Abril e maio de 2010 - Nº 10 International Financial Reporting Standards Índice 2. Ponto de vista IFRS Journal entrevista Idésio Coelho, sócio da Ernst & Young e recém-nomeado representante do Ibracon no Comitê de Pronunciamentos Contábeis 5. IFRS e clima Projeto do IASB propõe que empresas contabilizem suas emissões de gases poluentes 8. O Simples do IFRS Empresas de pequeno e de médio portes também devem reportar em IFRS 10. Convergência no Brasil Artigo resume os principais pronunciamentos emitidos em 2009 e mostra tendências 12. Audiocast em IFRS Ernst & Young produz série de 20 audicasts sobre os pronunciamentos mais relevantes no processo de migração IFRS Journal é uma publicação destinada a clientes e colaboradores da Ernst & Young que aborda questões relevantes para as empresas na migração para os padrões internacionais de contabilidade IFRS. As opiniões aqui expressas não devem ser utilizadas, de maneira isolada, para a tomada de decisão por parte das empresas. Isto porque existem particularidades pertinentes a cada empresa que podem, eventualmente, alterar o enfoque transmitido. Recomendamos que, antes de a decisão ser tomada, as empresas discutam esses pontos de vista com seus consultores. Estamos à disposição para discutir nossas opiniões e sua aplicação em cada caso concreto. Mais informações sobre IFRS com: Paul Sutcliffe (paul. [email protected]); Julio Braga Pinto ([email protected]. com); Fernando Próspero ([email protected]) ou pelo e-mail [email protected]. Revisão técnica: Idesio Coelho ([email protected]). IFRS Journal é uma publicação do Departamento de Comunicação e Gestão de Marca da Ernst & Young Brasil. Jornalista responsável: Roseli Loturco (Mtb 25.529/110/ 12/SP); Reportagem: Clarissa Wahl; Projeto gráfico e edição visual: André Heller e André Scigliano. IFRS Journal Em clima de mudança O tema sustentabilidade ocupa, cada dia mais, a agenda de discussões de executivos de companhias globais. Afinal, a adoção de uma estratégia que vise produzir sem degradar o meio ambiente pode ser a chave para manter satisfeitos investidores e demais stakeholders e, desta forma, ficar a um passo de boas perspectivas de crescimento. Mas, de que forma a adoção de práticas sustentáveis reflete no processo de migração para o IFRS? Fizemos essa pergunta a profissionais do time de IFRS da Ernst & Young e, a resposta, você encontra nesta edição do IFRS Journal, com a reportagem “Em clima de mudança”. Entre outras novidades, a matéria registra que, até junho, um projeto que exige a contabilização da emissão de gases poluentes, que hoje se encontra em fase de discussões, pode se transformar em norma no International Accounting Standards Board (IASB), tornando-se obrigatório para companhias que reportam em IFRS. Além do tema clima, o ingresso de empresas de pequeno e de médio portes na lista das companhias das quais se exige o reporte de informações contábeis em conformidade com o IFRS também ganha destaque nessa edição. A entrada desses negócios no rol de empresas que devem seguir as normas contábeis internacionais foi sugerida pelo Comitê de Pronunciamentos Contábeis (CPC), em pronunciamento publicado no final de 2009, e que deve gerar impactos significativos para um grupo de nada mais, nada menos, que 350 mil empresas do Brasil inteiro. O IFRS Journal traz ainda entrevista com Idésio Coelho, sócio de auditoria da Ernst & Young e recentemente nomeado representante do Instituto dos Auditores Independentes do Brasil (Ibracon) no Comitê de Pronunciamentos Contábeis (CPC). Segundo ele, o Brasil figura hoje como uma das mais importantes lideranças no cenário contábil global e pode alcançar, em breve, o papel de interlocutor da América do Sul na relação com os órgãos internacionais de contabilidade. A relevância econômica e a internacionalização dos grupos econômicos locais contribuem para a ampliação do papel do Brasil no cenário contábil mundial e, segundo Coelho, resulta em desafios aos órgãos brasileiros de contabilidade, que devem, ainda mais, auxiliar as companhias em um cenário pautado por novas diretrizes. Boa leitura! Brasil ganha espaço no diálogo contábil internacional Idésio Coelho Sócio de Auditoria da Ernst & Young e recém-nomeado representante do Instituto dos Auditores Independentes do Brasil (Ibracon) no Comitê de Pronunciamentos Contábeis (CPC). O Brasil figura hoje como uma das mais importantes lideranças no cenário contábil global e pode alcançar, em breve, o papel de interlocutor da América do Sul na relação com os órgãos internacionais de contabilidade. A afirmação é de Idésio Coelho, sócio de Auditoria da Ernst & Young e recém-nomeado representante do Instituto dos Auditores Independentes do Brasil (Ibracon) no Comitê de Pronunciamentos Contábeis (CPC). Para Idésio, o país pode pleitear esse papel tanto em razão da relevância econômica e política do Brasil na região, como pela existência de várias companhias no país que estão se internacionalizando e formando grupos empresariais de relevância mundial. As indústrias de petróleo, agricultura e pecuária, mineração, siderurgia e bens de consumo são exemplos marcantes. O especialista alerta ainda para temas sensíveis ao ambiente corporativo, como a emissão de novos pronunciamentos de práticas contábeis para a indústria de mineração e a atualização dos já existentes. Para ele, um dos desafios dos órgãos brasileiros de contabilidade e finanças é auxiliar as companhias em um cenário pautado por novas diretrizes. Confira a seguir os principais trechos de sua primeira entrevista ao IFRS Journal poucos dias após sua nomeação: IFRS Journal • O Comitê de Pronunciamentos Contábeis (CPC) e o Conselho Federal de Contabilidade (CFC) assinaram, no início do ano, um memorando de entendimento com o International Accounting Standards IFRS Journal | Ernst & Young Board (IASB). O que essa decisão significa para o Brasil? Idésio Coelho • O documento é um importante marco na inserção do Brasil no diálogo internacional sobre a elaboração e a adoção do IFRS (International Financial Reporting Standards). O Brasil é o terceiro país a assinar um memorando com o IASB com esse propósito, e tal parceria demonstra a relevância de nosso país como uma das mais importantes lideranças no cenário contábil internacional. Além disso, o documento representa o compromisso de manter as normas contábeis nacionais alinhadas ao IFRS, bem como incentiva um diálogo constante entre o CPC e o CFC, visando ao aprimoramento das normas IFRS. IFRS Journal • Hoje, a Europa e os Estados Unidos, por meio do IASB e do FASB, compartilham informações e definem os próximos passos que servirão de base para normas contábeis futuras. No Brasil, o CPC já cumpre essa função, mas você acha que o órgão pode expandir sua atuação, transformando-se em uma espécie de interlocutor da América do Sul em sua relação com os órgãos internacionais? Idésio Coelho • Sim, acredito que o CPC, em cooperação com outras entidades que participam do processo de emissão de normas contábeis, pode vir a pleitear esse papel tanto em razão da importância econômica e política do Brasil na América do Sul, quanto pela existência de várias companhias no país que estão se internacionalizando e formando grupos empresariais de relevância mundial. As indústrias de petróleo, agricultura e “O CPC é formado por várias entidades com interesses diversos, mas uma única missão: a de promover a convergência para o IFRS.” Idésio Coelho pecuária, mineração, siderurgia e bens de consumo são exemplos marcantes. IFRS Journal • Qual sua opinião sobre a decisão da Securities and Exchange Comission (SEC) de incentivar a adoção do IFRS nos Estados Unidos? Essa decisão é benéfica para as empresas brasileiras que ainda preparam demonstrações financeiras em US Gaap, para reportar resultados para suas matrizes? Idésio Coelho • A decisão da SEC de incentivar um padrão contábil global, ratificada por um pronunciamento emitido no último dia 24 de fevereiro, é mais um passo para que haja convergência global de práticas contábeis que poderia acontecer só em 2015 ou 2016. Como parte desse processo, a SEC trabalha em um plano de ações que inclui, entre outras ações, o processo de alinhamento entre o US Gaap e o IFRS. Esse processo afetará, inicialmente, as empresas americanas com registro na SEC. Isso com certeza permitirá que as empresas brasileiras que reportam para suas matrizes americanas sejam mais eficientes e enviem informações financeiras muito mais consistentes com as demonstrações já preparadas para atender as práticas contábeis brasileiras. Tal prática acaba beneficiando os usuários dessas informações e as próprias companhias, uma vez que os esforços para a manutenção de demonstrativos financeiros preparados em diferentes princípios contábeis são reduzidos ou mesmo eliminados, dependendo do caso. É importante destacar que as companhias estrangeiras listadas na SEC (FPIs) já podem preparar suas demonstrações em IFRS quando do arquivamento dessas informações financeiras na SEC. IFRS Journal • Em 2009, o CPC fez esforços no sentido de emitir, no Brasil, uma série de pronunciamentos que já havia sido publicada internacionalmente, pelo IASB. Ou seja, a ideia era que, até dezembro, nosso padrão contábil estivesse totalmente alinhado às normas internacionais. Isso aconteceu? Em 2010 devemos ter a publicação de mais normas? Idésio Coelho • Sim, esse objetivo foi substancialmente alcançado. No entanto, alguns pronunciamentos específicos serão emitidos em 2010, como, por exemplo, práticas contábeis para a indústria de mineração, resultado por ação e tratamento contábil para economias hiperinflacionárias, além da revisão das normas anteriormente emitidas. Creio que o CPC deve acompanhar a agenda de revisão e emissão de novas normas estabelecidas pelo IASB. Também é bom destacar que ainda existem algumas diferenças entre as normas brasileiras e as internacionais, como, por exemplo, uma referente à manutenção, em determinadas condições, do saldo anterior do ativo diferido. IFRS Journal • Nos próximos meses o IASB deve atualizar algumas normas, como ocorreu com a dos instrumentos financeiros. Como o CPC pretende atualizar pronunciamentos que já foram emitidos? Como as empresas deverão lidar com essa questão? Isso não significará, para muitas empresas, uma duplicidade de esforços? IFRS Journal | Ernst & Young Idésio Coelho • A missão do CPC é acompanhar e acatar quase que simultaneamente essas atualizações. Até porque, conforme falado anteriormente, foi firmado um compromisso com o IASB para que o Brasil adote e mantenha, como seu padrão contábil, o IFRS; tendo até mesmo voz e participação ativa na formulação dos pronunciamentos. O processo de adaptação pelas empresas brasileiras deverá seguir a mesma trajetória dos outros países. Um complicador no Brasil é que estamos adotando, em 2010, algumas normas que poderão sofrer revisões no curto prazo, demandando maiores esforços pelas empresas. IFRS Journal • Neste ano, a adoção do IFRS vira regra para as empresas de capital aberto. Você avalia que as companhias estão preparadas para apresentar demonstrações financeiras alinhadas às normas internacionais de forma consistente? Idésio Coelho • A adaptação ao IFRS é bastante complexo e envolve capacitação técnica dos profissionais da área contábil, discussão com os auditores independentes e outros agentes do mercado, bem como o envolvimento de profissionais de diversos departamentos das empresas, incluindo a alta administração, e não somente da área contábil-financeira. Esse processo de maturação se iniciou de forma mais intensa há cerca de dois anos e a expectativa é de que evolua bastante na preparação de demonstrações financeiras com qualidade em 2010. IFRS Journal • Como novo membro do CPC, quais são, em sua opinião, os principais desafios do órgão como agregador dos pontos de vista de diversos organismos para a promoção de um ambiente contábil no Brasil alinhado à prática internacional? Idésio Coelho • O CPC é formado por diversas entidades – tais como Abrasca, Apimec, Bovespa, CFC, Ibracon, FIPECAFI – e convidados – como a Receita Federal, a CVM, o Banco Central e a Susep. Esses órgãos têm interesses diferentes, mas uma única missão: a de promover a convergência para o IFRS. Pelo histórico das discussões dos pronunciamentos emitidos em 2008 e 2009, podemos perceber que houve perfeita acomodação desses interesses, e que os conceitos das normas internacionais sempre prevaleceram. IFRS Journal • Será realizado algum tipo de revisão, mesmo que informal, pelo CPC ou por outro órgão, visando analisar a aplicação das normas nesse primeiro ano de adoção? Idésio Coelho • O auditor independente já assume esse papel no mercado. No entanto, a CVM tem como um de seus objetivos a fiscalização das companhias de capital aberto, incluindo a revisão das informações financeiras divulgadas. Esse papel deve ser intensificado nesse momento de transição das práticas contábeis. Entidades como a FIPECAFI, entre outras, que representam as companhias e os investidores, também observam as demonstrações financeiras publicadas no mercado e fazem análises da aplicação das normas. Em um período de transição, o monitoramento de várias entidades, incluindo os auditores, é fundamental para assegurar a consistência na aplicação das novas práticas contábeis e garantir que informações confiáveis sejam transmitidas para os usuários das demonstrações financeiras. Atenção: As informações fornecidas acima foram dadas em minha qualidade de sócio de auditoria da Ernst & Young. Tais dados e posições não representam, necessariamente, qualquer posição oficial ou não oficial do Comitê de Pronunciamentos Contábeis (CPC), do Instituto dos Auditores Independentes do Brasil (Ibracon) nem de nenhum de seus membros. O CPC, os membros do CPC e o Ibracon não assumem qualquer responsabilidade pelas informações divulgadas aqui. IFRS Journal | Ernst & Young Em clima de mudança Projeto do IASB propõe que empresas contabilizem emissão de gases poluentes e, dessa forma, fiquem em linha com políticas ambientais mais rígidas. Mais do que provocar furacões, nevascas e ondas de calor fora de época, a mudança climática começa a trazer também, lentamente, alterações nos demonstrativos financeiros das companhias. Isso é o que deve acontecer até junho, caso projeto para contabilização da emissão de gases poluentes, que hoje se encontra em fase de discussões, se transforme em norma no International Accounting Standards Board (IASB) e seja obrigatório para companhias que reportam em IFRS. O projeto vem na esteira da realização da Conferência do Clima de Copenhague que, em dezembro de 2009, apesar do tímido avanço em relação ao que se pretendia, definiu a estabilização e a redução das emissões de gás de efeito estufa. Também foi acertado um esforço para a limitação, em até dois graus Celsius, na mudança da temperatura global. Ao sair do papel, essas definições, acordadas entre governos de diversos países, começam a seguir para o ambiente corporativo, onde se transformam em estratégias e ganham forma, por exemplo, com a identificação de oportunidades para investir em tecnologia limpa e a estruturação de processos robustos para controle e monitoramento do reporte de gases de efeito estufa. “Assim como uma mineradora deve cobrir e recuperar a área que foi aberta para a retirada de minério, uma empresa também deve controlar a quantidade de gases que emite em sua atividade e, desse modo, compensar o que poluiu. O princípio é o mesmo”, ressalta a gerente sênior do time de IFRS da Ernst & Young, Fernanda Albuquerque. Em outras palavras, no momento em que uma mineradora desmata e cava em uma determinada área, aquela situação já se transformou IFRS Journal | Ernst & Young em um passivo, ou seja, na obrigação de recuperar a área posteriormente, conforme explicação da profissional. O assunto clima vem trazendo grandes repercussões no cenário corporativo. Segundo o estudo Change is coming: A framework for climate change, produzido pelo Goldman Sachs Group com 800 empresas, 60% dos negócios designaram conselhos ou gestores seniores para tratar da responsabilidade sobre a mudança climática; 35% dos consumidores estão dispostos a pagar um valor mais elevado em bens que atendam a uma política “verde”; e, por fim, governos de vários países alocaram US$ 430 bilhões em estímulo (créditos tributários, garantias e incentivos fiscais) para que empresas desenvolvam políticas “verdes”. Ainda com o processo de regulamentação governamental sobre o assunto em fase inicial de desenvolvimento, a chegada do pronunciamento sobre emissões de carbono deve movimentar também o mercado brasileiro. Afinal de contas, mesmo sem a obrigatoriedade de divulgar suas emissões, as empresas têm no mercado de capitais um forte aliado para que a prática de compensações não só seja levada a sério, como se transforme em uma fonte de renda. A BM&F Bovespa desenvolve, em conjunto com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), o Índice Carbono Eficiente (ICO2). O índice, que deve ser divulgado ao mercado até o final de 2010, tem o objetivo de mensurar a rentabilidade de uma carteira teórica constituída por papéis de companhias que observam seu grau de eficiência na emissão de gases de efeito estufa (GEE). “O objetivo é desenvolver um índice de ações ponderado pela eficiência em termos de emissões de GEE das empresas, para incentivá-las a mensurar, divulgar e gerir suas emissões, ampliando a transparência aos acionistas e ao mercado e criando oportunidades para investidores sensíveis às questões ambientais”, registra o comunicado produzido pela BM&F, que propõe o lançamento do novo produto. Só será possível mensurar o grau de resposta a esse índice alguns meses após seu lançamento. No entanto, alguns indicadores internacionais já trazem uma prévia do que pode acontecer também por aqui. O S&P/IFCI Carbon Efficient Index, lançado em 2006 pela Standard & Poor’s, que lista 375 empresas globais, registrou valorização de 85,46%, em um ano encerrado em novembro último. No mesmo período, o índice S&P/IFCI LargeMidCap, voltado para empresas de médio e grande portes, avançou 83,20%. Se a diferença de 2,26 pontos percentuais parece pouco relevante, ela se mostra importante em uma carteira de, por exemplo, R$ 1 milhão. Nesse montante, ter uma rentabilidade de 2,26 p.p. significa um lucro de R$ 22,6 mil a mais na carteira. Recebendo créditos Se, para um investidor, alocar recursos em uma companhia que pensa na sustentabilidade é um bom negócio IFRS Journal | Ernst & Young financeiro, para a empresa, receber créditos por isso demanda um processo árduo de preparação. É o que explica a diretora executiva para Mudanças Climáticas e Sustentabilidade da Ernst & Young, Josefa Garzillo. “A primeira etapa que uma empresa deve cumprir para controlar suas emissões de gases é fazer um inventário de emissões, que vai revelar a quantidade de CO2, por exemplo, que uma empresa emite para produzir um determinado produto. Com essa informação nas mãos, a companhia deve traçar uma estratégia: vai investir em tecnologias limpas, otimizar seu sistema de logística e neutralizar suas emissões pela compra de créditos de outra empresa ou terá potencial para produzir esses créditos? Essa definição ajudará a companhia a melhorar seus índices de sustentabilidade e a demonstrar suas ações para controlar o aquecimento global”, pondera Josefa. Para reduzir emissões de gás de efeito estufa, explica a diretora, a companhia deve estar disposta a realizar profundas mudanças em sua cadeia de produção. Se é parte da estratégia produzir créditos de carbono, uma companhia alimentícia “A primeira etapa que uma empresa deve cumprir para controlar suas emissões de gases é fazer um inventário de emissões, que vai revelar a quantidade de CO2, por exemplo, que uma empresa emite para produzir um determinado produto.” Josefa Garzillo, diretora executiva para Mudanças Climáticas e Sustentabilidade da Ernst & Young que produz carne suína e descobre criação, a fim de que não chegue Convention on Climate Change (UNFCCC), órgão da ONU que concede a certificação, a calcular a quantidade de créditos que a companhia deve receber. Hoje, existe na ONU uma série de metodologias aprovadas para a implementação de projetos dessa natureza em diferentes in natura nos rios, lagos e lençóis freáticos setores. Um exemplo é o tratamento de da região. De qualquer forma, o local resíduos urbanos e transporte, entre onde esses dejetos ficam, antes de outros”, diz Josefa. que emite 50 mil toneladas de CO2 por ano, a empresa por transformar essas emissões em crédito de carbono. Como? “Certamente essa empresa já tem um sistema que trata os dejetos dessa serem tratados e liberados para os rios da região, emite gases como o metano, que tem um poder de aquecimento global bastante superior ao do gás carbônico”, comenta a diretora. E créditos significam dinheiro. Hoje, no mercado internacional, cada tonelada de CO2 está avaliada em torno de 8 e 12 euros. Assim, a companhia pode optar por guardar esses créditos, esperando uma Nesses casos, continua Josefa, uma alta do preço no futuro, ou então vender solução seria cobrir esse local com lona, para empresas que igualmente precisam de modo que esse gás seja armazenado reduzir suas emissões, mas que, para e queimado, sendo transformado em isso, preferem adquirir créditos a projetar CO2. “Toda essa redução deve ser mudanças em sua cadeia de produção, documentada, porque é isso que vai as quais podem significar custos ainda auxiliar o United Nations Framework mais salgados. IFRS Journal | Ernst & Young Afinal, o custo para realizar o inventário de emissões e projetar as mudanças necessárias para uma redução sustentável da quantidade de gases emitidos na atmosfera, ficaria em torno de 150 mil euros. Ou seja, um gasto relativamente alto mesmo para empresas de grande porte. “O gasto pode ser alto, mas o ganho é indiscutível. Ao adotar práticas ambientais, a companhia sinaliza ao mercado que se prepara para um futuro cada vez mais pautado por ‘políticas verdes’, ou seja, que se preocupa com sua própria sustentabilidade. Em segundo lugar, é sabido que uma empresa mais sustentável agrega menos riscos a seus negócios e menor incidência de passivos financeiros”, registra o coordenador do Programa Eco-Finanças da ONG Amigos da Terra – Amazônia Brasileira, Roland Widmer. O Simples do IFRS Empresas de pequeno e de médio portes também terão de migrar para as normas contábeis internacionais, segundo pronunciamento do CPC. A adoção do IFRS deixa de ser sinônimo de grandes companhias para surgir também no vocabulário de empresas de pequeno e de médio portes. É o que sugere o Pronunciamento Técnico PME – Contabilidade para Pequenas e Médias Empresas, produzido pelo Comitê de Pronunciamentos Contábeis (CPC) e aprovado pelo Conselho Federal de Contabilidade (CFC), segundo o qual apesar de a norma não ser obrigatória para esse segmento, deve ser adotada pelos contadores que assinarem suas demonstrações financeiras de 2010. Alinhado ao padrão internacional, o pronunciamento foi publicado nos últimos dias de 2009. Ainda pouco conhecido no mercado corporativo, ele deve gerar uma corrida de gestores desses negócios para planejar, iniciar e concluir, até o final de 2010, seus projetos de IFRS. As mudanças devem gerar impactos significativos para um grupo de nada mais, nada menos, que 350 mil empresas do Brasil inteiro. Isso porque, segundo dados do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) de 2006 – último ano da pesquisa –, existe no País um total de 2,241 milhões de empresas de micro, pequeno, médio e grande portes, com empregados. Desse total, 83,6% são microempresas, 13,9% são de pequeno porte, 1,6% é média e menos de 1% é de grande porte. “Como já é conhecido, a adoção traz uma série de benefícios, como a transparência e a comparabilidade de informações. Contudo, implica também altos custos e uma série de ações, as quais, se não bem planejadas, podem comprometer o dia a dia contábil da empresa e gerar impactos em diferentes áreas – desde vendas à IFRS Journal | Ernst & Young tecnologia”, avalia o diretor de Auditoria da Ernst & Young, Sílvio Takahashi. Novo formato Em termos práticos, o pronunciamento voltado para pequenas e médias empresas trata de todas as normas do IFRS completo, mas em formato simplificado. “Todas as normas IFRS, juntas, somam aproximadamente três mil páginas. No pronunciamento para PMEs, não ultrapassam 225 páginas”, explica Takahashi. Entre as principais diferenças, estão as relacionadas aos pronunciamentos sobre Custos com empréstimos, Ativos intangíveis, Ágio, Custos de aquisição e, finalmente, Coligadas ou controladas em conjunto. No entanto, vale lembrar que as empresas em questão podem adotar tanto o modelo simplificado quanto o completo. Em síntese, no pronunciamento técnico para pequenas e médias empresas, ou simplificado, os custos com empréstimo não podem ser capitalizados; os intangíveis, por sua vez, são reconhecidos como despesa quando incorridos; já os ativos intangíveis devem ser considerados como tendo vida útil finita. As diferenças não terminam por aí. O ágio, por exemplo, deve ser amortizado conforme expectativa de vida econômica; os custos de aquisição devem ser capitalizados em processos de business combination; por fim, as coligadas ou controladas em conjunto são avaliadas pelo custo, equity ou fair value. Na prática, essas alterações geram grande impacto e representam a diferença entre a adoção integral do IFRS, mais complexa, e a migração para o Pronunciamento Técnico PME. Benefícios Em meio a tantas exigências de mercado, por que uma empresa de pequeno ou de médio portes teria de se submeter às dificuldades de adoção de um novo padrão contábil? De acordo com o International Accounting Standards Board (IASB), órgão que estruturou as normas voltadas para as companhias de menor porte, os benefícios vão além da transparência contábil. “Instituições financeiras fazem empréstimos que vão além das fronteiras e operam multinacionalmente. Em muitos países, cerca de metade de todas as empresas de pequeno e médio portes – mesmo as menores – trabalham com empréstimos. É o resultado dessa relação que definirá como os banqueiros vão estabelecer seus termos de empréstimo e taxas de juros”, pondera documento produzido pelo International Accounting Standards Committee Foundation (IASC), órgão de educação financeira ligado ao IASB. Ou seja, ao conhecer o risco do empréstimo, a instituição financeira consegue estabelecer, com maior clareza, a taxa de juros que deve embutir naquele financiamento. Mas outras razões podem ser apontadas, segundo explica a gerente sênior do time de IFRS da Ernst & Young, Sonia Swinney. Uma delas é que fornecedores podem querer avaliar a condição financeira de empresas compradoras sediadas em outros países antes de vender bens ou serviços a crédito. Além disso, o novo padrão pode ser útil para agências de rating, que desenvolvem suas avaliações a partir de informações financeiras que foram reportadas, como também será válido para os muitos investidores estrangeiros de empresas de pequeno e de médio portes que não estão envolvidos diariamente com a gestão da companhia. No entanto, a adoção dessa regra – na prática – não deve ser fácil. “Na verdade, a adoção desse pronunciamento deve ser tão complexa quanto a adoção dos CPCs completos pelas companhias de grande porte. Isso porque representará uma revolução no ambiente das pequenas e médias empresas que, em sua maioria, utilizam serviços de escritórios de contabilidade que sempre estiveram mais focados em atender as regras fiscais. E, se já tiveram algum contato com o tema, têm nenhuma ou pouca experiência com as complexas normas internacionais”, afirma a sócia de auditoria da Ernst & Young, Maria Helena Pettersson. Como identificar uma pequena ou média empresa? São negócios que: • não têm obrigação pública de prestação de contas; e • são sociedades fechadas. A expressão “empresas de pequeno e de médio portes” não se aplica: • se seus instrumentos de dívida ou patrimoniais forem negociados em mercado de ações ou estiverem no processo de emissão de tais instrumentos para negociação em mercado aberto (em bolsa de valores nacional ou estrangeira ou em mercado de balcão, incluindo mercados locais ou regionais); • às companhias abertas, reguladas pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM); • às sociedades reguladas pelo Banco Central (BC), pela Superintendência de Seguros Privados (Susep) e a outras sociedades cuja prática contábil seja ditada pelo correspondente órgão regulador com poder legal para tanto; • àquelas que estejam enquadradas como sociedades de grande porte de acordo com a definição da Lei nº 11.638/07*. * Sociedades que apurarem receitas brutas anuais superiores a R$ 300 milhões ou possuírem ativos totais superiores a R$ 240 milhões. IFRS Journal | Ernst & Young O Brasil no processo de convergência para o IFRS Felipe Gonçalves e Antonio Lage Após a promulgação da Lei nº 11.638 em 2007 e a criação do Comitê de Pronunciamentos Contábeis (CPC), a contabilidade brasileira iniciou, ainda em 2008, um processo de alteração das práticas contábeis geralmente aceitas visando a uma convergência com as normas internacionais de contabilidade, o IFRS. Esse processo teve início com a emissão de 14 pronunciamentos técnicos em 2008 – a maior parte destes um espelho das normas internacionais, com algumas pequenas diferenças. Tal conjunto de normas tornou-se obrigatório para empresas brasileiras para os exercícios que se encerraram em 31 de dezembro de 2008 e 2009. Durante o ano de 2009, o CPC continuou com os trabalhos de convergência das práticas brasileiras com as internacionais, emitindo mais 27 pronunciamentos, incluindo o CPC voltado para Pequenas e Médias Empresas e outras 10 interpretações, 10 praticamente todos referentes a traduções das normas internacionais. Esses novos pronunciamentos e interpretações devem ser aplicados durante o exercício de 2010, mesmo para informações trimestrais. Todas as empresas brasileiras, incluindo as de capital fechado, devem aplicar esses pronunciamentos e interpretações em 2010. A Comissão de Valores Mobiliários (CVM), contudo, emitiu deliberação1 mencionando que as companhias de capital aberto podem não adotar os CPCs para as informações trimestrais de 2010. Contudo devem, até a publicação de suas demonstrações financeiras para o exercício findo em 31 de dezembro de 2010, reapresentar as informações trimestrais considerando as práticas contábeis vigentes no mesmo ano. A emissão dos CPCs 38, 39 e 40 revogou, para 2010, o CPC 14, emitido em 2008 e referente a instrumentos financeiros. Ele foi revogado tendo em vista que os CPCs emitidos em 2009 são mais completos e tratam de assuntos que o CPC 14 não considerava, como contabilidade de hedge (hedge accounting). Os conceitos inseridos no CPC 14 estão também presentes nos CPCs 38, 39 e 40, contudo estes, como reflexo das normas internacionais IAS 32, IAS 39 e IFRS 7, são mais completos e apresentam uma ampliação e a regulamentação de transações não incluídas no CPC 14, conferindo maior complexidade para as transações que envolvem instrumentos financeiros, derivativos, derivativos embutidos e contabilidade de hedge. Dentre os CPCs emitidos, destacam-se os CPCs 38, 39 e 40, que tratam de instrumentos financeiros; o CPC 37, que trata da primeira adoção do IFRS (ou dos CPCs); e o CPC 43, que trata da adoção inicial dos CPCs 15 a 40. O CPC 37, por sua vez, é uma tradução do IFRS 1 – Primeira Adoção do IFRS. No entanto, difere em alguns pontos da norma internacional, ao restringir algumas opções. O CPC 37 limita a utilização das isenções descritas no IFRS Journal | Ernst & Young IFRS 1, mesmo para demonstrações financeiras preparadas de acordo com as práticas internacionais IFRS que serão arquivadas na CVM a partir de 2010 (inclusive). O parágrafo 40 do CPC 37 menciona que, caso haja opções a serem escolhidas pelas entidades no IFRS e os CPCs não as reconheçam, as demonstrações financeiras em IFRS arquivadas no Brasil devem considerar os requerimentos previstos pelo CPC. Alguns podem argumentar que, dessa forma, o IFRS no Brasil não estaria de acordo com as normas emitidas pelo IASB, o que é um requerimento da CVM2, por exemplo. Contudo, os órgãos reguladores reforçam a tese de que a eliminação de uma opção não implica o não atendimento das normas, pois a opção permitida pelo CPC está em linha com o IFRS conforme emitido pelo IASB. Portanto, deve-se ter atenção com as opções incluídas no IFRS 1 e compará-las com as incluídas (ou excluídas) no CPC 37, a fim de evitar inconsistências e questionamentos dos órgãos reguladores. As únicas inconsistências consideradas permitidas pelo Comitê de Pronunciamentos Contábeis estão descritas no CPC 43, que trata da primeira adoção dos CPCs 15 a 40, o qual não possui norma relacionada no IFRS. O CPC 43 menciona que os lucros das entidades que apresentam demonstrações financeiras consolidadas devem ser os mesmos, tanto segundo as práticas contábeis brasileiras quanto segundo o CPC e o IFRS. A única exceção seria o ativo diferido que permaneceu registrado nas entidades que optaram por isso e não é reconhecido na estrutura conceitual do IFRS. Outro ponto de divergência entre o IFRS e o CPC refere-se às demonstrações financeiras individuais, que são obrigatórias por lei no Brasil e não são consideradas pelas normas IFRS. Demonstrações financeiras individuais são aquelas em que a entidade apresenta os saldos de investimentos em controladas, segundo o método da equivalência patrimonial, e diferem de demonstrações financeiras separadas, descritas no IAS 27 – Demonstrações financeiras consolidadas e separadas, que não reconhece o uso da equivalência patrimonial para investimentos controlados pela entidade. Contudo, outras diferenças permanecem vigentes entre o IFRS e o CPC que não foram descritas no CPC 43, como normas e interpretações que ainda não foram emitidas pelo Comitê de Pronunciamentos Contábeis, mas constam do IFRS. Essas normas não foram publicadas pelo Comitê embora fossem obrigatórias para as entidades que prepararam demonstrações financeiras em IFRS. Há um entendimento de que tais normas não eram relevantes para emissão pelo CPC, todavia, entende-se que, caso sejam aplicáveis e relevantes, as normas internacionais devem ser empregadas inclusive nas demonstrações financeiras societárias preparadas em conformidade com os pronunciamentos emitidos pelo Comitê. Para o CPC, o lucro líquido e o patrimônio líquido das entidades devem ser os mesmos em IFRS e CPC, exceto quanto ao ativo diferido para demonstrações financeiras consolidadas, uma vez que as práticas contábeis devem ser consistentes tanto para demonstrações financeiras para fins societários (CPC) quanto para divulgação (IFRS). O Pronunciamento Técnico CPC 41 – Resultado por ação esteve em audiência pública para comentários até 5 de abril de 2010, e é um espelho do IAS 33 de mesmo nome. Outros pronunciamentos técnicos emitidos pelo CPC possuem pequenas diferenças em relação às normas internacionais, mas é possível afirmar que o processo de convergência está bastante avançado. O IFRS é hoje uma realidade no Brasil. A preparação e o acompanhamento adequados são fundamentais para o sucesso na conversão e na manutenção de registros e informações ao mercado daqui em diante. 1. Deliberação CVM nº 603, de 10 de novembro de 2009. 2. Deliberação CVM nº 457, de 13 de julho de 2007. Durante o ano de 2009, o CPC continuou com os trabalhos de convergência das práticas brasileiras com as internacionais, emitindo mais 27 pronunciamentos, incluindo o CPC voltado para pequenas e médias empresas. IFRS Journal | Ernst & Young 11 Audiocasts em IFRS Ernst & Young produz série de audiocasts que aborda desafios da aplicação de 20 pronunciamentos contábeis e promover uma mudança de cultura contábil na companhia”, explica Romani. Em 2010, a adoção do IFRS ganha um tom de obrigatoriedade. Para auxiliar as companhias a compreenderem o que muda com a chegada de normas contábeis que, juntas, somam mais de três mil páginas, a Ernst & Young produziu uma série de audiocasts. Entre outros temas, os programas abordam os desafios da adoção de normas relativas a ativos intangíveis, arrendamento mercantil, pagamento baseado em ações, tributos sobre a renda e ativos biológicos, em formato de programa de rádio. Disponível no site www.ey.com.br/ifrs, cada um dos 20 audiocasts tem duração aproximada de cinco minutos e conta com a participação de sócios do time de IFRS da Ernst & Young. Para Sérgio Romani, sócio-líder de auditoria da Ernst & Young, os audiocasts têm o propósito maior de traduzir a profissionais das áreas contábil e financeira, em linguagem simplificada, os principais desafios e oportunidades com a chegada de um padrão contábil único. “Afinal, além de transparência e comparabilidade de dados entre diferentes empresas, o IFRS traz uma série de desafios que demandam dos profissionais envolvidos no processo de migração um profundo conhecimento técnico e capacidade para entender Nesse sentido, a série de audiocasts dá sequência a um conjunto de iniciativas pioneiras da Ernst & Young nos últimos dois anos. Entre elas, o estudo de diferenças e similaridades entre as normas brasileiras e o IFRS, produzido para a CVM; o Manual de Normas Internacionais de Contabilidade, preparado em parceria com a FIPECAFI; treinamentos em IFRS para mais de dois mil profissionais em todo o País; o IFRS Journal e a newsletter IFRS Index, com novidades sobre a adoção do padrão contábil no Brasil e no mundo, e ainda o Guia para Elaboração das Demonstrações Financeiras 2009/2010. “São temas sensíveis que, a cada dia, ganham mais destaque na agenda de prioridades das companhias. Se não forem trabalhados com atenção, eles podem vir a comprometer a transparência das informações transmitidas ao mercado e, assim, prejudicar a imagem da companhia”, avalia o executivo. IFRS e CPCs Programa de treinamento 1º semestre | 2010 A Ernst & Young acaba de divulgar sua agenda de treinamento sobre a aplicação das normas internacionais de contabilidade. Para conhecer o conteúdo do treinamento na íntegra e fazer sua inscrição, acesse www.ey.com.br/ifrs. 12 IFRS Journal | Ernst & Young