________________________________________________________ CAPÍTULO 3
AVALIAÇÃO DA VULNERABILIDADE À EROSÃO
Por
Antonio Ivo de Menezes Medina
e Marcelo Eduardo Dantas
3.1 Metodologia
A elaboração do mapa de Vulnerabilidade à
Erosão, na escala 1:100.000, está relacionada com
os tipos de relevo e suas informações
morfométricas (declividade, amplitude de relevo,
grau de dissecação) e feições morfológicas, tais
como vales, escarpas estruturais, escarpas
erosivas,
falésias
(assinaladas
no
mapa
Geomorfológico), assim como propriedades
físicas dos solos (profundidade, textura, estrutura,
permeabilidade),
processos
morfodinâmicos,
condições climáticas, proteção vegetal e uso da
terra. A integração desses atributos permitiu
agrupar as áreas com diferentes classes de
vulnerabilidade à erosão: muito fraca, fraca,
moderada, forte, muito forte.
As diferentes classes de vulnerabilidade à erosão
estabelecidas expressam a situação atual e potencial,
haja vista tratar-se de uma avaliação dinâmica,
alterada, principalmente, conforme a atividade
antrópica, bastante intensa na região.
Valores altos de amplitude de relevo, declividade
e grau de dissecação propiciam maior intensidade
dos processos morfodinâmicos e mais elevada
vulnerabilidade à erosão dos terrenos.
As áreas de classe forte e muito forte estão
relacionadas aos trechos das bordas dos tabuleiros
costeiros, onde os declives acentuados, combinados
com o desmatamento, a suscetibilidade erosiva dos
sedimentos do grupo Barreiras e o pisoteio do gado
dão origem a terracetes, sulcos erosivos, ravinas e
cicatrizes de deslizamentos propiciados pelo
escoamento difuso e concentrado das águas pluviais.
As falésias ativas com cicatrizes de erosão
acentuadas também se enquadram nessas classes.
O grau moderado de vulnerabilidade à erosão
abrange áreas com rampas de declive entre 8% a
30%. O escoamento superficial difuso e
semiconcentrado proporciona remoção parcial dos
horizontes superficiais dos Podzólicos Latossólicos e
propicia o surgimento de pequenas canaletas e
sulcos erosivos.
As áreas de classe fraca de vulnerabilidade estão
situadas, via de regra, nas superfícies de relevo
plano sobre os tabuleiros, com declives entre 3% e
15%, com dominância de Podzólicos e Latossolos,
onde a infiltração de água é maior e a erosão laminar
é fraca devido ao escoamento difuso. As áreas de
classe muito fraca de vulnerabilidade estão
relacionadas às baixadas e planícies de acumulação
com declividades de 0% a 3%.
O mapa de Vulnerabilidade à Erosão foi
elaborado na escala 1:100.000, a partir de consultas
bibliográficas e interpretação de fotos aéreas na
escala 1:108.000 (Sudene, 1982) e imagens de
satélite Landsat, 1:100.000, complementadas por
trabalhos de campo.
Foram realizadas duas etapas de campo nos
períodos de 20.06 a 03.07.1999 e 26.09 a
02.10.1999, quando foram percorridas praticamente
todas as estradas transitáveis da área. Na segunda
campanha, além das rodovias e estradas vicinais, foi
percorrido de barco o rio do Peixe/Buranhém, a fim
de se verificar trechos de erosão nas margens e o
assoreamento decorrente dos processos erosivos
atuantes.
3.2 Descrição das Classes de Vulnerabilidade à
Erosão
As classes de vulnerabilidade estão relacionadas
aos aspectos do relevo, graus de dissecação,
litologia, solos, declividade, uso e ocupação da terra,
conforme exemplificado no Quadro 3.1.
3.2.1 Muito Fraca
Nos terrenos delimitados pela classe muito
fraca, a erosão laminar desenvolvida pelo
escoamento difuso das águas pluviais tem pouca
competência devido ao fraco ou inexistente
gradiente topográfico. São áreas de baixada ou
planícies de acumulação de sedimentos, como as
planícies fluviais, flúvio-lagunares, marinhas e
manguezais.
Correspondem
às
áreas
periodicamente inundáveis, onde são depositados
os materiais mais finos em suspensão. Essa
deposição dá origem a solos hidromórficos em
geral, como os Solos Aluviais e Glei. Esses
terrenos são utilizados para pastagem, ocupação
urbana, lazer, pequenos sítios e favelas.
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Classes de
Erosão
Muito fraca
Fraca
Moderada
Relevo
Dominante
Graus de
Dissecação*
Baixadas,
planícies de
acumulação
Dt41, Dt31,
Dt43, Dt42,
Superfícies de
Dt32, Dt22,
tabuleiros
Dt23, Dt21,
Dt33
Colinas tabulares, Dt11, Dcr13,
pequenos
Dcr22, Dcr23,
interflúvios
Dct13, Dc23,
tabulares
Dc22, Dc13
Forte
Colinas residuais,
vertentes de vales
Muito forte
Escarpas
de
tabuleiros,
falésias, vertentes
de vales
Litologia
Solos Dominantes
Declividade
(%)
Solos Aluviais, Glei,
Depósitos
argilossiltosos, Podzol Hidromórfico e
argiloarenosos e arenosos
Areias Quartzosas
Marinhas
0-6
Arenitos imaturos, finos a
Podzólicos Amarelos e
granulosos,
com
níveis
Podzólicos Amarelos
argilosos e conglomeráticos
Latossólicos e Podzóis
do grupo Barreiras
6 - 15
Arenitos imaturos, finos a
granulosos, com níveis
argilosos e conglomeráticos
do grupo Barreiras
Gnaisses kinzigíticos,
Dcr23, Dcr24,
gnaisses migmatíticos,
Dc13, Dc24,
biotita-gnaisses, granitóides;
Dc23, Ded14
arenitos imaturos e argilitos
do grupo Barreiras
Gnaisses kinzigíticos,
De, Da, Dve, gnaisses migmatíticos,
Dct14, Dct23, biotita-gnaisses, granitóides;
Dct24
arenitos imaturos e argilitos
do grupo Barreiras
Uso do Solo
Ocupação
urbana,
pastagem,
turismo
Pastagem,
silvicultura,
culturas
anuais e
perenes
Podzólicos Amarelos e
Vermelho-Amarelos e
Podzólicos Câmbicos
15 - 30
Pastagem,
cacau,
cafeicultura
Podzólicos VermelhoAmarelos, VermelhoEscuros
30 - 45
Pastagem
Podzólicos Amarelos e
Vermelho-Amarelos e
Cambissolos
>45
Pastagem
Quadro 3.1 – Classes de vulnerabilidade à erosão.
(*) Dt: dissecação em formas tabulares; Dc: dissecação em colinas; Dcr: dissecação em colinas residuais; Dct: dissecação em colinas tabulares; Ded:
dissecação em escarpas degradadas; Dve: dissecação em vales encaixados.
Obs.: Os dígitos 41, 23, 13 etc. representam índices de dissecação variáveis, conforme as combinações do tamanho dos interflúvios – representado pelo
primeiro dígito, que cresce de 1 a 4 – e da intensidade de aprofundamento da drenagem – representada pelo segundo dígito, que varia de fraca (1) a muito
forte (4).
32
Essa categoria – representada com o símbolo MF
no mapa de Vulnerabilidade à Erosão – está
distribuída na área de estudo ao longo das planícies
fluviais (Apf e Apfl – vide mapa Geomorfológico)
da rede de drenagem principal da região,
destacando-se os fundos de vales dos rios Caraíva,
dos Frades, do Peixe/Buranhém, João de Tiba e
Santo Antônio, sendo também relevante junto às
planícies costeiras (Apm) e flúvio-marinhas
(mangues-Api) ao longo da faixa litorânea.
3.2.2 Fraca
Compreende as áreas de relevo plano e suave
ondulado que ocorrem nas superfícies dos tabuleiros
costeiros. Os solos dominantes são Podzólicos
Latossólicos, profundos, bem drenados e bem
estruturados. As declividades variam entre 0% e 8%.
A densidade de drenagem é razoavelmente fraca
e os tabuleiros são medianamente dissecados.
A vulnerabilidade à erosão é caracterizada pela
fraca erosão laminar, sem evidência erosiva, com
infiltração das águas, ou moderada, com ligeiras
evidências de sinais incipientes de erosão laminar
por escoamento difuso ou semiconcentrado.
Os usos dominantes são silvicultura de eucalipto,
seringueira, fruticultura, pastagens e ocupação urbana.
Essa categoria possui ampla distribuição na área
de estudo, sendo a que abrange a maior extensão em
área. Ocupa praticamente todas as vastas superfícies
planas dos interflúvios tabulares, estando assinalada
com o símbolo F, no mapa de Vulnerabilidade à
Erosão, e Dt no mapa Geomorfológico.
3.2.3 Moderada
Abrange as áreas de relevo colinoso – colinas
residuais e colinas tabulares – com interflúvios
tabulares sobre os tabuleiros costeiros e parte da
superfície pré-litorânea e superfícies dos tabuleiros
mais dissecadas com maior densidade de drenagem.
A drenagem é de média a alta densidade e as
declividades variam entre 8% e 30%. Abrange
também os vales dos cursos d’água com vales pouco
encaixados e vertentes suaves a moderadas.
Os solos predominantes são os Podzólicos
Latossólicos nos topos e Cambissolos nas vertentes.
Estes são mais suscetíveis à erosão por não
apresentarem estrutura bem desenvolvida, serem
pouco profundos e moderadamente drenados.
A vulnerabilidade erosiva moderada relaciona-se
a uma instabilidade morfodinâmica caracterizada por
erosão laminar fraca a moderada responsável pela
remoção parcial dos horizontes superficiais dos
solos e pela existência de sulcos erosivos localizados
pelo escoamento semiconcentrado. Ocorre também a
formação incipiente de terracetes de pisoteio, que
em estágio mais avançado podem evoluir para sulcos
erosivos. Esses processos ocorrem mais nas
superfícies das vertentes dos vales com
aprofundamento de drenagem variando de 20 a 60m
(amplitudes locais de relevo).
Os principais tipos de uso são pastagem, cacau e
café. O uso de práticas agrícolas inadequadas,
principalmente nas vertentes longas
com
declividades superiores a 15%, modifica as
condições naturais do solo, agravando a ação do
escoamento.
Essa categoria está distribuída na área de
estudo ao longo dos vales menos aprofundados de
toda a rede de drenagem, ocupando uma área mais
extensa na porção nordeste de Santa Cruz
Cabrália, numa faixa de tabuleiros muito
dissecados e pouco aprofundados (Dt11 – mapa
Geomorfológico). Também foram classificados na
categoria de erosão moderada os interflúvios das
colinas tabulares, caracterizados por estreitos
espigões delimitados por bordas íngremes e
dissecadas (Dct), que ocorrem principalmente no
interflúvio entre os médios cursos das bacias dos
rios dos Frades e do Peixe/Buranhém; e as
encostas suaves das colinas modeladas no
embasamento cristalino (Dc e Dcr), que ocorrem
principalmente na porção ocidental de Santa Cruz
Cabrália e no sudoeste de Porto Seguro, próximo à
sede do Parque Nacional do Monte Pascoal. A
categoria moderada está representada com a letra
M no mapa de Vulnerabilidade à Erosão.
3.2.4 Forte
Abrange relevo de colinas residuais e vertentes
de vales dissecados com declividades acentuadas
entre 30-45%; solos, em geral, pouco profundos, de
baixa
permeabilidade,
classificados
como
Podzólicos.
A drenagem dessas áreas é de alta à média
densidade, com interflúvios pouco extensos e
amplitudes locais de relevo variando de 20 a 60m.
São terrenos bastante suscetíveis à erosão; a
vulnerabilidade forte evidencia-se pela remoção
parcial dos horizontes superficiais dos solos,
presença localizada de sulcos, ravinas e terracetes de
pisoteio, principalmente quando o pastoreio é
intenso (Foto 3.1).
O escoamento superficial pluvial é difuso,
semiconcentrado e, por vezes, concentrado em
canais, significando, nesse caso, uma distribuição
bastante diferenciada da energia desses fluxos na
superfície. Os processos erosivos são tanto mais
intensos quanto menor for a proteção dada pela
cobertura vegetal ao horizonte superficial do solo
(Foto 3.9). O uso predominante é a pastagem,
seguido pela cultura do café.
33
Essa categoria – representada no mapa de
Vulnerabilidade à Erosão com o símbolo Fo – está
distribuída nos vales profundos a medianamente
profundos, ao longo de toda a rede de drenagem.
Também foram classificadas na categoria de erosão
forte as vertentes declivosas dos vales encaixados
(Dve) e das escarpas degradadas (Ded), localizadas
nos médios cursos das bacias dos rios dos Frades, do
Peixe/Buranhém e João de Tiba; alguns trechos
suavizados das escarpas estruturais de tabuleiros
(De) dos baixos cursos dos rios dos Frades e do
Peixe/Buranhém); e as encostas mais íngremes e
elevadas das colinas modeladas no embasamento
cristalino (Dc e Dcr), que ocorrem principalmente na
porção ocidental do município de Santa Cruz
Cabrália, destacando-se a elevação isolada da torre
da Embratel, e no sudoeste de Porto Seguro,
próximo à sede do Parque Nacional do Monte
Pascoal.
3.2.5 Muito Forte
Corresponde às áreas com declividades
acentuadas (>45%) nos bordos dos tabuleiros
costeiros, ao longo das vertentes dos vales mais
profundamente dissecados e nas cabeceiras de
drenagem (Fotos 3.6 e 3.7), onde os solos, muito
suscetíveis à erosão, favorecem o arrasto das
partículas, além de apresentarem elevado potencial
de voçorocamento e movimento de massa. Os solos
predominantes compreendem os Podzólicos,
associados aos Cambissolos.
Ocorrem solos com horizontes superficiais
degradados, grandes concentrações de terracetes de
pisoteio, sulcos erosivos, ravinas e cicatrizes de
deslizamento, sendo que algumas já se encontram
colonizadas por pastagem (Fotos 3.2, 3.5, 3.7 e
3.10).
A ocorrência de níveis subsuperficiais impermeáveis
ou pouco permeáveis devido ao gradiente textural dos
Podzólicos, combinada com longos episódios de chuvas,
ocasiona o desenvolvimento de níveis subsuperficiais
saturados em água capazes de produzir superfícies de
ruptura por colapso coesivo na massa de solo,
favorecendo os escorregamentos.
Os terracetes de pisoteio, presentes nas áreas de
pastagem com altas declividades, sofrem
microescorregamentos produzidos numa escala de
tempo relativamente longa se comparados aos
movimentos de massa. Entretanto, constituem áreas
de alta instabilidade morfodinâmica, pois, em
estágio mais avançado, essas feições evoluem para
sulcos e ravinas que poderão propiciar o
desenvolvimento de voçorocas ou mesmo
escorregamento de solos.
As falésias esculpidas nas litologias do grupo
Barreiras também se enquadram nessa classe. A
erosão dessas falésias é ativa,
devido,
principalmente, ao trabalho do mar feito por
solapamento da base. A falésia representa, também,
o resultado de outros agentes exodinâmicos, como a
chuva, o vento e o calor no relevo costeiro. Tais
agentes concorrem para o intemperismo e a
desagregação dos sedimentos que deslizam e se
acumulam no sopé das escarpas, juntamente com o
material desmoronado por solapamento (Foto 3.26).
Essa categoria, assinalada com o símbolo MFo
no mapa de Vulnerabilidade à Erosão, distribui-se
nos vales de maior aprofundamento ao longo de
toda a rede de drenagem, destacando-se os
tributários da bacia do rio Caraíva (Fotos 3.8, 3.12
e 3.13). Também foram classificados na categoria
de erosão muito forte os montes residuais ou
monadnocks (Da), como o monte Pascoal, as
vertentes abruptas dos vales encaixados (Dve) e
das escarpas degradadas (Ded), localizadas nos
médios cursos das bacias dos rios dos Frades, do
Peixe/Buranhém e João de Tiba; as escarpas
estruturais de tabuleiros (De) dos grabens dos
baixos cursos dos rios dos Frades e do
Peixe/Buranhém; e as falésias e paleofalésias
(Fotos 3.3 e 3.4) existentes ao longo da faixa
litorânea.
3.3 Áreas Críticas Localizadas
3.3.1 Estradas
A construção e a pavimentação das novas
estradas que ligam a rodovia BA-001 a Arraial
D’Ajuda e Trancoso acarretaram pontos críticos de
erosão e de movimentos de massa.
Os cortes profundos nos tabuleiros, para diminuir
os desníveis da estrada, assim como os aterros,
formaram taludes de ângulos elevados de
estabilidade precária e altamente suscetíveis à erosão
hídrica. Foram identificados sulcos de erosão e
cicatrizes de deslizamentos recentes de terra nos
taludes das estradas, sendo observada, também, em
alguns locais, a ocorrência de fissuras e rachaduras
nas rodovias já pavimentadas (Fotos 3.15 e 3.16).
Nas áreas onde os tabuleiros possuem uma
composição
de
sedimentos
mais
finos,
dominantemente argilosos, esses processos erosivos
são atenuados, devido à maior coesão das partículas
de argila e à compactação mais eficiente desse tipo
de material.
Nos locais onde os sedimentos dos tabuleiros
tornam-se
mais grosseiros e inconsolidados,
dominantemente arenosos, os taludes formados são
extremamente frágeis e instáveis. A intensidade dos
processos erosivos nesse caso é bem maior e a
implantação de cobertura vegetal protetora e de
sistemas de drenagem adequados torna-se mais difícil.
34
Em geral, nessa última condição, os sedimentos
arenosos ocupam a parte de topo dos tabuleiros,
sendo sobrepostos pelos sedimentos argilosos à
medida que se caminha dos topos para os vales.
Em algumas dessas vertentes, com o corte das
estradas, o material arenoso inconsolidado
encontra-se exposto e em franco processo de
erosão diferencial, constituindo, assim, uma
condição ideal para o escorregamento ou
desmoronamento do material argiloso sobreposto.
A não-recuperação dessas áreas pode causar danos
irreparáveis em pouco espaço de tempo.
Mesmo com a realização de obras de proteção
dos taludes e aterros, estão surgindo e poderão surgir
mais ainda outros problemas, tais como: erosão nas
saídas do sistema de drenagem implantado nas
rodovias, que pode evoluir para ravinas ou mesmo
voçorocas, até atingir a rodovia (Foto 3.14); erosão
longitudinal ao longo do acostamento; erosão em
sulcos nos taludes de cortes e aterros;
escorregamentos superficiais devido à inclinação
acentuada dos taludes de corte, tipo de material e
deficiência no sistema de drenagem superficial.
3.3.2 Canal do Rio Buranhém
O trajeto percorrido no rio do Peixe/Buranhém
durante os trabalhos de campo – trechos médio e
inferior – encontra-se em uma planície aluvial em
vale de fundo chato contendo ilhas e lagoas, estando
limitado por bordas de vertentes escarpadas e
modeladas sobre os sedimentos do grupo Barreiras
que suportam os tabuleiros costeiros.
O rio é de pouca profundidade, com margens
baixas e medianamente elevadas, podendo ocorrer
barrancos altos, principalmente na margem
esquerda. O material das margens é arenoso e
secundariamente argiloarenoso, com colorações
diversas.
Esses barrancos são constantemente solapados na
base pelo fluxo corrente das águas, provocando
desmoronamentos de porções de variadas dimensões
(Foto 3.17). O rebaixamento rápido da água após uma
enchente também propicia esses desbarrancamentos.
Além disso, o solapamento feito pelas ondas
produzidas pelo deslocamento de lanchas velozes e
jet-skis, usados freqüentemente como lazer, vem
induzindo a erosão das margens, acarretando perda de
terras de pequenos proprietários.
A retirada da cobertura vegetal, tanto nas áreas de
cabeceiras do rio e tributários, quanto ao longo de
suas margens (mata ciliar), também contribui com a
degradação ambiental por erosão das margens e
assoreamento do canal e estuário do rio (Fotos 3.18
e 3.20).
O material desprendido e lançado no rio contribui
para a formação de aluviões (bancos de areia), que
vêm dificultando sobremaneira a navegação. Uma
outra parcela a se considerar seria o resultado da
erosão laminar nos interflúvios.
Outro fator que vem incrementando o processo
de assoreamento está associado à retificação do
rio através da construção de um canal no seu
médio curso. Esse tipo de obra, via de regra,
aumenta a energia do rio e, em conseqüência, seu
poder erosivo e sua capacidade de transportar
sedimentos. Ademais, a extração de areia por
dragagens em vários pontos desse canal artificial
tem alterado o leito, revolvendo sedimentos que
são transportados para jusante (Foto 3.19).
Os sedimentos transportados pelo rio do
Peixe/Buranhém que
chegam à foz são
predominantemente finos, haja vista que o material
mais grosseiro deposita-se, em sua maioria, no leito
do rio e nos bancos situados na barra. Os sedimentos
finos são levados em suspensão e podem atingir
distâncias consideráveis costa afora, a depender dos
ventos, ondas e correntes do mar.
Havendo contaminação da água do rio a partir da
ocupação ribeirinha (principalmente a ocupação do
mangue por três favelas na área urbana de Porto
Seguro), os sedimentos finos podem adsorver os
contaminantes e levá-los até as águas costeiras,
comprometendo a fauna marinha, em especial os
corais dos recifes.
Segundo Leão (1996), os principais impactos
sobre os corais são: a turbidez da água, produzida
pelos sedimentos finos em suspensão, derivados do
maior escoamento das águas de chuva por causa do
desmatamento; o turismo e atividades de
entretenimento, que aumentam a navegação e visitas
aos recifes de corais; e a contaminação por
elementos tóxicos.
3.3.3 Erosão em Área Urbana
A cidade de Porto Seguro apresenta, atualmente,
um aumento considerável do fluxo turístico e de
expansão
urbana,
propiciando
distorções
representadas pela ocupação urbana desordenada de
suas encostas e manguezais.
Esse tipo de expansão e ocupação imobiliária
tem gerado o adensamento de bairros de baixa
renda, como é o caso de Baianão e Paraguai, com
setores situados em áreas consideradas de
extrema fragilidade física e, portanto, de risco
geológico (Fotos 3.21 e 3.22).
Tais setores abrangem as encostas dos vales
dos tabuleiros costeiros, com características
geológico-geotécnicas e ocupacionais locais com
maior ou menor risco de deslizamento ou erosão,
como também, áreas passíveis de serem atingidas
pelo
material
movimentado,
sujeitas
a
soterramento ou assoreamento. Apresentam como
35
principal problema a alta suscetibilidade aos
processos erosivos devido à forma de relevo –
ruptura de declive entre platô e fundo de vale –,
litologias pouco consolidadas e friáveis,
ocorrência de chuvas intensas e desmatamento
generalizado.
As zonas onde o risco é evidente ou iminente
envolvem um grande número de moradias situadas
junto a cortes formando taludes íngremes, quase
verticais, realizados sem critérios técnicos e
ordenação de drenagem, além de pontos de
acumulação de lixo.
A ocupação nas áreas de mangue localizadas
próximas à desembocadura do rio vem retirando
parcelas consideráveis da vegetação característica
para construção de casas de alvenaria e palafitas
(Fotos 3.24 e 3.25). A falta de proteção da vegetação
natural – árvores e arbustos com raízes entrelaçadas
– proporciona a remoção dos solos de mangue (pela
ação das chuvas ou das ondas e marés), responsáveis
pelo
equilíbrio
de
um
ecossistema
de
vulnerabilidade ambiental extremamente forte e de
regeneração difícil ou mesmo irreversível.
3.3.4 Erosão da Linha de Costa
Vários locais da linha da costa dos municípios
em estudo estão sofrendo erosão, principalmente,
por causas naturais. Segundo Dominguez (1993), a
erosão da linha de costa deve ser caracterizada
como recuo da costa, pois as praias simplesmente
mudam sua posição no espaço. Esse fenômeno não
causa impactos negativos ao ambiente praial, que
sempre se adapta à evolução do traçado litorâneo.
O grande problema relacionado à erosão costeira
é, na verdade, a ocupação humana em áreas
próximas à linha de costa.
Alguns autores comentam que a erosão na costa
do Nordeste brasileiro está associada a variações no
suprimento de sedimentos para a praia, sendo o
balanço de sedimentos litorâneos o principal fator
que controla a erosão.
A dinâmica costeira é altamente influenciada pela
deriva litorânea (correntes marinhas). Esse
movimento de sedimentos é formado quando as
ondas incidem de modo oblíquo na linha de costa,
estabelecendo
uma
corrente
que
flui
longitudinalmente à praia, com atuação limitada à
zona de surf.
A erosão costeira na área de estudo também é
controlada pela circulação atmosférica que define as
principais frentes-de-onda que alcançam o litoral,
pela ocorrência de recifes de coral que alteram o
padrão de refração das ondas, gerando zonas de
sombra de ondas, convergência e divergência dos
raios e pelos contornos da linha de costa
(Dominguez et al., 1983).
Estudos recentes (Silva et al., 1999) indicam que
nas proximidades de Porto Seguro ocorrem regiões
de divergência para ondas provenientes de NE; em
Santa Cruz Cabrália e entre Itaquena e a Ponta do
Corumbau, para ondas vindas de SE; entre Santo
Antonio e Porto Seguro, para ondas provenientes de
SSE. As zonas de sombra de onda ocorrem próximo
aos recifes de corais.
Observações efetuadas no campo constataram
pontos de abrasão marinha na área urbana de Porto
Seguro e em Ponta Grande. Em Porto Seguro, a
abrasão se faz por ação das ondas solapando a base
do
muro
de
calçamento,
ocasionando
desmoronamentos sucessivos (Foto 3.27). Em Ponta
Grande, ocorre um recuo progressivo da linha de
costa, tendo sido construído nesse local uma
estrutura de enrocamento entre a praia e a rodovia
BA-001.
Silva et al. (op. cit.) identificaram trechos
costeiros sob erosão entre Nossa Senhora
D’Ajuda e Trancoso, entre Itaquena e Caraíva
(Foto 3.26), onde a existência de falésias vivas
no grupo Barreiras poderia estar relacionada a
um incremento expressivo da intensidade
potencial da deriva litorânea efetiva.
3.4 Considerações Finais
A caracterização física e a identificação dos
aspectos morfodinâmicos das áreas dos municípios
estudados possibilitaram diagnosticar os principais
problemas regionais e locais em relação aos
processos erosivos atuantes e indicar cinco classes
de vulnerabilidade à erosão: muito fraca, fraca,
moderada, forte e muito forte.
As áreas da classe muito fraca estão posicionadas
nas baixadas e planícies de acumulação e
correspondem a 6,93% de Porto Seguro e a 2,98%
de Santa Cruz Cabrália.
As áreas da classe fraca situam-se, via de regra,
nas superfícies de relevo plano sobre os tabuleiros
costeiros, ocupando 49,05% do município de Porto
Seguro e 53,5% do território de Santa Cruz Cabrália.
As áreas de moderada vulnerabilidade à erosão
ocorrem em colinas suaves, colinas tabulares,
pequenos interflúvios de tabuleiros muito dissecados
e nas rampas das vertentes dos vales menos
aprofundados. Ocupam 19,06% de Porto Seguro e
22,51% de Santa Cruz Cabrália.
As áreas de forte vulnerabilidade à erosão estão
localizadas nas colinas residuais e em setores dos
vales com vertentes de fortes declives, com solos,
em geral, de pouca profundidade. Tais áreas estão
distribuídas em 12,46% de Porto Seguro e 14,22%
de Santa Cruz Cabrália.
As áreas de vulnerabilidade à erosão muito
forte estão relacionadas a trechos das escarpas dos
36
tabuleiros, das falésias ativas, das vertentes de
declividades muito acentuadas dos vales
encaixados e cabeceiras de drenagem. Essa classe
ocupa 12,5% do território do município de Porto
Seguro e 6,79% das terras do município de Santa
Cruz Cabrália.
O desmatamento generalizado que ocorre em
ambos os municípios para a implantação de
atividades agropecuárias tem representado o
principal fator de desequilíbrio, dando origem a um
maior escoamento superficial das águas pluviais,
remoção e carreamento de partículas sólidas dos
solos para a rede de drenagem, ocasionando
diferentes tipos e intensidades de erosão e de
assoreamento e, conseqüentemente, a degradação da
qualidade dos solos e das águas da região (Foto
3.11).
Grandes áreas que foram e estão sendo
desmatadas para a instalação de pastagens,
principalmente junto às cabeceiras dos cursos
d’água, apresentam alto índice de erodibilidade, e os
sedimentos carreados pelas chuvas estão entulhando
as calhas dos rios e áreas estuarinas, inclusive
manguezais. A erosão remontante nas áreas das
cabeceiras vem colocando em risco de
desestabilização os topos das vertentes e até mesmo
as partes planas do relevo.
A forte vulnerabilidade aos processos de
degradação, que foram desencadeados a partir da
substituição da mata original e capoeiras por pastos,
provoca o impedimento da própria pastagem em
função dos processos erosivos acelerados que
passam a ocorrer. A remoção de matas ciliares, por
outro lado, tem propiciado problemas irreversíveis a
curto e médio prazo em relação ao abaixamento do
lençol freático, aumentando a erosão e alterações no
regime fluvial dos rios.
Ações humanas ao longo dos cursos d’água,
como retificações e dragagens, sem conhecimento
prévio dos processos de transporte de sedimentos
e da quantidade transportada, podem causar
desequilíbrios no balanço sedimentar e, em
conseqüência, causar alterações importantes na
orla costeira, haja vista que a configuração
morfológica, a circulação e os padrões de
qualidade da água estão inter-relacionados.
Problemas de erosão e movimentos de massa,
localizados em rodovias construídas recentemente,
principalmente nos trechos mais declivosos onde os
tabuleiros do grupo Barreiras possuem sedimentos
mais grosseiros e inconsolidados, têm demonstrado
que a utilização das informações dos estudos do
meio físico anterior à execução das obras viárias é
imprescindível para se evitar prejuízos.
Em relação à ocupação urbana desordenada nas
encostas dos vales dos bairros do Baianão e
Paraguai, na periferia da cidade de Porto Seguro,
sugere-se que o poder público atue fornecendo
orientação técnica à população, de modo a se
evitarem situações de risco geológico com o uso e
ocupação desses terrenos. O risco pode ser
eliminado ou reduzido através de obras de contenção
e drenagem adequadas ou remoção/relocação de
moradias.
As várzeas dos rios e baixadas periféricas, como
os manguezais, devem ficar livres de aterros e de
edificações, pois fazem parte das bacias de
acumulação naturais indispensáveis ao equilíbrio
ambiental, principalmente durante os períodos de
chuvas e enchentes. A ocupação irregular, além de
expor os moradores aos efeitos das enchentes,
dificulta o desempenho de importantes funções
ambientais físicas e bióticas dessas áreas.
O quadro geral apresentado neste documento
mostra a necessidade de adoção de medidas
essenciais, dentre as quais se destacam ações de
recuperação da cobertura vegetal nativa de áreas
críticas ou mesmo recuperação total das áreas
afetadas pelos problemas de erosão. Outras medidas
consideradas importantes são: conservação da
vegetação existente; recomposição da profundidade
original dos rios assoreados através de dragagens
feitas com critérios técnicos; desocupação e
revegetação de mangues, várzeas e encostas
suscetíveis à instabilização; reassentamento de
comunidades que ocupam áreas de risco; proibição
de cortes em áreas instáveis e deposição de lixo
em áreas inadequadas; e obras de engenharia
preventivas e reparadoras (Foto 3.23) em áreas de
interesse social ameaçadas pelos processos
erosivos e deslizamentos.
As informações levantadas e coligidas neste
trabalho demonstram que os problemas causados
pela atuação dos processos erosivos, além das
características físicas, têm um componente
socioeconômico relevante, tanto na origem quanto
nas causas do fenômeno.
Assim, qualquer programa elaborado para os
municípios em estudo, visando à implantação de
medidas preventivas, mitigadoras e de controle
desses processos erosivos, deve levar em conta
os aspectos dos meios físico, biótico e
socioeconômico.
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