é, deu origem aos seres vivos? Idéia Central(IC) 1- Sim, DSC – Primeiro ano. DSC - Início do terceiro ano. 2009 2007 Por que Deus fez a Terra para que Por que desde que nos entendemos por Deus fez a nós seres vivos, vivêssemos Terra para Fomos criados conhecendo a história criou o universo. A terra foi criada e que nós da bíblia, a história de Deus e mesmo Deus colocou nela todas as coisas. seres vivos agora vivêssemos desenvolvidas nela. Deus continuamos acreditando que Deus destino. Sem Deus não há vida (36%) criou tudo. foi o criador, pois ainda existem conhecendo as pela nela. gente e de acordo com a bíblia, Deus teorias Deus foi um ser que criou tudo e tem o ciência, poder de mudar e consertar nosso pontos que a ciência não explica. (36%) 2- Deus A partir de um ser vivo colocado na Não sabemos de onde viemos, mas por possibilitou terra por Deus, outros seres foram meio da evolução ou do criacionismo, o surgimento surgindo, ou seja, deu os principais encontramos maneiras dos seres de Deus meios para a natureza seguir, continuar. nos criado. Deus criou ter tanto o vivos mas Deus permitiu que todo aquele processo universo quanto as propriedades para que eles da “teoria de Oparin” e da seleção existir surgiram natural acontecesse. (32%) nele, propriedades efetivamente seres e com essas foram vivos foram evoluindo e os aumentando. como a Acreditamos que Ele possibilitou o biologia surgimento dos seres vivos mas que explica eles surgiram efetivamente como a biologia explica ( com o resfriamento do planeta)(24%) 3vivos Os seres A teoria científica tem mais De acordo com as teorias científicas, foram possibilidades. Com base na teoria de várias partículas se juntaram há criados a partir Oparin, os seres vivos bilhões de anos atrás, a partir da do desenvolveram-se, não sendo criados existência de água na Terra formando agrupamento pela força vital. Os seres vivos foram os seres. A criação dos seres vivos 78 79 de moléculas, criados a partir do agrupamento de ocorreu naturalmente por causa dos ocorridos há moléculas, ocorridos há bilhões de efeitos bilhões de anos. anos. do big-bang, devido à modificação dos seres que surgiram (32%) ocasionalmente aqui. Os seres vivos foram evoluindo a partir célula que passou por processos químicos. Os seres vivos por diversas de uma passaram transformações, não surgiram “ do nada” e sim a partir de reações químicas. ( 40%) 79 80 ANEXO IV Quadro 5: DSC Estudantes identificados nos dois questionários origem do homem e da mulher? Pergunta 3 Na sua opinião, Deus foi o criador, isto é, deu origem ao homem e à mulher? Idéia DSC - Início do terceiro ano. DSC – Primeiro ano. Central (IC) 1- Deus criou Se ele foi o criador dos seres vivos, A terra foi criada e Deus colocou um ser mais logo foi o criador também do homem nela todas as coisas. Após a criação parecido e da mulher. Deus colocou na Terra dos seres vivos Deus criou com Ele e um homem e uma mulher, e a partir homens em geral. Deus nos fez sua que tivesse deles, outros homens capacidade mulheres foram surgindo. Deus criou aceitar que várias células foram se de pensar e um ser mais parecido com Ele e que desenvolvendo durante milhões de ter tivesse capacidade de pensar e ter anos sentimento. sentimento. Mesmo conhecendo os e outras imagem semelhança. É difícil de para que chegasse até ao as homem. (44%) teorias desenvolvidas pela ciência, acreditamos que Deus foi o criador, pois ainda existem pontos que a ciência não explica. (52%) 2- Ele deu Por meio do criacionismo ou da Não sabemos de onde viemos, mas origem a um evolução. Quem sabe se a maneira por ser, que de Deus criar o homem não foi criacionismo, encontramos maneiras depois foi se através da evolução? Aconteceu por de Deus ter nos criado. A evolução aprimorando um processo evolutivo e este foi pode ter sido o modo de dar origem e tornou o iniciado por Deus. Ele deu origem a ao homem que Ele escolheu Ele criou homem e a um mulher. aprimorando e tornou o homem e a foi evoluindo até chegar em um ser, que depois foi meio da evolução o do se bactérias, onde com a junção de outras mulher. Deus não criou o homem organismo como o nosso, nós estamos com barro como se diz, achamos que em ele fez o mundo plena evolução. Com essa para que fosse evolução dos seres vivos, as células, possível a existência do homem e o macaco deu origem ao homem. da mulher, pois esses surgiram da (20%) 80 81 evolução dos macacos. (24%) 3- Os seres Não acreditamos vivos, na versão que Os seres vivos passaram por diversas as Deus criou o homem e a mulher de transformações, não surgiram “ do células foram sua costela. Acho isso fanatismo, fé- nada”. O homem e a mulher surgiram evoluindo ate cega. Os seres vivos, as células de modificações em seres primitivos constituírem foram evoluindo ate constituírem o ao longo dos anos. Eles evoluíram de o homem e a homem e a mulher. O homem e a outras mulher. mulher espécies espécies. Evoluímos se originaram através de macaco. Acreditamos do que foi de que se desenvolveram. acordo com a teoria de Darwin. (36%) Com base na teoria de Oparin, os seres vivos desenvolveram-se, não sendo criados pela força vital. (24%) 81 82 ANEXO V Quadro 6: referências dos estudantes sobre as fontes que os influenciaram na respostas. Nº dado ao Referência estudante a escola 01 02 03 04 05 06 07 08 09 10 11 12 13 X 14 15 16 17 18 19 20 21 X 22 X 23 24 X 25 X 26 X 27 28 29 30 X 31 X 32 33 X 34 X 35 36 37 X 38 39 40 X Total 12 Percentual 14% Referência a religião Referência a família Referência Referência Conclusões aos amigos a mídia próprias X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X 18 21% X 25 29% X X X 07 8% 11 13% 13 15% 82