PROURB
Programa de Pós-Graduação em Urbanismo - Faculdade de Arquitetura e Urbanismo
Universidade Federal do Rio de Janeiro
Laura Mariana Vescina
Projeto urbano, paisagem e representação
Alternativas para o espaço metropolitano
Rio de Janeiro, 2010
Laura Mariana Vescina
Projeto urbano, paisagem e representação
Alternativas para o espaço metropolitano
Tese de Doutorado em Urbanismo
Orientadora: Prof. Dr. Denise Pinheiro Machado
PROURB
Programa de Pós-Graduação em Urbanismo
Faculdade de Arquitetura e Urbanismo
Universidade Federal do Rio de Janeiro
Rio de Janeiro, 2010 V575
Vescina, Laura Mariana,
Projeto urbano, paisagem e representação: alternativas para o espaço
metropolitano/ Laura Mariana Vescina. – Rio de Janeiro: UFRJ/FAU,
2010.
205f. Il., 30 cm.
Orientador: Denise Pinheiro Machado.
Tese (Doutorado) – UFRJ/PROURB/Programa de Pós-Graduação em
Urbanismo, 2010.
Referências bibliográficas: p.198-205.
1. Urbanismo. 2. Paisagem. 3. Espaço urbano. I. Machado,
Denise Barcellos Pinheiro. II. Universidade Federal do Rio de Janeiro,
Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, Programa de Pós-Graduação
em Urbanismo. III. Título.
CDD 711
Tese submetida ao corpo docente Programa de Pós-Graduação em Urbanismo da Universidade Federal
do Rio de Janeiro como parte dos requisitos necessários para obtenção do grau de Doutor
Aprovada por:
Profa Doctora Denise Barcellos Pinheiro Machado
PROURB/FAU/UFRJ
Profa Doctora Lucia Maria Sá Antunes Costa
PROURB/FAU/UFRJ
Prof. Doctor Pablo Cesar Benetti
PROURB/FAU/UFRJ
Prof. Doctor Pedro da Luz Moreira
Centro Tecnológico, Escola de Arquitetura e Urbanismo/UFF
Prof. Doctor José Almir Farias Filho
Centro de Tecnologia, Departamento de Arquitetura e Urbanismo/UFC
Rio de Janeiro, Agosto 2010
Introdução
Agradecimentos
Mesmo sendo uma tarefa solitária, realizar uma tese de doutorado é um desafio que
não podemos enfrentar sozinhos. Muitas foram as pessoas que acompanharam a
trajetória destes quatro anos, de perto e de longe, que deram o suporte acadêmico e
emocional indispensável para ter chegado, finalmente, ao momento da defesa.
Em primeiro lugar os agradecimentos institucionais: ao PROURB e seu corpo de professores, à Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior)
e à minha orientadora, professora Denise Pinheiro Machado, pelo apoio recebido.
Ao programa Alfa da Comunidade Europeia pela oportunidade de realizar um intercâmbio com a Universidade de Eindhoven, particularmente ao professor Bruno de
Meulder pelo cálido acolhimento e as pertinentes orientações.
Mas esta tese não teria sido possível sem o apoio dos seres queridos. Meu agradecimento a Christophe, pela paciência e pelo amparo. À minha família, pelo incentivo
sempre. Aos meus companheiros de turma que compartilharam as primeiras inquietações e definições do trabalho e, muito especialmente, à Monica Rocio das Neves
pela hospitalidade e boa companhia.
Não quero deixar de agradecer também aos colegas da Blac Arquitetura, com os
quais “andamos” as ruas da Baixada Fluminense. À Serla (Secretaria Estadual de
Rios e Lagoas) pelo fornecimento de informações e imagens e à Fundação Cide pela
doação das bases cartográficas.
3
Introdução
Resumo
O presente trabalho procura investigar caminhos alternativos para a formulação do
projeto urbano na metrópole. Coloca-se como um convite a repensar a construção da
cidade e do território a partir de uma lógica diferente, fundada na paisagem.
Assinala as limitações do projeto urbano, nos moldes em que ele foi concebido até
hoje, frente aos desafios da cidade contemporânea. A escala e a condição das metrópoles no século XXI questionam a forma em que os projetos são formulados, desenvolvidos e executados. A mudança de foco do centro para o território mais amplo
da metrópole pressupõe uma revisão dos conceitos e das ferramentas até agora
experimentados na cidade consolidada. Uma abordagem paisagística - onde a lógica
projetual deriva da imbricação complexa entre sistemas naturais e processos de urbanização – se apresenta como resposta possível.
Esta hipótese se fundamenta metodologicamente na descrição e em sua habilidade
para produzir interpretações de situações destiladas das condições materiais do lugar. O mapeamento se concebe assim como uma exploração, onde potenciais são
descobertos e possibilidades testadas. A descrição se instala como mediação, como
ponto de passagem entre o espaço concreto e o projeto (Corboz, 2001). Descrição,
representação e projeção são entendidas como dialeticamente relacionadas.
A partir da proposta de quatro categorias/conceitos operacionais, a saber: camadas,
espaços livres, fronteiras e processos, o trabalho investiga o potencial de uma abordagem paisagística para uma porção da periferia metropolitana do Rio de Janeiro.
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Introdução
Abstract
The present work seeks to investigate alternative ways for the formulation of the urban project in the metropolis. It is placed as an invitation to rethink the construction of
the city and the territory from a different logic, founded in the landscape.
It points out the limitations of the urban project, in the way it has been conceived until
today, in face of the challenges of the contemporary city. The scale and the condition
of the XXI century metropolises question the form projects are formulated, developed
and executed. The change of focus from the center to the expanded territory of the
metropolis presupposes a revision of the concepts and the tools so far tried in the
consolidated city. A landscape approach - where the project´s logic derives from the
complex imbrications between natural systems and processes of urbanization - it is
presented as possible answer.
This hypothesis is methodologically based on description and its ability to produce
interpretations of situations distilled from the material conditions of place. Mapping
is then conceived as an exploration, where potentials are discovered and possibilities tested. The description is installed as mediation, as passage point, between
the concrete space and the project (Corboz, 2001). Description, representation and
projection are understood as dialectically related.
From the proposal of four operational categories/concepts, namely: layers, open spaces, borders and processes; the work investigates the potential of a landscape approach for a portion of the metropolitan periphery of Rio de Janeiro.
5
Introdução
Lista de Figuras
FI-1: Buenos Aires. Infra-estruturas e novos aparatos da globalização. Fonte: Revista SCA 194.............................................................................................27
FI-2: A dispersão dos mais ricos. Esquerda: condomínios fechados da periferia de Buenos Aires. Direita: condomínios verticais na Barra da Tijuca, Rio
de Janeiro. Fonte: flirck..............................................................................................................................................................................................................29
FI-3: América do Sul, cidades com 20.000 habitantes e mais, 1950 e 1990. Fonte: Boletin especial: urbanización y evolución de la población urbana de
América Latina, 1950 – 1990. Celade - CEPAL.........................................................................................................................................................................32
FI-4: A dispersão dos mais pobres. Periferias urbanas Buenos Aires (esquerda) e Rio de Janeiro (direita). Fonte: Revista SCA 194 e flirck.........................33
FII-1 e 2: Havana, renovação do centro histórico. Plaza de Armas Fonte: Oficina Del Historiador Habana.............................................................................43
FII-3: Plaza de La Muralla, centro histórico de Lima, Peru. Fonte: Autor...................................................................................................................................44
FII-4: Tambos no centro histórico de Arequipa. Planta: Fonte: Liesbeth Caymax e Esther Jacobs...........................................................................................45
FII-5: Acessos às moradias renovadas do Tambo Del Matadero, Arequipa. Fonte: Autor........................................................................................................45
FII-6: Malecóm de Guayaquil. Fonte: Diario La Nación..............................................................................................................................................................46
FII-7: Paseo del Caminante, nas “barrancas” do rio Paraná, Rosario. Fonte: Arq. Gerardo Caballero.....................................................................................46
FII-8 e 9: Requalificação do espaço público. Programa Rio Cidade, Leblon, Rio de Janeiro. Autores: Luiz Eduardo Indio da Costa, Guto Indio da Costa,
Fernando Chacel. Fonte: Alvarenga, Andre (2009)....................................................................................................................................................................47
FII-10: CEU (Centros Educativos Unificados) Jambeiro, em Guaianazes zona leste de São Paulo, dos arquitetos Alexandre Delijaicov, André Takiya e
Wanderley Ariza. Fonte: Arcoweb_.............................................................................................................................................................................................48
FII-11: Biblioteca El Tintal, Bogotá. Fonte: Arq. Daniel Bermudez..............................................................................................................................................49
FII-12: Puerto Madero, o novo cartão postal de Buenos Aires. Fonte: Autor.............................................................................................................................50
FII-13: Perspectiva do Eixo Tamanduatehy, Santo André: Fonte: Municipalidade de Santo Andre............................................................................................51
FII-14: Perspectiva do projeto Ciudad Portal Bi-Centenário, Santiago. Fonte: Ministerio de Urbanismo y Vivienda.................................................................51
FII-15 e 16: Imagem das indústrias cerealíferas desativadas e plano para Puerto Nuevo, Rosario. Fonte: Municipalidad de Rosario....................................52
FII-17: Transmilenio, ônibus articulados no centro de Bogotá: Fonte: Flirck..............................................................................................................................53
FII-18 e 19: Novos espaços públicos gerados a partir da passagem do metro-cable em Medellín. Fonte: Municipalidad de Medellín....................................54
FII-20: Corredor Verde del Oeste, Buenos Aires. Fonte: Revista SCA . ....................................................................................................................................55
FII-21: Urbanização de assentamentos informais. Morro do Socó e do Portal, em Osasco, São Paulo, dos arquitetos Viglieca & Associados. Fonte:
Arcoweb......................................................................................................................................................................................................................................56
FII-22: Favela Novos Alagados em Salvador. Vista da enseada do Cabrito e do Parque São Bartolomeu, antes e depois da intervenção, com o manguezal recuperado. Fonte: Cities Alliance..................................................................................................................................................................................56
FII-23: Programa Favela-Bairro, equipamentos sociais na favela Fubá-Campinho, Rio de Janeiro. Fonte: Arq. Jaurequi.......................................................57
FII-24: A ocupação gradual através dos séculos e o desaparecimento do sistema lacustre na cidade do México. Fonte: Arq. Kalach....................................60
FII-25: México, Ciudad Futura, fases do projeto. Fonte: Arq. Kalach.........................................................................................................................................61
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Introdução
FII-26: México, Ciudad Futura, o novo litoral recriado albergará serviços, parques e infraestruturas. Fonte: Arq. Kalach........................................................62
FII-27: Riachos e pântanos, que atravessam a cidade transversalmente, regulam o equilíbrio hidrológico ao mesmo tempo em que se inserem como ...
................................................................................................................................................................................................................................................
peças dentro do sistema de espaços públicos. Fonte: Alcaldía de Bogotá................................................................................................................................63
FII-28: Humedal Juan Amarillo, Bogotá. Fonte: Flirck................................................................................................................................................................64
FII-29: Redefinir o próprio paradigma do projeto de infraestrutura é a proposta de MMBB. Os piscinões são vistos como oportunidades únicas para
criar uma rede de vazios urbanos que possam qualificar as periferias paulistanas. Fonte: MMBB Arquitetos........................................................................65
FII-30: O Projeto La Aguada se insere dentro do plano mestre do Anel metropolitano de Santiago, integrando num novo parque recreativo as infraestrturas de mobilidade e de controle das inundações. Fonte: Ministerio de Vivienda y Urbanismo de Chile................................................................................66
FIII-1: Alguns princípios da Ecologia da Paisagem. Fronteiras. A) Fronteiras vegetais com diversidade estrutural são mais ricas em espécies animais.
B) a largura da fronteira de um fragmento difere segundo a direção dos ventos. C) Quando a fronteira administrativa ou política de uma área protegida
não coincide com a borda ecológica natural, se distingue e pode atuar como buffer atenuando o efeito do entorno no interior da área protegida. Fragmentos. A) Um fragmento ecologicamente ótimo provê várias vantagens ecológicas e geralmente tem uma forma de “nave espacial”, com um core
arredondado para proteger os recursos e uns dedos para a dispersão das espécies. B) Um fragmento orientado com seu eixo principal de forma paralela à rota de dispersão dos indivíduos terá menos possibilidades de ser recolonizado que um com seu eixo vertical. Fonte: Dramstad, Olson e Forman
(1996).........................................................................................................................................................................................................................................83
FIII-3: Ian McHarg, método ecológico para a bacia do rio Potomac. Neste mapa, idoneidade para a urbanização. Fonte: McHarg ([1969], 1992)................85
FIII-2: Rosa Kliass, inventario dos aspectos da paisagem natural e urbana de São Luis de Maranhão. (Fragmento). Fonte: Kliass (2006)...........................85
FIII-4: Paola Vigano. Água e asfalto. As camadas de hidrologia, figura-fundo e redes de infraestrutura, revelam uma esponja isotrópica densa que
integra agricultura, indústria e áreas de residência. Fonte: Vigano (2008)................................................................................................................................86
FIII-5: Florian Beigel. A leitura e decomposição em camadas do sitio provê os materiais de projeto. Leichterfelde Sud, Plano de infraestrutura urbana, o
sítio e as arquiteturas. Fonte: Rosell (2001)...............................................................................................................................................................................86
FIII-6: Fragmento do Plano de Roma de Nolli, 1748. Uma das mais antigas descrições da cidade através de seus espaços públicos. Fonte: http://nolli.
uoregon.edu/..............................................................................................................................................................................................................................88
FIII-7: Central Park, o vazio que modela a cidade. Fonte: flirck................................................................................................................................................88
FIII-8: Frederick Olmsted. Plano do sistema de parques The Emerald Necklace, Boston.Fonte: www.emeralknecklace.org...................................................88
FIII-9: Rem Koolhaas. Projeto para a ville nouvelle de Melun-Senart. A garantia da qualidade do espaço urbano resulta de seus sistema de espaços
livres. Em vez de projetar sobre a paisagem, o projeto se deduz dela. A) Preexistências: florestas, povoados, autopistas e a linha de TGV. B) O novo
vazio desenhado para obter o máximo de situações diversas e complexas. C) O plano síntese. Fonte: Koolhaas (1995)......................................................90
FIII-10: Emscher Park. Sistema de corredores verdes regionais interliga os terrenos reciclados e conecta povoados existentes. Detalhe Duisburg Noord, um novo parque cultural integra as arquiteturas industriais. Projeto de Peter Latz and Partners. Fonte: www.landschaftspark.de..................................92
FIII-11: Rosa Kliass. Parque da Juventude, São Paulo. Fonte: Kliass (2006)...........................................................................................................................92
FIII-12: Michel Desvigne. Planta geral das intervenções paisagísticas propostas para a cidade de Cergy-Pontoise. Detalhe da proposta para a interfase .
com o rio Olsen. Fonte: Desvigne (2009)...................................................................................................................................................................................96
FIII-13: Parque do Flamengo, Rio de Janeiro. A criação de uma nova interface entre o mar e a cidade. Fonte: Instituto Moreira Salles................................97
FIII-14: Parque nas margens do Rio Gallego em Zuera, Espanha. Uma fronteira flutuante que incorpora os ritmos e variações da natureza. Arq. Iñaki
Alday. Fonte: Balcells (2002)......................................................................................................................................................................................................98
FIII-15: Field Operations. Projeto ganhador para Fresh Kills. O projeto concebido como matriz para processos. A estrutura da paisagem provê o suporte para que sementes, biota, pessoas e atividades possam colonizar o lugar no tempo. Fonte: www.nyc.gov.....................................................................100
FIII-16: Michel Desvigne. Naturezas intermédias. Projetos que permitem a ocupação flexível em situações de incerteza sobre a ocupação urbana.
Bordeaux, margem direita. O parque é criado à medida que os terrenos são liberados. Lyon, proposta para a confluência dos rios Rohane e Soane,
rejeita a ideia de um projeto totalizador e propõe um processo gradual de construção da cidade. Fonte: Desvigne (2009)..................................................103
FIII-17: François Xavier Mousquet. Projeto Lagunage de Harnes. Paisagens que incorporam serviços ambientais, a criação de novas ecologias e novos tipos de espaço público. Fonte: Arq. Mousquet................................................................................................................................................................104
FIV-1: Plano de fundação da cidade de S. Felipe de Santiago na ilha de Cuba. Arquivo Geral das Índias, M e P. Sto Domingo, 119. OrdeM e caos. A
regularidade da grelha inserida no meio da floresta desconhecida do novo mundo. Fonte: de Teran (1997).........................................................................109
FIV-2: The Naked City. Illustration de l’hipotèse des plaques tournantes de Guy Debord 1957. Decomposição cartográfica e a geografia alternativa da
deriva. Fonte : Vitruvius . .........................................................................................................................................................................................................109
FIV-3: Upside down map do artista uruguaio Joaquín Torres Garcia, desafiando as convenções cartográficas. “La escuela del sur”, foi um grupo de
artistas latinoamericanos que proclamaram o seu lugar num mundo dominado pela cultura ocidental. Fonte: Harmon (2004)............................................. 111
FIV-4: Los Angeles, Mario Gandelsonas. A escala colossal da grelha de uma milha, as montanhas e o oceano fazem o plano de Los Angeles compreensível. Fonte: Gandelsonas (1999)........................................................................................................................................................................................ 112
7
Introdução
FIV-5: Los Angeles, Mario Gandelsonas: As diferentes grelhas urbanas e o bulevar Wilshire como um quebra-cabeças sobre o plano “real” da cidade.
Fonte: Gandelsonas (1999)...................................................................................................................................................................................................... 113
FIV-6: Los Angeles, Mario Gandelsonas: Descrição tipológica das diferentes paisagens urbanas ao longo do bulevar. Fonte: Gandelsonas (1999)........... 113
FIV-7: Boston, Mario Gandelsonas. Num processo de decapagem (delayaring), o plano das ruas reais é abandonado e só os elementos estruturais
são descritos. Fonte: Gandelsonas (1999)............................................................................................................................................................................... 114
FIV- 8 e 9: Boston, Mario Gandelsonas. Uma outra decomposição do aparentemente caótico tecido urbano expõe as ruas radiais versus as ruas circunferenciais. A estrutura radio-concêntrica é a força que organiza os elementos urbanos de Boston. Fonte: Gandelsonas (1999).................................... 115
FIV-10: James Corner, The survey Landscape Accrued. As medidas da terra. A pesar da aplicação mecânica e repetitiva da divisão da terra, uma
grande variedade na paisagem tem evoluído no tempo. Fonte: Corner e MacLean (1996).................................................................................................... 116
FIV-11 e 12: James Corner, Long lots along the Mississippi River. Os rios se transformaram nas principais linhas de organização dos assentamentos.
Democrático e equitativo, cada habitante recebe uma porção igual de frente de rio com solo baixo aluvial, e terra alta onde se recolher durante as
inundações. Fonte: Corner e MacLean (1996)......................................................................................................................................................................... 117
FIV-13: James Corner, Nahavo Spring-Line Fields. As medidas de adaptação. Pequenos canais e barragens captam e distribuem a pouca água que se
infiltra de entre a escarpa de uma grande meseta. A água, cuidadosamente distribuída junto à parede do barranco que protege das geadas, permite o
crescimento de um jardim verde no deserto. Fonte: Corner e MacLean (1996)...................................................................................................................... 118
FIV- 14, 15 e 16: Alan Berger, Chicago. Indicadores entrópicos: geografia de espaços residuais. Gráfico de dispersão: afastandose do centro da cidade
duas claras depressões na densidade populacional podem ser medidas. Quadro axial: desde 1977 o condado central de Chicago perdeu mais de
4000 fábricas, o que representa 35%. O maior e sustetado crescimento fabril nesta região está localizado 30 a 50 milhas do centro da cidade. Fonte:
Berger (2006)...........................................................................................................................................................................................................................120
FIV-17, 18 e 19: Raoul Bunschoten. Linz, Quadro I The Echo Chamber com atores e agentes (letras) e lugares (números). Quadro II The Loom, e
Quadro III The Agora. Fonte: Bunschoten (2001)....................................................................................................................................................................122
FIV-20 e 21: Mathur e da Cunha. Triangulating. Milhares de tanques. No território de Bangalore os tanques são uma forma de vida. Discretas linhas de
montículos com comportas formam a paisagem. Mathur e da Cunha (2006)..........................................................................................................................126
FIV-22 e 23: Mathur e da Cunha. Botanizing. Rosqueadas em cordas, as flores têm uma segunda vida na cidade ao serem distribuídas em mercados,
templos, casas e ao redor da cidade nos cabelos das mulheres. Produzidas em hectares e vendidas por quilo, as flores são menos para serem apreciadas e mais para serem usadas em festivais e rituais. Fonte: Mathur e da Cunha (2006)...................................................................................................127
FV-1 e 2: A metropolização do espaço. Rio de Janeiro e São Paulo, sistema integrado de áreas metropolitanas. Fonte: Elaborado pelo autor sobre
base Google Maps...................................................................................................................................................................................................................132
FV-3: Recorte de estudo: Baixada Fluminense. Fonte: Autor..................................................................................................................................................135
FV-4: Evolução da região metropolitana de Rio de Janeiro. Fonte: Elaborado pelo autor sobre base da Fundação Cide.....................................................136
FV-5: Relevo. Contrastes. O plano enquadrado e os fundos montanhosos. A planície salpicada por colinas. Fonte: Elaborado pelo autor sobre a base
cartográfica da Fundação Cide................................................................................................................................................................................................139
FV-6: Condições ambientais. A paisagem foi –e continua sendo- modelada por processos de erosão e deposição. Fonte: Elaborado pelo autor sobre a
base cartográfica da Fundação Cide........................................................................................................................................................................................141
FV-7: Cobertura vegetal. Um mosaico heterogêneo. Fonte: Elaborado pelo autor sobre a base cartográfica da Fundação Cide..........................................143
FV-8: Hidrografia. Descendo com força das serras e inundando a planície até alcançar a Baía. O amplo sistema de rios que atravessa a Baixada Fluminense é um dos elementos da paisagem que mais fortemente marcaram a construção de sua identidade. Fonte: Elaborado pelo autor sobre a base
cartográfica da Fundação Cide................................................................................................................................................................................................145
FV-9: Infra-estrutura e urbanização. Um contínuo urbano seguindo os eixos principais de conexão a São Paulo e Petrópolis. Fonte: Elaborado pelo
autor sobre a base cartográfica da Fundação Cide.................................................................................................................................................................147
FV-10: Durante o século XVIII freguesias, portos e uns poucos caminhos se organizam em função do espaço fluvial. Mapa que compara as vantagens
de uma saída alternativa do caminho de Minas para a Baía da Guanabara. Fonte: Arquivo Nacional...................................................................................150
FV-11: Rios e Trilhos, a síntese do território nos finais do século XIX. Planta da Estrada de Ferro Rio d’ Ouro. 1897. Fonte: Arquivo Nacional...................152
FV-12: Comissão de Saneamento da Baixada Fluminense. Secagem dos brejais e canalização do rio da Prata. Fonte: Goes (1934).................................154
.
FV-13: A malha de infraestruturas nos começos de século XX. Mapa das estradas de rodagem Rio- São Paulo e Rio- Petrópolis. Fonte: Arquivo
Nacional....................................................................................................................................................................................................................................156
FV-14: Nova Iguaçu em 1940: “Capital da citricultura do Estado do Rio de Janeiro”. Fonte: Correio de Manhã, Arquivo Nacional.......................................159
FV-15: Bases cartográficas. Nova Iguassu. Serviço Geográfico e Histórico do Exército, 1:10.000, 1939. Fonte: Arquivo Nacional.......................................160
FV-16: Reconstituição da ocupação em 1940. Fonte: Elaborado pelo autor sobre a base cartográfica do Serviço Geográfico e Histórico do Exército........161
FV-17: Bases cartográficas. Nova Iguassu e Duque de Caxias. Fundrem, 1:10.000, 1975. Fonte: Fundação Cide...............................................................162
FV-18: Reconstituição da ocupação em 1975. Fonte: Elaborado pelo autor sobre a base cartográfica da Fundrem.............................................................163
8
Introdução
FV-19: Bases cartográficas. Fundação Cide Ortofoto. 1:10.000. Programa de Despoluição da Baía da Guanabara. Data do voo 2003. Fonte: Fundação.
Cide .........................................................................................................................................................................................................................................164
FV-20: Reconstituição da ocupação em 2003. Fonte: Elaborado pelo autor sobre a base cartográfica da Fundação Cide...................................................165
FV-21: Paisagem metropolitana. Vista da Baixada Fluminense desde a serra de Madureira.................................................................................................166
FVI-1: Relevo. O conjunto de morros baixos agrupados formando línguas entre os vales fluviais. Fonte: Elaborado pelo autor sobre a base cartográfica
da Fundação Cide....................................................................................................................................................................................................................169
FVI-2: Condições ambientais. Ao superpor as camadas das condições geológicas e da hidrografia os contrastes entre os leques fluviais e os grupos de
morros se reforçam. Fonte: Elaborado pelo autor sobre a base cartográfica da Fundação Cide............................................................................................170
FVI-3: As águas reclamam espaços de inundação. Áreas afetadas na grande enchente de 1988. Fonte: Elaborado pelo autor sobre a base cartográfica
da Fundação Cide e da COPPE, Laboratorio de Hidrologia UFRJ..........................................................................................................................................171
FVI-4: Um sistema integrado de infraestruturas duras (rodovias e ferrovias) e brandas (rios) forma a armadura de suporte do território. Como re-pensar
a relação entre elas nos futuros planes de expansão do sistema rodoviário? 1. Via Expressa Presidente João Goulart, 2. Via Expressa planejada ao
longo do rio Sarapuí, 3. Futuro Arco Rodoviário. Fonte: Elaborado pelo autor sobre a base cartográfica da Fundação Cide. . ............................................173
FVI-5: Footprint vazios. Fonte: Autor........................................................................................................................................................................................175
FVI-6: Espaços livres e relevo. Se a lógica rural se distinguia pela divisão entre morar a meia encosta do morro, deixando os vales livres para a produção agrícola, os usos urbanos alteraram esta lógica dando prioridade à ocupação dos vales –pela facilidade de deitar as infraestruturas- para depois
colonizar os morrotes de declividade suave. Fonte: Elaborado pelo autor sobre a base cartográfica da Fundação Cide......................................................176
FVI-7: Espaços livres e água. As várzeas e bordas de rios, a pesar de proteções legais, são vulneráveis à ocupação urbana. Fonte: Elaborado pelo
autor sobre a base cartográfica da Fundação Cide.................................................................................................................................................................177
FVI-8: Ocupações e resistências. Tecido compacto, os vazios que restam. Campos de futebol (Mesquita), pista de aeroporto (Nova Iguaçu). Tecido em
processo de consolidação, os vazios expectantes: áreas inundáveis (Belford Roxo), morros baixos (Queimados). Fonte: Serla (Inea)...............................178
FVI-9: Cheios e vazios. Amostras de tecido urbano. Fonte: Autor...........................................................................................................................................179
FVI-10: Inundações Belford Roxo 2009. Fonte: Divulgação Governo do Estado....................................................................................................................180
FVI-11: Pôlder do rio Outeiro, Belford Roxo. Forma elaborada / forma recebida (matriz). Fonte: Autor..................................................................................181
FVI-12: Comissão Federal de Saneamento da Baixada Fluminense.1a Seção Estudos. Bacia do Rio Sarapuhy. 1914. Fonte: Arquivo Nacional.................182
FVI-13: Ocupações informais nas margens do rio Sarapuí. Fonte: Serla (Inea)......................................................................................................................182
FVI-14: Rio Sarapuí, 2010. Transformações: Em vermelho, superposto o trajeto segundo o levantamento de 1914. Fonte: Autor .....................................183
FVI-15: Rio Sarapuí, 2010. Oportunidades. Espaços livres remanescentes nas margens do rio. Fonte: Autor......................................................................184
FVI-16: Barragem de Gericinó, Nilópolis. Fonte: Panoramio...................................................................................................................................................185
FVI-17: Interfaces urbanas com os dispositivos hidráulicos. Barragem Gericinó. Forma construída / forma recebida (matriz)..............................................186
FVI-18: Mangue degradado na Baía de Guanabara. Fonte: Moscatelli...................................................................................................................................187
FVI-19: Infraestruturas metropolitanas: BR-040. Fonte: Kamps (2003)...................................................................................................................................187
FVI-20: Interfaces urbanas com a Baía da Guanabara. Forma construída / forma recebida (matriz).....................................................................................188
FVI-21: Saibreiras abandonadas, Belford Roxo. Fonte: Katia Mansur.....................................................................................................................................189
FVI-22: Extrações, saibreira em atividade em Nova Iguaçu, na margem do rio Botas. Forma elaborada / forma recebida (matriz). Fonte: Autor.................190
FVI-23: Extrações. Canteira Nova Iguacu, areeiros Seropédica. Fonte: Google Maps...........................................................................................................191
FVI-24 e 25: Lixão de Gramacho na foz do rio Sarapuí. Fonte: Moscatelli / flirc.....................................................................................................................192
9
10
Introdução
Sumário
Introdução
12
PARTE I
01.Cidade contemporânea
Paradoxos contemporâneos: urbanização e capacidades contestadas O paradigma tecnológico ou o fim da cidade
A rede global ou a exclusão do local
O discurso genérico ou o fim da identidade
A forma da cidade contemporânea. Metrópoles, suburbanização e novas periferias O paradigma americano
A cidade difusa europeia
Megalópoles latino-americanas. Do padrão periférico à dispersão 17
19
19
21
23
24
26
27
29
31
02.Sobre o Projeto Urbano
36
O ressurgimento internacional do projeto urbano
38
Desde o Sul: a experiência latino-americana 39
Taxonomia do projeto urbano na cidade latino-americana. Panorama de uma prática local 41
Projeto urbano: uma experiência. 41
Renovação de centros históricos/ patrimônio: a cidade herdada 41
Espaço Público / Cidadania: a cidade da democracia
43
Equipamentos sociais: a cidade da equidade
45
Vazios urbanos: a cidade pós-industrial
48
Mobilidade: a cidade dos fluxos
52
Urbanização de assentamentos informais: a não-cidade
55
Projeto urbano: o desafio da metrópole
58
Cidade fora, cidade dentro
67
03.Projeto Urbano na metrópole: a alternativa da paisagem
Urbanismo e paisagismo: sobreposições
A abordagem paisagística Paisagem e cidade contemporânea
69
70
71
71
11
Introdução
A natureza da cidade
A questão ambiental
Urbanismo e ecologia
A questão operacional. Quatro categorias para a abordagem paisagística
Camadas: revelar o lugar. Ou como desconstruir a complexidade do território urbanizado
Espaços livres: a armadura da cidade
Ou de como abordar a situação dispersa e fragmentada. Fronteiras: o espaço das trocas
Ou de como trabalhar entre cidade e natureza
Processos: trabalhando no tempo
Ou como criar as condições para o futuro
75
78
80
84
84
89
95
101
04.Sobre os mapas
Mapas. Para além da representação
X-urbanismo e o texto urbano As medidas da paisagem Drosscape. As paisagens residuais
Urban Flotsam: agitando a cidade
Deccan Traverses
Descrever, revelar, uma forma de entender
107
111
111
115
119
122
126
128
PARTE II
05.Rio de Janeiro: Explorações no subúrbio fluminense
Rio de Janeiro Metrópole
Baixada Fluminense, um recorte
A forma recebida
Relevo
Condições ambientais
Cobertura vegetal
Hidrologia
Infraestrutura e urbanização
A paisagem elaborada
De fluvio-vias, ferro-vias e rodo-vias
Do engenho ao subúrbio: a ocupação do solo na Baixada Fluminense
131
131
134
137
137
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144
146
149
150
157
06.A síntese, paisagem, matriz para urbanismo
Infraestruturas “duras” versus infraestruturas “brandas”. Camadas
Ocupações e resistências. O desvanecimento das áreas livres
Diques, barragens e pôlderes. Fronteiras da água
Extração e deposição, a geografia mutante da Baixada. Processos
167
167
174
180
191
07. Considerações finais
194
Referências
198
12
Introdução
Introdução
A expansão rápida e sem limites das metrópoles latino-americanas é um fenômeno
bem conhecido. No entanto, as grandes áreas espalhadas dos chamados subúrbios
não têm recebido outra descrição senão aquela que as define segundo as deficiências em comparação com a cidade central consolidada. Reconhecido como um território caótico, desmembrado, sem estrutura nem qualidade, o espaço metropolitano
é hoje um espaço dinâmico em permanente transformação, porém só considerado
pelas suas carências.
Este trabalho procura colaborar para uma outra leitura do espaço metropolitano, uma
leitura que possa entender a sua especificidade territorial e espacial e permita formular um outro projeto urbano. A paisagem será a lente através da qual abordar a
complexidade espacial e as cartografias o instrumento para compreender a forma,
a identidade e os processos que atravessam o território. O trabalho propõe estudar
a relação dialética entre “espaço recebido” –a identidade natural- e “espaço construído” – a forma elaborada- (McHarg, 2000 [1969]) e desemaranhar as lógicas que
formaram (e continuam formando) a paisagem, analisar a racionalidade e as contradições dos processos que a constroem.
Parte-se da hipótese que a paisagem - algoritmo socioecológico que reflete, seja
a intangibilidade da matriz biofísica, seja o tipo e grau das transformações que tem
experimentado por efeito da ação humana1- tem a capacidade de outorgar uma racionalidade ao espaço metropolitano. Uma racionalidade que possa ser o marco, a
guia para um projeto urbano renovado para a metrópole.
As novas práticas que caracterizaram o urbanismo no final do século XX se distinguiram pela atenção dada –pelo menos nas cidades latino-americanas- ao espaço
1_As diferentes abordagens sobre
a definição do termo paisagem e
os discursos em relação ao par
cidade-natureza serão discutidos
no capitulo 3. Tomamos emprestada para o avanço do trabalho a
definição de paisagem de Ramon
Folch: Área tal como la perciben los
humanos, cuyo carácter resulta de
la acción e interacción de factores
naturales y antrópicos. Como
sujeto universal, es el aspecto del
territorio, un algoritmo sociológico
que refleja bien sea la intangibilidad
de la matriz biofísica, bien sea el
tipo y grado de las transformaciones que ha experimentado por
efecto de la acción humana. Como
entidad territorial concreta, es un
mosaico en el que varios conjuntos
de ecosistemas locales, o elementos paisajísticos, se reiteran, reflejos de sí mismos, en una escala de
orden kilométrica. . Folch, Ramón,
ed. (2003), El territorio como sistema. Conceptos y herramientas de
ordenación, Barcelona, Diputación
Barcelona, p. 285
13
Introdução
centro. Renovação de centros históricos, requalificação do espaço público, reincorporação de vazios urbanos, urbanização de assentamentos informais, entre outras,
foram empresas iniciadas pelos poderes locais, muitas vezes com participação do
capital privado.
No livro “Sobre Urbanismo” (Pinheiro Machado, 2006), Nuno Portas reflete sobre
a experiência do projeto urbano, tanto no contexto europeu como em países ditos
periféricos, e discute os novos desafios de pesquisa e projeto. Coloca a questão da
escala e abrangência dos projetos experimentados até o momento, diferenciando entre uma primeira fase, nos anos 80-90, onde predominam as intervenções com foco
no espaço público e na regeneração dos tecidos existentes, contra uma geração de
projetos mais recentes, de maior dimensão e ambição programática, integrando programas de acessibilidade, ambientais e paisagísticos de grande extensão. Enquanto
a primeira geração de projetos funciona como alavanca para novas atividades produtivas, de cultura e lazer, a segunda, atravessada por demandas de sustentabilidade,
busca integrar as urbanizações e os vazios que erraticamente foram se misturando
com áreas industriais e infraestruturas de mobilidade e logística nas áreas metropolitanas. Portas reclama a ausência de pesquisa e avaliação de projetos deste último
tipo, tanto na América Latina como em Portugal, projetos que possam recuperar as
espalhadas periferias, marcadas por conflitos ambientais e carências sociais, de infraestrutura e de transporte [...], cuja prioridade social, mas também econômica parecem indiscutíveis e, em termos de custos públicos, provavelmente tão exequíveis
quanto os de maior visibilidade externa (Portas, 2006:63).
Na América Latina, depois do fracasso do planejamento normativo que caracterizou
os anos 70, não voltaram a ocorrer programas de coordenação das ações e projetos
de escala metropolitana. A herança dos últimos governos militares não logrou controlar a crescente expansão dos tecidos informais nas periferias, mas deixou marcas importantes com o desenvolvimento de infraestruturas de transporte de grande
impacto. A democratização advogou pela descentralização conferindo primazia aos
municípios nas decisões e ações sobre a cidade, privilegiando intervenções pontuais
voltadas para o interior.
Mas a renovação do projeto urbano para o espaço metropolitano não significa apenas
um câmbio de escala ou a necessidade de coordenação de ações intermunicipais2.
O pensamento sobre o urbano, portanto sobre o projeto, exige uma reflexão sobre
a especificidade do território metropolitano. A gênese deste espaço e as particulares
transformações que vem sofrendo suscitam questões em relação às ferramentas e
2_ Um projeto metropolitano não
necessariamente equivale a um
projeto de grande escala. O projeto
deve também compreender intervenções menores locais. Partimos
da hipótese que um projeto metropolitano articula diferentes escalas
como ferramentas de investigação
e desenho.
Introdução
métodos de desenho urbano como foi entendido até hoje. A pergunta que norteia
esta tese se articula em função do reconhecimento desta especificidade. Que tipo de
projeto para esta nova realidade urbana?
Enquanto abundam as pesquisas com base em dados sociais, sabemos muito pouco
sobre a materialidade metropolitana. Os discursos acadêmicos sobre a metrópole se
debruçam ora sobre a exclusão e fragmentação social que caracterizam as cidades
latino-americanas, ora sobre os efeitos da globalização e suas novas manifestações
no território - os chamados aparatos da globalização (shoppings, complexos de escritório e bairros fechados) (De Mattos, 2004). A inexistência de uma pesquisa voltada
para a compreensão de sua espacialidade integrada e de formulação de um projeto
possível revela um vazio que esta investigação pretende explorar.
A leitura do espaço metropolitano a partir de uma abordagem paisagística não pretende ser setorial nem evadir a complexidade social e política própria às metrópoles latino-americanas. Oferece-se como uma alternativa que venha enriquecer e
complementar as abundantes investigações focadas no conflito e na fratura social.
Diferencia-se no sentido de ser propositiva e de salientar não só as deficiências, mas
principalmente as potencialidades.
Escolheu-se para trabalhar uma porção da área metropolitana do Rio de Janeiro.
Trata-se do território da Baixada Fluminense, uma região ao norte da capital que se
espalha entre uma hidrologicamente frágil planície de inundação e pequenos morros.
Território rural durante o século XIX, a Baixada cresceu exponencialmente com a
expansão do Rio de Janeiro na segunda metade do século XX, sendo uma área de
grandes carências sociais e conflitos ambientais. Algumas transformações em curso
e investimentos planejados trazem novos desafios a este território urbano.
Metodologicamente o trabalho se aproxima da complexidade do território metropolitano através de uma pesquisa cartográfica. Descrição, representação e projeção são
entendidas como operações dialeticamente relacionadas. Os mapas são concebidos
como ferramentas para decompor o território e torná-lo legível. Eles se constituem
em instrumentos reveladores de projetos possíveis, sendo a descrição mediadora
entre o espaço substrato –o mileu mesmo- e o espaço projeto.
Para o seu desenvolvimento utilizaram-se uma variedade de fontes e recursos. Visitas a campo, percursos a pé, em trem ou de carro buscaram combinar as percepções
“desde baixo” com as “visões panópticas” oferecidas pelas imagens aéreas e os
14
Introdução
mapas tradicionais. As pesquisas históricas de relatos, iconografias e cartografias
permitiram revelar as forças envolvidas na construção do território no tempo.
O trabalho se organiza em sete capítulos, agrupados em duas partes. A primeira
concentra as discussões teóricas e metodológicas enquanto a segunda –predominantemente gráfica- traz o estudo de caso.
O primeiro capítulo apresenta a constelação de ideias em torno da cidade contemporânea e a chamada crise urbana, as dificuldades para pensá-la e interpretá-la. Discute as expressões formais da cidade contemporânea, comparando a cidade difusa
europeia e edge-cities norte-americanas com as megalópoles latino-americanas.
O segundo capítulo reflete sobre o mundo da ação tecendo um panorama do urbanismo contemporâneo como prática. Parte de uma visão retrospectiva -como tem se
desenvolvido recentemente- para uma análise prospectiva -quais os desafios por enfrentar. Através da descrição de casos, explora a experiência recente no âmbito das
intervenções urbanas nas cidades latino-americanas. Busca determinar as famílias
de projetos, os temas que abordaram os programas dominantes e os locais e escalas
de intervenção para, em seguida, discutir os desafios da metrópole.
O terceiro capítulo examina a capacidade da abordagem paisagística como alternativa na hora de pensar o projeto urbanístico fora da cidade central consolidada, no espaço desarticulado da periferia metropolitana. Discutem-se os fundamentos teóricometodológicos que dão sentido a esta hipótese. Procura-se entender as condições
nas quais esta abordagem surge, as contribuições de outras disciplinas e destilar,
através de alguns exemplos, o seu vocabulário. Como resultado quatro categorias
são propostas como dispositivos operacionais. Camadas, ou como desemaranhar a
complexidade do território urbanizado, supõe decompor o território em capas, isolálas, perceber a lógica da cada uma em particular e em relação com outras camadas.
Vazios aponta para os espaços não construídos e explora o potencial das áreas livres para conferir inteligibilidade à cidade dispersa e fragmentada. Fronteiras implica
resgatar os espaços de mediação entre cidade e natureza. Por último, Processos
objetiva instaurar uma visão do lugar e do projeto como processos mais do que como
objetos, trabalhando no tempo e criando as condições para o futuro.
O quarto capítulo versa sobre aspectos metodológicos que ligam a paisagem a processos de descrição do território. Este capítulo se propõe investigar como é que
descrição, representação e projeção estão dialeticamente relacionadas; e portanto
como, através da construção e deconstrução de novas cartografias, poderemos en-
15
Introdução
tender, descobrir, desemaranhar as lógicas que dão forma ao território. Intentaremos,
também, demonstrar como essa descoberta contida no processo mesmo de mapeamento pode revelar a chave de intervenção nele e englobar a possibilidade de um
outro projeto urbano.
Na segunda parte, e sobre a base dos pressupostos teóricos tratados anteriormente,
é desenvolvida a pesquisa cartográfica. Antes que impor um projeto idealizado desde o topo, o mapeamento visa encontrar e desvelar as forças latentes e complexas
do território. O mapa é utilizado como meio de “encontrar” e depois “fundar” novos
projetos, efetivamente, retrabalhando o que já existe (Corner, 2002). Várias escalas
são exploradas, cada uma revelando coisas diferentes, ao mesmo tempo em que
vinculadas entre si.
No capítulo cinco o foco centra-se na relação dialética entre a matriz biofísica, o
suporte ou campo, -o que McHarg chama de espaço “recebido”- e as transformações
sofridas no tempo –o espaço construído. São estudadas as condições físicas (relevo,
hidrografia, geologia, cobertura vegetal, etc.) superpostas e inter-relacionadas com
as ações do homem. Dois aspectos são destacados: as infraestruturas que serviram
de ossatura ao território e a mudança dos usos que modificaram a paisagem no tempo. Os mapas históricos são entendidos como dispositivos que revelam uma forma
específica de visão e de representação do território e uma ferramenta de pesquisa.
O sexto capítulo aplica as categorias operacionais discutidas no capitulo três como
filtros para explorar as possibilidades de uma abordagem paisagística na formulação
de um projeto urbano para a periferia metropolitana. Um conjunto de amostras de
tecido evidencia situações específicas nas quais as mediações entre a matriz biofísica e o tecido construído adquirem expressões particulares. As perguntas levantadas
convidam a repensar a construção do território sob uma outra racionalidade, que
surge da lógica da paisagem.
O último capítulo, reservado às conclusões, faz uma síntese dos temas tratados e
reflete sobre as respostas encontradas para as hipóteses colocadas no início. O trabalho não pretende propor um projeto, mas sim demonstrar a sua possibilidade, abrir
caminho para a agenda de um novo tipo de projeto urbano para a metrópole.
16
17
Cidade contemporânea
PARTE I
18
Cidade contemporânea
“Para el que mira sin ver, la tierra es tierra nomás”
Atahualpa Yupanqui
19
Cidade contemporânea
01.Cidade contemporânea
Este primeiro capítulo busca inserir a tese no contexto das discussões teóricas em torno da cidade
contemporânea. Serão discutidos os processos que contestam a forma como a cidade é apreendida,
conceitualizada e representada, e os resultados e efeitos concretos destes processos novos nas configurações urbanas.
Paradoxos contemporâneos: urbanização e capacidades contestadas
Vivemos num mundo cada vez mais urbano, o século que acaba de terminar foi o
grande século da urbanização. No seu início existiam no planeta apenas 16 cidades
que alcançavam um milhão de habitantes, 7% da população mundial era considerada
urbana. Hoje, mais de 500 cidades superam um milhão (um número que está constantemente mudando) e quase a metade da população do planeta vive em zonas
urbanas (Harvey, 2002).
O processo não tem sido homogêneo, nem temporal nem geograficamente. Na verdade, foi na segunda metade do século, e mais especialmente nos últimos três decênios que os processos de urbanização e as mudanças se aceleraram marcadamente.
Se, até 1950, os maiores conjuntos urbanos se encontravam no mundo chamado
“desenvolvido”; sendo Londres e Nova York as únicas metrópoles que alcançavam
os oito milhões de habitantes; hoje o booming das megalópoles e os mais chamativos
fenômenos urbanos acontecem mormente em países pobres ou em vias de desenvolvimento (Boeri, 2000).
Paradoxalmente, enquanto o planeta se urbaniza, a própria cidade como artefato
e como ideia parece cada vez mais difícil de ser apreendida. As transformações
têm se produzido de uma forma e a uma velocidade nunca antes vistas, a ponto de
colocar em crise o poder de intervenção de arquitetos e urbanistas.
Rem Koolhaas, um dos mais provocadores arquitetos contemporâneos, não sem
pouco pessimismo, assinala frente ao rápido crescimento das cidades asiáticas:
20
Cidade contemporânea
The absence, on the one hand, of plausible, universal doctrines,
and the presence, on the other, of an unprecedented intensity of
new production, create a unique wrenching condition: the urban
condition seems to be least understood at the moment of of its very
apotheosis (Koolhaas, 2001:27)1.
Mutações: novas metáforas, novas leituras do espaço urbano
Os instrumentos analíticos e descritivos tradicionais se tornam obsoletos frente a
uma realidade urbana sem precedentes na história da cidade. As antigas metáforas
que serviam para compreender e concebê-la, como a metáfora do corpo humano ou
a da cidade como máquina, derivadas de uma racionalidade euclidiana, já não são
capazes de abranger e explicar a complexidade da “cidade” contemporânea (Améndola, 2000). Emprestados das ciências naturais, da física e das teorias mais recentes
em torno do “caos”, conceitos como fractais, entropia, fluxos, entre outros, são trasladados ao âmbito urbano outorgando uma racionalidade diferente às transformações
de uma paisagem que já não se concebe como unitária senão como um arquipélago
de fragmentos sem ordem aparente (Garcia Vázques, 2004).
Porém, a crise da representação, e portanto da projeção da cidade, denota mudanças
não só na estrutura física dela, mas fundamentalmente uma mudança cultural que
está relacionada com o modo de olhar e projetar os valores que uma sociedade estabelece num determinado momento histórico 2. Complexidade, conflito, multiplicidade
e diversidade são hoje conceitos resgatados e valorizados no espaço urbano em
oposição ao paradigma moderno de um habitat universal, controlado e homogêneo.
Em oposição à ideia dos urbanistas da primeira metade do século XX , a cidade atual
é concebida como ingovernável. Têm-se abandonado os projetos totalizadores e de
plena confiança na racionalidade técnica da planificação que previa o controle e a
transformação da cidade no longo prazo. Os câmbios são súbitos, a cidade parece se
metamorfosear para além de nossa capacidade de controlá-la. A condição mutável
se transforma em sua própria identidade.
En una situación de continua construcción y destrucción, de permanente crecimiento y renovación, de mutación y obsolescencia
la condición casual imprevisible de la ciudad se convierte en su
verdadero modo de exposición. La ciudad actual se apropia de
su energía pero también de sus conflictos sociales, geológicos
y ambientales, aceptando con fatalismo convivir con ellos. (Sola
Morales, 2002:157)3.
1_A ausência, por um lado, de
doutrinas plausíveis e universais,
e a presença por outro, de uma
intensidade de produção sem precedentes, têm criado uma condição
única e chave: o fenômeno urbano
parece ser cada vez menos compreendido à medida que atinge a
sua apoteose. (Tradução do autor)
2_ Segundo Ignasi de Sola Morales, a percepção é um fenômeno
cultural, portanto a representação
está ligada aos valores culturais de
uma sociedade.
3_Em uma situação de contínua
construção, destruição, de permanente crescimento e renovação, de
mutação e obsolescência a condição casual, imprevisível da cidade
se converte em seu verdadeiro
modo de exposição. A cidade atual
se apropria de sua energia, de
seus conflitos sociais, geológicos e
ambientais aceitando com fatalismo
conviver com eles. (Tradução do
autor)
Cidade contemporânea
Cidade global, cidade difusa, cidade em rede, cidade dual, cidade fractal, cidade
genérica são algumas das categorias que mostram a heterogeneidade das teorias
que tentam explicar as novas configurações espaciais e sociais do espaço que habitamos. A diversidade de interpretações retrata a ausência de um metarrelato unificado, substituído por uma possível coexistência de interpretações diferentes sobre
o fenômeno urbano.
Não obstante, apesar da diversidade de neologismos para denominar a cidade do
século XXI, a maioria dos autores contemporâneos parecem coincidir quando apontam os processos ligados à chamada “globalização” como fatores determinantes das
mudanças no espaço urbano e no território. Estes processos, que não são novos,
estariam acontecendo de uma nova maneira fundamentalmente por duas causas
principais: a) o desenvolvimento de novas tecnologias de comunicação, b) a liberalização dos mercados e financeirização da economia mundial.
O paradigma tecnológico ou o fim da cidade
As maiores ondas de inovação que vêm transformando o mundo desde o século XVI
têm ocorrido ao redor de revoluções nos transportes e nas comunicações (Harvey,
2002). Não é de surpreender que os grandes câmbios que estamos experimentando
no seio da sociedade e na sua expressão no espaço e no território estejam vinculados aos avanços nas tecnologias de comunicação. Elas transformaram radicalmente
a relação entre tempo e espaço.
Além das posturas, das denominações e discussões a respeito da modernidade/
pós-modernidade, o certo é que muitos autores reconhecem que é esta mutação na
relação entre tempo e espaço que notadamente caracteriza o momento que atravessamos. Zigmunt Bauman encontra na metáfora dos fluidos a via para descrever
a natureza leve da modernidade presente, onde evidenciamos uma supremacia do
tempo em detrimento do espaço.
Segundo o autor, a modernidade é o tempo em que o tempo não tem história. Ela se
instala quando espaço e tempo são separados e teorizados como categorias diferentes e independentes. Na pré-história do tempo, longe e tarde, perto e cedo significavam o mesmo, havia uma correspondência entre tempo e espaço determinada pelo
wetware, a força dos músculos do homem ou os animais para percorrer distâncias.
Continuando seu raciocínio, ele diz que a história do tempo principia quando o homem cria os dispositivos mecânicos que permitem manipulá-lo. A velocidade do movimento através do espaço transforma-se numa questão de hardware que o engenho
21
22
Cidade contemporânea
e a capacidade humana podem superar. A partir desse momento o tempo moderno
se converte na arma de conquista do espaço. No par espaço-tempo, o espaço é o
componente sólido, estável e defensivo, enquanto o tempo é o lado dinâmico, ativo
e ofensivo. Na era da modernidade pesada, da conquista territorial, maior é melhor,
tamanho é poder, volume é êxito.
De acordo com Bauman o que está acontecendo neste momento é que o esforço
para acelerar a velocidade do movimento chegou a seu limite natural: o tempo se
reduziu à instantaneidade. No universo do software, da viagem à velocidade da luz, o
espaço pode ser atravessado em tempo nenhum. A quase instantaneidade do tempo
anuncia a desvalorização do espaço. Agora é o menor, o mais leve e mais portátil que
representam melhoria e progresso (Bauman, 2001).
A crescente mobilidade, em combinação com o desenvolvimento das tecnologias
de comunicação, anuncia para alguns a morte da cidade. A possibilidade de estar
“conectado” em tempo real com qualquer lugar do planeta cancela, em teoria, a dependência entre o sujeito, as atividades e a especificidade do lugar. Trata-se da desvalorização do espaço assinalada por Bauman. Já não importa a localização senão
a conexão. A interconectividade entre os lugares modifica os padrões espaciais de
comportamento em uma rede fluida de intercâmbios que constitui a base para o surgimento de um novo espaço, o espaço de fluxos.
O desenvolvimento de novas tecnologias de comunicação tem gerado mudanças
importantes em nossas atividades cotidianas, em nossa relação com o trabalho, o
entretenimento, o consumo, o intercâmbio social.
Entretanto, como vem sendo demonstrado pelas pesquisas de autores como Castells, as relações entre tecnologia, espaço e sociedade são muito mais complexas
e escapam aos determinismos tecnológicos. As profecias do fim da cidade não têm
se cumprido, pelo contrário, intercâmbios mais intensos e a maior mobilidade têm
forçado a singularidade dos espaços fixos:
pois locais de trabalho, escolas, complexos médicos, postos de
atendimento ao consumidor, áreas recreativas, ruas comerciais,
shopping centers, estádios de esportes e parques ainda existem
e continuarão existindo. E as pessoas deslocar-se-ão entre todos
esses lugares com mobilidade crescente, exatamente devido a
flexibilidade recém conquistada pelos sistemas de trabalho e integração social em redes: como o tempo fica mais flexível os lugares
23
Cidade contemporânea
tornam-se mais singulares à medida que as pessoas circulam entre
eles em um padrão cada vez mais móvel (Castells, 2002:487).
Isto não significa, porém, que as cidades não tenham mudado sua configuração. Elas
estão testemunhando transformações na estrutura física e em seu funcionamento,
sobretudo nas formas de relacionamento entre cidades conectadas globalmente em
novas redes.
A rede global ou a exclusão do local
Dispersão/centralização, territorialização/desterritorialização. Se, por um lado, as novas tecnologias e a mundialização da economia anunciam a quebra das barreiras
espaciais para dar lugar à dispersão territorial das funções de produção e consumo
da indústria e de serviços, ao mesmo tempo isto só acontece através do estabelecimento de lugares fixos.
As novas tecnologias de produção modificam a lógica de localização da indústria
e facultam a sua distribuição geográfica segundo a conveniência econômica ou as
capacidades da mão de obra de seus componentes produtivos. Mesmo assim, as
funções de comando são realizadas desde poucas cidades que concentram o poder.
Essas cidades, que Saskia Sassen (Sassen, 1999) denomina cidades globais, se
distinguem por abrigar as atividades terciárias de alto padrão, corporações e bancos
internacionais, como também uma ampla gama de serviços avançados: assessoramento legal e financeiro, inovação, desenvolvimento, desenho, administração, tecnologia de produção, transportes, comunicações, seguridade, publicidade, marketing,
etc. Ao mesmo tempo, elas oferecem também os equipamentos culturais, de ócio e
de consumo para um grupo exigente de elites gerenciais.
Uma nova configuração espacial mundial estaria definida assim por um sistema de
cidades globais, onde os centros de comando estão vinculados entre si por redes de
comunicação e transporte (hubs and networks).
Contudo, como toda inovação, os processos globais de modernização são também
destrutivos, e a conectividade com a rede global parece acontecer de mãos dadas
com a exclusão do local e a dualização social.
Esta parece ser a peculiaridade que distingue as megacidades como nova configuração urbana da globalização. Elas concentram altos níveis de segregação e exclusão.
Como assinala Castells, o mais significativo é que elas estão conectadas externa-
24
Cidade contemporânea
mente a redes globais, embora internamente desconectadas das populações locais
(Castells 2002).
Cidade dual é o termo criado para descrever essa polarização social crescente na
metrópole contemporânea. Alguns autores (Castells, 1995; Sassen, 2000) reconhecem esta característica como resultante das mudanças nas estruturas laborais. Por
um lado, a deterioração do emprego, a ausência de segurança laboral, o trabalho em
tempo parcial, subcontratado e informal. Por outro, a demanda por profissionais altamente qualificados, remunerados pelas companhias multinacionais (white collar), e
de um setor de serviços de salário baixo, coberto pelas camadas sociais mais pobres
e marginais. Nesse sentido esta dependência parece indicar que a declividade social,
de um indicativo da deterioração, passou a um complemento do desenvolvimento
(Garcia Vazquez, 2004).
Outros autores consideram que a evolução é para uma cena mais complexa e fragmentada que a do esquema bipolar da dualização, e identificam a grande metrópole
pós-fordista como uma cidade fractal ou como uma cidade organizada em múltiplos
planos, superpostos no tempo e no espaço (layered city, hypercity) 4.
A tendência predominante é para um horizonte de espaço de fluxos
a-histórico em rede, visando sua lógica nos lugares segmentados
e espalhados, cada vez menos relacionados uns com os outros,
cada vez menos capazes de compartilhar códigos culturais. A menos que, deliberadamente, se construam pontes culturais, políticas
e físicas entre essas duas formas de espaço, poderemos estar
rumando para a vida em universos paralelos cujos tempos não
conseguem encontrar-se porque são trabalhados em diferentes
dimensões de um hiperespaço social (Castells, 2002:518).
O discurso genérico ou o fim da identidade
Outra das mudanças que estão atravessando as cidades diz respeito à homogeneização da paisagem urbana. Ao mesmo tempo em que as cidades intensificam seus
intercâmbios globais e as empresas multinacionais se instalam nelas, as arquiteturas
e as paisagens urbanas tornam-se cada vez mais iguais: shopping malls, torres de
oficinas anódinas, infraestruturas, vivendas parecem tiradas de um catálogo global
da cidade pós-moderna.
Marc Augé definiu uma nova categoria para se referir a esses lugares carentes de
identidade e história que se repetem indistintamente no contexto. Denomina-os “nãolugares”:
4_ Mattos (2002) resume assim as
teorias de Edward Soja e Marcuse
e Van Kempen.
25
Cidade contemporânea
El no-lugar es un espacio sin carácter, sin relación y sin historia, es
la negación del lugar antropológico tradicional. Los hospitales, los
aeropuertos, las autopistas, los hoteles, los medios de transporte,
etc., en todos estos espacios característicos de la ciudad contemporánea prima el anonimato, la soledad, lo efímero, en todos ellos
el relato histórico es inviable, ya que su esencia es el desarraigo.
(Augé apud Garcia Vazques, 2004:197)5.
Esta se afigura uma realidade que acontece em tal escala, que para alguns autores
significa não mais um problema, mas uma liberação do “corselete” da identidade.
Rem Koolhaas tem provocativamente invertido as preocupações do urbanismo com
a busca do sentido do lugar e a relação com a história. Fazendo quase uma apologia
do pragmatismo com que a cidade contemporânea é construída, celebra a cidade
genérica que surge da nova tabula rasa:
La Ciudad Genérica es la ciudad liberada de la cautividad del centro, del corsé de la identidad. La Ciudad Genérica rompe con ese
ciclo destructivo de la dependencia: no es más que un reflejo de la
necesidad actual y la capacidad actual. Es la ciudad sin historia. Es
suficientemente grande para todo el mundo. Es fácil. No necesita
mantenimiento. Si se queda demasiado pequeña, simplemente
se expande. Si se queda vieja, simplemente se autodestruye y se
renueva. Es igual de emocionante –o poco emocionante- en todas
partes. Es superficial: al igual que un estudio de Hollywood, puede
producir una nueva identidad cada lunes por la mañana (Koolhaas,
2006:12)6.
5_O não-lugar é um espaço sem
caráter, sem relação e sem história,
é a negação do lugar antropológico
tradicional. Hospitais, aeroportos,
autopistas, hotéis, meios de
transporte, etc., em todos esses
espaços característicos da cidade
contemporânea prima o anonimato,
a solidão, o efêmero, em todos
eles o relato histórico é inviável já
que sua essência é o desarraigo.
(Tradução do autor)
6_A Cidade Genérica é a cidade
liberada do cativeiro do centro, da
camisa-de-força da identidade. A
Cidade Genérica quebra com esse
ciclo destrutivo de dependência:
ela não é nada além de um reflexo
da necessidade e capacidade
presentes. É a cidade sem historia.
É suficientemente grande para
tudo mundo. É fácil. Não necessita
manutenção. Se ficar demasiado
pequena, simplesmente se expande. Se ficar velha, simplesmente
se autodestrói e se renova. É igualmente estimulante e desestimulante em qualquer lugar. É ‘superficial’
– como um estúdio hollywoodiano,
pode produzir uma nova identidade
a cada manhã de segunda-feira.
(Tradução do autor)
26
Cidade contemporânea
A forma da cidade contemporânea. Metrópoles, suburbanização e novas
periferias
Mas qual é a forma dessa cidade emergente que funciona conectada globalmente
em rede e onde a velocidade dos câmbios parece ser a constante? Quais as características da nova forma urbana?
A mesma dialética de centralização/dispersão que observamos na dinâmica global
está presente nos processos contemporâneos que definem a morfologia da metrópole. A passagem para uma economia pós-fordista, mudanças drásticas na produção
industrial e nas relações comerciais, intensificação dos mercados internacionais, e
em termos gerais o que tem se chamado de “globalização”, têm se associado às
transformações espaciais da cidade contemporânea. A crescente mobilidade individual e o desenvolvimento de tecnologias de comunicação puseram em xeque o
conceito de cidade compacta. O resultado é a emergência de novas configurações
territoriais determinadas pela extensão de um tecido difuso onde já não é possível
diferenciar campo de cidade.
O modelo parece apontar a consolidação de uma cidade difusa, policêntrica. A
clássica divisão entre centro/periferia não representa mais a realidade espacial. A
cidade contemporânea já não tem um centro, mas múltiplos centros espalhados num
sistema reticular e não- hierárquico.
Fenómenos de desterritorialización combinados con potentes
sistemas de flujos forman una estructura espacial inédita en las
formas urbanas anteriores. La metrópoli se extiende en galaxias
difusas que habrá que considerar en función del tipo de relaciones
que queremos detectar. No hay centro sino multiplicidad de centros. No hay zonificación de funciones sino, a menudo, una alta
especialización funcional combinada con una permanente mixtura
de actividades. Los espacios de conexión, vías, transporte, puntos
de intercambio e intercambio telemático son, en cierto sentido, los
verdaderos soportes de la identidad metropolitana (Sola Morales,
2002:71)7.
Ignasi de Sola Morales talvez seja um dos teóricos que mais tem trazido aportes para
uma compreensão da cidade contemporânea sem cair em nostalgias historicistas ou
apologias do caos. Em Presente y futuros. Arquitectura en la ciudad8, um texto que
se transformou em um clássico da cultura arquitetônica, procura ordenar e sintetizar
os rasgos essenciais da nova situação urbana através de cinco conceitos. Mutações,
fluxos, habitações, contêineres e terrain vague são as categorias arquitetônicas,
7_Fenômenos de desterritorialização combinados com potentes
sistemas de fluxos formam uma
estrutura espacial inédita nas
formas urbanas anteriores. A
metrópole se estende em galáxias
difusas que terá que considerar
em função do tipo de relações que
queremos detectar. Não há centro,
mas multiplicidade de centros. Não
há zonificação de funções mas
muitas vezes uma alta especialização funcional combinada com uma
permanente mistura de atividades.
Os espaços de conexão, vias,
transporte, pontos de intercâmbio
e intercâmbio telemático são os
verdadeiros suportes da identidade
metropolitana. (Tradução do autor)
8_ Foi o texto oficial em torno do
qual foi organizado o Congresso da
UIA, União Internacional de Arquitetos, em Barcelona em 1996.
27
Cidade contemporânea
mas também culturais propostas para explorar a nova cena urbana. São concebidas
como plataformas desde as quais ver, entender, problematizar e julgar a complexa
rede de inteirações no interior da qual a arquitetura tem que encontrar seu lugar e
capacidade.
Todas as categorias enunciadas revelam princípios da mudança dos paradigmas modernos, processos demasiado evidentes, de acordo com Morales, para voltar a vista
atrás: da transformação evolutiva do planejamento para a mutação repentina; da
visão funcionalista do movimento para os fluxos como substância mesma do projeto;
da residência como preocupação pública para a despreocupação pela residência; do
existenzminimum para os novos templos de rituais de consumo; do museu para a
ausência e a indefinição como experiência da memória.
Para o crítico catalão, aeroportos, malls comerciais, áreas esportivas, parques temáticos, centros de intercâmbio de transporte, centros de negócios, etc. são os novos
geradores de atividade urbana, em torno dos quais a forma da cidade parece fazerse plástica e maleável (Sola Morales, 2002).
O paradigma americano
Mesmo sendo um fenômeno que se reconhece “globalmente”, as expressões da cidade contemporânea têm variações regionais particulares, segundo contextos sociopolíticos, diferenças geográficas e tradições urbanas. Uma imensa literatura acadêmica
tem se produzido em relação à transformação das cidades nos EEUU, com especial
atenção à cidade de Los Angeles como paradigma dos processos pós-modernos
FI-1: Buenos Aires. Infra-estruturas
e novos aparatos da globalização.
Fonte: Revista SCA 194
28
Cidade contemporânea
de urbanização: um manto horizontal de residências sem um centro diferenciado,
uma extensa rede de rodovias e uma marcada dependência do carro, mas também
segregação, espaço público vigiado, multirracialidade, conflitos urbanos, etc. (Davis,
1998; Fulton, 1997; Soja, 2008).
Edge cities, cidades viradas inside-out, pós-subúrbio são termos que apontam para
uma transformação tanto do centro como do clássico subúrbio americano e anunciam o fim da era da metrópole moderna (Soja, 2008). A configuração dualizada
distintiva entre um centro concentrador de funções financeiras, governamentais e
de serviços e uma periferia suburbana, basicamente residencial e habitada por uma
classe média aburguesada, já não representa a realidade americana. A antiga divisão regida por raça e classe é hoje um caleidoscópio mais complexo de grupos
sociais, e as formas de vida diferenciadas – vida urbana versus suburbana- estariam
se tornando ubíquas.
Segundo Garreau (1991), a expansão suburbana não tem mais nada de “sub”, já
que podemos considerar agora, de forma inversa, a cidade tradicional subordinada à expansão suburbana. O jornalista americano tem chamado a atenção para as
urbanizações novas que concentram espaços de trabalho, corporações e comércio
nas periferias das grandes cidades americanas e que tem batizado como Edge Cities9. Estas áreas de formação recente (nada existia ali 30 anos atrás) representam
para Garreau a conquista de uma nova fronteira, seguindo os deslocamentos fora
da cidade central da residência (sprawl dos anos 50) e do mercado (shopping mall a
partir dos anos 70). Como contraponto, muitos centros urbanos estariam perdendo
atratividade e se esvaziando, até o extremo de cidades como Houston, denominada
de “donat city” por se distinguir formalmente por um core que se desmancha e um
anel periférico – em torno dos anéis rodoviários- que se densifica.
Estes processos opostos de descentralização, recentralização, desterritorialização e
reterritorialização, expansão horizontal e intensa nuclearização estariam modelando
assim uma nova paisagem (pós)metropolitana. Soja mesmo entra no jogo semântico
e escolhe o termo Exópolis para sintetizar as múltiplas facetas dos discursos sobre a
reestruturação da forma urbana. Exo (fora) é uma referência direta ao crescimento de
cidades “externas” e igualmente sugere a importância crescente das forças exógenas que dão forma ao espaço da cidade na era da globalização. Pode ainda denotar
“fim de” como na ex-cidade, a ascensão de cidades sem os traços tradicionais da
“cidade” como nós os definíamos no passado. O autor também usa o termo para designar uma síntese e uma extensão de recombinação dos muitos processos relativos
à oposição e argumentos dualizados que deram corpo ao discurso geral da forma ur-
9_ Para se definir como tal uma
edge-city deve conter: cinco milhões de pés quadrados ou mais
de espaço de escritórios arrendável; 600.000 pés quadrados ou
mais de espaço de varejo, uma
população que aumenta no período
da jornada de trabalho, distinguindo-a como centro de trabalho
e não subúrbio residencial; uma
percepção do local como destino
único para trabalho, compra e
entretenimento; e uma história na
qual há 30 anos atrás o local não
era de nenhuma maneira urbano,
mas opressivamente residencial
ou de caráter rural.
29
Cidade contemporânea
bana. O composto Exópolis pode metaforicamente ser descrito como a cidade virada
inside-out, como na urbanização dos subúrbios, mas igualmente representa a cidade
virada de fora para dentro, uma globalização do centro urbano que traz as periferias
de todo o mundo para o centro (Soja, 2008:250).
A cidade difusa europeia
Por outro lado o continente europeu é representado hoje como um grande território
urbanizado. A abertura das fronteiras, as políticas de integração econômica e política, junto com a extensão de amplas redes de infraestrutura e comunicação fazem
do continente uma grande megalópole, com algumas configurações transnacionais
reconhecidas como o caso da chamada “blue-banana”: um corredor descontínuo de
urbanização que inclui, entre outras, as cidades de Milão, Zurique, Colônia, Bruxelas,
Amsterdã e Londres com 90 milhões de habitantes e as mais altas concentrações de
indústria e capital.
Na Europa a expansão suburbana é uma preocupação mais recente em comparação com os Estados Unidos, porém a um par de décadas que se reconhece como
obsoleta e limitada a expressão “área metropolitana” para dar conta das novas situações urbanas e territoriais (Monclus, 1998). Conceitos como cita difussa, metapoles,
hipercidade (Indovina, 1990; Ascher, 1995; Corboz, 1995) começam a ser usados na
literatura acadêmica, e procuram tanto se diferenciar como identificar com os processos concorrentes do outro lado do Atlântico.
FI-2: A dispersão dos mais ricos.
Esquerda: condomínios fechados
da periferia de Buenos Aires.
Direita: condomínios verticais na
Barra da Tijuca, Rio de Janeiro.
Fonte: flirck
30
Cidade contemporânea
Demattis (1998) reconhece singularidades históricas nas formações suburbanas de
tradição latino-mediterrânea e germano-anglo-saxônica que por muito tempo seguiram caminhos diferentes. Enquanto a tradição urbana da Europa mediterrânea se
distinguia por suas cidades compactas e de alta densidade, marcando uma clara
separação entre a paisagem urbana e a rural, a Europa setentrional começou muito
cedo a distribuição de elementos urbanos no território e consolidou -sobretudo a partir do século XIX com os movimentos de cidade jardim- o habitar em casa individual
com quintal nas periferias dos núcleos urbanos.
Para Demattis, essas diferenças que designaram por muitos anos especificidades
históricas e culturais, hoje se apagam tendendo a convergir num modelo único, comum a toda Europa, de “cidade sem centro” e estrutura reticular, cujos núcleos conservam e acentuam sua identidade através de processos inovadores de competição
e cooperação.
Outros discursos procuram se distanciar do sprawl americano, entendendo a condição dispersa europeia como fruto da distribuição isotrópica de redes de infraestruturas e de padrões de divisão da terra antes que do espalhamento decorrente do deslocamento dos habitantes. A dispersão contemporânea em lugares como o norte da
Itália ou a Bélgica seria não um fenômeno novo, mas a continuação de uma tradição
histórica, com características próprias e nem por isso necessariamente negativas
(Vigano, 2008; de Muelder, 2008).
Porém, a situação da expansão suburbana em outras cidades europeias, como no
caso de Madrid ou algumas cidades francesas, especialmente através da residência
de baixa densidade, alarma governantes e acadêmicos. Se, por um lado, o crescimento populacional se reduz, por outro o consumo da terra para usos urbanos
cresce10. As preocupações com a situação emergente abarcam temas territoriais e
meio-ambientais em torno do crescente consumo de solo, da contaminação, do custo
das infraestruturas e gestão dos serviços para atender maiores extensões de densidade decrescente. Outras inquietudes se focam nas transformações qualitativas
das paisagens históricas. A Europa está lutando hoje para manter um equilíbrio entre a suburbanização e os fragmentados espaços rurais remanescentes, com fortes
programas de controle e subsídios para poder preservar as tradicionais paisagens
agrícolas. A crescente indústria do turismo, por sua parte, tem colaborado tanto para
o consumo indiscriminado de terra e crescimento desordenado –como é o caso da
costa Ibérica- quanto para a transformação de cidades e paisagens produtivas em
congelados cenários de consumo.
10_ Por exemplo, segundo Monclus (1998), estudos recentes sobre
22 cidades francesas: entre 1950 e
1975, a população duplica enquanto a superfície aumenta 25%; entre
1975 e 1990 ocorre o contrário,
ao aumentar a população 25% e
dobrar a superfície.
31
Cidade contemporânea
Megalópoles latino-americanas. Do padrão periférico à dispersão
A América Latina é predominantemente um continente urbano. Com uma média de
75% da população vivendo em áreas urbanas, apresenta índices de urbanização
similares aos do mundo dito “desenvolvido” 11. Mais ainda, não só o índice de urbanização na região é muito alto, senão que o fenômeno urbano tem alcançado dimensões extraordinárias. Dentro do “ranking” mundial, e apesar da rápida ascensão das
cidades asiáticas, das 20 maiores megalópoles do planeta, quatro se encontram na
América Latina. Segundo dados da CEPAL12, só a América do Sul sextuplicou, num
lapso de 40 anos (de 1950 a 1990), o número de cidades com mais de 20.000 habitantes. No mesmo período, o mesmo grupo de países passou de cinco cidades com
mais de um milhão a contar com 31 centros urbanos que contabilizavam um total de
87.548.040 pessoas. Hoje existem na América do Sul três cidades que superam os
dez milhões de habitantes (São Paulo, Buenos Aires e Rio de Janeiro), outras três
que excedem os cinco milhões (Bogotá, Lima e Santiago), dez que se encontram
entre os cinco e os dois milhões, e um grupo crescente e flutuante de pelo menos
outras 18 cidades que ultrapassam um milhão de habitantes.
Mas as diferenças com a Europa e os EEUU, tanto nos sistemas urbanos quanto nas
características das periferias metropolitanas, são importantes acentuar. Até pouco
tempo os estudos sobre a urbanização na América Latina versavam em torno de dois
temas. Por um lado, na escala regional, a primazia em cada país de uma ou duas
cidades concentradoras da economia e da população em grande contraste com o
sistema de pequenas cidades que lhes dão suporte. Esta característica foi descrita
pelos teóricos da dependência como macrocefalia urbana, uma disfunção do sistema
que expressaria os desequilíbrios de uma urbanização desigual (Castells, 1974). Por
outro lado, na escala metropolitana, um modelo dual centro-periferia, também marcado pela segregação espacial e social, seria o denominador comum das cidades
latino-americanas.
As preocupações teóricas crescem nos anos 60 como consequência do forte processo de urbanização e do crescimento sem precedentes das principais capitais. Como
resultado da expansão industrial e das migrações internas por melhores condições
de trabalho e serviços oferecidos pela cidade, as principais capitais viram seus limites desbordados, suas populações contabilizadas em milhões e seus tecidos fundidos com os vilarejos e municípios próximos formando um todo complexo. O rápido
crescimento das periferias se deu muitas vezes de forma precária e sem o aporte
indispensável de serviços urbanos e de infraestrutura, consolidando a diferenciação
qualitativa entre centro e periferia. Distingue-se então um núcleo privilegiado, onde
os serviços urbanos são considerados de qualidade, a partir do qual, em forma radial
11_ Claro que con procesos de urbanización muy diferentes. Podría
argumentarse que AL se consolida
como territorio urbano muy tempranamente, desde la colonización. La
mayoría de las ciudades latinoamericanas que son hoy importantes
centros urbanos surgen como
locus simbólico y logístico de una
estrategia de conquista del territorio
y no como el resultado de un proceso gradual de transformación de
una sociedad rural o feudal hacia
una organización urbana. En AL,
sobretodo en la América hispana,
el territorio rural se desarrolla como
instrumento económico dependiente de las sociedades urbanas.
12_ Boletín demográfico URBANIZACIÓN Y EVOLUCIÓN DE LA
POBLACIÓN URBANA DE AMÉRICA LATINA 1950 – 1990, AÑO
XXXIII, Edición especial, Mayo
2001, Comisión Económica para
América Latina y el Caribe, Centro
Latinoamericano y Caribeño de
Demografía (CELADE) - División
de Población, Santiago de Chile
32
Cidade contemporânea
e concêntrica, a cidade iria diminuindo em densidade e aumentando em carências. A
noção de periferia teria então uma tripla dimensão: por um lado física, determinada
pela distância do centro; por outro, qualitativa, diferenciada pela carência de infraestrutura e em geral com uma qualidade urbana pobre; e uma relacional, fortemente
marcada pela dependência e dominação do centro. O “padrão periférico de urbanização” (Queiroz e Lago, 1994) -definido pela segregação social das camadas populares
de menos renda, pela autoconstrução de moradias e condições de consumo coletivo
muito precárias- deixa de ser um modelo descritivo e se consolida nos anos 70 como
paradigma da metropolização latino-americana. Queiroz e Lago reconhecem duas
vertentes teóricas que tentam explicar a geração desse padrão periférico de urbanização. Por um lado, as que atribuem a segregação espacial aos efeitos do mercado
imobiliário bem como à intervenção diferenciada do Estado. A desigual distribuição
espacial dos investimentos públicos em infraestrutura e equipamentos coletivos se
daria em consequência da maior capacidade política das camadas superiores de
gestão. Por outro, as teorias que pretendem compreender o fenômeno metropolitano
a partir da própria lógica de organização da periferia, os processos de loteamento e
ocupação informal do território.
Nos últimos anos, porém, as transformações que vêm se evidenciando no território
metropolitano merecem uma especial atenção e põem em crise o modelo anterior.
Ainda que a estrutura centro-periferia persista, existem nas metrópoles contemporâneas indícios de mudanças tanto na natureza dos processos de expansão e lógicas
FI-3: América do Sul, cidades com
20.000 habitantes e mais, 1950
e 1990. Fonte: Boletin especial:
urbanización y evolución de la población urbana de América Latina,
1950 – 1990. Celade - CEPAL.
33
Cidade contemporânea
de produção do espaço, como no tipo e características do tecido urbano. Também na
América Latina os estudos mais recentes das metrópoles apontam para um sistema
mais aberto e policêntrico, caracterizado pela dispersão.
FI-4: A dispersão dos mais pobres.
Periferias urbanas Buenos Aires
(esquerda) e Rio de Janeiro (direita). Fonte: Revista SCA 194 e flirck.
Há uma mudança demográfica na forma como a população é distribuída no sistema
de cidades. O ciclo das migrações campo-cidade se completou e o crescimento urbano atual expressa basicamente o crescimento natural da população. A pressão sobre
as grandes cidades tem diminuído, as principais metrópoles não têm aumentado
conforme o prognóstico e as redes urbanas apresentam uma hierarquia relativamente equilibrada, com cidades de tamanho intermediário crescendo em importância.
(Valladares e Prates Coelho, 1995; Balbo, 2003)
As periferias estão se transformando e, como demonstram algumas pesquisas13,
processos similares estariam acontecendo em cidades como Buenos Aires, Lima,
México, Rio ou São Paulo. Por um lado, algumas intervenções públicas visam o melhoramento das condições físicas e da qualidade urbana das periferias. Mas também
novos investimentos privados se instalam segundo as oportunidades oferecidas pela
mobilidade. Várias cidades na América Latina têm evidenciado processos de descentralização e recentralização de atividades terciárias, empresariais e comerciais que
tendem a modificar a geografia metropolitana das principais capitais. A localização
distante –estimulada pela mobilidade individual crescente- acompanha também a
dispersão da residência. Periferia já não representa mais o território onde se espera
um avanço formal ou informal da habitação pobre, mas –se bem conectada- detém o
potencial de albergar empreendimentos excepcionais para as classes médias e altas.
13_Ver, por exemplo, as publicações da Rede Iberoamericana de
Investigadores sobre Globalizacion
y Território. Criada a partir de 1994,
e presidida por Mattos, realiza
regularmente seminários internacionais que procuram discutir os
processos territoriais vinculados
com a globalização e seus aspectos sociais, econômicos, políticos,
etc.
34
Cidade contemporânea
Sem dúvida, o fenômeno mais notório dos últimos anos nas cidades latino-americanas tem sido o crescimento de condomínios fechados e enclaves de residência em
áreas suburbanas.
Os padrões de mobilidade se tornam mais complexos. Pesquisas como a de Rainer
Randolph demonstram como as dinâmicas de deslocamento de trabalhadores e consumidores superam as que tradicionalmente definiram as áreas metropolitanas, se
voltando para áreas cada vez mais distantes e com padrões mais intricados que os
de dependência em relação a um único centro. Para Randolph a expansão perimetropolitana14 não pode ser mais entendida como mera extrapolação daquelas formas
de expansão urbana que levaram à conformação das regiões metropolitanas, mas
como um fenômeno de outra natureza (Randolph, 2007).
Para o caso brasileiro, Goulart Reis registra que as transformações observadas atestam não só uma simples mudança de forma, mas uma completa mudança de estado.
A dispersão urbana é a passagem de um estado a outro, no qual as formas se subdividem rapidamente sobre o território. As relações que regem os processos sociais
já não são as mesmas e se devem em grande parte a novos estágios do comércio
mundial, novos modos produtivos e formas mais complexas de organização capitalista (Goulart Reis, 2006). Goulart descreve e estuda a semelhança dos fenômenos
e as relações entre as áreas metropolitanas de São Paulo e as de formação mais
recente (Campinas, Baixada Santista e Vale do Paraíba) que formam, em conjunto,
um sistema metropolitano integrado. As mudanças identificadas pelo autor incluem: a
formação de áreas cada vez mais dispersas, separadas no território, mas mantendo
estreitos vínculos entre si; a regionalização do cotidiano com a adoção de modos de
vida da população que tem seus deslocamentos diários em escala metropolitana e
intermetropolitana; novas modalidades de gestão dos espaços urbanos; alterações
nas relações entre espaços públicos e privados; novas formas de organização do
mercado imobiliário e novos padrões de projeto.
Para o caso de Buenos Aires, Adrian Gorelik descreve a modernização recente não
apenas como meras alterações da cidade existente, mas como expressão de um
câmbio profundo com a conformação de um novo sistema urbano. Se a cidade tem
se produzido historicamente do centro para a periferia com a expansão da grelha
isotrópica como modelo de expansão das fronteiras sociais e urbanas, hoje, com a
modernização, ela está se produzindo de maneira inversa. Desde a periferia, desde
os pontos mais débeis do sistema anterior para o centro. O que antes era uma falha,
converte-se no novo núcleo de sentido (Gorelik, 1999).
14_O termo “perimetropolitano” denominaria, nesse sentido, uma área
de interface entre o metropolitano
e um território urbano-regional que
está próximo à região metropolitana, mas que tem e mantém alguma
característica pró­pria. (Rudolph,
2007)
Cidade contemporânea
Para Gorelik esta nova modernização é o resultado da combinação fundamentalmente de duas dimensões de mudança que operam de forma autônoma, mas que também se alimentam mutuamente. Por um lado, novos tipos de inversões decisivamente vinculadas aos processos de globalização que afetam setores urbanos de escala
territorial, a urbanização do capital privado. Por outro, a decomposição do estado de
bem-estar e a situação crítica da sociedade civil, que se manifesta na fratura social
e urbana. Assim, os enclaves de residência, comércio e trabalho que prosperam nas
periferias metropolitanas, combinados com a decadência das redes públicas da cidade se transformam, segundo o autor, em verdadeiras “máquinas de dualizar”.
Os chamados “aparatos da globalização” (shopping malls, bairros fechados, complexos comerciais e de escritórios de grandes empresas) estariam, assim, remodelando as paisagens metropolitanas latino-americanas e transfigurando a imagem das
cidades (Mattos, 2002), mas também agudizando as diferenças e o isolamento com
a outra cidade, a cidade “empobrecida”. Se a crescente mobilidade individual das
pessoas e das empresas estimula a tendência à metropolização expandida, ainda
existe uma grande porção da população que, não por opção, mora em áreas cada
vez mais distantes do centro, que carecem de infraestrutura e que dependem de
redes de transporte público obsoletas.
35
36
Sobre o Projeto Urbano
02.Sobre o Projeto Urbano
Enquanto o capítulo anterior procurou apresentar o universo de discursos teóricos sobre a condição
contemporânea da cidade e seus rebatimentos na forma urbana, como contraponto, este capítulo se
concentrará no mundo da ação. Discutir-se-á a noção de projeto urbano como forma específica de
intervenção na cidade, com foco nas práticas recentes em cidades latino-americanas. Intentaremos
elaborar uma taxonomia dos projetos com base nas experiências locais que permita construir um
panorama dos temas, localizações, programas e escalas abordados. Argumentaremos que, apesar de
a maioria das experiências ter se concentrado no espaço-centro, algumas experimentações projetuais
sugerem novos enfoques para as periferias metropolitanas. A renovação do projeto urbano a partir de
uma abordagem paisagística será o tema do próximo capitulo.
Os projetos urbanos têm se constituído na abertura do século XXI, no mais efetivo e
dominante modo de transformação para muitas cidades.
Por projetos urbanos nos referimos a um tratamento específico do urbanismo como
tem sido praticado e teorizado nas últimas décadas em um corpo de literatura urbanística. Sob o título de “projeto urbano”, este corpo de literatura descreve uma
forma de fazer cidade na qual o desenho urbano desempenha um papel crucial. Esta
abordagem:
- é pragmática em aparência (incorpora as lógicas do mercado imobiliário),
- enfatiza o papel do espaço como meio de negociação sociopolítica e construção
de alianças,
- focaliza a escala intermédia (entre edifícios individuais e a cidade),
- focaliza um prazo de tempo intermediário como horizonte temporal,
- é processual, flexível e aberta a mudanças e reorientações (Sola Morales, 1989).
Projetos urbanos representam uma alternativa, sensível ao contexto, frente à tradição do planejamento estático que predominou no período anterior. O projeto urbano
é considerado também a nova ferramenta flexível do planejamento. Assim, o corpo
dos projetos mencionados consegue, em muitos casos, o suporte necessário de diferentes atores, investidores e interessados para criar momentum nas flexíveis, privatizadas/privativas e com frequência fragmentadas economias pós-fordistas. No fim
dos anos 80 e princípios dos 90, seguindo a liderança de cidades como Barcelona,
Paris ou Londres, o projeto urbano foi adotado como “best practice” e como política
urbana explicitamente defendida.
37
Sobre o Projeto Urbano
Amplamente utilizado na academia e nas oficinas técnicas municipais, o termo projeto urbano é sem embargo um termo difuso. Comporta múltiplas interpretações e
significações em cada contexto e a cada momento, levando muitas vezes a confusões conceituais. Mas, de forma geral, é possível encontrar consenso na definição
do projeto urbano como um câmbio na forma de conceber a construção da cidade.
Este câmbio, cujas origens podemos localizar nos questionamentos ao urbanismo
funcionalista, se baseia na valorização da dimensão qualitativa das intervenções
urbanas e no reconhecimento da complexidade das forças que contribuem para a
(co)produção da cidade. Como tal, incorpora uma reflexão sobre o existente, sobre
a cidade herdada e se apresenta em termos de continuidade e não de ruptura com o
passado (Roncayolo, 2002).
Ignasi de Sola Morales, para quem a analogia histórica entre fazer arquitetura e fazer
cidade é hoje discutível ante as ingovernáveis metrópoles contemporâneas1, reconhece a existência de uma prática urbanística que, sob o nome comum de Projeto
Urbano, tem reunido a experiência de um grupo de arquitetos que veem em cada
intervenção uma oportunidade para produzir uma parte da cidade, uma ocasião onde
os traços da cidade e os da arquitetura buscam tornar-se solidários.
Proyecto urbano quiere decir que la arquitectura parte de datos
que están en la ciudad -restos, memorias, fragmentos y directrices- tomándolos selectivamente como vínculos del propio proyecto
al tiempo que éste se propone como respuesta y resolución a un
estado de cosas que previamente se entiende como inacabado,
desvencijado, por resolver (Sola Morales, 2002:30)2.
Como ação concertada, o projeto urbano é visto também como mediador e incorpora
a negociação entre diferentes atores em prol de interesses compartidos. Em teoria,
deve ser entendido não como fim, imagem a alcançar, mas como processo. Não é
concebido enquanto obra acabada, senão como sucessões de ações em contínua
gestação e transformação, aberto e flexível, capaz de englobar as diferentes temporalidades em seu desenvolvimento.
Yannis Tsiomis reconhece também a noção de projeto urbano como polissêmica
e extensível. A diversidade de objetos (seja a cidade consolidada ou a periferia, a
metrópole ou o território) e a variedade de programas (sejam projetos de espaço
público, de grandes equipamentos culturais, de reordenação de tecidos residenciais,
ou de ações sobre a paisagem) resultam numa multiplicidade de interpretações e de
possíveis ações entendidas como tal. Mais ainda, as especificidades segundo cada
1_Ignasi de Sola Morales plantea
las dudas sobre la capacidad de la
arquitectura contemporánea para
hacerse con la metrópolis. Esta
relación biunívoca entre una y otra
enraizada en la naturaleza social
tanto de la arquitectura como de la
ciudad es visible para el autor en la
ciudad histórica pero no tan clara
en la metrópolis contemporánea.
Ver “Hacer la arquitectura, hacer
la ciudad”, em Territorios, Gustavo
Gili, 2002, pp. 37-53.
2_Projeto urbano quer dizer que
a arquitetura parte de dados que
estão na cidade –restos, memórias,
fragmentos e diretrizes- tomandoos seletivamente como vínculos
do próprio projeto ao tempo que
este se propõe como resposta e
resolução de um estado de coisas
que previamente se entende como
inacabado, desvencilhado, por
resolver. (Tradução do autor)
Sobre o Projeto Urbano
contexto, as interpretações segundo legislações nacionais ou locais outorgam à noção de projeto urbano significados particulares (Tsiomis, 2003).
Ao mesmo tempo, o conceito de projeto urbano não se manteve invariável, pelo contrário, vem se adaptando nos últimos 30 anos as cambiantes condições urbanas nas
quais os projetos são formulados e desenvolvidos. Nessa medida, vários autores têm
classificado a sequência de mudanças em diferentes “gerações” de projetos urbanos
(Portas, 2004).
O ressurgimento internacional do projeto urbano
Nós poderíamos dizer que é a convergência de duas linhas de pensamento sobre a
renovação da prática do urbanismo que caracteriza a forma contemporânea de aproximação à cidade. Originadas em contextos diferentes, uma na Europa Mediterrânea,
a outra nos países anglo-saxões, ambas as teorias forjam-se como reação à crise do
planejamento funcionalista, incapaz de satisfazer às demandas de uma sociedade e
de um território cada vez mais complexos.
Uma ruptura importante ocorre em torno dos anos 60, quando, na Europa, começaram a se procurar alternativas ao planejamento que preponderou fortemente no
período de recuperação pós-Segunda Guerra. A reflexão em torno da morfotipologia
introduzida pela escola italiana, a recuperação dos valores da cidade histórica, em
combinação com o fracasso do urbanismo defendido pela Carta de Atenas, promoveram uma nova forma de aproximação dos problemas urbanos que retomava o
protagonismo da arquitetura. Um retorno à cidade desde a arquitetura e a realidade
de sua fabricação.
O projeto urbano ressurge como instrumento específico de intervenção pontual e
concreta, um urbanismo qualitativo em substituição às aplicações normativas e generalistas do planejamento tradicional. As operações no centro histórico da Bolonha
e a exposição da IBA Berlim foram as primeiras experiências de recuperação dos
arredores urbanos com forte ênfase na tipologia. Os projetos de desenho do espaço
público, feitos durante a administração de Oriol Bohigas em Barcelona, resultaram
em uma referência publicitada e promovida nas municipalidades do mundo inteiro,
muito especialmente na América Latina.
Ao mesmo tempo, a partir de países anglo-saxões novas correntes teóricas tentam
explicar os fenômenos que caracterizam o urbanismo na perspectiva de uma economia globalizada. A queda da indústria como motor do desenvolvimento urbano e o
crescimento do setor de serviços suscitaram o surgimento de um tipo de planejamen-
38
39
Sobre o Projeto Urbano
to que vê nas intervenções urbanas um modo de melhorar a eficiência econômica e
funcional da cidade. As experiências de Baltimore e das zonas das docas inglesas
foram as primeiras a indicar uma geração de projetos vistos como catalisadores de
transformações econômicas. Peter Hall adverte sobre uma mudança fundamental
no papel do planejamento: em vez de regular o crescimento da cidade o planejador
urbano se dedica a fomentá-lo (Hall, 1996).
As empresas e o mercado imobiliário ocupam, neste modelo, uma posição preponderante como promotores do desenvolvimento urbano em associação com os governos
municipais. O modelo de gerência empresarial é aplicado à cidade, o prefeito é transformado no “gerente” de uma cidade que procura a sua valoração econômica em um
contexto de competição entre cidades (Merlin e Choay, 2005).
Sem dúvida que existe implícita nesta concepção uma contradição conceitual, como
bem indica Françoise Choay:
Comment concilier les éléments de regulation et de durée avec
les éléments de la vie des enterprise qui sont de court temps?
Projet Urbain touche à l’intérêt public, le projet de enterprise révèle
l’intérêt privé... La stratégie d’enterprise repose sur un seul projet,
alors que la gestión urbaine, inspirée d’une vision stratégique, doit
reposer sur trois projets, car la ville est une réalité triple : territoire
socio-économique, patrimoine construit et institution (Merlin e Choay, 2005)3.
Desde o Sul: a experiência latino-americana
Embora este novo “status” do urbanismo sintetize a experiência dos países centrais,
seus princípios circulam e cristalizam em outras realidades, como o caso das cidades
da América Latina. O intercâmbio institucional e acadêmico tem estimulado a difusão
da teoria e da prática do projeto urbano nas universidades locais, com a renovação
curricular e a introdução de novas matérias. Também, promovido por agências de
cooperação, consultores internacionais e instituições multilaterais (BID, Nações Unidas, etc.), o projeto urbano tem sido propagado como “modelo” entre os municípios
do continente latino-americano.
Com diferentes objetivos, muitas cidades têm embarcado na transformação urbana
através da execução de projetos pontuais de requalificação e renovação.
Confrontado pelas condições locais, o projeto urbano também tem provocado críticas. Muitas delas, provenientes de profissionais das ciências sociais, contestam
3_Como conciliar os elementos de
regulação e de duração com os
elementos da vida das companhias
que são de curto prazo? Projeto
urbano toca ao interesse público,
o projeto de companhia revela o
interesse privado… A estratégia da
empresa descansa em um único
projeto, enquanto que a gerência
urbana, inspirada em uma visão estratégica, deve descansar em três
projetos, porque a cidade é uma
realidade tripla: território socioeconômico, patrimônio construído e
instituição. (Tradução do autor)
Sobre o Projeto Urbano
a aplicação acrítica de modelos e métodos estrangeiros com o risco de agudizar
os efeitos excludentes da urbanização contemporânea (Somekh e Malta Campos,
2001). Outros autores destacam o caráter fragmentado das intervenções que só tem
colaborado para agravar iniquidades, alargando a defasagem entre áreas privilegiadas e não-privilegiadas (Gorelik, 2004); não conseguindo quebrar o círculo vicioso
dos investimentos públicos em benefício de poucos, ao invés da sua distribuição
equitativa (Cuenya, 2004). Outras críticas referem-se à concepção dos projetos exclusivamente sob a lógica do mercado, ou que tem contribuído para a expansão
indiscriminada do setor de serviços em contraste com outras economias alternativas
(Rolnik, 2002).
Reparos também são feitos quanto aos perigos por trás da submissão ao discurso
estratégico, com forte ênfase na “competitividade” e “atratividade” das cidades ao
medir seus impactos sociais. Arantes menciona a existência de um “pensamento
único”, uma espécie de dogma a seguir para a inclusão exitosa na rede internacional
de cidades ganhadoras. Para Vainer, este pensamento único está baseado em três
paradoxos: a cidade é uma mercadoria, a cidade é uma empresa, a cidade é unificada com um consenso homogêneo (Arantes, Vainer, 2002).
Estas críticas, porém, muitas vezes reduzidas a um entendimento limitado do projeto urbano, não permitem resgatar uma atitude projetual plausível para as cidades
latino-americanas. Argumentaremos que tanto a natureza (tecidos contrastados de
desigualdades sociais), quanto a dimensão dos fenômenos urbanos locais (megalópoles de milhões de habitantes) desafiaram o projeto urbano a produzir reapropriações locais (Vescina, 2007). Como veremos em alguns exemplos, inúmeros projetos
urbanos buscam equilibrar desigualdades e mostrar seu comprometimento com a
distribuição em vez da concentração, a homogeneização em vez da exacerbação
das diferenças, no sentido que contribuem para uma partilha mais igualitária dos
recursos limitados e dos benefícios da cidade.
O projeto urbano se propõe, em termos pragmáticos, a ser um catalisador capaz de
provocar sinergias dentro da cidade para promover mudanças tangíveis na paisagem
urbana. A capacidade potencial do projeto urbano supõe a superação formal e a
integração, em sua dimensão espacial, de múltiplas dimensões, econômicas, sociais
e culturais.
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41
Sobre o Projeto Urbano
Taxonomia do projeto urbano na cidade latino-americana.
Panorama de uma prática local
Projeto urbano: uma experiência.
Apresentaremos a seguir um panorama da prática local do projeto urbano nas últimas décadas, através da análise de um conjunto de cidades. As categorias propostas se estruturam em função de temas considerados relevantes para as cidades
latino-americanas. Para cada família de projetos, buscamos identificar os objetivos
e disparadores das intervenções, os programas dominantes, a localização e os elementos que conformam a estratégia do projeto, seja de iniciativa pública seja com a
participação de atores privados, de escala e complexidade variáveis.
No final, um conjunto de projetos traz novas reflexões sobre os desafios das metrópoles. Eles serão o elo de conexão com o próximo capítulo onde discutiremos orientações possíveis para a renovação do projeto urbano. Este conjunto de experiências
incipientes e experimentais procura atender questões de maior abrangência, de uma
nova realidade urbana nas áreas metropolitanas.
Renovação de centros históricos/ patrimônio: a cidade herdada
Esta família de projetos retrata as primeiras experimentações na qualificação urbana.
A renovação dos centros históricos é relevante na prática do projeto urbano porque
trouxe consigo as primeiras reflexões sobre como intervir na cidade existente e, fundamentalmente, porque foi uma transição da atenção do edifício-monumento para os
espaço “entre” os prédios: do interior ao exterior, do edifício à rua, da arquitetura ao
espaço público.
Alinhada com os ideais de recuperação dos valores simbólicos da cidade antiga, a
noção de patrimônio urbano surge como detonador da renovação urbana durante
os anos 80. As primeiras intervenções começaram motivadas pelas declarações de
patrimônio histórico da humanidade4 outorgadas a vários centros coloniais. A declaração de interesse, que em diversos casos ampliava prévios reconhecimentos
nacionais, se estende à preservação não só de prédios isolados, mas de ambientes
urbanos, incluindo a trama, o espaço aberto e os tecidos formados por arquiteturas
populares.
Assim os compactos centros históricos das primeiras fundações coloniais que, de
uma maneira ou outra, tinham resistido à modernização, entraram em competição
para integrar o grupo seleto de sítios patrimoniais. Compromissos mútuos foram assumidos por agentes internacionais de cooperação técnica e financeira e os municí-
4_Sequência de centros históricos
da América Latina declarados
Patrimônio da Humanidade: 1978,
Quito, EC; 1979, Antigua Guatemala, GT; 1980, Ouro Preto, BR;
1982, Olinda, BR; 1982, Havana,
CU; 1983, Cuzco, PE; 1984, Cartagena, CO; 1985, Salvador, Bahia,
BR; 1987, Brasília, BR; 1987, Potosí, BO; 1987, México y Xochimilco,
MX; 1987, Oaxaca, MX; 1987,
Puebla, MX; 1988, Lima, PE; 1988,
Guanajuato, MX; 1988, Trinidad,
CU; 1990, Santo Domingo, DO;
1991, Morelia, MX; 1991, Sucre,
BO; 1993, Zacatecas, MX; 1995,
Santa Cruz de Mompox, CO; 1995,
Colonia del Sacramento, UY; 1997,
Panamá, PA; 1997, São Luís, BR;
1999, Santa Ana de los Ríos de
Cuenca, EC; 1999, Diamantina,
BR; 2000, Arequipa, PE; 2001,
Goiás, BR; 2002, Paramaribo, SR;
2003, Valparaíso, CL; 2005, Cienfuegos, CU. Fonte: Unesco World
Heritage. www.//whc.unesco.org.
Sobre o Projeto Urbano
pios estabelecendo as estratégias e as ações para executar, gerenciar e monitorar os
projetos de renovação e preservação. Em muitas cidades, oficinas técnicas especiais
foram criadas para coordenar as ações e cumprir as demandas da Unesco.
Por várias décadas os centros históricos das cidades latino-americanas sofreram um
processo de esvaziamento e degradação físico-ambiental como consequência do
incremento da cultura do automóvel, da descentralização de funções comerciais e de
serviços, dos interesses do setor imobiliário e de políticas habitacionais antiurbanas
que levaram a uma desvalorização da “cidade antiga”.
A volta ao centro se consolida, ao mesmo tempo, como reação frente a alarmante
expansão da cidade. A ideia de incorporar novas funções ao patrimônio construído,
reinserir a moradia, estimular o comércio, etc. em áreas providas de valores culturais,
mas também de prover infraestrutura urbana, foi defendida como alternativa a custosa e insustentável expansão dos subúrbios.
Mas, igualmente, por detrás do renascer dos centros históricos existe uma estratégia
econômica em torno da crescente indústria do turismo. Uma estratégia que procura
promover as cidades, tendo na imagem de seus centros históricos, agora renovados
e polidos, um elemento fundamental de marketing. Algumas críticas têm apontado
para os custos sociais da renovação dos centros antigos com ênfase na “imagem”,
criando mais uma cena que reativando um patrimônio vivo. A concepção limitada e
museificante do patrimônio tem produzido, em alguns casos, o congelamento das
verdadeiras forças produtoras da cultura local.
Um caso particular e ilustrativo das tensões entre desenvolvimento local, renovação
urbana e patrimônio histórico é o de Habana, em Cuba. Circunscrita ao isolamento
e embargo econômico, Cuba enfrenta sérios problemas financeiros para conservar o
seu rico patrimônio construído. Porém, a cidade tem encontrado, a partir do turismo e
de um modelo próprio de gestão e autofinaciamento de seus bens culturais, um filão
de desenvolvimento social. A oficina do historiador, com faculdades excepcionais
para explorar suas próprias fontes econômicas, (serviços culturais, ingressos, impostos locais, etc) consegue financiar as obras de renovação urbana assim como outras
ações de caráter social e produtivo.
As obras que a princípio focaram igrejas e prédios institucionais abraçaram depois
o espaço entre os prédios, as praças e seu entorno, eixos de conexão entre pontos
significativos, etc. (Spengler, 2004; Fernandez, 1993).
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Sobre o Projeto Urbano
A incorporação de novas dinâmicas sociais e econômicas sem deslocar os residentes mais pobres tem sido um dos mais difíceis desafios da reconstituição urbana nos
centros históricos latino-americanos. As primeiras experiências, como a renovação
do Pelourinho, em Salvador (Bahia) no início dos anos 90, foram fortemente criticadas por se basearem na erradicação da sua população para dar lugar a novos
programas “culturais” e turísticos. Mudanças de orientação, porém, têm procurado
melhorar as condições de habitabilidade e assegurar a permanência dos moradores.
Ao mesmo tempo, a preocupação com a imagem tem dado lugar a um entendimento
mais complexo do patrimônio. A atenção dispensada ao tecido e à tipologia vem
substituindo o simples “fachadismo”. A restauração arquitetônica e social dos tambos
de Arequipa -um tipo de residência popular originalmente hospedagem dos comerciantes de passagem pela cidade- é um exemplo desta abordagem (Cidap, 2008;
Cordoba Valdivia, 2005; Ludeña, 2005; Maldonado Valz, 2004).
Espaço Público / Cidadania: a cidade da democracia
Nesta categoria podemos reunir um grupo de projetos que utilizam a estratégia de
redesenho do espaço público como indutor de um processo de requalificação urbana
em lugares específicos da cidade.
Não é casual que nos últimos anos os discursos em torno do urbano tenham como
protagonista o “espaço público”. Termo usado e abusado por arquitetos, prefeitos e
até empresas imobiliárias tanto para legitimar as qualidades de um projeto urbano
como para garantir seus benefícios sociais e políticos. Em contraste com a ideia da
“morte da cidade”, a reafirmação do “público” como lugar de trocas e de encontros
FII-1 e 2: Havana, renovação do
centro histórico. Plaza de Armas
Fonte: Oficina Del Historiador
Habana
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Sobre o Projeto Urbano
FII-3: Plaza de La Muralla, centro
histórico de Lima, Peru. Fonte: Autor
ganha força como expressão direta dos valores da democracia. A experiência de
Barcelona nos anos 80 foi uma referência muito importante para a geração de projetos urbanos que logo seriam ensaiados nas cidades latino-americanas. O otimismo
que tomou conta da Espanha depois da abertura democrática e a força participativa
dos grupos vicinais deram lugar a uma política urbana com grande ênfase na recuperação do espaço público. As centenas de projetos de desenho, equipamento e
renovação de ruas, praças e parques tinham um sentido democrático e distributivo, e
supunham um efeito de “metástases”, espalhando os efeitos benignos para além de
seus limites de intervenção.
Seguindo o exemplo de Barcelona muitas cidades latino-americanas têm se empenhado na renovação do espaço público tanto no centro como nos bairros. Desde
os discursos oficiais, à volta a rua é defendida como expressão da relação dialética
entre espaço público e cidadania, onde se expressa a diversidade, se produz o intercâmbio e se aprende a tolerância (Borja, 2003).
Em relação aos programas, as ações incluem a ordenação do trânsito com ênfase no
pedestre, a incorporação de ciclovias, arborização, novos pavimentos, nova iluminação, novos mobiliários urbanos, entre outras. A localização é variada. Alguns projetos
se distribuem em um sistema de eixos estruturais, outros se concentram em pontos
significativos da cidade, ou em um conjunto de “pockets” espalhados pelos bairros.
O espaço público recriado procura reforçar identidades locais, engendrar novas relações entre partes desconexas (costuras urbanas) e em geral estimular dinâmicas
45
Sobre o Projeto Urbano
sociais, econômicas e culturais. Também aqui os investimentos públicos procuram
criar efeitos “contagiantes” sobre o entorno, estimulando o setor privado.
Um tipo específico de projetos, dentro deste grupo, está representado por aqueles
que têm se focado nas bordas de contato com a natureza, com o redesenho de passeios marítimos, orlas e promenades junto a rios e costas marítimas. Buenos Aires e
Rosário, por exemplo, têm lançado programas que procuram uma nova relação com
o rio, com um sistema de parques lineares e promenades ao longo da costa (Arrese,
2005, Monteverde 2005). Guayaquil, no Equador, concebeu um imenso projeto de renovação urbana a partir da reabilitação do Malecom, um antigo passeio ao longo do
rio Guayas. Promovido e gerido por uma fundação privada com o objetivo de resgatar
seu deteriorado centro comercial e bancário, o projeto não se reduz ao espaço público, mas incorpora várias funções comerciais (mercado, cinema, etc) (Wong, 2005).
O Rio de Janeiro se destacou nos anos 90 pelas intervenções no espaço público. O
programa Rio-Cidade procurou revitalizar eixos principais e estruturantes de cada
bairro da cidade através do redesenho das ruas e calçadas (Andreatta, 2006; Alvarenga, 2009).
Equipamentos sociais: a cidade da equidade
Este conjunto de projetos surge como resposta a um quadro de desigualdades entre
os bairros das cidades latino-americanas e de carência de serviços sociais. Objetivam distribuir e descentralizar algumas funções, de forma a incorporar diversidades
de usos e qualificar as periferias residenciais.
FII-4: Tambos no centro histórico de
Arequipa. Planta: Fonte: Liesbeth
Caymax e Esther Jacobs.
FII-5: Acessos às moradias renovadas do Tambo Del Matadero,
Arequipa. Fonte: Autor
46
Sobre o Projeto Urbano
A estratégia se fundamenta na provisão de equipamentos sociais que atuam como
catalisadores de uma transformação urbana. Sempre articulando e combinando políticas sociais com ações espaciais, neste caso, serviços necessários concentrados
num prédio público singular, tem início uma transformação que transcende a dimensão do objeto arquitetônico e se desdobra num –mínimo- projeto urbano. Aqui o papel
da arquitetura não é menor, já que o projeto se baseia no valor simbólico destas
infraestruturas sociais.
O programa, seja uma biblioteca, um centro de administração pública ou uma escola,
torna-se uma referência em torno da qual se estabelece uma nova centralidade. A
inserção do novo programa acarreta modificações do entorno, com a criação de novos acessos, espaço público e infraestrutura urbanos. A escolha do lugar e o cuidado
quanto à localização do prédio, condicionando as articulações com o entorno, são de
capital importância.
Como são programas e não projetos, o critério de localização procura atender equitativamente aos diferentes bairros. Selecionamos três exemplos no contexto latinoamericano, destacando em cada caso um programa específico: bibliotecas no caso
de Bogotá, escolas em São Paulo e centros de administração municipal em Rosário.
Em Rosário, a renovação urbana acompanhou a reestruturação político-administrativa da cidade. Seis centros administrativos foram desenhados por arquitetos nacionais
e estrangeiros para atender a nova divisão em distritos. Através da reconversão de
FII-6: Malecóm de Guayaquil. Fonte: Diario La Nación
FII-7: Paseo del Caminante, nas
“barrancas” do rio Paraná, Rosario.
Fonte: Arq. Gerardo Caballero
47
Sobre o Projeto Urbano
prédios antigos ou da construção de novos, os centros administrativos foram estrategicamente alocados em cada bairro para possibilitar novas centralidades, levando
os serviços municipais para mais perto dos moradores, mas também incorporando
outras facilidades culturais, recreativas e de saúde. Em cada situação, o projeto teve
um recurso específico para qualificar a área urbana: a recuperação de uma estação de trens abandonada, a criação do espaço público, a consolidação de um eixo
urbano, a complementação de redes de rua, etc. (Corea 2000; Monteverde, 2005;
Municipalidad de Rosario, 2006; Pampinella 2006).
Estratégias similares à distribuição de infraestruturas sociais foram testadas em São
Paulo. Neste caso, o programa de construção de escolas em áreas periféricas da
megalópole brasileira traz renovações que buscam equilibrar as desigualdades. Os
centros educacionais foram concebidos a partir de um único protótipo composto de
três volumes, que permite variações na composição e no arranjo para satisfazer as
especificidades de cada contexto. Também aqui, a escala e a linguagem particular do
prédio introduzem um marco urbano novo, uma referência em contraste com a paisagem desolada da metrópole. Sobre o papel inquestionável da presença da escola
pública nas comunidades e da integração de programas culturais e recreacionais,
adiciona-se a capacidade fundamental da transformação física da área onde são inseridos. Não somente porque trazem novas estradas e infraestrutura de saneamento
às adjacências, mas, principalmente, porque a escolha da posição e as relações que
estes edifícios estabelecem com a geografia do local não são um detalhe banal: uma
determinada condição topográfica, a presença de um curso d´ água, bem como conexões com a malha urbana. Um único edifício se desdobra em espaços públicos novos
FII-8 e 9: Requalificação do espaço
público. Programa Rio Cidade,
Leblon, Rio de Janeiro. Autores:
Luiz Eduardo Indio da Costa, Guto
Indio da Costa, Fernando Chacel.
Fonte: Alvarenga, Andre (2009)
48
Sobre o Projeto Urbano
FII-10: CEU (Centros Educativos
Unificados) Jambeiro, em Guaianazes zona leste de São Paulo,
dos arquitetos Alexandre Delijaicov,
André Takiya e Wanderley Ariza.
Fonte: Arcoweb_
com relação a estes elementos da paisagem, muitas vezes esquecidos e degradados
(Anelli , 2004; Melendez, 2008).
Com o mesmo caráter distributivo Bogotá incorporou uma rede de bibliotecas. Quatro
edifícios principais, de escala metropolitana, e um conjunto de unidades menores
de bairro se espalham para atingir a maioria da população. Indubitavelmente, neste
caso a monumentalidade e a qualidade arquitetônica dos edifícios principais procuraram um efeito de visibilidade à escala da cidade. Entretanto, um dos projetos que
tem gerado interesse é El Tintal, uma biblioteca situada em um setor normalmente
relegado do investimento público. O projeto reutiliza um edifício para a incineração
de lixo abandonado, adaptando a estrutura industrial ao novo programa cultural. A
biblioteca assenta-se em um parque e integra, junto com pantanais adjacentes, uma
estrutura verde maior. O projeto se articula com alamedas e ciclovias, elementos
que pertencem a intervenções de maior abrangência (Alvarez , 2004; Caudo, 2009;
Martin, 2007).
Vazios urbanos: a cidade pós-industrial
Os câmbios na economia, o crescimento do setor de serviços e a realocação das
indústrias têm deixado uma herança de terrenos de grande porte dentro da cidade.
Localizados no que alguma vez foi periferia do centro, estes terrenos, absorvidos
pelo crescimento urbano, acabam transformando-se em ilhas no tecido urbano. Portos e aeroportos em desuso, fábricas, presídios, leitos ferroviários, sítios industriais
obsoletos formam um conjunto diverso de situações que são vistas como oportunidades de projeto.
49
Sobre o Projeto Urbano
Esta família de projetos representa a mais clássica interpretação do projeto urbano,
no sentido que envolve estruturas mais complexas de intervenção e de gestão onde
a participação de investidores privados, junto com outros atores e os governos locais
contribuem para reincorporar à produtividade da cidade áreas abandonadas ou em
desuso. São projetos com uma perspectiva de tempo de médio prazo, executados
em etapas segundo o avanço das negociações e as mediações entre as partes,
incluindo às vezes estruturas mistas de gestão especialmente desenhadas para o
desenvolvimento do projeto (corporações, agências, fundações, administrações públicas especiais, etc.).
Os projetos geralmente propõem um programa de usos mistos; novas residências,
escritórios, comércio, equipamentos culturais e de lazer e fundamentalmente um espaço público renovado. Os desenhos procuram integrar as novas peças urbanas com
o entorno dando continuidade à malha urbana. Não por isso, muitos destes projetos
deixam de ser percebidos como “guetos” dentro da cidade, voltados às grandes empresas globais e às camadas de maior renda, sendo portanto direta ou indiretamente
excludentes.
Um caso paradigmático na região –pela rapidez e a qualidade do empreendimento- é
Puerto Madero, em Buenos Aires (Argentina). Seguindo o modelo catalão e sob a
consultoria de experts nacionais e internacionais, a recuperação do antigo porto, em
desuso desde 1925, significou a expansão do centro administrativo de Buenos Aires,
a conquista de uma nova relação da cidade com o rio de La Plata e a consolidação
FII-11: Biblioteca El Tintal, Bogotá.
Fonte: Arq. Daniel Bermudez
50
Sobre o Projeto Urbano
de um novo cartão postal da cidade. Os 170 hectares foram reconvertidos para receber novas ruas e passeios, escritórios, comércio e residências. O projeto procurou a
continuação da trama e da morfologia sugerida pela arquitetura portuária de blocos
compactos e retangulares, contrastando com acentos urbanos de prédios de altura
enquadrando e marcando perspectivas (Arrese, 2005; Gorelik, 2004; Liernur, 2007;
Martinez de San Vicente, 2004).
Outros exemplos mostram dificuldades para passar da prancheta à realidade. A falta
de continuidade dos governos, obstáculos financeiros, ou as muitas vezes complexas
forças em jogo têm atrapalhado o andamento de projetos ambiciosos. Tal é o caso
do Eixo Tamanduatehy, no ABC paulista (Brasil). Originalmente pensado como uma
nova centralidade metropolitana, a transformação do que foi nos anos 50 um grande
parque industrial ao longo do rio Tamanduatehy nunca logrou ser concretizada e viu
muitos de seus objetivos desvirtuados. Um concurso internacional forneceu as bases
para o projeto de regeneração do corredor de mais de 12 quilômetros de extensão
que procurava, entre outros objetivos, combater o desemprego e a paralisia econômica, recompor fisicamente a estrutura urbana, articular um processo político intermunicipal e promover a inclusão socioterritorial, democratizando os benefícios. No
entanto, as poucas operações - acordos e contrapartidas entre empresários privados
e a municipalidade- resultaram em ações fragmentadas, faltando uma estrutura espacial para guiar as intervenções ou estrategicamente induzir o desenvolvimento. Em
muitos casos, os acordos entre o público e o privado ficaram limitados a melhorias
de pequenas áreas dos arredores imediatos, que redundaram em vantagens para
o empresário mais que uma distribuição igualitária dos benefícios. Hipermercados,
FII-12: Puerto Madero, o novo
cartão postal de Buenos Aires.
Fonte: Autor
51
Sobre o Projeto Urbano
centros de negócios, hotéis e universidades privadas substituíram algumas velhas
indústrias. As urgências e o apoio público a atividades que pudessem trazer novas
oportunidades de trabalho deram espaço a grandes companhias no setor comercial
e a setores de serviço, em detrimento do desenvolvimento de redes produtivas locais
menores e de geração de novos tecidos misturados que pudessem integrar espaços
de trabalho e habitação (Netto Teixeira , 2005; Prefeitura do Município de Santo André, 1999; Reese, 2004; Santoro, 2005).
Algumas outras cidades estão hoje experimentando projetos semelhantes. Podemos
citar o caso de Puerto Nuevo na cidade de Rosário (Argentina), ou o de Ciudad Portal
Bi-centenário em Santiago (Chile). No primeiro caso, se trata da reconversão de 80
hectares de terrenos ferroviários e indústrias cerealíferas desativadas, que foram
por muito tempo um obstáculo à conexão entre o centro e o norte da cidade através
da costa. A partir da abertura de novas vias e após complexas negociações entre os
vários proprietários e a municipalidade, parcelas de terra estão sendo liberadas. O
plano segue as diretrizes do projeto vencedor do concurso nacional, cujo desenho
incorpora as preexistências a marcas do passado industrial como lógica do projeto.
A morfologia proposta se distancia do tecido tradicional da cidade e sugere uma
configuração em “ilhas de residência” que permite maiores transparências para o rio
Paraná (Municipalidad De Rosario, 2006; Sánchez-Pombo, 2001).
O exemplo de Santiago representa outro projeto ambicioso que prefigura a expansão
da cidade para o sul, sobre os terrenos onde funcionava o aeródromo de Cerrillos.
Impulsionado pelo Ministério de Urbanismo e Vivenda, o projeto visa urbanizar 250
FII-13: Perspectiva do Eixo Tamanduatehy, Santo André: Fonte: Municipalidade de Santo Andre.
FII-14: Perspectiva do projeto Ciudad Portal Bi-Centenário, Santiago.
Fonte: Ministerio de Urbanismo y
Vivienda
52
Sobre o Projeto Urbano
hectares através de parcerias público-privadas, onde as infraestruturas estão entregues ao poder público e os projetos residenciais ao mercado imobiliário. Promovido
como um lugar da inovação e desenvolvimento sustentável, com espaços públicos
de qualidade e bairros integrados e conectados às infraestruturas de transporte, o
projeto tem gerado polêmicas com relação ao impacto ambiental para a cidade de
Santiago (Asociación Portal Bi-centenário; Corti, 2003).
Mobilidade: a cidade dos fluxos
Este grupo de intervenções se fundamenta na potencialidade de criar urbanidade dos
projetos de infraestrutura urbana, especificamente aqueles que envolvem mobilidade. A ideia é aproveitar o investimento público neste tipo de projeto para acumular
ganhos na qualidade urbana, de forma a integrar objetivos funcionais, urbanos e
ambientais.
As estratégias de desenho urbano se baseiam na concepção do espaço da mobilidade –redes e nós- como um tipo específico de espaço público capaz de gerar urbanidade e qualificar a paisagem urbana. Se, por um lado, os sistemas que permitem
a circulação de pessoas e mercadorias servem de suporte para a vida urbana e promovem a expansão da cidade, igualmente -dependendo dos modos de articulação
com o tecido urbano- podem ser elementos de coesão ou segregação. Pensados
desde perspectivas setoriais (engenharia), muitas vezes os projetos de infraestrutura
impõem à cidade a sua própria lógica e -dissociados do entorno- geram efeitos negativos sobre o espaço que atendem.
FII-15 e 16: Imagem das indústrias
cerealíferas desativadas e plano
para Puerto Nuevo, Rosario. Fonte:
Municipalidad de Rosario
53
Sobre o Projeto Urbano
FII-17: Transmilenio, ônibus articulados no centro de Bogotá: Fonte:
Flirck
Ao mesmo tempo, as preocupações mais contemporâneas com o desenvolvimento
sustentável têm produzido reformulações na abordagem da questão dos deslocamentos na cidade. A conversão do conceito de “transporte” para “mobilidade” supõe
uma mudança de paradigma na qual se prioriza o pedestre ao veículo e o coletivo
ao individual (Montezuma, 2007). A intenção, mais do que resolver os problemas de
circulação dos carros, é a busca de condições adequadas à mobilidade das pessoas
e mercadorias sob critérios ambientais, sociais e econômicos.
Este é um tema relevante para as metrópoles latino-americanas, caracterizadas pela
supremacia do automóvel individual e por um transporte público caótico e ineficiente. Em muitas cidades, o serviço público de ônibus predomina em detrimento de
sistemas alternativos (bicicletas, trens urbanos, bondes, metrô), com centros congestionados pela superpopulação de unidades obsoletas em contraste com bairros
periféricos carentes de atendimento.
Inspirada na experiência de Curitiba, e como alternativa frente ao custoso projeto de
implantação do metrô, Bogotá (Colômbia) introduziu, no final dos anos 90, o Transmilenio. Composto por redes troncais de grande capacidade e outras complementares
de alimentação, o novo sistema integrado de transporte público conta com faixas
exclusivas para ônibus articulados e estações fixas com plataformas de acesso ao
nível do veículo. O sistema se completa com uma rede de ciclovias e estações
integradas intermodais providas de depósitos para bicicletas. O projeto se vincula a
outras iniciativas que visam mudanças de atitudes e comportamentos na via pública
e conscientização sobre o uso de transporte alternativo ao automóvel5.
54
Sobre o Projeto Urbano
FII-18 e 19: Novos espaços públicos gerados a partir da passagem
do metro-cable em Medellín. Fonte:
Municipalidad de Medellín
Internacionalmente, o Transmilenio tem sido recebido com entusiasmo (premiado na
Bienal de Veneza 2006), localmente, no entanto, enfrenta resistências. As críticas
apontam para problemas quanto à frequência e à capacidade6 de atendimento - congestionamento nas horas de pico- como também no custo do transporte para o cidadão e para a cidade. Mas, descontados os ajustes necessários ao aperfeiçoamento
do sistema, os ganhos na qualidade urbana e ambiental são notórios e a experiência
de Bogotá tem sido amplamente difundida no contexto latino-americano com muitas
cidades adotando modelos similares (Alvarez , 2004; Caudo, 2009; Martin, 2007).
Também oriundas da Colômbia, outras iniciativas se destacam pela originalidade na
abordagem da questão da mobilidade. A cidade de Medellín implementou um sistema de metro-cable para dar acessibilidade a comunidades pobres que cresceram
informalmente nas periferias da cidade. O sistema de cabo aéreo, especialmente
desenhado para poder atingir áreas de difícil acesso nas ladeiras dos morros, se
conecta com o metrô existente, uma estrutura linear elevada que atravessa a cidade
de norte a sul. À medida que o metro-cable vai atravessando os bairros, rampas de
acesso, terraços, estações e praças facilitam a acessibilidade, mas fundamentalmente criam um novo espaço público em áreas densas. A inserção do sistema de
metro-cable, que tem se estendido a vários bairros de Medellín e a outras cidades
latino-americanas, é na verdade a cara mais visível de um projeto ambicioso, que as
autoridades locais denominam “projeto urbano integral”, um instrumento técnico de
intervenção física e social para atender áreas não-planejadas da cidade, carentes de
equipamentos e espaço público (Bohigas, 2007; Capella, 2007).
5_Os programas “Pico e Placa” e
“um dia sem carro” procuram, o
primeiro criar restrições à circulação nas horas de pico de acordo
com o número de placa, o segundo
estimular o uso de transporte alternativo ao mesmo tempo que poder
imaginar uma cidade mais humana
e sustentável.
6_Com planos de expansão, o
sistema atende hoje cerca de 20%
dos deslocamentos da cidade, o
resto continua se realizando pelo
sistema tradicional.
55
Sobre o Projeto Urbano
FII-20: Corredor Verde del Oeste,
Buenos Aires. Fonte: Revista SCA
Enquanto o exemplo de Medellín se destaca pelo impacto visual da infraestrutura na
paisagem urbana, outros casos seguem na direção oposta: procuram ocultar, soterrar
para dispor deste espaço sobre as infraestruturas. Tal é o caso do Corredor Verde do
Oeste, na cidade de Buenos Aires. O projeto objetiva superar a barreira urbanística
que implica, para a transversalidade norte-sul da cidade, o percurso da ferrovia Geral
Sarmiento. A ideia é criar um parque linear de quase dez quilômetros de extensão
que melhore a qualidade ambiental e urbana dos bairros adjacentes. Fazem parte do
projeto novas escadas, estações, caminhos e ciclovias, praças verdes e secas para
promover atividades ao ar livre, assim como também novas regulações urbanísticas
para incentivar a transformação das fachadas que se abrem ao novo espaço público
(Arrese, 2005).
Urbanização de assentamentos informais: a não-cidade
Como expressão das desigualdades sociais e das dificuldades de acesso à terra
urbana dos mais pobres, as cidades latino-americanas se distinguem pela presença
de favelas, villas misérias, pueblos, diferentes denominações do mesmo fenômeno:
moradias precárias, autoconstruídas, sem posse regular da terra e carentes de infraestrutura urbana.
A relação complexa destes assentamentos informais com o resto da cidade tem evoluído nos últimos anos. Considerados por muito tempo um “câncer” urbano, graças a
mudanças na sua valorização7 e à ação de movimentos sociais houve uma reformu-
56
Sobre o Projeto Urbano
lação das políticas públicas que abandonaram ‘soluções’ violentas de remoção em
favor de estratégias mais progressistas de inclusão e urbanização.
Um­tipo específico de projeto urbano vem se desenvolvendo no contexto latino-americano em torno de experiências que procuram integrar estes assentamentos informais
à cidade dita “formal”. Esta integração envolve um conjunto de intervenções físicas,
mas também sociais e institucionais, que apontam para a provisão de infraestrutura
e serviços urbanos, melhoria da acessibilidade, regularização das propriedades e
FII-21: Urbanização de assentamentos informais. Morro do Socó e
do Portal, em Osasco, São Paulo,
dos arquitetos Viglieca & Associados. Fonte: Arcoweb
FII-22: Favela Novos Alagados em
Salvador. Vista da enseada do Cabrito e do Parque São Bartolomeu,
antes e depois da intervenção, com
o manguezal recuperado. Fonte:
Cities Alliance.
criação de novos espaços públicos. As obras se articulam com ações sociais, com
programas de capacitação e educação, projetos de geração de renda, de saúde,
entre outros.
O Brasil liderou esta mudança com o programa Favela-Bairro, que nos anos 90 ganhou repercussão internacional. Implementado pela municipalidade do Rio de Janeiro, o programa instalou com originalidade e determinação o projeto urbano nas favelas. Por sobre as ideias de urbanização e valorização deste espaço autoconstruído
foram adicionadas noções de desenho urbano. Desse modo, estratégias usadas na
mais alta cultura urbana foram transladadas e traduzidas para um espaço que até
então escapava à categoria “urbano”.
De acordo com seus promotores, o objetivo do programa não era reparar o déficit de
moradia, mas o déficit urbano, ou seja, fornecer infraestrutura básica, equipamento social e novos espaços públicos. Significou uma abordagem sensível de projeto
capaz de retratar em cada bairro o seu genius loci, através de intervenções estra-
7_“A favela não é problema, mas
uma solução” foi uma frase famosa
de John Turner nos anos 70 que
refletiu um giro na aproximação aos
assentamentos informais na América Latina. Anunciou o processo
de valorização da favela, por claramente apresentar vantagens (tanto
para seus habitantes quanto para
os agentes públicos) em comparação com os projetos fracassados
de habitação social fornecida pelo
Estado.
57
Sobre o Projeto Urbano
FII-23: Programa Favela-Bairro,
equipamentos sociais na favela
Fubá-Campinho, Rio de Janeiro.
Fonte: Arq. Jaurequi
tégicas, quase cirúrgicas, que procuraram a requalificação, mas sem destruir sua
identidade e suas lógicas espaciais intrínsecas.
As intervenções também envolveram aspectos legais de posse da terra e objetivos
sociais, abrangendo programas que variaram de instalações esportivas a postos
de saúde e creches. Realocações pontuais de moradias em áreas de risco foram
incluídas dentro de cada bairro. Durante os sete anos de seu desenvolvimento, o
projeto recebeu financiamento local e de fontes estrangeiras -principalmente o BID e
a União Europeia- e atingiu mais de 150 favelas, totalizando uma população de 550
mil pessoas (Magalhães, 2004). Considerado um dos programas mais avançados
de redução da pobreza, o Favela-Bairro ganhou amplo reconhecimento nacional e
internacional (Conde e Magalhães, 2004; França e Bayeux,2002; Machado, 2003,
Benetti, 2004).
Outras cidades brasileiras vêm, desde então, implementando projetos análogos. Sob
a égide do novo Estatuto da Cidade através do Ministério das Cidades, a urbanização de favelas e a regulação fundiária têm se transformado numa política de ordem
nacional. Com graus variados de sucesso, dependendo da qualidade dos projetos,
de suas modalidades de gestão e participação dos habitantes, um vasto conjunto de
intervenções constitui um corpo relevante de experiências locais. Destacam-se, entre
outros, pela qualidade da arquitetura, os projetos realizados pelo escritório Viglioco
e Associados na periferia de São Paulo, no Morro do Socó e do Portal e nas favelas
Paraisópolis e Heliópolis. Em Salvador, na Bahia, o projeto do arquiteto Anastassakis para o assentamento conhecido como Novo Alagados sobressai também pela
Sobre o Projeto Urbano
integração do desenho urbano com a revitalização ambiental. A forma como a favela
tinha invadido a enseada dos Cabritos com construções de palafitas comprometia
seriamente a saúde dos habitantes e do ecossistema natural. O projeto conseguiu
construir uma frente marítima com uma via à beira-mar, realocar as famílias em novas unidades habitacionais e recuperar o mangue degradado (Aliança de Cidades,
2008; França e Bayeux, 2002).
Projeto urbano: o desafio da metrópole
Comprovamos até aqui a existência de um corpo importante de experiências que nos
últimos 20 anos tem caracterizado a prática do projeto urbano no continente latinoamericano. Com diferentes objetivos, os projetos qualificaram áreas obsoletas no
centro da cidade, renovaram prédios industriais abandonados, transformaram portos em novas áreas de lazer e residência, distribuíram equipamentos sociais, entre
outros. Com ênfase na construção de novo espaço público, a maioria dos projetos
discutidos até aqui tem se concentrado na cidade consolidada ou na sua periferia
imediata.
Este novo “status” do urbanismo encontra dificuldades, porém, para abordar as complexidades da metrópole. São quatro os desafios que o projeto urbano, em face ao
século XXI, deve enfrentar. Por um lado, existe um problema de escala, a própria
condição horizontal da cidade condiciona o alcance em um território cada vez mais
amplo. Por outro, há uma questão instrumental, já que os elementos clássicos do desenho urbano – quadra, lote, tipo - devem se renovar com a incorporação do novo vocabulário da metrópole (infraestruturas, grandes vazios, fragmentos de áreas rurais
e industriais, naturezas, etc.). Em terceiro lugar, não podemos deixar de mencionar
um problema de gestão, já que muitos temas excedem as limitações administrativas
locais e requerem decisões intermunicipais, envolvendo uma complexa rede de atores. Por fim, mais notável no caso da América Latina, o que poderíamos chamar de
problema ético, já que questiona a maneira como os projetos garantem a distribuição
dos benefícios com sentido de equidade.
É neste quadro que a noção de paisagem – em sua complexa dimensão socioecológica - e o paisagismo como prática vêm surgindo nos últimos anos como fonte
renovadora para o projeto urbano. Nas cidades latino-americanas tal abordagem paisagística para o projeto urbano na metrópole ainda permanece mais no campo experimental e de investigação acadêmica do que na prática real. Porém, os exemplos a
seguir demonstram a sua enorme potencialidade e pertinência para o espaço metropolitano de nossas cidades. As possibilidades jazem no modo como os três maiores
componentes, a saber: infraestrutura, ecologia e desenvolvimento urbano, podem
58
Sobre o Projeto Urbano
superar dimensões monofuncionais e produzir coalizões para criar novas oportunidades e novos tipos de espaço público. Equipamentos sociais necessários, serviços básicos, transporte público e outras infraestruturas podem ser operacionalizados junto
com corredores ecológicos, grandes sistemas de paisagem recarregados com novos
programas que ativem relações positivas com o meio construído.
Muitos desses projetos baseiam sua estratégia numa racionalidade ecológica. Geralmente, são projetos de uma abrangência maior que intentam relacionar o tecido
urbano ao seu contexto natural. Eles buscam reconciliar os processos de desenvolvimento urbano com os processos ecológicos que atravessam a cidade e que
inevitavelmente fazem parte dela. A ideia é “trabalhar junto com a natureza” (McHarg,
Hough), produzindo sinergias entre as lógicas ambientais que dão sustentabilidade
ao território e ao espaço construído. Assim, os sistemas ecológicos servem de suporte para a cidade que, por sua vez, os incorpora como valores positivos dentro da
sua espacialidade e uso.
Existe um grande sentido de restauração nesses projetos. Deter o crescimento urbano sobre ecossistemas frágeis, reabilitar sítios contaminados, recompor bordas de
rios, proteger cerros, controlar enchentes, etc. constituem, entre outros, o repertório
de temas que guiam as intervenções. Em geral são projetos de grande complexidade
e ambição, mas não por isto menos urgentes. No caso específico das cidades latinoamericanas o denominador comum tem sido o crescimento rápido e desordenado
das periferias das grandes cidades. Sem o desenvolvimento de uma infraestrutura
que acompanhe esse crescimento, os conflitos ambientais têm assumido dimensões
emergenciais. Esse tipo de intervenção possibilita estruturar e dar sentido e qualidade urbana a estas áreas de grande carência.
Cidade Futura, Cidade do México, México. O projeto desenvolvido por um grupo
interdisciplinar e dirigido pelo arquiteto mexicano Alberto Kalach se insere nesta linha
de trabalhos. De grande ambição e alcance, a proposta é o resultado de muitos anos
de pesquisa sobre a maior metrópole da América Latina. A cidade do México, que
em cinco décadas quase quintuplicou a sua população (de 2 a 18, 5 milhões de habitantes), evidencia um crescimento urbano intenso e desordenado, ocupando áreas
de valor ecológico, leitos de rios e lagos, aliado à insuficiência de serviços sociais,
equipamentos e, sobretudo, espaço verde público.
O trabalho propõe uma visão integral para a cidade, apoiando-se no resgate do antigo
lago Texoco. Um novo polo de desenvolvimento vinculando a nova paisagem lacustre e incorporando novas infraestruturas de impacto metropolitano seria fruto de um
59
60
Sobre o Projeto Urbano
FII-24: A ocupação gradual através
dos séculos e o desaparecimento
do sistema lacustre na cidade do
México. Fonte: Arq. Kalach
processo de recomposição social e ecológica. A cidade do
México, que na época da colônia chegou a ser conhecida
como a Veneza da América, se encontrava originalmente
rodeada por um sistema interconectado de lagos que foram sendo gradualmente ocupados e secados, a ponto de
hoje estar em quase total extinção. Por outro lado, a ocupação crescente das ladeiras tem comprometido as áreas
de recarga do aquífero subterrâneo. A água que cai é conduzida pelo sistema de drenagem sem ser reutilizada, e a
contínua extração de água – maior que a capacidade de
recarga - determina que o solo se deprima lentamente.
Frente a este cenário, o projeto se baseia em restituir o
equilíbrio hidrológico, reutilizando parte das águas que são
despejadas e reconfigurando a paisagem através da construção de novas bordas urbanas com o aterro sanitário,
que hoje acontece desordenadamente no mesmo lugar.
Assim, o próprio processo de constituição da paisagem
seria consequência do manejo racional dos despejos urbanos, convertendo-os num verdadeiro sistema de metabolismo urbano-ecológico (Kalach, 2007).
O litoral recriado abrigará equipamentos, serviços e parques para os assentamentos, hoje desprovidos de infra-
61
Sobre o Projeto Urbano
FII-25: México, Ciudad Futura,
fases do projeto. Fonte: Arq. Kalach
estrutura urbana. No leste, são propostas áreas de urbanização entrelaçadas entre
o lago e as edificações existentes, respeitando as canhadas e descidas de água
naturais. Parques junto ao corpo d´ água permitirão a recolonização da flora e da
fauna. Novas infraestruturas estabelecerão ligações entre norte e sul e costurarão o
novo polo aos bairros circundantes.
Uma peça importante no conjunto proposto é o novo aeroporto, concebido numa ilha,
o que traz vantagens ambientais e logísticas, ao mesmo tempo em que recentraliza a
metrópole atraindo para o centro atividades que hoje acontecem de forma dispersa.
O atual aeroporto será transformado em um parque metropolitano, com áreas de desenvolvimento misto complementando a ligação entre o sistema de parques urbanos
da cidade do México e a nova laguna.
A paisagem lacustre renovada trará efeitos ambientais: temperaturas menos extremas e o céu mais limpo, dado que a evaporação produzida pelo lago reduz a contaminação do ar. Ao focalizar o crescimento no novo polo se alivia a pressão urbana
sobre as ladeiras ao sul do vale e se protege as áreas de recarga de aquíferos. O
desafio é um dia lograr que a metrópole seja autossuficiente em água, evitando que
62
Sobre o Projeto Urbano
FII-26: México, Ciudad Futura,
o novo litoral recriado albergará
serviços, parques e infraestruturas.
Fonte: Arq. Kalach
a extração desmedida dos poços continue produzindo o descenso do solo da cidade
(Kalach, 2007).
Recuperação de Humedales, Bogotá, Colômbia. A cidade de Bogotá tem sido alvo
da atenção internacional por suas políticas de transformação urbana, que souberam
combinar ações sociais e intervenções espaciais. Um importante marco para esta
transformação foi o desenvolvimento, a partir de 1997, do POT (Plan de Ordenacion
Territorial), cujas prioridades incluíam a restauração do meio ambiente, a revalorização do espaço público e a participação cidadã. Componente chave do plano foi o
delineamento da estrutura ecológica da cidade como elemento de conexão regional
para enquadrar projetos e ações (Martignoni, 2008).
Bogotá se caracteriza por estar inserida entre os Cerros Orientais no nordeste e o
rio Bogotá ao sudoeste. Entre estas duas estruturas, uma série de riachos e córregos cruzam a cidade transversalmente. Muitos destes rios foram canalizados, outros
permanecem parcialmente visíveis. Um aspecto singular do ecossistema bogotano
é a presença de alagados (humedales) -terras pantanosas e de pequenas lagoasvinculados a estes riachos e indispensáveis à regulação hidrológica do território. No
século passado, 80% das áreas alagadiças que existiam originariamente foram prejudicadas pelo crescimento urbano: contaminadas ou ocupadas ilegalmente.
A transformação de Bogotá incluiu a incorporação dos alagadiços - 13 pântanos que
cobrem uma superfície de 667,3 hectares - por seu valor ambiental, mas, principalmente, como parte da rede do espaço público da cidade. Assim, as intervenções
63
Sobre o Projeto Urbano
envolveram o redesenho de suas bordas, com a inclusão de áreas de transição entre
a cidade e o pântano, abrangendo parques, passeios, áreas de descanso e recreação, e nova acessibilidade. Em síntese, uma nova frente que qualifica o entorno
urbano, ao mesmo tempo em que visibiliza o valor ambiental e social dos pântanos
ao integrá-los à vida cotidiana da cidade.
Vazios de Água, São Paulo, Brasil. Mais que um projeto, a proposta dos arquitetos
MMBB para a periferia de São Paulo pode ser entendida como a tese de uma estratégia possível. Fundamenta-se na potencialidade do projeto de infraestrutura, na sua
forma difusa em rede para construir pontualmente urbanidade onde, até então, só se
aportam valores funcionais. A proposta consiste na redefinição do próprio paradigma
do projeto de infraestrutura, reconhecido como articulador na escala territorial, mas
que na escala local é um agente desagregador. “Redefinir esse paradigma consiste,
para além dos serviços prestados pelas redes, em articular políticas setoriais, construir lugares adequados à vida urbana e configurar imagens referenciais na paisagem, contribuindo para o estabelecimento de uma relação afetiva dos habitantes com
a cidade” (MMBB, 2007).
Especificamente, o projeto - premiado na 3ª Bienal Internacional de Arquitetura de
Roterdã - propõe uma “inversão” das obras de controle de enchentes em São Paulo.
Atualmente, para regular o sistema hídrico foi construído um conjunto de reservatórios de retenção das águas pluviais chamados “piscinões”. Seu principal propósito
é acumular água retardando o seu lançamento na rede de rios e córregos da cidade, reduzindo o risco de transbordamento. “Em suma, o ´piscinão´ visa substituir
FII-27: Riachos e pântanos, que
atravessam a cidade transversalmente, regulam o equilíbrio
hidrológico ao mesmo tempo em
que se inserem como peças dentro
do sistema de espaços públicos.
Fonte: Alcaldía de Bogotá
64
Sobre o Projeto Urbano
FII-28: Humedal Juan Amarillo,
Bogotá. Fonte: Flirck
o funcionamento regulador original das várzeas ocupadas e impermeabilizadas da
cidade”.
Os arquitetos reconhecem como uma oportunidade ímpar utilizar esses espaços previstos para os “piscinões” para criar uma rede de vazios urbanos que qualifiquem e
estruturem as periferias. Para tal são necessárias cinco ações. A primeira é disponibilizar o correto caminho para as águas e o adequado espaço para as casas. Ou
seja, realocar as favelas que estão em situação de risco ocupando as várzeas dos
rios, recompor as calhas dos córregos para as águas e implantar as residências
nos vazios previstos para os “piscinões”. Segundo, melhorar a qualidade das águas,
através de um sistema difuso de estações compactas de tratamento de esgoto para
cada microbacia, incrementando assim a qualidade e a quantidade de água nos rios.
Redefinir as fronteiras que permitam a aproximação da cidade às águas seria a terceira ação. Através da criação de nova acessibilidade, um espaço de abertura da
cidade para os rios, que conjugue parques lineares, permita circular, atravessar o rio
e integrar o tecido urbano. Reprogramar os vazios e as margens que os conformam
aportando-lhes um valor de centralidade é uma ação que envolveria diversidades de
usos e qualificaria o entorno estabelecendo uma relação de afetividade com a cidade. Por último, anotar uma escritura de água na paisagem remete a uma dimensão
poética e histórica do território, uma marca líquida na cartografia da metrópole, conciliando um novo sistema de espaços livres e os requisitos técnicos para o controle
das inundações (MMBB, 2007).
65
Sobre o Projeto Urbano
A proposta se apoia numa lógica metropolitana imbatível. O problema das enchentes,
que compromete tanto bairros periféricos como a produtividade da metrópole –cortando vias e caminhos- tem origem em zonas geralmente desatendidas pelo poder
público. Os projetos de infraestrutura para o controle das inundações representam
uma oportunidade única destas regiões receberem investimento. Conciliar a dimensão metropolitana destas infraestruturas com seu impacto local é o seu fundamento.
FII-29: Redefinir o próprio paradigma do projeto de infraestrutura é a
proposta de MMBB. Os piscinões
são vistos como oportunidades
únicas para criar uma rede de
vazios urbanos que possam qualificar as periferias paulistanas. Fonte:
MMBB Arquitetos
Parque La Aguada, Santiago, Chile8. Outro caso, que surgiu como projeto de pesquisa da Universidade Católica de Santiago, mas que já vem sendo adotado pelas
autoridades locais e está aos poucos se tornando realidade, é o Parque La Aguada.
O parque se insere em um projeto mais abrangente, o Plano Mestre Anel Metropolitano de Santiago, uma iniciativa do governo chileno emblemática das intervenções
8_Agradeço muito especialmente à
arquiteta Juana Zunino, professora
da PUC de Santiago e autora do
projeto de arquitetura e paisagismo, pelas informações e as imagens do projeto.
66
Sobre o Projeto Urbano
previstas para a celebração do bicentenário da República9. O anel consiste em uma
estratégia de reestruturação do antigo caminho de cintura de Santiago, visando à
recuperação dos terrenos abandonados da ferrovia e das indústrias desativadas.
Um total de 250 hectares de terras pertencentes a vários proprietários - o governo
nacional, algumas municipalidades e a empresa de ferrovia entre outros- serão recuperadas de forma integral para qualificar bairros, criar novos espaços públicos e
FII-30: O Projeto La Aguada se
insere dentro do plano mestre do
Anel metropolitano de Santiago,
integrando num novo parque recreativo as infraestrturas de mobilidade e de controle das inundações.
Fonte: Ministerio de Vivienda y
Urbanismo de Chile
serviços, e melhorar a conectividade e o transporte. Definido como uma fronteira
interna, o anel articula as relações entre o centro e os 12 municípios adjacentes, o
que o transforma numa iniciativa metropolitana. O projeto pretende incentivar o mercado imobiliário, estimulando o crescimento interno e evitando a contínua expansão
e ocupação de terrenos agrícolas (Gobierno de Chile, 2003).
O Parque La Aguada completa a borda sul do anel e incorpora o chamado “zanjon de
la aguada”, um curso d´ água que –ao contrário do rio Mapocho que tem condensado
as representações nobres da cidade- leva o mote de “costanera dos pobres”, e tem
9_O recente terremoto que atingiu
o Chile com certeza modificará as
prioridades do governo. Antes do
trágico evento, as primeiras licitações do parque estavam prontas
para serem lançadas.
Sobre o Projeto Urbano
sido historicamente os “fundos” da cidade, aglutinando indústrias, assentamentos
informais e lixões. Ainda hoje alberga dois matadouros e a principal penitenciária de
Santiago (Allard, 2005).
O projeto almeja se converter em motor de uma transformação urbana para uma
das áreas mais pobres da cidade. Um parque longitudinal recuperará 60 hectares
de ribeira incorporando programas recreativos, equipamentos cívicos, quadras de
esporte e lagunas. O rio será revalorizado, suas margens recuperadas, de forma a
melhor manejar as variações do volume das águas e controlar as frequentes inundações. O duto, que hoje é insuficiente para evacuar as águas durante as chuvas
de inverno, será reaberto permitindo a inundação controlada do parque. Assim, as
águas e suas variações sazonais serão integradas ao projeto como valores positivos
e não como ameaças. O parque se transformará em dispositivo regulador hidráulico, demonstrando que infraestrutura e qualidade urbana não se contrapõem (Perez
Oyarzun, 2005).
Cidade fora, cidade dentro
Como estes projetos respondem aos desafios do projeto urbano para a metrópole?
Em relação à escala, por sua natureza, eles tendem a ser mais abrangentes já que
não focalizam áreas pontuais, mas se estendem em sistemas mais amplos e abertos. Tendo por base a matriz biofísica superam divisões administrativas e podem
alcançar a escala metropolitana e territorial.
Todos eles incorporam saberes e vocabulários de outras disciplinas, do paisagismo,
da ecologia, mas também da engenharia. A questão das águas aparece em todos os
projetos selecionados como um tema recorrente. Onde originalmente só se encontravam valores funcionais (vazamento, saneamento) as águas são tratadas como
elemento dinâmico que modela o projeto e agrega qualidade urbana. Os parques
veem assim suas funções ampliadas em múltiplas dimensões: como espaço público
recreativo, como meio para modelar a forma e o caráter do crescimento urbano,
como contendor das infraestruturas e como peça que concorre para a integridade
ecológica de um sistema maior. Sejam os alagados recuperados, o rio despoluído,
a lagoa recriada ou as margens reconstruídas, as intervenções na paisagem estão
ligadas a uma transformação nos tecidos urbanos. Essa interdependência entre a
matriz biofísica e o espaço construído é dinâmica e incorpora os processos ecológicos, mas também os sociais, econômicos e políticos que fazem parte da vida
urbana. A paisagem é concebida não como cena estática, mas como um modelo de
processos.
67
Sobre o Projeto Urbano
Os maiores desafios permanecem ainda na implementação dos projetos. Em um
extremo o exemplo de Bogotá, que talvez seja um caso paradigmático pelo grau de
efetividade das intervenções, no outro extremo o caso do lago do México que, por
seu alcance, poderíamos catalogar de utópico, o que não significa que ele não possa se desdobrar em intervenções exequíveis e não menos eficazes. É interessante
observar que todos tiveram origem no âmbito acadêmico e como projetos de investigação. O envolvimento das universidades como lócus da reflexão sobre o território
aparece como uma constante. Os poderes públicos, como no caso de Santiago, são
mais tarde envolvidos e acabam se responsabilizando pelo projeto sob a consultoria
das instituições acadêmicas. A transferência para o poder público não significa, porém, o fim do processo de participação. Outros atores, a população, organizações de
base, o setor privado, etc. devem ser incluídos para dar continuidade e legitimidade
aos projetos.
68
Projeto urbano na metrópole: a alternativa da paisagem
03.Projeto Urbano na metrópole: a alternativa da paisagem
Neste capitulo procuramos examinar a abordagem paisagística enquanto uma alternativa na hora de
pensar o projeto urbano fora da cidade central consolidada, no território expandido da metrópole contemporânea. Discutir os fundamentos teóricos e os princípios que asseguram esta hipótese. Entender
as condições nas quais esta abordagem surge, determinar as colaborações de outras disciplinas e
destilar, através de alguns exemplos, o seu vocabulário projetual.
O termo paisagem e o paisagismo como prática vêm ganhando um lugar cada vez
maior, tanto no âmbito profissional das disciplinas que lidam com o espaço como no
vocabulário cotidiano em geral. Paradoxalmente, a reaparição da paisagem na esfera cultural coincide com certa dificuldade de compartilhar definições e teorias. Flutuando entre posições culturalistas e naturalistas extremas, a paisagem abrange, com
toda a sua polissemia, dimensões ecológicas, socioeconômicas, histórico-culturais e
estéticas do território que habitamos.
Na prática recente o paisagismo vem ampliando o seu campo de ação. Tradicionalmente ligado ao desenho de jardins –públicos e privados- e visto como “complemento” da arquitetura, passa a envolver um universo mais complexo de dimensão urbana
e territorial onde as relações entre o espaço “natural” e o “construído” se transformam
no fundamento do projeto urbano.
Têm contribuído para esta transformação, por um lado a crescente consciência ambiental das cidades, por outro a constatação do avanço da urbanização sobre o território e as novas formas de configuração urbana expandida. Fundamentalmente,
um novo entendimento da cidade como parte inseparável da natureza confere nova
racionalidade às intervenções urbanas. O desenvolvimento de disciplinas como a
ecologia e a ecologia da paisagem trazem novos conceitos e categorias sobre a
forma de organização, os fluxos e as dinâmicas existentes entre os elementos da
paisagem que são trasladadas para o urbanismo.
69
Projeto urbano na metrópole: a alternativa da paisagem
Mas a “paisagem” também aparece como um meio capaz de responder às indeterminações, incertezas e mudanças do mundo contemporâneo. Apresenta-se como um
modelo de processos, mais que uma realidade física dada ou uma cenografia. Não
menos importante, a “paisagem” igualmente serve como lente cultural, como plataforma a partir da qual descrever e interpretar a cidade contemporânea (Waldheim,
2006).
Urbanismo e paisagismo: sobreposições
A aproximação das duas disciplinas –urbanismo e paisagismo- tem provocado muita
discussão. Por um lado existe um receio sobre as incumbências e as responsabilidades profissionais de cada uma, ao mesmo tempo em que se reconhecem os
cruzamentos e a transdisciplinaridade indispensáveis para abordar a complexidade
do território urbanizado.
Rosa Barba, arquiteta e paisagista catalã, quem tem colaborado enormemente para o
desenvolvimento do paisagismo na Espanha, entende que há sobreposições porque
ambas as disciplinas tratam do espaço “entre” as arquiteturas, embora diferenças e
pontos em comum devam ser discernidos. Enquanto tradicionalmente se considera o
urbanismo como a disciplina cujo material de trabalho é o edilício, o mundo construído, para Barba o paisagismo tem como objeto de projeto o entorno onde predominam
os fatores ambientais. Outras disciplinas tratam também do entorno natural, como a
geografia, a ecologia ou a biologia, porém só o paisagismo incorpora uma ação que
é fundamentalmente projetual (Barba, 2006).
Para a autora, o urbanismo tem historicamente partido de uma diferença conceitual
entre cidade e campo, que toma a natureza como redentora e assume o comportamento dos fatores do meio natural como perenes, curativos, imutáveis e seguros.
Contrariamente, para o paisagismo o meio natural se apresenta frágil, escasso e limitado. Na conjuntura contemporânea –em que a relação ética e epistemológica entre
homem e natureza vem sendo revisada- o paisagismo se coloca como alternativa de
intervenção projetiva, dadas as particulares preocupações meio-ambientais que são
significativas neste final de século (Barba, 2006).
Uma perspectiva mais inovadora é proposta por James Corner e Charles Waldheim,
desde a experiência norte-americana, ao sugerir uma prática compartilhada onde
arquitetura, paisagismo, desenho urbano e planejamento estariam se aproximando:
o landscape-urbanism. Em lugar de pensar os espaços urbanos como paisagens
ou de falar de paisagem na cidade, Corner pensa o landscape-urbanism como uma
síntese dialética entre as duas disciplinas (Corner, 2006). Waldheim, por sua parte,
70
71
Projeto urbano na metrópole: a alternativa da paisagem
o define como um realinhamento disciplinar onde a paisagem suplanta a arquitetura
como bloco construtivo básico de desenho urbano (Waldheim 2006).
O termo nasceu após uma conferência e exposição em Nova York, em 1997, e tem
suscitado desde então vários livros, ganhando também espaço nos cursos das escolas de arquitetura e urbanismo1, embora seu alcance teórico e prático ainda deva ser
comprovado. O neologismo em inglês expande a abrangência da clássica e de alguma maneira redutiva landscape architecture para o urbanismo. Não que não tenham
sido urbanas as intervenções que, desde o século XIX, têm incorporado “natureza” à
cidade. A diferença, segundo os seus defensores, está na concepção da paisagem.
Enquanto Barba e outros autores ainda formulam seus discursos a partir da dualidade cidade/ natureza, a proposta do landscape-urbanism entende (ou quer entender) ambientes culturais, sociais, políticos e econômicos como encaixados dentro e
simetricamente com o mundo natural. Segundo Corner, a promessa do landscapeurbanism é o desenvolvimento de uma ecologia espaço-temporal que trate todas as
forças e agentes operando no campo urbano, considerando-os como redes contínuas de inter-relações (Corner, 2006:30).
A abordagem paisagística
Americano de origem e adotado pelos europeus, o vocábulo landscape-urbanism
não encontra uma boa tradução em português. Urbanismo paisagista, urbanismo
da paisagem não parecem refletir nem a força nem a síntese semântica do vocábulo
em inglês. Enquanto o landscape-urbanism busca definir o seu próprio lugar entre as
disciplinas que modelam o território, para o caso desta tese abordagem paisagística
parece expressar com mais rigor a intenção de explorar algumas ideias sem cair em
modismos nem em linguagens sedutoras.
Entendemos como abordagem paisagística uma aproximação à construção da cidade-território que envolve uma reflexão tanto sobre os tecidos construídos como sobre
a matriz de suporte.
Refere-se a uma aproximação ao projeto urbano na qual a lógica projetual deriva
da imbricação complexa entre sistemas naturais e processos de urbanização. As
implicações sociais e culturais próprias à noção de paisagem diferenciam esta abordagem de outras simplesmente ambientais ou ecológicas.
Paisagem e cidade contemporânea
Partimos da hipótese que na abordagem paisagística podemos encontrar os elementos para lidar com a condição e a escala da urbanização contemporânea.
1_Entre as publicações podemos
destacar: The landscape-urbanism
reader, editado por Charles Waldheim; Landscape Urbanism: A
Manual for the Machinic Landscape
de Mohsen Mostafavi e Ciro Najle.
72
Projeto urbano na metrópole: a alternativa da paisagem
Atribuem-se a abordagem paisagística, múltiplas competências. Ela é capaz de dar
conta da escala da urbanização contemporânea bem como de melhor prover os instrumentos para se haver com a condição horizontal e aberta –o predomínio do vazio.
Para alguns autores, sob a ótica da paisagem atende-se melhor a velocidade dos
câmbios, uma vez que ela é vista como uma forma mais flexível de ação. Para outros,
é a que melhor resiste aos efeitos homogeneizantes da globalização e, por último,
que tem a capacidade de agenciamento.
Ariella Masboungi, quem tem dedicado seu trabalho ao estudo da prática do projeto
urbano na França, reconhece limitações no desenho urbano tradicional para tratar
a escala das extensas periferias urbanas. As ferramentas conceituais que tem se
experimentado até agora em escalas pequenas, devem ser revisadas à luz da extensão e dimensão do fenômeno urbano. Apoiando-se na história e na geografia do
sítio, e interpretando os traços existentes, o paisagismo poderia fornecer, segundo
Masboungi, a renovação necessária dos princípios operacionais e instrumentais do
projeto (Masboungi, 2002).
Certamente, a condição horizontal da cidade contemporânea tem despertado a atenção de urbanistas e paisagistas. Não é casual, que esta abordagem tenha surgido
–pelo menos em seus princípios teóricos- no contexto norte-americano, distinguido fortemente pela expansão suburbana. Charles Waldheim descreve o ambiente
aonde moram a maioria dos americanos como crescentemente de baixa densidade,
acomodado à cultura do automóvel e com extensos domínios públicos de vegetação.
A paisagem seria, segundo Waldheim, um meio versátil para dar forma urbana a este
campo horizontal de urbanização, caracterizado por ambientes naturais complexos,
sítios pós-industriais e infraestruturas públicas. O autor critica a inabilidade do desenho urbano de dar “explicações convincentes” da cidade contemporânea. Citando
seu colega Stan Allen, descreve o paisagismo como modelo para o urbanismo.
Increasingly, landscape is emerging as a model for urbanism.
Landscape has traditionally been defined as the art of organizing
horizontal surfaces… By paying close attention to these surface
conditions –not only configuration but also materiality and performance- designers can activate space and produce urban effects
without the weighty apparatus of traditional space making (Allen,
apud Waldheim 2006:037)2.
Mas a dispersão não é hoje apenas um fenômeno norte-americano. O italiano Renato Bocchi ressalta o desvanecimento das certezas ditadas pela morfologia urbana,
frente à explosão dos fenômenos de difusão do construído sobre o território e ao con-
2_Cada vez mais, a paisagem está
emergindo como um modelo para o
urbanismo. A paisagem foi definida
tradicionalmente como a arte de
organizar superfícies horizontais…
Prestando muita atenção a estas
condições da superfície - não
somente à configuração, mas
igualmente à materialidade e o
desempenho- os projetistas podem
ativar o espaço e produzir efeitos
urbanos sem o instrumento pesado
da factura tradicional do espaço.
(Tradução do autor)
73
Projeto urbano na metrópole: a alternativa da paisagem
sequente definitivo dissolver-se da oposição entre cidade e campo (Bocchi, 2005).
Para Bocchi, a paisagem mais que um modelo para o urbanismo se apresenta como
um novo plano de referência, a única estrutura formal com a qual a arquitetura da
metrópole contemporânea pode confrontar-se e sobre a qual radicar-se. A alternativa
para encontrar uma estrutura de fundação e sustentação do projeto se encontra na
geografia e no que, mais timidamente, Bocchi define como paisagem:
...el sustrato de referencia para la nueva “forma urbana” no sea
más la constitución formal de los tejidos urbanos (morfología urbana) sino mucho más la constitución formal de un sistema territorial
más vasto que llamamos con alguna aproximación “paisaje”, un
sistema territorial en el cual el dominio de los grandes espacios
vacíos (no construidos) es igualmente y más importante del dominio de la ciudad construida.2
Bocchi defende a ideia que nos novos territórios, projeto urbano e projeto de paisagem se confundem integrando arquitetura e projeto do solo (do vazio) num verdadeiro projeto urbano: o projeto do sistema de relações constitutivas da nova ordem
territorial, as novas “geometrias da paisagem”.
De forma similar, Sebastian Marot encontra na geografia e na paisagem importantes
referentes para o projeto no contexto de crescente suburbanização. Paisagem neste
caso está fortemente ligada à ideia de lugar. A relevância das qualidades próprias do
sítio como determinantes do projeto, são fortemente defendidas por ele, a ponto de
propor –num jogo semântico- uma subversão do urbanismo, uma mudança radical
na qual o lugar se converte na matriz do projeto. Marot assinala que o grande desafio
do urbanismo no futuro será não mais eleger a locação onde vai ser construída uma
cidade, mas como atuar em áreas que vão ser afetadas pela mutação suburbana, e
quais projetos deveremos empreender para abordá-las.
Entre las dos grandes cuestiones que determinan cualquier proyecto, a saber, el programa y el emplazamiento, esta situación implica
un cambio profundo de perspectiva. Apela a la emergencia de
una disciplina en la cual la jerarquía del programa frente al lugar,
tradicionalmente instaurada por el urbanismo (a partir de la lógica
del encargo dominante de la arquitectura) se invertiría, de moque
que el lugar se convierta en la idea reguladora del proyecto. A este
camino alternativo, y sus consecuentes determinaciones específicas que se perfilan de modo especialmente claro en la llamada
arquitectura del paisaje, proponemos denominarlo sub-urbanismo
(Marot, 2006 p.9)3.
2_...o substrato de referência para
a nova “forma urbana” não é mais
a constituição formal dos tecidos
urbanos, mas a constituição formal
de um sistema territorial mais
amplo que chamamos com alguma
aproximação “paisagem”, um sistema territorial no qual o domínio
dos grandes espaços vazios (não
construídos) é igualmente e até
mais importante que o domínio da
cidade construída. Renato Bocchi
em palestra ministrada no curso
de pós-graduação “Ciudad Paisaje
y Medioambiente”, Universidad
Nacional de La Plata, Argentina,
Setembro 2005. (Tradução do
autor).
3_Entre as duas, grandes questões
que determinam qualquer projeto,
a saber, o programa e o lugar,
esta situação implica um câmbio
profundo de perspectiva. Apela
à emergência de uma disciplina
na qual a hierarquia do programa
frente ao lugar, tradicionalmente
instaurada pelo urbanismo (a partir
da lógica do encargo dominante da
arquitetura) inverter-se-ia, de modo
que o lugar se converteria na idéia
reguladora do projeto. A este caminho alternativo, e suas conseqüentes determinações específicas que
se perfilam de modo especialmente
claro na chamada arquitetura da
paisagem, propomos denominá-lo
suburbanismo. (Tradução do autor)
74
Projeto urbano na metrópole: a alternativa da paisagem
O crítico francês reconhece que o paisagismo como disciplina teve historicamente o
subúrbio como lugar de experimentação –“a pátria histórica da arquitetura da paisagem, o lugar desde o qual esta disciplina tem contemplado o mundo e afrontado sua
transformação”- e, por esse motivo, as reflexões teóricas e instrumentais produzidas
no campo do paisagismo poderiam compreender melhor as novas configurações do
que o urbanismo, que permanece vinculado à ideia de cidade centro.
O neologismo suburbanismo aponta para um terceiro estado do território que o autor
identifica entre a cidade e o campo e que, segundo Marot, será o âmbito mais importante onde os profissionais desenvolverem seu trabalho. Fundamentalmente, o conceito de suburbanismo aponta para o substrato das práticas do planejamento, pois
apresenta o sítio, o assentamento ou a paisagem como as grandes infraestruturas
cujo sentido perpassa todo o projeto4.
Para outros autores, este retorno ao lugar e às qualidades do sítio teria seus fundamentos nas preocupações contemporâneas com a perda de identidade ocasionada
pela globalização. A ideia que o substrato de suporte do projeto, o lugar, contém
uma história, uma memória e um “espírito” que o projeto não só deve revelar como
interpretar, já tem sido explorada pela fenomenologia. O conceito de genius loci5,
desenvolvido por Norberg Schulz nos anos 80, encontra ecos contemporâneos nas
tentativas de outorgar à paisagem a capacidade de se opor às tendências homogeneizantes dos processos de globalização. A internacionalização dos mercados e das
forças de produção do espaço estariam gerando paisagens “genéricas”, indiferentes
às particularidades físicas e culturais próprias de cada lugar. Depois das formulações
teóricas para uma arquitetura regional crítica, Keneth Frampton assinala o poder da
paisagem como único instrumento passível de oferecer resistência ao implacável
“aplanamento de lugares e culturas” (Shannon, 2004).
The dystopia of the megalopolis is already an irreversible historical
fact: it has long since installed a new way of life, not to say a new
nature… I would submit that instead we need to conceive of a remedial landscape that is capable of playing a critical and compensatory role in relation to the ongoing, destructive commmodification
of our man-made world (Frampton apud Shannon, 2004)6.
Confere-se assim à paisagem a capacidade de equilibrar as tendências negativas
dos efeitos globais. Kelly Shannon, ao estudar as possibilidades de tal abordagem
fora do contexto ocidental7, defende que estratégias projetuais que reforcem e garantam a diversidade e qualidade da paisagem existente, atuam como ativas ferra-
4_Quatro são as pistas que orientam o suburbanismo proposto
por Marot e que poderiam ser
interpretadas como uma orientação
metodológica. A primeira é a memória ou anamnese das qualidades
do lugar; a segunda, a visão do
lugar e do projeto como processos,
mais que como produtos; a leitura
em espessura e não somente em
planta e, finalmente, o pensamento
relativo: uma concepção do lugar
ou de projeto como campo de
relações mais que como disposição
de objetos (Marot, 2006).
5_Norberg-Schulz, Christian,
Genius loci: Towards a phenomenology of architecture, Rizzoli, New
York, 1980.
6_A distopia da megalópole é um
fato histórico irreversível: tem já por
muito tempo instalado uma maneira
de vida nova, por não dizer uma
natureza nova… Eu submeter-meia que preferivelmente nós precisamos conceber uma paisagem
corretiva que fosse capaz de jogar
um papel crítico e compensatório
com relação à mercantilização destrutiva em curso de nosso mundo
sintético. (Tradução do autor)
75
Projeto urbano na metrópole: a alternativa da paisagem
mentas operativas para resistir às forças homogeneizantes dos processos urbanos
contemporâneos (Shannon, 2004).
Na introdução do livro “Recovering Landscape”, James Corner (1999) outorga à paisagem um papel ativo e crítico na construção cultural. Corner quer afastar a noção
de paisagem de imagens pastoris ou puramente de preservação, colocando-a como
agente produtor de cultura.
The emphasis shifts from landscape as product of culture to landscape as an agent producing and enriching culture. Landscape
as noun (as object or scene) is quieted in order to emphasize
landscape as verb as process or activity. Here it is less the formal
characteristics of landscape that are described than it is the formative effects of landscape in time. The focus is upon the agency of
landscape rather than its simple appearance (Corner, 1999:4)8.
Como arquiteto paisagista, Corner está mais interessado no que a paisagem pode
fazer do que no que ela pode ser ou representar. O foco está nos efeitos, nos processos que pode suscitar, na sua instrumentalidade estratégica. Nesse sentido, projeto de paisagem e projeto urbano assemelham-se, já que são pensados para poder
conduzir os processos de formação da cidade.
A natureza da cidade
Os debates sobre a convergência entre urbanismo e paisagismo não podem nos
iludir sobre a difícil tarefa de discutir a relação cidade / natureza. Os discursos muito
raramente escapam aos pares dicotômicos. Falamos da oposição natureza versus
cultura, natureza versus artifício, natureza versus cidade. Porém, inevitavelmente,
enquanto ideia a natureza –tanto como a cidade- não é nem universal, nem a-histórica, senão que, como assinala Corboz, a natureza é aquela que cada cultura define
como tal (Corboz, 2001). Como o nosso interesse concentra-se no urbanismo como
prática não pretendemos analisar em profundidade cada conceito, mas entender melhor como tem se expressado esta correspondência.
Três posturas podem ser observadas na relação histórica do par cidade-natureza.
Uma primeira que podemos nomear como de redenção, onde a natureza é vista
como fonte de tudo o que é bom e virtuoso contra a cidade que, por sua vez, é a
culpada da sua destruição. A natureza encorpada em um idealismo platônico é capaz
de nos salvar da alienação da cidade, podendo ser o paliativo para as doenças causadas pela vida urbana. Reconhece-se esta corrente tanto nas reformas higienistas
como reação aos efeitos da cidade industrial do século XIX e nos modelos de cida-
7_Analisa, descreve e oferece
leituras alternativas para três cidades no Vietnam, com o objetivo
de ampliar e testar os conceitos do
urbanismo-paisagista, até então
restritos ao mundo ocidental. A
pesquisa revela as tensões existentes entre uma milenar tradição
de relação com a terra -através das
paisagens produtivas arraigadas
no território- com as expectativas
de mudança trazidas pelo rápido
desenvolvimento de novos modelos
econômicos. Ver “Rethorics and
realities, adressing landscape
urbanism. Three cities in Vietnam”.
Unpublished thesis, KULeuven,
2004.
8_A ênfase desloca se da paisagem como produto da cultura para
paisagem como agente produzindo
e enriquecendo à cultura. Paisagem enquanto substantivo (como
objeto ou cena) é abandonado a
fim de enfatizar paisagem como
verbo, como processo ou atividade.
Aqui são menos as características
formais da paisagem que são descritas do que são os efeitos performativos da paisagem no tempo.
O foco é na agência de paisagem
em vez de sua simples aparência.
(Tradução do autor)
76
Projeto urbano na metrópole: a alternativa da paisagem
de jardim, como em alguns discursos dos ecologistas radicais contemporâneos. Em
ambos os casos natureza e cidade se mantêm como antagônicas, uma redentora da
outra. Esta concepção da natureza produziu (e continua produzindo) reações antiurbanas, alimentando a falsa ideia que uma vida “em contato com a natureza” poderia
trazer benefícios tanto morais como ecológicos, quando a realidade só tem colaborado para a expansão nada sustentável da moradia suburbana. David Harvey, um
grande crítico desta visão da ecologia, aponta os perigos na romantização da volta a
um tipo de “comunitarismo ruralizado” como modelo ideal de organização social:
This predominant anti-urbanism is as odd as it is pernicious. It is
almost as if a fetishistic conception of “nature” as something to be
valued and worshipped separate from human action blinds a whole
political movement to the qualities of the actual living environments
in which the majority of humanity will soon live. It is, in any case, inconsistent to hold that everything in the world relates to everything
else, as ecologists tend to do, and then decide that the built environment and the urban structures that go with it are somehow outside of both theoretical and practical consideration. The effect has
been to evade integrating understandings of the urbanizing process
into environmental-ecological analysis (Harvey, 2000:38)9.
Estas linhas de pensamento estão impregnadas tanto da teoria do desígnio divino
(tudo o que Deus fez é perfeito) quanto da concepção idealista do funcionamento
da natureza fundada nas teorias clementsianas10 (Terradas, 2003). Tais teorias têm
alimentado a ideia de que o laissez faire da natureza levaria ao clímax dos ecossistemas, e qualquer mudança deste cenário é considerada uma degradação, razão do
incentivo a um preservacionismo extremo.
Podemos chamar a segunda postura na concepção da relação cidade/ natureza
como de controle e dissociação. Nesta acepção, o homem, através da razão e do
desenvolvimento tecnológico, é capaz de domesticar a natureza bem como de imporlhe uma nova ordem. A natureza é entendida como fonte de recursos que o homem
pode usufruir, não tendo outro valor que aquele medido pela sua utilidade de consumo, seja econômico, social ou estético. Esta visão caracteriza-se por certa ignorância dos valores ecológicos próprios dos sistemas naturais e dos processos que
os atravessam. Se pudermos chamar a postura anterior de naturalista radical, esta
seria o seu oposto, culturalista. O antagonismo entre cidade e natureza se mantém,
só muda a figura dominante. A “tabula rasa” talvez seja o paradigma modernista que
melhor exemplifique esta relação na cidade. Mesmo que tenha permanecido mais
como estereótipo do urbanismo CIAM do que como real “modus operandus”, a ideia
9_Este anti-urbanismo predominante é tão estranho como pernicioso.
É quase como se uma concepção
feiticista da “natureza” como algo
a ser avaliado e adorado separado
da ação humana cega todo um
movimento político das qualidades
reais dos ambientes nos quais a
maioria da humanidade viverá logo.
É, em todo caso, inconsistente sustentar que tudo no mundo se relaciona com tudo, como os ecólogos
tendem a fazer, e então decidir que
o ambiente construído e as estruturas urbanas que vão com ele estão
de algum modo fora de ambas as
considerações teórica e prática. O
efeito tem sido iludir compreensões
integrais do processo de urbanização na análise ambiental-ecológica.
(Tradução do autor)
10_Clements, ecólogo do princípio
do século XX, defendia a ideia
da comunidade vegetal como um
superorganismo e a dinâmica da
vegetação como um processo autoorganizativo, determinista, direcional comparável ao crescimento de
um organismo e conducente a um
estado final, o clímax.
77
Projeto urbano na metrópole: a alternativa da paisagem
da tabula rasa pressupõe uma desatenção às particularidades do sítio. A estrutura
da cidade –o projeto- emerge assim dissociada dos valores fisicoambientais do lugar
onde ela é inserida (Farah, 2006). No conjunto de arranha-céus isolados e dispersos,
a natureza aparece como um grande parque que funciona como plano de fundo, um
contínuo verde indiferenciado e passivo. A paisagem já não cumpre mais o seu papel
histórico como extensão, como matriz para a arquitetura, mas serve simplesmente
como buffer vegetal entre edificações (Treib, 1999).
Paralelamente, esta mesma ignorância dos valores ambientais -mas também históricos- próprios de cada lugar, aliada à desmedida confiança na capacidade tecnológica
têm levado a um consumo excessivo dos recursos naturais. Os efeitos da expansão
depredadora que acompanharam o capitalismo levaram a revisões críticas neste final
do século com consequências para a cidade, como veremos mais adiante.
A terceira e última postura é a sistêmica. Natureza e cidade já não mais se veem
como opostas -nem complementares-, mas integradas num mesmo e único sistema.
Nem uma nem outra aparecem como dominantes, existindo uma constante negociação, uma imbricação que marca uma unidade indissolúvel. Na contemporaneidade
o oxímoro cidade-natureza é superado, a cidade é compreendida como inseparável
dos processos naturais que governam a vida sobre a terra: a cidade faz parte da
natureza (Hough, 1990). Como assinala Anne Spirn:
The city is a granite garden, composed of many smaller gardens,
set in a garden world. Nature in the city is the consequence of a
complex interaction between the multiple purposes and activities
of human beings and other living creatures and of the natural
processes that govern the transfer of energy, the movement of air,
the erosion of the earth and the hydrologic cycle. The city is part of
nature (Spirn, 1984:4)11.
A visão sistêmica rompe com antigas percepções dicotômicas que pensam a cidade
separada da natureza, apontando para um sistema integrado que envolve processos,
é dinâmico e está em constante mutação. Neste contexto, outras disciplinas, como a
ecologia e a ecologia da paisagem se vinculam ao urbanismo.
The lesson of ecology and landscape for urbanism is that we might
no longer simply see nature as something outside and remote
–fullness in the city, emptiness outside in nature- but now more as
an integrative system that is essentially soft and pliant adapting
in time. A soft system –whether wetland, city or economy- has the
11_A cidade é um jardim de granito,
composto de muitos jardins menores, num mundo jardim. A natureza
na cidade é a conseqüência de
uma interação complexa entre as
finalidades e as atividades múltiplas de seres humanos e de outras
criaturas vivas e dos processos
naturais que governam a transferência de energia, o movimento
do ar, a erosão da terra e o ciclo
hidrológico. A cidade é parte da
natureza. (Tradução do autor)
78
Projeto urbano na metrópole: a alternativa da paisagem
capacity to absorb, transform and exchange information with its
surroundings (Corner, 2003:116)12.
A questão ambiental
São várias as mudanças e os fatores que ajudam a vislumbrar a possível aproximação do paisagismo ao urbanismo. A urgência da questão ambiental é um deles.
Sem dúvida, desde o final do século XX temos evidenciado uma crescente consciência mundial sobre os efeitos da atividade humana sobre o planeta. A partir dos anos
70, encontros e seminários internacionais vêm alertando sobre o rápido consumo
dos recursos naturais e as graves consequências futuras, considerando o modelo de
desenvolvimento vigente. Uma nova ordem de preocupações ambientais: esquentamento global, desflorestamento, extinção de espécies, resíduos tóxicos, etc. têm chamado a atenção não só dos cientistas como do público em geral. Mudanças drásticas
e uma revisão dos estilos de vida tornam-se imperativos para um desenvolvimento
menos destrutivo e a garantia da sobrevivência das gerações futuras.
O relatório Our common future da Comissão Mundial de Meio Ambiente e Desenvolvimento das Nações Unidas - conhecido também como The Brundtland Report- estabeleceu, em 1987, as bases para colocar definitivamente na agenda política as preocupações ambientais dando forma ao conceito de desenvolvimento sustentável13.
Mais ainda, o relatório destacava a necessidade de uma ação coordenada global, já
que a interconexão e a interdependência entre as nações seriam inegáveis. Assentou as bases para a criação da Comission for Sustainable Development das Nações
Unidas e a adoção de um modelo de ações a nível internacional, nacional e local
denominado Agenda 21.
Desde então, ainda que com muitas ambiguidades, o conceito de desenvolvimento
sustentável tem atravessado todas as esferas da vida humana, e até parece encontrar consenso entre ideias e posições preconizadas. O resgate do planeta aparece
como um novo paradigma que elimina antigas dicotomias políticas e adquire um novo
consenso mundial (Anderson, 2008).
Para medir a capacidade dos ecossistemas da terra para abastecer nossa demanda atual Mathis Wackernagel14 desenvolveu uma ferramenta denominada pegada
ecológica ou ecological footprint. Este indicador mede a quantidade de terra e mar
biologicamente produtivos necessários para regenerar os recursos que uma população humana consome e para absorver e tornar inofensivo o lixo correspondente.
Utilizando esta avaliação é possível estimar quanto do planeta terra (e quantos pla-
12_A lição da ecologia e a paisagem para o urbanismo é que não
devemos já mais olhar a natureza
simplesmente como algo fora e remoto –cheio na cidade, vazio fora,
na natureza- mais como um sistema integrador que é essencialmente macio e flexível, se adaptando
no tempo. Um sistema macio -seja
brejo, cidade ou economia- tem a
capacidade de absorver, transformar e intercambiar informação com
o entorno. (Tradução do autor)
13_ “desenvolvimento que satisfaz
as necessidades do presente
sem comprometer a habilidade de
gerações futuras para satisfazer as
próprias necessidades delas”.
14_Wackernagel et al. 2006. The
Ecological Footprint of Cities and
Regions; Comparing resource
availability with resource demand.
Environment and Urbanization
18(1): 103–112.
79
Projeto urbano na metrópole: a alternativa da paisagem
netas terra) são precisos para atender a humanidade se todos vivem um determinado
estilo de vida. Segundo a Global Footprint Network, desde meados dos anos 80, a
humanidade está em ecological overshoot com uma demanda anual em recursos
que excede o que a Terra pode regenerar cada ano. Leva hoje um ano e quatro meses para reconstituir o que usamos em um ano15.
Claro que este consumo não é homogêneo. Este e outros estudos, como as análises
sobre as causas do aquecimento global, vêm invertendo a geografia mundial que até
pouco tempo classificava os países segundo o seu grau de desenvolvimento. Recentemente, a ordem de países mais ricos entrou na lista de países ecologicamente
devedores, já que eles dependem do crédito ambiental dos países mais pobres para
equilibrar a sua demanda de consumo.
A mesma análise pode ser trasladada à escala local urbana ou metropolitana para se
entender o alcance do custo ambiental de uma cidade no seu entorno imediato. Segundo Hough (1994), a sustentabilidade no contexto urbano implica que os produtos
e os sistemas de energia da vida urbana devem ser transferidos ao meio ambiente
como benefícios mais que como perdas custosas. Os trabalhos feitos pelo homem
deveriam ser desenhados para produzir ganhos líquidos em qualidade ambiental e
em qualidade de vida em geral. Circunscrever a sustentabilidade a questões quantitativas e de metabolismo energético tem sido fortemente criticado. A redução da
durabilidade da cidade à sua dimensão estritamente material tende a descaracterizar
a dimensão política do espaço urbano, desconsiderando a complexidade da trama
social responsável tanto pela reprodução como pela inovação na temporalidade histórica das cidades (Acselrad, 2001).
Só recentemente as cidades foram incluídas na agenda ambiental. Alcerad admite
que existe uma “ambientalização” do debate sobre políticas urbanas, ao mesmo tempo em que há também uma maior presença de questões urbanas no debate ambiental. As cidades exercem um papel capital na busca do desenvolvimento sustentável,
já que muitos dos problemas identificados no contexto global têm suas origens nas
cidades, nas quais se concentram a utilização dos recursos e a produção de bens.
Assim, o planejamento e gestão das cidades e as políticas públicas têm incorporado
a dimensão ambiental em temas como economia de energia, tratamento de resíduos,
destino das águas pluviais, saneamento, transporte e até mesmo na forma urbana.
Cidades sustentáveis, desenho urbano sustentável, são neologismos que o demonstram16.
15_http://www.footprintnetwork.org,
acesso em Agosto 2009.
16_Não é objetivo deste trabalho
discutir em profundidade os desdobramentos do desenvolvimento
sustentável para a cidade e o urbanismo. Para uma discussão mais
profunda ver a tese de Roberto
Anderson Magalhães, “A constituição de políticas públicas de desenvolvimento urbano sustentável”.
Projeto urbano na metrópole: a alternativa da paisagem
Urbanismo e ecologia
Os esforços para vincular a ecologia –parte da biologia que estuda a composição
e o funcionamento dos ecossistemas- com o urbanismo não são novos: desde os
anos 60 um grande número de pesquisas acadêmicas e trabalhos aplicados têm se
dedicado a esta junção.
Um trabalho considerado pioneiro é o de Ian McHarg. O já clássico livro “Design
with Nature” (1969) foi dos primeiros a defender a ideia que a ecologia deve estar
no fundamento das artes que projetam o ambiente. A proposta de McHarg implica
uma crítica ao planejamento que, nesse momento, era considerado exclusivamente um processo socioeconômico. Adiantando questões que anos mais tarde seriam
reconhecidas como fundamentais, tentou aproximar as ciências biológicas, físicas
e de ordenação do território. Para isto desenvolveu um método que consistia em
apreender os processos que configuram as paisagens, utilizando-os como alicerces
para o projeto. Para tal fim, o território era decomposto em camadas (layer-cake)
segundo um critério cronológico: começando por sua formação geológica; estudando
depois as condições meteorológicas, o que permitia uma reinterpretação das condições hidrológicas subterrâneas assim como da descrição física de sua geografia; em
seguida a hidrologia da superfície, a vegetação e a vida animal, para culminar com o
uso do solo. Esta representação em camadas facilitava uma explicação provisional
da área de estudo de maneira a compreender as dependências entre cada um dos
níveis de camadas, cada uma incrementando a explicação; tudo isso dava como
resultado o modelo descritivo biofísico. Este modelo permitia determinar as áreas
mais adequadas para um determinado uso e as mais desaconselháveis (McHarg,
[1969] 2000).
O trabalho de McHarg tem sido criticado, porém, por um certo determinismo ecológico e uma inegável nostalgia de uma paisagem pré-industrial. Seguidores de McHargh, os também paisagistas Ann Spirn e Michael Hough têm continuado seu legado e
introduzido novas colaborações. Especialmente Hough, na última edição de seu livro
Cities and natural process (1995) incorpora uma dimensão social que os trabalhos
anteriores desconsideravam. Chama a atenção para a cidade, sustentando que é
na cidade que se encontram as raízes dos problemas urbanos e regionais e onde
devem ser buscadas as soluções. A proposta é trabalhar não com a ideia de ambientes utópicos onde uma relação ideal com a natureza seja restaurada, mas com os
ambientes existentes, nos quais jazem as oportunidades e onde os esforços devem
se concentrar.
80
Projeto urbano na metrópole: a alternativa da paisagem
O autor canadense elabora uma série de princípios de desenho que constituem a
base teórica para uma integração entre urbanismo e ecologia:
- entender que a cidade como os ambientes naturais são o resultado de processos,
portanto contém uma temporalidade e um grau de imprevisibilidade com os quais
devemos trabalhar;
- alcançar máximos benefícios ambientais, econômicos e sociais com um mínimo de
recursos de energia;
- a diversidade tanto social como biológica enriquece os ambientes urbanos;
- perceber a conectividade entre o lugar e seu contexto, a biorregião onde é inserido,
ao mesmo tempo em que a compreensão da biorregião começa nos lugares locais;
- entender que as inter-relações entre a vida humana e a não humana devem acontecer no ambiente cotidiano onde moramos;
- o desafio do projeto é pensar não só como diminuir o impacto do desenvolvimento,
mas como ele pode melhor contribuir para o meio ambiente que modifica;
- tornar visíveis os processos é um componente essencial da consciência ambiental
e uma base indispensável para a ação.
De especial interesse para as regiões, e seguindo a tradição iniciada por Geddes,
Hough estuda a interdependência entre paisagem e forma construída e como,
através desta compreensão, podemos conceber a natureza como infraestrutura: o
grande elemento estruturador capaz de orientar a forma e o caráter do crescimento
urbano. Valorizando, vinculando e reorganizando vales de rios, florestas, alagados
e sistemas de parques naturais, a proposta é formar uma infraestrutura verde, uma
armação que suporte e dê sentido de identidade ao tecido urbano, ao mesmo tempo
em que contém o seu crescimento.
Mais recentemente, e paralelo ao desenvolvimento da fotografia aérea, um ramo
da ecologia tem aportado novos princípios à compreensão da estrutura, função e
dinâmica da paisagem, princípios que são aplicáveis ao desenho urbano e ao planejamento. Para este ramo da ecologia a paisagem se define como um mosaico de
unidades com uma determinada ordenação espacial, uma pauta que pode ser atribuída a causas físicas ou culturais e com frequência a ambas. Há sempre, dentro do
mosaico, processos básicos de transferência de matéria e energia em escala local,
regional ou global que dão suporte à vida (Terradas, 2003). A ecologia da paisagem
estuda a ecologia destes mosaicos – áreas homogêneas da paisagem- sem diferenciar áreas naturais das que são fruto de atividade humana. Tecido suburbano, áreas
de agricultura, deserto, floresta, todos são compreendidos como sistemas viventes
81
Projeto urbano na metrópole: a alternativa da paisagem
onde os princípios da ecologia da paisagem podem ser aplicados (Dramstad, Olson
e Forman, 1996). Três características descrevem uma paisagem:
- Estrutura: o padrão espacial, o arranjo dos elementos da paisagem.
- Função: os movimentos e fluxos de animais, plantas, água, vento, materiais e energia através da estrutura.
- Câmbio: a dinâmica ou alteração no padrão espacial e na função no tempo.
Uma paisagem em sistema é definida por fragmentos (patches), fronteiras, corredores e matrizes.
Fragmentos ou patches são entendidos como peças do mosaico que têm características homogêneas e apresentam certo grau de isolamento. Podem variar em
tamanho, localização e quantidade. Quatro origens são reconhecidas: remanescente
(áreas que remanesceram de áreas mais extensas, como florestas num campo de
agricultura), introdução (um novo desenvolvimento de moradia numa área de agricultura ou uma pequena pastagem numa floresta), distúrbio (uma área queimada numa
floresta ou um ponto devastado por uma tormenta) e recursos ambientais (alagados
numa cidade ou oásis no deserto).
Fronteiras ou edges são definidas como a porção externa do fragmento onde o
ambiente difere significativamente do interior. Sendo a borda reta ou curvilínea influencia o fluxo de nutrientes, água ou espécies ao longo ou através do fragmento. As
fronteiras também podem ser artificiais ou administrativas; coincidentes ou não com
as ecológicas, elas devem ser consideradas.
Corredores proveem conectividade. Vários processos dinâmicos causam isolamento e perda de biodiversidade. Os processos-chave que explicam este fenômeno
incluem: fragmentação (quebradura de grandes habitats em pequenos fragmentos
dispersos), dissecção (divisão de um habitat em dois, separados por um corredor),
perfuração (criação de buracos em um habitat intacto), encolhida (diminuição em tamanho de um ou vários habitats) e atrito (desaparição de um ou mais habitats). Face
à perda e isolamento dos habitats, os corredores podem contribuir para melhorar
a conectividade ligando fragmentos de habitats. Corredores também podem atuar
como barreiras ou filtros para o movimento de espécies, como rodovias, ferrovias,
linhas de tensão, etc. De excepcional importância, como corredores ecológicos, são
os rios e cursos de água.
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83
Projeto urbano na metrópole: a alternativa da paisagem
A matriz representa o ecossistema de base ou padrão de uso do solo. É determinada
por seu recobrimento extensivo, sua elevada conectividade e sua estabilidade funcional, na qual se encontram os fragmentos e corredores. A integridade estrutural e
funcional da paisagem pode ser avaliada em termos de padrão e escala. Corredores
se interconectam, formam redes e encerram outros elementos da paisagem. Por sua
vez, as redes têm vários níveis de conectividade, diferentes circuitos e tamanhos de
malha. O padrão comum é a fragmentação, que é considerado um dos processos
de transformação da terra que produz diminuição e isolamento do habitat. A escala
espacial na qual a fragmentação ocorre é importante para identificar estratégias para
lidar com a contínua perda de habitat (Dramstad, Olson e Forman, 1996).
No manual desenvolvido por Forman, junto com Dramstd e Olson, uma série simples de diagramas e textos explicam os princípios da ecologia urbana e como eles
podem ser aplicados em diferentes escalas; seja a macroescala ou escala regional,
a mesoescala ou escala paisagística e a microescala ou escala local-urbanística. A
multiescalaridade do enfoque paisagístico é o que revela a sua pertinência.
Cada escala, porém, permite observar coisas diferentes e tem associado um tipo de
fenômeno que se torna incompreensível quando contemplado demasiado de perto
ou demasiado de longe (Folch, 2003). Poder percorrer várias escalas permite relacionar uma intervenção pontual com seu contexto regional e vice-versa, corroborando
assim a legitimidade das ações e decisões. Essa vocação da paisagem, a habilidade
de mudar de escala, de localizar tecidos urbanos na sua escala regional e contexto
biótico, e de desenhar relações entre processos ambientais dinâmicos e forma urbana (Corner, 2006) são as suas qualidades mais relevantes.
FIII-1: Alguns princípios da Ecologia da Paisagem. Fronteiras. A)
Fronteiras vegetais com diversidade estrutural são mais ricas em
espécies animais. B) a largura da
fronteira de um fragmento difere
segundo a direção dos ventos. C)
Quando a fronteira administrativa
ou política de uma área protegida
não coincide com a borda ecológica natural, se distingue e pode
atuar como buffer atenuando o
efeito do entorno no interior da área
protegida.
Fragmentos. A) Um fragmento
ecologicamente ótimo provê várias
vantagens ecológicas e geralmente
tem uma forma de “nave espacial”,
com um core arredondado para proteger os recursos e uns dedos para
a dispersão das espécies. B) Um
fragmento orientado com seu eixo
principal de forma paralela à rota de
dispersão dos indivíduos terá menos
possibilidades de ser recolonizado
que um com seu eixo vertical.
Fonte: Dramstad, Olson e Forman
(1996)
84
Projeto urbano na metrópole: a alternativa da paisagem
A questão operacional. Quatro categorias para a abordagem paisagística
É reconhecido como fundamental – frente ao grau, velocidade e caráter das mudanças que se evidenciam- procurar a renovação das ferramentas e princípios projetuais. Como analisado anteriormente, diversos autores coincidem ao assinalar que é
na abordagem paisagística que podemos encontrar as capacidades para lidar com
a escala e a condição –aberta, espalhada, fragmentada- da urbanização contemporânea.
Com base nas discussões teóricas até aqui apresentadas, a intenção é elaborar um
quadro propositivo. As categorias operacionais delineadas podem ser vistas como
ferramentas, mas também como o vocabulário com o qual decifrar a complexidade do território urbanizado. A intenção é descobrir possibilidades de projeto e como
explorá-las, como e o que olhar. Elas não se pretendem exaustivas, mas pavimentar
um caminho, um set básico de princípios sobre os quais trabalhar. Camadas, Vazios,
Fronteiras e Processos são as quatro instâncias propostas para uma abordagem
paisagística da cidade contemporânea. Para cada uma delas, alguns projetos são
examinados para a melhor compreensão da operacionalidade de cada conceito.
Camadas: revelar o lugar
Ou como desconstruir a complexidade do território urbanizado
A natureza e o homem vêm depositando, ao longo do tempo, camada sobre camada,
os materiais e as ações que deram forma ao território. Todo exercício de projeto
pressupõe uma indagação e exploração que permitam revelar o sentido do lugar.
A posição do arquiteto tem sido comparada a de um arqueólogo quando o território
é concebido como o resultado de uma longa e lenta estratificação. Para uma intervenção inteligente, Andre Corboz postula o conhecimento do significado de cada
acidente, de cada camada. Para ele o território não pode ser entendido como um
campo operatório quase abstrato: um lugar não é um dado, mas consequência de
uma condensação (Corboz, 2001).
Mas o conceito arqueológico de estratificação não fornece –segundo Corboz- a metáfora mais apropriada para descrever esse fenômeno de acumulação. Sobretudo
porque não somente acrescentamos, também apagamos. Daí a semelhança com o
palimpsesto:
Le territoire, tout surchargé qu’il est de traces et de lectures passés
en forcé, ressemble plutôt à un palimpseste… Mais le territoire
n’est pas un emballage perdu ni un produit de consommation que
se remplace. Chacun est unique, d’ou la necessité de “recycler”,
de gratter une fois encoré (mais si posible avec le plus grand
17_O território carregado de
vestígios e leituras assemelha-se,
sobretudo a um palimpsesto...Mas
o território não é uma embalagem
perdida, nem um produto de consumo que se substitui. Cada um é
único, por isso a necessidade de
reciclar, de raspar mais uma vez
(se possível com grande cuidado)
o velho texto que os homens têm
inscrito sobre o insubstituível
material dos solos com o fim de
depositar um novo, que responda
às necessidades de hoje antes que
seja anulado por sua vez. (Tradução do autor)
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Projeto urbano na metrópole: a alternativa da paisagem
FIII-2: Rosa Kliass, inventario dos
aspectos da paisagem natural e
urbana de São Luis de Maranhão.
(Fragmento). Fonte: Kliass (2006)
FIII-3: Ian McHarg, método ecológico
para a bacia do rio Potomac. Neste
mapa, idoneidade para a urbanização. Fonte: McHarg ([1969], 1992)
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Projeto urbano na metrópole: a alternativa da paisagem
FIII-4: Paola Vigano. Água e asfalto. As camadas de hidrologia, figura-fundo e
redes de infraestrutura, revelam uma esponja isotrópica densa que integra agricultura, indústria e áreas de residência. Fonte: Vigano (2008)
FIII-5: Florian Beigel. A leitura e
decomposição em camadas do
sitio provê os materiais de projeto.
Leichterfelde Sud, Plano de infraestrutura urbana, o sítio e as arquiteturas. Fonte: Rosell (2001)
Projeto urbano na metrópole: a alternativa da paisagem
soin) le vieux texte que les hommes ont inscrit sur l’irremplacable
matériau des sols, afin d’en déposer un nouveau, qui réponde aux
nécessités d’aujourd’hui avant d’être abrogé à son tour. (Corboz,
2001:228)17.
A operação supõe a decomposição do território em capas, para isolá-las e estudá-las
individualmente. Deconstruir o território, compreendê-lo através desta redução da
complexidade em seus materiais concretos. Entender a lógica de cada camada, isoladamente e em relação com outras camadas de modo que possamos ver o território
de formas antes nunca vistas.
A decomposição em camadas pressupõe o território não como uma superfície plana
e homogênea, mas com a sua espessura e a sua densidade. Nesta perspectiva, faculta a leitura da história e dos eventos menos tangíveis que modelaram cada lugar,
assim como a sequência complexa das camadas materiais que compõem a paisagem: geologia, topografia, drenagem, etc., elementos que uma visão plana tende a
segregar, simplificar e suprimir (Marot, 2006).
O chamado método ecológico, iniciado por McHarg nos anos 60 -ponta de lança
para que o paisagismo e a ecologia integrassem o planejamento- foi pioneiro no uso
das camadas como ferramenta de análise dos componentes “naturais” do território.
Seguindo um método preciso a decomposição possibilitava: primeiro, compreender
a natureza como um processo interativo e dinâmico, em seguida, interpretá-lo como
um sistema de valores relativo e, por último, indicar os usos mais adequados ao solo.
O trabalho de McHarg se mantém no campo do planejamento estático do zoneamento, fornece as informações e os critérios que facilitam a tomada de decisões sobre
o inventário de possibilidades do “armazém” que é a natureza. Mas a forma como
essa informação pode ser interpretada projetualmente fica indefinida e pendente das
demandas, oportunidades e sobretudo das intenções.
No Brasil, Rosa Kliass tem utilizado o método Mchargiano no plano de paisagem
para a cidade de São Luis do Maranhão. A coletânea de mapas que descrevem aspectos da morfologia do lugar, da cobertura vegetal, do clima, da ocupação urbana,
etc., constituem um inventário dos vários aspectos da paisagem natural e urbana que
nas diferentes interfaces, conexões e superposições permitem detectar tanto tensões
-entre a expansão urbana e as fragilidades ambientais- quanto potencialidades existentes. O plano da paisagem classifica e identifica as unidades que conformam o patrimônio ambiental e cultural e as ações de adequação, consolidação, preservação e
expansão que concorrem para a sua revalorização. Mais ainda, o trabalho de Kliass
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Projeto urbano na metrópole: a alternativa da paisagem
se desdobra em um conjunto de propostas para planos e projetos específicos que
se agrupam em duas categorias: os projetos de requalificação de espaços urbanos
e os projetos paisagísticos do sistema viário. No contexto brasileiro, a experiência de
São Luiz do Maranhão se diferencia dos planos diretores que –como assinala Ruth
Verde Zein na introdução do livro sobre a obra de Kliass- tipificados em tabelas de
zoneamento apenas corroboram o status quo de um desenvolvimento disruptivo.
A decomposição em camadas permite, no caso do planejamento, valorizar um set
complexo de variáveis e favorece a tomada de decisões: onde ocupar, onde não
ocupar. Mas essa utilização é mais passiva, já que a relação com o projeto fica indefinida. O que nos interessa aqui resgatar é o momento em que a exploração se
FIII-6: Fragmento do Plano de
Roma de Nolli, 1748. Uma das
mais antigas descrições da cidade
através de seus espaços públicos.
Fonte: http://nolli.uoregon.edu/
FIII-7: Central Park, o vazio que
modela a cidade. Fonte: flirck
FIII-8: Frederick Olmsted. Plano do
sistema de parques The Emerald
Necklace, Boston.Fonte: www.
emeralknecklace.org
Projeto urbano na metrópole: a alternativa da paisagem
transforma em descoberta, deixa de ser uma descrição estéril e se converte numa
interpretação crítica.
No caso do estudo para a região do Vêneto, dos italianos Secchi-Vigano, por exemplo, a desconstrução das camadas forneceu os argumentos para a formulação de
uma hipótese sobre a condição dispersa do território. Segundo os autores, esta condição foi o resultado da presença de configurações de infraestrutura específicas, em
particular de uma esponja difusa e isotrópica de vias e canais. Num longo processo
histórico, diferentes “racionalizações” foram dando forma ao território: o centuriatio
romano (antiga divisão da terra), as diversificações e retificações de canais escavados na lagoa, os povoados de pescadores, os aterros, a construção de vias, rodovias, metrôs, etc. foram sendo superpostos uns sobre os outros, cada um criando
a sua própria paisagem. Sob esse aspecto, os arquitetos se questionam se essa
condição de isotropia é contemporânea e quais projetos poderiam interpretar hoje
essa tradição.
Em outros casos, a decomposição em camadas provê mais diretamente os materiais do projeto. No caso de Lichterfelde Sud, um projeto para integrar à paisagem
urbana um antigo terreno militar na periferia de Berlim, Florian Beigel pesquisa as
camadas do lugar para propor um marco arquitetônico. Desenha – segundo palavras
suas- uma “paisagem infraestrutural” que servirá para alojar as arquiteturas e que se
origina da leitura seletiva da história da paisagem em quatro camadas: a geologia,
componente horizontal formado pela sedimentação marinha; o padrão que deriva
dos cultivos agrícolas do século XVIII; as topografias artificiais com barreiras de defesa herdadas da cena militar; e a paisagem selvagem que por si mesma gera uma
nova diversidade ecológica. A composição surge como resposta à leitura histórica e
em profundidade do sítio, e a paisagem criada organiza, como num grande tapete, a
disposição das futuras edificações. Para Beigel, é na pegada histórica do lugar que
estão as substâncias e os valores que uma comunidade pode compartilhar e, assim,
formar uma trama coerente numa paisagem contemporânea caótica e diversa.
Espaços livres: a armadura da cidade
Ou de como abordar a situação dispersa e fragmentada.
A segunda categoria aponta para os espaços não construídos e explora o potencial dos espaços urbanos livres para dar inteligibilidade à cidade contemporânea.
Numa inversão da abordagem tradicional da cidade –através da forma construída,
do cheio- esta categoria operacional chama a atenção para o seu negativo, os espaços de omissão.
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Projeto urbano na metrópole: a alternativa da paisagem
FIII-9: Rem Koolhaas. Projeto para
a ville nouvelle de Melun-Senart.
A garantia da qualidade do espaço
urbano resulta de seus sistema de
espaços livres. Em vez de projetar
sobre a paisagem, o projeto se
deduz dela. A) Preexistências:
florestas, povoados, autopistas e
a linha de TGV. B) O novo vazio
desenhado para obter o máximo de
situações diversas e complexas. C)
O plano síntese. Fonte: Koolhaas
(1995)
Projeto urbano na metrópole: a alternativa da paisagem
Espaços urbanos livres, vazios, interstícios, terrain vagues, espaços de reserva da
natureza, etc. constituem o renovado vocabulário da cidade contemporânea. A realidade urbana já não se apresenta mais como uma cidade central e compacta, mas
como um território urbanizado expandido. O núcleo original vem crescendo e se espalhando, incorporando na sua expansão urbanizações antigas, mas também novas
ilhas que saíram da cidade, misturando-se com fragmentos rurais remanescentes,
lotes industriais obsoletos, espaços de logística e comércio, etc. Nesse caleidoscópio
que é a cidade contemporânea os espaços residuais que foram ficando entre os fragmentos e as infraestruturas, os espaços abandonados e em desuso, os interstícios
configuram um conjunto latente à espera de serem incorporados e valorados.
Por um lado, os espaços não construídos, ou seja, os espaços livres, os quais pertencem à tradicional interpretação da cidade na dependência entre cheio e vazio, figura
e fundo. Aos clássicos espaços livres como vias, parques e praças somam-se, na
escala metropolitana, as áreas da natureza, costas e bordas de rios e outras áreas
protegidas por seus valores ambientais. Mas também os fragmentos rurais e outros
terrenos que, por legislação ou por dinâmicas econômicas permanecem sem edificação. Cada vez em menos quantidade e menores em tamanho, os espaços livres
são distribuídos irregularmente no território urbanizado e sofrem constantemente a
ameaça de ocupação.
Mas existe ainda uma categoria mais recente de espaços livres que se define não
por oposição ao espaço ocupado (construído), mas pela sua condição de uso. Os
“vazios por esvaziamento” (Borde, 2007), terrenos ou prédios sem uso, desocupados
ou subutilizados, são produtos das dinâmicas mais modernas de transformação econômica e desindustrialização. Eles instauram um tipo singular de espaços livres, que
tem despertado nos últimos anos uma especial reflexão teórica e projetual.
Ignasi de Sola Morales denomina estes lugares de terrain vagues, encontrando no
enunciado francês a sua melhor expressão polissêmica. Terrain no sentido de extensão de terra, terreno, mas também na sua condição expectante, potencialmente
aproveitável. Vague em sua tripla significação de wave (oscilante), vacant (vazio) e
vague (indefinido) (Sola Morales, 2002).
Aeroportos desativados, áreas industriais abandonadas, aterros sanitários obsoletos,
fábricas fechadas, bases militares em desuso, etc. trazem um novo set de problemas
e desafios ao desenho urbano que demandam revisões concretas sobre a forma de
serem incorporados. Como eles podem trazer benefícios sociais, culturais e ambientais? Sola Morales critica a atitude convencional do desenho urbano que consiste
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Projeto urbano na metrópole: a alternativa da paisagem
FIII-10: Emscher Park. Sistema de corredores verdes regionais interliga os
terrenos reciclados e conecta povoados existentes. Detalhe Duisburg Noord, um novo parque cultural integra as arquiteturas industriais. Projeto de
Peter Latz and Partners. Fonte: www.landschaftspark.de
FIII-11: Rosa Kliass. Parque da
Juventude, São Paulo. Fonte:
Kliass (2006)
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Projeto urbano na metrópole: a alternativa da paisagem
em integrar estes espaços na trama produtiva da cidade, e invoca uma intervenção
que resista aos ditames da eficiência e admita a continuidade da memória e o tempo
histórico da cidade “sem cancelá-lo nem imitá-lo”.
Uma linha recente de projetos procura dar legibilidade ao território através da articulação dos espaços livres. A estratégia se baseia em conformar um sistema estruturador em grande escala, que possa agregar um novo valor aos espaços livres. Tardim
(2008), quem na sua pesquisa tem testado uma tal abordagem para o Rio de Janeiro,
reconhece nos espaços livres o componente funcional e espacialmente mais flexível.
São os lugares mais frágeis e os mais promissores tendo em conta a possibilidade
de reestruturação do território, já que podem assumir algumas funções importantes,
por exemplo, como lugar dos ecossistemas, da percepção da paisagem e como lugar
possível para o futuro da ocupação urbana (Tardim, 2008).
Assim, um grande potencial para estruturar a metrópole consiste em trabalhar sobre
os espaços livres, dando-lhes continuidade, articulando- os num sistema de suporte
que outorgue coerência e qualidade ao tecido construído.
Esta estratégia reinterpreta na escala metropolitana as experiências de sistemas de
parques já desenvolvidas nos EEUU no século XIX. O sistema de parques The Emerald Necklace, em Boston, é um dos primeiros exemplos da articulação de peças de
espaços livres em sistema. Uma combinação de parques, park-ways e bulevares
-desenhados para a cidade de Boston em 1877, por Frederick Olmsted- forma uma
sequência de espaços verdes que se estendem em semicírculo por mais de 11 quilômetros. Incorporando o Muddy River e uma série de lagoas, o parque foi também
concebido como mecanismo de controle das inundações, e significou a remodelação
de uma antiga área de brejos. Nessa medida, o parque se multiplica em dimensões,
além dos fins sociais e recreativos atua como depositário de infraestruturas de mobilidade e de controle de enchentes, catalisa ou qualifica o desenvolvimento urbano e
traz inúmeros benefícios ambientais (climáticos e de biodiversidade).
Com a ironia e a inteligência que distinguem a obra de Rem Koolhaas, a estratégia de
articular espaços livres ganha ares de manifesto no concurso para a ville nouvelle de
Melun-Senart, na França. Cético em relação às possibilidades de controlar a qualidade do desenvolvimento urbano contemporâneo, Koolhaas propõe aferrar-se ao único
que considera absolutamente possível: o não-construído.
The built is now fundamentally suspect. The unbuilt is green, ecological, popular. If the built – le plein – is now out of control – subject
to permanent political, financial turmoil – the same is not yet true of
18_O construído é agora fundamentalmente suspeito. O não-construído é verde, ecológico, popular.
Se o construído – o cheio - esta
agora fora do controle - sujeito à
agitação política, financeira permanente – o mesmo não é ainda
verdadeiro para o não-contruído;
a nada pode ser o último assunto
de certezas plausíveis. (Tradução
do autor)
Projeto urbano na metrópole: a alternativa da paisagem
the unbuilt; nothingness may be the last subject of plausible certainties (Koolhas, 1995:974)18.
Assim, o projeto para a nova cidade se ocupa em definir a locação e a qualidade dos
lugares que devem permanecer livres, deixando um arquipélago de ilhas –o resíduoque poderia ser desenvolvido independentemente, segundo a demanda de lugar e o
programa no tempo. A única garantia da qualidade do espaço urbano –beleza, acessibilidade, serenidade e identidade- está no seu sistema de espaços não-construídos
sem importar, ou a despeito de suas arquiteturas (Koolhaas, 1995).
Numa acepção inversa, em vez de projetar sobre a paisagem Koolhaas e sua equipe
escolhem deliberadamente deduzir o projeto dela. O projeto, nessa perspectiva, resgata alguns dos elementos existentes, florestas, povoados, autopistas e a linha de
tgv e sobre este inventário de preexistências, bandas de espaços livres são desenhadas para obter o máximo de situações diversas e complexas. O resultado formal, um
hieróglifo chinês, é a síntese da estrutura que dá suporte e sentido à nova cidade.
Outro exemplo que não podemos deixar de mencionar, por ser uns dos primeiros a
abordar a reutilização de areas em desuso numa escala regional, é a experiência de
Iba Emscher Park, no vale do Ruhr, na Alemanha. Desenvolvido como exposição internacional e comprometendo 17 municipalidades, o projeto significou a regeneração
econômica e ecológica de uma área de 800 km², atingindo 3 milhões de pessoas.
Em uma área seriamente afetada pelo declínio da indústria metalúrgica e mineira, o
projeto se estruturou sob o lema Câmbio sem Crescimento (Change without Growth)
e baseou-se em quatro fundamentos: reutilizar os terrenos para prevenir a exploração adicional de “greenfields” ou terras ainda sem ocupação; estender a vida dos
prédios existentes através de estratégias de modernização e reuso; incorporar práticas ecológicas de construção para novos prédios e reuso adaptativo, e transformar a
estrutura produtiva da região com métodos mais responsáveis ambientalmente.
Dentre a complexidade e a diversidade de projetos iniciados para abordar diferentes aspectos da regeneração (sociais, econômicos, ecológicos), o que nos interessa
ressaltar é o papel da paisagem. O conceito de “parque” deu unidade à intervenção,
sendo o componente ambiental um dos grandes pilares do projeto regional. Seguindo
velhos caminhos e trilhas industriais, um novo conjunto de corredores verdes regionais interliga os grandes terrenos reciclados das minas de carvão e indústrias inativas formando uma rede de espaços abertos reconectando povoados. A reciclagem
da paisagem industrial num novo tipo de parque recreativo-cultural significou uma especial reflexão sobre a preservação da memória sem congelamento, transformando
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95
Projeto urbano na metrópole: a alternativa da paisagem
grandes estruturas, depósitos, gruas e prédios para atender novos usos. A retomada
casual da natureza foi valorizada junto com outros processos que encetaram, guiaram e monitoraram a descontaminação e a reabilitação da paisagem degradada.
No contexto brasileiro, um caso relevante de intervenção paisagística em vazios urbanos é o Parque da Juventude em São Paulo, dos arquitetos Aflalo, Gasárini e Kliass.
O parque ocupa 24 hectares das antigas instalações de um complexo penitenciário e
faz parte de uma série de intentos do governo para recuperar áreas degradadas ao
longo da várzea do rio Tietê. Organizado em três setores (desportivo, central e institucional) o projeto logrou inserir um importante espaço recreativo numa área densa
e carente de espaços verdes. Também neste caso, a integração das preexistências
(ruínas de antigas instalações) como da vegetação que espontaneamente vem colonizando o lugar, fazem parte das intenções do projeto.
Fronteiras: o espaço das trocas
Ou de como trabalhar entre cidade e natureza
Esta categoria operacional supõe resgatar as interfaces da metrópole. Interface, bordas, limites, ecotono referem-se aos espaços de contato entre partes diferentes do
sistema urbano. As interfaces podem ser naturais ou construídas, físicas ou sociais.
Aqui utilizaremos o termo para referir-nos especificamente aos espaços de mediação
entre natureza e cidade.
Num contexto de crescente urbanização, os limites que antigamente separavam o
mundo rural/ natural do urbano são contestados. Embora essa afirmação deva ser
revista para cada contexto19, não podemos negar o fato de que hoje essa fronteira se
dilui, torna-se uma entidade fragmentada. A fronteira externa se desmancha, aparecem múltiplas fronteiras internas, já não mais reconhecemos um espaço cidade-dentro e um outro cidade-fora, mas vários espaços “entre” os núcleos de urbanização.
Ao lado de, entre (in betwwen), no limite de, ao longo de, as fronteiras remetem a
uma ideia de intervalo, interrupção, descontinuidade.
Mas, para além da sua definição em relação à posição, as interfaces referem-se a
uma indeterminação, a uma expectativa. Alain Berger resgata a sua condição de
indefinição ao apontar as fronteiras como espaços liminares. Liminar quer dizer que
está em posição (espacial, temporal ou outra) inicial, limítrofe ou de passagem. Descreve alguma coisa que vive em transição e ilude a classificação, que resiste à nova
estabilidade e reincorporação. Os espaços “entre” da cidade espalhada são liminares
19_Poderíamos argumentar que,
no caso do Rio de Janeiro, a presença de uma geografia particular
torna a coexistência entre o mundo
natural e o urbano inevitável, iludindo categorias de natureza “fora” e
cidade “dentro”.
96
Projeto urbano na metrópole: a alternativa da paisagem
FIII-12: Michel Desvigne. Planta geral das intervenções paisagísticas
propostas para a cidade de CergyPontoise. Detalhe da proposta para
a interfase com o rio Olsen. Fonte:
Desvigne (2009)
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Projeto urbano na metrópole: a alternativa da paisagem
FIII-13: Parque do Flamengo, Rio de Janeiro. A criação de
uma nova interface entre o mar e a cidade. Fonte: Instituto
Moreira Salles
porque permanecem nas margens esperando um desejo da sociedade de inscrevêlos com valores e status (Berger, 2006).
Do ponto de vista ecológico, aprendemos que as interfaces ou ecotonos são os espaços de maior riqueza biológica. O termo ecotono identifica a solução de continuidade
de um habitat, traduzida no câmbio espacial de um ecossistema para outro: em ambos os lados do ecotono se estabelece uma zona de fronteira. Segundo Ruben Pesci, estas são as áreas de maior intercâmbio de energia, matéria e informação, sendo
portanto sítios privilegiados para compreender os ciclos da natureza e sua complexidade sistêmica. (Pesci, 2003). Os ecotonos operam como filtros e, dependendo de
suas características (bordas bruscas e retilíneas, irregulares ou graduais), varia a
sua permeabilidade e a sua diversidade. Mas também são lugares privilegiados que
o homem tem escolhido –pelas suas próprias características- para viver.
En el enorme cambio de escala actual de los sistemas sociales,
con sus consecuencias en las grandes aglomeraciones urbanas, el respeto y el rescate de las grandes interfaces naturales
constituye la nueva frontera de los espacios abiertos de escala
multitudinaria. Podemos visualizar así, un territorio urbano superpuesto o entrelazado a una red natural perdurable, y en esa trama
compleja y diversificada recobrar calidad de vida, biodiversidad y
escala humana en cada fragmento, barrio o porción del sistema.
(Pesci,2003:111)20.
20_No enorme câmbio de escala
atual dos sistemas sociais, com
suas consequências nas grandes
aglomerações urbanas, o respeito
e o resgate das grandes interfaces
naturais constituem a nova fronteira
dos espaços abertos de escala
multitudinária. Podemos visualizar
assim um território urbano superposto ou entrelaçado a uma rede
natural perdurável, e nessa trama
complexa e diversificada recobrar
qualidade de vida, biodiversidade e
escala humana em cada fragmento, bairro ou porção do sistema.
(Tradução do autor)
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Projeto urbano na metrópole: a alternativa da paisagem
FIII-14: Parque nas margens do Rio
Gallego em Zuera, Espanha. Uma
fronteira flutuante que incorpora
os ritmos e variações da natureza.
Arq. Iñaki Alday. Fonte: Balcells
(2002)
Projeto urbano na metrópole: a alternativa da paisagem
Refletir projetualmente sobre as fronteiras implica em reconhecer a importância das
interfaces entre o tecido urbano e os sistemas naturais que atravessam a metrópole como lugares privilegiados de intervenção. São espaços de mediação nos quais
podemos pôr à prova uma renovada relação sustentável, o entendimento dos ritmos
e ciclos da natureza, mas também a possibilidade de criação de um novo tipo de
espaço público.
O projeto para o Parque do Flamengo, na cidade do Rio de Janeiro no começo dos
anos 60, talvez seja um caso paradigmático na construção de interfaces cidade-natureza. A intervenção demandou uma obra de grande envergadura incluindo o aterro
proveniente das demolições no centro. A necessidade de melhorar as conexões entre
o centro da cidade e os crescentes bairros ao sul, foi a oportunidade para demonstrar como um projeto de infraestrutura pode transcender em dimensões urbanas e
paisagísticas.
Resultou na criação de um park-way de sete quilômetros de extensão; um espaço
intermediário “entre” a cidade e o mar, acomodando as pistas tanto para a circulação
veloz dos veículos como das suaves conexões para os pedestres. Lânguidas pontes
esculturais fazem as ligações entre a cidade e o novo espaço recreativo e contemplativo na frente marítima. Burle Marx, encarregado do desenho dos jardins, logrou
construir uma segunda natureza sem ser mimético, compondo diferentes atmosferas
como “quartos” ao longo do parque, sempre integrando a flora nativa. O parque incorporou programas inovadores na época para parques urbanos, campos de futebol,
pista de dança, aeromodelismo, etc. Conseguiu resolver questões técnico-funcionais
de mobilidade, valorizou o crescimento do entorno urbano, mas, sobretudo, transformou-se num lugar único de trocas culturais, sociais e ecológicas.
A reabilitação da costa do rio Gallego em Zuera, Espanha, é um excelente exemplo
para ilustrar as possibilidades de intervenção nas fronteiras entre cidade e natureza.
Neste caso, as margens do rio foram recuperadas para a cidade, que as utilizava
como monturo. O projeto envolveu, além de intervenções para garantir o correto tratamento das águas residuais, a construção de uma nova fachada, o estabelecimento
de novos acessos e usos recreativos que permitiram recriar uma nova articulação
entre a cidade e o rio.
A característica mais interessante do projeto, porém, é a forma dinâmica com que o
parque foi pensado, não só dando espaço, mas tirando partido das variações cíclicas
no volume d´ água e das diferentes configurações que o meandro do rio pode adotar.
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Projeto urbano na metrópole: a alternativa da paisagem
FIII-15: Field Operations. Projeto ganhador para Fresh Kills. O projeto concebido como matriz para processos. A estrutura da paisagem provê o suporte
para que sementes, biota, pessoas e atividades possam colonizar o lugar no tempo. Fonte: www.nyc.gov
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Projeto urbano na metrópole: a alternativa da paisagem
Nessa medida, a configuração do parque vai se modificando conforme os diferentes
terraços vão se inundando, tornando evidente a dinâmica fluvial.
Outro caso sugestivo é o projeto do paisagista Michel Desvigne para a cidade nova
de Cergy-Pontoise, criada nos anos 70 como cidade satélite de Paris. O projeto procurou dar inteligibilidade a uma cidade de baixa densidade, inacabada, mas com
expectativa de crescimento. A resposta do projeto foi diferente de um plano e buscou
inserir algumas estruturas paisagísticas que pudessem dar qualidade e favorecer
oportunidades de desenvolvimento urbano. O foco foi nas áreas de fronteiras: três
estudos de caso fundamentam a abordagem geral. Um primeiro sobre o oeste, frente
a uma depressão natural do terreno, onde o projeto foi pensado como um marco,
uma paisagem que estabelece a condição para o futuro. A proposta vincula pomares e fileiras arborizadas –em terrenos com controle institucional- com um tecido de
caminhos, promenades e campos que qualificam, e mais importante, preparam para
a expansão. Uma segunda estrutura foi pensada para a interface da cidade com o
espaço da autoestrada. Neste caso, um sistema de claros e florestas é concebido
para organizar o espaço comercial que comumente floresce sem nenhuma qualidade. Por último, junto ao rio Olsen, a paisagem proposta recria a relação da cidade
com o espaço aquático através da reconfiguração da água, uma espécie de laguna
paralela ao rio que permite novas acessibilidades e usos.
Desvigne concebe estas paisagens nas bordas não como limites formais rígidos,
mas como uma precondição para a formação da cidade. Os materiais, muitos deles
derivados da agricultura, são leves e permitem pensar o projeto em sua condição
temporal. Isto abre a discussão para a última categoria proposta: processos.
Processos: trabalhando no tempo
Ou como criar as condições para o futuro
Esta última categoria procura instaurar uma visão do lugar e do projeto mais como
processos do que como objetos, o que implica uma reflexão sobre como as coisas
funcionam no tempo e no espaço. Cada projeto deve assumir uma estratégia de
final aberto, como que preparando as condições para o futuro. Mais que uma solução final, sementes são plantadas, perguntas levantadas e potenciais estruturados
(Marot, 2006).
The principle is that the processes of urbanization –capital accumulation, deregulation, globalization, environmental protection and so
on- are much more significant for the shaping of urban relationships
that are the spatial forms of urbanism in and of themselves…The
emphasis on urban processes is not meant to exclude spatial form
21_O princípio é que os processos
de urbanização –acumulação de
capital, deregulação, globalização,
proteção ambiental, etc.- são muito
mais significativos para dar forma
às relações urbanas que as formas
espaciais do urbanismo neles... A
ênfase nos processos urbanos não
significa a exclusão da forma espacial senão que procura construir um
entendimento dialético de como se
relaciona aos processos que atravessam, manifestam e sustentamna. (Tradução do autor)
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Projeto urbano na metrópole: a alternativa da paisagem
bur rather seeks to construct a dialectical understanding of how it
relates to the processes that flow trough, manifest and sustain it.
(Corner, 2006:28)21.
Os exemplos de projetos que propõem a reabilitação de sítios contaminados se
transformam em oportunidades ideais para a experimentação do projeto em função
dos processos. Assim, a reconversão de “brownfields” requer tempos e técnicas
específicas. Como esses processos que limpam e descontaminam podem ser ao
mesmo tempo incorporados ao desenho e à forma da paisagem constituem um novo
desafio projetual.
A reconversão de “landfill to landscape” (de aterro à paisagem) do lixão desativado
da maior metrópole americana, os 8 mil hectares conhecidos como Fresh Kills, foi
objeto de um concurso internacional em 2001. A incorporação do parque reabilitado,
que duplica a oferta de espaço aberto de Staten Island, supõe uma obra pública sem
precedentes. Por sua parte, o concurso condensou uma importante reflexão sobre
a reincorporação destes sítios à paisagem, de forma análoga ao concurso para o
parque da Villete nos anos 80 em Paris.
Field Operations, a equipe ganhadora do concurso enfatizou a concepção do projeto
como uma matriz para processos, mais que como um desenho acabado e fechado. A
comunicação das ideias, através de diagramas que mostram a sequência de ações
pensadas para um espaço temporal de 30 anos e que preparam o sítio para que
aconteçam atividades, planejados ou não, resulta efetiva. Com o vocabulário em-
FIII-16: Michel Desvigne. Naturezas
intermédias. Projetos que permitem
a ocupação flexível em situações
de incerteza sobre a ocupação
urbana. Bordeaux, margem direita.
O parque é criado à medida que os
terrenos são liberados.
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Projeto urbano na metrópole: a alternativa da paisagem
prestado da ecologia, de fios, tapetes e ilhas, Corner e Allen constroem a estrutura
da paisagem que provê o suporte para que sementes, biota, pessoas e atividades
possam colonizar o lugar no tempo. O entrelaçado entre as sementes que são plantadas, a forma e o tempo em que processos ecológicos são gerados, as infraestruturas
inseridas e as atividades instigadas compõem um sistema integrado que se pretende
flexível e adaptável.
Trabalhar com a perspectiva temporal é sem dúvida um desafio do urbanismo contemporâneo. A incorporação de um certo grau de indeterminação e liberdade -sem
perder qualidade- permite uma melhor adaptação às incertezas e imprevisibilidades
que caracterizam a construção da cidade.
A prática do paisagismo está fortemente ligada à temporalidade. Ao contrário do que
acontece muitas vezes com a arquitetura, um parque alcançará o seu máximo esplendor não no momento da sua inauguração, mas após meses, anos até, quando
as espécies cheguem a crescer e madurar. A experiência será diferente segundo as
estações do ano, de acordo com as variações de cor, luz, umidade e floração. Algo
similar acontece no universo da agricultura, à qual a prática do paisagismo está muito
ligada, e que requer o manejo dos tempos: os tempos da coleta, a rotação de cultivos, os tempos de espera, etc. Michel Desvigne tem experimentado alguns destes
Lyon, proposta para a confluência
dos rios Rohane e Soane, rejeita
a ideia de um projeto totalizador
e propõe um processo gradual de
construção da cidade. Fonte: Desvigne (2009).
Projeto urbano na metrópole: a alternativa da paisagem
FIII-17: François Xavier Mousquet. Projeto Lagunage de Harnes. Paisagens que incorporam serviços ambientais, a criação de novas ecologias e novos
tipos de espaço público. Fonte: Arq. Mousquet
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Projeto urbano na metrópole: a alternativa da paisagem
conhecimentos que incorporam a ideia de duração ao processo de transformação
da cidade. O paisagista frances desenvolveu o conceito de “paisagens intermédias”,
uma estratégia que permite a ocupação flexível de terrenos em relação aos quais
pairam incertezas quanto à ocupação futura.
Os projetos estabelecem um plano flexível de plantação e criação de parques que
ocupam temporalmente o território em transformação enquanto perdurarem as incertezas. A paisagem, concebida como quadro estrutural para as arquiteturas, demonstra uma grande maleabilidade ao mesmo tempo em que agrega atributos positivos ao
lugar. No caso do projeto para Lyon, uma área abandonada de 150 hectares ao sul
da cidade, na confluência dos rios Rohane e Soane, que aguarda ser incorporada.
Um set complexo de condicionantes tornam um projeto totalizador de difícil implementação. O projeto de Desvigne desenvolve um plano que pode ir colonizando o
lugar e se adaptando aos diferentes tempos à medida que as indústrias se desativam
e que os terrenos são liberados, iniciando um processo que gradualmente constrói
a cidade e o desejo de habitá-la. A mesma estratégia foi utilizada em Bordeaux; um
parque linear ao longo do rio foi se constituindo, à medida que as terras iam sendo
adquiridas pelo município. Pomares e jardins temporários e permanentes se alternam na paisagem que expressa, na sua própria construção e estética, a ideia da
temporalidade.
Por fim, outra dimensão desta categoria operacional refere-se à gestão dos ecossistemas urbanos e como eles se manifestam na paisagem. A cidade é um conjunto dinâmico de processos sociais, econômicos, políticos e ecológicos em constante
mutação. Muitos dos processos que fazem parte da vida cotidiana são desconhecidos ou ignorados. Uma nova consciência de como são trasladados ao ambiente os
processos de intercâmbio de fluxos e energia da vida urbana traz também algumas
reflexões projetuais.
A questão de como as paisagens urbanas podem oferecer serviços ambientais faz
parte das mais recentes exigências do desenvolvimento sustentável. A incorporação
de agricultura urbana, a reciclagem de resíduos domiciliares, o manejo das águas
servidas, entre outros, trazem também um novo vocabulário projetual.
O projeto das lagunas de Harnes, na região de Pas de Calais, é um exemplo interessante do manejo dos processos do metabolismo urbano modelando a paisagem
e criando novos tipos de espaço público. O projeto do francês François Xavier Mousquet transforma um antigo território de extração mineral em um parque que recicla
águas servidas. O terreno situado entre o povoado e as margens do rio recebe as
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Projeto urbano na metrópole: a alternativa da paisagem
águas semidepuradas da planta de tratamento. Ao passar por um circuito de lagoas
a água é purificada através de um processo de fitorremediação. As plantas absorvem
os minerais remanescentes ao mesmo tempo em que criam uma nova paisagem
aquática. Os dispositivos técnicos –piscinões, canais, moinhos- são utilizados como
materiais do projeto, compondo uma paisagem nova e original, mas que permite a
reprodução do habitat natural. Um novo espaço público recreativo e educativo possibilita o conhecimento e o contato com os processos que sustentam a vida urbana.
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107
Sobre os mapas
04.Sobre os mapas
Um grande potencial para a compreensão do fenômeno urbano contemporâneo existe latente nas
operações de descrição do território. Este capítulo procura investigar de que forma descrição, representação e projeção estão dialeticamente relacionadas, e portanto, como, através da construção
e deconstrução de novas cartografias poderemos entender, descobrir, desemaranhar as lógicas que
dão forma ao território. Intentaremos também demonstrar como essa descoberta, contida no processo
mesmo de mapeamento, pode revelar a chave de intervenção no território e englobar a possibilidade
de um outro projeto urbano.
Já discutimos que, enquanto o mundo se urbaniza, a cidade como artefato e como
ideia parece cada vez mais difícil de ser apreendida. Paradoxalmente, a crise tanto
na representação como na projeção da cidade contemporânea acontece ao mesmo
tempo em que novas tecnologias de fotografia por satélite e sistemas de informação
geográfica proveem um infindável número de informações esperando ser interpretadas.
Superadas as visões positivistas que dominaram as ciências até o século XX, quando
a teoria da relatividade, a mecânica quântica e a psicanálise, entre outros eventos,
puseram em questão a pura e simples objetividade, entendeu-se que a realidade não
existe como verdade inquestionável, mas sim em função da observação, porquanto
a aparência do objeto depende sempre dos instrumentos utilizados para descrevê-lo
(Corboz, 2001).
A história cultural tem colaborado para a compreensão das representações não como
meras reproduções de uma realidade “dada”, mas como construções culturais, filtradas e elaboradas segundo as visões do mundo “encarnadas” em atores sociais de
um determinado momento. No caso da representação da cidade foi percebido que
as descrições da experiência urbana não são fruto dos câmbios físicos que a cidade
experimenta, mas, como assinala Sola Morales (Sola Morales, 2002), a percepção é
um fenômeno cultural e, portanto, essa representação está ligada aos valores que
cada cultura estabelece como primordiais num determinado momento histórico.
108
Sobre os mapas
Entre ferramenta científica e representação artística, os mapas têm sido historicamente um meio de expressão do modo de pensar e experimentar o espaço urbano.
Denis Cosgrove (Cosgrove, 2006) chama a atenção para as variações ao longo
dos séculos e identifica três dimensões dos mapas. A primeira é celebratória e aparece claramente nas representações dos centros comerciais emergentes do século
XV, uma imagem sintética e compreensiva de uma totalidade espacial e social, em
contraste com as expressões “outras” do descobrimento do selvagem mundo novo.
Esta dimensão se expressa hoje, por exemplo, no conjunto de mapas que servem de
promoção turística das cidades e de comunicação dos processos de planejamento.
Uma segunda dimensão é a analítica que se desenvolve com o aperfeiçoamento de
precisões instrumentais e acompanha a emergência do urbanismo como ciência.
São as cartografias da cidade que começa a evidenciar patologias, carecendo de
medidas de controle de seu crescimento. A crença nas visões panópticas e racionais
do espaço urbano trasladam para o mapa a capacidade de tornar legível e regular
a desordem material e social. Contrapõe-se a esta função reguladora e analítica a
terceira dimensão que é experimental. O exemplo arquetípico é aquele dos mapas
desenvolvidos nos anos 60 pelos situacionistas franceses1, que contestam a coerência do plano concebido pelos planejadores urbanos quando confrontado com a experiência pessoal e subjetiva da cidade. A “deriva”, a passagem rápida por ambiências
variadas permite, através da experiência, a apreensão do espaço urbano. Esta é uma
prática onde a cidade é concebida como uma performance artística.
Celebratória, de controle, ou experimental, a consciência hoje de que imagens cartográficas nunca são veículos inocentes de informação dissolve distinções claras entre
estas dimensões. Como assinala Cosgrove, espaço urbano e espaço cartográfico
permanecem inseparáveis, transformações em um ou outro alteram a sua relação.
O valor renovado das representações desloca o papel passivo da descrição como
“espelho” de uma realidade para a nova consciência que entende que a representação é ativa: ela não é um decalque, mas sempre uma construção. Assim, os mapas
enquanto construções culturais representam e constroem eles mesmos a realidade.
Parafraseando Roncayolo: A representação é ativa, não apenas “diz” a cidade, como
“faz” a cidade (Roncayolo, 1997).
Esse caráter performativo das representações abre novas possibilidades de ação
para os mapas, elevando o ato de descrever e mapear a um patamar também criativo, e dissolve a relação sequencial entre descrição –como atividade primeira e objetiva- e projeto, compreendendo ambas as atividades dialeticamente articuladas. Como
afirma André Corboz:
1_Para mais informação sobre
a Internacional Situacionista e a
psicogeografia ver o livro de Paola
Berenstein Jacques, Apologia da
deriva, Escritos situacionistas sobre
a cidade, Casa da Palavra, Rio de
Janeiro, 2003.
109
Sobre os mapas
…decrier consiste à (re)construire l’object ex novo après l’avoir
décontruit au moyen de l’analyse descriptive elle-même. La description est le lieu de conversion entre le reel brut –là-bas, dans
la “nature”- et le projet, lequel reste longtemps un être purament
mental. (Corboz 2001 p.252)2.
Corboz, quem tem contribuído para a compreensão da densidade do território, visto
por ele como um palimpsesto, uma superfície que é escrita e sobrescrita, raspada e
apagada, borrada e reescrita, estrato sobre estrato, situa a descrição como ponto de
passagem entre o mundo como leitura e o mundo como escritura. Ele verifica duas
posições opostas de intervenção na cidade e no território em relação à descrição. A
FIV-1: Plano de fundação da cidade
de S. Felipe de Santiago na ilha
de Cuba. Arquivo Geral das Índias,
M e P. Sto Domingo, 119. OrdeM
e caos. A regularidade da grelha
inserida no meio da floresta desconhecida do novo mundo. Fonte: de
Teran (1997)
FIV-2: The Naked City. Illustration de l’hipotèse des plaques
tournantes de Guy Debord 1957.
Decomposição cartográfica e a
geografia alternativa da deriva.
Fonte : Vitruvius
posição que poderia ser exemplificada com os princípios modernos do CIAM, onde
a manipulação criadora do arquiteto unifica descrição de projeto e descrição do território. No outro extremo, o ecologismo radical que vê o território como mensagem
e onde o sujeito é quase que eliminado pela iniciativa do objeto. Segundo Corboz,
no primeiro caso o território é reformulado como escritura, o projeto substitui-se ao
milieu, chapeia-se sobre ele. No outro, a intervenção nasce do milieu mesmo, o território se reformula como leitura.
Entre esses extremos radicais colocam-se as operações de descrição como negociação, como jogo, como diálogo necessário entre o que Soubeyran chamara de espaço
substrato (leitura) e espaço projeto (escritura).
2_Descrever consiste em reconstruir o objeto ex novo depois de
tê-lo deconstruído por meio de
análises descritivas mesmo. A
descrição é o lugar de conversão
entre o real bruto –lá, dentro da
natureza- e o projeto, que resta
por longo tempo um ser puramente
mental. (Tradução do autor)
110
Sobre os mapas
Assim, os mesmos autores reconhecem que não pode existir descrição sem uma
ideia prévia do território, ideia esta que é informada pela cultura. A descrição é intencional, procede de um propósito determinado, uma finalidade, ela é sempre função
de uma intenção implícita ou explícita.
Por isso a descrição é seletiva, já que separa, ressalta ou negligencia os caracteres
que ela determina. Como resultado da seleção, omissão, isolamento e codificação o
mapa permanece sempre como uma abstração.
Menos interessado no que os mapas significam e sim no que eles realmente fazem,
o arquiteto paisagista James Corner tem advogado pelo mapeamento como agente
ativo de intervenção cultural. Para ele, mapear nunca é uma ação neutra, passiva
ou sem consequência, pelo contrário, talvez seja o ato mais criativo e formativo de
qualquer processo de projeto, primeiro revelando e logo produzindo as condições
para a emergência de novas realidades. Corner lamenta a indiferença para com o
mapeamento, refutando a falsa ideia de que mapear consiste numa atividade analítica e não-imaginativa quando comparada com a suposta criatividade da atividade
de projeto, que ocorre depois que todos os mapas relevantes foram realizados. Pelo
contrário, para o autor, a importância da atividade de mapeamento deve ser entendida na sua capacidade performativa2, já que a base sobre a qual os projetos são
imaginados e executados deriva precisamente de como os mapas são feitos. As condições sobre as quais o projeto se desenvolve se originam com o que é selecionado
e priorizado no mapa, com o que é subsequentemente deixado de lado ou ignorado,
como os materiais são esquematizados, indexados e enquadrados, e como a síntese
do campo gráfico evoca conteúdos semânticos, simbólicos e instrumentais.
Mapping is neither secondary nor representational but doubly operative: digging, finding and exposing on the one hand, and relating,
connecting and structuring on the other. Through visual disclosure,
mapping both sets up and puts into effect complex sets of relationships that remain to be more fully actualized. Thus mapping is
not subsequent to but prior to landscape and urban formations. In
this sense, mapping is returned to its origins as a process of exploration, discovery and enablement. This is less a case of mapping
to assert authority, stability and control, and more one of searching,
disclosing and engendering new sets of possibility. Like a nomadic
grazer, the exploratory mapper detours around the obvious so as to
engage what remains hidden. (Corner 1999, p.225)4.
No final do século XX, vários arquitetos começaram a explorar essa capacidade criativa do mapeamento para a exploração das condições emergentes da cidade e do
3_O termo “performativo” é aqui
utilizado para reforçar o sentido de
dar-forma, fazer, atuar.
4_Mapear não é secundário nem
representacional, mas duplamente
operativo: cavando, encontrando
e expondo de um lado, e relacionando, conectando e estruturando
do outro. Através da exposição
visual, mapear constrói e efetiva
séries complexas de relações que
aguardam para serem atualizadas
plenamente. Assim, mapear não é
subseqüente, mas prévio às paisagens e formações urbanas. Neste
sentido, mapear retorna as suas
origens como processo de exploração, descobrimento e liberdade.
Este é menos um caso de mapeamento para afirmar autoridade,
estabilidade e controle, e mais de
buscar, revelar e engendrar novas
possibilidades. Como um pastor
nômade, o mapeador explorador
rodeia o óbvio para se envolver
com o que permanece escondido.
(Tradução do autor)
111
Sobre os mapas
FIV-3: Upside down map do artista
uruguaio Joaquín Torres Garcia,
desafiando as convenções cartográficas. “La escuela del sur”, foi
um grupo de artistas latinoamericanos que proclamaram o seu lugar
num mundo dominado pela cultura
ocidental. Fonte: Harmon (2004)
território contemporâneo. Bernardo Secchi descreve essas práticas como um revival
do que ele chama de urbanismo-descritivo, com a proliferação de inventários, atlas
e mapas de fragmentos urbanos/rurais e de grandes paisagens. Porém, para o urbanista italiano nem sempre estas práticas são efetivas, frequentemente diluindo a
atividade de planejar numa descrição estéril que contorna o novo sem revelá-lo. Para
Secchi, revelar algo novo é pré-requisito de uma descrição pertinente. A releitura
dos territórios, os desenhos interpretativos e a subsequente reescritura da linguagem
descritiva têm o potencial não só para desvelar o fazer histórico da nova forma urbana, mas oferecem chaves para a intervenção.
A seguir, procuramos revisar algumas dessas experiências, investigar os temas abordados, analisar o papel dos mapas em cada caso e como eles foram metodologicamente construídos, como também determinar as articulações com o projeto. A partir
dessa análise, tentamos traçar um percurso para nosso propósito: a construção de
uma leitura possível para o espaço metropolitano da América Latina, especificamente
para o Rio de Janeiro.
Mapas. Para além da representação
X-urbanismo e o texto urbano
Um dos primeiros trabalhos nesta linha foi o do arquiteto argentino residente nos
Estados Unidos, Mario Gandelsonas. No seu livro “X-urbanism” (Gandelsonas 1999),
ele propõe ler a cidade americana através de desenhos. Na busca de uma identidade própria, o autor se interessa pela história, mas também pelas relações entre plano
urbano e arquitetura.
112
Sobre os mapas
FIV-4: Los Angeles, Mario Gandelsonas. A escala colossal da grelha
de uma milha, as montanhas e
o oceano fazem o plano de Los
Angeles compreensível. Fonte:
Gandelsonas (1999)
Para ele, as cidades americanas sofreram nas últimas décadas do século XX transformações drásticas que deslocaram a ênfase da dimensão espacial, onde os dispositivos de ordem se empobreceram substancialmente, para a dimensão temporal,
onde novas e complexas estruturas ordenadoras foram introduzidas. O que o autor
chama de mutação x-urbana, que começa a acontecer nas cidades americanas nos
anos 70 e logo se alastra no resto do mundo, dificulta a articulação entre arquitetura
e cidade. A ausência de forma no plano (form-less) parece dominar, as preocupações
da arquitetura acabam no nível do edifício e as forças urbanas resistem a qualquer
intento de ver a forma arquitetônica imposta.
Nesse contexto, os desenhos urbanos foram produzidos como crítica ao papel tradicional dos desenhos de representação da cidade como uma realidade urbana.
Segundo Gandelsonas, eles foram propostos como articulação entre duas práticas
diferentes, entre duas superfícies discursivas diferentes –arquitetura e cidade.
Gandelsonas sugere radicalizar as “leituras” pós-estruturalistas iniciadas nos anos
60 (Lynch, Venturi e Denis Scott Brown) e deslocá-las para o lugar do plano, num processo que “abre o jogo da forma”, mas onde esta não é somente a forma percebida
da configuração física da cidade, mas uma construção textual (visual-discursiva).
What is the city if it can be represented by a text? And what kind
of text is the city? The textual metaphor opens up the question of
the city as memory (of its people) that is, the city as inscription of
both permanent traces and the possibility of erasure. (Gandelsonas
1999, p.66)5.
5_O que é a cidade se ela pode ser
representada por um texto? Que
tipo de texto é a cidade? A metáfora textual inaugura a pergunta
da cidade como memória (de sua
gente), a cidade como ambos, a
inscrição de traços permanentes e
a possibilidade de apagá-los. (Tradução do autor)
113
Sobre os mapas
Nos seus desenhos, Gandelsonas procura uma abstração gráfica que possa tornar
tangível essas tensões entre permanências e contingências. Por um lado, os mapas
trazem visibilidade às estruturas organizadoras da cidade e às lógicas internas de relação. O tema da grelha americana como dispositivo organizador em grande escala é
reiteradamente introduzido e investigado tanto quanto os elementos do plano que se
desviam da malha neutra. A coexistência de múltiplas configurações, grelhadas e não
grelhadas, se torna evidente num processo de desestratificação do plano e do tecido.
Por outro lado, se em um nível ocorre uma análise diferenciada do plano, num outro
nível a atenção volta-se para os “sintomas”, anomalias, distúrbios que interrompem a
ordem do “campo”, permitindo outras leituras.
Um processo de apagamento delimita o plano para criar camadas que podem superpor-se em formas diferentes para produzir sequências de desenhos. Os desenhos
são escritos como diálogos entre dois discursos, o plano ready-made que atua como
fundo contra o qual a escritura arquitetônica é inscrita. A atenção flutua entre descrição (depiction) e reescritura (ou escritura subordinada à leitura, ou leitura à escritura)
esfumando as diferenças. É um processo no qual arquitetura e cidade ocupam e
trocam posições de analista e analisando (aquele que é analisado), uma alteração
onde cada prática atravessa a outra superfície discursiva; a arquitetura atravessa o
discurso urbano e a cidade atravessa o discurso arquitetônico.
Por exemplo, na sequência de desenhos para a cidade de Los Angeles, Gandelsonas
contesta o caos comumente percebido da metrópole, e aponta um sistema complexo
de grelhas urbanas como tecidos urbanos, objetos ligados pela grande grelha de
FIV-5: Los Angeles, Mario Gandelsonas: As diferentes grelhas
urbanas e o bulevar Wilshire como
um quebra-cabeças sobre o plano
“real” da cidade. Fonte: Gandelsonas (1999)
FIV-6: Los Angeles, Mario Gandelsonas: Descrição tipológica das
diferentes paisagens urbanas ao
longo do bulevar. Fonte: Gandelsonas (1999)
114
Sobre os mapas
uma milha de fundo. Numa escala, grelha, montanhas e oceano tornam o plano compreensível. Numa outra, a malha territorial funciona como cola entre as diferentes
cidades. Os desenhos explicitam os diferentes modos de relação entre as grelhas da
cidade e os bulevares. Estes últimos são identificados como contentores de fluxos
de energia, conectores entre os vários elementos. Inúmeros estudos morfológicos do
bulevar retratam as diversas paisagens resultantes do encontro do bulevar com os
bairros que ele atravessa.
No caso do estudo de Boston, o mesmo processo de decapagem (delayering) revela
organizações ocultas no plano da cidade. Os desenhos apresentam Boston composta de duas partes. Cabeça –alternando setores de tecido urbano e “fields”, campos
abertos com ou sem prédios- e pescoço –resultante da superposição de diferentes
grelhas. Porém, Gandelsonas mostra como a estrutura radioconcêntrica original é
a força organizadora dos principais elementos urbanos de Boston e da ordem, seja
quanto ao tecido, seja quanto aos edifícios-objeto. Diferentes desenhos decompõem
o plano e expõem as ruas radiais versus às circunferenciais. Outros se focalizam nas
áreas de distúrbio entre a estrutura radioconcêntrica e a grelha ortogonal, definidas
como áreas intersticiais, espaços residuais.
O deslocamento da cena de leitura como o ponto de partida para o processo de escritura arquitetônica, onde a leitura da cidade não busca uma representação exata, mas
é o início de um processo de inventar uma nova cidade, inaugura novas questões
sobre a cena de escrever, sobre a sua posição histórica, sobre a necessidade de
construção de um novo lugar.
FIV-7: Boston, Mario Gandelsonas.
Num processo de decapagem
(delayaring), o plano das ruas reais
é abandonado e só os elementos
estruturais são descritos. Fonte:
Gandelsonas (1999)
115
Sobre os mapas
Gandelsonas se preocupa em diferenciar a capacidade transformadora de seus desenhos urbanos da atividade de mapear, descrita por Michel de Certeau como uma
das políticas da prática da cidade: o mapa do geógrafo versus o mapa dos trajetos
das pessoas ordinárias. Para o autor, os desenhos urbanos são concebidos como
parte de uma prática capaz de transformar a cidade e não tomando a cidade como
lugar para o desenvolvimento de táticas da vida cotidiana.
Nesse sentido, os mapas não só expandem o repertório de ferramentas analíticas
e estratégias, mas também sugerem o possível desdobramento de um urbanismo
americano específico, baseado nas condições descobertas pela análise.
As medidas da paisagem
James Corner, o arquiteto-paisagista americano que tanto tem defendido a capacidade transformadora dos mapas, também tem levado a sua própria investigação
cartográfica. No seu livro “Taking Measures across the American Landscape”, Corner
junto com o fotógrafo Alex MacLean propõem uma pesquisa descritiva da paisagem
americana. O objetivo do trabalho é encontrar as imagens que melhor exemplifiquem
as várias paisagens agrícolas e tecnológicas da América e compreender como esses
ambientes têm sido construídos. O exercício serve de gatilho para uma reflexão sobre a medida, particularmente, sobre como as medidas usadas para olhar o mundo
afetam as ações tomadas e como tipos particulares de realidades são então construídas. Corner decompõe o ato de medir num jogo tripartido de significados: medidas
como quantum, medidas como instrumento e medidas como juízo de valor. A interrelação entre dimensões numéricas, instrumentais e éticas das medidas tomadas
FIV- 8 e 9: Boston, Mario Gandelsonas. Uma outra decomposição
do aparentemente caótico tecido
urbano expõe as ruas radiais
versus as ruas circunferenciais.
A estrutura radio-concêntrica é a
força que organiza os elementos
urbanos de Boston. Fonte: Gandelsonas (1999)
116
Sobre os mapas
FIV-10: James Corner, The survey
Landscape Accrued. As medidas
da terra. A pesar da aplicação
mecânica e repetitiva da divisão
da terra, uma grande variedade na
paisagem tem evoluído no tempo.
Fonte: Corner e MacLean (1996)
através do território, juntamente com o potencial de maior reciprocidade e poesia
entre elas, formam a base do trabalho de Corner e estruturam o seu discurso.
Afiliado aos princípios da ecologia, não é casual que Corner se incline pelas representações sinópticas da paisagem de MacLean, visto que é nas fotografias aéreas
onde a dependência orgânica entre os seres humanos e o mundo natural é claramente confirmada. Segundo Corner, a ecologia inter-relacional -conectando vastas regiões fisiográficas- é mais bem compreendida e manipulada desde cima. Finalmente,
é isso o que interessa ao autor, instigar relações mais harmoniosas entre pessoas e
território:
One of our intentions in this book is to show how actions taken
upon the land can either precipitate or preclude the possibility for
more wholesome and harmonious modes of dwelling. We wish to
argue that to continue to relate to the land either as an exploitable
resource or as merely a scenic phenomenon is to fail to recognize
the dynamic and interactive connectedness between human life
and the natural environment (Corner 1996, p. XIX)6.
O livro, visualmente chamativo, combina textos, fotos e mapas que foram coletados
durante várias expedições por ar e por terra. As anotações feitas durante os percursos instigaram Corner a fazer uma série de mapas-desenhos, que se transformaram
em composições de mapas com imagens fotográficas e de satélites, superpostas
com equações dimensionais e logísticas e outras linhas invisíveis de medida.
6_Uma das intenções deste livro é
mostrar como ações tomadas sobre
o território podem, seja precipitar
ou privar a possibilidade de formas
mais harmoniosas e integradas de
habitar. Desejamos argumentar que
continuar se relacionando com a
terra tanto como recurso explorável
ou como meramente fenômeno
cênico é fracassar em reconhecer
a conectividade dinâmica entre
vida humana e ambiente natural.
(Tradução do autor)
117
Sobre os mapas
Segundo o autor, as inscrições, adições e apagamentos que foram subsequentemente feitos nos mapas constituem um intento para reconhecer a primazia da medida racional e sinóptica no forjamento da paisagem americana, ao mesmo tempo revelando
as dimensões ficcionais e metafóricas da construção da paisagem.
Assim, os mapas-anotações-desenhos destinam-se a complementar as fotografias
ao mesmo tempo em que se distanciam delas. Os desenhos aventuram abstrações,
visibilizam organizações estratégicas de elementos sobre o solo ou revelam algu-
FIV-11 e 12: James Corner, Long
lots along the Mississippi River.
Os rios se transformaram nas
principais linhas de organização
dos assentamentos. Democrático
e equitativo, cada habitante recebe
uma porção igual de frente de rio
com solo baixo aluvial, e terra alta
onde se recolher durante as inundações. Fonte: Corner e MacLean
(1996)
ma escala e estruturas inter-relacionais. Consequentemente, os desenhos elucidam
como métodos tipicamente prosaicos e analíticos do planejamento sinóptico e sistematização da terra escondem um potencial mais criativo e poético.
On the surface, America is a carefully measured landscape of survey lines, rectangular fields, irrigated circles, highways, railroads,
dams, levees, canals, revetments, pipelines, power plants, ports,
military zones and other such constructions. All are efficiently laid
out with ingenious indifference to the land, crossing desert, forest,
plain, marshes and mountain with a cool, detached and rational
logic. These highly planned constructions are literally measures
that have been taken across the American Landscape in order to
ensure a productive human occupation of the earth and its resources (Corner 1996, p. 25)7.
Mas Corner também contrapõe às medidas tomadas pelo homem a resistência que
exercem as próprias medidas da terra. Essa tensão –entre medida humana e força
7_Na superfície, América é uma
paisagem cuidadosamente medida
de linhas, campos retangulares,
círculos irrigados, rodovias, ferrovias, represas, diques, canais,
oleodutos, portos, zonas militares,
e outras construções como tal.
Todas estão eficientemente arranjadas com engenhosa indiferença
à terra, atravessando desertos,
florestas, planícies, pântanos e
montanhas com uma lógica fria,
distanciada e racional. Estas construções altamente planejadas são
literalmente medidas que têm sido
tomadas através da paisagem no
sentido de assegurar a ocupação
humana produtiva da terra e de
seus recursos. (Tradução do autor)
118
Sobre os mapas
da natureza- perpassa a maioria dos desenhos e fotografias e atravessa as cinco
categorias que estruturam a investigação. Medidas da terra, Medidas de controle,
Medidas de regra, Medidas de adaptação e Medidas da fé.
Assim como em Gandelsonas, a grelha americana reaparece como tema de pesquisa, abrindo especulações sobre as relações entre as medidas de divisão e demarcação do território e os vindicados valores americanos de democracia, liberdade
e ascensão social. Um conjunto de desenhos expõe como a mecânica e repetitiva
divisão do território, segundo a National Land Survey do século XVIII, permitiu a
evolução de uma paisagem também diversificada. As negociações dos topógrafos
com mudanças da topografia, assentamentos pre-existentes, rios, etc. levou a variações regionais. Ao mesmo tempo, subdivisões posteriores, diferentes padrões de
plantio e usos do solo têm conferido complexidade a uma simples e neutra geometria
original.
Em outros exemplos de divisão da terra, as medidas da natureza prevalecem, como
no loteamento do rio Mississipi. Nesse caso, é o rio que estabelece o princípio de
ordem para a organização dos assentamentos que se dispõem numa série de lotes
compridos, perpendiculares à borda do rio. Democrática e equitativamente, cada habitante recebe uma porção igual de frente de rio com solo baixo aluvial e terra alta
onde se recolher durante as inundações, compartilhando igualmente, segundo Corner, as riquezas e os riscos do assentamento em área inundável.
FIV-13: James Corner, Nahavo
Spring-Line Fields. As medidas
de adaptação. Pequenos canais e
barragens captam e distribuem a
pouca água que se infiltra de entre
a escarpa de uma grande meseta.
A água, cuidadosamente distribuída
junto à parede do barranco que
protege das geadas, permite o
crescimento de um jardim verde no
deserto. Fonte: Corner e MacLean
(1996)
Sobre os mapas
Se, por um lado, as imagens de sofisticadas irrigações no meio do deserto suscitam
ao mesmo tempo fascinação e questionamentos sobre a supremacia da tecnologia
frente às limitações dos recursos naturais –por exemplo, os efeitos de desertificação
subterrânea-, outros mapas mostram como é possível uma relação mais harmoniosa, de negociação entre homem e meio-ambiente, onde existe adaptação sem que
haja dominação de um sobre o outro. Este é o caso das linhas de irrigação no Arizona, que se constroem com pequenos canos e barragens que captam e distribuem a
pouca água que se infiltra dentre a escarpa de uma grande meseta. A água, cuidadosamente distribuída junto à parede do barranco que protege das geadas, possibilita
o crescimento de um jardim verde no deserto.
Os exemplos se repetem, constituindo um extenso panorama da paisagem americana e dos mecanismos que forjaram e continuam forjando a sua construção. Corner
acredita que mudanças em práticas culturais e em modos de entendimento podem
preceder ou seguir inovações em representação. A originalidade dos mapas e dos
diálogos com a fotografia, sem dúvida, são sugestivos modos alternativos de olhar e
portanto de atuar sobre a geografia cambiante da América.
Drosscape. As paisagens residuais
Seguidor da escola de James Corner, o também arquiteto paisagista Alan Berger
desenvolve uma pesquisa quantitativa e visual do espaço residual decorrente dos
processos do chamado sprawl americano. Definitivamente engajado com a emergência de novas paisagens oriundas de novas atividades industriais, econômicas e de
119
120
Sobre os mapas
FIV- 14, 15 e 16: Alan Berger, Chicago. Indicadores entrópicos: geografia
de espaços residuais. Gráfico de
dispersão: afastandose do centro
da cidade duas claras depressões
na densidade populacional podem
ser medidas. Quadro axial: desde
1977 o condado central de Chicago
perdeu mais de 4000 fábricas, o que
representa 35%. O maior e sustetado
crescimento fabril nesta região está
localizado 30 a 50 milhas do centro
da cidade. Fonte: Berger (2006)
Sobre os mapas
consumo, Berger se interessa pela recuperação da paisagem in-between, entre deux
e pela definição de um novo vocabulário para a cidade horizontal.
A sua tese defende que o desperdício é um componente natural de toda cidade que
evolui dinamicamente. Dross (escória, desperdício, resíduo) é, como tal, indicador de
crescimento urbano saudável.
Berger sustenta que sprawl é um termo obsoleto e que se estender em retóricas
polarizadas sobre sprawl –das críticas negativas à defesa- não soa produtivo para o
avanço do conhecimento sobre o urbano. O termo urban-sprawl e as retóricas pró e
contra sprawl se tornam obsoletas ante a afirmação de que não existe crescimento
sem resíduos e que crescimento urbano e desperdício andam juntos.
O trabalho faz uma análise quantitativa e visual de dez regiões urbanizadas, espalhadas em diversas locações dos EEUU. Berger assinala que medir as dinâmicas de
urbanização para poder ver os efeitos na paisagem é um tema representacional.
Os mapas e imagens que compõem a pesquisa revelam as relações entre paisagem
residual e urbanização. As categorias que conformam o universo de paisagens de
Berger incluem desde extensas áreas de moradia suburbana, a edifícios transitórios
de armazenamento, espaços entre infraestruturas, lixões e aterros, grandes extensões de logística e comércio, áreas contaminadas e abandonadas decorrentes dos
processos de desindustrialização, entre outras.
Essas paisagens residuais em cada uma das áreas são compostas através de representações gráficas que combinam dados geoespaciais, resultados empíricos do
censo e imaginário espacial. Em conjunto, estas representações e as combinações
de informação que elas apontam geram oportunidades para reconceptualizar paisagens residuais no mundo urbano.
Para cada região Berger elabora três tipos de gráficos: o primeiro representa um
mapeamento que pretende entender a geografia das paisagens de desperdício, localizando as paisagens residuais previamente definidas; o segundo é um gráfico de
dispersão que mostra para cada quadrante da cidade os picos e depressões de densidade populacional, evidenciando os espaços in-between e de fronteira; e o último
quadro axial mostra as mudanças –crescimento e decadência- das indústrias nos
últimos anos.
As informações podem ser lidas simultaneamente em múltiplas vistas e escalas. A
variedade das técnicas de representação fornece a cola que permite ao leitor ligar e
derivar associações entre facetas diferentes da urbanização no tempo. Paralelamen-
121
122
Sobre os mapas
FIV-17, 18 e 19: Raoul Bunschoten.
Linz, Quadro I The Echo Chamber
com atores e agentes (letras) e lugares (números). Quadro II The Loom,
e Quadro III The Agora. Fonte: Bunschoten (2001)
te, fotografias são inseridas nos gráficos para prover evidência específica do lugar,
das condições do solo reveladas no mapa e nos quadros e complementam a visão
macro com aquela da escala do indivíduo.
Sem entrar em discussões sobre projeto, Berger consegue com seus mapas inserir
uma agenda nova para o urbanismo. O trabalho é um manifesto pela emergência de
um novo paradigma que convoca desenhistas e profissionais que lidam com a ordenação do espaço a repensar o desenho urbano, a considerar o trabalho nas margens
mais do que no centro, atendendo ao que a paisagem significa para o urbanismo e
os processos de urbanização.
O termo Drosscape é criado para descrever uma pedagogia de desenho que enfatiza
a integração produtiva e o reuso de paisagens residuais através do mundo urbano e
transforma desperdício (real ou percebido) em paisagens mais produtivas.
As condições desses lugares apresentam um novo conjunto de desafios ao paisagismo e aos profissionais de desenho de infraestruturas e edifícios, que devem encarar
as dimensões espaço-temporais da recuperação porquanto o lugar é de-contaminado, re-regulado, ou transformado para outros usos.
Urban Flotsam: agitando a cidade
No contexto europeu, Raoul Bunschoten e o grupo Chora têm experimentado novas
práticas de representação e de intervenção na cidade. Ligado à Architectural Association, na Grã Bretanha, e ao Berlage Institute, na Holanda, o Chora tem funcionado
123
Sobre os mapas
como laboratório que combina prática e pesquisa, teoria e projeto, buscando respostas à crescente complexidade das cidades.
Altamente experimental a pesquisa de Raoul Bunschoten representa uma outra linha
de trabalho com mapas. Mais perto das experiências da psicogeografia dos situacionistas franceses, o trabalho, reunido no livro “Urban Flotsam”, apresenta uma
abordagem pessoal e original.
O autor define a cidade como uma pele elástica e cambiante, uma forma de vida que
tem emoções. Essas emoções são denominadas condições protourbanas, que são
as condições que agitam a pele. Para reconhecer essas condições e suas manifestações são necessários novos olhos, novas miradas.
Immersion in the city with new eyes means walking through it,
entering its flux, encountering emergent phenomena, recognizing
them as manifestations of proto-urban conditions, sorting them into
boxes (Bunschoten 2001, p. 75)8.
Para Bunschoten projetar a cidade é como brincar. Envolve escolhas aleatórias, descobertas, achados. No jogo novas possibilidades podem ser exploradas. Descrição e
projeção se misturam de tal forma que não é possível diferenciar uma da outra. Bunschoten entra na cidade à procura das condições protourbanas que são identificadas e
isoladas numa série de quadros, dispositivos de observação e de operações. Esses
quadros são ao mesmo tempo um modelo dinâmico e uma mostra em pequena escala de fenômenos mais complexos que acontecem na cidade.
Os quadros representam tanto limites físicos como espaços simbólicos, desvelando
dimensões materiais e imateriais da cidade. Além das manifestações das condições
protourbanas o autor também se interessa por identificar conflitos. Para Bunschoten,
conflitos são passos (step-stones) no desenvolvimento de encenações, ferramentas
que provocam inteirações entre atores e agentes que de outra maneira não se encontrariam.
Uma vez caracterizados os quadros, os agentes e os conflitos só resta imaginar um
novo set de relações: cenários. Cenários são narrações de possibilidades urbanas,
realidades e práticas alternativas. Os mapas se transformam em “mesa de jogo”,
o campo semântico onde edifícios singulares, caracteres geográficos, instituições,
eventos e grupos sociais são identificados junto com novas ligações, fluxos e relações que permitem desenhar um cenário novo possível e temporal para a emergência de projetos.
8_Imersão na cidade com novos
olhos significa caminhar através
dela, entrar em seus fluxos, encontrar fenômenos emergentes,
reconhecê-los como manifestações
de condições protourbanas e
organizá-las em caixas. (Tradução
do autor)
Sobre os mapas
Uma boa ilustração da metodologia utilizada por Bunschoten nós podemos encontrar
no projeto para a cidade de Linz, na Áustria. O foco do estudo está nas mudanças
na periferia da cidade decorrentes, dentre outras causas, do declínio da indústria do
aço, do êxodo em direção aos subúrbios de grande parte da população trabalhadora,
da queda da “cortina de ferro” e do crescente afluxo de estrangeiros à cidade.
A periferia representa um campo de especial interesse, já que é nas bordas que
as chamadas condições protourbanas são mais ativas. Segundo Bunschoten, nas
periferias é que a cidade se mostra em seu estado mais cru e inalterável, onde existe
dissolução entre cidade e paisagem, onde limites estão constantemente sendo transgredidos e negociados, onde nada é estabelecido.
Neste contexto o autor se pergunta: como transformar a periferia numa demonstração, numa narrativa das transformações de sua identidade? Quais métodos podem
modelar um ambiente dinâmico que permita desenvolver uma série de conclusões e
formular projetos que demonstrem o potencial envolvido nas mudanças?
Quatro espaços periféricos são identificados como singularidades, sítios primários de
conflito. Cada seção periférica é caracterizada através de um quadro, atuando como
um dispositivo ótico focalizado nessa área. Os quadros são também umbrais entre
o centro e a periferia, espaços instrumentais para o desenvolvimento de cada setor,
o quadro protourbano. Ao mesmo tempo, para estimular e descrever cenários, para
cada espaço são propostas revelações (unfoldings), os cenários narrativos.
O primeiro quadro (the echo chamber) se localiza no vale norte da cidade, um espaço liminar em grande escala onde instituições culturais e eventos são utilizados
para reorganizar áreas da cidade carentes de câmbio e criar temporariamente uma
realidade alternativa. A proposta inclui a institucionalização do lugar e sua ligação a
uma linha de instituições culturais, desde o castelo existente até o proposto parque
do outro lado do porto, e envolve vários atores que animam ou ativam possíveis
constelações de eventos efêmeros.
O segundo quadro (the loom) é outra área industrial adjacente à cidade, flanqueada pelo rio Danúbio e por infraestruturas que a separam da cidade: uma paisagem
industrial altamente estruturada na qual os principais atores estão ou mudando ou
saindo. A proposta inclui o nomeado de zonas que potencialmente formam uma ponte entre a cidade e o rio, e o nomeado de utilidades públicas existentes, situadas
na borda original da cidade. A revelação (unfolding) prevê uma tessitura entre os
124
Sobre os mapas
atores e desenvolvimentos existentes, usando zonas como catalisadores para novos
desenvolvimentos
O terceiro quadro (the agora) é uma comunidade virtual de aglomerações periféricas
e amorfas, posicionadas entre o leito do rio e planícies inundáveis, se espalhando em
padrões informais entre 16 municipalidades e entre infraestruturas regionais e nacionais. Estendendo-se para além dos limites do município de Linz, o terceiro cenário é
mais uma proposta de gerenciamento do que um novo espaço político e a proposta
de um espaço público alternativo.
O último quadro (the free house). Uma periferia cultural e social de “estrangeiros” que
não tem participação social e política, mas são ativos como economia branda. Este
quadro é o menos “formal” em aparência e pretende mapear fluxos sociais e migratórios que fazem parte de uma estrutura branda que tem um papel na dinâmica urbana,
mas que ainda resiste à institucionalização. A revelação (unfolding), neste caso, inclui
o estabelecimento de uma política cultural de integração e incorpora intervenções
físicas que se justapõem aos quadros anteriores.
Especulativo e original, o trabalho de Bunschoten procura mapear as emoções que
agitam a cidade. Seu método de mapeamento exige uma grande capacidade de
observação para poder detectar aqueles elementos existentes, materiais e imateriais
-desde a tradição de eventos teatrais a um prédio abandonado ou a uma estrutura
geológica- que podem ser reforçados e transformados em ferramentas de planejamento.
125
126
Sobre os mapas
FIV-20 e 21: Mathur e da Cunha.
Triangulating. Milhares de tanques.
No território de Bangalore os tanques
são uma forma de vida. Discretas
linhas de montículos com comportas
formam a paisagem. Mathur e da
Cunha (2006)
Deccan Traverses
Fora das especulações sobre as cidades e territórios do mundo chamado “desenvolvido”, o trabalho do casal Anuradha Mathur e Dilip da Cunha explora técnicas de
mapeamento para compreender a formação e a valoração da paisagem no território
indiano de Bangalore. Deccan Traverses é uma exploração do território que uma vez
foi identificado como “país nu” pelos colonizadores e que, depois de várias transformações, ainda hoje é conhecido como a Cidade-Jardim da Índia.
Não só as flores têm sido cultivadas, mas também uma visão e uma forma de apreender o território que tem uma história. Esta paisagem, que não é apenas superficial
mas que provê um vocabulário da terra é o tema de pesquisa. Entre arqueólogos,
topógrafos e cartógrafos Mathur e da Cunha realizam, com olhar renovado, um outro
descobrimento do território, uma versão contemporânea do gazetteer3. Essa empresa descritiva procura entender como a paisagem foi sendo construída nos últimos
dois séculos a partir de materiais, ideias, imagens, habilidades e uma mirada que,
segundo os autores, são hoje desconsideradas na administração, educação e planejamento da cidade.
Deccan Traverses recounts our engagement with this less evident
Bangalore, a place of potential rather than identity. It demands a
shift in perception from seeing a place constrained by a timeline
and held by the spatial limits of a municipality or metropolis, to
seeing a gathering of materials and events each exerting its own
presence, trajectory and ambition for a “naked country”. It is not
surprising tha there is little written about his Bangalore. Our educa-
3_Um gazetteer é um dicionário
ou um diretório geográfico, uma
referência importante para a informação sobre lugares, incluindo
história, geografia, flora, fauna,
etnografia, etc. Uma forma de
descrição para administrar e governar utilizada como ferramenta
pelos colonizadores da Índia no
século XIX.
127
Sobre os mapas
FIV-22 e 23: Mathur e da Cunha.
Botanizing. Rosqueadas em cordas, as flores têm uma segunda
vida na cidade ao serem distribuídas em mercados, templos, casas
e ao redor da cidade nos cabelos
das mulheres. Produzidas em
hectares e vendidas por quilo, as
flores são menos para serem apreciadas e mais para serem usadas
em festivais e rituais. Fonte: Mathur
e da Cunha (2006)
tion and administration privilege the seeing of a defined if not physically demarcated entity (city), and not an extended material terrain
(Mathur e da Cunha 2006, p. 5)9.
Metodologicamente, a pesquisa é um campo aberto de conversações, fotografias de
expedições, desenhos de medidas, pesquisa de arquivos e investigações materiais
que, após muitas especulações, foram organizados em quatro empresas:
Surveying: reconstrói as múltiplas expedições geodésicas que documentaram o
território e enfatiza a sua habilidade para estabelecer um quadro infraestrutural do
território.
Triangulating: documenta as primeiras ações urbanísticas que determinaram a fundação de Bangalore e que marcaram os parâmetros de seu crescimento.
Picturing: introduz o papel da arte pitoresca como uma prática estética e científica
que contém uma grande habilidade para identificar, arquivar e transplantar diversos
elementos da paisagem e da cultura.
Botanizing: utiliza o jardim público mais importante da cidade para uma narrativa
visual que explica a complexa matriz botânica de Bangalore.
Os mapas-canvas que compõem o trabalho reúnem um conjunto variado de materiais, documentos encontrados, fotografias, desenhos de linha, seções e “sugerem
um modo de atravessar esses terrenos construídos”. Com grande dimensão poética,
os mapas quebram convenções cartográficas e revelam a construção cultural do
território. Dessa maneira, questionam também a forma em que ele é hoje concebido
e projetado.
9_Deccan Traverses descreve
nosso compromisso com este
Bangalore menos evidente, um
lugar de potencial mais que de
identidade. Demanda um deslocamento na mirada do lugar, limitado
pelo tempo e contido por limites
espaciais de uma municipalidade
ou metrópole, para mirar um
conjunto de matérias e eventos,
cada um exercendo sua própria
presença, trajetória e ambição para
um país desnudo. Não é uma surpresa que tem muito pouco escrito
deste Bangalore. Nossa educação
e administração privilegiam o olhar
de uma entidade definida senão
fisicamente demarcada (cidade), e
não um terreno material estendido.
(Tradução do autor)
128
Sobre os mapas
Deccan Traverses is ultimately a platform for engaging Bangalore
as an open terrain, for recovering the moments of wonder that
make the ordinary extraordinary; for seeding new initiatives that
cultivate fresh vocabularies and trajectories for future interventions
(Mathur e da Cunha 2006, p. 7)10.
Descrever, revelar, uma forma de entender
O que podemos apreender destas variadas expressões de mapeamento? Os quatro
exemplos discutidos aqui – e a lista poderia se estender- utilizam o mapeamento
como uma forma de descoberta, uma ferramenta para decompor a complexidade
do território ou torná-lo inteligível. Sugerem portanto um modo de aproximação e de
projeção que envolve um esforço descritivo e revelador antes que a imposição de um
projeto idealizado desde o topo.
A representação gráfica dessas descobertas, como já foi discutido, não é inocente
nem desprovida de objetivo, mas implica um contínuo julgamento, interpretação e
seleção dos dados e materiais que configuram o mapa. Leituras e releituras são
filtradas pelas intenções e teses de cada mapeador, ao mesmo tempo em que cada
descoberta questiona e modifica as mesmas teses.
Os mapas retratam estruturas e organizações ocultas –Gandelsonas, Corner; apresentam dados de forma criativa –Berger; isolam elementos e atores –Bunschoten;
escavam materiais e eventos –Dilip e da Cunha; e decompõem as lógicas que dão
forma ao território. A capacidade de revelar e reformular o que já existe supõe muito
mais que os caracteres físicos do terreno, mas também as forças escondidas subjacentes à construção de um determinado lugar.
Esta ênfase nos processos antes que na forma –talvez menos evidente no trabalho
de Gandelsonas- demonstra uma forma renovada de entender a cidade e o território,
menos determinada formalmente e mais como expressão contingente de dinâmicos
processos naturais, sociais e políticos. A dimensão temporal e imaterial desses processos talvez seja o maior desafio para o mapeamento da cidade contemporânea.
10_Deccan traverses é finalmente
uma plataforma para incorporar
Bangalore como terreno aberto,
para recuperar os momentos de
maravilha que fizeram do ordinário
extraordinário, para semear novas
iniciativas e cultivar vocabulários
frescos e trajetórias para intervenções futuras. (Tradução do autor)
Rio de Janeiro: Explorações na subúrbio fluminense
PARTE II
129
Rio de Janeiro: Explorações na subúrbio fluminense
“Représenter le territoire c’est déjà le saisir.
Or cette représentation n’est pas un calque, mais toujours une construction”
André Corboz
130
131
Rio de Janeiro: Explorações na subúrbio fluminense
05.Rio de Janeiro: Explorações no subúrbio fluminense
Com base nas discussões teóricas precedentes, apresentamos neste capítulo o caso específico de
estudo, a Baixada Fluminense. Concentramo-nos em compreender a materialidade e a espacialidade
próprias de uma porção da periferia metropolitana do Rio de Janeiro. O foco está na relação dialética entre a matriz biofísica (espaço “recebido”) e as transformações sofridas no tempo –o espaço
construído. Analisam-se as condições físicas (relevo, hidrografia, geologia, cobertura vegetal, etc.),
superpostas e inter-relacionadas às ações do homem. Um conjunto de mapas históricos foram utilizados como dispositivos que revelam uma forma específica de visão e representação do território e uma
ferramenta de pesquisa. Dois aspectos foram destacados, por um lado as infraestruturas que serviram
de ossatura ao território, e por outro a mudança dos usos que modificaram a paisagem no tempo.
Rio de Janeiro Metrópole
Com uma população de mais de 11 milhões de habitantes e uma superfície de 5.693
km², a região metropolitana do Rio de Janeiro é a segunda maior do país depois de
São Paulo. Representa 13% do território do Estado e 75 % de sua população, com
uma de cada três pessoas do Estado morando na capital e três de cada quatro na
sua região metropolitana.
Administrativamente, a região metropolitana do Rio de Janeiro é composta hoje, segundo a Lei Complementar n° 105 de 2002, por 17 municípios: Rio de Janeiro, Belford Roxo, Duque de Caxias, Guapimirim, Itaboraí, Japeri, Magé, Nilópolis, Niterói,
Nova Iguaçu, Paracambi, Queimados, São Gonçalo, São João de Meriti, Seropédica,
Mesquita e Tinguá. Recentes reorganizações políticas determinaram que municípios
que ainda mantêm fortes ligações com a capital passam a fazer parte de outras
regiões, como Itaguaí e Mangaratiba, que pertencem oficialmente à região da Costa
Verde, Maricá à Baixada Litorânea e Petrópolis à Região Serrana.
Mas os limites reais da região metropolitana são imprecisos. A metropolização do
espaço abrange um território mais amplo, definido pela acessibilidade e pela circulação, que traspassa divisões administrativas reconhecidas (Davinovich, 2001).
Numa panorâmica em grande escala, poderíamos observar um sistema integrado de
áreas metropolitanas, onde Rio e São Paulo aparecem como os núcleos principais,
enquanto um grande número de pequenos núcleos interligados se espalha no território1. A visão hierárquica e concêntrica de centro e periferia se dilui numa constelação
de múltiplos núcleos, conectados por infraestruturas físicas e virtuais.
1_ A proposta de uma Região Urbana Global (RUG) já foi estudada
e proposta pelo Ipea (Instituto de
Pesquisa Econômica aplicada). Ver
o relatório elaborado em 1999 por
Roberto Cavalcanti de Albuquerque
em : http://www.ipea.gov.br.
132
Rio de Janeiro: Explorações na subúrbio fluminense
Esse processo parece, a primeira vista, mais intenso nas redondezas de São Paulo,
o que pode ser atribuído por um lado, à geografia, por outro à intensidade dos processos globalizantes da maior metrópole sul-americana em relação ao Rio de Janeiro que tem sofrido, nas últimas décadas, um esvaziamento político e econômico.
Enquanto no Estado de São Paulo a dispersão parece mais intensa e estilhaçada,
no Rio de Janeiro, podemos identificar uma organização mais linear segundo as
principais infraestruturas de mobilidade. O eixo de ligação com São Paulo, através da
rodovia Presidente Dutra e seguindo o vale do Paraíba, aparece como um contínuo
(sub)urbano, uma cidade linear de quase 400 quilômetros de extensão. Outros eixos
de expansão da metrópole carioca seguem, para o norte, em direção a Petrópolis, e
para o leste, em direção à região dos Lagos.
A periferia metropolitana do Rio de Janeiro é sem dúvida um território dinâmico em
transformação. Representa a fronteira sempre flutuante de expansão, mostra dinâmicas demográficas mais intensas que a capital e é o território onde se concentram
diferentes investimentos públicos e privados. Inúmeros projetos em curso no território
metropolitano acarretarão transformações importantes nos próximos anos. A construção do anel rodoviário, a expansão do porto de Sepetiba, a expansão das atividades
petroleiras, os planos para o trem de alta velocidade entre Rio e São Paulo, etc., em
diferentes graus de concretude, intensificarão as mudanças em curso e trarão novos
desafios projetuais.
Por outro lado, e se diferenciando das descrições otimistas, o espaço metropolitano
caracteriza-se fortemente pelas suas carências. Conflitos ambientais, pobreza, vio-
FV-1 e 2: A metropolização do espaço. Rio de Janeiro e São Paulo,
sistema integrado de áreas metropolitanas. Fonte: Elaborado pelo
autor sobre base Google Maps
Rio de Janeiro: Explorações na subúrbio fluminense
lência, falta de qualidade urbana e de infraestrutura, entre outros problemas, definem
o ambiente onde vivem mais de 5 milhões de pessoas.
Enquanto este é o quadro, quase nada sabemos da materialidade metropolitana.
Existem inumeráveis pesquisas com perspectiva social sobre as periferias -geralmente focadas em demonstrar como tem se dado o processo de construção diferenciada do espaço fluminense- mas muito poucas voltadas para o ponto de vista espacial. O território metropolitano é comumente representado com grande abstração,
através de dados estatísticos, ou de sínteses gráficas (linhas e manchas) incapazes
de transmitir as condições reais do espaço urbano.
Flavio Villaça (1998) e Nestor Goulart Reis (2006) chamam a atenção para a necessidade de estudar as áreas internas dos espaços da metropolização sob perspectivas
urbanas e não meramente de análise regional. Para Villaça, os espaços da metropolização são também cidades e, como tal, devem ser objeto de análises intraurbanas.
Goulart Reis, desde sua perspectiva como arquiteto, valoriza uma abordagem de
base empírica, com análises que partem da lógica do projeto, dos espaços construídos e dos modos de produção material:
As condições em que ocorrem as diferentes modalidades e formas de organização do espaço intraurbano devem ser estudadas
também de modo especial pelas condições materiais de suas
configurações em toda sua diversidade. O espaço intraurbano
é fundamentalmente concreto e tende a ser registrado por suas
formas geométricas de divisão e edificação (tecido urbano), pela
133
Rio de Janeiro: Explorações na subúrbio fluminense
infraestrutura e pelos serviços de mercado e uso. É constituído
também pelos espaços já acessíveis, mas ainda não edificados de
valor determinado por essa potencialidade, por essa virtualidade.
São espaços cuja análise envolve questões sobre a racionalidade
dos projetos (Goulart Reis, 2006:42).
O mesmo autor recomenda que, para poder compreender a urbanização dispersa,
duas escalas devem ser estudadas: uma escala metropolitana onde podemos observar a nebulosa de nós e vazios interligados e uma outra, a do tecido urbano, onde se
definem as relações entre espaço público e privado.
Em consonância com a proposta de Goulart Reis, o objetivo deste capítulo é estudar as relações entre a forma recebida -a identidade natural- e a cidade criada -a
forma elaborada. A intenção é poder compreender essa relação no tempo, quais
as mediações entre ambas as esferas, para logo depois descobrir onde jazem as
oportunidades de projeto.
As análises se concentraram assim, numa primeira instância, na descrição das condições físicas que formam a identidade natural, entendidas como o resultado das
evoluções geológica e biológica que existem como uma soma de processos e que
têm sido modificadas pelo homem (McHarg, [1969] 2000).
Em seguida, uma análise histórica busca compreender as adaptações culturais que
se refletem no conjunto de transformações do meio, na ocupação do território e na
conformação dos tecidos urbanos; localizando as forças culturais, sociais e econômicas que modelaram a paisagem no tempo. A construção articulará dados bibliográficos, cartografias, imagens e desenhos que ajudam a tornar legíveis os processos
que intervieram na formação do território e as lógicas que determinaram sua forma
e identidade.
Baixada Fluminense, um recorte
É difícil determinar os limites da Baixada Fluminense, já que não há um consenso
na sua definição. Geograficamente, podemos entender a Baixada –planície entre
montanhas- como o território plano que se estende entre “a muralha abrupta de centenas de metros de altitude da serra do Mar e o oceano”, abraçando desde a baía
da Ilha Grande até o Campo de Goitacazes, perto do limite com o Espírito Santo,
incluindo, portanto, um extensíssimo território e uma enorme variedade de situações
fisiográficas.
134
135
Rio de Janeiro: Explorações na subúrbio fluminense
Politicamente, vários autores identificam a Baixada Fluminense como uma porção
do território da periferia metropolitana antigamente denominada Baixada da Guanabara. Um grupo de municípios, ao norte do Rio de Janeiro, que compartilham tanto
características físicas como uma história de desenvolvimento similar; não obstante
2_Belford Roxo foi desmembrado
de Nova Iguaçu em 1990, do
mesmo modo que Queimados. Em
1991 foi Japeri e finalmente, em
1999, Mesquita.
a definição precisa de quais os municípios que o compõe se mantenha ambígua.
Segundo Simões (2007), existe um núcleo duro, sobre o qual não existem dúvidas
quanto à sua pertença, formado pelos municípios de Nova Iguaçu –incluindo os seus
desmembramentos mais recentes2- e Duque de Caxias. Outros autores incluem também, para o leste, os municípios de Magé e Guapimirim e, para oeste, Seropédica,
Paracambi e Itaguaí.
Para o objeto de nosso trabalho são pouco relevantes as divisões administrativas. O
que nos interessa é estudar um recorte do tecido metropolitano que possa apresentar
a maior quantidade de elementos constitutivos e revelar a sua complexidade. Assim,
o recorte espacial escolhido –embora focado na Baixada Fluminense- não responde
FV-3: Recorte de estudo: Baixada
Fluminense. Fonte: Autor
136
Rio de Janeiro: Explorações na subúrbio fluminense
FV-4: Evolução da região metropolitana de Rio de Janeiro. Fonte:
Elaborado pelo autor sobre base da
Fundação Cide
1974
1984
1994
137
Rio de Janeiro: Explorações na subúrbio fluminense
a divisões geopolíticas precisas nem a escalas determinadas. O objetivo é poder flutuar entre olhares territoriais e locais percorrendo um conjunto de diferentes escalas.
Tomaremos, para começar, o recorte expandido da Baixada política, para logo entrar
numa janela que inclui parte dos municípios de Nova Iguaçu, Duque de Caxias, Belford Roxo, São João de Meriti, Nilópolis e Mesquita, e que se aproxima –mas não se
reduz a ele- do recorte hidrográfico da bacia do rio Iguaçu. Outras janelas enquadram
escalas menores, retratando situações específicas. Cada escala tem associado um
tipo de fenômeno que se torna incompreensível se contemplado desde demasiado
longe ou demasiado perto (Folch, 2003). Ao mesmo tempo, o trânsito entre as várias
escalas permite visualizar as relações entre o local e a biorregião, criando conexões
entre elementos díspares e revelando possibilidades que de outra forma não seriam
visíveis.
To properly understand a local place therefore requires an understanding of its larger context – the watershed and bio-region in which it lies. At the same time, understanding of the bio-region begins
with its local places (Hough 1995, p.16)3.
A forma recebida
Relevo
A Baixada –como o seu próprio nome indica- se caracteriza por ser um território
principalmente plano. Enquadrada, ao norte, pelo sopé da escarpa da serra do Mar,
ao sul, pelo maciço de Gericinó- Mendanha, a leste, pela baía de Guanabara e a
oeste, pela baía de Sepetiba. Esta configuração topográfica determina o seu caráter
de insularidade, de entre-deux, com abruptos contrastes entre a planície e os fundos
montanhosos. O plano, por sua vez, salpicado por colinas, configura uma superfície
de suaves ondulações que contornam as planícies fluviais.
Em relação à altura e ao tipo de declividade, podemos identificar três formações
diferentes: as superfícies planas que não ultrapassam os dez metros acima do nível
do mar com uma declividade inferior a 10%, formadas por leques aluviais, terraços
fluviais e planícies de inundação, convergentes aos amplos vales fluviais dos baixos
cursos. Em segundo lugar, as colinas e morros baixos, comumente denominados de
meia-laranja. Eles apresentam forma arredondada e suave declive, não superando
100 metros de altura. Distribuem-se de forma regular, pontilhando a planície, ganhando um pouco mais de altura ao se aproximarem das serras. Por último, os grandes
maciços; ao norte, a transição com o planalto se dá através da escarpa serrana,
ao sul, e marcando a entrada à Baixada Fluminense desde a capital, o maciço de
Gericinó-Mendanha.
3_Compreender corretamente um
lugar local exige consequentemente uma compreensão de seu contexto maior – a bacia e a biorregião
onde se encontra. Ao mesmo tempo, a compreensão da biorregião
começa com seus lugares locais.
Rio de Janeiro: Explorações na subúrbio fluminense
Fortemente alinhadas sob direção WSW-ENE, as escarpas serranas apresentam,
em geral, desnivelamentos extremamente elevados, por vezes, superiores a 2 mil
metros, com vertentes muito íngremes e rochosas, porém os picos mais altos se encontram nos municípios de Teresópolis e Petrópolis. Duas unidades se diferenciam
geomorfologicamente (CPRM, 2001). A primeira, denominada escarpa das serras de
Araras e Paracambi, de altitudes mais modestas (entre 500 e 700m) e cristas amorreadas emoldura, a oeste, o recôncavo da baixada de Sepetiba. A segunda unidade
corresponde à escarpa das serras do Couto e dos Órgãos. Descrita como uma muralha montanhosa, a escarpa delimita o recôncavo da bacia da baía de Guanabara.
Separada da unidade anterior pelo vale profundo do rio Santana, perto da localidade
de Japeri, se prolonga como um paredão monolítico até as proximidades de Nova
Friburgo. Com vertentes muito íngremes e topos aguçados, distingue-se como uma
majestosa e abrupta barreira orográfica, de orientação WSW-ENE, sendo que sua
linha de cumeada mostra uma significativa elevação de oeste para leste que varia de
900 para 1.500 metros. Incrustado dentro da escarpa serrana encontramos o maciço
do Tinguá, de origem vulcânica, ele apresenta formato dômico bem definido, alcançando 1600 metros de altura. Em seu topo, ressaltam cristas de estruturas anelares,
sugerindo o rebordo de uma antiga cratera. A face sul do maciço do Tinguá forma um
escarpamento íngreme e imponente em direção à planície fluvial do rio Iguaçu, onde
se situam as localidades de Adrianópolis, Cava e Rio D´Ouro. A face norte, delimitase com a escarpa da serra da Bandeira através do vale do rio São Pedro. Em sua
face leste, o importante escarpamento do maciço tem continuidade em direção a
Petrópolis por meio da serra do Couto, conferindo aspecto monolítico a esse trecho
da serra do Mar (CPRM, 2001).
Limitando ao sul, isolado e contrastando com as planícies adjacentes, o maciço do
Mendanha tem forma alongada também em direção WSW-ENE, atingindo altitudes
superiores a 800 metros (serra de Madureira – 940m). O morro de Marapicu (620m)
integra essa unidade, apresentando uma perfeita morfologia de cone vulcânico preservando estruturas anelares. Essas estruturas também ocorrem no restante do maciço, porém são menos relevantes que as estruturas WSW-ENE, que controlam a
direção das cristas e drenagens principais (Costa, 1984).
Condições ambientais
A geologia histórica e o clima conformaram a forma básica da Baixada Fluminense, o
que nos permite também estudar e compreender a forma, a distribuição e as propriedades dos solos e os ecossistemas associados a eles. Sem dúvida, a Baixada Fluminense é um território que foi –e continua sendo- modelado pela água. Seja por invasão do mar ou por sedimentos arrastados pelos rios, a paisagem foi modelada por
138
Rio de Janeiro: Explorações na subúrbio fluminense
FV-5: Relevo. Contrastes. O plano
enquadrado e os fundos montanhosos. A planície salpicada por
colinas. Fonte: Elaborado pelo
autor sobre a base cartográfica da
Fundação Cide.
Relevo
139
Rio de Janeiro: Explorações na subúrbio fluminense
processos de erosão e deposição, dinâmicas que continuam ainda hoje. Os rios que
descem com força das serras e se perdem lentamente em meandros nas planícies,
as enxurradas que arrastam sedimentos até encontrar os rios, os ritmos da maré que
nas suas oscilações diárias cria as condições para que os manguezais retenham os
sedimentos e sigam com o processo de modelação de uma nova costa, etc.
Em torno da baía de Guanabara, e por efeito da maré, encontramos manguezais e
terrenos alagadiços. Os mangues são compostos por uma mistura de terras argilosas, matéria orgânica e restos de conchas e vegetais. A vegetação típica de mangue
cumpre importante função na deposição e fixação dos sedimentos, mantendo um
equilíbrio entre erosão e deposição e contribuindo para a manutenção do calado dos
canais e cursos d’ água. Os alagadiços, de solos moles de origem fluvial e ambiente
marinho, ocorrem em torno das depressões das planícies litorâneas. A baixa permeabilidade do solo argiloso e a má drenabilidade dos terrenos tornam essas áreas
constantemente encharcadas, com um nível de água raso e aflorante.
Junto às margens dos rios estão os terrenos aluviais, de formação mais recente.
Identificamos, segundo a composição do solo, dois tipos: os argilosos e os arenosos.
Os primeiros se expandem nos cursos baixos dos rios, perto do entorno da baía
de Guanabara, enquanto os arenosos predominam no interior, encaixados entre os
morros e serras do cristalino e as planícies.
Os típicos morros arredondados da Baixada são resíduos degradados de rochas cristalinas cobertos por solos vermelhos e siltosos, cujo substrato é predominantemente
gnáissico e migmatítico (CPRM, 2001). Este tipo de morro sofreu intensa extração
no processo de expansão urbana sobre o território da Baixada, provendo o barro e
o saibro para o aterro dos terrenos alagadiços (Leite Mansur, 2000). A extração de
saibro (como também de areia e outros minerais) continua sendo hoje uma atividade
importante, com consideráveis consequências nas condições ambientais e na paisagem: uma descaracterização geral da topografia com o lento aplanamento dos morros, a perda de cobertura vegetal, ravinamentos e desmoronamentos nas encostas,
assoreamento dos sistemas pluviais, entre outras.
Junto à base e a meia encosta das montanhas e serras os solos são heterogêneos,
resultado do acúmulo de material detrítico, formando depósitos de tálus. Estão compostos por uma granulometria que envolve desde argila até blocos e matacões de
rocha, outorgando-lhes um caráter inconsolidado. Tal situação propicia o acúmulo e a
circulação intensa e desordenada de água, cujos fluxos variam ao longo do processo
de acomodação destes depósitos (Fundação Cide, 1995).
140
Rio de Janeiro: Explorações na subúrbio fluminense
Condições ambientais
FV-6: Condições ambientais. A
paisagem foi –e continua sendomodelada por processos de erosão
e deposição. Fonte: Elaborado pelo
autor sobre a base cartográfica da
Fundação Cide.
141
Rio de Janeiro: Explorações na subúrbio fluminense
Também formado por acúmulo de material, o colúvio forma rampas junto à base
de morros, montanhas e serras. Constituído por material de espessura e extensão
variadas, com granulometria que envolve desde argila até cascalhos, eventualmente
contendo blocos de rocha.
Já nos morros isolados observamos dois tipos de formações, os morros gnaisses,
onde predominam gnaisses, migmatitos e xistos, e os morros de rochas graníticas e
alcalinas. Ambos apresentam solos arenosos pouco desenvolvidos e com alto grau
de erodibilidade. Nas montanhas e encostas de maior declividade, encontramos também xistos, gnaisses e migmatitos e, localizadamente, granitos e rochas alcalinas
com afloramentos rochosos e solos pouco espessos (Fundação Cide, 1995).
Cobertura vegetal
Conhecer as condições naturais do solo permite-nos entender melhor a lógica das
atividades e usos que se instalaram no território. Porém, precisamos conhecer também os valores econômicos, sociais e culturais que vêm transformando esse território no tempo. Os usos, maus-usos e desusos da terra poderão ser mais bem
compreendidos à luz da história da Baixada Fluminense.
O mapa atual da cobertura vegetal e uso do solo apresenta um mosaico heterogêneo.
A mata atlântica ou “florestas ombrófilas primárias” que cobriam no início da colônia
97% do Estado do Rio de Janeiro foram drasticamente reduzidas pela ação do homem, cobrindo hoje só 20%. Encontramos os remanescentes, maiormente em altura
-onde as temperaturas são altas e as precipitações intensas-, nos maciços montanhosos da serra do Mar, Tinguá e Gericinó-Mendanha. Em muitas das encostas das
serras o que temos é a chamada Capoeira, ou mata secundária, que é aquela que
nasceu do processo de regeneração natural após o derrubamento da mata virgem
(Fundação Cide, 1995).
A ocupação do solo fluminense resultou de um processo histórico onde as queimadas e o desmatamento sucederam a uma exploração sem maior planejamento no
que diz respeito à aptidão das terras e ao seu uso (CPRM, 2001). Nas áreas cultivadas com cana-de-açúcar e café, no período do Brasil-Colônia, foram desenvolvidas
pastagens compostas de algumas espécies herbáceas nativas e gramíneas. A maior
parte do território (56% da superfície do Estado) está coberta por estas pastagens
que pertencem à primeira fase de sucessão vegetal.
Outra mancha que chama a atenção no mapa da cobertura vegetal da Baixada Fluminense é justamente a sua ausência: as áreas de encosta degradada. Original-
142
Rio de Janeiro: Explorações na subúrbio fluminense
Cobertura Vegetal
FV-7: Cobertura vegetal. Um
mosaico heterogêneo. Fonte:
Elaborado pelo autor sobre a base
cartográfica da Fundação Cide.
143
Rio de Janeiro: Explorações na subúrbio fluminense
mente desmatadas para uso agrícola, as encostas degradadas se concentram na
metade leste da Baixada, onde também a pressão pela ocupação urbana é maior.
Junto com este grupo devemos considerar as áreas de solo exposto por atividades
extrativas, que aparecem de forma espalhada pelo território. Pela percepção nas visitas a campo e pelas fotografias aéreas, a presença de saibreiras parece muito mais
intensa do que o relevamento da Fundação Cide mostra. Isto pode se dever também
a uma questão da escala, já que muitas destas atividades acontecem em pequenos
terrenos e de forma ilegal. O fundo avermelhado dos morros desnudos faz parte da
paisagem atual da Baixada.
Outra vegetação que vem sofrendo degradação é o mangue, uma típica formação
arbórea adaptada à salinidade das águas, localizada no entorno das baías de Guanabara e de Sepetiba. Os manguezais crescem nos terrenos afetados pela ação da
maré formando um ecossistema de transição entre os estuários dos rios e o mar. Só
recentemente foi reconhecida a importância dos manguezais tanto para a fixação do
solo e a prevenção das erosões –como foi comentado anteriormente- quanto pela
sua diversidade ecológica, sendo o habitat natural de alimentação e reprodução de
peixes e aves.
As áreas de reflorestamento para uso comercial (eucaliptos, pino) são poucas, bem
como as áreas de cultivo agrícola. Depois do “último respiro agrícola” na região, com
o cultivo da laranja, o solo cansado e pouco fértil resultou mais lucrativo para o uso
urbano. As áreas de uso agrícola mais intensivo encontram-se hoje a leste do Estado
(Campos) e no vale do Paraíba. Podemos ainda encontrar alguns pequenos mosaicos no pé da serra do Mar no entorno de Japeri e Magé, e no oeste, em Santa Cruz
e Itaguaí, no pé da serra das Araras (Fundação Cide, 1995).
Hidrologia
O amplo sistema de rios que atravessam a Baixada Fluminense é inegavelmente
um dos elementos da paisagem que mais fortemente marcaram a construção de
sua identidade. É ao mesmo tempo o espaço no qual ocorreram as transformações
mais radicais e onde se concentram avultados investimentos públicos. Mais adiante,
veremos como a história da ocupação do território está ligada a forma como os rios
foram “remediados” e incorporados à paisagem.
O mapa hidrográfico da Baixada denota uma clara divisão de águas em duas bacias:
a leste, os rios que deságuam na baía de Guanabara, para oeste, os que deságuam
na baía de Sepetiba. As duas bacias principais coletam as águas que nascem nas
serras -ao norte e ao sul- e escoam buscando a saída para o mar. Entre as princi-
144
Rio de Janeiro: Explorações na subúrbio fluminense
Hidrografia
FV-8: Hidrografia. Descendo com
força das serras e inundando a
planície até alcançar a Baía. O
amplo sistema de rios que atravessa a Baixada Fluminense é um dos
elementos da paisagem que mais
fortemente marcaram a construção
de sua identidade.
Fonte: Elaborado pelo
autor sobre a base
cartográfica da
Fundação Cide.
145
Rio de Janeiro: Explorações na subúrbio fluminense
pais sub-bacias, destacam-se as dos rios Inhomirim-Estrela e Iguaçu- Sarapuí, na
Guanabara, e a oeste a do rio Guandu, principal abastecedor de água da região
metropolitana do Rio de Janeiro (Serla, 1996).
No período de chuva, entre dezembro e março, as águas descem com força das serras, perdendo velocidade ao chegar à planície, inundando as várzeas e abrindo-se
em meandros entre os morros até alcançar a baía de Guanabara. O efeito da maré
faz com que as águas salinas entrem a contra fluxo pelos rios, criando as condições
para que se desenvolvam nessa fronteira flutuante os ecossistemas típicos desses
ambientes salobros: os manguezais. Como os rios carregam grande quantidade de
depósitos, os manguezais cumprem uma importante função ao reter parte do sedimento e, lentamente, ir recriando por deposição uma nova linha de costa (Serla,
1996).
O “saneamento” dos campos, com o objetivo de tornar produtivos os terrenos alagadiços em torno da baía de Guanabara, ocasionou uma grande transformação do
sistema fluvial, com a construção de diques e barragens, a dragagem e retificação do
leito dos rios, a eliminação de mangues e brejos e em geral uma modificação radical
do ambiente. A rápida ocupação urbana que se seguiu a este processo e a pouca
manutenção das obras ao longo do tempo geraram uma situação de fragilidade, com
a constante ameaça de enchentes na região.
Apesar das regulações em relação à não-ocupação das faixas marginais, muitas beiras de rios têm sido ocupadas de forma irregular por favelas. O despejo do esgoto “in
natura” diretamente nas águas dos rios, aliado a falta de controle da poluição industrial e de coleta de lixo, fazem com que os rios da Baixada Fluminense apresentem
altos graus de contaminação e assoreamento (Britto e Porto, 1998).
Infraestrutura e urbanização
Uma leitura da forma atual da cobertura da urbanização na Baixada Fluminense revela uma mancha de maior densidade no limite norte com o Rio de Janeiro, onde não
existem divisões espaciais com a capital, mas se percebe como um contínuo urbanizado, compreendendo os municípios de Nilópolis, Mesquita, São João de Meriti e
parte de Nova Iguaçu. À medida que nos afastamos da capital, os espaçamentos vão
aumentando e o tecido se fragmentando. Reconhecemos porém três ramificações
que, através das infraestruturas, enlaçam os núcleos mais dispersos: a principal,
em direção N-W, entre o eixo da antiga ferrovia Central do Brasil e a autoestrada
Presidente Dutra que inclui os municípios de Nova Iguaçu, Belford Roxo, Queimados e Japeri, e tem continuidade até São Paulo; uma outra, seguindo o caminho de
146
Rio de Janeiro: Explorações na subúrbio fluminense
Infraestrutura e urbanização
FV-9: Infra-estrutura e urbanização.
Um contínuo urbano seguindo
os eixos principais de conexão
a São Paulo e Petrópolis. Fonte:
Elaborado pelo autor sobre a base
cartográfica da Fundação Cide.
147
Rio de Janeiro: Explorações na subúrbio fluminense
Petrópolis em direção N-E incluindo Duque de Caxias e Magé; e uma última, mais
espaçada para o S-W, ligando os municípios de Seropédica e Itaguaí.
Enquanto as principais conexões de mobilidade – através de ferrovia ou rodovia- se
concentram na direção norte-sul e sempre a partir do núcleo da capital, existem hoje
poucas ligações transversais entre os diferentes bairros e municípios da Baixada.
Esta situação poderia mudar drasticamente com a construção do planejado arco rodoviário. O arco, que busca ligar o porto de Itaguaí na baía de Sepetiba ao novo
complexo petroquímico da Coperj, em Itaboraí, no lado leste da baía de Guanabara,
atravessaria de leste a oeste a Baixada e não só modificaria os fluxos do transporte
industrial do Estado, mas traria novas dinâmicas ao valor e uso da terra em áreas
ambientalmente frágeis que deveriam ser estudadas. Como demonstrou Carneiro, as
já comprometidas áreas permeáveis e os alagados que contribuem para a retenção
das águas nos trechos superiores dos rios precisariam ser resguardados de ocupação (Carneiro, 2008).
A rede de vias urbanas de menor porte constitui um sistema heterogêneo e bastante
fragmentado, refletindo a forma desordenada com que a terra foi dividida e loteada.
Ao mesmo tempo, as variações topográficas também concorrem para a percepção
labiríntica do sistema viário, observando malhas regulares nas áreas planas e outras
adaptadas à declividade dos morros.
O construído também é heterogêneo, com pontos de maior densidade aonde vem
se evidenciando um processo de verticalização, em contraste com outras áreas isoladas de características rurais. Mas o tecido que basicamente cobre a Baixada se
caracteriza por ser um manto autoconstruído, horizontal e compacto de baixa altura.
Superpostos a esse manto precário de moradias estão as indústrias e estabelecimentos comerciais e de logística que se instalaram junto as principais vias de conexão. Redes de alta tensão, estações de tratamento, aterros sanitários, muitas das
infraestruturas que alimentam a metrópole fazem parte do diversificado patchwork
da Baixada Fluminense.
O abastecimento de serviços básicos tem melhorado nas últimas décadas, mas ainda se evidenciam precariedades na qualidade ou falta de atendimento. A provisão
de saneamento -água, esgoto e coleta de lixo- é irregular, com casos extremos em
Belford Roxo com só 66% de cobertura, e outras áreas em Nova Iguaçu, Duque de
Caxias e Japeri, onde o déficit do serviço supera 20% dos domicílios (Observatório
das Metrópoles, 2005).
148
Rio de Janeiro: Explorações na subúrbio fluminense
A paisagem elaborada
O percurso histórico aqui apresentado não se pretende uma pesquisa detalhada de
fatos e dados, mas procura desvelar a formação do território no tempo, com especial
atenção às mediações entre o suporte natural -o que temos chamado de forma recebida- e o espaço construído. O estudo focaliza dois aspectos: por um lado, as infraestruturas que tiveram um importante papel na organização das conexões e serviram
de ossatura para a ocupação do território, por outro lado, os usos e as modificações
que eles introduziram na paisagem.
A particular fisiografia do território e a forma como ele foi percebido determinaram a
lógica de sua ocupação. A serra do Mar foi, por muito tempo, um obstáculo difícil de
transpor; até o século XIX, as conexões físicas entre o planalto e a Baixada eram
praticamente inexistentes. As terras úmidas e alagadiças ofereceram também resistências à ocupação. Silveira Mendez (1950), ao descrever as paisagens culturais da
Baixada Fluminense, ressalta a importância dos morros baixos como ponto de apoio
do colonizador, em contraste com as planícies frequentemente inundadas. Os extensos brejais foram um outro impedimento “às forças civilizadoras”, além de uma fonte
de doenças e pestes. Os esforços para transformar em produtivas as terras “insalubres” da Baixada produziram uma transformação drástica de sua paisagem natural.
Veremos as transformações que o território evidenciará a partir das atividades agrícolas, que abrangem desde a cana de açúcar, durante o século XVII, até a cultura
laranjeira em épocas bem mais recentes. A propagação de infraestruturas, especialmente as ferrovias, dará início, no final século XIX, ao processo de metamorfose do
território, que de agrícola se torna suburbano. A Baixada fará eco às mudanças no
seio da capital atraindo, nas primeiras décadas do século XX, um importante contingente de trabalhadores sem opção de acesso à moradia no centro da cidade. O
rápido retalhamento da terra determinará um processo de urbanização marcado pela
precariedade e insuficiência de serviços urbanos.
Passados mais de 50 anos do auge da migração urbana, a Baixada enfrente hoje
um lento processo de consolidação urbana: melhorias nos serviços de saneamento,
investimentos na qualidade urbana, proliferação de atividades econômicas e de diversidade de usos, etc. Ao mesmo tempo, novas dinâmicas econômicas, mudanças
nas formas de produção do espaço, investimentos em grande escala trazem novos
desafios a esta porção da periferia metropolitana.
149
150
Rio de Janeiro: Explorações na subúrbio fluminense
De fluvio-vias, ferro-vias e rodo-vias
Renato Kamp salienta, no seu livro sobre as “belezas” da Baixada, que este território tem sido historicamente percebido pelo carioca como “lugar de passagem”. Esta
percepção se fundamenta no papel que o espaço desempenhou nos distintos ciclos
econômicos que imprimiram o ritmo de desenvolvimento da região e do país: durante
o ciclo do açúcar, do ouro ou do café e nos períodos mais recentes de industrialização, a Baixada foi o nexo entre a capital e os diferentes polos de produção. Portos,
caminhos, ferrovias foram as primeiras marcas sobre o território e as que sustentaram o processo de urbanização.
Inicialmente, os rios em torno da baía da Guanabara serviam de conexão entre o
porto do Rio do Janeiro e o interior, e foi às suas margens que surgiram os primeiros
povoados. Os pequenos portos instalados nas beiras dos rios funcionavam como
entrepostos, lugares de transbordo para barcos menores ou para lombos de burros
que subiam a serra e lugares de descanso e pouso para viajantes e animais (Kamp,
2003).
Podemos observar nos mapas das travessias da época como freguesias, portos e
uns poucos caminhos se organizam em função do sistema fluvial. Alguns destes primeiros locais de atividade e intercâmbio tiveram um grande incremento de população
e chegaram a formar vilas e cidades. Goes (1934) destaca, entre as que gozaram
de certa prosperidade, a vila da Estrela, ponto inicial da estrada que se dirigia aos
FV-10: Durante o século XVIII freguesias, portos e uns poucos caminhos
se organizam em função do espaço
fluvial. Mapa que compara as vantagens de uma saída alternativa do
caminho de Minas para a Baía da
Guanabara. Fonte: Arquivo Nacional
Rio de Janeiro: Explorações na subúrbio fluminense
sertões dos estados do Rio, Minas e Mato Grosso, o Porto das Caixas, nas margens
do rio Macacu, e a antiga vila de Iguassu, às margens do rio de mesmo nome.
Silveira Mendes (1950) compara a paisagem da Baixada colonial com um arquipélago, visto que as relações entre os vários núcleos humanos, cidades, vilas e engenhos
se processavam através das águas. Todo aglomerado possuía o seu porto, e daí a
sua localização não muito longe da costa, da lagoa ou do rio. Destaca ainda o modo
como as embarcações, a remo ou vela e cobertas por toldos de palha quando utilizadas para transporte de passageiros, estavam intimamente associadas ao ambiente.
As condições cambiaram drasticamente na segunda metade do século XIX, quando
uma sucessão de acontecimentos determinaram o abandono dos rios. É o momento
de conquista dos trilhos, que tiveram um desenvolvimento vertiginoso a partir de
1850. Num período de 50 anos, a paisagem se transmutaria com a construção de
quatro linhas ferroviárias que atravessaram a Baixada Fluminense de norte a sul.
A primeira foi a Estrada de Ferro Dom Pedro II –transformada em Central do Brasil a
partir da República- cujo primeiro trecho ligava a freguesia de Santana a Queimados
-atualmente Nova Iguaçu-, construído em 1858. Em 1876 começam as obras para a
linha Rio D´Ouro, inicialmente para transportar materiais para a construção da rede
de distribuição e abastecimento de água para o Rio de Janeiro, proveniente dos
mananciais da serra, em Tinguá e Xerém, mais tarde com serviço regular de passageiros. Seguiu-se a Northern Railway Company, posteriormente Leopoldina, que
exigiu árduos trabalhos de engenharia para transpor as terras baixas e pantanosas
próximas à baía de Guanabara. Em 1886, foi inaugurada a primeira linha até Mirity
(hoje Duque de Caxias). Continuou depois até Inhomirim onde entroncava com a Estrada de Ferro do Grão Pará, que partia do porto de Mauá até Petrópolis. Por último,
a Estrada de Ferro Melhoramentos do Brasil, projetada inicialmente para transportar
ao Rio de Janeiro a produção de Paraíba do Sul, seria mais tarde incorporada como
linha auxiliar da Central do Brasil.
Traçada de forma quase paralela, do centro da capital para o interior, a malha ferroviária se delineia sobre o território da Baixada galgando os rios que correm de forma
perpendicular. No final de século XIX, a armadura da infraestrutura que daria suporte
à ocupação da Baixada Fluminense estava lançada. Trilhos e rios formam a malha
básica em função da qual a periferia metropolitana se organiza.
A próxima medida de racionalização do território será o “saneamento dos campos”,
através da dragagem, retificação e canalização dos rios, e da secagem de brejos e
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Rio de Janeiro: Explorações na subúrbio fluminense
pântanos. A luta contra o pântano foi uma preocupação constante dos habitantes da
Baixada. A limpeza e dragagem dos leitos dos rios foi uma tarefa comum durante a
Colônia, muito especialmente entre os jesuítas, os quais desenvolveram a arte do
controle hidráulico com grande maestria. Os fazendeiros, através da mão escrava,
também cuidaram de manter desobstruídos os rios e canais, para escoar a produção
por via fluvial (Silveira Mendes, 1950).
A domesticação da natureza meândrica dos rios e o dessecamento dos pântanos e
brejos da Baixada Fluminense se torna uma questão pública a partir dos inícios do
século XX, mediante a contratação de empresas privadas e, posteriormente, com
a criação de comissões públicas exclusivamente dedicadas ao saneamento da Baixada. As preocupações se originam em função da situação de abandono e declínio
econômico da região com o fim da cultura canavieira, o “retorno dos pântanos” e a
presença da malária. Considerado por vários autores como um período de “decadência” motivado, entre outros fatores, pela falta de manutenção dos rios, a partir da
FV-11: Rios e Trilhos, a síntese
do território nos finais do século
XIX. Planta da Estrada de Ferro
Rio d’ Ouro. 1897. Fonte: Arquivo
Nacional
Rio de Janeiro: Explorações na subúrbio fluminense
abolição da escravidão (1888), e o abandono dos campos. Trabalhos mais recentes
(Fernandes, 1998) relativizam o peso atribuído ao fim do trabalho escravo e chamam
a atenção para o caráter predatório de mais de dois séculos de intensa exploração
das matas e dos solos, que levaram a uma degradação ambiental que é usualmente
desconsiderada. Devemos avaliar também fatores de relocalização, com o surgimento de outras áreas produtivas e de maior fertilidade, como o caso de Campo de Goitacazes. Na questão do agravamento das enchentes e do retorno dos pântanos, outras
causas humanas são também imputadas às obras de instalação das ferrovias com
a construção de pontes e aterros comprometendo o escoamento das águas, criando
barragens e contenções.
As obras de saneamento, para tornarem valorizadas e produtivas as terras abandonadas e insalubres, significaram uma importante modificação da paisagem fluvial.
Na bacia da Guanabara as intervenções visavam principalmente recuperar áreas
alagadas periodicamente pelas marés e controlar as inundações (Goes, 1939). Recuperadas as terras, o objetivo sonhado pelos governantes era plasmar um cinturão
verde que pudesse abastecer de produtos agrícolas a capital, sem custos excessivos
de transporte (Goes, Lamego, Silveira).
Os cursos baixos dos rios tiveram seu leito aprofundado e retificado, diques e canais
marginais foram projetados para aumentar a capacidade de vazão, manguezais foram desmatados, terrenos alagadiços e parte da baía de Guanabara aterrados.
Segundo o relato do engenheiro chefe da comissão, o novo traçado dos rios em planta procurava seguir o talweg natural... só quando não havia vestígio de algum álveo,
onde os cursos d´ água se perdiam em brejais imensos, traçaram-se grandes tangentes.... Esta foi a estratégia utilizada nos rios Iguassu e afluentes; Botas, Sarapuí,
Capivari. O Rio Sarapuí teve também sua foz modificada, já não mais desembocando
diretamente na baía, mas através do rio Iguassu.
Quanto aos aterros, a técnica utilizada consistia na reutilização ora do material dragado, ora do material oriundo da demolição de morros adjacentes -tradicionalmente
instaurada na modernização do Rio de Janeiro. Cabe destacar as obras realizadas
na enseada de Manguinhos, no limite norte da capital, que demandou quase 4 milhões de metros quadrados de aterro para a criação, neste caso, de bens imobiliários destinados ao uso industrial. A enseada de Manguinhos foi por muito tempo um
grande obstáculo à expansão da capital e à conexão com os subúrbios da Baixada.
O aterro possibilitou, mais tarde, a montagem de novas estruturas rodoviárias (Fernandes, 1998).
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Rio de Janeiro: Explorações na subúrbio fluminense
Algumas colônias agrícolas foram promovidas pelo governo federal com o objetivo
de tornar produtivas e ocupar as terras públicas saneadas, mas foram reduzidas
a poucas experiências e provaram ter seus objetivos desvirtuados. A colônia São
Bento foi desenvolvida na antiga fazenda nas margens do Iguassu, através da venda
de lotes que visavam garantir a “lavoura branca”. Mas, com muito pouca produção
-segundo Mendes (1950) só eram cultivados mil hectares em uma superfície de 120
mil hectares-, as terras acabaram destinadas para uso de week-end e especulação
imobiliária (Fernandes, 1998).
Finalmente, o objetivo da constituição do green-belt que pudesse abastecer de produção agrícola a capital não foi alcançado. Pelo contrário, a conquista de terras através das obras de saneamento redundou na inversão da forma de ocupação do solo,
que de rural se tornou urbano (Fernandes, 1998).
Se a expansão das
ferrovias e a secagem dos campos
prepararam o terreno para a expansão
suburbana do Rio de
Janeiro, as rodovias
“abriram literalmente
o caminho” para a
sua ocupação. Sobre
a matriz da infraestrutura já instaurada
de trilhos e rios se
sobrepôs, a partir de
1920, um terceiro layer de mobilidade: as estradas de rodagem.
Devemos entender as transformações físicas no contexto do que foi denominado
no Brasil de “rodoviarismo”, um movimento que envolveu atores sociais e políticos
engajados na modernização das cidades e do território, a partir da inserção do veículo à combustão e pneus de borracha como meio de transporte. A construção das
rodovias, impulsionada pelo entusiasmo de proprietários e governantes, estava fortemente ligada a um ideário desenvolvimentista. O automóvel modificaria a relação
viária da cidade como também permitiria a integração do vasto território brasileiro
(Rosa Costa, 2006).
FV-12: Comissão de Saneamento da
Baixada Fluminense. Secagem dos
brejais e canalização do rio da Prata.
Fonte: Goes (1934)
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Rio de Janeiro: Explorações na subúrbio fluminense
Foram inauguradas no mesmo ano -1928- as duas principais rodovias de alcance
nacional que ligariam o Rio de Janeiro a São Paulo e Petrópolis, respectivamente.
Sob a presidência de Washington Luís, ele mesmo membro do Automóvel Clube Brasileiro, e que fez da expressão “governar é fazer estradas4” o lema de seu mandato
no governo do Estado de São Paulo e depois como Presidente do Brasil.
As obras deviam atravessar os brejos da baía de Guanabara e a muralha da serra
do Mar, considerados os dois maiores entraves à integração nacional. No caso da
estrada para Petrópolis, vários traçados foram estudados, incluindo o aproveitamento de um trecho inutilizado da Leopoldina. Saindo da Praia Pequena, continuava
bordejando a ferrovia até empalmar, perto do rio Iguassu, com a antiga estrada para
Petrópolis, aberta pelos sócios do Automóvel Clube em 1922. As condições técnicas
da estrada, ou seja, o revestimento em macadame com penetração de betume, no
trecho da Baixada, e o leito em concreto, no trecho da serra, permitiriam que os automóveis desenvolvessem até 60 quilômetros de velocidade por hora, o que, para a
época, representava um novo padrão de velocidade (Rosa-Costa, 2006).
A estrada Rio - São Paulo saía do Engenho de Dentro, continuava na direção oeste
da cidade, correndo no vale entre o maciço da Tijuca e a serra de Madureira até
Campo Grande, para logo depois atravessar Seropédica e subir a serra das Araras,
no ponto mais baixo da serra do Mar. O tempo de viagem entre Rio e São Paulo
foi reduzido a dez horas, diferença notável em comparação com as 144 horas que
demorou a Bandeira Automobilística da Associação de Estradas de Rodagem, em
1925 (Diário do Vale).
Um novo trajeto, encurtando 110 quilômetros de extensão, seria construído em 1950,
contornando a ladeira norte da serra de Madureira e atravessando o município de
Nova Iguaçu, e que se transformaria na ligação definitiva das duas maiores metrópoles do país. Com trechos de quatro pistas, a moderna rodovia Presidente Dutra
será o novo eixo de desenvolvimento da Baixada Fluminense e o elo de conexão
com São Paulo.
É interessante recordar, que no início do desenvolvimento rodoviário a rede de estradas foi concebida como um sistema complementar às ferrovias, pressupondo que a
articulação entre elas levaria a influência benéfica de ambas a zonas que, de outra
maneira, ficariam isoladas. A intenção, segundo os discursos de Washington Luís,
era de complementaridade e não de concorrência (BRAZIL-FERRO-CARRIL,1926a,
apud Rosa-Costa).
4_A versão original está descrita à
página 57 do relatório do Ministério
de Viação e Obras Públicas: “Governar é povoar; mas não se povoa
sem abrir estradas, e de todas as
espécies. Governar é, pois, fazer
estradas. É esta campanha que ora
se começa.”
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Rio de Janeiro: Explorações na subúrbio fluminense
Com o tempo, porém, essa intenção de complementaridade foi se perdendo. A febre
rodoviária ganhou ainda mais força, com obras de grande impacto para o Rio de
Janeiro (abertura de túneis, viadutos, elevados, etc), enquanto as ferrovias ficaram
relegadas, sem receber investimentos. A partir dos anos 60, logo após ser unificada
a administração de todas as linhas na sociedade anônima Rede Ferroviária Federal
(RFFSA), o sistema ferroviário sofreu um processo de desinvestimento, degradação
da infraestrutura e perda do mercado para o modal rodoviário. Nos anos 90, a RFFSA
se extingue, transferindo-se as poucas linhas ativas para mãos privadas.
No caso das linhas que atravessavam a Baixada Fluminense, elas passaram a fazer parte do sistema de trens urbanos que servem à metrópole. Administradas hoje
pela companhia Supervia, operam sete linhas, todas com destino à Estação Central
do Brasil: Linha Japeri (Japeri), Linha Santa Cruz (Rio de Janeiro), Linha Deodoro
(Rio de Janeiro), Linha Saracuruna (Duque de Caxias), Linha Belford Roxo (Belford
Roxo), Linha Paracambi (Paracambi), Linha Vila Inhomirim (Magé).
As rodovias, pelo contrário, continuaram se expandindo, ampliando e melhorando
para atender o crescente fluxo de veículos e os novos padrões de velocidade. Depois
do Plano Nacional de Viação de 1974, as rodovias foram reorganizadas. A Washington Luiz ganhou novo percurso, com um moderno traçado atravessando Duque de
Caxias. A antiga Rio-Petrópolis passou a ser a avenida urbana Presidente Kennedy,
eixo tronco do município. Com a construção da Linha Vermelha e da avenida Brasil
(trevo das Margaridas) a rodovia Washington Luiz (BR 040) e a Presidente Dutra (BR
FV-13: A malha de infraestruturas
nos começos de século XX. Mapa
das estradas de rodagem Rio- São
Paulo e Rio- Petrópolis. Fonte:
Arquivo Nacional
Rio de Janeiro: Explorações na subúrbio fluminense
116) foram interligadas no limite norte do município do Rio de Janeiro. Nos anos 90,
ambas as rodovias passaram a concessionárias privadas.
A ossatura da metrópole ficou assim desenhada. As autoestradas, de alguma maneira, reforçaram os trajetos originais das ferrovias mantendo as ligações regionais, com
poucos e pontuais contatos com o tecido local. Enquanto as linhas férreas, relegadas
às conexões metropolitanas, fazem a articulação na escala local.
Do engenho ao subúrbio: a ocupação do solo na Baixada Fluminense
As infraestruturas configuram a armadura que vai dar suporte a transformação do
território, um processo de transição de uma paisagem rural à metrópole contemporânea.
A história da ocupação do solo da Baixada Fluminense foi marcada por ritmos diversos, ciclos pendulares de desenvolvimento intensivo e abandono, expansão e
retração. Os diferentes períodos produtivos, as oscilações da economia nacional e
as transformações no seio do Rio de Janeiro terão manifestações no território fluminense.
Os primeiros assentamentos dos colonos se apoiam economicamente na produção
de cana de açúcar e socialmente na religiosidade (Lamego, 1947). As conquistas da
terra e da mão de obra índia estão aliadas à catequese, sendo as capelas as células
embrionárias das aldeias e freguesias. O engenho imprime a sua lógica de uso do
solo, procurando sempre se instalar nas proximidades dos rios, não apenas porque
as terras de aluvião das margens são mais férteis, mas também pela facilidade do
transporte fluvial. Os edifícios da casa grande se situavam a meia encosta ou nos
sopés dos morros e as capelas, quando separadas da residência do senhor de engenho, localizavam-se no alto das colinas (Silva Mendes, 1950).
Segundo Silva Mendes, a partir de 1750 a cana de açúcar passa a dominar o território da Guanabara, relegando outras atividades econômicas como a pecuária e gerando uma paisagem bastante uniforme. Algumas olarias se instalam, aproveitando
o solo argiloso, na beira do rio Iguaçu para produzir as formas de barro e os tijolos
para as construções locais. Como já foi discutido, o espaço se organiza em função
do sistema fluvial que articula, a partir dos rios e da baía de Guanabara, o território e
as relações entre o interior e a capital.
O século XIX assistirá grandes transformações. O novo ciclo econômico brasileiro –
do café- vai deslocar das planícies para a serra a produção, que se desenvolverá
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Rio de Janeiro: Explorações na subúrbio fluminense
mais intensamente no vale do Paraíba e posteriormente no interior de São Paulo.
“Uma ofensiva de machados assaltava os morros, devastava as encostas de montanhas numa contínua derrubada de florestas” (Lamego). Ao mesmo tempo, a implantação e rápida expansão dos engenhos a vapor determinou a decadência e o quase
total aniquilamento dos antigos engenhos coloniais movidos à tração animal ou força
hidráulica. Os campos já cansados e pouco férteis da Baixada foram aos poucos
abandonados e a produção açucareira desviada para a planície Campista.
A chegada das ferrovias e o desmatamento promovido pela demanda de lenha para
combustão agudizaram os problemas ambientais. Os rios sem manutenção e a obstrução produzida pelas mesmas ferrovias contribuíram para o “retorno” de pântanos
e brejos. A propagação da malária selará o abandono das áreas rurais5.
O quadro descrito por vários autores é de devastação e, geralmente, atribuído a uma
“terra rebelde e insurgente contra as arremetidas civilizadoras”. Os dados demográficos corroboram o despovoamento dos campos e um crescimento dos centros
urbanos que começam a surgir em torno das estações ferroviárias. Segundo Silva,
entre 1882 e 1920 o crescimento só se verificou nas sedes de Nova Iguaçu, Meriti e
Nilópolis, enquanto os distritos essencialmente rurais como Queimados, Cava e Bonfim tiveram a sua densidade demográfica reduzida. A sede municipal do distrito de
Iguassu, localizada na vila e porto sobre o mesmo rio, foi transferida para a estação
Maxambomba em 1891, renomeada posteriormente Nova Iguaçu, onde permanece
até hoje. Esta transferência corrobora o papel indutor que tiveram as ferrovias no
processo de urbanização da Baixada, a partir do fim de século XIX, em detrimento
dos rios.
Para compreender as transformações que a Baixada Fluminense vai atravessar no
século seguinte devemos entender as mudanças ocorridas no centro do Rio de Janeiro. A partir da República (1889) a cidade, que até então não crescera significativamente, vai ser alvo de um processo de transformações drásticas que serão a
semente da sua segregação espacial. Verifica-se um duplo processo, por um lado, as
camadas mais pobres foram retiradas do centro em consequência das operações de
renovação urbana, sendo forçadas a procurar nova moradia nos subúrbios. Por outro
lado, um grupo cada vez mais importante de migrantes do interior se dirigiu à capital
em busca de empregos na incipiente indústria local. Impossibilitados de afrontar os
custos nas áreas centrais, eles também se localizaram em áreas distantes do centro,
mas articuladas pelas conexões ferroviárias.
5_Por muito tempo os brejos foram
culpados pela propagação da malária em vez do mosquito. A erradicação efetiva só ocorreu através do
combate por dedetização domiciliar
ao inseto transmissor pelo Serviço
de Malária da Baixada Fluminense.
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Rio de Janeiro: Explorações na subúrbio fluminense
O século XX será o momento de crescimento exponencial da população urbana,
de expansão da metrópole e de consolidação da sua segregação social e espacial.
Assim, ao norte do Distrito Federal se concentrará a classe trabalhadora, junto às indústrias, e ao sul, às residências das classes média e alta. Nos primeiros 30 anos, a
extensão efetiva do tecido urbano traspassará as fronteiras do Distrito Federal dando
início à integração física da Baixada ao espaço carioca (Abreu, 1987).
A expansão se estrutura a partir dos núcleos das estações ferroviárias. Silva Mendes descreve a paisagem da Baixada nos anos 40 como composta de dois tipos de
“povoamentos”:
...O primeiro é constituído pelas aglomerações suburbanas que
em virtude da expansão da cidade do Rio surgiram e cresceram à
margem das estradas de ferro numa disposição tipicamente linear,
os antigos nódulos de casarios, formados em torno das estações
e paradas, num raio de 50 km a partir do centro da metrópole,
praticamente se uniram formando como que uma única cidade,
estendendo-se sob a forma de tentáculos ou varetas abertas de
um leque (Silva, 1950:67).
FV-14: Nova Iguaçu em 1940:
“Capital da citricultura do Estado do
Rio de Janeiro”. Fonte: Correio de
Manhã, Arquivo Nacional
160
Rio de Janeiro: Explorações na subúrbio fluminense
O autor chama a atenção para os escassos vazios entre os núcleos, que “em breve estarão
inteiramente preenchidos”. O segundo tipo de
povoamento é o rural que se dissemina pelas
áreas intercaladas entre as vias férreas, em nítido contraste com as aglomerações suburbanas.
Um “último suspiro agrícola” vai ser vivido na
Baixada no período entre guerras, especialmente nos arredores de Nova Iguaçu. É o ciclo
da laranja. A renda da terra proporcionada pela
atividade agrícola superava então os lucros que
poderiam advir da sua conversão em lotes urbanos (Abreu, 1987), o que deteve –por alguns
anos- o loteamento como já vinha ocorrendo
em outros distritos. A divisão das fazendas em
chácaras -pequenas propriedades de 40 hectares- imprimirá uma paisagem rural geométrica de pomares em linhas e cercas vivas
(Silva, 1950). Ocupando primeiramente as ladeiras dos morros, os laranjais foram
paulatinamente se expandindo também pelas planícies drenadas.
A queda do mercado de exportação, a partir da explosão da Segunda Guerra Mundial, marcará o fim da agricultura na Baixada Fluminense e seu destino como periferia urbana em função do Rio de Janeiro.
Abreu destaca quatro fatores determinantes da expansão metropolitana: as obras, na
década de 30, pela Direção Nacional de Saneamento; a eletrificação da Central do
Brasil, a partir de 1935; a instituição da tarifa ferroviária única em todo o grande Rio e
a abertura da avenida Brasil, em 1946, que aumentou sobremaneira a acessibilidade
dos municípios periféricos. Resultou daí uma febre imobiliária notável que se refletiu
no retalhamento intenso dos terrenos para a criação de loteamentos, muitos dos
quais foram abertos sem qualquer aprovação oficial (Abreu, 1987).
O mesmo autor afirma que, no final dos anos 40, a onda urbanizadora tinha praticamente atingido os seus limites atuais. Os anos seguintes iriam se caracterizar mais
pelo adensamento dessa frente pioneira do que pelo seu avanço no espaço. O período 30-50 se constitui na fase mais marcante de expansão física da metrópole (Abreu,
1987). Muitos dos municípios da Baixada mantiveram taxas médias de crescimento
anual acima de 10% durante a década de 40-50, que permaneceram elevadas nas
duas décadas seguintes. Nova Iguaçu e Duque de Caxias, por exemplo, de uma
FV-15: Bases cartográficas. Nova
Iguassu. Serviço Geográfico e Histórico do Exército, 1:10.000, 1939. Fonte:
Arquivo Nacional
Rio de Janeiro: Explorações na subúrbio fluminense
FV-16: Reconstituição da ocupação
em 1940. Fonte: Elaborado pelo
autor sobre a base cartográfica do
Serviço Geográfico e Histórico do
Exército
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Rio de Janeiro: Explorações na subúrbio fluminense
população de menos de 30
mil habitantes em 1940, passaram a 181 mil e 243 mil,
respectivamente, em 1960
(Ver tabela anexa).
A mancha urbana que se
mantivera concentrada nos
núcleos em torno das estações ferroviárias começa a
preencher os espaços intermédios. O baixo preço dos
lotes e o mínimo de exigências burocráticas, em contraposição ao progressivo controle exercido pelo Estado no
Distrito Federal, consolidaram a formação de um tecido urbano carente de infraestrutura e autoconstruído (Abreu, 1987, Fundrem, 1979).
Terminada a economia agrícola, os núcleos suburbanos se transformam em cidades
dormitórios de uma população que se desloca diariamente para o trabalho na capital.
O Estado terá, a partir dos anos 50, um papel ativo na promoção da indústria nacional, com incentivos fiscais para a instalação de fábricas, especialmente ao longo das
rodovias principais: a Dutra e a Washington Luiz. Duque de Caxias se transformará
em núcleo secundário industrial, com a instalação de médias e grandes indústrias
(1954, Fábrica Nacional de Motores; 1961, Complexo da Petrobras) atraídas pela
acessibilidade, o baixo custo da terra, a mão-de-obra abundante e a disponibilidade
de grandes terrenos (Fundrem, 1979). A Bayer se instalará às margens do rio Sarapuí, hoje município de Belford Roxo, em 1958. Nova Iguaçu, por sua parte, terá uma
participação mais diversificada das funções. Por ter se originado como cidade-sede
de um vasto município agrícola, apresentou desde cedo uma diversidade de usos comerciais, de serviços e de indústrias de pequeno e médio porte.
Passado o momento da grande explosão demográfica, a partir dos anos 70 as preocupações se concentraram nos problemas da qualidade urbana e, fundamentalmente, na provisão de infraestrutura com foco no saneamento. Seguindo a criação
das regiões metropolitanas brasileiras e de seus órgãos administrativos foi instituída,
para o Rio de Janeiro, a Fundrem, Fundação para o Desenvolvimento da Região
Metropolitana. A Fundação conseguiu, pela primeira vez, coletar um importante conjunto de informações estruturais sobre a metrópole e desenvolveu planos diretores
para os municípios que, nesse momento, não dispunham dos corpos técnicos neces-
FV-17: Bases cartográficas. Nova
Iguassu e Duque de Caxias.
Fundrem, 1:10.000, 1975. Fonte:
Fundação Cide
Rio de Janeiro: Explorações na subúrbio fluminense
FV-18: Reconstituição da ocupação
em 1975. Fonte: Elaborado pelo
autor sobre a base cartográfica da
Fundrem
163
164
Rio de Janeiro: Explorações na subúrbio fluminense
sários. Para os municípios
da Baixada, as conclusões
dos estudos coincidem em
assinalar exclusivamente as
carências:
desarticulação
do sistema rodoviário e falta
de pavimentação de ruas,
precário atendimento das redes de água, saneamento e
coleta domiciliar de lixo, alto
índice de mortalidade infantil
e de mortes causadas por infecções parasitárias, equipamentos de saúde e educação
insuficientes e falta de alternativas de lazer para os moradores (Fundrem, 1979).
Mas as exigências por uma distribuição mais equitativa dos benefícios da cidade
serão expressão também das organizações sociais que se articulam no território da
Baixada e que, especialmente depois da redemocratização, terão uma voz política
importante. Os contornos e as contradições das políticas públicas de saneamento
estão fora do escopo desta tese, mas já foram bem estudadas por Britto e Porto
(1998), entre outros.
O que nos interessa resgatar é o fato de que, a partir dos anos 80, os municípios da
Baixada Fluminense começam aos poucos a receber investimentos para a melhoria
da infraestrutura urbana. O perfil dos primeiros anos das cidades dormitórios vai
também se tornando mais complexo, com o avanço de outras atividades de comércio
e serviços, consolidando subcentros urbanos e multiplicando as relações que deixam
de ser monodirecionais e exclusivas para o centro do Rio de Janeiro. O tecido urbano
também se renova, com a substituição e o adensamento, como podemos verificar por
exemplo no centro de Nova Iguaçu, onde a edificação em altura está configurando
uma paisagem diversificada e contrastante com o manto horizontal e autoconstruído
de baixa densidade que caracterizava a Baixada.
As transformações das periferias metropolitanas no começo do século XXI já foram
analisadas no primeiro capítulo. Resta aqui corroborar algumas das tendências para
a Baixada Fluminense. Se, por um lado, a Baixada ainda se distingue por apresentar
o tradicional “padrão periférico”, algumas mudanças incipientes atestam novas dinâ-
FV-19: Bases cartográficas. Fundação Cide Ortofoto. 1:10.000.
Programa de Despoluição da Baía
da Guanabara. Data do voo 2003.
Fonte: Fundação Cide
Rio de Janeiro: Explorações na subúrbio fluminense
FV-20: Reconstituição da ocupação
em 2003. Fonte: Elaborado pelo
autor sobre a base cartográfica da
Fundação Cide
165
166
Rio de Janeiro: Explorações na subúrbio fluminense
micas na produção do espaço. Assim, podemos encontrar novos atores e novas formas de incorporação imobiliária em empreendimentos que reproduzem os padrões
promovidos na capital, com formas condominiais de moradia. Também novos empreendimentos comerciais privados têm instalado a lógica do shopping mall em vários
dos municípios da Baixada.
Não obstante, a informalidade e a ilegalidade continuam se alastrando com a retomada do crescimento das favelas ou o adensamento das existentes (Ribeiro e Lago,
1992). E as carências em serviços e infraestrutura continuam sendo importantes.
Um largo caminho ainda deve ser percorrido para que a Baixada Fluminense possa
alcançar padrões urbanos de qualidade.
FV-21: Paisagem metropolitana.
Vista da Baixada Fluminense desde
a serra de Madureira
A síntese, paisagem matriz para urbanismo
06.A síntese, paisagem, matriz para urbanismo
Finalmente, as quatro categorias operacionais examinadas no capitulo 3 serão aqui utilizadas como
filtros para explorar as possibilidades de uma abordagem paisagística na formulação de um projeto urbano para a periferia metropolitana. Um conjunto de amostras de tecido revelará situações específicas
nas quais as mediações entre a matriz biofísica e o tecido construído adquirem formas particulares
de expressão. O objetivo não é desenvolver um projeto, mesmo que a sua emergência fique muitas
vezes na superfície quase tangível das descrições. O projeto fica latente como um conjunto de ideias
que exprimem a potencialidade de um cenário diferente. As perguntas levantadas são um convite a
repensar a construção do território sob uma racionalidade outra, que surge da lógica da paisagem.
Sem a pretensão de formular um método rígido, o trabalho explora as categorias
propostas como guia para uma abordagem paisagística: camadas, espaços livres,
fronteiras e processos são as portas de entrada para uma interpretação de situações
territoriais. Formam um conjunto de temas, testemunhas de situações concretas que
refletem a materialidade e os processos que caracterizam este recorte da periferia
metropolitana carioca. Apresentadas as características do recorte expandido da Baixada, nos concentraremos agora em duas escalas: a janela de 20x25 quilômetros
aproximadamente, abrangendo principalmente os municípios de Belford Roxo, Mesquita, São João de Meriti e parte dos municípios de Caxias e de Nova Iguaçu. Os
mapas se relacionam com outras janelas urbanas que permitem melhor visualizar o
tecido e as relações entre cheios e vazios.
Infraestruturas “duras” versus infraestruturas “brandas”. Camadas
A decomposição em camadas revela alguns aspectos particulares do recorte escolhido. A camada do relevo mostra um conjunto de morros baixos, agrupados, formando
como que línguas entre os vales fluviais. A oeste, eleva-se a serra de Madureira, a
leste, o grande plano sobre a baía da Guanabara. Ao superpor as camadas das condições geológicas e da hidrografia, esta leitura se reforça, a estrutura física fica ainda
mais clara, mostrando os contrastes entre os leques fluviais e os grupos de morros.
As águas, que nascem no alto das serras e correm no sentido oeste-leste para desaguar na baía, separam ritmos, intervalos: no limite com o Rio de Janeiro, os rios
Pavuna- Meriti, aproximadamente cinco quilômetros ao norte, o rio Sarapuí, e, por
último, o rio Botas que se junta com o rio Iguaçu, este com a nascente na serra de
Tinguá.
167
168
A síntese, paisagem matriz para urbanismo
Ao norte, a capilaridade maior denota a ausência da ocupação urbana e a cercania
da serra. A água reclama espaços de inundação. O mapa expõe as áreas inundadas
na grande enchente de 19881 e sua relação com as áreas construídas. A ocupação
sem controle das áreas baixas e de faixas marginais aos rios tem criado condições
de alto risco para as famílias que moram na Baixada Fluminense.
A elevação do nível do mar, como consequência do aquecimento global, intensificará
os problemas relativos às inundações. A crescente impermeabilização do solo resultante da expansão urbana aumenta a vulnerabilidade da região. A falta de esgoto e
de coleta de lixo compromete seriamente a saúde ambiental dos rios e agrava as
condições de escoamento, demandando custosos projetos de dragagem e limpeza.
Se, por muito tempo, a Baixada Fluminense lutou contra o pântano, hoje a revisão
das técnicas de controle das enchentes aponta para a necessidade de um exame
dos métodos utilizados. Isto implica uma mudança na relação que a cidade estabeleceu com o pântano, em vez de anulá-lo devemos aprender a conviver com ele.
Esta é uma questão relevante que requer decisões em escala metropolitana, e é
fundamentalmente um tema de reflexão para o urbanismo.
Já tínhamos detectado que o sistema de infraestruturas de mobilidade foi construído
atravessando a Baixada de norte a sul, cruzando os rios perpendicularmente. Ao
estudar a superposição das infraestruturas existentes e planejadas sobre a matriz
biofísica, podemos desvelar e analisar as relações entre elas e explorar as potencialidades de uma articulação que outorgue legibilidade ao território.
Podemos visualizar, assim, um sistema de infraestruturas “duras” formado pelas rodovias e ferrovias que saindo do centro do Rio de Janeiro vão procurar subir a serra
do Mar, atravessado transversalmente por um sistema de infraestruturas “brandas”
formadas pelos rios.
Que projetos urbanísticos poderiam reforçar este sistema? Como conciliar a pressão
de ocupação das áreas marginais dos rios com a consolidação de corredores verdes
ao longo destes? Podemos pretender que os rios se transformem em qualificadores
do entorno urbano em vez de simples “cloacas”?
Desafortunadamente, hoje os rios estão inutilizados para a navegação. Uma tal estrutura de superposição de infraestruturas sugere se pensar na potencialidade de
1_Algumas obras realizadas pelos
programas Reconstrução Rio,
Baixada Viva e Nova Baixada têm
melhorado o impacto das enchentes, reduzindo em alguns pontos
a mancha de inundação que é
mostrada por este mapa. Fonte:
COPPE, Laboratório de Hidrologia,
UFRJ
A síntese, paisagem matriz para urbanismo
Relevo
FVI-1: Relevo. O conjunto de morros baixos agrupados formando línguas entre os vales fluviais. Fonte:
Elaborado pelo autor sobre a base
cartográfica da Fundação Cide.
169
A síntese, paisagem matriz para urbanismo
Condições ambientais
FVI-2: Condições ambientais. Ao
superpor as camadas das condições geológicas e da hidrografia os
contrastes entre os leques fluviais
e os grupos de morros se reforçam.
Fonte: Elaborado pelo autor sobre
a base cartográfica da Fundação
Cide.
170
A síntese, paisagem matriz para urbanismo
Urbanização + espaços da água
FVI-3: As águas reclamam espaços
de inundação. Áreas afetadas na
grande enchente de 1988. Fonte:
Elaborado pelo autor sobre a base
cartográfica da Fundação Cide e da
COPPE, Laboratorio de Hidrologia
UFRJ.
171
A síntese, paisagem matriz para urbanismo
sistemas complementares e intermodais de transporte. É possível imaginar uma revitalização dos rios como elementos ativos da vida urbana?
Se até hoje as conexões entre as infraestruturas “duras” (fundamentalmente entre a
rodovia Presidente Dutra e a rodovia Washington Luiz) só se concretizam através de
ruas locais, os planos para a construção de uma via expressa sobre o rio Sarapuí e
do anel rodoviário metropolitano mudam radicalmente esta situação.
De que forma os projetos de infraestrutura planejados incorporam este entendimento
da estrutura da paisagem? Como está sendo pensada a relação entre estas vias e
o sistema fluvial?
Cada um dos projetos representa duas situações bem diferentes. A construção do
anel rodoviário vai afetar uma zona relativamente pouco ocupada, mas de grande
importância ambiental. As preocupações giram em torno da proteção das áreas de
infiltração e de como evitar que o arco se transforme num acelerador da ocupação
urbana em áreas que deveriam ser preservadas.
A via expressa do Sarapuí, pelo contrário, atravessará uma área de densidade média
e baixa, cruzando o centro da Baixada Fluminense e atingindo diretamente os municípios de Belford Roxo, São João de Meriti e Duque de Caxias.
Algumas lições podem ser tiradas das obras já realizadas. A construção da Linha
Vermelha (Via Expressa Presidente João Goulart), por exemplo, bordejando os rios
Pavuna e Meriti, no limite entre os municípios da Baixada e a capital, representa um
clássico exemplo de formas de intervenção setoriais. Tanto o canal quanto a rodovia
foram pensados sob estritos modelos funcionais, dando prioridade ao fluxo -dos carros e das águas. Juntos, eles formam uma estrutura de grande impacto que permite
relações em grande escala, mas que provoca desarticulações na escala local (Braga,
2006).
Um tal modelo –sem a incorporação de critérios de desenho urbano- anula as possíveis sinergias entre o tecido urbano e o espaço fluvial, dificulta a integração de
ambas as margens e inibe a criação de espaço público.
Que novas formas de integração das infraestruturas na paisagem podem criar efeitos contrários? Como converter um projeto de infraestrutura em catalisador de uma
transformação urbana positiva?
172
173
A síntese, paisagem matriz para urbanismo
3
2
1
Infraestruturas “duras” e“brandas”
FVI-4: Um sistema integrado de infraestruturas duras (rodovias e ferrovias) e brandas (rios) forma a armadura de
suporte do território. Como re-pensar a relação entre elas nos futuros planes de expansão do sistema rodoviário?
1. Via Expressa Presidente João Goulart, 2. Via Expressa planejada ao longo do rio Sarapuí, 3. Futuro Arco Rodoviário. Fonte: Elaborado pelo autor sobre a base cartográfica da Fundação Cide.
174
A síntese, paisagem matriz para urbanismo
Pode a solução integral do desenho da infraestrutura, incorporando questões viárias,
hidráulicas, ambientais e urbanas transformar o projeto da via expressa do Sarapuí
num grande projeto urbano para a Baixada?
No caso do arco rodoviário, as questões suscitadas pelo contexto são bem diferentes. A rodovia vai atravessar, neste trecho da Baixada, áreas hoje praticamente
desocupadas. As consequências ambientais da expansão descontrolada sobre este
território já foram estudadas por Carneiro (2006). Embora a criação de vetores de
expansão urbana a partir do arco metropolitano seja um dos benefícios anunciados
pelo governo do Estado2, neste caso, a expansão só intensificaria a degradação
ambiental e a impermeabilização dos solos, com o consequente agravamento das
inundações.
A pergunta aqui se inverte. Como desenhar infraestruturas que desinibam a ocupação? Neste caso, como proteger? Que novos valores agregar ao solo para que ele
possa resistir à pressão urbana? Até onde urbanizar? Como desenhar os limites?
Quais as mediações espaciais possíveis entre a malha urbana, as áreas de proteção
e as infraestruturas?
Ocupações e resistências. O desvanecimento das áreas livres
Uma leitura da Baixada a partir de suas áreas livres que novos entendimentos pode
aportar?
No recorte estudado, identificamos dois grandes vazios da natureza: a baía da Guanabara e a serra de Madureira, as duas grandes figuras negativas cujos contornos
modelaram a expansão da Baixada. Ao norte, seguindo o vale do rio Iguaçu amplas
áreas de pastagem, sujeitas a inundações frequentes, constituem a fronteira de expansão urbana.
Tanto a serra como o entorno da baía são, por suas características próprias, limites
físicos importantes, nem por isso deixam de sofrer degradação pela pressão da ocupação urbana. A serra desnuda mostra as consequências do desflorestamento após
o declínio da produção laranjeira. Além da pressão urbana, com o lento ocupar das
ladeiras, a serra também tem sofrido exploração mineral, expondo canteiras – algumas ainda em atividade. A degradação e a desaparição dos manguezais da baía da
Guanabara assinalam a fragilidade dos ecossistemas ameaçados pela contaminação industrial e pela contaminação proveniente do grande lixão de Gramacho.
Outras áreas livres, que podemos chamar “da natureza”, são mais vulneráveis à ocupação. As várzeas e bordas de rios, apesar de protegidas legalmente (faixa marginal
2_Benefícios esperados com a
implantação do Arco Rodoviário
segundo anunciados pelo governo
do Estado:
- Atende ao tráfego de longa distância oriundo das regiões Sul/Sudeste em direção às regiões Norte/
Nordeste do país.
- Conecta as rodovias federais BR040, BR-116 (Norte e Sul), BR-465
e BR-101 (Norte e Sul).
- Desvia o tráfego de veículos
comerciais de longa distância,
aliviando os principais corredores
metropolitanos, tais como a avenida Brasil, a Ponte Rio-Niterói, a
BR-101 (entre Manilha e a Ponte).
- Amplia a acessibilidade aos portos de Itaguaí e Rio de Janeiro.
- Viabiliza a implantação de terminais logísticos, com redução
dos tempos de viagem e dos
custos de transportes, bem como a
distribuição destas cargas para os
mercados consumidores.
- Introduz novos vetores de
expansão urbana para os municípios localizados em sua área de
influência.
175
A síntese, paisagem matriz para urbanismo
FVI-5: Footprint vazios. Fonte: Autor
de proteção), são comumente ocupadas de forma irregular. Observando-se a superposição entre os espaços livres e o sistema fluvial percebe-se a quase inexistência
de áreas livres no entorno dos rios. Apenas o rio Iguaçu, afastado da área urbana,
mantém junto com a foz do rio Botas áreas livres importantes na suas margens.
Os morros baixos, característicos da Baixada, permanecem como espaços livres dependendo da declividade e da intensidade da ocupação urbana. Assim, municípios
como Mesquita possuem quase a totalidade do território ocupado, sem distinção nas
variações topográficas. Belford Roxo, ao contrário, apresenta um tecido mais aberto,
com ocupação mais intensa nas áreas planas e muitos morros ainda livres.
É interessante verificar como as lógicas de ocupação em relação às condições do
meio físico se inverteram com a ocupação urbana. Se a lógica rural se distinguia pela
divisão entre morar a meia encosta do morro, deixando os vales livres para a produção agrícola, os usos urbanos alteraram esta lógica dando prioridade à ocupação dos
vales –pela facilidade de deitar as infraestruturas- para depois colonizar os morrotes
de declividade suave.
O espaço público é o grande ausente na Baixada. A rápida expansão e a forma de
produção do espaço, sem uma intervenção que visasse à qualidade do tecido urbano, redundaram na ausência de espaços públicos.
Poderíamos caracterizar a história da Baixada como a da lenta desaparição do vazio.
As áreas livres hoje existentes resultam mais do espaço residual -o que, por alguma circunstância, ainda resta sem ocupação- do que por determinação ou objetivo
A síntese, paisagem matriz para urbanismo
Espaços livres + Relevo
FVI-6: Espaços livres e relevo. Se
a lógica rural se distinguia pela
divisão entre morar a meia encosta
do morro, deixando os vales livres
para a produção agrícola, os usos
urbanos alteraram esta lógica
dando prioridade à ocupação dos
vales –pela facilidade de deitar as
infraestruturas- para depois colonizar os morrotes de declividade
suave. Fonte: Elaborado pelo autor
sobre a base cartográfica da Fundação Cide.
176
A síntese, paisagem matriz para urbanismo
Espaços livres + Água
FVI-7: Espaços livres e água. As
várzeas e bordas de rios, a pesar
de proteções legais, são vulneráveis à ocupação urbana. Fonte:
Elaborado pelo autor sobre a base
cartográfica da Fundação Cide.
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A síntese, paisagem matriz para urbanismo
FVI-8: Ocupações e resistências.
Tecido compacto, os vazios que
restam. Campos de futebol (Mesquita), pista de aeroporto (Nova
Iguaçu).
Tecido em processo de consolidação, os vazios expectantes: áreas
inundáveis (Belford Roxo), morros
baixos (Queimados). Fonte: Serla
(Inea)
de desenho urbano. Elas permanecem livres porque
oferecem alguma resistência à ocupação urbana. Esta
resistência pode estar vinculada a condições físicas do
terreno (condições do solo, declividade, vulnerabilidade
às inundações, etc.), a normativas de proteção (APA,
faixa marginal de proteção, faixa da light, etc), a condições de atratividade urbana (infraestrutura, conexões,
serviços), ou ao valor específico de uso (campos de
futebol, aeroportos, clubes, áreas agrícolas, etc).
Sem uma intervenção voltada para a manutenção dos
espaços livres, o cenário futuro da Baixada será de uma
ocupação total. Quais projetos urbanos podem garantir
a sobrevivência dos espaços livres? Quais operações
podem criar novos vazios?
Visualizamos duas situações opostas. Por um lado,
comprovamos, nos bairros mais antigos, a existência
de tecidos urbanos compactos, onde o manto construído cobre de forma indiferenciada margens de rios,
vales e morros, com a quase inexistência de espaços
abertos. Neste caso, as possibilidades de intervenção
devem buscar a abertura de novos espaços, através de
operações de extração e densificação. A remoção de
178
179
A síntese, paisagem matriz para urbanismo
moradias de áreas de risco, a reclamação de áreas inundáveis, etc. são oportunidades de criação de um tecido urbano mais poroso. A partir da renovação e da substituição tipológica – densidade x altura- podemos também imaginar situações urbanas
pontuais onde uma nova relação entre cheios e vazios promova a emergência de
espaços públicos.
Diversamente, existem outras áreas na Baixada Fluminense cujos tecidos urbanos
estão em processo de consolidação e apresentam uma ocupação mais esparsa e
descontínua. Aqui as operações devem buscar demarcar os espaços livres, especialmente aqueles que têm potencial de se converter em espaços públicos. Como
robustecê-los para garantir a sua permanência? A estratégia se baseia em identificálos, valorá-los, reforçá-los, limitá-los e outorgar-lhes novo valor de uso para que resistam melhor à pressão de ocupação. O modo como eles podem modelar a forma
urbana e criar sinergias com o entorno se coloca como estratégia fundamental para
a Baixada Fluminense.
Por último, mas não menos importante, resta a questão de como conectar os espaços livres para que eles possam constituir um sistema3. São operações que procuram
articular e ligar os espaços livres entre si, de maneira a garantir a conectividade
ecológica, mas também visual e urbana. Os rios são naturalmente corredores ecológicos (Forman, 1996) que proveem conectividade ligando fragmentos de habitat. Mas
FVI-9: Cheios e vazios. Amostras
de tecido urbano. Fonte: Autor
180
A síntese, paisagem matriz para urbanismo
as vias urbanas também, se tratadas paisagisticamente, podem facilitar a conexão
ecológica ademais de criar acessibilidade (Tardim, 2008). Outras peças urbanas, parques, bordas, podem funcionar como espaços conectores.
Diques, barragens e pôlderes. Fronteiras da água
Já vimos como a paisagem fluvial foi modificada a partir das obras da Comissão de
Saneamento da Baixada, no início do século XX. Os rios foram retificados nos seus
cursos baixos, canalizados, diques e barragens foram construídas para controlar as
inundações e tornar produtivas as áreas normalmente alagadiças.
Estas intervenções e o conjunto de dispositivos de controle hidráulico modelaram
as relações da cidade com os rios. A forma meândrica foi substituída por geometrias
que priorizaram a velocidade de escoamento e permitiram a fixação do seu curso, de
outra forma sempre mutante. A secagem dos manguezais e o desmatamento das
FVI-10: Inundações Belford Roxo
2009. Fonte: Divulgação Governo
do Estado.
encostas modificaram drasticamente o ambiente, com perda irreparável de biodiversidade.
Não é nossa posição, porém, pretender o resgate romântico de uma natureza perdida, mas pensar melhor como dispor dessas infraestruturas hidráulicas que constituem a interface entre a cidade e os rios, como incorporá-las à paisagem, de que
forma elas podem dialogar com o urbano.
O rio Sarapuí, no coração da Baixada Fluminense, é um exemplo privilegiado das
tensões entre os planos dos engenheiros, os processos de desenvolvimento urbano
e as próprias dinâmicas das águas. Ele é um dos mais importantes na região, nasce
3_Para uma metodologia de ordenação do território a partir do sistema de espaços livres ver o trabalho
de Raquel Tardim, Espaços livres:
sistema e projeto territorial. Ed. 7
letras, Rio de Janeiro, 2009.
181
A síntese, paisagem matriz para urbanismo
FVI-11: Pôlder do rio Outeiro, Belford Roxo. Forma elaborada / forma
recebida (matriz). Fonte: Autor
Sem uma demarcação das áreas
de reservatório pulmão o futuro
verá uma ocupação total. Fonte:
Autor
182
A síntese, paisagem matriz para urbanismo
em Bangu, no sopé do maciço da Pedra Branca no município do Rio de Janeiro e se
estende por mais de 30 quilômetros por uma das áreas mais populosas da Baixada,
conformando o limite entre os municípios de Mesquita e Nilópolis, entre Belford Roxo
e São João de Meriti, e atravessando Duque de Caxias. O rio tem sofrido trans-
FVI-12: Comissão Federal
de Saneamento da Baixada
Fluminense.1a Seção Estudos. Bacia do Rio Sarapuhy. 1914. Fonte:
Arquivo Nacional
formações formais importantes. Os cursos médios e baixos foram retificados e sua
foz, originalmente na baía de Guanabara, foi modificada para desaguar junto ao rio
Iguaçu. O Sarapuí tem uma largura que varia entre os dez metros, em Mesquita, até
alcançar mais de 50 metros perto da foz.
O sistema hidráulico, desenhado para o controle das inundações na bacia do rio Sarapuí, inclui um conjunto de dispositivos: diques, barragens, pôlderes e reservatóriospulmão. Os diques marginais permitem que o nível de água aumente sem afetar as
FVI-13: Ocupações informais nas
margens do rio Sarapuí. Fonte:
Serla (Inea)
183
A síntese, paisagem matriz para urbanismo
FVI-14: Rio Sarapuí, 2010. Transformações: Em vermelho, superposto o trajeto segundo o levantamento de 1914. Fonte: Autor
184
A síntese, paisagem matriz para urbanismo
FVI-15: Rio Sarapuí, 2010. Oportunidades. Espaços livres remanescentes nas margens do rio. Fonte:
Autor
185
A síntese, paisagem matriz para urbanismo
áreas adjacentes que se encontram em níveis mais baixos. Atualmente, um conjunto
de comportas se fecham para evitar o refluxo das águas. Canais marginais coletam
as águas que não conseguem entrar no rio quando as comportas estão fechadas.
Pôlderes são estruturas hidráulicas que complementam o sistema de diques. Pôlder,
na verdade, se refere a uma área que fica numa cota de nível mais baixo que o nível
de água contida no dique, mas que se considera segura para a ocupação. Dentro das
áreas de pôlder existem superfícies denominadas reservatório-pulmão, que inundam
no momento que as comportas estão fechadas e contêm as águas que não conseguem entrar no dique. Essas áreas de reservatório-pulmão são inundadas temporariamente nos períodos de muita chuva. As barragens aliviam o sistema retardando o
fluxo de água. São estruturas construídas num vale que o fecha transversalmente,
proporcionando um represamento que visa reduzir o volume de água no período de
grandes chuvas.
Este complexo sistema apresenta porém alguns problemas no contexto da Baixada Fluminense. Sem um desenho integral das infraestruturas hidráulicas que possa
incorporá-las aos tecidos urbanos, sem manutenção e sem uma consciência da população sobre a relevância destes dispositivos, muitas destas estruturas acabaram
inutilizadas ou destruídas.
O dique marginal só foi construído na margem direita, o que tem acelerado o processo de urbanização em São João de Meriti, enquanto a margem esquerda permanece
ainda hoje sem intervenção, sendo mais propícia a inundações, o que se reconhece
pela ocupação mais esparsa. Mas, ao mesmo tempo, por oferecer condições segu-
FVI-16: Barragem de Gericinó,
Nilópolis. Fonte: Panoramio
186
A síntese, paisagem matriz para urbanismo
FVI-17: Interfaces urbanas com os
dispositivos hidráulicos. Barragem
Gericinó. Forma construída / forma
recebida (matriz)
187
A síntese, paisagem matriz para urbanismo
ras, o dique na margem direita vem sendo ocupado informalmente com uma extensa
“favela linear”. Esta situação anula novamente qualquer contato da cidade com o rio
e contribui seriamente para a poluição das águas, com o lançamento direto do esgoto
das moradias improvisadas nas margens.
Por outro lado, as áreas de reservatório-pulmão não demarcadas são propícias também à ocupação, comprometendo o saneamento e a habitabilidade de toda a Baixada. Ruas improvisadas já indicam o caminho das próximas ocupações dentro dos
reservatórios, o que levará ao enfrentamento das enchentes, afetando as famílias
diretamente, como também o resto da região.
Que projetos urbanos podem se instalar como barreiras à expansão? Podemos ima-
FVI-18: Mangue degradado na
Baía de Guanabara. Fonte: Moscatelli
ginar a criação de uma nova paisagem que incorpore novos usos, adaptáveis às
variações hidrológicas? Tempo úmido, tempo seco. Trabalhar na fronteira das águas
implica integrar os –poucos- espaços livres às margens dos rios e estabelecer novos,
que se transformem em mediadores de relações sinérgicas com o tecido urbano ao
mesmo tempo em que deem vazão à inundação que as águas exigem.
Outros serviços ambientais poderiam ser investigados, como a possibilidade de
transformar os parques em dispositivos de filtragem. As águas retidas temporariamente nos reservatórios poderiam circular por um sistema de biofiltros incorporados
à paisagem, que auxiliassem a limpeza das águas antes que elas fossem vertidas
novamente ao curso principal.
FVI-19: Infraestruturas metropolitanas: BR-040. Fonte: Kamps (2003)
188
A síntese, paisagem matriz para urbanismo
FVI-20: Interfaces urbanas com a
Baía da Guanabara. Forma construída / forma recebida (matriz)
189
A síntese, paisagem matriz para urbanismo
Situações similares podem ser recriadas nas barragens. A existência do campo de
Instrução Militar do Exército, no campo de Gericinó, permitiu por muito tempo que
esta grande área, perto da nascente do rio Sarapuí, se mantivesse livre. Logo depois
da grande enchente que atingiu a região em 1988, a construção de uma barragem,
contendo as águas rio acima e inundando o campo de treinamento, aliviou consideravelmente os efeitos das inundações nos trechos mais baixos. A barragem consolidou
um limite preciso entre o tecido compacto e denso de Nilópolis e a grande gleba do
Exército. Depois de muitos anos de reclamos do município, as terras foram finalmente cedidas, no ano 2009, para a criação de um parque municipal. A situação única do
lugar, localizado entre o sopé da serra e os municípios de Nilópolis e Rio de Janeiro,
o transformam numa potencial peça articuladora de relações metropolitanas. Além
das funções hidráulicas, a criação de um grande parque pode trazer enormes benefícios sociais, recreativos, urbanos e ecológicos.
Outro espaço de fronteira que merece uma reflexão projetual está formado pela interface entre a cidade e a baía da Guanabara, ecologicamente mediado pelos manguezais, considerado um dos ecossistemas mais ricos e diversos, mas que sofreu
e continua sofrendo importante depredação. Atravessado pela rodovia Washington
Luiz, o espaço tem sido destinado maiormente à localização de indústrias e outros
“artefatos” típicos das rodovias metropolitanas. A BR-040 conforma, por sua disposição, uma barreira importante para a expansão dos tecidos residenciais sobre os
manguezais. Ao mesmo tempo, as funções situadas na margem direita da rodovia
estão normalmente voltadas para o fluxo dos automóveis, sendo o mangue e a baía
da Guanabara espaços residuais.
FVI-21: Saibreiras abandonadas,
Belford Roxo. Fonte: Katia Mansur
190
A síntese, paisagem matriz para urbanismo
FVI-22: Extrações, saibreira em
atividade em Nova Iguaçu, na
margem do rio Botas. Forma elaborada / forma recebida (matriz).
Fonte: Autor
191
A síntese, paisagem matriz para urbanismo
Que projetos poderiam inverter esta situação? Como outorgar resistência aos manguezais? Como esses ecossistemas podem qualificar o espaço das infraestruturas?
Que possíveis novas relações podem ser estabelecidas com a baía da Guanabara?
Extração e deposição, a geografia mutante da Baixada. Processos
Como toda periferia urbana, o território da Baixada historicamente serviu como fornecedor de recursos (água, minerais, produtos agrícolas) para a capital e, ao mesmo
tempo, como depósito dos despejos da cidade. Extração e deposição são dois processos que têm consequências importantes na paisagem da Baixada.
Tanto ao percorrer as ruas como numa visão aérea do território, um aspecto chama a
atenção pelo contraste das cores. É o vermelho da terra exposta. A atividade extrativa
é uma importante atividade econômica na Baixada, especialmente de saibro, argila,
areia e, em menor grau, de rocha. Segundo o registro do Departamento de Recursos
Minerais do Estado (DRM-RJ) se encontram ativas cinco empresas extrativas em
Belford Roxo, 36 em Duque de Caxias e 14 em Nova Iguaçu. A estas devemos somar
um número impreciso de atividades não registradas de empreendimentos informais
que se desenvolvem em pequena escala e sem controle do Estado.
A extração de saibro e o loteamento urbano têm uma relação dependente. É prática
comum, o lento desaparecimento dos morros, o aplanamento do terreno e a posterior
ocupação urbana. Ao mesmo tempo, o material extraído é utilizado para aterrar áreas
alagadiças para o desenvolvimento urbano. Esta manipulação da topografia acaba
FVI-23: Extrações. Canteira Nova
Iguacu, areeiros Seropédica. Fonte:
Google Maps
192
A síntese, paisagem matriz para urbanismo
FVI-24 e 25: Lixão de Gramacho
na foz do rio Sarapuí. Fonte: Moscatelli / flirck
descaracterizando a paisagem e altera o equilíbrio dinâmico do entorno. As condições ambientais e os problemas de enchentes se agravam com a perda de cobertura
vegetal e a erosão.
Em outros casos, o abandono das canteiras gera grandes prejuízos nas áreas adjacentes. Os morros semidemolidos ficam expostos, se formando ravinamentos e
voçorocamentos que geram situações de risco para a população, que convive com a
possibilidade de desmoronamentos dos barrancos sobre as residências. Outros problemas têm relação com a qualidade do ar e a qualidade ambiental geral, questões
de assoreamento dos sistemas pluviais e de inundações (Mansur, 2000).
A síntese, paisagem matriz para urbanismo
Os areeiros, por sua parte, engendram uma paisagem particular, com graves consequências ambientais. Onde a extração foi praticada, como resultado das escavações, se formam profundas piscinas de água verdosa que alcançam o lençol freático
e enchem as crateras. Geralmente saturadas de sedimentos minerais, as piscinas
dificilmente são ambientes capazes de gerar alguma forma de vida. O município de
Seropédica concentra a maior quantidade de estabelecimentos extrativos de areia,
com um número crescente de canteiras formais e informais.
Como contraponto às extrações, a deposição do lixo no maior aterro sanitário da
América Latina se localiza na Baixada Fluminense, no município de Duque de Caxias, sobre a foz do rio Iguaçu. Criado em 1976, com data marcada de fechamento
para 2011, o aterro de Gramacho é responsável por muitos dos danos ambientais
da região: contaminação do solo, do subssolo e do lençol freático, destruição do
mangue, entre outros. Recebe 6.700 toneladas de lixo por dia proveniente do Rio de
Janeiro e de alguns municípios da Baixada, ocupando uma superfície de 1,3 milhões
de metros quadrados.
Reciclar as paisagens degradadas constitui um novo desafio projetual. Extrações
e deposições são processos que também devem ser pensados sob perspectivas
urbanas. Quais processos instigar para iniciar uma regeneração no longo prazo? De
que maneira orientar as manipulações topográficas? Como reinserir as paisagens
degradadas nos ambientes urbanos? Que novos usos/ valores podem adquirir?
193
Considerações finais
07. Considerações finais
No percurso do trabalho buscamos produzir um corpo de reflexões sobre a metrópole
e explorar formas alternativas de abordagem para o projeto urbano.
Constatamos os desafios da cidade contemporânea e as dificuldades tanto de projetá-la como de representá-la. As inquietações geradas pelos câmbios tecnológicos,
econômicos e sociais têm reflexos na forma como as cidades são (re)produzidas
e pensadas. Processos de descentralização e recentralização estão modificando
a geografia metropolitana de muitas cidades. Os modelos tradicionais de centro e
periferia estão dando lugar a sistemas mais complexos, policêntricos e dispersos.
Pudemos estabelecer diferenças nas transformações evidenciadas em diversos contextos, com especial atenção às áreas metropolitanas da América Latina.
Centrando no urbanismo como prática, revisitamos projetos urbanos recentes em
cidades do continente e comprovamos que a maioria das experiências tem se concentrado na cidade central, havendo carência de pesquisas que deem respostas aos
desafios colocados pelo espaço metropolitano. Algumas experimentações projetuais,
porém, buscam alternativas em uma racionalidade diferente que identificamos como
“abordagem paisagística”. Referimos-nos a uma aproximação ao projeto urbano na
qual a lógica projetual deriva da imbricação complexa entre sistemas naturais e processos de urbanização.
A partir deste reconhecimento, e sobre a base de um corpo de literatura recente, uma
tal abordagem foi investigada e definida. A paisagem vista como uma lente através
da qual apreender a complexidade do território urbanizado e como um meio capaz de
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Considerações finais
lidar com a escala e a fragmentação da cidade contemporânea. Quatro categorias/
conceitos foram propostos para operacionalizá-la: camadas, vazios, fronteiras e processos foram definidos conceitualmente e derivados a partir de projetos concretos.
O mapeamento foi defendido como forma de exploração e de descoberta, uma ferramenta para decompor a complexidade do território e torná-lo inteligível. Concebemos
a pesquisa cartográfica como uma forma de aproximação e de projeção que envolve
um esforço descritivo e revelador antes que a imposição de um projeto desde o topo.
A descrição foi colocada, assim, como negociação, como ponto de passagem entre
o espaço-substrato e o espaço-projeto (Corboz, 2002).
Utilizando as quatro categorias propostas como filtros de entrada e os mapas como
ferramenta de pesquisa, a abordagem paisagística foi testada na Baixada Fluminense, um recorte da área metropolitana do Rio de Janeiro. A partir da descrição e da
representação, procuramos articular a investigação das condições materiais concretas junto com uma construção histórica do território no tempo. A pesquisa conseguiu
articular visões e percepções “desde baixo” e “desde cima”, combinando visitas de
campo com imagens panópticas através de fotografias aéreas e levantamentos aerofotogramétricos, cartografias históricas e outras documentações visuais.
Uma sequência de hipóteses projetuais foi levantada, propondo cenários possíveis;
não respostas, mas alternativas. Não foi nosso objetivo desenvolver um projeto para
a Baixada Fluminense, mas desvelar a sua possibilidade. A série de cartografias
apresentadas suscitou a emergência de um conjunto de temas de projeto relevantes
para a área, como um caminho de desenvolvimento alternativo que destila oportunidades -tanto como assinala conflitos e pressões- das condições existentes. Assim,
os desenhos demonstraram a pertinência de uma agenda urbana para a Baixada
Fluminense, uma agenda que se coloca como mediação entre as demandas de desenvolvimento, as oportunidades e a forma, identidade e dinâmica da paisagem.
Entre os temas que se revelaram e que podem conformar essa agenda urbana destacamos:
a) dar espaço a água, uma questão de urgência para a Baixada que deve ser pensada também desde perspectivas urbanas;
b) outorgar novo valor de uso aos vazios, o que implica um primeiro esforço para
identificá-los, reconhecer seus valores intrínsecos e repensar seu potencial de uso,
-o que nem sempre implica que devam ser ocupados;
c) articular os espaços livres, de maneira que possam atender questões de conectividade urbana e ecológica;
195
Considerações finais
d) qualificar as infraestruturas, para que possam se transformar em geradoras de
urbanidade;
e) remediar a paisagem, através de processos criativos de recomposição social, urbana e ecológica;
f) densificar para conferir diversidade e contrapor à expansão horizontal da cidade,
reforçando e diversificando as centralidades.
Visualizamos, assim, um sistema urbano integrado, entrelaçado e estruturado incorporado aos sistemas naturais, outorgando qualidade e diversidade ao conjunto. As
reflexões sobre o território sempre procuraram questionar as descrições exclusivamente a partir das carências em prol de uma visão da periferia metropolitana que
possa se formular desde a sua potencialidade. A paisagem se apresentou, então,
como uma ferramenta capaz de restaurar a estrutura urbana, qualificar o ambiente e
reforçar identidades culturais.
Privilegiando a forma urbana, muitos aspectos da Baixada Fluminense não foram
abordados. Mas não podemos ignorar os grandes desafios que este território, como
outras áreas da região metropolitana do Rio de Janeiro devem enfrentar. Carências sociais, violência, fragilidades políticas, precariedades, entre outras questões,
fazem parte do universo cotidiano da Baixada Fluminense que não desconhecemos,
mesmo que elas tenham ficado fora do escopo deste trabalho. Reafirmamos porém
a capacidade de integração do projeto urbano em sua dimensão espacial a outras
dimensões sociais, econômicas e culturais.
Novas pesquisas poderão avaliar o alcance da agenda proposta, através do desenvolvimento de projetos concretos ou de estudos voltados para o aprofundamento
de alguns dos temas sugeridos. A agenda da carteira de projetos proposta para a
Baixada Fluminense não pretende ser exaustiva. Métodos similares de investigação
poderão ser testados em outras áreas metropolitanas, ou complementar o estudo
para outras áreas da região metropolitana do Rio de Janeiro.
Enfim, o trabalho afirma a necessidade do projetar como forma de produzir conhecimento sobre o urbano. Sem dúvida, o projetar é parte intrínseca de nosso fazer enquanto arquitetos, é nossa ferramenta de trabalho, é nossa forma de pensar. Projetar
é antes de tudo uma forma de investigar. Paola Vigano define o projeto como um
dispositivo cognitivo e reconhece três processos pelos quais o projeto gera conhecimento: primeiramente, através da descrição e da representação de uma seleção de
temas e elementos físicos que pertencem à realidade, à contingência e à latência;
segundo, através da conceitualização, no esforço pela abstração e generalização e,
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Considerações finais
finalmente, através da sequência de hipóteses que investigam o futuro, avaliam-no,
propondo cenários e possibilidades (Vigano, 2005).
Este trabalho se situa nessa perspectiva, a de produzir conhecimento sobre as periferias metropolitanas e pensar a possibilidade de um projeto urbano outro, e finaliza
com a expectativa de que as questões colocadas possam contribuir para a emergência de outros olhares, outras representações e outras construções.
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