Ensaios FEE Secretaria do Planejamento e Gestão Fundação de Economia e Estatística Siegfried Emanuel Heuser ISSN 0101-1723 Pobreza rural no Rio Grande do Sul: comparando abordagens Ely José de Mattos e Paulo Dabdab Waquil Elementos metodológicos necessários a uma teoria totalizante do desenvolvimento, ou a totalidade real do desenvolvimento regional Glaucia Campregher Crescimento econômico e convergência com a utilização de regressões quantílicas: um estudo para os municípios do Rio Grande do Sul — 1970-01 Cristiano Aguiar de Oliveira, Paulo de Andrade Jacinto e Priscila Albina Grolli Aumento do ICMS no Rio Grande do Sul, em 2005: uma análise de equilíbrio geral computável Alexandre Alves Porsse Os determinantes da política fiscal no Estado do Rio Grande do Sul — 1970-03 Liderau dos Santos Marques Junior O arranjo de máquinas e implementos agrícolas do Rio Grande do Sul: infra-estrutura produtiva, educacional e institucional Ana Lúcia Tatsch Crescimento e concentração no Sistema Local de Produção de Máquinas e Implementos Agrícolas do RS Sérgio Roberto Kapron e Carlos Nelson dos Reis Estrutura espacial das aglomerações e determinação dos salários industriais no Rio Grande do Sul Leonardo M. Monasterio, Mauro Salvo e Otavio Menezes Damé Precarização do trabalho: avaliando a deterioração do mercado de trabalho na Região Metropolitana de Porto Alegre Míriam De Toni Uma análise exploratória dos fatores que condicionam a participação dos jovens nas atividades de estudo e trabalho, na Região Metropolitana de Porto Alegre Jéferson Daniel de Matos e Raul Luís Assumpção Bastos As exportações de calçados do Rio Grande do Sul: uma avaliação dos efeitos da política cambial brasileira e dos condicionantes externos no período 2000-05 Eduardo Barbosa e Augusto Mussi Alvim Aspectos econômicos do impacto da Lei de Incentivo à Cultura (LIC-RS) na indústria cinematográfica gaúcha Mauro Salvo Volume 28 - Número Especial - 2008 607 ISSN 0101-1723 SECRETARIA DO PLANEJAMENTO E GESTÃO FUNDAÇÃO DE ECONOMIA E ESTATÍSTICA Siegfried Emanuel Heuser Ensaios FEE Ensaios FEE é uma publicação semestral da Fundação de Economia e Estatística Siegfried Emanuel Heuser que tem por objetivo a divulgação de trabalhos, ensaios e artigos de caráter técnico-científico da área de economia e demais ciências sociais. CONSELHO EDITORIAL Maria Lucrécia Calandro Octavio Conceição Achyles Barcelos da Costa Edward J. Amadeo Elmar Altvater François Chesnais José Vicente Tavares dos Santos Leonardo Guimarães Neto Luis Carlos Bresser Pereira Nelson Giordano Delgado Pascal Byé Pierre Salama Ricardo Tauile Roberto Camps de Moraes CONSELHO DE REDAÇÃO Maria Lucrécia Calandro André Luis Contri Enéas Costa de Souza Isabel Noemia Junges Rückert Luiz Augusto Estrella Faria Tanya Maria Macedo Barcellos EDITOR Maria Lucrécia Calandro SECRETÁRIA EXECUTIVA Lilia Pereira Sá Semestral Ensaios FEE Porto Alegre v. 28 Número Especial p. 607-916 2008 608 SECRETARIA DO PLANEJAMENTO E GESTÃO FUNDAÇÃO DE ECONOMIA E ESTATÍSTICA Siegfried Emanuel Heuser CONSELHO DE PLANEJAMENTO: Adelar Fochezatto (Presidente), André Luis Campos, Ernesto Dornelles Saraiva, Leonardo Ely Schreiner, Nelson Machado Fagundes, Pedro Silveira Bandeira e Thômaz Nunnenkamp. CONSELHO CURADOR: Carla Giane Soares da Cunha, Flávio Pompermayer e Lauro Nestor Renck . DIRETORIA PRESIDENTE: Adelar Fochezatto DIRETOR TÉCNICO: Octavio Conceição DIRETOR ADMINISTRATIVO: Nóra Angela Gundlach Kraemer CENTROS ESTUDOS ECONÔMICOS E SOCIAIS: Roberto da Silva Wiltgen PESQUISA DE EMPREGO E DESEMPREGO: Míriam de Toni INFORMAÇÕES ESTATÍSTICAS: Adalberto Alves Maia Neto INFORMÁTICA: Luciano Zanuz EDITORAÇÃO: Valesca Casa Nova Nonnig RECURSOS: Alfredo Crestani Ensaios FEE está indexada em: Ulrich's International Periodicals Directory Índice Brasileiro de Bibliografia de Economia (IBBE) Journal of Economic Literature (JEL) ENSAIOS FEE /Fundação de Economia e Estatística Siegfried Emanuel Heuser – v. 1, n. 1 (1980) - . - Porto Alegre: FEE, 1980 – . – v. Semestral Do v. 17 ao v. 22, deixa de ter paginação continuada. Índices: v. 1 (1980) – 9 (1988) em v. 9, n. 2; v. 10 (1989) – 11 (1990) em v. 11, n. 2; v. 12 (1991) – 15 (1994) em v. 16, n. 2. ISSN 0101-1723 1. Economia – periódicos. 2. Estatística – periódicos. I. Fundação de Economia e Estatística Siegfried Emanuel Heuser. CDU 33(05) Tiragem: 250 exemplares. As opiniões emitidas nesta revista são de exclusiva responsabilidade dos autores, não exprimindo, necessariamente, um posicionamento oficial da FEE ou da Secretaria do Planejamento e Gestão. É permitida a reprodução dos artigos publicados pela revista, desde que citada a fonte. São proibidas as reproduções para fins comerciais. Toda correspondência para esta publicação deverá ser endereçada à: FUNDAÇÃO DE ECONOMIA E ESTATÍSTICA Siegfried Emanuel Heuser (FEE) Revista Ensaios FEE - Secretaria Rua Duque de Caxias, 1691 — Porto Alegre, RS — CEP 90010-283 Fone: (51) 3216-9132 Fax: (51) 3216-9134 E-mail: [email protected] Home Page: www.fee.rs.gov.br 609 Editorial Este número especial da revista Ensaios FEE, apresentado apenas em versão on-line, reúne uma coletânea de artigos selecionados do III Encontro de Economia Gaúcha (III EEG), evento promovido, em parceria, pela Fundação de Economia e Estatística (FEE) e pela Faculdade de Administração, Contabilidade e Economia da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (FACE-PUCRS), realizado nos dias 25 e 26 de maio de 2006. A divulgação desta terceira edição especial da Revista confirma o êxito desse encontro, que, a cada edição, recebe um número maior de artigos, os quais contribuem para o debate de questões socioeconômicas do Rio Grande do Sul. A seleção dos artigos foi realizada em duas etapas. Na primeira, os coordenadores de mesa selecionaram alguns textos dentre os apresentados nas respectivas mesas; na etapa seguinte, esses artigos foram encaminhados à apreciação de um grupo de pareceristas anônimos, formado por pesquisadores da FEE e por professores da FACE-PUCRS, da Unisinos e da UFRGS. A avaliação desses artigos seguiu os critérios editoriais da Revista. Com base nos pareceres, a equipe formada pelo coordenador do III EEG, por um representante dos demais integrantes da comissão organizadora e pelo Editor da Revista selecionou os 12 artigos que compõem este número especial, que trata de temas relevantes para o Estado do Rio Grande do Sul, dentre eles, política fiscal, aglomerações industriais e mercado de trabalho. Agradecemos o grupo de pareceristas, sem o qual a divulgação desta edição não seria possível, pela disponibilidade e competência na difícil e trabalhosa tarefa de avaliação, bem como as direções da FACE-PUCRS e da FEE e a Comissão Organizadora do III EEG, presidida pelo Professor Adalmir Antonio Marquetti e integrada por professores da PUCRS e por pesquisadores da FEE, pelo apoio na organização e na divulgação deste número especial da revista Ensaios FEE. O Editor 610 611 Sumário Pobreza rural no Rio Grande do Sul: comparando abordagens — Ely José de Mattos e Paulo Dabdab Waquil ............................ 615 Elementos metodológicos necessários a uma teoria totalizante do desenvolvimento, ou a totalidade real do desenvolvimento regional — Glaucia Campregher ............................................................. 643 Crescimento econômico e convergência com a utilização de regressões quantílicas: um estudo para os municípios do Rio Grande do Sul — 1970-01 — Cristiano Aguiar de Oliveira, Paulo de Andrade Jacinto e Priscila Albina Grolli ........................... 671 Aumento do ICMS no Rio Grande do Sul, em 2005: uma análise de equilíbrio geral computável — Alexandre Alves Porsse ............ 701 Os determinantes da política fiscal no Estado do Rio Grande do Sul —1970-03 — Liderau dos Santos Marques Junior ............. 727 O arranjo de máquinas e implementos agrícolas do Rio Grande do Sul: infra-estrutura produtiva, educacional e institucional — Ana Lúcia Tatsch .......................................................................... 755 Crescimento e concentração no Sistema Local de Produção de Máquinas e Implementos Agrícolas do RS — Sérgio Roberto Kapron e Carlos Nelson dos Reis .......................................... 775 Estrutura espacial das aglomerações e determinação dos salários industriais no Rio Grande do Sul — Leonardo M. Monasterio, Mauro Salvo e Otavio Menezes Damé ....................................... 801 612 Precarização do trabalho: avaliando a deterioração do mercado de trabalho na Região Metropolitana de Porto Alegre — Míriam De Toni 825 Uma análise exploratória dos fatores que condicionam a participação dos jovens nas atividades de estudo e trabalho, na Região Metropolitana de Porto Alegre — Jéferson Daniel de Matos e Raul Luís Assumpção Bastos ........................................................... 853 As exportações de calçados do Rio Grande do Sul: uma avaliação dos efeitos da política cambial brasileira e dos condicionantes externos no período 2000-05 — Eduardo Barbosa e Augusto Mussi Alvim 877 Aspectos econômicos do impacto da Lei de Incentivo à Cultura (LIC-RS) na indústria cinematográfica gaúcha — Mauro Salvo ....... 895 613 Summary Rural poverty in Rio Grande do Sul: comparing approaches — Ely José de Mattos e Paulo Dabdab Waquil ................................ 615 Methodological aspects in development theory, or the concrect reality regional development — Glaucia Campregher .................... 643 Economic growth and convergence with quantile regression: a study to Rio Grande do Sul municipalities — 1970-01 — Cristiano Aguiar de Oliveira, Paulo de Andrade Jacinto e Priscila Albina Grolli 671 The increase of the ICMS of Rio Grande do Sul in 2005: a computable general equilibrium analysis — Alexandre Alves Porsse ................................................................................... 701 The determinants of fiscal policy in the State of Rio Grande do Sul — 1970-03 — Liderau dos Santos Marques Junior .................... 727 Agricultural machinery and implements local productive arrangement in Rio Grande do Sul — Ana Lúcia Tatsch ............. 755 Growth and concentration in the local production system of agricultural machines and implements in RS — Sérgio Roberto Kapron e Carlos Nelson dos Reis .......................................... 775 The spatial structure of agglomerations and industrial wages in Rio Grande do Sul — Leonardo M. Monasterio, Mauro Salvo e Otavio Menezes Damé ............................................................... 801 Precarization of work: evaluating the labour market precarization in the metropolitan area of Porto Alegre — Míriam De Toni ............. 825 614 An exploratory analysis of the factors that condition the youth participation in activities of study and work in the metropolitan area of Porto Alegre — Jéferson Daniel de Matos e Raul Luís Assumpção Bastos ....................................................................................... 853 The footwear exportation in Rio Grande do Sul: an evaluation of brazilian rate exchange effects and other determinants factors in 2000-05 — Eduardo Barbosa e Augusto Mussi Alvim ..................... 877 The economic impact of Rio Grande do Sul's "Act for the advancement of culture" (LIC-RS) on its film industry — Mauro Salvo .................. 895 Pobreza rural no Rio Grande do Sul: comparando abordagens 615 Pobreza rural no Rio Grande do Sul: comparando abordagens* Ely José de Mattos** Paulo Dabdab Waquil*** Mestre em Desenvolvimento Rural pelo Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Rural (PGDR) da UFRGS Professor do Departamento de Economia da Faculdade de Ciências Econômicas (FCE), do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Rural (PGDR) e do Programa de Pós-Graduação em Agronegócios (Cepan) da UFRGS Resumo A pergunta que norteia este artigo é: quem pode ser considerado pobre? O que propomos neste artigo é traçar um comparativo entre a abordagem tradicional (monetária) e uma abordagem multidimensional, a Abordagem das Capacitações de Amartya Sen, para discutir essa pergunta contextualizada no ambiente rural. Diferentemente da tradicional, a Abordagem das Capacitações leva em consideração os aspectos qualitativos (multidimensionais) da vida das pessoas, aquilo que elas são capazes de ser e fazer (funcionamentos). Os resultados mostram diferenças consideráveis entre as duas abordagens. Um delas diz respeito à importância da renda na avaliação do bem-estar (que é bastante diversa nas duas abordagens), e a outra está relacionada à importância das estruturas multidimensionais avaliadas pela Abordagem das Capacitações. Palavras-chave Pobreza rural; abordagem monetária; Abordagem das Capacitações. * Artigo recebido em abr. 2007 e aceito para publicação em ago. 2007. ** E-mail: [email protected] *** E-mail: [email protected] Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 615-642, 2008 616 Ely José de Mattos; Paulo Dabdab Waquil Abstract Most of the poverty indicators are based on monetary resources, where income is the main criteria to classify people as poor or not-poor. However, even taking into consideration that this approach is widely accepted and consolidated, one question seems to persist: what is it to be poor in fact? What we are proposing in this paper is to establish a comparative between the monetary approach (traditional approach) and a multidimensional approach, namely the Capability Approach, proposed by Amartya Sen. This paper discusses both the theoretical aspects of the approaches and presents an empirical implementation applied to the rural areas of the state of Rio Grande do Sul. Key words Poverty; monetary approach; Capability Approach. Classificação JEL: O15. 1 Introdução Indicadores tais como número de pessoas em condição de pobreza, pobreza extrema, dentre outros de mesmo cunho, estão constantemente no contexto dos discursos de órgãos como a ONU, o Banco Mundial, os governos e as organizações não-governamentais (ONGs). Porém, paradoxalmente, ao mesmo tempo em que existe a preocupação com relação a esses indicadores, coexiste o debate cada vez mais sério sobre o que significa pobreza afinal. O que é ser pobre? A resposta a essa pergunta é de fundamental importância para qualquer tipo de ação que venha a ser tomada com relação a esse fenômeno. Nas décadas de 50 e 60 do século XX, o crescimento econômico era o principal objetivo em termos de política e de planejamento econômico. A redução da pobreza, quando contemplada, era entendida como beneficiária direta de qualquer crescimento obtido. Na década de 70, começaram a surgir ações mais voltadas às questões da pobreza em especial, com políticas de necessidades básicas e de cunho mais assistencialista. Atualmente, o debate já está em outro patamar. Existe maior clareza acerca da gravidade da pobreza e de suas diversas dimensões. Entretanto isso não é suficiente para que se dissolva o Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 615-642, 2008 Pobreza rural no Rio Grande do Sul: comparando abordagens 617 debate recém-colocado, ao contrário, parece acirrá-lo: como classificar uma pessoa como pobre? Qual seria a melhor linha de pobreza? Nas palavras de Laderchi, Saith e Stewart (2003, p. 3): A abordagem corrente para identificação de pobreza e formulação de políticas é um pouco confusa: por um lado, existe o reconhecimento da sua multidimensionalidade, combinada com uma abordagem de escolha com pouca coerência entre os estudos. Por outro lado, na prática, a abordagem monetária retém sua dominância em descrição e análise, tanto nacional como internacional.1 Apesar de um considerável afluxo de pesquisa e de produção científica nessa área, onde se procura delinear, de maneira mais precisa, esse fenômeno, a abordagem tradicional (monetária) ainda obtém maior respaldo, pois exerce maior fascínio sobre os responsáveis pelas políticas públicas e sobre muitos pesquisadores também. A discussão que está por trás dessa questão diz respeito ao espaço informacional utilizado nas avaliações. Em outras palavras, o debate sobre pobreza está baseado na escolha de um conjunto de informações que seja capaz de definir se um indivíduo é pobre, ou não (renda, utilidade, exclusão social, etc.). É nessa direção que aponta o trabalho do economista e filósofo indiano, vencedor do Nobel de Economia em 1998, Amartya Kumar Sen. Ele propõe uma maneira diferenciada para se analisar bem-estar, utilizando um espaço informacional muito diferente daqueles conhecidos até então (Sen, 2000; 2001): a Abordagem das Capacitações. Segundo Sen (2000), o bem-estar de uma pessoa deve ser avaliado com base na liberdade que a mesma tem para levar a vida que ela, com justiça, valoriza, ou seja, com base naquilo que ela é capaz de ser e fazer. Dessa forma, Sen contribui para uma definição alternativa de pobreza, com uma base informacional mais ampla do que aquela utilizada na abordagem monetária clássica, uma base por natureza multidimensional. Assim, como já destacado por Laderchi, Saith e Stewart (2003), estabelece-se uma espécie de impasse: o reconhecimento de que a pobreza é multidimensional, por um lado, e, ainda, a fidelidade à abordagem clássica (unidimensional, por definição) por outro. Explicações para tal situação podem ter várias raízes. Entretanto acreditamos que duas delas são fundamentais: (a) a dificuldade em operacionalizar abordagens de cunho multidimensional, 1 No original: “The current approach to the identification of poverty and policy formulation is rather messy: on the one hand, there is acknowledgment of its multidimensionality, combined with a pick and choose approach in advocacy with little consistency across studies. On the other hand, in practice, the monetary approach mostly retains its dominance in description and analysis, both nationality and internationality” (Laderchi; Saith; Stewart, 2003, p. 3). Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 615-642, 2008 618 Ely José de Mattos; Paulo Dabdab Waquil dado que trabalham geralmente com conceitos complexos, por exemplo, “liberdades”; e (b) o fato de que muitas tentativas de formulação de indicadores multidimensionais acabaram concluindo que a variável renda era a que respondia pela maior parte da variância do indicador dentre as diferentes situações de pobreza, logo, corroborando a utilização da renda como proxy para as outras dimensões. Este artigo tem como principal objetivo fazer um comparativo empírico entre a abordagem tradicional de identificação de pobreza e a Abordagem das Capacitações proposta por Amartya Sen. Configura-se, assim, uma contribuição ao debate acerca daqueles dois pontos citados acima com relação às dificuldades em utilizar abordagens de cunho multidimensional. Para tal, o referencial teórico — na seção 2 — irá tratar de conceitos básicos dessas duas abordagens, necessários à sua operacionalização. Trabalharemos com áreas rurais do Rio Grande do Sul. Dessa forma, além de lidar com uma realidade bastante peculiar com relação à pobreza — como é o caso do meio rural —, estamos dando continuidade aos trabalhos que vêm sendo desenvolvidos pelos autores, em conjunto com um grupo de pesquisa maior, sobre a pobreza rural no Estado (Waquil; Mattos, 2002; 2003). 2 Referencial teórico 2.1 Abordagem tradicional (monetária) Essa abordagem identifica (e mensura) a pobreza com base na insuficiência de rendimentos, dado um determinado ponto de referência: a linha de pobreza. Essas linhas de pobreza podem ser estabelecidas a partir de vários critérios, desde salários mínimos até em relação ao número de proteínas e calorias necessárias para manter determinado padrão de nutrição. Obviamente, todas elas são traduzidas em termos monetários, o que implica assumir preços de mercados para as mercadorias, além de atribuir preços a elementos que não podem ser adquiridos nesses mercados. Para uma revisão bastante abrangente a respeito de linhas de pobreza, conceitos e estimações, ver os trabalhos de Ravallion (1998) e Hagenaars e Praag (1985). Esse tipo de abordagem está calcado, em última análise, nos fundamentos da teoria microeconômica. Mais especificamente, busca respaldo no problema de maximização da utilidade do consumidor: existe o interesse de se maximizar a utilidade total, e os preços (que são fundamentais na estimação das linhas de pobreza) são componentes condicionantes para a solução desse problema. Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 615-642, 2008 Pobreza rural no Rio Grande do Sul: comparando abordagens 619 Quando os preços relativos são igualados à relação das utilidades marginais das mercadorias, obtém-se o ponto ótimo. A idéia central é classificar pessoas que não estão alcançando determinados pontos ótimos por falta de renda — esses pontos ótimos estabelecidos são as próprias linhas, por assim dizer.2 Conforme destacam Laderchi, Saith e Stewart (2003, p. 8), a principal suposição que sustenta a solução desse problema e sua tradução para uma determinada linha de pobreza é a de que “[...] com ferramentas apropriadamente preparadas, métricas monetárias uniformes podem levar em consideração toda heterogeneidade relevante entre indivíduo e suas situações”.3 Para tal, outras (fortes) suposições têm de ser assumidas: (a) utilidade é uma definição adequada de bem-estar; (b) gasto monetário é uma medida satisfatória de utilidade; (c) queda de utilidade leva ao que chamamos de “pobreza”; e (d) essa queda de utilidade é uma justificativa válida para a linha de pobreza. Tendo essas suposições em mente, no contexto desta abordagem existe uma série de medidas fundamentais com relação à pobreza (Comim; Bagolin, 2002). Conforme destacam os autores, a medida mais básica com relação à insuficiência de renda é a “proporção de pobres” (P0). Essa medida indica a proporção de pessoas que se encontram abaixo da linha de pobreza estabelecida, sem fazer nenhuma distinção entre elas. Importante lembrar: não existe aqui nenhuma referência à intensidade da pobreza. Outra medida conhecida é a P1, que é o “hiato médio de renda”. É utilizada para, em certa medida, remediar a negligência da P0 com relação à intensidade da pobreza. Ela calcula a diferença de renda dos indivíduos com relação à linha da pobreza. Na tentativa de incorporar questões distributivas, existe a P2. Essa medida é chamada de “hiato de renda quadrático médio”. Entre medidas P2 estão a medida de Sen (1981) e a de Foster, Greer e Tholbecke (1984). Esta última, por exemplo, liga os pesos dos hiatos de renda ao grau de desigualdade entre os indivíduos, ponderando esse hiato pelo seu quadrático (Comim; Bagolin, 2002). Além dessas recém-citadas, existem muitas outras medidas de pobreza que podem ser derivadas da abordagem monetária. As que incorporam desigualdade na distribuição da renda são exemplos de medidas que experimentaram considerável desenvolvimento na década de 90, por exemplo. 2 Esse procedimento está associado à estimação de “utilidades indiretas” e “demandas compensadas”. Para maiores detalhes acerca do assunto, ver Varian (1992). 3 No original: “[…] with appropriately devised tools, uniform monetary metrics can take into account all the relevant heterogeneity across individuals and their situations” (Laderchi; Saith; Stewart, 2003, p. 8). Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 615-642, 2008 620 Ely José de Mattos; Paulo Dabdab Waquil Existe ainda um outro elemento de importância com relação à abordagem tradicional. No intuito de qualificar a abordagem, para captar a heterogeneidade dos indivíduos, muitos estudos acabam associando variáveis qualitativas à variável renda. Esse procedimento correlaciona variáveis que objetivam esboçar saúde, estudo, habitação, dentre outras, com a variável renda. O que deve ser destacado é que se trata de uma correlação unidimensional: renda versus saúde, renda versus educação, etc. Além disso, outro ponto importante é a natureza dessa correlação. Ela não é tratada como de cunho sistêmico, mas, sim, como correlação instrumental: aqueles que têm mais renda têm mais anos de estudo. Para efeito operacional e analítico, gostaríamos — provavelmente sendo reducionistas — de sumarizar a abordagem tradicional em quatro elementos que julgamos fundamentais: (a) calcada na renda (absoluta e/ou relativa); (b) estabelecida sob fortes suposições no escopo da teoria microeconômica; (c) dadas essas suposições, pretende captar a heterogeneidade dos indivíduos a partir da renda; e (d) baseada na estimação de linhas de pobreza com critérios diferenciados, definidos em termos monetários. 2.2 Abordagem das Capacitações (Amartya Sen) No contexto da Abordagem das Capacitações, Sen pontua que “[...] a utilidade da riqueza está nas coisas que ela nos permite fazer — as liberdades substantivas que ela nos ajuda a obter [...]” (Sen, 2000, p. 28). Entretanto analisar o bem-estar das pessoas baseado na capacidade (liberdade) que as mesmas têm de ser e de fazer aquilo que valorizam implica estar lastreado em uma teoria da justiça. Para Sen, as teorias que pretendem desempenhar esse tipo de avaliação do bem-estar humano podem ser distinguidas pela sua base informacional. “De fato, a verdadeira ‘essência’ de uma teoria da justiça pode, em grande medida, ser compreendida a partir de sua base informacional: que informações são — ou não são — consideradas diretamente relevantes.” (Sen, 2000, p. 72). Assim, antes de apresentar a Abordagem das Capacitações, ele constrói uma crítica a três importantes abordagens: a de Robert Nozick, a de John Rawls e a do Utilitarismo. A teoria de Nozick é considerada libertária, a mais “liberal” das três citadas. Sua prioridade está nos direitos libertários das pessoas; não existe preocupação, por assim dizer, com o resultado final dessa liberdade radical em termos de bem-estar. Já na abordagem de Rawls, a prioridade está nas chamadas “liberdades formais”: preconiza-se que as pessoas devem ter direitos e liberdades formais garantidos de maneira prioritária, independentemente de suas conseqüências. Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 615-642, 2008 Pobreza rural no Rio Grande do Sul: comparando abordagens 621 A crítica de Sen a essas duas abordagens é basicamente a mesma: a prioridade das liberdades (formais ou dos “direitos libertários”) sobre qualquer outro elemento. Não existe, segundo ele, uma ponderação com relação, por exemplo, a “[...] se a liberdade formal de uma pessoa deve ser considerada possuidora do mesmo tipo de importância (e não de uma importância maior) que a de outros tipos de vantagens pessoais — rendas, utilidades, etc.” (Sen, 2000, p. 85). Da mesma forma, Sen pondera que não existe uma relação clara entre a garantia dessas liberdades “formais” ou “radicais” e o incremento da liberdade das pessoas de valorizarem aquilo que elas acreditam ser mais importante. Já com relação ao Utilitarismo (que está ligado à abordagem tradicional explanada na seção anterior), demanda-se um pouco mais de refinamento. A base informacional utilitarista é a “utilidade”, que, grosso modo, pode ser conceituada como a medida da felicidade (ou prazer) que a pessoa desfruta.4 Para que a avaliação utilitarista possa ser efetivamente realizada, devemos observar três componentes básicos: a) conseqüencialismo (consequencialism) - todas as escolhas das pessoas são avaliadas a partir dos resultados gerados; b) “welfarismo” (welfarism) - a avaliação do estado das coisas deve ser feita com base nas suas utilidades. Quando combinado com o conseqüencialismo, os resultados das escolhas devem ser avaliados de acordo com a utilidade gerada; e, c) ranking pela soma (sum-ranking) - em termos de avaliação, as utilidades das pessoas são simplesmente somadas para uma avaliação agregada. Alguns dos méritos dessa abordagem são destacados por Sen. Um deles é o fato de levar em consideração os resultados das disposições sociais ao julgá-las (elemento que não estava presente nem em Nozick, nem em Rawls). O outro é de que essa abordagem chama atenção para o bem-estar das pessoas efetivamente. Porém as críticas que o autor faz são bastante contundentes. Primeiramente, a indiferença distributiva: apenas o agregado é avaliado, sem considerar os elementos internos ao conjunto. Outro ponto destacado é a desconsideração de direitos, liberdades e outros aspectos, que são desvinculados da utilidade. Por fim, Sen (2000) ressalta que existe um processo de adaptação mental dos indivíduos às situações que os mesmos vivem — isso poderia levar a uma adaptação das utilidades a condições que estivessem piorando.5 4 Esse conceito de utilidade não é fechado; ver, por exemplo, Sen (1985). 5 Atualmente, existe uma literatura fértil com relação a esse tema, relacionada às “preferências adaptativas”, da qual Nussbaum (2000) é um exemplo. Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 615-642, 2008 622 Ely José de Mattos; Paulo Dabdab Waquil Amparado nessas questões teóricas acerca da base informacional mais adequada para avaliar o bem-estar, Sen propõe a Abordagem das Capacitações (Sen, 1985; 2000; 2001). O fundamento básico, intuitivo, dessa abordagem é avaliar o bem-estar das pessoas de acordo com a liberdade que as mesmas têm de ser e/ou de fazer aquilo que elas acham melhor, baseadas em princípios de justiça. Como exemplo, podemos pensar no ato de não comer carne. Alguém pode fazê-lo por ser vegetariano ou devido a algum preceito religioso. Entretanto outro indivíduo pode fazê-lo porque, simplesmente, não tem carne para comer. A situação é a mesma: nenhum ingere carne. Mas o motivador para tal é completamente diferente. No primeiro caso, existe a possibilidade de escolha (não come, pois é vegetariano); já no segundo, não existe a possibilidade de escolha. A Abordagem das Capacitações procura avaliar justamente a liberdade de escolha. Segundo essa perspectiva, essa capacidade está umbilicalmente ligada à qualidade de vida. Dessa forma, é possível captar elementos importantes, tais como: heterogeneidades pessoais, diversidades ambientais, variações no clima social, diferença de perspectivas relativas e distribuições intrafamiliares (Sen, 2000). Além do princípio da liberdade, outros dois componentes fundamentais dessa abordagem precisam ser esclarecidos: funcionamentos e capacitações. Os funcionamentos são os elementos constitutivos do “estado” da pessoa. São os “ser” e “fazer” da pessoa. Nesse sentido, em termos avaliativos, estamos falando de identificar “[...] desde coisas elementares, como estar nutrido adequadamente, estar em boa saúde, livre de doenças que podem ser evitadas e da morte prematura, etc., até realizações mais complexas, tais como ser feliz, ter respeito próprio, tomar parte na vida da comunidade, e assim por diante” (Sen, 2001, p. 79). Colada à noção de funcionamento está a de capacidade para realizar funcionamentos (capability to function). “Ela representa as várias combinações de funcionamentos (estados e ações) que uma pessoa pode realizar. A capacidade é, portanto, um conjunto de vetores de funcionamentos, refletindo a liberdade da pessoa para levar um tipo de vida ou outro.” (Sen, 2001, p. 80). O conjunto capacitário da pessoa reflete, portanto, a liberdade que ela tem para escolher que vida levar — no espaço dos funcionamentos.6 6 É importante fazermos uma ressalva terminológica: capacidade, ou capacitação, ou, ainda, conjunto capacitário (capability ou capbility set) é o conjunto do qual a pessoa dispõe para escolher que vida quer levar — cada pessoa tem apenas um. Mas capacitações (capabilities) é o contraponto de funcionamentos; são as possibilidades disponíveis à pessoa, funcionamentos alternativos. Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 615-642, 2008 Pobreza rural no Rio Grande do Sul: comparando abordagens 623 A relação entre funcionamentos e capacitações dá-se no seguinte sentido: se os funcionamentos executados constituem o bem-estar da pessoa, traduzidos em “ser” e “estar”, a capacitação para executar esses funcionamentos constitui a liberdade da pessoa de gerar esse bem-estar. Do ponto de vista avaliatório, existe um debate ainda aberto sobre quais funcionamentos específicos (e capacitações complementares) devem ser considerados na avaliação do bem-estar. Sen (2000) alerta que esse exercício valorativo é inescapável e salutar, pois abre discussão a respeito de valores e não os deixa escondidos atrás de alguma estrutura implícita. Além disso, a literatura que trabalha com a operacionalização da Abordagem das Capacitações enfrenta uma outra encruzilhada: funcionamentos ou capacitações? Em cada uma dessas opções, existem tipos de informações diferentes, que necessitam tratamentos diferenciados. De uma forma ou de outra (funcionamentos ou capacitações), a operacionalização dessa abordagem ainda é fronteira de pesquisa. Não existe, até então, nenhum método consolidado que dê conta de operacionalizar os conceitos complexos do qual se vale essa abordagem. Assim, essa pretende ser uma das contribuições deste artigo: uma tentativa de operacionalização. Para fazer uma comparação com a abordagem tradicional (monetária), a Abordagem das Capacitações pode ser sumarizada — novamente, sendo reducionistas — com base nos seguintes aspectos: (a) baseada no princípio da liberdade e nos funcionamentos (e capacitações); (b) estabelecida com base em princípios da justiça que diferem daqueles propostos pelo utilitarismo (abordagem tradicional); (c) pretende captar a heterogeneidade dos indivíduos a partir dos funcionamentos e das capacitações (e não apenas da renda); e (d) operacionalização complexa e ainda não consolidada. 3 Metodologia 3.1 A base de dados A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) é executada pelo IBGE desde 1967, com o objetivo de reunir informações sobre as características socioeconômicas da população brasileira. A Pesquisa conta com um conjunto de informações que são coletadas anualmente, tais como educação, trabalho, migração e condições de habitação, e, de tempos em tempos, produz os chamados suplementos, como em 1998 e 2003 (que investigam saúde) e em 2001 (que investigam trabalho infantil). Desde 1971, ela tem periodicidade anual, não sendo executada apenas nos anos censitários. Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 615-642, 2008 624 Ely José de Mattos; Paulo Dabdab Waquil Apesar de ser considerada a pesquisa nacional mais rica em termos de informações socioeconômicas, a PNAD apresenta algumas (sérias) limitações. Dentre elas, podem ser citadas as com relação à delimitação de áreas rurais e urbanas (que só são reajustadas nos censos, causando distorções ao longo da década), a formulação do conceito de pessoa ocupada (que mudou na década de 90) e a falta de dados sobre rendimentos variáveis (autoconsumo, transferências de renda, etc.).7 Todas essas limitações prejudicam a própria utilização da base, principalmente quando se trata de série histórica. Utilizamos, neste trabalho, os microdados da PNAD 2003 (IBGE, 2003). A justificativa para utilizar os dados do ano de 2003, quando já temos disponíveis os de 2004, é que, para 2003, existe um suplemento de saúde que oferece variáveis importantes para o nosso trabalho. Explicitaremos as variáveis utilizadas nas seções seguintes, de acordo com cada abordagem. 3.2 Operacionalização da abordagem tradicional (monetária) Na abordagem tradicional, trabalhamos com três aspectos: distribuição de renda, estimação de linhas de pobreza e observação de variáveis qualitativas com relação à renda. Para a etapa da distribuição de renda, optamos por utilizar a renda pessoal de todas as fontes (que inclui renda de trabalho, aposentadorias e pensões, rendimentos, etc.). Para não haver distorções nas estimativas, trabalhamos com todas as pessoas que possuíam renda positiva de todas as fontes e que tinham 10 anos ou mais de idade. Para avaliar a sua distribuição, foram estimados percentis de renda, a apropriação de renda por parcelas da amostra e o Coeficiente de Gini.8 No caso da estimação de linhas de pobreza e da análise das variáveis qualitativas associadas à renda, utilizamos a renda domiciliar (per capita, ou não) e consideramos todas as pessoas, inclusive os menores de 10 anos de idade e os que não possuíam renda de todas as fontes. Dessa maneira, podemos estimar linhas de pobreza mais condizentes com a realidade. Essas linhas de 7 8 Essas limitações estão pormenorizadamente explicadas em Silva (1999), Corrêa (1998) e Waquil e Mattos (2002). n O Coeficiente de Gini foi calculado através da seguinte fórmula: G = 1 − 1 ∑ (Φ i + Φ i −1 ) , n i −1 onde Φ i representa a proporção de renda acumulada até a i-ésima pessoa. Esse coeficiente varia entre 0 e 1, sendo 0 para distribuição perfeita e 1 para assimetria perfeita. Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 615-642, 2008 Pobreza rural no Rio Grande do Sul: comparando abordagens 625 pobreza serão, obviamente, simples contagens de pessoas abaixo das linhas estipuladas. Tratando-se das variáveis qualitativas associadas à renda, utilizaremos as seguintes variáveis (além da renda): anos de estudo, um índice de condições de habitação (ICH)9 e auto-avaliação do estado de saúde. Analisaremos essas variáveis, como já destacado no referencial teórico, de forma associada à renda, estimando correlações. A idéia de incluir essas variáveis qualitativas é a de mensurar a capacidade da renda de “captar” aspectos qualitativos. Ou seja, o que nos interessa são as relações entre diferentes faixas de renda e os resultados para essas variáveis qualitativas. 3.3 Operacionalização da Abordagem das Capacitações Primeiramente, devemos fazer um esclarecimento ainda de cunho teórico. Como já havia sido explicitado, existem duas opões no contexto da Abordagem das Capacitações para efetuar a (tentativa de) operacionalização: ou funcionamentos, ou capacitações. Optamos por funcionamentos por dois motivos claros: (a) a estimação de capacitações (funcionamentos alternativos) é algo relativamente difícil, demandando métodos sobre os quais ainda não há muita clareza; e (b) os dados aos quais temos acesso (da PNAD) permitem relacionarmos apenas funcionamentos realizados e não potenciais. Utilizamos a base total da PNAD, sem criar critérios de idade, ocupação ou rendimentos. O intuito é o de avaliar os funcionamentos de todas as pessoas. Com relação às variáveis, mesmo dispondo de uma base de dados consideravelmente grande, houve dificuldade na sua seleção. Isso devido, principalmente, à incompatibilidade entre o tipo de variável necessária para a operacionalização dessa abordagem (que explicite funcionamentos) e o tipo que a PNAD dispõe, dado o seu desenho. Por fim, foram isoladas nove variáveis elementares, que servem como componentes para três funcionamentos distintos: educação, saúde e mobilidade e condições de habitação. O Quadro 1 contém todas essas informações. 9 O índice de condições de habitação varia entre 0 e 5. Ele capta a presença (ou não) de cinco itens: água encanada, geladeira, energia elétrica, disponibilidade de sanitário e telefone. Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 615-642, 2008 626 Ely José de Mattos; Paulo Dabdab Waquil Quadro 1 Funcionamentos avaliados EDUCAÇÃO EDU_ALFA Se sabe ler ou escrever Binária: (0) Não (1) Sim (- ) Não aplicável a menores de sete anos EDU_ESTUDO Posição no estudo com relação ao ensino médio Binária: (0) Entre sete e 17 anos que não estão estudando e maiores de 17 anos que não estudam e sem o ensino médio completo (1) Entre sete e 17 anos que estão estudando, maiores de 17 anos que estudam e maiores de 17 anos que não estudam e com ao menos o ensino médio completo (- ) Não aplicável a menores de sete anos SAÚDE E MOBILIDADE SAU_AUTO Avaliação pessoal do próprio estado de saúde Categórica: (1-5) Muito ruim-Muito bom SAU_ATIVI Se deixou de realizar alguma atividade por motivo de saúde Binária: (0) Sim (1) Não SAU_DOENÇA Se tem algum tipo de doença crônica Categórica: (1) Três ou mais (2) Duas (3) Uma (4) Nenhuma SAU_MOBIL Se tem dificuldade para realizar alguma tarefa cotidiana simples Categórica: (1) Não consegue (2) Tem grandes dificuldades (3) Tem pequena dificuldade (4) Nenhuma dificuldade CONDIÇÕES DE MORADIA CMOR_SANIT Se possui banheiro ou sanitário no domicílio Binária: (0) Não (1) Sim CMOR_TEL Se tem telefone fixo na residência Binária: (0) Não (1) Sim CMOR_COMODI Se dispõe de comodidades — máquina de lavar e freezer Categórica: (1) Nenhum desses itens (2) Apenas um item (3) Ambos Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 615-642, 2008 Pobreza rural no Rio Grande do Sul: comparando abordagens 627 Cada um desses funcionamentos, com seus respectivos componentes, tem o intuito de avaliar aquilo que a pessoa é ou faz no que tange àquela dimensão. Por exemplo, no caso do funcionamento saúde e mobilidade, pretendemos avaliar se a pessoa está saudável e se é capaz de executar atividades cotidianas básicas. Dessa maneira, estamos avaliando se o indivíduo está realizando esse funcionamento efetivamente. Duas observações devem ser agora levantadas, uma delas de caráter teórico e outra de caráter metodológico. A questão teórica que deve ser observada é que não selecionamos nenhuma variável que seja composta pela renda. O motivo deve ser claro, dado o objetivo deste artigo e o referencial teórico apresentado. Estamos avaliando “estados” das pessoas, que não são explicitados por rendimentos. Não estamos afirmando que não sejam correlacionados, mas estamos questionando a natureza dessa correlação. Tentaremos elucidar isso na análise. A segunda observação é de cunho operacional e diz respeito à avaliação desses funcionamentos efetivamente. A nossa proposta estatística é a utilização da análise fatorial. Essa técnica estatística é comumente utilizada por dois motivos: para reduzir o número de variáveis a um número menor de fatores (que representam as variáveis) e/ou para verificar se existe alguma estrutura dimensional definida pela correlação entre as variáveis. Como temos (apenas) nove variáveis, nossa principal preocupação repousará mais na constatação de alguma estrutura dimensional nos dados do que na redução do número de variáveis propriamente. A principal hipótese é a de que sejam encontradas três dimensões, representando os três funcionamentos. Os fatores são estimados como combinações lineares entre as variáveis, respeitando o seguinte modelo: Fj = ∑ p i =1 wij xi = w1 j x1 + w2 j x 2 + ... + w pj x p onde wij são os coeficientes fatoriais, xi são as variáveis observáveis, e p, o número de variáveis. Essa técnica está baseada na correlação existente entre as variáveis. Dessa maneira, o primeiro passo é verificar o nível de correlação entre as variáveis, que não pode ser muito baixo, para que a análise fatorial seja viável — se as correlações forem muito baixas, é provável que não exista nenhuma estrutura dimensional nos dados. Há testes específicos para verificar a adequação do modelo acima, dentre eles, o teste de esfericidade de Bartlett e o teste de Kaiser-Meyer-Olkin (KMO).10 10 Maiores detalhes podem ser obtidos em Maxwell (1977) e em Mulaik (1972). Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 615-642, 2008 628 Ely José de Mattos; Paulo Dabdab Waquil Logo após a verificação da adequação, procede-se à definição do número e à extração dos fatores. Neste estudo, utilizaremos a análise de componentes principais, para efetuarmos a extração dos fatores.11 O número de fatores extraídos é definido com base na quantidade de variância total dos dados explicada por cada fator adicional estimado. A idéia é obter uma variância explicada relativamente alta com o menor número de fatores possíveis. Após a extração dos fatores, segue a interpretação dos mesmos. Quando a interpretação não apresenta uma estrutura lógica, isto é, com variáveis agrupadas de modo a oferecer uma compreensão adequada, é feita a rotação dos fatores. Esse procedimento simplesmente rearranja a matriz de fatores (sem alterar a variância total explicada), de forma a achar uma estrutura mais simples e com maior sentido interpretativo. Por fim, pode-se fazer o cálculo dos fatores, que são, por assim dizer, as novas variáveis geradas, que substituirão as originais sem prejuízo às informações que as mesmas oferecem. O cálculo é feito da seguinte maneira: F jk = ∑i =1 wij xik = w1 j x1k + w2 j x2 k + ... + w pj x pk p onde xik é o valor padronizado da variável i para a observação k, e wij é o coeficiente fatorial associado à variável i e ao fator j. Retomamos a idéia já exposta para a utilização dessa técnica estatística: dado que cada funcionamento é composto por algumas variáveis, esperamos que cada fator, que é uma combinação linear das variáveis, expresse um funcionamento específico. Além disso, pretendemos também explorar a idéia das dimensões da pobreza, tentando identificar como elas podem ser analisadas. Além da análise fatorial, utilizaremos a análise de cluster. Ela procurará identificar grupos homogêneos com relação aos fatores que serão estimados previamente. Dessa forma, podemos fazer comparações entre esses grupos. A análise de cluster agrupa observações semelhantes entre si, ou seja, que estão próximas no espaço n-dimensional, onde n é o número de variáveis. Para tanto, utiliza o conceito de distância euclidiana quadrada, dada pela soma dos quadrados das diferenças de todas as variáveis. Assim, a mensuração da distância entre duas observações k e l é dada por: Dk2,l = ∑ pi =1 ( xi , k − xi ,l ) 11 Por falta de espaço, não nos vamos deter em explicar essa técnica. Para maiores detalhes sobre a mesma e sobre outras possíveis, ver Maxwell (1977) e Mulaik (1972). Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 615-642, 2008 Pobreza rural no Rio Grande do Sul: comparando abordagens 629 Quanto menor a distância entre duas observações, mais semelhantes elas são, logo, têm mais chances de pertencer ao mesmo cluster. 4 Análise dos resultados 4.1 Abordagem monetária: caracterização da renda e estimação de linhas de pobreza O principal intuito desta seção é, fundamentalmente, mostrar (e analisar) os resultados básicos referentes ao ano de 2003 com relação à análise tradicional para o Rio Grande do Sul.12 Para tal, iremos enfatizar a renda média, a distribuição da renda e a relação da renda com algumas variáveis qualitativas. Em 2003, a renda média (de todas as fontes) para o meio rural no Estado foi de R$ 546,30,13 consideravelmente mais baixa do que a observada no meio urbano, R$ 1.013,69. Esse tipo de diferença em favor do meio urbano já foi apontado por diversos trabalhos, dentre eles os de Waquil e Mattos (2002) e Corrêa (1998). Na Tabela 1, estão os percentis de renda. Uma observação interessante a ser feita com relação a esses números é que a média de renda está acima do 50º percentil, já indicando uma assimetria na distribuição. Essa assimetria é calculada pelo Coeficiente de Gini, cujos resultados estão na Tabela 2. Como esse tipo de medida é mais informativo, quando observado em termos relativos, para traçar uma linha de comparação, estimamos os Coeficientes de Gini para os meios rural e urbano do Rio Grande do Sul e do Brasil: tanto para o Estado quanto para o Brasil como um todo, a concentração de renda no meio rural é menos acentuada do que no meio urbano. Entretanto ela carece de consideração. Como última etapa da análise da distribuição de renda, calculamos a apropriação de renda por parcelas da população (Tabela 3). No meio rural, apenas 20,8% da renda é apropriada pelos 50% mais pobres. Porém o que mais chama atenção é que 35,2% dela é apropriada pelos 10% mais ricos. No meio urbano, como já demonstrado nos resultados anteriores, a concentração é mais acentuada, e 44,0% da renda é apropriada pelos 10% mais ricos. 12 Como não estamos trabalhando com série de tempo, para efeitos comparativos e de contextualização, faremos contrapontos com o meio urbano. 13 Todas as rendas citadas estão em reais de jan./06, deflacionados pelo Índice Nacional de Preço ao Consumidor (INPC). Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 615-642, 2008 630 Ely José de Mattos; Paulo Dabdab Waquil Tabela 1 Percentis de renda no meio rural do Rio Grande do Sul — 2003 PERCENTIS VALORES (R$) Renda média ........................................ 1º ........................................................... 10º ......................................................... 25º ......................................................... 50º ......................................................... 75º ......................................................... 90º ......................................................... 99º ......................................................... 546,30 17,01 113,37 272,10 368,46 610,80 1 133,74 2 895,69 FONTE DOS DADOS BRUTOS: IBGE. Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios — PNAD: microdados 2003. Rio de Janeiro, 2003. CD-ROM. NOTA: Valores em reais de jan./06. Tabela 2 Coeficiente de Gini, rural e urbano, no Rio Grande do Sul e no Brasil — 2003 DISCRIMINAÇÃO COEFICIENTES Rio Grande do Sul Rural ....................................................... Urbano .................................................... Brasil Rural ....................................................... Urbano .................................................... 0,45 0,54 0,51 0,57 FONTE DOS DADOS BRUTOS: IBGE. Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios — PNAD: microdados 2003. Rio de Janeiro, 2003. CD-ROM. Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 615-642, 2008 631 Pobreza rural no Rio Grande do Sul: comparando abordagens Tabela 3 Percentual de apropriação de renda nos meios rural e urbano do Rio Grande do Sul — 2003 DISCRIMINAÇÃO PERCENTUAL Rural 1% mais pobres .................................... 10% mais pobres .................................. 50% mais pobres .................................. 50% mais ricos ..................................... 10% mais ricos ..................................... 1% mais ricos ....................................... Urbano 1% mais pobres .................................... 10% mais pobres .................................. 50% mais pobres .................................. 50% mais ricos ..................................... 10% mais ricos ..................................... 1% mais ricos ....................................... 0,1 1,0 20,8 79,2 35,2 8,1 0,1 1,3 16,2 83,8 44,0 12,5 FONTE DOS DADOS BRUTOS: IBGE. Pesquisa Nacional por Amostra de DoFO TE DOS DADOS BRUTOS: micílios — PNAD: microdados 2003. Rio de JaB OS: neiro, 2003. CD-ROM. Feita a análise da distribuição da renda, estimamos as linhas de pobreza. As linhas estimadas14 são: US$ 1/dia, US$ 2/dia, meio, um e dois salários mínimos. As linhas de pobreza para os meios rural e urbano estão na Tabela 4. A diferença na proporção de pobres entre o meio rural e o meio urbano é perceptível em todas as linhas. Para a linha que o Banco Mundial define como sendo de pobreza extrema, US$ 1/dia, a proporção de pobres é de 18,3% no meio rural contra 10,1% no urbano. Outro número para o qual deve ser chamada atenção é a proporção de pessoas consideradas pobres pelo Banco Mundial (US$ 2/dia): 42,8% no meio rural contra 28,6% no meio urbano. Uma conclusão que pode ser extraída desses resultados é que a pobreza é relativamente maior no meio rural.15 14 Como já havíamos alertado anteriormente, existem vários métodos para se estabelecerem linhas de pobreza. Todos eles, entretanto, acabam sendo traduzidos em termos monetários — que é o que interessa no presente estudo, justificando a escolha dessas linhas mais práticas de serem estabelecidas e já consagradas na literatura. 15 Trabalhos como os de Waquil e Mattos (2003) e Echeverria (2000) também apontam isso. Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 615-642, 2008 632 Ely José de Mattos; Paulo Dabdab Waquil Tabela 4 Linhas de pobreza nos meios rural e urbano do Rio Grande do Sul — 2003 DISCRIMINAÇÃO RURAL US$ 1/dia (1) ....................... US$ 2/dia (1) ....................... Meio salário mínimo (2) ....... 1 salário mínimo (2) ............. 2 salários mínimos (2) ......... População total .................. URBANO US$ 1/dia (1) ....................... US$ 2/dia (1) ....................... Meio salário mínimo (2) ....... 1 salário mínimo (2) ............. 2 salários mínimos (2) ......... População total .................. NÚMERO DE POBRES PROPORÇÃO 378 531 884 211 52 669 228 071 645 463 2 067 808 18,3 42,8 2,5 11,0 31,2 - 863 070 2 452 465 174 453 542 004 1 667 136 8 563 327 10,1 28,6 2,0 6,3 19,5 - FONTE DOS DADOS BRUTOS: IBGE. Pesquisa Nacional por Amostra de FONTE DOS DADOS BRUTOS: Domicílios — PNAD: microdados 2003. Rio de FONTE DOS DADOS BRUTOS: Janeiro, 2003. CD-ROM. (1) Utiliza renda domiciliar per capita. (2) Utiliza renda domiciliar. Passando para a próxima etapa, no escopo da abordagem tradicional, a Tabela 5 mostra a média e o desvio-padrão para cada uma das três variáveis qualitativas escolhidas para os meios rural e urbano. Como podemos perceber, o meio rural tem médias menores em todas as variáveis. A Tabela 6, entretanto, é a que apresenta os resultados que mais nos interessam. Ela traz o comportamento das médias das variáveis qualitativas de acordo com faixas progressivas de renda. As condições de habitação e a escolaridade têm considerável melhora, conforme aumenta a renda. A auto-avaliação do estado de saúde, porém, não apresenta essa linearidade no comportamento.16 16 O motivo para tal comportamento será sondado, quando executarmos a análise a partir da Abordagem das Capacitações e fizermos os devidos comparativos. Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 615-642, 2008 633 Pobreza rural no Rio Grande do Sul: comparando abordagens Tabela 5 Média e desvio-padrão das variáveis qualitativas nos meios rural e urbano do Rio Grande do Sul — 2003 DISCRIMINAÇÃO Rural Índice de condição de habitação ............. Auto-avaliação do estado de saúde ........ Anos de estudo ........................................ Urbano Índice de condição de habitação ............. Auto-avaliação do estado de saúde ........ Anos de estudo ........................................ MÉDIA DESVIO-PADRÃO 3,91 3,88 5,26 0,86 0,74 3,30 4,60 4,07 7,37 0,61 0,74 4,57 FONTE DOS DADOS BRUTOS: IBGE. Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios — PNAD: microdados 2003. Rio de Janeiro, 2003. CD-ROM. Tabela 6 Média das variáveis qualitativas, por faixa de renda, do meio rural do Rio Grande do Sul — 2003 DISCRIMINAÇÃO Até meio salário mínimo ............. De meio até um salário mínimo De um até dois salários mínimos Mais de dois salários mínimos ... ÍNDICES DA CONDIÇÃO DE HABITAÇÃO 3,51 3,86 4,19 4,46 ANOS DE ESTUDO 4,34 4,93 5,89 7,11 AUTO-AVALIAÇÃO DO ESTADO DE SAÚDE 3,95 3,87 3,81 3,86 FONTE DOS DADOS BRUTOS: IBGE. Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios — PNAD: microdados 2003. Rio de Janeiro, 2003. CD-ROM. Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 615-642, 2008 634 Ely José de Mattos; Paulo Dabdab Waquil Para finalizar a parte destinada à abordagem tradicional (monetária), gostaríamos de sumarizar os resultados obtidos. Levando em consideração as breves análises feitas, podemos afirmar que o meio rural do Rio Grande do Sul, a partir da abordagem tradicional, tem as seguintes características: (a) renda média relativamente baixa; (b) concentração de renda; (c) proporção relativamente alta de pessoas em condição de pobreza e em pobreza extrema; e (d) quanto mais elevada é a faixa de renda, melhores são os resultados em termos das variáveis qualitativas (condições de habitação, escolaridade e saúde). 4.2 Abordagem das Capacitações: uma avaliação a partir dos funcionamentos Para tratar de pobreza com base na Abordagem das Capacitações, conforme já esboçado na seção sobre metodologia, vamos utilizar a análise fatorial. O primeiro passo é verificar se o modelo é apropriado, dada a base de dados da qual dispomos. Para tal, fazemos uma primeira análise da matriz de correlação entre as variáveis. As correlações encontradas, na sua maioria, não podem ser consideradas altas, mas merecem consideração. Para sondar de maneira mais efetiva a adequação do modelo, utilizamos o teste de Kaiser-Meyer-Olkin (KMO),17 que retornou um resultado de 0,71. Esse valor é considerado de adequação média — o ideal é que se estabelecesse acima de 0,80. Depois dessas sondagens preliminares, julgamos que seria conveniente adotar a análise fatorial, a qual poderia trazer contribuições interessantes.18 Procedemos, então, à extração dos fatores. De acordo com os resultados, puderam ser identificados três fatores, os quais respondem por 53,9% da variância total dos dados. Extraídos os fatores, os mesmos passaram por uma rotação ortogonal (pelo método Varimax), para torná-los mais fáceis de serem interpretados. A matriz de fatores rotados está na Tabela 7. Para interpretar os fatores, devemos atentar para aqueles mais altos. Na Tabela 7, valores mais altos representam maior peso na sua composição; logo, dizemos que o mesmo está mais relacionado àquelas variáveis. A interpretação dos fatores parece intuitiva. O Fator 1 está relacionado às variáveis que investi17 Esse teste apresenta um indicador de adequabilidade que pode variar entre 0 e 1. 18 Acreditamos que as correlações relativamente baixas e o teste KMO de nível médio se devem, em parte, ao fato de que as variáveis utilizadas são todas binárias ou categóricas — onde correlações não têm a mesma robustez, quando se trata de variáveis contínuas. Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 615-642, 2008 635 Pobreza rural no Rio Grande do Sul: comparando abordagens gam saúde — funcionamento saúde e mobilidade. O Fator 2 está mais ligado às variáveis de habitação — funcionamento condição de habitação. Já o Fator 3 está mais fortemente relacionado às variáveis referentes à educação — funcionamento educação. Tabela 7 Matriz de fatores rotados DISCRIMINAÇÃO FATOR 1 FATOR 2 FATOR 3 EDU_ALFA ................................ EDU_ESTUDO .......................... SAU_AUTO ............................... SAU_ATIVI ................................ SAU_DOENCA ......................... SAU_MOBIL .............................. CMOR_SANIT ........................... CMOR_TEL ............................... CMOR_COMODI ...................... 0,230 0,752 0,646 0,730 0,719 - 0,455 0,578 0,655 0,776 0,322 0,795 0,201 -0,360 0,261 -0,310 - FONTE DOS DADOS BRUTOS: IBGE. Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios — PNAD: microdados 2003. Rio de Janeiro, 2003. CD-ROM. NOTA: 1. Estimativas realizadas pelos autores através do programa Statistical Package for Social Science (SPSS). 2. Foram suprimidos os valores menores que 0,20 por uma questão de clareza visual. Foram, então, calculados os escores fatoriais — de acordo com a fórmula esboçada na metodologia. Para efetuar uma avaliação das dimensões expressas pelos fatores de forma mais intuitiva e clara, fizemos uma linearização dos escores. Isso se fez necessário, dado que os escores são calculados em termos das variáveis padronizadas, logo, podem assumir valores negativos e dificultar a avaliação. Nessa linearização, tratamos de expressar os escores fatoriais de forma que ficassem entre 0 e 1.19 Como pode ser observado no Quadro 1, todas as variáveis selecionadas obedecem o seguinte critério: números maiores expressam avaliação positiva em termos de bem-estar. Sendo assim, quanto mais próximo o escore fatorial estiver de 1, melhor a avaliação daquele fator. 19 Para tal, utilizamos a seguinte fórmula: (xi-xmínimo)/(xmáximo-xmínimo), onde xi é o escore fatorial que está sendo linearizado, xmínimo, o menor valor que ele pode assumir, e xmáximo, o maior valor que ele pode assumir. Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 615-642, 2008 636 Ely José de Mattos; Paulo Dabdab Waquil Na seqüência, procedemos à análise de clusters. Através dessa técnica, delimitamos quatro grupos homogêneos20 com relação aos três fatores estimados (e linearizados). Os resultados estão na Tabela 8. Tabela 8 Média dos fatores para cada cluster e proporção da amostra pertencente a cada cluster no meio rural do Brasil — 2003 DISCRIMINAÇÃO CLUSTERS 2 Fator 1 (saúde) ............... 0,53 0,88 0,71 0,88 0,80 Fator 2 (habitação) ......... 0,42 0,59 0,81 0,73 0,65 Fator 3 (educação) ......... 0,58 0,26 0,27 0,62 0,36 Proporção (%) ............... 10,3 48,2 3 24,7 4 TOTAL 1 16,8 - FONTE DOS DADOS BRUTOS: IBGE. Pesquisa Nacional por Amostra de DoFONTE DOS DADOS BRUTOS: micílios — PNAD: microdados 2003. Rio de JaFONTE DOS DADOS BRUTOS: neiro, 2003. CD-ROM. NOTA: Estimativas realizadas pelos autores através do programa Statistical Package for Social Science (SPSS). A Tabela 8 exibe as médias por fator de cada um dos quatro grupos definidos (além da média geral do fator) e a proporção da amostra que eles representam, ou seja, o número de pessoas que têm aquelas características médias.21 O maior grupo formado é o cluster 2, que apresenta o melhor resultado no fator saúde, juntamente com o cluster 4, porém apresenta o pior resultado com relação ao fator que representa educação e o segundo pior no fator habitação. O cluster 1 tem os piores desempenhos com relação à saúde e no quesito habitação, porém é o segundo melhor no referente à educação. 20 O número de clusters é determinado pelo usuário, de acordo com a melhor adequação dos dados. 21 Cabe ressaltar que, devido a questões técnicas, na estimativa dos escores fatoriais, nem todos os casos da base de dados podem ser utilizados. Logo, a proporção exibida refere-se àquela dos casos onde o escore pode ser calculado, que, no nosso caso, representa 75% do total da base (3.168 observações). Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 615-642, 2008 Pobreza rural no Rio Grande do Sul: comparando abordagens 637 A pergunta que parece ainda persistir com relação a essa proposta de abordagem é a seguinte: quem (ou quão, ou quantos) são os pobres, afinal? Da forma como a proposta de operacionalização está colocada neste trabalho, não há uma resposta única (estanque) a esse questionamento. A idéia multidimensional é diferente daquela de linha de pobreza, onde existe um ponto de corte bem definido que “traduz” um determinado padrão a ser avaliado. Como observamos através da análise de clusters, os grupos homogêneos apresentam características bastante peculiares e não permitem dizer “Este grupo é melhor do que aquele outro”. Cada qual apresenta estruturas dimensionais (de bemestar) diferenciadas. Esses pontos ficarão mais claros na próxima seção, quando tratarmos de comparar os resultados das duas abordagens. Antes de encerrarmos a análise dessa abordagem, gostaríamos, a exemplo da seção anterior, de fazer um breve resumo dos resultados obtidos sobre o meio rural do Brasil: (a) dadas as variáveis selecionadas para representar os funcionamentos, percebemos que existe uma estrutura dimensional que se relaciona com esses funcionamentos; (b) essa estrutura dimensional (através dos fatores) é capaz de gerar grupos homogêneos com características distintas; e (c) essas características distintas podem ser compreendidas como estruturas de bem-estar diferenciadas. 4.3 Comparando os resultados das duas abordagens Conforme destacamos desde o início deste artigo, as duas abordagens aplicadas neste trabalho têm estruturas teórico-conceituais bastante diferentes. Da mesma forma, seus resultados — e a interpretação dos mesmos — têm significados diversos. Entretanto existe um ponto que gostaríamos de focar com maior cuidado: a importância da variável renda, que é o cerne da abordagem tradicional. Para fazer tal comparação, gostaríamos de chamar atenção para o seguinte (importante) resultado, obtido através da análise tradicional: quanto mais elevada a faixa de renda, maiores os níveis de escolaridade, as condições de habitação e, apesar de não tão claramente, a saúde. Propomos agora uma comparação desse resultado com os obtidos através da Abordagem das Capacitações. Para tal, primeiramente calculamos as correlações entre os escores fatoriais obtidos e a renda (Tabela 9). Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 615-642, 2008 638 Ely José de Mattos; Paulo Dabdab Waquil Tabela 9 Coeficientes de correlação no meio rural do Rio Grande do Sul — 2003 DISCRIMINAÇÃO Fator 1 (saúde) ........ Fator 2 (habitação) ... Fator 3 (educação) ... Fator médio .............. Renda ...................... FATOR 1 FATOR 2 1,00 -0,01 -0,05 0,53 -0,06 1,00 0,06 0,62 0,38 FATOR 3 FATOR MÉDIO RENDA 1,00 0,59 0,11 1,00 0,26 1,00 FONTE DOS DADOS BRUTOS: IBGE. Pesquisa Nacional por Amostra de FONTE DOS DADOS BRUTOS: Domicílios — PNAD: microdados 2003. Rio FONTE DOS DADOS BRUTOS: de Janeiro, 2003. CD-ROM. NOTA: 1. Estimativas realizadas pelos autores através do programa Statistical NOTA : Package for Social Science (SPSS). 2. Coeficientes de correlação de Pearson, todos significativos a 1%. O que percebemos é que a correlação entre o fator médio (geral, isto é, médias dos três fatores) e a renda é bastante baixa (0,26), o que é um primeiro indicativo de que os resultados das duas análises são diferentes em termos efetivos, não apenas metodológicos. Na abordagem tradicional, conforme as faixas de renda se elevam, observam-se melhores condições nas variáveis qualitativas. A Abordagem das Capacitações, que analisa os mesmos aspectos aos quais se referem as variáveis qualitativas, não encontra correlação forte com a renda. Para aprofundar essa observação, a Tabela 10 replica as médias dos escores fatoriais para cada cluster, que já estavam informadas na Tabela 8, e acrescenta a renda média para cada um dos clusters. Como já havíamos comentado anteriormente, não podemos afirmar com propriedade que algum grupo homogêneo seja absolutamente melhor do que outro. As estruturas dimensionais observadas nos resultados não permitem esse tipo de conclusão. Entretanto podemos observar o comportamento da renda em cada um desses clusters. O cluster 3 tem a maior renda média, sendo o segundo colocado em termos de escore médio (fator médio), o segundo pior com relação ao fator saúde (Fator 1) e o melhor no fator relacionado à habitação (Fator 2). Já o cluster 1 possui a pior renda média, apresentando o segundo melhor resultado no fator habitação. O que podemos inferir a partir desses resultados é que não existe um padrão claro de correlação entre a renda e as dimensões estimadas através das Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 615-642, 2008 639 Pobreza rural no Rio Grande do Sul: comparando abordagens análises fatorial e de clusters, resultado que, em certa medida, se contrapõe àquele obtido quando comparamos as variáveis qualitativas unidimensionais à renda na abordagem tradicional. Para tal, sugerimos que existem duas explicações possíveis e não mutuamente exclusivas. A primeira delas diz respeito à própria importância da renda na determinação de aspectos qualitativos da vida das pessoas. O fato de que as correlações entre os fatores estimados e a renda são muito baixas indica que estruturas dimensionais de bem-estar têm relação diferenciada com a renda, ou seja, a sua importância é relativa — isso é diferente de afirmar que ela não é importante. Tabela 10 Média dos escores fatoriais e da renda, por clusters, no meio rural do Rio Grande do Sul — 2003 DISCRIMINAÇÃO FATOR 1 FATOR 2 FATOR 3 FATOR MÉDIO Cluster 1 ................. Cluster 2 ................. Cluster 3 ................. Cluster 4 ................. TOTAL ................... 0,53 0,88 0,71 0,88 0,80 0,42 0,59 0,81 0,73 0,65 0,58 0,26 0,27 0,62 0,36 0,51 0,58 0,60 0,74 0,60 RENDA 218,97 225,19 389,00 373,72 291,41 FONTE DOS DADOS BRUTOS: IBGE. Pesquisa Nacional por Amostra de DoFONTE DOS DADOS BRUTOS micílios — PNAD: microdados 2003. Rio de JaFONTE DOS DADOS BRUTOS neiro, 2003. CD-ROM. NOTA: Estimativas realizadas pelos autores através do programa Statistical Package for Social Science (SPSS). Outra explicação está relacionada às diferenças entre utilizar variáveis qualitativas unidimensionais e multidimensionais. Os fatores que representam saúde, condições de habitação e educação são, na realidade, combinações de um conjunto maior de variáveis, são estruturas dimensionais. Já no caso da análise tradicional, temos apenas uma variável específica (auto-avaliação do estado de saúde, anos de estudo e índice de condições de habitação). A utilização da análise fatorial permitiu, no caso deste estudo, captar de forma mais completa o estado das pessoas com relação ao aspecto investigado (saúde, habitação e educação). Por fim, ainda com relação à comparação entre a abordagem tradicional e a Abordagem das Capacitações, podemos fazer uma diferenciação com respeito Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 615-642, 2008 640 Ely José de Mattos; Paulo Dabdab Waquil à determinação da pobreza propriamente. Enquanto, na abordagem tradicional, temos um número de pobres bem-definido, especificado através da linha de pobreza, na abordagem multidimensional essa definição não é tão objetiva. A Abordagem das Capacitações, no caso deste estudo em especial, apontou o que poderíamos chamar de padrões diferenciados de bem-estar. Esses padrões, no limite, poderiam ser associados a tipologias diferenciadas de pobreza. 5 Considerações finais O objetivo central deste trabalho foi traçar um comparativo entre a abordagem tradicional (monetária) do estudo da pobreza e a Abordagem das Capacitações de Amartya Sen. Os resultados obtidos mostram dois aspectos interessantes: um de cunho teórico e outro prático. Com relação ao primeiro, a análise dos funcionamentos (traduzidos pelos fatores estimados) resultou em grupos homogêneos distintos, com características peculiares. Essas características demonstram que não existe um padrão bem-definido de bem-estar e nem de correlação dos funcionamentos investigados com a renda. Logo, esse tipo de análise não permite fazer um corte localizado para definição de pobre ou não pobre. No máximo, ela revela tipos de pobreza. Essa observação nos remete ao aspecto de cunho prático: políticas públicas. Esse tipo de análise multidimensional é capaz de fornecer um norte diferenciado tanto para o tipo de política a ser implementada quanto com relação ao alvo — não esquecendo da sua utilidade enquanto ferramenta de análise para avaliação da efetividade das políticas já realizadas. Isto porque, mesmo com a análise dos aspectos qualitativos (unidimensionais) estratificados pela renda, existe um viés favorável à renda. Ou seja, confirma-se o elemento, que levantamos no início deste trabalho, de que a renda seria o componente que responde por grande parte da variância de índices que incluem variáveis qualitativas. No entanto, quando trabalhamos com perspectivas multidimensionais e que levam em consideração efeitos de complementaridade e sinergia, os resultados são bastante diferentes. Essas diferenças, por sua vez, são fundamentais, quando falamos em política assistencialista, por exemplo. Acreditamos que a formatação dos resultados da análise multidimensional seja mais adequada para avaliar bem-estar, portanto, pobreza. Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 615-642, 2008 641 Pobreza rural no Rio Grande do Sul: comparando abordagens Referências BARROS, Ricardo P.; HENRIQUES, Ricardo; MENDONÇA, Rosane. A estabilidade inaceitável: desigualdade e pobreza no Brasil. In: HENRIQUES, Ricardo (Org.). Desigualdade e pobreza no Brasil. Rio de Janeiro: IPEA, 2000. p. 2147. COMIM, Flavio; BAGOLIN, Izete P. Aspectos qualitativos da pobreza no Rio Grande do Sul. Revista Ensaios FEE, v. 23, n. esp., p. 467-490, 2002. CORRÊA, Ângela M. C. J. Distribuição de renda e pobreza na agricultura brasileira: 1981-1990. Piracicaba: Unimep, 1998. DE JANVRY, Alain; SADOULET, Elisabeth. La inversión en desarollo rural es buen negócio. In: ECHEVERRIA, Rubén (Ed.). Desarollo de las economias rurales en América Latina y el Caribe. Washington, D. C.: BID, 2001. p. 1-41. 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Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 615-642, 2008 Elementos metodológicos necessários a uma teoria totalizante do desenvolvimento, ou... 643 Elementos metodológicos necessários a uma teoria totalizante do desenvolvimento, ou a totalidade real do desenvolvimento regional* Glaucia Campregher** Doutora em Economia pela Unicamp e Professora do Programa de Pós-Graduação em Economia da Unisinos Resumo No presente artigo, discutimos a importância metodológica da categoria da totalidade para a compreensão do fenômeno do desenvolvimento — não a totalidade filosófica mais abstrata e fundada numa verdade transcendental, mas, sim, uma totalidade concreta, fundada na solidariedade (objetiva e intersubjetiva, produtora de consenso e conflito, estabilidade e desequilíbrio) entre sujeitos sociais que produzem as suas vidas (coisas, valores, relações, símbolos, instituições) num determinado tempo e lugar. Argumentamos que os esforços de inúmeras disciplinas em torno da renovação da explicação das ações humanas que partem da integração entre individual e social e superam a restrita “escolha racional” são bem-vindos ao campo da Economia do Desenvolvimento, particularmente ao daquela centrada na compreensão de fenômenos específicos deste (Hirschman, por exemplo), donde entendemos que a totalidade real é dinâmica e regional. Palavras-chave Teoria do desenvolvimento; totalidade; desenvolvimento regional. * Artigo recebido em abr. 2007 e aceito para publicação em ago. 2007. **E-mail: [email protected] Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 643-670, 2008 644 Glaucia Campregher Abstract The present article argues the methodologycal importance of a philosofical concept — the totality — for the development phenomenon comphreension. Its necessary to refuse the totality as a transcendental concept, and built a concrete meanning based in solidarity (objective and inter-subjective, resulted of consensus and conflict, stability and disequilibrium) between social citizens that produce their lives (things, values, relations, symbols, institutions) in determined time and place. We argue that the theorectical efforts of institucionalists and evolucionaries around the renewal of the explanation of the human action mixing individual and social and surpassing the restricted “rational choice”, are wellcome to the development economy, particularly that one centered in the understanding of specific phenomena of this (Hirschman and others). We will see that the real totality is regional and dynamic. Key words Development theory; regional development; methodological aspects. Classificação JEL: O15; R11. “A gente tem de sair do sertão! Mas só se sai do sertão é tomando conta dele, adentro...” Guimarães Rosa (2006) Introdução Começando do início, o ponto de partida metodológico deste trabalho é uma retomada das propostas teóricas totalizantes que, tão em alta na época Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 643-670, 2008 Elementos metodológicos necessários a uma teoria totalizante do desenvolvimento, ou... 645 áurea da Filosofia1 e nascedouro das Ciências Sociais2, passaram por um refluxo significativo durante todo o século XX, para renascer — ainda não como Fênix gloriosa, mas como andorinha corajosa —, nesses nossos novos tempos, sob a forma de diferentes teorias do desenvolvimento regional.3 1 Que se dá com o ambicioso idealismo alemão, que, seja com Kant, seja com Hegel, pretendia abarcar todas as dimensões do pensamento (metafísico, fenomenológico, ético, estético), todos os objetos desse pensamento (história, política, arte), enfim, dar conta de todos os problemas humanos, sem que a preocupação com o rigor das suas construções teóricas os levasse a abdicar da visualização conjunta desses problemas. 2 Estas surgiram como desdobramentos de uma certa busca pelo rigor e pelo afastamento de metafísicas mais simplórias, características do período pré-cartesiano. Assim é que, desde os desenvolvimentos cartesianos acerca das vantagens para o pensamento da divisão do todo em partes até se chegar a princípios indubitáveis, passando pelo amadurecimento da Matemática e da Física (do qual participa o próprio Descartes), até Comte e a fundação da Sociologia como uma física social, o pensamento voltado ao homem foi-se tornando “científico”, ao mesmo tempo em que “o homem” foi sendo cindido em diversas partes. É bom lembrar também que, paralelamente a esse processo de cientifização do pensamento filosófico-especulativo — ou da produção de idéias —, estava havendo uma cientifização dos processos produtivos em geral, ou seja, da produção de todas as coisas. 3 Para nascer como Fênix, o “pensamento científico rigoroso” (em geral, parente próximo ou distante do positivismo clássico), que cinde, divide, simplifica, a princípio, todo e qualquer objeto, teria que já ter virado cinza. Não é esse o caso. E, além disso, as acusações feitas tanto aos pressupostos teóricos como aos resultados práticos de algumas dessas propostas (o hegelianismo ou o marxismo, por exemplo), como sendo mais que totalizantes, totalitárias, teleológicas e, mesmo, “inimigas da liberdade e do pensamento aberto” (quem não se lembra de Popper?!), geraram interessantes reflexões e importantes alertas contra um certo viés autoritário-dogmático daquele pensamento e/ou ação que consideramos, em muitos aspectos, bastante pertinentes (ver, a esse respeito, e tendo como ponto de partida o debate em torno da caracterização da racionalidade científica no positivismo lógico e na dialética, Marcondes (1998)). De qualquer modo, a superioridade do raciocínio dialético estará, como veremos na retomada da totalidade nas teorias modernas do desenvolvimento, representada, no argumento de Adorno (1986), no debate em questão, no fato de que “[...] o ideal de conhecimento de uma explicação unívoca, simplificada ao máximo, matematicamente elegante, fracassa quando o próprio objeto, a sociedade, não é unívoca nem simples, nem tampouco se sujeita de modo neutro ao arbítrio da formação categorial, pois difere daquilo que o sistema de categorias da lógica discursiva antecipadamente espera. Por isso, os procedimentos da Sociologia devem curvar-se ante o caráter contraditório da sociedade, caso contrário, o empreendimento das ciências sociais corre permanentemente o risco de, por amor à clareza e à exatidão, passar ao largo daquilo que quer conhecer” (Adorno, 1986, p. 47). Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 643-670, 2008 646 Glaucia Campregher Falamos aqui das antigas propostas totalizantes, os grandes sistemas da Filosofia que pretendiam abarcar o pensamento sobre o mundo e o mundo mesmo, em todas as suas dimensões, épocas e lugares. Tiveram o seu tempo, seus erros e acertos, que não vêm ao caso, e que não é nossa competência tratarmos, a não ser na medida em que essa reflexão lança luzes sobre o que é, de fato, nosso foco e que não deixa de ser, muito pelo contrário, uma4 forma atual, talvez menos arrogante, mas não menos modesta, daquele pensamento totalizante. É ela a teorização dos processos de desenvolvimento referidos a determinados territórios, onde pensar suas especificidades em relação ao movimento do todo (o que já implica um raciocínio dinâmico) exige pensar as determinações conjuntas — geográficas, históricas, sociais, culturais, econômicas e políticas — que conferem realidade àquele objeto.5 Assim é que o objeto a ser pensado por essa teoria do desenvolvimento — que, não à toa, não batizamos de social, econômico, humano, etc. — não preexiste separado dela, que é o que ocorre quando a disciplina científica se constrói — seus sujeitos a constroem —, e, depois, aplicam-se seus instrumentos e métodos a esse ou àquele objeto melhor definido (uma vez que, no geral, esse já estava lá, só que pressuposto6). Aqui, são a inserção, os interesses, a concretude da realidade mesma dos sujeitos que definem o objeto. De fato, e em termos mais simples, pensar o processo de desenvolvimento inadjetivado (porque totalizante) é pensar o desenvolvimento desta ou daquela espacialidade. O recorte que caberá a cada análise fazer é o recorte espacial — nesse sentido, o desenvolvimento será sempre de uma determinada área, território ou região, que, a depender da análise, será global, continental, nacional, regional, ou local. Enfim, toda essa discussão metodológica acerca de uma teoria totalizante do desenvolvimento é, como dissemos de saída, o ponto de partida deste texto. Permaneceremos nela grande parte do tempo, evoluindo de uma reflexão mais abstrata até a consideração daquele pensamento estruturalista que, da América Latina para o mundo, foi um importante precursor da mesma. Assim é 4 Dizemos uma, porque nos parece que existem outras tantas fora de nossa “área” de interesses, também elas centradas na preocupação de não cindir o objeto, para que ele possa ser pensado em suas complexidades. Podemos citar, por exemplo, a união da Química, da Física e da Biologia, para pensarem a micromatéria. 5 O que é a síntese mesma da dialética, que supõe a não-separação (mas também a não-identidade) entre sujeito e objeto. Ou seja, o sujeito que pensa o desenvolvimento é parte daquele objeto, seus interesses não são, assim, separados na análise a pretexto de neutralidade científica. 6 Sobre a importância de objeto ser posto e não apenas pressuposto nas análises, ver Campregher (1993). Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 643-670, 2008 Elementos metodológicos necessários a uma teoria totalizante do desenvolvimento, ou... 647 que chegaremos ao pensamento de Albert Hirschman7, que muito tem a contribuir com os esforços recentes (hoje mais advindos da Geografia que da Economia e da Sociologia)8 de construção dessa teoria, que, já antecipamos, é cada vez mais uma teoria do desenvolvimento “regional”9. Mas, se a questão metodológica é o nosso ponto de partida, ela não deve ser nosso ponto de chegada, ou seja, não queremos permanecer nela. O que queremos, ao fim e ao cabo, é sair do sertão de pobreza, desigualdade, ignorância, baixo dinamismo e sustentabilidade econômica e baixa participação social sem termos de virar as costas a tudo isso, o que pode ser feito de diversas formas: abandonando a terra, produzindo um enclave de riqueza em meio à pobreza, entregando-a às potências superiores (o abstrato mercado ou a concreta política de determinados interesses), buscando falsas e alienígenas soluções, nos entregando a “salvadores da pátria” (vestidos de cientista, índio, trabalhador, ou o que seja), ou simplesmente desistindo de lutar. Só um mergulho muito profundo na nossa realidade pode nos dar o que é o mais importante: o como fazer. A epígrafe de Guimarães Rosa na abertura deste texto é muito mais que uma ilustração. Esse amante do sertão (para quem o sertão era “o mundo”, o seu mundo, que ele tanto amava, mas que era tão pobre e cruel) não tinha dúvidas de que “[...] a gente tem de sair do sertão!” Mas um tanto sugerindo o 7 Pensador este que, ao longo de sua vida, vem se confrontando com a economia-padrão e positiva, que postula leis gerais de caráter universal, sem levar em consideração “[...] a ampla gama de variáveis, a especificidade das instituições e o caráter não generalizado do comportamento encontrável no processo de desenvolvimento” (Wilber; Francis, 1988). Justo por isso, esses autores chamam a metodologia hirschmaniana de “holista” — um termo semelhante à nossa totalidade. Ver o espectro da obra do autor, que nos serviu de referência, nas Referências. 8 Mas também existem as contribuições recentes de economistas, sociólogos, cientistas políticos e antropólogos acerca, fundamentalmente, do papel das instituições, das motivações das decisões individuais e coletivas, das redes de “enraizamentos” (o embeddness da nova Antropologia Econômica). 9 No sentido que dizíamos no parágrafo anterior, ou seja, a região desse “desenvolvimento regional” não é aquela subunidade nacional previamente, burocraticamente ou academicamente definida a partir de critérios subjetivos e de pouca aderência histórica, social, cultural, econômica real. Desse modo, o desenvolvimento de que falamos é sempre “regional”, mas a região é objetivamente definida pelos interesses explícitos na e pela análise (não os interesses do analista, mas deste entre aqueles que compõem a “região” em questão), pela sua formação histórico-cultural, seus padrões de reprodução socioeconômica. Ver, a respeito, Haesbaert (2005), para quem, dependendo da área a qual estamos nos referindo, se deve usar a dominância de determinados processos, diferentes conceitos e diferentes critérios de regionalização. Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 643-670, 2008 648 Glaucia Campregher método totalizante, “[...] só se sai do sertão é tomando conta dele” e, reforçando ainda o enfoque regional, “a dentro”. Da totalidade ideal à totalidade real do desenvolvimento “regional” Uma das grandes contribuições do pensamento marxista sobre a dinâmica capitalista do período do imperialismo foi a teoria trotskista do desenvolvimento desigual e combinado10. Trata-se de uma fina percepção — dialética (e oposta à compreensão do progresso automático e linear) — de como esse modo de produção se reproduz, expandindo-se para toda a periferia do sistema e produzindo, nesse espaço amplo e integrado (o espaço global), mas também em cada país ou região alcançada, o que há de mais avançado e o que há de mais atrasado. Também caracterizava essa teorização (que nasceu da análise concreta do processo de desenvolvimento do capitalismo na Rússia) a unidade de tratamento dos temas culturais, sociais, econômicos e políticos. Pois, então, esse é um caso de pensamento que soube utilizar a categoria da totalidade, que, como dizia Luckács (1989), é o princípio revolucionário no domínio do conhecimento. Mas o trotskismo só fez uma escola à sua altura naquelas regiões retardatárias (como a Rússia) e, assim mesmo, durante algum tempo. Assim é que ele exerceu enorme influência, aqui entre nós, em Caio Prado Júnior ou Florestan Fernandes11, mas, por razões que não vêm ao caso explorarmos, a sua riqueza dialética foi sendo cada vez mais simplificada (no mau sentido) pelos pensadores posteriores.12 10 Essa teoria foi concebida por Trotsky ao longo de sua vida de militante político e de pensador científico. Existem traços dela desde suas manifestações em diferentes debates sobre a situação da Rússia pré-revolucionária, mas uma melhor apresentação da mesma só ocorreu em 1930, quando da publicação de sua História da Revolução Russa (Trotsky, 1978-1980). 11 Cujas análises dialéticas, se já são compreendidas, não são ainda modelos para criação de novas interpretações dos novos tempos. Sobre o interesse da análise de Florestan para a compreensão do processo de desenvolvimento da nação brasileira, ver Paiva (1991). 12 Assim, por exemplo, o dependentismo latino-americano, que muito se inspirou na matriz trotskista, acabou por dar ênfase exagerada à determinação exógena dos processos de desenvolvimento no nosso continente, como mostraram diversos dos seus críticos — dentre os quais, o mui brilhante Fernando Henrique Cardoso no famoso ensaio As Idéias e Seu Lugar. Mas também ele não escapou de um certo simplismo, uma vez que, mesmo depois de uma rica e dialética análise das releções exógenas e/ou endógenas entre os agentes mundiais e/ou locais, acabou por defender (e aplicar, uma vez Presidente) um adesismo ao modelo de capitalismo associado como o único projeto viável de desenvolvimento nacional. Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 643-670, 2008 Elementos metodológicos necessários a uma teoria totalizante do desenvolvimento, ou... 649 Nos capitalismos ditos “centrais”13, mais precisamente na Europa e nos Estados Unidos, a categoria da totalidade ficou um tanto restrita à discussão filosófica mais abstrata, cremos que por dois motivos principais: (a) a dominação do pensamento comunista oficial (tão positivista quanto a versão “burguesa”) ou aliciava adeptos incondicionais, ou colocava seus críticos numa situação de negação do grande projeto teórico-político, impossibilitando-lhes a atenção às especificidades de toda ordem; (b) os poderes da dominação político-cultural — advindos do poder econômico — pareciam tão avassaladores que só poderiam ser para eles todas as atenções.14 Então, vejamos que curioso: a totalidade (concreta, real) perde-se justamente com a perda de atenção aos casos particulares. Sigamos um exemplo que já é ele mesmo uma aproximação do nosso argumento central — qual seja, o de que as novas teorias do desenvolvimento regional são a recuperação necessária e possível daquela totalidade revolucionária de que falava Luckács (1989). Trata-se do exemplo da morte — inúmeras vezes decretada — da região nos estudos geográficos. Segundo Rogério Haesbaert (2005, p. 6), houve três importantes mortes e ressurreições da região desde o pós-guerra: uma primeira decretada (nos anos 50 e 60) pelo cientificismo neo-positivista anglo-saxão, que, ao defender a necessidade da construção de leis gerais (contra a matriz francesa que priorizava o particular), acabava por propagar, se não o fim da região, a sua redução a uma “simples classe de área”; uma segunda decretada pelo marxismo (dos anos 70 e 80), que considerava a região um “conceito-obstáculo”, preferindo tratar o regionalismo como um processo social do que tratar da região mesma, cometendo o pecado de “fetichizar o espaço”; e uma terceira difundida por globalistas de dois tipos, os pós-modernos — que vêem a globalização como processo homogeneizador das especificidades regionais — e os pós-estruturalistas — que vêem uma diluição das “mesoescalas” (nacionais e regionais) em favor do link direto entre o local e o global. Parece-nos evidente, mesmo nessa precária caracterização, que o que se perde nessas “mortes anunciadas” do regional é exatamente a dialética necessária para compreender, num mesmo processo, especificidades e uniformidades, autonomias e dependências (ambas sempre e diferentemente relativas), estabilidades e rupturas, enfim, tendências e possibilidades nunca 13 Nomenclatura típica da época em que o imperialismo — que abrange, grosso modo, do pós Primeira Guerra até a queda do socialismo soviético — não tinha sido substituído pelo termo mais atual, globalização. 14 Como veremos a seguir, é o caso dos adeptos da teoria crítica da escola de Frankfurt. Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 643-670, 2008 650 Glaucia Campregher rigidamente definidas, sempre ao alcance das decisões dos agentes sociais, cuja liberdade de ação não é, portanto, nem indeterminada, nem absoluta. A reflexão que estamos propondo busca pensar mais uma vez o desenvolvimento como processo dialético que combina movimentos opostos impossíveis — ou indesejáveis — de serem reduzidos, pois é justamente a real possibilidade dos extremos que explica o movimento, a transformação. Isso implica recuperar a categoria da totalidade, não sua idealização filosófica, mas, sim, sua concretização no nível mais concreto possível, que, para nós, é o espaço — não meramente físico, mas material e historicamente determinado — que habitamos e que configura uma determinada (ou melhor, muitas determinadas) região(ões). A impossibilidade de reconfiguração de uma totalidade ideal Como dizíamos na Introdução deste artigo, não podemos nos dar ao luxo de recuperarmos aqui toda a história filosófica de auge e declínio das grandes “visões de mundo” (o que, aliás, é um dos temas freqüentes da Filosofia na pós(?)-modernidade) 15, mas não poderíamos deixar de mencioná-la antes de partirmos para a análise das novas propostas totalizantes (dentre elas, o desenvolvimento “regional”), que, boas ou más, nascem, todas de um certo esgotamento da divisão das esferas — e das disciplinas científicas especializadas — que sucedeu aquele declínio. Antes de prosseguirmos, contudo, mais uma ressalva: de fato, as disciplinas mais rigorosamente segmentadas puderam acrescentar um potencial analítico às teorizações e/ou compreensões da realidade que não se tinham desenvolvido antes dessa segmentação;16 e, de fato também, algumas análises totalizantes 15 Por exemplo, podemos citar Habermas (e sua crítica ao projeto mal concluído da modernização levada a cabo pelo capitalismo), dentre tantos outros que procuraram e procuram a compreensão do homem do nosso tempo, utilizando-se de um arcabouço teórico pouco identificável como sendo claramente da Sociologia, da Economia, da Filosofia, etc. Ver, a respeito das análises de Habermas e de outras com distintas concepções acerca da totalidade (Weber e Marx principalmente), Campregher (2002). 16 O que não invalida, para nós, o alerta geral de que “[...] a teoria em sentido tradicional, cartesiano, como a que se encontra em vigor em todas as ciências especializadas, organiza a experiência da vida dentro da sociedade atual. Os sistemas das disciplinas contêm os conhecimentos, de tal forma que, sob circunstâncias dadas, são aplicáveis ao maior número possível de ocasiões. A gênese social dos problemas, as situações reais nas quais a ciência é empregada e os fins perseguidos em sua aplicação são por ela mesma consideradas exteriores” (Horkheimer, 1983, p. 155). Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 643-670, 2008 Elementos metodológicos necessários a uma teoria totalizante do desenvolvimento, ou... 651 preocupadas em captar todos os aspectos de algumas questões acabam por contar histórias detalhadas de alguns processos sem marcar os seus pontos nevrálgicos, sem hierarquizar determinações e, muito menos, sem deixar pistas para comparações e análises de outras realidades — o que, se, de um lado, produz um conhecimento detalhado sobre uma dada totalidade, de outro, a retira do mundo e da história, caindo-se, assim, no historicismo do caso a caso.17 Dito isso, seguimos adiante, frisando o que consideramos o problema crucial enfrentado pelas propostas totalizantes de outrora: as concepções filosóficas mais ambiciosas acerca da totalidade pecaram por ser excessivamente idealistas — a unidade de todas as determinações do real só sendo cabível no nível mesmo da razão18 —, e, mesmo quando se pensou numa ação política que enfrentasse o processo real de autonomização das esferas (agravado pelo capitalismo moderno), também essa previa uma razão emancipadora, cuja base totalizante fosse dada a priori e não construída de fato. Dito de outro modo, se, de um lado, as disciplinas mais “oficiais”, ou as visões de mundo mais em acordo com a autonomização das esferas, reinavam em relativa (e positiva) tranquilidade — alardeando a linearidade do progresso, a naturalidade do atraso e o alcance do equilíbrio automática e passivamente —, de outro, as propostas contra a corrente que queriam a reacoplagem do real acabaram por mostrar-se idealistas (mesmo se dizendo materialistas). De fato, na nossa visão, tanto o materialismo histórico mais ingênuo — defensor de uma inexorável ação revolucionária dos trabalhadores, que corrigiria na origem (material) a desacoplagem das esferas — quanto o projeto sofisticado e ambicioso da teoria crítica frankfurtiana — que acabou, na sua versão habermasiana, por propor tão-somente uma “complementação das racionalidades”19 — ficaram justamente sem um objeto. Ou seja, dado que a crítica radical do pensamento sobre o mundo (que separa ambos, portanto) impõe uma crítica ao mundo — à maneira pela qual este está organizado, ou à maneira pela qual ele é concretamente produzido por e para os homens —, haveria a necessidade da construção de um outro mundo (o que a experiência real de socialismo intentada jogou por terra). Desde então, as dificuldades políticas da construção do socialismo num só país, a eficiente dominação das massas pela indústria cultural e a vitória da 17 Como o denuncia o estrutralismo latino-americano na visão, por exemplo, de Furtado (1967). 18 Como é o caso da filosofia de Hegel, onde, como nos lembra Habermas, “[...] os momentos nos quais a razão se dissocia só voltam a ficar unificados na teoria, mantendo-se a filosofia como o lugar em que se cumpre e consuma a reconciliação dessa totalidade que se tornou abstrata” (Habermas, 1989, p. 462). 19 Para uma discussão mais detalhada da questão, ver Campregher (2002). Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 643-670, 2008 652 Glaucia Campregher teoria tradicional — que domina, como dizem Adorno e Horkheimer (1980), “todas as ciências especializadas” —, impossibilitaram a teoria crítica e emancipatória de encontrar um objeto à sua altura. Se não vejamos, segundo a formulação de Horkheimer: [...] a teoria crítica da sociedade tem como objeto os homens como produtores de todas as suas formas históricas de vida. As situações efetivas, nas quais a ciência se baseia, não [são] para ela uma coisa dada, cujo único problema estaria na mera constatação e previsão segundo as leis da probabilidade. O que é dado não depende apenas da natureza, mas também do poder do homem sobre ela. Os objetos e a espécie de percepção, a formulação de questões e o sentido da resposta dão provas da atividade humana e do grau de seu poder (Horkheimer, 1983, p. 155). Pois bem, quer parecer-nos, justamente, que os frankfurtianos não descobriram uma “forma histórica de vida” que fosse também ela crítica, uma “situação efetiva” crítica, ou uma “atividade humana” crítica que mostrasse um razoável “grau de poder”. Quer dizer, é verdade que se têm os movimentos estudantis dos anos 60, os de independência nacional dos 70 e os movimentos sociais dos 80, mas esses não são efetivamente poderosos — não são suficientes para evitar que a teoria crítica chegue ao pessimismo do último Adorno (1995)20, ou ao reformismo21 do continuador Habermas (1989). De fato, a Escola de Frankfurt, mesmo com todo seu entusiasmo pelo marxismo — e sua proposta de superar de vez a reflexão sobre o mundo, convidando para a efetiva transformação deste —, é uma escola do pensamento filosófico e, como tal, acabou por ficar enredada, como as outras, numa briga por validação de suas verdades (meras narrativas ou mesmo metanarrativas22, não vem ao caso discutirmos) que pouco inspirou alguma ação fora da Academia. Ou seja, por mais que essa escola tivesse uma forte crítica ao pensamento abstrato tradicional e quisesse uma reconciliação efetiva com o mundo concreto 20 Adorno, refletindo sobre a esperança kantiana em torno da emancipação humana, diz-nos que essa, hoje, “[...] se tornou muito questionável, face à pressão inimaginável exercida sobre as pessoas, pela própria organização do mundo e pelo controle planificado até mesmo de toda realidade interior pela indústria cultural. Se não quisermos aplicar o termo emancipação num sentido meramente retórico, [...] vazio como o discurso dos compromissos [...] é preciso começar a ver efetivamente as enormes dificuldades que se opõem à emancipação nesta organização do mundo” (Adorno, 1995, p. 181). 21 Reformismo este assumido pelo próprio autor e considerado por muitos de seus comentadores um retrocesso em relação ao projeto frankfurtiano original. Ver, por exemplo, Slater (1978). 22 Que são algo próximas das grandes visões de mundo de que falávamos no início deste trabalho. Uma metanarrativa é uma narrativa que visa abarcar e explicar outras narrativas, como as metanarrativas de Platão ou Hegel, que, ao darem uma explicação para o mundo, dizem que aquela explicação é a realidade do mundo. Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 643-670, 2008 Elementos metodológicos necessários a uma teoria totalizante do desenvolvimento, ou... 653 e real (sem fetichismos e reificações)23, sua própria crítica à racionalidade dita instrumental — mais restrita ao mundo das coisas — a impede de pleitear essa reconciliação justamente aí! E, sem a reconciliação dos homens com as coisas (que, lembremos, é o trabalho que produz e realiza), a reconciliação entre aparência e essência é, de fato, uma batalha do pensamento. E uma batalha que só pode levar ou à resignação, como em Weber (1965) — que descrê da possibilidade de vitória —24, ou à crítica desesperançada, como em Adorno e Horkheimer (1980) — que acreditam que o capital e a indústria cultural já realizaram a reconciliação a seu modo —25, ou à defesa de seu definitivo deslocamento para fora do mundo da produção, em direção aos planos prático-moral e estético-expressivo, ainda não contaminados pela razão instrumental, como em Habermas (1989) — para quem, pelo menos, ainda resta uma esperança. O que é comum a todos esses autores é que a totalidade é visada idealmente. E isso na medida em que se pensa a história mais como um processo de racionalização do mundo do que de produção e objetivação do social e do cultural. Tanto o ceticismo resignado de Weber (1965) quanto o niilismo de Adorno e Horkheimer (1980) e o otimismo de Habermas (1989) comungam da mesma origem: uma sobrevalorização do que poderíamos chamar “o trabalho da razão” vis-à-vis a todas as demais formas de trabalho.26 23 Que os frankfurtianos em geral imputam ao capitalismo e também a toda razão abstrata que privilegia o logos em relação ao eros e ao cronos, ou, simplificando ao máximo, privilegiando a razão instrumental e a produção das coisas à razão substantiva produtora de valores e sentidos. 24 Em Weber, há pouca ou nenhuma esperança quanto à reunificação das esferas de vida e das formas da razão. Por trás dessa conformação ressentida com a dominação da razão instrumental, há, como dissemos, uma idealização da totalidade da razão. Isto porque, do nosso ponto de vista, a teoria weberiana do processo de racionalização (desencantamento) do mundo, como de “perda de sentido” e de “perda de liberdade”, se dá num contexto de idealização do sentido e da liberdade (Weber, 1965). No caso do primeiro, porque, com o rompimento da unidade que havia em torno do conhecimento tipicamente religioso ou metafísico, se tem a impossibilidade da percepção do mundo como tendo um sentido. No caso da segunda, porque novamente o rompimento da razão originária daria margem ao desenvolvimento desproporcional da razão instrumental, que levaria a uma crescente autonomização da esfera econômica e do poder, que nos tornaria prisioneiros dos “especialistas sem espírito” e dos “hedonistas sem coração”. Ver Cohn (1979). 25 Como bem nos lembra Haddad, “Adorno e Horkheimer radicalizam as perdas de sentido e liberdade weberianas não pela impossibilidade de reunificação das esferas, mas justamente o contrário, dado presenciarem um mundo administrado unificadamente via processo de fusão do aparato estatal com a grande empresa capitalista”. Tem lugar, então, que “[...] o caos cultural que se poderia esperar da perda de unidade da razão é suplantado por um movimento de forças que dá a tudo, não um novo sentido, mas um ar de semelhança” (Haddad, 1997). 26 Assim, para além da inflexão otimista (que já é ela mesma um resultado), a única coisa que diferencia Habermas dos demais é que, em sua versão madura, esse autor funda sua Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 643-670, 2008 654 Glaucia Campregher Tomando de uma vez o caminho da construção de uma outra noção de totalidade — diríamos, mais pragmática e materialista —, fixaremo-nos, aqui, na contribuição do neopragmatismo norte-americano, na figura de Richard Rorty, que nos remete à noção de que a totalidade objetiva é igual à história das formas de solidariedade. Antes de seguirmos adiante, é interessante que apresentemos o nosso autor, ou que ele mesmo se apresente, justamente se posicionando em relação à discussão que fazíamos até aqui. Segundo Rorty: [...] o caminho equivocado foi tomado quando a divisão realizada por Kant entre ciência, moral e arte foi aceita como algo dado [...] Uma vez que essa divisão foi tomada a sério, então, o auto-reconhecimento de si, da modernidade, que tanto Hegel como Habermas aceitam como “o problema filosófico fundamental” parecerá efetivamente urgente. Porque, uma vez que os filósofos se guiam pela “obstinada diferenciação” de Kant, então, estão condenados a uma interminável série de movimentos reducionistas e anti-reducionistas. Os reducionistas fizeram tudo tender ao científico, ou político (Lenin), ou estético (Baudalaire, Nietzsche). Os anti-reducionistas mostraram que esses intentos não eram indicados. Ser um filósofo de tipo “moderno” significa precisamente não estar disposto a permitir que essas esferas coexistam simplesmente de uma maneira não competitiva, ou reduzir duas delas ao que resta. A filosofia moderna tem consistido em voltar a estranhá-las sempre, a reuni-las agrupando-as e obrigando-as se separarem de novo (Rorty, 1988, p. 264).27 crítica ao materialismo histórico numa ontologia alternativa, uma ontologia centrada no trabalho do pensamento e no trabalho de sua exteriorização e/ou comunicação, ambos pensados como distintos e estranhos — no limite, antagônicos — às formas triviais e instrumentais do trabalho. 27 No original: “[...] el camino equivocado se tomo cuando la división realiza por Kant entre ciencia, moral y arte fue aceptada como algo donne (...) Una vez que esa división se tomó en serio, entonces el Selbstvergewinsserung der Moderne, que tanto Hegel como Habermas aceptan como el problema filosófico fundamental parecerá efectivamente que es urgente. Porque una vez que los filósofos se tragan la obstinada diferenciación de Kant, entonces están condenados a una interminable serie de movimientos reduccionistas y antirreduccionistas. Los reduccionistas intentarán hacer todo científico, o político (Lenin), o estético (Baudalaire, Nietzsche). Los antirreduccionistas mostrarán lo que esos intentos no indican. Ser un filósofo de tipo ‘moderno’ significa precisamente no estar dispuesto a permitir que estas esferas coexistan simplemente de una manera no competitiva, o a reducir las otras dos a la que queda. La filosofia moderna ha consistido en volver a alienarlas siempre, a reunirlas agrupándolas y a obligarlas a separarse de nuevo” (Rorty, 1988, p. 264). Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 643-670, 2008 Elementos metodológicos necessários a uma teoria totalizante do desenvolvimento, ou... 655 A totalidade objetiva é igual à história das formas de solidariedade28 Há já alguns anos, houve um interessante debate filosófico entre realistas e pragmatistas em torno da relação entre “objetividade” e “solidariedade”, que nos será de muita valia para expressar o que acreditamos serem as bases filosóficas para a defesa da “região” como sendo uma totalidade real — porque locus de uma articulação, não apenas possível como necessária, entre objetividade e solidariedade. Nesse debate, Rorty (1993), defendendo-se da crítica de Hilary Putnam — que argumentava serem as suas teses relativistas —, diz o seguinte: Há dois modos principais pelos quais seres humanos reflexivos tentam, colocando suas vidas em um contexto maior, dar sentido a elas. O primeiro é contando a história de sua contribuição a uma comunidade. Esta pode ser a comunidade histórica real na qual eles vivem, ou uma outra comunidade real, distante no tempo ou no espaço, ou uma comunidade imaginária, consistindo talvez numa dezena de heróis e heroínas selecionados da história ou ficção, ou de ambas. O segundo modo é descrever a si mesmos como encontrando-se em relação imediata com uma realidade não humana. Esta relação é imediata no sentido de que não deriva de uma relação entre tal realidade e sua tribo, ou sua nação, ou seu imaginado grupo de companheiros. Eu afirmei que histórias do primeiro tipo exemplificam o desejo de solidariedade e histórias do segundo tipo exemplificam o desejo de objetividade (Rorty, 1993, p. 109). Rorty (1993) admite serem suas teses “etnocêntricas”, mas não relativistas, explicitando seus pressupostos de interesse e solidariedade. O que nos parece fundamental na sua argumentação (e que não é de forma alguma relativismo) é sua concepção de que o que nós buscamos é a concordância, e o fazemos via uma equiparação de termos e significados com o maior número possível de interlocutores, levando o “nós” tão longe quanto possamos. Mas isso não significa abrir mão de critérios de julgamento para o que é racional, ou não, no interior dessa busca. Ou seja, não se está dizendo que não se pode falar de conhecimento da verdade, e é isso que diferencia e afasta Rorty (1993) do verdadeiro relativismo29. O que ele está propondo, nas suas próprias palavras, é: 28 Título do Capítulo 3 da primeira parte da nossa tese de doutorado (Campregher, 2002), de onde retiramos o argumento aqui desenvolvido. 29 O verdadeiro relativismo é decadentista, avesso a qualquer pragmatismo (na verdade, canta loas à inação) e, por isso mesmo, é objetivamente conservador. Hegel revela a sua essência em passagem canônica. Segundo o autor, “[...] quando Cristo disse: Eu vim ao mundo para dar testemunho da verdade, Pilatos responde: Que é a verdade? A resposta é Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 643-670, 2008 656 Glaucia Campregher [...] a investigação como o contínuo retecer de uma teia de crenças, ao invés da aplicação de critérios a casos. Então, a noção de “normas culturais locais” perderá seus sobretons ofensivamente provincianos. Já que, agora, dizer que devemos trabalhar com nossos próprios olhos, que devemos ser etnocêntricos é simplesmente dizer que crenças sugeridas por uma outra cultura devem ser testadas pela tentativa de tecê-las juntamente com crenças que já possuímos (Rorty, 1993, p. 114). Há um comentário a fazer aqui porém. Mesmo se tomarmos o “contínuo retecer de teias” como a garantia da continuidade da discussão sobre o “conhecimento da verdade”, haverá, sim, uma certa inflexão relativista, na medida em que o autor pretende não ver “[...] diferença [...] entre dizer que ‘há apenas o diálogo’ e dizer que ‘há também aquilo para o qual o diálogo converge’” (Rorty, 1993, p. 114). Mais que isso: Rorty (1993) pretende ainda que os que percebem tal diferença deixam o objetivismo metafísico “[...] entrar pela porta dos fundos”. Ora, não concordamos com essa (dúplice) pretensão. Na verdade, assim seria, se essa convergência significasse algo de ideal visado e antecipado desde o início da história. Mas se essa convergência for remetida ao passado concreto — à história material dos homens, cujo resultado é trabalho materializado em coisas, idéias e instituições fincadas num determinado espaço —, ela não nos tornará vítimas do “cientificismo que acusamos em outros”, e a idéia de “florescimento humano” não terá nada de “trans-histórico” (como acusa Rorty), mas de efetivamente histórico. Do mesmo modo, se concordamos com Rorty (1993) em sermos “contra a idéia de correspondência da verdade” (do conceito com a “coisa em si”) e a “[...] favor da idéia de que algumas visões são mais coerentes que outras”, é porque, para nós, tampouco a coerência é um atributo das falas em si. A coerência é algo que se conquista pela mediação objetiva com o outro, num processo de troca material que envolve a extensão, ao máximo, do universo de falantes até a “conquista dos estrangeiros pelo diálogo com eles”. Cabe frisar que a extensão que nos interessa é geográfica, mas também histórica, e atinge realidades mais profundas, onde se vislumbram conexões, equivalências e solidariedades para além da observação empírica. A coerência deve ser buscada no passado, na forma como foi entronizada nos testemunhos materiais e culturais, mas esses testemunhos não podem ser formalizados à moda da “razão do dada com ares de superioridade e significa: sabemos bem o que é essa verdade: uma coisa que conhecemos; mas fomos ainda além: sabemos que se não pode falar de conhecimento da verdade; é ilusão que já vencemos. Quem assim fala passou, de fato, para além da verdade” (Hegel, 1980, p. 33). A despeito das diferenças entre Rorty e Hegel, ambos concordam que se deve, sim, falar da verdade e não lavar as mãos, a princípio, sobre ela. Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 643-670, 2008 Elementos metodológicos necessários a uma teoria totalizante do desenvolvimento, ou... 657 entendimento” (Fausto, 1987); eles podem e devem ser alcançados pela razão dialética, para que sejam capturados na sua dimensão transcendental, por trás das falas dos indivíduos. Ainda uma palavra sobre a fórmula rortyana, segundo a qual o pensamento realista é aquele que busca fundar (desnecessária e perigosamente) a solidariedade na objetividade. Do nosso ponto de vista, se o nosso desejo de objetividade se baseia na solidariedade, ele não é primeiro. De fato, para nós, não há objetividade alguma antes da solidariedade (como não há natureza humana, nem sequer homem30). Mas a afirmação desta não é a negação (apenas primeira, à la Hegel) daquela. Se é metafísico fundar a solidariedade na objetividade, não é menos metafísico (pois se trata de fantasiar uma realidade) querer desconhecer que a solidariedade tem se fundado, na história da humanidade, não na objetividade, mas na falta dela, na sua eterna carência.31 Quer parecer-nos que essa nossa interpretação é consistente com a reflexão de alguns dos próceres do pragmatismo moderno, segundo os quais o acordo intersubjetivo entre as consciências através da interpretação dos signos ganha status de objetividade, quando pressupõe que deva haver unicidade. Segundo Apel, 30 Como defendemos em nossa dissertação de mestrado (Campregher, 1993, cap. 1). Mas lá dizíamos também que não basta solidariedade entre os homens de uma mesma comunidade. A cooperação mais simples é própria até de algumas espécies animais. Há que se ter solidariedade com o “outro distante” no espaço e no tempo. Esse aprendizado de respeito ao outro, geográfica e historicamente distinto, só se impõe pelas necessidades objetivas do processo de trabalho enquanto processo de desenvolvimento do conjunto das mediações entre a carência e a sua satisfação. 31 O desejo de objetividade funciona aqui como a busca precisamente humana de preencher uma falta. E assim ele aparece em pensadores que buscaram fundamentalmente as pulsões que nos movem. É o caso de Nietzsche e da nossa “vontade de potência” (que é o que nos torna mais homens) que cria a “vontade de verdade” e que faz desta “[...] o erro sem o qual certa espécie de ser vivo não estaria viva”. Afinal, ela é a condição para criar a solidariedade necessária à sobrevivência do homem, assim como é a condição de seu devir e transcendência. Também na análise freudiana do estabelecimento do tabu, aparece essa função da objetividade. Do assassinato do pai primevo e da proibição do incesto, o que fica é a castração como fundando a solidariedade entre os irmãos. Mas a crença na recuperação da objetividade perdida (a partir daí fantasiada, sonhada, etc.) é o que nos move para criar nossa civilização — seja em suas formas doentias, seja nas formas superiores de sublimação. Rorty sabe disso, quando diz que “[...] o etnocentrismo inevitável ao qual estamos todos condenados é, assim, tanto parte da confortável visão realista, como da desconfortável visão pragmatista” (Rorty, 1993, p. 119). Justifica-se preferir o desconforto ao conforto, justamente porque, sabendo que nós fazemos “a falta” (e não o “espírito”, deus, ou o que seja), sabemos também que a solidariedade é uma criação nossa e não um destino imposto de fora. Mas a substituição de uma forma de solidariedade por outra só é possível se, de algum modo, continuarmos perseguindo aquela objetividade (Nietzsche, 1980; Freud, 1980). Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 643-670, 2008 658 Glaucia Campregher Da mesma forma que Kant, como analítico da consciência, se viu obrigado a postular, com anterioridade à toda crítica do conhecimento, que é possível alcançar algo semelhante à unidade do objeto (e da autoconsciência), os modernos lógicos da ciência, que partem de uma base semiótica ou analítico-linguística, teriam que postular a possibilidade de alcançar, mediante a interpretação dos signos, algo semelhante a uma interpretação do mundo intersubjetivamente unitária (Apel apud Haddad, 1997, p. 47). Mas isso não é tudo. A verdade é que, subjacente ao reconhecimento de que uma “interpretação intersubjetivamente unitária do mundo” é (estruturalmente) possível, encontra-se a pressuposição de que a ciência moderna se estrutura sobre bases éticas. Segundo Apel, tal fundamento da ciência moderna já teria sido percebido por Peirce, ao tomar consciência de que [...] não poderia derivar a racionalização moralmente relevante da conduta humana a partir da normatização tecnológica para “aclarar as idéias” no sentido da “máxima pragmática”, senão que, pelo contrário, teria que pressupô-la inclusive para fundamentar uma lógica normativa para a ciência (Apel apud Haddad, 1997, p. 47). Sem dúvida! Só que a clareza dos fundamentos éticos da ciência não pode nos levar a esquecer que o desenvolvimento da pragmática da solidariedade no plano discursivo (que é o plano, por excelência, de desenvolvimento e manifestação da Filosofia e da Ciência) não é suficiente para garantir a construção de uma unicidade objetiva, como demonstra cotidianamente a fragmentação política dos arautos da unicidade teórico-discursiva. E o que mais assusta é que a unicidade objetiva que nos falta, sobra ao capital — que parece conseguir sempre as suas sínteses, a despeito de nós. Essa objetividade chocante do capital é que impõe novamente a dimensão das coisas como estruturas subjacentes que nos moldam a linguagem. E isso na medida em que as coisas do capital não são coisas naturais, mas coisas sociais, como em Marx (1983), ou artificiais, como em Simon (1981)32. Assim, se é positivo que nos esqueçamos da idéia de correspondência com a verdadeira natureza das coisas — que aparecem assim como naturais —, é negativo que façamos de conta que só existe a nossa fala, o nosso diálogo e suas regras. Há todo um universo de coisas que nos confunde a linguagem e exige que busquemos, para além da coerência dos pragmatistas, a correspondência dos realistas, desde que, como vimos, abandonemos a vã tentativa de buscar uma correspondência com a “coisa em si” e nos voltemos para a busca da correspondência com a coisa para nós, com a coisa que produzimos com o 32 Autor que deve ser buscado por aqueles que, como nós, querem aproximar máquina e pensamento, cultura e natureza. Ver Simon (1981). Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 643-670, 2008 Elementos metodológicos necessários a uma teoria totalizante do desenvolvimento, ou... 659 nosso trabalho, e que é todas as coisas, palavras, ações, estruturas, instituições. Nesse entroncamento sob o signo da intersubjetividade com a objetividade, aproximamo-nos da totalidade mais pragmática, gerada mais pela solidariedade entre indivíduos e grupos cuja inserção social é multideterminada do que pela perseguição da objetividade por uns poucos indivíduos intelectuais. Só que, para que essa solidariedade seja objetivamente determinada, ela não pode estar restrita à intersubjetividade dos indivíduos, mas deve-se estender às relações que esses estabelecem através das coisas e das estruturas (instituições) objetivas que produzem e plantam nos espaços em que habitam. A totalidade real do desenvolvimento “regional” Vimos acima que a totalidade já se redefiniu, na Filosofia moderna, de modo um tanto mais concreto, a partir das suas reflexões sobre verdade e sobre objetividade e/ou solidariedade que a fundamentam. Vemos essa maior concretização naquilo que Rorty (1993) chamava de “contínuo retecer de uma teia de crenças” que seguem “normas culturais locais”33. Essas teias e normas são produto real de homens reais, onde a produção intelectual mais sofisticada se encontra incluída, mas junto à produção geral de valores, verdades, significados.34 São essas que, conforme correção que fizemos, podem e devem ser estendidas não apenas geográfica, mas também historicamente, formando um sentido maior para o qual os diálogos convergem. Essa extensão histórico-geográfica confere, por sua vez, às conexões, às equivalências e às solidariedades uma coerência que explica grandes conflitos e grandes acordos, de interesses e paixões, que é o que move indivíduos e comunidades de um estágio a outro, ou, dito de outro modo, os coloca em processo de desenvolvimento. 33 Cuja dimensão não é rígida, mas sempre redefinida (podendo incorporar mais e mais estrangeiros), como o nosso próprio conceito de “regional” (ver nota de rodapé 9). 34 Quanto mais ricas forem as teias internas, maior será o diálogo, maiores serão as exigências de compreensão entre grupos e indivíduos e maiores serão as possibilidades de que as “normas culturais” possam ser bastante “racionais” — racionalidade aqui entendida também complexamente, ou seja, não como a racionalidade utilitarista, individualista absolutizadora de uma natureza humana abstrata e inconsistente. Veremos mais sobre isso adiante. Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 643-670, 2008 660 Glaucia Campregher Fica evidente, nessa compreensão, que: (a) as motivações socioeconômicas-culturais-políticas-ideológicas são apenas “apelidos científicos” dados às relações concretas entre os sujeitos humanos (e que chamamos acima de conexões, equivalências, solidariedades); (b) além de inseparáveis, nenhuma dessas manifestações pode ser dada como exterior ao corpo principal da análise;35 e (c) internas que são, são elas que explicam, em suas imbricações mesmo, os processos de desenvolvimento dos grupos humanos.36 Dito isso, podemos seguir adiante com uma das reflexões precursoras nessa metodologia de construção de uma totalidade real no pensamento econômico (o que implica transcendê-lo de fato), que ousou justamente explicar os processos concretos de desenvolvimento em sua especificidade, levando em conta a unidade das dimensões que expusemos acima. Falamos aqui de Albert Hirschman37, para quem o importante é captar e apreender (em si mesmas e correlacionadas) as manifestações dos fenômenos inerentes ao processo de desenvolvimento capitalista nas situações específicas em que esse ocorre, ou seja, num determinado tempo e lugar. Mas há que se destacar que essas situações são menos rigidamente “estruturadas que estruturantes”, para falar como Bourdieu (1990), ou seja, esses processos têm sujeitos cujos compor- 35 Por exemplo, supondo-se uma racionalidade hedonista, utilitarista, econômica básica, tudo o mais (todo o real e concreto, portanto), o comportamento moral, cultural, etc. pode até ser levado em consideração, mas de modo ad hoc (ora reduzido à curiosidade histórica, ora reduzido a um comportamento igualmente “econômico racional”, mas aplicado a outros objetos de escolha individual). Esclarecedor a respeito é o Manual de Economia Política de Vilfredo Pareto (Pareto, 1984), ou, ainda, as reflexões recentes sobre ação coletiva, onde esse mesmo individualismo metodológico faz exatamente o que dissemos acima. 36 É importante que se diga que isso implica uma crítica às análises marxistas também. Acreditamos que o marxismo perdeu de vista dois importantes “objetos”: o indivíduo (suas ações, motivações, etc.) e os processos específicos de sociedades concretas. Fosse a pobre literatura comunista oficial (que impunha um etapismo mecanicista a todo e qualquer processo de desenvolvimento), fossem as sofisticadas análises filosóficas (como vimos ser o caso dos frankfurtianos), em ambos, deixou-se de lado o modo específico como indivíduos e sociedades, de fora do eixo central da produção capitalista, absorviam aquelas produções, deixavam-se influenciar e ousavam reagir. Felizmente, entre aqueles que redescobriram o particular (geógrafos como David Harvey (1993; 2004)), estão muitos marxistas que não caem no particularismo, chegando, pelo particular, às conexões sistêmicas mais complexas e globais. Na mesma linha, quer parecer-nos que existem outros tantos aportes analíticos (oriundos da Geografia, da Antropologia, da Sociologia, da Ciência Política, da Economia, etc.) que se nomeiam marxistas justamente pelo apego à totalidade das suas análises — material e historicamente determinadas (como é o caso, entre nós, de Milton Santos e sua nova Teoria do Espaço (Santos, 1978)). 37 Referenciamos fundamentalmente as obras de Hirschman (1961; 1965; 1976; 1981). Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 643-670, 2008 Elementos metodológicos necessários a uma teoria totalizante do desenvolvimento, ou... 661 tamentos, decisões e estratégias são fundamentais e ainda comportam incoerências e contradições.38 Justamente por isso é que a concepção hirschmaniana do desenvolvimento implica: (a) uma recusa dos modelos clássicos de desenvolvimento e de suas leituras reducionistas (que, nas versões marxista ou neoclássica, eram, igualmente, positivistas e etapistas); (b) a substituição da visão de mundo calcada no paradigma da “mão invisível” pela da “mão ocultadora” (onde o mercado abstrato é substituído pelo mundo das estratégias e dos interesses concretos); (c) uma recusa da formalização em geral, mas também em particular, da limitação às variáveis econômicas dos fenômenos dignos de observação atuantes no processo do desenvolvimento; (d) uma crítica ao paradigma da escolha racional e ao individualismo metodológico a esse subjacente, presentes na Economia, na Sociologia e na Ciência Política (hoje organizadas todas em torno da public choice); (e) e, enfim, uma opção pela história concreta e pelos conflitos e desequilíbrios que a caracterizam, que fazem com que suas análises sobre os potenciais dinâmicos dos investimentos (ou dos encadeamentos ou concatenações temporais e espaciais), da “estranheza tecnológica”, das funcionalidades dos processos inflacionários, dos procedimentos de saída, permanência e lealdade das organizações (dentre outras tantas teorizações do autor) sejam sempre referências-padrão (mas nada rígidas) para o entendimento dos processos específicos de desenvolvimento que couberam a ele, mais que explicar, participar.39 Esses conceitos e/ou posicionamentos de Hirschman caracterizam o holismo de suas análises, onde [...] não [contam] as variáveis macroeconômicas, mas os desequilíbrios existentes na sociedade e a forma pela qual esses desequilíbrios operam para energizar a ação humana numa determinada direção. As forças do desenvolvimento não são aquelas identificadas, pela abordagem lógica positivista, na teoria “monoeconômica” (Wilber; Francis, 1988, p. 335). 38 Ver Bourdieu (1990). A crítica desse autor ao estruturalismo destaca justamente a necessidade de superar a convicção de que as ações dos sujeitos no interior das estruturas conformam uma única lógica subjacente, racional, que se expressaria no conjunto das práticas culturais de uma mesma sociedade. 39 Mais que um exelente resumo das idéias principais de Hirschman, remetemos o leitor para o livro de Foxley, McPearson e O’Donnell (1988), para ver como muitas delas floresceram e ajudaram a formar, mesmo sem ter feito uma escola (o que seria mesmo difícil no caso de um “holista” como Hirschman), importantes pensadores-atuadores nos processos de desenvolvimento de diferentes países e regiões. Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 643-670, 2008 662 Glaucia Campregher Mas o projeto hirschmaniano não consiste apenas em alargar ou transcender o economicismo, nem em organizar, ao modo do estruturalismo, as várias dimensões do processo de desenvolvimento. O estruturalismo dialético40 de Hirschman, além de superar o raciocínio monoeconômico, supera também o estruturalismo tradicional, onde a descoberta de uma lógica que organize as relações, os interesses e as produções que estruturam o todo, via de regra, não permite a percepção de contradições entre essas relações que minam e transformam esse todo. Dito de outro modo, o projeto hirschmaniano comporta uma análise (o “micromarxismo”41) de ações dos indivíduos, dos grupos, das empresas e dos governos pouco teorizada antes dele e absolutamente necessária nos dias de hoje, mesmo àqueles pesquisadores que já têm na totalidade uma categoria relevante — como muitos teóricos do desenvolvimento regional —, mas cujos conjuntos de variáveis se casam sem que estas estejam suficientemente hierarquizadas, ou sem que a primazia das ações e decisões dos indivíduos organizem cada totalidade determinada.42 Assim é que uma das fundamentais contribuições do nosso autor é a crítica ao modo utilitarista-hedonista de pensar o indivíduo, que o transforma, como diz Sen, num quase “idiota social” (social moron) “alojado na glória de sua ordenação única de preferências” (apud Bianchi; Muramatsu, 2005). Ao criticarem a psicologia da “escolha empobrecida” que está por trás da teoria tradicional, Sen e Hirschman trabalham com metaordenações (metarankings), ou metapreferências, que só poderiam explicar a possibilidade de compromissos genuínos se os sujeitos se dispusessem a agir segundo uma construção comum de prioridades políticas, de um sistema de ordenações de interesses de classe, de empresas, etc. 40 Onde, diferentemente do estruturalismo tradicional, as estruturas não comportam totalidades fechadas sem uma dinâmica que explique justamente a passagem de uma estrutura a outra, mas onde essa passagem é visada prioritariamente. Ver Campregher (2002, cap. 2 e 3, primeira parte). 41 Quando chamávamos atenção, no início do texto, para a totalidade ideal de um certo marxismo — o dos frankfurtianos —, falávamos de uma contraposição a esse micromarxismo de Hirschman. O macromarxismo, então, cuja preocupação com os importantes macrofenômenos da alienação, da reificação, da produção e da gestão do poder — que efetivamente se dá muito mais no centro mais dinâmico do sistema —, acabou por fazer uma teorização muito abstrata. 42 Como comentamos anteriormente, estamos carentes, ainda hoje, de uma concepção teórica mais geral que integre o individual e o social, para que as “conexões, equivalências e solidariedades” possam ser tomadas, em suas formas específicas, nas diferentes dimensões tempo-espaço. Mas essa carência já vem sendo respondida por muitas disciplinas científicas fora da Economia (Psicologia, Antropologia, Geografia, História, Sociologia, Lingüística e outras) ou a ela referidas (Antropologia Econômica, Bioeconomia, Psicologia Econômica, por exemplo), de tal modo que muitos são os que estão envolvidos na tarefa de construir uma nova noção de racionalidade — mais real, menos mítica e inútil —, partindo da interação indivíduo-sociedade, e ainda a sua mediação pelas instituições. Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 643-670, 2008 Elementos metodológicos necessários a uma teoria totalizante do desenvolvimento, ou... 663 Nesses vários contextos, a noção de metaordenações ajuda a reconstituir a complexidade da escolha individual, que abriga instâncias em que as razões que levam a pessoa a agir não podem ser reduzidas ao denominador comum da utilidade. (Bianchi; Muramatsu, 2005, p. 35). Tem-se, então, numa mesma proposta, uma superação da totalidade ideal — que impossibilita, por exemplo, o marxismo de enxergar nos microinteresses do mundo real opções para a ação social;43 uma superação da escola da escolha racional —, que impossibilita o individualismo metodológico de enxergar a ação social em si mesma,44 e o estruturalismo tradicional, o mesmo criticado por Bourdieu (1990), para quem, uma vez estabelecida a lógica de articulação de relações e interesses, esta não comporta contradição, ou mudança. Justamente por isso, as análises de Hirschman recuperam o Estado não apenas como palco, mas como agente privilegiado de decisões estratégicas para o desenvolvimento. Mas também são agentes a grande empresa e, ainda, todo um universo de atores, organizações e instituições que compõem um contexto ou ambiente onde acontece a interação de uma pluralidade de decisões cruciais. Aliás, a importância do Estado está em que seria ele um agente e um locus privilegiado para avaliar e realizar a síntese das inúmeras cadeias de reações provocadas pelas múltiplas decisões. Uma consideração final, ou para onde aponta a reflexão totalizante sobre o desenvolvimento regional O texto que ora apresentamos é apenas uma primeira aproximação ao tema do desenvolvimento regional e de suas teorias e práticas na atualidade.45 43 Resultando, então, em “inação”, pois seus sujeitos estão irremediavelmente presos entre o ideal da classe consciente de si e a inconsciência agravada pela colonização do mundo pela dominação cultural. 44 Mesmo em sua versão mais atual — a escola da public choice —, não vê sequer a possibilidade de uma ação social movida por interesses mais complexos. Tende-se a opor interesses sociais abstratos e inexistentes a interesses individuais concretos, porque são passíveis de medição — ordenação de preferências. “A ação coletiva só ocorre, portanto, como subproduto da busca por bens privados, através da oferta de incentivos seletivos ou pela ação de political entrepreneurs — para os quais existem outros bens privados a serem desfrutados para além do bem público” (Bianchi; Muramatsu, 2005, p. 35). De fato, trata-se da parte que nos coube, até aqui, numa pesquisa maior acerca dos determinantes do desenvolvimento regional de uma territorialidade específica (a região nordeste do Rio Grande do Sul), que está apenas começando. 45 Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 643-670, 2008 664 Glaucia Campregher Ocorre que as nossas primeiras leituras das novas teorias econômicas do “desenvolvimento endógeno”, as leituras dos “novos institucionalistas”, da “nova Antropologia Econômica”, dentre outras novas e bem-vindas contribuições de diferentes disciplinas (Ciência Política, Antropologia, Geografia, História, Sociologia), nos deixaram perplexamente felizes acerca do seu ponto de partida metodológico comum: o apreço à totalidade. Ficamos felizes, ainda, por ver que autores mais antigos (respeitados, mas jamais fundadores de escolas, como Hirschman) são recuperados, e suas reflexões totalizantes, mais intuitivas que justificadas, passam a exigir continuação. Entre essas primeiras leituras e a pesquisa voltada à compreensão de determinados processos de desenvolvimento regional, haverá, certamente, a obrigatoriedade de um sem-número de leituras outras. Contudo a reflexão metodológica (quase filosófica, com o perdão dos filósofos de fato) que fizemos aqui já nos permite apontar algumas questões. Assim é que podemos dizer que a reflexão totalizante sobre o desenvolvimento regional indica, ao nosso ver, a retomada da ação política dirigida para promovê-lo. Mas uma retomada distinta daquela do dirigismo característico de uma determinada intervenção do Estado sobre os processos de desenvolvimento nacionais (com tudo que esta teve de bom e ruim) do passado recente. Indica também a superação do discurso neoliberal e ainda contribui para a superação do modelo científico baseado nas escolhas racionais e individuais que o sustentam. Vejamos por que, aplicando um pouco do método que vimos explicando até aqui. O tema do “desenvolvimento” na sua forma mais simples — de melhorarmos de vida, ou não — é crucial na história da humanidade. Isto porque revolta a todo e qualquer ser mortal (consciente disso) o poder morrer igual! Assim, todos estamos engajados num ou noutro “projeto de desenvolvimento” maior, pois podemos melhorar de vida ao longo de uma vida, ou podemos melhorar a vida dos que nos sucederão, ou podemos melhorar a vida dos que estão muito mal. E quer parecer-nos que, antes de qualquer tratamento filosófico-científico da questão, já sabíamos que não optamos pessoalmente ou independentemente dos demais e também que a compatibilidade desses projetos entre si é problemática. Justo por isso, esse tema “demasiado humano” se impõe, primeiro, à Filosofia, e, depois, a cada uma de todas as ciências que os homens inventaram. Mas mais que qualquer outro, ele opõe diferentes ciências, diferentes correntes de uma mesma ciência, diferentes pensadores de uma mesma corrente. E arriscamos dizer que é assim, porque se trata de uma reflexão cujo convite à ação é inequívoco. Mesmo às ideologias dominantes — a quem interessa inibir certas ações mais aguerridas —, interessadas em forçar um determinado desenvolvimento, não basta difundir idéias de aceitação, acomodação, mas, sim, promover algum outro tipo de desenvolvimento que melhor lhes convenha. Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 643-670, 2008 Elementos metodológicos necessários a uma teoria totalizante do desenvolvimento, ou... 665 Sabemos que o projeto de desenvolvimento maior da ideologia burguesa tem sido, desde sempre, o projeto de desenvolvimento pessoal — associado à justificativa de que “O melhor para cada um é o melhor para todos”. Ou seja, ele não se quer, a princípio, totalizante. Não requer nenhuma agregação primária; ele não é local, regional ou nacional, nem é social, psíquico ou político. Mas a base desse projeto ideológico-científico — o assim chamado “individualismo metodológico” por trás de diversos edifícios teóricos (da Economia, da Sociologia e da Ciência Política) — não se sustentou até aqui por aquilo que ele permite à construção desses edifícios (sua coerência interna, a elegância de seus modelos, enfim, os procedimentos teóricos todos que aquela lógica da escolha, empobrecida, como diria Sen (1982), permite), mas pela emulação social que ela sustenta fora daquelas teorias.46 A emergência do velho pensamento institucionalista (o dos fundadores da sociologia européia e da economia institucionalista norte-americana)47 já era uma explicitação da importância do pano de fundo histórico tecido pelas relações de solidariedade entre os indivíduos que construíam mediações (as instituições), para lhes fornecer uma base mais sólida para a ação coletiva. Mas principalmente as contribuições do novo institucionalismo (advindas da Sociologia, da História, da Ciência Política e da Economia) têm conseguido ir muito mais fundo (inclusive na pesquisa empírica, como o mostra Putnann (1997) para o caso da Itália) na compreensão do conjunto de elementos que perfazem a totalidade concreta do desenvolvimento de determinadas regiões, totalidade esta fundada na solidariedade objetiva e intersubjetiva, produtora de consenso e conflito, de estabilidade e desequilíbrio entre sujeitos sociais que produzem as suas vidas concretas (através da produção de coisas, valores, relações, símbolos, instituições) num determinado tempo e lugar. O que queremos dizer é que as novas teorias do desenvolvimento regional, mais centradas nos aspectos sociopolíticos-culturais-institucionais que marcam (limitam, mas também induzem) as escolhas dos indivíduos em função mesmo de suas relações com seus conterrâneos e contemporâneos, explicam, dentre outras coisas, o próprio sucesso do paradigma da escolha individual naqueles espaços onde as relações de solidariedade locais trabalharam no sentido da criação de toda uma institucionalidade reforçadora do indivíduo. Mas justamente 46 Como mostra, para citar apenas um exemplo (o melhor, sem dúvida), a tese weberiana clássica da relação entre o protestantismo e o espírito capitalista. 47 Com destaque para o europeu, que procurou as fontes do sucesso da democracia norte-americana e encontrou as 1.000 formas de associações civis por trás daquele sucesso institucional — Toqueville. Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 643-670, 2008 666 Glaucia Campregher o grande equívoco desse paradigma-ideologia é separá-lo das suas condições (sociais, históricas) de produção, o que equivaleria a colocar no lugar da totalidade real das formas de solidariedade a totalidade ideal (e perversamente interessada), abstrata e, no limite, falsa de um grupo que se arvora em falar em nome de todos.48 Mas outras tantas explicações de outros tantos processos, sucessos e insucessos, de histórias de desenvolvimento de comunidades e sociedades inteiras estão ao alcance dessas novas teorias do desenvolvimento regional, que são, em si mesmas, resultados de totalizações de métodos e de objetos de análise. Tais explicações são muito mais suficientes, muito mais adequadas (uma vez que não se trata de uma adequação ad hoc, forçada desde fora, mas da reconstituição dos princípios explicativos a diferentes realidades) do que as teorizações parciais (e um tanto impostas de fora e de cima) de antes. Como diz Jair do Amaral (Amaral Filho, 2001), no centro do que há de novo nos novos paradigmas do desenvolvimento endógeno está a refutação do indeterminismo (ou do excesso de determinismo), seja ele de Estado (planejamento centralizado), seja ele de mercado (o sistema de preços sendo o único sistema de informação e coordenação), e, no lugar destes, a história das relações de solidariedade, o comportamento atual dos agentes sociais,49 a recuperação das noções de intertemporalidade e irreversibilidade. Isso nos faz lembrar novamente do “modelo” de Albert Hirschman, tão bem caracterizado por Wilber e Francis (1988) como holístico, sistêmico e evolutivo; ou, mais detalhadamente, A metodologia de Hirschman é holística porque tem como foco primário as relações entre as partes de um sistema e o todo. É sistêmica porque aquelas partes constituem um todo coerente e podem ser entendidas, tão-somente, nos termos do todo. É evolutiva porque as mudanças do padrão de relações são vistas como a própria essência da realidade social. Há uma interconexão entre os elementos que formam o sistema econômico e o contexto social e político em que esses elementos funcionam (Wilber; Francis, 1988, p. 337). Enfim, a reflexão totalizante acerca do desenvolvimento regional aponta a compreensão de nossas realidades particulares dentro do contexto maior da história (que herdamos e que fazemos), das nossas relações no espaço geográfico mais vasto e mais restrito, das nossas ações individuais e coletivas, das paixões 48 Quase uma metáfora ilustrativa desse ponto seria a intervenção, ou melhor, a justificativa da intervenção norte-americana no Iraque, hoje. 49 O que significa que as motivações e os comportamentos individuais não ficam de fora da análise, o que faz com que muitos chamem o novo método de “holindividualismo” (Defalvard apud Théret, 2003). Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 643-670, 2008 Elementos metodológicos necessários a uma teoria totalizante do desenvolvimento, ou... 667 e dos interesses que nos motivam e nos limitam e que são nossos, mas também dos nossos tempo e lugar. Mas essa reflexão não está pronta. Está sendo feita por uma série de estudiosos em diferentes países e regiões e, aqui entre nós, está ainda por ser feita. E se recém nos armamos desses desenvolvimentos teóricos relativamente recentes (dos anos 90 para cá), eles sinalizam problemas que são muito antigos e estão arraigados em comportamentos, valores e instituições, o que não significa que não devam ser atacados na sua totalidade, o quanto antes e “de dentro”. Referências ADORNO, T. Educação e emancipação. São Paulo: Paz & Terra, 1995. ADORNO, T. Sobre a Lógica das Ciências Sociais. In: Theodor W. Adorno. São Paulo: Ática, 1986. p. 46-61 (Grandes Cientistas Sociais). ADORNO, T.; HORKHEIMER, M. Conceito de iluminismo. In: BENJAMIN, W. et al. Textos escolhidos. São Paulo: Abril Cultural, 1980. ADORNO, T.; HORKHEIMER, M. Dialética do esclarecimento. Rio de Janeiro: Zahar, 1991. AMARAL FILHO, J. A endogeneização e os novos paradigmas de desenvolvimento regional e local. Conjuntura & Planejamento, Bahia, n. 84, 2001. 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Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 643-670, 2008 670 Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 643-670, 2008 Glaucia Campregher Crescimento econômico e convergência com a utilização de regressões quantílicas:... 671 Crescimento econômico e convergência com a utilização de regressões quantílicas: um estudo para os municípios do Rio Grande do Sul — 1970-01* Cristiano Aguiar de Oliveira** Doutorando na Universidade Federal do Rio Grande do Sul Professor da Universidade Federal de Alagoas Bacharel em Economia pela Universidade de Passo Fundo Paulo de Andrade Jacinto*** Priscila Albina Grolli**** Resumo Neste artigo, estuda-se o crescimento econômico dos municípios do Estado do Rio Grande do Sul no período 1970-01. Para esse fim, uma nova metodologia empírica é proposta: a utilização de regressões quantílicas. No texto, os resultados são comparados aos obtidos pela metodologia tradicional de estimação por Mínimos Quadrados Ordinários (MQO), e diferenças significativas são encontradas. As hipóteses de convergências absoluta e condicional são testadas. Os resultados alcançados mostram a existência de convergência absoluta no período estudado, na maioria dos quantis, entretanto essas taxas de convergência mostram-se diferentes ao longo da distribuição condicional. Nas regressões de convergência condicional, outras variáveis explicativas teóricas são incorporadas. Também são discutidos os papéis de externalidades positivas e negativas, governo e potencial de mercado no crescimento econômico dos municípios do Estado. * Artigo recebido em abr. 2007 e aceito para publicação em ago. 2007. ** E-mail: [email protected] *** E-mail: [email protected] **** E-mail: [email protected] Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 671-700, 2008 672 Cristiano Aguiar de Oliveira; Paulo de Andrade Jacinto; Priscila Albina Grolli Palavras-chave Cidades; crescimento econômico; regressão quantílica. Abstract This paper studies the economic growth of the Rio Grande do Sul municipalities in the period from 1970 to 2001. For this goal, a new empirical methodology is proposed: the use of quantile regressions. In the paper, the obtained results are compared with ordinary least squares (OLS) estimations and significant differences are found. The hypotheses of absolute convergence and conditional are tested. The results showed the existence of absolute convergence in the period studied in most of the quantiles, however, these convergence taxes showed to be different along the conditional distribution. In the conditional convergence regressions other theoretical explanatory variables are incorporated. In the paper, the role of positive and negative externalities, government and market potential in the economic growth of the State's municipalities are discussed. Key words Cities; economic growth; quantile regression. Classificação JEL: O18, O47, R11, R23. 1 Introdução Não é recente o interesse acadêmico pelos temas crescimento econômico e desigualdades regionais no Estado do Rio Grande do Sul. Esse interesse pode ser justificado pelo fato de que apenas três regiões do Estado — Serra, Região Metropolitana de Porto Alegre (RMPA) e Vale do Rio dos Sinos — concentram a metade do PIB estadual, 64% da produção industrial, 48% do setor serviços e 42% da população em apenas 5,24% da área do Estado (Oliveira, 2005a). Nesse contexto de desigualdades regionais, pode-se afirmar que existe uma larga tradição de trabalhos sobre o tema, que certamente tomaram um novo impulso com o surgimento das novas teorias do crescimento econômico e com sua discussão a respeito da possibilidade de haver, ou não, convergência de taxas Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 671-700, 2008 Crescimento econômico e convergência com a utilização de regressões quantílicas:... 673 de crescimento para países, estados e municípios. Muitos são os trabalhos empíricos que seguem a metodotologia proposta para estudar a convergência apresentada no trabalho precursor de Baumol (1985), aperfeiçoado posteriormente por Barro e Sala-i-Martin (1992) e Mankiw, Romer e Weil (1992).1 Porém Barro (1990; 1997) faz, em seus trabalhos, uma investigação empírica mais completa sobre os fatores que determinam o crescimento econômico de países. Para o Rio Grande do Sul, os trabalhos empíricos de Marquetti e Ribeiro (2002), Alonso (2003), Monasterio e Ávila (2004), Alonso e Amaral (2005), Marquetti, Berni e Marques (2005), dentre outros, abordam o tema. Entretanto a aplicação em municípios de uma metodologia desenvolvida para países merece algumas ressalvas do ponto de vista tanto teórico quanto empírico. Se, por um lado, municípios de um mesmo estado apresentam características semelhantes, pois possuem a mesma política econômica, compartilham de algumas instituições, possuem atividades econômicas afins, etc., por outro, fatores como mobilidade de capitais e de mão-de-obra permitem a aglomeração de atividades em alguns municípios desse estado, em detrimento de outros. Por esses motivos, não é incomum a existência de grandes desigualdades dentro de um mesmo estado. Essas contribuições, trazidas pelos modelos da Nova Geografia Econômica (NGE), se diferenciam em relação aos modelos das novas teorias do crescimento econômico, por considerarem dois aspectos fundamentais na explicação das desigualdades entre as regiões: o espaço, que tem implicações diretas na localização das atividades, e as distâncias e suas implicações nos custos de transporte de bens e serviços e, conseqüentemente, na competitividade das regiões na atração de atividades. Portanto, estudos sobre o crescimento econômico de municípios devem considerar esses aspectos, o que, do ponto de vista empírico, significa que diferentes variáveis explicativas devem ser incluídas. Além desses problemas de fundamentação teórica, a utilização de bases de dados municipais pode gerar alguns problemas para as estimações de modelos econométricos de crescimento econômico por Mínimos Quadrados Ordinários (MQO). Em primeiro lugar, esses trabalhos normalmente possuem um grande número de unidades que são pouco homogêneas, o que, do ponto de vista empírico, pode implicar problemas de heteroscedasticidade e de presença de observações discrepantes (outliers). Esses problemas, quando ignorados na utilização do modelo econométrico tradicional de MQO, podem gerar outros, que afetam a eficiência e a consistência dos estimadores. Em segundo lugar, a utilização de MQO para a identificação da existência, ou não, de convergência 1 Ver Sala-i-Martin (2000) para uma revisão da literatura internacional. Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 671-700, 2008 674 Cristiano Aguiar de Oliveira; Paulo de Andrade Jacinto; Priscila Albina Grolli nas taxas de crescimento não permite a identificação de clubes de convergência, pois a velocidade de convergência obtida na estimação é uma taxa média. Esse problema fica mais evidente, quando outras variáveis explicativas são acrescentadas aos modelos econométricos de crescimento, pois é pouco verossímil que o impacto dessas variáveis seja o mesmo em toda a distribuição. Ou seja, é muito improvável que um acréscimo de capital humano tenha o mesmo efeito em uma economia que está em um estágio avançado de desenvolvimento e em outra muito atrasada. Em terceiro lugar, Quah (1993) e Bernard e Durlauf (1996) chamam atenção para o problema que ficou conhecido como a "falácia de Galton". Os autores mostram que uma relação negativa entre a taxa de crescimento econômico média e a renda inicial não implica a convergência da distribuição da renda. Visando superar os problemas apresentados, neste artigo, acrescentam-se algumas variáveis explicativas, sugeridas pela NGE, ao modelo econométrico de crescimento econômico. Além disso, propõe-se uma metodologia alternativa ao método de MQO para estimar esse modelo, a regressão quantílica.2 Os objetivos deste trabalho são investigar algumas variáveis que podem explicar o crescimento econômico desses municípios e verificar a existência de convergências absoluta e condicional nos municípios gaúchos, no período 1970-01. Os resultados alcançados são comparados com os obtidos por MQO. Assim, além desta breve Introdução, o artigo apresenta mais três seções. Na próxima, é feita uma revisão dos conceitos de convergências absoluta e condicional e de sua implementação empírica, são discutidas as limitações do método de MQO, e realiza-se uma breve introdução à metodologia de regressões quantílicas. Na seção 3, são apresentados os dados utilizados, os resultados obtidos, bem como a análise dos mesmos. Ao final, na seção 4, encontram-se as principais conclusões do trabalho. 2 Metodologias para a estimação de convergências absoluta e condicional Segundo Sala-i-Martin (2000), um aspecto importante a ser estudado é a rapidez com que a economia evolui durante o processo de transição para o estado estacionário. Esse processo, no modelo neoclássico de Solow, é 2 Os precursores da utilização de regressões quantílicas em modelos de crescimento econômico são os trabalhos de Melo e Novo (2003) e Andrade et al. (2002). Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 671-700, 2008 Crescimento econômico e convergência com a utilização de regressões quantílicas:... 675 representado pelo conceito de β -convergência. Dessa forma, esta passou a representar a velocidade do processo de transição e uma forma de identificar a possibilidade de haver convergência, ou não, ou seja, se economias mais pobres crescem a taxas maiores que economias mais ricas. Seguindo o modelo neoclássico de Solow, a velocidade de convergência ( β ) é definida como a mudança da taxa de crescimento, quando o produto per capita muda, e pode ser estimada pelo seguinte modelo econométrico: y 1 log it = α1 + α 2 log yi 0 + θ ' X i 0 + ε i 0 ,t T yi 0 (1) Onde yit e yi0 representam, respectivamente, o produto per capita da economia i no período final T e no período inicial 0. Esse modelo pressupõe as implicações do modelo de Solow, que mostra que a taxa de crescimento é decrescente com o tamanho do produto. Isso significa dizer que economias mais próximas do estado estacionário tendem a crescer menos. Como as economias se diferenciam umas das outras pelo estoque de capital por trabalhador, o crescimento econômico será maior nas economias com menor estoque de capital por trabalhador, ou seja, nas economias mais pobres. Dado que a taxa de crescimento da renda per capita é proporcional à taxa de crescimento do capital per capita e que a única diferença entre as economias está em seus estoques de capital iniciais e nas rendas iniciais, isso mostra que há uma relação negativa entre a renda inicial e sua taxa de crescimento. Essa relação é conhecida como a "hipótese de convergência absoluta". No modelo, quanto maior for seu ß estimado, maisβrápido ocorrerá o processo de convergência. As novas teorias do crescimento econômico abriram uma nova possibilidade para a análise dos processos de convergência, com a possibilidade de não haver convergência absoluta, mas apenas uma convergência condicional. Nesse caso, cada economia teria seus próprios parâmetros, o que implica que cada economia apresentaria um estado estacionário próprio. Dessa forma, haveria convergência condicional no sentido de que as economias tenderiam a crescer mais rapidamente quanto maior fosse sua distância em relação ao estado estacionário, desde que possuíssem parâmetros idênticos. Assim, como não há uma convergência absoluta tal como a esperada pela equação (1), esta última pode ser remodelada da seguinte forma: y 1 log it = α1 + α 2 log yi 0 + θ ' X i 0 + ε i 0 ,t T yi 0 (2) Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 671-700, 2008 Cristiano Aguiar de Oliveira; Paulo de Andrade Jacinto; Priscila Albina Grolli 676 Onde α 2 = (1 − e ) , e Xi0 representa um vetor de variáveis explicativas T (de controle), que mantém constante o estado estacionário das economias. Portanto, nesse modelo, abre-se a possibilidade de acrescentar outras variáveis explicativas ao modelo econométrico de crescimento econômico, as quais irão diferenciar os estados estacionários e, portanto, permitirão apenas a existência de uma "convergência condicional". Nesse caso, deve ser ressaltado que é preciso se ter o cuidado de não incluir variáveis explicativas que não tenham um fundamento econômico teórico que as justifique no modelo. Esse problema, que foi inicialmente identificado por Levine e Reneult (1992), pode gerar resultados espúrios. Os autores mostram que a inclusão e a exclusão de variáveis de controle alteram significativamente os sinais obtidos e, portanto, a direção de seu possível efeito no crescimento econômico. Neste artigo, a escolha das variáveis a serem incluídas no modelo econométrico para o crescimento econômico dos municípios do Rio Grande do Sul é feita à luz das novas teorias do crescimento econômico e das contribuições da NGE. Entretanto vale salientar que a estimação das equações (1) e (2) para municípios por MQO pode gerar problemas que têm a possibilidade de ser sanados com a utilização de regressões quantílicas. Por exemplo, Bernard e Durlauf (1996) mostram que o método de MQO estima uma mesma taxa de convergência para todas as economias, o que certamente é uma hipótese pouco provável e que limita muito as análises que podem ser feitas. Já a utilização de regressão quantílica, ao invés de apresentar apenas um parâmetro estimado, uma média condicional, apresenta um grupo de parâmetros a serem estimados em cada quantil, refletindo um comportamento diferente em cada parte da distribuição condicional. Essa variabilidade dos parâmetros gera um número maior de informações para serem analisadas, o que, de certa forma, enriquece a análise. No modelo a ser estimado de convergência absoluta, representado pela equação (1), é possível a estimação de uma taxa de convergência para cada quantil da distribuição condicional, e, no caso do modelo de convergência condicional, representado pela equação (2), é possível a estimação dos diferentes impactos das variáveis explicativas, nesse caso, chamadas de covariadas. A regressão quantílica também apresenta a solução para outro problema destacado pelos autores, a falácia de Galton. Pois, diferentemente do método de MQO, a regressão quantílica não representa a média da distribuição das observações, uma vez que permite estimar os parâmetros em um intervalo contínuo entre zero e um. Além disso, a regressão quantílica permite lidar melhor com observações discrepantes e problemas de heteroscedastidade, problemas estes comuns no caso de trabalhos com dados municipais. A presença de observações discrepantes pode invalidar a suposição clássica de normalidade dos resíduos, e a presença de heteroscedasticidade pode implicar uma matriz − βt Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 671-700, 2008 Crescimento econômico e convergência com a utilização de regressões quantílicas:... 677 de covariâncias sem a diagonal principal constante. Nesses casos, as estimações por MQO podem ser muito ineficientes. A regressão quantílica, por sua vez, é conhecida pela sua baixa sensibilidade à presença de observações discrepantes e pela robustez de suas estimativas, mesmo quando a distribuição em pouco se assemelha a uma distribuição normal. Dessa forma, esses argumentos reforçam as vantagens da utilização da regressão quantílica em relação ao método de MQO na estimação dos parâmetros que representam a velocidade de convergência e os impactos das variáveis covariadas no crescimento econômico dos municípios do Estado do Rio Grande do Sul. Entretanto outras vantagens da regressão quantílica são destacadas por Koenker e Bassett (1978). Segundo esses autores, a técnica permite caracterizar toda distribuição condicional de uma variável-resposta a partir de um conjunto de regressores. Como se utiliza a distribuição condicional da variável-resposta, é possível estimar os intervalos de confiança dos parâmetros, regressando diretamente nos quantis condicionais desejados; assim, como os erros não possuem uma distribuição normal definida a priori, os estimadores provenientes da regressão podem ser mais eficientes que os estimadores de MQO. Estes últimos são obtidos através de programação linear. O modelo estimado neste artigo segue um modelo de regressão linear, com dados cross-section do tipo: yi = xi' β + ε i , para i=1,...,n e τ [0,1] (3) onde yi é a variável dependente, x'i é uma matriz nxk de variáveis covariadas, β é o vetor kx1 de parâmetros a serem estimados, ε é o erro com uma distribuição, que não necessariamente é conhecida, e τ é o coeficiente do τ-ésimo quantil condicional de y dado x. Assim, a estimação do vetor de parâmetros pela regressão quantílica no intervalo 0 < τ < 1 pode ser obtida fazendo-se a minimização da seguinte função: min β ∈ℜ K [∑ τ y i − x i β + ∑ i∈{i: y < x β } (1 − τ ) y i − x i β i∈{i: y i ≥ x i β } i i ] (4) Essa função-objetivo3 é a soma ponderada dos desvios absolutos, que pode ser interpretada como uma função de penalidade linear assimétrica. Os parâmetros estimados nesse problema de minimização são consistentes e assintoticamente normais sob hipóteses adicionais de regularidade (Buchinsky, 1998). A interpretação dos parâmetros estimados em cada quantil pode ser feita da seguinte maneira: representam o impacto marginal no τ-ésimo quantil 3 A equação (4) também pode ser expressa como: min função check, definida por ρ (θ ) θz, (θ − 1) z , 1 n ∑ ρ (θ )( y − xi β ), em que ρ é uma n i =1 z≥0 , cujas soluções k-dimensionais foram z<0 definidas por Koenker e Basset (1978) como quantis de regressão, denotados por β(θ). Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 671-700, 2008 Cristiano Aguiar de Oliveira; Paulo de Andrade Jacinto; Priscila Albina Grolli 678 condicional, devido a uma mudança no i-ésimo elemento de x. Neste trabalho, serão estimadas as equações (1) e (2), com a utilização dessa metodologia. Na próxima seção, apresentam-se os dados utilizados, os resultados obtidos e suas interpretações. 3 Uma aplicação para os municípios do Rio Grande do Sul no período 1970-01 Como, no período 1970-01, ocorreram várias emancipações, neste estudo, os municípios emancipados foram reagregados a seus municípios de origem. Para esse fim utilizou-se como fonte o Atlas Socioeconômico do Rio Grande do Sul (Rio Grande do Sul, 2007). Aqueles que tinham como origem mais de um município foram incorporados ao mais antigo.4 Assim, os 467 municípios existentes em 2001 foram agregados, a fim de se obterem os 232 existentes em 1970. Foram utilizados dados de várias fontes. O Produto Interno Bruto (PIB) dos municípios foi fornecido pela Fundação de Economia e Estatística (FEE, 2006) e pelo Instituto de Pesquisa em Economia Aplicada (IPEA, 2006). As populações, as densidades demográficas e a escolaridade média dos municípios foram fornecidas pela Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2006), através de dados censitários e de extrapolações feitas pelo mesmo. Os dados referentes à produção industrial municipal (valor adicionado) e do setor público no Produto Interno Bruto do município pertencem ao IPEA (2006). A variável potencial de mercado foi construída a partir da reconhecida contribuição de Harris (1954) à economia regional. A demanda potencial da vizinhança é representada pelo PIB per capita, e este é calculado, para cada município, através da seguinte metodologia: i PM j = ∑ n =1 PIB per capitai 2 di (5) Onde d representa o arco distância do município j em relação aos demais municípios i. Essa variável é acrescentada ao modelo de convergência condicional, representado pela equação (2). Esse modelo, com todas as variáveis covariadas na forma de logaritmos, é estimado da seguinte forma: 4 Essa é uma das maiores dificuldades de se tratar com dados municipais por longos períodos de tempo. O critério é arbitrário, mas, nesses casos, é muito difícil não cometer arbitrariedades, entretanto é importante sempre se utilizarem critérios claros. Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 671-700, 2008 Crescimento econômico e convergência com a utilização de regressões quantílicas:... gyT ,0;i =α1 +α2 yi0 +α3esci0 +α4indi0 +α5 govi0 +α6densi0 +α7 pmi0 + εi0,t 679 (6) Onde gyT,0 representa a taxa de crescimento médio do Produto Interno Bruto per capita do município i, yi0 representa o Produto Interno Bruto per capita no período inicial, esci0 representa a média de anos de estudo das pessoas com mais de 25 anos de idade no período inicial, indi0 representa a participação da indústria no Valor Adicionado Bruto (VAB) no período inicial, govi0 representa a participação dos serviços governamentais no Valor Adicionado Bruto, densi0 representa a densidade demográfica no período inicial, medida em habitantes por km2, e pmi0 representa o potencial de mercado no período inicial. Na Tabela 1, mostra-se uma síntese dos resultados obtidos na estimação dos quantis para os períodos 1970-80, 1970-90 e 1970-01, onde o half-life é definido como a metade do tempo que as economias levam para alcançar a metade da distância até o seu estado estacionário, α2 é o parâmetro estimado na equação (1), que representa o termo (1-e-βt). Através desse parâmetro estimado e de simples manipulação algébrica, é possível obter-se a velocidade da convergência, representada por β. Nos Gráficos 1 a 4, mostram-se os valores estimados nos quantis, no intervalo [0,1], e seus respectivos intervalos de confiança, assim como os resultados obtidos por MQO. No Gráfico 1, mostram-se os resultados obtidos para o período 1970-80. Nesse período, nem todos os resultados são significantes a 10%. Nele, demonstra-se que existe um processo de convergência absoluta pelo menos até o quantil 0,7, ou seja, em 70% dos municípios que menos cresceram no período. A velocidade de convergência representada por β vai diminuindo, e, a partir do quantil 0,75, não se pode afirmar se há, ou não, convergência, pois o intervalo de confiança apresenta valores tanto positivos quanto negativos. No quantil 0,90, não se pode rejeitar a hipótese de o parâmetro ser igual a zero, o que implica um processo de divergência. Portanto, os municípios que apresentaram taxas maiores de crescimento não possuem convergência absoluta. No período 1970-90, todas as variáveis são significantes, como pode ser observado na Tabela 1. No Gráfico 2, mostra-se que a inclusão da década de 80 faz com que a velocidade de convergência não mostre um comportamento decrescente. Pode-se afirmar que há convergência em quase todos os quantis. A exceção deve ser feita ao quantil 0,40, que apresenta, no limite superior do intervalo de confiança, valores positivos. Nesse período, a velocidade de convergência dos maiores e dos menores quantis foi superior à dos quantis intermediários. As maiores velocidades de convergência podem ser observadas no quantil 0,95, ou seja, 5% dos municípios que mais cresceram no período apresentaram maior convergência. Esses apresentam valores que ultrapassam Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 671-700, 2008 Cristiano Aguiar de Oliveira; Paulo de Andrade Jacinto; Priscila Albina Grolli 680 o intervalo de confiança das estimações por MQO, o que pode ser, nesse caso, um forte indício de viés nas estimações por MQO. Tabela 1 Resultados das regressões de convergência absoluta para os municípios do Rio Grande do Sul — 1970-01 PERÍODOS E QUANTIS α2 ERRO-PADRÃO BETA HALF-LIFE PSEUDO R2 1970-80 10 0,2169 0,0558 0,0106 65,2812 0,0680 25 0,2642 0,0700 0,0133 52,0129 0,0416 50 0,1570 0,0664 0,0074 93,4658 0,0318 75 (1) 0,1235 0,0641 0,0057 121,0310 0,0257 90 (1) 0,0337 0,1167 0,0015 465,9860 0,0006 10 0,2611 0,0666 0,0066 105,4980 0,0691 25 0,2061 0,0481 0,0050 138,2920 0,0522 50 0,1688 0,0629 0,0040 172,6510 0,0244 75 0,1660 0,0483 0,0039 175,8860 0,0350 90 0,2859 0,1374 0,0073 94,8086 0,0607 10 0,7861 0,1094 0,0216 32,0779 0,2724 25 0,7032 0,0887 0,0170 40,7306 0,2367 50 0,5740 0,0480 0,0120 57,9774 0,1807 75 0,4693 0,0540 0,0089 78,0905 0,1310 90 0,3059 0,1208 0,0051 135,4600 0,0784 1970-90 1970-01 FONTE DOS DADOS BRUTOS: FEE. FONTE DOS DADOS BRUTOS: IBGE. FONTE DOS DADOS BRUTOS: IPEA. (1) Resultados não significativos a 10%. Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 671-700, 2008 -0,04 -0,03 -0,02 -0,01 0 0,00 0,01 0,02 0,03 Beta estimado dos municípios do Rio Grande do Sul — quantis para 1970-80 Beta Beta h - limite superior do intervalo de confiança Beta l - limite inferior do intervalo de confiança Beta MQO Beta MQO h - limite superior do intervalo de confiança Beta MQO l - limite inferior do intervalo de confiança FONTE DOS DADOS BRUTOS: FEE. FONTE DOS DADOS BRUTOS: IBGE. FONTE DOS DADOS BRUTOS: IPEA. Legenda: 0,05 0,1 0,15 0,2 0,25 0,3 0,35 0,4 0,45 0,5 0,55 0,6 0,65 0,7 0,75 0,8 0,85 0,9 0,95 Convergência Gráfico 1 Quantis Crescimento econômico e convergência com a utilização de regressões quantílicas:... 681 Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 671-700, 2008 Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 671-700, 2008 -0,025 -0,020 -0,02 -0,015 -0,010 -0,01 -0,005 0 0,000 0,005 Beta estimado dos municípios do Rio Grande do Sul — quantis para 1970-90 FONTE DOS DADOS BRUTOS: FEE. FONTE DOS DADOS BRUTOS: IBGE. FONTE DOS DADOS BRUTOS: IPEA. Legenda: Quantis Beta Beta h - limite superior do intervalo de confiança Beta l - limite inferior do intervalo de confiança Beta MQO Beta MQO h - limite superior do intervalo de confiança Beta MQO l - limite inferior do intervalo de confiança 0,05 0,1 0,15 0,2 0,25 0,3 0,35 0,4 0,45 0,5 0,55 0,6 0,65 0,7 0,75 0,8 0,85 0,9 0,95 Convergência Gráfico 2 682 Cristiano Aguiar de Oliveira; Paulo de Andrade Jacinto; Priscila Albina Grolli -0,025 -0,020 -0,02 -0,015 -0,01 -0,010 -0,005 0,0000 Beta estimado dos municípios do Rio Grande do Sul — quantis para 1970-01 FONTE DOS DADOS BRUTOS: FEE. FONTE DOS DADOS BRUTOS: IBGE. FONTE DOS DADOS BRUTOS: IPEA. Legenda: Beta Beta h - limite superior do intervalo de confiança Beta l - limite inferior do intervalo de confiança Beta MQO Beta MQO h - limite superior do intervalo de confiança Beta MQO l - limite inferior do intervalo de confiança 0,05 0,1 0,15 0,2 0,25 0,3 0,35 0,4 0,45 0,5 0,55 0,6 0,65 0,7 0,75 0,8 0,85 0,9 0,95 Convergência Gráfico 3 Quantis Crescimento econômico e convergência com a utilização de regressões quantílicas:... 683 Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 671-700, 2008 Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 671-700, 2008 -0,030 -0,03 -0,025 -0,020 -0,02 -0,015 -0,01 -0,010 -0,005 0 0,000 Beta condicional estimado dos municípios do Rio Grande do Sul — quantis para 1970-01 FONTE DOS DADOS BRUTOS: FEE. FONTE DOS DADOS BRUTOS: IBGE. FONTE DOS DADOS BRUTOS: IPEA. Legenda: Beta Beta h - limite superior do intervalo de confiança Beta l - limite inferior do intervalo de confiança Beta MQO Beta MQO h - limite superior do intervalo de confiança Beta MQO l - limite inferior do intervalo de confiança 0,05 0,1 0,15 0,2 0,25 0,3 0,35 0,4 0,45 0,5 0,55 0,6 0,65 0,7 0,75 0,8 0,85 0,9 0,95 Convergência Gráfico 4 Quantis 684 Cristiano Aguiar de Oliveira; Paulo de Andrade Jacinto; Priscila Albina Grolli Crescimento econômico e convergência com a utilização de regressões quantílicas:... 685 No Gráfico 3, mostra-se que a velocidade de convergência estimada para o intervalo 1970-01 volta a exibir um comportamento decrescente, com o aumento dos quantis. Somente o quantil 0,95 é exceção. Nesse período, os problemas com as estimativas por MQO ficam mais evidentes, pois seus intervalos de confiança são ultrapassados tanto nos quantis mais baixos quanto nos mais altos. As velocidades de convergência estimadas neste artigo, desde os primeiros quantis até o quantil 0,20, são superiores às obtidas por MQO, assim como os valores obtidos no intervalo de quantis compreendido entre o quantil 0,80 e o quantil 0,90 são inferiores aos obtidos por MQO. Ao se compararem os três períodos estudados, é possível inferir que, durante a década de 70, os municípios do Estado do Rio Grande do Sul apresentaram as maiores taxas de convergência, pelo menos até o quantil 0,70, pois, a partir daí os resultados mostraram a existência de divergência no Produto Interno Bruto per capita dos municípios. A inclusão da década de 80 mostrou que houve uma redução significativa nas taxas de convergência até o quantil 0,80, e, a partir do mesmo, houve um aumento da convergência. Vale lembrar que, no período anterior, esses quantis não apresentaram convergência absoluta. O acréscimo da década de 90 mostra uma recuperação das taxas de convergência até o quantil 0,80, e, a partir desse quantil, há uma redução na velocidade de convergência em relação ao período anterior. Herrlein Júnior (2004) mostra que, durante a década de 70, o Rio Grande do Sul apresentou boas taxas de crescimento, uma média de 8,11%. A partir da década de 80, o Estado passou a enfrentar uma estagnação, crescendo a uma taxa média de 1,94%. Ainda nessa década houve uma pequena recuperação, tendo crescido, em média, 2,06%. Comparando esses dados com as taxas de convergência obtidas neste artigo, é possível inferir que, nos períodos em que o Estado apresentou recuperação das taxas de crescimento, a convergência entre os municípios com baixas taxas de crescimento aumentou. Isso implica que o crescimento econômico do Estado é fundamental para a redução das desigualdades regionais, pois, quando isso ocorre, a velocidade de convergência aumenta. Entretanto, nesses períodos, a convergência entre os municípios que mais cresceram diminuiu ou desapareceu. Isso pode ter ocorrido devido a alguns municípios terem aproveitado melhor os períodos de crescimento do Estado e terem obtido taxas de crescimento discrepantes em relação aos demais. Na Tabela 2, mostram-se os resultados da convergência condicional. Esses resultados são mais confiáveis, porque utilizam outras variáveis para explicar o modelo, reduzindo-se, portanto, a possibilidade de haver um erro de especificação do modelo estimado. Na verdade, por mais que se confie no modelo neoclássico de crescimento econômico, fica difícil acreditar que seja possível explicar o crescimento econômico de municípios apenas pelo seu estoque de capital ou Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 671-700, 2008 Cristiano Aguiar de Oliveira; Paulo de Andrade Jacinto; Priscila Albina Grolli 686 pelo produto no período inicial. Isso implica que o modelo de convergência absoluta poderá apresentar algum viés nos seus resultados, caso alguma variável omitida relevante possua uma correlação com alguma variável covariada. A melhora na confiabilidade dos resultados pode ser atestada pela melhora no ajustamento do modelo de convergência condicional, que apresenta aumentos nos valores do obtidos. Os resultados obtidos mostram uma convergência maior em relação à absoluta — deve-se ressaltar, entretanto, que, nesse caso, a convergência é condicionada —, em que municípios diferentes possuem parâmetros distintos e, portanto, estados estacionários distintos. Tabela 2 Resultados das regressões de convergência condicional para os municípios do Rio Grande do Sul — 1970-01 PERÍODOS E QUANTIS 1970-80 10 25 50 75 90 1970-90 10 25 50 75 90 1970-01 10 25 50 75 90 α2 ERRO-PADRÃO BETA HALF-LIFE PSEUDO R2 0,4675 0,5821 0,5081 0,4743 0,4865 0,1521 0,0491 0,0672 0,0916 0,1545 0,0274 0,0379 0,0308 0,0279 0,0289 25,3282 18,2945 22,4952 24,8208 23,9438 0,1617 0,1601 0,1512 0,1746 0,2207 0,4093 0,3731 0,4405 0,5061 0,4629 0,0675 0,0959 0,1123 0,1577 0,1046 0,0114 0,0101 0,0126 0,0153 0,0135 60,6353 68,3677 54,9765 45,2471 51,3616 0,1263 0,0951 0,1060 0,1199 0,0145 0,7337 0,7533 0,7566 0,6567 0,8796 0,0595 0,0794 0,0559 0,1671 0,1127 0,0185 0,0196 0,0198 0,0150 0,0296 37,3893 35,3493 35,0117 46,2784 23,3765 0,4561 0,4027 0,3466 0,2900 0,2488 FONTE DOS DADOS BRUTOS: FEE. FONTE DOS DADOS BRUTOS: IBGE. FONTE DOS DADOS BRUTOS: IPEA. Na Tabela 2, confirmam-se os resultados, comentados anteriormente, de que a convergência piorou na década de 80. Houve uma redução nas velocidades de convergência, em todos os quantis, e, na década de 90, houve um incremento na mesma, em todos os quantis. Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 671-700, 2008 Crescimento econômico e convergência com a utilização de regressões quantílicas:... 687 No Gráfico 4, mostra-se que o comportamento da convergência condicional, no período 1970-01, difere, em alguns aspectos, em relação à convergência absoluta apresentada anteriormente. Em primeiro lugar, não existe mais o comportamento decrescente em relação ao aumento dos quantis. Nesse caso, há uma estabilidade da velocidade de convergência até o quantil 0,80, e, a partir do mesmo, há um incremento nessa velocidade. Isso significa dizer que, quando outros fatores que afetam o crescimento econômico são controlados, a velocidade de convergência dos municípios que mais cresceram é superior à dos que menos cresceram no período. Esse pode ser um indício da formação de um clube de convergência que se distingue dos demais municípios. Outro ponto relevante com relação ao Gráfico 4 é que os valores obtidos estão todos no intervalo de confiança alcançado por MQO e muito próximos ao valor médio, o que, nesse caso, atesta a boa qualidade dos estimadores de MQO. Nos Gráficos 5 a 8, mostra-se o impacto das variáveis covariadas, apresentadas na seção anterior, no crescimento econômico dos municípios do Estado do Rio Grande do Sul, no período 1970-01. Em geral, a maior parte dos resultados é significativa, o que justifica a escolha dessas variáveis5. Somente a variável densidade demográfica mostrou-se insignificante em todos os quantis estimados. Entretanto ela foi mantida no modelo estimado, por tratar-se de uma importante proxi para externalidades negativas. Altas densidades demográficas estão associadas a problemas de congestionamento, poluição e crime. Essas externalidades negativas diminuem a produtividade dos trabalhadores e, por conseqüência, reduzem o crescimento econômico. No Gráfico 5, mostra-se o efeito da industrialização no crescimento econômico. Esse efeito apresenta uma tendência ascendente com o aumento dos quantis, ou seja, a participação industrial foi mais importante nos municípios que mais cresceram no período, sendo essa insignificante para os demais quantis. Esse pode ser um reflexo da concentração da produção industrial, no Estado, em poucos municípios, pois apenas um pequeno grupo se beneficia em termos de crescimento econômico. Os poucos municípios industriais possuem taxas maiores de crescimento, ou seja, estão nos quantis mais altos. Esses municípios se beneficiam da aglomeração de atividades e de externalidades associadas à mesma. Essas externalidades, inicialmente destacadas por Marshall (1890), segundo Romer (1986), podem ser as forças propulsoras do crescimento econômico. Segundo Romer (1986, p. 1003, tradução nossa): "[…] a criação de 5 É claro que essa escolha certamente envolve um problema de disponibilidade de dados, pois são dados referentes a 1970, ano para o qual não existe um grande número de estatísticas em nível municipal. Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 671-700, 2008 688 Cristiano Aguiar de Oliveira; Paulo de Andrade Jacinto; Priscila Albina Grolli um novo conhecimento por uma firma tem um efeito externo positivo nas possibilidades de produção de outras firmas, porque o conhecimento não pode ser perfeitamente patenteado ou mantido em segredo"6. Como esse conheci-mento é adquirido sem que se pague por ele, tem-se, então, a presença de externalidades. Essas, para serem internalizadas, necessitam da proximidade entre as firmas. Assim, a forma mais lógica de fazer isso é reduzindo as distâncias, logo, as atividades aglomeram-se em poucos municípios. Esse raciocínio é corroborado pelo impacto significativo da indústria nos 5% dos municípios que mais cresceram no período, cujos parâmetros estimados são mais do que o dobro daqueles obtidos na média, ou seja, os estimados por MQO. O papel do governo no crescimento econômico é um assunto controverso na teoria econômica. Apesar de suas inegáveis contribuições na provisão de bens públicos e de geração de externalidades positivas, ele financia seus dispêndios através de impostos distorcivos, o que, do ponto de vista teórico, implica um sinal esperado ambíguo. Neste artigo, não é feita uma análise da eficiência dos dispêndios dos governos municipais e dos possíveis níveis de distorção gerados por seus impostos cobrados. O que é avaliado é apenas uma proxi para o tamanho do governo municipal na economia local e seu efeito no crescimento econômico dos municípios7. No Gráfico 6, mostra-se que o tamanho do governo afeta negativamente o crescimento econômico dos municípios em todos os quantis, principalmente nos municípios que apresentaram menores taxas de crescimento. Nesses casos, o efeito negativo é relevante e muito superior ao dos valores estimados por MQO. Esses valores vão-se reduzindo, na medida em que os quantis aumentam até 0,65, quando os efeitos negativos voltam a aumentar. Esses resultados permitem inferir que é necessário ter muita responsabilidade na gestão pública, para que o setor público consiga conter o ímpeto de tentar resolver os problemas do município aumentando a sua participação na economia local, pois os resultados podem ser diferentes dos que os inicialmente esperados, como fica evidente no Gráfico 6. 6 No original: "[...] the creation of new knowledge by one firm is assumed to have a positive external effect on the production possibilities of other firms because knowledge cannot be perfectly patented or kept secret". 7 Para uma análise mais completa sobre o papel do governo local no crescimento econômico dos municípios, ver Oliveira e Marques Júnior (2006). Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 671-700, 2008 -0,6 -0,4 -0,2 0,0 0 0,2 0,4 0,6 0,8 0,15 0,2 0,35 0,4 0,45 0,5 0,55 0,6 0,65 0,7 0,75 0,8 0,85 0,9 0,95 Impacto da industrialização Impacto da industrialização - limite superior do intervalo de confiança Impacto da industrialização - limite inferior do intervalo de confiança Impacto da industrialização por MQO Impacto da industrialização por MQO - limite inferior do intervalo de confiança Impacto da industrialização por MQO - limite superior do intervalo de confiança 0,25 0,3 Impacto da industrialização no crescimento econômico dos municípios do Rio Grande do Sul — quantis para 1970-01 FONTE DOS DADOS BRUTOS: FEE. FONTE DOS DADOS BRUTOS: IBGE. FONTE DOS DADOS BRUTOS: IPEA. Legenda: 0,05 0,1 Coeficiente Gráfico 5 Quantis Crescimento econômico e convergência com a utilização de regressões quantílicas:... 689 Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 671-700, 2008 Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 671-700, 2008 -3 -3,0 -2,5 -2 -2,0 -1,5 -1,0 -1 -0,5 0,00 0,5 Impacto da participação do governo no crescimento econômico dos municípios do Rio Grande do Sul — quantis para 1970-01 Participação do governo Participação do governo - lim ite superior do intervalo de confiança Participação do governo - lim ite inferior do intervalo de confiança Participação do governo por MQO Participação do governo por MQO - limite superior do intervalo de confiança Participação do governo por MQO - limite inferior do intervalo de confiança FONTE DOS DADOS BRUTOS: FEE. FONTE DOS DADOS BRUTOS: IBGE. FONTE DOS DADOS BRUTOS: IPEA. Legenda: Legenda: 0,05 0,1 0,15 0,2 0,25 0,3 0,35 0,4 0,45 0,5 0,55 0,6 0,65 0,7 0,75 0,8 0,85 0,9 0,95 Coeficiente Gráfico 6 Quantis 690 Cristiano Aguiar de Oliveira; Paulo de Andrade Jacinto; Priscila Albina Grolli -0,4 -0,2 0,00 0,2 0,4 0,6 0,8 1,0 1 1,2 0,1 0,15 0,25 Legenda: 0,2 0,3 0,35 0,45 0,5 0,55 0,6 0,65 0,7 0,75 0,8 0,85 0,9 0,95 Quantis Impacto da escolaridade Impacto da escolaridade - limite superior do intervalo de confiança Impacto da escolaridade - limite inferior do intervalo de confiança Impacto da escolaridade por MQO Impacto da escolaridade por MQO - limite superior do intervalo de segurança Impacto da escolaridade por MQO - limite inferior do intervalo de segurança 0,4 Impacto da escolaridade (capital humano) no crescimento econômico dos municípios do Rio Grande do Sul — quantis para 1970-01 FONTE DOS DADOS BRUTOS: FEE. FONTE DOS DADOS BRUTOS: IBGE. FONTE DOS DADOS BRUTOS: IPEA. 0,05 Coeficiente Gráfico 7 Crescimento econômico e convergência com a utilização de regressões quantílicas:... 691 Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 671-700, 2008 -0,0005 0 0,0000 0,0005 0,001 0,0010 0,0015 0,002 0,0020 Impacto do potencial de mercado no crescimento econômico dos municípios do Rio Grande do Sul — quantis para 1970-01 Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 671-700, 2008 Impacto do potencial de mercado Impacto do potencial de mercado - limite superior do intervalo de confiança Impacto do potencial de mercado - limite inferior do intervalo de confiança Impacto do potencial de mercado por MQO Impacto do potencial de mercado por MQO - limite superior do intervalo de confiança Impacto do potencial de mercado por MQO - limite inferior do intervalo de confiança FONTE DOS DADOS BRUTOS: FEE. FONTE DOS DADOS BRUTOS: IBGE. FONTE DOS DADOS BRUTOS: IPEA. Legenda: 0,05 0,1 0,15 0,2 0,25 0,3 0,35 0,4 0,45 0,5 0,55 0,6 0,65 0,7 0,75 0,8 0,85 0,9 0,95 Coeficiente Gráfico 8 Quantis 692 Cristiano Aguiar de Oliveira; Paulo de Andrade Jacinto; Priscila Albina Grolli Crescimento econômico e convergência com a utilização de regressões quantílicas:... 693 No Gráfico 7, destaca-se o papel do capital humano no crescimento econômico das cidades gaúchas, no período. Os municípios que mais cresceram foram aqueles que possuíam a maior escolaridade média em 1970. Esse resultado é encontrado em todos os quantis e reforça as contribuições de Lucas (1988). Segundo o autor, o investimento em capital humano tem dois resultados: o primeiro é a melhora da produtividade dos indivíduos que se educam, e o segundo, e mais importante, é que a economia como um todo se beneficia por ter indivíduos mais educados, pois esses são capazes de gerar inovações que melhorem a produtividade de toda a economia. Essa externalidade e as inovações, segundo Lucas, seriam os "motores" do crescimento econômico. Os argumentos de existência de externalidades no capital humano são perfeitamente plausíveis, pois, provavelmente, várias pessoas já se beneficiaram por trabalhar com colegas mais inteligentes. Se, por um lado, existem dificuldades de medir esse tipo de externalidade positiva, por outro, vários autores concordam que se trata de um fenômeno local, e, portanto, a sua melhor evidência é em municípios. Outro aspecto que deve ser considerado é que municípios com maiores níveis de capital humano atraem investimentos de empresas que utilizam recursos tecnológicos mais avançados. De outro modo, só é possível às empresas estabelecidas adotar novos processos tecnológicos, se houver trabalhadores capacitados a trabalhar com eles. Assim, cidades com baixo capital humano não conseguem acompanhar o processo tecnológico e têm baixo crescimento econômico. Os resultados mostram que, apesar de significativo e positivo, o seu efeito é ambíguo até o quantil 0,10. Isso significa dizer que não se pode garantir a presença de externalidades de conhecimento nos municípios que menos cresceram no período. O efeito positivo é baixo até o quantil 0,60, quando passa a ocorrer um aumento até o quantil 0,90. Nesse caso, talvez seja possível afirmar que esteja ocorrendo o processo descrito acima e que esses municípios foram beneficiados como um maior crescimento econômico, por possuírem maior capital humano. O potencial de mercado representa uma larga tradição da economia regional em explicar o crescimento econômico das regiões e dos municípios considerando os custos de transporte e sua importância para a decisão de localização das empresas e, conseqüentemente, das pessoas. Essas idéias foram originalmente discutidas para a localização de empresas por Weber (1929), nas teorias dos lugares centrais de Christaller (1966) e Losch (1954), na economia espacial de Isard (1956) e, mais recentemente, foram resgatadas pelos trabalhos de Krugman (1991) e Fujita, Krugman e Venables (2002). Vale salientar que, dentro de um mesmo país, há mobilidade de capital e mão-de-obra e que, dentro de um esta- Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 671-700, 2008 694 Cristiano Aguiar de Oliveira; Paulo de Andrade Jacinto; Priscila Albina Grolli do, esses fluxos são potencializados pelas reduções nas distâncias. Portanto, o potencial de mercado é uma boa medida proxi para captar a potencialidade de cada município na atração de novas empresas,8 principalmente no setor serviços. A prestação de serviços tem uma característica peculiar, que é a impossibilidade de transportar o seu produto. Portanto, esse setor, em geral, busca locais com uma demanda potencial suficiente para garantir a sua lucratividade. Essa demanda potencial depende da renda local, mas também da renda de sua vizinhança. Os resultados obtidos, apresentados no Gráfico 8, indicam que o potencial de mercado revelou-se um fator relevante na explicação do crescimento econômico dos municípios gaúchos, o qual foi significativo para todos os quantis. Os maiores valores são encontrados no intervalo compreendido entre 0,35 e 0,80, havendo uma redução nos maiores quantis, entretanto com valores ainda superiores aos obtidos nos quantis mais baixos. Esses resultados significam que possuir um bom mercado local e um bom mercado na vizinhança favorece o crescimento econômico dos municípios. Esse processo de escolha da localização leva à aglomeração das atividades econômicas em poucos municípios que são muito próximos e, conseqüentemente, aumenta o seu potencial de mercado, que atrai mais atividades econômicas, criando um processo em que a aglomeração gera mais aglomeração, em uma espécie de causalidade circular (Fujita; Krugman; Venables, 2002). Segundo os autores, existem forças centrípetas que levam à aglomeração das atividades econômicas, dentre as quais, os custos de transportes são muito relevantes. No Rio Grande do Sul, é possível observar a concentração das atividades econômicas em uma faixa que se estende da RMPA até a Serra, passando pelo Vale do Rio dos Sinos. 4 Considerações finais O principal objetivo deste artigo foi estudar o crescimento econômico dos municípios do Estado do Rio Grande do Sul no período 1970-01. Um objetivo secundário foi verificar a existência de convergência absoluta e/ou condicional, temas já consolidados pela literatura sobre crescimento econômico. Entretanto, neste trabalho, buscou-se incrementar o referencial teórico com a utilização de algumas contribuições da economia regional e da Nova Geografia Econômica. 8 Vale ressaltar que nem sempre o potencial de mercado é a variável mais importante na decisão de localização das empresas, que podem, por exemplo, buscar ficar próximas a uma fonte de matéria-prima que é fixa. Esse seria o caso de empresas de extração mineral por exemplo. Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 671-700, 2008 Crescimento econômico e convergência com a utilização de regressões quantílicas:... 695 Neste estudo, propôs-se uma nova metodologia para estimar modelos de convergência e crescimento econômico, a regressão quantílica. Essa metodologia mostrou-se bastante útil para enriquecer as análises e para suprir algumas deficiências das estimações por MQO. Além de lidar melhor com o problema de heteroscedasticidade e com a presença de observações discrepantes, a regressão quantílica permite estimar diferentes efeitos das variáveis covariadas na variável dependente, possibilitando investigar mais profundamente como essas afetaram o crescimento econômico dos municípios gaúchos no período estudado. Os resultados obtidos mostram a existência de convergência absoluta, no período estudado, na maioria dos quantis. Entretanto essas taxas de convergência revelam-se diferentes ao longo da distribuição condicional. Somente os quantis superiores a 0,75, no período 1970-80 não apresentaram convergência. No entanto, esses mesmos quantis, no mesmo período, tiveram convergência condicional. Esse resultado não surpreende, pois municípios de um mesmo estado possuem características semelhantes e compartilham muitas instituições, o que favorece o processo de convergência. Fica evidenciado, no artigo, o problema de se estimar uma regressão na média, pois vários resultados obtidos nos quantis da distribuição condicional ficaram fora do intervalo de confiança das estimativas por MQO. Esse pode ser um forte indício de viés dos estimadores obtidos por MQO. Os resultados mostram uma convergência maior na condicional em relação à absoluta. Do ponto de vista econométrico, essa diferença nos resultados indica a existência de algum viés nas estimativas de convergência absoluta, devido à presença de um erro na especificação do modelo. Do ponto de vista teórico, esse resultado pode ser explicado pelo fato de que municípios diferentes possuem parâmetros e estados estacionários diferentes, e, por conseqüência, somente irão convergir para o mesmo estado estacionário aqueles municípios que possuem parâmetros semelhantes. Essa é a essência da idéia da formação de clubes de convergência, que a regressão por MQO não consegue identificar. Os resultados obtidos permitem identificar a possível existência da formação de um clube, no Estado, entre os municípios que mais cresceram, conforme foi mostrado no Gráfico 4. Além disso, os resultados demonstram que a convergência diminuiu na década de 80, e, a partir da década de 90, houve um incremento na velocidade de convergência. Por fim, destaca-se, neste trabalho, a importância dos custos de transportes e das externalidades positivas e negativas, fatores sugeridos como determinantes para o crescimento econômico de municípios pela Nova Geografia Econômica. No modelo econométrico de convergência condicional, as variáveis participação do governo e densidade demográfica afetam negativamente, e as variáveis educação, industrialização e potencial de mercado afetam positivamente o modelo de crescimento econômico. Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 671-700, 2008 Cristiano Aguiar de Oliveira; Paulo de Andrade Jacinto; Priscila Albina Grolli 696 Apêndice Tabela A.1 Dados das regressões condicionais para os municípios do Rio Grande do Sul — 1970-01 VARIÁVEIS E ERROS-PADRÃO Constante .............. Erro-padrão da constante .............. Coeficiente α 2 ..... QUANTIL 0,10 QUANTIL 0,25 QUANTIL 0,50 QUANTIL 0,75 QUANTIL 0,90 2,7287 2,7618 2,8117 2,4958 3,2929 0,2287 0,2620 0,1895 0,3606 0,5605 -0,7337 -0,7533 -0,7566 -0,6567 -0,8796 0,0794 0,3551 0,0559 0,1882 0,1127 0,2972 0,1671 0,6918 0,1023 0,0851 0,2512 0,2663 (1) 0,0642 0,1269 (1) 0,1355 0,1796 0,1182 0,0714 0,1002 0,0931 -1,1423 -0,7969 -0,9215 -1,0379 0,3894 0,2700 0,3373 0,5221 (1) 0,0000 (1) -0,0001 (1) 0,0001 (1) 0,0001 0,0002 0,0002 0,0001 0,0002 0,0008 0,0012 0,0011 0,0006 0,0002 0,0003 0,0003 0,0003 Erro-padrão do co- eficiente α 2 ......... 0,0595 Escolaridade ......... 0,3027 Erro-padrão da es0,0931 colaridade ............. Participação industrial ........................ (1) -0,0507 Erro-padrão da participação industrial ........................ 0,0794 Participação do governo ..................... -1,6386 Erro-padrão da participação do 0,3787 governo ................. Densidade demográfica ................... (1) 0,0000 Erro-padrão da densidade demográfica ................... 0,0002 Potencial de mercado ...................... 0,0005 Erro-padrão do potencial de mercado 0,0003 FONTE DOS DADOS BRUTOS: FEE. FONTE DOS DADOS BRUTOS: IBGE. FONTE DOS DADOS BRUTOS: IPEA. (1) Não significativos a 10%. Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 671-700, 2008 697 Crescimento econômico e convergência com a utilização de regressões quantílicas:... Tabela A.2 Estatística descritiva das variáveis utilizadas para os municípios do Rio Grande do Sul — 1970-01 VARIÁVEIS Crescimento em 1970-80 ..... Crescimento em 1970-90 ..... Crescimento em 1970-01 ..... Ppc70 (logs) .... Densidade em 1970 ................ Escolaridade em 1970 .......... Participação do governo em 1970 ................ Participação industrial em 1970 ................ Potencial de mercado .......... OBSERVAÇÃO MÉDIA DESVIO-PADRÃO MÍNIMO MÁXIMO 232 0,20520 0,13086 -0,64050 0,55119 232 0,16350 0,13442 -0,17350 0,60731 232 232 0,35212 3,58298 0,19301 0,17521 -0,13470 3,14895 1,73519 4,07873 232 79,76830 180,60900 2,84244 1785,01000 232 2,56207 0,61590 1,10000 5,20000 232 0,04684 0,04317 0,00000 0,32501 232 0,18095 0,17996 0,00539 0,82356 232 158,42400 47,06310 19,00170 219,06900 FONTE : FEE. FONTE : IBGE. FONTE : IPEA. (1) Não significativos a 10%. Referências ALONSO, J. A. F. O Cenário regional gaúcho nos anos 90: convergência ou mais desigualdade. Indicadores Econômicos FEE, v. 31, n. 3, p. 97-118, 2003. ALONSO, J. A. F.; AMARAL, R. Q. Desigualdades intermunicipais de renda no Rio Grande do Sul: 1985-2001. Ensaios FEE, v. 26, n. esp., p. 171-193, 2005. ANDRADE, E. et al. Testing convergence across municipalities in Brazil using quantile regression. São Paulo: Ibmec, 2002. (Ibmec Working Paper, n. 14). 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Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 671-700, 2008 Aumento do ICMS no Rio Grande do Sul, em 2005: uma análise de equilíbrio geral computável 701 Aumento do ICMS no Rio Grande do Sul, em 2005: uma análise de equilíbrio geral computável* Alexandre Alves Porsse** Doutor em Economia pela UFRGS e Pesquisador da FEE Resumo O Governo do Estado do Rio Grande do Sul, em 2005, promoveu o aumento das alíquotas do ICMS de uma cesta de produtos, visando aumentar o volume de arrecadação, para garantir o equilíbrio orçamentário do Estado. O objetivo deste trabalho é analisar os potenciais efeitos desse choque de política tributária sobre a economia gaúcha, utilizando um modelo inter-regional de equilíbrio geral computável calibrado para o Rio Grande do Sul, o modelo Brazilian Miltisectorial and Regional/Interregional Analysis-Rio Grande do Sul (B-MARIA-RS). Para tanto, foram simulados os impactos do choque de aumento na alíquota do ICMS da cesta de produtos para um fechamento de curto prazo e outro de longo prazo do modelo B-MARIA-RS. Os resultados apontam redução do PIB e do emprego no Rio Grande do Sul, mas com intensidade mais forte se a política for permanente (longo prazo) ao invés de transitória (curto prazo). Palavras-chave Política tributária; equilíbrio geral computável (EGC); economia gaúcha. Abstract This paper uses an interregional CGE model calibrated for Rio Grande Sul to analyze the welfare and fiscal effects of a the temporary increase in ICMS tax rate implemented by the state government in 2005 to achieve fiscal balance. The * Artigo recebido em abr. 2007 e aceito para publicação em ago. 2007. ** E-mail: [email protected] Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 701-726, 2008 702 Alexandre Alves Porsse simulation results were calculated for short run and long run closure. The short run results show low negative effects on the output and employment if tax policy is transitory. But long run results suggests high negative effects if such a tax policy become permanent. Key words Tax policy; CGE; gacha economy. Classificação JEL: H20; C68; R13. 1 Introdução O Estado do Rio Grande do Sul apresenta um quadro de desequilíbrio fiscal estrutural que, de forma cada vez mais recorrente, compromete o alcance do equilíbrio orçamentário no atual regime tributário e de gastos. Esse quadro tornou-se mais crítico em 2005, devido à recessão econômica causada pela estiagem que ocorreu no Estado. Nesse contexto, em 2005, o Governo Estadual buscou garantir o equilíbrio orçamentário, promovendo uma política tributária de aumento do ICMS sobre uma determinada cesta de produtos, com o objetivo de aumentar a arrecadação no nível necessário para cobrir as despesas. Os produtos-alvo da política foram os combustíveis (gasolina, álcool e GLP), a energia elétrica e os serviços de telecomunicações. Contudo a política foi concebida com um caráter transitório, uma vez que o aumento de alíquota realizado deverá ser gradativamente reduzido até seu patamar inicial, anterior à política. O aumento da carga tributária estadual decorrente da política tem suscitado grande debate sobre seus custos de bem-estar para as famílias gaúchas e para o setor produtivo em termos de perda de competitividade. Esse debate acirrou-se particularmente diante da elevada queda da atividade econômica do Rio Grande do Sul observada em 2005, quando a previsão de crescimento do PIB foi de -4,8%. Vale observar que outros fatores relevantes para o desempenho da economia gaúcha se somaram ao o aumento das alíquotas do ICMS, como a forte estiagem e a valorização cambial. De fato, o comportamento do PIB incorpora todos esses efeitos, dentre outros choques que se manifestam ao longo do ciclo econômico, dificultando aferir, com relativa precisão, a contribuição de cada fator para a performance global da economia gaúcha. Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 701-726, 2008 Aumento do ICMS no Rio Grande do Sul, em 2005: uma análise de equilíbrio geral computável 703 Sob essa perspectiva, o presente trabalho propõe analisar os potenciais efeitos do choque de política tributária utilizando um modelo inter-regional de equilíbrio geral computável calibrado para o Rio Grande do Sul, o modelo Brazilian Multisectorial and Regional/Interregional Analysis-Rio Grande do Sul (B-MARIA-RS). Uma vantagem desse instrumental é a possibilidade de realizar uma simulação contrafactual exclusivamente associada à política, ou seja, considerando os efeitos de uma perturbação no sistema econômico gaúcho, causados apenas pelo aumento das alíquotas do ICMS, eliminando qualquer viés que poderia estar presente nos resultados, devido a outros choques econômicos. Outra vantagem importante diz respeito à estrutura teórica do modelo, a qual permite avaliar o impacto da política sobre os preços relativos da economia e sua propagação sobre o comportamento dos agentes econômicos, determinando um novo equilíbrio do sistema econômico associado à política tributária. A simulação dos efeitos do choque tributário de aumento do ICMS será implementada para dois fechamentos distintos na estrutura teórica do modelo B-MARIA-RS. Em uma simulação, considerando a hipótese de que a política será transitória, supõe-se que o fechamento de curto prazo é mais apropriado, na medida em que não admite mobilidade intersetorial e inter-regional dos fatores produtivos, ou seja, assume-se que os agentes não mudarão significativamente suas decisões alocativas, porque o choque será eliminado em poucos anos. Na outra simulação, a título de comparação, considera-se um fechamento de longo prazo, no qual capital e trabalho podem se movimentar intersetorialmente e inter-regionalmente, possibilitando avaliar o diferencial de impacto, caso a política assuma um caráter permanente. Alerta-se que o ano-base do modelo B-MARIA-RS é 1998, de modo que os efeitos são condicionados para a estrutura econômica vigente naquele período. O presente trabalho organiza-se em três seções, além da Introdução e das Considerações finais. A seção 2 faz uma breve apresentação do modelo B-MARIA-RS. A seção 3 descreve a estratégia de calibragem dos choques correspondentes ao aumento das alíquotas de ICMS. E, na seção 4, os resultados são reportados e analisados. 2 O modelo B-MARIA-RS B-MARIA-RS é um modelo inter-regional de equilíbrio geral computável (EGC), desenvolvido para analisar os efeitos de políticas econômicas sobre a economia gaúcha. Sua estrutura teórica é similar à do modelo B-MARIA (Haddad, Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 701-726, 2008 704 Alexandre Alves Porsse 1999) que se insere na tradição australiana de modelagem em equilíbrio geral.1 Uma descrição mais ampla do modelo pode ser encontrada em Porsse (2005). O modelo B-MARIA-RS divide a economia brasileira em duas regiões, Rio Grande do Sul e Restante do Brasil, e identifica um único mercado externo (resto do Mundo). Os dados adotados para calibragem referem-se a 1998, sendo especificados 25 setores produtivos em cada região. Os setores produtivos utilizam dois fatores primários locais (capital e trabalho). A demanda final é composta por consumo das famílias, investimento, exportações, consumo dos governos regionais e do Governo Federal. Os governos regionais são fontes de demanda e de gasto exclusivamente locais, englobando as esferas estadual e municipal da administração pública em cada região. O modelo completo possui 60.323 equações e 1.475 variáveis exógenas. A estrutura central do modelo é composta por blocos de equações que determinam relações de oferta e demanda, derivadas de hipóteses de otimização, e condições de equilíbrio de mercado. Além disso, vários agregados regionais e nacionais são definidos nesse bloco, como nível de emprego agregado, saldo comercial e índices de preços. Os fluxos monetários que alimentam a estrutura de equações do modelo são representados através de uma matriz de absorção2 (Figura 1). A seguir, os principais aspectos teóricos do modelo são apresentados. 1 Nessa tradição, os modelos utilizam a abordagem de Johansen, onde a estrutura matemática é representada por um conjunto de equações linearizadas, e as soluções são obtidas na forma de taxas de crescimento. Para a economia brasileira, utilizam essa abordagem os modelos PAPA (Guilhoto, 1995), EFES (Haddad; Domingues, 2001) e sua extensão EFES-IT (Haddad; Domingues; Perobelli, 2002). 2 A matriz de absorção possui uma representação similar à estrutura de um quadro de insumo-produto, mas não se restringe apenas à desagregação produto-setor dos fluxos monetários a preços básicos. Os demais fluxos monetários, associados aos componentes do preço de mercado (impostos indiretos e margens de distribuição), são reportados nessa matriz e desagregados por produto e setor. Diversos coeficientes e parâmetros utilizados no sistema de equações são derivados desses fluxos, tais como as alíquotas tributárias, as tarifas de importação, etc. Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 701-726, 2008 OCTS 1 II1 OI1 ICMS1 MT1 MC1 BAS1 LABR CPTL Tamanho Origem RS RB IM RS RB IM RS RB IM RS RB IM RS RB IM RS RB IM Tamanho 25 25 25 25 25 25 25 25 25 25 25 25 25 25 25 25 25 25 2 1 1 Produtores 25 25 RS RB II3 OI3 ICMS3 MT3 MC3 BAS3 RB = Restante do Brasil II4 OI4 ICMS4 MT4 MC4 BAS4 Matriz de Absorção 3 4 Famílias Exportações 1 1 1 RS RB RS = Rio Grande do Sul II2 OI2 ICMS2 MT2 MC2 BAS2 2 Investidores 25 25 RS RB Estrutura da matriz de absorção do modelo B-MARIA-RS II5 OI5 ICMS5 MT5 MC5 BAS5 5 Governo Estadual 1 1 RS RB II6 OI6 ICMS6 MT6 MC6 BAS6 6 Governo Federal 1 1 RS RB FONTE: Adaptado de HADDAD, E. A. Regional inequality and structural changes: lessons from the Brazilian experience. Aldershot: Ashgate, 1999. Trabalho Capital Outros Custos Imposto de Importação Outros Impostos ICMS Margem de Transporte Margem de Comércio Fluxos Básicos Figura 1 Aumento do ICMS no Rio Grande do Sul, em 2005: uma análise de equilíbrio geral computável 705 Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 701-726, 2008 706 Alexandre Alves Porsse 2.1 Tecnologia de produção A Figura 2 ilustra a tecnologia de produção adotada no modelo B-MARIA-RS, uma especificação usual em modelos regionais. Essa especificação define três níveis de otimização no processo produtivo das firmas. As linhas tracejadas indicam as formas funcionais especificadas em cada estágio. No primeiro nível, é adotada a hipótese de combinação em proporção fixa no uso dos insumos intermediários e fatores primários, através de uma especificação de Leontief. No segundo nível, há possibilidade de substituição entre o insumo composto de origem doméstica e importada, de um lado, e entre trabalho e capital, de outro. Uma função de elasticidade de substituição constante (CES) é utilizada na combinação dos insumos e dos fatores primários.3 No terceiro nível, um agregado do conjunto dos insumos intermediários, domésticos e importados é formado pela combinação de insumos de diferentes origens. Novamente, uma função CES é utilizada na combinação de bens de origens distintas. A utilização de funções CES na tecnologia de produção implica a adoção da chamada hipótese de Armington (Armington, 1969) na diferenciação de produtos. Por essa hipótese, bens de diferentes origens são tratados como substitutos imperfeitos. Por exemplo, bens agropecuários gaúchos são diferenciados dos bens agropecuários do Restante do Brasil quando da sua utilização no processo produtivo (terceiro nível da Figura 2). Esse tratamento permite que o modelo exiba padrões de comércio intra-setoriais não especializados, uma importante regularidade empírica encontrada na literatura.4 3 Os valores das elasticidades de substituição da função de produção são reportados no Anexo. 4 Sobre diferenciação de produtos no comércio internacional e modelos EGC, ver Melo e Robinson (1989). O comportamento de diversas classes de funções CES é analisado em Perroni e Rutherford (1998). Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 701-726, 2008 CES Restante do Brasil Origem Importada Capital CES CES Origem Doméstica Insumos Primários Insumos Intermediários Trabalho Leontief Produção Estrutura agrupada da tecnologia de produção regional Outros Custos FONTE: Adaptado de HADDAD, E. A. Regional inequality and structural changes: lessons from the Brazilian experience. Aldershot: Ashgate, 1999. Rio Grande do Sul Figura 2 Aumento do ICMS no Rio Grande do Sul, em 2005: uma análise de equilíbrio geral computável 707 Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 701-726, 2008 708 Alexandre Alves Porsse 2.2 Demanda das famílias Em cada região, existe um conjunto de famílias representativas, que consome bens domésticos (locais ou de outra região) e bens importados. A especificação da demanda das famílias, em cada região, é baseada num sistema combinado de preferências CES/Sistema Linear de Gastos (LES). As equações de demanda são derivadas de um problema de maximização de utilidade, cuja solução segue passos hierarquizados, semelhantes aos da Figura 2. No nível inicial, existe substituição entre as diferentes fontes de oferta para os bens domésticos e para os importados. No nível superior subseqüente, ocorre substituição entre o composto de bens domésticos e de importados. A utilidade derivada do consumo do composto de bens domésticos e de importados é maximizada segundo uma função de utilidade Stone-Geary. Essa especificação dá origem ao LES, no qual a participação do gasto acima do nível de subsistência, para cada bem, representa uma proporção constante do gasto total de subsistência de cada família regional.5 2.3 Demanda por bens de investimento Os investidores são outra categoria de uso da demanda final, responsáveis pela criação de capital em cada setor regional. Eles escolhem os insumos utilizados no processo de criação de capital através de um mecanismo de minimização de custos sujeito a uma estrutura de tecnologia aninhada. Essa tecnologia é similar à de produção, com algumas adaptações. Como na tecnologia de produção, o bem de capital é produzido por insumos domésticos e por importados. No terceiro nível, um agregado do conjunto dos insumos intermediários, domésticos e importados, é formado pela combinação de insumos de diferentes origens. Uma função CES é utilizada na combinação de bens de origens distintas. Diferentemente da tecnologia de produção, fatores primários não são utilizados diretamente como insumo para formação de capital, mas indiretamente, através dos insumos na produção dos setores, especialmente no setor de construção civil. O nível de investimento regional em bens de capital, por setor, é determinado pelo bloco de acumulação de capital. 5 Sobre os parâmetros necessários para calibragem dessa especificação, ver Dixon et al. (1982). A especificação LES é não-homotética, de forma que expansão no gasto (renda) das famílias gera alterações na participação dos bens no gasto total, ceteris paribus. Os parâmetros de participação marginal no orçamento do consumo das famílias derivadas da especificação LES são reportados no Anexo. Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 701-726, 2008 Aumento do ICMS no Rio Grande do Sul, em 2005: uma análise de equilíbrio geral computável 709 2.4 Demanda por exportações e do Governo Todos os bens são definidos com curvas de demanda negativamente inclinadas nos próprios preços, no mercado mundial. Um vetor de elasticidades define a resposta da demanda externa a alterações no preço FOB das exportações regionais.6 A demanda do Governo por bens públicos origina-se na identificação do consumo de bens públicos por parte dos governos regionais e do Governo Federal, obtidos da matriz de insumo-produto. Entretanto atividades produtivas exercidas pelo setor público não podem ser separadas daquelas exercidas pelo setor privado. Dessa forma, a atividade empreendedora do Governo é determinada pela mesma lógica de minimização de custos empregada pelo setor privado. Essa hipótese pode ser considerada, a priori, mais apropriada para a economia brasileira, na medida em que o processo de privatização, nos anos 90, diminuiu significativamente a participação do Governo no setor produtivo (Haddad, 1999). O consumo do bem público é especificado por uma proporção constante: (a) do consumo regional privado, no caso dos governos regionais; e (b) do consumo privado nacional, no caso do Governo Federal. 2.5 Acumulação de capital e investimento Neste bloco, estão definidas as relações entre estoque de capital e investimento. Existem duas configurações do modelo para exercícios de estática comparativa, que permitem seu uso em simulações de curto e longo prazos. A utilização do modelo em estática comparativa implica que não existe relação fixa entre capital e investimento; essa relação é escolhida de acordo com os requisitos específicos da simulação. Por exemplo, em simulações típicas de estática comparativa de longo prazo, assume-se que o crescimento do investimento e do capital são iguais (Peter et al.,1996). Algumas qualificações são importantes quanto à especificação da formação de capital e investimento no modelo. Como discutido em Dixon et al. (1982), esse tipo de modelagem se preocupa primordialmente com a forma como os gastos com investimento são alocados setorial e regionalmente e não com a determinação no investimento privado agregado em construções, máquinas e equipamentos. Além disso, a concepção temporal de investimento empregada 6 Os valores das elasticidades da função de demanda externa são reportados no Anexo. Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 701-726, 2008 710 Alexandre Alves Porsse não tem correspondência com um calendário exato; essa seria uma característica necessária, se o modelo tivesse o objetivo de explicar o caminho de expansão do investimento ao longo do tempo. Destarte, a preocupação principal na modelagem do investimento é captar os efeitos dos choques (por exemplo, aumento da alíquota do ICMS) na alocação do gasto com investimento corrente entre os setores e as regiões. 2.6 Mercado de trabalho e migração regional Neste módulo, a população, em cada região, é definida através da interação de variáveis demográficas, inclusive migração inter-regional, e também é estabelecida uma conexão entre população regional e oferta de trabalho. Dada a especificação do funcionamento do mercado de trabalho, a oferta de trabalho pode ser determinada por diferenciais inter-regionais de salário ou por taxas de desemprego regional, conjuntamente com variáveis demográficas, usualmente definidas exogenamente. Em resumo, tanto oferta de trabalho como diferenciais de salário podem determinar as taxas de desemprego, ou, alternativamente, oferta de trabalho e taxas de desemprego determinam diferenciais de salário. 2.7 Outras especificações O módulo de finanças governamentais incorpora equações, determinando o produto regional bruto, do lado da renda e do dispêndio, para cada região, através da decomposição e da modelagem de seus componentes. Os déficits orçamentários dos governos regionais e do Governo Federal estão definidos nesse módulo. Este bloco define também as funções de consumo das famílias em cada região, as quais estão desagregadas nas principais fontes de renda e nos respectivos impostos incidentes. Outras definições no modelo incluem as alíquotas de impostos, preços básicos e de mercado dos bens, receita com tributos, margens, componentes dos produtos nacional (PIB) e regional (PRB), índices de preços regionais e nacionais, preços de fatores, agregados de emprego e especificações das equações de salário. 2.8 Fechamentos O modelo B-MARIA-RS pode ser utilizado para simulações de estática comparativa de curto e longo prazos. A distinção básica entre os dois fechamentos Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 701-726, 2008 Aumento do ICMS no Rio Grande do Sul, em 2005: uma análise de equilíbrio geral computável 711 está relacionada ao tratamento empregado na abordagem microeconômica do ajustamento do estoque de capital. No ambiente de curto-prazo, os estoques de capital são mantidos fixos, enquanto, no longo prazo, mudanças de política são passíveis de afetar os estoques de capitais em cada região.7 No ambiente de curto prazo, além da hipótese de imobilidade intersetorial e inter-regional do capital, a população regional e a oferta de trabalho são fixas, os diferenciais regionais de salário são constantes, e o salário real nacional é fixo. O emprego regional é função das hipóteses sobre taxas de salário, que, indiretamente, determinam as taxas de desemprego regionais. Do lado da demanda, os gastos de investimento são exógenos — as firmas não podem reavaliar decisões de investimento no curto prazo. O consumo das famílias segue sua renda disponível, e o consumo do Governo, em ambos os níveis (regional e federal), é fixo (alternativamente, o déficit do Governo pode ser definido exogenamente, permitindo a alteração dos seus gastos). Por fim, as variáveis de choque tecnológico são exógenas, dado que o modelo não apresenta nenhuma teoria de crescimento endógeno. No fechamento de longo prazo, capital e trabalho possuem mobilidade intersetorial e inter-regional. As principais diferenças em relação ao curto prazo estão na configuração do mercado de trabalho e do processo de acumulação de capital. No primeiro caso, o emprego agregado é determinado pelo crescimento da população, pelas taxas de participação da força de trabalho e pela taxa natural de desemprego. As distribuições espacial e setorial da força de trabalho são totalmente determinadas endogenamente. Trabalho é atraído para os setores mais competitivos, nas áreas geográficas mais favorecidas. Da mesma forma, capital é orientado em direção aos setores mais atrativos. Esse movimento mantém as taxas de retorno do capital em seus níveis iniciais. 3 Estratégia de calibragem do choque de política tributária A mudança na política tributária do ICMS presume uma elevação das alíquotas dos combustíveis (gasolina, álcool e GLP) e da energia elétrica de 7 Sobre fechamentos em modelos EGC, ver, por exemplo, Dixon e Parmenter (1996) e Dixon et al. (1982). Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 701-726, 2008 712 Alexandre Alves Porsse 25% para 29%,8 bem como uma elevação da alíquota das telecomunicações de 25% para 30%. Considerando o valor absoluto das alíquotas efetivas do ICMS por produto no período de referência, a primeira mudança implica um aumento de 16% nas alíquotas dos combustíveis e da energia elétrica e um aumento de 20% na alíquota das telecomunicações. Esses percentuais serviram de parâmetro para definir o nível relativo dos choques da mudança de política tributária sobre as alíquotas efetivas do ICMS nos setores produtores da cesta de bens afetada pela política. No modelo B-MARIA-RS, os produtos são classificados em setores da atividade econômica. Os combustíveis pertencem à categoria demais produtos do refino, que está inserida no setor química e petroquímica (S8), enquanto energia elétrica e telecomunicações classificam-se, respectivamente, nos setores Serviços Industriais de Utilidade Pública (SIUP) (S16) e comunicações (S20) — ver Anexo. Assim, para as alíquotas do ICMS9 nos setores SIUP e comunicações, considerou-se que a política implica um choque de 16% e de 20%, respectivamente, pois esses setores possuem uma correspondência direta com a cesta de produtos afetada pela política. Porém, como os combustíveis gasolina, álcool e GLP constituem uma parcela dos produtos gerados pelo setor química e petroquímica do modelo, foi necessário estimar o efeito do aumento de 20% na alíquota desses produtos sobre a alíquota efetiva do setor S8. Esse efeito foi estimado, considerando-se os valores monetários da arrecadação efetiva do ICMS do banco de dados da Matriz de Insumo-Produto do Rio Grande do Sul, desagregando-se todos os produtos do setor S8. A partir da desagregação, aplicou-se uma variação de 16% nos montantes arrecadados para os produtos gasolina, álcool e GLP. Como resultado desse procedimento, estimou-se que o choque nesses produtos representa um aumento de 9,4% na alíquota efetiva do ICMS do setor química e petroquímica. A Tabela 1 apresenta em detalhe os procedimentos utilizados para calibrar os choques nas alíquotas efetivas de ICMS correspondentes aos setores responsáveis pela produção dos bens pertencentes à cesta afetada pela política tributária do Governo gaúcho. A última coluna apresenta os choques implementados no modelo B-MARIA-RS, em 8 O óleo diesel não foi afetado pela política. No caso da energia elétrica, a mudança oficial foi de 25% para 30%, mas com redução de 12% para 7% da alíquota para as classes de consumo residencial com demanda até 50w. Considerando essa especificidade, estimou-se que a mudança efetiva na alíquota de energia elétrica foi de 25% para 29%. 9 A receita do ICMS desse setor, no banco de dados do modelo, refere-se somente à tributação da energia elétrica. Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 701-726, 2008 713 Aumento do ICMS no Rio Grande do Sul, em 2005: uma análise de equilíbrio geral computável variação percentual, nos três setores afetados pela política. Constata-se, ainda, que essa política implica uma elevação de 5,6% na alíquota total do ICMS do Estado do Rio Grande do Sul, conforme os dados monetários de 1998. Tabela 1 Estimativa do efeito da política de aumento do ICMS sobre as alíquotas efetivas dos setores do modelo B-MARIA-RS SETORES E PRODUTOS S8 - química e petroquímica ................................ Química ........................... Petroquímica ................... Produtos petroquímicos Demais produtos do refino .............................. Gasolina ................... Álcool ....................... GLP .......................... Diesel ....................... S16 - SIUP (energia elétrica) ............................... S20 - Comunicações ..... Subtotal ......................... TOTAL DO ICMS DO RS ICMS-1998 (R$ milhões) ÍNDICE DE VARIAÇÃO ASSOCIADO À MUDANÇA NA POLÍTICA TRIBUTÁRIA ICMS PÓS-MUDANÇA (R$ milhões) CHOQUE NA ALÍQUOTA (%) 626 58 568 84 484 - 685 58 627 84 543 9,4 - 331 8 28 116 1,160 1,160 1,160 - 384 9 33 116 - 660 358 1 644 4 186 1,160 1,200 - 765 429 1 880 4 422 16,0 20,0 14,4 5,6 NOTA: O ano de referência é 1998. Especificamente, os choques são implementados no coeficiente geral de alíquotas tributárias do modelo B-MARIA-RS, definido como deltax (i,s,t), onde i indica o produto gerado pelos setores (S1, ..., S25), s indica a região (Rio Grande do Sul, Restante do Brasil ou resto do Mundo) e t indica o vetor de impostos (ICMS ou outros impostos indiretos). Logo, para o presente exercício de simulação, os choques implicam variações em deltax (i = S8, S16, S20; s = Rio Grande do Sul; t = ICMS). Os dois efeitos diretos desse choque recaem sobre o mercado de produto e sobre as finanças públicas do Governo Regional, pois implicam uma elevação dos preços básicos dos bens comercializados pelos Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 701-726, 2008 714 Alexandre Alves Porsse seis diferentes usuários do modelo (firmas, investidores, famílias, setor externo, Governo Regional e Governo Federal) e também um aumento do nível de arrecadação de ICMS associado à elevação das alíquotas nos produtos dos setores S8, S16 e S20. A Figura 3 descreve as principais relações causais do choque de política tributária do Governo gaúcho. Observe-se que os principais efeitos são o aumento dos preços dos bens compostos e do custo dos fatores primários, reduzindo a competitividade das firmas nos mercados interno e externo, assim como o poder aquisitivo das famílias. No curto prazo, como não há mobilidade dos fatores produtivos, esses efeitos são transferidos para o Restante do Brasil, através do comércio inter-regional. Contudo, no longo prazo, a menor rentabilidade dos investimentos e a menor remuneração real do trabalho no Rio Grande do Sul geram um efeito relocalização para o Restante do Brasil, reduzindo a base tributária no território gaúcho. Assim, o aumento na receita do ICMS, inicialmente associado ao aumento da alíquota tributária, é, agora, atenuado pela redução da base tributária. Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 701-726, 2008 Aaumento da alíquota de ICMS Menor demanda de fatores primários Menor nível de produção das firmas Menor demanda interna e demanda externa Firmas: menos competitivas Investidores: retornos potenciais menores Famílias: mais pobres Redução da renda real regional: firmas, investidores e famílias Mobilidade intersetorial e inter-regional do trabalho e do capital Redução da base tributária Redução da receita de ICMS Longo Prazo Aumento da receita de ICMS Principais relações causais do choque de política tributária Aumento dos preços dos bens compostos Figura 3 Aumento do ICMS no Rio Grande do Sul, em 2005: uma análise de equilíbrio geral computável 715 Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 701-726, 2008 716 Alexandre Alves Porsse 4 Resultados da simulação A simulação foi implementada, utilizando-se o método de Euler para corrigir os erros de linearização, e os resultados são reportados em taxas de variação percentual. Os principais resultados macroeconômicos são apresentados na Tabela 2, tanto para a simulação de curto prazo como para a de longo prazo. Convém ressaltar que o fechamento de curto prazo é o mais apropriado para avaliar os efeitos da política, supondo-se que se trata de uma política transitória e que os agentes econômicos não reavaliam suas decisões alocativas. O fechamento de longo prazo foi implementado para ilustrar os efeitos no caso em que a política assume um caráter permanente, situação mais apropriada para um regime de longo prazo. Neste caso, os custos de aumento na carga tributária estadual influem sobre a mobilidade do capital e do trabalho, gerando um efeito de relocalização da base tributária em prol do Restante do Brasil. No curto prazo, o efeito sobre o PIB é negativo tanto no Rio Grande do Sul como no Restante do Brasil, pois os aumentos de preços também se transmitem para o restante do País, através do comércio regional, e não há ajuste compensatório associado à mobilidade dos fatores produtivos. O emprego também se reduz no Rio Grande do Sul e no Restante do Brasil. De fato, a política tende a provocar um aumento generalizado dos preços no sistema econômico do País como um todo, no curto prazo, reduzindo não só a demanda agregada interna como também a demanda externa. Contudo os preços básicos dos bens em alguns setores apresentam variação negativa (Tabela 3), devido ao efeito substituição entre capital e trabalho na função de produção das firmas. A retração econômica libera capital e trabalho da atividade produtiva, mas, enquanto o aumento na oferta de capital favorece uma redução de seu preço, o mesmo não ocorre para o fator trabalho, devido ao aumento no seu custo de produção (custo da cesta de consumo das famílias). Esse aspecto pode ser constatado, ainda, na Tabela 1, onde o Índice de Preços ao Consumidor mostra a maior variação. No caso do comércio inter-regional do Rio Grande do Sul, a redução dos preços dos bens em alguns setores domina o aumento nos demais, resultando em um índice de preços das exportações inter-regionais com variação negativa. Cabe observar que o impacto de curto prazo sobre o PIB gaúcho (-0,050%) é bastante inferior àquele observado no longo prazo (-1,387%). Isso sugere que a natureza transitória da política de aumento do ICMS, embora tenha o efeito de retrair a atividade econômica, produz efeitos muito pequenos sobre a estabilidade econômica. Por outro lado, no longo prazo, a persistência da política pode gerar uma retração econômica substancial, devido à mobilidade dos fatores produtivos, que buscarão taxas de retorno mais favoráveis no Restante do Brasil. Esse Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 701-726, 2008 717 Aumento do ICMS no Rio Grande do Sul, em 2005: uma análise de equilíbrio geral computável efeito é claro, ao se observar que, no longo prazo, ocorre uma queda mais acentuada do PIB e do emprego no Rio Grande do Sul, enquanto há um aumento dos mesmos no Restante do Brasil. Tabela 2 Efeitos da política de aumento do ICMS do Rio Grande do Sul sobre a economia gaúcha e sobre o Restante do Brasil (%) RIO GRANDE DO SUL Curto Longo Prazo Prazo VARIÁVEIS RESTANTE DO BRASIL Curto Longo Prazo Prazo Componentes do PIB Consumo real das famílias .............................. -0,034 -1,481 -0,004 0,153 Investimento real agregado ............................. - Demanda do Governo Regional real agregada - -1,047 - 0,069 - - - Demanda do Governo Federal real agregada - - - - Volume das exportações inter-regionais ......... -0,054 -0,831 -0,006 -1,003 Volume das exportações internacionais ......... -0,106 -4,151 -0,025 -0,066 Volume das importações inter-regionais ......... -0,006 -1,003 -0,054 -0,831 Volume das importações internacionais ......... -0,027 -1,099 0,004 0,139 Índice de Preços ao Consumidor .................... 0,172 1,727 0,017 0,088 Índice de preços de investimento .................... 0,023 0,967 0,018 0,057 Índice de preços do Governo Regional ........... 0,081 2,583 0,025 0,170 Índice de preços do Governo Federal ............. 0,081 2,583 0,025 0,170 Índice de preços de exportação inter-regional -0,083 1,901 0,018 0,015 Índice de preços de exportação internacional 0,062 2,198 0,014 0,006 Índice de preços de importação inter-regional 0,018 0,015 -0,083 1,901 Preços Índice de preços de importação internacional - - - - Deflator implícito do PIB (ótica da despesa) ... 0,093 2,659 0,024 0,035 PIB real ........................................................... -0,050 -1,387 -0,003 0,095 Emprego ......................................................... -0,092 -1,590 -0,007 0,106 Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 701-726, 2008 718 Alexandre Alves Porsse Tabela 3 Efeitos percentuais sobre o valor adicionado e preços básicos dos bens, nos longo e curto prazos, no Rio Grande do Sul (RS) e no Restante do Brasil (RB) CURTO PRAZO SETORES Valor Adicionado RS RB Preços Básicos RS RB Agropecuária ............................................ -0,007 -0,003 -0,019 -0,005 Indústrias metalúrgicas ............................. -0,051 -0,008 0,047 0,012 Máquinas e tratores .................................. -0,041 -0,009 0,052 0,016 Material elétrico e eletrônico ..................... -0,022 -0,008 0,013 0,007 Material de transportes ............................. -0,021 -0,008 0,037 0,012 Madeira e mobiliário ................................. -0,021 -0,009 0,106 0,028 Papel e gráfica .......................................... -0,040 -0,007 0,091 0,019 Indústrias química e petroquímica ............ -0,172 -0,005 -0,976 0,011 Calçados, couros e peles ......................... -0,045 -0,036 0,091 0,126 clusive fumo .............................................. -0,023 -0,006 0,028 0,013 Abate de animais ...................................... -0,019 -0,006 0,046 0,015 Indústria de laticínios ................................ -0,008 -0,003 0,036 0,012 Fabricação de óleos vegetais ................... -0,012 -0,004 0,011 0,004 Demais indústrias alimentares .................. -0,013 -0,004 0,071 0,011 Demais indústrias ..................................... -0,038 -0,007 0,030 0,010 Serviços Industriais de Utilidade Pública .. -0,456 -0,005 0,382 0,016 Construção civil ........................................ -0,001 0,000 0,029 0,022 Comércio .................................................. -0,020 -0,006 0,048 0,025 Transportes .............................................. -0,027 -0,008 0,046 0,023 Comunicações .......................................... -0,627 0,017 -2,091 0,120 Instituições financeiras ............................. -0,028 -0,006 0,051 0,021 -0,036 -0,007 0,060 0,021 -0,003 Beneficiamento de produtos vegetais, in- Serviços prestados às famílias e às empresas ....................................................... Aluguel de imóveis .................................... 0,000 0,000 -0,017 Administração pública ............................... -0,003 0,000 0,081 0,025 Serviços privados não mercantis .............. -0,005 -0,008 0,028 0,026 (continua) Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 701-726, 2008 719 Aumento do ICMS no Rio Grande do Sul, em 2005: uma análise de equilíbrio geral computável Tabela 3 Efeitos percentuais sobre o valor adicionado e preços básicos dos bens, nos longo e curto prazos, no Rio Grande do Sul (RS) e no Restante do Brasil (RB) LONGO PRAZO SETORES Valor Adicionado Preços Básicos RS RB RS Agropecuária ............................................ -1,497 0,058 0,974 0,034 RB Indústrias metalúrgicas ............................. -2,272 0,118 1,896 -0,043 Máquinas e tratores .................................. -1,556 0,046 2,285 -0,066 Material elétrico e eletrônico ..................... -2,046 0,098 1,690 -0,063 Material de transportes ............................. -1,066 0,053 2,285 -0,080 Madeira e mobiliário ................................. -0,493 -0,050 2,188 0,115 Papel e gráfica .......................................... -1,400 0,096 3,010 -0,071 Indústrias química e petroquímica ............ -2,220 0,145 0,940 -0,043 Calçados, couros e peles ......................... -1,340 -0,553 3,088 0,743 clusive fumo .............................................. -1,417 0,060 1,635 0,129 Abate de animais ...................................... -1,091 0,019 2,050 0,114 Indústria de laticínios ................................ -0,970 0,095 1,993 0,072 Fabricação de óleos vegetais ................... -1,569 0,064 1,181 0,097 Demais indústrias alimentares .................. -0,679 0,033 2,326 -0,053 Demais indústrias ..................................... -2,396 0,110 1,581 -0,032 Serviços Industriais de Utilidade Pública .. -2,154 0,166 5,853 -0,513 Construção civil ........................................ -1,049 0,070 1,379 0,054 Comércio .................................................. -1,642 0,105 2,186 0,122 Transportes ............................................... -1,487 0,109 2,289 0,079 Comunicações .......................................... -2,925 0,221 0,857 0,034 Instituições financeiras ............................. -1,896 0,191 3,324 -0,105 Beneficiamento de produtos vegetais, in- Serviços prestados às famílias e às empresas ....................................................... -1,572 0,133 2,480 0,044 Aluguel de imóveis ................................... -1,241 0,133 0,795 0,180 Administração pública .............................. -0,078 0,006 2,583 0,170 Serviços privados não mercantis ............. -1,843 0,138 2,904 0,168 Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 701-726, 2008 720 Alexandre Alves Porsse Em síntese, o efeito da política é uma redução da competitividade das duas regiões no curto prazo. No longo prazo, ocorre uma redução da competitividade apenas da economia gaúcha (notadamente no comércio internacional), de modo que os investimentos tendem a se direcionar para o Restante do Brasil, ampliando o emprego e o consumo das famílias nessa região. Os efeitos de expansão dos investimentos e do consumo privado no Restante do Brasil são mais que suficientes para compensar as perdas de competitividade nos comércios regional e internacional, que ainda permanecem nessa região. No cenário de longo prazo, a queda do PIB gaúcho e o aumento do PIB do Restante do Brasil evidenciam um efeito de relocalização da base tributária entre as duas regiões. Nesse caso, deve-se esperar que a efetividade da política tributária, em termos de expansão das receitas do ICMS, fique comprometida no longo prazo. Ou seja, no curto prazo, a política possivelmente será efetiva em produzir o aumento desejado nas receitas, devido à preponderância dos efeitos de primeira ordem (mudança da alíquota tributária), mas, no longo prazo, o incremento de receita pode ser atenuado, em razão dos efeitos de segunda ordem (mobilidade da base tributária).10 Para avaliar essa dimensão, calculou-se o efeito de expansão real no ICMS pós-mudança tributária para os dois fechamentos de simulação, utilizando-se o deflator implícito do PIB como fator de transformação para calcular o valor presente no ano-base (Gráfico 1). Os resultados mostram que a efetividade da arrecadação associada à política de aumento do ICMS é comprometida em mais de 50%, no longo prazo, devido à relocalização produtiva provocada pelo choque. Ressalta-se que os setores afetados pela política apresentam significativa participação na composição da receita do ICMS (cerca de 40%), mas também apresentam as maiores taxas de redução do valor adicionado no longo prazo (Tabela 3). Enfim, esses resultados mostram que o ganho de receita alcançado pela política no curto prazo não se sustenta integralmente no longo prazo, de modo que o equilíbrio orçamentário só poderia ser alcançado através de um aumento no esforço fiscal, leia-se maior eficiência da arrecadação, ou via redução dos gastos. 10 Para uma discussão sobre efeito de relocalização produtiva e seu impacto sobre a receita de impostos, ver Domingues e Haddad (2003). Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 701-726, 2008 Aumento do ICMS no Rio Grande do Sul, em 2005: uma análise de equilíbrio geral computável 721 Gráfico 1 Mudança real na receita do ICMS no RS ∆% 5,0 4,5 Curto prazo (4,3%) 4,0 3,5 3,0 2,5 Longo prazo (1,9%) 2,0 1,5 1,0 0,5 0,0 BaseAno-base de Referência Fechamento Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 701-726, 2008 722 Alexandre Alves Porsse 5 Considerações finais Este trabalho busca avaliar os impactos econômicos da política de aumento das alíquotas do ICMS de uma cesta de produtos praticada pelo Governo gaúcho. Sustenta-se que a metodologia de modelos de equilíbrio geral computável é a mais apropriada para esse fim, na medida em que possibilita capturar a reação dos agentes às mudanças de preços relativos, provocadas pelo choque de política tributária em foco. Adicionalmente, também se sustenta que um fechamento de curto prazo seria mais apropriado para a simulação do choque tributário, uma vez que a política teve caráter transitório, haja vista a redução gradativa das alíquotas para seu patamar inicial a partir de 2007. Também foi implementado um exercício de simulação para um fechamento de longo prazo, visando extrair informações sobre o efeito de relocalização produtiva associado à mobilidade dos fatores, simulando o caso em que a política assume um caráter permanente. No curto prazo, os principais resultados apontam uma elevação geral dos preços e “pequena” redução no emprego e no produto, tanto no Rio Grande do Sul como no Restante do Brasil, devido à interdependência regional entre essas economias. No Rio Grande do Sul, o aumento de preços mostra-se mais intenso sobre os bens de consumo das famílias. Porém, se a política assumir um caráter permanente, fica evidente, pelos resultados da simulação de longo prazo, que deve haver um significativo efeito de relocalização produtiva, resultando numa queda relativamente mais acentuada no emprego e no produto do Rio Grande do Sul, em detrimento do aumento do emprego e do produto no Restante do Brasil. Ainda nesse cenário, constata-se que a relocalização produtiva implica uma redução da base tributária gaúcha, comprometendo a eficácia da política de aumento tributário em termos do incremento da receita do ICMS. Por fim, cabe retomar que esses resultados devem ser considerados à luz da estrutura econômica vigente em 1998, ano-base do modelo B-MARIA-RS. Logo, os resultados encontrados servem apenas como um indicativo dos potenciais efeitos da política. Ademais, a robustez dos efeitos identificados é condicionada pelos coeficientes e parâmetros de elasticidades do modelo, sendo relevante, futuramente, avançar na análise da sensibilidade dos resultados, em face de modificações no conjunto de coeficientes e de parâmetros de elasticidade. Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 701-726, 2008 723 Aumento do ICMS no Rio Grande do Sul, em 2005: uma análise de equilíbrio geral computável Anexo Tabela A.1 Parâmetros de elasticidades e coeficientes do modelo B-MARIA-RS SETORES S1 S2 S3 S4 S5 S6 S7 S8 S9 S10 S11 S12 S13 S14 S15 S16 S17 S18 S19 S20 S21 S22 S23 S24 S25 Agropecuária ................. Indústrias metalúrgicas Máquinas e tratores ...... Material elétrico e eletrônico ........................... Material de transportes Madeira e mobiliário ..... Papel e gráfica .............. Indústrias química e petroquímica ..................... Calçados, couros e peles ................................. Beneficiamento de produtos vegetais, inclusive fumo .............................. Abate de animais .......... Indústrias de laticínios .. Fabricação de óleos vegetais ............................ Demais indústrias alimentares ....................... Demais indústrias ......... Serviços Industriais de Utilidade Pública ........... Construção civil ............ Comércio ...................... Transportes ................... Comunicações .............. Instituições financeiras .. Serviços prestados às famílias e às empresas .. Aluguel de imóveis ......... Administração pública .... Serviços privados não mercantis ....................... ELASTICIDADE DE SUBSTITUIÇÃO-ARMINGTON REGIONAL ELASTICIDADE ELASTICIDADE DE DE SUBSTITUIÇÃO- SUBSTITUIÇÃO-ARMINGTON -FATORES INTERNACIONAL PRIMÁRIOS 0,229 1,186 0,293 0,229 1,186 0,293 0,500 0,500 0,500 1,349 0,430 0,023 0,303 1,349 0,430 0,023 0,303 0,500 0,500 0,500 0,500 0,793 0,793 0,500 0,057 0,057 0,500 0,874 0,003 0,322 0,874 0,003 0,322 0,500 0,500 0,500 1,453 1,453 0,500 0,060 1,587 0,060 1,587 0,500 0,500 0,007 0,001 0,462 0,162 1,002 0,092 0,007 0,001 0,462 0,162 1,002 0,092 0,500 0,500 0,500 0,500 0,500 0,500 0,829 0,058 0,047 0,829 0,058 0,047 0,500 0,500 0,500 0,001 0,001 0,500 (continua) Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 701-726, 2008 724 Alexandre Alves Porsse Tabela A.1 Parâmetros de elasticidades e coeficientes do modelo B-MARIA-RS SETORES S1 S2 S3 S4 S5 S6 S7 S8 S9 S10 S11 S12 S13 S14 S15 S16 S17 S18 S19 S20 S21 S22 S23 S24 S25 Agropecuária ................. Indústrias metalúrgicas Máquinas e tratores ...... Material elétrico e eletrônico ........................... Material de transportes Madeira e mobiliário ..... Papel e gráfica .............. Indústrias química e petroquímica ..................... Calçados, couros e peles ................................. Beneficiamento de produtos vegetais, inclusive fumo .............................. Abate de animais .......... Indústrias de laticínios .. Fabricação de óleos vegetais ............................ Demais indústrias alimentares ....................... Demais indústrias ......... Serviços Industriais de Utilidade Pública ........... Construção civil ............ Comércio ...................... Transportes ................... Comunicações .............. Instituições financeiras .. Serviços prestados às famílias e às empresas Aluguel de imóveis ....... Administração pública .. Serviços privados não mercantis ....................... PARTICIPAÇÃO ORÇAMENTÁRIA MARGINAL NA FUNÇÃO LES ELASTICIDADE DA DEMANDA INTERNACIONAL RS RB (1) 0,043 0,003 0,008 0,059 0,006 0,008 -13,241 -1,371 -2,263 0,022 0,078 0,022 0,010 0,031 0,054 0,011 0,008 -1,114 -1,096 -1,134 -0,999 0,026 0,016 -3,887 0,024 0,007 -0,885 0,028 0,026 0,016 0,016 0,017 0,011 -1,942 -2,116 -2,639 0,009 0,004 -1,323 0,041 0,074 0,034 0,066 -0,504 -1,719 0,023 0,000 0,122 0,043 0,024 0,081 0,018 0,000 0,096 0,043 0,017 0,102 -0,762 -1,045 -1,217 -8,362 -1,064 -2,103 0,103 0,165 0,001 0,153 0,199 0,004 -1,914 -1,978 -3,628 0,008 0,018 -1,045 FONTE: Banco de dados do modelo B-MARIA-RS. (1) Restante do Brasil. Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 701-726, 2008 Aumento do ICMS no Rio Grande do Sul, em 2005: uma análise de equilíbrio geral computável 725 Referências ARMINGTON, P. S. A theory of demand for products distinguished by place of production. Staff Papers, Washington, IMF, v. 16, p. 159-178, 1969. DIXON, P. B. et al. 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Competição tributária regional, externalidades fiscais e federalismo no Brasil: uma abordagem de equilíbrio geral computável. Tese (Doutorado)–Programa de Pós-Graduação em Economia, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2005. Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 701-726, 2008 Os determinantes da política fiscal no Estado do Rio Grande do Sul — 1970-03 727 Os determinantes da política fiscal no Estado do Rio Grande do Sul — 1970-03* Liderau dos Santos Marques Junior** Pesquisador da Fundação de Economia e Estatística (FEE) Resumo Este artigo apresenta e testa diversas hipóteses sobre os fatores determinantes da política fiscal do Estado do Rio Grande do Sul entre 1970 e 2003. Os resultados confirmam a hipótese de que instituições orçamentárias se constituem num importante determinante da política fiscal gaúcha, e há evidências de que o déficit primário tende a persistir de um período para outro. Palavras-chave Instituições orçamentárias; análise de regressão; Rio Grande do Sul. Abstract The article presents and tests many hypotheses about the determinants of fiscal policy of the state of Rio Grande do Sul state between 1970 and 2003. The results confirm the hypothese that budget institutions are an important determinant of primary deficit, and there are evidences that the primary deficit tend to persist from one period to another. Key words Budget institutions; regression analysis; Rio Grande do Sul. * Este artigo é uma versão modificada do Capítulo 5 da tese de Marques Junior (2005). Artigo recebido em abr. 2007 e aceito para publicação em ago. 2007. ** E-mail: [email protected] O autor agradece os comentários e as sugestões de um parecerista anônimo. Como de praxe, eventuais erros e imperfeições são de inteira responsabilidade do autor. Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 727-754, 2008 728 Classificação JEL: Liderau dos Santos Marques Junior C1, H8, H89. 1 Introdução A política fiscal do Estado do Rio Grande do Sul caracterizou-se por contínuos déficits primários entre 1970 e 2003. Enquanto o Estado conseguia se financiar no mercado financeiro, tal regime de política fiscal não se constituía em um problema. Porém, com a mudança de regime da política monetária do Governo Federal, em meados de 1994, houve forte elevação da taxa de juros real básica praticada no mercado financeiro. Em função disso, os agentes financeiros passaram a exigir maiores taxas de juros. Como o Estado tradicionalmente gerava déficit primário e houve forte elevação do pagamento de juros, o resultado foi uma explosão do endividamento estadual entre 1994 e 1997. Diante do descontrole das contas públicas e dado que a hipótese de calote da dívida pública estava descartada, o Governo do Estado viu-se obrigado a assinar um acordo de renegociação da dívida estadual com o Governo Federal no ano de 1998. No bojo desse acordo, o Estado assumiu o compromisso de promover um ajuste fiscal rigoroso.1 Entretanto ele foi assinado sem se terem claros os fatores determinantes dos déficits primários no caso do Rio Grande do Sul. O presente artigo não visa analisar o acordo, mas, sim, utilizando-se de uma análise de regressão linear, testar diversas hipóteses sobre os determinantes do déficit primário, no caso gaúcho, para o período 1970-03. De fato, o que se busca é verificar se há relação entre as variáveis consideradas. Mesmo tendo-se presente os seus limites, aplica-se a abordagem da regressão linear, no presente artigo, por sua simplicidade e por ser amplamente conhecida. Ademais, é adequada para um estudo de caso, como é a proposta do artigo. Outras abordagens também são factíveis de serem aplicadas. Por exemplo, Hillbrecht e Veloso (2001) utilizam o modelo auto-regressivo (VAR) para testar hipóteses sobre os fatores determinantes dos sistemáticos déficits primários no caso gaúcho, entre 1970 e 1998. As hipóteses a serem testadas são classificadas em três categorias de fatores: os econômicos, os políticos e os institucionais. Dentre os fatores econômicos, foram consideradas variáveis como a taxa de crescimento do PIB 1 Sobre detalhes desse acordo, ver Santos e Calazans (1999) e Calazans, Brunet e Marques Jr. (2000). Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 727-754, 2008 Os determinantes da política fiscal no Estado do Rio Grande do Sul — 1970-03 729 real, uma medida do serviço da dívida, a aceleração da taxa de inflação e a relação gastos com pessoal/PIB. Como fatores políticos, consideram-se, dentre outros, o grau de coesão do Governo, o número de partidos da coalizão que forma o Governo, o percentual de deputados governistas na Assembléia Legislativa e o regime político (ditadura ou democracia). Entre os fatores institucionais levados em conta, têm-se um índice que mede se as instituições orçamentárias são hierárquicas e transparentes, o sistema partidário (bipartidário ou multipartidário) e o número de secretarias de estado. Visando testar as hipóteses, foram estabelecidos cinco modelos econométricos. Dos cinco modelos, estimaram-se 12 regressões, nas quais a variável dependente é a relação déficit primário/PIB. Dadas a maneira como os modelos foram especificados e as variáveis mensuradas, obtiveram-se evidências de que as instituições orçamentárias e o déficit primário defasado foram fatores determinantes do déficit primário no período em análise. O artigo está assim dividido: na segunda seção, apresenta-se a metodologia de estimação; na terceira, demonstram-se os modelos econométricos e as regressões estimadas, bem como os comentários sobre os resultados; na quarta e última seção, são tecidas as considerações finais. 2 Metodologia de estimação Na modelagem econométrica, empregou-se a abordagem clássica, ou seja, partindo-se de hipóteses sobre os determinantes do déficit primário, foram construídos diferentes modelos econométricos. Adotou-se, portanto, a estratégia, de incluir somente as variáveis fundadas nas discussões teóricas. Para alguns modelos econométricos, utilizou-se uma outra estratégia, também muito empregada na literatura pesquisada, qual seja, partindo-se de um modelo econométrico com determinado número de regressores, foram acrescentados regressores de interação. A análise proposta é a da regressão linear clássica. O método de estimação dos parâmetros é o de mínimos quadrados ordinários (MQO). Salienta-se que o principal objetivo da análise é verificar se há relação entre as variáveis e não o de testar hipóteses sobre a magnitude dos parâmetros ou realizar previsões. O software utilizado foi o Eviews (versão 3.0). Os dados são anuais e secundários (definições e sua apresentação encontram-se no Apêndice). Na definição dos modelos estimados, adotou-se um procedimento semelhante ao de Fialho (1997). Primeiramente, estimou-se um modelo em cuja especificação básica apareciam as variáveis explicativas mais uma estrutura Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 727-754, 2008 730 Liderau dos Santos Marques Junior de defasagens da variável dependente igual a três defasagens.2 Em segundo lugar, o modelo foi simplificado através da eliminação sucessiva das defasagens mais distantes. Em terceiro e último, a definição da especificação mais adequada do modelo foi feita com base nos critérios de informação de Akaike e Schwartz. Desse modo, a estrutura de defasagem resultante para a variável dependente em todos os modelos estimados, na terceira seção, foi a de uma defasagem. Antes da estimação dos modelos, fez-se o teste de raiz unitária para as séries econômicas. Adotou-se o seguinte procedimento para se obterem os resultados dos testes de Dickey-Fuller aumentado para as séries: (a) realizou-se uma seqüência de testes de raiz unitária de Dickey-Fuller aumentado com a presença da constante e da tendência, com constante e sem a presença da tendência e, por fim, sem constante e sem tendência na regressão;3 (b) assumindo-se os níveis de significância iguais a 1%, 5% e 10%, determinou-se o p para cada série; (c) com a escolha de p, realizou-se nova seqüência de testes de raiz unitária de Dickey-Fuller aumentado com a presença da constante e da tendência, com constante e sem a presença da tendência e, por fim, sem constante e sem tendência na regressão; (d) desta última seqüência de testes, chegou-se ao modelo para cada série, considerando-se o desempenho em termos de minimização dos critérios de Akaike e de Schwartz. Dependendo do nível de significância considerado, concluiu-se que cada série utilizada nas regressões das subseção 3.2 não apresentou presença de raiz unitária.4 Aplicaram-se os seguintes testes para os resíduos das regressões: o correlograma dos resíduos (oito defasagens incluídas), a estatística Q de Ljung-Box, o teste de normalidade através da estatística Jarque-Bera, o teste LM (até três defasagens) e o teste de heteroscedasticidade de White sem termos cruzados (por causa do tamanho pequeno das amostras).5 Empregou-se o teste 2 Fialho (1997) apresenta a seguinte especificação básica, a partir da qual se chegou ao modelo mais adequado a ser estimado: , Y t = a 0 + a 1Y t − 1 + a 2 Y t − 2 + .... + a n Y t − n + a n + 1 PB t + ε t, onde Y é uma variável qualquer no período t, e PBt é uma variável dummy qualquer. 3 O modelo adotado para os testes de Dickey-Fuller aumentado foi o seguinte: ∆ xt = a 0 + γx t−1 + a 2t + p ∑ i=1 π i ∆ x t − i + ε t , onde x representa a variável consi- derada; p é o número de defasagens; ε é o erro (ruído branco); e t, a tendência linear. Nos testes realizados, o número inicial de termos defasados foi igual a cinco. 4 Os resultados dos testes não são apresentados. 5 Esses testes são amplamente conhecidos, razão pela qual não cabe aqui apresentá-los. A estatística de Durbin-Watson não foi utilizada, porque, nos modelos econométricos propostos, a variável dependente defasada aparece como uma das variáveis explicativas. Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 727-754, 2008 Os determinantes da política fiscal no Estado do Rio Grande do Sul — 1970-03 731 Ramsey-RESET para detectar problemas de especificação dos modelos econométricos, considerando-se a variável dependente estimada elevada ao quadrado, ao cubo e à quarta potência.6 Em todas as regressões estimadas, os testes apontaram o que segue: (a) a estatística Q de Ljung-Box, para oito defasagens, indicou a não-rejeição da hipótese nula de ausência de autocorrelações significativas de resíduos; (b) a estatística Jarque-Bera indicou a não-rejeição da hipótese nula de uma distribuição normal de resíduos; (c) o teste LM, até a defasagem de ordem três, não rejeitou a hipótese nula de ausência de correlação serial de resíduos; (d) o teste de heteroscedasticidade de White, sem termos cruzados, não rejeitou a hipótese nula de ausência de heteroscedasticidade nos resíduos; por fim, (e) o teste Ramsey-RESET não rejeitou a hipótese de que os coeficientes da variável dependente estimada (elevada ao quadrado, ao cubo e à quarta potência) são todos iguais a zero. Aplicando-se o teste de White, encontrou-se a presença de heteroscedasticidade em duas regressões (Tabela 2); nesses casos, utilizaram-se os erros-padrão robustos. Quanto ao poder explicativo dos modelos, observou-se o R2 ajustado e, para a inferência, analisaram-se as estatísticas t e F. 6 Como esse teste também é conhecido, não será revisto neste espaço. Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 727-754, 2008 Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 727-754, 2008 - - - - .......... .......... .......... PO L 1D PO L 2D PO L 3D G P ............… … .. S - - - - - - -0,2 5 (1)(0 ,89 ) - 0 ,00 03 (1) (1 ,00 ) -0,0 4 (1) (1 ,36 ) 0 ,53 (1) (3 ,07 ) 2 (1 ) V a lores ab solu tos d as esta tísticas t. 3 ,33 0 ,23 - - - - - -0,1 3 (1 ) (0,9 2) - - 2 ,74 0 ,21 - - - - -0,5 4 (1 ) (1,1 8 ) - - -0 ,11 (1 ) (0,2 1 ) 0 ,00 0 3 (1 ) (1,0 8 ) -0 ,09 (1 )(1,5 6 ) 0 ,53 (1 ) (2,9 2 ) 5 3 ,24 0 ,26 - - - -0 ,6 9 (1) (1 ,5 2) - - -0 ,0 4 (1) (0 ,1 5) - 0 ,00 03 (1)(0 ,9 3) -0 ,06 (1)(1 ,8 0) 0 ,5 6 (1)(3 ,2 9) V A R IÁ V E L D E P E N D E N TE ∆ t 4 0,0 00 4 (1 ) (1,2 5) -0 ,05 (1 ) (1,5 7) 0,4 8 (1 ) (2,7 7) 3 R e gre ssõe s estim ad a s do s m o de lo s (1 ) e (2 ) E S TA TÍS TIC A F 3 ,04 3,3 2 R 2 A JU S TA D O .... 0 ,20 0,2 3 FO N TE : Ta be las A .1 , A .3 e A .4 . N O TA : Inc luiu -se um a co n stan te e m to d as a s re gressõ e s. ............… … … .. - PO L 3 ................ - - .............. PO L 2 0 ,05 (2) (0,1 1) .............. 0 ,00 03 (1) (0,9 4) -0 ,04 (1) (1,0 2) 0,5 0 (1) (2,7 9) 1 PO L 1 ∆ Π T ................... N T ....................... ∆ T-1 .................... V A R IÁ V E IS E X P LIC A TIV A S Tab ela 1 6 3,4 5 0,2 8 - - -0,2 6 (1 ) (1 ,73 ) - - -0 ,13 (1 ) (0 ,99 ) - - 0,0 00 4 (1 ) (1 ,50 ) -0,1 1 (1 ) (2 ,37 ) 0 ,47 (1 ) (2 ,81 ) 7 3 ,51 0 ,28 -0 ,02 (1 ) (0,0 4) 0,2 3 (1 ) (1,4 3) - - - - - - 0 ,00 02 (1 ) (0,8 6) - 0 ,35 (1 ) (1,7 3) 732 Liderau dos Santos Marques Junior 733 Os determinantes da política fiscal no Estado do Rio Grande do Sul — 1970-03 Tabela 2 Regressões estimadas do modelo (3) VARIÁVEIS EXPLICATIVAS VARIÁVEL DEPENDENTE ∆t 1 2 ∆t-1 .............................. 0,57 (1)(2,09) 0,50 (1)(2,26) COA .......................... 0,15 (1)(1,06) 0,10 (1)(0,69) NS .............................. -0,23 (1)(1,07) -0,10 (1)(0,79) COA*n .................... -0,01 (1)(0,44) - NS*n ........................ 0,03 (1)(0,77) - nt .................................. -0,38 (1)(0,80) -0,03 (1)(0,97) 0,0003 (1)(1,45) 0,0003 (1)(1,18) ∆πt .............................. Estatística F ............. 2 R ajustado ............... 1,85 2,61 0,16 0,20 FONTE: Tabelas A.1, A.3 e A.4. NOTA: Incluiu-se uma constante em cada uma das regressões. (1) Valores absolutos das estatísticas t. Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 727-754, 2008 734 Liderau dos Santos Marques Junior 3 Os determinantes políticos, econômicos e institucionais do déficit primário 3.1 Breve revisão de literatura sobre os determinantes do déficit primário do RS7 Nos trabalhos sobre finanças públicas do Rio Grande do Sul, são apontadas inúmeras hipóteses sobre os determinantes dos déficits primários. Segundo Moura Neto (1994), os déficits primários da década de 70 estão associados à baixa elasticidade das receitas estaduais em relação ao crescimento do PIB e ao comportamento ascendente das despesas, impulsionadas pelos elevados investimentos do período. Na década de 80, a manutenção das despesas operacionais em nível excessivamente elevado foi o fator preponderante para a ocorrência dos déficits primários. Para Rückert, Borsatto e Rabelo (2000), os déficits primários, nos anos 80, estão associados à queda da receita tributária, devido às elevadas taxas de inflação, e ao aumento da despesa. Nos anos 90, a trajetória dos déficits primários manteve-se, basicamente porque as despesas com pessoal e as transferências constitucionais cresceram mais do que a receita tributária. Para Santos e Calazans (1999), os seguintes fatores contribuíram para os desequilíbrios fiscais do RS entre 1970 e 1998: a queda das receitas inflacionárias e a elevação das taxas de juro reais no período posterior a 1994 e o aumento do gasto público real, em especial com pessoal, ao longo de todo o período em análise. Ao investigarem igual período, Calazans, Brunet e Marques Jr. (2000) apontam os mesmos fatores como determinantes dos constantes déficits primários no RS. Da discussão de Meneghetti Neto (2004) sobre os impactos econômicos dos incentivos fiscais, depreende-se que as renúncias fiscais praticadas por sucessivos governos gaúchos também contribuíram para o quadro de déficits primários crônicos. O trabalho de Hillbrecht e Veloso (2001) destaca-se dos anteriormente comentados, porque analisa empiricamente algumas hipóteses sobre os determinantes da despesa per capita e da receita per capita do Estado do Rio Grande do Sul, utilizando um modelo auto-regressivo para o período 1970-98. 7 Em Poterba e Hagen (1999), tem-se uma coletânea de trabalhos que testam as mais variadas hipóteses sobre os determinantes de déficits públicos para países. Em geral, esses estudos aplicam uma abordagem de painel de dados para testar as hipóteses. Para uma análise da América Latina, ver Borsani (2003). Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 727-754, 2008 Os determinantes da política fiscal no Estado do Rio Grande do Sul — 1970-03 735 Os autores consideram as seguintes variáveis como determinantes da despesa per capita e da receita per capita no caso gaúcho: a inflação brasileira, medida através do Índice Geral de Preços-Disponibilidade Interna (IGP-DI) da Fundação Getúlio Vargas (FGV); o Produto Interno Bruto per capita do RS; o número de órgãos da Administração Direta do Estado; o número de partidos políticos que formam o Governo; ano eleitoral; e a divisão do Governo, ou seja, o caso em que o partido que governa não detém o controle da Assembléia Legislativa. Após essa breve discussão, na seção seguinte, apresenta-se a análise empírica, onde são testadas algumas hipóteses sobre os determinantes dos déficits primários no caso do Rio Grande do Sul. 3.2 Os determinantes políticos e econômicos do déficit primário: uma primeira abordagem Tendo como referência Roubini e Sachs (1989), consideram-se dois modelos que levam em conta os seguintes fatores determinantes do déficit primário: e ∆ t = a0 + a1∆ t −1 + a2 nt + a3 ∆π t + a4 POLt + vt (1) ∆ t = a0 + a1∆ t −1 + a2 GPt + a3 ∆π t + a4 St + et (2) onde se têm a relação déficit primário/PIB, Ät; a relação déficit primário/PIB defasada, Ät-1; a taxa de crescimento do PIB real, nt; a aceleração da taxa de inflação, Äðt; a variável política, POLt; a relação despesa de pessoal e encargos/ /PIB, GPt; o sistema partidário em vigor, St; e, por último, vt e et são os termos dos erros. A variável que mede o grau de coesão do governo (POL) é construída de três maneiras diferentes. Na primeira construção, POL1, assume o valor zero, quando o mesmo partido detém a maioria no governo e na Assembléia Legislativa; assume valor igual a um, quando um partido ou uma coalizão detém o controle do governo, mas não é maioria na Assembléia Legislativa do Estado. Na segunda construção, POL2, tem o valor igual a zero, quando o mesmo partido controla o Executivo e detém a Presidência do Legislativo; assume o valor um, quando um partido controla o Executivo, mas um partido diferente preside o Legislativo. Na última construção, POL3, assume os seguintes valores: zero, quando o mesmo partido detém maioria no governo e na Assembléia Legislativa; um, quando se trata de um governo de coalizão formado por dois a três partidos; dois, quan- Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 727-754, 2008 736 Liderau dos Santos Marques Junior do o governo de coalizão é constituído por quatro ou mais partidos; e três, quando o partido do governador é minoria na Assembléia.8 Da primeira regressão, espera-se: (a) que o déficit primário seja uma função positiva do déficit primário defasado e entre zero e um, 0 < a1 < 1, admitindo-se que o ajustamento do déficit primário seja lento; (b) que o déficit primário seja uma função negativa da taxa de crescimento do PIB real, a2 < 0; (c) que a aceleração na taxa de inflação eleve o déficit primário, a3 > 0; (d) e, sendo a variável política POLt um índice que mede o grau de coesão do Governo Estadual, espera-se que seja diferente de zero e que afete positivamente o déficit primário, a4 > 0.9 Da segunda regressão, espera-se: que (a) que o déficit primário seja uma função positiva do déficit primário defasado e entre zero e um, 0 < a1 < 1; (b) que o déficit primário seja uma função positiva dos gastos com pessoal, a2 > 0; (c) que a aceleração na taxa de inflação eleve o déficit primário, a3 > 0; (d) que a variável sistema partidário, St, afete positivamente o déficit primário, a4 > 0. Este último fator é uma variável dummy, assumindo valor igual a zero durante a vigência do sistema bipartidário (1970-78) e valor igual a um ao longo do sistema multipartidário (1979-03). A Tabela 1 apresenta os resultados das estimações das regressões (1) e (2). Na coluna 1 da Tabela 1, todos os coeficientes têm o sinal correto, porém apenas o coeficiente do déficit primário defasado é significativamente diferente de zero. Nas colunas 2 e 3, novamente apenas o coeficiente do déficit primário defasado é significativo. Note-se que o sinal do coeficiente da variável política não é o esperado. Nas colunas 4, 5 e 6, têm-se o termo de interação entre a variável política e a taxa de crescimento econômico; na coluna 4, apenas o coeficiente do déficit primário defasado é significativo; na coluna 5, o coeficiente da taxa de crescimento do PIB real é significativo a 10% e apresenta o sinal correto; os demais coeficientes não são significativos, com exceção do déficit primário defasado. Na coluna 6, embora o sinal do coeficiente do termo de interação não seja o esperado, a variável política é significativa (ao nível de significância de 10%), quando interagindo com a variável dummy, POL3D. Os coeficientes significativos e com os sinais esperados são os referentes às variáveis déficit primário defasado e taxa de crescimento do PIB real. Por último, na coluna 7, apenas o coeficiente do déficit primário defasado é significativo a 10%; os demais não são significativamente diferentes de zero. As estatísticas F das sete regres- 8 Os dados referentes a essas variáveis encontram-se na Tabela A.3. 9 Sobre os dados, ver Tabelas A.1, A.2 e A.3. Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 727-754, 2008 Os determinantes da política fiscal no Estado do Rio Grande do Sul — 1970-03 737 sões da Tabela 1 rejeitam a hipótese nula de que todos os coeficientes são iguais a zero a 5% e a 10% de nível de significância. Os resultados obtidos corroboram as hipóteses de que o déficit primário corrente é determinado pelo déficit do período anterior e pela taxa de crescimento do PIB real — essa variável é importante somente quando se leva em conta o termo de interação. As demais variáveis mostraram-se não relevantes na determinação do déficit primário. 3.3 Os determinantes políticos e econômicos do déficit primário: uma segunda abordagem Retomando-se o modelo básico de Kontopoulos e Perotti (1999), considera-se o seguinte modelo econométrico:10 ∆ t = a0 + a1∆ t −1 + a2COAt + a3 NSt + a4 COAt * nt + a5 NS t * nt + a6 nt + a7 ∆π t + vt (3) onde Ät é a relação déficit primário/PIB; Ät-1 é a relação déficit primário/PIB defasada; COAt é o número total de partidos na coalizão; NSt é o número total de secretarias de estado, excetuando-se a Secretaria da Fazenda; nt é a taxa de crescimento do PIB real; COAt*nt e NSt*nt representam a interação entre os dois índices com a taxa de crescimento do PIB; Äðt é a aceleração da taxa de inflação; e vt é o erro. Como anteriormente, espera-se que o déficit primário corrente seja uma função positiva do déficit primário defasado, ou seja, que o coeficiente seja positivo e entre zero e um, 0 < a1 < 1. Quanto ao coeficiente da variável coalizão, espera-se que seja maior ou igual a zero, quando a variável dependente é o déficit primário, a2 > 0. Isto porque, do lado das despesas, quanto maior a coalizão, maiores serão as despesas; já do lado das receitas, pode-se ter tanto a manutenção como a diminuição da arrecadação de impostos. Espera-se que o coeficiente do termo de interação entre a variável política, COA, e a taxa de crescimento, n, seja maior ou igual a zero, a4 > 0. Espera-se que o coeficiente da variável política NS também afete positivamente o déficit primário, pois, quanto maior for a fragmentação dentro do Gover- 10 Na comparação com o modelo original, utiliza-se aqui a variável de política fiscal em nível e não a sua variação. Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 727-754, 2008 738 Liderau dos Santos Marques Junior no, maiores devem ser as despesas, portanto, a3 > 0. No que tange ao coeficiente do termo de interação entre o número de secretarias e a taxa de crescimento do PIB, NS*n, espera-se que seja negativo, a5 < 0. Em relação aos coeficientes das variáveis econômicas, espera-se que a6 < 0 e a7 > 0. A Tabela 2 apresenta os resultados das estimações. As colunas 1 e 2 têm como variável dependente o déficit primário;11 nota-se que apenas a variável explicativa, déficit primário defasado, é significativa, apresentando sinal e magnitude esperados. Nas colunas 1 e 2, o sinal do coeficiente da variável coalizão é o esperado, o que não ocorre com o coeficiente da variável número de secretarias. Na coluna 1, os coeficientes dos termos de interação não são significativos. Os sinais dos coeficientes das variáveis econômicas são os esperados, porém são não significativos. Note-se que, na coluna 2, se excluíram os termos de interação, apesar disso, apenas o coeficiente da variável explicativa déficit primário defasado manteve-se significativo. A estatística F da coluna 1 não rejeita a hipótese nula de que todos os coeficientes são iguais a zero a 1%, a 5% e a 10% de nível de significância. A estatística F da coluna 2 rejeita a hipótese nula de que todos os coeficientes são iguais a zero a 5% e a 10% de nível de significância. Considerando-se os resultados apresentados na Tabela 2, o déficit primário defasado é um importante e significativo determinante do déficit primário. Entretanto os fatores políticos, institucionais e econômicos não se mostraram significativos nas estimações do modelo básico. 3.4 Déficit primário, variáveis políticas e instituições orçamentárias Stein, Talvi e Grisanti (1999) discutem os arranjos institucionais e a performance da política fiscal de 26 países da América Latina e do Caribe. À luz dessa análise, propõe-se o seguinte modelo econométrico: ∆ t = a0 + a1∆ t −1 + a2 NEPt + a3 PGAt + a4 IOt + vt 11 (4) Para as duas regressões da Tabela 2, o teste de White indicou presença de heteroscedasticidade nos resíduos, aos níveis de significância de 5% e 10%. Diante desse problema, os valores t foram estimados considerando-se a matriz de White (heteroskedasticity consistent covariance matrix). Assim, utilizaram-se os erros-padrão robustos. Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 727-754, 2008 Os determinantes da política fiscal no Estado do Rio Grande do Sul — 1970-03 739 onde Ät é a relação déficit primário/PIB; Ät-1 é a relação déficit primário/PIB defasada; NEPt é o número efetivo de partidos; PGAt é o percentual de deputados governistas na Assembléia Legislativa do Estado; IOt representa as instituições orçamentárias; e vt é o erro. Espera-se que os coeficientes das variáveis déficit primário defasado e número efetivo de partidos sejam positivos, a1 e a2 > 0. O número efetivo de partidos é um índice definido como NEP= 1 onde vi é a proporção de repre∑vi2 sentantes do partido i na Assembléia Legislativa do Estado. Assim, quanto maior é o número de partidos com representantes na Assembléia, maior é o número efetivo de partidos. Admite-se que uma maior fragmentação política esteja associada a um maior déficit primário. Espera-se, além disso, que a variável política, PGA, percentual de deputados estaduais governistas na Assembléia, esteja negativamente relacionada ao déficit primário, a3 < 0. A variável instituições orçamentárias, IO, constitui-se num indicador que busca captar o impacto das instituições orçamentárias sobre os resultados fiscais. Segundo Alesina et al. (1996), trata-se de um índice que visa refletir todas as etapas do processo orçamentário (elaboração, aprovação e execução). Segundo ele, instituições orçamentárias mais hierarquizadas e transparentes refletem-se num valor de IO maior do que o das instituições mais colegiadas e não transparentes — quanto maior o valor de IO, menor é o déficit primário. Portanto, em relação ao coeficiente a4, espera-se um sinal negativo.12 Na Tabela 3, têm-se, então, os resultados da estimação. Os sinais dos coeficientes da coluna 1 estão de acordo com o esperado, porém apenas os coeficientes das variáveis déficit primário defasado e instituições orçamentárias são significativos a 10% de nível de significância. A estatística F da Tabela 3 rejeita a hipótese nula de que todos os coeficientes são iguais a zero a 5% e a 10% de nível de significância. Em suma, mais uma vez o déficit primário defasado mostrou-se um importante e significativo determinante do déficit primário. Outro determinante importante e significativo são as instituições orçamentárias que estão negativamente relacionadas com o déficit primário. A medida de fragmentação política, o número efetivo de partidos, mostrou-se uma variável irrelevante na determinação do déficit primário, o mesmo ocorrendo com o percentual de deputados governistas na Assembléia. 12 Na Tabela A.3, têm-se os dados referentes à variável instituições orçamentárias. Por falta de espaço, não se apresenta a fundamentação teórica do referido índice, a qual pode ser encontrada em Marques Jr. (2005). Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 727-754, 2008 740 Liderau dos Santos Marques Junior Tabela 3 Regressão estimada do modelo (4) VARIÁVEIS EXPLICATIVAS VARIÁVEL DEPENDENTE ∆t ∆ t-1 ………………………………………. 0,40 (1)(1,96) NEP ………………………………………. 0,15 (1)(0,94) PGA ……………………………………… -0,005 (1)(0,19) IO …………………………………………. -0,06 (1)(2,02) Estatística F ……………………………. 2 R ajustado ……………………………... 3,96 0,27 FONTE: Tabelas A.1, A.3 e A.4. NOTA: Incluiu-se uma constante em cada uma das regressões. (1) Valor absoluto da estatística t. 3.5 Déficit primário, variáveis econômicas e políticas e as instituições orçamentárias Alesina et al. (1996) demonstram que instituições orçamentárias transparentes e “hierárquicas” estão associadas a uma maior disciplina fiscal na América Latina, ao longo das décadas de 80 e 90. O modelo básico considerado aqui é o seguinte: ∆ t = a0 + a1∆ t −1 + a2 DITt + a3 nt + a4 IOt + a5 ∆π t + a6 APt + vt (5) onde DIT denota ditadura; AP é a relação entre número de aposentados e a população total do Estado em termos percentuais; e v é o erro. As demais variáveis são conhecidas. Definiu-se ditadura como os anos nos quais não se teve eleição para governador. Trata-se de uma variável dummy, assumindo valor igual a um de 1970 a 1981 e igual a zero nos demais anos. Espera-se que o déficit primário esteja negativamente relacionado com a ditadura, pois, na ausência de eleições, o governador está menos sujeito às demandas de grupos de interesse. O número de aposentados é a soma de pensionistas e inativos. Evidentemente, Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 727-754, 2008 741 Os determinantes da política fiscal no Estado do Rio Grande do Sul — 1970-03 espera-se que o sinal do coeficiente dessa variável seja positivo. Os sinais dos demais coeficientes são conhecidos. A Tabela 4 contém os resultados das estimações. Na coluna 1, tem-se o modelo básico completo, e, na coluna 2, excluíram-se as variáveis instituições orçamentárias e ditadura. Nas colunas 1 e 2, os sinais dos coeficientes são os esperados. No entanto, a estatística F da primeira regressão, coluna 1, é significativa a 10%, ao passo que a estatística F da segunda regressão, coluna 2, é significativa somente a um nível de significância maior do que 10%. Na coluna 1, apenas o coeficiente da variável instituições orçamentárias é significativo a 10% de nível de significância, ao passo que, na coluna 2, somente o coeficiente da variável déficit primário defasado é significativo. Em resumo, as instituições orçamentárias importam na determinação do déficit primário. Todavia as variáveis econômicas, com exceção do déficit primário defasado, não se mostraram relevantes como determinantes do déficit primário nessas duas últimas regressões estimadas. Tabela 4 Regressões estimadas do modelo (5) VARIÁVEIS EXPLICATIVAS ∆t-1 ....................................... VARIÁVEIS DEPENDENTES ∆t 1 0,38 (1)(1,69) DIT ..................................... -0,06 (1)(0,11) n ............................................ -0,03 (1)(0,64) IO ........................................ -0,06 (1)(1,79) ∆πt ....................................... AP ....................................... Estatística F ...................... 2 R ajustado ........................ 2 0,50 (1)(2,24) -0,04 (1)(0,96) - 0,0003 (1)(0,94) 0,0003 (1)(0,92) 1,01 (1)(1,03) 0,13 (1)(0,21) 2,10 2,15 0,19 0,14 FONTE: Tabelas A.1, A.3 e A.4. NOTA: Incluiu-se uma constante em cada uma das regressões. (1) Valores absolutos das estatísticas t. Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 727-754, 2008 742 Liderau dos Santos Marques Junior 4 Considerações finais Em termos resumidos, os resultados obtidos dão conta do seguinte: a taxa de crescimento do PIB real e as instituições orçamentárias reduzem o déficit primário. Portanto, quanto mais a economia gaúcha crescer e quanto mais hierárquicas e transparentes forem as instituições orçamentárias, menores serão as chances de ocorrência de déficits primários no caso do Rio Grande do Sul. Contudo levanta-se a seguinte questão: como se explicam, então, os contínuos déficits primários entre 1970 e 2003? Ora, o coeficiente da variável explicativa déficit primário defasado é positivo e significativo em todas as regressões estimadas. Isso significa que o déficit primário tende a persistir de um ano para outro. A partir dos resultados obtidos, e na falta de uma teoria positiva sobre o problema, os déficits primários persistem, porque as taxas de crescimento do PIB real estadual são irregulares e não são suficientemente elevadas; além disso as instituições orçamentárias não são hierárquicas e transparentes o suficiente para quebrarem o regime de crônicos déficits primários. O comportamento do PIB gaúcho está associado, em boa medida, ao desempenho do agronegócio e do setor agrícola, que, por sua vez, depende de fatores climáticos. A falta de instituições orçamentárias hierárquicas está associada à ausência de um Secretário da Fazenda forte na definição da política fiscal estadual. O órgão governamental responsável pela elaboração da peça orçamentária a ser encaminhada para discussão na Assembléia Legislativa é a Secretaria do Planejamento.13 Durante o processo orçamentário, o Secretário da Fazenda limita-se a projetar a receita para o exercício seguinte. Depois de aprovado o orçamento estadual, os demais secretários passam a colocar em prática seus projetos. A Secretaria da Fazenda tem controle sobre o que e quanto está sendo gasto por secretaria, pois existe um setor dentro da própria Fazenda responsável pelo acompanhamento das três fases da despesa (empenho, liquidação e pagamento final).14 Todavia o Secretário da Fazenda não tem poder para determinar o quanto vai ser gasto; sua função limita-se a levantar recursos para fazer frente aos compromissos. A persistência pode ser explicada por outras razões. Do lado das despesas, tem-se: (a) o crescimento da folha de pagamento dos servidores públicos, 13 Para uma análise do processo orçamentário no Estado do Rio Grande do Sul e para uma discussão sobre o orçamento participativo, ver Marques Jr., Porto Junior e Florissi (2004). 14 Moraes Jr. (2003) apresenta uma descrição mais detalhada do processo de execução do orçamento. Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 727-754, 2008 Os determinantes da política fiscal no Estado do Rio Grande do Sul — 1970-03 743 que se dá em razão da concessão de aumentos salariais, da contratação de novos servidores e dos planos de carreira das diferentes categorias de servidores públicos estaduais; (b) os gastos de custeio que se elevam pari passu com a máquina pública estadual; (c) os investimentos públicos realizados; (d) as decisões judiciais concedendo aumento de salários para os servidores públicos e ganhos de causa contra o Estado; (e) a autoconcessão de aumento de salários por parte dos Poderes Legislativo e Judiciário. Do lado da receita, entre 1970 e 1985, a carga tributária estadual apresentou uma tendência de queda. Além disso, não podem ser esquecidos os problemas de sonegação fiscal, ineficiência da máquina arrecadadora do Tesouro Estadual e as renúncias fiscais levadas a cabo no período, visando incentivar este ou aquele setor produtivo.15 O objetivo de testar hipóteses sobre os determinantes dos déficits público e primário no Rio Grande do Sul foi atingido. Entretanto ressalta-se que as conclusões dependem da abordagem escolhida, da forma como os modelos foram especificados e de como as variáveis foram mensuradas. Assim, o estudo em questão pode ter continuidade trabalhando-se com outras especificações de modelos econométricos, com outras variáveis e com outras abordagens. Desse modo, pode-se chegar a um consenso sobre os principais determinantes da política fiscal gaúcha. 15 Para uma análise sobre a questão das renúncias fiscais, ver Meneghetti Neto (2004) e Bordin (2003). Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 727-754, 2008 744 Liderau dos Santos Marques Junior Apêndice Tabela A.1 Carga tributária, relação déficit primário/PIB e relação (DT-SD)/PIB da Administração Direta do RS — 1970-03 ANOS DT-SD (1) (2) (R$) PIB (2) (R$) (DT-SD)/PIB (%) τt (3) ∆t (4) 2,17 1970 0,0005446611 0,0053127273 10,25 8,08 1971 0,0006808375 0,0072254545 9,42 8,20 1,22 1972 0,0009018695 0,0094036364 9,59 7,77 1,82 1973 0,0012945957 0,0146036364 8,86 6,82 2,04 1974 0,0017727778 0,0208254545 8,51 6,39 2,12 1975 0,0026582393 0,0291345455 9,12 6,59 2,53 1976 0,0036927415 0,0454654545 8,12 5,59 2,53 1977 0,0049066276 0,0683200000 7,18 5,90 1,28 1978 0,0075037516 0,0989090909 7,59 5,64 1,95 1979 0,0116956065 0,1600290909 7,31 5,47 1,84 1980 0,0239233054 0,3426581818 6,98 5,47 1,51 1981 0,0562233207 0,6697418182 8,39 6,02 2,37 1982 0,1277944273 1,29 9,91 6,45 3,46 1983 0,2811111822 3,41 8,24 5,46 2,78 1984 0,86 10,96 7,85 5,48 2,37 1985 3,31 38,41 8,62 5,26 3,36 1986 9,16 100,78 9,09 6,93 2,16 1987 24,18 316,51 7,64 5,68 1,96 1988 1989 163,26 3.042,89 2.461,90 37.598,05 6,63 8,09 5,00 5,91 1,63 2,18 (continua) Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 727-754, 2008 745 Os determinantes da política fiscal no Estado do Rio Grande do Sul — 1970-03 Tabela A.1 Carga tributária, relação déficit primário/PIB e relação (DT-SD)/PIB da Administração Direta do RS — 1970-03 ANOS DT-SD (1) (2) (R$) PIB (2) (R$) (DT-SD)/PIB (%) τt (3) ∆t (4) 1990 100 462,75 939 363,36 10,69 7,36 3,33 1991 404 276,14 4 666 959,96 8,66 6,72 1,94 1992 5 250 591,13 54 964 960,96 9,55 6,19 3,36 1993 104 164 099,26 1 260 808 219,27 8,26 5,74 2,52 1994 2 747 296 328,00 31 129 234 456,59 8,83 6,92 1,91 1995 4 854 297 768,00 53 652 946 827,60 9,05 6,77 2,28 1996 6 550 116 607,00 63 262 677 226,56 10,35 6,63 3,72 1997 7 409 530 180,00 69 221 313 934,13 10,70 6,12 4,58 1998 7 532 508 400,00 70 541 889 405,25 10,68 6,40 4,28 1999 7 344 518 854,00 75 450 458 225,36 9,73 6,55 3,18 2000 8 552 980 901,00 85 137 542 554,42 10,05 7,00 3,05 2001 10 024 607 431,00 97 310 194 511,19 10,30 7,34 2,96 2002 2003 10 138 142 476,00 10 489 471 474,00 109 742 129 653,58 130 744 187 478,34 9,24 8,02 7,12 7,51 2,12 0,51 FONTES DOS DADOS BRUTOS: BALANÇO GERAL DO ESTADO DO RIO GRANDE DO FONTES DOS DADOS BRUTOS: SUL. Porto Alegre: Secretaria da Fazenda, 1970-2003. FONTES DOS DADOS BRUTOS: FEE. (1) DT é a despesa total, e SD é o serviço da dívida.(2) Reais a preços correntes. (3) τt é a carga tributária. (4) ∆t é o déficit primário/PIB, onde ∆t=[(DT-SD)/PIB]-τt; Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 727-754, 2008 746 Liderau dos Santos Marques Junior Tabela A.2 Variáveis econômicas no RS — 1970-03 ANOS nt (1) 1970 1971 1972 1973 1974 1975 1976 1977 1978 1979 1980 1981 1982 1983 1984 1985 1986 1987 1988 1989 1990 1991 10,54 8,05 13,86 10,24 6,22 9,11 4,03 3,55 4,15 11,86 -1,82 -0,11 -0,77 4,86 4,70 1,38 4,08 -1,25 3,36 -6,64 -2,20 πt (2) bt (3) 19,27 19,48 15,73 15,53 34,56 29,33 46,27 38,79 40,81 77,24 110,23 95,2 99,73 211,02 223,81 235,13 65,04 415,95 1.037,53 1.782,85 1.476,71 480,23 6,18 5,06 4,55 4,20 4,39 4,91 5,85 5,34 5,84 6,66 5,13 6,99 9,94 11,87 14,32 15,65 10,59 17,40 20,99 26,30 16,67 19,11 ∆(rt-nt)bt-1 (4) -65,08 12,70 -26,44 14,66 17,82 -14,58 30,01 2,51 -4,38 -51,95 70,38 -11,95 4,77 -67,30 2,86 57,12 -33,78 90,48 -97,60 263,53 -72,18 GPt (5) gt (6) 3,35 3,52 3,05 2,69 2,64 3,01 2,86 2,57 2,78 2,90 2,72 3,10 3,56 3,20 4,18 4,09 5,81 4,67 4,05 4,49 5,93 5,05 10,25 9,42 9,59 8,86 8,51 9,12 8,12 7,18 7,59 7,31 6,98 8,39 9,91 8,24 7,82 8,64 9,09 7,64 6,63 8,09 10,69 8,66 (continua) Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 727-754, 2008 747 Os determinantes da política fiscal no Estado do Rio Grande do Sul — 1970-03 Tabela A.2 Variáveis econômicas no RS — 1970-03 ANOS nt (1) 1992 1993 1994 1995 1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 8,30 10,78 5,19 -5,01 0,47 6,06 -0,53 3,00 4,44 3,10 1,76 4,28 πt (2) bt (3) 1.157,84 2.708,17 1.093,85 14,77 9,33 7,48 1,71 19,99 9,80 10,40 26,41 7,66 24,37 29,98 15,31 15,05 16,54 19,56 21,01 23,28 23,82 24,32 25,94 23,16 ∆(rt-nt)bt-1 (4) -202,57 -61,41 169,09 168,41 -81,72 -92,29 129,68 -77,32 -31,32 31,92 29,67 -62,00 GPt (5) gt (6) 5,52 4,86 5,18 5,78 6,14 5,68 6,14 6,04 5,82 5,55 5,72 4,80 9,55 8,26 8,83 9,05 10,35 10,70 10,68 9,73 10,05 10,30 9,24 8,02 FONTES DOS DADOS BRUTOS: FEE. FGV. BALANÇO GERAL DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL. Porto Alegre: Secretaria da Fazenda, 1970-2003. (1) nt é a taxa de crescimento do PIB real do Rio Grande do Sul. (2) πt é a taxa de inflação medida pelo IGP-DI (FGV). (3) bt é a relação dívida pública total/PIB. (4) ∆(rt-nt)bt-1 é a variação na diferença entre a taxa de juros real e a taxa de crescimento do PIB multiplicada pela relação dívida/PIB defasada; a taxa de juros nominal, it, foi calculada considerando-se a relação juros/dívida pública total; a taxa de juros real é dada por [(1+it)/(1+πt)]-1. (5) GPt é a relação gastos com pessoal/PIB. (6) gt é a relação (despesa total-serviço da dívida)/PIB. Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 727-754, 2008 POL1 1 0 0 0 0 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 ANOS 1970 1971 1972 1973 1974 1975 1976 1977 1978 1979 1980 1981 1982 1983 1984 1985 1986 1987 1988 1989 1990 1991 Tabela A.3 Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 727-754, 2008 1 0 0 0 0 1 1 1 1 0 1 1 1 1 1 0 0 0 0 0 0 0 POL2 1 3 3 3 3 3 3 3 3 3 3 3 3 3 3 3 3 0 0 0 0 3 POL3 1 1 0 1 0 0 0 0 1 1 1 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 - POL1D (1) 1 0 0 0 0 1 0 0 1 0 1 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 - POL2D (1) 3 3 0 3 0 3 0 0 3 3 3 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 - POL3D (1) 0 1 0 0 0 1 0 0 0 1 0 0 0 1 0 0 0 1 0 0 0 1 ELE 35 35 35 35 35 35 35 35 35 35 35 35 35 35 35 35 35 35 35 35 35 35 IO (2) 3 3 2 2 2 2 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 COA Variáveis políticas e institucionais para o RS — 1970-03 -6,60 -19,92 6,72 -2,50 8,16 2,76 4,70 4,86 -0,77 -0,11 -1,82 11,86 4,15 3,55 4,03 9,11 6,22 10,24 13,86 8,05 10,54 - COA*n (3) 2 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 0 0 0 0 0 0 0 0 0 S 3 14 12 12 12 12 12 12 13 13 13 13 13 13 13 13 13 13 13 13 13 12 12 NS (continua) -30,80 -79,68 40,32 -15,00 48,96 16,56 56,40 63,18 -10,01 -1,43 -23,66 154,18 53,95 46,15 52,39 118,43 80,86 133,12 180,18 104,65 126,48 - NS*n (4) 748 Liderau dos Santos Marques Junior 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1992 1993 1994 1995 1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 0 1 1 1 1 0 0 0 0 0 0 1 POL2 2 2 2 2 2 1 1 1 1 1 1 1 POL3 0 0 0 0 0 1 0 1 1 0 0 0 POL1D (1) 0 1 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 POL2D (1) 2 2 0 0 0 1 0 1 1 0 0 0 POL3D (1) 0 1 0 0 0 1 0 0 0 1 0 0 ELE 59 59 59 59 35 35 35 35 35 35 35 35 IO (2) 7 3 3 4 4 6 6 6 6 2 2 2 COA Variáveis políticas e institucionais para o RS — 1970-03 29,96 5,28 9,30 17,76 12,00 -3,18 36,36 2,82 -30,06 10,38 21,56 16,60 COA*n (3) 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 S2 16 15 15 15 16 15 15 14 14 11 11 11 NS3 68,48 26,40 46,50 66,60 48,00 -7,95 90,90 6,58 -70,14 57,09 118,58 91,30 NS*n (4) complementados com novos dados. (2) Ver Marques Junior (2005). (3) COA*n é simplesmente o produto entre a taxa de crescimento . n do PIB real e a variável COA (4) NS* é dada pelo produto entre o número de secretarias e a taxa de crescimento do PIB real. FONTE DOS DADOS BRUTOS: HILLBRECHT, Ronald O.; VELOSO, Gilberto de Oliveira. Determinantes econômicos, políticos e institucionais da política fiscal do Estado do Rio Grande do Sul entre 1964 e 1998. Porto Alegre: UFRGS, Faculdade de Ciências Econômicas, Programa de Pós-Graduação em Economia, 2001. (Texto para discussão, n.04). NOLL, Maria Izabel. Partidos e eleições no Rio Grande do Sul. In: BAQUERO, Marcello et al. (Org.). Opinião pública, transição e eleições no Brasil. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 1995. BALANÇO GERAL DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL. Porto Alegre: Secretaria da Fazenda, 1970-2003. (1) A variável qualitativa POLD é dada pelo produto entre a variável POL e uma variável dummy que assume valor igual a zero em anos de crescimento elevado e a um nos anos de baixo crescimento econômico ( menos de 1% ou crescimento negativo; as séries foram POL1 ANOS Tabela A.3 Os determinantes da política fiscal no Estado do Rio Grande do Sul — 1970-03 749 Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 727-754, 2008 750 Liderau dos Santos Marques Junior Tabela A.4 Demais variáveis para o RS — 1970-03 ANOS PGA NEP DIT 1970 1971 1972 1973 1974 1975 1976 1977 1978 1979 1980 1981 1982 1983 1984 1985 1986 1987 1988 1989 49,09 54,00 54,00 54,00 54,00 41,07 41,07 41,07 41,07 44,64 44,64 44,64 44,64 41,07 41,07 41,07 41,07 49,10 49,10 49,10 2,0 2,0 2,0 2,0 1,9 1,9 1,9 1,9 2,0 2,0 2,0 2,0 2,8 2,8 2,8 2,8 3,2 3,2 3,2 3,2 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 0 0 0 0 0 0 0 0 AP (%) 0,32 0,32 0,33 0,34 0,35 0,36 0,37 0,39 0,44 0,47 0,51 0,54 0,57 0,60 0,62 (continua) Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 727-754, 2008 751 Os determinantes da política fiscal no Estado do Rio Grande do Sul — 1970-03 Tabela A.4 Demais variáveis para o RS — 1970-03 ANOS PGA NEP DIT AP (%) 1990 1991 1992 1993 1994 1995 1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 49,10 25,46 25,46 25,46 25,46 21,82 21,82 21,82 21,82 23,64 23,64 23,64 23,64 21,81 5,2 5,2 5,2 5,2 6,1 6,1 6,1 6,1 5,8 5,8 5,8 5,8 6,6 6,6 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0,64 0,63 0,65 0,84 0,89 0,92 0,96 0,98 1,02 1,07 1,08 1,08 1,08 1,10 FONTE DOS DADOS BRUTOS: AXT, Vladimir G. et al. 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Analisa-se, assim, a densidade das estruturas produtiva, educacional e institucional locais. Utilizam-se informações de fontes secundárias e, principalmente, evidências empíricas advindas de pesquisa de campo. O artigo organiza-se em quatro seções: na primeira, é feita uma caracterização geral desse arranjo; na segunda, apresentam-se as características das empresas do principal segmento produtivo do arranjo; na terceira seção, discute-se o papel dos agentes pertencentes à infra-estrutura institucional do arranjo; e, na quarta e última seção, sintetizam-se as principais conclusões. Palavras-chave Aglomerações produtivas; arranjo de máquinas agrícolas; máquinas agrícolas no Rio Grande do Sul. * Este artigo foi elaborado, tendo por base o Capítulo 4 da Tese de Doutorado da autora, intitulada O Processo de Aprendizagem em Arranjos Produtivos Locais: O Caso do Arranjo de Máquinas e Implementos Agrícolas do Rio Grande do Sul, defendida junto ao Instituto de Economia da UFRJ, em março de 2006. Artigo recebido em abr. 2007 e aceito para publicação em ago. 2007. ** E-mail: [email protected]* Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 755-774, 2008 756 Ana Lúcia Tatsch Abstract The aim of this paper is to examine the patterns of interaction between agents of the agricultural machinery and implements Local Productive Arrangement in Rio Grande do Sul. At the core of that Local Productive Arrangement, one finds manufacturers of agricultural equipment and suppliers of machinery components. The Arrangement has a fairly heterogeneous structure, since it comprehends firms of various sizes, firms of national and foreign capital, and manufacturers of a diverse range of products, with varying levels of technological sophistication, some oriented towards the regional market, some to the national market, and still others to the international market. The manufacturing complex also comprises a number of other organizations, devoted to education, training, and research, and representations of class interests. One also finds various financial institutions. Key words Local productive arrangements; agricultural machinery arrangement; agricultural machinery in Rio Grande do Sul. Classificação JEL: R11, L62. Este artigo tem como objetivo principal caracterizar o arranjo1 de máquinas e implementos agrícolas localizado na região noroeste do Rio Grande do Sul, através da descrição dos atores nele presentes, bem como do entendimento de seus papéis e das formas de articulação entre eles. Dessa forma, pretende-se analisar a densidade das estruturas produtiva, educacional e institucional locais. Para tanto, utilizam-se informações de fontes secundárias e, principalmente, evidências empíricas e conhecimentos advindos de pesquisa de campo. Tal pesquisa foi realizada junto às empresas do principal segmento produtivo da aglomeração e envolveu diversos indivíduos vinculados a diferentes organizações 1 Os sistemas produtivos e inovativos locais podem ser definidos como “[...] conjuntos de agentes econômicos, políticos e sociais, localizados em um mesmo território, desenvolvendo atividades econômicas correlatas e que apresentam vínculos expressivos de produção, interação, cooperação e aprendizagem” (RedeSist, 2005, p.1). Já os arranjos produtivos locais não são considerados sistemas, em razão de a articulação entre os agentes ser ainda ausente ou incipiente. Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 755-774, 2008 O arranjo de máquinas e implementos agrícolas do Rio Grande do Sul:... 757 pertencentes ao arranjo, fornecendo, assim, subsídios para que se possa melhor compreender a dinâmica desse arranjo de máquinas e implementos agrícolas. O artigo está organizado em quatro seções: na primeira, procura-se fazer uma caracterização geral do arranjo de máquinas e implementos agrícolas do Rio Grande do Sul; na segunda, com base na investigação direta, são apresentadas as características das empresas do principal segmento produtivo do arranjo; na terceira seção, discute-se o papel dos agentes pertencentes à infra-estrutura institucional do arranjo; e, na quarta e última seção, sintetizam-se as principais conclusões. 1 Características gerais do arranjo de máquinas e implementos agrícolas do Rio Grande do Sul Esse arranjo concentra a quase-totalidade das empresas da indústria de máquinas e implementos agrícolas do Rio Grande do Sul, e, nele, estão localizadas as plantas das duas maiores empresas de maquinário agrícola do Estado: a AGCO e a John Deere. No entanto, não reúne territorialmente todos os diferentes segmentos que integram a sua cadeia produtiva, pois, embora se encontre lá grande parte dos fabricantes de maquinário e equipamentos agrícolas gaúchos, bem como uma série de fabricantes de peças e componentes, muitos fornecedores de insumos e equipamentos, como se verá adiante, estão situados em outras regiões do Estado, do Brasil e até fora do País. Essa grande concentração da indústria de máquinas e implementos agrícolas no Rio Grande do Sul, em especial na região noroeste do Estado, deve-se às questões históricas relativas ao início do plantio agrícola e ao processo de mecanização, assim como à posição estratégica em relação ao Mercosul. Vê-se, em anos recentes, uma expansão das grandes fronteiras agrícolas para a Região Centro-Oeste e, em parte, para as Regiões Norte e Nordeste do Brasil, porém a indústria de maquinário agrícola continua bastante concentrada em sua região de origem, o que está, sem dúvida, atrelado às especificidades e às externalidades relacionadas a essa aglomeração. Como a própria denominação já indica, esse arranjo tem sua produção voltada particularmente para a fabricação de máquinas e implementos agrícolas, abarcando um conjunto de empresas de tamanhos diversos. Compreende, assim, uma estrutura heterogênea, da qual fazem parte empresas de grande porte, de capital estrangeiro, produtoras de maquinário automotriz, voltadas para os Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 755-774, 2008 758 Ana Lúcia Tatsch mercados nacional e internacional, mas também empresas de grande e médio portes, de capital nacional, que fabricam implementos agrícolas de tração mecânica tanto para o mercado doméstico quanto para o externo. Há, ainda, empresas de menor tamanho, de capital nacional, produtoras de equipamentos de menor complexidade, voltados para o mercado nacional, mas principalmente para o regional. No arranjo, também estão presentes várias empresas produtoras de peças e de componentes para as firmas fabricantes de equipamento agrícola de uso final. Tais empresas fabricam uma gama diversa de produtos, com níveis tecnológicos diferentes e escalas de produção distintas. Em geral, elas são de pequeno e médio portes, com capital nacional e gestão familiar. Normalmente, estabelecem relações de subcontratação com aquelas produtoras de maquinário automotriz. Ocorre também de uma mesma empresa fabricar componentes para uma montadora de maquinário automotriz e, ao mesmo tempo, ofertar outros equipamentos agrícolas de uso final com sua própria marca. Contudo há uma parcela dessas empresas que confecciona peças, componentes e sistemas não exclusivamente para o segmento de equipamentos agrícolas, mas para diversos outros mercados, como o automobilístico. Há também uma oferta de serviços diversos. Dentre esses, podem-se citar aqueles que são etapas do processo produtivo, como fundição e usinagem, e que são, normalmente, terceirizados, porém há também outros, como manutenção e assistência técnica. Existem empresas que prestam serviços de contabilidade e de informática às demais firmas, bem como as que oferecem serviços de segurança, alimentação e limpeza. Contudo existe um elenco significativo de firmas fornecedoras de matérias-primas e insumos, e até mesmo de peças, assim como de equipamentos de fabricação (máquinas-ferramentas) que se encontram fora dessa estrutura produtiva regional, instalados em outras regiões ou fora do País. Logo, considera-se que a densidade desse arranjo, no que diz respeito à concentração territorial dos diferentes segmentos que compõem essa cadeia produtiva de maquinário agrícola, é de natureza intermediária ou baixa. No entanto, o grau dessa densidade pode variar em virtude do porte da empresa em consideração e pelas várias características decorrentes do tipo de produto ofertado. Isto é, as pequenas firmas, por exemplo, conseguem mais facilmente suprir suas demandas de componentes localmente, diferentemente das grandes empresas produtoras de maquinário automotriz, que, em razão da complexidade de seus produtos e dos padrões tecnológicos que seguem, necessitam buscar fornecedores especializados em diversos lugares fora do arranjo. Assim, os elos dessa estrutura produtiva podem ser, em algumas situações, mais locais e, em outras circunstâncias, nem tanto. Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 755-774, 2008 O arranjo de máquinas e implementos agrícolas do Rio Grande do Sul:... 759 Também por ser diverso o alcance da produção das empresas do arranjo, ou seja, por atuarem em nichos de mercado com requisitos de complexidade tecnológica diferentes, as estruturas de governança implícitas a cada segmento de mercado não são idênticas e possuem especificidades. No caso das grandes empresas produtoras de maquinário automotriz, suas matrizes, já que possuem capital estrangeiro, influenciam suas trajetórias de desenvolvimento, bem como sua capacitação produtiva e inovativa. As grandes e as médias empresas nacionais, ao buscarem inserir-se em mercados internacionais, procuram ter como parâmetro as empresas líderes de mercado. Já as pequenas vêem, tanto nessas empresas nacionais quanto nas multinacionais, exemplos a serem seguidos e imitados. Dito isso, vale ainda comentar alguns aspectos atinentes às peculiaridades de cada região dentro do arranjo. No entorno de Santa Rosa, observa-se a predominância de firmas menores, que, na maioria dos casos, fabricam peças e componentes para as montadoras de maquinário agrícola de maior porte e complexidade. Essas empresas fabricantes de peças e componentes, na maior parte das vezes, são subcontratadas daquelas fabricantes de maquinário automotriz (tratores e colheitadeiras). Entretanto algumas delas produzem, além dessas peças, implementos agrícolas mais simples. Nessa região, localizam-se, ainda, importantes empresas de maior porte, como a AGCO, em Santa Rosa, e a John Deere, em Horizontina, que produzem máquinas automotrizes, e também a Fankhauser, em Tuparendi. Tanto a AGCO quanto a John Deere são grandes responsáveis pela demanda de produtos das demais firmas de menor porte que se situam ao redor delas. Percebe-se que, de maneira geral, existem relações de subcontratação de natureza estável, que, na maioria das vezes, envolvem relações de cooperação e de aprendizado. Verifica-se, portanto, que essas duas grandes empresas influenciam a trajetória de desenvolvimento e de capacitação produtiva e até inovativa de outras empresas do arranjo. Já nos municípios próximos a Passo Fundo, sobretudo em Não-Me-Toque e Carazinho, prevalecem empresas que fabricam maquinário e implementos agrícolas propriamente. Dentre elas, podem-se citar a Semeato e a Metasa em Passo Fundo, a Stara, a Jan, a Grazmec e a Stahar em Não-Me-Toque e a Max e a Gihal em Carazinho. Vale comentar que há todo um empenho das organizações de Não-Me-Toque, seja das próprias empresas, seja da Cooperativa Tritícola Mista Alto Jacuí (Cotrijal), da prefeitura e das demais associações, no sentido de o município ser reconhecido pela qualidade em implementos, o que levou à concentração de esforços para a criação de uma grande feira nesse município, a Expodireto. No entorno de Ijuí, vê-se uma menor especialização em equipamentos agrícolas, embora lá esteja uma tradicional empresa gaúcha, a Imasa. Em Ibirubá, Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 755-774, 2008 760 Ana Lúcia Tatsch estão a Vence Tudo e a Fortaleza. Já em Panambi, há uma forte concentração de firmas do ramo metal-mecânico, porém muitas empresas fabricam componentes e sistemas para vários setores, especialmente para o automobilístico e também, em alguns casos, para a indústria de equipamentos agrícolas, como é o caso da Fockink e da Bruning e de outras de menor porte. Ao não direcionarem toda a sua produção ao segmento de maquinário agrícola, essas empresas procuram diversificar produtos e clientes ao atenderem outros mercados, não ficando à mercê das oscilações inerentes à demanda dos produtores agrícolas. Em Panambi, está também a Kepler e Weber, grande empresa produtora de silos para armazenagem de grãos. Ainda com relação às características dos municípios do arranjo, cabe destacar que há diferença entre as localidades de Santa Rosa e de Horizontina, pois o pólo de Santa Rosa possui um maior número de empresas e uma maior especialização no ramo metal-mecânico voltado para o segmento agrícola, onde a maioria dessas pequenas firmas é subcontratada da AGCO. Isso se deve, em grande parte, ao fato de que essa empresa, ainda quando se denominava Maxion, passou por um forte processo de desverticalização e, portanto, de terceirização de partes de seu processo produtivo, incentivando muitos de seus funcionários a criarem suas próprias empresas, na maioria das vezes, com equipamentos em comodato. Logo, muitos dos donos das empresas da localidade são ex-funcionários da antiga Ideal/Maxion ou da própria AGCO. Quando do início desse processo de terceirização, ainda na época da Maxion, houve uma forte crise no setor, e, devido à retração nas compras desta última, várias pequenas empresas tiveram que encerrar seus negócios, ou quase. No momento em que o grupo norte-americano assumiu a empresa e esta se tornou AGCO, houve uma maior exigência em termos de qualificação e/ou certificação dos produtos a ela fornecidos, fazendo, novamente, com que somente aqueles mais eficientes sobrevivessem e permanecessem no mercado. Tais exigências ocorreram não só em termos de qualidade dos produtos, mas também de complexificação dos produtos demandados, pois a grande empresa montadora passou a requerer, além de componentes isolados, sistemas de componentes. Isso implicou uma maior integração entre a montadora e seus fornecedores, calcada em ações cooperativas de capacitação tecnológica. Próximo à John Deere, em Horizontina, esse processo de desverticalização da empresa não ocorreu à época da SLC, mas bem mais recentemente, não contribuindo para o fortalecimento das empresas ao seu redor. Hoje, porém, a John Deere também começa a terceirizar parte da fabricação de seus componentes, porém, como não consegue suprir suas necessidades no próprio Município de Horizontina, acaba recorrendo aos fabricantes de Santa Rosa, que se encontram melhor estruturados e a vêem como um relevante cliente em Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 755-774, 2008 O arranjo de máquinas e implementos agrícolas do Rio Grande do Sul:... 761 potencial. Do ponto de vista desses fabricantes, diversificar seus compradores é importante para diminuir a sua dependência da AGCO. Além desse conjunto de empresas, o arranjo é também formado por uma série de outras organizações. Dentre elas, podem-se citar aquelas voltadas para educação, treinamento, pesquisa — universidades, escolas técnicas e centros de pesquisa — e de representação de interesses específicos — associações, cooperativas de agricultores e sindicatos. Procura-se, a seguir, elencar os demais atores locais presentes no arranjo. Observa-se a presença de uma significativa infra-estrutura educacional, que compreende um conjunto de diferentes agentes, dentre os quais, pode-se mencionar uma série de estabelecimentos de ensino fundamental e de ensino médio. Além desses, há também várias escolas técnicas. Merecem ainda especial destaque, como organizações voltadas ao treinamento e à formação técnica de mão-de-obra, tanto o Colégio Evangélico, em Panambi, quanto o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai), vinculado à Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul (FIERGS), que oferece ensino profissional em vários centros educacionais, em muitos municípios do arranjo. O Colégio Evangélico desenvolve, também, atividades de pesquisa em parceria com empresas. O Senai, além de contar com diversas escolas próprias, ministra vários de seus cursos dentro das empresas. São muitas as universidades e as faculdades presentes no arranjo. Destacam-se, por tradição e porte, tanto a Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul (Unijuí) quanto a Universidade de Passo Fundo (UPF), ambas com mais de um campus ou núcleo universitário. Como centros de pesquisa, pode-se mencionar a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), vinculada ao Ministério da Agricultura e do Abastecimento, que possui a Embrapa Trigo em Passo Fundo. Há também a Fundação Centro de Experimentação e Pesquisa Fecotrigo (Fundacep) em Cruz Alta. De forma geral, embora haja esse conjunto de organizações com recursos humanos e materiais não desprezíveis, a interação entre as empresas produtoras de máquinas e implementos agrícolas e esses atores ligados à infra-estrutura educacional e tecnológica do arranjo é limitada. Percebe-se que tais ligações abarcam principalmente atividades de formação e capacitação de recursos humanos e relativamente poucas atividades conjuntas de pesquisa. No que tange à infra-estrutura institucional, cabe citar, primeiramente, as associações comerciais e industriais (ACIs), em particular a de Panambi, que é uma das associações mais atuantes no arranjo, fazendo, ainda, parte dessa infra-estrutura institucional o Sindicato das Indústrias Metalúrgicas, Mecânicas e de Materiais Elétricos de Santa Rosa (SIMMMESR) e o Sindicato das Indústrias de Máquinas e Implementos Agrícolas no Rio Grande do Sul (Simers), Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 755-774, 2008 762 Ana Lúcia Tatsch representante do segmento dos fabricantes, o qual tem sua sede localizada em Porto Alegre. Além desses, há ainda o Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas do Rio Grande do Sul (Sebrae), também com sede em Porto Alegre, que busca estar presente junto às empresas do arranjo, desenvolvendo várias ações de capacitação de firmas locais. Várias são também as cooperativas presentes no arranjo. Elas têm grande vinculação com os produtores rurais, embora a Cotrijal busque estabelecer relações com os fabricantes de equipamentos agrícolas. É também a Cotrijal a entidade organizadora da Expodireto, importante feira criada em 2000, que hoje é considerada a quarta maior feira desse gênero no País. No arranjo, há ainda um conjunto de organizações financeiras, composto pelas agências tanto do Banco do Brasil e do Banco do Estado do Rio Grande do Sul (Banrisul) quanto de diversos bancos privados, bem como pelo Sicredi, que é um sistema de crédito cooperativo. Somam-se também a esse elenco os bancos das próprias montadoras, isto é, as grandes empresas fabricantes de maquinário automotriz possuem, elas próprias, formas diretas de financiar a compra de equipamentos. É importante frisar o quão importante é essa estrutura financeira, já que o acesso ao crédito é fator fundamental para incrementar e garantir a demanda por equipamentos agrícolas. A partir desse elenco de organizações mencionadas, percebe-se que está presente no arranjo de máquinas e implementos agrícolas uma considerável infra-estrutura institucional. Todavia, por si só, esta não garante uma forte interação de suas organizações com aquelas vinculadas tanto à infra-estrutura educacional quanto à produtiva do arranjo, nem assegura que haja efetivos esquemas de cooperação entre os seus diversos atores. No entanto, se, de um lado, não parece haver uma forte tradição enraizada de colaboração, de outro, observam-se importantes iniciativas de determinadas organizações — dentre as quais, especialmente as do Sebrae e as da ACI, de Panambi, e da Cotrijal — em promover ações com a finalidade de capacitar e integrar os atores do arranjo. 2 As empresas do principal segmento produtivo do arranjo A investigação direta junto às empresas contou com uma amostra de pesquisa que compreende 21 firmas produtoras de máquinas e implementos agrícolas, localizadas nos seguintes municípios do Rio Grande do Sul: Carazinho, Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 755-774, 2008 O arranjo de máquinas e implementos agrícolas do Rio Grande do Sul:... 763 Horizontina, Ibirubá, Ijuí, Marau, Não-Me-Toque, Panambi, Passo Fundo, Santa Rosa e Tuparendi.2 Com relação ao porte das empresas investigadas, do total de 21, nove são consideradas pequenas, seis são médias, e seis são grandes.3 No que tange ao período de fundação dessas firmas, de acordo com o Quadro 1, verifica-se que, das seis grandes empresas analisadas, cinco nasceram antes dos anos 80 e apenas uma nos 90, mais precisamente em 1997. Entre estas, estão algumas das firmas mais antigas do arranjo, pois uma foi fundada ao final da década de 40 (mas teve seu controle acionário integralmente transferido em 1999), outra foi criada na década de 50 (mas foi comprada em 1996), e várias foram fundadas na década de 60. Todas as seis empresas de tamanho médio surgiram até meados dos anos 80. A mais antiga nasceu na década de 20, outras três tiveram sua origem nos anos 60, uma foi fundada no final da década de 70, e outra nasceu no início dos anos 80. Já as de porte pequeno tiveram o início de suas operações de forma mais dispersa no tempo, pois foram criadas ao longo dos anos 80 e 90. Em síntese, verifica-se que o arranjo é formado, em geral, por empresas que atuam há muito tempo no mercado. As médias e as grandes são as mais antigas, e as pequenas são mais recentes, o que se explica pela maior taxa de mortalidade das firmas desse porte. Do total das empresas pesquisadas, 18 têm capital absolutamente nacional, em duas, o capital controlador é estrangeiro e, em uma, é tanto nacional quanto estrangeiro (Quadro 2). Em todos os casos em que há participação de capital estrangeiro, este é originário dos Estados Unidos. Vale ainda destacar que todas as pequenas empresas são nacionais. Quinze empresas são independentes, e seis fazem parte de um grupo. Dessas seis, apenas uma é controladora, as restantes são controladas. Vale ressaltar que essa controladora (de tamanho grande) é de capital nacional, assim como duas das controladas (uma de porte grande e outra de tamanho médio), ao passo que, na situação de outras três controladas (uma média e duas grandes empresas), o seu capital tem origem total ou parcial no estrangeiro. 2 Vale frisar que todas as principais empresas do segmento produtor de máquinas e implementos agrícolas do arranjo em análise pertencem à amostra da pesquisa. Assim, uma vez que estão presentes na amostra as empresas mais importantes e também as líderes no setor de atividade, que, por sua vez, influenciam o padrão das estratégias produtivas e competitivas desse segmento industrial, acredita-se que os resultados obtidos possuem certo poder de generalização. 3 Essa classificação por porte segue a proposta do Sebrae, que estabelece as seguintes faixas: as pequenas empresas possuem entre 22 e 99 funcionários; as médias têm entre 100 e 499 empregados; e as grandes empresas possuem mais de 500 funcionários. Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 755-774, 2008 764 Ana Lúcia Tatsch Quadro 1 Período de fundação e número de empresas investigadas, por tamanho da firma, na região noroeste do RS, em períodos selecionados DISCRIMINAÇÃO EMPRESAS Pequenas Médias Grandes 0 2 2 4 1 9 5 1 0 0 0 6 5 0 0 0 1 6 TOTAL Ano de fundação Até 1980 1981-85 1986-90 1991-95 1996-00 TOTAL 10 3 2 4 2 21 FONTE: Pesquisa de campo. Quadro 2 Origem do capital controlador da firma, por tamanho de empresa, na região noroeste do RS DISCRIMINAÇÃO Origem do capital Nacional Estrangeiro (EUA) Nacional e estrangeiro (EUA) Subtotal Sua empresa é Independente Parte do grupo Subtotal Relação com o grupo Controlada (1) Controladora (2) Subtotal EMPRESAS TOTAL Pequenas Médias Grandes 9 0 0 9 5 1 0 6 4 1 1 6 18 2 1 21 9 0 9 4 2 6 2 4 6 15 6 21 0 0 0 2 0 2 3 1 4 5 1 6 FONTE: Pesquisa de campo. (1) Controlada é aquela na qual a controladora exerce poder. (2) Controladora é aquela que exerce, direta ou indiretamente, o poder (exercido nas três últimas assembléias ordinárias) de eleger a maioria dos administradores e prepondera nas deliberações sociais. Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 755-774, 2008 O arranjo de máquinas e implementos agrícolas do Rio Grande do Sul:... 765 Os produtos fabricados pelas firmas abrangem desde tratores e colheitadeiras até um elenco diversificado e heterogêneo de equipamentos, sendo que, do total das empresas entrevistadas, nove têm suas principais linhas de produtos calcadas em plantadeiras e/ou semeadeiras e/ou pulverizadores. Destas, duas são grandes, cinco são médias, e duas são pequenas. Outras duas grandes empresas produzem, basicamente, tratores e/ou colheitadeiras, e o restante fabrica outros tipos de equipamentos, peças e componentes. Desse grupo restante, fazem parte duas empresas grandes, uma média e sete pequenas. Vale destacar que a busca pela diversificação não é exclusividade de um porte de empresa em particular. Todas elas visam a economias de escopo, seja através de diferentes modelos de um mesmo produto, seja através da ampliação da gama de produtos oferecidos. Com relação aos insumos e às matérias-primas utilizados pelas empresas do arranjo, esses provêem, em sua maior parte, do mercado nacional. As chapas de aço, bem como os laminados planos e não planos, são fornecidas especialmente pelo Rio Grande do Sul e por São Paulo, mas também por Minas Gerais. As tintas são compradas no Rio Grande do Sul, em Santa Catarina e em São Paulo. Os pneus são todos provenientes de São Paulo. Tanto os componentes plásticos quanto os de borracha vêm do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina. Há também insumos importados, como alguns componentes para máquinas, especialmente os elétrico-eletrônicos, como, por exemplo, os sistemas de rastreamento de área ou de distribuição de sementes e os motores. De todo modo, o próprio Estado do Rio Grande do Sul aparece como importante local de compra de insumos e de matérias-primas para as empresas pesquisadas, embora muitos dos principais fornecedores gaúchos não estejam localizados nos municípios do arranjo, com exceção daqueles que fornecem, por exemplo, os componentes plásticos, como os tanques. Agora, cabe ressaltar que se encontra no arranjo uma série de firmas do ramo metal-mecânica, as quais produzem fundidos, peças, componentes e sistemas para as empresas que fabricam máquinas agrícolas. Os equipamentos utilizados no processo produtivo advêm tanto do mercado nacional — sobretudo de outros estados que não o Rio Grande do Sul, especialmente de São Paulo — quanto do exterior. A partir dessas informações, percebe-se que há, nesse arranjo de máquinas e implementos agrícolas, um vazio em termos de densidade das relações locais, razão de os diferentes segmentos que compõem essa cadeia produtiva não estarem concentrados territorialmente no entorno geográfico do arranjo. Quanto ao destino das vendas das empresas pesquisadas, este pode ser: os municípios pertencentes ao arranjo em análise, as demais regiões do Rio Grande do Sul, outros estados do Brasil e, ainda, o exterior. Observa-se, de forma geral, conforme pode ser visto na Tabela 1, que houve um significativo Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 755-774, 2008 766 Ana Lúcia Tatsch incremento das vendas das empresas investigadas para os municípios da região, de 1990 para 1995, caindo um pouco em 2000, quando atingiu uma certa estabilidade. Já as vendas para o restante do Rio Grande do Sul, que, em 1990, chegaram a 43,9% das vendas totais, decresceram para 22,5% em 1995. A partir daí, o percentual das vendas para esse destino manteve-se quase estável. Tabela 1 Destino das vendas das empresas investigadas, segundo o seu porte, na região noroeste do RS — 1990-2003 (%) DISCRIMINAÇÃO Pequenas empresas Municípios da região ............ Estado .................................. Brasil .................................... Exportação ........................... Subtotal ............................... Médias empresas Municípios da região ............ Estado .................................. Brasil .................................... Exportação ........................... Subtotal ............................... Grandes empresas Municípios da região ............ Estado .................................. Brasil .................................... Exportação ........................... Subtotal ............................... Empresas em geral Municípios da região ............ Estado .................................. Brasil .................................... Exportação ........................... Subtotal ............................... 1990 1995 2000 2002 2003 16,7 48,3 35,0 0,0 100,0 61,7 16,7 21,7 0,0 100,0 55,0 17,5 26,7 0,8 100,0 53,3 15,7 29,5 1,6 100,0 45,4 20,6 31,5 2,5 100,0 5,3 47,3 38,7 8,7 100,0 4,7 45,7 44,7 5,0 100,0 4,5 52,5 39,8 3,3 100,0 5,5 47,8 43,1 3,6 100,0 7,0 35,2 47,8 10,0 100,0 5,0 20,0 75,0 0,0 100,0 10,0 11,2 68,1 10,7 100,0 10,0 10,4 71,9 7,7 100,0 9,3 11,2 66,3 13,2 100,0 8,2 13,6 61,1 17,2 100,0 10,1 43,9 42,3 3,7 100,0 34,5 22,5 39,0 3,9 100,0 29,1 26,6 41,1 3,2 100,0 28,4 24,5 42,2 4,9 100,0 25,3 23,2 43,3 8,2 100,0 FONTE: Pesquisa de campo. Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 755-774, 2008 O arranjo de máquinas e implementos agrícolas do Rio Grande do Sul:... 767 As vendas para outros estados do Brasil mantiveram um comportamento semelhante ao longo dos anos pesquisados, girando em torno de 40%. As vendas para o exterior têm como mercados principais, em particular, a América do Sul e a América Central, onde se destacam Paraguai, Argentina, México, Bolívia, Venezuela e, ainda, Uruguai, Chile, Peru, Colômbia, e Panamá. Dentre os países europeus consumidores, foram elencados: Espanha, Portugal, França, Itália, Áustria e Alemanha. A Ásia — e, nesta, a Indonésia — e a África do Sul foram também citadas. Os percentuais das vendas com destino ao exterior foram 3,7%, 3,9%, 3,2%, 4,9% e 8,2%, respectivamente, para 1990, 1995, 2000, 2002 e 2003. No entanto, o mais interessante a observar é o destino das vendas segundo o tamanho das empresas, o qual permite que se estabeleça um padrão por porte. Ou seja, constata-se, ainda a partir da Tabela 1, que, para as firmas de pequeno porte, têm mais significância os municípios da região enquanto mercado final — embora as demais regiões do Rio Grande do Sul e os demais estados do Brasil também absorvam sua produção — do que o exterior. O nicho local aparece com destaque tanto em razão da dificuldade que as pequenas empresas enfrentam de colocação de seus produtos em outros mercados — seja por questões de logística, seja devido às especificidades do produto — quanto em função de que, muitas vezes, elas produzem partes de equipamentos para empresas próximas. Para as médias empresas, os destinos mais relevantes de suas vendas são outros municípios do Rio Grande do Sul, que não os pertencentes ao arranjo, e outros estados do Brasil, ambos com percentuais bastante semelhantes. No caso das grandes firmas, são os outros estados do Brasil que lideram o destino de suas vendas, com grande margem de diferença, mas o exterior aparece também como um importante nicho de mercado, especialmente em anos recentes, quando sua participação se elevou. Assim, em síntese, quanto maior o tamanho da empresa, mais possibilidade ela tem de conquistar mercados distantes. Logo, pode-se dizer que, quanto maior o porte da empresa, perde expressão o mercado local enquanto principal consumidor. Com relação aos principais canais de comercialização adotados pelas empresas, percebe-se que 16 delas atribuíram a máxima importância à venda de seus produtos através de concessionárias (cinco pequenas, cinco médias e todas as seis grandes empresas). Dessas 16, duas grandes empresas valem-se de concessionárias com sua própria bandeira. As outras 14 vendem através de concessionárias de outras bandeiras ou de lojas de equipamentos e implementos agrícolas. Logo, de modo geral, as concessionárias são o principal canal de comercialização das empresas da amostra. Nove empresas também atribuem alta importância à venda sob encomenda. No entanto, dessas nove, somente duas vendem seus produtos exclusivamente sob encomenda, Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 755-774, 2008 768 Ana Lúcia Tatsch principalmente a outras empresas do ramo, uma vez que fabricam, sobretudo, peças e componentes para colheitadeiras. Das quatro empresas que marcaram alta importância para a opção outras formas de comercialização, duas mencionaram a venda direta ao produtor em feiras ou exposições, uma comentou que também se vale de representantes terceirizados, e uma empresa destaca que utiliza representantes comerciais exclusivos para a sua linha de produtos. Uma das firmas da amostra disse que, na cidade onde se localiza, possui uma loja própria, à qual ela também atribui alta importância. Considerando o tamanho das firmas, conclui-se que, tanto para as grandes quanto para as médias, o principal canal de comercialização são as concessionárias, de bandeira própria ou não, ao passo que, para as pequenas, embora as concessionárias sejam também importantes, a venda sob encomenda ganha maior destaque. 3 O papel dos agentes pertencentes à infra-estrutura institucional do arranjo Quando da pesquisa de campo, avaliou-se a contribuição de sindicatos, associações e cooperativas locais, a partir da visão das empresas e de outros entrevistados vinculados àquelas organizações. De modo geral, observa-se, em especial para as grandes firmas, que as empresas não percebem essas entidades locais como agentes atuantes na promoção do arranjo. Os entrevistados das pequenas e das grandes empresas dão algum destaque para as ações dessas entidades relativas à organização de eventos técnicos e comerciais; e os respondentes das médias empresas, para a disponibilização de informações sobre matérias-primas, equipamentos, assistência técnica, consultorias, dentre outras, e para a identificação de fontes e de formas de financiamento. Como exemplo de evento comercial, vários lembraram o esforço de coordenação da Cootrijal para a organização da Expodireto. O Simers foi também lembrado em algumas grandes empresas enquanto disponibilizador de informações, criador de fóruns de discussão, inclusive para a apresentação de reivindicações comuns do setor. No entanto, para alguns representantes das empresas pesquisadas, a distância física do Simers, já que este está localizado longe do arranjo (sua sede é em Porto Alegre), é vista como um dificultador para sua maior interação com as firmas, especialmente com aquelas de menor tamanho. Isto porque, geralmente, são os representantes das firmas de grande porte que possuem assento na diretoria do sindicato ou mantêm algum tipo de interlocução com a mesma. Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 755-774, 2008 O arranjo de máquinas e implementos agrícolas do Rio Grande do Sul:... 769 Um entrevistado comentou que as instituições locais podem auxiliar pouco a sua grande empresa, pois há uma “distância abismal entre o gigantismo da empresa e o tamanho do local”. Em face desse comentário e a partir das evidências empíricas, pode-se dizer que essa infra-estrutura institucional consegue ser mais atuante junto às empresas de menor porte, pois suas ações, especialmente as relativas à capacitação e à articulação de agentes, têm um maior impacto para essas empresas, que, muitas vezes, carecem de informações e de iniciativas próprias. Além das firmas, quando da pesquisa de campo, também foram entrevistados representantes de cooperativas da região. A partir dessas entrevistas, percebeu-se que essas pessoas têm bom conhecimento do funcionamento do setor, mas não há um intercâmbio sistemático entre suas instituições e os fabricantes de equipamentos, ainda que, muitas vezes, seus técnicos vão a campo e discutem com os usuários possíveis alternativas de melhorias no maquinário. Foi dito que há encontros regulares com agricultores para ouvir os produtores, mas que, em muitos casos, são eles próprios que realizam adequações em seus equipamentos, para atender às suas especificidades. Assim, nesses casos, tais modificações, na maioria das vezes, nem são repassadas aos fabricantes. Isso é, em parte, explicado pelo fato de que, segundo o depoimento do vice-presidente e de um conselheiro de uma dessas cooperativas, as empresas produtoras de maquinário agrícola estão mais voltadas para as demandas da Região Centro-Oeste do País, o que pode prejudicar os agricultores e os usuários gaúchos, que possuem peculiaridades próprias da região, a qual se caracteriza, na maioria dos casos, por propriedades de menor dimensão do que as do cerrado. Outro entrevistado, um agrônomo que realiza assessoria técnica e faz parte do programa de extensão rural de uma das cooperativas visitadas, ressaltou que, em contrapartida, são realizadas reuniões entre técnicos da cooperativa e pesquisadores da Embrapa, justamente para que os primeiros repassem informações que possam subsidiar o trabalho dos investigadores do centro de pesquisa agropecuária. Além disso, observou-se que as cooperativas do arranjo não conseguem ainda ter uma atuação mais ativa e organizada, como ocorre em outros países, na coordenação do processo de compra e distribuição de equipamentos para seus associados. Isto é, as cooperativas, por representarem, na maioria dos casos, agricultores de pequenas e de médias propriedades rurais, poderiam auxiliá-los através de contratos de compra junto aos fabricantes de equipamentos, desempenhando um papel central no processo de distribuição e de assistência técnica. Um representante da Associação Comercial e Industrial de Panambi foi também entrevistado. Segundo ele, em contrapartida ao ponto de vista das empresas, há um grande esforço dos agentes locais em promover a competitiviEnsaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 755-774, 2008 770 Ana Lúcia Tatsch dade das firmas do arranjo. Nessa direção, ele citou o empenho dessa associação, em conjunto com outros agentes (prefeituras, ACI de Condor, Colégio Evangélico, Unijuí, Senai, Sebrae), em promover que ele intitulou de arranjo produtivo metal-mecânico pós-colheita, através de uma série de projetos relativos à qualificação de mão-de-obra, à criação de um centro de inovação tecnológica e de empreendedorismo, ao estabelecimento de uma central de compras, à mobilização para participar em feiras, dentre outros. Esse entrevistado frisou que houve um movimento por parte de várias organizações, sob a liderança da ACI, de procurar o Sebrae para auxiliar a estruturação do arranjo e aportar recursos para viabilizar as iniciativas. A preocupação em qualificar a mão-de-obra também levou ao estabelecimento de um fórum de discussão, onde as empresas puderam dar sugestões aos estabelecimentos de ensino para melhor adequarem seus currículos e os conteúdos tratados às suas necessidades. Já a criação de uma central de compras teve como principal objetivo auxiliar as empresas na compra de matérias-primas e insumos, uma vez que disponibiliza informações sobre possíveis fornecedores, preços de produtos e, até mesmo, procura incentivar a compra conjunta, de modo a facilitar as negociações via escala. Além disso, houve também uma mobilização tanto para as empresas participarem em feiras quanto para visitá-las, com o intuito de observar tendências nacionais e internacionais. Segundo representantes do próprio Sebrae, sua atual política de atuação vem sendo calcada na abordagem de arranjos produtivos locais. Assim, no Rio Grande do Sul, além desse arranjo produtivo local metal-mecânico pós-colheita comentado (que envolve os Municípios de Panambi, Condor e Ijuí), o Sebrae, juntamente com outras organizações, também apóia o arranjo metal-mecânico pré-colheita (do qual participam os Municípios de Passo Fundo, Marau, Não-Me-Toque, Carazinho e Ibirubá) e o arranjo produtivo de implementos agrícolas (Santa Rosa e Horizontina), dentre outros localizados em outras regiões do Estado. A atuação do Sebrae objetiva, a partir de um trabalho de articulação e mobilização de parcerias locais, viabilizar projetos de capacitação e qualificação das pequenas e médias empresas. Assim, se, de um lado, há, segundo alguns entrevistados, grande interesse e mobilização para fomentar e favorecer o progresso do arranjo, de outro, isso não está sendo percebido de forma nítida pelo conjunto das organizações. Portanto, ainda que haja esforços das associações para promover a capacitação dos atores locais e a competitividade do arranjo, o papel dessas organizações locais na coordenação de iniciativas conjuntas não é percebido de forma significativa pelas empresas. Também a existência dessa infra-estrutura institucional não garante que ocorram ações de cooperação entre os atores, Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 755-774, 2008 O arranjo de máquinas e implementos agrícolas do Rio Grande do Sul:... 771 embora possa contribuir para isso. Logo, de modo geral, ainda parece restrito o papel dessa infra-estrutura institucional. 4 Conclusões Como se viu, o arranjo de máquinas e implementos agrícolas localizado na região noroeste do Rio Grande do Sul congrega um conjunto de distintas organizações. Nesse sentido, observa-se a presença de uma significativa infra-estrutura educacional no arranjo, bem como a existência de uma infra-estrutura institucional e de várias empresas de diferentes portes vinculadas ao principal segmento produtivo do arranjo. A concentração de empresas produtoras de máquinas e implementos agrícolas nessa região ocorreu em razão de aspectos históricos e deu origem a um entorno de serviços especializados importante. Tal entorno foi justamente ressaltado quando os agentes do arranjo foram questionados com relação às externalidades associadas ao ambiente local. Especialmente os entrevistados das pequenas empresas enfatizaram a importância da proximidade e da localização na região, pois, em função disso, ocorrem contatos informais que permitem o estabelecimento de relações pessoais duradouras e o compartilhamento de experiências acumuladas, que, por sua vez, possibilitam a disseminação de elementos tácitos do conhecimento acumulado entre os agentes do arranjo. Os representantes das empresas que participaram da pesquisa direta também atribuíram importância à infra-estrutura disponível, tanto física quanto de serviços, enquanto externalidade associada ao ambiente local, mas também creditaram significância à disponibilidade de mão-de-obra, à sua qualidade e ao seu custo. A infra-estrutura educacional do arranjo abarca um conjunto de diferentes agentes. Entre eles, há uma série de estabelecimentos de ensino fundamental e médio. Além desses, há também várias escolas técnicas. Em nível superior, muitas são as universidades e as faculdades presentes no arranjo. Como centros de pesquisa, podem-se mencionar a Embrapa Trigo em Passo Fundo e a Fundação Centro de Experimentação e Pesquisa Fecotrigo (Fundacep) em Cruz Alta. Embora haja esse conjunto de organizações com recursos humanos e materiais não desprezíveis, a interação entre as empresas produtoras de máquinas e implementos agrícolas e os atores ligados à infra-estrutura educacional e tecnológica do arranjo é limitada. Percebe-se que tais ligações abarcam principalmente atividades de formação e capacitação de recursos humanos, e não tanto atividades conjuntas de pesquisa. Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 755-774, 2008 772 Ana Lúcia Tatsch De todo modo, percebe-se o quão importante, para a formação e a qualificação da mão-de-obra local, é a oferta de cursos oferecidos pelas diversas instituições de ensino. A partir desse ambiente, saberes individuais e codificados são conformados, mas também conhecimentos coletivos e codificados são gerados a partir das interações que acontecem nesse contexto, sem falar, é claro, dos conhecimentos tácitos que também emergem, mas que são difíceis de serem mensurados. Assim, ao se analisarem as evidências empíricas, percebe-se que, dessa infra-estrutura, emergem significativas externalidades positivas ao conjunto do arranjo. A infra-estrutura institucional, por sua vez, encerra um conjunto de organizações diversas. Estão presentes no arranjo as associações comerciais e industriais, inúmeras cooperativas, os sindicatos, o Sebrae e um conjunto de organizações financeiras. Ao avaliar-se a contribuição de sindicatos, associações e cooperativas locais a partir da visão das empresas e de outros entrevistados vinculados a essas próprias organizações, observou-se que as empresas, em especial as grandes, não percebem tais organizações como agentes atuantes na promoção do arranjo. Em contrapartida, várias dessas organizações argumentam que desenvolvem ações voltadas para a promoção e/ou consolidação do arranjo. Assim, se, de um lado, há grande interesse e mobilização para fomentar e favorecer o progresso do arranjo, de outro, isso não está sendo percebido de forma nítida pelo conjunto dos agentes. Portanto, ainda que haja esforços das associações para promover a capacitação dos atores locais e a competitividade do arranjo, o papel dessas organizações locais na coordenação de iniciativas conjuntas não é percebido de forma significativa pelas empresas. Também não é a existência dessa infra-estrutura institucional que garante que ocorram ações de cooperação entre os atores, embora possa contribuir para tal. Logo, de modo geral, ainda parece restrito o papel dessa infra-estrutura institucional. Com relação à estrutura produtiva, observa-se que, no arranjo, estão presentes tanto empresas de pequeno e médio portes quanto de grande, o que, na maioria das vezes, se vincula ao tipo de equipamento que fabricam. No que diz respeito à origem do capital, as pequenas empresas, na maioria das vezes produtoras de implementos agrícolas, são essencialmente de capital nacional, como também a grande maioria das médias e grandes empresas, com exceção daquelas de maior porte, produtoras de colheitadeiras e tratores, que são predominantemente de capital estrangeiro. Em geral, esse conjunto de empresas atua há muito tempo no mercado. As médias e as grandes empresas são as mais antigas, já as pequenas são mais recentes, o que pode ser explicado pela maior taxa de mortalidade das firmas desse porte. Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 755-774, 2008 O arranjo de máquinas e implementos agrícolas do Rio Grande do Sul:... 773 Seus principais mercados podem ser tanto o doméstico, seja regional, seja nacional, quanto o externo. Para as firmas de pequeno porte, mais significância têm os municípios da região enquanto mercado final. O nicho local aparece com destaque tanto em razão da dificuldade que as pequenas empresas enfrentam de colocação de seus produtos em outros mercados, seja por questões de logística, seja devido às especificidades do produto, quanto em função de que, muitas vezes, essas empresas produzem partes de equipamentos para outras que se localizam perto delas. Para as médias empresas, os destinos mais relevantes de suas vendas são outros municípios do Rio Grande do Sul que não os pertencentes ao arranjo e outros estados do Brasil. E, no caso das grandes firmas, são os outros estados do Brasil que lideram o destino de suas vendas, com grande margem de diferença, mas o exterior aparece também como importante nicho de mercado, especialmente em anos recentes, quando sua participação se elevou. Logo, quanto maior o tamanho da empresa, mais possibilidade ela tem de conquistar mercados distantes e menos expressão tem o local enquanto principal mercado consumidor. O fator diferenciação e também a qualidade dos produtos, os quais são percebidos e reforçados a partir da marca que distingue os equipamentos, associados às economias de escopo são alguns dos mecanismos estratégicos das firmas do principal segmento produtivo desse arranjo. Apesar da existência de um conjunto grande de pequenas empresas no arranjo, percebe-se que um núcleo reduzido de médias e grandes empresas com expressão nos cenários nacional e internacional exerce um papel importante na coordenação do arranjo, pois é no entorno delas que se desenvolve uma rede de firmas. No entanto, se, por um lado, as grandes empresas de capital estrangeiro mantêm relações de poder com a sua rede de subcontratados, por outro, o conjunto de médias e grandes empresas de capital nacional tem também importante papel no arranjo. Em outras palavras, embora certa assimetria possa estar relacionada à influência das subsidiárias de grandes empresas multinacionais, vários produtores locais exercem poder sobre a organização das atividades produtivas em nível local e têm também inserção no mercado externo. Enfim, o arranjo de máquinas agrícolas deve ser considerado como uma aglomeração produtiva que surge a partir de processos marcados por contextos culturais e históricos determinados, que o conformam e reforçam a importância que adquirem as externalidades associadas à infra-estrutura produtiva, às características dos recursos humanos e à infra-estrutura física do local. Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 755-774, 2008 774 Ana Lúcia Tatsch Referências CALANDRO, M. L.; PASSOS, M. C. Transformações nas estratégias empresariais da indústria de máquinas e implementos agrícolas no RS. In: CASTILHOS, C. C. et al. Impactos sociais e territoriais da reestruturação econômica no Rio Grande do Sul. 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Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 755-774, 2008 Crescimento e concentração no Sistema Local de Produção... 775 Crescimento e concentração no Sistema Local de Produção de Máquinas e Implementos Agrícolas do RS* Sérgio Roberto Kapron** Carlos Nelson dos Reis*** Mestre em Economia pelo PPGE-PUCRS Doutor em Economia e Professor Titular Permanente do PPGE-PUCRS Resumo O crescimento e a concentração capitalista têm a empresa como lócus da acumulação e o território como espaço das relações produtivas, dos arranjos de poder constituído e onde se assentam potenciais endógenos de desenvolvimento. Este “paper” apresenta a concepção da política pública de promoção dos sistemas locais de produção (SLPs) do RS (1999-02) e realiza uma investigação empírica sobre a evolução recente (1994-04) do crescimento e da concentração da produção entre estabelecimentos no Sistema Local de Produção de Máquinas e Implementos Agrícolas do RS. Conclui pelo maior dinamismo de crescimento do sistema local, quando comparado com o setor equivalente não organizado em sistema, e identifica uma alta concentração da produção, com tendência de elevação. Palavras-chave Crescimento; concentração; Sistema Local de Produção. * Este paper é um extrato da Dissertação de Mestrado Crescimento e Concentração da Produção na Perspectiva do Desenvolvimento Endógeno: Uma Análise do Sistema Local de Máquinas e Implementos Agrícolas do RS, defendida por Sérgio Kapron no PPGE-PUCRS, em fevereiro de 2006. Artigo recebido em abr. 2007 e aceito para publicação em ago. 2007. ** E-mail: [email protected] *** E-mail: [email protected] Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 775-800, 2008 776 Sérgio Roberto Kapron; Carlos Nelson dos Reis Abstract The phenomena of growth and concentration in a capitalist economy have both in the business firm and in their territorial expansion the locus of accumulation, productive relations and arrangements of power. This is precisely the environment in which their endogenous opportunities of development will emerge. In this context, this paper discusses the role of the design of public policy, in order to foster these development opportunities oriented to the Local Production Systems of the Brazilian State of Rio Grande do Sul, during the period 1999-2002. Its empirical focus relies on the period 1994-2004, dealing with the industrial concentration of the Agricultural Machinery Tools industry. As a conclusion, the paper found that this particular Local Production System shows higher dynamism, as compared to equivalent sectors that are not organized along these lines. It also identifies high and growing trend to increase concentration. Key words Growth; concentration;†local production system. Classificação JEL: R, R0, R00, R1, R10, R11. Introdução A reestruturação da base produtiva da economia capitalista, a partir do impacto da microeletrônica, das novas tecnologias de informação e comunicação e dos novos processos de gestão, aliada ao processo de mundialização do capital, formou uma base material, que ampliou as possibilidades e a importância das economias externas (às empresas), possibilitando um novo papel para o território, como agente potencializador do desenvolvimento local e regional. Se, por essência, as empresas se constituem no locus de acumulação do capital, o território é o locus da organização e da interação dos fatores e das relações de produção, que resultam na acumulação materializada no âmbito da empresa. É no território que se estabelecem as relações econômicas, sociais, políticas e culturais que conformam a institucionalidade da produção, que, por sua vez, é constituída e coordenada a partir da correlação de poder estabelecida entre os capitais e destes com os interesses sociais. A própria alteração de estratégias Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 775-800, 2008 Crescimento e concentração no Sistema Local de Produção... 777 das, até então, grandes empresas fordistas, de não mais internalizar todos os processos, remete a novos desafios econômicos para o território. É o arranjo institucional da mesoeconomia, que assume nova dimensão a partir da reestruturação produtiva. Mais externalidades e interações sistêmicas locais podem ampliar as possibilidades de pequenas e médias empresas (PMEs) usufruírem e reforçarem o potencial endógeno de desenvolvimento local.1 As estratégias endógenas não advogam autarquia frente a economias e capitais internacionais, tampouco identificam mera aversão a empresas de grande porte. O protagonismo das externalidades não contradita as vantagens internas acumuladas no âmbito das empresas e tampouco elimina a importância das mesmas. Porém as vantagens internas são um privilégio das empresas que se tornaram grandes, em especial dos oligopólios mundializados e ligados ao capital financeiro.2 Pois é justamente nas vantagens locais, endógenas ao território, que reside o potencial estratégico de desenvolvimento dos sistemas territorializados, sobretudo por estarem ao alcance das pequenas e médias empresas locais. Tais vantagens não são estáticas e podem ser aprimoradas, especialmente se contarem com políticas públicas de estímulo à cooperação entre agentes, à geração e à difusão de externalidades e, sobretudo, de capacidade inovativa. As externalidades e a coordenação sistêmica tendem a reforçar as capacidades produtivas das empresas que operam no território. Mesmo assim, as vantagens de escala e de escopo, a capacidade de organização, de coordenação e as demais vantagens acumuladas no âmbito interno a cada empresa são essenciais para a sobrevivência destas, como também para o aumento da eficiência do próprio sistema, na medida em que transbordam para o território.3 Uma problematização pertinente a esse universo teórico reside na relação entre PMEs e grandes empresas quanto às assimetrias estabelecidas entre estas, principalmente quando se trata de empresas mundializadas, cujas estratégias são definidas a partir de e em função de interesses estabelecidas exogenamente à economia local. Tal tipo de questão enseja a investigação de fatores e tendências que reforçam e/ou enfraquecem sistemas locais e o potencial de desenvolvimento endógeno. Nessa perspectiva, este texto apresenta os 1 Sobre reestruturação produtiva e território, ver Benko (1999); sobre externalidades, ver Marshall (1982). 2 A respeito, ver o Capítulo 2 de Kapron (2006); sobre a mundialização financeira, ver Chesnais (1996). 3 A respeito, ver o Capítulo 1 de Kapron (2006), Alburquerque (1996), LLorens (1999) e Vazquez Barquero (2001). Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 775-800, 2008 778 Sérgio Roberto Kapron; Carlos Nelson dos Reis resultados de uma pesquisa sobre o movimento de crescimento e concentração do Sistema Local de Produção de Máquinas e Implementos Agrícolas do RS. Dois aspectos, em particular, ensejam esta análise: a iniciativa precursora de uma política pública de fortalecimento de sistemas locais de produção (SLPs) e a ação de grandes empresas mundializadas dentro do SLP. O primeiro aspecto destaca um esforço de coordenação para o desenvolvimento local, objetivando gerar e difundir localmente fatores dinâmicos de crescimento e o fortalecimento das PMEs. Já o segundo aspecto denota a relação do SLP com oligopólios mundiais, cujas sedes e estratégias não são determinadas a partir dos interesses de desenvolvimento da comunidade local. Um dos desafios metodológicos para a análise econômica dos arranjos e dos SLPs está justamente na desagregação de indicadores para a região em que os mesmos se situam, já que a maioria dos dados agregados existentes são de âmbito estadual. A análise a seguir empreendida busca dar uma contribuição para a (des)agregação do SLP, ao mesmo tempo em que se propõe a verificar a tendência recente do crescimento e da concentração industrial do Sistema de Máquinas e Implementos Agrícolas do RS. 1 A política pública de fomento aos sistemas locais de produção no RS Dentre os diferentes sistemas locais de produção implantados no Rio Grande do Sul, a escolha pelo de Máquinas e Implementos Agrícolas deveu-se, primeiro, ao fato de ser um daqueles identificados no âmbito da política pública de promoção dos SLPs no RS; segundo, por ser um setor que sofreu diretamente influências da reestruturação produtiva, dada a entrada de grandes empresas estrangeiras, com estratégias mundializadas. No ano de 1999, o Governo do Estado do Rio Grande do Sul, no âmbito de sua Estratégia de Desenvolvimento Econômico (RS, 2000), iniciou o Programa de Apoio aos Sistemas Locais de Produção do Estado (Castilhos, 2002). O Programa4 compreendia o apoio ao desenvolvimento tanto dos SLPs constituídos como daqueles ainda em constituição, que, específicamente, se aproximavam de arranjos produtivos5. Foram apontadas cinco aglomerações para serem 4 Na seqüência, nas referências ao Programa de Apoio aos Sistemas Locais de Produção, este será denominado Programa. 5 Adota-se o conceito em que um “sistema” é mais completo do que um “arranjo”; ver Paiva (2002). Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 775-800, 2008 Crescimento e concentração no Sistema Local de Produção... 779 apoiadas na constituição como SLPs: autopeças da região da Serra; conservas e doces coloniais da microrregião sul; complexo coureiro-calçadista das regiões do Vale dos Sinos e Paranhana; moveleira da região da Serra; e máquinas agrícolas da região noroeste (Castilhos, 2002). Destas, compreendia-se que somente a coureiro-calçadista era a que mais se aproximava de um sistema local constituído. As demais eram arranjos produtivos em distintos estágios, Entre os fundamentos desse programa, foram considerados pelo menos três fatores: […] [a] a competitividade sistêmica dos SLPs os torna particularmente abertos à participação de MPME [6] e a formas democráticas e autogestionárias de organização da produção, com impactos positivos sobre a distribuição da renda e o emprego [...] [b] porque o desenvolvimento de um SLP gera estímulos contínuos à sua própria complexificação e diversificação [...] [que] induz todo um conjunto de demandas sobre insumos os mais diversos, que funcionam como atrativos de empresas de segmentos técnico-produtivos absolutamente distintos do núcleo original [...] e [c] porque os SLPs — ao estimularem a emergência de todo um conjunto de instituições públicas e privadas de pesquisa e extensão empresarial — se tornam loci privilegiados de geração endógena e de difusão de inovações em produto e processo. Vale dizer: os SLPs contribuem para a estruturalização do processo inovativo e, como tal, para a sustentação, no médio e no longo prazo, da conquista de novos mercados internos e externos (RS, 2000, p. 24-25). As justificativas do Programa demonstram compromissos públicos, objetivos de desenvolvimento e compreensões teóricas acerca do mesmo. Ao abrir espaços às MPME e a formas democráticas de organização da produção, revela compromissos com determinados segmentos econômicos e sociais, bem como com formas de gestão descentralizadas e abertas à participação.7 Subjacente está a compreensão de que o apoio aos SLPs se traduz em fomento às MPME e à democratização da produção e da renda. Tal compreensão aponta o fortalecimento de um grande número de agentes locais que tendem a reinvestir e que dependem de suas relações locais. Além do que, o Programa expecta que a constituição de esferas públicas de coordenação, ou mesmo, coletivas de produção, enseje relações democratizadoras da produção econômica e, por extensão, da renda gerada. A relação do desenvolvimento do SLP com sua “complexificação e diversificação” em relação ao núcleo produtivo original indica uma expectativa de 6 Micro, pequenas e médias empresas. 7 O que guarda estreita relação com outros componentes da Estratégia de Desenvolvimento Econômico (RS, 2000). Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 775-800, 2008 780 Sérgio Roberto Kapron; Carlos Nelson dos Reis adensamento de elos produtivos, com a ampliação de produtores e de subsetores que viriam a se encadear ao SLP. Daí, pode-se compreender uma busca tanto de crescimento (produção e emprego) como de autofortalecimento do SLP, uma vez que estaria sendo reforçada sua capacidade sistêmica. Por fim, o terceiro argumento é revelador de compreensões teóricas recentes na literatura econômica do desenvolvimento. A emergência de todo um conjunto de instituições públicas e privadas, que estariam a serviço das empresas, identifica uma abordagem que considera a importância das instituições de conformações pública e privada que contribuem para o processo de produção, mesmo não sendo unidades do capital.8 As propostas de extensão empresarial, geração endógena e difusão referem-se à produção de externalidades no ambiente local (território), para serem apropriadas pelas empresas ali instaladas.9 O mesmo argumento encerra, ainda, a ênfase das inovações, seja em sua geração, seja em sua difusão, que, uma vez localmente estruturadas e sustentadas no tempo, conduziriam a economia local a uma ampliação na participação em mercados internos e externos. Essa visão coaduna-se, em muito, com as correntes neo-schumpeterianas e da Economia da Inovação no âmbito da Economia Industrial.10 Igualmente, está no centro da formulação do potencial de desenvolvimento endógeno de arranjos e de sistemas locais de produção, assentado nas externalidades geradas a partir da reestruturação produtiva pós-fordista. As aglomerações referidas foram identificadas por compreenderem critérios consoantes com a Estratégia de Desenvolvimento Econômico (RS, 2000) proposta. [...] a escolha dos arranjos produtivos citados respondeu a determinados critérios, como o de possuir características próprias de uma aglomeração produtiva (proximidade das atividades e existência de instituições de ensino e de P&D regionais), além do potencial demonstrado pelos mesmos de empregar um número significativo de trabalhadores, da densidade preexistente das relações entre os atores locais e, em alguns casos, sua possibilidade de criar pólos regionais de industrialização de forma a favorecer a redistribuição regional do PIB. (Castilhos, 2002, p. 57). Os critérios apontados relacionam-se diretamente ao grau de articulação dos principais setores que compõem a estrutura produtiva do RS, com a importância para o nível estadual de emprego e a existência de uma definida aglomeração dos mesmos em regiões específicas do Estado, aliados a um potencial de redistribuição espacial da produção. 8 9 10 Ver abordagens “institucionalista” e “institucionalista-schumpeteriana” em Conceição (2001) e em Hasenclever e Tigre (2002) Ver a concepção e os mecanismos do desenvolvimento endógeno (Kapron, 2006). Ver Kupfer e Hasenclever (2002). Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 775-800, 2008 Crescimento e concentração no Sistema Local de Produção... 781 Diante do intento de transformar arranjos em sistemas locais, o Programa assentou-se em um referencial analítico que identifica, em uma rede local e/ou regional com vínculos interindustriais, especificidades que, uma vez acumuladas, tendem a distinguir o arranjo do sistema. O conceito apresentado de sistema local de inovação e produção (SLI/P) (Zawislak; Ruffoni; Vieira, 2002) passa a ser analisado sob a perspectiva de dois elementos: constituintes e dinamizadores. Entre os primeiros, o sistema requer: (a) atmosfera industrial “específica”, propícia à cooperação — enquanto o arranjo também comporta uma atmosfera “genérica” —; (b) infra-estrutura simultaneamente “institucional, pública, privada e de apoio científico e tecnológico” — enquanto o arranjo comporta apenas uma das formas —; e (c) referência geográfica “próxima” — no arranjo, esta pode até ser distante. Já os elementos dinamizadores são: (a) interação, predominantemente direta, podendo também existir a indireta — no arranjo pode ser uma ou outra —; (b) complementaridade “comercial, produtiva e tecnológica” — no arranjo podem ser alternativas —; e (c) padrão de coordenação “sistêmica”, através de uma central de gerenciamento — no arranjo pode ser através de uma empresa-líder.11 Esse referencial contribui para compreender o “estado da arte” do Sistema de Máquinas e Implementos Agrícolas (SMIA), quando de sua inclusão no Programa.12 Nesse âmbito, o mesmo teve suas características predominantes assim definidas: atmosfera industrial “específica”; infra-estrutura “pública”; referência geográfica “relativamente próxima”; interação “direta e indireta”; complementaridade “comercial e produtiva”; e padrão de coordenação com “maior concentração via Câmara Setorial Regional”13 (Zawislak; Ruffoni; Vieira, 2002). O Programa proporcionou uma articulação entre diversos agentes — empresas, entidades de representação, universidades, centros tecnológicos, sindicatos de trabalhadores, instituições financeiras e poder público —, que diagnosticaram e construíram um conjunto de ações para o fortalecimento do SLP. Foram ações de dimensões técnico-produtivas e institucionais, envolvendo de- 11 O Programa contém ações de diagnósticos com múltiplas metodologias, que resultaram no documento Identificação e Análise de Informações Sobre os SLPs do RS, desdobrado em relatórios que compreenderam diagnósticos e propostas de políticas de ação para cada um dos arranjos industriais, como o para o Arranjo de Máquinas e Implementos Agrícolas (RS, 2000a), além de outros estudos específicos. 12 Com a identificação de alguns dos atributos típicos de um sistema, as referências assim passaram a designá-lo (e assim será designado neste texto), mesmo sem haver nenhuma referência conclusiva de que o mesmo estivesse completo, o que, pelos propósitos do Programa, em nada o distanciaria de servir como objeto. 13 Embora apareça no diagnóstico como necessária ao setor, não foram encontradas evidências de que a Câmara tenha sido plenamente constituída. Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 775-800, 2008 782 Sérgio Roberto Kapron; Carlos Nelson dos Reis senvolvimento tecnológico, integração logística, qualificação dos trabalhadores e outras ações no âmbito de políticas públicas. A expressão da constituição de ações em comum ficou materializada no âmbito do Centro Gestor de Inovação (CGI), o qual foi resultante de uma cooperação entre poder público estadual e instituições locais, com a função de coordenar ações e promover geração e difusão de conhecimentos, capacitações e inovações no sistema (Castilhos, 2002).14 2 O setor e o Sistema de Máquinas e Implementos Agrícolas do RS O SMIA do RS comporta diversos setores industriais: fabricação de tratores, de colheitadeiras, de máquinas e implementos, silos e armazenagem, peças e equipamentos para irrigação. Conforme apresentado no Relatório NITEC (RS, 2000a), a fabricação de tratores e de colheitadeiras respondia por 40% do faturamento, e o conjunto de máquinas e equipamentos, pelos outros 60%. A localização do SMIA estende-se ao longo do noroeste do RS, abrangendo o território de 104 municípios. Dentre as empresas, destacam-se duas de maior porte, a AGCO e a John Deere, cujo capital é de origem externa e figuram entre os maiores fabricantes multinacionais de tratores e colheitadeiras, sendo as únicas fabricantes desses setores no Sistema. Ambas protagonizaram, na década de 90, processos de fusão e aquisição de empresas locais, após longas joint ventures, tendo a AGCO concluído a aquisição dos tratores e das colheitadeiras Massey-Fergusson e das colheitadeiras Ideal, em 1996, e a Jonh Deere, a aquisição da SLC, em 2000 (Benetti, 2004).15 Os demais setores são constituídos basicamente por fabricantes locais de médio e pequeno portes e concentram-se nos segmentos de máquinas, silos e armazenagem, implementos e suprimentos para as indústrias de colheitadeiras e de tratores. As informações constantes na Tabela 1 referem a importância do setor na indústria de transformação gaúcha. 14 Após 2002, houve mudança de política no âmbito do Governo Estadual, havendo a desarticulação das ações encaminhadas. 15 A AGCO possui duas unidades industriais no Estado, sendo a de colheitadeiras dentro do SMIA e a de tratores fora. Já a John Deere possui suas plantas de colheitadeiras e de tratores dentro do Sistema (está em andamento a construção de uma nova unidade, que deverá transferir a fabricação de tratores para fora do SMIA, em região próxima da metropolitana). Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 775-800, 2008 783 Crescimento e concentração no Sistema Local de Produção... Tabela 1 Participação da indústria de tratores e máquinas agrícolas do RS no total nacional e na indústria de transformação do RS — 1996 e 2003 (%) SETORES 1996 2003 Indústria de tratores e máquinas agrícolas do Brasil .. 24,0 42,6 Indústria de transformação do RS .............................. 1,6 4,9 FONTE: PESQUISA INDUSTRIAL ANUAL — PIA. Rio de Janeiro: IBGE, 1996; 2003. Disponível em: <http://www.ibge.gov.br>. Acesso em: mar. 2006. Em relação ao Valor da Transformação Industrial (PIA, 1996; 2003) do RS, o setor participava, nos anos de 1996 e 2003, com 1,6% e 4,9% respectivamente. Já quanto ao total da indústria de tratores e máquinas agrícolas do Brasil, a participação foi de 24% em 1996 e de 42,6% em 2003 (Tabela 1). Ambos os indicadores revelam um significativo crescimento do setor em todo o RS. A participação relativa na indústria de transformação do RS variou 204% no período. Na produção total do setor para todo o País, o crescimento relativo foi de 78%, passando de um quarto da produção total para mais de 40%. O ano de 1994 e os que imediatamente o seguiram refletem os efeitos da abertura e da exposição comercial da indústria brasileira e do impacto da sobrevalorização cambial decorrente do Plano Real. Esses fatores implicaram uma reestruturação da indústria, que, em certos casos, ocorreu com estratégias defensivas que deprimiram a produção industrial, provocando fechamento de empresas e eliminação de postos de trabalho.16 Na segunda metade da década de 90, consolidaram-se as aquisições, por duas grandes empresas norte-americanas, dos últimos fabricantes de colheitadeiras e de tratores no Estado. Ambas as empresas adquirentes possuem estratégias globais de venda, o que (pode) implica(r) aumento da produção local para exportações, bem como maior suscetibilidade do Sistema perante estratégias exogenamente definidas. Outro evento diz respeito à operação do Programa de Modernização da Frota de Tratores Agrícolas e Implementos Associados e Colheitadeiras (Moderfrota), implantado pelo BNDES, que, a partir do ano 2000, aportou significativo volume de recur16 A indústria de transformação do RS teve crescimento negativo em 1995 e 1996, em especial a metalúrgica (-10,7% e -0,7%) e a mecânica (-40,6% e -13,8%) (Passos; Lima, 2002). Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 775-800, 2008 784 Sérgio Roberto Kapron; Carlos Nelson dos Reis sos para a renovação da frota de máquinas e tratores agrícolas do País. As exportações de máquinas e implementos tiveram um período de baixa entre 1999 e 2002, recuperando-se, significativamente, nos anos seguintes. Entre 2003 e 2004, as exportações brasileiras cresceram 270%, atingindo US$ 498 milhões. Destes, 55% saíram do RS, sendo que as duas multinacionais aqui localizadas (dentro e fora do SMIA) figuravam entre as maiores empresas exportadoras do Estado. Esses eventos indicam que a análise proposta cobrirá um período de significativas mudanças nos setores pesquisados, especialmente pelo seu vínculo com o grande capital internacional pelas reestruturações produtivas que o acompanham. 3 Crescimento e concentração: uma verificação do movimento recente Para a verificação sobre o comportamento do crescimento e da concentração industrial no SMIA do RS, serão tomados, como primeira referência, o comportamento e a evolução do Sistema no período 1994-04, e, como segunda referência, este será comparado com o setor de máquinas e implementos agrícolas, situado no restante do RS. Como definição, um sistema local exige a delimitação de seu território, que não necessariamente coincide com a divisão política preexistente (para a qual são, normalmente, desagregados os indicadores econômicos). Por esse motivo, para a análise que segue, serão utilizados os dados da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS, 2001), produzidos pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), que foram agregados para o conjunto dos 104 municípios que conformam o SMIA e, em seguida, para o conjunto dos demais municípios do RS, de forma a se obterem dois grupos: o Sistema MIA do RS e o setor MIA dos demais municípios do RS (que será designado como RS-SMIA ou não-Sistema). Os indicadores, para as duas agregações, serão analisados comparativamente. Para contornar a dificuldade de desagregar (ou agregar) indicadores econômicos para o contorno territorial dos arranjos e sistemas locais,17 serão 17 Além de (ainda) não existirem quaisquer indicadores para o âmbito dos SLPs, praticamente inexistem indicadores de produto, valor da produção ou, mesmo, produção física para o nível de municípios, em especial desagregados para os segmentos específicos, requeridos para a presente análise. Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 775-800, 2008 Crescimento e concentração no Sistema Local de Produção... 785 tomados os dados da RAIS (2001), que permitem uma desagregação, para o âmbito municipal, de indicadores de subsetores econômicos. Serão utilizados os dados do número de empregos como proxy do indicador de crescimento e a relação dos empregos com o número de estabelecimentos como proxy do indicador de concentração industrial. Devido às características do SMIA, dos dados da RAIS, serão destacadas, em conjunto, duas classes (cinco dígitos) da Classificação Nacional de Atividade Econômica 1995 (CNAE 95): a 29.319 — fabricação de máquinas e equipamentos para a agricultura, avicultura e obtenção de produtos animais — e a 29.327 — fabricação de tratores agrícolas. Ambas são muito aproximadas do conceito do SMIA, englobando praticamente a totalidade dos segmentos industriais de máquinas e implementos agrícolas.18 As vantagens oferecidas pela RAIS, de identificar dados para o âmbito municipal e para aberturas específicas de 563 classes da CNAE, não a isentam de limitações técnicas. Embora ofereça um caráter praticamente censitário,19 cobrindo mais de 97% dos estabelecimentos existentes no País, a RAIS tem como principais limitações a omissão de declarações, possíveis erros de preenchimento e eventuais declarações agregadas na matriz das empresas, quando deveriam ser prestadas por estabelecimento (RAIS, 2001). Tais problemas, mais sentidos nos menores municípios, vêm sendo gradativamente minorados por ações orientadoras e de facilitação para o recebimento das declarações anuais. Espera-se que tais restrições sejam pouco significativas para a presente pesquisa, pelo fato de se utilizar um período muito recente da base de dados, sobre os quais muitas das ações corretivas já foram implantadas. Outras limitações, específicas para o escopo desta investigação, dizem respeito ao fato de que a declaração da RAIS deve ser prestada por estabelecimento industrial individualizado, o que não permitirá identificar a totalidade de empregos em uma empresa que possua filial. No mesmo sentido, a base de dados refere-se tão-somente aos empregos formais, não identificando a informalidade das relações de trabalho. Por fim, dos aspectos metodológicos, cabe referir que o crescimento do número total de empregos (proxy para o crescimento econômico do SMIA) será observado em números absolutos e relativos ao total do RS para a série de anos avaliada. Já o aspecto de concentração da produção será analisado a partir do cálculo do índice de Gini (G), que permite uma interpretação simplificada (um 18 Por limitação de disponibilidade de dados, não serão considerados outros segmentos que, a rigor, também poderiam conformar um arranjo ou um sistema, como os setores de comércio e serviços ou de fabricação de outros insumos para a agricultura. 19 A declaração de informações anuais é obrigatória para todo estabelecimento empregador existente no País (Decreto nº 76.900/75). Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 775-800, 2008 786 Sérgio Roberto Kapron; Carlos Nelson dos Reis único indicador) para uma distribuição relativa entre duas variáveis (empregos e estabelecimentos). Complementarmente, será analisada a distribuição relativa de empregados por porte dos empreendimentos nas faixas de micro, pequeno, médio e grande. O índice de Gini é uma medida de desigualdade, que identificará a distribuição relativa do número de trabalhadores entre grupos de estabelecimentos, definidos por faixa de número de empregados20, a qual servirá como proxy do tamanho dos mesmos. Por definição, o índice de Gini varia entre zero e um, sendo que, quanto mais próximo da unidade, maior será a concentração indicada.21 No período analisado, após uma rápida e expressiva queda inicial22, houve uma pequena recuperação e estabilidade, seguida de um expressivo crescimento, no último triênio, no número de trabalhadores do setor MIA, em todo o RS. O Gráfico 1 permite visualizar a tendência de crescimento do setor, com a evolução de cada uma das variações (trabalhadores e estabelecimentos), através do índice acumulado para a base fixa 1996 = 100. Já o número de estabelecimentos manteve uma relativa estabilidade, exceto uma modificação abrupta no ano de 1999,23 a partir de quando se observa uma tendência de crescimento. O crescimento mais acentuado, tanto no número de trabalhadores como no de estabelecimentos, ocorreu a partir do ano 2000. Esse período coincide com a desvalorização do câmbio brasileiro e o significativo incremento das exportações (especialmente a partir de 2003), com a operação do Programa Moderfrota, do BNDES. Pode-se depreender que houve uma conjunção de fatores a estimular a demanda interna (Moderfrota) e a demanda externa, sendo esta última duplamente estimulada: pela competitividade advinda do câmbio e pela inserção definitiva de uma importante planta produtiva na estratégia mundializada de produção da John Deere, além da já operação de outra empresa mundializada, a AGCO. O efeito demanda externa tornou-se saliente com o significativo aumento das exportações gaúchas do setor de máquinas e implementos agrícolas, que atingiu seu maior patamar histórico em 2004. 20 As faixas de número de empregados consideradas são: 0 a 4; 5 a 9; 10 a 19; 20 a 49; 50 a 99; 100 a 249; 250 a 499; 500 a 999; e 1.000 e acima. 21 A definição do método apropriado para o cálculo do índice de Gini dessa base de dados contou com a contribuição do Estatístico Jeferson Daniel de Matos e do Professor Valter J. Stülp (PUCRS), que, com suas valiosas contribuições, estão isentos de qualquer aplicação ou interpretação inapropriadas. 22 Embora, nesta análise, não se objetive verificar causas e conseqüências das variações do setor, pode-se imputar a expressiva queda entre 1994 e 1996 ao contexto de abertura comercial e de sobrevalorização do real. 23 A variação desproporcional nos estabelecimentos para o ano de 1999 fica em evidência, sendo que nenhum evento específico foi encontrado para justificar tal comportamento. Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 775-800, 2008 787 Crescimento e concentração no Sistema Local de Produção... Gráfico 1 Crescimento, segundo a evolução do número de trabalhadores e de estabelecimentos, do setor de máquinas e implementos agrícolas do RS — 1994-04 250 200 181 150 152 100 104 172 100 50 0 1994 1995 1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 Legenda: Número de trabalhadores Número de estabelecimentos FONTE DOS DADOS BRUTOS: RELAÇÃO ANUAL DE INFORMAÇÕES FONTE DOS DADOS BRUTOS: SOCIAIS — RAIS. Brasília: MTE, 2001. FONTE DOS DADOS BRUTOS: (Nota Técnica MTE 050/2001). CD-ROM. NOTA: Os dados têm como base 1996 = 100. Entre o início e o fim do período, houve uma variação de 19% no total de trabalhadores. Já, se considerado o ano de 1996 (menor volume da série) como base, o crescimento, para o fim do período, foi mais expressivo: 81%. Em qualquer um dos períodos, o número de estabelecimentos expressa variação significativa de 65% e 72% respectivamente. O objeto específico da presente análise, qual seja, o comportamento do SMIA em relação ao correspondente setor para o restante do RS (o não-Sistema), pode ser observado no Gráfico 2. Verifica-se um evidente contraste do expressivo crescimento do Sistema frente ao não-Sistema. Evidencia-se, também, o maior número de trabalhadores no Sistema, em que pese esse englobar apenas 104 municípios contra 392 fora do mesmo. Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 775-800, 2008 788 Sérgio Roberto Kapron; Carlos Nelson dos Reis Gráfico 2 Evolução do número de trabalhadores do SMIA em relação aos do RS-SMIA — 1994-04 14 000 12 000 10 000 8 000 6 000 4 000 2 000 0 1994 1995 1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 Legenda: SMIA RS-SMIA FONTE DOS DADOS BRUTOS: RELAÇÃO ANUAL DE INFORMAÇÕES FONTE DOS DADOS BRUTO SOCIAIS — RAIS. Brasília: MTE, FONTE DOS DADOS BRUTOS: 2001. (Nota Técnica MTE 050/2001). FONTE DOS DADOS BRUTOS: CD-ROM. Após uma queda no primeiro triênio, o SMIA apresentou um gradativo e permanente crescimento em seu número de trabalhadores, revelando um movimento diverso do setor para o restante do Estado. Este, após queda e oscilação iniciais, apresentou uma tendência de crescimento no último período, porém em ritmo inferior ao SMIA. Quando tomado todo o período 1994-04, o SMIA cresceu 44%, enquanto o RS-SMIA caiu 17%. Quando tomado o ano de 1996 (menor valor para o SMIA) como base, o Sistema revela um crescimento de 111% até 2004, contra apenas 33% para o setor não organizado em sistema. Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 775-800, 2008 789 Crescimento e concentração no Sistema Local de Produção... Dada a queda comum dos indicadores ainda na fase de ajuste e de reestruturação da indústria local, a reação seguinte é diferenciada entre o Sistema e o não-Sistema. A retomada do número de trabalhadores existente em 1994 é lenta, o que não significa que o nível de produção tenha seguido o mesmo ritmo, pois a reestruturação costuma ser acompanhada por aumento da produtividade, que implica menor número de trabalhadores. O crescimento mais intenso e contínuo foi verificado a partir do ano 2000, em ambos os agrupamentos, porém com maior relevância no SMIA. O número de estabelecimentos (em que pese não expressar, necessariamente, crescimento para o setor) também apresentou uma variação positiva mais significativa para o Sistema. Através da Tabela 2, pode-se verificar que, ao contrário da distribuição dos trabalhadores, em número de estabelecimentos, o RS-SMIA supera o SMIA. Ela também expressa uma variação inicial com tendência de queda tanto no Sistema como fora deste. Após a elevação abrupta para o ano de 1999, ambos os agrupamentos apresentaram tendência de crescimento, sendo a do SMIA mais expressiva, tanto para a base de 1994 (100% x 40%) como para a de 1996 (130% x 37%). Tabela 2 Evolução do número de estabelecimentos industriais no SMIA e no RS-SMIA — 1994-04 DISCRIMINAÇÂO Anos 1994 1995 1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 Variação % 2003/1994 2003/1996 SMIA RS-SMIA 77 70 67 72 68 100 82 100 113 129 154 109 119 112 112 111 243 134 139 150 142 153 100 130 40 37 FONTE DOS DADOS BRUTOS: RELAÇÃO ANUAL DE INFORMAÇÕES SOCIAIS: — RAIS. Brasília: MTE, 2001. (Nota Técnica MTE 050/2001). CD-ROM. Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 775-800, 2008 790 Sérgio Roberto Kapron; Carlos Nelson dos Reis Com o crescimento distinto do SMIA em relação ao setor, ocorreu uma alteração na participação do mesmo no agregado estadual. O Gráfico 3 permite identificar que a maior participação do Sistema aumenta, ao longo do período, em detrimento do não-Sistema. Gráfico 3 Participação do SMIA e do RS-SMIA no total de trabalhadores do setor de máquinas e implementos agrícolas do RS — 1994-04 (%) 100% 90% 80% 70% 60% 50% 40% 30% 20% 10% 0% 1994 1995 1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 Legenda: SMIA RS-SMIA FONTE DOS DADOS BRUTOS: RELAÇÃO ANUAL DE INFORMAÇÕES FONTE DOS D ADOS BRUTOS: SOCIAIS — RAIS. Brasília: MTE, 2001. FONTE DOS DADOS B RUTOS: (Nota Técnica. MTE 050/2001). CD-ROM. Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 775-800, 2008 Crescimento e concentração no Sistema Local de Produção... 791 O SMIA, que respondia por 59% dos empregos em 1994, após algumas oscilações com tendência de elevação, passou a responder por 72% dos empregos ao final do período. Enquanto, em 1994, o Sistema superava em 45% os trabalhadores fora dele, em 2003, o volume passou a ser 153% superior. Os dados expressos revelam não só um significativo crescimento absoluto do SMIA como também um crescimento muito mais expressivo do que o verificado no setor de máquinas e implementos agrícolas do RS não organizado em sistema. A distribuição relativa do número total de trabalhadores por estabelecimento, de acordo com o tamanho deste, medido por faixas de trabalhadores, possibilitou o cálculo do índice de concentração de Gini do SMIA e do RS-SMIA para o todo o período de 1994 a 2004.24 O Gráfico 4 indica, para cada ano, os índices de concentração para o sistema local e para o não-sistema. Uma tendência de elevação foi verificada para o SLP, especialmente no início e no fim do período. Para o RS-SMIA, houve um movimento de desconcentração até o ano de 1999, e, a partir daí ocorreu nova concentração. Os índices indicam uma alta concentração do número de trabalhadores por estabelecimento, sendo que os relativos ao Sistema se encontram ligeiramente acima dos demais. Esta análise verifica uma variação positiva da concentração, seja no SMIA, seja no RS-SMIA, observando-se, também, a proximidade da magnitude da concentração dos dois agrupamentos.25 Adicionalmente, foram analisados os mesmos dados agrupados por porte de estabelecimento. Adotou-se o critério do porte por número de trabalhadores — micro até 19; pequeno, de 20 a 99; médio, de 50 a 499; e grande, de 500 ou acima.26 Ao contrário da análise feita com o índice de Gini, esta requer uma avaliação das combinações de trabalhadores por empreendimento para cada ano. 24 Uma das vantagens da análise pelo índice de Gini é sua simplicidade em indicar apenas um número para toda a combinação de dados de cada ano. 25 O comportamento atípico do ano de 1999 fica novamente evidente. 26 Critério adotado pelo Sebrae para estabelecimentos industriais. Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 775-800, 2008 792 Sérgio Roberto Kapron; Carlos Nelson dos Reis Gráfico 4 Evolução do índice de concentração de Gini do SMIA e do RS-SMIA — 1994-04 (Índice de Gini) 1,00 0,90 0,80 0,70 0,60 0,50 0,40 0,30 0,20 0,10 0,00 SMIA 1994 1995 1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 0,769 0,775 0,800 0,814 0,800 0,817 0,805 0,817 0,825 0,821 0,842 RS-SMIA 0,773 0,789 0,760 0,772 0,756 0,660 0,742 0,764 0,803 0,799 0,792 Legenda: SMIA RS-SMIA FONTE DOS DADOS BRUTOS: RELAÇÃO ANUAL DE INFORMAÇÕES FONTE DOS DADOS BRUTOS: SOCIAIS — RAIS. Brasília: MTE, 2001. FONTE DOS DADOS BRUTOS: (Nota Técnica. MTE 050/2001). CD-ROM. Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 775-800, 2008 793 Crescimento e concentração no Sistema Local de Produção... Quanto ao porte médio dos estabelecimentos, verifica-se uma diferença considerável entre o SMIA e o não-Sistema. Como demonstra o Gráfico 5, no Sistema há uma tendência de redução do tamanho médio dos empreendimentos, com uma modificação acentuada para o ano de 1999 e uma nova variação no final da série. Já para o não-Sistema, a tendência de redução é nítida até o ano de 1999, após o qual, há nova elevação do porte médio, mas sempre em patamar muito inferior ao Sistema. Gráfico 5 Tamanho médio dos estabelecimentos, por número de trabalhadores, do SMIA em relação aos do RS-SMIA — 1994-04 120 113 100 89 88 89 96 92 84 75 82 79 80 68 60 55 40 38 34 40 34 20 23 24 28 30 33 20 0 1994 1995 1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 Legenda: SMIA RS-SMIA FONTE DOS DADOS BRUTOS: RELAÇÃO ANUAL DE INFORMAÇÕES FONTE DOS DADOS BRUTOS: SOCIAIS — RAIS. Brasília: MTE, 2001. FONTE DOS DADOS BRUTOS: (Nota Técnica. MTE 050/2001). CD-ROM. Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 775-800, 2008 794 Sérgio Roberto Kapron; Carlos Nelson dos Reis Os Gráficos 6 e 7 indicam uma variação distinta da concentração por porte de empreendimentos entre o Sistema e o não-Sistema, não captada pelo índice de Gini. No SMIA, a distribuição dos trabalhadores revela uma absoluta preponderância dos médios e dos grandes estabelecimentos. Gráfico 6 Distribuição relativa dos trabalhadores, por porte de estabelecimento, no SMIA — 1994-04 (%) 100 90 80 70 60 50 40 30 20 10 0 1994 1995 Legenda: 1996 1997 Micro 1998 1999 2000 Pequeno 2001 Médio 2002 2003 2004 Grande FONTE DOS DADOS BRUTOS: RELAÇÃO ANUAL DE INFORMAÇÕES FONTE DOS DADOS BRUTOS: SOCIAIS — RAIS. Brasília: MTE, 2001. FONTE DOS DADOS BRUTOS: (Nota Técnica MTE 050/2001). CD-ROM. Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 775-800, 2008 795 Crescimento e concentração no Sistema Local de Produção... Gráfico 7 Distribuição relativa dos trabalhadores, por porte de estabelecimento, no RS-SMIA — 1994-04 (%) 100 90 80 70 60 50 40 30 20 10 0 1994 1995 Legenda: 1996 1997 Micro 1998 1999 Pequeno 2000 2001 Médio 2002 2003 2004 Grande FONTE DOS DADOS BRUTOS: RELAÇÃO ANUAL DE INFORMAÇÕES FONTE DOS DADOS BRUTOS: SOCIAIS — RAIS. Brasília: MTE, 2001. FONTE DOS DADOS BRUTOS: (Nota Técnica MTE 050/2001). CD-ROM. Nos últimos anos da série do Gráfico 6, ao mesmo tempo em que os grandes estabelecimentos atingem sua maior participação, também os micro e os pequenos alcançam seus maiores índices, todos em detrimento dos estabelecimentos de porte médio. Nessa análise, não se verifica uma tendência definida, somente se confirma a alta concentração. Já em número de estabelecimentos, na média do período, os grandes respondem somente por 4%, por 13% os médios e por 83% os micro e os pequenos, sendo estes últimos a maioria absoluta. No RS-SMIA, há uma maior participação de pequenos estabelecimentos (Gráfico 7), que, combinados com os micro, implicaram uma redução da participação dos médios e dos grandes, no total de trabalhadores, da ordem de 70% Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 775-800, 2008 796 Sérgio Roberto Kapron; Carlos Nelson dos Reis em 1994 para 31% em 1999. A partir daí, ocorreu um novo movimento de concentração, que atingiu 64%, distribuídos entre grandes e médios, em 2004. Já em número de estabelecimentos, os micro e os pequenos representaram, em média, 95%, absoluta maioria. Portanto, uma elevada concentração da produção com tendência de aumento em sua magnitude, ao longo do período 1994-04, é o que resulta da análise do índice de Gini para o SMIA. Já a análise da distribuição por porte de estabelecimento não revela uma tendência explícita. Para o RS-SMIA, a alta concentração indicada pelo índice de Gini não é plenamente confirmada na análise da distribuição relativa por porte. No entanto, ambas as análises convergem na identificação de um movimento inicial de desconcentração, seguido de um reverso, bem como também indicam a maior magnitude de concentração no Sistema. A evidência diferenciada pode ser atribuída ao fato de o índice de Gini expressar, com simplicidade, em único número, relações combinadas entre duas variáveis (quantidade de trabalhadores e de estabelecimentos) distribuídas em diversas faixas. Dessa forma, o mesmo não é sensível a variações proporcionais entre as empresas dentro das respectivas faixas, enquanto a simples distribuição dos trabalhadores por porte (apenas quatro contra nove faixas) dos estabelecimentos pode ter sido sensível às alterações. Em que pesem as diferenças de magnitude, as tendências de desconcentração do RS-SMIA até o ano de 1999 e a reconcentração seguinte podem ser confirmadas tanto no Gráfico 4 quanto no Gráfico 7. Ressalta-se que esta análise da concentração possui a limitação de não captar esse processo no âmbito de grupos econômicos ou, mesmo, de empresas, mas somente para os estabelecimentos individuais, além de se restringir aos empregos formais. Este último aspecto pode ter influenciado a elevada concentração verificada, uma vez que o emprego informal costuma ser mais comum entre as empresas de menor porte. 4 Considerações finais O Sistema Local de Máquinas e Implementos Agrícolas apresentou uma tendência de crescimento bem mais acentuada que o setor equivalente não organizado em sistema. Ao mesmo tempo, revelou uma elevada concentração, que tendeu a se acentuar ao longo do período, conforme explicitado pelo índice de Gini. Já o setor de máquinas e implementos agrícolas não organizado em sistema também apresentou elevada concentração. Mostrou oscilações, com queda da concentração no período inicial, seguida de elevação e de uma quase- Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 775-800, 2008 Crescimento e concentração no Sistema Local de Produção... 797 -estabilidade nos dois últimos anos. Ou seja, revelou-se mais sujeito a oscilações do que o sistema local, embora com menor dinamismo. Já em número de estabelecimentos, é nítida a preponderância dos micro e pequenos, 95% no não-Sistema e 83% no SLP, quando consideradas as médias do período. A definição do SMIA como um sistema local (ainda que em construção) partiu da identificação de significativa presença de externalidades no âmbito de seu território. Externalidades locais e regionais, frutos da maior aglomeração de empresas e trabalhadores no sistema do que em seu exterior analisado (Gráficos 2 e 3), que são formadas tanto pelas transações entre empresas como pelas relações de proximidade e cooperação, de educação e capacitação, ou de geração e difusão dos conhecimentos e das tecnologias. De outro lado, esse SLP não conta com economias externas tipicamente urbanas, dado seu afastamento geográfico dos grandes centros (no caso, a Região Metropolitana de Porto Alegre), as quais contam, em parte, a favor do não-Sistema. Foi a região mais agrícola do Estado que forjou as melhores condições para a indústria de máquinas e implementos, que, por sua vez, se tornou também supridora de outras regiões agrícolas. É nesse contexto que as externalidades revelam para o SLP um papel diferencial em favor de um maior crescimento frente ao não-Sistema. Considerado o pequeno número de estabelecimentos de grande porte e sua inversa participação no número de trabalhadores, o comportamento destes tende a ser significativo tanto para o Sistema como para o não-Sistema. Os grandes estabelecimentos (ou pelo menos parte significativa deles) estão integrados ao capital mundializado e oligopolizado, o que reforça suas vantagens específicas de grande empresa frente às empresas locais, como acesso a inovações, mercados, financiamento e melhor posicionamento (hierarquia) na cadeia de valor. O mesmo fato os coloca subordinados a estratégias definidas exogenamente ao território em que atuam, implicando alterações de estratégias produtivas frente a mudanças nos condicionantes internos, como nível de preços ou câmbio. Aliam-se, ainda, as mesmas alterações em outros países ou na demanda mundial. Como efeito, o sistema local tende a ser impactado pelo comportamento da produção globalizada. Embora não tenha sido foco desta pesquisa, pode-se aceitar que as empresas mundializadas, presentes no Estado, tenham sido relevantes para o aumento das exportações de máquinas e implementos agrícolas e, por conseguinte, para o crescimento da produção do setor em todo o Estado, o que, em alguma medida, explicaria o crescimento da produção com aumento da concentração. À guisa de conclusão, uma política de fomento a um sistema local de produção ganha sentido pela busca de fortalecimento dos fatores endógenos e de capacitação da região para agregar valor e para reinvestir a renda localmente. Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 775-800, 2008 798 Sérgio Roberto Kapron; Carlos Nelson dos Reis Isso pressupõe melhor inserção frente à concorrência externa e menor dependência de fatores exógenos. Uma verificação in loco permitiu constatar uma descontinuidade na política pública estadual de promoção do SMIA após 2002,27 o que não favoreceu a consolidação deste e, muito menos, um aprimoramento das ações coordenadas. De outro lado, está em curso a transferência de uma unidade de fabricação de tratores do SLP para fora do mesmo, contando com apoio e incentivo do Governo Estadual. A não-consolidação de políticas públicas de fomento e coordenação, diante de um cenário de um sistema ainda não plenamente constituído e com coordenação incipiente, tende a não fortalecer as PMEs locais ou a torná-las mais dependentes da estratégia das grandes empresas mundializadas. Mesmo que as exportações das grandes empresas mundializadas tenham sido relevantes para o crescimento do Sistema, é possível que a concentração verificada indique maior dependência do Sistema e de suas PMEs das estratégias daquelas. Assim, um aumento da concentração pode ser entendido como um sintoma de fragilização ou de dependência das PMEs e, por conseqüência, do próprio SLP. Referências ALBURQUERQUE, F. Desarrollo económico local y distribución del progreso técnico. Santiago: ILPES, 1996. BENETTI, M. D. Globalização e desnacionalização do agronegócio brasileiro no pós 1990. Porto Alegre: FEE, 2004. (Documentos FEE, n. 61). BENKO, G. Economia espaço e globalização: na aurora do século XXI. 2. ed. São Paulo: Hucitec, 1999. BRUM, A. L.; TYBUSCH, T. M. O sistema local de produção de máquinas e implementos agrícolas: uma visão global. In: CASTILHOS, C. C. (Coord.). Programa de Apoio aos Sistemas Locais de Produção: a construção de uma política pública no RS. Porto Alegre: Secretaria do Desenvolvimento e dos Assuntos Internacionais — SEDAI/RS; Fundação de Economia e Estatística, 2002. CASTILHOS, C. C. (Coord.). Programa de apoio aos sistemas locais de produção: a construção de uma política pública no RS. Porto Alegre: Secretaria do Desenvolvimento e dos Assuntos Internacionais — SEDAI/RS; Fundação de Economia e Estatística, 2002. 27 O Centro Gestor de Inovação (CGI), constituído em parceria com uma universidade local, para nuclear as ações de coordenação e difusão de inovações para PMEs, foi paralisado. Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 775-800, 2008 Crescimento e concentração no Sistema Local de Produção... 799 CLASSIFICAÇÃO NACIONAL DE ATIVIDADES E CONÔMICAS — CNAE. [S. l.]: IBGE; Diretoria de Pesquisas, 1995. CONCEIÇÃO, O. A. C. Instituições, crescimento e mudança na ótica institucionalista. Porto Alegre: FEE, 2001. (Teses FEE, n. 1). CHESNAIS, François. A mundialização do capital. São Paulo: Xamã, 1996. HASENCLEVER, L.; TIGRE, P. Estratégias de inovação. In: KUPFER, D.; HASENCLEVER, L. (Org). Economia industrial: fundamentos teóricos e práticos no Brasil. Rio de Janeiro: Campus, 2002. p. 431-447. KAPRON, S. R. 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Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 775-800, 2008 Estrutura espacial das aglomerações e determinação dos salários industriais no Rio Grande do Sul 801 Estrutura espacial das aglomerações e determinação dos salários industriais no Rio Grande do Sul* Leonardo M. Monasterio** Professor Adjunto do Departamento de Geografia e Economia da UFPel, Doutor em Desenvolvimento Econômico pela FPR e bolsista do CNPq Economista do Banco Central do Brasil e Mestre em Economia pela UFRGS Acadêmico do Curso de Economia da UFPel e bolsista de iniciação científica do CNPq Mauro Salvo*** Otavio Menezes Damé**** Resumo Neste trabalho, estimam-se os efeitos das economias de aglomeração nos salários dos trabalhadores industriais, no Rio Grande do Sul. Para tal, utilizam-se os recursos da análise exploratória de dados espaciais para localizar os “clusters” da indústria gaúcha em 2000. Em seguida, combinam-se tais informações a microdados censitários e estimam-se regressões salariais inspiradas nos testes empíricos associados aos modelos da Nova Geografia Econômica (Hanson, 1998, em especial). Os resultados mostram-se estatística e economicamente significantes: mesmo quando controlados por variáveis demográficas, os salários individuais dos trabalhadores industriais são maiores nas cidades mais urbanizadas, com maior população e mais próximas do centro econômico do Rio Grande do Sul. Isso sugere o quão intensas são as forças econômicas que determinam a estrutura espacial produtiva no Estado. Palavras-chave Economia regional; Nova Geografia Econômica; análise exploratória de dados. * Artigo recebido em abr. 2007 e aceito para publicação em ago. 2007. ** E-mail: [email protected] *** E-mail: [email protected] **** E-mail: [email protected] Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 801-824, 2008 802 Leonardo M. Monasterio; Mauro Salvo; Otavio Menezes Damé Abstract This paper estimates the effects of agglomeration economies on the wages of industrial workers in Rio Grande do Sul. The techniques of Exploratory Analysis of Spatial Data have been used to locate the clusters of the state industry in 2000. This information was then added to census microdata in order to run wage regressions inspired by the empirical tests of the New Economic Geography models (Hanson, 1998, specially). The results were statistically and economically significant: even when controlled by demographic variables, the individual wages of industrial workers were higher in larger and more urbanized cities closer to the economic centre of the Rio Grande do Sul. This suggests how intense the economic forces that shape the spatial structure of the state are. Key words Regional economics; new economic geography; exploratory spatial data analysis. Classificação JEL: R12. Introdução O Rio Grande do Sul destaca-se de boa parte dos estados brasileiros por ter regiões com identidades bem definidas e também pelo espaço que o tema da redução de suas desigualdades regionais ocupa na agenda dos agentes públicos. Em termos de pesquisa, a questão regional gaúcha é das mais debatidas em diversidade e qualidade de estudos. Entre essa vasta bibliografia, existem os trabalhos voltados para a análise do atraso relativo da Região Sul (Alonso; Benetti; Bandeira, 1994; Bandeira, 1994) e os voltados para a região mais dinâmica (Schmitz, 1995). Mais recentemente, surgiram aqueles que testam modelos teóricos para todo o Estado (Porto Jr., 2000; Bêrni; Marquetti; Kloeckner, 2002; Lautert, 2004; Bagolin; Gabe; Ribeiro, 2002; Fochezatto; Stülp, 2004; Souza, 2004; Arend; Cario, 2004; Monasterio; Ávila, 2005). Ao longo das últimas décadas, a produção teórica em Economia regional voltou-se ao estudo de fenômenos como economias externas de escala, retornos crescentes e seu impacto sobre a organização espacial. A Nova Geografia Econômica levou à retomada de temas de pesquisa conhecidos da Ciência Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 801-824, 2008 Estrutura espacial das aglomerações e determinação dos salários industriais no Rio Grande do Sul 803 Regional.1 Essa linha teórica foi responsável por elaborar modelos bem fundamentados e elegantes, que geraram novo fôlego e interesse para os temas da Economia regional. Paralelamente, termos como clusters e arranjos produtivos locais tornaram-se correntes nos debates sobre políticas regionais de desenvolvimento. As técnicas de análise também avançaram junto com a evolução da teoria e da política de desenvolvimento regional. Os recursos de geoprocessamento e de estatística espacial chegaram ao alcance dos computadores pessoais e, hoje, estão disponíveis para os economistas interessados em estudos regionais. Por fim, bases de dados econômicos espacializadas foram disponibilizadas, quer por meios óticos, quer por acesso on-line. Neste trabalho, pretende-se aliar os novos insights fornecidos pela Nova Geografia Econômica aos métodos de análise de dados espaciais, para examinar as questões de desigualdade regional no Rio Grande do Sul. Nesse sentido, o objetivo maior é avaliar o impacto das aglomerações nos salários industriais dos gaúchos. Para tal, dividiu-se o trabalho em duas partes. Na primeira seção, faz-se uma um breve digressão sobre os conceitos de aglomeração, de concentração e acerca dos métodos de identificação de clusters industriais. Em seguida, utilizam-se os recursos da Análise Exploratória de Dados Espaciais (Exploratory Analysis of Spatial Data (ESDA)), para identificar as aglomerações e as concentrações espaciais no Estado. O objetivo, nessa seção, é ter uma delimitação das aglomerações no território gaúcho que não seja arbitrária, mas, sim, determinada por um método estatístico bem fundamentado. Uma vez identificadas as aglomerações, passa-se, na segunda parte do estudo, à estimação dos impactos de variáveis relacionadas à localização das empresas sobre os salários dos trabalhadores na indústria gaúcha. Faz-se um resumo da literatura empírica que testou os modelos da Nova Geografia Econômica (Hanson, 1997; 1998, em especial). Na seção 2.2, parte-se de uma wage regression (Mincer, 1974), que considera as características observáveis dos indivíduos na determinação dos salários. Em seguida, são acrescidas variáveis relacionadas com a localização das empresas e dos seus entornos. Nesse sentido, incluem-se, entre os regressores, variáveis que buscam capturar dimensões, como economias de aglomeração, urbanização e potencial de mercado. O presente trabalho baseia-se em duas fontes básicas de dados: os microdados da amostra do Censo Demográfico 2000 (IBGE, 2002) e as 1 As principais contribuições da Nova Geografia Econômica estão sintetizadas, pelos seus próprios autores, em Fujita, Krugman e Venables (2002). Ver Brakman, Garretsen e Marrewijk (2003) para uma introdução mais acessível e abrangente. Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 801-824, 2008 804 Leonardo M. Monasterio; Mauro Salvo; Otavio Menezes Damé informações sobre emprego obtidas no Relatório Anual de Informações Sociais para o mesmo ano (RAIS, 2005). A análise foi limitada ao setor industrial do Rio Grande do Sul por diversos motivos. Em primeiro lugar, existem limitações computacionais do trabalho com microdados, o que dificulta o processamento das informações para áreas ou setores mais amplos. Além disso, uma vez que os dados da RAIS capturam apenas o emprego formal, haveria uma subestimação grave, caso fosse incluído o Setor Terciário na análise. Na verdade, esse setor foi excluído também devido à heterogeneidade das atividades que dele fazem parte. Em termos temporais, a análise limitou-se ao ano censitário de 2000. Seria desejável um estudo da dinâmica da economia gaúcha na última década do século XX, com base em microdados, porém a intensa criação de municípios na década de 90 impôs obstáculos, insuperáveis frente aos recursos disponíveis para este trabalho no que se refere ao processamento dos dados. 1 Identificação de clusters espaciais na indústria gaúcha 1.1 Análise exploratória de dados A Análise Exploratória de Dados Espaciais é o conjunto de técnicas utilizadas para descrever distribuições espaciais de variáveis, descobrir padrões de correlação espacial, ou apontar a ocorrência de clusters, ou mesmo apontar outliers (Anselin, 1998). Uma outra utilidade da ESDA é auxiliar na formulação de hipóteses a serem testadas através de outros métodos estatísticos. Ou seja, a ESDA não deve ser vista como um fim em si mesma, nem como um conjunto fechado de técnicas, mas, sim, como um auxiliar para a compreensão de fenômenos espaciais, que, conforme avançam os recursos teóricos e informacionais, acrescenta mais ferramentas ao seu arsenal analítico. No caso presente, ela será útil para a identificação de clusters e para o processamento de informações, que permitirá a segunda fase do trabalho. Seguindo a chamada Lei de Tobler da Geografia2, a ESDA tem por princípio que os fenômenos espaciais tendem a estar correlacionados com outros que se acham geograficamente próximos. Para capturar a ocorrência de tais associações 2 “Tudo é relacionado com tudo mais, mas coisas próximas são mais relacionadas entre si do que as distantes” (Tobler, 1970, p. 236, tradução nossa). No original: “Everything is related to everything else but nearly things are more related than distant things” (Tobler, 1970, p. 236). Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 801-824, 2008 Estrutura espacial das aglomerações e determinação dos salários industriais no Rio Grande do Sul 805 de forma global, existe uma ferramenta básica: a estatística de Moran, ou Moran-I. Ela permite avaliar se existe autocorrelação espacial entre as unidades espaciais de uma região.3 O gráfico de Moran (Moran scatterplot) representa o valor padronizado de uma variável para cada uma das unidades nas abscissas e, no eixo das ordenadas, a média do valor padronizado da mesma variável para os vizinhos dessas unidades (Figura 1). Dessa maneira, observações com valores acima da média, com vizinhança também acima da média, ocupam o primeiro quadrante. Já aqueles abaixo da média, com vizinhos na mesma situação, ocupam o terceiro quadrante. O quarto e o segundo quadrantes são ocupados, respectivamente, por ilhas elevadas, cercadas por valores baixos, e por bolsões baixos, cercados de valores altos. Caso não haja qualquer autocorrelação espacial, as observações estarão bem distribuídas pelos quatro quadrantes. Já a estatística Moran-I é calculada a partir de (O’Sullivan; Unwin, 2003, p. 197): ∑∑ w (y n I= n ∑ (y − y ) n i =1 2 i n i =1 j =1 ij n i )( − y yj − y ) n ∑∑ w i =1 j =1 ij Onde: n = número de áreas; yi,j = valores da variável y nas áreas i ou j; y = média da variável y; wij = elemento i,j da matriz de contigüidade w. Essa matriz, no caso presente, recebe valor zero, quando os municípios i e j não são contíguos, e valor 1, quando o são. Aqui se utilizou o critério de contigüidade Queen de primeira ordem, ou seja, foram considerados vizinhos mesmo os municípios que compartilhavam apenas um vértice em comum. A estatística de Moran pode ser compreendida através da observação de cada um de seus componentes (O’Sullivan; Unwin, 2003, p.197-198). O numerador da segunda fração calcula o produto entre os desvios de uma variável nas áreas 3 Na verdade, ela pode demonstrar também a existência de heterogeneidade espacial. A distinção entre os dois fenômenos é, contudo, uma questão complexa, que foge do alcance do presente trabalho. Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 801-824, 2008 806 Leonardo M. Monasterio; Mauro Salvo; Otavio Menezes Damé i e j. Para que esse seja positivo, existem duas possibilidades: ou ambos os desvios estão abaixo da média, ou estão acima. E, graças ao elemento wij, só serão contabilizados no somatório os produtos referentes a áreas i e j que sejam contíguas. Dessa forma, quanto mais observações vizinhas houver acima (ou abaixo) da média, maior será o valor do numerador da segunda parcela. Os demais termos do Moran-I têm a função apenas de normalizar o valor obtido n pelo número de áreas (n), pelanamplitude dos valores ( ∑ n número de áreas contíguas ( ∑∑w). i =1 j =1 i =1 (y ) 2 i − y ) e pelo ij Figura 1 Representação do gráfico de Moran Low-high Valores baixos e vizinhos com valores altos Low-low Valores baixos e vizinhos com valores baixos Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 801-824, 2008 High-high Valores altos e vizinhos com valores altos High-low Valores altos e vizinhos com valores baixos Estrutura espacial das aglomerações e determinação dos salários industriais no Rio Grande do Sul 807 Assim, a estatística I de Moran positiva significa que existe uma autocorrelação positiva, ou seja, valores altos tendem a estar localizados na vizinhança de valores altos, e, por sua vez, valores baixos tendem a estar localizados na vizinhança de valores baixos. Se o valor for negativo, o inverso ocorre: valores altos estarão cercados de valores baixos, e vice-versa.4 Quando ele tende a zero, não há autocorrelação espacial.5 Para examinar a significância estatística de um valor de Moran-I, a forma mais usual é através de métodos computacionais.6 A partir do mapa observado, os valores são recombinados seguidamente, e os valores de Moran-I são calculados. Para que se faça a inferência estatística, o valor do Moran-I observado é, então, comparado com a distribuição dos Moran-I simulados. 1.2 Aglomerações industriais no Rio Grande do Sul 1.2.1 Indicadores locais de associação espacial O indicador de Moran-I global captura a autocorrelação espacial em toda a área sob escopo. Assim, ele não consegue identificar se existem unidades específicas espacialmente associadas. Para solucionar tal problema, foram desenvolvidas estatísticas locais de autocorrelação. Dentre essas, Anselin (1995) definiu que um Local Indicator of Spatial Association (LISA) deve ter duas propriedades: (a) apontar aquelas unidades ao redor das quais há aglomeração de valores semelhantes; (b) permitir a soma dos LISAs individuais proporcionalmente ao indicador de associação geral, ou seja, o indicador local pode ser reagregado ao indicador global. O indicador de Moran local (Ii) guarda essas características e é calculado da seguinte forma (O’Sullivan; Unwin, 2003, p. 203-204): n I i = zi ∑ wij, z j j ≠i 4 Um tabuleiro de xadrez é a melhor representação da autocorrelação inversa perfeita (I de Moran = -1). 5 Em termos mais precisos, o valor esperado de Moran-I, na ausência de autocorrelação espacial, é igual a (-1/n-1). 6 Soluções analíticas também são possíveis, mas exigem que pressupostos específicos sobre a distribuição sejam satisfeitos. Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 801-824, 2008 808 Leonardo M. Monasterio; Mauro Salvo; Otavio Menezes Damé yi − y s Os valores z são, dessa forma, os valores normalizados de y. Os valores zi = w’ij referem-se às células da matriz de contigüidade, já vista anteriormente, com os valores normalizados pelo total das linhas, isto é, pelo total de vizinhos que a unidade possui. Por exemplo, um município que tem três vizinhos terá valores de w’ iguais a um terço. Assim sendo, o valor do Moran-I de um local i é o produto do valor do atributo em i vezes a média ponderada dos valores dos seus vizinhos (sempre em valores normalizados). Mais uma vez, valores de Ii estatisticamente diferentes de zero indicam que a unidade i está espacialmente associada aos seus vizinhos. Igualmente, como a distribuição dos Ii é desconhecida, a forma de obtê-la é através de permutações aleatórias dos vizinhos de cada unidade. A comparação dessa distribuição com a observada permite inferir se a correlação espacial é significativa, ou seja, se se trata efetivamente de um cluster espacial. Analogamente ao indicador global, valores próximos de +1 remetem à existência de relação espacial do tipo high-high e low-low. Valores próximos de -1 remetem à existência de relação espacial do tipo high-low e low-high. Valores, em termos estatísticos, diferentes de zero indicam que a unidade não está associada espacialmente aos seus vizinhos. 1.2.2 Resultados para o emprego industrial do Rio Grande do Sul Todas as análises desta seção foram feitas com o auxílio do software Geoda 0.95i (Anselin, 2004), e a matriz de contigüidade foi baseada no critério Queen. No Gráfico 1, tem-se o resultado da análise do gráfico de Moran para a participação dos trabalhadores industriais na população, em 2000, nos municípios do Rio Grande do Sul. Como se vê, o resultado sugere que há autocorrelação espacial. Afinal, existe uma proporção bem mais elevada de municípios nos quadrantes ímpares do que nos pares. Isso indica que os municípios com maior número de trabalhadores industriais na população estão espacialmente associados a outros com as mesmas características. Para corroborar o que indica a inspeção visual, o valor do Moran-I de 0,43 é estatisticamente significativo. Portanto, rejeita-se a hipótese de que a distribuição espacial da industrialização não é espacialmente correlacionada. Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 801-824, 2008 -1 -2 -1 -1 0 1 1 2 2 3 3 4 0 1 Defasagem especial dos desvios em relação à média 2 3 4 Estatística Moran-I para a participação dos trabalhadores industriais na população dos municípios do Rio Grande do Sul — 2000 5 6 Desvios em relação à média FONTE DOS DADOS BRUTOS: PROGRAMA DAS NAÇÕES UNIDAS PARA O DESENVOLVIMENTO — PNUD. Atlas do Desenvolvimento Humano no Brasil. Brasília: PNUD, 2003. CD-ROM. RELATÓRIO ANUAL DE INFORMAÇÕES SOCIAIS — RAIS. Disponível em: <http://www.mte.gov.br/estudiosos>. -2 Gráfico 1 Estrutura espacial das aglomerações e determinação dos salários industriais no Rio Grande do Sul 809 Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 801-824, 2008 810 Leonardo M. Monasterio; Mauro Salvo; Otavio Menezes Damé De fato, esse é um resultado previsível não só para os conhecedores da economia gaúcha, mas também para qualquer estudioso de economia regional em geral. Basta lembrar que a ocorrência de aglomerações é prevista por diversas teorias de localização industrial. Mesmo assim, esse resultado do indicador de Moran-I pode ser útil para comparações entre outros estados e através do tempo. Os resultados para o Moran-I local estão representados na Figura 2. Os padrões high-high estão localizados ao longo do eixo Porto Alegre—Caxias do Sul e na sua área de expansão a leste e a oeste. São municípios localizados, grosso modo, nos Coredes Metropolitano Delta do Jacuí, Serra, Vale do Caí, Vale do Taquari e Vale do Rio dos Sinos. Já o high-low, isto é, valores acima da média cercados por valores abaixo da média, é encontrado disperso nos Coredes Noroeste Colonial, Nordeste e Médio-Alto Uruguai. Este último Corede reúne também diversos municípios significativos no padrão low-low. Outras aglomerações na mesma categoria podem ser encontradas nos Coredes Centro-Sul, Norte, Missões e em uma porção do Vale do Rio Pardo. É interessante notar que o Município de Glorinha, apesar de ter uma alta proporção de trabalhadores industriais na população, não aparece como significativo na análise do Moran-I local. Isso se explica, porque esse indicador não almeja e nem deve ser usado para localizar observações com valores elevados ou outliers, o que ele indica são apenas padrões espaciais. Quando há um alto valor de um atributo em uma área, mas a média dos seus vizinhos é próxima à média do mapa, seu Moran-I será próximo a zero e, portanto, não significativo. Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 801-824, 2008 Estrutura espacial das aglomerações e determinação dos salários industriais no Rio Grande do Sul 811 Figura 2 Estatística Moran-I para participação dos trabalhadores industriais na população dos municípios do Rio Grande do Sul — 2000 Legenda: High-high Low-low FONTE DOS DADOS BRUTOS: PROGRAMA DAS NAÇÕES UNIDAS PARA O DEFONTE DOS DADOS BRUTOS: SENVOLVIMENTO — PNUD. Atlas do DesenvolFONTE DOS DADOS BRUTOS: vimento Humano no Brasil. Brasília: PNUD, 2003. FONTE DOS DADOS BRUTOS: CD-ROM. FONTE DOS DADOS BRUTOS: RELATÓRIO ANUAL DE INFORMAÇÕES SOCIAIS — RAIS. Disponível em: <http://www.mte.gov.br/estudiosospesquisadores/>. FONTE DOS DADOS BRUTOS: Acesso em: jun. 2005. Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 801-824, 2008 812 Leonardo M. Monasterio; Mauro Salvo; Otavio Menezes Damé 1.3 O potencial de mercado O potencial de mercado de uma região é definido como (Harris, 1954 apud Brakman; Garretsen; Marrewijk, 2003, p. 35-37): MPi = Mj j =1 ij R ∑ D MPi, o potencial de mercado da região i, é o somatório da demanda nos locais j (Mj), ponderada pela distância entre i e j (Dij). Em outras palavras, trata-se de um indicador da proximidade de um local à sua demanda. Os trabalhos pioneiros de economia regional voltavam-se a comparar o potencial de mercado com a localização das empresas. Sem surpresa, concluía-se que a produção tendia a ser concentrada nas áreas com alto potencial de mercado (Brakman; Garretsen; Marrewijk, 2003, p. 36). Restrições computacionais e de dados impedem, neste momento da pesquisa, o cálculo do potencial de mercado de forma idêntica àquela elaborada por Harris. Para superá-las, utilizou-se uma variável proxy que representa a mesma idéia básica: a distância euclidiana em relação ao centro econômico do Rio Grande do Sul. Tal centro foi obtido através do cálculo do centro médio ponderado (weighted mean center) pelo PIB dos municípios em 2000. As coordenadas de tal centro são calculadas da seguinte forma: PIBi 1 xm = ∑ xi n n i =1 ∑ PIBi i =1 n PIBi 1 y m = ∑ yi n n i =1 ∑ PIBi i =1 n Onde xi e yi são as latitudes e as longitudes dos centróides de cada município. Utilizando-se os dados do PIB de 2000 (FEE, 2003), chegou-se à latitude 29.5923 sul e à longitude -52.0526 oeste. Essa posição corresponde, aproximadamente, ao Município de Santa Cruz do Sul. Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 801-824, 2008 Estrutura espacial das aglomerações e determinação dos salários industriais no Rio Grande do Sul 813 Em seguida, foi calculada a distância euclidiana entre cada município e o centro econômico do Estado: DIST _ CENTRO = (xi − xm )2 + ( yi − ym )2 Os resultados dos cálculos para a economia gaúcha, em 2000, estão representados na Figura 3. Figura 3 Percentis da distribuição da distância euclidiana dos municípios gaúchos em relação ao centro econômico do Rio Grande do Sul – 2000 FONTE DOS DADOS BRUTOS: RELATÓRIO ANUAL DE INFORMAÇÕES SOFONTE DOS DADOS BRUTOS: CIAIS — RAIS. Disponível em: FONTE DOS DADOS BRUTOS: <http://www.mte.gov.br/estudiosospesquisadores/>. FONTE DOS DADOS BRUTOS: Acesso em: jun. 2005. NOTA: Tons mais escuros de cinza representam maior proximidade com o centro econômico do Estado. Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 801-824, 2008 814 Leonardo M. Monasterio; Mauro Salvo; Otavio Menezes Damé 2 Determinantes dos salários industriais no Rio Grande do Sul Nesta seção, estimam-se os impactos das dimensões espaciais nos salários industriais no Rio Grande do Sul. Para tal, além da inclusão de variáveis censitárias, será feito uso intensivo de variáveis calculadas nas seções anteriores. 2.1 Base teórica A idéia básica a ser avaliada é se existem externalidades locacionais que geram uma maior produtividade do trabalho e, portanto, maiores salários. Na tradição da literatura sobre o assunto, essas podem ser divididas em duas: as externalidades marshallianas (Marshall, 1982), ou seja, decorrentes da concentração espacial de um setor, e as jacobianas, geradas pela diversidade produtiva encontrada nas cidades de maior porte (Jacobs, 1961). Essas intuições, aceitas pelos pesquisadores da Ciência Regional, tomaram novo fôlego a partir dos modelos da chamada Nova Geografia Econômica. Com elaborados microfundamentos econômicos, a linha de pesquisa desenvolvida por Krugman, Fujita, Venables, Thisse, dentre outros, chegou a modelos de estruturação do espaço que prevêem formação de estruturas centro-periferia, com persistentes diferenças regionais nos salários nominais. Uma das críticas à Nova Geografia Econômica relaciona-se à dificuldade de testar seus modelos. Muitos deles não têm equilíbrios únicos e só podem ser resolvidos por simulação, ou exigem variáveis que não estão usualmente disponíveis para serem estimadas. Gordon Hanson (1997; 1998) pôs à prova os modelos da Nova Geografia Econômica e é uma das inspirações teóricas desta seção do trabalho. Hanson (1998) testou o modelo original de Krugman (1991) e o desenvolvimento proposto por Thomas (1997). Em termos gerais, trata-se de um modelo no qual agentes idênticos consomem apenas dois tipos de bens: manufaturados e serviços residenciais. Há concorrência monopolística, retornos crescentes na produção de cada variedade de bens manufaturados e custos de transporte do tipo iceberg. Com hipóteses razoáveis sobre os parâmetros, a produção concentra-se em poucas regiões (Hanson, 1998). Seguindo a apresentação de Hanson (1998), consumidores idênticos têm preferências Cobb-Douglas e consomem apenas dois tipos de bens: manufaturados (m) e serviços residenciais (r). Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 801-824, 2008 Estrutura espacial das aglomerações e determinação dos salários industriais no Rio Grande do Sul 815 U = C mµ C h1− µ Cr representa a quantidade de serviços residenciais demandados, enquanto Cm é um bem manufaturado composto na forma: C m = ∑ ci i n σ −1 σ σ σ −1 A elasticidade de substituição entre as n variedades é representada por σ. Já os custos de transporte são do tipo iceberg. Entre as localidades j e k, que distam d, com custos de transporte ô, para cada unidade enviada, apenas v chegam ao destino: −τd jk vjk = e No equilíbrio do modelo, os salários reais devem ser idênticos nas diversas regiões, bem como os pagamentos e os dispêndios em cada região, e a renda total da região é igual à renda dos trabalhadores. Fazendo diversas substituições, Hanson (1998) chega a uma especificação da determinação dos salários w na localidade j passível de ser testada, que incorpora as características do modelo e as condições de equilíbrio: J σ ( µµ−1) +1 (1− µ µ)(σ −1) σµ−1 −τ (σ −1) d jk +η j log( w j ) = θ + σ log ∑ Yk Hk wk e k H representa a oferta de habitação, è é a constante, e o ç é o termo de −1 erro. Em termos intuitivos, a aglomeração decorre do esforço das empresas para atingirem mercados locais, reduzindo os custos de transporte e evitando custos fixos desnecessários. As forças centrípetas derivam da maior competição de outras firmas no centro da aglomeração e do pagamento de salários maiores (Hanson, 1998). De acordo com essas visões, são as economias de aglomeração que viabilizam que os trabalhadores do centro sejam compensados pelos maiores custos da moradia nas proximidades do centro econômico e/ou pela perda de bem-estar por viverem perto de áreas industriais (ver Brakman, Garretsen e Marrewijk (2003, cap. 3)). Em equilíbrio, o modelo prevê que os salários nominais serão mais altos nas áreas mais próximas do centro. Conforme lembram Brakman, Garretsen e Marrewijk (2003, p. 146-147), nem os modelos neoclássicos de comércio, nem Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 801-824, 2008 816 Leonardo M. Monasterio; Mauro Salvo; Otavio Menezes Damé os novos modelos de comércio prevêem diferenças persistentes de níveis salariais de acordo com a localização. Hanson elabora o modelo de Krugman (1991), de forma a estimar os seus parâmetros estruturais. O autor calcula regressões econométricas com base em dados dos condados dos EUA continental, e os resultados suportam as previsões do modelo de Krugman: a produção manufatureira estaria sujeita a retornos crescentes, e os salários nominais seriam maiores próximos ao centro. Vale notar que, na parte empírica de seu trabalho, Hanson (1998) calcula a distância euclidiana de cada condado em relação ao centro econômico de cada estado norte-americano como uma proxy do potencial de mercado. O procedimento é semelhante ao seguido na seção 1.3 O presente estudo não estima os parâmetros estruturais do modelo de Krugman (1991), tal como fez Hanson (1998), basicamente pela falta de dados que impedem a reprodução correta de tais testes empíricos. Ou seja, a escolha das variáveis e o processo investigativo baseiam-se nos testes de Hanson, mas os resultados obtidos não podem ser comparados com os alcançados pelo autor, nem interpretados de forma estrutural. Ao invés de se utilizarem dados municipais, a estimação é feita com base em microdados censitários. A estratégia investigativa a ser seguida é calcular uma regressão de salários básica, à moda de Mincer (1974), mas adicionando variáveis relacionadas às dimensões locacionais. wi = f ( Xi ,Yn ) onde: wi = salário do indivíduo i no emprego principal, em reais por hora; Xi = vetor que inclui aquelas dimensões individuais que influem na produtividade do trabalho e nos salários; Yn = vetor que inclui as dimensões locacionais do local de trabalho n do indivíduo i. 2.2 Variáveis e fonte 2.2.1 Variáveis individuais com base nos microdados do Censo Demográfico 2000 (IBGE, 2002) Escolaridade - anos concluídos de estudo. Idade - medida em anos. Dummies para cor dos indivíduos - segue-se o critério do IBGE de autodeclaração do indivíduo em cinco cores (amarela, branca, indígena, parda e Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 801-824, 2008 Estrutura espacial das aglomerações e determinação dos salários industriais no Rio Grande do Sul 817 preta). A cor branca, por ser a mais freqüente da amostra, é tomada como referência. Dummy para sexo - o masculino é a referência. 2.2.2 Variáveis locacionais DIST_CENTRO - distância do centro econômico do Estado (ver seção 1.3). AGLOMERAÇÃO - variável dummy que considera os clusters espaciais identificados no padrão high-high e high-low, que constam na seção 1.2.2. URBANIZAÇÃO - taxa de urbanização municipal em 2000 (PNUD, 2003). POP_URBANA - população urbana total em 2000 (PNUD, 2003). 2.3 Estimação e resultados Foram considerados na amostra apenas os trabalhadores com carteira assinada, nos setores industriais, entre 18 e 65 anos completos e alfabetizados. Assim, ela ficou limitada a observações referentes a 55.270 indivíduos. Como há graus de liberdade suficientes, optou-se por incluir, nas variáveis independentes das regressões, todas as variáveis censitárias que pudessem influenciar os salários individuais. O banco de dados municipal foi compatibilizado com as observações individuais nos municípios de trabalho dos entrevistados e não nos seus municípios de residência. As estimações foram feitas com o auxílio do pacote R 2.1.1 e através de Mínimos Quadrados Ordinários. Todas as variáveis contínuas foram transformadas em logaritmo natural. No Modelo 1 (Tabela 1), apenas com os componentes individuais, percebe-se que não se falseou a hipótese de que existe discriminação no mercado de trabalho. Calculando-se o antilog dos estimadores, conclui-se que o salário das mulheres é cerca de 30% menor do que o dos homens e que os indivíduos de cor parda ou preta auferiam, por hora, respectivamente, 7% e 12% a menos do que os de cor branca, mesmo com os controles para idade e escolaridade. Tais resultados podem ser decorrentes de variáveis não observáveis, ou de dimensões não incluídas na regressão. Por exemplo, diferentes níveis de qualidade da educação oferecida a tais grupos, ou mesmo ocupações distintas Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 801-824, 2008 818 Leonardo M. Monasterio; Mauro Salvo; Otavio Menezes Damé dentro da indústria, influenciam os salários e devem ser incluídas em estudos posteriores.7 Já no tocante às variáveis relacionadas à localização, todas foram estatisticamente significativas a mais de 99% e com o sinal esperado. Mesmo com os controles para as características individuais, os salários são maiores nos clusters espaciais industriais, mais urbanizados, com maior população e mais próximos ao centro econômico do Estado. Em termos de significância econômica, a diferença entre compor, ou não, um cluster espacial altera o salário em 18%, no Modelo 2, e em 16%, no Modelo 3. No primeiro, os efeitos marginais de um aumento marginal hipotético de 1% na distância do centro e na taxa de urbanização geram uma variação dos salários de -0,03% e 0,23% respectivamente. No Modelo 3, mais completo, incluindo-se a variável para capturar o efeito da escala urbana (POP_URBANA), percebe-se que, conforme o esperado, o estimador referente à taxa de urbanização cai de 0,226 para 0,032. No Modelo 3, tem-se que um aumento de 1% da população urbana do município resulta em 0,05% dos salários individuais. Os resultados, portanto, corroboram a idéia de que as externalidades aglomerativas nas localidades com maior população e maior taxa de urbanização se refletem nos salários. Os clusters industriais e as regiões mais próximas do centro econômico também apresentam diferenciais de salários. É interessante o quão robusto foi o estimador referente à distância do centro econômico do Estado, mesmo quando se introduziram variáveis que capturaram a existência de economias de urbanização. Essa é uma evidência bastante sugestiva em favor das conclusões do modelo de Krugman (1991). Vale reforçar que os efeitos estimados se referem a salários nominais, e não reais. É uma das condições de equilíbrio do modelo que não haja diferenças nos salários reais de indivíduos com características produtivas semelhantes, entre as regiões.8 Em uma economia com livre mobilidade do fator trabalho, essa é uma hipótese razoável. 7 O estudo da discriminação no mercado de trabalho é um tema relevante, mas vai muito além dos limites deste artigo. Como base, sugere-se o trabalho de Arias, Yamada e Tejerina (2002). 8 Miranda et al. (2002) utilizaram dados da RAIS para as Regiões Sudeste e Nordeste do Brasil e estimaram regressões mincerianas, com uma variável dummy adicional para tais macrorregiões. Eles concluíram que seria necessário um índice de preços 60% maior na Região Sudeste, para que os salários reais fossem equalizados com os da Nordeste. Os autores interpretaram essas evidências como um sinal da existência de um problema regional no Brasil e não fizeram referência à literatura da Nova Geografia Econômica. Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 801-824, 2008 Estrutura espacial das aglomerações e determinação dos salários industriais no Rio Grande do Sul 819 Tabela 1 Salário/hora trabalhada no emprego principal (variável dependente In), segundo três modelos econométricos, para os municípios do Rio Grande do Sul — 2000 DISCRIMINAÇÃO MODELO 1 MODELO 2 MODELO 3 Constante .................... AGLOMERAÇÃO ........ (1) -9,35 (3) -3,48 (1) -0,35 (3) -78,86 0,02 (3) 0,34 -0,04 (3) -1,06 (1) -0,07 (3) -8,70 (1) -0,13 (3) -12,86 (4) 5,15 (3) 2,19 -0,73 (3) -1,07 0,01 (3) 0,24 (1) 1,04 (3) 22,24 (1) -1,05 (3) -31,69 (1) 0,32 (3) 44,76 - DIST_ CENTRO .......... - URBANIZAÇÃO .......... - (1) -9,29 (3) -3,55 (1) -0,35 (3) -81,27 -0,00 (3) -0,09 -0,05 (3) -1,27 (1) -0,07 (3) -8,78 (1) -0,13 (3) -13,28 (4) 5,17 (3) 2,26 -0,76 (3) -1,15 0,02 (3) 0,34 (1) 1,04 (3) 22,80 (1) -1,04 (3) -32,50 (1) 0,32 (3) 45,70 (1) 0,16 (3) 38,19 (1) -0,03 (3) -10,00 (1) 0,22 (3) 29,94 POP_URBANA ........... - (2) -7,71 (3) -2,97 (1) -0,34 (3) -79,54 -0,01 (3) -0,23 -0,09 (3) -2,07 (1) -0,08 (3) -10,14 (1) -0,15 (3) -15,93 3,34 (3) 1,47 -0,22 (3) -0,34 -0,03 (3) -0,49 (1) 1,06 (3) 23,39 (1) -1,05 (3) -33,03 (1) 0,32 (3) 45,90 (1) 0,14 (3) -32,56 (1) -0,03 (3) -10,57 (2) 0,03 (3) 3,09 (1) 0,04 (3) 27,34 0,45 3 100 MULHER ..................... COR AMARELA .......... COR INDÍGENA .......... COR PARDA ............... COR PRETA ............... IDADE ......................... IDADE^2 ..................... IDADE^3 ..................... ESCOLARIDADE ........ ESCOLARIDADE^2 .... ESCOLARIDADE^3 .... 2 R ................................ Estatística F ................ 0,41 3 611 0,45 3 224 FONTE DOS DADOS BRUTOS: IBGE. Censo Demográfico 2000: microdados da amostra — RS. 2. ed. Rio de Janeiro: IBGE, 2002. CD-ROM. (1) Significativo a menos de 0,001. (2) Significativo a 0,01. (3) Valores T. (4) Significativo a 0,05. Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 801-824, 2008 820 Leonardo M. Monasterio; Mauro Salvo; Otavio Menezes Damé 3 Conclusão Neste trabalho, examinou-se a distribuição espacial das aglomerações produtivas e avaliaram-se os efeitos de características locacionais nos salários dos trabalhadores da indústria gaúcha. Após apresentar os recursos da análise exploratória de dados espaciais, incluindo os indicadores de Moran-I global e local, analisaram-se os determinantes salariais no Rio Grande do Sul. As regressões econométricas, com base em microdados censitários, com controles para as dimensões individuais, além de indicarem a existência de diversas formas de discriminação no mercado de trabalho, sugeriram que “o espaço importa”. As evidências apóiam as hipóteses da Nova Geografia Econômica, uma vez que os salários nominais, com os controles devidos, são maiores nos municípios com maior potencial de mercado (isto é, mais próximos do centro econômico do Estado), mais urbanizados e com maior população. O trabalho avançou, ao mostrar o potencial da utilização da estatística espacial e de microdados em conjunto para o estudo de questões de economia regional. Foi possível mensurar, pela primeira vez, o impacto de economias de aglomeração e de urbanização nos salários dos trabalhadores industriais gaúchos. Contudo, além dos cuidados que se deve ter na interpretação de resultados econométricos, vale a pena adotar uma cautela adicional. O próprio Hanson (2000) alertou para as dificuldades de se distinguir empiricamente as economias de aglomeração e seus efeitos. Podem existir características locais exógenas não observadas, ou mesmo pode ser difícil identificar quais são efetivamente as externalidades e como elas causam as aglomerações produtivas. Para a economia gaúcha, a análise sugere que, de fato, existem elementos que favorecem a concentração em torno do centro econômico do Estado, localizado nas proximidades de Santa Cruz do Sul. Isso está de acordo com o processo de desconcentração concentrada, já identificado na economia gaúcha (Bandeira, 1995). As empresas são atraídas pela região dinâmica, mas buscam, ao mesmo tempo, evitar os custos maiores, decorrentes da aglomeração excessiva, como já apontavam Alonso e Bandeira (1988). Uma interpretação possível desse resultado é que o atraso industrial das demais regiões do Estado seria conseqüência mais de processos econômicos de distribuição da atividade econômica no espaço do que de determinantes culturais ou políticos. Essa é uma restrição extra a ser considerada pelas políticas regionais, quando buscam um desenvolvimento industrial espacialmente mais equânime. No âmbito desta pesquisa, os próximos passos estarão voltados a incluir as características das empresas e das atividades de cada trabalhador na Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 801-824, 2008 Estrutura espacial das aglomerações e determinação dos salários industriais no Rio Grande do Sul 821 estimação econométrica.9 Dessa forma, será possível distinguir melhor os efeitos das aglomerações por tipo, tamanho de empresa, ou mesmo relacionados com a atividade do trabalhador. Ao mesmo tempo, um instrumental de análise espacial mais sofisticado será aplicado à mesma base de dados, para que se alcance uma melhor compreensão da distribuição espacial da atividade econômica no Rio Grande do Sul. Referências ALONSO, J. A. F.; BANDEIRA, P. S. A desindustrialização de Porto Alegre: causas e perspectivas. Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 9, n. 1, p. 3-28, 1988. ALONSO, J. A. F.; BENETTI, M. D.; BANDEIRA, P. S. 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Nesse contexto, o presente artigo tem por objetivo apreender o sentido prevalecente na evolução dos principais indicadores do mercado de trabalho, perseguindo-se a hipótese de que houve uma crescente precarização das relações de trabalho no período 1992-04. Para tanto, procedeu-se à construção e à análise de um índice-síntese, o Índice de Precarização (IP), utilizando dados da Pesquisa de Emprego e Desemprego na Região Metropolitana de Porto Alegre (PED-RMPA). Ao integrar múltiplas dimensões relativas às formas de inserção ocupacional, o IP evidenciou uma maior precarização no mercado de trabalho metropolitano, uma vez que a queda acentuada do índice entre os subperíodos 2 (jul./94-jun./96) e 4 (jul./98-jun./ /00) não logrou ser contra-arrestada pela evolução positiva da maioria dos indicadores ao final do período em análise. * Artigo recebido em abr. 2007 e aceito para publicação em ago. 2007. Este artigo é parte dos estudos desenvolvidos pela autora na Tese de Doutorado em Sociologia. Ver Toni (2004), especialmente o Capítulo 5. ** E-mail: [email protected] A autora agradece à Professora Doutora Elida Rubini Liedke, orientadora da Tese, por seus valiosos comentários e sugestões ao texto, bem como a Jeferson D. de Matos, Estatístico da PED-RMPA, a sua participação na organização dos dados e a Thais Persson, bolsista da FAPERGS, o auxílio na edição final do texto. Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 825-852, 2008 826 Míriam De Toni Palavras-chave Precarização do trabalho; transformações do trabalho; mercado de trabalho metropolitano. Abstract In Brazil, the precarization of the labour market conditions has been pointed out as one of the main problems related to the process of productive restructuring, which occurred more intensively from the early nineties onwards. In this context, the objective of this article is to analyze the prevailing direction in the evolution of the main indicators of the labour market, under the hypothesis that there has been an increase in the level of precariousness of the labour relations during the period 1992–04. In order to analyze this subject we use a synthetic statistical measure — an index of precarization — which encompasses multiple dimensions of labour conditions, using data from a monthly survey at the Metropolitan Region of Porto Alegre (PED-RMPA). The main outcomes indicated a rise in the level of precariousness in the labour market, which has been expressed in the rise of unemployment rates, job instability and insecure forms of work as well as in the lack or absence of social protection. Key words Marked labour precariousness; changes at work; metropolitan labour markets. Classificação JEL: J01. Introdução A precarização do trabalho vem sendo destacada como um dos principais problemas associados aos processos de reestruturação das formas de produzir e dos modos de organizar e gerir o trabalho, que, no Brasil, vêm ocorrendo, de modo mais efetivo, a partir da década de 90, no bojo das transformações do sistema capitalista desencadeadas no último quartel do século XX. Na realidade, tais processos têm gerado alterações substantivas no mercado de trabalho Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 825-852, 2008 Precarização do trabalho: avaliando a deterioração do mercado de trabalho... 827 e nas relações de trabalho, as quais, pela sua natureza múltipla, vêm tendo impactos diferenciados sobre a população trabalhadora, cuja análise requer que se leve em conta uma variedade de evidências, incluindo dimensões econômicas e sociais, capazes de revelar situações relacionadas ao trabalho, mas que também interferem na qualidade de vida dos trabalhadores. Nesse contexto, o presente artigo tem por objetivo apreender o sentido prevalecente na evolução dos principais indicadores do mercado de trabalho, perseguindo-se a hipótese de que houve uma crescente precarização das relações de trabalho, processo este que resultou da confluência de vários fatores. Dentre esses, para o caso brasileiro e considerando o período que se inicia nos anos 90, cabe destacar — ao lado das circunstâncias históricas nacionais, de um mercado de trabalho já marcado pela heterogeneidade e pela convivência com formas precárias de inserção ocupacional — a maior inserção do País no processo de globalização, a qual ocorreu de modo abrupto e com escassa participação da sociedade, o aprofundamento da reestruturação produtiva e a opção por políticas de cunho neoliberal, que se pautam por questionar o papel do Estado, incentivar privatizações e desregulamentar as várias esferas da economia e da sociedade, com especial ênfase na flexibilização das relações de trabalho. Em termos da economia nacional, o período foi pontuado por conjunturas distintas e por mudanças abruptas, cujos desdobramentos provocaram impactos diferenciados sobre o mercado de trabalho, os quais, na sua maior parte, têm repercutido de modo desfavorável sobre os trabalhadores, predominando formas de inserção que tendem a precarizar as relações de trabalho, revertendo, desse modo, tendências de melhoria das condições de trabalho da população ativa observadas em períodos anteriores — principalmente entre 1960 e 1980. Dentre os principais acontecimentos nos âmbitos da economia e da política que caracterizaram esse período, pode-se citar um primeiro momento, de profunda recessão (1990-92), com o Governo Collor, quando se intensificou o processo de abertura comercial; a seguir, os dois períodos do Governo Fernando Henrique Cardoso (FHC) deram continuidade à política de corte neoliberal, podendo-se distinguir diferentes momentos. Entre 1993 e 1997, registrou-se uma recuperação do nível de atividade econômica, reforçada pela implantação de mais um plano de estabilização (Plano Real), em 1994, introduzindo uma nova moeda — o real — e controlando o processo inflacionário. Após esse intervalo, o quadro seguiu ainda mais errático, com desaceleração econômica até 1999, seguida de certa recuperação entre este último ano e 2001, ancorada, em boa medida, na desvalorização cambial, que alavancou as exportações, beneficiando sobremaneira os estados com perfil exportador, como é o caso do Rio Grande do Sul (RS), Estado tomado como referência para o presente estudo. Já o Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 825-852, 2008 828 Míriam De Toni ano de 2002 — último da gestão FHC — foi marcado por turbulências — crise financeira, aumento do Risco Brasil, abrupta valorização cambial, elevação da inflação e queda do nível de atividade —, as quais interromperam aquele cenário mais promissor. Tais acontecimentos estiveram associados, por um lado, às eleições presidenciais, em que se desenhava a vitória — depois confirmada pela eleição do Presidente Lula — de um governo à esquerda do espectro político e crítico ao modelo anterior, e, por outro, à forte crise da Argentina e à desaceleração econômica norte-americana, países estes que se constituem nos principais parceiros comerciais do RS. Por fim, ao final do período, já sob o Governo Lula, a economia voltou a crescer, revertendo, em parte, o quadro anterior, com inflação sob controle e saldos comerciais cada vez mais positivos, em uma conjuntura internacional bastante favorável. Não obstante as várias conjunturas que se sucederam, o período como um todo foi caracterizado por taxas de crescimento econômico oscilantes e relativamente baixas, não se desenhando uma trajetória de crescimento sustentável.1 Tendo-se presente esse contexto, para a análise da evolução das formas de inserção da população ativa, procedeu-se à construção de um índice — aqui denominado Índice de Precarização (IP) —, tendo em vista que, por ser um indicador-síntese, é um instrumento estatístico valioso, quando o objetivo é integrar múltiplas dimensões relativas às condições de inserção da População Economicamente Ativa (PEA) no mercado de trabalho, possibilitando, assim, avaliações sobre a qualidade desse mercado. Essa propriedade torna-se particularmente importante, quando se tem presente que as mudanças no mercado de trabalho brasileiro têm evidenciado resultados distintos e até opostos, gerando debate e interpretações muitas vezes conflitantes. O estudo toma como referencial empírico o mercado de trabalho da Região Metropolitana de Porto Alegre (RMPA), tendo em vista a importância desse espaço para o Estado do Rio Grande do Sul, tanto quanto o lugar destacado que o Estado ocupa no contexto nacional2. De fato, a RMPA tem grande importância em termos econômicos e populacionais, concentrando as atividades produtivas 1 Para o Brasil, a taxa de crescimento anual do Produto Interno Bruto (PIB) entre 1990 e 2004 foi bastante baixa durante quase todo o período, sendo inferior a 3% ao ano em oito do total de anos e superando os 5% em apenas dois anos (IBGE, 2006). De modo semelhante, para o Rio Grande do Sul, esse indicador atingiu, no máximo, 3% em nove do total de anos do período, sendo que, em apenas três anos, ele se mostrou superior aos 6% (Schettert, 2005; FEE, 2006). 2 O Rio Grande do Sul, situado no extremo sul do Brasil, tem permanecido, historicamente, como uma das economias de maior porte do País, estando na quarta posição entre os 26 estados da Federação, precedido por São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 825-852, 2008 Precarização do trabalho: avaliando a deterioração do mercado de trabalho... 829 cativas de sítios urbanos — gera a metade do Produto Interno Bruto industrial e cerca de 42% do PIB do setor serviços (Alonso, 2001). No caso da indústria, a aglomeração urbana da RMPA sedia grande parte das atividade industriais com características de complexos industriais — complexos agroindustrial (com destaque para os ramos vinculados à atividade coureiro-calçadista), metal-mecânico e químico.3 Em termos demográficos, os 31 municípios que integram a Região abarcam cerca de um terço da população do Estado, de 10 milhões de habitantes, e congregam nada menos do que 40% da população trabalhadora gaúcha vinculada a atividades não agrícolas. Acresça-se a isso o fato de que, especialmente a partir dos anos 90 e seguindo o curso da economia nacional, o Rio Grande do Sul e, conseqüentemente, a RMPA vêm passando por um processo de intensificação da reestruturação produtiva, acompanhado de mudanças na organização e na gestão do trabalho, que tem provocado alterações expressivas nas formas e nas condições de inserção dos trabalhadores no mercado de trabalho regional. Estudos sobre os processos de reestruturação em curso têm destacado aspectos tais como: implementação de estratégias de desverticalização, de subcontratação e de terceirização;4 programas de ajuste, implicando integração de atividades produtivas, fusões e associações; enxugamento dos quadros hierárquicos e diminuição do número de pessoas empregadas;5 e adoção de inovações organizacionais — muitas delas associadas aos novos modelos, especialmente o japonês Just-in-Time (JIT), o Círculo de Controle de Qualidade (CCQ), o 3 Tomando como indicador da produção industrial o “valor das saídas”, Alonso (2004) constata a elevada participação relativa desses complexos industriais metropolitanos no total de cada complexo, no Estado. O químico tem a maior concentração, atingindo 83,1% na RMPA; seguem o metal-mecânico, com 53,4%, e o agroindustrial, com 37,8%. Integrando este último, o segmento coureiro-calçadista participa com mais de dois terços do valor de saídas total do segmento, no Estado. Há ainda, com menor participação, o complexo madeira (34,1%). 4 Sobre a reeestruturação produtiva no Rio Grande do Sul e suas conseqüências, ver, especialmente, Castilhos e Passos (1998), Jornada et al. (1999) e Alonso (2004). No caso da cadeia produtiva têxtil-vestuário, por exemplo, apenas um quarto das empresas pesquisadas não havia adotado estratégias de desverticalização e/ou terceirização na década de 90; no complexo celulose, papel e papelão, todas as empresas apresentaram terceirização, centrada em atividades de serviços (Castilhos; Passos, 1998). 5 De acordo com Castilhos e Passos (1998), no setor de máquinas-ferramenta, por exemplo, todas as empresas integrantes da pesquisa de campo diminuíram em cerca de 50% o número de empregados no período 1987-88 e em 1993. Em que pese estar contida no período a recessão econômica de 1990-92, a redução de mão-de-obra nas empresas resultou, principalmente, da incorporação de novos equipamentos produtivos e de aumento da produtividade da mão-de-obra. “Em 1993, as empresas [...] necessitavam de cerca de 30% menos de mão-de-obra para manter o mesmo nível de produção de 1988” (Castilhos; Passos, 1998, p. 90). Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 825-852, 2008 830 Míriam De Toni Controle Estatístico de Processo (CEP), as células de produção, etc. — embora, geralmente, de forma não sistêmica e de modo ainda bastante heterogêneo entre e intra-setores.6 Por fim, a opção metodológica de focar o estudo sobre um espaço regional metropolitano está fundada no entendimento de que, dadas as características de tais espaços, esse recorte se presta à análise de manifestações de tendências gerais do mercado de trabalho nacional, bem como à possibilidade de identificá-las, potencializando a apreensão de aspectos similares aos vários contextos regionais, que lhes imprime características homogêneas. A ênfase nesses aspectos não anula e tampouco diminui a importância e a necessidade de esforços com vistas a captar especificidades regionais, o que endereça estudos comparativos inter-regionais. O estudo tomou como fonte de dados a Pesquisa de Emprego e Desemprego na Região Metropolitana de Porto Alegre (PED-RMPA)7, abarcando o período de 1992 a 2004. O texto está organizado em duas partes, além desta Introdução: na primeira, de cunho metodológico, explicita-se a seleção dos indicadores que compõem o IP, seguindo-se a apresentação da metodologia de cálculo do Índice; a segunda parte compreende a apresentação e a análise dos resultados obtidos, em que se acompanha a evolução das condições de inserção ocupacioanal na RMPA e se discutem suas implicações para a população trabalhadora. 6 Conforme Castilhos e Passos (1998, p. 73), no setor de autopeças, as mudanças no processo produtivo vêm dando prioridade “[...] à redução de custos alcançada pelo corte de pessoal, pela automação e pela externalização de serviços”, em detrimento da desverticalização do processo produtivo. Já no setor de máquinas-ferramenta, o mesmo estudo constata que as empresas mais importantes do Estado apresentaram como eixo da estratégia empresarial a redução do nível de integração vertical da produção. Adicionalmente, estudo de Jornada et al. (1999) constatou que e incorporação de equipamentos de base microeletrônica na indústria mecânica gaúcha é recente a ainda parcial, observando-se a convivência de equipamentos de bases técnicas distintas. Nesse sentido, a pesquisa em 10 grandes empresas do ramo mecânica revelou que, enquanto todas operavam com máquinas-ferramenta de controle numérico (MFCN) e os computadores se generalizavam entre elas, apenas três operavam com robôs, e quatro possuíam máquinas de comando numérico direto — direct numerical control (DNC). 7 A PED-RMPA é executada pela Fundação de Economia e Estatística Siegfried Emanuel Heuser (FEE) desde abril de 1992, mediante convênio com a Fundação Gaúcha do Trabalho e Ação Social (FGTAS-SINE-RS), com a Fundação SEADE, de São Paulo, e com o Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Sócio-Econômicos (DIEESE). A metodologia utilizada na PED introduziu inovações metodológicas visando apreender melhor as características de mercados de trabalho heterogêneos, como o brasileiro. Implantada na Grande São Paulo, em 1985, a PED foi sendo ampliada para outras regiões metropolitanas do País, especialmente nos anos 90, abrangendo, atualmente, as de São Paulo, Porto Alegre, Belo Horizonte, Recife, Salvador e o Distrito Federal. Sobre a metodologia da PED, ver Fundação SEADE/DIEESE (1995). Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 825-852, 2008 Precarização do trabalho: avaliando a deterioração do mercado de trabalho... 831 1 Aspectos metodológicos 1.1 Seleção de indicadores para a composição do Índice de Precarização Tendo como pressuposto que a análise das mudanças no trabalho requer que se considerem vários aspectos do processo em curso, os quais, não raro, apontam direções distintas e até opostas, alguns estudos a respeito do mercado de trabalho brasileiro têm utilizado como estratégia analítica a construção de índices, montados com base em uma gama mais ou menos extensa de indicadores, visando a, justamente, avaliar a trajetória prevalente nas mudanças. Dentre esses, merecem ser destacadas as experiências desenvolvidas por Miller (1999) e Saboia (1999), cuja relevância se prende ao esforço despendido na elaboração de índices e à clareza na explicitação da metodologia utilizada, bem como à riqueza quanto aos resultados obtidos.8 No primeiro caso, a autora analisou a evolução da qualidade do emprego no Brasil, nos anos 90 (período 1989-96), por meio da construção de um índice de qualidade do emprego, fundado na combinação de três variáveis: status contratual — participação do assalariamento formal (no setor privado, com carteira assinada e assalariado no setor público) sobre o total da ocupação —; proteção social — participação dos contribuintes na previdência social oficial —; e salário ou renda mensal por hora trabalhada. O índice-resumo de qualidade resultante permitiu-lhe comparar os setores de atividade econômica e sua evolução ao longo do período enfocado. Saboia (1999), por seu turno, propõe “um novo índice para o mercado de trabalho urbano no Brasil”, incorporando três dimensões — desemprego, ocupação e/ou informalidade e rendimento do trabalho —, cada uma desdobrada em blocos de indicadores específicos. Com base nos dados da Pesquisa Mensal de Emprego, do IBGE (PME-IBGE) (IBGE, 2006a), o autor faz uma análise dos mercados de trabalho metropolitanos e de sua evolução no período 1991-98, chegando a conclusões semelhantes às de Miller (1999), através de uma relação mais extensa de indicadores. O índice resultante, tomado como indicador 8 Para desenvolver os estudos, ambos os autores valeram-se de metodologia desenvolvida para a construção do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), da ONU, a qual inspira também a análise ora empreendida, como se explicitará no item seguinte. Em estudo com propósitos similares, Moutinho, Gouvea e Klagsbrunn (2002) optaram pela aplicação de um outro instrumental estatístico — a análise fatorial por componentes principais —, que também se presta a análises dessa natureza. Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 825-852, 2008 832 Míriam De Toni global, mostrou “forte deterioração do mercado de trabalho”, embora os três blocos de estatísticas fornecessem resultados distintos. Ou seja, [...] enquanto os dois primeiros apontam no sentido de piora, o último indica melhora. A queda nos indicadores de desemprego e de ocupação/ /informalidade, entretanto, é suficientemente forte, de modo que o indicador-síntese construído mostra uma clara deterioração no período analisado (Saboia, 1999, p. 6). Partindo de tais estudos e tendo por referência as considerações a respeito das mudanças no mercado de trabalho regional, passou-se à construção do Índice de Precarização. Assim, ao escolher os componentes do Índice, buscou-se abarcar a complexidade do fenômeno em estudo, incluindo dimensões que configurassem fatores determinantes da qualidade das inserções dos indivíduos no mercado de trabalho e que, ao mesmo tempo, pudessem revelar níveis diferenciados de precariedade. Inicialmente, foram definidas três dimensões — condições de inserção ocupacional, desemprego e rendimentos do trabalho —, às quais se incorporaram oito indicadores considerados básicos para avaliar as condições de inserção da PEA, conforme apresentado na Figura 1. No que se refere às condições de inserção ocupacional, privilegiou-se a proteção social associada ao trabalho, incluindo-se, como indicadores principais, os relativos às categorias de inserção consideradas padrão do sistema capitalista — assalariados do setor privado com carteira de trabalho assinada e trabalhadores do setor público (estatutários e com carteira de trabalho assinada). Adicionalmente, foram contemplados os trabalhadores que declararam contribuir para a previdência social pertencentes às demais formas de inserção ocupacional, o que lhes garante o amparo da legislação em vigor. Desse modo, as categorias selecionadas permitem abarcar todo o conjunto de trabalhadores vinculados ao Sistema de Proteção Social, sendo essa classificação mais abrangente, portanto, que a maioria dos estudos que abordam esse tema, os quais tendem a fazer referência apenas aos trabalhadores assalariados com vínculo formal. Como indicador complementar, foi selecionado, ainda, o tempo que o indivíduo vinha exercendo a ocupação na qual se encontrava no momento da pesquisa — tempo médio de permanência no trabalho —, que fornece uma indicação da rotatividade da mão-de-obra e oferece elementos para se avaliarem em níveis de estabilidade ou de instabilidade na ocupação. A segunda dimensão contemplou o desemprego, tomando-se como variável básica a taxa de desemprego total, que inclui os três tipos de desemprego considerados pela PED — aberto, oculto pelo trabalho precário e oculto pelo desalento. Essas formas de desemprego procuram abarcar as suas caracterís- Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 825-852, 2008 Precarização do trabalho: avaliando a deterioração do mercado de trabalho... 833 ticas em mercados de trabalho como o brasileiro, em que os mecanismos institucionais de proteção ao desempregado contemplam parcela restrita da força de trabalho nessa condição e têm duração limitada e insuficiente, especialmente ao se ter presente que o tempo médio despendido na procura por trabalho se elevou para cerca de um ano a partir do final da década de 90, nas regiões metropolitanas pesquisadas pela PED.9 A esse indicador, acrescentaram-se outras duas variáveis que incorporam elementos que permitem melhor qualificar a condição de desemprego e seus impactos sobre a população — o tempo médio despendido na procura por trabalho e a taxa de desemprego dos chefes de domicílio. Como terceira e última dimensão, considerou-se o rendimento do trabalho, tendo como principal variável o rendimento médio real por hora trabalhada, dado que, além de ser um indicador bastante utilizado, tem a vantagem — frente ao indicador comumente empregado, que seria o rendimento médio real mensal — de contornar possíveis diferenciais de rendimentos médios advindos de diferenças no tamanho da jornada de trabalho. Além do nível de rendimento, a desigualdade na distribuição dos rendimentos é um outro indicador importante das condições do mercado de trabalho, especialmente em países como o Brasil, de elevada desigualdade de renda. Assim, foi acrescido um indicador de desigualdade, optando-se pelo Índice de Gini, largamente utilizado em estudos sobre rendimentos. Uma vez feita a escolha das três dimensões e das variáveis que as integram, e seguindo a metodologia de construção do Índice de Precarização, detalhada a seguir, procedeu-se à ponderação das variáveis conforme o grau de importância atribuído a cada uma delas. Esses três grupos de indicadores são utilizados na composição do indicador-síntese do mercado de trabalho, o IP, cujos valores variam entre zero e um, de tal modo que seu crescimento significa melhoria das condições do mercado de trabalho, e, contrariamente, sua queda revela deterioração de tais condições. 9 Conforme dados apresentados em DIEESE (2001, p. 56), esse indicador variava entre 10 e 15 meses nas regiões pesquisadas. Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 825-852, 2008 Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 825-852, 2008 Índice da Dimensão Índice do Indicador Indicador Dimensão Figura 1 Tempo médio no trabalho Tempo médio no trabalho Í N D I C E Inserção Ocupacional Outros trabalhadores com Previdência Assalariado com carteira e trabalhador do setor público Outros trabalhadores com Previdência Assalariado com carteira e trabalhador do setor público Inserção Ocupacional D E Tempo médio de procura de trabalho Tempo médio de procura de trabalho Índice de Gini Índice de Gini Rendimento Rendimento médio real por hora Rendimento médio real por hora Rendimento P R E C A R I Z A Ç Ã O Desemprego Taxa de desemprego dos chefes de domicílio Taxa global de desemprego Taxa de desemprego dos chefes de domicílio Taxa global de desemprego Desemprego Diagrama de construção do Índice de Precarização 834 Míriam De Toni Precarização do trabalho: avaliando a deterioração do mercado de trabalho... 835 1.2 Índice de Precarização: metodologia de cálculo A metodologia para a elaboração do Índice de Precarização foi inspirada no Índice de Desenvolvimento Humano, criado pela ONU, no início dos anos 90, para acompanhar o desenvolvimento social mundial (Nações Unidas, 1990). A partir dessa experiência, a metodologia do IDH vem fundamentando a construção de indicadores sintéticos para avaliar graus de desenvolvimento de regiões ou países,10 bem como condições do mercado de trabalho e sua evolução ao longo dos últimos anos. Com base nessa metodologia, a construção do Índice de Precarização pautou-se na incorporação das três dimensões definidas anteriormente, com as quais se procurou abarcar os principais aspectos relativos às condições de inserção da População Economicamente Ativa no mercado de trabalho metropolitano. Para o cálculo do IP, foram igualmente considerados os oito indicadores associados a cada dimensão, conforme visualizado na Figura 1. Para a construção dos índices-síntese de cada dimensão, é necessário que todos os índices parciais apontem uma mesma direção, de modo que um valor elevado para uma estatística deve, necessariamente, indicar resultado similar, em termos de avaliação, a valores elevados nas demais estatísticas. No presente caso, os índices foram padronizados, de forma que valores altos expressassem melhores condições do mercado de trabalho e valores baixos indicassem condições menos favoráveis. Quanto à inserção ocupacional, as três variáveis e/ou estatísticas selecionadas apresentam relação direta com o índice a ser construído para cada uma delas, ou seja, quanto maior o valor apurado para cada uma dessas estatísticas, maior será o valor do índice resultante, uma vez que esse aumento representa melhora nas condições do mercado de trabalho. Portanto, esses três indicadores são considerados positivamente na composição do IP. Já as três variáveis que compõem a dimensão desemprego apresentam relação indireta ou contrária ao índice a ser construído para as mesmas, pois valores maiores dessas estatísticas representam deterioração do mercado de 10 Referentemente à criação de outros índices de desenvolvimento, observa-se que eles, geralmente, têm buscado ampliar o número de variáveis incorporadas, uma vez que são considerados muito restritos os indicadores levados em conta pelo IDH (renda per capita, taxa de analfabetismo, número de anos de estudo e expectativa de vida ao nascer). Apenas para exemplificar, podem ser citados o Índice Social Municipal Ampliado e o Idese, ambos para o Rio Grande do Sul, que levam em consideração indicadores de condições de domicílio e saneamento, educação, saúde e renda (Winckler, 2002) e o Índice de Exclusão Social, apresentado no Atlas de Exclusão Social no Brasil (Pochmann; Amorim, 2003). Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 825-852, 2008 836 Míriam De Toni trabalho e, portanto, devem resultar em índices com valores baixos. Assim, os indicadores de desemprego são tidos como negativos para a composição do IP, uma vez que seu crescimento indica situações menos favoráveis de inserção no mercado de trabalho, ao mesmo tempo em que afetam a situação dos desempregados, ampliando o tempo em desemprego ou, no caso dos chefes de domicílio, pela queda na qualidade de vida do grupo familiar, pois, geralmente, o chefe tem a maior contribuição no orçamento desse grupo. As duas estatísticas sobre rendimento, por sua vez, mostram diferenças na construção do índice. O rendimento médio por hora tem relação direta com o índice a ser construído, enquanto o Índice de Gini apresenta relação indireta. Ou seja, um aumento no rendimento tem contribuição positiva para o IP, pois a renda tem estreita relação com a qualidade de vida de toda a população, especialmente em um país como o Brasil, de elevada pobreza e baixos rendimentos do trabalho. Inversamente, o indicador referente ao Índice de Gini afeta negativamente o IP, pois seu crescimento indica piora na distribuição dos rendimentos, aumentando a desigualdade de renda. Do total das oito variáveis utilizadas para a construção do índice-síntese geral, sete delas — exceção feita ao Índice de Gini — tiveram seus valores máximos e mínimos parametrizados através dos valores históricos mensais observados entre os meses de julho de 1992 e junho de 2004, perfazendo 12 anos de série histórica da PED-RMPA. A variável Índice de Gini, pelo fato de já ser um índice e de possuir a propriedade de variar entre zero e um, foi utilizada diretamente, ou melhor, subtraiu-se seu valor da unidade 1, para que apresentasse relação direta com os demais índices. Para o cálculo do IP, utilizaram-se as fórmulas a seguir: Para aquelas estatísticas cujo crescimento significa melhoria (por exemplo, o rendimento), o índice é calculado por: IP = (E – Emin) / (Emax – Emin) Onde E = valor da estatística escolhida; Emax = valor máximo; Emin = valor mínimo; Para as estatísticas cujo crescimento significa piora (por exemplo, a taxa de desemprego), o índice é calculado por: IP = (E – Emax) / (Emin – Emax) Os dados são apresentados na forma de índice, compreendendo três conjuntos: inicialmente, são apresentados oito índices que representam a variabilidade de cada indicador isolado nos seis biênios em estudo; seguem três índices-síntese, correspondentes às dimensões enfocadas; e, por fim, o índice-síntese geral, construído a partir dos índices-síntese de cada dimensão. Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 825-852, 2008 Precarização do trabalho: avaliando a deterioração do mercado de trabalho... 837 Dado o interesse em investigar o comportamento do índice sob o recorte de gênero, o mesmo rol de indicadores foi aplicado para os subconjuntos de homens e mulheres, igualmente considerando os seis biênios. Acompanhando essa decisão, optou-se por trabalhar com os valores máximos e mínimos observados ao longo dos 12 anos da série da PED para cada um dos segmentos, conforme o sexo. Essa parametrização possibilita comparar os resultados obtidos para o mercado de trabalho, globalmente considerado, com aqueles relativos aos dois segmentos populacionais referidos: feminino e masculino. As fórmulas utilizadas para as diferentes etapas de cálculo do IP são as seguintes: I11 = X 11 − 50,5 64,1 − 50,5 I 31 = I12 = X 12 − 33,1 46,7 − 33,1 I 32 = 1 − X 32 I13 = X 13 − 55 73 − 55 I1 = 0,5 ∗ I11 + 0,17 ∗ I12 + 0,33 ∗ I13 I 21 = X 21 − 22,7 8 − 22,7 I 2 = 0,5 * I 21 + 0,33 * I 22 + 0,17 * I 23 I 22 = X 22 − 12 4 − 12 I 3 = 0,67 * I 31 + 0,33 * I 32 I 23 = X 23 − 18,4 4,5 − 18,4 I = 0,33 * I1 + 0,33 * I 2 + 0,33 * I 3 X 31 − 3, 24 6,07 − 3,24 Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 825-852, 2008 838 Míriam De Toni Para o cálculo de cada indicador, foram, ainda, atribuídos pesos conforme a importância e a abrangência de cada um dos aspectos selecionados. Assim, as três dimensões receberam pesos equivalentes, de um terço do total cada uma. Dentro de cada grupo, o indicador considerado mais importante para a dimensão estudada recebeu um peso maior, de, pelo menos, a metade daquele atribuído ao grupo, sendo o restante distribuído entre os indicadores complementares, conforme demonstrado nas fórmulas anteriormente apresentadas. 2 Índice de Precarização indica deterioração do mercado de trabalho da RMPA Uma análise geral da evolução do Índice de Precarização sinaliza tendência de piora nas condições de inserção dos trabalhadores no mercado de trabalho da RMPA, não obstante terem sido registrados oscilações e mesmo sentidos divergentes nos índices parciais, relativos às variáveis selecionadas para cada dimensão, conforme mostra a Tabela 1. O exame da Tabela 1 revela, também, que a situação mais favorável se configurou no segundo subperíodo, que corresponde ao intervalo de tempo imediatamente após a implementação do Plano Real, em 1994, em que vários dos índices relativos aos indicadores atingiram o pico mais elevado, e outros apresentaram crescimento relativamente ao período inicial. Após esses sinais de melhora quase generalizada, a situação tendeu a se deteriorar, atingindo a condição mais crítica no quarto subperíodo. Na fase final, percebe-se discreta recuperação na maioria dos índices parciais, não obstante a vasta maioria deles se situarem em níveis inferiores aos observados no ponto inicial. Cabe observar que a evolução dos principais indicadores do mercado de trabalho da Região Metropolitana de Porto Alegre, entre 1992 e 2004, seguiu um curso semelhante ao verificado no âmbito nacional, revelando comportamentos com estreita vinculação à condução da economia e da política no âmbito federal e, em menor medida, no estadual (Ramos; Brito, 2004; Toni, 2002). Em relação ao estado gaúcho, cabe salientar algumas especificidades que contribuíram para os resultados evidenciados no mercado de trabalho de sua região metropolitana, captados pelo Índice de Precarização. Ocorre que, não obstante o desempenho positivo da economia nacional nos primeiros anos subseqüentes à implantação do Plano Real, que logrou a estabilização dos preços, para o RS foram Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 825-852, 2008 Precarização do trabalho: avaliando a deterioração do mercado de trabalho... 839 particularmente agudos alguns dos impactos negativos do ambiente econômico então vigente, dadas as baixas taxas de crescimento do Produto Interno Bruto11 e, especialmente, a sobrevalorização cambial. Isto é, com um perfil econômico que tem no mercado exportador um dos principais dinamizadores e no qual sobressai a indústria calçadista, sediada quase inteiramente na RMPA, como já se referiu, a economia estadual foi afetada pelas restrições às exportações e pela forte concorrência de produtos importados, especialmente os calçados da China.12 Modificações na política econômica a partir de 1999 — com destaque para a adoção do regime de câmbio flutuante — repercutiram positivamente sobre as economias nacional e regional, verificando-se desempenho mais positivo do PIB gaúcho, que variou entre 3,0% e 4,4% no período 1999-01, desacelerando, entretanto, no ano seguinte, para se situar em 1,1%, em 2002. Tal conjuntura teve repercussões positivas sobre o mercado de trabalho, que também foi, de algum modo, favorecido pela orientação político-partidária do governo que assumiu o Estado no período 1999-02, o do Partido dos Trabalhadores. Isto porque, dentre outros aspectos, o programa daquele governo contrapunha-se à privatização de empresas estatais e a incentivos à demissão voluntária ou à aposentadoria precoce de trabalhadores do setor público — medidas dessa natureza ganharam efetividade em gestões anteriores, no bojo das políticas de corte neoliberal que se propagaram no período — e declarava apoio efetivo a pequenas e a médias empresas, fatores esses que tendem a impactar positivamente o nível de emprego. 11 Na década de 90, a taxa média de crescimento do PIB brasileiro foi de apenas 2,7% a.a., com taxas anuais que oscilaram entre -0,5% em 1992 e 5,9% em 1994. Entre 2000 e 2004, somente nas duas pontas, houve variação positiva importante do PIB (em torno de 5% a.a.), ficando os demais anos com taxas abaixo dos 2%. O PIB do Rio Grande do Sul, por sua vez, ficou um pouco acima do nacional, acompanhando, entretanto, o fraco desempenho deste e situando-se em 2,9% a. a., na década de 90. Entre 2000 e 2004, o desempenho foi geralmente melhor que o nacional, exceção feita ao último ano — 3,0% para o RS e 4,9% para o Brasil (Carta Conj. FEE, 2003; Schettert, 2005; IBGE, 2006). 12 O RS é um dos principais estados exportadores do País, oscilando entre o segundo e o terceiro lugar, em uma lista capitaneada por São Paulo. Dados recentes situam o Estado em segundo lugar, com participação de 10,8% no total das exportações brasileiras, logo abaixo de São Paulo (32,4%) e tendo como concorrentes próximos Minas Gerais (10,7%) e Paraná (9,3%) (ZH, 2004). Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 825-852, 2008 Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 825-852, 2008 0,45 0,61 0,77 0,75 0,84 0,46 0,54 0,59 0,77 0,49 0,62 0,63 0,39 0,69 0,75 0,80 0,40 0,53 0,61 0,73 0,45 0,60 0,59 0,56 0,59 0,61 0,63 0,56 0,69 0,50 0,62 0,56 0,65 0,54 0,40 0,38 0,28 0,54 0,53 0,55 0,50 0,13 0,31 0,50 0,40 0,29 TOTAL 3 4 0,44 0,38 0,45 0,49 0,47 0,54 0,66 0,25 0,50 0,56 0,24 0,31 5 0,42 0,43 0,41 0,42 0,36 0,55 0,63 0,25 0,44 0,67 0,14 0,37 6 0,72 0,77 0,83 0,57 0,59 0,54 0,83 0,88 0,79 0,61 0,81 0,87 1 0,72 0,73 0,82 0,60 0,63 0,56 0,87 0,75 0,86 0,83 0,43 0,75 2 0,67 0,65 0,64 0,72 0,79 0,57 0,73 0,50 0,70 0,72 0,60 0,61 0,50 0,48 0,37 0,66 0,71 0,56 0,56 0,13 0,47 0,67 0,34 0,40 HOMENS 3 4 0,53 0,45 0,54 0,61 0,63 0,56 0,73 0,25 0,67 0,67 0,15 0,41 5 0,50 0,49 0,51 0,49 0,46 0,56 0,71 0,25 0,61 0,78 0,03 0,45 6 0,42 0,40 0,62 0,25 0,11 0,54 0,58 0,75 0,56 0,11 0,39 0,59 1 0,47 0,41 0,68 0,34 0,24 0,54 0,65 0,75 0,64 0,28 0,46 0,47 0,45 0,44 0,46 0,46 0,40 0,56 0,53 0,38 0,50 0,33 0,71 0,42 MULHERES 2 3 0,27 0,27 0,14 0,39 0,32 0,54 0,24 0,13 0,12 0,33 0,47 0,15 4 0,29 0,26 0,25 0,36 0,27 0,54 0,39 0,13 0,29 0,33 0,36 0,17 5 0,29 0,34 0,21 0,32 0,20 0,56 0,32 0,13 0,22 0,50 0,26 0,26 6 FONTE: PED-RMPA – Convênio FEE, FGTAS/SINE-RS, SEADE-SP, DIEESE e apoio PMPA. NOTA: Subperíodo 1 = jul./92–jun./94; subperíodo 2 = jul./94-jun./96; subperíodo 3 = jul./96–jun./98; subperíodo 4 = jul./98–jun./00; subperíodo 5 = = jul./00–jun./02; subperíodo 6 = jul./02–jun./04. 0,63 2 0,76 1 Índices de Precarização, total e segundo o sexo dos trabalhadores, na RMPA — subperíodos 1, 2, 3, 4, 5 e 6 Percentual de assalariados do setor privado com carteira e trabalhadores do setor público (com carteira de trabalho e estatutários).................. Percentual de outros trabalhadores que contribuem para Previdência ... Tempo médio de permanência no trabalho atual (meses) ........................... Taxa global de desemprego ............................... Tempo médio de procura de trabalho (meses)......... Taxa de desempregados dos chefes de domicílio .. Rendimento médio real por hora trabalhada ........ Índice de Gini .................. Dimensões Condição de inserção ocupacional ..................... Desemprego ................... Rendimento .................... INDICE DE PRECARIZAÇÃO ........................... INDICADORES Tabela 1 840 Míriam De Toni Precarização do trabalho: avaliando a deterioração do mercado de trabalho... 841 A melhora registrada, todavia, não se sustentou, tendo sido prejudicada por fatores, tanto externos quanto internos, adversos. No primeiro caso, cabe referir o desaquecimento da economia norte-americana, exacerbado pelos atentados terroristas de 11 de setembro de 2001, e o agravamento da crise generalizada na Argentina, problemas estes que afetaram justamente os dois principais parceiros comerciais do Estado.13 Internamente, aos problemas do País acrescentaram-se turbulências que marcaram o ano eleitoral de 2002, já comentadas, o que suscitou incertezas de várias ordens, gerando aumento do Risco Brasil, desvalorização cambial, crescimento das taxas de juros e da inflação, dentre outras conseqüências. Ao final do período, registrou-se nova fase de recuperação dos principais indicadores econômicos nacionais e um desempenho mais favorável registrado no Estado — o PIB voltou a crescer no Estado (4,8% em 2003 e 3,0% em 2004), embora tenha se recuperado, no País, apenas em 2004, quando atingiu 4,9% —, calcado no excelente resultado das exportações, que dinamizou a indústria em ambos os anos, e no bom desempenho da agroindústria em 2003. Tendo presente esse contexto e voltando o foco da análise para o comportamento do Índice de Precarização segundo as três dimensões selecionadas — condições de inserção ocupacional, desemprego e rendimentos —, constata-se que o padrão geral antes aludido descreve mais apropriadamente a evolução das duas primeiras dimensões, uma vez que os rendimentos apresentaram comportamento um tanto diferenciado. Ou seja, além de essa dimensão ter sido a única em que os índices relativos aos indicadores mostraram certa estabilidade ao se compararem as duas pontas do período, a variação dos mesmos foi francamente positiva até o subperíodo 3, invertendo essa trajetória a partir de então, revelando-se declinante até o final. Quanto à inserção ocupacional, os índices parciais mostraram tendências divergentes: o índice relativo à parcela de assalariados com vínculo legal caiu de modo continuado até o subperíodo 4, apresentando alguma recuperação mais expressiva apenas ao final (o índice variou de 0,76 a 0,37 nos pontos extremos do período); aquele referente ao tempo médio de permanência na ocupação elevou-se (0,39 no subperíodo 1 e 0,67 no último), oscilando sempre acima do inicialmente registrado; e o índice correspondente ao percentual de outros trabalhadores que contribuem para a Previdência seguiu mais de perto o padrão geral, com nítida piora após o subperíodo 3. 13 No caso das exportações gaúchas de calçados, os EUA são o país de destino para quase três quartos do total (71,21% em 2001), seguindo-se a Argentina (6,50%) e o Reino Unido (6,09%). Em que pese essa proporção se ter mantido para os EUA e para o Reino Unido em 2002, o valor total desse item das exportações gaúchas caiu 11,98% face a 2001, e a parcela destinada à Argentina despencou, situando-se em apenas 0,56% do total (Carta Conj. FEE, 2002). Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 825-852, 2008 842 Míriam De Toni Como resultado, o comportamento decrescente do índice da dimensão enfocada, que passou de 0,61 para 0,43 nos extremos do período, pode ser atribuído à retração da parcela de trabalhadores com vínculo legalizado, que atingiu indivíduos de ambos os sexos, e daquela de contribuintes da Previdência Social pública, diminuição esta especialmente acentuada entre os homens. Em outras palavras, o declínio da proteção social afetou sobremaneira as condições de inserção ocupacional, refletindo-se na queda do seu índice. Os índices referentes à dimensão desemprego apresentaram tendência de piora, com apenas duas oscilações favoráveis, ocorridas no subperíodos 2 e 4. Ao lado do índice referente ao indicador taxa de desemprego (0,69 e 0,44 nos pontos extremos), cuja interferência para a queda do índice geral dessa dimensão foi expressiva, destaca-se a contribuição do índice relativo ao indicador tempo médio de procura de trabalho, o qual recuou de 0,75 para 0,25 no decorrer do período em foco. Quanto a este último, o recuo do índice parcial foi expressivo para ambos os sexos, denotando intenso aumento do tempo de procura por trabalho. Já na taxa de desemprego, a contribuição maior coube ao índice obtido para as mulheres, que variou de 0,56 no subperíodo 1, para 0,22 ao final, ao passo que, entre os homens, os índices respectivos foram de 0,79 e 0,61. O rendimento singularizou-se por ser a única dimensão em que todos os indicadores acusaram certa estabilidade, considerando-se os ponto extremos do período, não obstante os dois indicadores componentes terem evoluído de forma bem distinta. O índice referente ao rendimento médio real evoluiu favoravelmente até o subperíodo 3, quando atingiu seu ápice (0,63 frente aos 0,40 iniciais), refletindo ganhos no rendimento médio real, em boa parte associados aos reflexos da estabilização monetária. Após esse período, inverteu o movimento, e o índice despencou de forma continuada até o final, o que acabou por anular os ganhos anteriormente obtidos. Já o índice relativo ao indicador Índice de Gini teve oscilações bem menos bruscas. Ao final do período, ambos os índices situavam-se em patamares próximos aos vigentes no início, sendo que o índice relativo ao indicador rendimento médio real se situava um pouco abaixo (0,40 e 0,36 nos pontos extremos), enquanto o do Índice de Gini ficou ligeiramente acima (0,53 e 0,55 respectivamente), revelando pequena melhora na distribuição de renda entre os trabalhadores. Portanto, as variações mais acentuadas no primeiro contribuíram em maior grau para os resultados observados no índice parcial de rendimentos, o qual, partindo de 0,45, atingiu seu pico no subperíodo 3, quando alcançou 0,61, para se posicionar próximo ao valor inicial no último subperíodo (0,42). No recorte por gênero, registrou-se comportamento similar, cabendo ressaltar que, para as mulheres, ainda que o índice relativo ao rendimento médio real tendo sido bastante inferior ao observado entre os homens, ele apresentou Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 825-852, 2008 Precarização do trabalho: avaliando a deterioração do mercado de trabalho... 843 crescimento mais acentuado, denotando ganhos relativamente maiores para o contingente feminino. Para esse segmento, o índice do rendimento médio real situava-se, ao final do período, em patamar ainda acima do observado no início (0,11 no início e 0,20 ao final), ao contrário do que se constatou para o grupo masculino. Quanto ao índice referente ao indicador Índice de Gini, prevaleceu uma relativa estabilidade, e seus valores apresentaram-se bastante próximos, quando se examinam os dados segundo o sexo dos trabalhadores. Ainda assim, observou-se discreta elevação desse índice entre os trabalhadores de ambos os sexos (0,54 e 0,56 nos pontos extremos), o que sinaliza uma pequena melhoria na distribuição dos rendimentos. Considerando as três dimensões selecionadas, verificou-se que os índices respectivos apresentaram oscilações variadas, de acordo com o expresso no Gráfico 1, embora tenham convergido, todos eles, para piores condições de inserção no mercado de trabalho regional. Ademais, enquanto, ao final do período, o índice parcial de inserção ocupacional mostrou certa estabilidade (notadamente a partir do subperíodo 4) e o de desemprego, após elevação do subperíodo 4 para o 5, também se estabilizou, o indicador para o rendimento seguiu declinando. Uma avaliação conjunta desses movimentos é possibilitada pela análise do Índice Geral de Precarização, que constitui uma medida sintética, abrangendo esse comportamento diferenciado das oito variáveis escolhidas, com vistas a permitir uma avaliação das condições gerais de inserção no mercado de trabalho da RMPA, entre 1992 e 2004. Desse modo, analisando a evolução do IP no decorrer do período em foco, verifica-se ter havido uma deterioração das condições gerais de inserção da População Economicamente Ativa no mercado de trabalho metropolitano. Não obstante terem se registrado oscilações do IP no decorrer do período, houvesse uma clara tendência de queda, manifesta entre os subperíodos 2 e 4, resultando em um IP de 0,42 no final da série face aos 0,60 do início. Detalhando a análise, observou-se relativa estabilidade do IP até o subperíodo 3 — em torno de 0,60 —, sustentada, inicialmente, pelos resultados positivos dos índices correspondentes às dimensões rendimento e desemprego, cuja evolução foi favorável até o subperíodo 2, e rendimento, isoladamente, no 3, visto que o índice parcial de inserção ocupacional declinou continuamente nesse intervalo de tempo. A queda acentuada do IP no subperíodo 4, quando atingiu 0,40 — o seu nível mais baixo —, refletiu o recuo conjunto de todos os índices parciais. Ao final, essa queda foi apenas em parte revertida, graças ao resultado relativamente mais positivo dos índices parciais de desemprego e de inserção ocupacional, que contra-arrestou em alguma medida o comportamento desfavorável do índice parcial de rendimento. Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 825-852, 2008 0,00 0,10 0,00 0,20 0,30 0,40 0,50 0,60 0,70 0,80 0,90 Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 825-852, 2008 1 Inserção ocupacional 2 3 Desemprego Subperíodos 4 Rendimento 5 6 Indice de Precarização Índices parciais e Índice de Precarização na RMPA — subperíodos 1,2,3,4,5 a 6 FONTE: Tabela 1. NOTA: Subperíodo 1 = jul./92-jun./94; subperíodo 2 = jul./94-jun./96; subperíodo 3 = jul./96-jun./98; subperíodo 4 = jul./98-jun./00; subperíodo 5 =5jul./00-jun./02; subperíodo 6 = jul./02-jun./04. = jul./98-jun./00; subperíodo = jul./00-jun./02; subperíodo 6 = jul./02-jun./04. Legenda: Índice Gráfico 1 844 Míriam De Toni Precarização do trabalho: avaliando a deterioração do mercado de trabalho... 845 Essa recuperação do IP ao final do período pode ser considerada ainda frágil, dado que não apresenta um movimento linear de elevação, não autorizando, portanto, que se vislumbre alguma tendência mais consistente quanto a uma evolução favorável do Índice Geral no futuro próximo. Tal percepção é reforçada, quando se incorporam à análise dados mais recentes, relativos aos anos de 2004 e 2005, em que, não obstante o mercado de trabalho ter evoluído de modo positivo, nem todos os indicadores mostraram recuperação consistente. De fato, informações da PED-RMPA em bases anuais revelam, de positivo, o crescimento continuado do nível de ocupação — assentado especialmente no aumento do contingente de trabalhadores assalariados com carteira de trabalho assinada, no setor privado, portanto, com proteção social — e o recuo do desemprego, embora a taxa global de desemprego se mantenha acima da observada nos primeiros anos da série da Pesquisa (14,5% da PEA em 2005, face aos 12,2% de 1993). No pólo contrário, o rendimento médio real do trabalho não registrou alterações favoráveis, esboçando tênue recuperação em 2005, de apenas 1,5%, após tendência de queda por quatro anos consecutivos — entre 2000 e 2004, esse indicador acumulou perdas da ordem de 13,9%, atingindo, no último ano, o valor mais baixo da série da PED-RMPA — R$ 896,00 em valores de nov./05 (Informe PED, 2006). Ademais, entre os trabalhadores que não detém contrato de trabalho padrão — principalmente os autônomos, os assalariados sem carteira de trabalho assinada e os empregados domésticos —, a parcela excluída dos benefícios sociais continua elevada e crescente, chegando a quase dois terços do total de trabalhadores desse segmento. O desempenho da economia do RS, por seu turno, jogou mais um forte componente de incerteza nesse quadro, uma vez que o PIB de 2005 sofreu importante revés, com queda de 4,8%. Nesse ano, o resultado esteve associado à estiagem que atingiu o Estado, combinada com a desaceleração das exportações, novamente prejudicadas pelo câmbio desfavorável ante a valorização da moeda nacional, o que acabou por afetar negativamente a competitividade tanto da indústria regional quanto da nacional — no País, o PIB cresceu apenas 2,3% em 2005, bem abaixo dos 4,9% registrados em 2004. Passando a analisar a composição do IP sob o recorte de gênero, sobressai, de imediato, o fato de que os índices para a força de trabalho feminina se situavam nítida e sistematicamente em patamares inferiores aos calculados para os trabalhadores do sexo masculino, como mostra o Gráfico 2. Não sendo este um achado inusitado, o fato mais uma vez corrobora a condição discriminatória que marca a inserção laboral feminina. Tal situação se manifesta em todas as dimensões destacadas e, nos casos em que os índices se apresentam bastante baixos, indica níveis de precariedade, para as mulheres, próximos das condições mais desfavoráveis registradas pela série da PED-RMPA. Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 825-852, 2008 Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 825-852, 2008 0,0 0,00 0,10 0,20 0,30 0,40 0,50 0,60 0,70 0,80 Desemprego das mulheres Índice de precarização das mulheres Rendimento das mulheres Subperíodos Inserção ocupacional das mulheres 4 5 Desemprego dos homens Índice de precarização dos homens 3 Rendimento dos homens 2 Inserção ocupacional dos homens FONTE: Tabela 1. NOTA: Subperíodo 1 = jul./92-jun./94; subperíodo 2 = jul./94-jun./96; subperíodo 3 = jul./96-jun./98; subperíodo 4 = jul./98-jun./00; subperíodo 5 = jul./00-jun./02; subperíodo 6 = jul./02-jun./04. 1 Índices parciais e Índice de Precarização, por sexo, na RMPA — subperíodos 1, 2, 3, 4, 5 e 6 Legenda: Índices 0,90 Gráfico 2 846 Míriam De Toni Precarização do trabalho: avaliando a deterioração do mercado de trabalho... 847 Todavia um comportamento diferenciado e surpreendente, no caso feminino, foi o observado no tocante à evolução do índice parcial relativo ao percentual de outros trabalhadores que contribuem para a Previdência. Isto porque, sendo a cobertura previdenciária geralmente inferior entre as mulheres trabalhadoras, a situação inverteu-se ao longo da série, pois, para o contingente feminino, o índice específico dessa variável cresceu até o subperíodo 3, arrefecendo após, para encerrar o período em nível abaixo do inicialmente observado (0,39 no início, 0,71 no subperíodo 3 e 0,26 ao final). Entre os homens, ao contrário, houve uma única oscilação positiva do subperíodo 2 para o 3, mas o índice não só esteve sempre em patamares inferiores ao expresso no ponto inicial (0,81), como encerrou o período bem perto da pior situação observada na série — o índice de 0,03 indica proximidade ao valor mínimo observado na série da PED-RMPA, que foi de apenas 33,1% de contribuintes da Previdência. Com tal evolução, o índice relativo ao contingente feminino, exceção feita ao subperíodo 1, esteve sempre acima do observado para os trabalhadores do sexo masculino. De todo modo, a análise desses dados sugere que, para manter a ocupação ou para ingressar no mercado de trabalho, a “opção” de muitos trabalhadores — na realidade, muitas das vezes uma imposição, face à ausência de outras alternativas — implicou uma troca perversa, no sentido de aproveitar oportunidades de trabalho e de rendimentos, talvez promissoras, mas também muito concorridas, às custas da proteção social. Em decorrência, esses indivíduos acabam expondo-se a maiores riscos no presente, alguns dos quais podem ser transferidos para o futuro, reduzindo possibilidades de garantia de uma qualidade de vida melhor, há medida em que, por exemplo, não se podem beneficiar do Seguro-Desemprego e tampouco contabilizam o tempo de trabalho com vistas a uma aposentadoria remunerada. Resumindo, pode-se afirmar que a utilização de um índice-síntese como instrumental estatístico capaz de indicar a direção de um conjunto de variáveis que evoluem de modo distinto e que, por vezes, apresentam oscilações opostas mostrou ser um recurso valioso para a análise da evolução das formas de inserção e das condições presentes no mercado de trabalho da RMPA. O IP aponta, efetivamente, uma maior precarização nesse mercado, resultante do comportamento desfavorável da maior parte dos indicadores selecionados, que convergiram para as situações mais precárias apresentadas na série da PED-RMPA, durante os 12 primeiros anos de existência da Pesquisa. Mesmo os resultados positivos registrados em alguns dos indicadores parciais — tais como o tempo de permanência na ocupação e o Índice de Gini — e a melhora quase generalizada nos dois últimos subperíodos não lograram compensar as perdas ocorridas previamente. Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 825-852, 2008 848 Míriam De Toni Apêndice Tabela A.1 Valores-limite relativos aos indicadores componentes do Índice de Precarização VARIÁVEL (estatística) Percentual de assalariados do setor privado com carteira assinada e trabalhadores do setor público .......................... Percentual de outros trabalhadores que contribuem para a Previdência .......................................................................... Tempo médio de permanência no trabalho atual (meses).. Taxa global de desemprego ................................................ Tempo médio de procura de trabalho (meses) ................... Taxa de desemprego do chefe do domicílio ....................... Rendimento médio por hora trabalhada .............................. Índice de Gini ...................................................................... VALOR MÍNIMO VALOR MÁXIMO 50,5 64,1 33,1 55 8 4 4,5 3,24 (1) - 46,7 73 22,7 12 18,4 6,07 (1) - FONTE: PED-RMPA - Convênio FEE, FGTAS/SINE-RS, SEADE-SP, DIEESE e apoio da PMPA. (1) Para esse caso, não se aplicam os valores-limite. Referências ALONSO J. A. F. Caracterização econômica da Região Metropolitana de Porto Alegre. Indicadores Econômicos FEE, Porto Alegre, v. 29, n. 1, p. 253-293, 2001. ALONSO J. A. F. Efeitos da reestruturação produtiva na dinâmica da Região Metropolitana de Porto Alegre, na década de 90. In: DESIGUALDADES sócioespaciais na Região Metropolitana de Porto Alegre. Porto Alegre: Fundação de Economia e Estatística; NERU, 2004. (CD-ROM). BRONSTEIN, A. S. Cambio social y relaciones de trabajo en América Latina: balance y perspectivas. Revista Internacional del Trabajo, Geneva: ILO, v. 114, n. 2, 1995. Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 825-852, 2008 Precarização do trabalho: avaliando a deterioração do mercado de trabalho... 849 CACCIAMALI, M. C. 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Os resultados da estimação do modelo mostram-se satisfatórios, confirmando, “grosso modo”, o acerto na escolha das variáveis explicativas idade e escolaridade do jovem, escolaridade e condição de atividade do chefe de domicílio, renda domiciliar e taxa de dependência. Conforme é evidenciado no corpo do trabalho, uma grande proporção de estimativas dos coeficientes das variáveis explicativas é estatisticamente significativa, revelando efeitos sobre as diferentes situações de estudo e trabalho dos jovens que vão ao encontro das expectativas formuladas pela literatura revista no trabalho. * Artigo elaborado no âmbito do projeto de pesquisa Dimensões da Precarização do Mercado de Trabalho na Região Metropolina de Porto Alegre, o qual contou com apoio da FAPERGS e do CNPq. Artigo recebido em abr. 2007 e aceito para publicação em ago. 2007. ** E-mail: [email protected] *** E-mail: [email protected] Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 853-876, 2008 854 Jéferson Daniel de Matos; Raul Luís Assumpção Bastos Palavras-chave População jovem; estudo e trabalho; modelo multinomial logístico. Abstract This paper approach, in an exploratory way, the factors that condition the youth participation in activities of study and work in the Metropolitan Area of Porto Alegre, Brazil. To reach this goal, the methodological procedure used is the estimation of the multinomial logit model for samples of youth males and youth females in 1993 and 2003. The results of the model estimation shows satisfactory, confirming, in a general way, that youth’ age and schooling, head of the household’ schooling and activity condition, household income and dependency rate are the correct explanatory variables. As it is evidenced in the body of the paper, a great proportion of the estimated coefficients of the explanatory variables is statistically significant, revealing effects on the different situations of study and work of youth that meet the expectations formulated by the literature reviewed in the paper. Key words Youth population; study and work; multinomial logit model. Classificação JEL: J00, J13, J22. 1 Introdução Conforme reconhecem muitos estudos, os jovens vivem uma fase particular do ciclo de vida, que é aquela que envolve o processo de transição da escola para o trabalho. Em face disso, eles passam a combinar atividades de naturezas distintas, que correspondem ao avanço na obtenção da educação formal e, simultaneamente, ao início do exercício do trabalho. Com base nessa percepção, colocam-se diversas questões relativas a esse processo e ao engajamento dos jovens no mercado de trabalho, as quais podem ser assim sintetizadas: (a) que fatores incidem sobre as suas decisões de começarem a trabalhar?; (b) que fatores os levam a experimentar um duplo status, o de trabalhar e estudar?; (c) Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 853-876, 2008 Uma análise exploratória dos fatores que condicionam a participação dos jovens... 855 que fatores condicionam as suas decisões de se dedicarem somente aos estudos?; (d) que fatores podem implicar diferenças entre os gêneros na inserção em atividades de estudo e trabalho?; (e) e quando se comparam dois momentos no tempo, pode-se identificar algum padrão de comportamento entre os jovens nas decisões relativas a trabalho e estudo? Tendo como referência essas questões, este artigo procura identificar e analisar exploratoriamente os fatores que condicionam o status relativo ao estudo e ao trabalho dos jovens na Região Metropolitana de Porto Alegre (RMPA). Com o propósito acima delineado, o trabalho está organizado da seguinte maneira: após esta breve Introdução, na seção 2, apresentam-se e discutem-se os resultados de trabalhos recentes sobre os fatores que condicionam as atividades relacionadas com a educação e o trabalho entre os jovens; na seção 3, estima-se um modelo econométrico que permite testar a influência de variáveis explicativas selecionadas sobre a situação de estudo e trabalho dos jovens na RMPA; e, por último, nas Considerações finais, são sumarizadas as principais conclusões deste artigo. 2 Estudar, trabalhar e a constituição de um status multifacetado entre a população jovem Os jovens experimentam uma fase singular no ciclo de vida, que é aquela em que se dá o processo de transição da escola para o trabalho. De acordo com Ryan (2001, p. 35), esse processo pode ser definido como “[...] o período entre o final do ensino compulsório e a obtenção de um emprego estável e em tempo integral”. Trata-se, portanto, de um momento em que atividades distintas — estudar e trabalhar — vão gradativamente passando a coexistir na experiência de vida da população jovem. A coerência e a articulação desse processo condicionam as perspectivas desse grupo populacional em sua inserção no mercado de trabalho. Intuitivamente, a expectativa que se coloca é a de que, à medida que o jovem avance em termos etários, ele vá gradativamente passando de uma situação em que somente estuda para outra em que inicia a atividade laboral. É razoável supor que seja assim essa fase do ciclo de vida dos jovens, pois o aumento da idade se associa, na maioria das vezes, à conclusão da educação compulsória, o que, combinado à situação socioeconômica, pode conduzi-los à busca de inserção, cada vez maior, no mercado de trabalho. Essa relação entre Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 853-876, 2008 856 Jéferson Daniel de Matos; Raul Luís Assumpção Bastos aumento da idade dos jovens e estar trabalhando mostra-se bastante clara nos países da Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e da América Latina, bem como o fato de que a proporção daqueles que somente estudam se reduz gradativamente com o aumento da idade (Blanchflower; Freeman, 2000; CEPAL, 2004). Deve-se ter presente que esse é um momento em que o status da população juvenil se diversifica, pois o jovem pode: (a) de fato, passar a combinar o estudo e o trabalho; (b) ser compelido a somente trabalhar, afastando-se dos estudos; (c) ficar apenas estudando por um período mais prolongado; (d) ou, numa situação-limite, até mesmo não exercer ambas as atividades, ficando em uma posição próxima à marginalidade social. Caberia, portanto, procurar identificar os fatores que condicionam as trajetórias dos jovens relativas a essas diferentes alternativas em termos de estudo e trabalho, ou mesmo da ausência de ambas. Um primeiro aspecto que deve ser ressaltado é o de que se reconhece que se está vivendo um período histórico, em que se valoriza a educação formal e o conhecimento, o que aumenta o apelo à melhoria da escolaridade entre os jovens (Diez de Medina, 2001; Tokman, 2003; CEPAL, 2004). Ou seja, em um contexto de emergência de um novo paradigma tecnológico, vinculado às tecnologias de informação e de comunicação, faz-se necessário um nível mais elevado de educação formal por parte da população jovem, para que a sua integração às novas formas de trabalhar que se configuram venha a ocorrer de maneira mais adequada. Nessa perspectiva, pode-se afirmar que, nos mercados de trabalho, se tem observado maior exigência em termos de requisitos de escolaridade, conquanto esta tem sido utilizada mais intensamente como um instrumento de seleção nos processos de recrutamento por parte das empresas. A esse respeito, cabe destacar que uma parcela da população jovem ainda não possui experiência de trabalho. Em tal situação, para essa parcela de jovens, o nível educacional opera também como uma credencial, a qual é utilizada pelos empregadores como um meio para identificar suas prováveis habilidades. De acordo com Brauns et al. (1999, p. 3), as credenciais educacionais “[...] são interpretadas como um filtro, que serve primariamente como uma medida de habilidade para os empregadores, importante no sentido em que outros indicadores estão ausentes”. Nessa perspectiva, as credenciais apontam “[...] padrões convencionais de sociabilidade, a facilidade de adaptação às novas tarefas e a capacidade para internalizar regras organizacionais e a cultura da firma [...]” (Brauns et al., 1999, p. 4). Dessa forma, o apelo à educação formal também ganha relevância entre a população jovem, na medida em que esse atributo se constitui em um dos poucos elementos objetivos que as empresas possuem no momento de um processo de seleção de pessoal, quando estão envolvidos membros desse grupo populacional sem experiência anterior de trabalho. Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 853-876, 2008 Uma análise exploratória dos fatores que condicionam a participação dos jovens... 857 Em consonância com essa argumentação, existem evidências de que vem ocorrendo uma melhora no perfil de escolaridade da população jovem, no âmbito internacional, sendo essa indicada, dentre outros aspectos, por uma tendência de elevação da proporção de pessoas desse grupo populacional matriculadas no ensino superior (OIT, 2000, p. 8). Nesse sentido “É provável que isto se deva, em parte, a uma resposta da oferta de mão-de-obra juvenil à falta de postos de trabalho não qualificados, assim como ao aumento da demanda de qualificações em nível mundial” (OIT, 2000, p. 8). No que diz respeito aos países da OCDE, o apelo à educação formal pode ser apreendido pelo fato de que se verifica um forte aumento do contingente de jovens que estudam em tempo integral e, com menor intensidade, do número daqueles que compartilham estudo e trabalho; de forma distinta, identifica-se uma redução do contingente daqueles que somente trabalham (OIT, 2000, p. 12). Correlatamente, constata-se também que os jovens relativamente mais escolarizados tardam mais a ingressar no mercado de trabalho (OIT, 2000, p. 13). Na América Latina, também se identificam indicações de melhora no perfil de escolaridade dos jovens, no período recente (CEPAL, 2004). Isso é confirmado através da redução da proporção de indivíduos desse grupo populacional na situação de analfabetismo funcional, nos países da região, entre 1990 e 2002, bem como pelo aumento moderado da proporção daqueles que possuíam os níveis de educação primária, secundária e superior (CEPAL, 2004, p. 170). Deve-se ter presente, não obstante, no que se refere à educação secundária e à superior, que a cobertura ainda se encontra em níveis relativamente baixos na região, atingindo, em 2002, 34,8% dos jovens de 20 a 24 anos no caso do ensino secundário e 6,5% dos indivíduos de 25 a 29 anos no caso do ensino superior. Nesse mesmo contexto, considera-se positivo que, entre os jovens latino-americanos de 15 a 19 anos, em 2002, a maior proporção somente estudava (45,2%), contra 10,6% que somente trabalhavam (CEPAL, 2004, p. 91). Já a proporção daqueles que possuíam o duplo status, ou seja, trabalhavam e estudavam, era de 20,6% em 2002. Cabe assinalar que a parcela relativa de jovens que não estudavam e não trabalhavam — numa situação, portanto, que se poderia tomar como negativa, pois de exclusão social — correspondia a 11,9% dos indivíduos desse grupo populacional em 2002, na América Latina.1 Um outro fator que condiciona o processo de ingresso dos jovens no mercado de trabalho é o background familiar. Neste caso, propugna-se que o histórico 1 Havia, ainda, entre os jovens de 15 a 19 anos, na América Latina, em 2002, uma parcela relativa de 11,7% que cuidavam de afazeres domésticos (CEPAL, 2004, p. 91). Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 853-876, 2008 858 Jéferson Daniel de Matos; Raul Luís Assumpção Bastos familiar em que o jovem está inserido pode contribuir para retardar ou acelerar a sua inserção no mercado de trabalho. Tomando como aproximação de background familiar o nível de escolaridade dos pais, trabalha-se com a compreensão de que, quando estes possuem maior nível de educação formal, os filhos são motivados a permanecer mais tempo na escola e a ingressar com idade relativamente mais elevada no mercado de trabalho (Iannelli, 2002; CEPAL, 2004). Ou seja, pais mais escolarizados percebem que o avanço do nível de educação formal de seus filhos é fundamental no seu processo de inserção no mercado de trabalho, seja porque esse mercado tem se tornado mais seletivo no presente contexto, seja porque isso pode proporcionar melhores condições ocupacionais e de vida no futuro. Nesse sentido, de acordo com as evidências do estudo de Iannelli (2002) para os países da Europa, a proporção de jovens cujos pais possuíam baixo nível educacional e que se afastaram dos estudos prematuramente era muito maior do que a daqueles cujos pais tinham maior nível educacional (Iannelli, 2002, p. 9). Ainda de acordo com os resultados desse trabalho para os países europeus, a probabilidade de que um jovem venha a se graduar em nível superior é relativamente maior, quando os seus pais são mais escolarizados, comparativamente aos jovens cujos pais têm menor nível educacional (Iannelli, 2002, p. 12). A esse respeito, em um estudo que aborda a situação dos jovens na América Latina, afirma-se a existência de uma forte associação entre o nível educacional dos pais e o desempenho dos filhos em termos escolares (CEPAL, 2004). De acordo com esse trabalho, isso implica uma tendência à reprodução de desigualdades intergeracionais, no sentido de que, se os pais tiverem um nível de educação formal relativamente baixo, os seus filhos também terão perspectivas de estudo e de trabalho muito mais limitadas. Assim, de acordo com esse trabalho, [...] entre uns 48% e uns 64% dos jovens latino-americanos de zonas urbanas vêem restringidas suas oportunidades futuras já em seu domicílio de origem, posto que o nível educativo dos pais, variável determinante do clima educacional do domicílio, aparece altamente correlacionado com as trajetórias educacionais dos filhos [...] (CEPAL, 2004, p. 176). Por sua vez, conforme o trabalho de Corseuil et al. (2001, p. 832) sobre quatro países latino-americanos — Brasil, Chile, Peru e Honduras —, o nível educacional dos pais mostrou-se também muito importante na determinação da situação de estudo e/ou trabalho dos filhos nessas experiências nacionais, no sentido de que pertencer a uma família cujos pais eram relativamente mais Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 853-876, 2008 Uma análise exploratória dos fatores que condicionam a participação dos jovens... 859 escolarizados se vinculava ao aumento da probabilidade de os filhos estarem voltados exclusivamente para os estudos. O estudo de Leite e Silva (2002) sobre crianças e adolescentes das Regiões Sudeste e Nordeste do Brasil também corrobora o entendimento de que o nível de educação dos pais — nesse caso, especificamente o da mãe — aumenta a probabilidade de os filhos se dedicarem exclusivamente aos estudos.2 De acordo com os resultados dessa pesquisa, o nível de instrução da mãe era uma das variáveis que contribuía significativamente para a determinação da situação de trabalho e de estudo dos filhos e, em particular, para que os filhos pertencessem à categoria daqueles que somente estudavam (Leite; Silva, 2002, p. 19). Portanto, a perspectiva que será aqui adotada é a de que o background familiar — nesse caso, reitera-se, aproximado pelo nível de escolaridade dos pais — é um dos principais condicionantes da situação em que se encontram os filhos, seja no que se refere à possibilidade de dedicação exclusiva aos estudos, seja no que diz respeito à participação, por vezes prematura, no mercado de trabalho. A situação socioeconômica familiar em que o jovem reside também se constitui em fator condicionante da sua trajetória de estudo e trabalho (CEPAL, 2004). Tomando como medida aproximada dessa dimensão a renda familiar, trabalha-se com a compreensão de que os jovens que estão inseridos em famílias com nível de renda mais elevado têm condições mais favoráveis para estudar, permanecendo um período mais longo na escola e, conseqüentemente, ingressando no mercado de trabalho com uma melhor formação, o que amplia a perspectiva de êxito na obtenção de um posto de trabalho. Isso poderia estar indicando a existência de um processo de reprodução de desigualdades na sociedade, na medida em que, nas famílias de baixo nível de renda, os jovens seriam compelidos a se engajar prematuramente no mercado de trabalho, em detrimento dos estudos, perpetuando-se o atraso em sua formação educacional e limitando as perspectivas de trabalho e de melhora de padrão de vida. Essa compreensão a respeito da relação entre o nível de renda familiar e a intensidade de participação dos jovens no mercado de trabalho é confirmada, em parte, por alguns estudos. De acordo com o trabalho de Diez de Medina (2001, p. 34), com dados relativos a 14 países da América Latina nos anos 90, no qual a população juvenil urbana foi estratificada por níveis de renda domiciliar per capita, na faixa etária de 15 a 19 anos, de fato, predominavam as experiências 2 Não se trata de um trabalho especificamente sobre jovens, mas, sim, sobre crianças e jovens adolescentes. Não obstante, os propósitos desse estudo vão ao encontro dos objetivos do trabalho que está sendo ora desenvolvido, por isso, o interesse em resgatar aqui alguns de seus principais resultados. Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 853-876, 2008 860 Jéferson Daniel de Matos; Raul Luís Assumpção Bastos nacionais (10) em que a taxa de participação no mercado de trabalho era maior entre os jovens que residiam nos 20,0% de domicílios mais pobres comparativamente àqueles que residiam nos 20,0% de domicílios mais ricos. De forma diversa, quando se toma a faixa etária de 20 a 24 anos, constata-se que, em 13 dos 14 países analisados, a taxa de participação no mercado de trabalho era maior entre os jovens que residiam nos 20,0% de domicílios mais ricos, em comparação àqueles que residiam nos 20,0% de domicílios mais pobres. Essas evidências não permitem que se estabeleça, para os países latino-americanos, nos anos 90, uma conclusão categórica sobre a relação entre nível de renda domiciliar per capita e intensidade de participação no mercado de trabalho dos jovens. Ainda assim, elas estão indicando que os jovens adolescentes de famílias pobres se sentem mais pressionados a participar prematuramente do mercado de trabalho, o que prejudicaria o seu processo de progressão escolar. Ainda no que se refere a essa problemática, o estudo de Corseuil et al. (2001) sobre Brasil, Chile, Honduras e Peru não encontrou evidências de que o nível de renda familiar afetasse as decisões de trabalhar ou de estudar dos jovens, pois não se observaram diferenças significativas no efeito dessa variável sobre a situação dos jovens de famílias pobres comparativamente aos de famílias ricas. Não obstante, os autores desse estudo advertem que isso poderia dever-se ao fato de eles terem trabalhado com a renda familiar total, e não com a renda familiar per capita, que, caso tivesse sido utilizada, poderia conduzir a resultados distintos dos obtidos no estudo (Corseuil et al., 2001, p. 835). A esse respeito, o trabalho de Leite e Silva (2002) abordou a situação de trabalho e estudo de crianças e jovens adolescentes nas Regiões Sudeste e Nordeste do Brasil, no ano de 1999. Chama atenção que um dos resultados destacados pelos autores do estudo é justamente a influência da renda familiar per capita sobre a situação do grupo populacional em análise, no sentido de que um nível mais elevado desta implicava maior probabilidade de que crianças e jovens adolescentes pertencessem à categoria daqueles que somente estudavam (Leite; Silva, 2002, p. 19). Já outro estudo sobre os jovens em cinco regiões metropolitanas brasileiras, com dados relativos ao ano de 2004, no qual esse grupo populacional foi estratificado por faixas de renda familiar, identificou que aqueles que pertenciam às famílias do quartil inferior de renda apresentavam níveis de engajamento, nos mercados de trabalho metropolitanos, relativamente menores (DIEESE, 2005, p. 8).3 Esse resultado poderia ser tomado como contra-intuitivo, pois se esperaria 3 As regiões metropolitanas cobertas por esse estudo são as de Belo Horizonte, Porto Alegre, Recife, Salvador e São Paulo. Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 853-876, 2008 Uma análise exploratória dos fatores que condicionam a participação dos jovens... 861 que os jovens provenientes de famílias de baixa renda fossem mais compelidos a participar do mercado de trabalho, como forma de contribuir para uma melhora no padrão de vida de suas famílias, o que, de fato, não foi confirmado por esse estudo. Uma possibilidade de interpretação para esse fenômeno é que a maior inatividade dos jovens de famílias de baixa renda esteja vinculada a uma maior incidência de desemprego entre esse grupo populacional, na medida em que o nível de desemprego pode significar um elemento de desestímulo ao ingresso no mercado de trabalho. Em alguma medida, essa interpretação é corroborada pelas evidências proporcionadas por esse estudo (DIEESE, 2005, p. 9), pois, quando se comparam os jovens que pertenciam ao quartil de menor renda familiar com aqueles do quartil de maior renda familiar, se constata que, entre os primeiros, eram muito mais elevadas as taxas de desemprego nas regiões metropolitanas em análise. Um outro aspecto que foi revelado por esse trabalho, que é de particular interesse aqui resgatar, é quanto à situação dos jovens que estavam inativos nas cinco regiões metropolitanas pesquisadas (DIEESE, 2005, p. 10). De acordo com os resultados desse estudo, nas famílias de renda elevada (4º quartil), a proporção de jovens que somente estudavam era maior do que nas famílias de renda baixa (1º quartil) — ainda que a diferença entre ambas não fosse superior a quatro pontos percentuais em nenhuma das regiões metropolitanas analisadas —, o que se pode tomar como um resultado esperado. Todavia o que mais se destaca entre os jovens que estavam economicamente inativos, quando se introduz o controle pelo nível de renda familiar, é a acentuada proporção daqueles que não trabalhavam e não estudavam4 nas famílias de renda baixa, comparativamente às de renda elevada: nas cinco regiões metropolitanas, a parcela relativa de jovens nessa situação era, pelo menos, três vezes superior nas primeiras em relação às últimas. Assim, essas evidências sugerem a existência de uma associação inversa entre o nível de renda familiar e o que se poderia reconhecer como exclusão social dos jovens nas regiões metropolitanas, pois, quanto menor for a primeira, maior a chance de o jovem não trabalhar e não estudar. Essas relações podem ser ainda um pouco mais elucidadas, quando se incorpora o recorte por sexo no tratamento da situação de trabalho, estudo e inatividade entre os jovens. Como demonstram muitos estudos no âmbito internacional, as mulheres, tanto adultas quanto jovens, vêm aumentando o seu engajamento no mercado de trabalho, o que se tem expressado em maiores taxas de atividade desse segmento populacional (CEPAL, 2004; OIT, 2000; 2004). 4 No estudo, essa situação é identificada como correspondendo a afazeres domésticos e outros (DIEESE, 2005, p. 10). Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 853-876, 2008 862 Jéferson Daniel de Matos; Raul Luís Assumpção Bastos No caso da América Latina, as mulheres de 15 a 19 anos ampliaram levemente a sua taxa de participação, de 25,5% em 1990 para 27,3% em 2002, enquanto, para aquelas inseridas na faixa etária de 20 a 24 anos, esse indicador se elevou de 46,1% para 51,9% entre esses mesmos anos (CEPAL, 2004, p. 212). Não obstante, é interessante destacar aqui o quanto são distintas as proporções de mulheres jovens e de homens jovens que não trabalhavam e não estudavam5 na experiência latino-americana: entre os indivíduos de 15 a 19 anos, a essa situação correspondiam, em 2002, 23,3% das mulheres e somente 6,5% dos homens; já entre os indivíduos de 20 a 24 anos, nessa mesma data, 33,2% das mulheres encontravam-se nessa situação, contra apenas 4,1% dos homens (CEPAL, 2004, p. 213). Portanto, em que pese o aumento do engajamento no mercado de trabalho das jovens latino-americanas, bem como a melhora em seu perfil de escolaridade, é muito elevada a parcela relativa daquelas que se encontravam em uma situação de exclusão social comparativamente aos homens jovens. Uma tentativa de interpretação desse fenômeno seria a de que as mulheres jovens se vêem compelidas, dada a situação socioeconômica, a cuidar de crianças e de idosos em suas famílias, relação essa que é muito menos freqüente entre os homens jovens. Com isso, em famílias em que é elevada a taxa de dependência6, limitam-se as suas possibilidades de continuarem estudando e de participarem do mercado de trabalho, o que pode implicar uma situação de maior exclusão social para as mulheres jovens. Embora com evidências restritas a duas regiões brasileiras, essa interpretação encontra respaldo nos resultados do estudo de Leite e Silva (2002, p. 23), em que esses autores mostram que, quanto maior a taxa de dependência, maior a probabilidade de a jovem adolescente não estudar e não participar da força de trabalho, para cuidar de crianças em sua família. De forma semelhante, o estudo de Santos et al. (2004, p. 13) também encontra evidências de que, nas comunidades de baixa renda do Rio de Janeiro, as mulheres jovens que vivem em domicílios em que é mais elevada a taxa de dependência têm uma maior probabilidade de pertencerem à categoria de indivíduos que não trabalhavam e não estudavam. 5 Nessa parte do trabalho da CEPAL, essa situação é caracterizada pela realização de afazeres domésticos e outras formas de inatividade (CEPAL, 2004, p. 213). 6 A taxa de dependência corresponde à relação entre o número de crianças e idosos em uma família e os demais membros dessa família. Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 853-876, 2008 Uma análise exploratória dos fatores que condicionam a participação dos jovens... 863 3 Análise econométrica dos fatores que condicionam a participação dos jovens nas atividades de estudo e trabalho, na RMPA A partir da percepção de que os jovens experimentam um status multifacetado envolvendo as atividades de estudo e trabalho, esta seção tem o objetivo de analisar econometricamente os fatores que condicionam a sua constituição na RMPA. Tendo presente esse propósito, a subseção 3.1 descreve o modelo econométrico utilizado no estudo, e a subseção 3.2 apresenta os principais resultados de sua estimação. 3.1 Descrição do modelo econométrico O modelo adotado para estimar os fatores que condicionam as escolhas envolvendo o estudo e o trabalho da população juvenil na RMPA foi o multinomial logístico7. Essa opção se deveu ao fato de que essa abordagem econométrica permite utilizar variáveis dependentes categóricas e modelá-las como probabilidades de determinadas características demográficas e socioeconômicas da população (Winkelmann; Winkelmann, 1997, p. 24), indo ao encontro do que se coloca para enfrentar o problema de pesquisa deste trabalho. Nesse sentido, de acordo com a proposta deste estudo, a variável dependente do modelo relativa ao status do jovem foi categorizada nos seguintes termos: não estuda e não trabalha igual a zero; somente trabalha igual a um; trabalha e estuda igual a dois; e somente estuda igual a três. O jovem pode se encontrar em uma dessas quatro situações descritas, cabendo identificar as variáveis que condicionam a escolha de cada uma delas. É importante destacar que essa definição da variável dependente faz com que o modelo multinomial logístico utilizado seja não ordenado (Greene, 1997, p. 858), pois as alternativas de escolha são qualitativamente distintas. De acordo com Greene (1997, p. 859), a equação do modelo multinomial logístico é dada por: Pr ob (Y = j xi ) = e J β 'j xi ∑e β k' xi , j = 0,..., J k =0 7 Para uma apresentação do modelo multinomial logístico, ver Greene (1997, p. 857-865). Para aplicações do modelo em estudos sobre mercado de trabalho, ver Winkelmann e Winkelmann (1997), Menezes Filho et al. (2000), Corseuil et al. (2001), Wolbers (2001), Leite e Silva (2002), Silva e Kassouf (2002) e Santos et al. (2004). Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 853-876, 2008 864 Jéferson Daniel de Matos; Raul Luís Assumpção Bastos Nessa equação, as probabilidades de cada categoria de resposta j são função das variáveis explicativas xi, que correspondem a características demográficas e socioeconômicas dos indivíduos. Para que o modelo se torne identificável, é necessária uma normalização, na qual β0 = 0 (Greene, 1997, p. 860). Assim, o modelo torna-se: Pr ob (Y = 0 | x i ) = 1 1+ J ∑ eβ ' k xi k =1 Conforme mostra Greene (1997, p. 860), esse modelo permite que se calcule J razões de vantagens (log-odds ratios) em relação à categoria de referência: Pij ' ln = β j xi Pi 0 Esse resultado pode ser normalizado sobre qualquer outra probabilidade (Greene, 1997, p. 860), obtendo-se: P ln ij = x ' ( β j − β k ) Pik Assim, a diferença entre os coeficientes da variável independente determina a direção da vantagem de pertencer às categorias j ou k. Se a diferença for positiva, há maior vantagem da categoria j em relação à categoria k. Tendo como referência os argumentos identificados pela literatura sobre os fatores que condicionam a inserção da população juvenil nas atividades de estudo e trabalho (seção 2), serão utilizadas as seguintes variáveis explicativas no modelo econométrico a ser estimado: escolaridade do chefe de domicílio; condição de atividade do chefe de domicílio; faixa etária do jovem; escolaridade do jovem; renda domiciliar; e taxa de dependência do domicílio (Quadro 1). As expectativas quanto aos efeitos dessas variáveis são as seguintes: (a) no que diz respeito ao background familiar, que a presença de um chefe de domicílio com maior nível de escolaridade aumente a probabilidade de o jovem somente estudar; (b) quanto à condição de atividade do chefe de domicílio, que, caso este esteja ocupado, aumente a probabilidade de o jovem somente estudar; (c) que, à medida que o jovem avance em termos etários, aumentem as probabilidades de ele trabalhar e estudar ou de somente trabalhar; (d) quanto ao nível de escolaridade do jovem, que, quanto mais elevado este for, maior a possibilidade de o jovem trabalhar e estudar; (e) no que se refere à renda domiciliar, Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 853-876, 2008 Uma análise exploratória dos fatores que condicionam a participação dos jovens... 865 propõe-se que, caso esta seja mais elevada, maior será a probabilidade de o jovem somente estudar; (f) e quanto à taxa de dependência, que, quanto mais elevada ela for, menor a probabilidade de as mulheres jovens somente estudarem, somente trabalharem e trabalharem e estudarem. Quadro 1 Descrição das variáveis explicativas do modelo VARIÁVEIS CATEGORIZAÇÕES Escolaridade do chefe de domicílio Condição de atividade do chefe de domicílio Faixa etária do jovem Escolaridade do jovem Renda domiciliar Taxa de dependência do domicílio Crianças de zero a quatro anos mais idosos com mais de 65 anos Demais membros do domicílio Até sete anos de estudo = 3 De oito a 10 anos de estudo = 2 De 11 a 15 anos de estudo = 1 Mais de 15 anos de estudo = 0 (categoria de referência) Inativo = 0 (categoria de referência) Ocupado = 1 Desempregado = 2 De 16 e 17 anos = 2 De 18 a 20 anos = 1 De 21 a 24 anos = 0 (categoria de referência) Até sete anos de estudo = 2 De oito a 10 anos de estudo = 1 De 11 a 15 anos de estudo = 0 (categoria de referência) Quartil 1 = 3 Quartil 2 = 2 Quartil 3 = 1 Quartil 4 = 0 (categoria de referência) Baixa = 2 Média = 1 Alta = 0 (categoria de referência) Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 853-876, 2008 866 Jéferson Daniel de Matos; Raul Luís Assumpção Bastos 3.2 A estimação do modelo econométrico: análise dos principais resultados Os dados utilizados para a estimação do modelo econométrico são da base de dados da Pesquisa de Emprego e Desemprego na RMPA (PED-RMPA) e correspondem aos anos de 1993 e 2003. Para a formação dessa base, foram selecionados somente os jovens de 16 a 24 anos que possuíam informação para todas as variáveis incluídas no modelo.8 Como o modelo emprega informações em nível de domicílio, bastaria um de seus membros não divulgar a renda para que não se pudesse computar a renda domiciliar. Nesses casos, o jovem foi excluído da base de dados, o que representou cerca de 12% da amostra. Cabe ainda fazer referência a que o modelo foi estimado para duas amostras, uma relativa aos homens jovens e outra às mulheres jovens, com o que se pretende investigar a existência de diferenças entre os sexos no que se refere aos condicionantes das atividades de estudo e trabalho desse grupo populacional na RMPA. 3.2.1 Resultados relativos aos homens jovens A Tabela 1 apresenta os resultados da estimação do modelo multinomial logístico para a amostra de homens jovens, nos anos de 1993 e 2003. Para a interpretação desses resultados, é importante ressaltar que a variável dependente do modelo — o status do jovem — tem como categoria de referência a situação não trabalha e não estuda. A primeira das variáveis explicativas do modelo, a escolaridade do chefe de domicílio, mostrou-se estatisticamente significativa, em ambos os anos, para os jovens de sexo masculino que se dedicavam somente aos estudos. Dada a magnitude das estimativas dos coeficientes, pode-se afirmar que, quanto menos escolarizado o chefe de domicílio em que o jovem residia, menor a probabilidade de ele somente se dedicar aos estudos. Assim, por exemplo, em 2003, um homem jovem que residia em um domicílio no qual o chefe possuía até sete anos de estudo tinha uma redução estimada da probabilidade de pertencer à categoria somente estuda de 91,4%,9 comparativamente a um homem jovem que residia em um domicílio no qual o chefe tinha mais de 15 anos de estudo. 8 Nos estudos da ONU, a população jovem é delimitada pela faixa etária de 15 a 24 anos (World Youlth Rep., 2003; 2003). No presente trabalho, todavia, utiliza-se a faixa etária de 16 a 24 anos, porque 16 anos corresponde à idade mínima de ingresso legal no mercado de trabalho do País. 9 O cálculo dessa probabilidade é feito da seguinte forma: Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 853-876, 2008 [(e-2,448)-1] x 100 = -91,4%. Uma análise exploratória dos fatores que condicionam a participação dos jovens... 867 Tabela 1 Resultados da estimação do modelo multinomial logístico para as situações de estudo e trabalho de homens jovens na Região Metropolitana de Porto Alegre — 1993 e 2003 1993 DISCRIMINAÇÃO Somente Trabalha Trabalha e Estuda (1) 1,517 2003 Somente Estuda Somente Trabalha Trabalha e Estuda (2)1,165 Somente Estuda Constante .................... 1,018 (2) 2,464 0,521 (2)1,737 Escolaridade do chefe de domicílio Até sete anos de estudo 1,084 -0,829 (2)-2,772 (1)0,690 (2)-0,835 (2)-2,448 De oito a 10 anos de estudo ............................... 0,969 -0,873 (2)-2,475 0,654 (2)-1,015 (2)-2,403 De 11 a 15 anos de estudo ................................ 0,655 -0,482 (2)-1,602 0,545 -0,479 (2)-1,248 Mais de 15 anos de estudo (3) .......................... Condição de atividade do chefe de domicílio Inativo (3) ...................... Ocupado ........................(2) 0,869 (2) 0,402 -0,130 (2) 0,953 (2) 0,568 0,026 Desempregado .............. (2)-0,992 (2)-0,830 (2)-1,344 (2)-0,536 (2)-0,542 (2)-0,735 Faixa etária do jovem De 16 e 17 anos ............ (2)-0,992 (2) 1,442 (2) 2,939 (2)-1,285 (2) 1,006 (2) 2,954 De 18 a 20 anos ............ (2)-0,616 (2) 0,484 (2) 1,197 (2)-0,660 -0,086 (2) 0,902 De 21 a 24 anos (3) ....... Escolaridade do jovem Até sete anos de estudo (1)-0,371 (2)-1,873 (2)-1,819 -0,158 (2)-1,211 (2)-0,609 De oito a 10 anos de estudo ............................... -0,171 -0,142 -0,132 (1) 0,277 (2) 0,424 (2) 0,761 De 11 a 15 anos de estudo (3).......................... Renda domiciliar Quartil 1 ......................... (2)-1,141 (2)-1,981 (2)-0,928 (2)-1,067 (2)-1,724 (2)-0,552 Quartil 2 ......................... (2)-0,373 (2)-1,017 (2)-0,944 (2)-0,312 (2)-0,976 (2)-0,636 Quartil 3 ......................... -0,140 (2)-0,558 (2)-0,646 -0,073 (2)-0,518 (2)-0,558 Quartil 4 (3) ................... Taxa de dependência Baixa .............................. -0,347 0,150 0,278 -0,297 0,152 -0,087 Média ............................. -0,230 -0,085 0,011 -0,074 -0,042 -0,310 Alta (3) ........................... Grau de liberdade ........ 42 42 Pseudo R2 ..................... 0,432 0,419 Amostra ........................ 5 256 6 679 FONTE: PED-RMPA - Convênio FEE, FGTAS/SINE-RS, SEADE-SP, DIEESE e apoio PMPA. NOTA: A variável dependente do modelo tem como categoria de referência a situação não trabalha e não estuda. (1) Corresponde ao nível de 5% de significância. (2) Correspondente ao nível de 1% de significância. (3) Correspondente à categoria de referência. Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 853-876, 2008 868 Jéferson Daniel de Matos; Raul Luís Assumpção Bastos Ainda no que se refere à variável explicativa escolaridade do chefe do domicílio, esta se revelou significativa na categoria trabalha e estuda, no ano de 2003, em duas situações: para os homens jovens que pertenciam a domicílios cujos chefes possuíam até sete anos de estudo e oito a 10 anos de estudo. É interessante notar que a redução estimada da probabilidade de pertencer à categoria trabalha e estuda era menor na primeira situação (56,6%) do que na segunda (63,8%), quando comparadas à dos jovens que residiam em domicílios cujos chefes possuíam mais de 15 anos de estudo. Quanto à categoria somente trabalha, o único resultado estatisticamente significativo ocorreu, no ano de 2003, para a situação em que o chefe do domicílio em que o jovem residia tinha até sete anos de estudo. Nesse caso, estima-se que aumente em 99,4% a probabilidade de um jovem nessa situação somente trabalhar, em relação a um jovem que esteja inserido em um domicílio no qual o chefe tenha mais de 15 anos de estudo. Esses resultados da estimação do modelo para a amostra de homens jovens, portanto, evidenciam-se coerentes com as expectativas originalmente propostas. A variável explicativa condição de atividade do chefe de domicílio mostrou-se estatisticamente significativa em praticamente todas as combinações de situações, em ambos os anos, à exceção daquela correspondente aos domicílios nos quais os chefes se encontravam ocupados e os jovens de sexo masculino somente estudavam, em ambos os anos. Conforme mostram os resultados da estimação, aumenta a probabilidade de um homem jovem somente trabalhar e trabalhar e estudar, caso ele esteja inserido em um domicílio no qual o chefe está ocupado, comparativamente a outro homem jovem que pertença a um domicílio no qual o chefe esteja inativo: na primeira situação, a probabilidade estimada elevou-se, no ano de 2003, em 159,3% e, na segunda, em 76,5%. Por sua vez, caso o jovem de sexo masculino pertença a um domicílio no qual o chefe esteja desempregado, reduz-se muito a probabilidade de ele somente estudar, trabalhar e estudar e somente trabalhar, comparativamente a um domicílio no qual o chefe esteja inativo: as probabilidades estimadas reduziram-se, no ano de 2003, em 52,0%, 41,8% e 41,5% respectivamente. Esse resultado, relativo aos homens jovens que residiam em domicílios cujos chefes estavam desempregados, na RMPA, é de difícil interpretação, pois não é totalmente claro o porquê da existência de uma desvantagem em relação aos jovens provenientes de domicílios cujos chefes estavam inativos. No que se refere à variável explicativa faixa etária do jovem, praticamente todas as combinações de situações geradas pelo modelo mostraram-se estatisticamente significativas, com exceção da situação do jovem que trabalhava e estudava e que possuía entre 18 e 20 anos em 2003. Conforme se constata, estima-se um aumento acentuado da probabilidade de um homem jovem somente estudar e trabalhar e estudar, quanto menor for a sua faixa etária: por exemplo, no ano de 2003, um homem jovem entre 16 e 17 anos Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 853-876, 2008 Uma análise exploratória dos fatores que condicionam a participação dos jovens... 869 aumentava a sua possibilidade de somente estudar em aproximadamente 19 vezes, comparativamente a outro que possuía de 21 a 24 anos. Já um jovem entre 16 e 17 anos observava uma grande redução, em 2003, da probabilidade estimada de somente trabalhar (-72,3%) comparativamente a outro que possuía 21 a 24 anos. Portanto, os resultados da estimação foram bastante intuitivos para as situações somente estuda e somente trabalha, enquanto, na situação trabalha e estuda, a interpretação se tornou menos clara: ou seja, por que um jovem, quanto menor a sua idade, vê aumentada a sua probabilidade de trabalhar e estudar comparativamente a outro de idade mais avançada? Essa questão ainda está em aberto no presente estágio desta pesquisa. Quanto à variável explicativa escolaridade do jovem, os resultados da estimação do modelo evidenciaram-se, em 2003, estatisticamente significativos para praticamente todas as combinações de situações, com exceção daquela correspondente aos jovens de sexo masculino que somente trabalhavam e que possuíam até sete anos de estudo. Já para 1993, os resultados mostraram-se estatisticamente significativos exclusivamente para as diferentes situações que envolvem os homens jovens com até sete anos de estudo. Tomando-se o ano de 2003, é interessante perceber que parece haver um padrão relacionando a faixa de escolaridade do jovem de sexo masculino e a sua inserção em cada uma das situações de estudo e trabalho: assim, para o jovem com até sete anos de estudo, reduziu-se a probabilidade estimada de pertencer a qualquer uma das categorias, enquanto, para o jovem com oito a 10 anos de estudo, as probabilidades estimadas se elevaram, comparativamente aos jovens que possuíam de 11 a 15 anos de estudo. Para ilustrar empiricamente essa afirmação, as possibilidades estimadas de um homem jovem com oito a 10 anos de estudo somente estudar, trabalhar e estudar e somente trabalhar aumentavam em 114,0%, 52,8% e 31,9%, respectivamente, em comparação a outro homem jovem que possuía de 11 a 15 anos de estudo. Diferentemente, um jovem de sexo masculino pertencendo à faixa de escolaridade de até sete anos de estudo registrava uma redução das probabilidades estimadas de somente estudar e de trabalhar e estudar de 45,6% e 70,2%, respectivamente, em relação a um homem jovem inserido na faixa de escolaridade de 11 a 15 anos de estudo. Dessa forma, esses resultados da estimação do modelo indicam um handicap da população jovem masculina relativamente menos escolarizada na sua inserção nas atividades que envolviam o estudo ou a combinação de trabalho e estudo na RMPA, em 2003.10 10 É interessante notar que, em 1993, para a faixa de escolaridade de até sete anos de estudo, o resultado da estimação do modelo mostrou-se estatisticamente significativo para a situação somente trabalha, indicando uma redução da probabilidade de o jovem encontrar-se nessa situação de 31,0%, comparativamente a um jovem de sexo masculino que possuísse de 11 a 15 anos de estudo. Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 853-876, 2008 870 Jéferson Daniel de Matos; Raul Luís Assumpção Bastos A variável explicativa renda domiciliar mostrou-se estatisticamente significativa em todas as combinações de situações, à exceção daquela correspondente aos jovens de sexo masculino que somente trabalhavam e que estavam inseridos em domicílios do terceiro quartil de renda, em ambos os anos. Pode-se ilustrar os resultados do efeito dessa variável explicativa sobre a situação de trabalho e estudo dos jovens nos seguintes termos: tomando-se o ano de 2003 e um jovem de sexo masculino inserido em um domicílio do primeiro quartil de renda, estima-se que as probabilidades de ele somente estudar, trabalhar e estudar e somente trabalhar se reduziam em 42,4%, 82,2% e 65,6%, respectivamente, comparativamente a outro jovem inserido em um domicílio do quarto quartil de renda. Portanto, os jovens de sexo masculino que pertenciam a domicílios de baixa renda tinham uma desvantagem acentuada nas diferentes situações de trabalho e estudo, em comparação com aqueles que estavam inseridos em domicílios de renda relativamente elevada. No que se refere aos que somente trabalhavam, a estimação do modelo está evidenciando resultados do efeito da renda domiciliar que não eram os mais esperados, ficando ainda em aberto as causas que o provocaram. A última variável explicativa do modelo, a taxa de dependência, não se mostrou estatisticamente significativa em nenhuma das combinações de situações, em ambos os anos, para os jovens de sexo masculino. Em alguma medida, esse resultado é coerente com o que estava sendo esperado, pois havia a expectativa de que ela tivesse efeitos especificamente sobre a população jovem de sexo feminino, que tem as suas atividades de estudo e trabalho condicionadas pelos cuidados com crianças e idosos no domicílio em que reside. Essa questão será retomada no subitem 3.2.2, no qual o modelo multinomial logístico foi estimado para a amostra de mulheres jovens na RMPA. 3.2.2 Resultados relativos às mulheres jovens Os resultados da estimação do modelo multinomial logístico para a amostra de mulheres jovens na RMPA, nos anos de 1993 e 2003, encontram-se na Tabela 2. Iniciando a análise pela variável explicativa escolaridade do chefe de domicílio, constata-se que essa se mostrou estatisticamente significativa, em ambos os anos, nas combinações de situações que correspondiam a somente estuda e trabalha e estuda11, e não significativa na de somente trabalha. Pode-se mostrar o efeito dessa variável explicativa através do seguinte exemplo: 11 Na situação trabalha e estuda, no ano de 2003, o resultado da estimação do modelo não se mostrou estatisticamente significativo para a faixa de escolaridade de 11 a 15 anos de estudo do chefe de domicílio. Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 853-876, 2008 Uma análise exploratória dos fatores que condicionam a participação dos jovens... 871 uma mulher jovem que residia em um domicílio no qual o chefe possuía até sete anos de estudo tinha uma redução estimada da probabilidade de somente estudar de 90,0% e de 57,7% de trabalhar e estudar comparativamente a uma jovem de um domicílio em que o chefe tinha mais de 15 anos de estudo. Dessa forma, os resultados da estimação, particularmente no que se referem às jovens que somente estudavam, apresentam-se de acordo com as expectativas originalmente propostas sobre o efeito do nível de escolaridade do chefe de domicílio. No que diz respeito à condição de atividade do chefe de domicílio, predominam as combinações de situações cujos efeitos dessa variável explicativa são estatisticamente significativos, sendo exceções aquelas que envolviam as mulheres jovens que somente trabalhavam ou trabalhavam e estudavam e os chefes de domicílio que estavam desempregados em 1993 e, em 2003, as combinações de situações envolvendo as mulheres jovens que somente trabalhavam e os chefes de domicílios em que residiam que estavam ocupados ou desempregados. Tomando os resultados da estimação do modelo em 2003, pode-se constatar que, em um domicílio no qual o chefe estava desempregado, as probabilidades de o jovem de sexo feminino somente estudar e trabalhar e estudar reduziam-se em 59,6% e 39,2% respectivamente, comparativamente a outro domicílio no qual o chefe se encontrava inativo. Nesse mesmo ano, no caso de um domicílio no qual o chefe estava ocupado, as probabilidades estimadas de a jovem somente estudar ou trabalhar e estudar reduziam-se em 57,1% e 45,9%, respectivamente, em relação a outro domicílio em que o chefe estava inativo. Esses resultados do modelo não se mostram intuitivos, particularmente no que diz respeito aos domicílios nos quais os chefes se encontravam ocupados, negando a expectativa original do efeito dessa variável explicativa sobre a situação de estudo e trabalho das mulheres jovens na RMPA. A faixa etária do jovem mostrou-se uma variável explicativa estatisticamente significativa em praticamente todas as combinações de situações, em ambos os anos, à exceção daquela correspondente às mulheres jovens entre 18 e 20 anos que trabalhavam e estudavam em 2003. Com base nos resultados do modelo, estima-se que as probabilidades de uma jovem entre 16 e 17 anos somente estudar e trabalhar e estudar, no ano de 2003, aumentavam em 12,3 vezes e em 2,6 vezes, respectivamente, em comparação a uma jovem de 21 a 24 anos. De forma distinta, nesse mesmo ano, a probabilidade estimada de uma jovem entre 16 e 17 anos somente trabalhar reduzia-se em 71,9%, em relação a uma jovem de 21 a 24 anos. Assim, os efeitos da variável explicativa em análise foram os esperados nas situações somente trabalha e somente estuda das jovens e menos intuitivos no caso das que apresentavam o duplo status de trabalhar e estudar. Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 853-876, 2008 872 Jéferson Daniel de Matos; Raul Luís Assumpção Bastos Tabela 2 Resultados da estimação do modelo multinomial logístico para as situações de estudo e trabalho de mulheres jovens na Região Metropolitana de Porto Alegre — 1993 e 2003 1993 DISCRIMINAÇÃO Somente Trabalha Trabalha Somente Somente e Estuda Trabalha Estuda (2) 1,369 (1) 1,992 0,131 2003 Trabalha e Estuda 0,384 Somente Estuda Constante .................... (1) 1,522 (1) 1,029 Escolaridade do chefe de domicílio Até sete anos de estudo -0,160 (1)-1,352 (1)-2,701 0,228 (1)-0,861 (1)-2,302 De oito a 10 anos de estudo ............................... -0,513 (1)-1,460 (1)-2,538 0,269 (2)-0,798 (1)-2,165 De 11 a 15 anos de estudo ................................ -0,506 (1)-1,176 (1)-1,766 0,253 -0,357 (1)-1,245 Mais de 15 anos de estudo (3) .......................... Condição de atividade do chefe de domicílio Inativo (3) ...................... Ocupado ........................ (1)-0,367 (1)-0,695 (1)-1,012 -0,104 (1)-0,615 (1)-0,846 Desempregado .............. -0,239 -0,209 (1)-0,878 -0,020 (1)-0,497 (1)-0,906 Faixa etária do jovem De 16 e 17 anos ............ (1)-0,731 (1) 1,307 (1) 2,902 (1)-1,270 (1) 0,969 (1) 2,510 De 18 a 20 anos ............ (2)-0,164 (1) 0,516 (1) 1,212 (1)-0,362 0,128 (1) 0,901 De 21 a 24 anos (3) ....... Escolaridade do jovem Até sete anos de estudo (1)-0,447 (1)-1,869 (1)-1,838 (1)-0,420 (1)-1,379 (2)-0,292 De oito a 10 anos de estudo ............................... (1)-0,379 (2)-0,306 -0,245 -0,119 (1) 0,375 (1) 0,930 De 11 a 15 anos de estudo (3) ......................... Renda domiciliar Quartil 1 ......................... (1)-2,029 (1)-2,549 (1)-1,393 (1)-1,737 (1)-2,760 (1)-1,332 Quartil 2 ......................... (1)-1,023 (1)-1,538 (1)-1,019 (1)-0,451 (1)-1,529 (1)-1,258 Quartil 3 ......................... (1)-0,477 (1)-0,877 (1)-0,605 -0,015 (1)-0,815 (1)-0,834 Quartil 4 (3) ................... Taxa de dependência Baixa .............................. (1) 0,831 (1) 1,318 (1) 1,333 (1) 0,836 (1) 1,830 (1) 1,699 Média ............................. 0,207 0,248 0,444 0,164 (2) 0,546 (1) 0,633 Alta (3) ........................... Grau de liberdade ........ 42 42 2 Pseudo R ..................... 0,439 0,444 Amostra ........................ 5 518 6 779 FONTE: PED-RMPA - Convênio FEE, FGTAS/SINE-RS, SEADE-SP, DIEESE e apoio PMPA. NOTA: A variável dependente do modelo tem como categoria de referência a situação não trabalha e não estuda. (1) Corresponde ao nível de 1% de significância. (2) Correspondente ao nível de 5% de significância. (3) Correspondente à categoria de referência. Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 853-876, 2008 Uma análise exploratória dos fatores que condicionam a participação dos jovens... 873 Quanto à variável explicativa escolaridade do jovem, essa mostrou-se estatisticamente significativa na maioria das combinações de situações, com duas exceções: no ano de 1993, para as jovens com oito a 10 anos de escolaridade e que somente estudavam, e, no de 2003, nessa mesma faixa de escolaridade, para as que somente trabalhavam. Deve-se também destacar que, quando se comparam os resultados da estimação para os anos de 1993 e 2003, na faixa de escolaridade de oito a 10 anos de estudo e na situação trabalha e estuda, mudam os sinais das estimativas dos coeficientes, tornando mais difícil a interpretação dos resultados para esse caso. Escolhendo-se a faixa de escolaridade de até sete anos de estudo para ilustrar os efeitos da variável explicativa em análise, constata-se que uma jovem com essa característica, no ano de 2003, evidenciava uma redução das probabilidades estimadas de somente estudar, de trabalhar e estudar e de somente trabalhar de 25,3%, 74,8% e 34,3%, respectivamente, comparativamente a uma jovem com 11 a 15 anos de estudo. Portanto, a escolaridade relativamente baixa da jovem constitui-se, claramente, em uma desvantagem nessas três modalidades de situações, particularmente naquela correspondente ao duplo status de trabalhar e estudar. A variável explicativa renda domiciliar evidenciou-se estatisticamente significativa na quase-totalidade de combinações de situações, com exceção daquela correspondente às jovens que somente trabalhavam e que pertenciam ao terceiro quartil de renda domiciliar no ano de 2003. Para exemplificar o efeito dessa variável explicativa, as jovens que pertenciam ao primeiro quartil de renda, em 2003, tinham uma redução nas probabilidades estimadas de somente estudar, trabalhar e estudar e somente trabalhar de 73,6%, 93,7% e 82,4%, respectivamente, em relação a uma jovem que pertencia ao quarto quartil de renda domiciliar. Esses resultados são bastante compreensíveis para o caso das jovens que somente estudavam, mas menos intuitivos para as outras duas situações. Não obstante, vão na mesma direção daqueles encontrados para a amostra de jovens de sexo masculino, conforme visto no subitem 3.2.1. Por fim, no que se refere aos efeitos da taxa de dependência, pode-se constatar que esses se mostraram estatisticamente significativos em todas as combinações de situações que envolviam as mulheres jovens inseridas em domicílios cujo nível dessa variável era baixo, em ambos os anos, e para aquelas que pertenciam a domicílios em que a taxa de dependência era média e que se encontravam nas situações somente estuda e trabalha e estuda, no ano de 2003. Para ilustrar esses resultados, tomando-se uma jovem inserida em um domicílio cuja taxa de dependência era baixa, em 2003, as suas probabilidades estimadas de somente estudar, trabalhar e estudar e somente trabalhar aumentavam em 5,5 vezes, 6,2 vezes e 2,3 vezes, respectivamente, em comparação a uma jovem inserida em um domicílio com alta taxa de depenEnsaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 853-876, 2008 874 Jéferson Daniel de Matos; Raul Luís Assumpção Bastos dência. Nesses termos, os resultados da estimação do modelo vão ao encontro da expectativa original do efeito dessa variável explicativa sobre as mulheres jovens, evidenciando uma desvantagem nas atividades de estudo e trabalho daquelas inseridas em domicílios cuja taxa de dependência era elevada. Adicionalmente, é interessante recuperar que essa variável não se havia mostrado estatisticamente significativa para a amostra de homens jovens, com o que se identifica uma diferença importante entre os sexos no que se refere às diversas situações de trabalho e estudo dos jovens na RMPA. 4 Considerações finais Partindo da compreensão de que os jovens experimentam uma fase particular do ciclo de vida — aquela que envolve o processo de transição da escola para o trabalho — este artigo procurou abordar, de forma exploratória, os fatores que condicionam a sua inserção nas atividades de estudo e trabalho na RMPA. Para tanto, o estudo utilizou como procedimento metodológico a estimação do modelo multinomial logístico para amostras de homens jovens e mulheres jovens nos anos de 1993 e 2003. Os resultados da estimação do modelo mostraram-se satisfatórios, confirmando, grosso modo, o acerto na escolha das variáveis explicativas idade e escolaridade do jovem, escolaridade e condição de atividade do chefe de domicílio, renda domiciliar e taxa de dependência, bem como o procedimento analítico de segmentar a população jovem por sexo. Conforme foi evidenciado no corpo do trabalho, uma grande proporção de estimativas dos coeficientes das variáveis explicativas é estatisticamente significativa, revelando efeitos sobre as diferentes situações de estudo e trabalho dos jovens que vão ao encontro das expectativas originalmente formuladas pela literatura revista no trabalho. Evidentemente, uma gama de questões foi deixada em aberto pelos resultados econométricos do estudo. Apenas para citar um dentre diversos exemplos, no que se refere à variável explicativa condição de atividade do chefe de domicílio, não ficou claro por que motivo uma jovem que residia em um domicílio no qual o chefe estava ocupado tinha uma menor probabilidade de somente estudar e de trabalhar e estudar do que outra jovem que pertencia a um domicílio no qual o chefe se encontrava inativo. Como continuidade dessa linha de pesquisa, pretende-se avançar no estudo dos condicionantes das atividades de estudo e trabalho da população jovem da RMPA através do enfrentamento das questões deixadas em aberto até o momento. Dentre outros aspectos, poder-se-iam explorar os efeitos de interação Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 853-876, 2008 Uma análise exploratória dos fatores que condicionam a participação dos jovens... 875 das variáveis explicativas utilizadas, o que favoreceria a compreensão do papel exercido pelas diversas dimensões demográficas e socioeconômicas sobre a inserção da população juvenil da Região Metropolitana nas atividades de estudo e trabalho — ou seja, a proposta seria a de estender e aprimorar o modelo básico utilizado neste artigo. Uma outra importante questão não coberta pela parte empírica do trabalho, que se pretende retomar no futuro próximo, é a abordagem dos fatores que provocam a exclusão dos jovens das atividades de estudo e trabalho na RMPA, o que implica uma situação de marginalização social entre parte dos membros desse grupo populacional. Bibliografia BLANCHFLOWER, D.; FREEMAN, R. The declining economic status of young workers in OECD countries. 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Para atingir tal objetivo, foram estimados os coeficientes a partir do método de Mínimos Quadrados Ordinários, considerando o período jan./00-mar./05. As estimativas obtidas confirmam os efeitos da taxa de câmbio e do preço dos calçados sobre as exportações de calçados do RS. Os coeficientes estimados indicam que o aumento de 1% na taxa de câmbio determina um acréscimo de 0,74% nas exportações de calçados (valor exportado) e que um aumento de 1% no preço dos calçados eleva as exportações em 0,62%, mantidos os demais fatores constantes. Palavras-chave Exportações de calçados; câmbio; preços de calçados. * Artigo recebido em abr. 2007 e aceito para publicação em ago. 2007. ** E-mail: [email protected] *** E-mail: [email protected] Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 877-894, 2008 878 Eduardo Barbosa; Augusto Mussi Alvim Abstract This paper aims to identify the main effects of exchange rates in Brazil and footwear prices upon footwear exportation in Rio Grande do Sul (Brazil). To achieve these goals, it was estimate the coefficients using the method of Ordinary Least Squares from January of 2000 to March of 2005. The results show that an increase of 1% in exchange rate determines an increase of 0.74% in footwear exportation, and when footwear prices increase 1% determines an increase of 0.62% in footwear exportation, with other thinks being the same. Key words Footwear exportation; exchange rate; footwear prices. Classificação JEL: F19. 1 Introdução O presente estudo analisa o setor calçadista, um dos segmentos que mais gera empregos no País e no Estado do Rio Grande do Sul (RS).1 O principal destino da produção é o mercado externo, estimulado, principalmente, pelas importações norte-americanas e européias. Em vista de a maior da produção dirigir-se ao mercado externo, o setor calçadista apresenta-se suscetível às oscilações de políticas cambiais e de condicionantes externos. A exemplo disso, a produção de calçados no RS, no período 2000-052, apresentou um desempenho bastante variado, alternando momentos de expansão e períodos de queda da atividade produtiva, dependendo, dentre outras variáveis, da taxa de câmbio vigente. A partir de 1999, com a mudança do regime de câmbio fixo para flutuante, no governo do Presidente Fernando Henrique Cardoso, houve uma maxidesvalorização do real, que favoreceu a retomada das exportações gaúchas de calçados, conferindo ao comércio internacional um novo horizonte. Após a 1 Conforme dados da Abicalçados (2005). 2 A escolha desse período deve-se ao fato de o setor de calçados ter sofrido, nessa fase, mudanças significativas na produção e nas exportações e também por se ter mantido o câmbio flutuante ao longo do período. Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 877-894, 2008 As exportações de calçados do Rio Grande do Sul: uma avaliação... 879 segunda maxidesvalorização cambial, de julho de 2002, os ganhos de competitividade reforçaram o aumento da produção e das exportações de calçado no RS. A exemplo disso, no período jan./00-out./02, o real apresentou desvalorização de aproximadamente 111%, enquanto as exportações3 de calçados do RS aumentaram 96%. Sabe-se que as exportações de calçados não são influenciadas apenas pela taxa de câmbio, mas também por condicionantes externos, como o preço dos calçados no mercado internacional, e de condicionantes internos, como a elevada carga tributária e o incremento dos salários dos trabalhadores. Nos últimos anos, os calçados brasileiros têm enfrentado ainda a concorrência da China, que tem aumentado a sua participação no mercado internacional, em função dos menores custos de produção e de um câmbio favorável para exportações. Com base nessa problemática, o propósito central deste trabalho é analisar o comportamento das exportações de calçados do RS como uma função da taxa de câmbio e do preço médio dos calçados. Segundo Holland e Xavier (2004), é comum os estudos sobre exportações considerarem variáveis explanatórias, como taxa de câmbio, renda externa, termos de troca e preços internacionais. Os autores destacam ainda que a mudança na paridade cambial brasileira, de 1999 em diante, permitiu uma forte recuperação do dinamismo exportador brasileiro. A exemplo disso, Durand e Giorno (1987) sugerem, como medida de competitividade entre os países, a relação entre os índices do país e uma média ponderada de preços de exportação de países concorrentes, ambos multiplicados pelas taxas de câmbio nominais. Desse modo, a evolução da competitividade é dada pela evolução da taxa real de câmbio efetiva relativa às exportações, principalmente em setores cuja relevância da relação entre crescimento das exportações e demanda internacional é elevada. Portanto, neste trabalho, não se pretende esgotar a discussão sobre o tema, mas colaborar para com ela, estimando os efeitos dos preços dos calçados e das variações na taxa de câmbio sobre as exportações de calçados no RS. Faz-se isso optando por um modelo simplificado de análise e partindo do pressuposto de que variáveis como carga tributária, salários e preços internacionais afetam diretamente os preços dos calçados no RS. Para atingir esses objetivos, inicialmente são detalhados os procedimentos metodológicos, seguidos da apresentação dos resultados e das Considerações finais. 3 Valores em reais. Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 877-894, 2008 880 Eduardo Barbosa; Augusto Mussi Alvim 2 Metodologia A metodologia e as variáveis utilizadas no modelo foram estabelecidas a partir da revisão de estudos que tratam dos diversos fatores que afetam o nível das exportações. Nessa linha, Costa (2002) salienta que o setor de calçados brasileiro tem sua competição centrada no preço, sendo que as altas e as baixas performances competitivas dependem fortemente do comportamento do câmbio, no caso, dos exportadores.4 Holland e Xavier (2004) destacam que é muito comum o estudo das exportações como uma função de variáveis explanatórias, como a taxa de câmbio, a renda externa, termos de troca, preços internacionais, dentre outros. Por fim, Kannebley Jr. (2002) defende que as exportações brasileiras se tornaram menos competitivas em relação aos demais parceiros comerciais por dois motivos: a valorização da taxa de câmbio e o aumento do salário real. Dada a relação teórica entre o desempenho exportador de um país e a taxa de câmbio, neste artigo, por meio de uma análise econométrica, procurar-se-á investigar, para o período jan./00-mar./05, a validade dessa relação, utilizando-se, ainda, os preços internacionais dos calçados como variável explicativa. 2.1 Definição das variáveis A seguir, são definidas todas as variáveis utilizadas no modelo econométrico desenvolvido nesta pesquisa. Valor das exportações de calçados em reais (EXP): são todos os valores mensais das exportações de calçados do RS, no período jan./00-mar./05, independentemente do país de destino. Os valores utilizados são nominais (em reais) e foram retirados do Sistema Aliceweb (Brasil, 2005). Câmbio (CAMB): foram utilizadas as cotações médias mensais do câmbio nominal no período em análise, fornecidas pelo Banco Central. Preço médio (PM): os valores são mensais, estão expressos em dólares e foram calculados a partir da razão entre o valor das exportações e as quantidades exportadas do produto. 4 A hipótese aqui defendida enfatiza o câmbio e o preço como sendo aqueles fatores que mais diretamente têm influenciado a trajetória competitiva do setor, embora se precise reconhecer que outros aspectos também influenciam o desempenho. Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 877-894, 2008 As exportações de calçados do Rio Grande do Sul: uma avaliação... 881 2.2 Definição das hipóteses Teoricamente, as exportações em reais dos calçados sofrem influência da taxa de câmbio e dos preços médios em dólares, pois se espera que a desvalorização do real incremente as exportações, melhorando o desempenho do setor calçadista do RS. Os sinais esperados da relação entre as variáveis independentes e a variável dependente, para a função das exportações de calçados do RS, são apresentados no Quadro 1. Quadro 1 Relação das exportações de calçados com taxa de câmbio e preços de calçados do RS RELAÇÕES FUNCIONAIS LogEXPt = logaritmo natural (ln) das exportaçõesde decalçados calçados exportações (R$) LogCAMBt = ln do câmbio nominal ↑ LogCAMBt → ? LogEXPt (+ ) ↑ LogPMt → ↑ LogEXPt (+ ) LogPMt = ln preço médio em dólares US$ 2.3 Modelo econométrico O modelo trabalhado é Log-Log, com duas variáveis independentes. Essa forma funcional é utilizada pela maior parte dos trabalhos, pois permite interpretar os resultados obtidos com elasticidades, sendo constante e igual ao coeficiente angular, estimado através dos Mínimos Quadrados Ordinários. Para as regressões, foram utilizados dados mensais de janeiro de 2000 a março de 2005, e todas as variáveis estão expressas em valores nominais, que compõem uma base de dados satisfatória. Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 877-894, 2008 882 Eduardo Barbosa; Augusto Mussi Alvim Portanto, a função das exportações de calçados do RS ficará especificada da seguinte maneira: ^ ^ LogEXPt = â + b1 LogCAMBt + b 2 LogPM t + ε t Onde: LogEXPt = logaritmo natural das exportações de calçados no período t; LogCAMBt = logaritmo natural do câmbio nominal no período t; LogPM t = logaritmo natural do preço médio no período t; εt = termo de erro aleatório. O termo de erro é normalmente distribuído, tem valor esperado ou média igual a zero e variância constante ( σ 2 ) para todas as observações; e os erros correspondentes a observações diferentes são independentes e, então, são não correlacionados. Para verificar se os pressupostos acima são atendidos e se os coeficientes estimados são não tendenciosos ou viesados, serão utilizados os testes5 para identificação de estabilidade dos coeficientes, de multicolinearidade, de heteroscedasticidade, de autocorrelação e de raiz unitária. 2.4 Estacionariedade e co-integração A principal característica de variáveis co-integradas é que sua trajetória no tempo é influenciada pelo desvio do equilíbrio de longo prazo, que, por sua vez, influencia a resposta das variáveis de curto prazo, que promovem novamente o equilíbrio do sistema.6 Uma vez que é comum a presença de sazonalidade em séries macroeconômicas, pode ocorrer que essas apresentem uma ordem de integração em uma freqüência sazonal. Dessa forma, pode existir uma combinação linear entre essas variáveis, que faça com que sejam co-integradas sazonalmente. Para verificar a existência de estacionariedade, utilizar-se-á o teste de Dickey-Fuller aumentado (Augmented Dickey-Fuller (ADF)). 5 Os testes realizados neste trabalho podem ser encontrados em Gujarati (2000). 6 Ver Gujarati (2000). Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 877-894, 2008 883 As exportações de calçados do Rio Grande do Sul: uma avaliação... 3 Resultados obtidos Pode-se verificar, a partir do teste ADF para as séries em nível e em primeira diferença, cujos resultados são apresentados no Quadro 2, que todas as variáveis, tanto de exportação, como de preço e taxa de câmbio, quando medidas em nível, acusam a presença de raiz unitária, mas, quando feita a primeira diferença, tornam-se estacionárias. Quadro 2 Teste de Dickey-Fuller aumentado da raiz unitária das exportações de calçados em reais, do câmbio em reais por dólares e do preço de venda em dólares do RS VARIÁVEIS τu (1) I(.) (2) LogEXP - 3,213676 I(1) LogCAMB -1,882278 I(1) LogPM -1,940862 I(1) ∆LogEXP -10,693880 I(0) ∆LogCAMB - 5,208829 I(0) ∆LogPM - 6,910458 I(0) (1) Teste com constante. (2) Ordem de integração a 1%. Dado que as séries são I(1), então, pode existir uma combinação linear entre elas que seja I(0), ou seja, deve-se verificar a sincronia das mesmas. Se ambas estão tendendo para cima ou para baixo de forma estocástica, parecendo tender ao mesmo tempo, como dois parceiros de dança, cada qual seguindo um caminho aleatório que parece uníssono, podem ter, por trás disso, uma série temporal co-integrada. Para constatar isso, é preciso ver se os resíduos da regressão são estacionários, utilizando-se o teste ADF e os valores críticos de Mackinnon.7 7 Ver Patterson (2000). Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 877-894, 2008 884 Eduardo Barbosa; Augusto Mussi Alvim Como as variáveis são co-integradas (Quadro 3), elas compartilham tendências estocásticas semelhantes, assim os testes t e F são válidos, o que permite realizar a regressão, utilizando-se as variáveis em nível. Quadro 3 Teste de co-integração VARIÁVEIS τu (1) Resid(T_1) - 6,783084 Valor crítico de Mackinnon a 5% - 4,088329 (1) Teste com constante. Comprovando a teoria econômica, constata-se que há relação direta entre as variáveis, ou seja, quando houve desvalorização do real, houve elevação do valor das exportações, e vice-versa, o mesmo acontecendo quando houve elevação nos preços médios em dólar (Quadro 4). Quadro 4 Exportações de calçados em reais, câmbio em reais e preço de venda em dólares, do RS VARIÁVEIS COEFICIENTES DESVIO-PADRÃO C 16,988000 0,335247 0,0000 LogCAMB 0,741270 0,065408 0,0000 LogPM 0,625970 0,125673 0,0000 R² 0,773055 Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 877-894, 2008 P-VALOR As exportações de calçados do Rio Grande do Sul: uma avaliação... 885 Os coeficientes estimados indicam que o aumento de 1% no câmbio provoca um aumento de 0,74% no valor exportado e que o aumento de 1% no preço médio dos calçados eleva as exportações em 0,62%. As variáveis apresentaram os sinais esperados e significativos, tanto individualmente quanto conjuntamente, sendo que as variações conjuntas explicam 77,3% das variações nas exportações de calçados do RS. O teste de estabilidade comprovou que os coeficientes estimados são constantes ao longo do tempo, ou seja, não há quebra estrutural no período de estimação. O comportamento dos resíduos não demonstra presença de heteroscedasticidade, o que é comprovado pelo teste de White e pelo teste de Goldfeld-Quandt. Não foi constatada a presença de autocorrelação dos dados no teste LM, e a análise de multicolinearidade, através da regra de Klein, não se mostrou significativa, o que é comprovado pela análise do fator que inflaciona a variância. Todos esses testes são apresentados no Apêndice. Os resultados mostram que as exportações são mais sensíveis às variações no câmbio do que às variações nos preços dos calçados. Em parte, isso reforça a demanda do setor por um câmbio mais desvalorizado e por uma política econômica que permita um crescimento mais equilibrado e competitivo do setor de calçados. 4 Considerações finais Pode-se verificar, através dos testes desenvolvidos, que os estimadores calculados não apresentam viés de especificação e são estatisticamente significativos e eficientes (Apêndice). Os resultados da pesquisa mostram que a taxa de câmbio nominal e o preço de venda em dólar exercem influência no comportamento das exportações de calçados do RS. Especificamente com relação a esse aspecto, constatou-se, através do modelo obtido, que, diante da variação de 1% no câmbio nominal, o valor exportado de calçados do RS em reais apresenta uma variação de 0,74%, mantidas as demais variáveis constantes, e que a variação de 1% nos preços de venda em dólar proporciona uma variação de 0,62% no valor exportado de calçados do RS em reais. Conjuntamente, ambas as variáveis independentes (câmbio nominal e preço de venda) explicam 77,3% das mudanças nas exportações de calçado, no RS, confirmando a relevância dessas variáveis junto às exportações de calçados do Estado no período jan./00-mar./05. Soma-se a isso, o fato de as exportações provocarem efeitos multiplicadores, que dinamizam o mercado interno, destacando o papel do câmbio como Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 877-894, 2008 886 Eduardo Barbosa; Augusto Mussi Alvim um importante instrumento de competitividade das exportações de calçados do RS. Esses efeitos podem ser maiores ou menores, dependendo da existência de capacidade ociosa na economia, da qualidade da mão-de-obra, da capacidade empresarial, da infra-estrutura de transportes, dentre outros, principalmente em setores intensivos em mão-de-obra na produção, como o de calçados. Por fim, os resultados obtidos na pesquisa confirmam a necessidade de uma ação ativa do Governo brasileiro em termos de política cambial, de maneira a viabilizar (manter) os mesmos níveis de emprego, produção e exportações, consolidados ao longo das últimas décadas. Nesse sentido, as reclamações do setor exportador de calçados do RS quanto à valorização do câmbio, à perda de capacidade competitiva e ao conseqüente agravamento das taxas de desemprego nas regiões onde são desenvolvidas essas atividades podem ser fundamentadas a partir dos resultados obtidos neste estudo. Apêndice Para a estimação do modelo e dos respectivos testes, foi utilizado o software econométrico EViews (QMS, 2002). Teste de estabilidade Para a hipótese zero (H0), o período I é igual ao período II, e, para a hipótese um (H1), o período I é diferente do período II. F = ( SQEr – SQEir ) / K + 1 = ( 0,668557 – ( 0,263326 + 0,353358 ) / 2 + 1 = 0,01729 SQEir / (n1 + n2 –2K –2) ( 0,263326 + 0,353358) / ( 31 + 32 – 2 * 2 – 2) 0,01082 Fcalculado = 1,59797 Ftabelado = 2,76 ( K + 1; n1 + n2 – 2K – 2) Dado que o Fcalculado é menor que o Ftabelado, em nível de 5% de significância, aceita-se H0, ou seja, as regressões são iguais, podendo-se concluir que os coeficientes estimados são constantes ao longo do tempo, comprovando o teste de Chow do Quadro A.1. Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 877-894, 2008 887 As exportações de calçados do Rio Grande do Sul: uma avaliação... Quadro A.1 Teste de estabilidade dos coeficientes de Chow VARIÁVEIS F-STATISTIC P-VALOR 0,661284 0,579275 LogEXP LogCAMB LogPM Quadro A.2 Teste de estabilidade dos coeficientes PERÍODOS I VARIÁVEIS COEFICIENTE P-VALOR C 0,668122 0,0000 LogCAMBR$ 0,119703 0,0000 LogPVUS$ 0,255813 0,0000 Soma dos quadrados dos 0,263326 resíduos II Soma dos quadrados dos resíduos C 0,808559 0,0000 LogCAMBR$ 0,265335 0,0014 LogPVUS$ 0,209928 0,0045 0,353358 Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 877-894, 2008 888 Eduardo Barbosa; Augusto Mussi Alvim Teste da homoscedasticidade dos erros Através da análise do comportamento dos resíduos, não se pode constatar se há heteroscedasticidade dos erros. Para se ter certeza, devem-se efetuar outros testes. Como os coeficientes das variáveis explicativas não se mostraram significativos segundo os testes t e F, pode-se concluir que os erros são homoscedásticos. A partir disso, calcula-se a seguinte razão: λ = SQR2 / gl SQR1 / gl onde gl = n - c - 2k e n = número de variáveis; c = observações centrais; 2 k = número de parâmetros a serem estimados. λ = 0,348538 / {(63 - 11 - 2 x 3)/2} = 0,01515 = 2,3539 0,148063 / {(63 - 11 - 2 x 3)/2} 0,00644 O valor Fcrítico para 23gl no numerador e no denominador, em nível de 1% de significância, é de 2,66, e o Fcalculado ( λ ) é menor. Pode-se concluir que não há heteroscedasticidade na variância do erro, comprovando o teste de White do Quadro A.3. Quadro A.3 Teste de heteroscedasticidade de W hite F-ESTATÍSTICO 1.068305 P-VALOR 0.380490 Variáveis Coeficientes t-Estatístico P-Valor C -0,059282 -0,057105 0,9547 LogCAMB 0,058464 0,711918 0,4794 LogCAMB^2 -0,023802 -0,534200 0,5952 LogPM 0,019175 0,025613 0,9797 LogPM^2 -0,002093 -0,015542 0,9877 Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 877-894, 2008 889 As exportações de calçados do Rio Grande do Sul: uma avaliação... Quadro A.4 Teste de Goldfeld-Quandt PERÍODO I VARIÁVEIS COEFICIENTES t-ESTATÍSTICO C 15,944760 26,573350 0,0000 LogCAMB 0,917310 7,394160 0,0000 LogPM 0,970829 4,337503 0,0002 Soma dos quadrados dos resíduos II Soma dos quadrados dos resíduos P-VALOR -1,954402 C 16,717880 17,967080 0,0000 LogCAMB 0,922824 2,852635 0,0090 LogPM 0,649620 2,601074 0,0160 0,348538 Teste da hipótese de inexistência de autocorrelação dos erros Utiliza-se o teste de Durbin Watson para verificar o problema de autocorrelação do modelo, a um nível de significância de 5%: DWcalculado = 1,734381 DWinf = 1,503 e DWsup = 1,696 Como o valor calculado é maior que 1.696 (DWsup), pode-se concluir que não há indício de correlação serial positiva de primeira ordem. É possível comprovar a inexistência de autocorrelação dos dados, através do teste de LM demonstrado no Quadro A.5, onde nenhum dos coeficientes se mostrou significativo, rejeitando a hipótese de autocorrelação dos erros. Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 877-894, 2008 890 Eduardo Barbosa; Augusto Mussi Alvim Quadro A.5 Teste LM para autocorrelação F-ESTATÍSTICO 1,054017 P-VALOR 0,308775 Variáveis Coeficientes t-Estatístico P-Valor C -0,038012 -0,112751 0,9106 LogCAMB -0,003599 -0,054966 0,9564 LogPM 0,014934 0,118094 0,9064 RESID(-1) 0,133464 1,026653 0,3088 Teste da hipótese de inexistência de multicolinearidade entre as variáveis explicativas, através da análise da sensibilidade dos parâmetros, a partir da inclusão ou da retirada de observações Quadro A.6 Regressão das exportações de calçados em reais e do câmbio em reais, sem a variável preço de venda em dólares, no RS VARIÁVEIS COEFICIENTES t-ESTATÍSTICO C 18,630540 261,68820 0,0000 LogCAMB 0,837441 11,36478 0,0000 Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 877-894, 2008 P-VALOR 891 As exportações de calçados do Rio Grande do Sul: uma avaliação... Quadro A.7 Regressão das exportações de calçados em reais e do preço de venda em dólares, sem a variável câmbio em reais, no RS VARIÁVEIS COEFICIENTES t-ESTATÍSTICO P-VALOR C 16,522520 28,253890 0,0000 LogPM 1,046397 4,958305 0,0000 Pode-se verificar, na primeira regressão, que o parâmetro câmbio em reais e o intercepto apresentaram uma pequena sensibilidade à retirada da variável preço de venda em dólares, mas, na segunda regressão, o parâmetro preço de venda apresentou uma maior sensibilidade à retirada do parâmetro câmbio em dólares. Já o intercepto mostrou-se quase igual, o que remete a uma regressão auxiliar. Quadro A.8 Regressão das exportações de calçados em reais, do câmbio em reais e do preço de venda em dólares, no RS VARIÁVEIS COEFICIENTES t-ESTATÍSTICO P-VALOR C 16,988000 50,673040 0,0000 LogCAMB 0,741270 11,332960 0,0000 LogPM 0,625970 4,980927 0,0000 R2 0,773055 Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 877-894, 2008 892 Eduardo Barbosa; Augusto Mussi Alvim Quadro A.9 Regressão do câmbio em reais e do preço de venda de calçados em dólares, no RS VARIÁVEIS COEFICIENTES C -0,627946 -0,964137 0,3388 LogPM 0,567171 2,413045 0,0188 R2 t-ESTATÍSTICO P-VALOR 0,087138 Conforme a regra de Klein, a multicolinearidade não se apresenta como um problema incômodo, pois o R² obtido da regressão global é maior (0,773) que o da segunda regressão (0,087), mas, para maior tranqüilidade, calcula-se o R²i = R²X1.X2 / (k - 2) (1 - R²X1.X2) / (n - k - 1) onde n indica o tamanho da amostra; k representa o número de variáveis explicativas, incluindo o intercepto; e R²X1.X2 é o coeficiente de determinação na regressão de X1 sobre X2. R²i = 0,087138 / 3 - 2 = 5,91826 1 - 0,087138 / 63 - 3 + 1 Onde Ftabelado = k -2 e n - k + 1 gl = 7,08 a 1% de significância. Como Fcalculado é menor que Ftabelado em nível de significância de 1%, pode-se presumir que não existe multicolinearidade, mantendo-se, então, as variáveis no modelo, o que também se pode constatar através do fator que inflaciona a variância (FIV), através do cálculo: FIV = 1 / (1 - R²) = 1 / (1 - 0,087138) = 1,095, que não excede a 10. A variável, portanto, não é altamente colinear. Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 877-894, 2008 As exportações de calçados do Rio Grande do Sul: uma avaliação... 893 Referências ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DAS INDÚSTRIAS DE CALÇADOS — ABICALÇADOS. Resenha Estatística 2004. Disponível em: <http://www.abicalcados.com.br>. Acesso em: jul. 2005. BRASIL. Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. Aliceweb: séries temporais. Disponível em: <http://www.aliceweb.desenvolvimento.gov.br>. 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Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 877-894, 2008 894 Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 877-894, 2008 Eduardo Barbosa; Augusto Mussi Alvim Aspectos econômicos do impacto da Lei de Incentivo à Cultura (LIC-RS)... 895 Aspectos econômicos do impacto da Lei de Incentivo à Cultura (LIC-RS) na indústria cinematográfica gaúcha* Mauro Salvo** Doutorando em Economia pela UFRGS e Analista do Banco Central do Brasil Resumo Este trabalho avalia o impacto da Lei de Incentivo à Cultura (LIC) na produção de filmes de longa-metragem, no Rio Grande do Sul. O objetivo é identificar falhas e sugerir alternativas do ponto de vista econômico, para que a produção cinematográfica viabilizada pela LIC resulte em benefícios sociais. Palavras-chave Incentivo; produção cinematográfica; demanda por longas-metragens. Abstract This paper evaluate the impact of the LIC in the Rio Grande do Sul’s movies production. The target is to identify imperfections and suggest alternatives by economic point of view so that movies production supported by LIC result in social benefits. Key words Incentive; movies production; demand for movies. Classificação JEL: D24, H2, Z1. * Artigo recebido em abr. 2007 e aceito para publicação em ago. 2007. ** E-mail: [email protected] Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 895-916, 2008 896 Mauro Salvo 1 Introdução O objetivo deste trabalho é identificar e dimensionar as repercussões socioeconômicas dos investimentos realizados no Rio Grande do Sul ao amparo da Lei de Incentivo à Cultura (LIC) (RS, 1996) e também as relações custo/ /benefício desses investimentos, com reflexos no mercado de trabalho, na renda e no desenvolvimento regional, mais especificamente na produção, na distribuição e na exibição de longas-metragens gaúchos. A pesquisa sobre Economia da Cultura ainda é inicial no Brasil e em vários outros países. Temos aqui diversos textos publicados, que, embora versem sobre o tema, carecem de dados quantitativos. Pesquisadores norte-americanos, mesmo num estágio mais avançado do que o nosso, também reclamam da falta de dados estatísticos. A formação de estatísticas nessa área é de vital importância para a continuidade da pesquisa, assim como para a formulação de políticas públicas, para uma melhor alocação dos recursos e para o aperfeiçoamento da legislação e/ou regulação do setor. Com o objetivo de focar o objeto de estudo, resolvemos, neste artigo, limitar a análise à produção cinematográfica gaúcha no período de 1996 a 2004. Será considerada produção gaúcha aquela que teve proposta aprovada para captação via LIC estadual, que está em vigor desde agosto de 1996. A pesquisa evidencia os dados numéricos disponíveis que possam ter algum impacto econômico, restringindo as críticas e sugestões à execução de políticas públicas, isentando os agentes privados envolvidos. Cabe destacarmos que, em nenhum momento, há qualquer tipo de juízo quanto à qualidade da produção do ponto de vista artístico. Buscamos agrupar os dados numéricos, conseguidos de diversas fontes, de forma a facilitar a análise quanto à alocação de recursos. Por estar focada nas políticas públicas e, conseqüentemente, na utilização de recursos públicos, a análise objetiva o incremento no bem-estar social, ou seja, que haja ganhos econômicos e/ou sociais, direta ou indiretamente, para o maior número possível de pessoas. Com o intuito de aprimorar o mecanismo de intervenção estatal através de leis de incentivo, trabalhamos com as seguintes hipóteses: (a) a LIC incrementa somente o lado da oferta; (b) não há intervenção no sentido de resolver gargalos na cadeia produtiva do setor cinematográfico. O trabalho começa com uma explicação sucinta sobre o funcionamento dos mercados cinematográficos nacional e gaúcho, sua lógica econômica e seus problemas. Dentro dessa mesma seção, explanaremos, em suas subseções, sobre o comportamento e a evolução da oferta e da demanda de filmes nacionais e gaúchos, sempre ressaltando a importância da LIC estadual. A seção seguinte Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 895-916, 2008 Aspectos econômicos do impacto da Lei de Incentivo à Cultura (LIC-RS)... 897 destaca uma série de sugestões para melhorar a pesquisa, as políticas para a área cultural e as alterações das leis de incentivo. A seção posterior foca o impacto da LIC-RS sobre a produção cinematográfica gaúcha, e, finalmente, a seção conclusiva verifica se as hipóteses levantadas são verdadeiras, ou não. 2 O mercado cinematográfico gaúcho O mercado cinematográfico, em sua cadeia produtiva, abrange três segmentos interdependentes, porém assimétricos. São eles: a produção, a distribuição e a exibição1. Há interação entre os três mercados, porque, para que haja exibição, deve haver produção e distribuição; para que haja distribuição, faz-se necessária a produção e a exibição; e, para que haja produção, em tese, deve haver distribuição e exibição. A assimetria entre os mercados ocorre, porque a oferta e a demanda não são exatamente as mesmas. Os exibidores têm uma demanda por filmes, mas esta depende do que seus fornecedores — os distribuidores — oferecem. Os distribuidores são demandados pelos exibidores, porém dependem do que foi produzido para poder ofertar. Num mercado normal, os seus agentes buscam a otimização de seus ganhos, restringidos pelas forças de oferta e demanda, ou seja, minimizam seus custos e maximizam suas receitas, a fim de maximizarem seu lucro. Essa lógica funciona para os exibidores, que procuram exibir os filmes de maior público, independentemente de serem nacionais ou estrangeiros, pois, assim, maximizam suas receitas. Também funciona para os distribuidores, que buscam distribuir filmes que atraiam maior público, pois sua receita depende de participação na renda da bilheteria. No entanto, essa mesma lógica não funciona no caso dos produtores. Se, nesse mercado, as decisões sobre o que, quanto e para quem produzir fossem baseadas exclusivamente nas forças de oferta e demanda, toda produção teria como objetivo final a exibição e, conseqüentemente, visaria atingir o maior público possível. Porém o produtor tem seu ganho maior auferido da remuneração de seu trabalho, conforme informado no projeto que enviou para obter os benefícios da LIC. Ele não depende nem de distribuir, nem de exibir seu filme para obter ganho. Obviamente, se seu filme for exibido, é melhor e, se tiver bom público, melhor ainda, pois também terá uma parcela da bilheteria. 1 A exibição inclui, além do cinema, as fitas para vídeocassete e DVD. Neste trabalho, analisaremos somente os dados quanto à exibição em cinemas. Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 895-916, 2008 898 Mauro Salvo Outro modo de se analisar a assimetria, é observar que os produtores ofertam bens diferentes, que são substitutos entre si, ou seja, concorrem em menor ou maior grau. O filme brasileiro concorre com o estrangeiro, este, por sua vez, também não é um produto único. Ou seja, um filme francês é estrangeiro, assim como um iraquiano, e, embora concorrentes, não são substitutos perfeitos. Isso significa que se defrontarão com uma parcela do público mais resistente em trocar um pelo outro. O comentário acima implica que um aumento da demanda por cinema (aumento do público) não significa, necessariamente, um aumento proporcional da demanda para todo o tipo de filmes. O Gráfico 1 evidencia que, embora tenha havido, nos últimos anos, aumento do público de cinema em geral, o público de filmes estrangeiros cresceu mais que proporcionalmente ao do cinema nacional. Essa é uma evidência da escassez de demanda por produções nacionais. Gráfico 1 Evolução do público de cinema em geral e de filmes nacionais — 2000-04 Pessoas 140 000 120 000 100 000 80 000 60 000 40 000 20 000 0 2000 Legenda: 2001 Público em geral 2002 2003 2004 Público de filmes nacionais FONTE: FILME B. Database Brasil. [Rio de Janeiro], 2004. CD-ROM. Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 895-916, 2008 Aspectos econômicos do impacto da Lei de Incentivo à Cultura (LIC-RS)... 899 Devemos observar, também, que há intervenção estatal, em maior ou menor grau, em todo o mundo, o que pode gerar desequilíbrios tanto na oferta quanto na demanda. Por exemplo, um governo pode restringir a exibição de filmes estrangeiros em seu país, através da imposição de cotas e/ou de censura, reduzindo sua oferta, assim como pode fomentar a oferta de filmes nacionais, através de leis de incentivo e/ou de subsídios. Esses tipos de intervenção, muito comuns, afetam a estratégia dos exibidores e das distribuidoras, freqüentemente multinacionais com estratégias globais. Isso implica que, em mercados altamente interligados, gerar assimetria em um deles pode contaminar os demais. Matéria assinada por Ana Paula Galdini (2002), publicada no sítio www.cinemando.com.br, mostra que o filme brasileiro sofre com a distribuição, que, na maioria das vezes, não recebe o investimento necessário para se lançar nacionalmente. A distribuição fraca é apontada como grande responsável pelo baixo rendimento dos filmes. Isso contribui para que a renda dos filmes não consiga pagar o valor de investimento da produção. 2.1 Oferta De acordo com Ana Paula Galdini (2002), em matéria já citada, não há motivos para duvidar de que o cinema brasileiro esteja renascendo após os anos Collor. Esse crescimento deve-se, principalmente, ao surgimento da Lei do Audiovisual e da Lei de Incentivo à Cultura, regulamentadas em 1994, no Governo FHC (Gráfico 2). Pela análise do Gráfico 2, podemos concluir que houve, após a entrada em vigor da LIC, um rápido crescimento da importância dos seus recursos para o incremento da atividade cultural no Rio Grande do Sul. No início do período 1997-04, o orçamento da Secretaria de Estado da Cultura (Sedac) representava 65% dos recursos destinados à cultura no Estado, já ao final, constata-se a inversão nessa participação, sendo 66% provenientes da LIC contra 34% do orçamento. Outra constatação relevante é que os recursos do orçamento para a cultura, embora tenham sido oscilantes no período, apresentam tendência declinante. Por outro lado, os recursos provenientes da LIC têm tendência de alta, tanto para projetos aprovados como para valores captados. A variação do orçamento foi negativa, ou seja, declinou 21% (1996-04), enquanto os valores captados pela LIC tiveram incremento de 216% (1997-04) — Gráfico 3. Os Gráficos 4, 5 e 6 mostram a evolução do número e dos valores de projetos aprovados de cinema e vídeo para captação pela LIC-RS, desde seu início, em 1996, até o final de 2004. Podemos observar uma tendência de Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 895-916, 2008 900 Mauro Salvo crescimento tanto no número de projetos como no valor total aprovado. Destacamos o pico ocorrido em 2001. Também podemos notar a constância no valor médio dos projetos. Gráfico 2 Investimento na produção audiovisual do Brasil — 1995-04 (R$ 1 000) 140 000 120 000 100 000 80 000 60 000 40 000 20 000 0 1995 1996 1997 Legenda: 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 Total do incentivo fiscal Lei audivisual, art. 1º Lei audiovisual, art. 3º Lei Rouanet Orçamento da União Orçamento mais incentivo fiscal FONTE: FILME B. Database Brasil. [Rio de Janeiro], 2004. CD-ROM. Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 895-916, 2008 Aspectos econômicos do impacto da Lei de Incentivo à Cultura (LIC-RS)... 901 Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 895-916, 2008 902 Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 895-916, 2008 Mauro Salvo 903 Aspectos econômicos do impacto da Lei de Incentivo à Cultura (LIC-RS)... Analisando as informações do Gráfico 7, concluímos que a implantação da LIC-RS impactou de forma positiva a produção de longas-metragens no Rio Grande do Sul. Comparando seus nove anos de existência com o mesmo período anterior, observamos que a oferta de filmes evoluiu de quatro produções para 12; um incremento de 200%. A média de produções, que, no período 1987-95, foi de 0,44 ao ano, saltou, no período seguinte, 1996-04, para 1,33 ao ano. Cabe ressaltar que, desses 12 filmes, somente nove captaram pela LIC-RS, o que ajustaria a média de produção para um filme por ano, e o incremento do período para 125%. Mesmo assim, são números expressivos. Gráfico 7 Número de longas-metragens produzidos através da LIC-RS — 1987-04 4,5 4 3,5 3 2,5 2 1,5 1 0,5 2004 2003 2002 2001 2000 1999 1998 1997 1996 1995 1994 1993 1992 1991 1990 1989 1988 1987 0 FONTE: Fundacine. NOTA: Em 1988, O Mentiroso; em 1990, Nostalgia; em 1994, Rocky e Hudson; em 1997, Anahy de las Missiones e Lua de Outubro; em 2000, Harmonia e Tolerância; em 2001, Netto Perde Sua Alma; em 2002, Houve uma vez Dois Verões e a Festa de Margarete (produção Filmik com recursos próprios); em 2003, O Homem que Copiava; em 2004, Meu Tio Matou um Cara (Lei do Audiovisual), Concerto Campestre, Noite de São João e O Cárcere e a Rua (documentário). Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 895-916, 2008 904 Mauro Salvo Quando finalizada, a produção nacional passa por mais um drama, que consiste em conseguir espaço nas salas de exibição. O Brasil possui apenas 1.997 salas de exibição. Segundo o Sindicato das Empresas Distribuidoras Cinematográficas do Município do Rio de Janeiro (SEDCMRJ), de 66 longas brasileiros com exibição cadastrada entre novembro de 2000 e outubro de 2001, a metade havia sido finalizada em 1998 ou 1999. Enquanto isso, dos 84 longas-metragens finalizados nos dois últimos anos, 32 ainda não foram lançados, porque não encontraram salas para exibição. Mesmo com poucas produções, o filme brasileiro não tem mercado suficiente para ser mostrado. É comum filmes brasileiros estarem fazendo boa bilheteria, mas os exibidores os tiram de cartaz por terem o compromisso de lançar um filme de uma determinada distribuidora. Outro problema que os exibidores enfrentam é que, muitas vezes, há procura por produções nacionais, mas não conseguem cópias com as distribuidoras da maioria dos títulos. Anualmente, as salas faturam R$ 400 milhões, e, dentro dessa estatística, o cinema nacional fica com uma minúscula fatia, que corresponde a apenas 10% desse faturamento, ocupando 7% das salas de exibição. Em relação à média nacional, o Rio Grande do Sul apresenta uma situação ligeiramente melhor. Relativamente, há mais salas por habitantes. Com 5,9% da população brasileira, o Rio Grande do Sul possui 7,8% das salas de exibição, o que representa uma média de habitantes por sala 30% inferior à média brasileira. Porém esses números escondem outra situação problemática para todo o Brasil, aqui exemplificada pelo caso de Porto Alegre, que, com 13% da população gaúcha, reúne 40% das salas de exibição. Isso reflete a concentração das salas de exibição em grandes centros urbanos (Tabela 1). Tabela 1 População, número de salas de exibição e habitantes por sala no Brasil e no Rio Grande do Sul — 2004 DISCRIMINAÇÃO POPULAÇÃO SALAS DE EXIBIÇÃO HABITANTES POR SALA DE EXIBIÇÃO Brasil .................... Rio Grande do Sul 181 581 024 10 726 063 1 997 155 90 927 69 200 FONTE: FILME B. Database BRASIL. [Rio de Janeiro], 2004. CD-ROM. Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 895-916, 2008 Aspectos econômicos do impacto da Lei de Incentivo à Cultura (LIC-RS)... 905 2.2 Demanda Como este trabalho versa sobre os aspectos econômicos da produção cinematográfica, devemos considerar que, em economia, toda a oferta tem como objetivo atender à demanda. Aliás, somente há oferta, quando há demanda, ou seja, nenhum produtor objetiva produzir para formar estoque por tempo extremamente longo ou, até mesmo, para sempre. No caso em questão, considera-se demanda o público consumidor que vai espontaneamente aos cinemas e paga pelo seu ingresso. Devido às características do mercado cinematográfico, essa lógica fica prejudicada, pois o caminho entre a produção e o consumidor final passa por vários intermediários, cada qual com uma racionalidade diferente, a fim de maximizar seu próprio ganho. No Brasil, o público de cinema vem crescendo a cada ano, principalmente após a chegada do multiplex (segundo definição da empresa Filme B, trata-se de conjuntos com seis a 12 salas e entrada pelo mesmo hall) e da retomada do cinema brasileiro. De 2003 a 2004, o público geral de cinema, no Brasil, cresceu 11% e, nos últimos cinco anos, teve crescimento de 58%. Já o público do cinema nacional também apresenta tendência de crescimento, porém com irregularidade. Como pudemos notar no Gráfico 1, após um pico em 2003, registrou queda, em 2004, em torno de 25%, mas, mesmo assim, o público foi 125% maior do que o registrado em 2002. Essa grande irregularidade do filme brasileiro em seu mercado acontece porque sua política institucional, nestes últimos anos, está concentrada em incentivos fiscais para o setor de produção, sem nenhum investimento ou planejamento na área de distribuição. O Gráfico 8 abaixo mostra a expressiva expansão do público para filmes nacionais, evidenciando aquilo que convencionamos chamar de cinema da retomada, iniciada em 1994, com a regulamentação das leis de incentivo. Com base no Gráfico 8, notamos que tanto o público geral como o nacional cresceram nos últimos anos. No entanto, cabe ressaltarmos que o público nacional cresceu em ritmo mais lento. Devemos observar, também, que a participação do público nacional é de apenas 14,3% do total. Levando-se em conta o número de lançamentos, a produção nacional correspondeu, em 2004, a 51 filmes, ou 17% do total, enquanto a estrangeira correspondeu a 251 filmes ou 83%. Por esses números, podemos pensar que a relação não é tão desfavorável como se diz, porém, devemos ponderar que poucas produções nacionais atraem grandes públicos, tendo peso expressivo, nessas estatísticas, produções protagonizadas por Xuxa e Renato Aragão, tidas como mais comerciais. Outras produções, do tipo Carandiru e Cazuza, que conseguiram atrair público acima de um milhão de Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 895-916, 2008 906 Mauro Salvo expectadores, constituem exceções. Das produções que captaram pela LIC-RS, o maior público, até o final de 2004, foi o do filme O Homem que Copiava, com 664.651 expectadores. Gráfico 8 Evolução do público de cinema nacional no Brasil — 1992-04 Pessoas 25 000 000 20 000 000 15 000 000 10 000 000 5 000 000 04 20 02 03 20 20 01 20 00 20 99 19 98 19 97 19 95 96 19 19 94 19 93 19 19 92 0 FONTE: FILME B. Database Brasil. [Rio de Janeiro], 2004. CD-ROM. Na Tabela 2, notamos que mais de 80% das produções têm público inferior a 300.000 expectadores, o que praticamente inviabiliza a maior parte das produções, tornando-as dependentes das leis de incentivo, dado o alto custo de produção, lançamento, divulgação e distribuição. Embora o público venha aumentando, fica evidente a falta de demanda capaz de viabilizar a maior parte das produções nacionais. Essa escassez de demanda tem origem em vários fatores; dentre eles, podemos citar a má fama do cinema nacional, apontado por muitos como de má qualidade (muitos ainda não assistiram nenhum filme da retomada para atestar melhorias substanciais), e a falta de familiaridade com a linguagem do cinema não hollywoodiano, etc. Algumas iniciativas já foram e estão sendo tomadas para amenizar o problema. O Presidente Fernando Henrique Cardoso, baseado em uma lei fixada em 1992, assinou um decreto que obriga os cinemas brasileiros a exibirem uma cota anual de filmes nacionais. O maior questionamento dos exibidores, no entanto, está justamente relacionado ao número de produções com atrativo suficiente para levar o público aos cinemas. Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 895-916, 2008 907 Aspectos econômicos do impacto da Lei de Incentivo à Cultura (LIC-RS)... Tabela 2 Concentração de público segundo o total de títulos de filmes — 2004 FAIXA DE PÚBLICO (1 000 ingressos) TOTAL DE TÍTULOS < 100 .................................. 101 a 300 ........................... 38 4 75 7 301 a 500 ........................... 1 2 501 a 800 ........................... - 0 801 a 1 000 ........................ 3 6 1 001 a 2 000 ..................... 1 2 2 001 a 3 000 ..................... 2 4 % DO TOTAL 3 001 a 4 000 ..................... 2 4 > 4 000 ............................... 0 FONTE: FILME B. Database BRASIL. [Rio de Janeiro], 2004. CD-ROM. Há também outras iniciativas por parte do poder público ou de empresas privadas, sempre com o objetivo de viabilizar o acesso da população e de criar espaços alternativos de exibição. Podemos citar exemplos como o projeto da rede Cinemark de exibir apenas filmes brasileiros em todas as suas salas, pelo preço promocional de R$ 1,00, para comemorar o Dia do Cinema Nacional. O próprio Cinemark ainda tem o projeto Escola, que promove sessões de filmes brasileiros a preços promocionais, agendados especialmente para escolas. Os filmes são selecionados de acordo com temas que possam ser posteriormente discutidos em sala de aula. A Petrobrás, através do projeto Cinema BR em Movimento, leva filmes gratuitamente às universidades. Após as sessões, são realizados debates, com o objetivo de ressaltar o valor cultural das produções e de contribuir para a formação de platéias do cinema nacional. O projeto também realiza sessões em comunidades, como escolas, igrejas e presídios. No Rio Grande do Sul, tem-se o projeto Rodacine, com objetivo semelhante. Com base na Tabela 3, podemos dimensionar os mercados cinematográficos gaúcho e porto-alegrense no Brasil. Começando pelos números socioeconômicos (ano-base 2002), constatamos que o Rio Grande do Sul responde por 7,76% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, e Porto Alegre, por 0,81%. A população gaúcha representa 5,89% dos brasileiros, e os porto-alegrenses, 0,78%. O PIB per capita dos gaúchos é de R$ 10.000,00 ao ano, enquanto o dos Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 895-916, 2008 908 Mauro Salvo porto-alegrenses é de R$ 7,8 mil. Os dados sobre cinema mostram que tanto o Rio Grande do Sul quanto Porto Alegre estão acima da média nacional no quesito número de habitantes por sala de exibição. Enquanto a média brasileira é de 90.924 habitantes por sala, o Rio Grande do Sul tem 69.200, e Porto Alegre, 21.790, o que evidencia o grande número de salas de exibição no Estado em relação ao restante do País. Para 5,89% da população brasileira, o Rio Grande do Sul tem 7,76% das salas do Brasil. Nessa relação, Porto Alegre destaca-se ainda mais, pois, com 0,78% da população nacional, tem 3,25% das salas do País. Tabela 3 Dados comparativos dos mercados cinematográficos do Brasil, do Rio Grande do Sul e de Porto Alegre — 2002 e 2004 DISCRIMINAÇÃO BRASIL PIB (R$ 1 000) ....... PIB per capita (R$ 1 000) .................... População (1 000 pessoas) ................ Público de cinema (1 000 pessoas) ..... Market share (%) ... Salas de cinema .... Habitante por sala (1 000 pessoas)...... Renda total (R$ 1 000) .................... Ingressos per capita (R$) ................. 1 346 028 7,6 176 391 114 733 1 997 90,9 766 939 0,6 % DO RIO GRANDE RS NO DO SUL BRASIL 104 451 10,0 10 398 7,76 - PORTO ALEGRE % DE PORTO ALEGRE NO BRASIL 10 876 0,81 7,8 - 5,89 1 383 0,78 6 935 6,3 155 6,04 7,76 3 897 3,6 65 3,40 3,25 69,2 - 21,8 - 46 326 0,6 6,04 - 23 780 2,75 3,10 - FONTE DOS DADOS BRUTOS: IBGE. FONTE DOS DADOS BRUTOS: FEE. FONTE DOS DADOS BR FILME B.Database Brasil.[Rio de Janeiro], 2004. FONTE DOS DADOS BRUTOS: CD-ROM. NOTA: 1. Dados econômicos referentes ao ano-base de 2002. NOTA: 2. Dados do cinema referentes ao ano-base de 2004. Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 895-916, 2008 Aspectos econômicos do impacto da Lei de Incentivo à Cultura (LIC-RS)... 909 Esses dados mostram que a renda não explica totalmente a demanda por cinema. No caso do Rio Grande do Sul, com 7,76% da renda nacional (PIB), este participa somente com 6,04% da renda do cinema no Brasil, enquanto Porto Alegre, com 0,81% do PIB, responde por 3,10% da mesma, embora com renda per capita inferior à do Estado (R$ 7,8 mil para a Capital contra R$ 10.000,00 para todo o Estado). No entanto, uma outra variável pode ajudar a explicar esse comportamento da demanda por cinema no Brasil: a taxa de analfabetismo. O Brasil tem taxa de 10,9% de analfabetos; o Rio Grande do Sul, de 5,8%; e Porto Alegre, de 3,5%. Esse é um indicativo de que uma política direcionada, via educação, pode ser mais eficiente no objetivo de formar público para o cinema. Infelizmente, não foi possível desmembrar a renda total do cinema no Brasil, entre cinema geral e cinema nacional, para os estados e os municípios. Assim, poderíamos identificar quais são os estados e os municípios que assistem mais ao cinema brasileiro e tentar inferir o porquê. Sabemos que o cinema nacional representa apenas 14,3% do mercado cinematográfico, com renda de R$ 110 milhões, mas não sabemos como está distribuído entre estados e municípios. A análise e os exemplos acima deixam clara a necessidade do poder público de atuar também do lado da demanda por filmes nacionais, que estão encalhados no gargalo de distribuição e exibição. Em artigo publicado na revista eletrônica Ciberlegenda, Ronaldo Rosas Reis (2003) comenta: Nesse sentido, percebo que o debate em torno da questão da presença social do cinema brasileiro deve ser abordado igualmente à luz de uma economia política que leve em conta a necessidade urgente de formação de platéias como um movimento a ser realizado de forma sistemática e intencional na escola, nos movimentos sociais, nos sindicatos (Reis, 2003). 3 Sugestões Esta sessão tem o objetivo de levantar sugestões para aprimorar as políticas públicas para o setor, bem como incentivar o debate sobre o tema. Ela se divide em dois eixos: sugestões para a pesquisa e sugestões para políticas públicas. Obviamente, trata-se de uma contribuição, estando longe de se constituir numa lista exaustiva e definitiva de propostas. O novo campo de pesquisa que começa a ser explorado no Brasil sobre Economia da cultura é enorme. Este trabalho constitui uma pequena amostra e, mesmo assim, já permite vislumbrar uma infinidade de temas, aspectos e abordagens que poderiam ensejar pesquisas mais profundas. Muitos desses Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 895-916, 2008 910 Mauro Salvo temas, embora citados, não puderam ser esmiuçados no corpo deste texto, para não fugir do assunto central. Podemos citar como pesquisas importantes: - aspectos trabalhistas da Economia da Cultura; - formular um modelo de equilíbrio parcial para mercados culturais; - calcular o efeito multiplicador dos investimentos em cultura; - elaborar estudo sobre os custos das produções culturais; - identificar quem, quantos são e onde estão os fornecedores para saber quanto da LIC-RS é gasta no Estado; - analisar o que leva as empresas a investirem em cultura, dentre outras. No entanto, para que esses estudos sejam realizados, será necessário que o poder público — leia-se principalmente a Sedac-RS — construa e disponibilize estatísticas. Isto porque um pesquisador isolado enfrenta dificuldades para acessar informações, como, por exemplo, neste trabalho, quando tentamos reunir dados sobre como foram destinados os recursos captados pela LIC. Os dados existem, pois, pela LIC, há a obrigação, por parte daqueles que captaram através da Lei, de preencher uma planilha bem detalhada com tais informações. Esses números poderiam ser mais bem trabalhados e seriam muito úteis para o aprimoramento da política cultural do Estado. Outra forma de se conseguirem estatísticas poderia ser através de um censo declaratório respondido por todos os agentes culturais que tenham se beneficiado da LIC. Também poderia ser feito uso de enquetes e/ou de pesquisas de opinião, ou de perfil, para se conhecer melhor a demanda. Sindicatos e outras organizações afins também poderiam auxiliar, alimentando um banco de dados gerido pela Sedac. Os recursos de informática para tal fim são simples e baratos, não sendo necessários grandes aportes estruturais e de mão-de-obra. Tentar incluir o item cultura na Matriz de Insumo-Produto do Estado, elaborada pela Fundação de Economia e Estatística (FEE), seria um grande avanço, mas reconhecemos as limitações técnicas para fazê-lo. Tendo em vista que um dos grandes problemas do cinema nacional está na distribuição e na exibição, caberia ao poder público destinar parte dos recursos com vistas a desfazer esses gargalos. Algumas alternativas seriam destinar mais verbas para divulgação e lançamento e menos para a produção, promover mais festivais, ampliar a exibição de tais produções em TVs estatais. A formação de público para o cinema nacional é fundamental, visto que grande parte de todo o problema reside na falta de demanda. Portanto, uma política cultural associada a uma política educacional é vital para tal objetivo. Poderiam ser promovidas alterações na LIC, no sentido de criar uma mentalidade empreendedora nos produtores culturais, ou seja, instituir um pouco de risco na atividade, assim como transformar a LIC num instrumento de política Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 895-916, 2008 Aspectos econômicos do impacto da Lei de Incentivo à Cultura (LIC-RS)... 911 cultural de longo prazo, para que a realização de um longa-metragem deixe de ser um evento isolado e se transforme em uma indústria permanente. A LIC deveria estar inserida dentro de uma política de longo prazo para a área cultural que visasse transformá-la em atividade econômica, geradora de renda. Caso esse não seja o objetivo da política cultural, pode-se desconsiderar tudo que foi escrito neste trabalho, pois se trata da premissa principal. Uma sugestão é transformar a LIC, ou dotá-la, em parte, de um caráter de financiamento e/ou empréstimo para produção, ou seja, a LIC anteciparia os recursos, que seriam reembolsados ao erário com a renda da bilheteria. Uma grande contribuição que poderia ser acrescentada à LIC é direcioná-la para o incremento da demanda. Sem demanda pelo cinema nacional, a produção audiovisual, bancada em sua quase-totalidade por recursos públicos, é apenas transferência de renda de outros setores, pois, se ela não gera renda para subsistir, necessariamente estará drenando renda das atividades rentáveis. Associada à questão acima, seria recomendável uma articulação de políticas culturais, entre a União, os estados e os municípios, no sentido de melhorar a distribuição e de aumentar a exibição, reduzindo a dependência de distribuidores multinacionais. Um assunto pouco agradável, mas que deve ser levantado, é a necessidade de auditoria na prestação de contas da LIC. Se necessário, deve-se, inclusive, alterar a legislação em vigor. O objetivo seria buscar o melhor uso dos recursos públicos, o cumprimento dos prazos legais e certificar-se de que está tendo o destino para o qual foi aprovado. Também se poderiam incluir na legislação (lei ou resoluções) dispositivos que visassem reduzir os custos. Em síntese, essas mudanças levam em conta o objetivo de se transformar a produção cinematográfica em uma nova atividade econômica. Obviamente, elas devem ser implementadas gradativamente, dentro de uma perspectiva de longo prazo, para não se repetir o equívoco do Governo Collor. 4 LIC estadual Esta sessão analisa os resultados, até o momento, das produções cinematográficas que captaram recursos pela LIC-RS. Apresentaremos duas tabelas, que buscam esclarecer um pouco da problemática do setor, a saber, sua viabilidade econômica. Entendemos por viabilidade econômica, na sua forma mais simples, a capacidade de gerar receita suficiente com a venda do produto, capaz de pagar seus custos de produção, distribuição, marketing e venda. Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 895-916, 2008 912 Mauro Salvo O intuito da Tabela 4 é destacar o peso das leis de incentivo na produção cinematográfica gaúcha. Consideramos somente os filmes sobre os quais conseguimos as informações sobre seu orçamento total. A terceira coluna, percentual de recursos públicos no orçamento total da produção, mostra que estes representam mais de três quartos das fontes de financiamento das produtoras. A quinta coluna, relação entre renda de bilheteria e orçamento total, que mostra o retorno do investimento, evidencia a inviabilidade de as produções se autofinanciarem. Nota-se que somente o filme O Homem que Copiava financiou sua produção com a renda da bilheteria. Mesmo assim, não foram computados custos, como de distribuição e lançamento. Para isso, foi necessário um público de mais de 600.000 expectadores, número superado somente por 10% das produções nacionais. A sexta coluna, relação entre bilheteria e incentivos, mostra a eficiência dos recursos públicos, caso o objetivo seja produzir filmes nacionais para serem assistidos por brasileiros. Os dados dessa coluna deixam claro que o objetivo em questão ainda não foi atingido, pois se gasta muito para exibição a um público restrito. Tabela 4 Relação custos/bilheteria/leis de incentivo na produção cinematográfica do RS FILMES Lua de Outubro .................. Tolerância .......................... Houve Uma Vez Dois Verões .................................... O Homem que Copiava ...... Concerto Campestre ......... FILMES Lua de Outubro .................. Tolerância .......................... Houve Uma Vez Dois Verões .................................... O Homem que Copiava ...... Concerto Campestre ......... ORÇAMENTO TOTAL (R$) INCENTIVO TOTAL (R$) (1) RECURSOS PÚBLICOS (%) 2 500 000,00 2 653 561,59 2 115 000,00 1 135 450,32 84,6 42,8 999 890,34 4 000 000,00 4 480 000,00 758 000,00 3 153 886,00 3 864 000,00 75,8 78,8 86,3 RENDA DE BILHETERIA (R$) RELAÇÃO PERCENTUAL BILHETERIA/ /ORÇAMENTO RELAÇÃO PERCENTUAL BILHETERIA/ /INCENTIVOS 114 351,00 497 953,00 4,6 18,8 5,4 43,9 384 212,00 4 692 436,00 67 205,00 38,4 117,3 1,5 50,7 148,8 1,7 FONTE: Pesquisa de campo. (1) Inclui outros incentivos fiscais, inclusive federais. Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 895-916, 2008 Aspectos econômicos do impacto da Lei de Incentivo à Cultura (LIC-RS)... 913 A Tabela 5 não deixa dúvidas sobre a importância da LIC-RS para possibilitar a produção, os elevados custos dessas produções e o pequeno público atingido. Afora isso, fica claro que, além de se buscar o aumento da demanda pelas produções nacionais, deve-se também conhecê-la melhor, pois disso depende a estratégia de lançamento e de distribuição do filme. Por exemplo, o filme Noite de São João fez apenas cinco cópias e, portanto, teve um custo reduzido para essa finalidade; no entanto, conseguiu um público também reduzido: 1.071 expectadores por cópia, em média. Por outro lado, o filme Tolerância fez 90 cópias — portanto, um grande custo — e, embora tenha obtido um público maior do que Noite de São João, em termos absolutos, em média, fez apenas 940 expectadores por cópia. Ainda há outro aspecto: por exemplo, Anahy de las Missiones tem uma ótima relação cópia/público (8.733), porém atingiu um público insuficiente para gerar a renda necessária para cobrir todos os custos. Os números da Tabela 5 podem levar à conclusão de que, somente se fazendo muitas cópias, se viabiliza a produção. No entanto, isso é equivocado, pois só será verdadeiro se houver público. Além disso, devemos levar em conta que, quando o público viabiliza economicamente a distribuição (cópias e outros custos) e a exibição, também gera receita para o produtor, porque este último não arcou com o custo da produção, que foi bancada por recursos públicos. Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 895-916, 2008 PRODUÇÃO Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 895-916, 2008 1 300 000,00 1 000 000,00 630 000,00 ... 115 000,00 ... 999 890,34 ... 1 442 000,00 4 000 000,00 1 300 000,00 4 480 000,00 1 000 000,00 ... 1 137 000,00 - 1 442 000,00 500 000,00 110 000,00 2 653 561,59 ... 5 429 877,86 115 000,00 439 000,00 ... - ... ... 96 000,00 ... 800 000,00 451 000,00 LIC-RS LIC-RS APROVADA CAPTADA (R$) (R$) 2 500 000,00 ORÇAMENTO TOTAL (R$) (1) 121 5 12 70 43 11 22 90 ... 15 17 NÚMERO DE CÓPIAS Peso da LIC-RS na produção cinematográfica gaúcha 33 894 68 487 41 479 84 620 ... 682 110,00 384 212,00 187 837,00 497 953,00 ... 492 560,00 114 351,00 RENDA (R$) 5 355 13 010 25 704,00 67 205,00 2 420 000,00 570 406 4 039 353,00 100 000,00 240 000,00 1 400 000,00 664 651 4 692 436,00 860 000,00 146 062 220 000,00 440 000,00 1 800 000,00 ... 300 000,00 131 000 340 000,00 CUSTO DAS PÚBLICO CÓPIAS (R$) NO (2) CINEMA FONTE: Sedac. FONTE: FILME B. Database Brasil. [Rio de Janeiro], 2004. CD-ROM. NOTA: Os filmes Extremo Sul e Diário de um Novo Mundo não haviam sido lançados até o final deste trabalho. (1) As informações sobre os orçamentos totais dos filmes foram solicitadas às produtoras, mas nem todas informaram. (2) Os valores foram calculados, considerando-se o preço médio de cada cópia em R$ 20.000,00. (3) O filme Harmonia ainda não havia sido lançado comercialmente até o final deste trabalho. (4) O filme Meu Tio Matou um Cara não captou através da LIC-RS e encontra-se em exibição. Lua de Outubro — 1997 — Henrique F. Lima ............................................... Anahy de las Misiones — 1997 — M. Schmiedt ....................................... Tolerância — 2000 — Casa de Cinema ...................................................... Harmonia — 2000 — Infoco Poss (3) Netto Perde sua Alma — 2001 — Piedra Sola ........................................ Houve Uma Vez Dois Verões — 2002 — Casa de Cinema .................. A Paixão de Jacobina — 2002 — NGM Produções ................................ O Homem que Copiava — 2003 — Casa de Cinema ................................ Concerto Campestre — 2004 — Henrique que F. Lima ........................ Noite de São João — 2004 — NGM produções ......................................... Meu Tio Matou um Cara — 2004 — Casa de Cinema (4) .......................... Tabela 5 Mauro Salvo 914 Mauro Salvo Aspectos econômicos do impacto da Lei de Incentivo à Cultura (LIC-RS)... 915 5 Conclusão Neste trabalho, fizemos uma análise do mercado cinematográfico no Brasil e, principalmente, no Rio Grande Sul, destacando seu funcionamento e identificando seus gargalos. Observamos, preferencialmente, os efeitos da LIC-RS sobre a produção de longas-metragens. Uma análise mais completa ficou prejudicada pela ausência, ou inconsistência, da base de informações; por isso, sugerimos a melhoria dos dados que podem ajudar na compreensão econômica do setor cultural. O texto trabalhou com duas hipóteses, sendo a primeira referente ao incremento na oferta de filmes em decorrência da LIC-RS. Os números analisados, tanto para o Brasil, com leis federais, como para o Rio Grande do Sul, confirmaram a hipótese. Há evidência de que a LIC-RS fez ressurgir a produção cinematográfica no Estado, retomando uma atividade quase extinta no período anterior. A segunda hipótese refere-se aos pontos de estrangulamento do mercado. Freqüentemente, apontam-se problemas na distribuição e na exibição, mas o grande problema é que não há demanda suficiente para viabilizar o mercado. Nesse sentido, ao induzir o aumento da oferta de produções nacionais através da LIC, o Estado está subvertendo a ordem natural da racionalidade econômica que prega que, para toda demanda, haverá oferta. Nesse caso, está-se incrementando a oferta sem o respectivo incremento da demanda, gerando, assim, aumento do estoque (excesso de oferta), que significa, do ponto de vista econômico, falha na alocação dos recursos. A hipótese confirma-se ao analisarmos o número de espectadores alcançados pelas produções nacionais, que mostra que uma minoria pagaria seus custos. Outro problema que podemos notar é o alto custo das produções, e, nesse sentido, o mecanismo da LIC contribui para inflacionar o mercado. Os produtores poderiam comprometer-se a ajudar a viabilização econômica de suas produções reduzindo seus custos; criatividade não lhes falta. Em nenhum outro lugar, encontraremos pessoas mais criativas do que no meio cultural. As sugestões feitas apontam no sentido de direcionar a atuação do poder público também para a solução dos gargalos, principalmente fomentando a demanda. Se houvesse uma demanda maior, o mercado atrairia recursos naturalmente, ou, alternativamente, geraria seus próprios recursos, tornando-se, assim, uma atividade econômica auto-sustentável. Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 895-916, 2008 916 Mauro Salvo Referências BRASIL. Lei n.8.401, de 08 de janeiro de 1992. Dispõe sobre o controle de autenticidade de cópias de obras audiovisuais em videograma postas em comércio. Diário Oficial da União, Brasília, 09 jan. 1992. FILME B. Database Brasil. [Rio de Janeiro], 2004. CD-ROM. GALDINI, A. P. É hora de comemorar. Pouco. Pensando o cinema, 2002. Disponível em: <www.cinemando.com.br/200211/consumo>. REIS, R. R. Cinema brasileiro e público: o que a educação tem a ver com isso? Ciberlegenda, n.11, 2003. Disponível em: <www.uff.br/mestcii/ciber11>. RIO GRANDE DO SUL. Lei n.10.846, de 19 de agosto de 1996. Institui o Sistema Estadual de Financiamento e Incentivo às Atividades Culturais, autoriza a cobrança de taxas de serviços das instituições culturais e dá outras providências. Diário Oficial do Estado, Porto Alegre, 20 ago.1996. Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 28, Número Especial, p. 895-916, 2008 917 ORIENTAÇÃO PARA APRESENTAÇÃO DE ARTIGOS 1 - A revista Ensaios FEE, publicação semestral da Fundação de Economia e Estatística Siegfried Emanuel Heuser (FEE), divulga artigos de caráter científico, da área da economia e das demais ciências sociais. 2 - Os artigos submetidos à Editoria da revista serão encaminhados para apreciação de pareceristas internos e externos à FEE pelo sistema double blind review, ou seja, o processo de avaliação assegura o anonimato de autores e de pareceristas. 3 - O artigo deve conter as palavras-chave do texto, obedecendo o número máximo de três, em português e inglês, e o código de classificação do Journal of Economic Literature (JEL). 4 - O artigo deve vir acompanhado do nome completo do autor, de sua titulação acadêmica e do nome das instituições a que está vinculado, além do endereço para contato, e-mail, telefone ou fax. 5 - Devem ser encaminhadas três cópias impressas do artigo, com as páginas numeradas na margem superior e não excedendo 30 laudas de 24 linhas, em papel A4, com espaço duplo, fonte Times New Roman, tamanho 12, incluindo notas, bibliografia e outras referências. As cópias impressas devem vir acompanhadas do arquivo correspondente em MS-Word. 6 - São também aceitos trabalhos sob a forma de notas, comentários ou resenhas de livros. As notas e os comentários devem ter, no máximo, 15 laudas de 30 linhas, e as resenhas, 5 laudas de 27 linhas. 7 - As notas de rodapé devem conter apenas informações explicativas ou complementares e ser numeradas em ordem seqüencial. 8 - As citações devem ser feitas no próprio texto, indicando o sobrenome do autor, a data da publicação e o número da página (Vanin, 1980, p. 8). As citações em língua estrangeira devem vir traduzidas, ficando a critério do autor a publicação do original em nota de rodapé. 9 - As referências bibliográficas devem conter o nome completo do autor, o título da obra, o local e a data de publicação, o nome do editor e o número de páginas, enquadrando-se em uma das situações a seguir referidas: a) livros - POCHMANN, Márcio. O emprego na globalização: a nova internacionalização do trabalho e os caminhos que o Brasil escolheu. São Paulo: Boitempo, 2001, 151p. CASTRO, Antônio B. de; SOUZA, Francisco E. P. de. A economia brasileira em marcha forçada. 2. ed. São Paulo: Paz e Terra, 1985, 217p. 918 Rosana Ribeiro; Adir A. Juliano b) capítulo ou artigo de livro - MIRANDA, MIRANDA,José JoséCarlos Carlos da daRocha. Rocha. Dinâmica Dinâmicafinanfinanb) capítulo ceira e política macroeconômica. In: TAVARES, M. C.; FIORI, J. L. (Org.). Poder e dinheiro: uma economia política da globalização. Petrópolis: Vozes, 1997, p. 243-275. c) periódico - CONJUNTURA ECONÔMICA. Rio de Janeiro: FGV, n. 12, dez. 2000. d) artigo de periódico - BELLUZZO, Luiz Gonzaga de Mello. O declínio de Bretton Woods e a emergência dos mercados d) artigos de periódico - “globalizados”. Economia e Sociedade, Campinas,-n. 4, p. 1-20, 1997. PARTICIPAÇÃO do Brasil nos investimentos diretos mundiais. Car ta da SOBEET, São Paulo, v. 1, n. 4, set./out. 1997. e) artigo de jornal - SALGUEIRO, Sônia. Autopeças brasileiras conquistam mercado externo. Gazeta Mercantil, São Paulo, p. A-4, 6-8 mar. 2000. PARTICIPAÇÃO de salários no PIB cai para 38%. Folha de São Paulo, São Paulo, p. 2-5, 12 dez.1997. f) informação ou texto obtidos pela internet - livro eletrônico (monografia) DICIONÁRIO da língua portuguesa. Lisboa: Priberam Informática, 1988. Disponível em: <http://www.priberam.pt/dIDLPO> Acesso em: 8 mar. 1999. - periódico eletrônico (revista, anuário, etc...) BOLETIM INFORMATIVO DE PESSOAL. Porto Alegre: Secretaria da Fazenda/RS, n. 31, jul. 2001. Disponível em: <http://www.sefaz.rs.gov.br> Acesso em: 14 dez. 2001. - artigo de periódico em meio eletrônico O IED no Brasil e no mundo: principais tendências. Sinopse Econômica. Disponível em: <http://bndes.gov.br/sinopse/poleco.htm > Acesso em: 21 mar. 2000. - banco de dados IBGE-SIDRA. Disponível em: <http://www.sidra.ibge.gov.br Acesso em: mar. 2001. - homepage institucional BRASIL. MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO E CULTURA. Disponível em: <http://www.mec.gov.br>. Acesso em: 22 mar. 2004. 10 - As tabelas e gráficos apresentados no artigo devem ser numerados e apresentar título e fonte completos. Os gráficos devem ser gerados no MS-Excel, com formatação em preto e branco. O arquivo do MS-Excel deve ser encaminhado à revista Ensaios FEE contendo as tabelas dos dados vinculadas aos gráficos gerados. 919 11 - Os artigos remetidos à revista Ensaios FEE devem ser inéditos e não podem estar em processo de avaliação em outra publicação. Em se tratando de artigos aprovados, cabe ao Conselho de Redação a decisão de publicação. Os artigos aprovados passam por revisão de português e adaptação às normas técnicas da ABNT, sendo as provas submetidas ao(s) autor(es). 12 - Os artigos, em língua portuguesa (Brasil), inglesa ou espanhola, devem ser apresentados na sua versão definitiva e acompanhados de título, de abstract, em inglês, e de um resumo, em português, com 10 linhas no máximo. A remessa dos artigos à Revista implica a cessão dos direitos autorais à FEE. 13 - Os artigos publicados estarão disponibilizados na internet, através do site www.fee.rs.gov.br 14 - Toda correspondência deverá ser enviada à: Fundação de Economia e Estatística Siegfried Emanuel Heuser Ensaios FEE Rua Duque de Caxias, 1691 CEP 90 010-283 — Porto Alegre — RS E-mail: [email protected] Fone: (0XX51) 3216-9132 Fax: (0XX51) 3216-9134 920 Rosana Ribeiro; Adir A. Juliano 921 FICHA DE ASSINATURA As revistas Indicadores Econômicos FEE e Ensaios FEE podem ser adquiridas na Livraria da FEE, Rua Duque de Caxias, 1691, térreo, CEP 90010-283, Porto Alegre-RS, de segunda a sexta-feira, das 8h30min às 12h e das 13h30min às 18h, ou por fone (0xx51) 3216-9118, fax (0xx51) 3216-9134, e-mail [email protected], ou, ainda, pela homepage www.fee.rs.gov.br Você também pode optar por uma assinatura, preenchendo o formulário abaixo e enviando o cheque ou o comprovante de depósito para a Secretaria das Revistas, no 6º andar do endereço acima. Publicação Desejo receber a revista Ensaios FEE pelo preço de R$ 40,00 cada assinatura anual (edição semestral). Desejo receber a revista Indicadores Econômicos FEE pelo preço de R$ 75,00 cada assinatura anual (edição trimestral). 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Impressão: Cassiano Osvaldo Machado Vargas e Luiz Carlos da Silva.