Poema “quero dizer que manuelzão foi boi”. Romério Rômulo d eclaraçã o d e p rin cípio s (m a n u elzão ) 1 – “as co isa s b oa s sem p re vê m n a m em ó ria. m as a ru im t á e n co stad a d e lad o ”. 2 – “q u an d o o jiló ficar d o ce q u an d o o aç ú ca r am arg ar q u an d o d eu s d e ixar o m u nd o e u d e ixo d e t e am ar.” 3 - “n u nca v i e n cru z ilh ad a p ro in fe rn o .” 4 – “tu d o e le q u er ia sa b er a fin alid ad e.” 5 – “a so b ra q u e so b r o u .” 6 – “e u n un ca ach e i n ad a p o u c o o u m u ito q u e ch e g ass e p ra m im .” 7 – “e la tav a m ais n o r u m o d e e n ten d e r o q u e eu q u e ria.” 8 – “s an g u e cua io u, aca bo u .” 9 – “uma santinha dessa posição.” 10 – “a brincadeira saiu e rendeu demais.” 11 – “o negócio é todo às avessa.” 12 – “servia para lascar um pau-de-lenha.” 13 – “teve vez da barriga não caber.” 14 – “só acredito no que vejo.” 15 – “medo? num sei o que é medo.” 16 – “cão chupando manga.” 17 – “promete esse mundo e a metade do outro.” o t e x t o é n a u fr á g io e é s ilê n c io . q u a n d o d a p e d r a s a lta -lh e u m a c a b r a s e u d ia c o n t a d o vê -s e r u b r o . a p e le v e r m e lh a d o a r s o lta - se e m vig o r e s. u m a p o e sia c a r r e g a s e m p r e o u t r a . c a d a g r ã o a va lia o e x tr a t o c o m o p o d r e . q u e r e la s s ã o fo n t e s d e d e s e jo . e os d e s e jo s , n o ite s. p r e s o d os o lh o s, m a n u e l é c u m ie ir a . (m a n u e lz ã o ,fr a g m e n to 1 ) se r b o i, c on e e p e da l, p o de se r g r a ve se em m a n u e l re m ete a n te c ed ê n c ia s. o esp a ço q u e re v elo é p u ra n o ite d e so lid ã o , c er ra d o e e lo q ü ên c ia . o á rid o in s ta n te , e x tra t o e m u r o , re q u er o o lh o a tiça d o : v en tre d o g a lh o tr a z m a is d e c isõ es . se o e sp a ç o b ru m o so d e m a n u e l re q u er se ja o c a v a lo p u ro in ten to d e re a ve r o ta n to já p e rd id o . to d a q u ere la nã o ca b e im e n sid ã o . (manuelzão, fragmento 2) e ste m anuel é te so e o cavalo (um ) puro arre io que m istura o te m po. vié s de sua gargant a traz garrucha e valo de e xte nsão de se spe rada. se rtão lhe vale quant o, o olho , o e stado, contém o c orpo em gado, cada ve ia . quando m anuel se vê de ses pera do é que m ontanha lhe re dou o co rpo pela planura que se m pre carre ga. quando m anuel des diz é que foi solto o bicho conte ndor de um a vingança vazada na garrucha e no fe rrã o. quero dize r que m anue lzão fo i boi. (m anue lzão,fragm ento 3) t en a z es d e m a n u el s ã o com o p o ld ra s q u e s o p ra m , ju ve n is, q u a lq u er cid a d e. m a n u el se f a z d e ru b ro c a va le iro q u e ca rre ga a d e m a n e s n o se u v en t re. o n d e m a nu e l la t iu fo i q u e s e s o u b e d o cã o q ue tra v es s a va s u a a lm a . e p o r m a n u e l s e fe z a lm a e m p e n a da . o ve n to d o fa c ã o r e c o r t a o m u n d o em q u ad ras. alm as am en as , d u ras e sp ad as . “s e b ezerro fo s se n o ite eu n ão m u d av a d aq u i” . m a n u elzã o b eb e u , d e se d e, 0 2 á g u a s de 02 rio s . a m o n ta d o n u m p a vio v iro u a u g u s to m a t ra g a . q u a n d o b e b e es t e qu ila t e m a n u el qu a s e q u e la t e d es t ra va d o , t u d o lu z d e b e be r nu m a rre m a t e. s u a se de de sm a n ch o u 0 3 p ro cela d es a b a d a em vio la , t ru p ic o u fe z o o lh o s er n a s cen t e. a rra n co u m e lh o r co m o d en t e q u e à fa ca . ext a s iad o . n o ite . so m b ra pe lo rio d e m a n u el, la rg o e p ro fu n d o m a n u el, m a io r q u e o m u n d o , b em m e n or q u e m a n ue l m a n u elzã o d e sa s so m b ra d o p en s a n d o s a b er d a v id a lam bia cada ce rrado sombrava, pura alquimia. na alma , c ada be ze rro. no corpo, cavalo cada. uns arrebóis de lenda, uns bois de cria ção, extrato de secura: irmão. o hálito cerrado em corpo de varão estado todo: vão. revela o cavalo do peito, grão poeira pesada: m ão. fratura desossada. desolação. vida a rriada: não. se cada um valesse por cerrados os bois, manuel, seriam mais velozes! o cavalo, estreito no seu corpo, seria sua roupa matinal. os bois, manuel, são pura transcendência. e o espaço que lhe sobra, pura noite, diz, singela, gargantas de eloqüência e nitidez velada, mão afoita de ver facão vazado de espanto coser a pele de homem e coser o boi, manuel, revela cada encanto que nosso corpo não cabe por caber. vadio manuel estrada vadio manuel daqui manuel, estampa e gargalo, manuel, estrago e buscado saber da morte por garrucha e devaneio estrada é morte de outrem cavalo, estrada e estrada, manue l, tem morte que nunca chega no fim nos ca be o e spanto da m orte (nos c abe a morte e o espanto) onde o instante da vaca é universo onde o estado do boi pode caminho a rua do seu corpo é só poeira o valo do seu corpo é vau-de-rio bandeira no horizonte é saia morta que faz marruco (dizer) estripulia. manuel carrega em pelo o horizonte e sempre diz de ser belo vaqueiro. ser boi, num só ma nue l, é desave nça. e m ais m anue l revida m adrugada . quere la de ga mela, pois sertão tem empe ncado e medo só m edonho. farinha de pirão, pira prime ira m anuel é lasca de c apim varrido. paixão de rede munho, manue lzão ce rzido de paixão, m ovido a boi m anuel foi m esmo, m anue lzão se foi de ce rto só re stou sobressale nte , o calo de manuel, que sem pre boi, cavalo e boi c erzidos pe la espora rete cem de m anuel o olho. agora um só manuel é só farpa da ge nte . velá-lo e re ve lá- lo e m deste rro traz do se rtão e m penca o espaço solto é que m anuel destranca, barricada, sua form a veloz, um riso la rgo a bala que costuma de sdizê-lo a faca que se põe a revelá-lo têm corpo seco e m edem cada estalo da carne que atorme nta o te mpo am argo cavalo só não tem alguma estra da e só m anuel não faz a lgum sertão m as se m anuel carrega man uelzão estrada aí se pisa de boiada e m anuelzã o. perfeita desavença o fel de m anuelzão é puro boi o há lito vazado no ca valo leva o cerrado em cada piso seco cascalho lhe é pedra, boi, estado pu ro. m anuel se fez verdade por cava lo seu corp o foi por dia só ga lope o dia que lhe traça o desmazelo desbravo. minas nasce de manuel. manuel nasce quando minas na valente geologia arranca a bolsa vazia de um cabra inexistente são dois coice, três retardo de facão irrevelado no calado de urucuia boi e instante metem medo no sabido, no coitado dagobé, sopro de vida zé mané, mulher parida, benzedeira de emborcado. barba fala de ingrisia de estanho na fulia de estrago desbravado. manuelzão nasceu daquilo penetrando na harmonia do estrume e da porfia medo é quilo, (desdanado) faz tremer cacho de beiço. alma santa reza vela de três margens, manuelzão diz a noite ser distância diz o grito ser estado de m edo. enca rnaç ão m anuelzã o, didi, diz dagobé traz e streito o ce ntro de cerrado furna solta, cavalo fuzilado pela bala rasga da num só eito. m anuel e cavalo, ve ntania são se rtão, um só, por alquim ia m anuel te m o corpo dilata do. declaro, e m fé , que manuelzão foi boi. 92, manuel morreu de sangue. simplicidade foi-lhe o coração. nascido outro, neste espaço bruto que outro manuel coubesse manuelzão declaro, em fé, que manuelzão foi boi. Romério Rômulo nasceu em Felixlândia, atualmente reside em Ouro Preto e leciona Economia política na UFOP. Publicou Bené para flauta (1990), Murilo (1990), Caixa tempo quando (1996) e Matéria bruta (2006).