ESPAÇO ABERTO O no Contexto das Políticas para o Ensino Médio Creso Franco Alícia Bonamino A seção “Espaço aberto” visa abordar questões sobre educação, de um modo geral, que sejam de interesse dos professores de química. Neste artigo, os autores analisam o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) e sua inserção no contexto maior das atuais políticas para o ensino médio. Embora argumentem que o tema ainda exige muitos estudos sistemáticos, os autores procuram identificar certas tendências e explorar possíveis implicações dessa iniciativa para a educação brasileira. 26 o ingresso no mundo do trabalho. Nesse contexto, o MEC destaca como justificativa principal para a reforma do ensino médio a necessidade de construção de um sistema educacional flexível, que evite exigir dos jovens opções precoces de profissionalização, mantendo para os trabalhadores adultos portas abertas para o prosseguimento da educação ao longo da vida. avaliação, currículo, ensino médio, exame nacional São esses os princípios básicos que orientam as reformas curriculares e organizacionais do ensino médio, especialmente a polêmica proposta de década de 90 foi marcada pela desenvolver. Apresentamos inicialmenorganização dos conteúdos técnicoemergência de sistemas de te uma visão geral das políticas oficiais profissionalizantes das escolas técniavaliação na América Latina. voltadas para a reforma do ensino cas federais numa forma modular — No Brasil, em particular, houve iniciamédio. Em seguida, apresentamos e a exigência de que os candidatos a tivas voltadas para a consolidação do nossa análise do ENEM. Concluímos essas escolas optem pelo curso técSistema de Avaliação da Educação discutindo possíveis implicações do nico (núcleo comum + formação espeBásica (SAEB), a criação do Provão e ENEM para a educação básica. cífica) ou pelo nível médio de educação do ENEM. O significado geral dessas geral (Salm e Fogaça, 1999). Políticas para o ensino médio iniciativas é polêmico e a literatura eduAfora a reforma do ensino técnico, entre as atuais políticas dirigidas ao Um dos aspectos mais destacados cacional tem refletido os diferentes ensino médio destacam-se: os marcos pela literatura educacional atual diz pontos de vista acerca desse tema legais estabelecidos pela nova Lei de respeito aos requisitos de escolaridade (Bomeny, 1997; Castro e Carnoy, 1997; Diretrizes e Bases da Educação Nacioderivados da revolução tecnológica, Franco e Frigotto, 1997; Lauglo, 1997; nal (LDB), lei nº 9.394 de 20/12/96, a que estaria a exigir uma população Moreira, 1995; Torres, 1996). Em outro reorganização curricular introduzida com, pelo menos, educação básica artigo, desenvolvemos o ponto de vista pelas Diretrizes Curriculares Nacionais completa. Nesse contexto, o ensino de que o aprofundamento das discuspara o Ensino médio, incluindo o ensino sões gerais sobre o papel da avaliação Médio (DCNEM técnico, ganha destaque Um dos aspectos mais nas políticas educacionais deveria — 1998) e, mais nas reformas educacionais. destacados pela incluir a produção de pesquisas que recentemente, No caso brasileiro, o ensino literatura educacional examinassem detidamente experiênpelos Parâmemédio encontra-se ao mesatual diz respeito aos cias de avaliação. No mesmo artigo, tros Curriculamo tempo limitado pelo derequisitos de fizemos uma análise do processo de res Nacionais sempenho do ensino fundaescolaridade derivados institucionalização do SAEB (Bonamipara o Ensino mental e pressionado pelos da revolução no e Franco, 1999). Médio (PCNEM requisitos para o ingresso tecnológica, que O ENEM foi realizado pela primeira — 1999). no ensino superior. estaria a exigir uma vez em 1998. Muito embora ainda não Pela nova Além dessas dificuldapopulação com, pelo haja condições de apresentar um estuLDB, o ensino des, o ensino médio defronmenos, educação do sistemático acerca do significado médio passa a ta com duas expectativas: básica completa desse exame, já é possível identificar ser concebido de um lado, deve completar certas tendências, visualizar trajetórias como etapa final a educação básica, prepae explorar possíveis implicações dessa da educação básica (art. 35), a ser rando os jovens para a continuidade iniciativa para a educação brasileira — efetivado mediante o dever do Estado dos estudos em nível superior; de de garantir a progressiva obrigatodimensões que este artigo pretende outro, deve preparar esses jovens para A QUÍMICA NOVA NA ESCOLA O ENEM e o Ensino Médio N° 10, NOVEMBRO 1999 riedade e gratuidade desse nível de prevalência da dimensão científico-teca política de igualdade e a ética da educação (inciso II do art. 40), com a nológica sobre a humanista, já que se identidade deverão fundamentar um finalidade de consolidar e aprofundar trata de preparar o educando não apenovo conceito de ensino médio. A esténo educando os conhecimentos adquinas para o trabalho, mas também para tica da sensibilidade pretende funcioridos no ensino fundamental e de fora cidadania e para seu desenvolvinar como uma alternativa à repetição necer-lhe preparação básica para o mento como pessoa humana (art. 35). e à padronização do ensino, um altertrabalho e a cidadania (art. 35). É no artigo 26 que a nova LDB denativa que dê lugar à criatividade, ao Essas regulamentações introdutermina que o currículo do ensino espírito inventivo, à curiosidade pelo zem alterações que precisam ser comédio seja construído sobre uma base inusitado e à afetividade. Essas dimenmentadas. Por um lado, a concepção nacional comum a ser complemensões, por sua vez, precisam estar do ensino médio como etapa final da tada, no âmbito de cada sistema de apoiadas por “identidades capazes de educação básica avança positivamenensino e de cada escola, por uma parte suportar a inquietação, conviver com te na direção de um sistema nacional diversificada — como, de resto, já vem o incerto e o imprevisível, acolher e de educação estabelecido sobre direocorrendo desde a legislação anterior, conviver com a diversidade, valorizar trizes e bases comuns, numa perspecsubstituída pela nova LDB. a qualidade, a delicadeza, a sutileza. tiva abrangente e universalizada. O estabelecimento dessa base curA política da igualdade no acesso aos A idéia de progressiva obrigatoriericular nacional comum coube, em bens sociais e culturais, o reconhecidade e gratuidade, primeira instância, ao mento e o exercício dos direitos humaassim como a de forConselho Nacional de nos e dos deveres e direitos da cidaDo ponto de vista mação básica para a Educação (CNE) e, dania, o respeito ao bem comum, o curricular, a LDB cidadania e o trabaposteriormente, ao protagonismo e a responsabilidade no propõe uma educação lho, articula-se com MEC. Com efeito, o Paâmbito político e privado; o reconhecicomum de base essa direção na merecer CEB nº 15/98, de mento, respeito e acolhimento da idencientífico-tecnológica e dida em que propõe 01/06/98, apresentou, tidade do outro; a solidariedade, a reshumanista, não uma formação geral inicialmente, a proposponsabilidade e a reciprocidade como havendo prevalência comum, cuja consista de regulamentação orientadora dos atos da vida devem ser da dimensão científicotência envolve uma da base curricular naprincípios que informem todo o ato de tecnológica sobre a escolaridade mais cional e de organizaensinar e de aprender.”1 humanista As propostas incluídas nas DCNEM prolongada. Em conção do ensino médio e abrangem a interdisciplinaridade, junto, essas concepteve como relatora a concebida como relações entre as ções articulam-se em torno da idéia de conselheira Guiomar Namo de Mello. disciplinas, de modo a integrar as comterminalidade do ensino médio, conPosteriormente, a Resolução nº 03/98, petências que cada disciplina desencorrendo para a busca de sua identide 26/06/98, da Câmara de Educação volve, a contextualização do conhecidade, para a ruptura da organização Básica do Conselho Nacional de Edumento, concebida tanto como concredualista de escolas profissionais, de cação, instituiu as Diretrizes Curricutização dos conteúdos em situações um lado, e das escolas de ciências e lares Nacionais do Ensino Médio próximas e vivenciais quanto como humanidades, de outro, e ainda para (DCNEM), consubstanciadas num articulação entre teoa desconstrução da amesquinhada e conjunto de definições ria e prática e, ainda, consagrada visão de que o papel do doutrinárias sobre Um novo conceito de como instrumento peensino médio é garantir o acesso ao princípios, fundaensino médio deverá dagógico capaz de ensino superior. mentos e procediser fundamentado na atribuir significado ao É importante mencionar, entretanto, mentos a serem estética da que a dupla obrigatoriedade (do Estaobservados na organiconhecimento escolar. sensibilidade (dando do e do educando) de escolaridade de zação pedagógica e No plano cognitilugar à criatividade, ao nível médio, consagrada originariacurricular das escolas vo, as DCNEM limiespírito inventivo, à mente na Constituição de 1988, foi integrantes dos sistetam-se a propor três curiosidade pelo alterada pela Emenda Constitucional mas de ensino médio. grandes áreas de coinusitado e à nº 14/96, mediante o entendimento de Num texto de alto nhecimento — “Linafetividade), na política que o ensino médio deixa de ser obriteor literário e de difícil guagens e Códigos”; de igualdade e na ética gatório para as pessoas, enquanto é tradução legal e ope“Ciências da Natureza da identidade dever do Estado oferecê-lo para todos racionalização matee Matemática” e aqueles que o desejarem. Essa reforrial, as DCNEM postu“Ciências Humanas” mulação relativiza a obrigatoriedade e lam três tipos de princípios — esté— que incluem as tecnologias correo compromisso do Estado com a uniticos, políticos e éticos — que, assolatas. versalização desse nível de ensino. ciados respectivamente à sensibiliEssas limitações das DCNEM talDo ponto de vista curricular, a LDB dade, à igualdade e à identidade, vez ajudem a entender o fato de o MEC propõe uma educação comum de badeverão nortear a prática administrater tomado para si a tarefa de definir, se científico-tecnológica e humanista. tiva, pedagógica e financeira das espara o currículo do ensino médio, um (art. 36). Apesar dos diferentes entencolas e dos sistemas de ensino. novo perfil que parte dos princípios dedimentos do texto legal, não há nele Assim, a estética da sensibilidade, finidos na LDB e propõe uma organiQUÍMICA NOVA NA ESCOLA O ENEM e o Ensino Médio N° 10, NOVEMBRO 1999 27 28 zação apoiada em competências básipela primeira vez em 1998, destinado Os PCNEM mantêm a organização cas. Talvez o baixo perfil operacional aos alunos em vias de concluir ou que curricular em três áreas, como previsto das DCNEM explique também o fato já tenham concluído o ensino médio. nas DCNEM, e em todas elas é prode que a primeira versão dos PCNEM Trata-se de um exame opcional para posto ou um tratamento interdisciplinar tenha sido elaborada sob a coordeos alunos, cuja inscrição custa 20 reais e contextualizado do conhecimento, ou nação do então diretor do Departa(cerca de 11 dólares). Seus objetivos o desenvolvimento de competências e mento de Desenvolvimento de Educasão (INEP/MEC 1999a): habilidades, ou ainda a apropriação ção Média e Tecnológica, prof. Ruy das tecnologias produzidas ou utiliO objetivo fundamental de Berger. zadas pelos conhecimentos da área. avaliar o desempenho do aluno Os PCNEM, na linha das diretrizes Na área de “Linguagem, Códigos ao término da escolaridade curriculares, afirmam buscar se contrae suas Tecnologias”, a prioridade é básica, para aferir o desenvolvipor ao ensino descontextualizado, dada à língua portuguesa, embora mento das competências fundacompartimentado e baseado no acúdestaque também a mentais ao exercímulo de informações, propondo um importância do domício pleno da cidaOs PCNEM conhecimento escolar significativo, nio de línguas estrandania. Pretende, incorporam, como contextualizado e interdisciplinar. Esgeiras e estejam preainda, alcançar os diretrizes gerais e ses parâmetros seguem uma orientasentes a informática e seguintes objetivos orientadoras da ção mais operacional e próxima a seus as artes. Incluem-se específicos: proposta curricular, as equivalentes para o currículo da escotambém as atividades a. oferecer uma quatro premissas da la fundamental, já que, além de difunfísicas e desportivas referência para que Unesco para a dir os princípios da reforma curricular, como formas de cocada cidadão poseducação na visam orientar o professor na busca de municação e expressa proceder à sua sociedade novas abordagens e metodologias de são (CEB/CNE, 1998, auto-avaliação com contemporânea: ensino. p. 21). vista às escolhas aprender a conhecer, Os PCNEM partem do pressuposto A aprendizagem futuras, tanto em de que a reforma curricular deve conda área de “Ciências aprender a fazer, relação ao mercatemplar conteúdos e estratégias de da Natureza, Mateaprender a viver e do de trabalho aprendizagem que capacitem o aluno mática e suas Tecnoaprender a ser quanto em relação para a realização de atividades “nos logias” inclui a comà continuidade de três domínios da ação humana: a vida preensão e a utilização dos conheciestudos; em sociedade, a atividade produtiva e mentos científicos, para explicar o funb. estruturar uma avaliação da a experiência subjetiva, visando intecionamento do mundo e para planeeducação básica que sirva cogração de homens e mulheres no tríjar, executar e avaliar as ações de intermo modalidade alternativa ou plice universo das relações políticas, venção na realidade (CEB/CNE, 1998). complementar aos processos do trabalho e da simbolização subjePor último, a área de “Ciências Hude seleção nos diferentes setotiva” (p. 16). manas e suas Tecnologias”, que englores do mundo do trabalho; Nessa perspectiva, os PCNEM ba também a filosofia, visa desenvolver c. estruturar uma avaliação da incorporam, como diretrizes gerais e no aluno competências e habilidades educação básica que sirva coorientadoras da propara a compreensão mo modalidade alternativa ou posta curricular, as da sociedade como Os PCNEM, na linha complementar aos exames de quatro premissas da uma construção hudas diretrizes acesso aos cursos profissionaUnesco para a mana e dotada de hiscurriculares, afirmam lizantes pós-médios e ao ensino educação na societoricidade; para que buscar se contrapor ao superior. dade contemporâcompreenda o espaço ensino nea: aprender a coocupado pelo homem, Já em seu segundo ano de operadescontextualizado, nhecer, na perspecenquanto espaço cionalização, o ENEM passou a ser compartimentado e tiva da educação geconstruído e consumiutilizado como modalidade alternativa, baseado no acúmulo ral e da educação do, e os espaços de de modo integral ou parcial, para sede informações, permanente; aprensociabilidade humana leção a vagas disponibilizadas por 61 propondo um der a fazer, entendida em âmbito coletivo, e instituições de ensino superior, incluinconhecimento escolar como aplicação prápara que construa a si do algumas universidades de elevado significativo, tica da teoria; aprenpróprio como agente prestígio acadêmico. Muito embora a contextualizado e der a viver, no sentido social que intervém na utilização do ENEM no processo seleinterdisciplinar do reconhecimento sociedade, entre outivo de algumas instituições tenha da interdependência tras propostas da área implicado polêmicas no seio de campi humana, e aprender a ser, como universitários (Krasilchik, 1999), preva(CEB/CNE, 1998: 22). compromisso com o desenvolvimento leceu a adesão e, com isso, o número O ENEM integral da pessoa, o que supõe de inscritos efetivamente realizando o autonomia intelectual e capacidade exame subiu de cerca de 110 mil em O Exame Nacional do Ensino Médio crítica. 1998 para mais de 320 mil em 1999. (ENEM) é um exame anual, aplicado QUÍMICA NOVA NA ESCOLA O ENEM e o Ensino Médio N° 10, NOVEMBRO 1999 feiçoam-se e articulam-se, posrelacionar e interpretar dados e O ENEM tem buscado estreitar sibilitando nova reorganização informações representados de relações com as iniciativas voltadas das competências. diferentes formas, para enfrentar para a reforma do ensino médio no situações-problema, segundo Brasil. Por ser uma iniciativa extreInsiste-se que a competência de leiuma visão crítica com vista à mamente recente, é difícil apresentar tura, escrita, interpretação e expressão tomada de decisões. uma avaliação precisa do significado não se desenvolve exclusivamente no IV. Organizar informações e do ENEM no âmbito da educação âmbito do ensino e da aprendizagem conhecimentos disponíveis em brasileira. No entanto, essa iniciativa da língua portuguesa, estando situações concretas, para a parece estar assopresente no conjunto construção de argumentações ciada à perspectiva de das atividades pedaA confecção do ENEM consistentes. “reforma fomentada gógicas. A operacioé orientada por cinco V. Recorrer aos conhecipela avaliação” (Linn, nalização do ideal de competências globais, mentos desenvolvidos na escola 1995). A mencionada rompimento do isolaas quais são para elaboração de propostas utilização de resulmento das áreas e desdobradas em 21 de intervenção solidária na realitados do ENEM em disciplinas é desenhabilidades, que, por dade, considerando a diversiprocessos seletivos volvida precisamente sua vez, fornecem as dade sociocultural como inerenpara o ensino superior pelo papel que pode bases para as 63 te à condição humana no tempo é um dado relevante ser desempenhado e no espaço. questões do exame, de na medida em que pela linguagem, inmodo que cada Essas competências globais são avaliações que precluindo a linguagem habilidade seja testada desdobradas em 21 habilidades, fortendam catalisar reformatemática, no cotipor três questões muladas de modo articulado com os mas precisam ter prediano da escola. Por conteúdos curriculares do ensino funsença expressiva no essa via, estimulamdamental e médio. As habilidades forcotidiano do nível de ensino alvo de se integrações entre as disciplinas que necem as bases para a preparação propostas de reforma. estão aquém dos padrões de interação das 63 questões, de modo que cada capazes de efetivamente romper o O exame consiste de uma prova de habilidade seja testada por três quesinsulamento das disciplinas escolares múltipla escolha, contendo 63 questões, tões. Deve ser enfatizado que da articu(Young, 1998). Em outras palavras, e de uma redação. A preparação da oferecem-se como passaporte à lação entre competências e conteúdos prova baseia-se em uma matriz de commodernidade interações que, embora curriculares emergem habilidades que, petências elaborada para o ENEM. A necessárias, são básicas e só deixam em sua grande maioria, privilegiam o confecção dessa matriz objetivava de estar presentes desde longa data ensino de ciências, em detrimento dos romper com o isolamento das discino cotidiano de todas as escolas por temas sociais. Ainda com relação à plinas do ensino médio e promover a carências estruturais do sistema eduanálise das habilidades, deve ser des“colaboração, complementaridade e 2 cacional brasileiro . O Documento Bátacado que há tanto orientações sintointegração entre os conteúdos das disico do ENEM apresenta cinco comnizadas com posições desenvolvidas versas áreas do conhecimento presenpetências globais, que orientam a conpor pesquisadores ligados às didáticas tes nas propostas curriculares das escofecção dos instrumentos do exame. específicas, em especial na área de las brasileiras de ensino fundamental e São elas (INEP/MEC ciências, quanto tenmédio” (MEC/SEMTEC, 1999). A matriz 1999a): dências claramente O ENEM, que tem estrutura-se a partir dos conceitos de regressivas, como a I. Demonstrar buscado estreitar competência e de habilidades associaque articula o papel domínio básico da relações com as das aos conteúdos do ensino fundada literatura na educanorma culta da iniciativas voltadas mental e médio. Esses conceitos são ção com a identificalíngua portuguesa e para a reforma do apresentados no Documento Básico do ção de movimentos do uso das difeensino médio no ENEM (INEP/MEC 1999a): literários. rentes linguagens: Brasil, parece estar Esses fatores relaCompetências são as modalimatemática, artístiassociado à tivizam a noção de dades estruturais da inteligência, ca, científica etc. perspectiva de que o ENEM estaria ou melhor, ações e operações II. Construir e ‘reforma fomentada sintonizado com um que utilizamos para estabelecer aplicar conceitos pela avaliação’ movimento de renovarelações com e entre objetos, sidas várias áreas do ção e modernização tuações, fenômenos e pessoas conhecimento para a progressista da educação básica. que desejamos conhecer. As compreensão de fenômenos Além disso, a consolidação do ENEM habilidades decorrem das comnaturais, de processos históricocomo uma referência nacional para petências adquiridas e referemgeográficos, da produção acesso ao ensino superior e ao ensino tecnológica e das manifestase ao plano imediato do ‘saber pós-médio concentraria, de maneira ções artísticas. fazer’. Através das ações e inusitada no país, a influência da III. Selecionar, organizar, operações, as habilidades aperQUÍMICA NOVA NA ESCOLA O ENEM e o Ensino Médio N° 10, NOVEMBRO 1999 29 30 avaliação no ensino médio. Isso parefunda discussão sobre o assunto, ance problemático, a julgar pela influência tes de entrar, apressadamente, em negativa de avaliações centralizadas uma empreitada em que há tantos de acesso ao ensino superior, em aspectos controversos”. âmbito regional, na década de 70 e em Conclusões parte da década de 80. Contrastando com nossa cautela na avaliação inicial Em diversas passagens deste artido ENEM, houve recepção positiva go enfatizamos que o ENEM é uma desse exame por parte de alguns iniciativa recente, o que tem dificultado atores formadores de opinião, em esa análise de seu significado. Foi ainda pecial os vinculados à imprensa. Esses destacado que o ENEM parece ter a atores vislumbram no ENEM uma função de fomentar a reforma do ensialternativa ao caráter no médio. A evolução formalista e ultraA implementação de do ENEM, bem como passado do ensino medidas de política a análise de suas médio e do vestibular. educacional para o características consA mencionada dititutivas, indicam a ensino médio tem sido vergência de posicioplausibilidade desse feita de modo tal que namento reflete, ao tipo de análise. No os instrumentos menos em parte, o entanto, faz-se necesnormativos mais caráter ainda bassário levar em consiespecíficos reorientam tante inicial da análise deração que as políos mais gerais. No do significado do ticas públicas de ENEM, enfatiza-se ENEM no contexto avaliação da educahabilidades das políticas públicas ção tiveram grande relacionadas com a de educação. A resdesenvolvimento nos área de ciências, a peito especificamente últimos anos. Já no despeito da LDB e das do aproveitamento do que se refere às iniciaDCEM equacionarem ENEM como parte do tivas de reforma educiências e processo seletivo pacacional, as atenções humanidades de forma ra entrada no ensino do MEC concentrabalanceada superior, é importante ram-se inicialmente no considerar as refleensino fundamental, xões de Krasilchik (1999) sobre o vessó se voltando para as questões do tibular da USP. Essa autora questionou ensino médio mais recentemente. a forma de tomada de decisão por Muito embora haja evidências de que parte da universidade, enfatizou as limio componente de avaliação da política tações de reformas baseadas em avaeducacional tenha mantido interações liações como estratégia para a mee articulações com os demais aspeclhoria do ensino e concluiu perguntos da política educacional, é inegável tando se não seria mais adequado que que no caso do ensino médio a avaliação deslanchou à frente dos demais a universidade fizesse “ampla e pro- Referências bibliográficas BOMENY, H., org. Avaliação e determinação de padrões na educação latino-americana: realidades e desafios. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 1997. BONAMINO, A. e FRANCO, C. Avaliação e política educacionais: o processo de institucionalização do SAEB. Cadernos de Pesquisa, 1999, no prelo. CASTRO, C.M. e CARNOY, M., orgs. Como anda a reforma da educação na América Latina? 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Finalmente, deve ser destacado que a implementação de medidas de política educacional para o ensino médio tem sido feita de modo tal que os instrumentos normativos mais específicos reorientam os mais gerais, característica já observada por Cunha (1997) em sua análise da reforma do ensino superior. No caso do ensino médio, o exemplo mais gritante desse tipo de reorientação refere-se à ênfase da matriz de competências do ENEM em habilidades relacionadas com a área de ciências, a despeito de os textos da LDB e das DCEM equacionarem de forma balanceada o papel das linguagens das ciências e das humanidades no ensino nédio. Creso Franco, licenciado em física e doutor em educação, é professor do Departamento de Educação da PUC-RJ e pesquisador do MAST/CNPq. Alícia Bonamino, licenciada em pedagogia e mestre em educação, é professora do Departamento de Educação da PUC-RJ. Notas 1. CEB/CNE. Diretrizes Curriculares Nacionais para o Ensino Médio, Brasília, 1998. 2. A discussão sobre as características das interações capazes de romper o insulamento disciplinar e sintonizadas com as exigências contemporâneas estão além dos objetivos do presente artigo, mas são desenvolvidas em Franco (submetido). 27, 1997. INEP/MEC. Avaliação de concluintes do ensino médio em nove estados – 1997. Brasília: INEP, 1998. INEP/MEC. ENEM – Documento básico. Brasília, 1999a, mimeografado. INEP/MEC. Exame Nacional do Ensino Médio 1998: relatório final. INEP, Brasília, 1999b. KRASILSHIK, M. Vestibular 2000: onde estão as lentilhas? Jornal da USP, 17 a 23 de Maio de 1999, p. 2. LAUGLO, J. Crítica às prioridades e estratégias do Banco Mundial para O ENEM e o Ensino Médio N° 10, NOVEMBRO 1999 a educação. Cadernos de Pesquisa, n. 100, p. 11-36, 1997. LINN, R. Assessment-based reform: challenges to educational measurement. Princeton, NJ: Educational Testing Service (William H. Angoff Memorial Lecture Series), 1995. MEC/SEMTEC. Parâmetros Curriculares Nacionais - Ensino Médio. 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Arrisco a completar que Bachelard mereceu apupos do diretor, por ter travado batalha silenciosa com o Pai da Psicanálise em defesa da centralidade da busca pelo conhecimento como essência da humanidade. O fogo é o símbolo de Conhecimento Escolar: Ciência e Cotidiano, cuja inquietude nos mantém acorrentados à sua narrativa autêntica. A autora, Alice Casimiro Lopes, não admite discutir temas do currículo acoplados ao conteudismo acachapante e desmobilizador que predomina no senso comum de certos professores, interpretadores de receitas transpostas às suas bases de atuação. Combinando uma capacidade argumentativa sólida e uma envolvente discursividade, a autora nos presenteia com competente crítica a duas posições que considera extremadas, dentro do espectro que abrange a área de currículo atualmente: uma conteudista e a outra relativista, chegando mesmo a combater um pseudo-enfoque interdisciplinar que acomete o ideário educacional nos nossos tempos. Seu plano de obra assenta-se preponderantemente em referenciais teóricos bachelardianos e marxistas, constituindo-se em crítica contundente ao monismo como base de pensamento e ao empirismo dissociado da teoria, situando ambos como motores do método científico a serviço de uma só Razão. Advoga a autora em favor da pluralidade de saberes e da descontinuidade como elemento essencial da construção do conhecimento científico, que articuladamente podem servir de sustentação para projetos curriculares mais comprometidos com uma sociedade autenticamente democrática. Tal temática complexa e mobilizadora não pode estar à margem da discussão do Ensino de Ciências e nisso Alice Lopes demonstra novamente grande talento, pois é capaz de contextualizar boa parte dos assuntos abor- QUÍMICA NOVA NA ESCOLA dados, como teoria do conhecimento, cultura, cotidiano, disciplinas, num eixo elementar como é o caso das ciências físicas. Trata-se portanto de uma excelente oportunidade para reconhecer e se apropriar de conceitos centrais na química e na física com outros da sociologia e da epistemologia, o que não pode ser desconsiderado por educadores de modo geral, e os da química em particular. Resta colocar dois senões na produção da obra, que certamente a fariam muito mais agradável à leitura do professor. Índices onomásticos e temáticos são imprescindíveis em textos dessa natureza e suas ausências prejudicam sua leitura. A posição das notas são sempre uma questão de hábito; de minha parte, prefiro-as no rodapé, pois vejo facilitado em muito o diálogo do leitor com o autor, especialmente quando esse se digna a apresentar seus interlocutores, como é o caso exemplar desse texto. (Marcelo Giordan - FE-USP) Conhecimento Escolar: Ciência e Cotidiano. Alice C. Lopes. Rio de Janeiro: Editora da UERJ, 1999. 236 p. ISBN 85-85881-71-2. O ENEM e o Ensino Médio N° 10, NOVEMBRO 1999