A PEDAGOGIA CRÍTICA DE PAULO FREIRE E AS CONSEQÜÊNCIAS DO EXÍLIO. Aparecida de França Villwock 1 Introdução O presente trabalho visa tratar da abordagem que Paulo Freire fez durante sua vida na educação, considerado como importante pensador dos problemas educacionais da realidade brasileira. Neste recorte o objetivo é mostrar um pouco concepção pedagógica do educador Paulo Freire e as possíveis consequências do exílio. Vale salientar que na educação sua tendência é reconhecida nacional e internacionalmente. Desse modo torna-se necessário conhecer sua biografia, pois ela retrata suas andanças pelo mundo, a qual resulta na evolução educacional para a classe popular. Neste intuito, partindo de uma breve contextualização do período militar, pois foi um episódio que marcou definitivamente a vida deste importante teórico, dando “oportunidade” no sentido de conhecer outros países e ter tido, neles, o notório reconhecimento internacional. No Brasil o reconhecimento de sua contribuição, sobretudo no que refere à alfabetização de jovens e adultos só aconteceu depois da abertura política pós-ditadura. No propósito de tratar destas questões buscar-se-á trabalhar um pouco sobre sua tendência pedagógica, a qual ele buscou destacar os valores de cooperação, criatividade, tolerância e respeito aos outros. Por isso que ele mesmo diz que seu propósito “não era de conceituar uma educação para a classe popular, mas de “viver” junto com a classe menos favorecida a educação”. Após uma breve fundamentação desse estudo buscar-se-á por meio das considerações finais fazer uma reflexão sobre a concepção pedagógica freireana Não esquecendo de inferir sobre o período da ditadura militar que interferiu, não somente o desenvolvimento dos seus projetos, mas do desenvolvimento educacional como um todo. 1 Aparecida de França VILLWOCK, Acadêmica do 2º ano de Pedagogia da Universidade Estadual do Oeste do Paraná – UNIOESTE. Contudo este trabalho tem por finalidade descrever sobre a pedagogia de Paulo Freire, bem como as conseqüências que o período Militar trouxe para a educação por meio deste educador. O futuro depende das escolhas que fazemos no presente, bem como conhecer o passado é extremamente importante para desenvolver novas técnicas que possam viabilizar o ensino com metodologias e conceitos atuais, de forma a garantir que escola seja pública e de qualidade. Entretanto, o maior objetivo é poder contribuir para formar uma escola de qualidade, no entanto precisamos estar atentos e conscientes ao mencionar sobre qualquer aspecto da escola que precisam ser melhorados, pois torna-se necessário reconhecer que a escola está inserida dentro de um sistema que a coordena, formata e direciona a sociedade nos seus mais diferentes aspectos. Por esse motivo que buscamos conhecer a pedagogia direcionada a educação popular e a discussão que permeia a escola no seu contexto histórico. Breve biografia de Paulo Freire “Eu gostaria de ser lembrado como alguém que amou o mundo, as pessoas, os bichos, as árvores, a terra, a água, a vida.” (Paulo Freire) De acordo com o centro Paulo Freire de estudos e pesquisas, um endereço eletrônico, o qual disponibiliza a história da vida do educador Paulo Freire, pois estudiosos da área da educação pensam que a experiência de Freire é muito relevante e deve ser conhecida por todos, devido ao seu empenho na busca pela transformação da sociedade. Desse modo toda a história neste recorte narrada, é uma exposição mostrada no site http:www.paulofreire.org.br. Paulo Reglus Neves Freire, conhecido como educador Paulo Freire nasceu em Recife estado do Pernambuco no ano de 1921. Em sua cidade natal cresceu e decidiu estudar Direito na Faculdade de Recife, porém ele não assumiu a advocacia reclinandose a área da educação. Desse modo Paulo Freire buscou nos meios sociais se relacionar com as pessoas das classes populares, na tentativa de encaminhar estudos e pesquisas em relação a educação do povo brasileiro. Paulo Freire não apenas pensou em alfabetizar o maior número possível de pessoas, mas ele pensou essencialmente em atribuir as pessoas pobres um pouco de cultura, possibilitando-os a fazer a sua leitura de mundo sem estar atrelados a idéias alheias. Pois para Freire “não basta ensinar aos alunos a decodificar as palavras, é preciso um esforço maior, e ajudar a interpretar o mundo por meio das palavras” Com um ideário transformador Paulo Freire foi um dois primeiros exilados no período ditatorial, pois se de fato ele buscava argumentar a favor de uma proposta libertadora, ele se posicionava contra a política imposta na época, e dessa forma ele não teve como permanecer no país. Passou quase 16 anos exilado, longe dos amigos, da pátria, da cultura brasileira. Ele buscou nesse momento repressivo conhecer e colaborar com a educação de outros países. Nesse sentido o primeiro país que Freire alojou-se foi o Chile onde trabalhou no Centro para estudos de Desenvolvimento e Mudança Social da Universidade de Harvard, tendo a possibilidade de mostrar um pouco de sua proposta para a educação, e ao mesmo tempo conhecendo a realidade educacional do Chile. Em seguida Freire mudou-se para Genebra na Suíça onde ele não cruzou os braços, desenvolvendo e estimulando pesquisas na busca em construir uma sociedade mais humana, com o seu revolucionário método de alfabetização. Pois seu empenho se constituía em ensinar os mais pobres, e ainda, de torná-los conhecedores das relações que os cercam, por isso ele refere-se a uma pedagogia de libertação. Esse período de exílio foi o momento em que Paulo Freire refletiu sobre sua proposta, sobre os acontecimentos marcantes do país, e assim, colocou no papel sua criação. Para muitos historiadores o exílio interrompeu o desenvolvimento de suas pesquisas, para outros, o período contundente de ditadura no Brasil fez com que ele conhecesse outras realidades, com a possibilidade de comparação entre países e a confrontação dos fatos históricos. Nesse sentido torna-se possível inferir que os dezesseis anos de exílio foram anos de muitas reflexões e produção. Sua obra A Pedagogia do Oprimido mostra por meio de uma releitura marxista caminhos para a liberdade, atitude esta que requer conhecer as relações econômicas, políticas e educacionais da sociedade. Isto é para Freire o fato do homem ter consciência das relações sociais faz de si indivíduo livre, conhecedor e além de tudo crítico. Graças a sua profunda reflexão, conclusão de idéias e talentos como escritor que o ajudou a conquistar um amplo público de pedagogos, cientistas sociais, teólogos e militantes políticos, quase sempre ligados a partidos de esquerda. Paulo Freire trabalhou, também, como professor de Língua Portuguesa, colocando em prática seu método de alfabetização, seu desenvolvimento junto a classe popular foi satisfatória, porque Paulo Freire desempenhou com amor sua função, tendo como ponto de partida o conhecimento que seus educandos traziam de casa, em outras palavras, o “censo comum”. Ele era entendido e respeitado porque seu objetivo maior era ensinar e ensinar propositalmente no intuito de preparar para transformação social, numa metamorfose de seres subjulgados para seres ideologicamente conscientes. E para Freire não há outro caminho se não a cultura. Após o período do exílio Paulo Freire retornou ao Brasil, estabelecendo-se em São Paulo, onde trabalhou na área educacional, porém Freire morreu em maio de 1997 devido a um infarto agudo do miocárdio. Dessa forma podemos refletir sobre a afirmação que se encontra na página inicial do “Centro Paulo Freire de Estudos e Pesquisas” que a história da vida de Paulo pode ser dividida em três etapas: a infância, adolescência e início da fase adulta no Recife, seguido dos 16 anos de exílio por vários países e São Paulo onde desenvolveu seus últimos estudos. Paulo Freire e a ditadura militar A Ditadura Militar2 durou 21 anos, historicamente iniciou em 31 de março de 1964 com o golpe que depôs o Presidente João Goulart e teve seu fim com a eleição indireta de Tancredo Neves e José Sarney em Janeiro de 1985. Esse período serviu de palco para consagrar a repressão das vias educacionais com a privatização do ensino e a exclusão de boa parte das classes populares. Freire representante da filosofia da Libertação foi exilado do Brasil por ser um intelectual que propunha novas idéias, o que incomodava ao contexto histórico em que o Brasil apresentava. Desse modo Paulo freire viveu e trabalhou primeiramente no Chile e depois em vários lugares como Genebra, na Suíça, países Africanos como Cabo Verde, Angola, São Tomé e Príncipe e Nicarágua na América Central. Podemos afirmar, então, que por onde passou Paulo freire deixou sua marca como educador comprometido com as classes oprimidas. Do período do exílio culminou como obra preponderante de seu trabalho a “Pedagogia do Oprimido”, o qual ele expõe a sociedade quando retorna ao Brasil após a ditadura. Nesse mesmo momento ele retoma suas atividades na 2 Podemos definir a Ditadura Militar como sendo o período da política brasileira em que os militares governaram o Brasil. Esta época vai de 1964 a 1985. Caracterizou-se pela falta de democracia, supressão de direitos constitucionais, censura, perseguição política e repressão aos que eram contra o regime militar. universidade assumindo, também, cargos políticos, sempre num viés de educação pela via da conscientização. Freire analisa a sociedade pautada na fundamentação marxista de que vivemos em uma sociedade dividida em classes sociais: aqueles que estão em situação de domínio por meio do poder e aqueles, compreendidos pela grande maioria, que vivem sob ordens e decisões tomadas pelos outros, nada mais que a famosa “opressão desmedida”. Nesse sentido a teoria de Paulo Freire na Pedagogia do Oprimido quer dizer primeiro que ser oprimido significa estar subjugado, não apenas, economicamente, mas principalmente culturalmente, ao passo que o sujeito não é respeitado em suas manifestações cultuais compreendidas pelos valores, linguagem, religião, dentre outras, o que faz com que sua voz não seja ouvida na sociedade, portanto, o sujeito oprimido não é considerado como um agente ativo da história. O assustador para a Pedagogia da Libertação de Freire é que apesar da condição de oprimido ser considerada complexa, o sujeito considera “natural” existir a divisão dos que mandam e dos que são mandados3. O sentido da Pedagogia da Libertação requer para Paulo Freire uma educação, eminentemente, consciente e crítica, com o objetivo de mobilizar internamente para a luta pela transformação da sociedade, resultando, portanto, em uma educação essencialmente política. Dessa forma Freire (1980) afirma que “além do estudo do conhecimento da aquisição de habilidades, a escola tem papel fundamental na construção de sujeitos autônomos, críticos e em condições para lutar pela transformação da sociedade”. Pois torna-se necessário, neste cenário, compreender que a escola está inserida no contexto da divisão de classes e com isso, com suas contradições. É nesta ocasião que Freire afirma dizer, que é a “reflexão e a ação dos homens sobre o mundo que faz a transformação acontecer, sem esses dois atos a superação da condição opressor e oprimido é impossível”. (FREIRE, 1997, p. 38) A educação é uma prática humana direcionada por uma determinada concepção teórica. A prática pedagógica está articulada com uma pedagogia, que nada mais é que 3 A expressão requer conhecer sobre a visão fatalista. Fatalismo é, em geral, a visão que afirma que todos os eventos na história do mundo, e, em particular, as acções e os incidentes que compõem a história de cada vida, são determinados pela fatalidade, ou seja, o que é pra ser, será. uma concepção filosófica da educação. Tal concepção ordena os elementos que direcionam a prática educacional. (OLIVEIRA e MACHADO, 2009, p.183) Com a concepção de homem e de sociedade a pedagogia de Paulo Freire nasce no sentido de contribuir para a criação de homens e mulheres “livres”, abertos para a vida, para novos conhecimentos e experiências, num projeto de um mundo onde todos serão mais felizes e não, apenas, alguns. Permeados no capitalismo, muitos adeptos criticam Paulo Freire e sua proposta pedagógica caracterizando, como já foi dito anteriormente, um educador utópico ou sonhador. Porém este autor, pensador, educador e político responde a altura de sua teoria: “(...) Não há amanhã sem projeto, sem sonho, sem utopia, sem esperança, sem o trabalho de criação e desenvolvimento de possibilidades que viabilizem a sua concretização. O meu discurso em favor do sonho, da utopia, da liberdade, da democracia é o discurso de quem recusa a acomodação e não deixa morrer em si o gosto de ser gente, que o fatalismo deteriora”. (FREIRE, 2001, p.86). Tendência Pedagógica norteada por Paulo Freire A descoberta da racionalidade fez com que o homem desse um salto em relação aos problemas mais comuns (a ciência propriamente dita). Essa descoberta proporcionou ao homem a possibilidade de buscar resposta por outro viés, diferente do mito, ou seja, a razão. Para a igreja era mais fácil explicar, ou nem explanar certos problemas de ordem social e atribuir a responsabilidade aos deuses através da fé. (ANDERI, 2007, p. 211) Porém com o passar dos anos e com as mais diferentes perspectivas dos filósofos e estudiosos, notou-se que o pensamento, ou a reflexão precisava ter certa “linearidade”. Ou seja, um método para melhor estruturar o exercício do pensamento escolar que busca por fim o entendimento das coisas, das pessoas e do mundo por um olhar crítico. Nesse sentido a filosofia em consonância com a história nos seus mais diferentes aspectos, propõe um pensar histórico, crítico e criativo, no qual culminou em discussões sobre os mais diferentes problemas da vida. Parece fácil referir-se a fatos do cotidiano, o que parece, também, anti-científico, mas nessa perspectiva a filosofia trabalha os problemas submersos no senso comum com um olhar voltado para a ciência no objetivo de comprovar as conclusões delas retiradas. As atitudes têm grande interferência do meio social que estamos inseridos. O sistema capitalista numa forte trajetória de sufocação do feudalismo, marca a história com a revolução industrial e assim predomina gritantemente com a concentração do capital e o massacre invisível aos olhos não atentos, ratificando o ditado popular que “é melhor pingar do que secar”. Muito embora, é desse meio social tão desigual que reflete a escola e nela os sentimentos mais comuns de felicidade, tristeza, incertezas, buscas, injustiças, etc. E, é nessa perspectiva que buscamos respostas para as mais inquietantes questões do cotidiano. (ANDERI, 2007, p. 161). Com relação a esta realidade crítica e criativa lançada pelo escolanovismo, Paulo Freire buscou construir com uma educação voltada ao desenvolvimento do conhecimento da classe popular, o que permite considerá-lo como um sujeito histórico, que lutou por seus objetivos, colaborando para que a educação brasileira contribuísse para a felicidade das pessoas. Paulo Freire foi educador e Filósofo brasileiro muito reconhecido nacional e internacionalmente, com a sua pedagogia voltada a classe popular, ele buscou a compreensão profunda com a realidade educacional. Sua tarefa consiste em compreender um trabalho de reflexão radical, rigoroso e de conjunto sobre os aspectos fundamentais da educação: pressupostos, conteúdos, métodos, e objetivos, tendo em vista o desenvolvimento da educação. Saviani comenta sobre sua contribuição para a educação Paulo Freire foi, com certeza, um dos nossos maiores educadores, entre os poucos que lograram reconhecimento internacional. Sua figura carismática provoca adesões, por vezes de caráter pré-crítico, em contraste com o que postulava sua pedagogia. Após a sua morte ocorrida em 1997, a uma maior distância, sua obra deverá ser objeto de análise mais isentas, evidenciando-se mais claramente o seu significado no nosso contexto. Qualquer que seja, porém, a avaliação a que se chegue, é irrecusável o reconhecimento de sua coerência na luta pela educação dos deserdados e oprimidos que no início do século XX, no contexto da “globalização neo-liberal” compõe a massa crescente dos excluídos. Por isso seu nome permanecerá de uma pedagogia progressista e de esquerda. (2007, p. 333) Entendemos a concepção Freireana, pois no princípio de sua intelectualidade podemos observar que Paulo Freire buscava muitas respostas calcadas na fé, ou seja, sua concepção de mundo era guiada pelo cristianismo e logo no existencialismo. Porém aos poucos Freire começa a estudar e a se desenvolver dentro da ideologia marxista. Por se tornar tradicionalmente marxista é que ele se aproxima da classe trabalhadora e começa a observar como acontece o processo educacional para a classe menos favorecida. Desse modo Paulo Freire pensa em uma escola para a população, uma “escola popular” que propõe educar por meio de experiências reais dos alunos. Para Paulo Freire a educação não é neutra, educar é, portanto, estar a favor ou contra uma concepção de mundo, por isso que conhecer os aspectos políticos se tornam importantes nesse contexto. Ao inferir sobre escola, logo remetemos as escolas que costumamos enxergar em nossa sociedade, porém vale ressaltar, que a teoria desse educador não está estruturada para a escola formal, pois ele defende que a escola formal não transforma a sociedade, ele comunga da concepção de ALTHUSSER (1998, p. 12.) de que a escola nada mais é que “um aparelho Ideológico do Estado”4, por isso que ele privilegia o contexto fora de sala. Para Paulo Freire (2001) “a escola é um lugar onde se faz amigos. Não se trata de prédios, salas, quadro, programas, horários, conceitos”. A escola é especialmente um lugar onde todos se reconhecem como gente, no qual o diretor não é maior que os professores, nem os professores são maiores que os alunos, ou seja, todos são iguais, embora os sentimentos sejam diferentes. Na construção histórica da vida de Paulo Freire (1921-1997) podemos observar que os grandes educadores que dedicaram suas vidas ao estudo e a experimentação de formas de educação, que em sua totalidade requer tornar as pessoas mais livres, responsáveis, criativas e autônomas no modo de pensar. Nesse contexto os educadores são chamados pela pedagogia de educadores progressistas, o que significa dizer que suas propostas educacionais apontam no sentido de uma ruptura com os valores criados e reforçados pela sociedade capitalista, que é caracterizada pela submissão, competição e individualismo, em contraposição ao estímulo e reforço de valores que podem contribuir para fazer da vida uma experiência diária de solidariedade, buscando, nesse sentido uma nova ordem social. A transformação referida por Paulo Freire requer falar sobre valores de cooperação, criatividade, tolerância e respeito ao outro. Para a atualidade a filosofia da libertação é o que existe de mais moderno, principalmente porque as obras e experiências freireanas espalharam-se pelo mundo, principalmente após o golpe militar de 1964. Como educador comprometido com as classes oprimidas, continuou escrevendo para aqueles que sonham e acreditam que a educação e o mundo podem ser para todos. Paulo Freire educador brasileiro de renome universal que trabalhou no Chile por alguns anos, buscou durante este tempo desenvolver uma linha pedagógica de ensino que contemplasse toda a classe popular. Desse modo podemos perceber no conteúdo de suas obras, principalmente da Pedagogia do Oprimido que traz profundidade em seus 4 A teoria dos aparelhos Ideológicos do Estado para Louis Althusser constrói uma visão pronta e acabada de organização social, onde tudo é organizado, planejado e definido pelo Estado de tal modo que aos cidadãos não resta nada (ALTHUSSER, 1998, p. 3.) conhecimentos, o que por vez é difícil de compreender, porém se conseguir absorver sua essência é possível enxergar um mundo de novas verdades em relação a educação e a sociedade em geral. Para FREIRE (1970) “as ações dos homens consistem na luta por dominar o mundo e impor sua marca na natureza, na Cultura e na História”. O papel que Freire assinala para a educação pode ser considerado como um ponto de partida, compreendida, entretanto, em sua perspectiva verdadeira de humanizar o homem na ação consciente, com o intuito de transformar o mundo. Ele buscou mostrar que os planos de desenvolvimento na educação negam que a sociedade é capaz de caracterizar o homem como objeto fundamental de transformação. Seu conceito de educação no mundo moderno é diferente das concepções que buscam transmitir ao mundo por meio da propaganda: televisão, rádio, internet dentre outros que vem de um mundo cultural alheio. A educação em termos freireanos é dar ao homem valor e respeito necessário, não apenas, de pensar que o homem para ser moderno é preciso se tornar um depósito que receba tudo que um “superior” ordene. Paulo Freire (1970, p. 12) infere que Conhecer não é o ato através do qual um sujeito transformado em objeto, recebe dócil e passivamente os conteúdos que outro lhe dá ou lhe impõe. O conhecimento pelo contrário, exige uma presença curiosa do sujeito em face do mundo. Requer sua ação transformadora sobre a realidade. Demanda uma busca constante e implica em inventar e reinventar. A concepção pedagógica que Paulo Freire evidencia para a população é caracterizada pelo processo de ensino-aprendizagem, pois só é possível aprender, verdadeiramente, quando o sujeito se apropria do que lhe é ensinado. Dessa forma ele transforma o aprendizado em modos diferentes de conceber seu conceito, ou seja, reinventando e aplicando o que fora aprendido em situações concretas. Na pedagogia voltada à classe popular constituída por este educador, vai ao encontro de forma arrebatadora ao conceito de dominação5, que se encontra na concepção tradicional, concepção esta que não busca libertar o homem, torná-lo consciente das suas relações no sistema em que ele vive, mas estuda meios eficazes de escravizar e manipular o sujeito, com objetivo de usar do homem sua força de trabalho para sustentar o capitalismo. 5 A expressão “dominação” refere-se na ideologia marxista a alienação do indivíduo. Ver MARX, Karl O Capital, DIFEL Editora, São Paulo 1982, Vol II, Cap. XXIV e XXV. Dessa forma o homem não atua na história com o sujeito que tem consciência de sua ação e que é esta ação que o torna historicamente um verdadeiro homem, por isso que as acepções freireanas, sem sombra de dúvida, podem contribuir para tornar na sociedade homens mais responsáveis e conhecedores da realidade a qual estamos submersos. Como educador a contribuição de Paulo Freire é visível a cultura popular, principalmente após a ditadura Militar, com novas idéias acerca da alfabetização de adultos, associado sempre, ao processo de conscientização. Seu ato pedagógico é animador, porém é visto, por muitos, como um educador utópico, pois até mesmo muitos profissionais da educação não conseguem se apropriar dos conhecimentos repassados na tendência pedagógica de Paulo Freire, ao passo que não conseguem fazer a relação entre sua proposta, com as idéias capitalistas, as quais se reproduzem por meio da escola nova e suas tendências dominadoras. Nesse contexto é preciso focalizar a classe popular, sem a presença da escola formal, seletiva e elitista que é dirigida, atuada e coordenada pelo estado. OLIVEIRA (1980, p. 16) diz que Uma proposta político-pedagógica que nasce da luta social traz o primeiro traço característico dessa experiência é que, embora de caráter eminentemente educativo, ela nasceu inteiramente fora dos quadros da instituição escolar. Na verdade, a escola e os educadores profissionais é que vieram a ser duramente questionados pelas suas dinâmicas. Vale considerar que a proposta político-pedagógica inferida por Freire refere-se a sua aproximação aos operários, tendo desse modo conhecimento sobre a política de desenvolvimento econômico do país, restringindo ao desenvolvimento industrial, tecnológico e aos padrões de consumo. Com isso OLIVEIRA (1980) corrobora a proposta e os conhecimentos mensurados por Paulo Freire de que “a maioria dos operários industriais havia sido vítima do caráter seletivo e elitista do sistema escolar”. Desse modo na década de 1970 crescem, então, as discussões acerca dos novos objetivos de lutas que buscam igualdade de ensino, com o intuito de corrigir a discriminação escolar. Assim como Paulo Freire, outros autores contribuíram na perspectiva educacional, em pensar na escola para todos e única, um deles foi Antonio Gramsci (1977, p. 12), para quem: os grupos de marginalizados e discriminados podem agir como educadores de seus próprios professores, na medida que com sua existência concreta, com seu fazer histórico, indicam para onde ir, apontam ainda, qual o conteúdo da nova cultura crítica e consciente deverá ser construída. Segundo Gramsci cabe ao educador apoiar com a sua competência esta busca pelas massas populares com a sua nova cultura de maneira coerente ao grupo oprimido, buscando construir nos grupos intelectuais orgânicos capazes de contribuir na formação de sujeitos mais conscientes. Considerações finais Os conceitos apresentados, em especial a temática abordada, vêm de uma experiência particular de exclusão. Para conhecer o trabalho de Paulo Freire, “é preciso se apropriar”, como ele mesmo diz. Se dispor a realizar análises sérias, sem demandar ironia, nem mesmo utopia nas entrelinhas do discurso. É um desafio a própria competência, aos próprios valores, buscando sistematizar uma nova prática que busque em trabalhar com os alunos e disponibilizar sem cotas: competência, responsabilidade, compromisso e humildade. Há muitas especulações em relação ao período da ditadura militar na vida do educador Paulo Freire, pois se de um lado alguns pensam na possibilidade do seu trabalho não ter sido interrompido, outros analisam a hipótese do exílio ter sido importante. Porque se Paulo Freire não fosse exilado, talvez não tivesse a oportunidade de conhecer outras experiências em tantos outros lugares do mundo, correndo o risco de nunca ser reconhecido. E, talvez, se o seu trabalho não tivesse realmente sido interrompido, onde estaria o desenvolvimento educacional para a classe popular hoje? Embora, sabemos que ele não precisava passar pela prisão, nem exílio para ser considerado e respeitado como tal. Porém, vale destacar que foi neste período contundente de sua vida, que ele teve contato com as mais indescritíveis experiências de pobreza, miséria e exclusão. Dessa forma devido ao espaço estrutural deste trabalho, não foi possível fazer um estudo mais profundo sobre o possível futuro da educação, sem a interferência do período da ditadura militar na vida de Paulo Freire. Deixo esta temática aberta a estudos futuros para estudantes e professores com intuito de contribuir no sentido de mostrar a pertinência do método atribuído por Paulo Freire, como professor e filósofo da nossa geração. Contudo a Ditadura se desfez, se consumiu. Tamanha era a pressão popular, de vários setores da sociedade, inclusive da política internacional, desse modo o processo de abertura política tornou-se inevitável. Mencionar o nome de Paulo Freire é para a educação a contribuição mais esplendida, pois, sem sombra de dúvida, podemos inferir que este educador é um marco para a história da educação popular, ele traz o desafio de refletir e colocar em prática os pressupostos educacionais de ser consciente, revolucionário e transformador. A tendência progressista delineia todo o estudo a fim de buscar um lugar na prática docente dos professores e tornar o mundo mais igual e partir do sonho e da utopia para a vida real. Pois uma educação com liberdade, não significa não ter comprometimento, significa, então, ter respeito pelo outro em todos os aspectos. Quanto ao aspecto contemporâneo da educação é nítido a existência de muitas escolas que favorecem a reprodução da força de trabalho ou qualificação do trabalhador, sendo a favor de cursos tecnicistas e profissionalizantes, visando aprender, apenas, uma parte do processo de produção e, ainda, dentro das escolas inculcando ideologias que favorecem a classe dominante. Muito além do conhecimento oriundo da classe social e das relações que circundam os indivíduos, este trabalho teve a finalidade fundamental de conhecer um pouco mais da história do educador Paulo Freire e sua proposta para a educação da classe popular. Bem como conhecer um pouco dos teóricos que fundamentam sua tendência pedagógica. Por isso que a concepção Freireana é considerada como parte indispensável dentro da perspectiva abordada. Referências: ALTHUSSER, L. P. Aparelhos Ideológicos de Estado. 7ª ed. Rio de Janeiro: Graal, 1998. ANDERY M. A. Et al. Para compreender a ciência: uma perspective histórica. – Rio de Janeiro: Garamond, 2007. Biografia de Paulo Freire. Disponível em: http://www.paulofreire.org.br/asp/Index.asp acesso em:23 julh 2010. FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. Rio, Paz e Terra, 1970 (Coleção Leitura) ______, Ação Cultural para a Liberdade: e outros escritos. 6ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1980. ______ Cartas a Guiné-Bissau. Rio, Paz e Terra, 1997. FREIRE, P. e HORTON M. O caminho se faz caminhando: conversas sobre educação e mudança social. 4 ed. Petrópolis-RJ: Vozes, 2003. FREIRE, Paulo. Aprendendo com a própria história. Vol. 1. 2 ed. São Paulo: Paz e Terra, 2001. GRAMSCI, A. Quaderni del carcere. 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