ESPAÇO ABERTO
O
no Contexto das Políticas
para o Ensino Médio
Creso Franco
Alícia Bonamino
A seção “Espaço aberto” visa abordar questões sobre educação, de
um modo geral, que sejam de interesse dos professores de química.
Neste artigo, os autores analisam o Exame Nacional do Ensino
Médio (ENEM) e sua inserção no contexto maior das atuais políticas
para o ensino médio. Embora argumentem que o tema ainda exige
muitos estudos sistemáticos, os autores procuram identificar certas
tendências e explorar possíveis implicações dessa iniciativa para a
educação brasileira.
26
o ingresso no mundo do trabalho. Nesse contexto, o MEC destaca como
justificativa principal para a reforma do
ensino médio a necessidade de construção de um sistema educacional flexível, que evite exigir dos jovens opções
precoces de profissionalização, mantendo para os trabalhadores adultos
portas abertas para o prosseguimento
da educação ao longo da vida.
avaliação, currículo, ensino médio, exame nacional
São esses os princípios básicos
que orientam as reformas curriculares
e organizacionais do ensino médio,
especialmente a polêmica proposta de
década de 90 foi marcada pela
desenvolver. Apresentamos inicialmenorganização dos conteúdos técnicoemergência de sistemas de
te uma visão geral das políticas oficiais
profissionalizantes das escolas técniavaliação na América Latina.
voltadas para a reforma do ensino
cas federais numa forma modular —
No Brasil, em particular, houve iniciamédio. Em seguida, apresentamos
e a exigência de que os candidatos a
tivas voltadas para a consolidação do
nossa análise do ENEM. Concluímos
essas escolas optem pelo curso técSistema de Avaliação da Educação
discutindo possíveis implicações do
nico (núcleo comum + formação espeBásica (SAEB), a criação do Provão e
ENEM para a educação básica.
cífica) ou pelo nível médio de educação
do ENEM. O significado geral dessas
geral (Salm e Fogaça, 1999).
Políticas para o ensino médio
iniciativas é polêmico e a literatura eduAfora a reforma do ensino técnico,
entre as atuais políticas dirigidas ao
Um dos aspectos mais destacados
cacional tem refletido os diferentes
ensino médio destacam-se: os marcos
pela literatura educacional atual diz
pontos de vista acerca desse tema
legais estabelecidos pela nova Lei de
respeito aos requisitos de escolaridade
(Bomeny, 1997; Castro e Carnoy, 1997;
Diretrizes e Bases da Educação Nacioderivados
da
revolução
tecnológica,
Franco e Frigotto, 1997; Lauglo, 1997;
nal (LDB), lei nº 9.394 de 20/12/96, a
que
estaria
a
exigir
uma
população
Moreira, 1995; Torres, 1996). Em outro
reorganização curricular introduzida
com,
pelo
menos,
educação
básica
artigo, desenvolvemos o ponto de vista
pelas Diretrizes Curriculares Nacionais
completa.
Nesse
contexto,
o
ensino
de que o aprofundamento das discuspara o Ensino
médio,
incluindo
o
ensino
sões gerais sobre o papel da avaliação
Médio (DCNEM
técnico,
ganha
destaque
Um
dos
aspectos
mais
nas políticas educacionais deveria
— 1998) e, mais
nas
reformas
educacionais.
destacados
pela
incluir a produção de pesquisas que
recentemente,
No caso brasileiro, o ensino
literatura
educacional
examinassem detidamente experiênpelos Parâmemédio encontra-se ao mesatual
diz
respeito
aos
cias de avaliação. No mesmo artigo,
tros Curriculamo tempo limitado pelo derequisitos
de
fizemos uma análise do processo de
res Nacionais
sempenho do ensino fundaescolaridade derivados
institucionalização do SAEB (Bonamipara o Ensino
mental e pressionado pelos
da revolução
no e Franco, 1999).
Médio (PCNEM
requisitos para o ingresso
tecnológica, que
O ENEM foi realizado pela primeira
— 1999).
no ensino superior.
estaria a exigir uma
vez em 1998. Muito embora ainda não
Pela nova
Além dessas dificuldapopulação com, pelo
haja condições de apresentar um estuLDB, o ensino
des, o ensino médio defronmenos, educação
do sistemático acerca do significado
médio passa a
ta com duas expectativas:
básica completa
desse exame, já é possível identificar
ser concebido
de um lado, deve completar
certas tendências, visualizar trajetórias
como etapa final
a educação básica, prepae explorar possíveis implicações dessa
da educação básica (art. 35), a ser
rando os jovens para a continuidade
iniciativa para a educação brasileira —
efetivado mediante o dever do Estado
dos estudos em nível superior; de
de garantir a progressiva obrigatodimensões que este artigo pretende
outro, deve preparar esses jovens para
A
QUÍMICA NOVA NA ESCOLA
O ENEM e o Ensino Médio N° 10, NOVEMBRO 1999
riedade e gratuidade desse nível de
prevalência da dimensão científico-teca política de igualdade e a ética da
educação (inciso II do art. 40), com a
nológica sobre a humanista, já que se
identidade deverão fundamentar um
finalidade de consolidar e aprofundar
trata de preparar o educando não apenovo conceito de ensino médio. A esténo educando os conhecimentos adquinas para o trabalho, mas também para
tica da sensibilidade pretende funcioridos no ensino fundamental e de fora cidadania e para seu desenvolvinar como uma alternativa à repetição
necer-lhe preparação básica para o
mento como pessoa humana (art. 35).
e à padronização do ensino, um altertrabalho e a cidadania (art. 35).
É no artigo 26 que a nova LDB denativa que dê lugar à criatividade, ao
Essas regulamentações introdutermina que o currículo do ensino
espírito inventivo, à curiosidade pelo
zem alterações que precisam ser comédio seja construído sobre uma base
inusitado e à afetividade. Essas dimenmentadas. Por um lado, a concepção
nacional comum a ser complemensões, por sua vez, precisam estar
do ensino médio como etapa final da
tada, no âmbito de cada sistema de
apoiadas por “identidades capazes de
educação básica avança positivamenensino e de cada escola, por uma parte
suportar a inquietação, conviver com
te na direção de um sistema nacional
diversificada — como, de resto, já vem
o incerto e o imprevisível, acolher e
de educação estabelecido sobre direocorrendo desde a legislação anterior,
conviver com a diversidade, valorizar
trizes e bases comuns, numa perspecsubstituída pela nova LDB.
a qualidade, a delicadeza, a sutileza.
tiva abrangente e universalizada.
O estabelecimento dessa base curA política da igualdade no acesso aos
A idéia de progressiva obrigatoriericular nacional comum coube, em
bens sociais e culturais, o reconhecidade e gratuidade,
primeira instância, ao
mento e o exercício dos direitos humaassim como a de forConselho Nacional de
nos e dos deveres e direitos da cidaDo ponto de vista
mação básica para a
Educação (CNE) e,
dania, o respeito ao bem comum, o
curricular, a LDB
cidadania e o trabaposteriormente, ao
protagonismo e a responsabilidade no
propõe uma educação
lho, articula-se com
MEC. Com efeito, o Paâmbito político e privado; o reconhecicomum de base
essa direção na merecer CEB nº 15/98, de
mento, respeito e acolhimento da idencientífico-tecnológica e
dida em que propõe
01/06/98, apresentou,
tidade do outro; a solidariedade, a reshumanista, não
uma formação geral
inicialmente, a proposponsabilidade e a reciprocidade como
havendo prevalência
comum, cuja consista de regulamentação
orientadora dos atos da vida devem ser
da dimensão científicotência envolve uma
da base curricular naprincípios que informem todo o ato de
tecnológica sobre a
escolaridade mais
cional e de organizaensinar e de aprender.”1
humanista
As propostas incluídas nas DCNEM
prolongada. Em conção do ensino médio e
abrangem a interdisciplinaridade,
junto, essas concepteve como relatora a
concebida como relações entre as
ções articulam-se em torno da idéia de
conselheira Guiomar Namo de Mello.
disciplinas, de modo a integrar as comterminalidade do ensino médio, conPosteriormente, a Resolução nº 03/98,
petências que cada disciplina desencorrendo para a busca de sua identide 26/06/98, da Câmara de Educação
volve, a contextualização do conhecidade, para a ruptura da organização
Básica do Conselho Nacional de Edumento, concebida tanto como concredualista de escolas profissionais, de
cação, instituiu as Diretrizes Curricutização dos conteúdos em situações
um lado, e das escolas de ciências e
lares Nacionais do Ensino Médio
próximas e vivenciais quanto como
humanidades, de outro, e ainda para
(DCNEM), consubstanciadas num
articulação entre teoa desconstrução da amesquinhada e
conjunto de definições
ria e prática e, ainda,
consagrada visão de que o papel do
doutrinárias sobre
Um novo conceito de
como instrumento peensino médio é garantir o acesso ao
princípios, fundaensino médio deverá
dagógico capaz de
ensino superior.
mentos e procediser fundamentado na
atribuir significado ao
É importante mencionar, entretanto,
mentos a serem
estética da
que a dupla obrigatoriedade (do Estaobservados na organiconhecimento escolar.
sensibilidade (dando
do e do educando) de escolaridade de
zação pedagógica e
No plano cognitilugar à criatividade, ao
nível médio, consagrada originariacurricular das escolas
vo, as DCNEM limiespírito inventivo, à
mente na Constituição de 1988, foi
integrantes dos sistetam-se a propor três
curiosidade pelo
alterada pela Emenda Constitucional
mas de ensino médio.
grandes áreas de coinusitado e à
nº 14/96, mediante o entendimento de
Num texto de alto
nhecimento — “Linafetividade), na política
que o ensino médio deixa de ser obriteor literário e de difícil
guagens e Códigos”;
de igualdade e na ética
gatório para as pessoas, enquanto é
tradução legal e ope“Ciências da Natureza
da identidade
dever do Estado oferecê-lo para todos
racionalização matee Matemática” e
aqueles que o desejarem. Essa reforrial, as DCNEM postu“Ciências Humanas”
mulação relativiza a obrigatoriedade e
lam três tipos de princípios — esté— que incluem as tecnologias correo compromisso do Estado com a uniticos, políticos e éticos — que, assolatas.
versalização desse nível de ensino.
ciados respectivamente à sensibiliEssas limitações das DCNEM talDo ponto de vista curricular, a LDB
dade, à igualdade e à identidade,
vez ajudem a entender o fato de o MEC
propõe uma educação comum de badeverão nortear a prática administrater tomado para si a tarefa de definir,
se científico-tecnológica e humanista.
tiva, pedagógica e financeira das espara o currículo do ensino médio, um
(art. 36). Apesar dos diferentes entencolas e dos sistemas de ensino.
novo perfil que parte dos princípios dedimentos do texto legal, não há nele
Assim, a estética da sensibilidade,
finidos na LDB e propõe uma organiQUÍMICA NOVA NA ESCOLA
O ENEM e o Ensino Médio N° 10, NOVEMBRO 1999
27
28
zação apoiada em competências básipela primeira vez em 1998, destinado
Os PCNEM mantêm a organização
cas. Talvez o baixo perfil operacional
aos alunos em vias de concluir ou que
curricular em três áreas, como previsto
das DCNEM explique também o fato
já tenham concluído o ensino médio.
nas DCNEM, e em todas elas é prode que a primeira versão dos PCNEM
Trata-se de um exame opcional para
posto ou um tratamento interdisciplinar
tenha sido elaborada sob a coordeos alunos, cuja inscrição custa 20 reais
e contextualizado do conhecimento, ou
nação do então diretor do Departa(cerca de 11 dólares). Seus objetivos
o desenvolvimento de competências e
mento de Desenvolvimento de Educasão (INEP/MEC 1999a):
habilidades, ou ainda a apropriação
ção Média e Tecnológica, prof. Ruy
das tecnologias produzidas ou utiliO objetivo fundamental de
Berger.
zadas pelos conhecimentos da área.
avaliar o desempenho do aluno
Os PCNEM, na linha das diretrizes
Na área de “Linguagem, Códigos
ao término da escolaridade
curriculares, afirmam buscar se contrae suas Tecnologias”, a prioridade é
básica, para aferir o desenvolvipor ao ensino descontextualizado,
dada à língua portuguesa, embora
mento das competências fundacompartimentado e baseado no acúdestaque também a
mentais ao exercímulo de informações, propondo um
importância do domício pleno da cidaOs PCNEM
conhecimento escolar significativo,
nio de línguas estrandania. Pretende,
incorporam, como
contextualizado e interdisciplinar. Esgeiras e estejam preainda, alcançar os
diretrizes gerais e
ses parâmetros seguem uma orientasentes a informática e
seguintes objetivos
orientadoras da
ção mais operacional e próxima a seus
as artes. Incluem-se
específicos:
proposta curricular, as
equivalentes para o currículo da escotambém as atividades
a. oferecer uma
quatro premissas da
la fundamental, já que, além de difunfísicas e desportivas
referência para que
Unesco para a
dir os princípios da reforma curricular,
como formas de cocada cidadão poseducação na
visam orientar o professor na busca de
municação e expressa proceder à sua
sociedade
novas abordagens e metodologias de
são (CEB/CNE, 1998,
auto-avaliação com
contemporânea:
ensino.
p. 21).
vista às escolhas
aprender a conhecer,
Os PCNEM partem do pressuposto
A aprendizagem
futuras, tanto em
de que a reforma curricular deve conda área de “Ciências
aprender a fazer,
relação ao mercatemplar conteúdos e estratégias de
da Natureza, Mateaprender a viver e
do de trabalho
aprendizagem que capacitem o aluno
mática e suas Tecnoaprender a ser
quanto em relação
para a realização de atividades “nos
logias” inclui a comà continuidade de
três domínios da ação humana: a vida
preensão e a utilização dos conheciestudos;
em sociedade, a atividade produtiva e
mentos científicos, para explicar o funb. estruturar uma avaliação da
a experiência subjetiva, visando intecionamento do mundo e para planeeducação básica que sirva cogração de homens e mulheres no tríjar, executar e avaliar as ações de intermo modalidade alternativa ou
plice universo das relações políticas,
venção na realidade (CEB/CNE, 1998).
complementar aos processos
do trabalho e da simbolização subjePor último, a área de “Ciências Hude seleção nos diferentes setotiva” (p. 16).
manas e suas Tecnologias”, que englores do mundo do trabalho;
Nessa perspectiva, os PCNEM
ba também a filosofia, visa desenvolver
c. estruturar uma avaliação da
incorporam, como diretrizes gerais e
no aluno competências e habilidades
educação básica que sirva coorientadoras da propara a compreensão
mo modalidade alternativa ou
posta curricular, as
da sociedade como
Os PCNEM, na linha
complementar aos exames de
quatro premissas da
uma construção hudas diretrizes
acesso aos cursos profissionaUnesco para a
mana e dotada de hiscurriculares, afirmam
lizantes pós-médios e ao ensino
educação na societoricidade; para que
buscar se contrapor ao
superior.
dade contemporâcompreenda o espaço
ensino
nea: aprender a coocupado pelo homem,
Já em seu segundo ano de operadescontextualizado,
nhecer, na perspecenquanto espaço
cionalização, o ENEM passou a ser
compartimentado e
tiva da educação geconstruído e consumiutilizado como modalidade alternativa,
baseado
no acúmulo
ral e da educação
do, e os espaços de
de modo integral ou parcial, para sede informações,
permanente; aprensociabilidade humana
leção a vagas disponibilizadas por 61
propondo um
der a fazer, entendida
em âmbito coletivo, e
instituições de ensino superior, incluinconhecimento escolar
como aplicação prápara que construa a si
do algumas universidades de elevado
significativo,
tica da teoria; aprenpróprio como agente
prestígio acadêmico. Muito embora a
contextualizado e
der a viver, no sentido
social que intervém na
utilização do ENEM no processo seleinterdisciplinar
do reconhecimento
sociedade, entre outivo de algumas instituições tenha
da interdependência
tras propostas da área
implicado polêmicas no seio de campi
humana, e aprender a ser, como
universitários (Krasilchik, 1999), preva(CEB/CNE, 1998: 22).
compromisso com o desenvolvimento
leceu a adesão e, com isso, o número
O ENEM
integral da pessoa, o que supõe
de inscritos efetivamente realizando o
autonomia intelectual e capacidade
exame subiu de cerca de 110 mil em
O Exame Nacional do Ensino Médio
crítica.
1998 para mais de 320 mil em 1999.
(ENEM) é um exame anual, aplicado
QUÍMICA NOVA NA ESCOLA
O ENEM e o Ensino Médio N° 10, NOVEMBRO 1999
feiçoam-se e articulam-se, posrelacionar e interpretar dados e
O ENEM tem buscado estreitar
sibilitando nova reorganização
informações representados de
relações com as iniciativas voltadas
das competências.
diferentes formas, para enfrentar
para a reforma do ensino médio no
situações-problema, segundo
Brasil. Por ser uma iniciativa extreInsiste-se que a competência de leiuma visão crítica com vista à
mamente recente, é difícil apresentar
tura, escrita, interpretação e expressão
tomada de decisões.
uma avaliação precisa do significado
não se desenvolve exclusivamente no
IV. Organizar informações e
do ENEM no âmbito da educação
âmbito do ensino e da aprendizagem
conhecimentos
disponíveis em
brasileira. No entanto, essa iniciativa
da língua portuguesa, estando
situações
concretas,
para a
parece estar assopresente no conjunto
construção
de
argumentações
ciada à perspectiva de
das atividades pedaA confecção do ENEM
consistentes.
“reforma fomentada
gógicas. A operacioé orientada por cinco
V. Recorrer aos conhecipela avaliação” (Linn,
nalização do ideal de
competências globais,
mentos
desenvolvidos na escola
1995). A mencionada
rompimento do isolaas quais são
para
elaboração
de propostas
utilização de resulmento das áreas e
desdobradas em 21
de intervenção solidária na realitados do ENEM em
disciplinas é desenhabilidades, que, por
dade, considerando a diversiprocessos seletivos
volvida precisamente
sua vez, fornecem as
dade sociocultural como inerenpara o ensino superior
pelo papel que pode
bases para as 63
te à condição humana no tempo
é um dado relevante
ser desempenhado
e no espaço.
questões do exame, de
na medida em que
pela linguagem, inmodo que cada
Essas competências globais são
avaliações que precluindo a linguagem
habilidade seja testada
desdobradas em 21 habilidades, fortendam catalisar reformatemática,
no
cotipor três questões
muladas de modo articulado com os
mas precisam ter prediano da escola. Por
conteúdos curriculares do ensino funsença expressiva no
essa via, estimulamdamental e médio. As habilidades forcotidiano do nível de ensino alvo de
se integrações entre as disciplinas que
necem as bases para a preparação
propostas de reforma.
estão aquém dos padrões de interação
das 63 questões, de modo que cada
capazes de efetivamente romper o
O exame consiste de uma prova de
habilidade seja testada por três quesinsulamento das disciplinas escolares
múltipla escolha, contendo 63 questões,
tões. Deve ser enfatizado que da articu(Young, 1998). Em outras palavras,
e de uma redação. A preparação da
oferecem-se como passaporte à
lação entre competências e conteúdos
prova baseia-se em uma matriz de commodernidade interações que, embora
curriculares emergem habilidades que,
petências elaborada para o ENEM. A
necessárias,
são
básicas
e
só
deixam
em sua grande maioria, privilegiam o
confecção dessa matriz objetivava
de
estar
presentes
desde
longa
data
ensino de ciências, em detrimento dos
romper com o isolamento das discino
cotidiano
de
todas
as
escolas
por
temas sociais. Ainda com relação à
plinas do ensino médio e promover a
carências
estruturais
do
sistema
eduanálise das habilidades, deve ser des“colaboração, complementaridade e
2
cacional
brasileiro
.
O
Documento
Bátacado que há tanto orientações sintointegração entre os conteúdos das disico
do
ENEM
apresenta
cinco
comnizadas com posições desenvolvidas
versas áreas do conhecimento presenpetências globais, que orientam a conpor pesquisadores ligados às didáticas
tes nas propostas curriculares das escofecção dos instrumentos do exame.
específicas, em especial na área de
las brasileiras de ensino fundamental e
São elas (INEP/MEC
ciências, quanto tenmédio” (MEC/SEMTEC, 1999). A matriz
1999a):
dências claramente
O ENEM, que tem
estrutura-se a partir dos conceitos de
regressivas, como a
I. Demonstrar
buscado estreitar
competência e de habilidades associaque articula o papel
domínio básico da
relações com as
das aos conteúdos do ensino fundada literatura na educanorma culta da
iniciativas voltadas
mental e médio. Esses conceitos são
ção com a identificalíngua portuguesa e
para a reforma do
apresentados no Documento Básico do
ção de movimentos
do uso das difeensino médio no
ENEM (INEP/MEC 1999a):
literários.
rentes linguagens:
Brasil, parece estar
Esses fatores relaCompetências são as modalimatemática, artístiassociado à
tivizam
a noção de
dades estruturais da inteligência,
ca, científica etc.
perspectiva de
que
o
ENEM
estaria
ou melhor, ações e operações
II. Construir e
‘reforma fomentada
sintonizado
com
um
que utilizamos para estabelecer
aplicar conceitos
pela avaliação’
movimento de renovarelações com e entre objetos, sidas várias áreas do
ção e modernização
tuações, fenômenos e pessoas
conhecimento
para
a
progressista da educação básica.
que desejamos conhecer. As
compreensão de fenômenos
Além disso, a consolidação do ENEM
habilidades decorrem das comnaturais, de processos históricocomo uma referência nacional para
petências adquiridas e referemgeográficos, da produção
acesso ao ensino superior e ao ensino
tecnológica e das manifestase ao plano imediato do ‘saber
pós-médio concentraria, de maneira
ções artísticas.
fazer’. Através das ações e
inusitada no país, a influência da
III. Selecionar, organizar,
operações, as habilidades aperQUÍMICA NOVA NA ESCOLA
O ENEM e o Ensino Médio N° 10, NOVEMBRO 1999
29
30
avaliação no ensino médio. Isso parefunda discussão sobre o assunto, ance problemático, a julgar pela influência
tes de entrar, apressadamente, em
negativa de avaliações centralizadas
uma empreitada em que há tantos
de acesso ao ensino superior, em
aspectos controversos”.
âmbito regional, na década de 70 e em
Conclusões
parte da década de 80. Contrastando
com nossa cautela na avaliação inicial
Em diversas passagens deste artido ENEM, houve recepção positiva
go enfatizamos que o ENEM é uma
desse exame por parte de alguns
iniciativa recente, o que tem dificultado
atores formadores de opinião, em esa análise de seu significado. Foi ainda
pecial os vinculados à imprensa. Esses
destacado que o ENEM parece ter a
atores vislumbram no ENEM uma
função de fomentar a reforma do ensialternativa ao caráter
no médio. A evolução
formalista e ultraA implementação de
do ENEM, bem como
passado do ensino
medidas de política
a análise de suas
médio e do vestibular.
educacional para o
características consA mencionada dititutivas, indicam a
ensino médio tem sido
vergência de posicioplausibilidade desse
feita de modo tal que
namento reflete, ao
tipo de análise. No
os instrumentos
menos em parte, o
entanto, faz-se necesnormativos mais
caráter ainda bassário levar em consiespecíficos reorientam
tante inicial da análise
deração que as políos mais gerais. No
do significado do
ticas públicas de
ENEM, enfatiza-se
ENEM no contexto
avaliação da educahabilidades
das políticas públicas
ção tiveram grande
relacionadas com a
de educação. A resdesenvolvimento nos
área de ciências, a
peito especificamente
últimos anos. Já no
despeito da LDB e das
do aproveitamento do
que se refere às iniciaDCEM equacionarem
ENEM como parte do
tivas de reforma educiências e
processo seletivo pacacional, as atenções
humanidades de forma
ra entrada no ensino
do MEC concentrabalanceada
superior, é importante
ram-se inicialmente no
considerar as refleensino fundamental,
xões de Krasilchik (1999) sobre o vessó se voltando para as questões do
tibular da USP. Essa autora questionou
ensino médio mais recentemente.
a forma de tomada de decisão por
Muito embora haja evidências de que
parte da universidade, enfatizou as limio componente de avaliação da política
tações de reformas baseadas em avaeducacional tenha mantido interações
liações como estratégia para a mee articulações com os demais aspeclhoria do ensino e concluiu perguntos da política educacional, é inegável
tando se não seria mais adequado que
que no caso do ensino médio a avaliação deslanchou à frente dos demais
a universidade fizesse “ampla e pro-
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QUÍMICA NOVA NA ESCOLA
aspectos da política. Por isso, é
provável que haja ajustes importantes
a fazer entre a avaliação e a reforma
do ensino médio, com implicações que
podem repercutir no próprio
desenvolvimento do ENEM.
Finalmente, deve ser destacado
que a implementação de medidas de
política educacional para o ensino médio tem sido feita de modo tal que os
instrumentos normativos mais específicos reorientam os mais gerais, característica já observada por Cunha (1997)
em sua análise da reforma do ensino
superior. No caso do ensino médio, o
exemplo mais gritante desse tipo de
reorientação refere-se à ênfase da matriz de competências do ENEM em
habilidades relacionadas com a área
de ciências, a despeito de os textos
da LDB e das DCEM equacionarem de
forma balanceada o papel das linguagens das ciências e das humanidades
no ensino nédio.
Creso Franco, licenciado em física e doutor em
educação, é professor do Departamento de
Educação da PUC-RJ e pesquisador do MAST/CNPq.
Alícia Bonamino, licenciada em pedagogia e
mestre em educação, é professora do Departamento
de Educação da PUC-RJ.
Notas
1. CEB/CNE. Diretrizes Curriculares
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2. A discussão sobre as características das interações capazes de romper
o insulamento disciplinar e sintonizadas com as exigências contemporâneas estão além dos objetivos do presente artigo, mas são desenvolvidas
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Para saber mais
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TORRES, R.M. Melhorar a
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Cortez, 1996.
Resenha
31
Conhecimento Escolar:
Ciência e Cotidiano
Recentemente em entrevista ao
Roda Viva da TV Cultura, o inquieto e
polêmico diretor teatral Antunes Filho
provocou mais uma vez a humanidade
exaltando o complexo de Prometeu e
minorando o de Édipo, pedindo desculpas a Freud. Arrisco a completar
que Bachelard mereceu apupos do
diretor, por ter travado batalha silenciosa com o Pai da Psicanálise em defesa
da centralidade da busca pelo conhecimento como essência da humanidade.
O fogo é o símbolo de Conhecimento Escolar: Ciência e Cotidiano,
cuja inquietude nos mantém acorrentados à sua narrativa autêntica. A autora,
Alice Casimiro Lopes, não admite discutir temas do currículo acoplados ao
conteudismo acachapante e desmobilizador que predomina no senso
comum de certos professores, interpretadores de receitas transpostas às
suas bases de atuação. Combinando
uma capacidade argumentativa sólida
e uma envolvente discursividade, a
autora nos presenteia com competente
crítica a duas posições que considera
extremadas, dentro do espectro que
abrange a área de currículo atualmente: uma conteudista e a outra relativista, chegando mesmo a combater
um pseudo-enfoque interdisciplinar
que acomete o ideário educacional
nos nossos tempos.
Seu plano de obra assenta-se preponderantemente em referenciais
teóricos bachelardianos e marxistas,
constituindo-se em crítica contundente
ao monismo como base de pensamento e ao empirismo dissociado da
teoria, situando ambos como motores
do método científico a serviço de uma
só Razão. Advoga a autora em favor
da pluralidade de saberes e da descontinuidade como elemento essencial
da construção do conhecimento
científico, que articuladamente podem
servir de sustentação para projetos
curriculares mais comprometidos com
uma sociedade autenticamente democrática.
Tal temática complexa e mobilizadora não pode estar à margem da discussão do Ensino de Ciências e nisso
Alice Lopes demonstra novamente
grande talento, pois é capaz de contextualizar boa parte dos assuntos abor-
QUÍMICA NOVA NA ESCOLA
dados, como teoria do conhecimento,
cultura, cotidiano, disciplinas, num eixo
elementar como é o caso das ciências
físicas. Trata-se portanto de uma excelente oportunidade para reconhecer e
se apropriar de conceitos centrais na
química e na física com outros da
sociologia e da epistemologia, o que
não pode ser desconsiderado por educadores de modo geral, e os da química em particular.
Resta colocar dois senões na produção da obra, que certamente a
fariam muito mais agradável à leitura
do professor. Índices onomásticos e
temáticos são imprescindíveis em textos dessa natureza e suas ausências
prejudicam sua leitura. A posição das
notas são sempre uma questão de hábito; de minha parte, prefiro-as no
rodapé, pois vejo facilitado em muito
o diálogo do leitor com o autor, especialmente quando esse se digna a
apresentar seus interlocutores, como
é o caso exemplar desse texto.
(Marcelo Giordan - FE-USP)
Conhecimento Escolar: Ciência e
Cotidiano. Alice C. Lopes. Rio de Janeiro: Editora da UERJ, 1999. 236 p.
ISBN 85-85881-71-2.
O ENEM e o Ensino Médio N° 10, NOVEMBRO 1999
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O ENEM no contexto das políticas para o ensino médio