CONTRIBUIR PARA A MELHORIA DO MODELO DE ARTICULAÇÃO A NÍVEL DOS CUIDADOS DE SAÚDE PRIMÁRIOS NO ÂMBITO DA TUBERCULOSE Bárbara Mendes, Carmen Herraéz, João Rodrigues, Natalia Bande. Resumo Tema: O presente estudo teve como objetivo identificar os obstáculos do funcionamento do modelo de articulação ao nível dos cuidados de saúde primários, no âmbito da tuberculose. Método: Estudo descritivo e transversal, com uma população-alvo composta por 139 enfermeiros que exercem funções nos Agrupamentos de Centros de Saúde (ACES’s) do concelho do Porto. Estes profissionais de saúde responderam a um questionário que pretendeu caracterizar a população-alvo a nível de género, idade e anos de serviço, bem como recolher informação sobre o desempenho de funções no âmbito do Programa Nacional para a Tuberculose (PNT), formação na área da tuberculose, registos de enfermagem, articulação de informação e, ainda, sobre os conhecimentos e as atitudes dos enfermeiros, no âmbito da tuberculose. Medidas: Este instrumento de colheita de dados foi testado, validado e aplicado, mantendo o anonimato e a confidencialidade dos dados. Os dados, posteriormente, foram analisados e tratados através do statistical package for the social sciences (SPSS) versão 20, em inglês através da estatística descritiva. Resultados: Mediante os resultados foram identificados uma serie de problemas, no âmbito das boas práticas no PNT, referentes à necessidade de formação sobre boas práticas; ao acesso da informação sobre o diagnóstico; ao bloqueio da informação sobre o diagnóstico; à utilização dos métodos de suporte de informação; à identificação dos programas de saúde e focos de enfermagem; aos conhecimentos sobre tuberculose; e à componente afetiva das atitudes dos enfermeiros. Discussão/ Conclusão: Depois de sintetizar os resultados e aplicada a grelha de análise, os problemas prioritários identificados foram: a necessidade de formação sobre boas práticas no âmbito do PNT e o bloqueio do fluxo da informação sobre o diagnóstico de tuberculose. Palavras-Chave: Tuberculose, Comunicação, Formação, Diagnóstico de Situação, Conhecimentos, Atitudes. Introdução O presente estudo foi realizado através da aplicação do método de planeamento em saúde para realizar o diagnóstico de situação e respetiva determinação de prioridades, no âmbito da unidade curricular de Estágio de Intervenção Comunitária I do Curso de Pós-Licenciatura/ Mestrado em INSAUDE Nº9_Março de 2015 1/7 Enfermagem Comunitária da Escola Superior de Enfermagem do Porto com a finalidade de contribuir para a melhoria do modelo de articulação a nível dos cuidados de saúde primários no âmbito da tuberculose e com o objetivo de identificar os obstáculos do funcionamento do modelo de articulação a nível dos cuidados de saúde primários, nesta área. Para atingir este objetivo geral, o grupo definiu como os seguintes objetivos específicos: Identificar os conhecimentos dos enfermeiros sobre a tuberculose; Identificar as atitudes dos enfermeiros perante um doente com tuberculose e/ou de contacto de doente com tuberculose; Identificar obstáculos na articulação em rede das equipes de enfermagem do Agrupamento de Centros de Saúde (ACES) - Porto Oriental, ACES - Porto Ocidental e do Centro de Diagnóstico Pneumológico (CDP), intervenientes no PNT. Identificar obstáculos na utilização do Sistema de Apoio à Prática de Enfermagem (SAPE) com um doente com tuberculose e/ou contacto de doente com tuberculose. A enfermagem comunitária tem como alvo da sua atuação a população e a comunidade, capacitandoas para a tomada de decisão, ao nível da sua saúde, havendo uma participação ativa e direta dos seus membros. Deste modo, o enfermeiro especialista em enfermagem comunitária deve diagnosticar as necessidades de cuidados das comunidades/populações, definir prioridades, estabelecer estratégias e avaliar os resultados obtidos pelas suas intervenções, com a meta de obter os melhores e maiores ganhos em saúde, sendo o processo de planeamento em saúde uma ferramenta eficaz que serve estes objetivos (Antunes, 2005). Assim, o grupo optou pelo tema da tuberculose, por se tratar de um problema de saúde pública, com uma taxa de notificação média anual de 51,1 por cem mil habitantes nos ACES’s do concelho do Porto no triénio 2011-2013. Por estas razões é fundamental criar sinergias em equipas de saúde multidisciplinares que definam as intervenções e estratégias para concretizar o plano nacional de combate à tuberculose; uniformizar os diferentes procedimentos de rastreio de casos e contactos, que irá contribuir para uma melhor comparação e avaliação; e maximizar e padronizar os sistemas de informação (Pina, 2000). Segundo a Ordem dos Enfermeiros (2013, p. 19), a tuberculose é “uma infeção causada pelo Mycobacterium tuberculosis (MTb), também designado como bacilo tuberculoso ou bacilo de Koch”. A tuberculose pode afetar qualquer parte do organismo humano, uma vez que este é um reservatório natural do MTb, sendo a sua transmissão feita de indivíduo a indivíduo através da inalação de gotículas do ar expelidas pela pessoa doente quando esta fala, espirra ou tosse (Magalhães et al., 2013). O risco de a tuberculose-infeção passar a tuberculose-doença é de 10% em toda a vida de um individuo, sendo maior nos dois anos após a infeção e nos doentes imunodeprimidos (Pina, 2000). INSAUDE Nº9_Março de 2015 2/7 Em 2013 em Portugal, foram notificados 2393 casos de tuberculose, dos quais 2195 eram casos novos, correspondendo a uma taxa de notificação de 22,9/100.000 habitantes e a uma taxa de incidência de 21,1/100.000 habitantes (população residente em 2013 de 10427301, de acordo com os dados do INE). Em 2012 tinham sido notificados (dados definitivos) 2605 casos, dos quais 2405 eram casos novos, representando uma taxa de notificação de 24,7/100.000 habitantes e uma taxa de incidência de 22,9/100.000 habitantes (população residente em 2012 de 10487289, de acordo com os dados do INE). Foi observada assim uma redução de cerca de 7% da taxa de notificação e de incidência entre 2013 e 2012, apesar da redução da população residente (Portugal, 2014). No caso da região de saúde do norte, em 2012, foram registados 1080 casos de tuberculose, com 997 (92,3%) casos novos e 83 retratamentos (7,7%), traduzindo-se numa taxa de notificação de 29,2/100 000 habitantes (Administração Regional de Saúde do Norte, I.P., 2013). Em 2013 foram registados, no SVIG-TB, 990 casos de tuberculose em residentes na região de saúde do Norte, dos quais 914 eram casos novos e 76 retratamentos (7,7%), traduzindo-se numa taxa de notificação de 27,1/100 mil habitantes. Em relação a 2012, registou-se um decréscimo de 90 casos (-8,3%). O decréscimo percentual anual médio observado na região, entre 2000 e 2013, foi de 4,9% (Administração Regional de Saúde do Norte, I.P., 2014). 3/7 Método Participantes A população-alvo do nosso estudo foram todos os enfermeiros que exercem funções no ACES’s do concelho do Porto, sendo 230 participantes, 84 do ACES Porto Oriental e 146 do ACES Porto Ocidental. No entanto, devido a ausência do serviço, por falta, licenças e férias, só foram entregues 200 questionários, dos quais 73 foram aplicados no ACES Porto Oriental e 127 no ACES Porto Ocidental. Após a recolha dos questionários, a nossa população-alvo ficou reduzida a 139 profissionais de enfermagem, dos quais 68 são enfermeiros do ACES do Porto Oriental e 71 do ACES do Porto Ocidental, uma vez que tivemos profissionais de enfermagem que não entregaram e/ ou que se recusaram a responder ao questionário. Tabela 1 – Composição da população-alvo. Questionários Distribuídos Respondidos ACES Porto Oriental 73 68 ACES Porto Ocidental 127 71 Total 200 139 INSAUDE Nº9_Março de 2015 Procedimentos O grupo optou por realizar um estudo descritivo e transversal pelo que foi construído um questionário. Desta forma, o questionário foi utilizado para caracterizar a população-alvo a nível de género, idade e anos de serviço, bem como para recolher informação sobre o desempenho de funções no âmbito do PNT, formação na área da tuberculose, registos de enfermagem, articulação de informação e, ainda, sobre os conhecimentos dos enfermeiros. Neste último item foram utilizadas 22 perguntas de verdadeiro e falso, no âmbito da tuberculose. Para além disto, foi integrado no questionário uma escala de Likert que permitiu compreender as atitudes dos enfermeiros em relação à tuberculose e era composta por 40 itens, 20 dizem respeito à componente afetiva e as outras 20 referecem-se à componente comportamental, havendo 5 opções de resposta, desde o concordo totalmente, concordo, não concordo, nem discordo, discordo e discordo totalmente. Posteriormente à elaboração do questionário foi realizado o pré-teste para verificar a eficácia do questionário elaborado, de forma a detectar os defeitos do mesmo e a poder corrigi-los, se necessário, antes da aplicação deste à população-alvo. O grupo utilizou o SPSS, versão 20, em inglês, para realizar o tratamento estatístico dos dados colhidos com recurso à estatística descritiva, que permite realizar um resumo do conjunto das características dos participantes do estudo, bem como analisar e verificar a distribuição dos valores 4/7 das variáveis do estudo recorrendo ao método estatístico. Resultados Após a análise dos resultados do questionário aplicado, os problemas identificados no âmbito da articulação em rede das equipes de enfermagem do ACES Porto Oriental, ACES Porto Ocidental e do CDP, intervenientes no PNT, 30,2% dos enfermeiros nunca tiveram acesso à informação sobre o diagnóstico de tuberculose do utente. 66,9% dos enfermeiros referem existir um bloqueio da informação sobre o diagnóstico de tuberculose, ocorrendo, principalmente, ao nível da comunicação entre o CDP e USF/UCSP/UCC, apresentando 46,0%. Do gráfico 1 salienta-se que 64,7% dos enfermeiros não conhecem os métodos de suporte de informação criado pelo PNT – Região norte, na identificação de contactos de doentes com tuberculose. Gráfico 1 – Distribuição da população pela utilização dos modelos de suporte de informação criado pelo PNT – Região Norte, na identificação de contactos de doentes com tuberculose. INSAUDE Nº9_Março de 2015 Ao nível dos registos de enfermagem, na utilização do SAPE, 58,3% dos enfermeiros não identificam, perante um doente com tuberculose, o programa de saúde “Acompanhamento de doentes com tuberculose” e 82,7% dos enfermeiros, perante um contacto de um doente com tuberculose, não identificam o programa de saúde ”Acompanhamento de conviventes de doentes com tuberculose”. No que refere aos 17,3% dos enfermeiros que identificam o programa de saúde ”Acompanhamento de conviventes de doentes com tuberculose”, nenhum enfermeiro respondeu quanto aos focos que normalmente identifica no âmbito desse programa. No âmbito da avaliação quantitativa dos conhecimentos dos enfermeiros sobre tuberculose, numa escala de 0 a 20, a pontuação mínima foi 5 e a máxima foi 20, com um intervalo de 14 pontos e uma média de 14 pontos com desvio padrão de 2,2. Salientam-se algumas perguntas em que o valor de respostas erradas merece atenção: 54,0% dos enfermeiros não têm conhecimento sobre a prova de tuberculina a nível da leitura do seu resultado; 51,8% dos enfermeiros não têm conhecimentos sobre o tratamento da tuberculose, ao nível do seu controlo; 49,6% dos enfermeiros não têm conhecimentos sobre o tratamento da tuberculose, ao nível da prevenção; 74,8% dos enfermeiros não têm conhecimentos sobre o tratamento da tuberculose, ao nível da adesão e da gestão do tratamento; 70,5% dos enfermeiros não têm conhecimentos sobre a proteção individual dos profissionais de saúde na prestação de cuidados a doentes com tuberculose, a nível da utilização das máscaras FP2; 64% dos enfermeiros não têm conhecimentos sobre a proteção individual dos profissionais de saúde na prestação de cuidados a doentes com tuberculose, a nível da sua eliminação dos equipamentos de protecção individual. No gráfico 2 evidencia-se que 98,6% dos enfermeiros sentem necessidade de formação sobre boas práticas no âmbito do PNT. INSAUDE Nº9_Março de 2015 5/7 Gráfico 2 - Distribuição da população pela necessidade de formação sobre boas práticas no âmbito do PNT A escala de Likert que permitiu compreender as atitudes dos enfermeiros em relação à tuberculose, sendo que 63,3% dos enfermeiros apresentam um resultado desfavorável a nível da componente afetiva da escala de Likert sobre as suas atitudes. Discussão/Conclusão Após reflexão, o grupo optou pela grelha de análise como método para a priorização dos problemas identificados, uma vez que esta técnica é muito objetiva e eficaz em situações de existência de um grande número de problemas (Tavares, 1992). No final da aplicação destas duas primeiras etapas do planeamento em saúde, os problemas prioritários que o grupo identificou foram: a necessidade de formação sobre boas práticas no âmbito do PNT e bloqueio do fluxo da informação sobre o diagnóstico de tuberculose. Bibliografia ADMINISTRAÇÃO REGIONAL DE SAÚDE DO NORTE, I.P. – A tuberculose na Região de Saúde do Norte 2011- 2012. [Em Linha]. Dezembro 2013. [consultado 2014-12-06], p. 1-23. Disponível na World Wide Web: <http://www.portaldasaude.pt/NR/rdonlyres/59F6FB68-FB31-4687-82AF- 2218D8C659A1/0/Tuberculose_RegiaoNorte_Relatorio_2011_2012.pdf>. INSAUDE Nº9_Março de 2015 6/7 ADMINISTRAÇÃO REGIONAL DE SAÚDE DO NORTE, I.P. – A tuberculose na Região de Saúde do Norte 2013. [Em Linha]. Dezembro 2014. [consultado 2015-02-09], p. 1-22. Disponível na World WideWeb:<http://portal.arsnorte.minsaude.pt/portal/page/portal/ARSNorte/Conte%C3%BAdos/Sa%C3%BAde%20P%C3%BAblica%20Conteudos /Epidemiologia/Relatorio_Tuberculose_2013_ARSNorte.PDF>. 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