Anais do Simpósio Regional de Geoprocessamento e Sensoriamento Remoto - GEONORDESTE 2014
Aracaju, Brasil, 18-21 novembro 2014
ANÁLISE ESPACIAL DOS DEPÓSITOS QUATERNÁRIOS: IMPORTÂNCIA COMO
PROTEÇÃO DA COSTA NO MUNICÍPIO DE ARACAJU - SERGIPE
Manuela Gavazza da Silva1, Tais Kalil Rodrigues2, Luciana Vieira de Jesus3, Ana Cláudia da Silva
Andrade4, Ana Amélia de Oliveira Lavenère-Wanderley5
1
Geógrafa, Mestre em Geociências e Análise de Bacias (PGAB/UFS), São Cristóvão-SE, [email protected]
2
Geógrafa, Doutoranda em Geologia, (IGeo/UFBA), Salvador-BA, [email protected]
3
Geóloga, Mestranda em Geociências e Análise de Bacias (PGAB)/UFS, São Cristóvão-SE, [email protected]
4
Geóloga, Professora Associada I, (DGEOL, PGAB)/UFS, São Cristóvão-SE, [email protected]
5
Oceanógrafa, Professora Assistente, UESC, Ilhéus-BA, [email protected]
RESUMO: As praias do município de Aracaju, no estado de Sergipe, perfazem uma faixa litorânea
que se estende por cerca de 24 km, entre as desembocaduras do rio Sergipe, a norte e do rio VazaBarris, a sul. Neste trabalho foram estudadas sete praias do litoral de Aracaju (Mosqueiro, Refúgio,
Náufragos, Robalo, Aruana, Atalaia e Artistas), totalizando 24 pontos amostrais. As praias apresentam
baixa declividade e são bordejadas por depósitos arenosos sendo, portanto, facilmente remodeladas
pelas ondas, marés, correntes e ventos. O objetivo desse trabalho é identificar e analisar a importância
dos depósitos quaternários como proteção à erosão costeira nas praias do litoral de Aracaju-SE. A
metodologia compreendeu trabalho de campo e de escritório. O trabalho de campo consistiu na
caracterização dos depósitos quaternários (largura e altura) que bordejam as praias de Aracaju. O
trabalho de escritório consistiu na elaboração dos mapas temáticos em ambiente SIG no programa de
geoprocessamento ArcGis 9.3.1 a partir dos dados coletados em campo. Os resultados mostram que os
depósitos quaternários que bordejam as praias de Aracaju são as dunas frontais, que apresentam
dimensões (largura e altura) variadas promovendo ou não a proteção da costa aos eventos erosivos.
Dessa forma, esse trabalho fornece subsídios que podem ser úteis para projetos de gestão pública e
ambiental, principalmente no que diz respeito à ocupação humana próxima à linha de costa.
PALAVRAS-CHAVE: dunas frontais, erosão costeira, SIG
INTRODUÇÃO: A praia constitui um ambiente sedimentar costeiro, de granulometria variada. Por
serem constituídas por materiais inconsolidados, as praias são retrabalhadas pela ação das ondas,
marés, correntes e ventos (KING, 1972; HOEFEL, 1998). O contexto geológico de uma determinada
região definirá se as praias/zonas costeiras são rochosas e resistentes, ou se são compostas por
materiais inconsolidados e, portanto, facilmente erodíveis (YOUNG et al., 1996). Os aspectos
geológico-geomorfológicos do litoral do Estado de Sergipe são resultantes, principalmente, das
variações relativas do nível do mar, com episódios de transgressão e regressão marinha, ocorridos
durante o Quaternário (BITTENCOURT et al., 1983). Segundo Hesp (2002), as dunas frontais são
cristas dunares arenosas e vegetadas, formadas na retaguarda do pós-praia, sob a atuação dos ventos.
No período seco, os sedimentos do pós-praia podem ser remobilizados pela ação eólica alimentando as
dunas frontais. Este processo causa um déficit no balanço sedimentar do sistema praial contíguo à
duna frontal. Por outro lado, as dunas frontais desempenham um papel importante na manutenção e
preservação da integridade da morfologia da costa, constituindo barreiras de proteção contra a erosão
costeira (CORDAZZO & SEELIGER, 1995; NORDSTROM, 2010). A erosão da duna frontal
constitui fonte de sedimentos para o ambiente praial, ou seja, constitui um estoque de sedimentos. O
objetivo desse trabalho é identificar e analisar a importância dos depósitos quaternários frente à erosão
costeira nas praias do município de Aracaju-SE, visto que trabalhos anteriores (BITTENCOURT et al.,
1983; OLIVEIRA, 2003; RODRIGUES, 2008; OLIVEIRA, 2012; SANTOS, 2012; SANTOS &
ANDRADE, 2013) mostram que essa região apresenta uma dinâmica bastante instável.
MATERIAL E MÉTODOS: A metodologia incluiu as seguintes etapas: levantamento bibliográfico,
trabalhos de campo e de escritório. Os trabalhos de campo foram realizados na maré baixa de sizígia
em agosto de 2012 (inverno chuvoso) e fevereiro de 2013 (verão seco) no litoral do município de
Aracaju-SE, da foz do rio Sergipe até a foz do rio Vaza-Barris (Figura 1). Os pontos de coleta de
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dados foram marcados com GPS de precisão de 3 m (Garmin Colorado 400t), no datum SAD 69, em
intervalos de aproximadamente 1 km. Foi preenchida uma planilha em cada ponto amostral (total de
24 planilhas) contendo dados de largura e altura da duna frontal e, largura do depósito
topograficamente baixo (situado na retaguarda da duna frontal). A altura da duna frontal foi estimada
visualmente e a largura foi medida com uma trena. Neste trabalho, considerou-se a altura da duna
frontal, adaptado de Young et al. (1996), como sendo: (i) baixa: menor que 3m, (ii) moderada: entre
3m e 6m e (iii) alta: maior que 6m. Com relação à largura da duna frontal, tem-se: (i) estreita: menor
que 10m, (ii) moderada: entre 10m e 20m e (iii) larga: maior que 20m. O depósito topograficamente
baixo foi medido do limite interno da duna frontal até a via de acesso ou até a primeira estrutura
antrópica relevante, sendo considerado: (i) estreito: menor que 10m, (ii) moderado: entre 10m e 20m e
(iii) largo: maior que 20m. Foi realizado, ainda, o registro fotográfico dos pontos amostrais. Os dados
coletados em campo foram inseridos e integrados no programa ArcGis 9.3.1, onde foram produzidos
os mapas temáticos dos depósitos quaternários, largura e altura das dunas frontais da área investigada.
Figura 1 – Localização da área de estudo. Em A: Estado de Sergipe no Brasil; Em B: município de
Aracaju no Estado de Sergipe; Em C: praias situadas entre as desembocaduras dos rios Sergipe e
Vaza–Barris, Aracaju–SE: Mosqueiro (1 a 6), Refúgio (7 a 11), Náufragos (12 a 14), Robalo (15),
Aruana (16 a 18), Atalaia (19 a 23) e Artistas (24). Fonte: Imagem de satélite Quickbird, 2003.
RESULTADOS E DISCUSSÃO: As praias do município de Aracaju-SE são bordejadas
predominantemente por depósitos de origem eólica (dunas frontais) que podem ou não estar
descaracterizadas por atividade antrópica. As dunas frontais apresentam alturas que variam de poucos
centímetros a 5m (Figura 2) e larguras que variam de 8m a 230m. Na retaguarda das dunas frontais
ocorrem depósitos topograficamente baixos, de ambientes de interdunas, que podem constituir terras
úmidas ou não. Os depósitos topograficamente baixos apresentam larguras que variam de 12m a 93m.
A largura total dos depósitos (somatória da largura da duna frontal e do depósito topograficamente
baixo) é importante, pois aumenta o trecho de proteção até as vias de acesso ou primeira estrutura
antrópica relevante e varia de 8m a 324m (Figura 3). As dunas frontais apresentam menores alturas
nas praias do Mosqueiro, do Refúgio, dos Náufragos, da Aruana e da Atalaia. As dunas frontais mais
largas encontram-se nas praias do Mosqueiro, do Refúgio, dos Náufragos, do Robalo, da Aruana e da
Atalaia. Os setores com larguras mais expressivas dos depósitos eólicos encontram-se na praia da
Atalaia, com 124m e 231m. Essa largura fica maior quando adicionado, ao valor do depósito eólico, o
valor da largura do depósito topograficamente baixo, podendo atingir até 324m de largura total (Figura
4A). As dunas frontais encontram-se descaracterizadas nas praias do Refúgio, dos Náufragos e da
Aruana, onde foram aterradas para a construção de barracas de praia. Na praia dos Artistas, as dunas
frontais foram erodidas (Figura 4B).
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Figura 2 - Altura das dunas frontais presentes na linha de costa do município de Aracaju–SE.
Largura da duna frontal
Estreita: < 10m
Moderada: de10m a 20m
Larga: > 20m
Largura da duna frontal
Estreita: < 10m
Moderada: de10m a 20m
Larga: > 20m
Largura da duna frontal
Estreita: < 10m
Moderada: de10m a 20m
Larga: > 20m
Depósito topograficamente baixo
Estreito: < 10m
Moderado: de 10m a 20m
Largo: > 20m
Depósito topograficamente baixo
Depósito topograficamente baixo
Estreito: < 10m
Moderado: de 10m a 20m
Largo: > 20m
Largura total dos depósitos
Estreito: < 10m
Moderado: de 10m a 20m
Largo: > 20m
Largura total dos depósitos
Estreita: < 10m
Moderada: de 10m a 20m
Larga: > 20m
Figura 3 - Largura da duna frontal, largura do depósito topograficamente baixo situado na retaguarda
da duna frontal e largura total dos depósitos quaternários presentes na linha de costa do município de
Aracaju–SE.
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Estreita: < 10m
Moderada: de 10m a 20m
Larga: > 20m
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A
Aterro
Largura expressiva
dos depósitos
quaternários
B
Estruturas de
contenção
C
Duna
frontal
Escarpa erosiva
Figura 4 – Em A: Largura expressiva dos depósitos quaternários na Praia da Atalaia. Foto no período
seco. Em B: Presença de aterro, de estruturas de contenção e ausência de praia seca, indicando erosão
severa na Praia dos Artistas. Foto no período chuvoso. Em C: Duna frontal em erosão no ano de 2011
na Praia dos Artistas. Foto do arquivo de projeto de pesquisa.
CONCLUSÕES: A área mais crítica à erosão costeira está localizada na praia do Mosqueiro, onde
ocorrem as menores alturas e larguras das dunas frontais. Nesta praia, as estruturas de contenção, sem
manutenção, não desempenharam o papel de proteger o litoral. As praias do Refúgio, dos Náufragos e
da Aruana, que foram aterradas para a construção de barracas de praia sobre as dunas frontais, ficaram
mais vulneráveis à erosão costeira, devido à falta de proteção que a duna frontal proporcionava. A
presença de aterros e de estruturas de contenção situadas na retaguarda do pós-praia barram a troca de
sedimentos entre o sistema praial e os depósitos quaternários. Uma vez que estes depósitos são
removidos ou substituídos por estruturas mais rígidas, a praia deixa de receber sedimentos dessa fonte
(duna frontal) e o processo erosivo na praia pode, então, ser intensificado. A praia dos Artistas
exemplifica esta situação, apresentando indicativos de erosão severa.
AGRADECIMENTOS: Os autores agradecem ao PGAB/UFS, a FAPITEC/SE e a CAPES pela
concessão de bolsas de mestrado e de doutorado, a Albérico Blohem de Carvalho Júnior pelo auxílio
no trabalho de campo. A licença para o uso do ArgcGis 9.3.1. foi adquirida em projeto de pesquisa
financiado pelo CNPq.
REFERÊNCIAS:
BITTENCOURT, A.C.S.P.; MARTIN, L.; DOMINGUEZ, J.M.L.; FERREIRA, Y.A. Evolução
paleogeográfica quaternária da costa do Estado de Sergipe e da costa sul do estado de Alagoas.
Revista Brasileira de Geociências, ano 13, v. 2, p. 93-97, 1983.
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Rio Grande: FURG, 1995. 275 p.
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HESP, P. A gênese de cristas de praias e dunas frontais. Mercator – Revista de Geografia da UFC,
ano 1, v. 2, p. 119-125, 2002.
HOEFEL, F.G. Morfodinâmica de praias arenosas oceânicas: uma revisão bibliográfica. Itajaí:
Univali, 1998, 92 p.
KING, C.A.M. Beaches and coasts. London: Edward Arnold. 1972, 570 p.
NORDSTROM, K.F. Recuperação de praias e dunas. São Paulo: Oficina de Textos, 2010, 263 p.
OLIVEIRA, L.S. Evolução da paisagem costeira da zona de expansão de Aracaju/SE. 2012.
Dissertação (Mestrado em Geografia) - Universidade Federal de Sergipe, Aracaju. 2012, 157 p.
OLIVEIRA, M.B. Caracterização integrada da linha de costa do Estado de Sergipe – Brasil.
2003. Dissertação (Mestrado em Geologia) - Universidade Federal da Bahia, Salvador. 2003, 150 p.
RODRIGUES, T.K. Análise das mudanças de linha de costa das principais desembocaduras do
Estado de Sergipe, com ênfase no rio Sergipe. 2008. Dissertação (Mestrado em Geologia) Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2008, 92 p.
SANTOS, G.C. Dinâmica da paisagem costeira da Coroa do Meio e Atalaia – Aracaju-SE. 2012.
Dissertação (Mestrado em Geografia) - Universidade Federal de Sergipe, Aracaju. 2012, 152 p.
SANTOS, G.C.; ANDRADE, A.C.S. Evolução da paisagem costeira da Coroa do Meio e Atalaia –
Aracaju-SE. Scientia Plena, 2013, 9: 1-7.
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