O ROCK UNDERGROUND E O ESPAÇO URBANO Bruno Mendes Mesquita Universidade Federal Fluminense [email protected] 1.A Emergência da Cultura Rock O rock é um movimento cultural que surge na década de 1950, nos Estados Unidos, tendo como principais influências a música Country, o Blues e principalmente o Rhythm Blues. Estruturando-se, dessa forma, a partir da música afro-americana, e por isso, terá uma base rítmica muito marcante e valorizada. Em suas origens, o rock and roll era essencialmente uma música afroamericana. Os ritmos sincronizados, a voz rouca e sentimental e as vocalizações de chamado-e-resposta características dos trabalhadores negros eram parte da herança da música africana e tornaram-se os tijolos com os quais o rock and roll foi construído. (FRIEDLANDER, 2008). Vale resaltar que outros estilos musicais também contribuíram para a formação do rock, como o folk, o gospel e o jump band jazz. Sendo um dos principais vencedores da 2ª Guerra Mundial, que acaba em 1945, os Estados Unidos se consagra como uma potência hegemônica mundial. Nessa época, ocorrerá uma mudança no padrão urbano, exacerbando a segregação socioespacial, ocorrendo com o processo de metropolização, que aumentou a área de influencia das cidades americanas e criou novos centros urbanos (Correa, 1989). Dessa maneira, reconfigurando o espaço urbano e recriando as áreas periféricas, que justamente serão os espaços ocupados pelo rock, R&B, os lugares onde estavam localizados as pequenas gravadoras, as lojas de disco especializadas em música negra e os bares e casa de shows. Esta configuração espacial, de ocupação dos espaços de obsolescência deixada para trás, no novo arranjo espacial da especulação imobiliária e do capital industrial, durante esse início do rock, terá também um elo com o surgimento da cultura underground. A emigração da indústria da região nordeste dos Estados Unidos para a costa oeste, e a imigração intensa da população do Caribe e do México para o país nesse período, foram 1 fatos que também produziram uma descentralização, e por isso corroboram para o aumento da segregação socioespacial, criando os guetos, onde começará a cultura rock. Um exemplo tangível desse processo aconteceu em Cleveland, Ohio, que era uma cidade industrial e sofreu com o declínio da indústria manufatureira, criando vários espaços abandonados pelo capital e que foram incorporados pela cultura rock1, haja vista que é uma das mais importantes cidades para a sua história, inclusive, partindo dela, um dos vários mitos fundadores do nome “rock and roll”, que, neste caso específico, sua autoria foi dedicada ao famoso discotecário da cidade, Alan Freed2. Vale ressaltar também o intenso processo migratório dos negros do sul dos Estados Unidos para o norte industrial na década de 1920, em busca de emprego e fugindo do racismo institucionalizado pelas leis da Jim Crow (e do não institucionalizado, como a Ku Klux Klan)3. Serão esses guetos e antigos bairros operários negros o lócus da criação do rock and roll nas cidades industriais. O contexto político que o rock surge são os anos do governo de Dwight D. Eisenhower, que ficou no poder no período de 1953 até 1961. Configurando-se como um périodo extremamente conservador, e influenciado pelo macartismo, o início do rock é marcado pela perseguição devido aos temas abordados, como o sexo e a rebeldia juvenil. Esta representação do jovem como indívuo rebelde foi retratado em alguns filmes da época como o clássico, Juventude Transviada, que teve o ator James Dean como personagem principal. Dean ficou marcado como o ícone da rebeldia e angústias próprias da juventude da década de 1950. É importante destacar que o cinema norte-americano será um dos principais expoentes internacionais dos valores e do modo de vida americano, internacionalizando o american way of life, onde as cidades americanas começam a substituir as cidades europeias como produtoras de cultura que se mundializam rapidamente e buscam afirmar as novas modas4. 1 The Encyclopedia of Cleveland History.Case Western Reserve University. 2007. http://www.rockhall.com/inductees/alan-freed/ 3 FARIA; FERREIRA; SANTOS; VAINFAS. História, volume 3, editora saraiva, 1ª edição, São Paulo, 2010. 4 Paraire, Philippe. “O cinema de Hollywood”. São Paulo, 1994. Editora: Martins Fontes. 2 2 Esta década marca também o surgimento de um conceito de juventude nos Estados Unidos, imbricado com a liberação dessa parcela da sociedade do mundo do trabalho e a sua ascensão como mercado consumidor. Pela primeira vez, muitos adolescentes não tinham que trabalhar para ajudar suas famílias. Além da escola, estes jovens tinham poucas responsabilidades incômodas, e, com o advento da ajuda de custo eles adquiriram um poder de compra maior. Reconhecendo a existência de um novo grupo de consumo, empresários americanos correram para preencher este filão, provendo-o de itens “essenciais” como roupas, cosméticos, fast food, carros e músicas (FRIEDLANDER, 2008). Para trabalhar com o rock, torna-se então necessário se delimitar um conceito de juventude. Identifico-me com o conceito de jovem de Janice Sousa (2006), no qual a autora compreende que: o jovem se dimensiona individualmente e sob a influência de aspectos psicossociais, num percurso de (in)definições: busca identitária, tendência de estar em grupo, deslocamento constante de situações e vínculos, atitude de contestação e insatisfações sociais, intelectualização dos fatos, mudanças de humor, separação do universo familiar, questionamento dos valores sociais, fatores que se desenvolvem em pleno vigor na adolescência. (SOUSA, 2006). É devido então ao caráter identitário e social que o rock conseguirá espaço entre a juventude. Os grandes empresários da indústria fonográfica investiram nas “Paradas de Sucesso” como tentativa de influenciar essa parcela crescente de consumidores (Friedlander, 2008), procurando incorporar os jovens à sociedade de consumo despolitizada, que busca realizar o consumo sem se importar com as implicações sociais da confecção do produto, porém focando na música pop, o que levou a vários jovens a buscar no rock and roll uma válvula de escape para suas frustrações de viver numa sociedade individualista e conservadora, a partir das rádios de música negra (Friedlander, 2008). Esse fato levou os empresários da indústria fonográfica a abarcarem também o rock nas “Paradas de Sucesso”. Abordando temas herdados do Rhythm and Blues, como a desilusão amorosa, letras com duplo sentido de cunho sexual e a busca por liberdade dentro de uma sociedade opressora, o rock se aproxima da juventude da década de 1950, que o elege como a trilha sonora de sua vida (Friedlander, 2008). 3 Dessa forma, o rock se configurará como uma cultura majoritariamente, mas não exclusivamente juvenil. Serão os novos comportamentos e posicionamentos sociais, a construção de uma nova identidade juvenil urbana através de uma nova corporeidade onde distintos aspectos estéticos como cabelos, tatuagens, gestos, ‘dança’, uso de entorpecentes, delimitam aos participantes dessa cultura, não apenas um caráter numérico de idade. 1.1) Tensões sociais e a cultura rock Consideramos importante salientar que é possível fazer uma divisão do mundo da música utilizando os conceitos de circuito superior e circuito inferior da economia de Milton Santos.5 Para o autor, o circuito superior da economia é definido pelo capital abundante, tecnologia mais avançada na produção, exportação de produtos acabados, organização burocratizada, assalariamento da força de trabalho, financiamento e parceria com o Estado. Já o circuito inferior da economia é definido pelo subemprego, não emprego ou terceirização, pela pobreza tanto na cidade quanto no campo, gerando explorados e oprimidos, e não economia ou politicamente marginais, e seria original e complexo, compreendendo a pequena produção manufatureira, frequentemente artesanal, o pequeno comércio de uma multiplicidade de serviços de toda a espécie, cujas unidades de produção e comércio, de dimensões reduzidas, trabalham em pequenas quantidades (SANTOS, 1979). Esses dois circuitos coexistem dentro das cidades, e são ambos, frutos das inovações tecnológicas dentro do espaço, que levam a ampliação dos processos de circulação: Como se produzem, cada vez mais, valores de troca, a especialização não tarda a ser seguida pela necessidade de mais circulação. O papel desta, na transformação da produção e do espaço, torna-se fundamental. Uma de suas consequências é, exatamente, o aprofundamento das especializações produtivas, tendentes a convocar, outra vez, mais circulação. Esse círculo vicioso - ou virtuoso? – depende da fluidez das redes e da flexibilidade dos regulamentos. (SANTOS, 1996). 5 SANTOS, M. “O espaço dividido”, Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1979. 4 Dessa forma, afirmamos que existem dois cenários musicais diferentes. Um faz parte do circuito superior da economia, se configurando como uma verdadeira indústria do entretenimento, que abarca grandes gravadoras, mega eventos, propagandas em mídia especializada e na imprensa dita oficial e utilização das melhores casas de shows das cidades. O outro faz parte do circuito inferior da economia onde negócios e amadorismo caminham juntos. Dentre suas atividades econômicas se encontram: pequenas gravadoras, que muitas vezes se confundem com pequenas lojas de discos, com uma tiragem extremamente limitada; mídia especializada com fanzines e revistas também de poucas tiragens, vendedores ambulantes, lojas em galerias, em locais depreciados economicamente, bares em bairros periféricos, muitos deles ocupações. Segundo Fredlander, o rhythm and blues, o blues e, subsequentemente, o rock clássico foram deixados para as pequenas gravadoras independentes regionais e circulavam nas pequenas rádios urbanas. Fato que caracteriza a inserção desses diferentes, porém imbricados, estilos musicais no circuito inferior da economia. No entanto a incessante busca da juventude por músicas desses estilos levou as grandes gravadoras a criarem covers das versões originas. Fato que causou o sucesso financeiro das pequenas gravadoras que apostaram no rock, inicialmente, retirando-os do circuito inferior. No início, as grandes ignoravam o R&B. Por volta de 1953, a venda de gravações de R&B e a execução nas rádios fizeram com que elas produzissem covers dos sucessos de R&B. Para as grandes gravadoras, produzir covers significava pagar royalties pelos direitos de gravação de uma música – quase sempre trocando as letras e amenizando as partes mais pesadas – e lançar sua própria versão, gravada por um artista pop da casa. (FRIEDLANDER, 2008). A preferência em utilizar versões para, a partir desse ponto, apresentar o R&B e o rock para o mercado reflete uma estratégia de venda por parte das grandes gravadoras que faz sentido dentro da década de 1950 nos Estado Unidos, extremamente conservadora e racista. Assim, o imaginário racista da sociedade americana vai buscar apagar as origens do rock, retirando o protagonismo dos negros e tornando o rock mais comerciável. 5 Paul Friedlander divide o rock clássico, entendido como o rock and roll dos anos de 1950, em duas gerações. A primeira surgiu entre 1953 e 1955, formada principalmente por artistas negros, oriundos do R&B com letras que trabalhavam temáticas como amor, sexo e rebeldia. A segunda geração, de maior sucesso econômico, era formada pelos jovens brancos, como Elvis Presley e Jerry Lewis, que apesar de trabalhar os mesmos temas nas letras tiveram maior aceitação devido ao fato de serem brancos e o uso político do meio técnico-científico informacional criado pelo cinema e a televisão como criadores de um novo marco zero do rock buscando eliminar a presença e o protagonismo negro. Vale lembrar que estamos falando da sociedade americana, que nesse período ainda tinha o racismo institucionalizado em muitos estados do sul. Para a maioria dos adultos, entretanto, havia algo de amedrontador em relação à música. Para os pais, muitos dos quais foram educados no exército, ou influenciados pela estrutura hierárquica do local de trabalho e da família, e pelo clima do conformismo social, esta música produzia uma reação assustadoramente espontânea e sensual. Sua prole reagia de uma maneira não autorizada. E a oposição dos adultos ao rock também refletia o racismo inerente à época. Como perceberam, corretamente, que o rock era fundamentalmente negro na origem e na natureza, a maioria dos pais brancos o julgava irracional e animalesco. Por exemplo, o Conselho dos Cidadãos Brancos do Alabama anunciou uma campanha para livrar o país deste “animalístico bop negro”. Muitos representantes governamentais, religiosos e educadores ecoaram estes sentimentos, caracterizando a música como imoral e pecaminosa – e seus interpretes como delinquentes juvenis preguiçosos e indolentes. (FRIEDLANDER, 2008). Nessa época, a indústria fonográfica abarca o rock investindo na juventude como um novo grupo de consumidores que, nos pós-guerra, conflitam suas frustrações, desejos e crenças com a geração anterior, que tenta os tolher. O rock então, principalmente a partir da segunda geração, sairá do circuito inferior da economia direto para o circuito superior, configurando-se como um negócio muito lucrativo e racialmente embranquecido. Criou-se assim, medidas, moduladas por uma cultura racista, de monopólio da história cultural do espaço urbano dos EUA, do rock’n’roll como uma criação dos jovens brancos urbanos. Em outras palavras, o embranquecimento da cultura urbana como estratégia de supremacia racial (OLIVEIRA, 2011). 6 Entretanto, em paralelo com o rock divulgado pela indústria fonográfica, abrangido pela indústria do entretenimento, que ocupa as melhores casas de shows, com as melhores gravadoras e a melhor distribuição dos discos gravados, realizando megaeventos e festivais, coexiste uma cultura rock independente, amadora, que vive à margem desse processo. No decorrer da década de 1950, nos Estados Unidos, se radicava uma sociedade de consumo despolitizado cuja decorrência principal foi o “destaque que a juventude passou a ter como classe estudantil, como consumidores e como molde da cultura de massa” (SARMENTO, 2006, p.5). De acordo com Sarmento (2006), o surgimento dos jovens e o movimento feminista foram duas novidades que deram ímpeto a essa nova fase do capitalismo-burguês. É nessa conjuntura que é criada a contracultura – baseada fundamentalmente na cultura rock. Porém, “o mercado rapidamente percebeu que a juventude estava se tornando um grupo de atores conscientes de si mesmos e não perdeu a oportunidade de oferecer-lhes produtos, serviços e bens de consumo” (SARMENTO, 2006, p.7). Do mesmo modo como ocorre em todos os movimentos de contestação, a indústria fonográfica destituiu de conteúdo o rock, ao adicioná-lo ao seu modo de produção e consumo. A comunicação massiva foi fundamental nesse processo, uma vez que é a via de difusão desse estilo de vida e do próprio rock: “Os jovens não queriam mais simplesmente assistir demonstrações de prazer, liberdade e felicidade oferecidos pela sociedade do sonho, criação da indústria cultural. Queriam eles mesmos experimentá-los na vida real” (SARMENTO, 2006, p.15). Apesar dos esforços da indústria fonográfica, e dos valores racistas da sociedade americana naquele período, alguns estilos e cantores de rock mantém de forma contraditória e ambígua o tom contestador. Contudo, na virada da década de 1970 para 1980, já com o rock consagrado com um dos principais ritmos musicais de sucesso, o sonho de vários jovens era ser artista. O contexto social em que esses jovens estavam inseridos foi à mudança ocorrida nas cidades para dar vazão ao capitalismo informacional dentro dos países que se industrializaram primeiro, como Inglaterra, França e Estados Unidos. Assim, a cidade Industrial e o lugar que a classe operária ocupava dentro delas, transmutam-se para que o 7 meio-técnico-científico-informacional (SANTOS, 1996) possa se consagrar como na nova forma do capital através da sua materialidade no meio urbano. As ações práticas oriundas dessa racionalidade destruíram os bairros operários, causando a expulsão da classe trabalhadora dos seus espaços na cidade que irá se espacializar num novo processo de segregação a partir de guetos, criaram novas redes de informação, com o desenvolvimento dos meios de comunicação e de transporte. Entretanto a ação que mais influenciou a vida dos jovens nessas cidades foi o processo de desindustrialização. Aproveitando as legislações ambientais incipientes, classe trabalhadora pouco articulada, disponibilidade de matérias-primas e incentivos governamentais, muitas indústrias encerram suas atividades nos países ricos para reabri-las nos países pobres. Dessa forma fecham-se as portas do primeiro emprego para a grande maioria dos jovens da classe trabalhadora nestes países. Esse horizonte repleto de incertezas fará com que esses jovens, filhos da classe operária, busquem no rock uma forma de extravazar sua indignação e uma alternativa para o trabalho alienante (LOPES, 2006). 1.2) Cultura Underground (multiplicidade de posições de atores) A dificuldade de se inserir na indústria fonográfica, somados com o sentimento de não pertencimento com o tipo de rock expostos na mídia (fazendo surgir estilos de rock diferentes, como o punk rock6 e o heavy metal7), ensejou a criação de uma válvula de escape, uma mídia paralela para a divulgação de novas bandas. Toda uma cultura urbana rock se estruturou nesse momento em paralelo com o rock apresentado pela indústria fonográfica. Os jovens estavam criando seus próprios signos, que se manifestavam nas suas roupas, modos de falar, lugares que frequentavam, formas de 6 O punk rock é um subgênero do rock que surge em meados da década de 1970, pregando a cultura do “faça você mesmo”, a simplicidade nas composições e a crítica aos valores da sociedade burguesa. 7 O heavy metal também é um subgênero do rock que surge na virada da década de 1970 pra 1980, incorporando a ideia do “faça você mesmo” do punk , mas resgatando o virtuosismo dentro da música e atrelando sua crítica social principalmente a uma crítica religiosa, através da resignificação dos símbolos religiosos. 8 significar a sua existência individual e coletiva, que já não eram supridas pela indústria do entretenimento. Essa nova postura segmentada, juvenil e urbana é a cultura underground: “Underground, então, configura-se como um conjunto de práticas discursivas que incorrem nas formas com que esses jovens se posicionam entre si, perante outros grupos, marcando seu terreno na cultura contemporânea.” (Feitosa, 2003). A cultura underground extravasa os limites do rock, vários outros diferentes grupos, como skatistas, clubbers, motociclistas, o hip hop, o rock evangélico, criam seus circuitos próprios, muitas vezes imbricados com o rock underground e outras não. Dessa forma a multiplicidade dos atores é uma das características da cultura underground. Nessa conjuntura as pequenas lojas de disco também se tornaram peça importante para a divulgação do rock underground. Esses estabelecimentos se configuravam como ponto de encontro onde os jovens partilhavam o apreço pelos novos gêneros dentro do rock e também trocavam informações. Dessa maneira, mitigando a ausência de uma mídia especializada (CHRISTE, 2010). O conjunto das pequenas lojas de discos, somados aos fanzines, a troca de fitas e as pequenas gravadoras criaram um mercado para o rock que funciona em paralelo com a indústria fonográfica. Neste trabalho, fazemos uma divisão. O rock da indústria fonográfica é por nós enquadrado dentro do circuito superior da economia (SANTOS, 1979), pois é atrelado ao grande capital, a produção em escala industrial e a parceria com o Estado. Já o rock underground faz parte do circuito inferior da economia (SANTOS, 1979), pois é atrelado à informalidade, ao subemprego, ao amadorismo e à produção em pequena escala. Essa divisão econômica e cultural dentro do rock ensejará uma estratificação socioespacial. Existem vários atores que disputam o uso do espaço urbano (CORREA 1989, SANTOS 1994, LEFEBVRE 2008). O rock da indústria fonográfica, por estar aliado ao grande capital, é um dos atores privilegiados nessa formação, ocupando as melhores casas de shows, nos melhores bairros da cidade, recebendo incentivos fiscais em parceria com o Estado para a realização dos grandes festivais. 9 Por outro lado, o rock underground se configura com uma prática estética desprivilegiada nessa lógica: os seus bares, lojas e galerias localizam-se em bairros periféricos ou pouco atrativos para a especulação imobiliária, praças públicas, ruas e passarelas em locais violentos (LOPES, 2006). Suas escalas de produção serão restritas a pequenas tiragens, a interação terá um caráter mais coletivo e o preço é negociável, onde nem sempre o lucro é a primazia do processo de realização do consumo, bem como as compras e vendas são diretas dos produtores para os consumidores e, por isso, os preços são negociáveis. Seus aparatos técnicos também são diferenciais, num sentido que não necessitam de grandes equipamentos de som, com mesas e amplificadores modernos para fazerem seus eventos. Muitas vezes, ou utilizando os aparelhos de som dos próprios músicos ou alugando o som de um conhecido que normalmente também faz parte do rock underground, potencializando sua inserção no espaço urbano nas áreas mais pobres. Diferente do rock da indústria fonográfica que ao circular pelo circuito superior da economia, necessita de grandes aparatos técnicos, mesas de som imensas com diversos canais, amplificadores potentes e modernos, limitando assim os espaços que podem ocorrer os grandes shows internacionais aos grandes centros urbanos. Essa estratificação espacial dentro do rock em circuitos distintos da economia também irá proporcionar diferentes esferas de reprodução e criação. Devido ao fato de o rock underground fazer parte do circuito inferior da economia, a criação do novo terá um espaço privilegiado, enquanto a reprodução terá um caráter limitado. Já no rock da indústria fonográfica, por fazer parte do circuito superior da economia, a criação será limitada, pois a esfera privilegiada nessa escala é a reprodução, sem tempo para o novo. É por esse motivo que os novos gêneros do rock (como punk, heavy metal e gótico) surgem no meio underground. Dentro do espaço urbano, a cultura underground forma-se como uma cena. O conceito de cena musical, definido por Geoff Stahl como um tipo específico de conjuntura cultural urbana e prática de codificação espacial, que oferece meios diferenciados para 10 abarcar os complexos circuitos, afiliações, redes e pontos de contato que informam as práticas culturais e as dinâmicas identitárias dos grupos juvenis, no contexto dos espaços urbanos contemporâneos (STANL, 2004). A cena do rock underground é mais uma prática sociocultural com demandas específicas que vai disputar o uso do espaço urbano. Devido a este fato, torna-se necessário contemplar o debate sobre o uso do espaço nas cidades. O espaço urbano é um conjunto de diferentes usos sobrepostos (CORREA 1989, SANTOS 1994, LEFEBVRE 2008), segundo Correa, tendo como agentes sociais de sua produção os proprietários dos meios de produção, sobretudo, os grandes industriais, os proprietários fundiários, os promotores imobiliários, o Estado e os grupos sociais incluídos precariamente, sendo o rock underground um destes. Para o autor, o espaço urbano é fragmentado e articulado, reflexo e condicionante social, um conjunto de símbolos e campo de lutas. É, assim, a própria sociedade em uma de suas dimensões, aquela mais aparente, materializada nas formas espaciais. Milton Santos relaciona o uso da técnica na formação espacial. A globalização neoliberal tem como meta desarticular as localidades em prol de uma melhor obtenção do lucro. Desse modo, em sua versão contemporânea, a tecnologia se pôs a serviço de uma produção à escala planetária, no qual nem os limites dos Estados, nem os dos recursos, nem os dos direitos humanos são levados em conta, exceto a busca desenfreada do lucro, onde quer que se encontrem os elementos capazes de permiti-lo. A produção desse espaço urbano que tem como base a articulação espacial da obtenção do lucro cria, na concepção de David Harvey, um espaço desigual no qual a dinâmica da acumulação do capital pode alterar as formas de espacialidade, gerando desigualdades entre os territórios. Dos conflitos das necessidades e projetos de espaços daqueles que estão à margem dessa produção oficial do espaço na cidade, surgem as novas espacialidades, que, através dessas práticas sociais, são novas formas de representação e interpretação do espaço. Para entendermos a produção do espaço a partir do rock underground é importante percebemos que este se consagra no período que Milton Santos chamará de técnico11 científico-informacional, tendo com nexo estrutural desse momento histórico, a extrema interdependência da ciência com a produção e a circulação da informação: O terceiro período começa praticamente após a Segunda Guerra Mundial, e sua afirmação, incluindo os países de terceiro mundo, vai realmente darse nos anos 70. É a fase a que R. Richta (1968) chamou de período técnico-científico, e que se distingue dos anteriores pelo fato da profunda interação da ciência e da técnica, a tal ponto que certos autores preferem falar de tecnociência para realçar a inseparabilidade atual dos dois conceitos e das duas práticas (SANTOS, 1996). Esse novo período, que abarca inclusive o campo a partir da maior utilização de insumos, fertilizantes e maquinários (Santos, 2008), vai reconfigurar o espaço urbano criando novos centros e enfraquecendo outros (Correa, 1989). Os principais promovedores dessa mudança são os agentes privilegiados da construção do espaço urbano, os proprietários dos meios de produção, sobretudo os grandes industriais, os proprietários fundiários, os promotores imobiliários e, sobretudo, o Estado (Correa, 1989). A lógica por trás desse processo é a maior obtenção do lucro, seja a partir da criação de novos bairros ricos ou a partir da busca por custos menores de produção. Como produto dessa ação, temos uma reconfiguração da segregação espacial dentro das cidades, novos lugares tornam-se os novos centros dinâmicos e outras áreas tornam-se arcaicas, produzindo espaços opacos, onde o capital imobiliário não tem interesse de atuar. “A dinâmica espacial da segregação gerou de um lado, aquilo que a literatura registra como sendo a “zona em transição”, área de obsolescência em torno de um núcleo central, também denominada de “zona periférica do centro” (Correa, 1989). Serão esses espaços opacos, espaços de obsolescência, que serão ocupados pelo rock underground nas cidades, pois permitem a realização de suas práticas espaciais, como o consumo de bebidas alcoólicas, cigarros e drogas ilícitas, inclusive por menores, já que estamos falando de uma cultura juvenil, além de permitiram seus shows e festas que perduram até a madrugada, pois não há um policiamento efetivo nesses lugares. Dessa forma, esses grupos buscam essas áreas na tentativa de fugir dos espaços controlados e regulamentados das novas áreas centrais, para criar assim, a sua lógica de uso do espaço urbano. 12 Com o crescimento do processo de metropolização, em que a cidade cresce para dar vazão à globalização neoliberal, ocorre uma mudança na temporalidade urbana, sendo-nos imposto um ritmo veloz de vida, nos bombardeando de diversos estímulos que acabam gerando a impessoalidade e descaso, conforme bem expostos por Simmel, no conceito de atitude blasé: é a incapacidade de reagir a novos estímulos com as energias adequadas (...) que associada à economia monetária, a essência da atitude blasé encontra-se na indiferença perante as distinções entre as coisas (...) não são percepcionadas como significantes. Essa atitude impessoal e individualista é personificada no signo que o automóvel representa para a nossa sociedade: O automóvel é, para Baudrillard, um dos mais importantes signos de nosso tempo e seu papel na produção do imaginário tem profunda repercussão sobre o conjunto da vida do homem, incluindo a redefinição da sociedade e do espaço. As cidades não seriam hoje o que elas são se o automóvel não existisse. Os homens acabam considerando o automóvel como indispensável e esse dado psicológico torna-se um dado da realidade vivida. Ilusão ou certeza, o automóvel fortalece no seu possuidor a ideia de liberdade do movimento, dando-lhe o sentimento de ganhar tempo, de não perder um minuto, neste século da velocidade e da pressa. Com o veículo individual, o homem se imagina mais plenamente realizado, assim respondendo às demandas de status e do narcisismo, característicos da era pós-moderna. O automóvel é um elemento do guarda-roupa, uma quasevestimenta. Usado na rua, parece prolongar o corpo do homem como uma prótese a mais, do mesmo modo que os outros utensílios, dentro de casa, estão ao alcance da mão. (SANTOS, 1996). Os participantes do rock underground vão responder a essa cidade, que cria pessoas invisíveis, com a construção de uma comunidade, dando voz e rosto ao ritmo frenético da cidade, e propõe um local de parada e encontro, faz das áreas abandonadas pelo capital imobiliário seus territórios, e ironiza o signo da velocidade e do individualismo do automóvel, fazendo das garagens e do “rock de garagem” sua forma de criar o novo.8 8 Vale ilustrar que um dos principais lugares do rock underground da cidade do Rio de Janeiro é o Garage, na Rua Ceará, bairro da Praça da Bandeira. Sua importância é tamanha, sendo uma casa de show histórica onde se apresentaram várias bandas importantes do cenário underground nacional, que ocorre até uma metonímia, onde 13 Vale também ressaltar que a cultura do rock underground encontrará um espaço fértil nas grandes metrópoles mundiais, devido o processo de Globalização, que a partir de uma padronização dos lugares com a finalidade de uma melhor obtenção de lucro (Santos, 1996), acaba também globalizando as contradições referentes à atual fase do capitalismo, o meio técnico-científico e informacional. O processo de globalização se inicia com as Grandes Navegações, na virada do século XV para o XVI. Nesse período, começa a construção de um mercado global. Ortiz faz uma divisão entre os processos de mundialização e de globalização. O primeiro conceito está relacionado ao aumento das atividades culturais, no tocante à extensão geográfica, o que já existe há algum tempo na história. Já o outro é uma prática mais complexa, voltada, estreitamente, ao mercado e às estratégias mundiais – que trabalham como mosaicos de peças interdependentes, porém, concomitantemente, interligadas. No século XX, dois movimentos dão força ao processo de mundialização: a diversificação dos produtos e a produção em escala industrial (ORTIZ,1994). Na virada do século XX para o século XXI notamos a exacerbação do fenômeno da globalização, criando estruturas para a otimização da extração da mais valia, que, a partir desse momento, pode ser feita em escala global (SANTOS,1996). Globalizando-se o meio de produção capitalista, globalizasse também as contradições oriundas desse processo, como o desemprego estrutural devido ao fim das funções empregatícias em um tempo recorde, proporcionado pela junção ciência e técnica voltada para a produção e também a diminuição de investimentos nas áreas sociais (SANTOS,1996). Concomitantemente com a globalização das contradições, ocorre a globalização da cultura, parte relacionada à busca de uma colonização cultural, parte pela identificação com as temáticas apresentadas, como os Raps, o punk e o heavy metal que falam sobre as mazelas da vida na cidade, como desemprego, violência e prostituição (DUNN. 2007). os frequentadores chamam a rua interira (que é repleta de bares de rock) de Garage, sendo que o respectivo bar não está mais em atividades. Os bares de rock são antigas garagens ou prédios abandonados. 14 Os meios de comunicação, então instituídos, passaram a proporcionar essa troca de informações, seja pelas revistas internacionais, seja pelos programas de rádio e televisão, e o mais importante meio de divulgação da cultura underground, sua rede social. Será então no começo dos anos 1980, com a crise nos países periféricos, principalmente na América Latina que passava por processos de redemocratizações e aberturas econômicas, que a cultura do undurground se mundializará. É nesta época que vários países como a Argentina, Brasil e México passam a ter pessoas privilegiadas ouvindo rock, uma classe abastada que tinha acesso à música norteamericana e inglesa. As novas tecnologias, ao baratear a informação, permitem que se crie de fato uma cultura underground, com espaços próprios, signos próprios, com novos atores sociais, de menor poder aquisitivo, que passam a se identificar com as temáticas do Rap, Punk e Heavy Metal, e criar também suas próprias músicas, falando dos problemas de seu cotidiano. Nesse contexto, por exemplo, o heavy metal se espacializa no Brasil, desde o momento da abertura política com o fim da ditadura militar (LOPES, 2006). Bandas como o Dorsal Atlântica, Metalmorfose, Sepultura, Stress, Korzus, começam a surgir e a se apropriar da temática do heavy metal, inculturando vários aspectos como o “faça você mesmo” e a crítica as instituições (como a Igreja e a família) e os “antropofagiando”, juntando aspectos de nossa própria cultura, como cantar em português e falar sobre a história dos índios brasileiros (BATALHA, 2006). Atualmente, nas décadas de 1990 e nessa primeira década do século XXI, o fenômeno da urbanização passa a crescer justamente nos lugares onde ainda não tinha apresentado um desenvolvimento considerável, ou seja, na África e na Ásia. Com isso, sendo o rock underground um movimento cultural urbano, nessas regiões passará a surgir, concomitantemente com esse processo e com as contradições que este impõe, também uma cultura underground, como a registrada no documentário “Death Metal Angola”, do cineasta Jeremy Xido. Dentro do Brasil também é notável o crescimento da cena rock underground nas Regiões Norte e Nordeste, provando que os avanços nos meios de comunicação permitiram 15 a penetração da cultura rock até em espaços mais afastados do eixo Centro-Sul. Diversos eventos importantes têm ocorrido, principalmente na Região Norte, como o show da Violator, banda de thrash metal de Brasília, com grande reconhecimento no meio underground, em 2012, na cidade de Belém, do Korzus, banda de thrash metal de São Paulo, muito famosa dentro do underground brasileiro, possuindo 30 anos de estrada. REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS: BATALHA, Ricardo. A história do heavy metal no Brasil. 2000. Disponível em http://www.heavymetalbrasil.com.br/brasil.htm.Acesso em: 11 jul. 2006. CHRISTE, Ian. Heavy Metal: A história completa. Arx, Saraiva, São Paulo, 2010. CORREA, Roberto Lobato. O espaço urbano. Editora Ática, 1989. FARIA; FERREIRA; SANTOS; VAINFAS. História, volume 3, editora saraiva, 1ª edição, São Paulo, 2010. 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