Aula 24: Dinâmica de um sólido: Movimento geral de um peão simétrico. Movimento geral de um peão simétrico Vamos considerar o movimento de um peão, girando em torno do seu eixo de simetria, sobre um plano suficientemente rugoso de tal forma que não ocorra deslizamentos. Dessa forma, o movimento ocorre em torno de um ponto fixo O coincidindo com o ponto de contato. O problema, então, é determinar o movimento de um corpo rígido de revolução sujeito a um campo gravitacional uniforme, quando um ponto sobre o eixo de simetria, geralmente diferente do centro de massa, está fixo num sistema inercial. O modelo matemático em si representa uma série de sistemas físicos, incluindo o peão, uma variedade de instrumentos de navegação, a Terra, etc. Esses são exemplos de sistemas giroscópicos, assim chamados porque exibem o comportamento peculiar característico do giroscópio (instrumento de navegação). Escolhemos o peão simétrico para desenvolver uma teoria matemática que explana o fenômeno do movimento giroscópico. O movimento de um peão pode ser descrito adequadamente pelos ângulos de Euler, ψ , θ e ϕ , como mostrado na Figura 39. O espaço inercial é definido pelos eixos X, Y e Z, com a origem O sendo o contato com a ponta do peão. Devido ao fato do campo gravitacional ser uniforme, o centro de gravidade CG, ponto no qual age a resultante das forças gravitacionais, coincide com o centro de massa que se encontra a uma distância l do ponto O ao longo do eixo de simetria z. A força da gravidade Mg é paralela ao eixo inercial Z mas em sentido contrário, formando um torque positivo em torno do eixo nodal ξ . Fig. 39 – Movimento de um peão simétrico. Um fato a se destacar é que das três coordenadas que descrevem o movimento duas delas, ψ e ϕ , são cíclicas. Como será visto pelo aluno no curso de mecânica analítica, existe uma outra abordagem de problemas da mecânica em termos da energia cinética e potencial. Essa abordagem é devido a Lagrange e é baseada nas coordenadas, velocidades e momentos generalizados, coordenadas estas que, em número, são iguais ao número de graus de liberdade do sistema. A figura de mérito central é o Lagrangiano, que é a 70 diferença entre a energia cinética e potencial. Utilizando o Lagrangiano é possível escrever as equações de movimento para o sistema. Uma coordenada que não aparece no Lagrangiano é chamada ignorável ou cíclica. As coordenadas ignoráveis são geralmente coordenadas angulares, daí se aplica a denominação de cíclicas. Se uma coordenada é cíclica o momento generalizado associado a esta coordenada, que é a derivada do Lagrangiano em relação à velocidade generalizada da coordenada, se conserva. E a equação do momento generalizado associado à coordenada cíclica é a primeira integral do movimento, correspondendo a lei da conservação do momento. A seguinte abordagem Lagrangiana se mostra mais vantajosa que o uso das equações de Euler. Devido a simetria do corpo é mais simples expressar a energia cinética em termos das velocidades angulares do corpo em torno dos eixos nodais ξ , η , ζ , onde ξ , como já foi dito, pode precessar sem sair do plano inercial XY, e ζ coincide com o eixo de simetria. Denotando o momento de inércia em torno do eixo de simetria por C e o momento de inércia em torno de qualquer eixo transversal por A, a energia cinética rotacional tem a forma 2T = A(ωξ2 + ωη2 ) + Cωζ2 , (231) onde as componentes de velocidade do corpo são dadas por ωξ = θ& , ω η = ψ&senθ e ω = φ& + ψ&cosθ . Segue que ζ ( ) ( ) 2 2T = A θ& 2 + ψ& 2 sen 2θ + C φ& + ψ&cosθ . (232) Escolhendo o plano XY como plano de referência, a energia potencial é simplesmente V = Mgl cos θ . (233) A expressão para o Lagrangiano fica L = T −V = ( ) ( 1 1 &2 A θ + ψ& 2 sen 2θ + C φ& + ψ&cosθ 2 2 ) 2 − Mglcosθ . (234) Observe que as variáveis ψ e ϕ são cíclicas uma vez que não estão presentes no Lagrangiano. Isso proporciona duas primeiras integrais do movimento expressando a conservação dos momentos conjugados. Esses momentos correspondem aos eixos em torno dos quais ocorrem as rotações ψ e ϕ , ou seja, os eixos Z e z. A razão física para a conservação desses momentos é que não há torques em torno dos eixos associados. O único torque atuando sobre o sistema está em torno do eixo nodal ξ , e este é o eixo em torno do qual ocorre a rotação θ . Além do mais, como este é um sistema natural, ou seja, a energia cinética é uma função homogênea onde todos os termos apresentam o produto de duas velocidades generalizadas e conservativo, ou seja, o tempo não está explícito no 71 Lagrangiano, então, há uma terceira primeira integral do movimento consistindo da energia total do sistema E, que é conservada. As integrais de momento são ( ) ∂L = Aψ&sen 2θ + C φ& + ψ&cosθ cosθ = βψ , ∂ψ& ∂L pφ ≡ = C φ& + ψ&cosθ = Cω z = β φ , ∂φ& pψ ≡ ( ) (235) (236) onde βψ e β φ são constantes que dependem das condições iniciais. A Equação (236) implica que a velocidade angular do corpo em torno do eixo de simetria é constante. Vamos, agora, construir a função R dada por β φ2 1 & 2 (βψ − β φ cosθ ) Aθ − − − Mglcosθ , 2C 2 2 Asen 2θ 2 R ≡ L − βψ ψ& − β φ φ& = (237) conhecida como Routhiano do sistema. Observe que o Routhiano contém as constantes βφ e βψ ao invés das velocidades associadas φ& e ψ& . O Routhiano pode ser usado como um Lagrangiano para obter as equações de movimento para as coordenadas restantes, ignorando as coordenadas cíclicas. Então, para o nosso problema do peão, a única coordenada restante é a θ . Da teoria, a única equação de movimento descrevendo o sistema pode ser obtida da seguinte forma d ∂R ∂R = 0, − dt ∂θ& ∂θ (238) de tal forma que o sistema pode ser interpretado como um sistema tendo apenas um grau de liberdade com energia cinética 12 Aθ& 2 e a energia potencial equivalente (β − β φ cosθ ) 2 ψ 2 Asen 2θ + β φ2 2C + Mglcosθ . A energia total será β φ2 1 & 2 (βψ − β φ cosθ ) E = T + V = Aθ + + + Mglcosθ , 2C 2 2 Asen 2θ 2 (239) que depende apenas de θ e θ& . A Equação (239) pode ser reescrita na seguinte forma, 2 2 2 β φ2 2Mgl βψ β φ 2 2 & cosθ sen θ = θ sen θ + cosθ . − − E− A A 2C A A 72 (240) Definindo α ≡ 2 A 2 E − 2βCφ ; β ≡ 2 Mgl A ; a≡ βψ A ; b≡ βφ A e u ≡ cos θ , tem-se que a Equação (240) torna-se 2 u& 2 = (α − βu )(1 − u 2 ) − (a − bu ) , (241) que leva a solução t=∫ u (t ) u (0 ) du (α − βu )(1 − u 2 ) − (a − bu )2 , (242) que representa uma integral elíptica. A solução matemática resultante da Equação (242) é difícil de interpretar. Felizmente, não é necessário resolver a Equação (242) para avaliar o comportamento do peão e, genericamente falando, de outros sistemas giroscópicos. O exame do polinômio cúbico em u, da Equação (241), fornece muitas informações sobre o comportamento do sistema. Vamos denotar o polinômio cúbico por f (u ) = u& 2 = (α − βu )(1 − u 2 ) − (a − bu ) . 2 (243) As raízes de f(u) correspondem a pontos de nutação nulos, isto é, θ& = 0 , pois u& = −θ& sen θ , u& 2 = θ& 2 sen 2 θ e, para qualquer θ ≠ 0 , f (u ) = u& 2 = 0 , se e somente se, θ& = 0 . Apesar de u = cos θ estar limitado entre ± 1 para o problema físico, matematicamente u pode-se estender para além dessa região. Para grandes valores de u o polinômio se comporta como βu 3 e como u → ±∞, f (u ) → ±∞ também. Para u = ±1 o primeiro termo do polinômio é reduzido a zero, e segue que f (± 1) < 0 , porque o segundo termo nunca é positivo. Para valores reais de θ e θ& , f (u) = u& 2 > 0 . Conclui-se que, para o problema físico, u = cos θ , deve estar sempre entre u1 e u2 , intervalo no qual f (u) é positivo, como mostra a Figura 40. A explicação física para isso é que o eixo de simetria do peão deve nutar entre a região anular limitada pelos círculos θ1 = cos −1 u1 e θ 2 = cos −1 u2 exceto quando as raízes u1 e u2 coalescem e a nutação reduz a zero. O movimento pode ser visualizado por meio das coordenadas esféricas ψ e θ do eixo de simetria. Como essas coordenadas variam, pode-se imaginar o eixo traçando uma curva sobre uma esfera de raio unitário com origem em O. O tipo de curva traçada pelo eixo de simetria sobre a esfera depende não somente da nutação θ& mas também da precessão ψ& . Das Equações (235) e (236), utilizando as definições para a e b, obtém-se a precessão ψ& = a − bu , 1− u2 (244) 73 Fig. 40 – Equação cúbica representando o movimento de um peão. e devido a denominador ser quase sempre positivo, o sentido da precessão depende do sinal de a − bu . Há três casos distintos de particular interesse. Eles diferem na natureza da precessão nos limites da região anular, que, por sua vez, determina o tipo de curva traçada pelo eixo de simetria: 1. O sentido da precessão é o mesmo nos dois círculos limitantes, um caso obtido quando a > bu2 . Este caso é mostrado na Figura (41a). 2. A precessão é zero no círculo limitante superior, que é o caso obtido quando a = bu2 . O traço forma uma cúspide sobre a esfera de raio unitário, como mostra a Figura (41b), razão pela qual o movimento do peão é denominado de movimento cuspidal. Este caso ocorre quando o eixo de simetria do peão girante é abandonado do repouso. Imediatamente após ter sido abandonado em θ = θ 2 o eixo começa a cair. Como a energia cinética aumenta em detrimento da energia potencial, o peão começa a adquirir movimento precessional, atingindo um máximo de velocidade de precessão em θ = θ1 , ponto no qual o eixo começa a subir novamente em direção a sua altura original e o processo continua a repetir. Incentivamos o aluno a demonstrar que o caso das cúspides invertidas é impossível. 3. O sentido da precessão é diferente nos dois círculos limitantes. Esse caso, mostrado na Fig. (41c), ocorre quando bu2 > a > bu1 . Isso significa que em θ = θ 2 a precessão é negativa, enquanto que, em θ = θ1 , ela é positiva. Em certos valores intermediários θ 2 < θ < θ1 , a precessão é zero, que leva a conclusão que o traço executa laços. Devido ao fato da precessão média ser diferente de zero, o eixo revoluciona não uniformemente em torno do eixo vertical Z. (a) (b) (c) Fig. 41 – Traço do eixo de simetria do peão numa esfera unitária (a oscilação é limitada entre os ângulos θ1 e θ 2 ). (a) a > bu2 , (b) a = bu 2 e (c) bu2 > a > bu1 . 74 O tipo de movimento realizado pelo peão depende das condições iniciais. Para compreender um pouco mais a natureza do movimento, vamos considerar o caso em que o peão possui inicialmente uma grande velocidade de rotação, φ&0 , com nutação e precessão iguais a zero, θ& = ψ& = 0 . Das Equações (235), (236) tem-se 0 0 βψ = Cφ&0 cosθ 0 , (245) β φ = Cφ&0 . (246) e Substituindo a Equação (246) na Equação (245) e sabendo que a = βψ A , b= βφ A ,e u 0 = cosθ 0 , tem-se a = bu 0 . (247) Devido a θ&0 = 0 , segue da Equação (241) que α = βu 0 , (248) de tal forma que u 0 é raiz da Equação (241). Introduzindo as Equações (247) e (248) na Equação (241), tem-se [( ) ] f (u ) = (u 0 − u ) β 1 − u 2 − b 2 (u 0 − u ) , (249) e é óbvio que as outras duas raízes da cúbica são obtidas da expressão quadrática u2 − b2 β u+ b 2u0 β −1 = 0 . (250) Considerando b 2 >> β , pode-se mostrar que as raízes da Equação (248) são u1 = b2 β − u0 + e u2 = u0 − β b 2 β b2 (1 − u ), 2 0 (251a) (1 − u ), 2 0 (251b) onde é evidente que u1 > 1 , de tal forma que essa raiz não é de interesse. Por outro lado, da Equação (251b), tem-se u 2 < u 0 que significa que o peão deve cair antes de levantar novamente. É também óbvio, examinando a Equação (251b), que um acréscimo na rotação φ& diminui a região anular, e devido ao fato de u 2 não desvia muito do valor inicial u 0 , 75 conclui-se, da Equação (241) que u não pode ser muito grande. De fato, para mostrar isso, vamos substituir u por u 0 − ε na Equação (241), onde u 0 é constante e ε é pequeno, e obter ε& 2 = ε [(1 − u 02 )β − b 2 ε ] . (252) Derivando a Equação (252) em relação ao tempo, obtém-se uma equação diferencial de segunda ordem que, para as condições iniciais, ε (0 ) = ε& (0 ) = 0 , tem a solução ε= β (1 − u 02 ) 2b 2 (1 − cosbt ) , (253) enquanto que u& é simplesmente − ε& . Devido ao ângulo θ não mudar apreciavelmente do seu valor inicial θ 0 , e lembrando que u& = −θ&senθ = −ε& , obtém-se θ& ≈ βsenθ 0 2b senbt , (254) implicando que a nutação é harmônica. Com o aumento na velocidade inicial de rotação a amplitude de nutação diminui e a freqüência b aumenta. A velocidade de precessão deve também ser relativamente pequena para grandes velocidades de rotação. De fato, substituindo u por u 0 − ε na Equação (244), obtém-se ψ& ≈ bε β (1 − cosbt ) , = 2 1 − u 0 2b (255) onde o valor de ε da Equação (253) foi substituído. Então a precessão possui, além de um termo constante, uma componente harmônica. Como no caso da nutação, a amplitude da precessão diminui e a freqüência de oscilação aumenta com o aumento na velocidade inicial de rotação. Da natureza das Equações (254) e (255), conclui-se que, para o peão que gira rápido, as componentes harmônicas da nutação e precessão estão defasadas de um ângulo π / 2 . Além do mais, enquanto a nutação média é zero, para ω z > 0 a precessão média tem o valor Mgl β (256) ψ& média = = > 0, 2b Cω z que indica que o eixo do peão, sob balanço, se mantém girando ao redor do eixo vertical. 76