RELATÓRIO DE BOAS PRÁTICAS NOME DA AÇÃO Processos do silêncio: oficina dialógica e criativa HISTÓRICO DA AÇÃO Processos do Silêncio é um projeto contemplado com o II Prêmio Nacional de Expressões Culturais Afro-brasileiras (2011), com patrocínio da Petrobras e Ministério da Cultura; realização do CADON e parceria da Fundação Cultural Palmares. É uma proposta de mediação cultural para o caderno de notas e a instalação fotográfica E o silêncio nagô calou em mim, contemplada com o I Prêmio de Nacional de Expressões Culturais Afro-brasileiras (2010). Com abordagem criativa e dialógica, a oficina é pautada pela proposta pedagógica de ação-reflexão-ação e pedagogia por projetos, toca na produção de imagens acerca do universo religioso de matriz africana, discute aspectos teóricos e as possibilidades artísticas e sociais do conteúdo visual na valorização da cultura afro-brasileira. A experiência de matriz ancestral africana circunscreve marcas diversas na cultura, tanto para adeptos das religiões, quanto para a formação da identidade brasileira. Ainda assim, muitas vezes, é tratada de forma estereotipada pelas imagens fotográficas. A oficina, com carga horária de 24 horas, incluindo um debate/encontro aberto interativo, realizada de 27 a 31 de agosto de 2012, busca, no estudo da elaboração artística, acentuar o importante papel do sistema religioso das tradições afro-brasileiras, promovendo o entrelaçamento das matrizes culturais africanas, transcendendo-as por meio da criação de modelos de realidade. Propõe a construção de visualidades capazes de ampliar o conhecimento sobre a cultura e a diversidade étnica brasileira, rompendo com as visões equivocadas difundidas sobre esse universo. Isso atinge, especialmente, os terreiros que, ao longo de nossa história oficial, foram silenciados pelas repressões policiais e sociais e, de certo modo, pela guarda e preservação dos segredos de caráter intrarreligioso – aspecto gerador de distorções, preconceitos, desconfianças ou temores 'mágicos', ainda hoje correntes em diversos âmbitos da sociedade brasileira. O projeto teve produção executiva de Fabiane Beneti, da Empresa Livre e foi idealizado por Denise Camargo, fotógrafa, doutora em Artes (Unicamp), mestre em Ciências da Comunicação (ECA-USP), graduada em Jornalismo (ECAUSP). Bolsista da Universidade de Navarra (Pamplona, Espanha), pelo Prêmio JT de Jornalismo. Atuou como fotojornalista e editora de veículos especializados na difusão cultural da fotografia brasileira. Foi docente do Bacharelado em Fotografia do Centro Universitário Senac, onde coordenou a Pós-graduação em Fotografia, até 2011. É pesquisadora do Grupo de Pesquisas da Imagem Contemporânea (GPIC) e realiza projetos culturais pela Oju Cultural. Participou de exposições, entre elas: Antologia da Fotografia Africana; São os filhos do deserto onde a terra desposa a luz; Herança Compartilhada. Elaborou o projeto e a curadoria da exposição Quilombolas, Tradições e Cultura da Resistência com coordenação editorial do livro homônimo. Contemplada com o Prêmio Nacional Expressões Culturais Afrobrasileiras (2010 e 2011); com o Programa Cultura e Pensamento 2007 (Representação imagética das africanidades no Brasil) e 2010 (Corpo-imagem dos terreiros). LOCAL DE REALIZAÇÃO A ação foi realizada em Salvador – BA, no Centro de Estudos Afro-orientais da Universidade Federal da Bahia, de 27 a 31 de agosto de 2012. REDES E PARCEIROS ENVOLVIDOS Foram parceiros institucionais do projeto: o Centro de Estudos Afro-orientais da Universidade Federal da Bahia (CEAO/UFBA), parceiro estratégico, para a cessão de infraestrutura e espaço para a realização das atividades e TVE Bahia (IRDEB) para a captação e veiculação de conteúdo de qualidade com baixo custo para a TV pública, com transmissão simultânea do debate na internet e posterior disponibilização dos vídeos do encontro. Esta parceria foi fundamental para a difusão dos resultados e produtos do projeto, uma vez que os recursos financeiros seriam escassos para esta ação. Indiretamente, CADON (Centro de Apoio ao Desenvolvimento Oswaldo Neves), realizador do Prêmio Nacional de Expressões Culturais Afrobrasileiras, com o qual o projeto Processos do Silêncio foi contemplado e seu parceiro apoiador, a Fundação Cultural Palmares e, evidentemente, os patrocinadores Petrobras e Ministério da Cultura/Lei de Incentivo à Cultura, envolveram suas redes para divulgação e difusão das ações do projeto. Ao final do projeto, foi criada uma rede dos participantes para difusão e multiplicação das ações propostas, a partir da oficina. PÚBLICO ALCANÇADO Oficina destinada a fotógrafos e artistas, educadores, mediadores culturais, abrangendo especialmente professores da rede pública, estudantes de diversas áreas, membros das comunidades de terreiros, e interessados em geral. O pré-requisito para participação foi o compromisso de multiplicar o conhecimento nas instituições, comunidades, núcleos artísticos, escolas, universidades etc, para ampliar o alcance do projeto. A oficina foi realizada para um número superior de participantes, estimados, originalmente em 30, inclusive com a participação de pessoas de outros Estados brasileiros que se deslocaram até Salvador, especialmente para a atividade, totalizando 45 selecionados. A frequência foi regular, mantendo a unidade do grupo e, portanto, a proposta de integração e proposição de uma rede posterior, para manutenção e troca dos conhecimentos, além de desdobramentos das ações propostas. Houve, em menos de 15 dias, mais de 300 inscritos, o que levou a equipe de produção do projeto a suspender as inscrições antes do prazo inicial, pois o processo seletivo àquela altura já ultrapassara sobremaneira a capacidade operacional da equipe para avaliação dos formulários de inscrição e escolha dos participantes. Por meio dos formulários de inscrição preenchidos foi possível identificar entre os participantes: a) educadores, professores da rede pública de ensino, que compuseram o principal público de interesse do projeto, em virtude das possibilidades de alcance das ações do projeto a públicos indiretos (estudantes da rede pública de ensino); b) artistas plásticos e fotógrafos com atividades educacionais e de mediação cultural em museus, centros culturais e comunidades e/ou fotógrafos cuja produção se relaciona ao tema da oficina; c) representantes das comunidades de terreiros com atividades relativas ao objeto do projeto e interesse específico no processo criativo de produção de imagens nesse universo; Indiretamente, públicos diversos foram contemplados pelas ações do projeto, em virtude das estratégias de ampliação do alcance como: o encontro aberto interativo, gravado e transmitido simultaneamente na internet, pela TVE Bahia e uma página web do projeto que recebeu em média 2.000 acessos do período de divulgação da oficina até sua concretização. O encontro aberto interativo, composto por um debate entre pesquisadores do CEAO, que fez parte das atividades para ampliar o alcance da oficina, superou as expectativas da produção e curadoria do projeto, com o enorme interesse dos próprios participantes e da sociedade. A página do projeto no site e o portal do IRDEB (TVE Bahia) receberam, somados, cerca de 800 acessos durante as duas horas de exibição, o que representa uma marca altamente aceitável para o tipo de programa/horário/forma de veiculação. A transmissão por meio da internet atingiu, inclusive, internautas na Europa, América Latina, Estados Unidos e Canadá. INOVAÇÃO Nesta oficina, as aulas tiveram como base o processo de criação de imagens para o caderno E o silêncio nagô calou em mim, integrante da tese de doutorado Imagética do Candomblé: uma criação no espaço mítico-ritual (Unicamp, 2010), defendida por Denise Camargo. O trabalho gerou também uma instalação fotográfica, contemplada com o I Prêmio Nacional de Expressões Culturais Afro-brasileiras, no mesmo ano. A proposta é inovadora ao ultrapassar os limites acadêmicos, transformando-se em um produto para ser devolvido à sociedade, com vistas a criar reflexões a respeito de um tema de importância cultural e artística nos debates contemporâneos. O desenvolvimento do projeto Processos do Silêncio, no CEAO integrou-se às atividades de pesquisa, ensino e formação desse importante centro de pesquisas da UFBA. Ou seja, um ganho tanto para a instituição parceira, quanto para a rede que o projeto pretendeu estabelecer. Ao criar o projeto, houve uma forte aposta nos processos colaborativos em rede em todas as etapas de execução previstas. Desde a divulgação, por meio das redes sociais até a construção da página do projeto na web, que funcionou como sistema de gestão das inscrições e divulgação do projeto, e também plataforma de conteúdo – informações, textos, notas, galeria de imagens relativos ao desenvolvimento das ações do projeto, elaborados em tempo real por uma mediadora web. A manutenção da página, tanto durante a realização do projeto, quanto posteriormente, transformou-se em eficiente sistema de difusão do projeto para um sem número de públicos, ampliando sobremaneira o alcance do projeto. A seleção se converteu em um processo articulador com o grupo geral de inscritos. Foi criado um sistema de avaliação e critérios que permitiu a todos os inscritos, ainda que não selecionados, participar de ações gerais, como o debate do encontro aberto interativo. O material para mediação cultural foi preparado considerando a abordagem triangular, como material de apoio ao grupo participante, durante as atividades da oficina, e para ser aplicado com estudantes e comunidades. Este material foi criado com a particularidade de atender o processo de mediação tanto da instalação fotográfica E o silêncio nagô calou em mim, que originou a oficina dialógica e criativa Processos do Silêncio, oferecendo informações sobre a cultura, a visualidade e o processo artístico que envolveu a realização da obra e seus desdobramentos. Por fim, a própria oficina foi criada tendo em vista uma proposta pedagógica de ação-reflexão-ação formativa, em que a abordagem dos conteúdos é mediada pela experimentação. SUSTENTABILIDADE A proposta da oficina, por si, já contém em seus objetivos ações de sustentabilidade, gerando práticas de ação-reflexão-ação e material de mediação cultural. A condução das atividades, pela mediadora, proporcionou capacitação aos participantes e propõe ações de continuidade aplicadas ao interesse específico de cada participante. Mediante um processo moderação de grupos, as discussões levaram tanto a uma sistematização de propostas, quanto à reflexão sobre os impactos internos e externos gerados após a oficina. Os participantes puderam, assim, optar por diferentes maneiras de introduzir os conteúdos da oficina no cotidiano de suas atividades artísticas e educacionais, conforme o perfil de cada um. Além disso foram gerados produtos (vídeo do encontro aberto interativo, textos, depoimentos e fotografias) disponíveis para acesso na página web do projeto. Todas as ações foram planejadas de forma a dar autonomia para que os participantes criem suas próprias ações e as difunda, a partir dos conhecimentos gerados pelo próprio grupo em contato com a atividade da artista e mediadora. RESULTADOS ALCANÇADOS A oportunidade oferecida pelo Prêmio Nacional de Expressões Culturais Afrobrasileiras (CADON/Petrobras/Ministério da Cultura) e todas que dele derivam, bem como a possibilidade de concretização de uma ideia são o mais relevante resultado conquistado. A iniciativa do Prêmio constrói um espaço inigualável de visibilidade para a cultura afro-brasileira, suas produções artísticas e seus artistas, uma construção coletiva que dá voz aos trabalhos, muitas vezes sem espaço e recursos para realização e difusão. Os resultados da realização do projeto são extremamente positivos, em se tratando de enorme visibilidade para as questões artísticas e culturais nele tratadas. RECURSOS De modo geral, o orçamento original do projeto foi executado como o previsto, com devidas e naturais alterações. Os recursos foram utilizados para o cumprimento de todos os objetivos do projeto. Não houve custos relativos à captação em vídeo e transmissão ao vivo do encontro aberto interativo, uma vez que UFBA e TVE Bahia assumiram a tarefa, enquanto parceiras do projeto. Os custos relativos à impressão de material foram reduzidos, bem como o serviço de distribuição. O serviço de projeto gráfico e diagramação foi recalculado para um custo superior ao previsto. Não foi necessária a contratação de profissional responsável por acessibilidade, pois o local onde a oficina foi realizada e o perfil dos participantes não exigiram tratamentos especiais. Em virtude de sua complexidade, o serviço de divulgação e mediação web foi reajustado durante a etapa de produção. Houve contratação de serviço de programação web, não previsto no projeto original, para a elaboração das interfaces e preparação do servidor para a transmissão online do encontro aberto. Os custos de produção executiva também sofreram acréscimo, devido ao aumento de atribuições gerado pelo maior número de inscritos na oficina e necessidades de estabelecer outras parcerias e apoios não descritas no projeto inicial, para viabilizar o orçamento previsto. Foi necessária a destinação de verba extra para a aquisição de material de consumo, não previsto no orçamento original. FATORES CRÍTICOS DE SUCESSO Houve um planejamento extremamente rigoroso, realizado entre a mediadora e idealizadora do projeto e a produção executiva do projeto. Uma equipe afinada e responsável, particularmente interessada no cumprimento dos objetivos do projeto e na temática, foram de significativa importância para o sucesso do projeto, bem como a excelente articulação das diversas redes que permitiram difusão e divulgação excepcionais. Cabe ressaltar, ainda, o domínio da temática, a experiência em docência e elaboração de programas de curso da mediadora, que permitiram ao grupo uma experiência de aprendizado bastante singular, sobre o processo de criação das imagens fotográficas. LINKS DA AÇÃO NA INTERNET http://processosdosilencio.wordpress.com www.oju.net.br @ojunet