PENSANDO O FORTALECIMENTO DE MICRO E PEQUENOS EMPREENDIMENTOS APÍCOLAS EM MATO GROSSO DO SUL [email protected] APRESENTACAO ORAL-Desenvolvimento Rural, Territorial e regional DANIELLE GUIMARÃES SILVA COIADO1; HENRIQUE GUIMARÃES SILVA2; CLAUDIA DE MATOS FERNANDES3; MARISTELA DE OLIVEIRA FRANÇA4; CLEONICE A LE BOURLEGAT5. 1,2,3,4.UNIVERSIDADE CATÓLICA DOM BOSCO, CAMPO GRANDE - MS - BRASIL; 5.UCDB, CAMPO GRANDE - MS - BRASIL. PENSANDO O FORTALECIMENTO DE MICRO E PEQUENOS EMPREENDIMENTOS APÍCOLAS EM MATO GROSSO DO SUL Grupo de Pesquisa: DESENVOLVIMENTO RURAL, TERRITORIAL E REGIONAL Resumo O presente artigo teve como objetivo uma análise do contexto de mercado e de produção que vem possibilitando abertura de oportunidades aos apicultores brasileiros de micro e pequenos empreendimentos. Possível de ser explorado por micro e pequenos produtores, a atividade harmoniza-se com os conceitos sustentabilidade e desenvolvimento local. Do ponto de vista metodológico, foram definidos a priori, o conceito de Arranjo Produtivo Local nos processos de inclusão social e desenvolvimento local. Esse referencial serviu de parâmetro na interpretação da situação dos apicultores de Mato Grosso do Sul, que vivenciam o contexto das oportunidades dadas por um mercado que se mostra favorável à exportação do mel e derivados. Palavras-chaves: comércio e sistemas produtivos do mel, Arranjo Produtivo Local, Desenvolvimento Local, Desenvolvimento Territorial, Mato Grosso do Sul. Abstract This article has the purpose to analyze the market context and production which has enabled the opening of opportunities for Brazilian beekeepers of micro and small enterprises. It is possible to be explorated by micron to small producers. This activity matches with the concepts of sustainability and local development. From the methodological view, they were defined a priori such as the concept of Local Productive Arrangement on the processes of social inclusion and local development. This served as a reference parameter in the interpretation of the situation of beekeepers in Mato Grosso do 1 Campo Grande, 25 a 28 de julho de 2010, Sociedade Brasileira de Economia, Administração e Sociologia Rural Sul, who experience the context of opportunities provided by a market that is in an agreement of the exportion of honey and derivatives. Keywords: trade and production systems of honey, Local Productive Arrangement, Local Development, Territorial Development, Mato Grosso do Sul 1. 1.INTRODUÇÃO A apicultura é uma atividade praticada no país, desde o século XIX, embora tenha se mantido, até recentemente, voltada ao abastecimento interno e com produções concentradas nos Estados do Sudeste e Sul. A euforia da exportação tem se apresentado como fenômeno recente, mas com crescimento significativo em área e quantidade. Além disso, a apicultura tem se destacado como atividade que possibilita o processo de inclusão de agricultores de pequenas e médias propriedades, pois uma de suas características tem sido o baixo custo de implantação de apiários. Destaque-se que essa atividade exige adoção de uma prática conservacionista para se ter sucesso no negócio, pois a abelha melífera é polinizadora, favorecendo a manutenção das matas. Floresta conservada é a principal fonte de néctar paras as abelhas. Mato Grosso do Sul, ainda que exiba fortes potencialidades naturais para se fortalecer no setor de produção de mel e derivados, vem apresentando crescimento e exportação ainda tímidos diante de outros Estados brasileiros. O presente artigo teve como objetivo uma análise do contexto de mercado e de produção, que vem possibilitando abertura de oportunidades aos apicultores brasileiros de micro e pequenos empreendimentos, e apontar as exigências dos sistemas produtivos e os Estados que já vêm usufruindo dessas oportunidades, para então tentar refletir sobre as condições como Mato Grosso do Sul vêm se inserindo nessa produção de natureza comercial. 2. METODOLOGIA Do ponto de vista metodológico, foram definidos a priori, o conceito de Arranjo Produtivo Local e o efeito das articulações de micro e pequenos com as organizações de apoio de diversas origens nos processos de inclusão social e desenvolvimento local, com base na análise de literatura. Esse referencial serviu de parâmetro na interpretação da situação dos apicultores de Mato Grosso do Sul, que vivenciam o contexto das oportunidades dadas por um mercado que se mostra favorável à exportação do mel e derivados. A originalidade do trabalho está exatamente no fato de se partir de uma reflexão contida num conceito teórico para se analisar uma situação vivida na realidade de um território – o Mato Grosso do Sul- e com considerações que afetam o destino de regiões mais periféricas 2 Campo Grande, 25 a 28 de julho de 2010, Sociedade Brasileira de Economia, Administração e Sociologia Rural e marginalizadas do Brasil, constituídas por agriculturas familiares de diversas origens, inclusive aquelas que se estruturaram em áreas destinadas à reforma Agrária. 3. ARRANJO PRODUTIVO LOCAL NO FORTALECIMENTO DE MICRO E PEQUENOS EMPREENDIMENTOS No atual mercado globalizado e altamente competitivo, o associativismo e a formas complementares de articulação em rede têm aparecido como soluções sistêmicas estratégicas no fortalecimento de micro e pequenos empreendimentos, especialmente daqueles que se interessam por se inserir no mercado internacional. O mundo em rede, frente a uma interconectividade facilitada pelos atuais meios de transporte e comunicação cada vez mais ágeis, amplia a oportunidade de participação de micro e pequenos empreendimentos em mercados de exportação, embora o faça num ambiente de comercialização mais complexo e sujeito a um número maior de riscos (AMATO NETO, 2000). Nessas condições, o desempenho de tais empreendimentos pode se mostrar mais efetivo, quando eles conseguem se articular num campo de forças no próprio território de origem. Assim, mais do que esforços verticalizados no reforço a cadeias produtivas que propiciem agregação de valor ao produto final, é preciso adotar políticas de articulação horizontal. Uma empresa individual, principalmente de pequeno porte, de acordo com Casarotto Filho e Pires (1998) apresenta menores chances de se inserir em marcados globalizados quando atua isoladamente. Nesse novo modo de olhar para a competitividade, a idéia de força de uma empresa individual é substituída por aquela da força de um território produtivo. Este nasce da articulação cooperativa dos empreendimentos com processo de aprendizagem e inovação estabelecidos de forma coletiva, envolvendo o apoio de organizações locais. A organização produtiva, desse modo, é vista como um ambiente de negócio (CASAROTTO FILHO & PIRES, 1998). O sucesso do dinamismo inovativo das redes de pequenas e médias empresas italianas, nas décadas de 80 e 90, serviu de exemplo ao mundo, instigando pesquisadores na compreensão desse fenômeno. Estes foram se inspirar na clássica teoria econômica enunciada por Alfred Marshall para explicar o efeito de proximidade no desempenho de aglomerações de pequenas empresas no distrito industrial inglês no final do século XIX. Nessa perspectiva de cooperação a enraizada na realidade do cotidiano vivido, o desempenho econômico se deslocou da empresa para um conjunto de empresas correlatas interagindo num mesmo território. Um das vantagens dessa articulação está no fato das empresas se encontrarem inseridas na cultura local, podendo juntas se nutrir dos recursos ali existentes - sejam os naturais e os construídos. Elas também podem se abastecer de idéias inovadoras ocorridas fora do local, detectadas por seus vários parceiros em diferentes experiências. Ao se articularem na busca de objetivos comuns num ambiente de interesse coletivo, tais empresas e organizações constroem em conjunto um cenário desejado de futuro para a vida local, ao mesmo tempo em que se fortalecem individualmente. 3 Campo Grande, 25 a 28 de julho de 2010, Sociedade Brasileira de Economia, Administração e Sociologia Rural Para Raffestin (1993), nesse processo se constrói território. Ele nasce exatamente da rede de relações produzidas nessas articulações em que os atores apontem objetivos de interesse comum. As estratégias de articulação conduzem à reapropriação dos espaços vividos com o intuito de se trazer sempre novas respostas adequadas às particularidades locais, no atendimento do interesse comum. Para Santos (1994), mais importante que o território é compreender a forma como ele é utilizado por seus integrantes, que em cada ação coletiva no processo de apropriação territorial revela novas territorialidades. As forças de um território local, não seriam apenas de natureza econômica, mas estariam relacionadas à totalidade das relações sociais ali estabelecidas. Diante da proximidade, quando as relações são intensas, a força da solidariedade se amplia e amplia o campo de forças sociais (SANTOS, 1996). Para Pecqueur (2005) a força do território, não se dá apenas pela articulação dos atores econômicos, mas ocorre porque essas relações se apóiam na trama social das instituições locais. Essa cooperação no território vivido se opera por sentimento de conivência e laços de conhecimento, gerando pactuações na melhoria da vida em comum. O conceito de Arranjo Produtivo Local nasceu dessa idéia de forças empresariais de natureza territorial, baseada em relações entre empresas apoiadas por organizações locais. Foi definido por Lastres e Cassiolato (2003), como um conjunto de atores econômicos, políticos e sociais, localizados em um mesmo território, que desenvolvem atividades correlatas de produção, interação, cooperação e aprendizagem. Incluem-se nessa rede interativa tanto as empresas de produção de bens ou serviços, como as organizações de apoio. Entre essas últimas estão, por exemplo, cooperativas, associações, órgãos de pesquisa, de promoção, de tecnologia, de financiamento, entre outros. Os atores interagem no espaço coletivo vivido no cotidiano em torno de uma atividade produtiva principal. Incluem-se aí empresas correlatas e complementares - fornecedoras de insumos e equipamentos, prestadoras de consultoria e serviços, comercializadoras, clientes, entre outros - em um mesmo espaço geográfico. E as relações cooperativas são alimentadas por sentimentos de conivência e vínculos culturais construídos no convívio desse conjunto de empreendimentos com as instituições locais, que procuram aprender juntos, para encontrar respostas adequadas ao lugar, movidos pelos mesmos compromissos de um futuro em comum (PECQUEUR, 2005). A força do território construído como Arranjo Produtivo Local (APL) ampara-se de um lado, na sinergia dos processos interativos, do sentimento de vizinhança, dos compromissos assumidos coletivamente e, de outro, na capacidade que esses atores e organizações demonstram por aprenderem juntos a procurarem as respostas mais adequadas à sua situação vivida e nos devidos contextos em que todos se inserem (LASTRES & CASSIOLATO, 2003). A particularidade desse desempenho coletivo realizado em âmbito local é que os resultados implicam tanto em desenvolvimento econômico, como em desenvolvimento local. O desenvolvimento local é interpretado, nas afirmações de Ávila (2000), como um processo de criação de competências para sair de uma determinada situação e que se constrói nessas relações estabelecidas no próprio território de vida. A iniciativa parte do protagonismo dos próprios atores e em função de um futuro desejado coletivamente. Trata-se de um processo de natureza endógena em que forças se manifestam tanto entre indivíduos, como entre 4 Campo Grande, 25 a 28 de julho de 2010, Sociedade Brasileira de Economia, Administração e Sociologia Rural unidades coletivas. O desenvolvimento local, no entanto, emerge da cultura da solidariedade e ocorre quando, nesse processo interativo, a coletividade é capaz de interiorizar e fazer uso de capacidades nele geradas, para agenciar e gerenciar os recursos disponíveis, em acordo com suas necessidades e aspirações. Para Santos (1987), o território é o lugar do “acontecer”, onde a vida se desenvolve em todas suas dimensões. Nele emerge a identidade tecida pela história e pela cultura, e é onde o ser humano se comunica com o resto do mundo (SANTOS, 1987). É justamente da coesão social, nascida da vida em comum que se constitui o campo de forças, tanto para se opor às adversidades externas, como para poder chegar a soluções criativas no enfrentamento de problemas comuns (SANTOS, 1996). 4. ORIGEM E TRAJETÓRIA DA PRODUÇÃO MELÍFERA NO BRASIL ATÉ 2004 Existem hoje no mundo cerca de 20 mil espécies de abelha, embora se acredite na existência de umas 40 mil espécies e apenas 2% delas são sociais e produzem mel (PEREIRA et al, 2003). Entre as espécies produtoras de mel, as do gênero Apis são as mais conhecidas e difundidas. As abelhas desse gênero que permaneceram na África e Europa deram origem a diversas subespécies e foram introduzidas no continente Americano e na Oceania no período da colonização (Idem, 2003). A produção de mel no Brasil data do século XIX, com a exploração de colméias de abelhas de origem européias (Apis mellifera carnica, Apis mellifera lingustica e Apis mellifera mellifera), destinada basicamente ao mercado interno (USAID/BRASIL, 2006). As primeiras colméias de abelhas melíferas do gênero APIS, possivelmente subespécies Apis mellifera mellifera (abelha preta ou alemã), teriam chegado da Europa entre 1839 e 1840, vindas de Portugal e Espanha (PEREIRA et al, 2003). Outras raças de Apis mellifera (alemã e italiana) teriam sido introduzidas entre os anos 1870 a 1880 no país, nas regiões Sul e Sudeste, por imigrantes europeus, sendo mantidas como colméias de fundo de quintal para atender apenas as necessidades básicas de consumo (Idem, 2003).. Em meados de 1950, a apicultura brasileira foi acometida de doenças e pragas (nosemose, acariose e cria pútrida européia), fato que dizimou 80% das colméias. Por esse motivo, o Ministério da Agricultura aprovou, em 1956, a chegada de colméias africanas produtivas mais resistentes a doenças, trazidas por um conhecido geneticista, num apiário experimental de Rio Claro/SP, para serem testadas e comparadas com abelhas italianas e pretas (PEREIRA et al,2003). Entretanto, por acidente, as abelhas africanas, consideradas agressivas, escaparam e se disseminaram, tornando-se as “pragas da apicultura brasileira”. Foram vistas como abelhas assassinas, atraindo campanhas para sua erradicação (Idem, 2003). Esse fato causou o abandono da prática pelos apicultores amadores e exigiu dos profissionais técnicas de manejo para controlar sua agressividade, entre elas o cruzamento de rainhas italianas com zangões africanos, obtendo-se assim “abelhas africanizadas” (Idem, ibidem). Atualmente, essas abelhas híbridas são consideradas mais tolerantes a pragas e doenças e a exploração comercial dessas abelhas passou a ter destaque a partir dos anos 70.Nos 80, a criação de abelhas africanizadas passou a crescer, expandindo-se para as 5 Campo Grande, 25 a 28 de julho de 2010, Sociedade Brasileira de Economia, Administração e Sociologia Rural regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste. O aumento da produção e produtividade das colméias caracterizou a chamada “explosão doce” (SOARES, 2006). Mais recentemente, começou a surgir interesse por parte de alguns apicultores de trabalhar também com abelhas sociais nativas, pertencentes à subfamília Meliponinae, chamadas popularmente de “abelhas indígenas sem ferrão”. Existem em torno de 200 espécies melíferas e a maioria constrói suas colméias em troncos ou galhos de árvores, ou ainda em muros e paredes de alvenaria, como a jataí, manduri, timirim, entre outras. O interesse não ocorre apenas pelo mel e pelo fato de não serem agressivas, mas também porque essas são abelhas contribuem para a polinização. Portanto, contribuem para a recuperação do ambiente, na medida em que favorecem a reprodução de sementes de diversas plantas. A produção brasileira do mel manteve-se relativamente estabilizada de 1996- a 2002, com uma leve inflexão entre 2003 e 2004 (Gráfico 1). A informalidade na venda do mel tem dificultado a avaliação estatística do consumo nacional, motivo pelo qual Salomé (2008), estabeleceu o cálculo do “consumo aparente” do mel: soma da produção interna e importação diminuída das exportações. Até 2000, observa-se um consumo aparente de mel maior do que a produção. Nesse período o Brasil precisou recorrer a importações dos países vizinhos Uruguai e Argentina, mas a partir de 2000, produção e consumo tornaramse praticamente equivalestes (SALOMÉ, 2008). Gráfico 1. Produção brasileira de mel (1996-2004) Fonte: MDIC, IBGE (2005) 5. MEL NO COMÉRCIO INTERNACIONAL E INSERÇÃO DO BRASIL 6 Campo Grande, 25 a 28 de julho de 2010, Sociedade Brasileira de Economia, Administração e Sociologia Rural O mercado do mel caracteriza-se por dois produtos: o mel de mesa consumido em natura e o mel industrial utilizado para indústria alimentícia e de cosméticos. Até 2002, a produção mundial de mel vinha se mantendo estável no mundo, numa média de 1.200 mil toneladas/ano, sendo que cerca de 30% dessa produção era destinada ao mercado internacional. Entre os maiores produtores estavam por ordem de importância, a China, Estados Unidos, Argentina e Turquia. Como grandes importadores apareciam a Alemanha, os Estados Unidos, Reino Unido, Japão e França, que reuniam juntos em torno de 70% das compras (USAID/ BRASIL, 2006). O mercado europeu foi por longo tempo abastecido pela China, enquanto que no continente americano, os EUA vinham sendo abastecidos pela Argentina (PEREIRA & LOPES, 2003). A Federação Russa e o Japão sempre foram importantes consumidores e igualmente grandes produtores (Idem, 2003). As grandes mudanças no mercado internacional do mel ocorreram entre 2002 e 2004, quando EUA e União Européia suspenderam as importações de mel da China, em função dos altos índices de resíduos do antibiótico clorofenicol por eles detectados no produto. Por outro lado, os EUA suspenderam as importações da Argentina, sob alegação de que os baixos preços praticados significavam concorrência desleal aos produtores norteamericanos (Idem, ibidem). Essas medidas retiraram os dois maiores países fornecedores de mel do mercado internacional. A quantidade de mel comercializado caiu nesse espaço de tempo para 400 mil toneladas, com significativa elevação dos preços no mercado internacional, desequilíbrio que significou oportunidade para entrada de novos exportadores. Até então, o Brasil se comportara como país que consumia a própria produção e não se sentia estimulado a entrar no mercado de exportação, uma vez que seus custos de produção eram considerados altos em relação aos dos exportadores (PEREIRA & LOPES, 2003). Em 2005, o Brasil já conseguiu exportar 14,4 mil toneladas de mel para a União Européia, destacando-se internamente nessa exportação os Estados de São Paulo, Ceará, Piauí e Santa Catarina (PINATTI et al, 2006). Nesse ano de 2005, o país chegou a exportar 80% de sua produção (SALOMÉ, 2008) e apareceu em 5º lugar como país exportador. Em 2006, o Brasil sofreu embargo da União Européia na exportação do mel, sob alegação de que o país não apresentava equivalência com o bloco em relação às diretrizes no controle de resíduos e qualidade do produto, regras que a serem cumpridas no âmbito do Programa Nacional de Controle de Resíduos (PNCR). Entretanto, a redução dessas vendas foi compensada em grande parte, pela exportação para os Estados Unidos, cuja compra cresceu 294,1% em relação ao ano anterior e tem exigido dos apicultores maior profissionalização em suas práticas. Ainda em 2006, emergiu no âmbito USAID/BRASIL o Programa de Fomento às Exportações de Pequenas Empresas, com o objetivo de apoiar a internacionalização das pequenas empresas brasileiras. Foi dada preferência àqueles empreendimentos localizados nas regiões Norte e Nordeste do Brasil e que se apresentassem mais aglomerados (USAID/BRASIL, 2006). Nesse mesmo ano, o governo federal criou a Câmara Setorial da Apicultura Nacional, como política de incentivo à produção e exportação. O ano de 2008 o Brasil, de acordo com o Instituto de Pesquisas Econômicas (IPEA), aumentou em 42% (18,27 mil toneladas) o volume negociado com o exterior em relação a 7 Campo Grande, 25 a 28 de julho de 2010, Sociedade Brasileira de Economia, Administração e Sociologia Rural 2007. E em 2009, as exportações de mel tiveram um aumento de 55,3% em relação ao ano anterior, sendo exportados US$ 61 milhões, correspondente a 4% do mercado mundial. Segundo Salomé (2009), os Estados brasileiros com maior produção acumulada de mel no período 2003-2007 foram por ordem de importância: Rio Grande do Sul, Paraná, Santa Catarina, Piauí, Ceará e São Paulo. Numa reportagem veiculada pela Agência de Notícias do SEBRAE nacional, no final de 2009, foram apresentados alguns resultados do levantamento realizado pelo SEBRAE e a Rede Apis junto à Secretaria de Comércio Exterior (Secex) do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), que trazia a comparação da situação brasileira em 2003 e em 2009, mostrando os avanços brasileiros na exportação. Apontou-se nesse relatório a grande aceitabilidade do mel brasileiro no mercado internacional, embora as ameaças de concorrência tendam a vir por parte da índia, China e México. Uma preocupação que abalou a produção brasileira em 2009, segundo esse relatório, foram as alterações climáticas, responsáveis por cerca de 80% da quebra de safra. Os principais Estados exportadores foram por ordem de importância São Paulo, Ceará, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Rio Grande do Norte, Paraná, Piauí, Minas Gerais e Mato Grosso do Sul. O principal destino continuou sendo os Estados Unidos, com 59,55% da produção exportada, seguidos da Alemanha com o equivalente a 20,17% e do Reino Unido com 8,4% e do Canadá com 3,8% do total dessas exportações.Ainda compuseram essa lista de compradores brasileiros a Suíça, França, Japão, Coréia do Sul e Bolívia. Os dados do IBGE/ SIDRA sobre os Estados brasileiros entre 2006 e 2008 (Tabela 1), apontaram como maiores produtores Minas Gerais, São Paulo e Paraná. O Mato Grosso do Sul ainda apresenta uma produção tímida nesse conjunto, embora com tendências crescentes e voltadas às exportações e, na frente do Mato Grosso. Tabela 1. Produção de mel no Brasil Ano 2006 2007 2008 Brasil 36.193.868 34.747.116 37.791.909 Minas Gerais 2.482.174 2.624.908 2.862.052 São Paulo 2.541.586 2.332.187 2.016.900 Paraná 4.612.372 4.632.241 4.634.976 Mato Grosso do Sul 485.325 641.149 646.222 Mato Grosso 365.006 346.339 493.879 Fonte: IBGE - Pesquisa Pecuária Municipal (IBGE/SIDRA), 2006 a 2008. O Brasil, segundo Souza (2006) usufrui de uma situação confortável, por possuir uma apicultura livre de aplicações de produtos químicos, como também por apresentar uma produção bem distribuída em todo território nacional, com preços competitivos. Entretanto, 8 Campo Grande, 25 a 28 de julho de 2010, Sociedade Brasileira de Economia, Administração e Sociologia Rural precisa enfrentar o desafio de garantir a certificação da qualidade dos seus produtos, como também o de aumentar a produtividade para ganhar maior competitividade no mercado. A atividade exige maior profissionalização. Destaque-se o fato lembrado por Bolhke & Palmeira (2006), de que o crescimento da participação brasileira no mercado externo não conseguiu ser acompanhado proporcionalmente pelo aumento de produção interna, fato que resultou na redução da oferta doméstica. Por outro lado, o consumo de mel per capita brasileiro é baixo (300 gramas/ ano/habitante) quando comparado grandes consumidores como os Estados Unidos e países da Comunidade Européia e da África. O mel de abelha, dada a oportunidade que passou a trazer aos produtores de pequenas propriedades, foi considerado uma atividade de inclusão social, passando a ser chamado por alguns de “ouro líquido”. É preciso atentar, no entanto, para o fato do crescimento do setor apícola e sua sustentabilidade junto a pequenos proprietários depender ainda e muito da capacidade organizativa desses criadores, da melhoria da qualidade do produto, do aumento da produtividade da produção, como também da diversificação dos produtos (BÖHLKE & PALMEIRA, 2006). Nesse sentido, é preciso salientar o esforço do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (SEBRAE), desde 2003, no apoio à implantação de projetos de apicultura, com a criação da Rede Apicultura Integrada e Sustentável (APIS), que envolveu 245 parceiros e abrangeu mais de 400 Municípios. A Rede APIS vem tentando apoiar os micro e pequenos empreendimentos no fortalecimento do agronegócio apícola, no acesso à tecnologia, aos serviços de assistência técnica e, principalmente, de acesso aos mercados. Seus integrantes acreditam na potencialidade da apicultura em cumprir o papel da sustentabilidade econômica, social e ambiental. 6.REGIME TECNOLÓGICO E INOVAÇÕES NA PRODUÇÃO DO MEL Existem, para Veloso Filho et al (2004), duas modalidades de apicultor: (1) aquele que faz da apicultura uma alternativa de complementação de renda da propriedade; (2) aquele que faz da criação das abelhas a sua principal ocupação e, que por isso migra com seus equipamentos junto das colméias. Trata-se de apicultores com perfil e investimentos diferentes, tendo em vista as maiores exigências para a prática da apicultura migratória. São três as etapas do processo produtivo do agronegócio do mel e de produtos apícolas que também ocorrem em três lugares diferentes (idem, 2004),: (1) no campo - produção realizada pelo apicultor; (2) na casa de mel - extração de mel feita pelo produtor; (3) processamento do produto para comercialização final, acontecida no entreposto de mel. 6.1 Cadeia Produtiva do mel A Rede APIS apresenta um modelo de estrutura da cadeia produtiva do mel predominante no Brasil, levando-se em conta a significativa participação de micro e pequenos empreendimentos (Figura 1). Observe-se que quando o produtor procura atingir o mercado local e de uma maneira informal, o processamento do mel é realizado na própria propriedade. Nesse caso, faz 9 Campo Grande, 25 a 28 de julho de 2010, Sociedade Brasileira de Economia, Administração e Sociologia Rural venda em feiras ou atende diretamente o cliente. O processamento do mel tem sido terceirizado por aqueles apicultores que procuram se inserir em mercados formais e externos ao local. Nesse caso, as empresas extraem também os subprodutos (Figura 1). 6.2 Sistemas de produção na apicultura A exploração da apicultura pode ser em sistema de criação fixa ou migratória. A criação fixa consiste no sistema produtivo em que as colméias são mantidas por todo o ano em um mesmo local e o apicultor aproveita apenas as floradas locais da região. A exploração migratória é aquela em que o apicultor movimenta suas colméias de região para região, em busca de novas floradas (VELOSO FILHO et al, 2004). Esses sistemas são Figura 1. Cadeia Produtiva do Mel Fonte: Rede APIS vistos como uma forma de ampliar as possibilidades de colheitas ao longo do ano. O apiário usado na prática da apicultura migratória é construído sobre cavaletes e precisam ser desmontáveis ou dobráveis. Dentre os vários elementos a serem levados em conta quando se pretende instalar um apiário, os recursos florais são considerados os mais importantes para o sucesso do negócio. Leva-se em conta, não só as espécies melíferas, como também a densidade populacional e os períodos de floração. As colméias podem ser dispostas em linha reta, fileiras paralelas, ou semicírculas, numa distância mínima de 2 metros. Evita-se, assim alvoroço, brigas, e mortandade das abelhas, durante o manejo (PEREIRA et al, 2003). As abelhas são insetos sociais que vivem em colônias organizadas, divididas em castas (VELOSO FILHO et al, 2004). É a rainha que mantém a ordem dessa colônia e que põe os ovos, sendo alimentada pelas operárias. A rainha adulta possui quase o dobro do tamanho de uma operária e é a única fêmea fértil da colméia. A vida reprodutiva da rainha inicia-se 10 Campo Grande, 25 a 28 de julho de 2010, Sociedade Brasileira de Economia, Administração e Sociologia Rural com o vôo nupcial para sua fecundação. Esse vôo acontece em torno de 5 a 7 dias após o nascimento, e a rainha atinge cerca de dez metros de altura, quando passa a liberar substâncias (feromônios) para atrair os zangões. A rainha começa a postura dos ovos na colônia de 3 a 7 dias depois do acasalamento (PEREIRA et al, 2003). Somente a rainha é capaz de produzir ovos fertilizados, que dão origem às fêmeas (operárias ou novas rainhas), como também ovos não fertilizados, que dão origem a zangões. Pode ocorrer das operárias produzirem ovos não fertilizados, do os quais se transformarão em zangões (Idem, 2003). As colméias são peças fundamentais na prática da apicultura, sendo construídas em caixas de madeira e que podem ser compradas ou feitas pelo apicultor (PEREIRA et al, 2003), pintadas externamente. A Confederação Brasileira de Apicultura indica o modelo Langstroth, idealizada por Lorenzo Lorin Langstroth, em 1852, que foi construído com base em pesquisas que identificaram o "espaço abelha". Trata-se de um espaço livre deixado entre as laterais e os quadros. O principal produto da colméia, o mel, tem beneficiamento relativamente simples que se inicia logo após a colheita O beneficiamento continua com filtragem e decantação, seguidos do envasamento. O objetivo de Langstroth foi construir uma colméia de fácil manejo, que induzisse às abelhas construírem em quadros móveis providos de cera alveolada, obtendo-se o máximo de desenvolvimento da colônia de abelhas com uma rainha prolífica e que detivesse o máximo aproveitamento do mel estocado, com a máxima economia apresentada pela possibilidade centrifugação de seus quadros móveis providos de cera alveolada e, ainda com baixo custo de construção e disponibilidade de materiais. Langstroth observou que as abelhas em uma colméia completavam com própolis qualquer espaço inferior a 4,7 mm e, que todo espaço superior a 9,5 mm era preenchido com construções de escada de cera ou favos. Com base nesse princípio de organização das abelhas, o pesquisador chamou de “espaço abelha” aquele que se encontra entre 6 a 8 mm, espaço esse que deve ser deixado para o livre trânsito das abelhas, tanto para o transporte de alimentos como para ventilação. Portanto, nada deve ser construído nesse espaço. Para fins práticos, na construção das caixas de colméia, são reservados para este espaço-abelha 7 mm, construindo-se quadros móveis dentro das caixas). Os componentes principais da colméia, como se pode verificar na figura 2 são o assoalho, ninho, quadros guarnecidos com cera alveolada para a construção dos favos pelas abelhas e a tampa. Mais recentemente, passou-se a fazer uso de quadros para ninho e melgueiras feitos em poliestireno no qual a cera de abelha é pulverizada.Durante a florada há necessidade de se acrescentar outros componentes, tais como as telas excluidoras (opcional), melgueiras e/ou sobreninhos. Após instalação do apiário, há necessidade de um manejo eficiente das colméias, verificando-se a quantidade de alimento disponível, presença e qualidade da postura da rainha, desenvolvimento das crias, ocorrência de doenças ou pragas (PEREIRA et al, 2003). O manejo do mel exige vestimentas apropriadas e fumegador, um aparelho produtor de fumaça que minimiza o ataque das abelhas. A função do fumegador é simular uma situação de perigo (ocorrência de incêndio), induzindo as abelhas a se organizarem para deixar o local. Nesse processo, as abelhas operárias consomem o máximo de alimento 11 Campo Grande, 25 a 28 de julho de 2010, Sociedade Brasileira de Economia, Administração e Sociologia Rural possível, armazenando-o no papo, condição que dificulta os movimentos para a utilização do ferrão (Idem, 2003). Além de roupas protetoras, a prática apícola requer alguns utensílios especiais, utilizados tanto no preparo das colméias, como no seu manejo. O mel apresenta beneficiamento relativamente simples. Esse se inicia logo após a colheita, sendo feito pelo próprio apicultor, com a desorpeculação dos favos e a centrifugação dos quadros. O beneficiamento continua com filtragem e decantação, seguidos do envasamento (PEREIRA et al 2003). A unidade de extração do mel é normalmente denominada de "Casa do Mel", enquanto que o processamento é reaizado no Entreposto de Mel, em alguns casos, até mesmo na própria casa do mel, se ela apresentar condições para isso. Na Casa do Mel, após o processo de desoperculação do mel (retirada da camada de cera dos alvéolos) com auxílio de garfos e equipamentos especiais, o mel é extraído dos quadros por movimentos rotacionais e com ajuda de centrífugas, para então ser filtrado e colocado para decantação e homogeneização (Idem, 2003). Em todas essas etapas é necessário seguir as normas higiênico-sanitárias indicadas pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento na portaria nº 006/986. E ainda se deve ter precauções em relação às vestimentas e higiene do pessoal envolvido. 7. ORIGEM E TRAJETÒRIA DA APICULTURA COMERCIAL EM MATO GROSSO DO SUL Em Mato Grosso do Sul, segundo Reis (2003), todas as regiões são dotadas de potencial natural para o desenvolvimento da atividade, indo desde aqueles ambientes de florestas do sul do Estado, aos cerrados e o Pantanal. Além da riqueza da flora natural, a agricultura e as florestas de eucaliptos comporiam o cenário que serve de pasto apícola favorável à apicultura. Entretanto, conforme lembram os autores, tem sido o pouco conhecimento sobre essas condições, como também das técnicas de manejo das colméias, e do comportamento das abelhas africanizadas que constituem as maiores limitações para o desenvolvimento da apicultura no Estado. De todo modo, a apicultura comercial começou a se desenvolver em Mato Grosso do Sul, no início da década de 1980, mediante incentivos do Programa de Desenvolvimento e Incentivo da Apicultura e quando foi criada a Associação Sul-mato-grossense de Apicultores (REIS, 2003). Entre 2000 a 2004, a produção sofreu aumentos e pequenos recuos, com maior acentuação na produção em 2005 e 2006. No entanto, se for observado a curva estabelecida no total desse espaço de tempo, a produção representou um aumento de mais de 50%, o que é representativo. Em comparação com os outros Estados que possuem expressividade na sua produção e comercialização segundo dados do IBGE, Mato Grosso do Sul só fica a frente do Mato Grosso, ainda assim com uma produção muito baixa se comparando com Paraná, São Paulo e Minas Gerais. 12 Campo Grande, 25 a 28 de julho de 2010, Sociedade Brasileira de Economia, Administração e Sociologia Rural 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 Gráfico 2. Produção do mel em Mato Grosso do Sul Fonte: Pesquisa Pecuária Municipal A Tabela 1 permite visualizar que a produção de mel no Estado de Mato Grosso do Sul não teve um aumento significativo de 2006 para 2008. Importante observar, no entanto, que o Estado detém quase a metade da produção melífera do Centro-Oeste. No Estado aparecem três microrregiões que concentram o mel: Dourados, Cassilândia e Iguatemi. Tabela 1: Produção de mel no Brasil Produção em Kg / Ano 2006 2007 2008 Brasil 36.193.868 34.747.116 37.791.909 Centro-Oeste 1.189.814 1.332.623 1.498.195 Mato Grosso do Sul 485.325 641.149 646.222 Baixo Pantanal 10.054 7.412 7.488 Aquidauana 25.655 25.811 27.077 Alto Taquari 26.026 26.092 25.382 Campo Grande 28.889 32.010 32.101 Cassilândia 48.143 145.895 143.070 Paranaíba 18.171 20.214 20.916 Três Lagoas 38.138 33.291 33.772 Nova Andradina 23.998 36.778 26.941 Bodoquena 29.684 29.677 30.168 Dourados 154.317 165.432 163.773 Iguatemi 82.250 118.537 135.534 Fonte: IBGE, 2010 Ao todo, o Estado de Mato Grosso do Sul em 2003, contava com cerca de 1000 apicultores, 15.000 colméias e uma produção estimada em 250 toneladas de mel/ano e que não era suficiente para atender a própria demanda local (REIS, 2003). Desse conjunto, 98% encontravam-se estruturadas sob o formato de pequena produção com exploração fixa e respondiam por 80% da produção (Idem, 2003). Em 2005, de acordo com dados obtidos no IDATERRA (atual AGRAER) e apresentados por Silva (2007), o número de apicultores havia aumentado em pouco mais de 10% (1140 apicultores), entretanto, o número de colméias houvesse praticamente duplicado (28.413 colméias) e a produção de mel mais que triplicado (859,6 toneladas mel/ano). De acordo com Reis (2003), os apicultores de exploração fixa dotados de melhores técnicas de manejo chegavam a obter em 2003, de 30 a 50 kg de mel/colméia/ano, enquanto que o pequeno número do sistema migratório que atuam em ambientes de 13 Campo Grande, 25 a 28 de julho de 2010, Sociedade Brasileira de Economia, Administração e Sociologia Rural florestas de eucaliptos e floradas silvestres, atingiam uma média de até 80 kg de mel/colméia/ano (Idem, ibidem). Em 2005, por número de concentração de apicultores destacaram-se os Municípios de Rio Brilhante (110), Nioaque (84), Amambai (80), Aquidauana (69) e Campo Grande (63). Entretanto, não se observou a mesma proporcionalidade nessa ordem para o número de colméias, estas mais concentradas em Dourados (2400), Cassilândia(2400), Chapadão do Sul (2351) e Jardim (2000). A concentração da produção, em 2005, respondia pelas áreas de maior produtividade. Foi possível por meio dessas capacidades produtivas, apreender pelo menos, 5 espaços de concentração, 3 deles de maior relevância. O mais importante era aquele constituído por 3 Municípios ao Norte - Cassilândia (160 ton), Chapadão do Sul (141 ton) e Costa Rica (35 ton) – que já aglutinava quase 40% do total da produção melífera de Mato Grosso do Sul e 2 associações. A segunda concentração aparecia no CentroSul, num conjunto constituído por 4 outros Municípios - Dourados (60 ton), Amambai (40 ton), Angélica (30 ton) e Rio Brilhante (21,6 ton) - o que significava 16,5% do total do Estado e 7 associações. Finalmente, um terceiro conjunto pôde ser vislumbrado na área pantaneira, constituído por – Jardim (30 ton), Aquidauana (25 ton), Miranda (20), Corumbá (17,5 ton) e Nioaque (16,8 ton) – e que detinha quase 13 % do total e 6 associações. Também, não menos desprezível aparecia a produção melífera em Campo Grande (57,6 ton) com quase 7% do Estado e de Mundo Novo (30 ton) com 3,5% . 14 Campo Grande, 25 a 28 de julho de 2010, Sociedade Brasileira de Economia, Administração e Sociologia Rural Mapa 1. Produção de mel por áreas de concentração e que sediam associações no setor - 2005. Fonte: IDATERRA, 2005 (apud Silva, 2007) Chama atenção dentro do Estado, a área de concentração de produção melífera dos Municípios do Norte – Cassilândia, Chapadão do Sul e Costa Rica – que não aglutina um grande número de apicultores e sim de um número significativo de colméias. No caso de Cassilândia, o Município que apresenta a produção mais relevante de Mato Grosso do Sul, apresenta 40 apicultores e 2.400 colméias. O sistema de apicultura em Cassilândia é migratório e todos os apicultores participam da União dos Apicultores de Cassilândia (UNIAPAC), como a consideram sua grande conquista, pois ela favoreceu a parceria no transporte, que contribuiu na queda dos custos de produção (OLIVEIRA, 2007). A Prefeitura Municipal tem contribuído especialmente com o transporte desses apicultores para o transporte das colméias, desde que eles estejam vinculados à cooperativa. Oliveira (2007) também verificou que os apicultores ao serem capacitados profissionalmente na cooperativa com apoio da universidade estadual no local, conseguiram sair de uma produção de 20 para 40 kg por colméia. Criaram uma marca própria da associação para a venda de produtos e estão avançando para a produção de subprodutos do mel. A cooperativa se transformou no veículo para venda comercial externa e se preparava para realizar compras compartilhadas (Idem, 2007). A Câmara Setorial Consultiva de Apicultura do Mato Grosso do Sul foi criada em 2004, como parte da política de incentivo ao setor e já obteve alguns resultados nesse sentido, a exemplo do fortalecimento das parcerias, da maior divulgação das atividades no meio político e na mídia, do fortalecimento de associações, de orientações técnicas para associações de apicultores, do resgate de projetos que estavam parados no Banco do Brasil, ou em órgãos de secretaria do Estado. Em março de 2010, a Agência de Desenvolvimento Agrário e Extensão Rural (AGRAER) assinou um Termo de Cooperação Técnica com a Confederação Brasileira de Agricultura (CBA) para execução do Programa Nacional de Georreferenciamento do Setor Apícola, em Mato Grosso do Sul, de modo a se obter a localização com informações mais precisas a respeito dos apiários nos diversos Municípios. O esforço da Câmara Setorial Consultiva da Apicultura do Mato Grosso do Sul também tem sido no sentido da profissionalização dos apicultores, incluindo seu credenciamento junto à Confederação Brasileira de Apicultura (CBA), além da promoção de cursos de capacitação em apicultura e meliponicultura, com apoio de parceiros, entre os quais tem destaque o Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (SENAR/MS). Entretanto, a apicultura em Mato Grosso do Sul se ressentiu das adversidades climáticas de 2009 e da recusa do presidente da república em assinar o Projeto de Lei 144/2009, que 15 Campo Grande, 25 a 28 de julho de 2010, Sociedade Brasileira de Economia, Administração e Sociologia Rural regulamentava a profissão de apicultor, havendo quebras na produção, embora o espírito da maioria ainda seja favorável à evolução do crescimento. 8. EXPERIÊNCIA DA ASSOCIAÇÃO SUL-MATO-GROSSENSE DE APICULTORES (ASA) A Associação Sul-Mato-Grossense de Apicultores (ASA), criada em 1983 é pioneira no Estado de Mato Grosso do Sul no ramo da apicultura. Fundada por quatro associados, essa entidade chegou a abrigar apicultores de quase todo o Estado. A redução no quadro foi ocorrendo, na medida em que novas associações de nível municipal foram sendo criadas. Em 2009, a ASA, além de 40 associados em Campo Grande, contava com apicultores em Jaraguari (2), Bela Vista (2), Camapuã (1), Nioaque (2), Sidrolândia (1), Dourados (1), Rochedo (1), Guia Lopes (2), Terenos (1). Em realidade, esses constavam dos apicultores efetivos e regulares num quadro de 100 associados. Mato Grosso do Sul já contava em 2009, com 24 associações espalhadas pelo Estado. Os atuais associados da ASA demonstram preocupação em tentar atender as normas de produção do mel e derivados, de modo a poder conquistar os mercados de exportação. Entretanto, os produtores comercializam seus produtos em supermercados locais, seja com os entrepostos ou diretamente com os clientes. Apenas um deles, por já usufruir do Selo de Inspeção Federal (SIF), conseguiu se inserir numa das Redes de Supermercados mais expressivas de Campo Grande. De todo modo, os produtores associados revelam uma consciência de que os produtos apícolas brasileiros ganharam um bom conceito no mercado externo, devido ao não uso de antibióticos e por apresentarem mais variedades de floradas e méis silvestres. Mas os apicultores da ASA são empresários individuais e não se encontram aglomerados. Além da distância física, demonstram distância nas ações. Embora considerem importante sua participação na associação para usufruir dos benefícios do rótulo de filiação à ASA, consideram-se concorrentes uns dos outros. Segundo relato do Presidente da Associação, “o associativismo não faz parte da cultura do nosso povo”, as parcerias sumiram e a assistência técnica ficou defasada. Houve necessidade de transformar a ASA uma cooperativa, atualmente em fase de aprovação. Em Mato Grosso do Sul, registra-se a existência de políticas públicas para o setor, embora não aplicadas em sua totalidade, conforme percepção dos produtores que compõem a ASA. O setor tem sido beneficiado por meio da Lei Estadual 3.631 de 30 de dezembro de 2008, que apóia a atividade e a Lei Estadual 3.173 de 27 de dezembro de 2005 que trata da obrigatoriedade do mel na merenda escolar. Houve aprovação de uma linha de microcrédito, especifica para o setor, oferecido pelo Banco da Gente, que atua no âmbito do Governo do Estado de Mato Grosso do Sul. Para os apicultores, o incentivo governamental ainda tem sido precário para o setor. As ações mais importantes por parte do governo deram-se segundo eles, na década de 1980, quando foi criado o Programa de Desenvolvimento e Incentivo da Apicultura, considerado bem sucedido pelos produtores. O referido programa oferecia de forma integrada: assistência técnica, cursos, entrega de materiais e equipamentos. Nas mudanças administrativas na esfera do governo estadual não deixou-se de oferecer continuidade ao programa. As principais necessidades da 16 Campo Grande, 25 a 28 de julho de 2010, Sociedade Brasileira de Economia, Administração e Sociologia Rural Apicultura estadual e nacional apresentadas pelos dois presidentes entrevistados – ASA e câmara técnica – seriam assistência técnica apícola e a implantação de infra-estrutura básica para extração e envasamento do mel. Importante registrar que tanto para o Presidente da ASA, quanto para o presidente da Câmara Técnica, parte dessa ausência de políticas públicas com um tratamento mais diferenciado para a apicultura sul-mato-grossense, pode ser atribuída ao próprio setor, já que os atores não se encontram devidamente articulados. A proposição da criação da Federação de Apicultura e Meliponicultura de Mato Grosso do Sul encontra-se ainda em fase de articulação e negociação, com uma diretoria provisória que trabalha na elaboração de estatuto e regimento interno e eleição para a diretoria definitiva marcada para ocorrer no Congresso Brasileiro de Apicultura, em 2010. Ambos acreditam que a federação pode se transformar num importante espaço de diálogo, discussões e deliberações dos apicultores que estão preocupados em ampliar o nível de profissionalização e a competitividade do setor. Dessa articulação institucional e política acredita-se que possa se implementar um novo Programa Estadual para o Setor Apícola em Mato Grosso do Sul. Pelo seu histórico e atuação, como pelo poder de aglutinação das instituições de apoio, possivelmente a ASA possa vir a ser a instituição responsável pelo ordenamento da governança de um arranjo produtivo local, que englobe, em um primeiro momento, Campo Grande e entorno. A dispersão territorial da produção e das associações, não será empecilho para que muitas das ações do APL tenham o fator de transbordamento, como o que já vem acontecendo ao longo da historia desse setor em todo o Estado de Mato Grosso do Sul. Observe-se que a Prefeitura Municipal e o governo de estado podem exercer papel fundamental no incentivo a essa política. 9. CONSIDERAÇÕES FINAIS Em Mato Grosso do Sul, como se pôde verificar, existe potencialidade climática e natural para a produção de mel no Estado todo e, que já exibe algumas concentrações de apicultores a serem potencializadas, especialmente porque nelas já existe um número não desprezível de associações. Entretanto, a exemplo do que se pôde apreciar em Campo Grande, mesmo as associações enfrentam problemas com a fraca cultura associativa. A tendência de atuar de forma isolada e espalhada ainda tem sido preponderante, fato que tem se constituído em uma das condições mais limitantes na política de fortalecimento de micro e pequenos empreendimentos do setor melífero em Mato Grosso do Sul. É preciso lembrar que nos Estados nordestinos em que o dinamismo vem se apresentando mais significativo, o apoio dos programas governamentais e mesmo estrangeiros focaram-se nos espaços de aglomeração dos empreendimentos, com incentivo para articulações dos atores e desses com organizações, portanto, no formato organizacional do Arranjo Produtivo Local. Observe-se no caso de Campo Grande, que mesmo as lideranças vêm se mostrando sensíveis à necessidade de articulação dos apicultores por meio e com apoio de instituições, na ampliação dos diálogos, nos processos de capacitação e nas ações de coordenação em nível local. Portanto, as políticas públicas locais precisam repensar programas que possam ser incentivadores dessas iniciativas articuladoras e territoriais de 17 Campo Grande, 25 a 28 de julho de 2010, Sociedade Brasileira de Economia, Administração e Sociologia Rural desenvolvimento com finalidades inclusivas. Além de o Estado abrigar um número significativo de apicultores de micro e pequeno porte que poderiam se inserir no mercado internacional, grande parte daqueles que estão em situação de vulnerabilidade social faz parte da Faixa de Fronteira, portanto afeta interesses de âmbito nacional. 10. REFERÊNCIAS AMATO NETO, João. Redes de cooperação produtiva e clusters regionais. São Paulo: Atlas, 2000. CASAROTTO FILHO, Nelson e PIRES, Luís Henrique Pires. Redes de Pequenas e médias Empresas e Desenvolvimento Local: Estratégias para a conquista da competitividade global com base na experiência italiana. São Paulo: Atlas, 1998. CASSIOLATO, J. E. e LASTRES, H. M. M. O foco em arranjos produtivos e inovativos locais de MPEs. In: Pequena empresa: cooperação e desenvolvimento local. Helena M. M. Lastres, José E. Cassiolato, Maria L. Maciel (orgs.) Rio de Janeiro: Relume Dumará, UFRJ, I.E. 2003. PECQUEUR, Bernard. O desenvolvimento local para uma economia dos territórios. Paris: Syros, 2000. 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