Representações de meninos e meninas em desenhos e fotografias: aspectos de um movimento social – o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra Estudos sobre infâncias têm demonstrado grande preocupação por parte dos pesquisadores de diversas áreas em destaque educação e ciências sociais com meninos e meninas como protagonistas em diferentes cenários. Este trabalho, resultado de pesquisa ainda em andamento, aborda diferentes aspectos da infância de meninos e meninas através de desenhos e fotografias tiradas pelas próprias crianças com idade entre 3 a 10 anos. Todos são moradores de um assentamento em São Paulo, ligado ao MST.Busca-se aqui apenas compartilhar resultadosde recolha de dados e levantamento bibliográfico em área ainda bastante fértil, considerando a necessidade de se conhecer mais profundamente a infância pelas e com as próprias crianças. Neste texto, onde ainda não teremos a apresentação de dados que incluamos desenhos criados e fotos tiradas pelas crianças, o intuito é aproximar-se dos estudos em que as infâncias de meninos e meninas são problematizadas como sujeitos ou autores em pesquisas, e ainda mais, conquistar uma aproximação, fecunda e necessária, com os estudos sobre imagens numa perspectiva sociológica e antropológica de compreensão destes objetos materiais resultados de intensos processos de criação e investigação, aqui voltados para desenhos e fotografias criados por meninos e meninas. Nisto reside, neste trabalho, a perspectiva de confluência de pesquisas entre a sociologia da infância e a sociologia da imagem. Procura-se reconhecer aqui e aprofundar os estudos a respeito dos meninos e meninas, no que se refere à representação dos contextos em que vivem e experimentam o mundo, através do campo visual, que revelará formas de apreender a circulação das coisas, das pessoas, de suas vidas construídas, registradas e reelaboradas, em especial, em contexto de assentamento do Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra, em São Paulo. As especificidades da infância em um movimento social se constitui como foco da pesquisa. A fotografia, bem como os desenhos, promovem instigantes exercícios reflexivos sobre as infâncias e suas representações do cotidiano experimentado e vivenciado. O texto apresentado procura adensar a reflexão pautando-se pelas imagens capturadas e apresentadas, pelo desafio de se discuti-las com as crianças e sobre elas. Pretende-se contribuir para o aprofundamento do conhecimento a respeito dos meninos e meninas, especialmente para a elaboração e refinamento de metodologias de pesquisa com crianças e no tema dos movimentos sociais. Como meninos e meninas constroem e reconhecem o seu mundo, a partir de suas próprias perspectivas, dentro do cotidiano de um assentamento. Busca-se defender o lugar e o espaço das crianças, a partir do recente campo teórico da Sociologia da Imagem em interlocução com estudos sobre a infância numa perspectiva sociológica e antropológica, através da discussão e reflexão das implicações metodológicas da pesquisa com crianças a partir da recolha de dados por meio de fotografias e desenhos.As visibilidades e invisibilidades contidas nas fotografias e nos desenhos constituem-se como elementos importantes para a leitura das imagens, assim como, configuram e provocam diferentes formas de pesquisar e conhecer meninos e meninas. Meninos e meninas no MST: a vida que pulsa no coletivo infantil Um espaço educativo organizado, com objetivo de trabalhar as várias dimensões de ser criança Sem Terrinha, como sujeito de direitos, com valores, imaginação, fantasia, vinculando as vivências do cotidiano, as relações de gênero, a cooperação, a criticidade, e a autonomia (...). São espaços educativos intencionalmente planejados, nos quais as crianças aprendem, em movimento, a ocupar o seu lugar na organização de que fazem parte. É muito mais que espaços físicos, são espaços de trocas, aprendizados e vivências coletivas. (Rosseto, 2008, p.36) Edna Rossetto– militante-pesquisadora que é – em sua dissertação de mestrado, mostra-nos aspectos de experiências da infância dentro do Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra, acredita-se termos alguns dos aspectos das tantas infancias vividas e experimentadas em muitos dos assentamentos, espaços conquistados em lutas, em todo o Brasil. A pesquisadora, assim como Roseli Caldart (2004) aponta para reflexões e ações voltadas para as meninas e os meninos pequenos dentro deste Movimento Social. É fundamental observar que cantar, brincar, jogar, criar e porque não, desenhar e fotografar, como linguagens que também estão presentes na infância, estão conjugados ao trabalho e á luta pela terra, da qual participam, em diferentes condições com adultos e adultas em seu cotidiano, constituindo nisto, diferentes representações sobre o mesmo, naquilo que se constrói entre o vivido, o imaginado, o sentido, o criado. As representações de crianças em tão tenra idade ainda não são tão consideradas, sobretudo no campo dos estudos das imagens, sociologia e antropologia. Os espaços vividos, tão ambíguos e desafiadores, das relações sociais entre crianças pequenas e outras maiores, tendo várias idades misturadas,ainda são pouco pesquisados e conhecidos. Os espaços vividos pelas meninas e meninos, que podem ser mostrados para todos através de fotografias e desenhos – os mesmos não sendo, em qualquer hipótese, considerados como fieis à realidade – têm a capacidade de mostrar-se, fazer ver, e porque não, transformar ou substituir a realidade vivida e percebida por todos/as. Acredita-se aqui tratar-se de termos reflexos do engajamento nas ações dentro do coletivo de crianças. Como a dinâmica social não para no tempo a mesma está sendo construída e constituída por todos, não deixando crianças de fora. O espaço vivido, no presente trabalho é o lugar objeto das representações, o cotidiano destas crianças em assentamento, é o lugar em que se constroem e se revelam tais representações. A casa, as ruas, as brincadeiras, as relações voltadas para as conquistas e permanência na terra conquistada, os debates, as discussões, as próprias cirandas infantis, tão bem apresentadas na pesquisa de Rossetto (op.cit), são fontes constituidoras de tais representações. Observa-se que as crianças estão em constante movimento e, estas atividades contribuem para elevar a autonomia. É no coletivo infantil que está a possibilidade de despertar nas crianças vivencias de uma verdadeira prática de educação emancipadora. É, também, nesta coletividade que as crianças vão se apropriando de elementos que contribuem no seu processo de formação que faz de seu tempo de infância, um movimento pedagógico em luta; luta pela terra, pela Reforma Agrária, pela transformação da sociedade, entre outros. O potencial emancipatório das Cirandas Infantis, ao qual nos referimos, revela-se a partir da compreensão de que a luta pela terra não se encerra apenas com a sua conquista, ou seja, é preciso ir além, a sociedade precisa ser transformada em todos os níveis: econômica, política e sócioculturalmente. (idem, p.104) Como diria Roseli Caldart (op.cit.) trata-se, além de propor nova configuração social, discutir-se também a partir de uma pedagogia própria que poderá, ao longo do tempo, contribuir não apenas com a formação interna do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, como também, com a formação da sociedade em torno, deste modo, acrescenta-se aqui, é na confluência desta configuração social e nas experiências por ela geradas que as representações se constituem e se mostram àqueles dispostos e abertos a conhecê-las. Assim como os adultos, meninas e meninos participam dos processos de mudanças que caracterizam a sociedade contemporânea, e neste caso em especial, participam conjugando trabalho, brincadeiras, criações diversas nas relações com seus pares. A proposta, pelo Movimento, é pensar as crianças a partir delas mesmas, em seus avanços, certezas e incertezas, nas construções de seus universos na luta pela terra. Com o que tendemos a concordar e partir para as investigações conhecendo mais esta infância e suas representações – em fotografias e desenhos – dentre tantas ainda pouco conhecidas por nós. Neste período da vida, meninos e meninas são considerados sujeitos históricos e de direitos –compreensão difundida há tempos entre os estudiosos da infância – o que constitui, entre as crianças, formas de estar no mundo manifestas nas relações e práticas diárias por elas vivenciadas, experimentando a cada instante suas brincadeiras, invenções, fantasias, desejos que lhes permitem construir sentidos e culturas das quais fazem parte permitindo-nos afirmar que são ativos, capazes, com saberes diversos, que se manifestam com riqueza demonstrando suas capacidades de compreender e expressar o mundo, colaborando em sua construção não como vasos vazios, como na expressão de Peter Moss (2002), mas como co-construtoras, afirmaria ainda mais, como autoras, numa constante via de mão dupla, nas relações sociais e culturais estabelecidas com todos de idades iguais e diferentes, compreendendo-se as diferenças de classe social, étnicas, gênero, religiosas. Fotografias e crianças: protagonismo, autoria e representações Do ponto de vista das práticas nas pesquisas, porém, como fazer para incorporar as crianças como atores sociais? As fotografias tiradas pelas crianças podem auxiliar para o refinamento do nosso olhar adulto para as particularidades das crianças no contexto da infância e na forma como elas se identificam e interpretam suas relações. O percurso da relação entre as ciências sociais e as imagens fotográficas ocorre, num primeiro momento, como recurso metodológico de pesquisa ou mesmo como fonte documental a ser consultada e da qual pode se partir para o desenvolvimento de muitas pesquisas. A imagem vem acompanhando os trabalhos de pesquisa no domínio das Ciências Sociais desde o seu surgimento. Antes do advento de técnicas mais modernas de representação iconográfica, desenhistas de reconhecida habilidade integravam as expedições científicas européias que se lançavam ao mundo dentro de um projeto de expansão colonialista para investigar o outro: o chamado 'selvagem', o que se apresentava como diferente dos colonizadores, tanto do ponto de vista humano, ou demais aspectos da natureza, ainda pouco ou nada conhecidos. Em meados do século XIX, a fotografia aliou-se à antropologia na tarefa de inventariar culturas e modos de vida estranhos ao homem dito "civilizado". Desde então, as imagens produzidas por este meio mecânico de representação bidimensional do mundo passaram a fazer parte da bagagem dos cientistas sociais, servindo como provas ilustrativas das 'verdades' contidas nos textos sobre as sociedades analisadas. A função de ilustrar textos acadêmicos foi, para a maioria dos pesquisadores, o uso mais comum da fotografia no campo das Ciências Sociais, prática hoje bastante refutada. Nas primeiras décadas do século XX é que a fotografia vai ganhar maior importância entre certos pesquisadores sendo referencias em alguns trabalhos escritos; fruto da ousadia de Malinowski e de sua perseverança em utilizar pesados equipamentos e acessórios na sua pesquisa de campo nas ilhas Trobriand. Aproximadamente duas décadas depois, entre os anos de 1936 e 1939, Margaret Mead e Gregory Bateson produzem um volumoso material fotográfico e filmográfico sobre a cultura de Bali e Nova Guiné, as relações entre cultura e personalidade, ressaltando a educação em especial de crianças, apresenta inigualável contribuição para a constituição de um campo inovador de pesquisas. As análises buscavam a compreensão da cultura via imagens fotográficas e também fílmicas, tais contribuições deixam de ser contempladas nas pesquisas, privilegiando-se os textos escritos. A fotografia como auxiliar do caderno de notas na documentação fiel de elementos da cultura material e tecnológico de um povo; como facilitadora da entrada do antropólogo no universo a ser investigado; como motivadora e desencadeadora de conversações numa situação de entrevista; e como fonte de informação mais segura e objetiva, numa etapa posterior ao trabalho de campo, quando o pesquisador não se encontra mais em contato com o seu objeto de estudo, é placidamente aceita sem causar celeuma. Por outro lado, a utilização da imagem fotográfica na elaboração de construções narrativas provoca desavenças nas fileiras dos seguidores de uma antropologia visual e nos estudos de educação. Margareth Mead inicia, com suas pesquisas, desde então, trazendo a presença de crianças, em suas tantas laminas posteriormente reveladas. Com isso, propõe o debate. Isso considerado, merece destacar-se aqui, que as fotografias, ao serem concebidas como fontes documentais históricas e sociais, não significa tê-las como testemunhos empíricos, auto-evidentes, ou ainda, percebê-las como algo que daria a ver a sociedade, as crianças que as compõem, ou sua história e os diferentes elementos contidos nela de forma testemunhal. A fotografia é vista como algo que colabora com a produção de conhecimento e como tal prescinde ser tratada como representações sociais, produto material e segmento de relações sociais. Dai a importância de serem consideradas como linguagem a ser usada pela infância e na infância, assim como, ser um forte objeto material a revelar naquilo que é visível e invisível. Polissêmicas que são, permitem àqueles que com elas trabalham ou observam, considera-las em sua amplitude de elementos reveladores ou ocultadores de informações. Instigam debates. Trata-se de propor que coloquemos as imagens fotográficas em pauta, discutindo sua forma e seu conteúdo, considerando sua polissemia. As reflexões sociológicas podem contribuir de forma expressiva, evidenciando, entre tantas outras informações, as culturas infantis que emergem; as culturas docentes que também podem ser percebidas, ou mesmo, questionadas, trazendo aspectos do imaginário e das práticas sociais escolares. Considerando que a fotografia educa, constrói e reconstrói realidades, podese inferir que à medida que as mesmas circulam em diferentes espaços escolares passam a constituir conhecimentos sobre aqueles que os frequentam, sobre as práticas e a construção de diferentes saberes nesses espaços e sobre as próprias fotografias naquilo que ocultam e evidenciam concomitantemente. Segundo Martins (2008) a sociologia da imagem deve dialogar criticamente com o imaginário sociológico. Ressalta-se aqui, queno caso das crianças pequenas, trata-se de provocar a imaginação sendo também fruto das mesmas. A proposta, ainda um tanto inovadora, é colocar as fotografias não somente como fontes para as pesquisas dos adultos com adultos, mas, destes com as crianças e a partir delas. Experiências neste sentido podem ser vistas na recente pesquisa de Fernanda Muller (2007) cuja busca foi retratar a infância, pelas próprias crianças, na cidade de Porto Alegre. As fotografias captadas pelas crianças podem ser um rico material para a compreensão de suas infâncias. Podem ser um elemento possibilitador da compreensão da linguagem das crianças, daquilo que elas nos dizem, mesmo sem o uso de palavras. Podemos dizer que o ponto de partida desse instrumento metodológico é a interação entre as pesquisadoras e as crianças. Assim, a ênfase é no cotidiano e no subjetivo, no contato e no diálogo estabelecido entre as crianças e as pesquisadoras, e é nessa área de comunicação que a fotografia pode atuar, na aproximação de diferentes universos simbólicos. Nesse sentido, ClifordGeertz aponta: Queremos antes de tudo entender o que “está sendo dito” por nossos interlocutores. [...] Mas o antropólogo trabalha a base da premissa de que o processo comunicativo não é tão simples assim – que, em muitas situações, por causa de uma diferença em faixa etária, classe, grupo étnico, sexo ou outro fator existe uma diferença significativa entre os dois universos simbólicos, capaz de jogar areia no diálogo. Em outras palavras, a antropologia procura criar dúvidas, levantando hipóteses sobre os hiatos e assimetrias que existem entre nossa maneira de ver as coisas e a dos outros (1985, p. 59). As fotografias ainda poderão servir como instrumento para possibilitar a expressão das opiniões das crianças. Segundo Soares (2005) o direito à opinião implica na existência de espaços de escuta das crianças, de comunicação, de diálogo, para os quais confluem as intersubjectividades daqueles que falam e daqueles que ouvem e nos quais se reconstroem interpretações da realidade social desses atores. O direito à expressão é, assim, um momento em que os indivíduos, crianças e adultos, partilham com outros atores sociais e tornam públicos pensamentos e expectativas, promovendo a construção de uma identidade pessoal e social. Sobre o uso da maquina fotográfica nas pesquisas com crianças, outras pesquisadoras revelam que o uso de recursos audiovisuais se mostra como eficientes instrumentos para acessar o “mundo infantil” (COOK e HELLS, 2007). Justificam ainda que o uso da fotografia pelas crianças e o manuseio de uma simples câmera fotográfica não é apenas possível, mas também é uma tarefa prazerosa, altamente motivadora e lúdica. Ainda assim, pretende-se considerar nestes estudos, que os resultados das pesquisas que têm considerado as crianças como fotografas são bastante fecundos, e em muito têmcontribuído, evidenciando, entre tantas outras informações, as culturas infantis trazendo aspectos do imaginário e das práticas sociais entre as crianças. Considerando que a fotografia educa, constrói e reconstrói realidades, pode-se inferir que à medida que as mesmas circulam em diferentes espaços passam a constituir conhecimentos sobre aqueles que os frequentam, sobre as práticas e a construção de diferentes saberes nesses espaços e sobre as próprias fotografias naquilo que ocultam e evidenciam. Ao considerarmos as fotografias e os desenhos das crianças faz-se necessário iniciarmos reflexões sobre o que de fato temos neste novo quadro: trata-se de um protagonismo ou de autoria das crianças, sobretudo quando bem pequenas? Protagonistaestá sendo compreendido como aqui aquele ou aquela que exerce o papel principal numa peça de teatro, filme, livro, novela, compondo um cenário, ou mesmo numa pesquisa, deixando de ser objeto e constituindo a situação de sujeito em processos de investigação. Contudo, a preocupação, ora revelada e discutida, sugere que se perceba a autoria dos meninos e meninas no tocante à fotografia e aos desenhos – embora este último bastante mais debatido e pesquisado por diferentes áreas do conhecimento –afirma-se que as crianças não apenas protagonizam as cenas e cenários fotografados e desenhados,contribuindo com as pesquisas que consideram suas vozes e demais linguagens, elas os constroem e são construídas neles e por eles. No que tange a estas duas linguagens, carecemos de olhares mais rigorosos e sensíveis que compreendam o que é captadopelas crianças como resultado de um processo de criação, de escolha, de investigação, do qual são autores (as), ou seja, alguém que não apenas tem papel de destaque em determinada situação, dirigida por outro alguém, para serem compreendidos como aqueles (as) que têm a condição de autor (a), de quem ou de onde se origina alguma coisa, um agente que produz ou compõe uma obra. Na pesquisa, pretende-se que a fotografia, bem como o desenho, estejam presentes como jogos na vida cotidiana das crianças envolvidas. Em jogos de fotografar as representações se apresentam. Pode-se afirmar que essas fotografias e desenhos existem como arte, embora as crianças não sejam artistas e nem fotógrafas. Não tendo a intencionalidade do artista, procedem como tais na busca por experimentar, responder e compreender diferentes questões. As fotografias, deste modo, são criadas como jogo de percepções, de criações, de inventividades que entram não somente pelos olhos, mas que evocam os cinco sentidos colaborando e evidenciando a capacidade humana de projetar e criar. Nas proposições desta pesquisa, sugere-se, a partir de estudos e observações já realizadas em outras oportunidades1 que necessita-se da construção de formas de olhar e compreender certos códigos e regras existentes na fotografia, em especial das crianças, uma gramática peculiar que auxilie na constituição de modos de ver, considerando as 1 Referência aos estudos que veem se realizando junto ao grupo de estudos e pesquisas Sociologia da Imagem, Artes e Infâncias na Universidade de São Paulo. Esta referencia, em especial, deve-se ao estudo empreendido no ano de 2010, a partir de práticas pedagógicas desenvolvidas em uma escola municipal de educação infantil pública da cidade de São Paulo. transformações históricas das imagens, o exame da produção, circulação e consumo das fotos, bem como os processos educativos que elas evocam naqueles que as olham e ainda as dimensões estéticas nelas presentes. Certamente, neste empreendimento, as próprias crianças podem nos incentivar e ensinar a conhecer. No que diz respeito aos desenhos considera-los tendo como interlocutores diferentes áreas de conhecimento, tais como as ciências sociais e as artes, gerarão indubitavelmente, reflexões promissoras, como apontam outros estudos Gobbi (2006,2007), Dworeck (1999), Gusmão (1999), entre outras. Imaginação e demais elementos do cotidiano compõem as representações, deste modo, para compreendermos as imagens fotográficas, é interessante considerarmos a comunicação com o grupo social nos quais os envolvidos estão inseridos, levando em conta que os mesmos não estão separados do cotidiano. Trata-se também de registros, marcas históricas deixadas por todos, as quais, diante de nós, podem ser compreendidas como pistas a serem seguidas. Encontra-se nas mais diferentes vertentes, estabelece e faz estabelecer relações sociais no lugar em que ocupa. Mobiliza pessoas e mostra aspectos por vezes velados. Em suas narrativas constitui o cotidiano e nele se estabelece. Aventurar-se em desenhos eimagens fotográficas criadas por meninos e meninas, num vaguear de olhares é a sugestão deixada e o caminho a ser percorrido pela pesquisa que está sendo implementada, neste percurso, não há conclusões, apenas o desejo de colocar tal temática em debate. Portando máquinas fotográficas, lápis e demais recursos para os desenhos e para os registros, as crianças exploram espaços, conhecem e fazem conhecer em sua incessante capacidade de investigar, escolher, criar e compor mundos, curiosar. Meninas e meninos em jogos de fotografar contam em suas imagens sobre experiências de infâncias e também sobre sua sensibilidade estética, construindo mundos e deixando indícios dos mesmos. Provocadores, se durante muito tempo, as políticas educacionais não reconheceram os povos do campo como produtores de conhecimento, que pouco são conhecidos em suas diversidades, os povos assentados, assim como os povos da floresta, caiçaras, ribeirinhos, dos interiores provocam-nos a pensa-los a partir deles mesmos, ainda mais, a refletir sobre suas escolhas, seus desejos e, como tanto foi mencionado, suas representações deixadas em fotografias e desenhos, não mais receptores de informações, mas sim, autores das mesmas: de suas infâncias na relação com os outros, das imagens registradas nos coletivos por elas compostos. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS CITADAS CALDART, Roseli Salete. Pedagogia do Movimento Sem Terra. São Paulo. Editora Expressão Popular. 2004. Dworeck, Silvio. (1999) Em busca do traço perdido. São Paulo: Edusp. GOBBI, Gobbi, Marcia. (2007) Ver com olhos livres. In: Faria, A. L. G. (org) O coletivo infantil. São Paulo: Cortez, _______. (2006) Olhares de turista aprendiz: Mário de Andrade e os desenhos das crianças. In. Freitas, M. C. de. (org) Desigualdade social e desigualdade cultural na infância e na juventude. São Paulo: Cortez, p. 175-210. GUSMÃO, Neusa M. Mendes de Linguagem, cultura e alteridade: imagens dou outro. Edição Especial. Cadernos de Pesquisa, nº 107. São Paulo, Fundação Carlos Chagas; Campinas, Editores Associados, l999 pp. 41 –78 ROSSETTO, Edna Araújo. “Essa Ciranda não é minha só, ela é de todos nós: A educação das Crianças Sem Terrinha no MST” dissertação de mestrado. Orientação de Ana Lúcia Goulart de Faria. FEUNICAMP. 2008.