Otrebor Ozodrac
MORADORES DE RUA
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Autor: Roberto Carlos Cardozo
Pseudônimo: Otrebor Ozodrac
Moradores de Rua
Registro na Biblioteca Nacional sob o número 447.110
Livro: 839 Folha: 270.
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CAPÍTULO I
O ACAMPAMENTO:
Nove horas da noite, no acampamento de um grupo de
moradores de rua, na cidade de Porto Alegre. O inverno
chegara cedo, com o frio de 8 graus centígrados do mês de
junho. O grupo de moradores de rua se aquecia,
queimando umas poucas achas de lenha e restos de
caixotes, em uma lata de tinta de dezoito litros, que lhes
servia de fogão, na qual também aqueciam uma pequena
lata de azeite com café. Todos eles, esfregando uma mão
na outra e, de vez em quando, largavam o bafo nas mãos
em concha, para ajudar a aquecê-las.
Nocha, o líder do grupo, serviu-se de café numa lata de
cerveja, segurando-a com as duas mãos para aquecê-las,
ou para não deixar o café esfriar rapidamente.
Pedro, o desmemoriado, cuidava do fogo, aproximando a
lenha da chama, quando estas já tinham queimado a parte
no interior da lata. Sua cabeça era calva, coberta por um
boné com abas, fechado no queixo, apenas deixava à
mostra sua face coberta por uma barba branca.
Mamba Preta! Encostada em um caixote de madeira, que
fora recolhido nas ruas, observa atentamente Pedro, no seu
afazer de alimentar o fogo, e pensa: - -- Estranho o
desmemoriado, chama-se simplesmente Pedro, um homem
interessante, na dele, quieto, sempre fazendo alguma
coisa, nunca o vi parado. Foi trazido por Toinho, que o
encontrou vagando pela rua, faminto e com um ferimento
na cabeça, sem saber o que fazer para arrumar comida.
Hoje é um dos melhores arrecadadores de latinhas de
cerveja, sai sempre pela manhã às 6 horas e retorna
somente às 19 ou 20 horas, sempre com uma carga
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considerável de latinhas. Pena que ele não se lembra de
nada antes de vir parar aqui.
De repente, Nocha fica inquieto, dirige-se à Bahia, sua
esposa, e diz:
- Mãe! Onde está o Toinho, que não chegou até agora?
- Não sei não! Ele está com o Aolo, devem estar
chegando.
- Eu sei mulher! Mas eu fico preocupado com ele, é uma
criança, tem apenas 11 anos.
- Estão chegando, vê como tu te preocupas à toa, homem.
Os jovens Ric e Li, agarradinhos e enrolados em um
cobertor, se encostavam no pilar do viaduto que os
abrigava. Ric diz à Li:
- Vai buscar um gole de café para nós!
- Não vou não! Vai tu, eu não quero café!
- Então vamos os dois, levando o cobertor.
- Tá certo, vamos lá.
Num canto da marquise, sob uma grande caixa de papelão,
está o velho Roberto Rodrigues, alcunhado de Aleijadinho
ou Caninha, alcunhas que adquiriu por ser aleijado da mão
e pé esquerdo e por beber cachaça em demasia. Homem
estranho, mora, eventualmente, no acampamento,
chegando à passar quinze dias sem dar as caras. Quando
chega, sempre traz consigo uma garrafa de cachaça, a qual
bebe junto com os demais. Certo dia, ele surgiu, ninguém
sabe de onde, foi se chegando e se acomodando. Quando
Nocha o interpelou, disse que iria ficar ali, que não
incomodaria ninguém e nem tomaria o espaço de outro.
Nocha lhe disse que se incomodasse, ou houvesse
qualquer reclamação dos demais, ele teria de ir embora.
Assim, ele foi ficando. Hoje ele vai e vem, sem prestar
contas a ninguém.
Quando alguém é capaz de ouvi-lo, ele sempre conta a sua
história, dizendo:
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- Eu sou um homem rico de nascimento, só que o meu
irmão gêmeo roubou toda a minha fortuna, me deixando
neste miserê. Ele mora numa mansão no bairro mais nobre
de Porto Alegre. Possui três carros e uma grande moto.
Aparecida observava Ric e Li e pensava: Tão jovens e se
sujeitando a uma vida desta! O que será que aconteceu
com eles?
Ela se movimentou rumo à caixa onde estava acomodado
o Aleijadinho. Bateu no costado da caixa e disse:
- Roberto, como você está hoje? Podemos conversar um
pouco?
O Aleijadinho se movimentou e ficou sentado dentro do
caixote, olhou para Aparecida e coçando os olhos disse:
- Aparecida, que bom te ver, eu estava dando uma
cochilada, chega mais, que eu já estou levantando.
Levantou-se, se aproximou da mulher. E, num gesto de
cordialidade e admiração, estendeu-lhe a mão direita. Ela
segurou a sua mão, os olhos se encontraram, ele logo
desviou o olhar como que estivesse envergonhado. Baixou
a cabeça, sua mão esquerda torta ele a escondia levando-a
para trás do corpo. Levantou a cabeça, fitou-a nos olhos,
desta feita demoradamente. Rompendo o acanhamento que
lhe era peculiar, disse:
- Aparecida, como você é linda, como eu gostaria de estar
no lugar do meu irmão, aquele cretino, sem-vergonha.
Desculpe, eu perdi o controle, você nada tem a ver com
isso. Eu a levaria para morar na minha mansão e a cobriria
de jóias. Mas como sou um rejeitado, nada tenho, a não ser
um grande amor por você.
- Aparecida, olhou-o demoradamente dentro dos olhos e
disse:
- Eu gosto de você como você é, apenas não lhe tolero
quando está bêbado. Nós até poderíamos ter um futuro
juntos, se você parasse de beber.
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- Por você, Aparecida, eu até paro de beber, basta você me
dar uma esperança.
- Sim, mas você deve primeiro ser mais constante, deixar
de desaparecer, sem que ninguém saiba onde está. E
sempre quando retorna, está completamente bêbedo.
- Algum dia desses, eu a levo para conhecer o ladrão do
meu irmão, quero ver a cara dele quando souber que
estamos juntos.
- Somente se você se comportar.
- Aparecida! Podemos trabalhar juntos amanhã?
- Sim, se você quiser.
A jovem Li diz a Ric:
- Muito estranha a Aparecida, quietinha, não se mete com
ninguém. O Aleijadinho a está cantando, mas aposto que
não vai levar nada. Ele é um grosso, destemperado, não
sabe lidar com mulheres.
- Não sei, eu gosto dele, é um bom sujeito, sempre
respeitador.
Pedro, com o olhar fixo no fogo, tem visões as quais não
sabe interpretar. Como de relance, aparecem imagens em
sua mente confusa. Sacode a cabeça como quem quer
espantar as imagens que aparecem em reflexos confusos.
Olha para Mamba Preta, esta olha para ele, disfarça o
olhar, dirigindo-o para o fogo. Mamba Preta se aproxima
do fogo, onde ele está de cócoras, agacha-se ao seu lado e
lhe diz:
- Como estás hoje, Pedro?
- Estou bem, apenas com um pouco de dor de cabeça, ela
vem e vai. Acho que não vai passar nunca!
- Queres um comprimido para dor?
- Não! Esses comprimidos não fazem mais efeito. Além do
mais já estou acostumado com a dor, se ela passar por
completo posso sentir falta dela.
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Esboça um sorriso que é correspondido por Mamba Preta,
que lhe diz:
- Você não se lembra de nada, até chegar aqui?
- Tudo o que lembro foi até eu haver acordado em um
hospital. De lá para cá eu lembro de tudo, antes nada.
Apenas percebo alguns lampejos de lembrança, mas as
imagens me são desconhecidas, isto é, não as consigo
interpretar.
- Pedro, você é um homem culto, todos nos sabemos, pelo
modo como que se expressa.
- Só que eu não lembro de quem sou, não tenho
documentos, não tenho lembranças, isso me torna no que
sou.
Mamba Preta serve um gole de café e oferece a Pedro, que
aceita. Serve outra para ela e ficam ali, um ao lado do
outro, Mamba Preta pergunta:
- Pedro! Tu não lembras, nada, nada? Quem eras, o que
fizeste?
- No inicio eu tinha uma constante dor de cabeça. Quando
vim para cá, a mulher de Nocha me levou a um posto de
saúde. Lá eles me deram alguns comprimidos, que passei a
tomar três por dia, a dor foi aliviando, aliviando, e
estabilizou em um patamar suportável. Às vezes, ela fica
forte, como hoje, mas amanhã quem sabe irá embora
definitivamente. As minhas lembranças, estas sim, nunca
mais voltaram. Eu tenho alguns lampejos de recordações,
mas tudo é muito estranho e muito rápido. Certo dia,
sonhei, que estava em uma grande empresa, imagine que
eu mandava e desmandava. Logo eu, um desmemoriado.
- Pedro! Como eu, tu tens educação aprimorada, falas
corretamente, já vi tu escreveres alguns recados, tua letra é
muito bonita.
- E tu Mamba, de onde vieste? O que fazes aqui, isto não é
lugar para uma mulher como tu!
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- É uma longa história, qualquer dia deste eu te conto!
Um grito de alerta ecoou no alojamento debaixo do
viaduto. O alerta dizia: - Fujam, a guarda metropolitana
está atacando. Outro dizia: - O rapa! Vamos dar no pé! Em
um minuto todos se dispersam, abandonando quase tudo,
levando apenas o que servia de agasalho, como cobertores
e mantas. Quando a guarda metropolitana chegou, só havia
utensílios sem valor algum, coisas que se encontra no lixo,
como latas de tintas vazias, latas de cerveja e caixotes. A
guarda vasculhou os objetos à procura de drogas e bebidas
e nada encontraram. Embarcaram na viatura e se foram.
Uma hora depois, começaram a chegar os moradores.
Primeiro chegou Nocha e sua família, em seguida, Pedro e
Mamba Preta, que logo começaram a organizar a bagunça
deixada pelos repressores. Naquela noite, todos dormiram
em sobressalto, pois receavam que a guarda municipal
desse uma nova batida.
O primeiro a levantar no dia seguinte foi Pedro, o
desmemoriado, que fez o fogo para aquecer um resto de
café. Nocha foi o segundo. O sol ainda não tinha rompido
no horizonte e todos já estavam em pé.
Quando o dia clareou, o acampamento já estava vazio,
todos os seus moradores já tinham partido para o trabalho
diário, uns na coleta de papéis e papelões, outros na coleta
de latas de alumínio vazias. Naquele dia, Roberto, o
Aleijadinho, e Aparecida foram trabalhar juntos na coleta
de papelão. Aparecida, com uma calça de brim azul, um
casaco roto, que lhe cobria os joelhos, um boné na cabeça,
com abas voltadas para trás, ao seu lado Roberto, com
seus andrajos de sempre, um velho casacão marrom, uma
touca preta, se movimentando com dificuldade, arrastando
o pé esquerdo, a mão esquerda torta na frente do corpo,
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com movimentos limitados, partiram rumo ao centro da
cidade, para mais um dia de trabalho.
Pedro, o desmemoriado, junto com Toinho, parte rumo ao
ponto onde o pequeno teria que limpar os vidros dos
carros no semáforo. Pedro ajuntaria latas de alumínio,
como de costume.
Perto das dezenove horas, eles começavam a chegar ao
acampamento. Naquele dia, o primeiro a chegar foi Pedro,
o desmemoriado, logo a seguir chegou Aolo, carregado de
papelão. Logo a seguir chegaram Roberto e Aparecida,
que dizia:
- Veja Roberto, você não é alcoólatra, não bebeu o dia
todo e sequer sentiu falta da bebida.
- Eu bebo por desgosto, você sabe, o meu irmão. Não vou
falar disso novamente, para não ser repetitivo.
Nos quinze dias que se sucederam, Roberto e Aparecida
andaram juntos, o homem não bebeu uma única dose de
cachaça. O casal estava se dando maravilhosamente bem.
Mas Roberto estava inquieto, e terminou dizendo à
Aparecida.
- Tenho que ir ter com o meu irmão, aquele pústula, mas
eu prometo que logo estarei de volta.
- Mas o que é de tão importante tens que fazer junto ao
teu irmão.
- Nada de especial, mas eu não posso deixar que ele pense
que eu desapareci para sempre, eu tenho obrigação de
perturbá-lo.
Ele se afasta, arrastando o pé esquerdo, e com a mão
esquerda pendurada à frente do corpo.
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CAPITULO II
A CORPORAÇÃO FLORIANO.
Na sede da corporação Floriano realiza-se a reunião da
diretoria, para a posse dos novos Gestores da empresa.
Com a palavra, o Diretor Presidente Sr. Floriano Duquia
de Oliveira:
“Senhoras e senhores! Como presidente do grupo
Floriano, abro a reunião de diretoria de número trinta e
cinco, que tem como escopo empossar os senhor Ghiusep
Pizzolatto, como o novo Diretor presidente do Grupo. Eu,
no entanto, permanecerei como presidente do conselho
administrativo da corporação. Os motivos que me levam a
assim proceder é que já estou com idade avançada, e se
trabalhei toda a minha vida foi para, no final, ter uma
existência mansa e confortável, o que passo a exercer este
direito de agora em diante, pois estou me aposentando.
Neste momento, passo a palavra ao novo presidente.
Meus colegas de trabalho! Para saberem quem sou, e o
que já fiz até o presente momento como profissional,
aconselho os senhores a acessar o meu site na internet, que
é WWW giusep.com.br.
Lá encontrarão, por exemplo que fui presidente da
corporação Western Co Diversity Corporation.
E outras mais. Os senhores estarão nesse momento se
perguntando? Como será que ele administra uma empresa
por desempenho de metas. Aqueles que atingirem as metas
estarão apenas sendo eficientes, eficazes serão aqueles que
ultrapassarem as metas. A estes serão atribuídos ganhos
proporcionais a seu desempenho... “
Na mansão de Floriano Duquia de Oliveira:
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Todos ao redor de uma grande mesa de jantar, pela ordem,
o Sr. Floriano, à cabeceira, a sua direita, Carmela, sua
jovem esposa, de trinta e cinco anos. A sua esquerda,
Florinda de Oliveira, sua filha de trinta e oito anos, e logo
ao lado de Carmela, Florêncio de Oliveira, seu filho de
quarenta anos.
O Sr. Floriano em certo momento, levanta e diz:
- Reuni
a todos, neste momento, para fazer um
comunicado que lhes interessa: estou me aposentando, aos
sessenta e três anos de idade, após haver trabalhado
incessantemente por mais de quarenta e cinco anos. O
tempo que me resta, apenas usufruirei das benesses da
riqueza que adquiri com muito trabalho e dedicação às
minhas empresas. Como os meus dois filhos nunca
demonstraram interesse em seguir os meus passos... O
Florêncio sempre foi a minha esperança, mas dedica-se ao
doce fazer nada, sempre participando de pescarias,
montanhismo e outras atividades que somente apresentam
gastos, sem renderem um único vintém. Daqui para diante
terá que viver com uma mesada de R$ 5.000,00 por mês.
Minha querida Florinda! Minha filha batalhadora!
Resolveste abraçar a profissão de juíza, na qual tens te
saído maravilhosamente bem. Embora não mais necessite
do meu dinheiro, terás uma retirada também de R$
5.000,00, mais os dividendos que suas ações renderem.
Minha querida esposa Carmela! Não tenho palavras para
agradecer toda a felicidade que me deste. Embora a grande
diferença de idade entre nós, nunca houve qualquer
rejeição da tua parte, muito pelo contrário, sempre
estiveste ao meu lado quando eu desejei. Somos uma
família, e, por isso, não me acanho em falar para vocês
tudo aquilo que penso e sinto. Carmela, minha querida!
Sempre soube de suas aventuras, mas sempre fiz vista
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grossa, pois reconhecia que eu não a fazia totalmente feliz,
pois tinha de
passar vários dias ausente, percorrendo as filiais do grupo
ou viajando para o exterior. Tu sempre mantiveste uma
grande discrição, não me fazendo passar por vexames.
Agora vou te dar total liberdade oferecendo-te o divórcio,
uma vez que não mais viveremos juntos. Embora
tenhamos casado com total separação de bens, em
agradecimento pelo bons momentos que passei contigo,
vou te dar uma mesada vitalícia de R$ 10.000,00, por mês.
Outro fato importante é que todos nós teremos de deixar
esta casa, pois ela foi construída com a finalidade de
abrigar o presidente do Grupo Floriano.
- Pai! Posso fazer-lhe uma pergunta? -arguiu Florêncio.
- Faça Florêncio, esteja à vontade!
- Pai, onde o senhor irá morar, se esta casa é para o novo
presidente do grupo?
- Eu ainda não tenho um local definido para morar,
inicialmente, irei viajar pelo nosso país, depois pelo
mundo. Quando cansar, verei onde é que quero morar.
- Mas Florêncio! A qualquer momento que queiras
trabalhar sério, terás o teu lugar na empresa, porém dei
instruções ao Pizzolatto que deverás iniciar por baixo e se
tiveres capacidade e dedicação, poderás subir na
hierarquia da empresa.
- Quanto à meritíssima, sempre terá o seu lugar na
empresa, a qualquer momento que desejar. Era isso que
tinha a dizer a todos vocês. Porém, se alguém tiver alguma
pergunta, poderá fazer como Florêncio fez.
Um a um abraçaram Floriano, por final restou na sala
apenas Floriano e Carmela. Carmela se aproximou de
Floriano, abraçou-se nele, e disse:
- Querido! Não me deixes, prometo ser fiel até o fim de
nossos dias!
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- Não querida, estou com sessenta e três anos, ainda sou
viril, mas não tenho desempenho para uma mulher de
trinta e cinco anos. Procura um homem da tua idade ou
pouco mais velho que tu e envelheçam juntos. Eu ficarei
bem. Talvez, desta vez, eu seja mais prudente e arranje
alguém apenas um pouco mais nova do que eu, para
podermos terminar nossos dias juntos. Espero que não
insistas mais, este é o último dia em que ficamos casados,
pois amanhã meu advogado irá procurá-la para dar entrada
no divórcio amigável.
- E se eu não aceitar?
- Nada muda, eu viajo da mesma forma, só que não terás
verba alguma assegurada.
- Mas onde irei morar?
- Já providenciei um apartamento na zona central, o qual
podes alugar, pagando com teu próprio dinheiro.
- Se não há outro jeito, eu aceito o divórcio como me
propões. Mas, diga-me uma coisa como ficou sabendo de
tudo, por acaso mandou me espionar?
- Não, minha querida, jamais faria isso!
- Então, como foi?
- François!
- Não entendo, sempre lhe paguei muito bem pela sua
discrição. Ele era quem me levava aos encontros, é difícil
acreditar!
- Você esquece que eu sempre soube escolher os meus
colaboradores, talvez esse fosse o motivo de meu sucesso.
Lembro quando me contou na primeira vez. Ele ficou sem
jeito de falar, fez rodeios, mas acabou contando tudo o que
sabia, inclusive devolveu-me o dinheiro que você lhe
pagou, e continuou devolvendo por esses anos todos. Fez
questão de devolver para não se achar culpado. Claro que
eu apliquei todo esse dinheiro para ele, sem que soubesse,
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e hoje ele tem uma pequena fortuna, poderá se aposentar e
viver em qualquer lugar do país.
Floriano Duquia de Oliveira: filho de um ferreiro. Seu pai
morreu quando ele apenas tinha completado 18 anos,
deixando a ferraria afundada em dívidas. Trabalhou com
afinco e dedicação por um ano, no qual pagou todas as
dívidas e fechou a empresa, pois teve que servir o exército.
Após um ano, deu baixa e reabriu a ferraria, porém deixou
de produzir ferraduras, passando a produzir facas e facões.
Em cinco anos tinha montado uma pequena indústria de
cutelaria, já tendo vinte empregados, em dez anos sua
indústria cresceu tanto que ele resolveu inaugurar
uma nova unidade para produzir talheres inoxidáveis, uma
arrojada iniciativa para a época. Assim, suas empresas
foram crescendo até chegar ao que hoje são.
Tinha aparência física, nem baixo nem alto, com um metro
e setenta e seis, pesando em torno dos 70 quilos, Pele
morena-clara, cabelos castanhos, com quarenta e cinco
anos, começou a perder o cabelo na parte superior da
cabeça, o que o levou a fazer e manter uma peruca pelo
método do entrelaçamento. Ninguém chegou a perceber
que estava completamente calvo, barba e bigode sempre
bem escanhoado, trajando-se elegantemente, sem nunca
dispensar a gravata, embora, com sessenta e três anos, sua
aparência fosse de quem tivesse, no máximo, 50 anos,
dado aos cuidados pessoais que sempre manteve ao longo
de sua próspera vida.
- Aqui está a sua passagem, Sr. Floriano, o voo sai amanhã
às nove e quarenta e cinco.
- Muito obrigado, François! A propósito, senta que quero
falar contigo. Como sabes, estou me aposentando, e nesta
casa ficará o novo presidente da companhia, o Sr.
Pizzolatto. Se quiseres, poderás servi-lo como fizeste a
mim, por esses anos todos, ou poderás, como eu, te
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aposentar. Aqui tem um certificado de ações da
companhia.
François pega o certificado, faz uma cara de espanto e diz:
- Mas senhor, isso é uma pequena fortuna, o que devo
fazer com ela?
- O que quiseres, é tua. Este é o resultado do dinheiro que
me devolveste, por esses anos todos, investi em ações no
mercado, tiveste sorte, tuas ações somente prosperaram.
Mas tens o meu agradecimento pessoal por terte dedicado
todos esses anos a meu serviço.
- Não há nada a agradecer, sempre fui regiamente pago,
apenas cumpri com as minhas obrigações.
- Amanhã me farás um derradeiro serviço, levando-me ao
aeroporto.
O avião taxiava na pista, quando Floriano chegou ao
aeroporto Salgado Filho, despachou as duas malas, pegou
o check-in e se dirigiu ao saguão de embarque.
Sentado, lendo o jornal, esperou a chamada para o
embarque. Inúmeras vezes tinha viajado de avião, mas
nunca com tal finalidade: gozar a merecida aposentadoria.
De repente, uma voz anuncia o voo 4750 para Salvador.
Ele levanta e se dirige para a fila de embarque. Já está no
avião, sentado, quando chega o passageiro que iria sentarse a seu lado.
- Com licença, senhor! disse um senhor alto e magro,
quase esquelético, esboçando um grande sorriso.
- Toda sua, esteja à vontade!
- Permita que me apresente! Sou Sandoval Jardim, mas
pode me chamar de Jardim.
- Eu me chamo Floriano Duquia de Oliveira, pode me
chamar de Floriano.
- Vai sempre à Bahia, Sr. Floriano?
- Já fui outras vezes, mas em férias é a primeira.
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- Eu vou visitar meus filhos, ambos trabalham em
Salvador.
O papo de Sandoval era um dos melhores que Floriano
tinha conhecido. O homem era historiador, sociólogo e
professor universitário. Falava “pelos cotovelos”, Floriano
apenas teve de ouvi-lo por toda a viagem, tendo recebido
uma verdadeira aula sobre usos e costumes do povo
baiano. Em Salvador, cada um tomou o seu rumo, após
breve despedida com troca de cartões. Floriano, pegou
uma conexão que o levou até Porto Seguro, onde se
hospedou em um magnífico hotel à beira-mar. Floriano,
embora cansado, resolveu andar pela praia, caminhou não
mais de dois quilômetros e já estava cansado, o que lhe
indicou falta de resistência física, e ele pensou: “Tenho de
caminhar todos os dias, pois a minha resistência é
mínima, acho que vou tomar uma água de coco naquele
quiosque. ”
- Bom-dia, o que vai ser? - perguntou o atendente do
quiosque.
- Uma água de coco, por favor!
- Tá bem geladinha, o coco foi colhido ontem.
O homem robusto, quase obeso, cor morena-clara, com
uma camisa de física azul e bermuda cinza, usando nos
pés um par de chinelos de dedo, abre o freezer, retira um
coco, empunha um facão com a mão direita e com a
esquerda segura o coco, dá um corte, gira o coco na mão
esquerda, da outro corte e assim faz até cortar toda a parte
superior do coco, introduz um canudinho e alcança o coco
ao cliente recém-chegado.
- Tenho uma casca de siri, foi feita pela minha mulher,
hoje cedo, que experimentar uma?
- Não hoje, outro dia eu experimento. Você está sempre
aqui, isto é, você está todos os dias atendendo no
quiosque?
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- Quase todos os dias, das 9 as 15 horas.
-E, você, vende apenas cocos e casquinhas de siri?
- É, isso aí. Mas tenho também uma pinga da boa.
- Eu dispenso a pinga. É muito forte para o meu fígado.
Floriano termina de beber a água de coco, paga, agradece
e continua a sua caminhada.
No dia seguinte, mais ou menos, a mesma hora, ele chega
ao quiosque. Lá está o atendente que, ao vê-lo chegar, diz:
- Bom-dia, veio tomar uma água de coco, certamente,
desta vez vai querer uma casquinha de siri!
- Bem, vamos experimentar!
O mesmo ritual se sucede, acrescido de uma casquinha
que também lhe é entregue com o coco.
- Muito boa a casquinha!
- Eu lhe disse, é preparada pela minha mulher, acredita
que ela levanta às 7 horas para preparar as casquinhas,
olha que são vinte e cinco casquinhas por dia.
- Porque apenas vinte e cinco casquinhas?
- É o que eu vendo até às 15 ou 16 horas. Sempre vou
embora quando elas terminam.
- E o coco?
- Esse pode ficar para o dia seguinte.
- E se você preparasse cinquenta casquinhas? Venderia
todas?
- Acho que sim, mas teria que permanecer até mais ou
menos às 19 horas.
- E não pagaria a pena?
- Não! A que horas eu iria me divertir ou descansar? E,
dentro desse raciocínio, eu acabaria trabalhando vinte e
quatro horas por dia, de segunda a segunda, a vida passaria
e eu apenas ficaria rico.
Ao ouvir isso, Floriano pensou: “ Foi o que eu fiz a vida
toda. Apenas sou hoje um homem rico, mas estou velho e
sem futuro.”
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- É, acho que você tem razão. Mas nunca pensou em
colocar alguém para vender das 15 às 20 horas, por
exemplo?
- Não! Dá muita incomodação!
O empresário aposentado pensa:
- Se eu pensasse assim, hoje teria uma ferraria.
Pagou a conta e foi embora.
Sendo Floriano um homem inquieto, costumado a
trabalhar, após quinze dias de estada no Porto Seguro, não
aguentou mais a rotina, deu saída do hotel, pegou um táxi
e foi para o aeroporto. Lá pegou um voo para Porto
Alegre, permaneceria por uma semana, onde aproveitaria
para assistir a algumas peças de teatro, uma importante
partida de futebol no estádio do Olímpico e partiria para o
Rio de Janeiro.
Já estava a dois dias em Porto Alegre, quando saía do
Teatro São Pedro,
onde assistira à peça As mão de
Eurídice, famosa por ser representada apenas por um
único ator. A noite estava agradável e ele resolveu
caminhar um pouco. Devia ser perto de uma hora da
madrugada e ele constata que está irremediavelmente
perdido. Começa a procurar um táxi, mas continua a
caminhar pelas ruas com pouco movimento naquela hora.
Em uma esquina, sob um ponto de luz, estão três inocentes
rapazes conversando, ele se aproxima e pede uma
informação.
- Boa-noite! Onde posso encontrar um táxi?
Um dos rapazes se adiantou e disse:
“- Tais perdido, nóis vamos ti resolvê o broblema!”
Os outros dois se aproximaram, um pegou-o pelos braços,
e lhe aplicou uma chave no pescoço, outro meteu a mão
em seu bolso, e recebeu uma joelhada nos escrotos e ficou
gemendo de dor. O terceiro lhe aplicou um tremendo
golpe na cabeça, com um objeto maciço e ele desfaleceu.
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Os malfeitores, levando todos os seus pertences, inclusive
a carteira com documentos, abandonaram-no a sua própria
sorte.
Alguns momentos se passaram, estando ele desacordado,
quando se aproxima um mendigo, daqueles que saem
pelas ruas a revirar o lixo nas calçadas, para retirar dele,
restos de alimentos, e objetos de algum valor comercial,
como latas vazias e garrafas. A rua, naquele momento,
estava deserta. O mendigo chamou-o à consciência, por
diversas vezes. E começou a comparar os tamanhos dele
com o homem que se encontrava caído. Fez um sinal de
positivo para si mesmo e começou a trocar suas vestes
imundas com as vestes do incauto que se mantinha
desacordado.
O sol já estava raiando, para irromper o dia, quando ele
acordou. Uma poça de sangue havia no lugar onde ficara
apoiada a sua cabeça, na pedra fria do passeio. Levanta o
corpo, forçando as mãos no solo, fica tonto, tudo gira em
sua volta, um cão vadio tenta tomar o sangue na poça. Ele,
com um grande esforço, o enxota. O cão se afasta e
permanece observando de longe. O chão estabiliza-se e ele
consegue se levantar. Olha para suas vestes, seus sapatos
gastos com as solas furadas, suas calças sujas, camisa e
casaco chegavam a estar marcados pela sujeira de gordura
corporal de quem não é acostumado à higiene. A dor na
cabeça começava a ficar insuportável. De repente um táxi
para e o socorre. O taxista pergunta o que tinha lhe
acontecido. Ele diz que não sabe, apenas acordara naquela
situação. O taxista fecha com os dedos as narinas para
suportar o mau cheiro vindo das roupas sujas.
- Venha, vou levá-lo a um hospital, você precisa de um
curativo, depois pode voltar para as ruas.
No hospital, Floriano é atendido por uma enfermeira que,
ao examinar o ferimento na cabeça, se depara com uma
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espécie de peruca por entrelaçamento. Para atingir o
ferimento e desinfetar o local, corta os cabelos
entrelaçados e após raspa a cabeça de Floriano. Aplica um
curativo e antitetânica, chama um auxiliar de enfermagem,
que lhe dá um banho e troca as roupas sujas por roupas
hospitalares. Ele fica em observação por vinte e quatro
horas
No dia seguinte, com a troca de plantões, Floriano que
tinha ficado em observação por 24 horas, recebe alta. O
auxiliar de enfermagem lhe devolve as roupas, ele vê que
elas foram lavadas e desinfetadas e veste-as. Na portaria,
lhe é perguntado o seu nome e se tinha algum documento
de identidade. Ele procura nos bolsos e nada encontra, o
atendente lhe diz:
- Se não tem documentos, mas ao menos sabe o seu nome,
não?
Olha ao redor e vê um quadro que contém a foto de Dom
Pedro, onde está escrito Dom Pedro de Alcântara.
- Sim, sim, meu nome é Pedro!
- Pedro de quê?
- Pedro de Alcântara!
- Assine aqui, Sr. Pedro de Alcântara!
Ele escreve com boa letra: Pedro de Alcântara.
Deixa o hospital, e se dirige à rua, sua cabeça dói muito,
ele caminha algumas quadras e logo vê uma praça, procura
um banco e quando encontra, arria seu corpo fraco e ali
permanece, sem saber por quanto tempo. Sente sua cabeça
como uma coisa grande e inchada, nenhum pensamento é
concatenado, apenas sente uma leve tontura e uma dor
insuportável. Sua cabeça parecia estar vazia. Não
conseguia pensar em nada, não se recordava de nada. Sua
figura, naquele momento, nada se parecia com a figura de
quarenta e oito horas atrás, quando saíra do teatro, vestia
andrajos limpos, graças aos enfermeiros do hospital, seus
20
sapatos estavam com as solas tão gastas que a planta dos
pés encostavam no piso. Sentado no banco da praça viu a
noite chagar e um novo dia amanhecer. A intensa dor de
cabeça não
tinha lhe deixado pregar o olho,
permanecendo acordado por toda a noite.
Às 9 horas, consegue levantar do banco, ensaia alguns
passos, as pernas estão firmes e ele começa a andar. A rua
ora parecia se fechar, em outros instantes, parecia se
movimentar, como fosse uma cobra ondulando a sua
frente. De repente, tudo começa a girar ao seu redor e ele
cai ao solo. Transeuntes desviam-se do corpo caído, até
que um policial tenta chamá-lo à consciência, sem obter
resultado algum. Chama um outro policial, que o ajuda a
recolher a vítima. Pedro, o desmemoriado, é levado para
um pronto-socorro. Como estava muito fraco, o médico
atendente baixou-o e receitou quatro litros de soro.
Quando Pedro volta a si, não entende o que está
acontecendo, de nada se lembra, não sabe quem é e onde
se encontra. Cinco dias depois, Pedro sai do hospital. Sua
cabeça está mais estável, a dor não é como antes,
insuportável, dói, mas ele suporta. Começa a andar pelas
ruas de Porto Alegre, seus andrajos depõem contra ele,
ninguém lhe dá a mínima atenção, pessoas desviam dele.
Ele volta a sentar na praça, fica ali, tentando lembrar quem
é e o que está fazendo ali. Algumas horas sentado no
banco da praça, vendo a movimentação das pessoas, sente
necessidade de urinar. Como fazer suas necessidades
fisiológicas? Tentou pedir informação a diversas pessoas,
mas todas não lhe davam a mínima importância, passavam
ao largo, ignorando-o. Sua bexiga já estava doendo, pois
na sua idade era normal urinar de duas em duas horas, já
fazia mais de seis horas que tinha saído do hospital, lá
urinara antes de sair. Ele vê no semáforo um moleque que
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limpava os vidros dos carros, quando paravam na
sinaleira, para receber uns trocos.
Ele levanta e se dirige até o garoto. Parou e esperou que o
sinal abrisse e o garoto retornasse para o passeio, à espera
da mudança do sinal.
- Boa-tarde, menino! Eu estou necessitando urinar e não
sei onde fazê-lo, poderia me ajudar?
O menino olha para ele com admiração e surpresa e diz:
- O senhor está vestido como um mendigo, mas fala como
um grã-fino! Vou levá o senhor no local onde pode mijá.
Vem comigo!
O garoto leva Pedro, o desmemoriado, até o outro lado da
praça, onde há um sanitário coletivo. Pedro faz sua
necessidade fisiológica com grande alívio. Quando sai do
sanitário, o garoto já havia retornado aos seus afazeres, na
sinaleira.
Pedro retorna ao banco e ali permanece até a noite chegar,
e neste, até o dia amanhecer. Eram seis horas da manhã,
Pedro levanta e se dirige a sinaleira à procura do garoto.
Ele ainda não havia chegado, ele começa a caminhar ao
longo da rua, uma sensação de algo lhe corroendo o
estomago e uma sensação de fraqueza, sinal de que a fome
era muita, ele continua a andar, do outro lado da rua ele vê
uma mulher, revirando as cestas de lixo, de vez em
quando, colocava alguma coisa na boca, Pedro se
aproxima e fala com ela.
- Bom-dia, minha senhora! Vejo que está achando coisas
para comer no lixo. Como estou com muita fome, não se
incomoda se eu fizer o mesmo?
A mulher deu de ombros e se afastou, sem muito entender
a forma com que aquele mendigo havia falado.
Pedro passou a abrir os sacos, contendo o lixo, encontrou
restos de salgadinhos, umas conchinhas, contendo um
recheio, até que estava bom, comeu o necessário para
22
aplacar a sua fome, fechou novamente os sacos abertos e
seguiu o seu rumo incerto. O sol já estava quase que a
pino, quando resolveu retornar para a praça, para ver se
encontrava o garoto, que lhe poderia ensinar algumas
coisas.
Lá chegando, se dirige aos sanitários, urina e toma alguns
goles de água na torneira da pia, olha para a sinaleira, o
garoto não estava. Senta na praça e ali permanece,
observando os transeuntes. Observa um casal de
namorados, a uns três bancos à frente. De repente, aparece
um homem que pega a moça pelo braço e a leva quase que
de arrasto. O rapaz permanece sentado no banco.
No banco, à sua frente, um homem alto, bem trajado, senta
e abre uma pasta, tira de seu interior diversos documentos
e começa a conferi-los.
Assim, observando as vidas que se desenvolviam a sua
frente, como um bom espectador, apenas observava o
desenrolar das cenas e o trabalho dos atores. Assim, a
noite chegou, de duas em duas ou de três em três horas, ele
ia ao sanitário e voltava a sentar no banco. O dia
amanheceu, às 6 horas levantou, não tinha fome, tomou
alguns goles de água, na torneira do sanitário, urinou e
pôs-se a caminhar. Já devia ser em torno de dez horas da
manhã, quando sentiu o primeiro sinal de que a comida
retirada do lixo lhe havia feito mal. Logo sentiu a primeira
cólica, não tinha defecado, após haver saído do hospital,
mas agora seria a hora. As cólicas iam e voltavam, com
uma frequência de, mais ou menos, dez minutos. Pelo
tanto que tinha caminhado, deveria levar mais de uma hora
para chegar à praça onde sabia que havia um sanitário.
Sentiu que não chegaria a tempo. As cólicas ficavam
insuportáveis. A pressão intestinal aumentava cada vez
mais, a diarréia estava contida por um bolo fecal que a
antecedera e ainda não tinha sido expelido.
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O movimento naquele momento no local onde se
encontrava era grande. O bolo fecal seco já estava saindo,
as cólicas anunciavam que logo a seguir uma diarréia
sairia com grande pressão.
Tinha que tomar uma atitude, se defecasse nas calças,
ficaria sujo, sem a mínima possibilidade de se limpar.
Tomou a decisão! Encostou-se na parede, e começou a
tirar as calças e logo a cueca, ficou nu da cintura para
baixo. Momento em que um grande volume de fezes foi
evacuada.
A diarréia saia com grande pressão acompanhada de
gases, o cheiro era característico de contaminação por
salmonela,
simplesmente
insuportável.
Nesses
acontecimentos, os transeuntes se afastavam, a cena era
inacreditável. Pedro, o desmemoriado, de cócoras na
calçada, com as roupas nas mãos, soltando jorros de
fétidas e caudalosas fezes. Logo, chegam dois policiais
que levam Pedro para um camburão. Veem que se trata de
um débil mental e levam-no para o pronto-atendimento.
O diagnóstico do médico acusa intoxicação por ingestão
de alimentos contaminados por salmonela.
O corte na cabeça, já quase cicatrizado, permite que sejam
retiradas as ataduras que lhe envolviam a cabeça, apenas
sendo lhe aplicado um curativo superficial. O médico lhe
indaga se a cabeça doía, ele diz que dói, mas é uma dor
suportável, talvez tenha se acostumado com ela. O
tratamento dura por três dias e lhe é dada alta do hospital.
Pedro sai e se dirige à praça. A noite chega e ele
adormece, no banco da praça. Devia ser madrugada,
quando um catador solitário se aproxima, e começa a lhe
apalpar, colocando a mão nos bolsos de Pedro. Este acorda
espantado, antes que visse de quem se tratava, leva um
tremendo tapa no lado do rosto, seu ouvido zuniu e tudo
começou a girar ao seu redor. O assaltante lhe diz:
24
- Isso é para que, de uma próxima vez, tenhas algum para
eu levar. Ele se afasta, deixando Pedro tentando
compreender o que havia acontecido.
Não conseguiu dormir pelo resto da madrugada.
O relógio da igreja marcava seis horas e quarenta e cinco
minutos, quando o garoto chegou.
- Oi, vô! O senhor já está aqui?
- Sim, eu dormi aqui!
- Como o senhor se chama?
- Pedro, simplesmente Pedro.
- Seu Pedro, o senhor está bem?
- Acho que sim! Mas não sei como vou arrumar comida?
A última vez que procurei comida no lixo, me fez mal,
tive que parar num hospital com um episódio diarréico.
- Quer que eu lhe ajude?
- Sim, meu pequeno amigo, se não for incomodá-lo.
- Espere enquanto eu limpo os vidros dos carros, até juntar
o suficiente para comprarmos um sanduíche de mortadela.
- Às dez horas, o menino se aproxima de Pedro, trazendo
dois sanduíches de mortadela, alcança um a Pedro e diz:
- É o que consegui até agora, vai quebrá o galho, por
enquanto.
O garoto senta ao lado de Pedro e pergunta:
- O senhor não tem onde morar?
- Eu não sei, não me lembro de nada.
- À tardinha, o senhor vem comigo, vou levá o senhor até
o meu pai, ele vai ajudá.
- Pai, este é o meu amigo, o vô Pedro. Ele tá com
problema, não sabe como arranjar comida, não sabe onde
mora.
- Eu sou Nocha, pai do Toinho, se o senhor é amigo do
Toinho, é meu amigo também.
- Sr. Nocha, prazer em conhecê-lo! Eu sou Pedro, aliás,
este foi o nome que dei no hospital quando me
25
perguntaram, eu vi uma foto de D. Pedro, e embaixo da
foto estava o nome, D. Pedro de Alcântara, foi o nome
que me veio no momento. Na verdade, eu não sei quem
sou e o que aconteceu, acordei num hospital, com a cabeça
enfaixada, como ainda está. Pelas minhas vestes, imagino
que sou um mendigo.
- Mas o senhor fala muito bem pra um mendigo. Bom,
aqui o senhor ficará em paz, todos nós temos de cuidá de
nossas vidas e procuramos ajudar os que precisam de nós.
Chamamos isto de acampamento, eu sou o responsável por
ele. A regra principal é não ter nada de valor aqui, se
queremos cozinhar, usamos latas que encontramos nos
lixos, fogão também é feito com uma lata, o fogo nós
fazemos com restos de caixotes que ajuntamos nas ruas.
Não utilizamos xícaras ou pratos, apenas um pote plástico
tirados das lixeiras.
- Mas, por que não adquirem pratos de louça ou copos de
vidro?
- Temos que estar preparados para abandonar o
acampamento a qualquer hora. O rapa chega sem avisar e
dá borracha em todos nóis, por isso temos que fugi. Além
do mais, se tivermos coisas de valor, os outros moradores
de rua certamente vão nos roubar, se até panelas de
alumínio eles roubam para vender. Quando eles entram no
acampamento, veem que nada tem de valor e vão embora.
Quanto à comida, comemos o máximo que podemos em
cada dia, pois no dia seguinte podemos não ter nada para
comer. Sempre gastamos tudo o que conseguimos, em um
dia, em comida e comemos tudo. No dia seguinte, Deus
tem que ajudar novamente.
Neste momento, chega uma mulher, carregando uma
sacola de plástico, dessas de supermercado, se aproxima e
diz:
- Quem é esse ai?
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- Permita que me apresente minha senhora, sou Pedro.
- Já vi, mais uma boca pra comê. Aqui tu tens que trazer
comida, nóis todos temos que arrumar comida.
- Minha senhora, se minha presença lhe desagrada, vou
embora.
Nocha intervém:
- Não é nada disso, minha mulher é um pouco atravessada,
mas com o tempo verá que é uma boa mulher.
E assim, dormindo em uma cama feita com papelões e
jornais velhos, o novo membro daquele grupo se sente
mais aliviado, mas sabe que tem muito que aprender com
seus mais novos convivas.
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CAPITULO III
MAMBA PRETA
Antônia Menezes Pereira (Mamba Preta)
Marquito Monsueter Pereira (Um mau caráter)
Martha Monsueter Pereira (A Sogra)
Antônia Menezes Pereira, uma mulher afro-descendente,
com 38 anos, casada há 12 anos com Marquito Monsueter
Pereira, homem branco, que se apaixonara por ela quando
tinha apenas 17 anos. O namoro foi rejeitado pelos pais de
Antônia, pois Marquito era 10 anos mais velho do que ela.
E também por ser branco, diziam que ele queria a negra
bonita que ela era, mas será que quereria os filhos pretos
que ela, com certeza, lhe daria. E quando ela perdesse a
beleza? Continuaria a querê-la? Quando ela completou 24
anos, casaram em uma pequena igreja do bairro e partiram
em viagem de núpcias. Um ano após haver casado,
Marquito sentiu-se febril e foi ao médico, que
diagnosticou que ele tinha uma infecção na garganta,
receitou-lhe medicamentos, dois dias tomando os
remédios e a febre permanecia. Marquito
foi a um outro medido, que diagnosticou que ele tinha uma
infecção nos rins, medicou-o, mais três dias, com a
medicação e antitérmicos, mas a febre continuava. Agora,
a infecção se manifestava nos testículos avolumados, que
encontravam-se com um grande inchaço. Ele foi
hospitalizado, o diagnóstico da equipe médica do hospital
foi de que ele tinha sido acometido de uma orquite. Com o
tratamento certo, a doença foi debelada em trinta dias.
Após, os testículos secaram. Marquito ficou estéril. O
diagnóstico do médico foi de que, possivelmente, não
perderia a potência sexual, mas que somente o tempo
poderia decidir.
Antônia se manteve solidária ao marido, confortando-o,
quando ele tentava uma ereção com insucesso. Marquito
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chegou ao ponto de propor a Antônia a separação, pois
não tinha jeito de conseguir uma ereção. Mas Antônia
respondeu dizendo que isso não era importante, o que
valia era o amor que ela sentia por ele e ele por ela.
Mas o tempo que tudo modifica, nesse caso, foi
providencial, aos poucos, Marquito foi conseguindo, com
o auxílio da dedicada esposa, até a completa recuperação.
Um espermograma teve como resultado que Marquito
tinha ficado estéril, que o casal jamais teria filhos. O casal
vivera feliz por doze anos. Um certo dia, Antônia deixou
Marquito desenhando em seu atelier e foi ao cabeleireiro.
- Querido, estou indo ao cabeleireiro, devo voltar próximo
das 18 horas.
- Vá sem pressa, querida, que eu tenho muito trabalho a
realizar!
Mas casualidades acontecem. Estava Antônia na sala de
espera do cabeleireiro, quando recebe uma ligação no seu
celular. Era sua mãe que havia chegado de ônibus e a
estava esperando na rodoviária.
- Alô querida! Vim te fazer uma visita de surpresa. Pois
estava com muitas saudades tuas.
- Oh, mamãe, que bom você ter vindo, eu também estava
morrendo de saudade!
Antônia suspendeu o horário marcado e foi à estação
rodoviária apanhar a sua mãe. Após apanhá-la, voltou para
casa, levando sua mãe. Em casa, pegou a chave no
esconderijo e abriu a porta, sem fazer barulho para não
atrapalhar o trabalho de Marquito. Disse a sua mãe que ele
deveria estar concentrado nos projetos e que seria
conveniente não fazerem barulho para não atrapalhá-lo.
Ouviram risadas que vinha do quarto do casal, se
aproximaram, a porta estava entreaberta e elas, através do
espelho, viram os dois corpos nus em cima da cama,
29
fazendo sexo, a moça branca sobre o corpo de Marquito,
parecia que estava cavalgando um potro. Mãe e filha se
olharam. Antônia fez um sinal para que a mãe fizesse
silêncio. Como entraram, saíram da casa, fechando a porta
à chave e guardando-a no esconderijo. Antônia não deu
uma só palavra à mãe. Embarcaram no carro e partiram.
Antônia a levou à estação rodoviária, comprou-lhe a
passagem, levou-a até o assento no ônibus, esperou, pelo
lado de fora, até ela partir, isso sem fazer qualquer
comentário sobre o ocorrido.
Após a mãe ter partido de volta para casa, Antônia
examinou a bolsa que levava, tinha apenas R$ 235,00
reais, comprou passagem para Porto Alegre, deixando o
carro em um estacionamento. Em seu íntimo, sentia a
necessidade de sair imediatamente de Santa Cruz, depois
pensaria no ocorrido, ou nunca mais pensaria no ocorrido.
Como um autômato, chegou no guichê de vendas de
passagens, pediu uma para Porto Alegre.
Já dentro do ônibus, com os olhos fechados, parecendo
dormir, seu cérebro estava confuso pelo impacto dos
últimos acontecimentos, rejeitava qualquer pensamento
sobre o ocorrido, pois desde os 17 anos dedicara-se àquele
homem, suportara seu estado de impotência sexual por
dois longos anos, aguentou diversos assédios sexuais sem
deixar-se envolver. Agora aquela cena, que a toda hora
vinha em sua lembrança, como um pesadelo, na sua cama,
com uma desconhecida, sabia lá quem era?
Assim, nesse torpor mental, permanecia de olhos
fechados, com ausência total de pensamentos, como que
seu cérebro tivesse apagado qualquer lembrança, anterior,
como uma espécie de proteção, para que ela conseguisse
suportar tamanha decepção.
O ônibus partiu, ela nem notou a presença de um homem
que sentara a seu lado. Assim chegaram à capital do
30
estado. Antônia desceu do ônibus, pegou um táxi e disse
ao motorista:
- Me leva a um posto de gasolina onde haja abastecimento
de caminhões.
Num grande posto de abastecimento, na saída da cidade,
ela dispensou o táxi. O caminhão estava sendo abastecido,
ela chegou perto do motorista e lhe disse:
- Ei, moço! Para onde está indo?
- Estou indo para São Paulo, quer ir junto?
- Se me deres uma carona?
- Primeiro quero saber se tu és de cama e mesa?
Antônia, não acostumada com o linguajar dos
caminhoneiros, disse:
- Não entendo o que disse!
- Se durante a viagem podes preparar a comida e trepar
comigo quando eu for dormir?
- Ah sim, entendi, queres que eu pague a viagem
preparando comida e fazendo sexo contigo?
- Agradeço a tua carona, mas não me serve.
Procurou outro caminhão, o motorista era mais jovem do
que o primeiro, mas tinha uma aparência mais sóbria.
Ela foi dizendo:
- Preciso chegar a São Paulo, quero uma carona, mas não
sou puta, o máximo que faço para pagar a viagem e
cozinhar para nós.
O jovem olhou para ela de cima abaixo, uma mulher com
traços finos, negra, com os cabelos lisos, usando roupas
finas, aparentando ter, no máximo, 38 anos, e disse:
- Eu sou um homem que não deito com qualquer mulher,
primeiro é preciso conhecê-la muito bem. E se você fosse
uma prostituta não viajaria comigo. Como posso saber que
tu não estás fugindo da policia ou de alguém? Como é o
seu nome?
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Antônia tentou, por alguns instantes, dizer quem era e o
que estava fazendo ali, naquele momento. Mas só o que
lhe veio à mente foi de um documentário que assistira na
televisão, sobre uma serpente denominada Mamba Preta,
que é a maior e mais venenosa serpente encontrada na
África, com tamanho variando de 2,5 m a 3,5 m, que vive
a maior parte do tempo na terra, mas pode escalar árvores
com facilidade. Tem um bote muito rápido e seu veneno
causa paralisia, podendo levar a vítima à morte se não for
tratada rapidamente.
- Mamba, Mamba Preta, este é o meu nome!
- Nome estranho! Mas como posso saber se não está sendo
procurada pela polícia?
- Não sei como possa saber! Mas eu lhe asseguro que não
sou do mal, apenas necessito ir para São Paulo e não tenho
dinheiro para a passagem de ônibus.
- Vá lá, vou correr o risco, mas eu te aviso, no primeiro
posto da polícia rodoviária, eu paro e quero que você fale
com os policiais, só para ver se tudo está correto contigo.
- Tudo bem, aceito as condições.
- Eu sou Turíbio Nunes da Silva, tenho 28 anos, sou
casado, tenho dois filhos, e sou caminhoneiro há 5 anos.
Comecei ajudando o meu pai, que também é
caminhoneiro, quando fiz 23 anos, meu pai me ajudou a
comprar este caminhão, e aqui estou trabalhando.
Eu não viajo à noite, por isso, vamos até Osório, e lá
pernoitaremos. Devemos chegar lá pelas 21 horas, e
sairemos às 6 horas da manhã. Tudo bem para ti?
- Sim, tudo bem!
O caminhão deixou a grande Porto Alegre e pegou a
Freeway. Por volta das 21 horas, adentram num posto de
abastecimento em Osório.
- Aqui pernoitaremos! - disse o motorista.
- Devo descer? - perguntou Mamba Preta.
32
- Sim, ao menos, enquanto tomo um banho no posto.
Ele fechou o caminhão e se dirigiu ao banheiro, sua
passageira fez o mesmo. Uns quibze minutos depois ele
retorna ao caminhão. Mamba Preta já
estava lhe
esperando.
- Como é bom um banho para tirar o cansaço.
- No banheiro feminino não há chuveiros. Isso é uma
discriminação para com as mulheres.
- Não há tantas mulheres caminhoneiras que torne isto
necessário. Mas, se quiser tomar um banho é só se dirigir
ao hotel ao lado do posto, lá há banheiro feminino.
- Farei isso, também necessito disfarçar o cansaço.
Ela se dirigiu ao hotel, mas pensou:
“ Não tenho roupas para trocar, como fazer? A esta hora
não encontrarei nada que venda calcinhas. Mas posso
tomar o banho e lavar as calcinhas. Ficarei sem calcinhas
até que elas sequem, ou deixarei elas secarem no corpo,
pois não terei onde secá-las! É isso que farei.”
- Boa-noite, seria possível eu tomar um banho? O posto
não tem banho para senhoras.
- Boa-noite! Sim, sabemos disso, pode utilizar o do hotel.
Ela contou o dinheiro que restara: R$ 184,60, era tudo o
que tinha. Se gastasse com hospedagem,
poderia lhe fazer falta para a alimentação, durante a
viagem. Agradeceu o banho e se dirigiu ao caminhão. Lá
estava Turíbio, tomando um chimarrão. Ofereceu à
Mamba Preta. Ela tomou e agradeceu. Turíbio disse:
- Pensei que irias ficar no hotel!
- Até pensei isso, mas não tenho dinheiro para gastar com
pernoites.
- Podes dormir no caminhão, na boléia, há lugar para o
segundo motorista, eu ficarei no banco dianteiro.
Ela agradeceu. E assim passaram a noite.
33
No dia seguinte, quando Turíbio despertou, já havia café
pronto. Caroneira e motorista tomaram um café e partiram
pela Rodovia Federal 101. No posto da policia rodoviária
de Torres, Turíbio mandou que Mamba Preta fosse até a
polícia e perguntasse qualquer coisa. Ela o fez sem
qualquer problema, e continuaram a viagem. Turíbio, em
certo momento, assim se referiu à Mamba Preta:
- Mamba, né? Me diga uma coisa! O que é que você vai
fazer em São Paulo?
- Pretendo trabalhar!
- O que é que você sabe fazer?
- Não tenho nenhuma especialização, mas vou tentar
trabalho no comércio.
- São Paulo é uma cidade muito violenta, eu,
particularmente, não me adaptaria lá, é muita correria para
o meu gosto. No Rio Grande o pessoal é mais calmo.
- Eu vou pela primeira vez a São Paulo! Por Isto não posso
nada dizer sobre a cidade.
- Você é uma mulher interessante, tem uma qualidade rara
nas mulheres. Fala pouco! A maioria das que conheço
falam demais e chegam até a perturbar o nosso sossego.
- Mas sobre o que você gosta de falar, ou gostaria que eu
falasse?
- Por exemplo, poderia começar contando a sua historia.
- Como saberá que estou falando a verdade?
- Não saberei, mas ajudará a passar o tempo.
Mamba Preta reluta um pouco, mas acaba contando toda a
sua estória ao motorista, que, ao final, diz:
- Puxa, que pepino! E como vais descascar esse pepino,
apenas fugindo para São Paulo?
- Não se trata de fugir simplesmente, o que quero é nunca
mais ver ou ser vista por aquele homem.
Eles chegaram à São Paulo. Antônia ( Mamba Preta, como
se denominara), agradece a carona e sai pelas ruas da
34
grande metrópole. Por não ter seus documentos, busca
retirar novos. O atendente do serviço de migração, lhe diz:
- A senhora deve ter ao menos a certidão de nascimento,
para ser possível identificá-la e ainda outro documento
com fotografia. Se não como posso saber que a senhora é
mesmo quem diz ser.
Nesse momento ela conclui que tinha tomado uma atitude
errada, e que teria de retornar ao Rio Grande do Sul. Ela
busca um telefone publico e liga para Turíbio.
- Alo é o Turíbio as ordens!
- Mamba Preta falando! Você tinha razão, foi uma atitude
impensada vir para São Paulo. Aqui não é possível eu
obter novos documentos.
- Eu lhe disse que não deveria sair do Sul. Eu estou
carregando uma carga de volta, dentro de três horas devo
sair e posso apanhá-la no mesmo lugar onde a deixei. Está
bem para você?
- Sim eu o aguardo no mesmo local.
De volta a Porto Alegre, ela se vê sem dinheiro, sem onde
ficar, está na Praça da
Alfândega, quando vê um homem velho que cata latinhas
nas cestas de lixo. Assim ela
encontra Pedro o desmemoriado, que a leva para o
acampamento, por alguns dias. Lá
ela vai ficando até fazer parte do grupo de moradores de
rua.
35
CAPÍTULO IV
O RETIRANTE
Em pleno sertão nordestino, havia um pequeno sítio, com
a terra seca e os animais morrendo de sede e fome. Esta é
a pequena casa de adobe, que abriga a família de Aolo,
um velho jovem sertanejo, velho na aparência e novo na
idade. Aos 30 anos, parecia ter quarenta, com a pele
queimada e enrugada do sol. Sua mulher, Amália, casara
com Aolo, quando tinha apenas 14 anos. Na época, ele
também era jovem, com apenas 19 anos. Seus dois filhos,
Adriano, com 10 anos, e a pequena Laura, com 5 anos,
ouvem com atenção o que ele diz:
- Eu não aguento mais, há três anos eu quero ir pra Sum
Paulo. Tu não dexô, nóis aqui vamu morrê de fome como
as vaca e as cabra. A terra tá seca, os animais sobrevivem
comendo tuna e palma, nóis não, nóis morre de fome neste
lugar. A terra é poca, não chega nem a um alqueire. Na
dispensa tem um saco de fejão, gordura e arroz, dá pra
ôceis comer por dois meis. Em dois meis, eu arranjo
trabaio e mando dinheiro pra ôceis.
- Mas hômi, como é que eu vô ficá aqui sozinha com as
crianças, nesse fim de mundo. A escola é longe, a venda é
longe, o vizinho mais próximo é o Firmino, já velho e
sozinho, vou ficá desamparada.
- Eu já disse, não posso levar ôceis pra Sum Paulo, onde
nóis vamu morá? Eu moro em qualquer lugar, ôceis não!
- Tá resolvido, eu vô e ôceis ficam esperando que eu
mando dinheiro, depois ôceis vão, quando eu tiver onde
morar com ôceis. Mal ou bem aqui ôceis tem uma casa pra
morá e fejão pra comê.
Aolo sai porta afora e se dirige ao galpão beira chão onde
estavam os animais. Lá chegando, tira o chapéu e começa
a falar com os animais que estavam na estrebaria:
36
- Eu vô pedir um favor prôceis, principalmente pro
Capitão! Tu eis o pai de todos os bodes, todo o rebanho ou
é muié tua ou filho ou filha de tu. Quero que tu cuide bem
de todos, inclusive da Amália e das crianças. Eu conto
com todos ôceis, eu prometo que quando tiver em Sum
Paulo, trabaiando, eu vendo ôceis para que não vá matar
oceis, não mando oceis pro matadouro. Tá certo?
Cedinho da manhã, Aolo parte rumo a São Paulo. Inicia a
jornada, percorrendo mais de cem quilômetros a pé, ora
por meio da mata rala do serrado, ora por estrada de chão.
Pegou uma carona num caminhão que o levaria até
Barreiras. O motorista, um senhor gordo, aparentando ter
mais de cinquenta anos, tentou convencê-lo de desistir da
idéia de ir para São Paulo. Contou-lhe diversos causos de
retirantes que se deram mal e terminaram retornando a sua
terra natal, em estado precário. Tudo em vão. Aolo estava
irredutível na idéia de ir para São Paulo. Num posto de
gasolina, conseguiu, em uma caminhonete, carona que o
deixou em Carinhanha, onde dormiu na praça, à frente a
uma igreja, bem na hora da novena, onde as músicas
sacras, que eram tocadas no alto-falante, entreteriam-no
por uma hora. No dia seguinte, partiu a pé rumo a
Januária. Na estrada, ganhou uma carona em um carro que
o levou até Salinas. Assim, ora a pé, ora de carona, ele
passou pela cidade de Jequitinhonha, Teófilo Otoni,
Linhares, Vitória, Cachoiro do Itapimirim, Campos, Rio
de Janeiro e, finalmente, chegou a São Paulo.
O sol estava raiando, quando ele viu pela primeira vez a
cidade de seus sonhos. O caminhão parou num posto da
Via Dutra, na entrada da cidade. Aolo desceu junto com o
motorista, que lhe disse:
- Fim da linha, aqui eu pego um chapa que me levará até o
meu destino.
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Aolo agradeceu a carona e foi tomar um café na lancheria
do posto.
- Ei moço! Quanto custa uma xícara de café com leite?
- Um real!
- Moço, onde tem uma obra pra eu trabalhá?
- Ih, aqui tem muitas obras, em cada rua tem varias obras,
é só seguir em frente.
- Muito obrigado!
- E o café, vai querer?
- Não, é muito cedo pra tomá café.
O atendente deu de ombros e Aolo seguiu o seu destino.
Ei, moço! Como é que eu faço pra falá com o dono da
obra?
O guarda da construção olhou Aolo de cima a baixo e
disse:
- O dono da obra é uma incorporadora, aqui quem manda é
o mestre de obra. Mas o que o senhor quer com ele?
- Negócio de emprego, eu quero trabaía na obra.
- Então é com RH, ele chega às 10 horas.
- E que horas são moço?
- São 8:15!
- Posso esperar por aqui?
- Como queira.
Às 10 horas, chega o responsável pelo RH. O vigilante
lhe diz:
- Seu Tavares, este homem está lhe esperando, quer
trabalho.
- Espera quinze minutos e manda entrar no escritório, que
eu o atendo.
- Então o senhor quer trabalhar na construção civil!
- Vim da minha terra pra isso moço, tô viajando há oito
dias pra chegar aqui.
- Já atendi a muitos como o senhor. Vocês simplesmente
vêm, sem antes saber o que é necessário para trabalhar
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aqui, em São Paulo. Mas, vamos lá! Tem carteira
profissional?
- Não tenho não senhor!
- É alfabetizado, isto é, sabe ler e escrever?
- Não sei não, senhor!
- Tem ao menos carteira de identidade?
- Não tenho não, senhor!
- Certidão de nascimento?
- Ah, isso eu tenho sim, senhor.
Ele alcança o documento, o entrevistador olha e diz:
- Sr. Aolo, vou lhe dar um conselho! Volte para a sua terra
da mesma forma como veio. Você não está acostumado
com a vida que aqui vai encontrar, São Paulo é um engodo
para todo aquele que vem sem estar preparado para tal.
Mas como eu sei que não fará o que eu digo, vou lhe dar
uma informação. Pegue ônibus ou ande a pé, se informe e
chegues a Estação Rodoviária, no terminal do Tietê. Lá
você encontra um serviço de informações para as pessoas
que chegam a São Paulo. Eles lhe encaminharão para tirar
os documentos que você precisa para trabalhar. Passar
bem, Sr. Aolo.
Aolo sai decepcionado, atravessa a rua e segue até chegar
a um bar. Entra e pede um copo de água. Eram 11 horas e
ele ainda não tinha comido nada.
- Ei moço! Pra trabaiá aqui em Sum Paulo é muito difícil?
O hômi me mandou tirar um monte de documento, preciso
sabê lê e escrevê?
- Não homem, depende do trabalho que você procura, não
tem qualificação, pega nas terceiras ou nas quartas.
- O que é isso?
- São empresas que são contratadas pela principal, para
executar uma determinada parte da obra. Estas, por sua
vez, contratam outras que são as quartas, para fazerem
alguns trabalhos específicos. Aqui tem um cartão dum
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empreiteiro, que trabalha em quarteirização, fala com ele
que ele te arruma trabalho. Vai por esta rua até a sinaleira,
dobra à direita, segue por cinco quadras, lá tem um prédio
que estão fazendo. Apresenta este cartão ao vigilante, que
ele chama o cara.
- Muito agradecido seu moço, vou já, já.
Aolo chega na referida obra.
- Oi, moço! O senhor sabe que eu tô procurando trabaio e
quero falá com este homem!
Alcança o cartão para o guarda.
- O Sr. Sandrigo! Tá ai, sim! Aguarda um momento que
eu vou telefonar para ele.
- Alô! Seu Sandrigo? Aqui tem um baiano, procurando o
senhor, quer trabalho.
- Diz pra ele que vou daqui um pouco, é para esperar.
Quarenta minutos depois!
- Então, seu Aolo, o que o senhor sabe fazer?
- Faço tudo o que o senhor manda. Só não sei lê nem
escrevê.
- Bom, eu tenho trabalho de papagaio! Serve?
- Tá certo, mas o que é papagaio?
- São trabalhadores que trabalham por dia e quando tem
serviço. Não tem carteira assinada. Recebe no final de
cada dia, é um diarista. Hoje pode trabalhar, amanhã não,
e, assim por diante.
- Aceito sim, senhor!
- Bom, hoje tá faltando um guincheiro, é simples, é só
prestar atenção. Você vai tirar de letra, é só acionar uma
alavanca, para frente sobe, para trás desce, vamos lá que
vai ver como é fácil.
De fato foi fácil, Aolo aprendeu a movimentar o montacarga, acionando o guincho. Trabalhou o dia inteiro,
almoçou ao meio-dia, e, às 18 horas, o expediente
terminou. Recebeu R$ 28,00. Como não tinha para onde
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ir, ficou conversando com o guarda, que tinha entrado no
trabalho às 18 horas.
- Eu tô trabaiando na obra, hoje subia e descia o guincho.
Vou ficar por aqui até amanhã, pra ver se tem trabaio
amanhã.
O guarda lhe deu atenção, pois Aolo seria uma companhia
que ajudaria a passar o tempo. Conversaram até às 22
horas. Aolo já estava sonolento, quando o guarda lhe
disse:
- Se quiser! Pode descansar num quartinho que tem ali
nos fundos. Amanhã, antes de eu sair, eu lhe acordo.
- Aolo! Tá na hora. Quer tomar um café, tá na chaleira?!
Aolo levanta, toma uns goles de café e sai da área, para
esperar o próximo guarda, que entraria às 6 horas,
provavelmente o mesmo do dia anterior.
O guarda chega, vê Aolo e diz:
- Você já está ai, será que vai trabalhar hoje?
- Tô esperando o hômi chamá
Aolo deu sorte e durante quine dias conseguiu trabalhar
doze. Quase não gastou nada do que ganhou, queria juntar
dinheiro para mandar para a sua família.
Mas, às vezes, a vida nos surpreende negativamente. No
décimo sexto dia, Aolo foi trabalhar, cortando ferros para
o armador de ferragens, quando sofreu um acidente de
trabalho, ao movimentar um feixe de ferros e teve o dedo
amputado parcialmente. A chefia procedeu aos primeiros
socorros, e ele foi encaminhado a uma clínica que
procedeu à cirurgia recuperadora. Após o atendimento,
Aolo retornou para a obra e foi ter com o mestre, que lhe
disse: Sinto muito, mas os diaristas não tem seguro nem
INSS. E, eu não posso deixar você trabalhar assim.
O guarda não permitiu que Aolo permanecesse na obra,
pois eram ordens do patrão, só os que estivessem
trabalhando.
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Aolo comia a comida da obra, o que permitia que
poupasse quase tudo o que ganhava. Mas agora, parado,
tinha que comer, e assim, passada uma semana, já via
findar os parcos reais que tinha ganho na construção.
Ele se viu numa situação de morador de rua. Caminhando,
cabeça baixa, olhando para os sacos de lixo à beira das
calçadas, de repente ele para e vê um cachorro de médio
porte, preto com uma parte branca no peito, pelos longos,
focinho comprido. O animal, com as patas, abria os sacos
de lixo, e pegava o que havia para comer, algumas vezes
ele cheirava e não comia. Aolo ficou pensando:
“Ele sabe o que está bom para comer e o que não presta.
Além do mais ele está na mesma situação que eu.”
Aproximou-se do cão e o chamou:
- Rex, como você vai, acha bonito o nome de Rex? É
assim que vou chamar ocê.
O cão cheirou Aolo, que lhe passou a mão sobre a cabeça,
e continuou falando:
- Quer ser meu amigo, nóis temo na mesma situação,
podemos procurá comida juntos, ocê vê o que está bom
pra nóis cumê. E, aí comemos os dois.
O cão sacudiu o rabo como aceitação do novo
companheiro e amigo. Assim, eles constituíram uma dupla
inseparável. Alguns dias se passaram e chegou o final de
semana. Eles foram para os fundos de uma churrascaria,
esperando ganharem alguns restos de carne. Eram três
horas da tarde, quando um homem
saiu de dentro da área de churrasqueira, com um contentor
de plástico cheio de restos de comida, e o colocou sobre
um estrado de madeira. Aolo se aproximou do homem e
perguntou:
- Moço, eu e o meu cão podemos catá alguns pedaços de
carne da barrica?
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O homem olhou-os, sacudiu a cabeça e disse: - Para cão
eu posso dar, e deu um pedaço de carne com farinha e uns
ossos para o cão.
- A chefia não nos deixa dar restos a ninguém. Isso vai
direto para os porcos de um homem que vem retirar daqui
a pouco.
Aolo, não entendendo, disse:
- Mas, se vão dar para os porcos, por que eu não posso
comer um pouquinho só?
- O dono nos explicou que se nós deixarmos você comer, e
lhe acontecer alguma coisa, ele será o responsável.
- Porco e cachorro pode comer, eu não. Não dá pra
entendê esse mundo.
O cão comeu, o homem esperou. Contrariado, Aolo e Rex
seguem o seu destino incerto. Naquele dia, não haviam
comido nada, pois nos finais de semana não há lixo para
ser invadido.
Eles caminham e chegam a um posto de combustível. O
homem se aproxima de um caminhão, onde o
caminhoneiro está na lateral do caminhão, com um
fogareiro a gás ligado, esquentando água. Ele vê o homem
preparar um chimarrão e não entende o que está
acontecendo, nunca havia visto um chimarrão. E, ele
pensa:
“ Que é que é isso, ele chupa naquele canudo e enche a
cumbuquinha de água?”Ele resolve perguntar.
- Que é isso, moço?
- É um chimarrão tchê, nunca viste?
- Não, não senhor, e, é bom?
- Queres experimentar?
- Se o senhor não se importa.
O gaúcho acabou de chupar o chimarrão, que roncou.
Encheu a cuia e alcançou a Aolo, que o pegou e deu o
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primeiro gole. Sentiu o amargor da erva, mas engoliu e
alcançou ao gaúcho. Este não o pegou, dizendo:
- Tens de fazer roncar, não podes me devolver sem estar
completamente vazio.
Aolo se viu obrigado a tomar todo o chimarrão, fez roncar
e devolveu ao gaúcho.
- E daí tchê, gostaste do chimarrão?
- É bom, mas é amargo.
- É coisa de gaúcho. Tu és do Nordeste, né?
- Sou, sim, senhor, e me chamo Aolo, as suas ordens. E
senhor de onde é?
- Sou do Rio Grande do Sul, mais precisamente de São
Marcos. Me chamo Cneu Alves Gonçalves e vivo viajando
por esse Brasil.
- Pois é, moço, eu tô na pior.
Aolo contou toda a sua história ao caminhoneiro, que ao
final lhe disse:
- Daqui um pouco vou fazer um café, estás convidado para
tomar comigo.
- Muito obrigado, seu moço, mas não dá pra ser agora, não
comemos desde ontem?
- Já vou preparar.
O caminhoneiro tirou da caixa de mantimentos um pão
d’água, e uma perna de morcela branca e uma outra preta.
Cortou o pão em duas metades, abriu ao meio e colocou
um naco de morcela, cortada ao meio e alcançou a Aolo.
Tirou de dentro da caixa uma garrafa com refrigerante de
dois litros e serviu um copo a Aolo. O faminto comeu e
bebeu tudo, explicando que o cão havia comido restos em
uma churrascaria e eles não permitiram que comesse.
- Mais e daí, tchê Aolo, pra onde vais?
- Por ai, pra onde Deus quiser.
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- Não queres ir pro Rio Grande? Lá tem bastante emprego,
quem sabe. Amanhã eu vou descarregar e carregar uma
carga para Porto Alegre, se quiseres viajar comigo.
- Mas o Rex, pode ir junto?
- Pode, a carga é de lâminas de duratex, sobra sempre um
pedaço de carroceria para o teu cachorro. Só que tu vais
ter que ajudar a desenlonar e enlonar o caminhão.
- Tá fechado, vamo viajá pro Rio Grande do Sul, mas fica
muito longe?
- Não, fica a mil e duzentos quilômetros de São Paulo.
Devemos levar um dia e meio de viagem.
Assim, eles começaram na segunda-feira, após o almoço, a
viagem para o Rio Grande do Sul.
Na boleia do caminhão Mercedes Benz, truck, Aolo estava
preocupado com Rex, que estava na carroceria, deitado
sobre a lona, que sobrara do envolvimento da carga.
O gaúcho, para passar o tempo, começou a contar a sua
estória para o retirante.
- Pois é, Tchê Aolo, a vida nos apronta cada uma que
parecem duas. Imagina tchê, que eu, certa vez, fui viajar
para as tuas bandas e me dei mal. As estradas esburacadas
faziam a viagem levar o dobro do normal. Terminou a
minha erva-mate e quem diz que eu ia achar erva naquele
lugar. A viagem levou uma semana e eu passei três dias
sem tomar o meu chimarrão.
Conversando e contando estórias, os dois chegaram a
Furnas, Aolo ficou impressionado com as furnas a beira da
estrada. O gaúcho lhe explicou porque havia tantas velas
acesas nas furnas. Mais três horas de viagem e eles
chegaram a Porto Alegre. O caminhoneiro lhe disse:
- Bem, meu amigo, chegamos. Eu descarrego hoje mesmo
e me vou a São Marcos, que tenho a minha mulher e meus
filhos me esperando. Fique com Deus!
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Aolo e Rex desceram do caminhão e ficaram na beira da
Freeway. Seguiram rumo a capital do estado do Rio
Grande do Sul.
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CAPITULO V
UM CASAL DE JOVENS:
Amigos inseparáveis:
Salvador Capaverde e Armando Salvatarra poder-se-ia
dizer que eram amigos inseparáveis. Moravam no mesmo
bairro, seus pais eram vizinhos. O velho Capaverde era
motorista de táxi. O velho Salvatarra era comerciante,
tinha um armazém de secos e molhados. As duas famílias
sempre se deram bem, os garotos conheciam-se desde
pequenos, sempre cursaram as mesmas escolas, até
chegarem à universidade. Ambos estudaram Direito.
Quando estudantes, costumavam fazer uma brincadeira.
Quando um deles arrumava uma namorada, o outro
tentava roubá-la. Assim foi com diversas garotas. Os
namoros terminavam, mas a amizade continuava, até que
ambos encontraram Madelon Salcedo de Antorra, filha de
um argentino que se mudara para a cidade, pois era
representante comercial de uma grande empresa argentina.
A jovem foi cortejada por ambos.
Salvador Capaverde a conhecera por acaso, quando ambos
se encontraram na academia. Trocaram algumas palavras
enquanto malhavam. Armando Salvatarra conhecera-a
quando foi apresentada por Salvador. Ambos os amigos se
apaixonaram perdidamente por Madelon.
O amor continuou e a velha amizade acabou. A moça não
foi desposada por nenhum dos dois. Madelon retornou à
Argentina com sua família. A amizade entre os dois
transformou-se em ódio. Após haverem se formados,
tornaram-se concorrentes e, com o passar do tempo,
Salvador Capaverde tornou-se promotor público e
Armando, um bom advogado criminalista. Ambos
casaram. Salvador teve um filho varão, Armando, uma
filha. As crianças, embora vizinhas, nunca tiveram
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qualquer relacionamento, pois as famílias não se davam.
Mas o destino assim determinou: Marcelo Capaverde, ao
chegar ao segundo grau, teve como colega de classe
Juliana Salvatarra. Quando se encontraram pela primeira
vez, eles que se viam fortuitamente, mas sempre mantendo
uma certa distância requerida pelas famílias, viveram um
amor à primeira vista. Quando se falaram, viram que um
nascera para fazer o outro feliz. Assim, começaram um
namoro escondido das famílias.
Certo dia, Juliana conversa com a sua mãe:
- Mãe! Eu amo Marcelo Capaverde e ele me ama.
- Seu pai vai ficar uma fera quando souber.
- Eu não agunto mais, hoje eu vou falar com ele, seja o
que Deus quiser!
- Pai! Quero falar contigo!
- Amanhã querida, hoje eu tenho que estudar um processo
para amanhã cedo.
A mãe puxa-a para o lado e lhe diz:
- Filha, hoje não é o dia. Espera um momento em que ele
esteja despreocupado, assim vai receber melhor a notícia.
Nas casa dos Capaverde:
- Pai, eu tenho um assunto de grande importância para
falar contigo!
- Se é algo sério, vamos ao escritório.
Ambos chegam ao escritório. Marcelo senta em uma
poltrona, coloca ambas as mãos no rosto e permanece em
silêncio por alguns instantes.
- O que é que há filho, pode confiar no seu pai.
- Confiar, eu confio, só que eu sei qual será a sua reação
quando eu lhe contar.
- Vamos, rapaz, desembucha, eu prometo que serei
condescendente.
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- Vá lá! Eu amo Juliana Salvaterra e vou casar com ela no
futuro, estamos namorando. Pronto, eu disse.
- Você sabe desde o dia em que nasceu que eu sou inimigo
do Salvaterra. Tinha que namorar logo a filha do meu
desafeto? Que filho mal agradecido que você me saiu!
- Mas pai, não foi de propósito, aconteceu, foi inevitável,
nós nos amamos.
- Você não sabe o que está dizendo, eu lhe proíbo de
namorar a filha do Salvaterra. Se insistir nisso, não me
considera mais seu pai.
Na casa dos Salvaterra:
- Pai! Posso falar contigo?
- Sim, minha filha. Pode falar sou todo ouvidos.
- Pai, eu amo Marcelo Capaverde.E, nós estamos
namorando.
- Nem pensar nessa possibilidade! Você sabe que eu e o
Capaverde somos inimigos. Jamais permitirei que você se
relacione com ele. Assunto encerrado e ponto final. Não
me fale mais nisso.
Ambos se encontram e comentam as reações de seus pais.
- É isso, Li! O pai não quer saber de falar sobre o nosso
namoro. Chegou a dizer que se eu insistir que não o
considere mais meu pai.
- O meu também está irredutível, não sei o que vamos
fazer?
- Vamos ameaçá-los, vamos dizer que fugiremos, se eles
insistirem em não concordar com o nosso namoro.
Assim, ambos enfrentam os pais. Li diz ao pai:
- Se o senhor insistir em não permitir o meu namoro com
Ric, nós vamos fugir.
- Deixe de ser tola, onde irão, o moleque não tem eira nem
beira. E o pai dele não vai facilitar as coisas para vocês.
Crie juízo, um amor debaixo da ponte não sobrevive.
Ric enfrenta o pai:
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- É isso pai, eu vou fugir com Li, não sei para onde, mas
vamos fugir.
- Para de dizer asneira, para onde vão? Achas que uma
menina mimada vai viver só de amor. E tu, que sempre
tiveste tudo, achas que és capaz de passar necessidades?
Mas, estejas pronto hoje às nove horas da noite, nós vamos
dar umas voltas.
Às nove horas, ambos embarcaram no carro, e seguiram
rumo à periferia da cidade de Rio Grande. O carro foi
estacionado, no interior da vila dos carreiros. O velho
Capaverde desceu, o jovem também o fez. Ambos
começaram a caminhar em silêncio, apenas vendo as
condições em que os moradores da vila viviam. Crianças
seminuas, lixo por toda a parte, cavalos estercando onde as
crianças brincavam. As casas feitas de restos de
construções, e muitas feitas de lona e latas. A visita durou
mais de meia hora. Ambos sem darem uma única palavra,
embarcaram no carro e partiram.
Já em casa, e no escritório, o velho disse ao jovem:
- Isso que acabas de ver é o que te espera, se persistires em
me desobedecer.
O jovem levantou, estendeu a mão para o pai e disse:
- Meus pêsames. Acabas de perder o único filho que
tinhas.
O velho respondeu:
- Se pretendes sair desta casa, sairás apenas com a roupa
do corpo.
- Que seja.
Ric vai ter com a sua mãe.
- Mãe! Acabo de tomar a decisão de deixar esta casa e
levarei Juliana Salvaterra comigo. Nunca mais nos
veremos.
Eles permaneceram por mais de quinze minutos
abraçados.
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O velho Capaverde estava com o senho fechado, parecia
petrificado. Sua esposa lhe diz:
- Está louco, homem? Vais deixar nosso filho ir embora,
assim, com uma mão na frente e outra atrás. Que será dele,
passará privações, poderá adoecer e até morrer longe de
nós. Isso não te causa remorso?
- Deixe-o ir.
O jovem sai, a porta se fecha. O velho Capaverde diz para
a mulher:
- Retornará ainda hoje, e virá com a cola no meio das
pernas como um cão fujão. É só esperar.
O jovem sai desesperado e se dirige à casa dos Salvaterra.
Chegando lá, aperta a campainha. Vem atender a porta o
dono da casa, o Sr. Armando Salvaterra, que, quando o vê
diz:
- O senhor por aqui? Que deseja, se sabe que não é bemvindo nesta casa?
- Eu quero falar com Juliana, e não sairei daqui sem falar
com ela, faça o senhor o que fizer.
Nesse momento, ao ouvir a voz de Marcelo, corre e chega
à porta, quando o pai está forçando a porta para fechá-la,
enquanto Marcelo, com o pé entre a porta e o batente, não
deixa que a feche.
Ela se agarra ao pai, que alivia a pressão na porta e ela
abre parcialmente. Ric diz:
- Juliana, saia e venha ter comigo, estou esperando-a.
Ele retira o pé e a porta é fechada. O pai, enraivecido, diz:
- Que petulante este sujeito, invadir a minha casa a sua
procura, nem pensar em sair para encontrá-lo.
- Pai! Sinto muito em ter que desobedecê-lo, mas vou ter
com Marcelo. Quer o senhor queira ou não. Abriu a porta
e saiu, sob os olhos perplexos dos pais.
- Juliana, eu acabo de romper com o meu pai, saí de casa,
e quero que tu me acompanhes.
51
- Irei contigo para onde fores. Apenas quero me despedir
de minha mãe. Espera um pouco.
Adentra em casa, onde encontra o pai e a mãe, em plena
discussão, sobre o caso. Ela interrompe a ambos e diz:
- Marcelo saiu de casa e eu vou com ele, não sei para
onde, mas vou.
Seu pai, pegando-a pelo braço, diz:
- Podes ir, mas o rapaz, fora da família, não tem onde cair
morto. Vai, mas apenas com a roupa do corpo.
A mãe, em pranto, se abraça à filha, e diz:
- Não faça isso, minha filha, o seu pai não sabe o que está
fazendo, você vai despedaçar o meu coração. Não terei
mais motivo para viver.
Ela se abraça à mãe e diz:
- Sinto muito, minha mãe, eu a amo muito, mas tenho que
viver com o homem que amo.
Assim, o jovem casal, abandona a casa dos pais.
Na residência dos Salvaterra, Dona Jurema Salvatarra diz
ao marido:
- Nossa filha não virá, uma coisa dentro de mim diz que
nunca mais a veremos. Tudo porque vocês, homens, são
cabeça-dura. Que é que há de mal em nossa filha se
apaixonar pelo filho dos Capaverde? Vocês é que
brigaram por causa da Argentina, que, no final, não quis
nenhum dos dois.
O homem, com o senho fechado, inflexível, respondeu:
- Deixa passar a noite fora e verás que no dia seguinte
retornarás arrependida de ter me desobedecido.
Na residência dos Capaverde, havia a mesma discussão.
Dizia Dona Clara Capaverde ao marido:
- Eu conheço bem o filho que gerei, verás que ele nunca
mais retornará. E eu morrerei a míngua, pois não tenho
mais vontade de viver sem o meu filho.
52
Passava da meia-noite, quando o jovem casal alcançou a
estrada que leva a Pelotas. De mãos dadas, caminhavam
pelo acostamento. De quando em vez passava um
caminhão ou um carro, eles sinalizavam que queriam
carona. Por volta de uma hora da madrugada, já se
encontravam nas proximidades da vila da quinta, Ric
sinalizou para um carro que parou no acostamento.
O motorista, abrindo o vidro do carona, perguntou:
- Estão indo para Pelotas?
- Sim! - respondeu Marcelo.
- Então entre que eu lhes deixarei lá.
Já acomodados no carro, Ric, no banco da frente, e Li, no
banco de trás, o benfeitor pergunta:
- Vão a passeio para Pelotas?
- Não, na verdade, estamos dando uma de andarilhos,
saímos sem destino certo. Assim como diz a música: “Sem
lenço e sem documentos.”
- Ah, juventude! Quando jovens, temos disposição para
tudo.
- Sou Paulo Peixoto Soares, e tenho muito prazer em
conhecê-los.
- Eu sou Marcelo Capaverde e esta é minha namorada,
Juliana Salvaterra. Mas pode me chamar de Ric e ela de
Li, que são nossos apelidos de infância, nada tem a ver
com o nosso nome, mas assim é que somos conhecidos
pelos amigos.
- Ah, juventude! Lembro quando eu era jovem. Certa vez,
resolvi viajar meus três meses de férias, peguei uma
bicicleta e fui para Santiago do Chile. Iniciei fazendo o
percurso entre Rio Grande e Uruguaiana. No dia que eu
tinha marcado para o inicio da viagem, amanheceu
chovendo, o que fez levar três dias para chegar a
Uruguaiana. Mas, quando cheguei à cidade, havia várias
53
pessoas com cartazes, que diziam, “ Bem vindo a
Uruguaiana, Paulo Peixoto Soares”.
Outros diziam “Vai nessa, PP, a estrada é tua e a
Uruguaiana também.”
Meu Primo Harthur despontava à frente do grupo que me
recepcionava. No dia seguinte, tive que dar uma entrevista
na rádio local, e dar uma palestra em uma escola primária.
Descansei dois dias em Uruguaiana, na casa de meus tios.
E parti rumo a Concórdia, depois fui a Santa Fé, Córdoba,
São Joan, Mendonza e, finalmente, cheguei a Santiago.
Passei o que o diabo deixou de passar, comi o pão que o
diabo amassou. Mas quando retornei havia perdido vinte
quilos, já não era mais um homem obeso, e daí para cá
nunca mais engordei, passei a me alimentar apenas para
manter a vida e não mais para satisfazer a gula, como
antes. Passei a sair da mesa ainda com vontade de comer
mais. Mas foi imensamente bom para minha vida aquela
aventura. Cheguei a passar até três dias sem comer nada.
Derreti gelo para beber água. Tudo começou quando eu
subia a cordilheira, nunca soube a temperatura, mas posso
dizer que era muito abaixo de zero, pois tudo estava
congelado. A minha previsão era de vencer o trecho entre
duas cidades em apenas um dia, mas tive um pequeno
incidente, o pneu da bicicleta derrapou e saiu do aro. Não
consegui recolocá-lo, e tive que levar a bicicleta no ombro
por todo o final do percurso. A maioria das pessoas,
quando eu contava o que estava fazendo, ou seja, que eu
tinha como meta ir e voltar de Rio Grande a Santiago,
muitos me deram o que comer, e até mesmo me faziam
levar comida para o próximo dia. Mas também houve
lugares em que, para ganhar um prato de comida, tive que
prestar algum serviço, como limpar banheiros em posto de
serviços.
54
Descansei em Santiago por uma semana. Hospedei-me
em uma escola de padres salesianos, dei algumas palestras
sobre o Brasil e, mais precisamente, sobre o folclore
gaúcho, que muito interessava ao chilenos. Eu tinha
conhecimento sobre o assunto, pois fazia parte de um dos
maiores CTGs de Rio Grande: o CGT Mate Amargo.
Assim, passei uma semana em Santiago, preparei a minha
bicicleta e parti rumo a Mendonza, na Argentina, onde
parei por um dia, e fui para Rosário e Buenos Aires. Entrei
no Uruguai e fui para Montevidéu, Chuí e entrei no Brasil
por Santa Vitória do Palmar. Assim, retornei a Rio
Grande, trinta e seis dias após haver saído em viagem.
Mas vocês jovens, pretendem chegar aonde?
- Ainda não decidimos onde vamos parar, mas vamos
rumo a Porto Alegre.
- Que bom! Posso deixá-los em Camaquã, que é o meu
destino final. Estaremos lá por volta das cinco horas da
manhã. Assim, terei companhia para a viagem toda.
- Mas vocês saíram assim, de repente, ou foi planejado?
Ric
permaneceu mudo por alguns instantes, se
perguntando se devia dizer a verdade ou inventar uma
estória qualquer? Decide dizer a verdade.
- Na verdade, nós não planejamos nada, nossa estória é
semelhante a de Romeu e Julieta. Pais inimigos e filhos
apaixonados, o que nos obrigou a fugir para sei lá onde.
- Ah, isso me faz lembrar uma passagem em minha vida.
Eu ainda era jovem, tinha mais ou menos dezessete anos,
havia brigado com a namorada. E, intempestivamente,
resolvi ir para a fazenda de um tio meu, que ficava a mais
ou menos trinta quilômetros, seguindo a praia do Cassino.
Eram duas horas da tarde, quando resolvi sair da cidade de
Rio Grande, onde eu morava naquela época. Peguei a
minha bicicleta Herley e parti. Venci os doze quilômetros
que distancia a cidade de Rio Grande do Cassino, em
55
pouco mais de uma hora. Devia ser, mais ou menos,
quinze horas e trinta minutos, quando
comecei a pedalar na praia, teria ainda de vencer mais
trinta quilômetros de praias e mais oito de campo e
banhados, até chegar à casa do tio. Embora o vento
estivesse favorável, cheguei à entrada do campo quando a
noite já caía. Não caminhei mais de trinta minutos,
empurrando a bicicleta, e a noite já me tinha engolfado.
Não mais enxergava um palmo à frente do nariz. A região
é de banhados, e quando sai das dunas, onde a vegetação
era de macegas, de vez em quando, tinha que parar e
pedalar a bicicleta, levantando a roda traseira, para fazer
funcionar o farolete, que iluminava uns cinquenta metros
ou mais. Já completamente molhado por atravessar
pequenas lagoas e extremamente extenuado por carregar a
bicicleta em muitos lugares no ombro, cheguei a um
banhado, foquei o farol para a direita e o banhado se
estendia até o ponto em que a luz o iluminava, e para a
esquerda a mesma coisa. Resolvi atravessá-lo, dei alguns
passos, e me pareceu que o terreno era firme, ledo engano,
não tinha caminhado mais de vinte metros, e afundei no
lodo, tentei mover o pé direito e senti que o esquerdo
afundava mais. Parei e permaneci imóvel por algum
tempo. Uma particularidade que tenho é a de ficar calmo
em momentos de tensão. Raciocinei e vi que teria que
tomar uma atitude racional e imediata. Desci a bicicleta do
ombro, e a coloquei atravessada diante de mim. Com uma
das mãos no guidão e a outra no selim, forcei-a até que ele
atingiu o fundo. Apoiado na bicicleta, forcei a retirada do
pé direito, sem afundar o esquerdo. Assim, consegui
retornar à margem do banhado. Contorneio-o pela direita
e, assim, devo ter perdido o rumo.
Para encurtar o causo, fui parar na fazenda de um irmão
do meu tio, o qual eu não conhecia, pois o meu tio era
56
casado com uma tia minha, irmã da minha mãe. O homem
passou a ouvir os cachorros, que estavam dando sinal, saiu
para fora da casa, já era mais de meia-noite, ele somente
podia ver a luz do farol da bicicleta que iluminava,
parecendo-lhe a ele um clarão. Logo, tudo ficava escuro. E
os cães não paravam de ladrar. O homem, que não era
assustado, pegou uma lanterna e saiu rumo ao facho de
luz, quando o viu. Ao se aproximar de mim, logo viu que
se tratava de alguém com uma bicicleta. Não imagine com
que alegria eu ouvi aquele homem dizer focando a
lanterna em mim.
- Quem é? O que queres? Tá perdido?
- Respondi que era sobrinho de João Oliveira. Ele disse
que se chamava Lójo, era irmão do João Oliveira, e que ia
me levar até bem próximo da casa do João. A lição que
tirei dessa aventura foi de que devemos pensar bem antes
de tomarmos certas atitudes impensadas. E, que, jamais
devemos nos desesperar, embora perdido, todo molhado e
morto de cansaço. Mesmo assim, mantive o equilíbrio
emocional, e em momento algum perdi a esperança de
atingir o meu objetivo.
Assim, contando causos, eles chegaram a Camaquã. Li no
banco de trás, havia conciliado o sono. O carro estacionou
em um posto, na entrada da cidade. Ric olhou para o
banco traseiro, viu Li dormindo como um anjo, e pensou:
- Será que estamos fazendo a coisa certa? Vamos
submeter-nos a uma vida incerta e talvez dolorosa, Eu,
com dezenove anos, e L,i com dezoito, não necessitávamos
passar por isso. Mas agora já está feito, não podemos
mudar o destino.
- Li, chegamos a Camaquã! Acorde querida.
- Ric! Sonhei que havíamos fugido de casa.
- Não sonhou, realmente fugimos. Mas chegamos ao fim
da nossa carona.
57
PP desceu do carro para se despedir do jovem casal. Após
abraçá-los disse:
- Não esqueçam! Quando tiverem algum momento de
grande alegria ou tristeza, pensem dessa maneira, isto irá
passar, com toda a certeza, será apenas uma questão de
tempo. Não há bem que sempre dure nem mal que nunca
termine. E considerem que as dificuldades que viverem
juntos, servirão de cimento para alicerçar a união de vocês
dois. Sejam felizes, vocês merecem.
Ric e Li ficam na beira da estrada e veem o carro de PP se
afastar. Ric diz à Li:
- Pena que nossos pais não sejam iguais a este homem, se
o fossem certamente não estaríamos nesta situação.
Os reais que Ric tinha no bolso foram suficientes para que
ambos tomassem um bom café, na loja de conveniência
do posto de abastecimento. E sobrou algum para o almoço.
Li foi ao sanitário, Ric fez o mesmo, e ambos partiram
rumo a Porto Alegre. Já haviam caminhado mais de doze
quilômetros, quando, ao sinalizarem um pedido de carona,
foram atendidos por um caminhoneiro, que acostou o
veiculo de carga e perguntou:
- Querem carona?
- Ric e Li correram e responderam que sim, que estavam
indo para Porto Alegre.
Perto do meio-dia eles estavam adentrando na capital do
estado. Num posto de espera dos chapas, o caminhoneiro
disse:
- Este é o fim da linha, aqui eu lhes deixo, pois tenho que
pegar um chapa para me conduzir até a empresa na qual
devo descarregar a carga.
Ric respondeu:
- Aqui está ótimo, o resto do percurso faremos a pé, muito
obrigado.
58
O casal continuou a caminhada sobre a estrada, até
chegarem a um posto de abastecimento. Dirigiram-se ao
restaurante, almoçaram um típico “prato feito”, o que seus
últimos reais alcançaram. Daí para a frente, só Deus
ajudando para eles fazerem a próxima refeição. De mãos
dadas, roupas esvoaçantes ao vento, partiram sem saber
para onde o destino os levaria. Uma coisa, apenas, era
certa, retornar nunca!
- Ric! O que faremos agora? O dinheiro acabou, como
faremos a próxima refeição?
- Ora, Li? Nunca vi falar que alguém tivesse morrido de
fome, neste país. Alguma coisa temos que fazer para
prover as nossas alimentações.
- Eu sei, mas se vamos fazer alguma coisa terá de ser
agora, pois já gastamos os últimos centavos que tínhamos.
- O melhor que temos a fazer é pararmos e pensarmos,
para poder traçar um plano de sobrevivência.
Assim, pensando, eles se dirigiram a um banco, que estava
sob um pé de figueira, onde havia uma parada de ônibus e
sentaram.
Cotovelos sobre os joelhos, mãos no rosto, assim
permaneceram por algum tempo refletindo, até que em
certo momento Ric disse:
- Já sei, aqui na cidade de Porto Alegre deve haver
albergues. Lá encontraremos um lugar para passarmos a
noite até que as coisas se acomodem.
- Sim, está certo, mas como vamos encontrar o tal
albergue?
- Deixa ver? Eu li, certa vez, que na grande Porto Alegre
há mais de dois mil moradores de rua. E que alguns deles
costumam pernoitar nos albergues. Assim, basta nós
procurarmos estes moradores de rua e perguntar onde
podemos achar um albergue.
- Tá certo, então vamos lá.
59
O casal de mãos dadas se dirige à capital. Quando
chegaram, ao ver a ponte do Guaíba, ficaram
maravilhados, com a beleza do lugar. Naquele momento, a
ponte estava erguida e passava sob ela um barco cargueiro
de médio calado. Após esperarem o tempo necessário para
que a ponte baixasse e permitisse a passagem, eles
contemplaram o Rio Guaíba, seu estuário e a beleza do
arquipélago. Feita a travessia pela ponte, tomaram o rumo
à direita, seguindo a Avenida Presidente Castelo Branco.
Passaram pela estação rodoviária, pegaram a Avenida
Mauá, dobraram na Rua Uruguai e, finalmente, estavam
na Praça da Alfândega. Ficaram maravilhados com a
beleza do lugar. Como estavam cansados da caminhada,
que durara mais de três horas, sentaram em um dos bancos
da praça. Até aquele momento não haviam encontrado
nenhum morador de rua. Mas talvez aquele não fosse o
melhor lugar para encontrá-los.
Passada mais de meia hora, Li vê ao longe um homem
velho, com um boné de abas fechado no queixo, vestindo
um casacão marrom, revirando os cestos de lixo, à procura
de alguma coisa. Ela diz:
- Veja, Ric. O homem velho revirando os cestos de lixo.
Ele está coletando latinhas de alumínio, e as coloca dentro
de um saco. Vamos abordá-lo, para ver se ele nos informa
onde é que fica o albergue.
Eles caminharam mais de uma quadra e chegaram perto do
homem.
- Bom-dia senhor! Eu sou Ric e esta é a Li! O senhor pode
nos dar uma informação?
- Bom-dia meus jovens! Será um prazer ajudá-los. Sou
Pedro. Pedro de Alcântara. Assim os meus amigos me
conhecem. Mas em que lhes posso ser útil?
- Nos queríamos saber onde podemos encontrar um
albergue?
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- Albergue? Nunca estive em um albergue, mas por que
querem um albergue, por acaso não tem onde pernoitar?
- É isso aí. Nós tivemos problemas com os nossos pais e
resolvemos sair pelo mundo afora.
- Tenho tempo, contem-me as suas histórias! E verei se
posso ajudá-los de alguma maneira.
Assim, ao cair da tarde Pedro, o desmemoriado, chega ao
acampamento, trazendo consigo o casal Ric e Li, que, após
a aquiescência do grupo, passou a integrá-lo como
arrecadadores de latinhas de alumínio para a reciclagem.
61
CAPÍTULO VI
NANDO, O JOGADOR
Na cidade do Rio Grande, no bar da Nosca, havia uma
senhora gorda, que tinha um bar-sinuca como fachada para
uma casa de jogo de azar. Nos fundos do bar-sinuca,
Nosca promovia mesas de jogos de cartas. Como
freqüentadores, muitos dos cidadãos respeitáveis do
pequeno município e algumas rodadas eram sem limites de
aposta. Nosca retirava o cacife, que é uma comissão para a
casa, de cinco por cento sobre o movimento de apostas. O
dinheiro passava de mão em mão e cada vez ela ganhava
cinco por cento, o que lhe dava a vantagem de sempre
ganhar. Em contrapartida, ela oferecia bebidas à vontade e
comida, o que permitia aos jogadores passar dias na
jogatina, sem haver a necessidade de se afastar para
fazerem as refeições.
O jogo estava por começar, a mesa redonda coberta por
um pano verde, seis habitués se preparavam para jogar
pôquer. Estavam ali o médico ortopedista chamado
Santiago, homem alto, com um grande bigode cor de fogo,
calças largas, presas por uns suspensórios, camisa branca e
gravata tipo borboleta; o vereador e comerciante, chamado
Batista, homem pequeno, cabelos pretos, com um pequeno
bigode fino, camisa esporte, com uma medalha pendente
por uma corrente no pescoço; Nando, filho de um
industrial do ramos metalmecânico, rapaz com apenas 28
anos, alto, magro, elegantemente vestido, com um casaco
esporte bege, sobre uma camisa de gola alta; o lojista
62
alcunhado de maragato, cabelos longos amarrados tipo
cola de cavalo, que deixam exuberante a cabeça grande,
até mesmo desproporcional ao corpo, atlético e bem
formado, vestindo um blazer azul-marinho, sobre uma
camisa cor-de-rosa; o jogador profissional, chamado
Dinarte, homem franzino, com uma grande cabeleira
pintada de preto, um acanhado bigode fininho, colete preto
sobre uma camisa branca, ostentando um quebra-luz na
testa. Completando o círculo, estava o comerciante de
automóveis Silveirinha, homem atarracado, cabelos louros
lisos, sobre uma cabeça grande, terno marrom, camisa
preta com o colarinho aberto, um grande charuto apagado
no canto da boca.
Nota do Autor: Pôquer, ou Poker, é um jogo de cartas
jogado por duas ou mais pessoas. É o mais popular de
uma classe de jogos nos quais os jogadores com as cartas
total ou parcialmente escondidas fazem apostas para um
monte centra. Após, o resultante das apostas é atribuído
ao jogador que possuir o melhor conjunto de cartas.
No Brasil, as cartas de valor mais baixo são retiradas, de
acordo com o número de participantes. Com quatro
participantes, utilizam-se as cartas do 7 ao Ás; com cinco
jogadores, do 6 ao Ás. Embora os grupos possam ser
constituídos de dois até oito jogadores, as mesas formadas
de quatro a sete são consideradas ideais. Para cada
jogador a mais no grupo, uma outra carta será
acrescentada. Assim, se forem seis os participantes, o
cinco é incluido. O Ás é a carta mais alta, mas também
pode entrar nas sequências como a mais baixa. Exemplo:
se o 7 estiver no jogo, a sequência máxima será Ás-ReiDama-Valete -10 e a mínima 10-9-8-7-Ás.
Blefe - É um recurso muito empregado no Pôquer, tendo
por finalidade ganhar com jogo pequeno, fingindo ter um
grande jogo. Isto é feito por meio de apostas elevadas; se
63
os demais tiverem jogo fraco ou apenas razoável, não
pagarão e, nesse caso, o blefador não precisará mostrar
suas cartas. O blefe exige experiência e sangue frio.O
blefador sistemático, que fica conhecido por nunca blefar,
também levará desvantagem, pois quando apostar,
ninguém pagará, sabendo que seu jogo é muito grande. É
preciso saber dosar e variar, não estabelecendo um
padrão de jogo.
Pôquer, como é conhecido no Brasil, é originário da
Europa e corresponde a apenas duas ou três das mais de
cem modalidades praticadas nos EUA. Pôquer vem do
inglês poder, que se origina do francês pôquer, que, por
sua vê,z deriva do alemão pochen, que significa blefar.
Todos, compenetrados, começam a discutir as regras do
jogo:
Inicialmente, estabeleceram o valor das apostas, ou seja, o
montante em fichas necessário para as apostas que seriam
feitas no decorrer do jogo. O primeiro carteador seria
aquele que tirasse a carta mais alta, sorteada apenas para
efeito de distribuição das cartas. A seguir, seria substituído
a cada rodada pelo jogador mais à esquerda.
Acertam o embaralhamento, corte e distribuição das
cartas. Antes da distribuição, as cartas seriam.
Embaralhadas, no mínimo, três vezes. Qualquer jogador
poderia participar do embaralhamento, desde que pedisse
ao carteador, que seria, invariavelmente, o último a
embaralhar. O baralho deveria ser oferecido ao jogador da
direita para o corte. Se este não quisesse, qualquer outro
jogador poderia cortar. O monte de cartas seria cortado
uma única vez, a menos que ocorresse alguma
irregularidade. Se alguma carta virasse durante o corte, as
cartas deveriam ser novamente embaralhadas e dadas a
cortar. Se nenhum jogador cortasse, o carteador não
poderia mais embaralhar e deveria proceder à distribuição.
64
A distribuição seria feita no sentido horário, uma carta por
vez, fechada cinco para cada jogador. As cartas que
sobrassem ficariam ao lado do carteador, para serem
usadas posteriormente. Distribídas cinco cartas para cada
um, eles examinariam as cartas recebidas, podendo
desprezar até três cartas, as quais seriam substituidas por
cartas do monte que restou; a ordem de substituição seria a
mesma da distribuição inicial. As apostas começariam
pelojogador imediatamente posterior ao distribuidor de
cartas, ou seja, pelo mão, se essa não apostasse, bateria na
mesa e diria simplesmente, “eu passo”. A oportunidade de
aposta ficaria para o imediatamente posterior, e assim por
diante, até o último, que seria o pé. No momento que
alguem fizesse uma aposta, o imediatamente posterior
somente poderia acompanhar a aposta, dobrar a aposta ou
cair fora, colocando suas cartas fechadas sobre a mesa.
Estas, sem que ninguém as visse, seriam colocadas sob o
monte de resíduos e embaralhadas.
Começa a primeira rodada de apostas:
Cada participante coloca uma ficha sobre a mesa, como
início de aposta. Esta ficha tem o valor de 50,00 reais.
As cartas são distribuídas. O primeiro a falar é o Dinarte,
que pede duas cartas. Silveirinha pede três cartas. Santiago
pede duas cartas. Batista pede duas cartas. Nando pede
tres cartas e Maragato duas.
Os jogadores arrumam as cartas. Dinarte arranja as cartas
e as segura apenas com a mão esquerda, a direita, ele
coloca na parte superior do leque de cartas, para evitar que
os parceiros ao seu lado as enxergassem e, com olhos de
águia, observa atentamente as reações dos demais
jogadores. Silveirinha segura as cartas já arrumadas com a
mão esquerda e com a direita movimenta o charuto na
boca, tirando grandes baforadas as quais dirije ao teto,
onde o ventilador as espalha por todo o recinto. Santiago
65
larga as cartas com as estampas para baixo, sobre a mesa,
coloca ambos os dedos polegares enganchados nos
suspensórios, tamborila com os demais no peito, enquanto
observa os demais jogadores. Batista, após arrumar as
cartas, segura-as com a mão direita e com a esquerda
segura a medalha de Nossa Senhora Aparecida, que traz
no peito pendente por uma corrente de prata. Ao mesmo
tempo, de rabo de olho observa os parceiros, tanto da
esquerda quanto da direito. Nando, mostrando uma
aparente serenidade, troca cartas de lado, como quem está
formando conjuntos alternativos, mas não deixa de
observar os demais jogadores. Maragato segura as cartas
com a mão esquerda e com a direita cofia o cabelo
amarrado, tipo cola de cavalo, debruçado sobre o ombro
direito, ao mesmo tempo que observa os demais jogadores.
À esquerda do carteador Nando está Maragato, que gosta
de seu jogo e faz uma aposta inicial de R$ 50,00.
Dinarte acompanha a aposta, colocando uma ficha de R$
50,00 no centro da mesa.
Silveirinha bate na mesa e diz:
- Estou fora.
A vez é de Santiago, que pega uma ficha de R$ 50,00,
coloca no centro da mesa, e diz:
- Eu aposto.
Batista bate na mesa e diz:
- Estou fora.
Nando acompanha a aposta, coloca uma ficha de R$ 50,00
no centro da mesa, e diz:
- Pago para ver!
As cartas dos apostadores são abertas sobre a mesa.
Maragato exibe um par de damas. Dinarte, dois pares,
sendo um de sete e o outro de dez e Nando, um par de
valetes.
66
O medico e Nando são jogadores compulsivos, chegam
aos extremos, são capazes de apostar dinheiro que não
tem, além do mais, utilizam-se de agiotas para captar
dinheiro para jogar. O comerciante de automóveis, o
lojista e o vereador jogam apenas por passa-tempo, não
são dados a grandes jogadas e retiram-se quando entendem
que não estão para o jogo naquele dia.
Dos seis jogadores, apenas Dinarte vive do jogo e para o
jogo. Como jogador profissional, não é dado a grandes
apostas, prefere sempre ganhar diversas pequenas rodadas,
do que ganhar uma grande rodada, o que é caracteristico
dos jogadores profissionais. Quando as apostas perdem o
rumo do bom senso, ele sempre sai fora. Utiliza o blefe, de
forma aleatória, nunca deixa perceber que estava blefando,
ao ganhar uma rodada. Seu controle emocional e estável,
nunca demonstra insegurança e jamais sai de uma noitada,
sem haver ganhado o suficiente para a sua manutenção e
sobrevivência.
Nando ganha. Recolhe todas as apostas. E uma nova
rodada se inicia. Passadas mais de seis horas de carteado,
ora um ganha, ora outro. Estão perdendo no jogo:
Silveirinha, Nando e Santiago. Estão ganhando: Dinarte,
Batista e Maragato. Mais quatro horas, ou seja, às 8 horas
da manhã, Nando está devendo, por emissão de vales, para
Dinarte, R$ 5.950,00; para Batista, CR$ 3.450,00; para
Maragato, R$ 2.550,00. Nando recusa-se a parar de jogar,
mas como todos estão cansados, combinam reiniciair após
doze horas de descanso. No entanto, todas as dívidas
devem ser pagas, antes do reinício do jogo.
Nando sai contrariado, mas submete-se à vontade dos
demais, tem doze horas para levantar os R$ 11.950,00 que
deve.
- Já estás me devendo R$ 40.000,00, considerando os
juros, agora queres mais R$ 30.000. Eu sei que o teu pai
67
paga, mas acho muito dinheiro, poderás ter dificuldade
com o teu pai!
- Não se preocupe, com o meu pai, eu me entendo, além
do mais, pretendo recuperar tudo o que perdi, nas
próximas horas.
- Bem, assina o vale, mas fica bem claro que isso não vale
nada, que a minha garantia é o teu compromisso, o fio de
bigode. Quero receber tudo daqui a trinta dias. Tá certo?
- Sim, perfeitamente certo! Antes de trinta dias, eu pago
tudo.
Nando sai da casa do agiota, devia R$ 77.000,00, pagando
10% de juros ao mês. Faltavam oito horas para o inicio do
jogo, conforme haviam combinado. Nando vai para casa e
dorme por seis horas consecutivas, levanta toma um
banho, come uma pequena refeição e se dirige ao
estabelecimento da Nosca.
Eram vinte horas, todos reunidos, estabelecem que o jogo
continua, todos sentados nos mesmos lugares, as mesmas
regras são estabelecidas. Nando paga os credores. O
médico faz o mesmo. Inicia a primeira rodada, uma outra a
sucede. E, assim, as horas se passam. Eram quatro horas
da madrugada, quando Nando já havia perdido em torno
de R$ 10.000,00, lhe restando outros R$ 10.000,00 do
empréstimo que havia tomado com o agiota. Ele recebe as
cinco cartas. Abre-as como de costume, chuleando a ponta
de cada carta: a primeira era uma dama de paus, a
segunda, uma dama de ouro, a terceira, um dez de copas, a
quarta, um rei de paus e a quinta uma dama de copas.
Retira o dez de copas e o rei de paus, lança-os na mesa e
pede duas cartas. Recebe as duas cartas, abre-as,
vagarosamente, e verifica que a primeira é um valete de
ouro e a segunda, um valete de paus. Ele explode por
dentro, mas procura disfarçar o seu entusiasmo, batendo
com a mão na mesa ao verificar a última carta, franzindo o
68
cenho em sinal de reprovação.
Todos já haviam
substituído as cartas, a jogada estava estabelecida. O mão,
o Doutor Santiago, aposta R$ 50,00. Acompanham a
aposta, Nando, o vereador, e os demais batem em retirada.
Nando aposta mais R$ 100,00. Santiago aposta os R$
100,00 mais R$ 500,00. O vereador bate na mesa e cai
fora. Nando paga os R$ 500,00 e aposta mais R$ 1000,00.
Santiago paga os mil e aposta mais R$ 5.000,00. Nando
paga os R$ 5.000,00 e vai à banca comprar mais fichas,
assina um vale de R$ 20.000,00, retorna e aposta mais R$
10.000,00. Santiago paga os R$ 10.000,00 e aposta mais
R$ 10.000,00. Nando paga os R$ 10.000 e pede para ver.
Fim das apostas. Santiago exibe uma quadra de reis.
Nando atira suas cartas sobre a mesa com as figuras para
baixo. Levanta e vai embora. Os demais parceiros
continuam.
Nando Baldiscera está na frente de seu pai, um próspero
industrial, fabricante de máquina para panificadoras.
- Então, filho! Que é desta vez?
- Estou correndo risco de vida!
- Outra vez?
- Agora é para valer, se eu não pagar a minha divida até
amanhã, estou frito, vão me envelopar e mandar para o
senhor enterrar.
- Quanto é?
- Cem !
- Cem, o quê?
- Cem mil reais!
- Estás louco! Onde vou arrumar R$ 100.000,00 de uma
hora para outra? Como foi desta vez?
- Assinei uma nota promissória.
- E perdeste tudo no jogo?
- Dei azar, eu tinha um “fooler”, tinha que apostar tudo.
69
- Só que um dos parceiros tinha um “for”. O Damasceno
me emprestou o dinheiro para as apostas, juntando com o
que eu já devia para ele, fiquei devendo os R$ 100.000,00.
Ele me deu um prazo de quarenta e oito horas, que termina
amanhã, às 17 horas.
- Meu filho! Da última vez que te dei dinheiro para pagar
dívidas de jogo eu te avisei que seria a última vez. E eu
estava falando sério. Se eu te der o dinheiro hoje, terei que
te dar amanhã e assim tu dilapidarás todo o nosso
patrimônio. Devo considerar que tu tens mais dois irmãos.
Eu não posso te relevar mais. Seja o que Deus quiser!
Os homens de Damasceno procuram Nando Baldiscera.
Ele está num bar, quando é encontrado.
- Baldiscera, o chefe mandou-nos receber o numerário.
- Eu vou conseguir, mas preciso de mais alguns dias.
- Vem conosco!
- Nando sai do bar tendo um dos homens a sua frente e
outro atrás. Embarcaram num carro e seguiram para a casa
de Damasceno.
- Eu te disse que era muito dinheiro e que o teu pai poderia
não querer pagar. Lembra disso?
- Sim, senhor Damasceno. Mas eu vou pagar tudo ao
senhor, é só uma questão de tempo.
- Aldo! Quebra o antebraço esquerdo dele para que não
possa jogar cartas por algum tempo.
Damasceno vira de costas, acende um charuto, e começa
a tirar grandes baforadas, enquanto um dos gorilas agarra
o antebraço esquerdo de Nando e o coloca sobre um peso
de papel, formando um triângulo reto entre o peso e a
mesa, sendo a hipotenusa o antebraço de Nando.
Aldo levanta a mão, desfere um golpe no antebraço de
Nando, que quebra ambos os ossos.
Damasceno virando-se diz:
70
- Levem-no daqui, e se em uma semana não pagar a
divida, tragam-no novamente. Se não pagar leva um tiro
na nuca e o enviaremos para o pai.
Baldiscera é largado na rua e, com o antebraço esquerdo
quebrado, dirige-se para a casa. Mas no meio do caminho
desiste e vai a um hospital, onde dá entrada utilizando seu
plano de saúde. Permanece internado por três dias.
Quando ganha alta, sai com o braço engessado. Sabe que
em quatro dias será levado novamente à presença de
Damasceno, e que o seu fim seria com uma bala na nuca.
Considera nula a hipótese de que seu pai pague a conta,
pois este é homem de uma só palavra, se disse que não
pagaria, não pagaria mesmo.
O FUGITIVO
Outono, estação em que alguns dias são quentes e outros
frios. Ele chegara à praia do Cassino. Em suas costas um
amarrado de finas cordas como se fosse uma mochila,
onde carregava os seus pertences.
Pés descalços que, de vez em quando, eram molhados pela
água, de uma onda maior que quebrava na praia.
Suas calças de brim, remangadas até o meio das canelas, já
estavam parcialmente molhadas, assim como o antebraço
esquerdo engessado, do cotovelo até a mão, apoiado em
uma tipóia. Camisa fora das calças, que crepitava com o
vento, um boné de propaganda na cabeça, com a aba
voltada para trás e um sobretudo velho e sujo, sobre o
ombro direito.
Ele para frente da estátua de Iemanjá, ajoelha e rende uma
tosca e sincera homenagem à mãe das águas, pede-lhe
permissão para avançar em seus domínios e busca a sua
proteção. Levanta e segue a sua viagem, com passos
lentos, mas vigorosos.
71
Quinze quilômetros distavam da imagem da santa, quando
ele avista os restos do navio Altair, que naufragou no
inverno de 1976, devido a uma grande tempestade.
O andante passou ao largo, sem dar importância à
impressionante paisagem, talvez, por esta imagem lhe ser
conhecida há muito tempo.
Mais de uma hora de caminhada solitária, quando ele
avista quatro caminhonetas, que deviam estar se dirigindo
para Santa Vitória do Palmar.
No sentido contrário, indo rumo ao Cassino, um cavaleiro
solitário, vestido com traje característico do gaúcho da
localidade, chapéu de abas largas, poncho de lã ,
bombachas e botas rangedeiras. Fora esses encontros, não
mais viu viva alma em toda a caminhada.
Já passava do meio-dia quando ele chegou ao local onde
avistou os restos de um navio naufragado. Distava mais de
trinta quilômetros do Cassino. O andante parou, olhou os
restos do naufrágio, dentro do Oceano. Logo se virou,
contemplou a praia ao longo das dunas, cobertas de
macegas. Calmamente se dirigiu às dunas, procurou a
mais alta e lá se posicionou, onde viu os verdejantes
campos que se perdiam no horizonte. Retirou a mochila e
deixou-a cair, deslizando sobre a areia solta da duna.
Sentou no alto e permaneceu contemplando, ora o oceano,
ora os campos verdejantes. Não tardou para que ele se
acomodasse no costado da duna, colocasse a cara entre o
braço e o antebraço direito e pegasse no sono.
O sol já se preparava para tomar refúgio no horizonte,
quando ele acordou. Esfregou os olhos, nesse momento
seu cérebro custou alguns segundos para localizá-lo,
procurou a mochila, abriu-a e dela retirou uma recheada,
isto é, um pão d’água, com queijo e mortadela e um cantil
com água. Após pequeno refaz, retirou uma lona plástica
preta da mochila, com a mão direita aplainou uma das
72
dunas, estendeu a lona dobrada em dois, virou uma das
pontas, formando uma espécie de saco. Quando terminou
a preparação, o sol já se tinha posto, apenas restando uma
tênue claridade, mas cada vez mais fraca até que a
escuridão tomou conta. Noite escura, sem luar e sem
estrelas. O homem abriu o saco e introduziu-se nele com
roupa e tudo, meteu a cabeça para dentro, e dobrou as
pontas, deixando apenas um pequeno orifício para entrada
de ar bem próximo de seu nariz. Virou-se de lado,
encolheu as pernas, ouvia apenas o barulho incessante do
quebrar das ondas na praia e logo estava roncando.
Algumas horas depois ele é despertado por algo que pulara
sobre seu corpo. Instintivamente abre a boca do saco e
coloca a cabeça para fora. O pequeno animal que ficou
mais assustado do que o homem, perdeu-se entre as
macegas. O homem voltou a dormir.
O sol já aquecia o plástico preto, tornando o calor
insuportável, o que fez com que o homem despertasse de
seu sono profundo. Banhado em suor, ele se desvencilha
do saco plástico, faz algumas abdominais e se dirige para a
praia, onde começa a correr. Após alguns minutos de
corrida ele para, faz exercícios respiratórios e se aproxima
da carcaça do naufragado navio. Com grande dificuldade,
pois tinha o braço esquerdo imobilizado, ergue o corpo e
senta em uma plataforma. Logo se posiciona bem no
centro e olha para as dunas. Desce e começa a contar
passos, rumando no sentido das dunas. A contagem
atingira os cem passos e ele para, vira-se, olha para os
restos do navio naufragado e começa a cavar com a mão
direita. O poço já tinha a profundidade de cinquenta
centímetros, quando ele sente que seus dedos arranharam
uma superfície lisa e arredondada. Volta a cavar ao redor
e logo aparece o cabo de uma pá, muito bem
acondicionada em sacos plásticos. Ele desenrola o
73
instrumento e com ele começa a cavar, utilizando apenas a
mão direita. Logo aparece um canto, ele volta a cavar na
superfície, aumentando em um metro a extensão do
buraco.
Assim, cavando com a pá, após mais de meia hora de
escavação, ele consegue deslocar um baú de madeira e o
ergue até a superfície. Abre a caixa e de seu interior
começa a retirar pacotes de plásticos herméticos.
Procura o maior pacote e começa a abri-lo, retirando dele
um par de boias infláveis, um rolo de fio de nylon, e
anzóis de diversos tamanhos. Logo pegou um pacote
médio. Apertou junto ao peito e pensou.
“Tomara que esteja intacto.”
Começa a desembrulhar, com todo o cuidado, uma peça
em cobre cartucho, mais parecia com uma chaleira, só que
ao invés do bico, tinha uma serpentina que terminava em
uma rolha num globo de vidro. Ele volta a pensar: “Agora
terei água destilada.”
Do fundo da caixa, ele retira um amarrado de pequenos
tubos plásticos. Confere os demais pacotes, e constata que
tudo estava correto, panela, garfo, faca e colher, um pacote
de fósforos, um isqueiro e uma pequena lata com fluido
para o isqueiro. Com o uso da pá, tapa o buraco, deixando
a caixa na superfície, posicionando-a exatamente no lugar
onde estaria, quando enterrada na areia. Mede mais dez
passos à frente e pensa: “ Aqui está a segunda caixa! Não,
não posso desenterrá-la, além do mais, o que faria com o
seu conteúdo?”
Ao lado da caixa, ele arma a pequena barraca, que acabara
de retirar da caixa, tinha espaço apenas o suficiente para
envolver o seu corpo inteiro. O homem começa a coletar
algas secas que ficaram presas nas macegas. Com o
plástico preto, prepara um colchão e o introduz no interior
da barraca. Seu relógio pulseira marcava nove horas e
74
quinze minutos, quando ele acabara de arrumar suas
tralhas. Tinha agora de prover sua alimentação para o dia.
Um bando de gaivotas sobrevoava a praia, a primeira idéia
que lhe ocorreu foi a de caçar algumas gaivotas.
Cavou a areia à procura de mariscos. Eles estavam bem
profundos, mas mesmo assim ele conseguiu arrancar uma
dezena de deles. Iscou pequenos anzóis presos a uma fina
linha de nylon e se afastou. Logo o bando passou a comer
as iscas, quatro aves ficaram presas por anzóis, o homem
correu, apanhou as aves, torcendo-lhes o pescoço. Seu
desjejum estava salvo. Depenou uma das aves e logo
constatou que a ave era desprovida de carne, parecia ser
formada apenas de pele e ossos. Mas, mesmo assim,
dariam um caldo capaz de matar-lhe a fome. Colocou as
aves depenadas e evisceradas dentro de um saco plástico e
o coloca dentro da caixa de madeira, saindo à procura de
madeira para fazer o fogo, andando ao longo da praia por
mais de um quilômetro. Quando retornou, trazia uma
braçada de madeira, constituída de pequenos pedaços de
paus roliços. Ateou o fogo, colocou água na panela e esta
sobre as chamas. Apanhou as aves e as colocou dentro da
panela, que logo começou a ferver. Comeu e lambeu os
ossos das quatro pequenas aves e ainda ficou com fome,
mas era tudo o que tinha no momento.
Após um pequeno e merecido descanso, o homem começa
a caminhar pelas dunas. O vento, naquele momento,
estava esperto, levantando areia fina, deslocando as dunas
de um lado para outro. Ele, ao longe,
vê uma lebre que se movimentava entre as macegas e
pastos, apenas podia ver as grandes orelhas do pequeno
animal. Ele se agachou e ficou à espreita. O animal andava
à procura de gramíneas tenras. De um certo ângulo, a lebre
viu o homem que a espreitava e, com grande velocidade,
se deslocou até a toca, e nela se meteu. O solitário se
75
aproximou da toca, pegou um feixe de macegas e o
depositou no monte mais próximo da toca. Retornou ao
seu acampamento, pegou um rolo de fio de algodão e uma
pequena estaca e retornou ao local marcado. Lá chegando,
fez uma laçada e colocou na porta da toca, enterrou a
estaca e amarrou o fio. Estivesse o animal dentro ou fora
seria laçado de qualquer forma, ao entrar ou sair da toca.
Duas horas de espera e lá estava ele com a lebre na mão. A
primeira coisa que fez foi verificar as mamas do animal,
constatou que ela estava amamentando. Retirou o laço e a
soltou. Lá estava indo aos pulos o seu almoço do dia
seguinte. Mas ele não desanimou,
retornou ao
acampamento, a tarde já estava caindo, mas ainda teria
mais de uma hora de sol. Preparou diversos empates,
colocou em cada um deles um anzol, amarrou-os na linha,
colocou a chumbada, cavou mariscos, iscou os anzóis,
tirou toda a roupa e entrou na água até a altura do peito.
Arremessou a linha o mais longe que pode e retornou à
praia. Fincou uma estaca na areia e amarrou a linha.
Correu a sua tenda, o frio penetrava profundo até os ossos,
vestiu a roupa e agasalhou-se na barraca, até aquecer-se.
A noite logo envolveu tudo, mas como o tempo estava
seco, não havia nuvens, logo a lua se fez presente,
refletindo na água sua claridade. O andarilho cobre-se com
o sobretudo e sai caminhando pela praia. Vai até onde está
a linha de pesca, segura a linha e sente que há peixe
preso. Começa a puxá-la e, ao final, havia dois peixes
presos nos anzóis, um bagre e um papa-terra. O bagre
devia pesar mais de três quilos e o papa-terra menos de
dois quilos. Eviscerou os peixes, retirou a pele do bagre e
descamou o papa-terra. Enrolou-os em um plástico limpo,
dobrou as pontas, cavou, alisou, colocou os peixes
estendidos, cobriu com terra, alisou, colocou madeira e
ateou fogo, alimentou-o por mais de uma hora sobre os
76
peixes enterrados. Ao final, apenas restava um braseiro
sobre os peixes. Ele afastou as brasas e cavou até os
peixes estarem descobertos. Com o máximo cuidado,
retirou toda a areia que tinha aderido ao plástico,
desembrulhou o papa-terra e o comeu, chupando o
espinhaço do peixe. E como a fome ainda não tinha sido
aplacada, ele desembrulhou metade do bagre e a comeu,
guardando a outra metade para o dejejum do próximo dia.
O dia seguinte amanheceu com céu de brigadeiro, o vento,
quase inexistente, as ondas do Oceano não passavam de
mais de quinze centímetros de altura. A maré estava baixa
e apareciam dois grandes bancos de areia, que podiam ser
atingidos com água pela canela. O solitário homem
caminhava ao longo da praia, os restos do naufragado
navio parecia totalmente descoberto.
Lembrara do farol Sarita, que devia ficar pelas
proximidades e resolve empreender uma caminhada rumo
ao Chuí, à procura do farol. Após alguns quilômetros, lá
estava o imponente farol, não mudara nada, nos últimos
vinte anos. Quando se aproximou, verificou que o farol
Sarita estava fechado. Abrigou-se do sol para descansar
da caminhada, contornou o monumento, tudo fechado a
cadeado. Examinou as cercanias, nada que detectasse a
presença humana. A solidão do lugar era apenas quebrada
pelo barulho das gaivotas.
Se não estivesse fechado, o lugar poderia ser próprio para
seu abrigo, mas o arrombamento significaria um delito
contra o patrimônio público e deveria considerar que, pelo
aspecto do lugar, de tempos, em tempos alguém deveria
fiscalizar a sua conservação. Por isso, resolveu retornar ao
seu pequeno acampamento.
Ele já estava voltando, quando lhe ocorreu uma dúvida e
pensou: “ Como o faroleiro tinha água para beber e fazer
a sua higiene?”
77
Ele volta e começa a procurar ao redor do farol e nada
encontra. Avança pelas cercanias e lá estava uma bomba
de recalque. Pegou o seu cantil, colocou água no êmbolo e
começou a bombear. A velha bomba rangia e rangia, até
que começaram a sair pequenos jatos de água, que lhe
pareciam próprios para o consumo, porém um pouco
amarelados. Bombeou até que a água apareceu clara e
cristalina. Colheu um pouco com a mão e levou à boca, a
água era doce e lhe pareceu própria para o consumo.
Encheu o cantil, tirou as roupas e começou a lavar-se,
despejando a água do cantil sobre as partes do corpo.
Assim, fez a sua higiene.
NACA:
O negro Pedro Primeiro, nome que constava em seu
registro de nascimento, herdara de seu pai uma pequena
fração de terras. E nela vivia com sua mulher, Afonsa, e
sua única filha, Naca. Igual fração de terras herdara o seu
irmão mais moço, Pedro Segundo, nome que recebera no
registro de nascimento. Solteiro aos seus quarenta e oito
anos, coxo de uma perna, era bem mais franzino do que
Pedro Primeiro. Os nomes recebidos não vingaram, pois
Pedro Primeiro era chamado por todos de Pedro e o Pedro
Segundo, apenas de Segundo. Pedro era um negro
atarracado, forte e baixo. O Segundo, bem mais fraco e
também baixo, não se assemelhava em nada com o irmão.
Talvez, por isso, não se davam, mas também não eram
inimigos. Apenas não compartilhavam do dia-a-dia e
também não se visitavam, mas ao se encontrarem em uma
das fazendas dos arredores, se cumprimentavam e até
tomavam chimarrão juntos. Diziam as más línguas que o
motivo que os separara era Afonsa, que fora pega com
Segundo, em situação constrangedora. No falatório
popular da região corria frouxo de que o negro Segundo
78
era lobisomem. Um dos fazendeiros afirmava que tinha
dado um tiro no quarto de um grande cachorro preto, que
uivou desesperado, e que, no outro dia, o Segundo foi
atendido pelo médico de Curral Alto, com um tiro na
perna. Dado a esse tiro recebido, o Segundo ficou coxo,
isto é, puxava a perna esquerda. Mesmo com a perna mais
curta, pois secara com o tiro levado, o Segundo era ágil e
se movimentava com extrema rapidez. Quando estava
sozinho no seu rancho, o que era a maioria do tempo,
raramente fazia trabalhos nas fazendas dos Banhados e de
Curral Alto. Trabalhos estes sempre em marcação de gado,
banho do gado e de ovelhas, castração de terneiros e
borregos, atividades que demandavam grande número de
serviçais. Ele costumava andar como macaco, com as
mãos tocando o chão, como se fosse um animal de quatro
patas. Nessa posição, seus movimentos eram insuperáveis
quanto à destreza. Na verdade, o negro Segundo dava
motivos para que achassem que ele era lobisomem. Nas
noites de lua cheia, ele saía se movimentando como se
fosse um animal de quatro patas e ia visitar as fazendas
dos arredores de suas terras. Os cães das fazendas
começavam a ladrar, quando ele se aproximava e também
ainda distante. Quando chegavam perto dele, o
reconheciam, pois ele sempre estava nas fazendas e,
quando lá estava, sempre brincava com os cães. Assim,
eles o reconheciam pelo cheiro, pelo ouvido, e paravam de
latir. Sempre que esses encontros ocorriam, desaparecia
uma ovelha, que era levada pelo Segundo. Os fazendeiros,
que nem sabiam quantas ovelhas tinham, de tão grandes
que eram os rebanhos, nunca davam falta. Assim, o
Segundo comia carne de ovelha durante todo o mês e por
todo o ano.
Naca, a filha do casal. Pedro e Afonsa, era uma negra
atarracada como seu pai, feições fortes, lábios carnudos e
79
seios avantajados. Aos vinte e dois anos, ainda era
donzela, embora fosse difícil apagar o fogo que irrompia
no encontro das duas coxas, roliças e gordas. Seu estado
de pureza era por pura falta de oportunidade, pois jamais
saíra do lugar. Quando montava a cavalo, galopava até que
o roçar de sua genitália no lombilho a satisfizesse,
fazendo-a atingir o orgasmo, retornando calma e serena
da cavalgada.
A primavera chegara, teria marcação e castração de
terneiros na fazenda do seu Fernando Silveira.
Na fazenda, todos os ajudantes estavam reunidos no
galpão e Fernando falava, dando as ordens:
- O Jacinto vai recolher o gado da invernada do Bota. O
Felício recolhe o do Campo do Meio. O Pedro recolhe os
bois da praia...
Após o recebimento das ordens, todos montaram em seus
cavalos e partiram, conforme fora determinado.
Pedro estava arrebanhando alguns bois, quando de longe
viu fumaça na praia. Resolveu investigar. Ao chegar perto
do Oceano, desmontou e se aproximou, levando o cavalo
pelas rédeas. Parou de longe a observar um homem de
cócoras, perto de uma pequena fogueira, se aproximou
mais, deixando o cavalo para trás, amarrado nas macegas.
O homem era alto, tinha cabelos longos caídos sobre os
ombros, barba longa e clara. Quando Pedro se aproximou,
disse:
- Bons dias, senhor!
- Bom-dia!
- Estamos nas terras do senhor Fernando Silveira, eu me
chamo Pedro e o senhor, quem é?
- Sou um simples pescador e estou acampado nas terras da
capitania dos portos.
- Tem pescado muito?
- O suficiente para matar a fome e salgar algum.
80
- Está acampado há muito tempo?
- Até perdi a conta.
- Viu alguns bois do senhor Fernando pastando por aqui?
- Não, nunca vi boi algum, só areia e macegas.
- Eu moro numa gleba de terra de minha propriedade. Fica
perto daqui, mas a pé o senhor levaria meio dia para
chegar lá. A casa é pobre mas está a sua disposição para,
quando quiser, tomar um chimarrão. Até mais vê sô.
Pedro sai de espacejo em seu cavalo, absorvido em
pensamentos.
“Um hômi novo, sozinho nesse fim de mundo, deve passar
meses sem ver viva alma. Vou avisar o Sô Fernando da
presença dele nas terras de sua propriedade.”
- É isso aí, Sô Fernando, o homem me pareceu boa gente,
mas é estranho que ele fique sozinho num lugar desses por
tanto tempo. Uma barraquinha pequeninha, uma fogueira,
comendo peixe.
- Vou ficar de olho nele, mas não tem nada que ele possa
roubar na praia. Se matar um boi eu saberei, tenho o
controle de todos os bois que tenho na invernada da praia.
O dia passou em grandes atividades, a marcação e
castração dos animais ocorria como sempre, com grande
alegria e brincadeiras. Enquanto os peões faziam o seu
trabalho, o assador preparava um capão inteiro no rolo. A
peonada, ao meio-dia parou, várias cuias com bom
chimarrão corriam de mão em mão, todos ao redor do
assador, que já dava por assado o novilho.
À noite, Pedro está na cozinha conversando com Afonsa e
Naca estava no quarto, ouvindo programa de radio, mas
podia ouvir o que Pedro dizia à Afonsa:
- Descobri um homem que está acampado na praia do seu
Fernando, um homem novo, parece que está vivendo
sozinho, me disse que é pescador.
81
Naca fica pensando: “Um homem novo na praia, sozinho
como eu, nesse fim de mundo.Deve estar precisando de
uma mulher como eu estou precisando de um homem.”
Deu um sorriso e ficou sonhando acordada, como fazia
todos os dias, desde quando se tornara moça.
Em seu devaneio, o homem vinha ao seu encontro na
praia, vestido como um autêntico gaúcho, com uma pilcha
de festa, lenço vermelho no pescoço, crepitando ao vento.
Ele se aproximava dela, agarrava-a pela cintura e a
beijava.
No dia seguinte, Naca levantara cedo, como fazia todos os
dias, selou um dos cavalos e disse para a mãe.
- Depois do café, vou até o Albardão comprar umas
coisinhas que preciso.
- Já esperava por isso, faz mais de seis meses que você
não faz as suas comprinhas.
Naca engoliu o café, arranjou um pão sovado e um naco
de carne de ovelha assada, arranjou tudo na maleta, selou
o seu cavalo, ajeitou a maleta sob os pelegos, montou e
partiu rumo ao Albardão. Quando não mais podia ser
vista, deu de rédeas e fez o cavalo virar na direção da
praia.
O sol de início de primavera brilhava no horizonte, quando
Naca chegou à praia. Tomou rumo à direita, onde ficava as
terras do senhor Fernando, lá é que encontraria o pescador
solitário. Naca e Pedro se pareciam muito, no porte físico,
jeito de montar, bombachas, botas de couro cru, chapéu
quebrado na testa, carapinhas cortadas rente ao couro
cabeludo, mais se assemelhava ao pai .
De longe, avistou o pequeno acampamento e dele se
aproximou. Tudo estava solitário, a porta da pequena
barraca estava aberta e ela pôde ver que estava vazia.
Olhou para o mar e viu o homem que saia no estado em
que veio ao mundo. Quando viu Naca, abanou, achando
82
que era Pedro que retornara ao acampamento. Sem
qualquer embaraço se aproximou. Naca, montada em seu
cavalo, permaneceu parada enquanto o homem se
aproximava. Não deixava de apreciar com seus grandes
olhos o sexo pendular no homem, que balançava, quando
caminhava.
Quando estava próximo é que pôde notar que não se
tratava de Pedro e sim de uma moça. Vexado, colocou
ambas as mãos em seu sexo, e disse:
- Um momento moça, vou vestir uma roupa.
Meteu-se na barraca e logo saiu coberto com o velho
capote.
Naca descera do cavalo e o esperava na porta da barraca.
Ao sair, o homem disse:
- Pela aparência, deve ser irmã ou filha do senhor Pedro?
Em que lhe posso ser útil ?
- Sou Naca, filha do seu Pedro, ele me disse que estava
aqui e eu vim conhecê ocê.
- Me conhecer? Por quê?
- Tenho vinte e dois anos, vivo sozinha neste fim de
mundo. O pai disse que ocê é um homem sozinho. Eu
preciso de um homem, ocê não precisa de uma muié?
- Não sei o que dizer.
- Não é pra dizer nada é pra fazer. Ela meteu a mão dentro
do velho sobretudo e, foi logo pegando o que lhe
interessava. Impensadamente, o homem começou a retirarlhe as roupas e, em poucos segundos, ambos estavam nus,
rolando pela areia da praia. A volúpia era tão grande que a
defloração foi quase que imperceptível. Naca teve o
primeiro orgasmo, logo em seguida o homem ejaculou,
mas manteve o pênis ereto e introduzido, Naca teve o
segundo e logo o terceiro orgasmo. Finalmente, ambos se
jogaram como desfalecidos na areia branca da praia, e ali
permaneceram por algum tempo.
83
O primeiro a despertar do desfalecimento temporário foi o
varão. Levantou a cabeça, contemplou aquele corpo negro,
aquelas coxas fortes e roliças, os seios redondos e bem
formados. A brisa suave arrastava o cheiro do sexo da
fêmea, que lhe entrava pelas narinas, refletindo em seu
cérebro uma sensação que despertara o membro
adormecido, que começava a ficar ereto. Ele se
aproximou, agora com mais calma, segurou a sua cabeça
entre ambas as mãos e beijou-lhe os lábios
demoradamente. As pernas se abriram, ele se posicionou
para uma nova penetração. A fêmea transou as pernas nas
costas do macho e chegava a levantá-lo a cada avanço do
vai e vem. O garanhão ejacula e a fêmea atinge o orgasmo
por uma única vez e ficam em estado de inércia total como
se estivessem desfalecidos.
Permaneceram assim por vários minutos. Logo Naca
começa a se movimentar e se aproxima de Nando, que
ainda se encontra em inércia, e se deita sobre o seu corpo,
fazendo com que ele deixasse o estado de repouso. Ele a
pega e a beija demoradamente, ambos se levantam. E, de
mãos dadas, foram se lavar nas ondas do Oceano
Atlântico. Brincaram na praia, jogaram água um no outro,
correram, se beijaram. Vestiram suas roupas, Naca comeu
peixe recém-pescado. O Nando devorou a carne de ovelha
e o pão sovado que Naca trouxera. Há a muito não sabia o
que era comer um pedaço de pão e uma carne de ovelha.
Passava das quinze horas, quando Naca olhou para o sol e
disse ao seu parceiro:
- Devo ir, pois devo chegar em casa antes das cinco horas
da tarde, horário em que deveria chegar do Albardão.
O homem a pegou, beijou-a , seu corpo foi cedendo, seus
joelhos dobraram e ela pouco a pouco foi se estendendo
sobre a areia. Ele retirou-lhe as roupas, retirou a suas
próprias e deitou-se sobre aquele corpo, que chegava a
84
reluzir sob a luz do sol. A genitália dolorida não permitiu
que o ato se consumasse por mais uma vez.
A amazona montou em seu cavalo e saiu a galope pelas
dunas. O homem ficou sacudindo a cabeça e pensando: “
Como isso foi acontecer? Jamais pensei em tal hipótese.
Não sei o que isso vai dar? Mas que ela é uma mulher
fogosa como nunca vi antes é. Tudo nela me agrada, o
cheiro do seu suor, do seu sexo ,me excitam, ao passo que
o de outras mulheres me causavam repulsa. Sua saliva
casa bem com a minha, ao passo que a de outras mulheres
me causavam a sensação de estar com um corpo estranho
na boca.Ela é tudo o que nunca encontrei em mulher
alguma, quem diria uma negra matuta, com todos esses
predicados.”
Naca chegou em casa e como nada tinha comprado,
Afonsa perguntou:
- Naca, onde estão as compras que fizeste no Albardão?
- Não fui ao Albardão. Fui à praia e conheci o homem que
papai disse estar lá.
- Como tu sabias?
- Ouvi vocês conversando ontem.
- Não quero nem ver quando o teu pai souber.
- Saberá hoje quando chegar, vou lhe contar tudo o que
aconteceu.
Assim, Naca enfrentou o pai e a mãe dizendo:
- Não ia ficar virgem pelo resto da minha vida. O homem
é sozinho e eu também, ambos estamos neste fim de
mundo, agora temos um ao outro. Pretendo encontrar-me
com ele todas as semanas.
Diante da atitude de Naca, Pedro e Afonsa se olharam,
Pedro sacudiu os ombros,
nada podia fazer, pois ela
sempre fora resoluta e decidida. E quando embestava com
alguma coisa nada a afastava de seus objetivos.
Terminou sua fala dizendo:
85
- Se vocês não quiserem que eu visite o homem uma vez
por semana, eu me mudo para a praia e fico lá com ele o
tempo que ele quiser.
Na semana seguinte, Naca apareceu na praia. O homem
pegou-a ao descer do cavalo, beijou-a longamente e ao
final lhe disse:
- Temos que conversar. Eu sou um homem sem futuro,
posso ser morto a qualquer momento.
Os grandes olhos pretos de Naca arregalaram, o homem
continuou:
- Não sou bandido, sou apenas um jogador compulsivo,
me chamo Nando Baldiscera. Tive que desaparecer
repentinamente, pois fui jurado de morte por um agiota e
vim me esconder neste fim de mundo.
Estou te contando tudo isso, não quero que tenhas alguma
esperança com relação a mim. Assim como espero que
nunca contes isso para ninguém, nem mesmo para teus
pais.
Naca escutou atentamente, e ao final disse:
- Eu sou uma negra sem futuro, na região não há nenhum
homem que me interesse, estou condenada a ficar
solteirona. Quanto a você, fique sossegado, nada quero a
não ser amar você, enquanto você quiser, sou maior de
idade. Você não terá compromisso nenhum comigo.
Assim, eles passaram a se encontrar uma vez por semana,
amavam-se durante todo o dia, ao final ela montava em
seu cavalo e retornava para a sua casa. Ele continuava na
praia, tocando a sua vida, que agora passara a ser mais
prazerosa, contando os dias que faltavam para Naca vir
novamente.
Certo dia, Naca chegara à praia, apenas havia sinais de
onde estivera o acampamento. Ela procura debalde por
toda a extensão da praia e nada encontra. Teria seu homem
desaparecido voluntariamente, ou teria sido assassinado e
86
enterrado na praia, em lugar qualquer, onde o fluxo e o
refluxo das ondas o ocultariam, perpetuando-o no mais
absoluto esquecimento.
Eram três horas, quando Naca resolve voltar para casa.
Chega cabisbaixa e pensativa. Afonsa logo nota que algo
estava errado, chega perto e lhe diz:
- O que houve minha filha, você está péssima?
- Ele desapareceu, logo agora que eu lhe ia dizer que
estava grávida.
- Era de esperar que isso fosse acontecer.
- Sim, ele me preveniu que poderia ser morto a qualquer
momento, mas eu sempre achei que isso não aconteceria
nunca.
Todas as quartas-feiras, Naca selava o seu cavalo e se
dirigia para a praia, na esperança de encontrar Nando. Lá
permanecia das nove às quinze horas, caminhando pela
praia, com o pensamento perdido nos dias de felicidade
que passara com Nando. Pensava: “ Onde estará ele a esta
hora, o que estará fazendo, será que ainda está vivo, acho
que não, se estivesse viria me encontrar.”
Mentalmente, ela reconstituía as cenas do primeiro
encontro, Nando saindo do oceano, completamente nu. A
cara de espanto quando viu que não era seu pai. Às vezes,
pensava como poderia procurá-lo, onde começar a
procura. Não obtinha qualquer resposta as suas perguntas.
E, quando a tarde caía, retornava tristonha a sua casa.
Naca murchara como uma flor colhida e largada ao sol.
Sua mãe, tentando consolá-la diz:
- Minha filha! Logo tu esqueces esse homem e encontrarás
outro que te queira, estás na flor da idade.
Mas isso não lhe trazia ânimo, trabalhava o dia inteiro
como sempre o fizera, cuidando dos animais domésticos,
trabalhando na roça, lavando e passando roupas. Mas
quando ficava sozinha em seu quarto, seus pensamentos
87
iam longe e pousavam sempre na praia, onde encontrara
Nando.
No dia seguinte, ela levantou cedo, antes de todos, e
quando sua mãe levantou, ela já estava preparada e disse:
- Mãe! Estou indo para Rio Grande, à procura de Nando,
eu não aguento mais quero saber o que aconteceu com ele.
- Acho que estás te precipitando, dá mais um tempo, talvez
ele apareça.
- Já esperei demais.
- Mas como vais ir? A pé?
- Sim, vou caminhando pela praia.
Eram nove horas da manhã quando Naca chega à praia,
levando apenas uma pequena sacola de pano com
algumas peças de roupa e alimentação apenas para a
viagem.
QUARTA PARTE
No posto de abastecimento da rua Getúlio Vargas, na
cidade de Rio Grande.
- Bom-dia senhor Baldiscera, quanto tempo não o vejo!
- Ah, Nelsinho! Como você está, quanto tempo não nos
vimos, parece até que não moramos na mesma cidade.
- Como vai o meu amigo Nando?
- O teu amigo, faz mais de um ano que não o vejo, talvez
esteja até morto.
Juvenal Baldiscera puxa um lenço e enxuga lágrimas dos
olhos.
- Mas o que aconteceu ao Nando?
- Ele se meteu em jogatinas, perdeu no jogo, pediu
dinheiro a agiotas, por várias vezes eu paguei a conta.
Terminou sendo ameaçado de morte pelo Damasceno,
parece que ele deu uma rasteira no homem que o estava
seguindo e desapareceu de uma hora para outra.
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- Seu Juvenal! Eu tenho uma oficina de automóveis, fica
na Rua Visconde do Rio Grande, número 575. Leva o seu
carro para eu fazer uma revisão e lá nos conversaremos.
Alguns dias depois:
- Bom-dia, seu Juvenal!
- Bom-dia, Nelsinho! Estou aqui para que tu faças a
revisão do meu carro. E como tu eras o melhor amigo de
meu filho, quando eram rapazotes, viviam sempre juntos,
quero ver se tu podes me dar alguma pista de onde eu
posso encontrá-lo.
- O senhor tem razão, nos éramos, como diz a o adágio
popular, a corda e a caçamba. Mas nos separamos quando
ele passou no vestibular e foi tirar engenharia. Eu
continuei na oficina do meu pai, pois não tinha dinheiro
para continuar os estudos.
- Pois é, agora eu não sei onde ele anda, evaporou-se.
- Espera aí! Eu acho que sei onde ele está.
- Diga, diga o que sabe.
- Isso já vai lá uns vinte anos. Nós costumávamos pescar
quando nos tínhamos vinte anos. Antes de servirmos
juntos no Sétimo G.A.C.M.
Naquela época, e antes de irmos servir, nos
costumávamos pescar e caçar lebres num certo lugar, a
uns quarenta e cinco quilômetros da cidade de Rio Grande.
Lembro do último dia em que lá estivemos. Enterramos os
nossos materiais de caça e pesca em duas caixas de
madeira, tudo acondicionado em plásticos, para durar o
tempo que estivéssemos servindo o exército. Como ele
passou no vestibular antes da baixa, nunca mais voltamos
lá para desenterrar os utensílios.
- Tá certo, mas onde fica esse local?
- A trinta e poucos quilômetros pela praia do Cassino.
Tenho absoluta certeza de que ele está lá.
- Embarca no meu carro e vamos até lá agora.
89
- Deixa eu fechar a oficina e vamos lá, vai ser bom rever o
Nando.
- Espera! E se o Damasceno estiver me seguindo, nós o
levaremos ao Nando.
- É isso, temos que ter certeza de que ele não nos seguirá.
- Vamos combinar o seguinte: você faz a revisão do meu
carro e o leva para mim. Aí nos partimos.
- Não! Tenho uma idéia melhor. O senhor fica e eu vou à
procura dele. A mim, ninguém irá seguir, pois não sabem
que nos éramos amigos quando tínhamos menos de vinte
anos.
- Eu concordo, não podemos arriscar. Eu fico à espera de
suas notícias.
O solitário homem está na praia, acabara de retirar três
grandes peixes, um cação, uma cascuda e uma viola e os
estava transportando para o acampamento, quando avista
uma caminhoneta velha que se aproximava. O veículo se
aproxima dele e para. Desce Nelson e começa a caminhar
na direção de Nando Baldiscera. Ele, ao reconhecer o
amigo, larga os peixes no chão e corre para o abraço.
- Quando o teu pai me disse que havia desaparecido, eu
logo pensei onde poderias estar.
- Lembras quando enterramos nossas tralhas de pesca?
- Como lembro, deve fazer mais de vinte anos.
- Seu pai me contou sobre a encrenca que te meteste. O
Damasceno é gente perigosa, quem não paga, ele manda
matar. E, como foste na faculdade? Chegaste a te formar?
- Não, faltou pouco, mas tu sabes como é, muita farra e
jogatinas, terminei desistindo da faculdade. Aí fui
trabalhar com o velho na fábrica, mas não deu certo,
quando eu ficava jogando a noite toda, faltava ao serviço,
e por isso terminei desistindo do trabalho.
- Mas, me diz como estavam as tralhas, após quase vinte
anos enterradas?
90
- Tava tudo perfeitamente conservado, foi o que me valeu
naquele momento de fuga.
Bem pensado. Bom, teu pai está me esperando. Ele disse
que se eu te encontrasse tentaria um acordo com o
Damasceno, para que tu possas voltar. Fica aí que eu volto
com o teu pai, em alguns dias.
Juvenal Baldiscera marca um encontro com Damasceno,
na Praça Tamandaré, junto ao monumento dos dois leões.
- É isso aí, seu Damasceno, eu quero limpar o nome do
meu filho. Quero pagar a conta, mas sem juros. Pago os
cem mil.
- Um ano e meio de juros dobra a conta e passa um pouco,
deixa ver, são duzentos e quinze mil ao todo.
- Fora de cogitação, eu não tenho todo este dinheiro.
- Eu não posso ficar no prejuízo.
- O máximo que posso pagar são cento e vinte e cinco mil
reais.
- Nada feito. Ou paga toda a dívida, mais os juros, ou o
seu filho morre.
Dois dias depois, o carro do senhor Baldiscera chega ao
acampamento da praia.
- Meu filho! Que estado deplorável tu te encontras. Como
podes viver aqui neste fim de mundo?
- Meu pai, é preferível esta vida a ser morto pelo
Damasceno, mas quer saber de uma coisa, até que tem
suas compensações.
- Bem, eu tentei pagar a tua divida, mas com os juros
passa de duzentos e cinquenta mil. Teu amigo Nelsinho
está vindo com a caminhoneta para levar as tuas coisas.
- Não, papai, as minhas tralhas deixarei aqui, como as
encontrei, o Nelsinho vai me ajudar a acondicionar e
enterrar tudo.
Duas horas depois, Nelsinho chega ao acampamento da
praia.
91
- Nelsinho! Você está o mesmo dos tempos de quartel!
- Como é que tu foste cair nessa roubada? Dever para o
Damasceno. O homem ó o próprio agente funerário.
- Sabe como é, no desespero, a gente recorre até ao diabo.
Após terem enterrado tudo como antes estivera, pai, filho
e amigo partem para a cidade.
Ele chega à cidade e, na casa de seu pai, toma banho, corta
a barba, veste roupas novas e permanece dentro de casa.
Sua madrasta lhe pergunta:
- Nando, senta aqui ao meu lado e me conta tudo sobre o
tempo em que estiveste sozinho na praia.
- Dona Márcia, que bom estar aqui junto com vocês.
Nando conta os trabalhos passados no início, como fizera
para satisfazer as necessidades de higiene, o que comia e
como preparava os peixes. Sobre a caixa enterrada na
praia por ele e Nelsinho, há quase vinte anos atrás. Seu
pai, de vez em quando, lhe fazia uma pergunta pertinente.
E ao final lhe perguntou:
- Meu filho! O que pretendes fazer agora? A tua vida deve
tomar um novo rumo, deves procurar uma moça e casar,
constituir família, deixar de aventuras e jogatinas. Podes
voltar a trabalhar na nossa empresa.
- Pai, eu ainda não sei o que vou fazer, mas uma coisa é
certa, eu aprendi a lição e não pretendo nunca mais jogar
cartas ou outros jogos quaisquer. Tenho consciência de
que sou um jogador compulsivo, por isso devo ficar longe
de jogos.
Os dias se passavam, Nando não saía de casa, não raro era
surpreendido em profundos pensamentos que o levavam à
praia, onde estivera por um ano e meio. Naca não lhe saía
do pensamento.
Quinze dias depois da volta de Nando à casa do pai, este o
chama para conversar:
92
- Meu filho! Não quero te apressar na tua decisão, mas te
acho muito apático, tens ficado no quarto assistindo à
televisão o dia todo, não tens saído, não te decidiste a
trabalhar na nossa empresa?
- Quando eu tomar uma decisão, o senhor será o primeiro
a saber. Eu lhe prometo.
Alguns dias mais se passaram e, em uma manhã, Nando
levanta e desce para o desjejum. Lá encontra seu pai à
mesa e lhe diz:
- Pai, como lhe prometi, acabo de tomar uma decisão, vou
voltar à praia e provavelmente lá ficarei para sempre.
- Mas isso é um impropério, não permitirei que fiques lá,
isolado, de tudo e de todos.
- Pai! Talvez eu queira me penitenciar por tudo de mal que
fiz até aqui. Por outro lado, estou lutando contra o desejo
de voltar a jogar. Lá eu não sinto nenhuma necessidade de
jogar, passo ocupado o dia todo apenas para prover a
minha alimentação. Quando eu me sentir mais seguro
talvez eu volte.
Assim, Nando Baldiscera começa a sua caminhada de
retorno à praia. Pegou o ônibus que saía da Praça
Tamandaré, com destino ao Cassino. Eram nove horas da
manhã quando ele chegou no monumento à Iemanjá.
Ajoelhou-se frente à imagem, rendeu uma tosca
homenagem à santa, enfiou a mochila nos ombros e
começou a caminhada pela praia. Pés descalços, tênis
pendurados no pescoço, pelos cadarços, calças
remangadas, caminhando, ora por dentro d’água, ora pela
areia seca, ele seguia seu destino.
Era próximo do meio-dia, quando Nando havia
percorrido mais de oito quilômetros, e ao longe, viu uma
pessoa caminhando na praia vindo em sua direção.
Quando mais próximo, pode ver que se tratava de uma
mulher, mais próximo ainda, a uns quinhentos metros,
93
achou que estava sofrendo de alucinações, era Naca.
Correu ao seu encontro. Quando próximo, ela parou e o
olhou atentamente, a princípio não o reconheceu sem
barba e com os cabelos cortados, mas quando viu que era
Nando, correu para o abraço. O tempo não contava,
ficaram abraçados como duas estátuas, por um longo
tempo, seus corações batiam um contra o outro, suas
respirações ofegantes começavam a diminuir o ritmo, até
que eles se afastaram, se beijaram, fizeram amor e
retornaram para o local do acampamento.
Nando permaneceu com Naca até o nascimento do
primeiro filho, quando teve que levá-la ao hospital da
Santa Casa de Misericórdia, às pressas. Quando saía do
hospital, após o nascimento de seu filho, percebeu que
estava sendo seguido. Logo concluiu que seria um dos
homens de Damasceno.
Utilizando seu cartão de crédito, comprou uma passagem
de avião para Porto Alegre. Lá, entende que Damasceno
não o encontraria, devendo retornar quando as coisas
melhorassem.
- Alô chefe! O homem está fugindo para Porto Alegre, no
voo 35, das 16 horas.
- Fica aí até o avião levantar voo.
- Alo, é o Damasceno! Vai até o Aeroporto e espera o voo
35, estou te enviando a foto do homem por fax, segue-o
por onde ele for, quero poder localizá-lo amanhã! Tá
certo? Quero o homem vivo, morto não valerá nada.
- Sim, chefia, já pego a foto dele e vou para o aeroporto.
O avião taxia na pista, Baldiscera desce, e pega um táxi e
diz ao motorista:
- Leve-me a um hotel dos melhores e mais barato!
O motorista, um senhor com mais de 60 anos, de origem
portuguesa, lhe diz:
94
- Sou Antônio Maria D’Almeida, português de nascimento
e brasileiro por opção. E taxista por necessidade. Vou
levá-lo a um hotelzito de primeira qualidade, bom e
barato, como pediu. Receio lhe informar que estamos
sendo seguidos por um carro.
- Não pode ser, ninguém sabe que estou em Porto Alegre.
-Vamos comprovar. Vê aquele carro cinza. Pois bem,
vamos parar e ver se ele para também.
O táxi estacionou e o carro parou logo atrás do táxi.
Deram partida e o carro também partiu. O motorista
perguntou:
- E agora, o que vamos fazer?
- Continue!
- Veja bem, eu não quero me meter em encrencas.
- Pare aqui! Quanto deu a corrida?
- São vinte mangos! Quer que lhe ensine onde fica o hotel,
fica perto.
- Não é mais necessário. Seguirei a pé.
Do carro que tinha parado, desceu um homem, que passou
a segui-lo a pé. Baldiscera percebeu que logo que se
tratava de um dos homens de Damasceno. Andou mais de
quatro quadras e não foi abordado pelo homem, isso
queria dizer que o estava apenas seguindo, para que ele
pudesse ser localizado no dia seguinte. Entrou na praça e
adentrou em um sanitário. Lá estava um homem, mal
vestido. Nesse momento, ele teve uma idéia.
- Ei, você! Quer fazer um “negócio da china”?
- Que negócio é esse, moço! Eu sou um homem sério!
- Não é o que você está pensando! Eu quero apenas trocar
de roupas com você e ainda lhe dar cinquenta mangos.
Topa?
- É pra já moço.
- Só que eu vou sair primeiro e depois você sai. É uma
brincadeira que estou fazendo com um amigo, uma aposta,
95
de que ele não consegue me seguir. Quando você sair, vá
para a direita e não pare, ande o máximo que puder. E
depois, siga a sua vida normal.
- É isso aí, chefia, eu segui o homem, ele entrou num
sanitário público, e depois saiu. Eu continuei seguindo,
por mais uma hora, até perceber que ele tinha trocado de
roupa com outro homem. Abordei o homem, que me disse
que tinha trocado de roupa com um amigo meu, que além
de trocar por roupas melhores, o homem lhe deu cinquenta
mangos. Dei uma surra no homem pra deixar de ser bobo,
isso é tudo.
- Ele não pode ter se evaporado, continuem a procurá-lo.
Passados alguns dias, o agiota recebe uma visita
inesperada.
- Senhor Damasceno! Muito obrigado por ter me recebido
em sua casa. Eu sou Otávio Baldiscera, pai de Nando
Baldiscera. Eu cometi o maior erro da minha vida, me
arrependi muito de ter negado o dinheiro que meu filho,
lhe pedira emprestado. Nos últimos dias, estive à espera
do pior, que o senhor me enviasse o corpo de meu filho,
como havia prometido. Eu não aguento mais, estou aqui
humildemente rogando que me informe o que aconteceu
com meu filho. Se o pior aconteceu, que me conceda a
oportunidade de enterrar decentemente o corpo dele.
- Levante-se, não há necessidade do senhor estar ajoelhado
diante de mim.
Até agora nada aconteceu com o seu filho, simplesmente
pelo fato de não tê-lo encontrado. Evaporou-se diante de
um dos meus homens que o estava seguindo.
- Eu estou disposto a pagar a divida de meu filho, mas
primeiro tenho que ter certeza de que ele está bem.
- Entendo, quando nós o encontrarmos, trocaremos ele
pelo valor da dívida. Mas não esqueça que a divida sobe a
cada dia que passa.
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Nando vagueia pela capital do estado, com suas vestes
sujas, sapatos rasgados, a barba por fazer há vários dias.
Seus parcos valores já estavam no fim. Não se atreveria a
telefonar para o pai. Temia ser localizado por Damasceno,
que seria capaz de ameaçar a integridade física de seu pai
para localizá-lo. Está Nando caminhando pela Avenida
Goethe, quando chega ao parque Moinhos de Vento, e
contempla um obelisco monumental que lá existe,
resolvendo descansar na sua base. Já fazia mais de quinze
minutos que ali estava parado, quando vê um homem e um
cachorro, que reviram os depósitos de lixo, pegando caixas
de papelão as quais desmontam e fazem uma pilha, que
carregando nas costas. Resolve se aproximar do catador e,
quando próximo, lhe pergunta:
- Bom-dia, senhor! Pode me dar uma informação?
- Ô sô, se eu subé!
- Sabe sim. Onde eu posso passar a noite, acabo de gastar
o meu último real, comendo um pastel. Daqui para a
frente, não tenho idéia de como vou fazer para dormir ou
me alimentar, nas ruas de Porto Alegre.
- Eu tive na mesma situação, quando cheguei de Sum
Paulo. Eu sou Aolo, e sou do Nordestino.
- Eu sou o Nabo.
- Posso ti levá pra o acampamento. Lá tu fala com o
Nocha e se ele achá que pode, tu fica no acampamento.
- É só por alguns dias, enquanto eu arrumo outra feição.
Assim Nando passou a integrar o grupo dos moradores de
rua.
97
CAPÍTULO VII
A FAMÍLIA NOCHA
Ele, às vezes, esquecia seu verdadeiro nome, chamara-se
de tantos que já havia perdido a conta. Fora Rodrigo,
Alberto, Juvenal, Ricardo e tantos outros.
O homem a seu lado falava aos berros, e ele mal ouvia. De
tantos telefones que levara nos ouvidos, tornava-se surdo,
pois seus tímpanos haviam explodidos.
Seu pobre corpo era cheio de hematomas e marcas de
queimaduras de cigarros, pois completamente nu, fora
pendurado no pau-de-arara. O sangue jorrava pelo nariz e
pelos pequenos cortes em seu couro cabeludo.
Já havia passados mais de uma semana que havia chegado
lá. Desde então, não parara de ser torturado, pois era
considerado inimigo do governo militar, que dominava o
Brasil desde 1964.
Já ouvira falar das coisas horríveis que eram feitas com os
"terroristas" (estudantes, professores, jornalistas, artistas,
políticos, operários,...) que ousavam desafiar o sistema
com suas organizações clandestinas. Sabia que eram
depoimentos verdadeiros, pois alguns dos "companheiros"
que haviam ido para os cárceres da repressão
sobreviveram para contar suas histórias, outros tantos não
tiveram a mesma sorte e pereceram sob severas torturas.
Ele era apenas um estudante secundarista quando ocorreu
a "Revolução de 64", que logo perceberam ser um golpe
de estado dado pelos militares apoiados pelas forças mais
conservadoras e retrógradas da sociedade (estando os
Estados
Unidos
também
mancomunados
com
estabelecimento dos governos militares).
Ativista como era do movimento estudantil e, tendo
ingressado na universidade, veio se juntar aos estudantes
98
que compunham a UNE, participando de movimentos,
passeatas, de congressos, estando presente nos confrontos
de ruas.
Seus crimes eram, até então, lutar pela liberdade de
expressão, marchar contra a censura, pedir a libertação de
presos políticos e contestar a aprovação de leis brutais e
totalitárias como as que foram estabelecidas a partir dos
atos institucionais.
Inconformado com a opressão dos opositores e o
desaparecimento de diversos ativistas dos movimentos
clandestinos, acabou se juntando a uma das várias facções
libertárias, que existiam no país, naquela época.
Acabou sendo capturado.
Sofreu como pôde, da forma mais corajosa e brava, a todo
e qualquer castigo que lhe fora imputado para não delatar
seus companheiros, seus esconderijos e as futuras ações.
Não sabia até quando poderia resistir.
Desde que foi capturado passou por várias humilhações.
Foi espancado até que tivesse ossos quebrados. Deixaramno nu e lhe deram banho com mangueira de alta pressão.
Fraco como estava cambaleou e acabou caindo no chão
por várias vezes.
Colocaram-no em um "pau de arara" e amarraram seu
corpo, onde fios estavam ligados a seus dedos já sem
unhas, a uma máquina que produzia eletrochoques.
Faziam tudo isso e mantinham seu corpo molhado para
que a corrente pudesse expandir-se e "queimar" seu corpo
com maior intensidade.
Quando ele voltou à cela, mais morto do que vivo, foi
colocado em companhia de uma jovem, de
aproximadamente vinte anos, que também havia sido
violentamente torturada. Ela lhe contou que havia sido
violentada por três torturadores, que seus seios haviam
sido mordidos até sangrarem e que ficara durante horas
99
com os pés apoiados em cima de tampinhas de garrafas,
que lhe causaram grandes dores.
Disse chamar-se Raíssa, era estudante de Agronomia e
fora capturada junto com outros estudantes.
Alguns dias passados sob pesadas torturas, foram
abandonados em uma cela. As sessões de tortura lhes
pareciam ter acabado. Já estavam recuperados dos agravos
físicos sofridos nas torturas, quando, em uma manhã,
foram removidos. Embarcaram em uma viatura que,
segundo lhes informaram, os levaria até a Base Aérea de
Canoas, para serem removidos para o Rio de Janeiro.
Não se sabe se por acaso, ou se de propósito, eles estavam
desamarrados e sentados no banco de trás do veículo de
passageiros, que era uma caminhonete DKW. Quando
passavam pela rodovia BR 316, houve um acidente, o que
fez com que parassem. Os dois opressores, sem mais nem
menos, os deixaram-nos carro e foram ver do que se
tratava. Obviamente, quando estavam longe o suficiente,
eles se evadiram e se embrenharam nas cercanias da
estrada.
Receosos de que tudo fora armado para que escapassem,
para serem seguidos, começaram a perambular pelas ruas.
Assim, viraram catadores de lixo.
E terminaram se escondendo sob um viaduto, junto com
diversos moradores de rua. Lá ficaram disfarçados de
mendigos e maltrapilhos. Nessa situação, Nocha nasceu e
cresceu. Quando garoto, aos 12 anos, ainda no tempo da
repressão, estava ele engraxando sapatos pelas ruas,
quando alguns pivetes, roubaram uma senhora e ele foi
preso por engano, sendo encaminhado à corregedoria de
menores delinquentes.
- Como te chamas, garoto? - perguntou-lhe o agente da
repressão.
- Nocha!
100
- E isso é nome! Quero o teu nome de batismo, não
apelido.
- Não tenho não senhor.
- Vá lá! E, daí Nocha, quem são os teus amigos que
roubaram a senhora?
- Não sei não, senhor! Eles não são meus amigos, eu tava
engraxando sapatos quando tudo aconteceu.
- Quer que eu acredite nisso? Vá lá! Onde tu moras? Com
quem tu moras?
- Meu pai e minha mãe.
- Onde?
- Não sei, por aí!
- Que é que queres dizer com por aí?
- Um dia num lugar, outro dia noutro lugar.
- Moras nas ruas! É isso?
- Sim, senhor!
- Vou te encaminhar para um abrigo de menores
delinquentes.
Como Nocha não vinha, seu pai e sua mãe foram
procurá-lo nos locais onde ele costumava trabalhar,
engraxando sapatos. Lá indagaram pessoas que
trabalhavam no local e obtiveram a informação de que
Nocha tinha sido preso. E, como não poderiam dar as
caras na delegacia, pois, embora passados mais de doze
anos, poderiam ser reconhecidos como subversivos,
procuraram Marcilio Carpes, um morador de rua com
dotes sobrenaturais, que tinha fama de adivinhador,
possivelmente um para-normal.
- É isso ai, Seu Marcilio! Nosso filho foi preso e não
temos como ir ver o que lhe aconteceu, queremos ver se o
senhor nos pode ajudar?
- Verei o que posso fazer! Não posso nada lhes prometer.
Apenas, que farei o melhor que for possível para localizar
o filho de vocês. Sabem qual a delegacia que ele foi preso?
101
- É uma que fica nas imediações da Praça dos Açores.
- Sei onde é!
Passada mais de uma semana o paranormal procurou o
casal e lhes disse:
- O seu filho está em um reformatório para menores, está
bem. Mas, se ninguém reclamar, ficará lá até completar
dezoito anos.
Naquela época, Nocha não tinha sequer registro de
nascimento. Seus pais não haviam lhe registrado
temerosos de serem presos pelos membros da recessão.
Não havia um único meio de retirá-lo do reformatório,
pois lhes seria exigido documento de identidade.
Assim, Nocha permaneceu no reformatório até atingir os
dezoito anos, sem sequer ver os seus pais. Ao sair da casa
de correção, Nocha foi à procura de seus pais, pensando
encontrá-los no mesmo local onde ficavam antes de ele ser
preso. Não os encontrou mais. Permanece nas ruas na
esperança de encontrar os seus pais. Assim, ele encontrou
Bahia, que também era filha de moradores de rua,
começaram a se relacionar e terminaram sendo marido e
mulher. Nunca mais encontrou seus pais, embora tenha
envidado os melhores de seus esforços para achá-los.
Três anos se passaram e Bahia engravidou, dando a luz a
um menino que chamaram de Toinho.
102
CAPÍTULO VIII
O ALEIJADINHO
Aquela cena era frequente. Quando ele começava a xingar
o irmão, usava palavras de baixo calão e gritava de forma
que todos os vizinhos ouvissem, o que fazia com que eles
corressem para as janelas. Os transeuntes paravam para
ouvir os xingamentos. Além de palavras ofensivas, ele
acusava o irmão de haver lhe tomado todos os bens da
família, deixando-o na rua da amargura.
A resposta que tinha de seus insultos era o absoluto
silêncio dentro da mansão. Talvez por ficar vexado, ele
não aparecia.
O homem na frente da mansão continuava por mais alguns
momentos e finalizava dizendo:
- Me aguarde, que eu volto para botar os teus podres para
fora.
Colocava o sujo saco de bugigangas às costas e partia,
arrastando o pé esquerdo, e com a mão esquerda torcida
frente ao peito.
Talvez por vergonha, o homem de dentro da casa não era
visto, durante vários dias. Os vizinhos já estavam
acostumados com o Sr. Gilberto Rodrigues, herdeiro de
uma imensa fortuna. Não necessitava fazer nada para
viver, apenas vivia de rendas. Sua mansão era somente por
ele habitada. De quando em vez, ligava para uma agência,
que lhe enviava uma diarista para fazer a limpeza da
mansão e ia embora, ao seu término. Na garagem da
mansão havia a sua disposição três carros: uma Mercedes,
que usava para ir a reuniões de negócios, um Porsche, que
103
utilizava quando havia sol e uma Ranger, utilizada para
trilhas. Além dos carros, ele possuía uma moto estradeira,
a qual usava para frequentar um grupo de motoqueiros,
intitulado de Asas do Asfalto. Não possuía empregados
efetivos, raramente permanecia em casa, pois costumava
viajar, permanecendo ausente por vários dias.
Seu irmão gêmeo, que era morador de rua, nada possuía,
todos os seus pertences cabiam em um pequeno saco, o
qual carregava às costas. Naquele dia, ao acabar de
proferir um interminável rol de insultos, seguiu o seu
caminho, rumo ao centro da capital gaúcha. Passadas
lentas, arrastando o pé defeituoso, proferindo uma série de
impropérios, os quais eram dirigidos aos transeuntes, que
não lhe davam importância por considerá-lo louco. Após
vagar pela cidade, chegou ao acampamento no final da
tarde. Armou seu caixote de papelão e entrou para dentro
dele. Falava sem parar, contando partes de sua história.
Naquela noite, o frio estava intenso. Aolo se aproximou do
abrigo do louco, ou Aleijadinho, como também era
conhecido no grupo, dizendo:
- Boa noite, sô Roberto, tem uma cachacinha pro Aolo?
- Tem sim, seu Aolo, sente, por favor, que hoje eu vou lhe
contar como o meu irmão, aquele desnaturado, roubou a
minha fortuna. Aqui tá a cachaça.
- Esta é da boa. Mi conta esta história desde o princípio,
que hoje eu quero entendê tudo.
- Meu pai era um conde, minha mãe, consequentemente,
uma condessa. A fortuna da família do meu pai era
enorme, terras que não acabavam mais, fazendas de
criação de gado, plantação de cana-de-açúcar, no Mato
Grosso do Sul e indústrias das mais diversas. Meu pai
casou-se com minha mãe e logo tiveram um casal de
gêmeos. Primeiro nasceu o Gilberto e depois o Roberto, o
Roberto sou eu. As crianças eram idênticas. Apenas eu
104
nasci com um defeito no pé esquerdo e na mão esquerda.
Logo após o nascimento dos gêmeos, meus pais me
esconderam, só apresentaram o meu irmão Gilberto a
todos os conhecidos. Não sei por que eles esconderam o
meu nascimento. Acho que foi por eu ter nascido aleijado.
Parecia que eu não havia nascido. Assim, nós crescemos,
eu escondido dentro de casa, enquanto meu irmão, podia
sair para todos os lugares. Quando os meus pais saíam
para viajar, levavam o meu irmão e eu ficava em casa com
os empregados. Não imaginas quanta tristeza e frustrações
eu tinha. Lembro que certa vez, eles viajaram por mais de
um mês. Nós tínhamos nove anos. Eu fiquei em casa esse
tempo todo, apenas tendo como companhia os
empregados. Quando retornaram, traziam inúmeros
presente para todos, até para os empregados, sendo que o
meu irmão trouxe uma grande bagagem de compra que
fizeram para ele, brinquedos das mais variadas espécies.
Para mim, nada, tinha que brincar com os brinquedos do
meu irmão, isso quando ele estava disposto a brincar
comigo, pois na maioria do tempo, ele me desprezava e
brincava com o pai ou com a mãe. Uma vez, quando nos
tínhamos quinze anos, ele adoeceu, foi acometido de uma
pancreatite aguda. Eu ficava ao lado da sua cama, rezando
para que ele morresse, pois assim eu poderia tomar o seu
lugar e ser feliz como ele era. Mas ele foi se recuperando e
eu vi frustrada a minha expectativa.
Quando nos tínhamos dezessete anos, o meu irmão se
enamorou por uma colega de aula, do segundo grau. Eu
logo que soube, tratei de conhecê-la. Quando a vi fiquei
apaixonado por ela. Sem que ele soubesse, eu me
aproximei dela e me fiz passar por meu irmão. Assim, eu a
namorava, me fazendo passar por ele. Quando ela
perguntou o que havia com o meu pé e com a minha mão,
eu tratei de dizer que eu sofria de artrite, e que, de vez em
105
quando, eu ficava torto. Mas, a certa altura do namoro, ela
me disse que eu era muito instável, ora eu era um e em
outra eu era uma pessoa completamente diferente. Claro
que isso era verdade, ela estava namorando duas pessoas
ao mesmo tempo. O resultado foi que nós dois levamos o
cano. Meu irmão nunca mais namorou outra moça e eu
também.
- Mas, me conte como foi que ocê ficou nesse miserê?
- Foi quando nós tínhamos dezenove anos. Nossos pais
foram fazer uma viagem de carro, meu irmão foi com eles,
como era de costume. Eu, como sempre, fiquei com os
empregados. O carro ia pela BR 316, a trinta e cinco
quilômetros de Lajeado, quando um caminhão freou na
frente deles, fazendo com que o carro em que viajavam
entrasse por baixo do caminhão. Nossos pais morreram no
local, meu irmão, que viajava no banco de trás, saiu ileso.
Ele ficou traumatizado, pois assistiu a tudo, tendo
permanecido preso no banco de trás do carro, com os
nossos pais mortos na frente, amassados pelas ferragens. O
socorro demorou muito tempo para retirar o meu irmão e
os corpos dos nossos pais.
O enterro aconteceu no dia seguinte. Eu permaneci em
casa com os empregados. Meu irmão recebeu os pêsames
dos amigos e parentes e eu, na mansão, apenas chorava a
falta deles.
- Mas, eu quero saber é como você ficou pobre e o seu
irmão rico.
- Uma semana depois do enterro, recebemos a visita do
advogado da família, que disse que meu irmão era o único
herdeiro de uma imensa fortuna. Eu, mais uma vez, fiquei
esquecido. A revolta foi tão grande que eu resolvi, naquele
momento, sair e ir para as ruas. Imagine que eu nunca fora
registrado, eu não existia legalmente. Mas, por vingança,
de vez em quando, vou até a mansão e boto os podres dele
106
para fora. Faço para que todos saibam que eu fui roubado
por ele. Mostro o meu miserê, para que ele se envergonhe
de ter um irmão que mora nas ruas, catando lixo para
sobreviver. Eu tô preparando uma para ele, me aguarde, é
só uma questão de tempo e eu reverto essa situação.
- É isso! A cachaça tava boa, mas tá ficando tarde e eu
tenho que trabaiá amanhã, vou dormi.
- Não quer tomar mais um trago?
- Não, por hoje chega, já ”tomamos” demais da conta.
Boa-noite, seu Roberto, durma bem. “Que história
impressionante, ter um irmão milionário, que lhe roubou
tudo e viver nesse miserê.- pensou Aolo.
Alguns dias depois.
- Você aqui de novo! O que quer, o que pretende?
- Calma, meu irmão, hoje não vim com o propósito de
brigar contigo, e, sim, de acertarmos algumas pendências.
- Mas antes você vai me escutar em tudo o que lhe tenho a
dizer.Você sempre alega que nossos pais lhe desprezavam,
que era deixado em casa com os empregados quando eles
viajavam e que eu sempre ia com eles. E que você não
sabia o porquê, achando que era por que tinha defeitos
físicos. Eu lhe digo. Você foi sempre mal comportado.
Quando nos éramos crianças, eu ganhava os brinquedos e
os conservava. Você os tomava de mim e os quebrava, não
tinha vez em que pegasse um brinquedo e não o destruísse.
Nas poucas vezes que lhe levaram a passear, você se
comportou pessimamente, derramou chocolate quente no
vestido da mamãe, quebrou um conjunto de jarras no
hotel, amarrou o cinto de uma senhora na cadeira,
fazendo-a cair, quando tentou se levantar. Estes
comportamentos deploráveis fizeram com que nossos pais
não mais lhe levassem nos passeios, preferiram levar-me,
pois eu não os importunava. Quando nós tínhamos cerca
de quinze anos, lembra o que você fez? Eu o lembrarei:
107
você roubou o carro do papai e bateu em uma árvore. No
dia seguinte, como se não bastasse o que tinha feito antes,
empurrou a camareira na piscina, ela não sabia nadar e
quase se afogou.
Aos dezoito anos, você se revelou um estróina. Em uma
única noite de farra num cabaré da cidade, gastou o que
muita gente levaria anos para ganhar. Isso sem falar na
bebedeira que tomou, chegando às dez horas da manhã do
dia seguinte, carregado pelos gorilas da boate que, junto
com você, traziam a conta para nosso pai pagar. Quer
lembrar mais ou chega?
- Chega! Eu sabia que era inútil recorrer a você. Você
nunca gostou de mim, pois somos totalmente diferentes.
Você sempre foi o comportadinho e eu, o bagunceiro e
mal comportado. Mas eu aproveitei a vida, enquanto você,
com o seu comportamento exemplar, só sofreu privações.
Eu conheci uma centena de mulheres, todas prostitutas, é
claro, ao passo que você apenas conheceu uma que o
abandonou.
- Sim, concordo com você, mas hoje você está em precária
situação, sem qualquer perspectiva na vida. Mas fale há
que veio?
- Quero fazer um negócio com você. Eu deixo de xingá-lo
na frente de sua casa e você me manda algum dinheiro.
- De novo com esse negócio. Lembras a última vez que me
propuseste este tipo de negócio. Deu em nada, levaste o
meu dinheiro, tomaste um fogo e voltaste a me insultar na
frente da minha casa. Mas, vá lá, aqui tem cem reais, dá
para tu tomares um foguete, e se voltares a me ofender, na
frente da minha casa, vou mandar te prender.
Assim, Roberto Rodrigues deixou a casa do irmão com
cem reais no bolso. Entrou no boteco da esquina, encheu a
cara, foi para frente da mansão do irmão e começou a
xingação:
108
- Tu não és homem, não conheces mulher alguma, a única
que tu conheceu te deu o cano. Meu irmão é um boboca,
mão de vaca, me deu apenas cem reais, um homem que
tem tudo, ele é um milionário, dá para o irmão que é
necessitado apenas cem reais.......
Levou mais de quinze minutos de xingamento e foi
embora. O irmão de dentro da casa nada disse.
Completamente bêbado, Roberto chega ao acampamento,
naquele momento apenas Aparecida havia chegado.
Quando ela viu Roberto cambaleando, correu para
ampará-lo. Segurou-o e o levou ao seu abrigo. Ele tinha
ficado ausente nos últimos quinze dias, o que fez com que
ela perguntasse:
- Onde você esteve todo esse tempo, Roberto?
- Andei por aí e fui visitar o meu irmão milionário, que
mora numa mansão no Moinhos de Vento, sabe o que
aconteceu? Ele me deu apenas cem reais, tomei tudo em
cachaça, agora estou liso como sempre, sem dinheiro,
bêbado, e o pior, amanhã vou ter que trabalhar para ganhar
algum para a comida.
- Agora você vai dormir, mas amanhã nós vamos
conversar, quando você estiver sóbrio.
Aparecida montou a caixa onde ele costumava dormir,
deitou-o, e o tapou com um cobertor. Logo o bebum
estava dormindo.
Na semana que se seguiu Roberto e Aparecida estiveram
juntos, Aparecida conseguiu deixá-lo longe da bebida e
eles estavam namorando. Roberto parecia muito feliz com
o namoro, Aparecida, por sua vez, tinha que ser enérgica
com ele, para mantê-lo longe da bebida.
Certo dia, às seis horas da manhã, Roberto levantou e saiu
sem falar com ninguém. Às seis e trinta, Aparecida
desperta e vai à procura de Roberto. Quando chega na
caixa, vê que ele não estava, e pensa:
109
“ Onde teria ido esse homem? Não toma jeito, deve ter
ido importunar o irmão e depois beber até cair.Ele disse
que o seu irmão mora numa mansão no Bairro Moinhos
de Vento. E se eu for visitar o irmão dele e ver se ele está
lá.”
Assim pensando, Aparecida resolveu ir ao bairro Moinhos
de Vento. Lá chegando, começou a procura pela mansão
de Gilberto Rodrigues. Andou pelo bairro a manhã toda,
perguntando pela mansão dos Rodrigues e não obteve
nenhuma informação. Eram quinze horas, quando ela
chega a um bar, e perguntando ao atendente, que lhe disse:
- Ah, sim, os dois irmãos, o milionário e o maltrapilho
aleijadinho. Sei, sim, onde ele mora. Dobre a esquina ali
na frente e enxergarás a mansão, isto é, os muros, pois o
prédio fica afastado da rua.
Aparecida agradeceu e se dirigiu ao local indicado. Lá
chegando, parou em frente a um grande portão de ferro.
Apertou a campainha do interfone, esperou cinco minutos
e apertou novamente, desta feita manteve o dedo na
campainha. Uma voz igual à de Roberto atende o
interfone.
- Que deseja?
- Eu me chamo Aparecida, sou amiga do seu irmão
Roberto e quero falar com o senhor.
- Entre, por favor, quando o portão der o sinal de aberto
siga o passeio e chegará à porta da casa, pode entrar que a
porta estará aberta. Por favor, aguarde no hall de entrada,
que eu estou trocando de roupas, e já lhe atenderei.
Nesse momento, ouve-se o som de abertura do portão.
Aparecida empurrou e o abriu. Adentrou e seguiu por uma
calçada que levava até a porta da mansão. Ao chegar à
porta, ela forçou o trinco, abriu a porta e entrou. Uma
imensa sala, com uma escada de mármore, que, após o
primeiro lanço, dividia-se em duas, uma para a direita e
110
outra para a esquerda. Ambas levavam ao primeiro andar.
Aparecida aguardou em pé no centro da grande sala.
Passados alguns instantes, na parte superior da escada,
pelo lado direito, aparece a figura imponente de Gilberto,
calça azul-marinho e um casaco branco, camisa branca e
um lenço branco. Começa a descer a escada. Aparecida
ficou embasbacada. Gilberto era idêntico a Roberto,
apenas se distinguia pela elegância e por não apresentar os
defeitos congênitos do irmão.
O homem se aproximou de Aparecida, que lhe estendeu a
mão para cumprimentá-lo. O homem pegou-lhe a mão,
beijou-a e disse:
- Encantado em conhecer uma amiga de meu irmão
Roberto.
- Eu sou Aparecida, uma moradora de rua como é o seu
irmão.
- Ah! Não vamos falar do meu irmão, ele não toma jeito
mesmo.
- Sabe onde ele está nesse momento?
- Não! Ele vem aqui de vez em quando para tomar algum
dinheiro de mim. Sai, toma umas cachaças e volta para me
ofender. Eu não lhe dou importância. Mas não vamos falar
do meu irmão. Vamos falar de você. Conte-me como pode
uma mulher tão bela como você se submeter a levar uma
vida dessa?
- Senhor Gilberto, estou aqui à procura do seu irmão, que
desapareceu do acampamento, sem dizer para onde ia. Nós
estávamos namorando, por isso o estou procurando.
- Ele sempre foi muito instável, nunca levou nada a sério.
Gilberto pediu licença e deixou a sala, retornando logo em
seguida, trazendo um balde com gelo e uma garrafa de
espumante, mergulhada em cubos de gelo e duas taças.
Abriu a garrafa, encheu as taças e alcançou uma à
111
Aparecida. Ela titubeou em pegar a taça que lhe fora
alcançada e naquele momento pensou:
“ Que tipo interessante, parece um homem gentil e
educado, mas por dentro é um monstro, que roubou tudo
de seu irmão aleijado. Agora tenho a oportunidade de
conhecer melhor o Roberto e confirmar suas narrativas.”
Pegou a taça e agradeceu a gentileza, ao mesmo tempo em
que perguntou:
- Fale-me sobre seu irmão, o Roberto.
- Ele deve ter lhe contado coisas horríveis a meu respeito?
- Não! Apenas que você lhe tomou todos os bens que
possuíam os seus pais.
- Não é verdade! Tudo foi uma questão de
comportamento. E sempre me comportei adequadamente,
ao passo que o Roberto parecia que se esforçava para se
comportar mal. Enquanto eu estudava, ele se divertia,
sempre envolvido com mulheres. Confesso que ele levava
jeito com as mulheres e eu não. Tanto que a única
namorada que tive, ele fez questão de roubá-la de mim.
Quando nos tínhamos dezenove anos, ele se revelou um
grande estroina e bêbado. Chegou num domingo às dez
horas, sendo carregado por dois gorilas que, junto com ele,
traziam a conta de uma noite de orgia. Daí para frente, ele
passou a frequentar bordéis todos os finais de semana,
enquanto que eu ficava em casa estudando.
- Mas você não precisava deixá-lo na rua da amargura.
- Não se engane, é assim que ele gosta de viver, viver
perigosamente, não pode ter um níquel sequer, gasta tudo
em bebidas.
- Eu o estava monitorando, ele chegou a passar quinze dias
sem beber.
- Por acaso ele lhe disse que estava apaixonado por você?
- Não! Não chegou a dizer, mas eu confesso que estou
apaixonada por ele.
112
- Como você, uma mulher linda, pode estar apaixonada
por um homem com o meu irmão Roberto? Você merece
coisa melhor.
- Você não me conhece, não sabe nada de mim. Eu, como
ele, sou uma moradora de rua. Catamos lixo para
sobreviver nesse mundo cruel e desumano, onde alguns
têm demais e outros nada têm. Mas, chega de balela, eu
estou aqui para ver onde está o Roberto? Eu quero falar
com ele.
- Vá procurá-lo pelas ruas, deve estar caído de bêbado em
alguma sarjeta. Mas, pensando bem, faço-lhe uma
proposta: espere-o aqui, talvez ele esteja vindo para cá. E,
nesse interregno de tempo, podemos nos conhecer melhor.
- Posso aguardar por algum tempo, mas tenho que ir para o
acampamento assim que começar a escurecer.
Gilberto começou mostrando a mansão, cômodo por
cômodo, todos os ambientes finamente decorados e
mobiliados, mas sem uma única presença humana, o que
fez com que Aparecida lhe perguntasse:
- Senhor Gilberto, você não tem um único empregado?
- Tenho quantos quero e quando quero. Para tanto, basta
eu pegar o telefone e ligar para uma agência, que me
fornece arrumadeira, cozinheira, mordomo, motorista e
tudo o que mais que necessitar no momento. Eu viajo
muito e assim não costumo ter empregados efetivos.
Gilberto levou Aparecida pelas alamedas dos grandes
jardins, até chegarem à quadra de esportes, onde havia
uma quadra de tênis, uma piscina e a grande garagem onde
estavam os carros e a moto.
Durante a caminhada, Gilberto se revelou um gentleman,
explicando cada detalhe das instalações.
A conversa estava tão boa que Aparecida nem notou o
passar das horas. Mas quando findou o passeio, ela olhou
para o relógio e disse:
113
- Puxa, já é tarde, tenho que ir.
- Com todo o respeito Aparecida, posso lhe oferecer a
minha hospitalidade.
Ela ameaçou falar, mas ele a interrompeu dizendo:
- Não, não diga nada, venha, quero lhe mostrar algumas
coisas.
Gilberto a pegou pelo braço e a levou a um cômodo, abriu
um guarda-roupa e disse:
- Tudo está a sua disposição, Aparecida.
Ela olhou, havia uma grande variedade de roupas
femininas, olhou para baixo, da mesma forma, sapatos.
- Não receberei não como resposta. Eu vou para a sala de
estar enquanto você se prepara para jantar comigo.
Aparecida não sabia o que fazer, enquanto ele se afastava.
Ela tomou um banho, experimentou diversos trajes, todos
eram do seu número, os sapatos também estavam todos
certos no seu número. E ela imaginou:
“ Devem ser roupas de sua mãe, ela deveria ser da minha
estatura. Que coincidência?”
Aparecida surgiu, descendo a escada, e lá no solo, estava
Gilberto, aplaudindo-a. Na verdade, ela estava
deslumbrante. Ele a recepcionou, estendendo-lhe a mão e
disse:
- Deslumbrante! Meu irmão é realmente um homem de
sorte. O que ele fez para merecer tal criatura?
Ele a levou pelo braço a um salão contíguo à sala de estar.
Abriu uma grande porta, e fez uma mesura, convidando-a
a entrar. E disse:
- Gosta de arte? Aqui está a minha coleção de artes. Se
apreciar? Fique à vontade, enquanto eu providencio o
jantar.
Aparecida fica deslumbrada: quadros de pintura dos mais
variados pintores, os quais ela não conhecia, mas que a
deixaram sensibilizada com a beleza das obras.
114
Permaneceu absorta, apreciando as inúmeras obras, que
nem viu o tempo passar, apenas sentiu a mão de Gilberto
sobre o seu ombro, dizendo-lhe:
- Dentro de quinze minutos será servido o jantar.
Ambos apreciavam os quadros. Ele lhe dava as
explicações necessárias ao entendimento do significado de
cada obra.
Na hora prevista, ouviram o sinal sonoro da campainha.
Ambos se aproximaram do interfone, que estava sendo
acionado. Gilberto apertou no botão de falar e uma voz
disse:
- O jantar está chegando.
Gilberto acionou o botão de abrir e disse:
- Podem entrar.
Ele abriu a porta e entrou um homem com um grande
pacote, seguido de dois outros, carregando uma grande
bandeja. Entram e se dirigem à sala de jantar, ao lado do
salão de artes. O primeiro armou a mesa para dois lugares,
os dois outros distribuíram o ágape. Gilberto, segurando o
braço de Aparecida, conduziu-a a um dos lugares e logo se
sentou a sua frente. Um dos garçons pediu permissão para
servir o jantar. Gilberto assentiu com um gesto de cabeça.
O outro garçom se dirigiu à porta e fez entrar dois
violinistas, que começam a tocar. o Bolero de Ravel,
avançando em direção aos comensais.
Aparecida não sabia se chorava ou se sorria, nunca dantes
tinha sido servida, nunca antes havia ouvido música ao
vivo. Gilberto, atento às reações da convidada, notava que
ela estava embaraçada, mas se mantinha com grande
equilíbrio.
O jantar à luz de velas começava com grande
tranquilidade Aparecida, embora com baixa formação
cultural, se manteve com simplicidade e harmonia de
movimentos, perguntando a Gilberto como proceder com
115
os talheres, quais as porções e em que ordem deveriam ser
comidas. O cavalheiro lhe informou que os garçons
serviriam na ordem adequada e os talheres seriam
utilizados da seguinte maneira:
Uma refeição completa compreende vários pratos e esta é
a razão de tantos talheres, e deles variarem de forma e
tamanho, como estão expostos à mesa. Esta é a disposição
dos talheres para um jantar informal, compreendendo uma
sopa como entrada, o primeiro prato, o prato principal e
sobremesa. Os copos são para água e duas qualidades de
vinho. A ordem dos talheres e dos copos é a mesma em
que os pratos serão servidos: os primeiros talheres a serem
usados são os mais afastados do prato, à direita e à
esquerda, a começar da colher, para a sopa. A faca e o
garfo mais externos (2 e 3) serão para o primeiro prato,
geralmente, uma carne branca, como peixe ou frango. Se
for peixe, esse jogo de talheres será trocado pelo que é
próprio para comer peixe.
A faca e o garfo mais próximos do prato são para o prato
principal, e o jogo mais acima terá os talheres adequados à
sobremesa; a pequena faca para passar manteiga fica sobre
a borda do pratinho de pão. Os demais utensílios são o
guardanapo; o prato de serviço e os copos: o de pé maior,
para água, o copo de pé menor, para o vinho branco, que
acompanha o primeiro prato, e o copo médio para o vinho
tinto, que acompanha o prato principal.
O anfitrião e sua convidada, na maior descontração, sob os
olhos atentos dos serviçais e músicos, comeram e beberam
na maior cumplicidade possível. De quando em vez, o
cavalheiro se levantava, contornava a mesa, e chegava ao
lado da dama, para lhe explicar uma forma correta de
pegar um dos talheres, como servir o vinho e como
degustá-lo.
116
Já passavam das vinte e duas horas, quando o jantar havia
sido concluído. Os garçons recolheram tudo, os músicos
cessaram, recolheram tudo o que haviam trazido e se
retiraram, deixando os dois ainda degustando um copo de
vinho. Gilberto, encarando Aparecida, argüiu:
- Algum comentário sobre o jantar?
- Estava simplesmente maravilhoso. É pena que tenha
terminado.
- Poderá haver outros, basta que queira.
- Acho que já é tarde e devo me retirar.
- Desculpe a ousadia, mas não há posso deixar sair a esta
hora da noite sozinha. Se de fato tiver de ir eu a levarei
aonde quiser.
- Não será necessário.
- Faço questão.
O cavalheiro levantou, estendeu a mão. A dama
correspondeu ao gesto, alcançando-lhe a mão. Ajudou-a a
se levantar, deu-lhe o braço e se dirigiram à garagem, onde
estavam os carros estacionados. A grande porta da
garagem se abriu e saiu a Mecedes Benz com seus dois
ocupantes. Já a caminho, Gilberto diz:
- E agora, madame, onde devo deixá-la?
Aparecida toma um susto e diz:
- Pare o carro imediatamente.
O freio é acionado. Gilberto pergunta:
- O que foi, parece que viu um fantasma?
- Como posso chegar a um acampamento de moradores de
rua nesses trajes?
- Sugiro que pernoite em minha residência, há um quarto
de hóspedes preparado para você. Amanhã resolverá o que
fazer com mais calma.
Aparecida atônita não sabia o que dizer, e por isso assentiu
ao convite. Ele retornou com o carro à garagem. E antes
de descer lhe disse:
117
- Nos próximos dias vou fazer uma viagem de cruzeiro
pelo mundo todo, que, certamente, levará seis meses. Será
feita em um luxuoso navio. Eu a estou convidando para
ser minha dama de companhia. Aceita?
- O que o faz pensar que posso trocá-lo pelo seu irmão,
apenas porque tem posses e ele não. Além do mais, eu não
me sentiria bem em tais ambientes.
- Comportou-se tão bem no jantar, eu acho que se
adaptaria num piscar de olhos. Bem, se resolver o
contrário, pode me informar amanhã.
O cavalheiro conduziu a dama até os seus aposentos e dela
se despediu, com um ósculo no dorso de sua mão,
dizendo:
- Durma com os seus semelhantes, anjo.
Antes das seis horas da manhã, Aparecida já estava em pé,
trajando seus andrajos de moradora de rua. Sai sem fazer
qualquer barulho, para não acordar o único morador da
casa, e ganha a rua, seguindo para o acampamento.
Passava das dez horas
quando ela chegou ao
acampamento, que se encontrava completamente vazio.
Sem perda de tempo, ela sai para mais um dia de trabalho.
Seus pensamentos embora enxotados, persistiam em
retornar à noite anterior, em seus ouvidos parecia que
estava a música dos violinos, em sua boca, o gosto das
iguarias.
Às dezenove horas, ela retorna de seu trabalho cotidiano.
Ao adentrar no acampamento, logo olha para o local onde
Roberto costuma montar a caixa de dormir. Vê que a caixa
está montada. Com certeza, ele tinha chegado. Ela se
aproxima e ele está dormindo. Ela pensa:
“Que semelhança, se não soubesse que são irmãos, diria
que se trata da mesma pessoa.”
Ele abriu os olhos, viu a sua amada e disse:
- Quanta saudade de ti!
118
- Mas, afinal, onde estiveste esse tempo todo?
- Andei por aí.
- E eu não significo nada para ti?
- Você é o amor da minha vida, a mulher que foi capaz de
afastar-me da bebida.
- Vais dizer que não bebeste nada neste tempo todo?
- Sim, posso afirmar isso.
- Sabes? Eu fui te procurar na casa do teu irmão.
- Não acredito! E como ele te tratou?
- Muito bem, achei-o um gentil homem, um cavalheiro, na
concepção da palavra.
- Isso porque tu não o conheces. Ele é tudo o que não
presta, deixar o seu irmão morar na rua, quando há tantos
quartos na sua mansão.
- Não há como vocês se reconciliarem?
- Não, nunca, prefiro morrer nas ruas a morar com ele.
119
CAPÍTULO IX
APARECIDA
- Olha aqui, sua rampeira, se você não fizer o programa
hoje, ficará sem comida por três dias.
- Eu não posso fazer mais isso, nós todos vamos nos dar
mal.
- Nunca foi tão fácil ganhar dinheiro, você tem que
cooperar. O Justino já está na área, qualquer novidade, eu
ligo para o celular dele.
- Eu tenho medo, e isso é roubo, eu não quero me envolver
mais nisso.
- Tá bem, vá para o seu quarto, ficará sem comer até que
resolva trabalhar.
Passada meia hora, a porta do quarto é aberta, ela entra e
diz:
- Tá bem, essa será a última vez, depois desta não
precisará fazer mais.
- Mas só esta vez e nunca mais. Tá certo?
O caminhão estava parado no estacionamento do posto de
abastecimento. A mulher bateu na porta, o motorista do
interior da cabina disse:
- Um momento, vou abrir a porta.
A porta foi aberta, o homem apareceu e disse à mulher:
- Onde está a guria?
- Ela já está vindo, me dá o dinheiro.
- Não, só depois de ver a guria.
- Tá bom, mas enrola o dinheiro em um papel antes de
entregar.
- Não precisa repetir, eu entendi na primeira vez.
120
A mulher sai e logo retorna com a guria. O homem olha ao
redor e diz:
- Que piteuzinho, vale cada centavo que vou te pagar.
Ele tira do bolso um embrulho de papel e entrega à
mulher, que o coloca no bolso. O homem pega a guria e a
faz entrar na cabina do caminhão. A porta é fechada. As
cortinas dos vidros laterais e também as frontais foram
fechadas.
No interior da cabina a guria diz:
- Vá com calma, moço, que eu sou virgem.
- Não se preocupe, eu não tenho pressa, tu tens que ficar
calma, para não estragar o meu barato. Vamos conversar
primeiro e depois, devagarinho vamos ao que interessa.
Não havia passado cinco minutos, quando umas batidas
fortes atingiam a porta do lado do motorista. Uma voz de
homem dizia:
- Esteja preso, abra a porta e saia com as mãos levantadas,
é a polícia militar.
O motorista abriu a porta e deu de cara com um cabo da
Brigada Militar, que disse:
- A mulher também saia.
A guria saiu sem jeito, o brigadiano a pegou pelo braço e
disse:
- Tu não tens dezoito anos! Passa o documento de
identidade.
- Não tenho, não senhor.
- Tá bem! Mas que idade tens?
- Tenho dezessete anos, vou fazer dezoito no ano que vem.
- Fica aí e não fujas. E você, documento de identidade!
O homem tirou a carteira do bolso e retirou dela a carteira
de motorista profissional e alcançou ao guarda.
- Muito bem! Estas preso por corrupção de menores. Você
pode ir, que eu sei onde moras.
121
A menina saiu devagarinho, deixando o motorista com o
brigadiano.
- Pois acredita, seu guarda, eu não cheguei a tocar na
guria, não pode me prender, vamos negociar uma trégua.
- Estamos falando de quanto?
- Uma quina.
- É pouco, por uma milha eu lhe solto e esqueço que tava
com uma menor na cabina do caminhão.
- Tá bom, fechamos em mil.
O caminhoneiro sai dirigindo o seu caminhão e diz para si
mesmo:
- Nunca mais vou querer comer guria, é muito
complicado.
Mais tarde:
A mulher encontra com o brigadiano e diz:
- Como foste?
- Arranquei uma milha do otário.
- Eu arranquei uma quina. Mas temos um problema, a
Viviane não quer mais servir de isca pra otário.
- E daí, o que vamos fazer? Qual é a tua ideia?
- Vou deixar ela sem comer e dar uma surra por dia.
Aposto que ela, em menos de uma semana, pede para
enganar os otários.
Assim aconteceu. A mulher, que era mãe de criação de
Viviane, trancafiou-a num quarto e lhe deu uma surra com
uma vara de vime, que chegou a saltar vergões nas costas
e nas coxas. Ao cair da noite, a mulher foi com o seu
comparsa comemorar o acontecimento. Enquanto isso,
Viviane conseguiu abrir a janela, que estava trancada por
fora, pulou-a e tomou a estrada. Em duas horas e trinta
minutos, caminhando a pé, ela venceu a distância entre
Carazinho e Tio Hugo. Eram onze horas, quando ela pediu
uma carona a um senhor que estava fazendo um lanche.
Dirigindo-se a ele disse:
122
- Boa-noite, senhor! Por acaso o senhor está indo para
Porto Alegre?
- Sim! Estou.
- O senhor não se incomodaria de me dar uma carona?
- O homem a olhou de cima a baixo, coçou o queixo,
pigarreou e disse:
- Humm, mas que idade tens?
- Não vou mentir para o senhor, eu tenho dezessete anos.
- Por que está indo para Porto Alegre?
- O senhor tem tempo para ouvir a minha história?
- Depende, quanto tempo levará a sua narrativa?
- Contarei a minha história em pouco tempo.
- Então vamos lá, pode começar.
- Tudo começou quando eu tinha cinco anos de idade.
Meu pai começou a beber e virou alcoólatra, quando ele
chegava bêbado batia na minha mãe e às vezes batia em
mim. Certa vez, ele errou de casa, pois morávamos em
casas iguais, e entrou na casa da vizinha. Ele estava tão
bêbado, que pegou a mulher do vizinho chamando-a de
puta, começando a bater nela. O vizinho chegou e quase
matou ele a pau. Numa tarde de sábado, ele estava em um
bar, que tinha uma cancha de bocha, lá se desentendeu
com um tal de Pedro Mornai. Meu pai desembainhou a
faca e atacou o Mornai, que se esquivou, pegou um
canivete e o enfiou entre a quarta e a quinta costela,
atingindo o coração. Ele foi levado ao hospital, mas não
resistiu e morreu. Meu pai deixou apenas dividas. Como
ele era biscateiro, isto é, trabalhador autônomo, não
deixou nenhuma renda para nós. Minha mãe teve que
trabalhar. Nessa época eu tinha seis anos, não podia ficar
sozinha, por isso minha mãe cedeu uma pequena casa, que
tinha nos fundos da nossa, a uma senhora, que não tinha
onde morar, na condição de que ela me reparasse durante
o dia, enquanto ela trabalhava. Assim se passaram seis
123
meses. Certo dia, a minha mãe não retornou do serviço e
eu nunca mais a vi, nunca soube o que aconteceu com ela,
só sei que a mulher se mudou para a casa da frente, onde
nós morávamos, e passou a me criar. Quando eu
perguntava pela minha mãe ela dizia que estava viajando
e que, ela tinha pedido para ela reparar por mim.
Quando retornasse da viagem, iria procurar por mim.
Assim, ela cuidou de mim até eu completar catorze anos,
quando me disse.
- Guria, nós vamos trabalhar, precisamos ganhar dinheiro.
- Ela me explicou que eu apenas teria que ir para dentro da
cabina do caminhão e dizer ao motorista que eu era virgem
e que ele teria que ir com calma. E que, dentro de cinco
minutos, o cabo chegaria e eu poderia ir embora. Assim
foi até ontem, quando eu me recusei a fazer o trabalho,
pois eu entendi tudo e me recusei a fazer isto. Ela me deu
uma surra com vara de vime. Veja as marcas da vara.
- Puxa vida, até aqui eu achava que era balela sua, mas
vejo que é verdade.
- Eu fugi e não pretendo mais voltar, custe o que custar.
- Só mais um cuidado, antes de me decidir se a levo ou
não. Mostre-me a sua identidade.
- Impossível, eu fugi e não peguei nenhum documento, se
bem que eu tenho apenas a certidão de nascimento.
- Sou Oswaldo Petersen, estou vindo de Passo Fundo rumo
a Montenegro, posso deixá-la no entroncamento da TabaíCanoas. Meu carro está ali fora, vamos pegá-lo e viajar.
Assim, os dois começaram a viagem para Montenegro.
Oswaldo dirigia e Viviane seguia ao seu lado, no banco do
carona.
Enquanto conversavam amenidades, Oswaldo travava uma
batalha íntima, entre o bem e o mal. Seu id lhe ditava:
124
“ Não terei uma oportunidade desta nem em três
gerações, nada vai me acontecer, ela é uma foragida e foi
isca para extorsão de motoristas por vários anos”
Mas seu superego lhe lembrava:
“Oswaldo, você é um homem honrado, chefe de família
exemplar, nunca teve envolvimento com crime algum, não
pode agora fazer o que está pensando. Não esqueça de
que você é cardíaco, em constante tratamento.”
Seu ID interrompia os pensamentos ditados pelo super ego
e o fazia pensar:
“Coloque a mão na sua perna e veja como ela reage,
provavelment,e já foi tocada por diversos homens, você
será apenas mais um.”
Ele coloca a mão sobre a coxa dela. Viviane pega a mão,
retira-a e diz:
- Seu Oswaldo, o senhor também é um abusado?
- Não, minha querida, eu sou um homem comum, com
todos os defeitos que todo o homem tem. E em seus
pensamentos:
“Vou levá-la para um mato, a esta hora não haverá a
mínima possibilidade de aparecer alguém e ai vamos fazer
uma festa. Em sua imaginação, já a estava possuindo, o
que o manteve excitado.”
Ele calou e seguiram viagem. Apenas seus pensamentos
fluíam. Quando estavam perto de Fontoura Xavier,
Oswaldo brecou o carro e entrou em uma estrada de chão.
Quando Viviane notou a mudança de direção disse:
- Espere, onde estamos indo?
- Não se preocupe que não doerá nada, é só relaxar e
desfrutar.
Parou o carro num matagal, desceu do carro e o contornou,
chegando na porta do caroneiro. Nesse ínterim, Viviane
estava atônita, sem saber o que fazer. Ele abriu a porta e a
puxou pelo braço. Ela ficou parada a sua frente e ele
125
começou a abrir-lhe a blusa, momento em que ela enfioulhe o joelho nos escrotos, com a máxima força de que
dispunha. O homem se contorceu de dor, colocando ambas
as mãos entre as pernas. Ela fugiu e se embrenhou no
mato. A noite estava enluarada, mas a visibilidade naquele
momento era mínima, pois eles estavam entre as árvores.
A vítima correu por alguns metros e escondeu-se entre o
matagal, atirando-se ao solo. E ficou ali, quietinha,
controlando a respiração para que esta não a denunciasse.
O predador se refez do golpe recebido, pegou uma
lanterna no porta-luvas e começou a buscar a sua vítima.
Adentrou na mata cerrada e pressentiu que ela estaria
escondida entre a vegetação. Começou a gritar:
- Cuidado que há cobras, aranhas e ratos na mata, aí onde
você está deve ter uma cobra que irá picá-la.
Assim ele foi repetindo enquanto vasculhava a área. Em
certo momento, ele fica a um passo de sua vítima, que,
nesse momento, quase não respirou, para não ser
denunciada. Mas ele se afastou e ela pôde respirar
aliviada. Ele a procurou por mais de meia hora e, quando
ela menos esperava, ele estava a sua frente. Pegou-a pelos
cabelos e a levantou. Pegou o seu braço, torceu para trás,
estreitou-a entre seus braços e a beijou. Ela tentou atingilo com o joelho, mas ele estava com as pernas juntas, e ela
não conseguiu o seu intento. No desespero, ela mordeu os
lábios dele, e recebe um tremendo tapa no lado do rosto,
perdendo os sentidos por alguns instantes, caindo ao solo.
Aproveitando a oportunidade, o violento se jogou sobre a
vítima montando sobre ela. Quando ela recobrou os
sentidos, o bruto estava prendendo os seus braços com as
mãos. E disse:
- Hoje você vai para o saco, e não adianta reagir, senão eu
lhe dou uma surra e depois arranco toda a sua roupa e tiro
a sua virgindade. Viviane começou a reagir e o homem
126
cumpriu o prometido, deu-lhe mais um tremendo tapa na
face, fazendo com que ela perdesse novamente os
sentidos, por alguns instantes. Quando ela se recuperou,
estava completamente nua, sobre as folhas que cobriam o
chão e o estuprador se encontrava sobre ela como
estivesse desacordado. Ela levou alguns instantes para se
localizar e perceber o que estava acontecendo. Empurrou o
corpo, tirando-o de cima de si, o homem parecia estar sem
sentido ou morto. Levantou e ficou olhando para o corpo
do homem, pegou um dos braços, levantou e soltou, o
braço caiu sem fazer nenhuma resistência. Temendo que o
homem recobrasse os sentidos, ela pegou as roupas e
começou a vestir-se. Já estava completamente vestida e o
homem não havia se movido. Ela ajoelhou-se ao seu lado
e auscultou o coração, colocando o ouvido sobre o peito
dele. Logo constatou que o homem estava morto. Até
aquele momento não havia se dado conta de um fato
muito importante. O que teria acontecidos, enquanto
estivera desacordada. Colocou a mão no seu sexo sobre a
calça e verifica que estava suja de sangue. Logo os seus
sentidos se voltam para o seu órgão genital, sentiu-o
dolorido. Não havia dúvida, o homem
havia lhe
deflorado.
A vítima ainda permaneceu sem saber o que fazer, por
mais de meia hora, e resolveu seguir pela estrada de chão,
rumo à BR. Quando lá chegou, começou a sinalizar o
pedido de carona aos carros que passavam.
Havia caminhado mais de cinco quilômetros, quando, ao
sinalizar o pedido de carona, um carro parou e encostou ao
seu lado. Dentro estava um casal de que vinha de Soledade
rumo a Porto Alegre. O motorista perguntou:
- Está perdida moça, pedindo carona a esta hora?
- Não! Estou indo para Porto Alegre e não tenho dinheiro
para a passagem de ônibus.
127
- Casualmente, nos também estamos nos dirigindo para
Porto Alegre. Entre!
A caroneira entrou e cumprimentou a senhora com um
boa-noite. A mulher, uma senhora baixinha e ligeiramente
gordinha, de uma simpatia inigualável, logo puxou
conversa com Viviane, começando por indagar da vida
dela. Assim, eles chegaram à capital. A caroneira pediu
para descer o mais próximo da estação rodoviária. Como
eles passariam na frente, ali a deixaram.
Viviane entrou na estação rodoviária e se acomodou em
um banco. O local estava completamente vazio naquela
hora, apenas alguns mendigos dormiam ao relento,
tapados com folhas de jornais e papelões.
O sol já havia raiado quando Viviane acordou. Por alguns
instantes, não sabia onde estava. Logo em seguida,
lembrou-se de tudo o que havia ocorrido. Tinha que tomar
algum rumo, por isso dirigiu-se sem saber para onde
estava indo, mas acabou chegando ao centro da cidade.
A fome chegara acompanhada de muita sede. Quanto mais
caminhava, mais fraca se sentia, parou, sentou-se em um
banco da praça da Alfândega e começou a observar os
transeuntes, que, pela hora da manhã, começavam as suas
andanças. Devia ser próximo das nove horas, Viviane não
tinha coragem de se levantar do banco, seus pés já
estavam inchados. De repente, ela observa um homem
que, estava vestido miseravelmente, puxando a perna
esquerda e, com a mão esquerda torta sobre o peito,
apanhava nos cestos de lixo coisas que achava. Ele
levantou e se dirigiu ao seu encontro.
- Oi moço, o senhor vive por aqui?
- Sim moça, por que, eu a estou perturbando?
- Não, não senhor. Acontece que eu estou chegando à
cidade pela primeira vez e não sei nada, e estou com muita
fome e sede.
128
- Ah, isso é simples, espere aí!
O homem tirou uma sacola que carregava às costas, abriua e, de seu interior, tirou uma garrafa de refrigerante com
água e estendeu para Viviane. Introduziu a mão
novamente e retirou um pedaço de pão com mortadela e
alcançou à pedinte.
Enquanto ela comia, ele a olhava de cima abaixo como
que a estivesse conferindo.
- Sabe, moça, deve ter cuidado, aqui tem muitos
marginais, podem fazer mal à senhora. Ele sentou-se ao
seu lado e trocaram suas histórias. Às seis horas da tarde,
Roberto chega com Viviane no acampamento.
Roberto procurou Nocha e disse:
- Aqui está a Aparecida, uma moça que eu trouxe para ver
se pode morar aqui e trabalhar com a gente. Assim,
Viviane passou a integrar o grupo com o nome de
Aparecida.
Epílogo:
Nove horas da noite, o acampamento estava se
acomodando para vencer a noite. Encosta uma
ambulância. Todos ficam atentos. Um enfermeiro ou
médico desembarca pelo lado do motorista, outro, do lado
do carona, na porta de trás, uma enfermeira ou médica.
O homem, se aproximando do centro do núcleo, diz:
- Há algum líder nesta comunidade?
Nocha se movimenta, se aproxima do interlocutor e diz:
- Eu sou o responsável por este acampamento. Que
desejam de nós?
- Somos da secretaria da saúde e estamos aqui, nesta hora,
em que estão todos reunidos, para convidá-los a se
submeterem a exames de saúde. Para tanto, nós estamos
fazendo o cadastramento de todos, mas não se preocupem,
não pretendemos identificá-los com documentações, que
129
talvez vocês não tenham, apenas da forma como são
conhecidos, podendo ser apelidos.
Nocha disse:
- Que tipo de exames devemos fazer?
- Exames de rotina, para os maiores de quarenta anos,
exames de próstata, para os demais, exame de pulmão e
pele. Para tanto, terão que comparecer ao posto de saúde
que fica aqui pertinho.
Todos concordaram e a identificação foi feita, pelos
nomes com que eram conhecidos no acampamento, sem a
exigência de qualquer documento.
Pedro, o desmemoriado, foi o primeiro a se dirigir ao
posto de saúde. Lá chegando, colocou-se na fila de
atendimento e aguardou que todas as crianças fossem
atendidas e finalmente chegou a sua vez. A médica que o
iria examinar, Dra. Eliane, era uma senhora loira, esbelta
com olhos verdes brilhantes. Colocou o braço sobre os
ombros de Pedro e o fez entrar no consultório. Levou-o até
a cadeira à frente da escrivaninha, fez com que ele
sentasse, contornou a mesa, sentou-se atrás da mesa e
disse:
- Pedro de Alcântara! Nome de imperador! Como está
Senhor Pedro?
- Fisicamente estou bem, ainda às vezes tenho dores de
cabeça, dado ao ferimento que tive.
- Conte-me como foi isso?
Pedro contou-lhe a sua história, nos mínimos detalhes, e
concluiu dizendo:
- Assim não sei quem sou, se tenho família, nada antes
desse ferimento na cabeça.
- Seu Pedro! Vou fazer um exame clínico e depois o
senhor vai se submeter há alguns exames de laboratório,
exames de rotina. O senhor irá pegar os frascos para
exames de urina e fezes. Após colher o material, irá
130
entregá-los aqui mesmo no posto. Enquanto isso, eu vou
mexer alguns pauzinhos para ver se o senhor faz uma
tomografia computadorizada da cabeça.
Quinze dias depois Pedro retorna ao posto de saúde, com
os resultados dos exames.
- Doutora Eliane, bom-dia, como está a senhora?
- Bom-dia Seu Pedro. Tenho novidades para o senhor.
Consegui uma tomo para o senhor. Está marcada para
daqui a vinte dias. Esta é a data e horário, será feita no
hospital da Santa Casa de Misericórdia. Quem irá atendêlo é um colega, que é especialista em neuro.
Passados os vinte dias, Pedro, o desmemoriado, chega ao
hospital da Santa Casa. A equipe o recebe e ele é
submetido a uma tomografia computadorizada. O
resultado indica que ele teve um traumatismo e que
resultou numa amnésia retrógrada, pois ele consegue se
lembrar de eventos posteriores ao trauma, mas não
consegue se lembrar de eventos anteriores a ele. E que,
para reverter o quadro, teria que se submeter a uma
cirurgia reparadora.
Pedro alega que não possui recursos para suportar os
custos da cirurgia. O médico, Dr. Airton Tochetto,
tranquiliza-o, dizendo que não se preocupasse com isso,
pois o procedimento seria totalmente custeado pelo SUS.
Chega finalmente o grande dia da cirurgia, Pedro mal
podia esperar para ser submetido à intervenção que
poderia revelar quem ele era realmente. A cirurgia fora um
sucesso, Mas por vários dias, Pedro foi mantido sedado,
até que os sedativos foram sendo retirados e Pedro
recobou a consciência.
“Onde estou? Hum parece que estou em um hospital.”
Alguém se aproxima dele, ele olha e vê uma enfermeira,
que lhe diz:
- Bom-dia Senhor Pedro!
131
- Pedro! Eu sou Floriano Duquia de Oliveira. Sou
empresário aposentado, o que estou fazendo neste
hospital?
- O senhor foi submetido a uma cirurgia do cérebro, para a
retirada de um coágulo, que obstruía a sua memória
retrógrada.
Estabelece-se um conflito entre a memória recente e a
retrógrada, e Pedro ou Foriano nada entende. O cérebro de
Floriano leva vários dias, precisando ficar em recuperação
no hospital. Mas, finalmente, seu cérebro conseguiu
concatenar as duas memórias, a antes e a depois do
acidente. Já reestabelecido, Floriano telefona a Pizollato,
que lhe diz:
- Senhor Floriano, nós o procuramos por todo o país,
contratamos vários detetives, que estiveram a sua procura,
e nunca o encontraram.
- Senhor Pizollato, estou em um hospital me recuperando
de uma cirurgia, devo ter alta nos próximos dias.
- Qual é o hopital que o senhor está? Irei imediatamente
para aí.
Mamba Preta chegou ao hospital da Santa Casa de
Misericordia e, como fazia sempre, se dirigiu ao quarto
onde estava Pedro. Lá chegando, o leito estava ocupado
por outro paciente. Ela buscou saber onde estava Pedro, e
lhe foi dito que um homem estivera no hospital e o
removera para Caxias do Sul. E que o endereço deixado
era do Grupo Floriano.
Mamba Preta retornou aos seus afazeres e pensou: “Ele
deve ter se recordado de quem era e já foi tratar de sua
vida. Decerto não se lembrará mais de nós.”
Passados mais de trinta dias da saída de Pedro do hospital,
o acampamento estava completamente vazio, todos os seus
ocupantes estavam em plena atividade, quando encosta um
micro-ônibus. Na lateral dele se lia, em grandes letras:
132
“Fundação Floriano” Os ocupantes do veículo
permaneceram em seus interiores, como que esperassem
alguém. Por volta das dezenove horas, eles começaram a
chegar. Primeiro chegou Aolo, seguido por Nocha e
Bahia. Os recém-chegados ficaram atentos ao veículo
estacionado à beira da calçada, bem na frente do
acampamento. Passava das vinte horas quando chegou o
último dos moradores. Parecia que os ocupantes dos
veículos, esperavam que todos estivessem no
acampamento, pois a porta do ônibus se abre e de seu
interior saiu um homem com uniforme de motorista. Ele se
aproximou do grupo, que, atento, lhe observava, e disse:
- Sou motorista da Fundação Floriano, e minhas ordens é
de convidá-los e levá-los até a Fundação.
Nocha se aproximou do homem que falava e disse:
- Para que nos devemos ir ate à Fundação, com que
obejetivo?
- Apenas o que sei é que o Senhor Floriano lhes espera, e,
para que confiem em mim, ele me mandou dizer-lhes
apenas isso: “Que Pedro, o Desmemoriado,Espera por
eles.” Não sei o que isso tem a ver com vocês, mas assim
ele determinou.
Nocha reuniu todos os acampados e falou:
- Eu acho que se o seu Pedro mandou nos chamar,
devemos ir. Esta é a minha opinião.
Nando tomou a frente e disse:
- Eu não vou, fico aqui no aguardo do que irá acontecer,
depois vocês me contam. O Nocha sabe porque é que eu
assim decidi.
Logo a seguir, o Aleijadinho se pronunciou:
- Eu, por minha vez, nada tenho a perder, só que devo
estar de volta no dia seguinte, pois tenho que perturbar o
meu irmão, aquele miserável, que roubou tudo de mim.
Aparecida, ao seu lado, disse:
133
- Roberto, porque tu ages dessa maneira, deves te certar
com o teu irmão.
Todos tomaram os lugares no micro-ônibus. O motorista
deu partida.
Mamba Preta ocupou o banco frontal de um só lugar. O
ônibus deu partida e ela começou a pensar:
- Eu tinha certeza de que o Pedro era uma pessoa bem
sucedida. Ele morava em Caxias do Sul,e nem sabia disso.
Que vida cruel o destino às vezes nos reserva!
Aolo, em seu banco, pensava: “ O amigo Pedro não nos
esqueceu, quem sabe ele poderá me ajudar a trazer a
minha família para o Rio Grande do Sul.
Ric e Li, abraçados num dos bancos do fundo,
cochichavam. Ric lhe dizia:
- O que será que o seu Pedro quer com a gente?
Assim, o ônibus chegou a Caxias do Sul. Eram em torno
de vinte e três horas, quando ele adentra no pátio de uma
grande indústria metalmecânica. Uma senhora,
aparentando ter uns quarenta anos de idade, adentrou no
ônibus e se apresentou ao grupo de passageiros:
- Boa-noite a todos! Eu sou Rosí Cristina, sou assistente
social do Grupo Floriano, e estou representando o Senhor
Floriano Duquia de Oliveira. O Senhor Floriano,
conhecido por vocês como Pedro, o desmemoriado,
determinou que eu lhes acomodasse num hotel aqui
próximo, lhes fornecesse roupas novas, pois ele os
esperará amanhã, na Fundação Floriano, por volta das
nove horas. Pede escusa por não lhes ter recepcionado,
mas ele ainda está em período de recuperação da cirurgia.
O ônibus lhes deixará no hotel, tenham todos uma boa
noite. Na manhã seguinte, às oito horas e quarenta e cinco
minutos, o ônibus encosta no estacionamento do hotel.
Todos vestindo calça e camisa da Fundação ocupam os
seu assentos.
134
O ônibus chega na Fundação Floriano. A sala de
conferência com cinquenta lugares estava à disposição dos
recém-chegados. A assistente social, após verificar que
todos estavam presentes, anunciou:
- Bom-dia a todos. Tenho a honra de lhes apresentar o
Senhor Floriano Duquia de Oliveira, nosso benemérito.
Aquele homem finamente vestido, tendo a cabeça coberta,
na parte superior, por uma bandagem, se aproximou do
pedestal do oratório. Colocou ambas as mãos sobre a
guarda a sua frente, respirou fundo e disse:
- Bom-dia meus queridos amigos! Se assim lhes chamo é
porque, durante a minha estada na vossa comunidade, fui
assim tratado. Eu, que era apenas Pedro o desmemoriado,
aquele que não sabia o seu passado, nem tinha esperança
para o futuro, fui por vós recebido e considerado como
membro efetivo do grupo. Em especial, aquela que se
revelou uma companheira inseparável, que me confortou
com o seu carinho e amizade, refiro-me à Mamba Preta,
minha querida amiga de infortúnio.
Floriano desceu do oratório e foi abraçar um a um dos seu
antigos companheiros.
Após abraçar todos demoradamente, ele retornou ao
oratório e continuou:
- É meu propósito fazer por vocês apenas uma pequena
parcela do que fizeram por mim. Não em dinheiro , pois o
que fizeram não se pode pagar com bens materiais, e sim,
retribuir com amor e carinho.
Mas a Fundação Floriano, a qual presido, irá encaminhálos naquilo que necessitarem. Ao Nocha e família, eu
pretendo, se aceitarem, tomar a responsabilidade da
formação do meu grande amigo e salvador, Toinho, até
que se forme em uma universidade. Ao Nocha e à dona
Bahia, tenho uma casa pronta para eles e, se aceitarem,
serão os zeladores do meu sítio, onde tenho uma criação
135
de cavalos de raça. Além disso, a Fundação está
providenciando a contratação de um detetive particular
para procurar os seus pais, meu caro amigo, Aolo. Terás
trabalho em qualquer uma das minhas fábricas, bastará,
para tanto, escolheres. A Fundação se encarregará de
trazer a sua família para a sua companhia.
Aos jovens, Ric e Li, a Fundação lhes proporcionará a
continuidade dos seus estudos até a sua formação
universitária. Após esta, poderão, se quiserem, trabalhar
em uma das fábricas do Grupo Floriano.
Vejo que Nando não veio, sei os seus motivos. Mas, com
toda a certeza, acharemos uma forma de ajudá-lo.
Meu caro e amigo, Roberto, a Fundação Floriano, se
aceitares, irá te encaminhar a uma clínica para exames
físicos. E, se necessário proporcionará um tratamento
adequado para os seus males.
Quanto à Aparecida, minha amiga, como sei da sua
história, a Fundação irá contratar um detetive para
descobrir o que aconteceu com a sua mãe e investigar as
ações da mulher e do homem que a maltrataram.
Mamba Preta, minha querida Mamba Preta, horas
intermináveis de consolo e sustentação moral deste que
estava tão fragilizado, naquele momento. Não tenho
palavras para agradecê-la, mas tenho uma proposta a
fazer-lhe: quer ser minha mulher?
Todos aplaudiram, Mamba Preta se dirigiu ao oratório e
abraçou Floriano, como estivesse abraçando Pedro, o
desmemoriado.
Epílogo – O Retirante
Aolo diz a Floriano que, se fosse possível, gostaria de ele
mesmo buscar a sua família. Seu pedido é atendido e ele
parte em retorno a sua terra. Três dias de viagem e ele
chega no sítio de sua propriedade. A casa estava fechada,
havia sinais de que estava abandonada há muito tempo. O
136
retirante, que há quatro anos tinha partido, resolve
procurar seu vizinho mais próximo, o velho Firmino. Lá
chegando, de longe vê a sua Amália, que lavava roupas em
um tanque. Ele chega devagarinho, sua mulher o vê de
longe e corre para abraçá-lo. Eles se abraçam e
permanecem por algum tempo, coração batendo disparado
contra coração. Aolo a encara e pergunta:
- Muié, o que tu fazes aqui na casa do veio Firmino?
- Oh, Hômi. Tu não mandaste dinheiro nem voltaste mais,
e também não escreveste. A comida terminou, as crianças
começaram a chorar com fome, eu resisti até não aguentá
mais, aí eu aceitei a proposta do veio Firmino. Ele dava
comida para mim e pras crianças e eu servia de muié pra
ele.
Aolo. sentou em uma pedra, colocou as mãos no rosto e
chorou copiosamente. Amália se abraçou nele e disse:
- E, agora Aolo o que vamos fazê?
- Onde estão as crianças?
Amália adentra na casa e retorna com os dois filhos que,
ao verem o pai, correm para o abraço.
- Como ôceis tão grande! Sentiram muita saudade do
painho?
Ele se recompõe da emoção do encontro com os filhos,
passa a mão nos olhos para enxugar as lágrimas, e diz:
- Chama o Firmino, eu quero falar com ele.
Amália entra na casa e retorna com Firmino.
Aolo se aproxima e diz:
- Seu Firmino! Muito agradecido por ter amparado a
minha família, mas eu vou levá minha muié e meus fios
pro Rio Grande do Sul.
- Você não pode fazer isso, eu vou ficar aqui sozinho, não
leve a minha mulher, você é jovem, pode arranjar outra
pra você. Eu não! Neste fim de mundo e velho, não
137
arrumo mais ninguém. Eu cuido dos teus filhos até eles
estarem grandes.
- Seu Firmino!Eu repito, eu lhe sou agradecido por ter
amparado minha muié e meus fios, mas eles vão comigo.
Aolo pega Amália e seus dois filhos e retornam para a
casa abandonada. No dia seguinte, partem em um ônibus
que ia para São Paulo.
EPÍLOGO
– NANDO, O JOGADOR
Nando, que ficara no acampamento, no dia seguinte,
recebe a visita de um homem, que assim se apresentou:
- Bom-dia! Eu sou advogado da Fundação Floriano, tem
uma pessoa que quer lhe falar.
O homem pegou o celular e ligou. Alguém atendeu o
telefone, o advogado alcançou o aparelho a Nando:
- Alô é o Nando!
- Bom-dia! Nando, está reconhecendo a minha voz?
- Claro, é o meu amigo Pedro.
- Agora eu sei o meu nome, eu me chamo Floriano. Este
senhor que está aí contigo, é um advogado da Fundação
Floriano. Quero que você conte toda a sua história para
ele, é um homem da minha confiança, portanto, não
receie. Ele vai tomar conta do seu caso.
Nando relatou todas as suas aventuras e desventuras ao
advogado que, ao final, lhe disse:
- Senhor Nando! Quero tomar nota do endereço de seu pai
e do seu credor, o Senhor Damasceno. Pretendo viajar
hoje mesmo para Rio Grande e avaliar a situação em que o
senhor se encontra. A propósito, quanto tempo faz que o
senhor chegou a Porto Alegre?
- Fez quatro anos no mês passado.
138
- Bem, se mantenha protegido até o meu retorno. E passar
bem.
Cinco dias depois, Nando está chegando ao acampamento,
onde é o único morador atual. Lá estava lhe esperando o
advogado da Fundação Floriano.
- Bom-dia, Senhor Nando! Temos ótimas notícias para o
senhor.
- Não diga que o Damasceno morreu.
- Acertou na mosca. O homem foi pego pela polícia em
flagrante delito, a sua organização foi desbaratada e
acabou sendo assassinado na prisão. E, por incrível que
pareça, já faz três anos que ele morreu. Procurei o seu pai,
ele disse que lhe procurou por todo o Rio Grande, e não
lhe encontrou. Bem, o senhor está livre de seus
perseguidores, aqui tem uma passagem de ônibus para Rio
Grande, sua família o espera.
Uma semana depois de haver chegado á casa do pai, na
cidade de Rio Grande, Nando resolve retornar à praia,
onde passara um longo tempo com Naca. Como das outras
vezes, ele vai a pé, reverencia a estátua de Iemanjá e segue
a sua caminhada. Após várias horas de caminhada
constante, ele chega ao lugar onde havia ficado acampado,
senta numa duna e pensa:
“ O que terá havido com Naca, nesse tempo em que estive
foragido de Damasceno. Bem, o melhor é eu ir à casa do
seu pai e ver com os meus próprios olhos.”
Assim, ele segue pelas dunas, rumando para a casa do
Pedro. Ao aproximar-se, um cão ladra, anunciando a sua
chegada. Pedro e Afonsa aparecem à porta da modesta
casa. Ele se aproxima e, quando perto, Pedro o reconhece
e diz :
- Seu Nando, você voltou.
- Onde está Naca? Quero vê-la.
139
Nesse momento, aparece à porta um menino de pele clara
e cabelo encaracolado, com o dedo na boca. Pedro diz:
- Vem Julinho, venha ver o teu pai que acaba de chegar.
Nando olha para o garoto e se emociona, pega-o no colo e
abraça-o com grande afeto. Mas dirigindo-se a Pedro e
Afonsa diz:
- Mas onde está Naca?
- Calma, seu Nando, Naca está no campo, arrebanhando
uns novilhos, já, já, estará de volta. Mas conta pra nóis,
por onde tem andado?
Nando conta que estivera na cidade de Porto Alegre, mas
que agora estava de volta para ficar, que estava livre de
todos os obstáculos que o separaram de Naca.
- Mas, seu Nando, pega o meu cavalo, que já está
encilhado, e vá à procura dela. Nando se dirige ao galpão,
monta no cavalo e sai em disparada.
Naca está tocando alguns novilhos e quando vê aquele
cavaleiro, que vinha em disparada, para e fica observandoo. Nando se aproxima e ela o reconhece, ambos descem do
cavalo e correm para o encontro. Nando ergue Naca e lhe
dá um grande beijo.
- APARECIDA E ROBERTO
A assistente social da Fundação Floriano conduz o casal
Viviane (Aparecida) e Roberto (o Aleijadinho) a um
centro médico para que Roberto fosse examinado,
buscando uma recuperação de sua mão e de seu pé
aleijado de nascimento.
Uma grande bateria de exames radiográficos foi efetuada.
Dois especialistas o examinaram e o resultado, passado
para a Fundação Floriano, foi surpreendente.
- Dona Viviane (Aparecida), eu a chamei aqui, pois o seu
namorado foi submetido a diversos exames físicos e os
resultados nos surpreenderam. Fisicamente, ele é normal,
140
não há nada de errado com o pé e a mão dele. É tudo
psicológico, por isso resolvemos encaminhá-lo a um
psiquiatra.
A assistente social e Viviane (Aparecida), chegam ao
consultório de um grande psiquiatra, Roberto as
acompanhava, sem saber do que se tratava, para ele iria
prosseguir com os exames clínicos.
A assistente social Rosí, adentrou no consultório,
deixando Roberto e Viviane na sala de espera.
- É isso doutor, ele puxa por um pé e tem a mão torta, mas
os exames físicos dizem que ele não tem defeito físico
algum, que é tudo psicológico.
- Muito bem, a Fundação Floriano quer um estudo
pormenorizado e, no final, uma terapia para livrá-lo do
agravo emocional?!
- É isso mesmo.
- Teremos que fazer vários ciclos terapêuticos. Hoje, farei
uma avaliação emocional dele.
- E quanto tempo o senhor acha que levará o tratamento
dele?
- Não posso precisar, mas tais casos costumam levar
muitas sessões, até que possamos descobrir o que o fez
agir dessa maneira.
- Tá certo, manteremos contato. Meu telefone na Fundação
é 51 3632 4546, ramal 51.
Seis meses depois, Rosí Cristina recebe o relatório do
psiquiatra. Nele dizia:
“O paciente, quando chegou à clínica, contou a sua
história, informando que era gêmeo e que nascera com
dois defeitos físicos, que foram ocultado pelos pais, que o
preteriram em favor de seu irmão, que era perfeito. Contou
que quando viajavam, levavam o seu irmão e o deixavam
com os empregados, que parecia que ele não existia para
os seus pais. Toda a atenção era para seu irmão perfeito e
141
que sempre fazia coisas acertadas, ao passo que ele sempre
fazia coisas erradas. Que seus pais morreram em um
acidente de carro, deixando para o seu irmão toda uma
fortuna e para ele nada. E, por isso, ele foi morar nas ruas.
Mas, por vingança, sempre que podia ia à mansão do
irmão para xingá-lo com palavrões e chamá-lo de ladrão,
para que todos ouvissem.
Na quarta sessão, resolvemos ir à casa de seu irmão. Para
tanto, pedimos que nos levasse lá. Até então achávamos
que ele não tinha irmão algum, pois sua história era
fantástica. Ele alegou que seu irmão estava em um
cruzeiro de navio e que levaria muitos meses para retornar.
Mesmo assim, insistimos para que nos levasse lá.
Custamos muito, mas o convencemos. Lá chegando, e
podemos constatar que realmente tudo o que ele havia dito
que o irmão tinha era verdadeiro. Achamos impressionante
que ele soubesse onde o irmão guardava as chaves da
garagem, que fica do outro lado da mansão, dando direto
para uma pequena rua sem saída. Adentramos na mansão e
ele nos mostrou tudo, incluindo três carros e uma moto
estradeira. A sala de artes, a biblioteca e tudo o mais que o
irmão herdara do pai. Este fato nos levou a mudar o nosso
método de avaliação psicológica do paciente. Passamos a
considerar a necessidade de fazermos uma regressão,
através da hipnotização. Ao final de duas sessões de
regressão, pudemos comprovar o que já havíamos
constatado. Um casal imensamente rico, com um único
filho, que era imensamente cobrado em seu
comportamento e atitudes, ameaçado quando cometia
qualquer deslize. Um exemplo que ficou bem claro na
regressão foi o fato de ele ter ido fazer uma viagem ao
exterior com os pais. Antes da partida, o pai sentou-o no
colo e disse:
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- Você tem que me prometer que durante a viagem se
comportará, senão, na próxima vez, lhe deixaremos com
os empregados. Ele passou a ser um menino comportado,
tudo o que fazia de errado ou fora do normal era feito pelo
seu irmão gêmeo, que não era comportado como ele.
Para que o irmão não representasse uma ameaça a ele,
concebeu-o como que fosse aleijado. Foi uma forma de
ele se permitir fazer coisas erradas sem se considerar
culpado. E, ainda, manter um controle sobre os gastos do
irmão imaginário, ou seja, o que tecnicamente nos
chamamos de alter-ego.
Para finalizar o nosso trabalho, temos ainda uma etapa
conclusiva. Considerando que Gilberto propositadamente
inventou uma falsa viagem de cruzeiro, apenas para deixar
que Roberto permanecesse o tempo todo com Aparecida
(Viviane), temos que fazer uma sessão conjunta com
Viviane. Vamos fazer com que os dois estejam presente à
sessão, pois os dois estão apaixonados por ela.
A assistente social da Fundação Floriano, Rosí Cristina, se
encarregou de conduzir o casal ao consultório do médico
psiquiatra.
Na sessão, o psiquiatra iniciou perguntando à Viviane (
Aparecida) se ela conhecia o irmão de seu namorado
Roberto. A resposta foi positiva. A segunda pergunta. Se
ela estava vendo naquele momento o Senhor Gilberto. Ela
disse que não. Na sequência, foi-lhe perguntado se ela
gostaria de conversar com o Senhor Gilberto. Ele
respondeu que sim, que Gilberto a tratou com muita
distinção, quando estiveram juntos.
O psicólogo
hipnotizou Roberto, e disse:
- Saia da sala e chame o seu irmão Gilberto, diga-lhe que
venha para cá, que queremos falar com ele.
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Roberto se afastou, puxando a perna e com a mão torta, e
saiu. Logo em seguida entrou, caminhando corretamente e
com a mão esquerda normal.
O psiquatra disse:
- Aqui está o Senhor Gilberto, Viviane (Aparecida), pode
falar com ele.
Gilberto se aproximou de Viviane ,estendeu-lhe a mão,
pegou a dela e beijou, dizendo:
- Como vai, Aparecida, vocês está muito linda, como
sempre.
- É isso aí, Viviane, eles são uma única pessoa, caberá a
você fazer com que ambos vivam em paz e com você. Um
é todo certinho, o outro todo errado. Mas ambos a amam,
embora de formas diferentes.
- Aparecida convenceu Roberto de que eles deveriam
morar na casa de Gilberto, na antiga casa do zelador, que
viveriam longe de Roberto.
Roberto chegara de viagem, acabara de tomar banho e
trocar de roupas, quando a campainha dá sinal. Ele fala ao
interfone:
- Quem é e o que deseja?
- Sou Viviane, irmã gêmea da Aparecida, desejo falar com
o senhor.
- Entre, por favor, e siga o passeio que vai até a porta da
casa.
Viviane chega à porta, ele já a estava esperando, surpreso,
diz:
- Viviane, como você é linda, e tão parecida com a sua
irmã Aparecida.
Essa foi a maneira com que Aparecida (Viviane) achou de
estar com Roberto, quando ele estava personificado, uma
vez que Aparecida ficava com Roberto, quando era a sua
vez.
FIM
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