Universidade de Brasília – UnB Instituto de Ciências Sociais – ICS Departamento de Antropologia – DAN A produção de instrumentos de mediação de conflitos socioambientais: o caso da sobreposição entre o território tradicionalmente ocupado pelos Pataxós do Monte Pascoal e o Parque Nacional do Monte Pascoal Orientador PROF. DR. LUÍS ROBERTO CARDOSO DE OLIVEIRA Graduando LUÍS GUILHERME RESENDE DE ASSIS Dissertação de graduação apresentada ao Departamento de Antropologia da Universidade de Brasília, como requisito para a obtenção de título de Bacharel em Ciências Sociais, Habilitação em Antropologia. Brasília Agosto de 2004 Era uma vez um czar naturalista Que caçava homens. Quando lhe disseram que [também se caçam borboletas e [andorinhas, Ficou muito espantado E achou uma barbaridade (Carlos Drummond de Andrade) Pra Dona Joanita, dona do melhor pão de queijo; Cris, na recuperação e Ju que, me conhecendo bem, disse que o negócio bom mesmo era fazer Antropologia. Minhas três mulheres queridas. Dá-lhe Freud 2 Agradecimentos Primeiramente aos administradores dos mistérios da vida que cuidam teimosamente em guardá-los, crendo eu, que porque qualquer compreensão humana seria parcial. À providência talvez casual que configurou o contexto permitindo meu acesso e apreciação na busca pelo conhecimento. À família por meio de quem a tal providência se manifestou. Mãe, Pai, Avós, Ailton, irmãos, Genilce e primos. Agradeço também Tia Andrea. Vocês são a causa disso aqui, guardadas as proporções de cada. Professor Dr. Luís Roberto C. de Oliveira, meu orientador e professor nos dois cursos de teoria antropológica, muito obrigado pela “paciência de Jó”. Não poderia ter sido mais gratificante a honra de sua orientação. Professor Dr. Hênyo Trindade Barreto, pelas aulas de métodos e pela solicitude quanto a esta pesquisa. Paulo e Rosa, funcionários do DAN. Ao povo Pataxó, por nosso contato breve mas absolutamente significativo. Obrigado pela simpatia, disponibilidade e desculpem as más impressões e minha saída sem que antes pudesse me despedir. Soube que poucos de vocês souberam que eu fui expulso da aldeia Barra Velha. Pois é, eu fui. Aos grandes, médios e pouco amigos que permitiram discussões muitíssimo relevantes para a composição deste texto, marcadamente nas áreas verdes da UnB e no Antro, “meu” querido centro acadêmico. Não poderia esquecer as pessoas que permitiram eu adentrar no universo da questão indígena, Sras Isa Maria Pacheco e Ana Maria Carvalho Ribeiro Lange. Agradeço toda a equipe da SCA/CEX que contribuiu no meu aprendizado, dentre os membros especialmente Paulo Spyer. Além disso Márcia Resende, fundamental interlocutora/professora no MMA e agora no MDA sobre as inquietações e problemas de pesquisa. Agradeço à FUNAI em Brasília, especificamente Conceição. Obrigado. Também às funcionárias da biblioteca da FUNAI que em tempo recorde selecionaram o que tinham sobre os Pataxós. Profa. Maria do Rosário Carvalho, Pedro Agostinho, José Augusto Laranjeiras Sampaio e Magda. Sumário, Adison, Augusto Tosato, Renato Cunha, Milene e Jean. Busquei transpor nossas conversas fielmente e sem quaisquer tentativas conscientes de desfigurar o que vocês falaram. Agradeço ainda à AGU de Ilhéus e à Procuradoria na mesma cidade que disponibilizaram mesmo em face da greve cópias dos processos judiciais por manutenção e reintegração de posse. Agradeço aqueles injustiçados por meu esquecimento mas que com certeza deveriam estar aqui nominalmente listados. Adoro vocês! 3 Siglas e Acrônimos ABA – Associação Brasileira de Antropologia ABM – Aldeia Boca da Mata ABV- Aldeia Barra Velha AGU - Advogacia Geral da União ANAI – Associação Nacional de Ação Indigenista APOINME – Associação dos Povos e Associações Indígenas do Nordeste, Minas Gerais e Espírito Santo BM – Boca da Mata BV – Terra Indígena de Barra Velha CCPY – Comitê Pró-Yanomami CDA – Comitê de Defesa da Amazônia CEPEDES – Centro de Estudos e Pesquisas para o Desenvolvimento do Extremo Sul da Bahia CEX - Coordenadoria de Agroextrativismo CIMI – Conselho Indigenista Missionário CONAMA - Conselho Nacional do Meio Ambiente CTI – Centro de Trabalho Indigenista DAN - Departamento de Antropologia DEID – Departamento de Identificação e de Delimitação da FUNAI DOU - Diário Oficial da União FUNAI – Fundação Nacional do Índio GAMBÁ – Grupo Ambientalista da Bahia GT – Grupo de Trabalho IBAMA – Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis IBDF – Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal ISA – Instituto Sócio Ambiental 4 MDA - Ministério do Desenvolvimento Agrário MinC - Ministério da Cultura MM – Aldeia Meio da Mata MMA – Ministério do Meio Ambiente MP – Ministério Público ONG – Organização não Governamental PArNAMP – Parque Nacional do Monte Pascoal PDPI - Projetos Demonstrativos dos Povos Indígenas PFL – Partido da Frente Liberal PINEB – Programa de Pesquisas sobre Povos Indígenas do Nordeste Brasileiro PNMP - Parque Nacional do Monte Pascoal PPTAL - Projeto Integrado de Proteção às Populações e Terras Indígenas da Amazônia Legal RPPN – Reserva Particular do Patrimônio Natural SAF - Sistema Agroflorestal SBF - Secretaria de Biodiversidade e Florestas SCA - Secretaria de Coordenação da Amazônia SNUC – Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza SPI – Serviço de Proteção aos Índios TI – Terra Indígena TIBV – Terra Indígena Boca da Mata UC – Unidade de Conservação UnB - Universidade de Brasília UNESCO – Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura WWF - World Wildlife Fund 5 I – Introdução (...) é precisamente no espaço da ação do Estado, nessa “mesoesfera”, que se articulam ou se compatibilizam os valores particularistas das etnias e das comunidades locais da “microesfera” com os valores universalistas, humanistas, da “macro-esfera”. (R. Cardoso de Oliveira, 1996:29) A produção de material etnográfico, artigos e pesquisas sobre conflitos sociambientais no Brasil tem crescido muito nos últimos anos. Este trabalho vem se somar a esse montante. Pretende-se aqui compreender como se dá o processo de mediação dos conflitos gerados em função da criação do Parque Nacional do Monte Pascoal sobre uma área ocupada pelo Povo Pataxó, no extremo sul baiano e seus desdobramentos ao longo da dinâmica do conflito. O entrave dura mais de sessenta anos, se tomarmos seu início quando da primeira expedição para o Monte Pascoal realizada entre 1943 e 1945, sob ordens do presidente da república para que se localizasse o exato ponto do descobrimento. A perspectiva de análise foca processos de produção de consensos mínimos em Comunidades de Argumentação, em função do conflito. Nessas Comunidades, mais que acordos objetivistas, se negociam simbolicamente novas relações e categorias de compreensão de mundo. A perspectiva dos atores variam de acordo com novas situações postas no conflito e a busca de soluções resignifica o espaço, artefatualmente. Metodologicamente pretendo delimitar a demanda dos atores e compreender suas modificações nas Comunidades de Argumentação. É uma tentativa de análise do processo de negociação de valores ditos universais, como a preservação do Meio Ambiente, nos ambientes particulares; o que possivelmente produz conflito. Processos de mediação de conflitos desse tipo ocorrem em espaços intermediários entre Nacional e o local. Pretendo no trabalho qualificar esses processos ao longo da história Pataxó, estabelecendo uma “genealogia” do conflito. I.1 – Breve contextualização Após a saída da equipe de demarcação da área, nos anos 40, os Pataxós se sentem ameaçados de perder seu território e o então “cacique” empreende uma viagem ao Rio de Janeiro. Não tendo as demandas atendidas ele retorna à aldeia. Pouco tempo depois chegam dois homens alegando ser agentes do governo, o que não eram. Promovem um saque no povoado próximo, o que resulta no “Fogo de 1951”, ou “Guerra de 1951”, quando os Pataxós foram atacados pela polícias locais e pereseguidos por algum período. Passa a “Guerra” e os Pataxós retomam sua vida 6 coletiva, retornando aos poucos, agora já “misturados” em função da diáspora. O Parque criado em 1943, entretanto só funcionara até então no papel. Em 1961 o governo federal promulga outro decreto, criando o Parque Nacional do Monte Pascoal. Mais uma vez os Pataxós se vêem obrigados a se retirar das terras, agora indenizados como caboclos, já que não tinham sua identidade reconhecida. Resistem mais uma vez e voltam ao território. Desde então os conflitos com os guardas do Parque se tornam constantes. Lideranças Pataxós empreendem outra viagem, agora para Brasília. A FUNAI chega na área no início dos anos setenta, quando começa a história da mediação do conflito. O órgão indigenista negocia com o então IBDF a partilha do Parque, o que só ocorre no início dos anos 80. Os Pataxós gradualmente vão tomando consciência de sua identidade em função da chegada da FUNAI e de Pedro Agostinho, antropólogo que funda o PINEB, em 1971. Em 91 a terra Indígena é homologada sem que perdesse o título e administração do IBAMA – órgão que substitui o IBDF -, o que caracteriza uma sobreposição entre Terra Indígena e Unidade de Conservação de Uso Indireto, ou seja, de uso restrito ao turismo e pesquisa. A vontade de retomar os territórios perdidos aumenta entre os Pataxós, já organizados na segunda metade dos anos 90. É realizado um seminário entre todos os atores envolvidos nas discussões sobre o Monte Pascoal, á essa altura com participação de representantes da sociedade civil organizada, tanto ambientalistas como indigenistas. Em 1999 a FUNAI cria o GT de identificação e revisão de limites da Terra Indígena Barra Velha e Terra Indígena Corumbauzinho, mais ao sul. O GT é coordenado por Maria do Rosário G. de Carvalho, que escrevera em 1977 o trabalho mais completo sobre a situação dos Pataxós até o período. Logo depois da criação do GT os Pataxós Retomam o Parque numa “invasão” simbólica do escritório da Unidade. A ação é legitimada na maioria da população Pataxó que finalmente recupera a vitalidade política. Pouco depois o IBAMA reconquista a área, quando empossa uma nova gerência, esta, entretanto, visando a cooperação e o entendimento com os índios, prometendo que não mais promoveria o conflito, como faziam os guardas anteriores. A chegada da nova gerência divide o movimento dos Pataxós e coloca dilemas para a mediação, supostamente legítima pois negociada com alguns Pataxós que respondem por todo o grupo quando já não havia mais unidade de posições entre eles. Em 2001 é assinado um termo de gestão compartilhada da área, uma parceria entre FUNAI, IBAMA e algumas lideranças da Aldeia Boca da Mata. Esse instrumento, antes que mediar soluções, reconfigura o conflito, estabelecendo novas diferenças políticas nas aldeias. Por um lado porque cria certo animosidade entre aldeias de dentro da área demarcada e aldeias de fora dela. Por outro porque estabelece relações de aliança unilaterais entre intermediários do Estado e índios. Os processos de decisão passam a ser questionados por grupos Pataxó que rompem com as lideranças de Boca da Mata da época criando 7 a Frente de Resistência e Luta Pataxó, em detrimento e oposição ao grupo que se alinha à proposta de cooperação. Outras lideranças, estimuladas por possibilidades de apoio a projeto de desenvolvimento propostos e a serem gerenciados por associações indígenas não aderem nem a um nem a outro. Em cada caso Comunidades de Argumentação são construídas e desconstruídas e com elas os acordos estabelecidos em seu interior. Chego em campo no momento da implementação da cooperação técnica e quando estou no início dos trabalhos na Aldeia Barra Velha sou expulso em função de desentendimentos com os agentes do IBAMA, todos indígenas contratados pelo órgão. Eis o resumo muitíssimo superficial e breve das páginas que se seguem. Pretendo aqui caracterizar essa estória como um problema antropológico. Primeiro porque envolve processos de (re)criação de identidade étnica, ou seja, a tomada de consciência de um povo dos limites simbólicos que o separam dos “outros”. Segundo porque a mediação desse conflito sociambiental é exemplar do caráter contextual/situacional e particular de dinâmicas de negociação que evidenciam a virtualidade da unidade do Estado. Características que escapam a olhares “mais altos”, menos focados na vida cotidiana do conflito. Serão três capítulos piloto. No primeiro deles – Capítulo II – procuro caracterizar o que chamo de pré-história do conflito. Nessa seção estabeleço as bases sobre as quais se deu os primeiros contatos dos colonizadores – sociedade envolvente – com os Pataxós e sua importância é vital para o empreendimento, uma vez que o passado revela aspectos esclarecedores da situação atual. No capítulo III ensaio a reconstrução histórica do conflito a partir da pesquisa bibliográfica e entrevistas de campo. Procuro demonstrar que a história do conflito se confunde com a história dos Pataxós e portanto as posições atuais não poderiam ser elucidadas sem recorrer a essa história. O sub título do capítulo III é fundamental para o argumento dessa monografia já que trata do momento em que se forma uma comunidade de argumentação legitimada nas bases políticas Pataxó; um seminário para discutir a questão em Itamaraju. O capítulo IV trata da cisão de acordos estabelecidos neste seminário e as novas configurações políticas dela emergentes. É uma ensaio sobre a intermediação do conflito que após a Retomada do ParNaMP, e seus desdobramentos, os principais: a criação do GT de redefinição dos territórios da TIBV e o estabelecimento da volta da administração do IBAMA à área e com ele a negociação do termo de cooperação. Por final caracterizo o faccionalismo no sub título do capítulo IV e encerro com uma breve conclusão e apontamentos. 8 I.2 – Itinerário da pesquisa / objeto Meu contato com os Pataxó se iniciou no período em que a constituição de um objeto de pesquisa, por meio do projeto de pesquisa, estava em andamento. Naquela mesma época eu estagiava no Ministério do Meio Ambiente-MMA, Secretaria de Coordenação da Amazônia-SCA, Coordenadoria do Agroextrativismo-CEX. Na oportunidade, que durou dois anos, trabalhei num instrumento de política conhecido como ‘Carteira de Projetos’, vinculada à ação Amazônia Solidária, executada por aquela Coordenadoria. A Carteira é um mecanismo de apoio a projetos advindos de comunidades agroextrativistas da Amazônia e suas organizações. Uma vez que eu iniciava uma busca por conhecimento e vivenciava uma experiência rica na Carteira, acreditei que a união das parcelas poderia render um objeto de pesquisa defensável. Tive contato com projetos de uma diversidade relevante de segmentos extrativistas. Os de organizações indígenas me chamavam atenção pois as demandas supunham formas de organização social mais distantes da que compartilho 1 , portanto, exóticas a este estudante primário em Antropologia. No planejamento anual da CEX fui indicado para trabalhar somente com projetos indígenas, não só porque queria, mas porque era estudante de Antropologia. Tal identidade foi decisiva nesse processo de escolha, já que determinou o remanejamento de minhas tarefas no estágio, e com elas meu foco na busca de um problema de pesquisa. Sempre que podia e era dada oportunidade, eu conversava com lideranças indígenas que iam ao MMA resolver assuntos diversos. O contato com duas experientes indigenistas, Sras Isa Maria Pacheco e Ana Maria Carvalho Ribeiro Lange, e nossos diálogos francos, como de costume, foram bastante frutíferos. Em muitos casos as justificativas apresentadas nos projetos indicavam situação de conflito relacionadas à questão ambiental. A partir de então comecei a vasculhar o tema e a situação atual da “Questão Indígena”. Ao final do processo recortei a sobreposição, que afigurava como um excelente tema a ser trabalhado. Contribuiu muito para isso seminários em que estive presente, uma reunião em Lábrea-AM com lideranças indígenas da região a respeito do PPTAL e uma reunião em Brasília do PDPI. No Brasil a sobreposição entre o território Pataxó e o Parque Nacional de Monte Pascoal foi à imprensa nacional em 1999 e relembrado em 2000 quando das comemorações dos 500 anos. Sabendo disso e estimulado pela notícia, que até aquele momento eu desconhecia, de que o termo de cooperação técnica de gestão compartilhada do Parque era executado pela Secretaria de Biodiversidade e Florestas – SBF, no MMA, não tive dúvidas. Decidido que iria pesquisar o caso Pataxó do Monte Pascoal, iniciei uma jornada de idas e vindas entre FUNAI e IBAMA. Nesse ínterim fui apresentado na sede da FUNAI para os 9 primeiros Pataxós que conheci. Nelson Pataxó, tesoureiro da então criada Associação Comunitária Indígena Boca da Mata; Epifânio dos Santos Souza, Presidente da Associação e Julio Farias Pataxó, o Iberê, Cacique de Boca da Mata. Quando a pessoa que nos apresentou disse - “Esse aqui é o Guilherme, estagiário lá do MMA, ele que fazer uma pesquisa em BV para a faculdade”, - o trio deu a primeira pista sobre que tipo de ‘terreno’ eu estaria pisando, e que expectativas seriam jogadas. Senti na hora o “borbulhar do conflito”. Nelson, o mais falante e desinibido me olhou de forma desafiadora e disse “ah... é com você mesmo que nós queremos conversar”. “Comigo mesmo?”, pensei. Eles demonstraram indignação quanto ao projeto de gestão compartilhada e me cobravam em função da identidade atribuída. Uma vez solicitado, confirmei minha posição, afirmando que as terras deveriam ser reconhecidas como território tradicional Pataxó porque considero defensável tal hipótese. Fui questionado sobre possibilidade de apoio a projetos indígenas e por isso conversamos sobre as ações do MMA nesse sentido. Os interlocutores tinham recém criado uma associação em Boca da Mata. Segundo eles o objetivo da Associação é criar condições de autonomia dos Pataxó com relação ao IBAMA e FUNAI. Eles acreditam que há irregularidades na gestão dos recursos do termo e que os caciques que discordam do termo não são mais respeitados. Afirmam que a comunidade nunca foi envolvida no projeto e que as decisões são tomadas em Itamaraju e em Brasília só por algumas pessoas que, “sozinhas” são apresentadas como representantes das 14 aldeias Pataxó, quando “na verdade cada aldeia tem sua liderança escolhida pela comunidade, e não pelo IBAMA”, como afirmou Nelson. Nesse sentido reivindicam parte dos recursos do termo para que eles próprios gerenciem. Depois do reajuste das expectativas iniciais pudemos estabelecer um diálogo muito mais agradável e produtivo. Epifânio e Nelson eram observados pelo silencioso Iberê. Duramos uma hora a conversar sobre a situação da TIBV, a Cooperação e a associação. Segundo meus interlocutores a chefe do Parque havia traído a confiança deles, uma vez que queria apenas poder sobre os índios, opinião diversa de muitos Pataxó da Aldeia Barra Velha, que apoiam relativamente o IBAMA. Nesse momento captei que a situação de campo que encontraria posteriormente era de fato de conflito político entre diferentes grupos Pataxó e atores não índios locais. Epifânio, Nelson e Júlio criticam os Pataxó que aceitaram trabalhar no IBAMA porque “eles não percebem que estão sendo usados para garantir o Parque sendo do IBAMA”. Segundo eles “os parentes que trabalham no IBAMA só estão beneficiando a si mesmos e ao IBAMA, a comunidade fica pra lá”. Perguntei se todos pensavam como eles com relação à parceria IBAMA – FUNAI. Epifânio pediu um papel e caneta. Desenhou o mapa da TI e foi mostrando que as aldeias criadas a partir da retomada são contra a parceria, o que representa boa parte da população da TI. Segundo 1 Os trabalhos eram prioritariamente com populações indígenas da Amazônia 10 ele em BV, “que é a aldeia mãe” ainda tinha muita gente a favor. As lideranças anteriores a Iberê foram identificados como os índios que articularam a parceria com o IBAMA/MMA e FUNAI. Foi este o primeiro contato com Pataxós da TIBV. Dias depois entrei em contato com Zezito Pataxó, presidente do Conselho de Caciques, e uma das lideranças que inicialmente articularam a volta do IBAMA à área e inserção de Pataxós nos quadros do órgão ambientalista, mesmo que temporariamente. Àquela época ele já havia rompido com o IBAMA, o que só fui saber durante a estadia na TIBV. Disse a ele meus propósitos e prontamente ele me convidou para ir à BV para ver “como a situação está preta” na região. Zezito foi uma das lideranças, junto com Alfredo e Joel Brás que tomaram a frente na Retomada. Ele é primo de Alfredo, ex-cacique de Boca da Mata, e que hoje ocupa o posto mais alto de um índio Pataxó na estrutura de poder local do IBAMA. A conversa com Zezito foi bastante breve. Ao término ele me deu o telefone de Alfredo para que eu combinasse com ele minha ida para as aldeias, já que ele próprio não estaria na área na data marcada. Quando nos encontramos de novo, já após o campo, Zezito disse que rompeu com Milene porque ela já não tinha os mesmos propósitos iniciais. Segundo ele, antes ela afirmava que iria trabalhar para os índios, mas ocorreu o contrário, “os parentes foram comprados e eu não aceitei ser comprado”, disse. Antes de seguir para a Bahia, mantive contatos com Milene, chefe do Parque; Jean, responsável técnico pelo termo do MMA; Sumário e Adson do Conselho Indígenas Missionário; Tribunal de Ilhéus, etc. Liguei para Alfredo e ele confirmou que me receberia quando chegasse em Itamaraju. Tudo pronto para o campo, segui para Salvador e logo depois Ilhéus. Em Salvador e Ilhéus não fiz qualquer contato com os Pataxó, não era esse o objetivo. Nessa escala realizei entrevistas com Carvalho, L. Sampaio e Cunha, bastante utilizados no texto. De Ilhéus segui para Eunápolis, onde se localizava o posto da FUNAI 2 e sedes do IBAMA e CIMI locais. Me indicaram uma “pousada onde se hospedam índios”. Segui para lá., onde realmente encontrei Pataxós, inclusive Epifânio e Nelson. Conversamos bastante sobre o projeto. Cumprida a missão de entrevistar Sumário do CIMI e Tosato do IBAMA, faltava ainda conseguir a autorização para ir à campo. Procurei o chefe de posto da FUNAI da cidade. A expectativa que eu alimentava era movida pela ansiedade – afinal era minha primeira experiência em campo. Eu objetivava trazer para o gravador, câmera e papéis, impressões suficientes para uma reflexão posterior, minimamente competente acerca das questões envolvidas na sobreposição entre terras indígenas e unidades de conservação de uso indireto, particularmente o caso Pataxó. Para isso era necessário entrar na TI oficialmente autorizado pelo órgão indigenista - ou será que eu devia pedir autorização para o IBAMA? Ou ambas?. 2 O posto de Eunápolis foi dividido, ficando responsável pelos Pataxós de Barra Velha o órgão indigenista local em Itamaraju. 11 Na sede da FUNAI fui apresentado ao chefe de posto e me identifiquei prontamente como estagiário da SCA/MMA e estudante da UnB que queria concluir a graduação em Antropologia. Logo me foi dado uma brochura contendo a resolução 169 do Conselho de Ética em Pesquisa, Resolução MS/CNS nº304/2000, nº196/1996 e nº292/1999. “O tiro saiu pela culatra”, pensei “todo o projeto de pesquisa e o dinheiro investido por nada. Será que ele não vai dar a bendita autorização?”. Aproveitei que Nelson Pataxó estava comigo no momento e, chamando ele de lado, pedi que interviesse contando da história de nosso encontro em Brasília, que eu já tinha “explicado” a pesquisa para ele... Além disso, tentei esclarecer os objetivos imediatos da estadia em Barra Velha para o chefe. Procurei também comprovar que eu estagiava no MMA, trabalhando na triagem de projetos indígenas. Ao final da “trama” o chefe de posto emitiu a autorização que, para minha surpresa, continha a seguinte informação: “Pelo presente, apresentamos a Vossa Senhoria o Senhor Luís Guilherme Resende de Assis, Antropólogo e Funcionário do Ministério do Meio Ambiente, que pretende realizar estudos ambientais nessa Terra Indígena”. Como se observa, minha identidade não foi compreendida a partir de minhas expectativas mas como resultado de relações contextuais. Segui para Itamaraju com Nelson, que desceu ainda na rodovia em direção à Boca da Mata. Chegando lá, mal acomodei a bagagem e saí rumo ao escritório do Parque, onde acreditava que iria encontrar Milene e Jean. Não os encontrei. Soube que Jean estava em Brasília e Milene em outra cidade. Era sexta feira e procurei buscar soluções para uma ansiedade que sentia no momento: “Como coletar dados?”. Elaborei um questionário num dos cibercafés da cidade. As perguntas contidas nele foram pensadas em função do projeto de pesquisa e das experiências vividas até então em Salvador, Ilhéus e Eunápolis. Fui expulso da aldeia em função de tal questionário, que serviu como bode expiatório para o incômodo que eu representava à gerência do IBAMA e do Termo de Cooperação Técnica, explicitado posteriormente por Jean em entrevista. Somente na segunda-feira pela manhã voltei ao escritório. Ainda ninguém. Liguei de tarde e conversei com Alfredo. Seguimos para Boca da Mata na terça feira. I.3 – Pressupostos teóricos O conflito é a forma social na qual relações humanas específicas são produzidas 3 . Uma vez que pretendemos caracterizar o conflito entre indigenistas, ambientalistas e Pataxós na região do Monte Pascoal, algumas premissas devem ser compartilhadas. A primeira delas já foi enunciada e – vale repetir - consiste em compreender o conflito como um conjunto de relações específicas, adjacentes às dinâmicas das partes em busca de terem suas demandas satisfeitas. Utiliza-se aqui uma idéia positiva de conflito já que é a partir dele que 3 (Simmel, 1983) 12 novas configurações sociais são estabelecidas, podendo resultar de processos de resolução democrático ou autoritário. Sendo assim, há de se supor que as disputas argumentativas ocorram numa dada comunidade de argumentação, com uma ética própria – o que é sua própria condição enquanto tal 4 - e uma dada moralidade, ou o conjunto de regras morais que normalizam as condutas no conflito. Compreendendo-se os limites éticos e morais da mediação será possível qualificá-la criticamente. No caso do Monte trata-se de acordos firmados num nível intermediário entre meso-efera e micro-esfera, como apresentados por R. Cardoso de Oliveira5 . Há portanto de se fazer um esforço de compreensão de como são “produzidos” intermediários da comunidade local “capazes” de interagir e produzir consenso numa Comunidade de Argumentação particular. Em terceiro lugar deve-se compreender que a sustentação no plano da ética de possíveis resoluções é resultado de consenso sobre as normas e regras que balizam o diálogo entre as partes, não sendo a mediação, portanto, forjada da exclusão de vozes interessadas 6 . No caso em questão, trata-se de relações interétnicas. A comunidade de argumentação não é, portanto, inter pares, o que acarreta uma série de responsabilidades às partes se se pretende viabilizar uma resolução eticamente defensável para o conflito. Qualquer resultado de mediação só poderia se justificar eticamente se produzido no interior dessa comunidade de argumentação por meio do consenso sobre o processo de resolução e tendo como base moral os acordos anteriormente estabelecidos nela e compreendidos como “o dever” de todos, no nível da conduta argumentativa. Nesse sentido, a responsabilidade moral de assegurar a simetria entre as vozes em conflito, portanto a garantia de uma mediação democrática, é do Estado, pois atua na meso-esfera, que visa acomodar as particularidades locais e “domá-las” aos valores universais da macro-esfera. A comunidade de argumentação no conflito da sobreposição na região do Monte Pascoal é um objeto privilegiado para compreender o espaço geográfico sobre o qual incide os consensos criados como produto do jogo de relações humanas: simbólicas, econômicas e demais formas de poder. No interior das comunidades de argumentação pode-se verificar o manuseio de categorias de entendimento de mundo e sua instrumentalização para a ação política, que, quando eticamente legítima e moralmente aceitável, são resultados de consensos explícitos. A noção de artefato 7 terá um papel importante na caracterização desse processo já que tem como particularidade tratar a construção simbólica dos significados como “programas” – no sentido de softwares – “para ordenar o comportamento”. “O que quero enfatizar por agora é a orientação para a 4 (R.Cardoso de Oliveira, 1996) (Ibid) 6 “O pressuposto sobre a viabilidade desse diálogo e, por conseguinte, a inteligibilidade do mesmo entre interlocutores, está na observância de um acordo intersubjetivo em torno de normas e de regras (...) para que essas relações dialógicas ocorram num plano simétrico, entre os interlocutores e mantenham um diálogo livre, sem a dominação de um imterlocutor sobre o outro, elas devem se dar num espaço substancialmente democrático ou democratizável” (Ibid) 7 (Barreto Fº, 2001) 5 13 permanência e a produção de efeitos duradouros das UC’s, comumente encontrada em inúmeras manifestações nativas”, completa 8 . Por último, é preciso ter em mente que aqui se está tratando de uma comunidade de argumentação específica, com história particular: indigenistas, ambientalistas e Pataxós, que se consolidam enquanto tal a partir dos anos 70. Os atores em separado têm sua própria história; suas demandas – e ações prático/argumentativas - na comunidade de argumentação são diretamente relacionadas com essa história. Pode-se afirmar que a estrutura social dos Pataxós é vinculada ao conflito, já que a consciência histórica do grupo não regride de maneira geral para antes de 1951 quando houve uma diáspora relativa em função do conflito. Somente com a chegada da FUNAI em 1971 é que a comunidade de argumentação, enquanto espaço para legitimação de soluções para o conflito, toma forma inicial. Nas próximas páginas pretendo remontar a história dessa comunidade de argumentação, tentando identificar que elementos particulares das histórias de cada voz no conflito são trazidos para a arena argumentativa e como processam a significação de acordos estabelecidos. É vital a compreensão da diferença que as repercussões da mediação têm para os Pataxós, que têm sua cultura ordenada no conflito e para ambientalistas e indigenistas. “A história é ordenada culturalmente de diferentes modos nas diversas sociedades, de acordo com os esquemas de significação das coisas. O contrário também é verdadeiro: esquemas culturais são ordenados historicamente porque, em maior ou menor grau, os significados são reavaliados quando realizados na prática (...) A síntese desses contrários desdobra-se nas ações criativas dos sujeitos históricos” 9 8 (Ibid:35) (Sahlins, 1994) 9 14 II - A pré-história do conflito “O conflito está assim destinado a resolver dualismos divergentes, é um modo de conseguir algum tipo de unidade, ainda que através da aniquilação de uma das partes conflitantes”. (Simmel, 1983) Como se sabe, o primeiro documento que relata a presença de populações indígenas no extremo sul baiano é a famosa Carta de Pero Vaz de Caminha, em que é coerente considerar Tupiniquins os índios descritos 10 . À época os portugueses identificavam os demais índios – do interior, em contraposição aos Tupis do litoral – como Aymorés. As diferenças etnográficas entre eles se tornam importantes para este trabalho já que permite compreender as distinções de relação com o ambiente e com o Estado, bem como formas germinais do que hoje é o conflito da sobrepoisção. Os Tupiniquins contrastavam com os Aymorés fundamentalmente por serem aqueles povos sedentários e estes nômades 11 . Praticando agricultura e se organizando em grandes aldeias, os Tupis foram alvos fáceis aos colonizadores que rapidamente os “pacificaram” e catequizaram 12 . Os Aymorés, por seu turno, tinham uma mobilidade muito grande, viviam prioritariamente da caça e coleta e se organizavam em pequenos bandos. A suposição provável de Urban, conforme Sampaio, é de que “a região compreendida hoje pelo sul da Bahia, Leste e Nordeste de Minas Gerais e o Espírito Santo -dominada pelas grandes bacias dos rios Doce, Mucuri, Jequitinhonha, Pardo e de Contas- tenha sido a região original de concentração dos grupos do tronco Macro-Jê” 13 . Botocudos, Maxacalis e provavelmente Pataxós, dentre outras etnias 14 seriam, então, tais Aymorés. Esses povos impetravam ataques aos aldeamentos e vilas pegando desprevenidos os colonizadores e rapidamente desaparecendo nas matas, sempre de maneira pulverizada em pequenos grupos. Some-se a isso conflitos por território e outras demandas entre grupos indígenas distintos e compreender-se-á o temor dos colonizadores em acessar determinadas áreas. 15 A ação dos “Aymorés” e a geografia do sul da Bahia, em certa 10 (Sampaio, 2000) (Ibid) 12 Segundo L. Sampaio, houve dezenas de aldeias missionárias na região sul da Bahia, sobrando apenas duas, “bastante depopuladas”(Leite,1945), São João Batista e Patatiba, tornando-se Trancoso e Vila Verde após a expulsão dos jesuítas no século XVIII. Citado em Sampaio 2000: (LEITE, S. 1941-5. “História da Companhia de Jesus no Brasil” 5v. Rio de Janeiro, INL) 13 (Ibid:2) 14 (Paraíso, Maria H. B. 1992) 15 “Tal estado de coisas dominou a cena das capitanias de Ilhéus e Porto Seguro durante os séculos XVII e XVIII, período em que as acanhadas povoações costeiras pouco mais que vegetaram”. (Sampaio, 2000) 11 15 medida e por um dado período, contribuíram para manter nichos de Mata Atlântica fora da exploração comercial. A região foi por muito tempo inacessível; os próprios Pataxós, paradoxalmente, ficaram desconhecidos em âmbito nacional até o início da segunda metade do século XX. Isso confirma o desconhecimento generalizado sobre a região e a inexistência de atividades produtivas potencialmente degradantes, nos termos ambientalistas atuais. O quadro apresentado acima ainda era verificável no início do século XIX 16 , mas os problemas com os bandos indígenas “Aymorés” começavam a ser sentidos como entrave ao desenvolvimento. O contexto colonial no início do século despertava interesses diretamente relacionados com a coroa, quais sejam, abrir estradas rumo às Minas e retirar o Nordeste do isolamento, proporcionando melhor aproveitamento da exploração comercial da colônia. Em verdade a região sul da Bahia foi o encontro de duas frentes de expansão 17 . Por um lado a decadência dos aldeamentos do norte do estado resultou no realocamento de recursos e população no sul, onde as terras eram – e são até hoje - cobiçadas – vide citação abaixo. A outra frente vinha de Minas Gerais rumo ao nordeste, evidentemente uma necessidade de abastecimento das Minas por meio da criação de gado. Os índios “bravos” eram um entrave a essas frentes, e os “mansos”, mão de obra barata. Os Pataxós, mesmo após a criação de Barra Velha são os únicos índios que “vagavam livres” na região, tendo os outros perdido suas terras para as frentes agrícolas. Bandos Pataxós mantinham ainda relações inamistosas com cacaueiros. Segundo Paraíso, “a simples presença de agricultores provoca alterações ecológicas que forçaram novas adaptações culturais nos Pataxós” 18 No início daquele século o governo real inicia uma série de medidas que ilustram como o espaço era repensado, assim como os significados a ele subjacentes. Carvalho apresenta o primeiro documento produzido nesse sentido, que data de 1805 19 . Trata-se de um ofício em que o Governador Francisco da Cunha Menezes informa a Visconde de Anadia que encarregou o Capitão-Mor da capitania de Porto Seguro de explorar as barras dos rios de sua capitania e elaborar um relatório, entregue no mesmo ano. No relatório, o Capitão escreve sobre terras onde hoje supostamente seria Barra Velha: “boas terras para todas as plantaçoens, e tão proprias para canas, que entre grandes matos se conservão canaviaes com canas de formidavel grandeza, cujos deixarão os índios, que neste lugar estiverão aldeados, de onde os removeo o Ministro Jozé Xavier Machado para a Villa do Prado para se aproveitarem de melhor comercio, e civilizarem” 20 . 16 Citado em Carvalho, 1977 e Sampaio 2000: (Aires do Casal, Manuel. 1976 [1817]. Corografia Brasílica ou Relação Histórico-Geográfico do Reino do Brasil. Belo Horizonte e São Paulo: Itatiaia. Edusp) 17 (Paraíso, 1976:3) 18 (Ibid:3) 19 (Carvalho, 1977) Carvalho, coordenadora do GT que ora é responsável pela identificação do território Pataxó, traz no referido trabalho a reconstituição histórico-documental dos Pataxó, considerada por Grunewald (1999) tão rica que afirma: “parece ter esgotado material a respeito”. 16 Eis a primeira ação estatal que aparece na história Pataxó para expropriá-los de seu território. O contexto mais amplo da política da coroa à época se relaciona diretamente com o germinal e original pensamento ambientalista brasileiro 21 . A base fundamental desse pensamento é todo o universo iluminista ibérico e as relações coloniais, a ponto de Barreto Filho afirmar que o ambientalismo tem suas raízes no empreendimento colonial e que “as sementes do conservacionismo moderno desenvolveram-se como uma parte integral do encontro Europeu com os trópicos e as classificações e interpretações locais do mundo natural e seu simbolismo” 22 . Cabe aqui, em detrimento de uma análise mais completa do surgimento do ambientalismo, apenas expor que o contexto político em questão era o da independência do Brasil; pensava-se um projeto nacional. Portanto, a intenção em preservar áreas era pragmática, e não ética ou estética 23 . Além disso: “Considerando que o ideário ilustrado foi introduzido em Portugal pelo próprio Estado, “promovido como parte de um projeto semi-oficial de modernização cultural e econômica, não é de se estranhar que os autores críticos do caráter ambientalmente destrutivo da formação colonial brasileira só reconhecessem uma saída: a ação do poder público. O Estado era concebido como expressão do esclarecimento e da racionalidade, o agente privilegiado da racionalidade pública, das reformas e da condução mesma de um projeto civilizatório(...)” 24 O interesse comercial estava diretamente relacionado com novos conhecimentos sobre a flora. O Estado seria o responsável moral dessa busca cognitiva. Ligando a determinação real, em 1798, que ordena aos capitães de Pernambuco, Bahia, Minas Gerais e Espírito Santo de organizarem estabelecimentos botânicos para “o intercâmbio de plantas úteis à economia portuguesa” 25 e o supra citado documento de 1805; tem-se uma evidência histórica da manipulação de significados, no que Barreto Filho define como artefato socioespacial e sociocultural. Não que o primeiro documento refira-se diretamente ao segundo, mas com ele compartilha um ambiente ideatário das ações políticas coloniais, das quais serviam os índios como conteúdo amorfo, sem voz, excluídos da moralidade consensual branca. Como visto, os bandos aldeados e “mansos” são deslocados para Prado, em consonância com o contexto mais geral da política da coroa. Os conflitos com os “regionais” se intensificam 26 . 20 Citado em Carvalho: (CASTRO E ALMEIDA, E. Org. 1918:48. "Inventário dos Documentos relativos ao Brasil existentes no Arquivo de Marinha e Ultramar de Lisboa - V - Bahia 1801-1807. Rio de Janeiro, Officinas Graphicas da Biblioteca Nacional) 21 “A formulação seminal da idéia de parque nacional no Brasil (...) inspira-se diretamente na experiência americana, com todas as tonalidades utilitaristas e intervencionistas face ao ambiente natural (...) A incorporação dessa influência, contudo, cruzará com o desdobramento da tradição do “ambientalismo político” no Brasil” (Barreto Filho, 2001:107) 22 (Ibid:109) 23 (Ibid) 24 (Ibid:108) 25 (Ibid) 26 “Em 1808, algum tempo antes da viagem do príncipe Maximiliano de Wied-Neuwied, o desembargador Luís Tomás de Navarro empreendeu uma viagem por terra, da Bahia ao Rio de Janeiro, com o objetivo de examinar os caminhos para o estabelecimento dos correios. Passando pela Vila do Prado registram grande decadência, pelos contínuos ataques dos índios e também que os moradores atribuíam os maiores males aos Pataxós e Botocudos; numerosas fazendas estariam despovoadas e “seus donos lavrando nas estéreis ou pantanosas terras mais vizinhas ao mar: corridos destes bárbaros”, conforme ofício que recebera do Sargento-Mor, Comandante da Vila de Caravelas.” (Carvalho, 1977:67). 17 A diferenciação entre “mansos” e “bravos” presente nos documentos e no relato de WiedNeuwied 27 dá um panorama único da dispersão dos Pataxós em bandos culturalmente distintos. Com os bandos mansos havia relações amigáveis desde pelo menos 1786 28 , com os bravos, provavelmente os Pataxó de Barra Velha não aldeados 29 em Prado, somente na segunda metade do século é iniciada a conquista. A identidade Tapuia é a provável origem dos Pataxós e as evidências entre “mansos” e “bravos” são percebidas até hoje pela comunidade local. Confirmando tais informações contidas nos escritos de Wied-Niuwied, o Sr. Manoel Santana, sábio Pataxó com quem tive o prazer de conversar, disse: “Nós não éramos índios essa palavra índio é nova, nós éramos Tapuio, nós somos Tapuio. Aí chamaram nós de índio, porque eles iam pra Índia, eles deram uma errada, aí encostaram aqui e disseram que tinham chegado na Índia (...) nós éramos Tapuia, tinha o Tapuia bravo e o Tapuia manso, o Tapuia bravo era o de dentro do mato, e o manso era o da beira do mar. Nós éramos da beira do mar, o da beira do mar toda vida foi manso, os Tapuia da beira do mar nunca foi valente. Por que? Por causa do som do mar” 30 . Segundo Sr. Manoel Santana, a denominação ‘índios’ é ensinada por Pedro Agostinho, antropólogo que esteve na área com um grupo de estudantes no início dos anos 70, quando este considera a data de fundação do Programa de Pesquisas Sobre Povos Indígenas do Nordeste Brasileiro – PINEB. Voltarei nisso posteriormente. Um ofício datado de 1851 31 , escrito pelo Diretor Geral do Índios, endereçado ao Ministro e Secretário de Estado dos Negócios do Império, apresentava um relatório das aldeias da província e afirma que naquela data ainda havia no Prado “hordas de indígenas bravos”, que saqueavam, matavam, etc. A hostilidade dos índios não aldeados e a decadência de Prado fez com que novas medidas fossem tomadas. A população local solicitou deslocamento da Guarda Nacional da Bahia para a região, o que foi feito no mesmo ano 32 . No relatório com a relação das províncias não aparece qualquer aldeamento onde hoje é Barra Velha 33 , o que confirma alguma eficiência no deslocamento referido no documento de 1805. A ação do Estado foi aldear todos os índios de Prado num local subjacente à área que os bandos ocupavam anteriormente: Barra Velha. 27 (Wied-Neuwied, M., 1958 [1815-17]) 28 (Carvalho, 1977) “Barra Velha foi realmente formada por muitos índios (Camacã, Maxacali, Pataxó, Botocudo, Tupiniquim) que se juntaram onde hoje é Barra Velha, o que bastaria atestar pelo simples exame do fenótipo das famílias da aldeia” (Grunewald, 1999) 30 (Manoel Santana, entrevista) 31 Há um vácuo documental entre 1816 – Wied-Niuwied – e 1859. 32 “A criação do Quartel do Salto provocou um seccionamento na hordas Pataxó, isolando-os em dois grupos – um ao sul do Rio Pardo e outro ao norte que recebeu a denominação de Hã-Hã-Hãe” (Paraíso, 1976:2) 33 Aproximadamente 16º50’ 45” lat.S e 39º 9’ long WG. Situada no Parque Nacional de Monte Pascoal, frenteiro ao mar, entre os rios Caraíva e Corumbau, nos limites meridionais do município de Porto Seguro 29 18 “(...) Se ligarmos a resolução de criar essa aldeia às margens do Corumbau ao requerimento dos fazendeiros moradores da Vila do Prado, senão como fator determinante, pelo menos como provocador, já teremos exemplo bem ilustrativo da competição econômica entre índios e nacionais” 34 Na Bahia a situação era ainda agravada em função da competição entre os germinais ambientalistas e os proprietários rurais que durou de 1799 até 1818 35 . As relações competitivas e de conflito eram tratadas, obviamente, numa comunidade de argumentação inter-pares, bem diferente daquela referida no início do capítulo, objeto deste estudo. Os índios não eram sequer considerados como partes interessadas na resolução dos conflitos, o que é fácil de se compreender se o período for tomado, não como uma extensão, mas como a franca guerra de conquista dos povos do sul da Bahia. Eram assim excluídos da comunidade de argumentação, onde seus interesses eram definidos ao longo do século XIX, e que incluía apenas colonizadores que a construíram artefatualmente – no nível dos significados e a instrumentalização por meio das políticas indigenistas - em função dos interesses em jogo nessa mesma comunidade 36 . É importante repetir que estou buscando as origens do contato entre a sociedade envolvente e os Pataxós, entendendo que isso é fundamental para a compreensão de como a demanda daquele povo ganha sentido ao longo da história do conflito – até hoje. Qual seja, serem ouvidos e considerados como parte interessada, sujeitos de argumentação os quais não podem ser ignorados em qualquer deliberação sobre o território do Monte Pascoal. A perspectiva dos colonizadores até aqui não afetava o caráter das mediações, já que ela própria fora construída sem que os índios participassem como sujeitos. Nesse caso o conflito não se afigura, ainda, como uma relação sociativa entre colonizadores e índios – por meio de mediações, mesmo que num ambiente de dominação – mas como a desumanização destes. De um lado – dos desenvolvimentistas – representam os índios potencial mão de obra, meramente instrumental. Do outro – ambientalista – são vistos como de “utilidade fundamental (...) como fonte de informação sobre a natureza tropical brasileira” 37 34 (Carvalho, 1977:80) Em 1786 há um texto intitulado “O discurso Histórico, Político e Econômico dos Progressos e Estado Atual da Filosofia Natural Portuguesa, Acompanhado de Algumas Reflexões sobre o Estado do Brasil” que Pádua (1999) considera o limite original da tradição ambientalista no Brasil. O texto foi escrito por Baltasar da Silva Lisboa que “(...) nomeado em 1797 para o cargo de ouvidor da comarca de Ilhéus e juiz conservador de suas matas (...), protagonizou um conflito com setores da elite local em virtude dos procedimentos que estabeleceu para a conservação e uso das matas. Seu mais eloqüente opositor foi José de Sá Bittencourt e Accioli, (...) que, em 1799, publicou as suas “Observações sobre o Plano Feito para a Conservação das Matas da Capitania da Bahia”, defendendo abertamente o direito de propriedade e a necessidade de encontrar uma “justa proporção” entre a conservação florestal e os desmatamentos necessários ao progresso econômico”. (Barreto Filho, 2001:111-112) 36 “O aldeamento dos nossos indígenas nesse lugar não só é útil pelo lado moral e da religião, mas ainda pelas vantagens industriais que daí resultam (...) [é] fora de dúvida que essas duas aldeias estabelecidas na direção da dita estrada muito contribuirão para sua conservação e limpesa por conseguinte para que ela seja muito mais freqüentada pois que a experiência mostra que os aldeados dirigidos por um hábil administrador de bom grado se prestam a esse trabalho, o que por meio de outros braços não seria fácil de conseguir” Citado em Carvalho: (MAGALHÃES, J.J.M. 1848:81 "Fala que recitou o Presidente da Província da Bahia e Desembargador João José de Moura Magalhães na Abertura da Assembléia Legislativa da mesma Província". Salvador, Tipografia de João Alves Portella) 37 (Barreto Filho, 2001) 35 19 “Só quando o egoísmo não se importa nem mesmo com o desejo de dominação; só quando o outro é absolutamente indiferente e um simples meio para finalidades que estão além dele, é que foi eliminada a última sombra de qualquer processo de sociação”. 38 A criação, ou possibilidade, de uma comunidade de argumentação interétnica ocorre nos anos 90 do século XX como resultado desse processo, que considero como a trajetória coletiva dos Pataxós na tomada de consciência de sua situação num sistema mais amplo de relações interétnicas. A criação de Barra Velha é resultado de deliberações da sociedade regional e corresponde a satisfação de necessidades dos colonizadores, como se verem livres de ameaça física, abrir possibilidades produtivas - o que acarreta, necessariamente para época, o desmatamento da Mata Atlântica – ou planejar a conservação para o futuro político da colônia. Desde os anos 80 do século XX os Pataxós são apontados por alguns ambientalistas como principais responsáveis pelo desmatamento da última parcela de Mata Atlântica do sul da Bahia, que coincidentemente (?) é o seu próprio território de ocupação tradicional. Como acusar uma coletividade tão vítima do sistema colonial e do projeto nacional de modernização como foi a Mata Atlântica? Criada oficialmente a aldeia, a relação de Barra Velha com agentes governamentais e sociedade envolvente de maneira geral não estaria estabilizada. Em cada episódio o território é revisado enquanto demanda coletiva dos Pataxós, que transformam os significados em sua própria comunidade de argumentação, quando ainda são alijados de deliberar em outros contextos. Poderíamos chamar tal resignificação, apropriando-se de Barreto Filho, de uma “adscrição categórica” 39 : transformação cumulativa de significados nos embates simbólicos de uma coletividade 40 . Ao longo desse trajeto consolidam uma demanda coletiva, qual seja participarem como sujeitos argumentativos da comunidade mais abrangente, participando das deliberações que consideram tangíveis ao grupo. Visam o direito à participação nas definições sobre a área, não como agentes passivos, mas como protagonistas, cidadãos. A consciência de seus direitos – direito à terra e reprodução social - é adquirida de forma conflituosa, não linear e demorará pelo menos um século – 1861 a 1968 – para que seja possível iniciar um processo de mediação que leva em consideração a demanda dos índios a partir de suas vozes, mesmo que com todas as mazelas. 38 (Simmel, 1983:108) (Barreto Filho, 2001) 40 Por exemplo, ao serem aldeados em Barra Velha os Pataxós desenvolveram novas relações com o ambiente, como a produção da borracha extraída do mucugê (Vieira de Oliveira, 1985) 39 20 III – A história do conflito (1943-1997): da criação do Parque à comunidade de argumentação interétnica “Bem o conheço. Num espelho de barro, numa vitrina, ao acaso do footing, em qualquer vidraça por aí, trocamos às vezes um súbito e inquietante olhar. Não, isso não pode continuar assim. Que tens tu de espionar-me? Que me censuras, fantasma? Que tens a ver com os meus bares, com os meus cigarros, com os meus delírios ambulatórios, com tudo o que não faço na vida!?” (Mário Quintana) Para que se compreenda o panomarama político discursivo do ambientalismo e indigenismo brasileiros nos anos 40 é necessário pontuar, sem maiores pretensões explicativas, aspectos da herança deixada pelos anos 20 e 30. Barreto Filho 41 , citando Dean e Drummond 42 , demonstra que nessas décadas a política ambientalista procurou regular e unificar a tutela estatal sobre o meio ambiente do território nacional. A produção excessiva de legislações ambientais e criação de instituições reguladoras do uso dos recursos naturais visavam sistematizar “uma pluralidade de categorias de espaço florestados protegidos [, que eram] geridos por diversas instâncias do Poder Público e reservas particulares”; resultado da “tradição de reflexão ecológico-política no Brasil 43 ” e sua instrumentalização no início do séc.XX. Enfatize-se que a base de sustentação ideológica que contextualizava o sentido dos espaços protegidos tencionava entre: uso para recreação e uso para pesquisa 44 , desdobrando-se daí toda a produção legal dos anos posteriores. No relatório do Congresso Internacional de Silvicultores de Roma, em 1926, A. J. Sampaio escreveu o que considera as demandas do ambientalismo brasileiro de então: “(i) a cultura racional e moderada de florestas nativas, com o intuito de defesa e conservação da flora e da fauna indígenas; (ii) a exploração racional e intensiva das florestas nativas, com replantios, tendendo a homogeneização; (iii) a cultura de essências nacionais e exóticas em florestas homogêneas; e (iv) a cultura florestal de bosques e parques visando à arquitetura paisagística em benefício da salubridade, do conforto e como atrativo” 45 . 41 (Ibid) (1996 e 1997) 43 Citado em Barreto Filho, 2001: (PÁDUA, J.A 1987. "Natureza e Projeto Nacional: as origens da ecologia política no Brasil" in "Ecologia e Política no Brasil": PÁDUA, J.A (Org.). Rio de Janeiro, Espaço e Tempo/ IUPERJ ) 44 o alcance do establishment científico pós Guerra do Paraguai se prolongou até os anos 40. 45 Citado em Barreto Filho, 2001:124 (SAMPAIO, A.J. 1926. "O Problema Florestal do Brasil, em 1926. Relatório succinto, visando a Phytotecnia e a Phytogeographia, apresentado no Congresso Internacional de Silvicultura de Roma, abril-maio 1926". Rio de Janeiro, Arquivo do Museu Nacional do Rio de Janeiro) 42 21 A idéia de ‘exploração intensiva’, contrasta com a atual concepção ambientalista de áreas protegidas já que, mesmo nas UC’s de uso direto ou sustentável, a intensidade da produção teoricamente deve ser baixa, ou mais baixa que o nível de mercado 46 . Os replantios ‘tendendo à homogeneização’ também contrastam com a atual Art 4º do SNUC 47 , que apresenta o primeiro objetivo da lei como “contribuir para a manutenção da diversidade biológica e dos recursos genéticos no território nacional e nas águas jurisdicionais” 48 . Antes, replantar áreas degradadas era visto como uma tentativa de homogeneizar a natureza, ora heterogeneizada ou desbalanceada pela devastação. Atualmente a criteriosidade científica ‘descobriu’ que, ‘em verdade’, o correto termo seria diversificar para manter ‘densas’ as vegetações. As dinâmicas de significação do espaço/meio ambiente acima expostas possibilitam atentar para um sentido do argumento ambientalista. A existência de um mosaico de áreas protegidas - noções e ensaios do que seria uma área protegida como UC – demanda, a partir de então, sua sistematização. Daí a elaboração de categorias de gestão estatal do espaço, conceitualmente estabelecidas num sistema de administração pública 49 . Tornar a natureza e a ciência patrimônios do Estado, ‘protegendo-as’ do mercado e da propriedade privada, ao revés de qualquer contestação de sua legitimidade. Esse deslocamento ou “amadurecimento político” - conforme Augusto Tosato 50 em entrevista - da idéia de espaço protegido é fundamental para entender o que os ambientalistas contemporâneos do IBAMA, de maneira geral, consideram como sua competência primordial: administrar UC’s ou, executar o SNUC, o que, opinando, quase se confunde. Todos os pontos considerados inegociáveis no conflito do Monte Pascoal, na concepção ambientalista do IBAMA, – de maneira geral – repousam nessa convicção, alimentada pela suposta eficiência que tais áreas têm na preservação de ecossistemas quase em extinção. Muitas ONG’s ambientalistas e socioambientalistas – para acompanhar a moda -, questionam tal posição alegando que o direito ao “meio ambiente ecologicamente equilibrado”51 não pode ser garantido apenas pelo cercamento de certas áreas. Menos ainda quando parte da população alvo da lei – difusa -, quando do seu cumprimento, estiver submetida à indigência nas cidades ou semi-escravidão no meio rural. Do ponto de vista dos sociambientalistas essa perspectiva escaparia ao consenso do “desenvolvimento socialmente justo”, premissa fundamental da idéia de sustentabilidade e etnodesenvolvimento 46 Art 7º § 2º O objetivo básico das Unidades de Uso Sustentável é compatibilizar a conservação da natureza com o uso sustentável de parcela de seus recursos naturais (grifo meu) (LEI Nº 9.985, de18 de junho de 2000) 47 Para siglas e acrônimos ver o glossário de siglas e acrônimos 48 (Ibid) 49 Art 2º. “I - unidade de conservação: espaço territorial e seus recursos ambientais, incluindo as águas jurisdicionais, com características naturais relevantes, legalmente instituído pelo Poder Público com objetivos de conservação e limites definidos, sob regime especial de administração ao qual se aplicam garantias adequadas de proteção”. 50 Gerente do IBAMA Eunápolis, à época da pesquisa de campo 51 Cap VI, art 225 da Constituição do Brasil 22 constante na lei 9.985 de 18 de julho de 2000, o Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza – SNUC 52 . Mesmo entre técnicos e funcionários do IBAMA há certas discordâncias e competição, sem que para isso a certeza de que ‘as UC’s são a nossa competência’, seja abalada. Há portanto, diferentes vozes em conflito no que vem se simplificando como “os ambientalistas”. Para compreender as ‘partes’ há de se recorrer às raízes das questões postas, por isso os anos 30 e 40 são tão importantes. No IBAMA contemporâneo, a pauta socioambientalista vem conquistando espaços, apesar de resistências explícitas da estrutura. A dimensão artefatual das áreas protegidas fica, então, evidenciada, na medida que se pode compreender o conceito de Parques Nacionais como resultado de relações humanas travadas em nível simbólico, nos campos político e econômico. Conceito inacabado enquanto prática de gestão de espaços, de que o caso do Monte Pascoal é exemplar. Voltando à contextualização histórica. O Código Florestal é criado em 1934. Supunha que seria possível consolidar uma unidade produtiva agrária completa: intensamente produtiva e ao mesmo tempo capaz de resguardar áreas para manutenção florestal. O “mínimo florestal” asseguraria esse espaço de reserva nas propriedades. Categorias de “áreas reservadas” e “monumento público natural” compõem o código 53 , que, por sua vez, aponta um contexto mais amplo da política de cunho nacionalista. 54 “Pode-se dizer que esse conjunto de medidas suprareferido, [nota 53] proposto e adotado no governo Vargas, objetivava tanto uma ordenação territorial quanto uma estrita regulamentação do uso e da apropriação dos recursos naturais, colocados sob a propriedade do Estado. A “hemorragia legislativa (Dean, 1996) verificada nesse período expressaria uma tentativa de inibir a propriedade privada sobre os recursos naturais (...) existentes no país, de dissociar o conjunto de recursos naturais do país das forças do livre mercado (...) essas medidas foram tomadas num contexto histórico e social de transição do liberalismo para a ampliação do papel do Estado na condução da modernização capitalista do país e na articulação, centralizada e autoritária, de sua unidade nacional. Elas respondem, em parte, a demandas do meio científico e de setores da sociedade civil (...) tamanha produção legislativa e institucional teria provocado o refluxo da sociedade civil. (...) o Estado, ao antecipar-se à capacidade de reivindicação da sociedade civil, tendeu a desmobilizar o exercício da cidadania no que concerne à gestão dos recursos naturais. A ciência, por sua vez, estava institucionalizada no aparelho de Estado. Assim sendo, o lobby científico sofria de limitações estruturais como força de pressão pois, sendo as instituições científicas governamentais, os cientistas eram funcionários do Estado”. 55 A força do argumento científico é definitiva para a possibilidade de uma ação ambientalista, ao que também não escapará a ação indigenista, quando a racionalidade 52 Art. 2º; “XI - uso sustentável: exploração do ambiente de maneira a garantir a perenidade dos recursos ambientais renováveis e dos processos ecológicos, mantendo a biodiversidade e os demais atributos ecológicos, de forma socialmente justa e economicamente viável”. 53 É também no mesmo código que se cria as categorias Parque Nacional, Florestas Protetoras e Florestas municipais, estaduais e nacionais. O primeiro Parque foi criado nos EUA, idéia sem dúvida importada pelo Brasil. Há aqui, entretanto um diferencial: “a novidade é a ênfase sobre a relevância científica” (Ibid) 54 Foi também em 34 que surgiu a nova constituição, os códigos de águas e minas, caça e pesca. Anos antes é criado o Serviço de Proteção Florestal. “Percebe-se que o Serviço Florestal, na verdade, reordenou administrativamente instituições pré existentes. Em 1939, com a aprovação de seu regimento, teve a seção de Parques Nacionais criada. 55 (Barreto Filho, 2001:127-8) 23 (ambiguamente misturada com uma questão de talento/tato dos militares) é apropriada para justificar ações de integração dos índios na sociedade branca. Assim como a natureza, as populações indígenas poderiam e deveriam, conforme a ótica da época, ser explorados pelo sistema produtivo – os deslocamentos e aldeamentos apontados na seção anterior dão evidência disso 56 – e ao mesmo tempo ser preservados ou defendidos como patrimônio do Estado. A flora e fauna indígenas, presentes no relatório de A. J. Sampaio, ainda em 1926 – citado nesta seção -, remetem ao imaginário do que era o índio: um ser incapaz e adestrável; apenas parte da natureza; um componente dela, “coisas” dignas de controle e proteção. Lima chega a afirmar que no nível do Direito “aproximava-se os índios do domínio das coisas e não da esfera das gentes”. Caberia ao Estado transformar os “selvagens” em “civilizados” A regulamentação da tutela dos Povos Indígenas pelo Estado e sua execução compartilha do mesmo contexto sociopolítico do Código Florestal de 1934 e portanto as origens do que hoje conhecemos como Terras Indígenas repousam no ambiente político: domínio territorial, transição nacionalista, estado ditatorial. Segundo Lima 57 : “(...) os seus operadores – da tutela - principais eram a distância social, a forma de interação com o civilizado e a relação com o espaço, notadamente a capacidade de definir um território. (...) O “destino final” da população indígena seria, pois, um mercado de trabalho rural sob a rubrica de trabalhador nacional. Esta expressão encobriria uma vasta gama de produtores diretos destituídos da propriedade da terra e vagamente identificados aos libertos da escravidão e seus descendentes ou dos surgidos de casamentos com nativos (...) A imagem do grande cerco de paz revela-se em toda sua complexidade nas palavras do militar sumarizando numerosos mecanismos ainda hoje em ação: técnica militar de pressionamento e forma de manter vigilância, ao mesmo tempo assédio de um inimigo visando cortar-lhe a liberdade de circulação, os meios de suprimento e a reprodução social independente (sem implicar no ataque dos sitiantes), além de defesa contra os de fora do cerco, como num cercado para as crianças, estabelecendo limites e constrições aos por ele incluídos/excluídos, numa amplitude que deveria justificar um numeroso quadro administrativo de fato hoje em dia existente. Modo tático de sublimação da guerra e forma de denegar a violência aberta, construída sobre os alicerces da ciência da época e não mais da religião a imagem do cerco, estabelecido pelo terceiro elemento constituído idealmente pela administração, permite perceber as homogeneidades construídas – à força a partir das realidades heteróclitas existentes de cada lado da divisão imposta produzindo índios e civilizados” 58 Aos índios foi negada a cidadania, substituída pela tutela e caracterizada pelo cerco de paz. É importante ter isso em mente já que se relaciona diretamente com história do conflito no Monte Pascoal e com a busca do direitos – cidadania – dos Pataxós de Barra Velha. O primeiro Parque do Brasil foi criado em 1937 59 , dois anos antes do único documento disponível sobre Barra Velha nos anos 30. Segundo ele uma esquadrilha realizou um vôo sobre a aldeia e lá pousou atestando um total estado de miséria. “Temos visto caboclos inteiramente abandonados” 60 , diz o Almirante Gago Coutinho. À época os Pataxós não mantinham contatos 56 Ver: (Lima, 1995) Mais precisamente, decreto 5.484 de 1928 58 (Lima, 1995) 59 Itatiaia 60 Citado em Carvalho, 1977: (Castro, R. Berbert de, 1940. “Sob os céus de Porto Seguro”. Diretoria de Cultura e Divulgação do Estado da Bahia, Imprensa Oficial do Estado) 57 24 regulares com a sociedade nacional61 , o que é atestado pela fuga de um contingente de “caboclos”, quando viram o avião. Sr. Manoel Santana afirma que muitos ficaram mais de dois meses na mata em função da máquina voadora, totalmente desconhecida. Mas se a interação com a sociedade envolvente não era permanente, sua proximidade era já percebida e temida pelos Pataxós. Sr. Manoel Santana lembra que antes da criação do Parque, em 43, havia ‘brancos’ em Caraíva, inclusive uma serraria do Seu Zé Moura 62 . Lembra-se de uma medição, provavelmente a legalização de Caraíva ou qualquer criação em nível local para atendimento a demandas de habitação. Segundo ele, a demarcação o “loteamento” seria para atender ao “branco”, pra tirar madeira. Moura e Zé Ribeiro fizeram a medição por conta própria, sobre a qual a Prefeitura logo fez uma “apartaria”. As expectativas levantadas pelos Pataxós eram as piores possíveis pois teriam suas matas, principal fonte de sobrevivência do grupo, ameaçadas. A situação de miséria atestada pelo comandante Gago Coutinho coincide com esse momento, sendo possível inferir que as causas seriam ligadas à exploração de madeira do Parque pelos serralheiros locais que avançavam sobre o território Pataxó. Numa data não muito precisa, mas seguramente entre 1939 e 1944, chega Dr. Barros 63 com seu grupo, afirmando que demarcariam terra para os índios. Tratava-se de um grupo instituído pelo presidente da República para “determinar o ponto exato do descobrimento do Brasil” 64 , relacionado ao Decreto-Lei nº12.729 de 19 de abril de 1943, promulgado pelo então interventor federal no Estado da Bahia, em que “cria o Parque Monumento Nacional de Monte Pascoal, com prerrogativas de monumento nacional, e dá outras providências”. Considero esta a data do início do conflito contemporâneo entre Pataxós, indigenistas e ambientalistas de forma mais geral. Os objetivos do Parque, contidos nas alíneas 1, 2 e 3 justificam tal posição: 1. rememorar o fato histórico do descobrimento do Brasil 2. preservar a flora e a fauna típicas da região, segundo normas científicas; 3. conservar as belezas naturais e promover a organização de serviços e atrativos que possam desenvolver o turismo Sublinho acima o que considero as conexões com o sistema de idéias correntes à época quanto à conservação e criação de Parques. Além disso, os grifos apresentam os nós germinais do conflito argumentativo. Rememorar o fato histórico do descobrimento significa evidentemente a busca pela origem nacional, o que era (e é) plenamente compreensível. Para os “caboclos” Pataxós esse “fato histórico” é também digno de lembrança, mas com outros valores. Guarda esse povo o território 61 (Carvalho, 1977) (ver, ainda, Vieira de Oliveira, 1985) 63 Manoel Santana se refere a ele, ora como Aurelino Costa Barros ou Barreiro; ora como somente Aurelino Barreiro. O filho da Sra. Josefa afirma que ele era estrangeiro assim como toda a comitiva, o que é improvável segundo Carvalho e outros velhos da aldeia. 64 (Castro, 1940; citado em Carvalho, Ibid) 62 25 símbolo, não só para eles mas para todas as populações indígenas no Brasil: massacre, depopulação, indigência e conquista territorial ou perda dele. A chegada do discurso científico como regulador do espaço é parte de todo o empreendimento, e também angular no conflito em questão. Os Pataxós mantiveram, por tempos, os nacionais afastados da região do Monte Pascoal, como mostrado, promovendo ataques. Compreendiam que a mata estava ainda em pé e virgem em função de sua ação coletiva. O discurso científico é uma imposição autoritária que descaracteriza, do ponto de vista Pataxó, todo o trabalho que tiveram para deixar o “mato” preservado. É a “domesticação” do saber tradicional desse povo e da natureza artefatualmente construída por eles. “(...) aí mediram lá do alto do Rio Caraíva até aqui perto cá do Corumbal e quando fecharam essa medição era pros índio sair, só ficar dos campos pra lá que lá tudo é mussununga você vai lá você vai ver a areia lá, a areia lá toda é branca tem também um bocadinho de mato pouco e terra virgem 65 . Aí depois um dos trabalhadores falou, disse: “Não a ordem foi pra eles fazer aonde não tivesse gente, Getulio Vargas passou a ordem pra fazer aonde não tivesse gente”, eles tiveram aqui e tudo era mato, botou que tudo era mato. Onde tivesse, dez por cento não fizesse não. Mas eles chegaram aqui por revés dos outro que não gosta de índio: “faz aí mesmo”. Eles fizeram aqui, aqui só tinha índio mesmo nessas matas só tinha índio puro, puro, puro que espantava ‘caboco’ e os ‘caboco’ então fizeram aqui” 66 . É importante afirmar que no Decreto-Lei supracitado não há qualquer citação da presença de “índios”. De fato, seu reconhecimento étnico, ou o que José Agusto L. Sampaio chama de identidade oficialesca, só será firmado no início dos anos 70. A desconsideração da identidade etnicamente diferenciada marca a origem da sobreposição de áreas administrativas no Monte Pascoal. Sampaio coloca que, por um lado, as sobreposições são resultados da defasagem do Estado na demarcação das TI, em detrimento do processo de criação de UC’s, mais ágil desde então. Por outro lado, o contato com a sociedade nacional junto a populações indígenas foi cada vez mais “jogando” esses povos para áreas de fronteira, no caso amazônico, ou nichos onde as possibilidades de sobrevivência era maior, no caso da Mata Atlântica. Esses territórios à margem, quando nada mais sobra à exploração desenvolvimentista, passam a ser o único exemplar de certos ecossistemas. Um ponto interessante levantado por Carvalho - em entrevista: “como pode um marco simbólico nacional como o Monte Pascoal não ter sido construído enquanto tal, levandose em consideração a população indígena? É como se os índios contrariassem as fronteiras identitárias do que é o nacional”. É com a chegada ou, corrigindo, com a saída de Dr. Barros que se inicia o despertar dos Pataxós para sua diferenciação étnica e a busca de direitos e cidadania. A perspectiva desenvolvimentista do decreto, presente até hoje sob o adjetivo de sustentável, homogeiniza a diferença entre estes Pataxós e os nacionais, na medida em que os considera como qualquer posseiro, o que se repetirá em 1961, como será apresentado. A idéia de 65 “solos arenosos, areno-argilosos com acumulação de matéria orgânica, denominados de "mussununga”, que correspondem aos Espodossolos com presença de Ortstein e os Gleissolos localizados nos pontos mais baixos e leito de inundação do Rio Pardo” (SANTANA MOREAU, SANTOS MOREAU e r. AMORIM) Universidade Estadual de Santa Cruz - Ilhéus – BA) 66 (Sr. Manoel Santana Pataxó em entrevista) 26 Parque Monumento motivava um conjunto de ações que satisfaziam demandas específicas do Estado, diferenciadas do que hoje se conhece como Parque Nacional. O Parágrafo Único do art. 5º versa: “Quando o proprietário das terras ou benfeitorias, nas condições deste artigo, mantiver as mesmas com os requisitos exigidos pelo estatuto ou regulamento do Parque, poderá o Governo deixar de desapropriálas”. O Parque poderia constituir um mosaico burocrático entre propriedade privada, pública federal, estadual ou municipal. No Art. 8º há o propósito de desenvolver o turismo na área era central, ao tempo em que deveria ser elaborado um “plano ou projeto técnico” 67 , hoje sob o nome de plano de manejo. No nível etnográfico a chegada do grupo de intermediários do Estado, no sentido de 68 Wolf , provoca uma situação de negociação político-simbólica de alianças o que, como consequência, dá início ao conflito e à busca por cidadania dos Pataxós. Antes, faz-se importante direcionar o leitor para o sentido que pretendo dar ao relato etnográfico. A perspectiva da etnografia de Wolf sobre a sociedade Mexicana é ilustrativa disso. Sua pesquisa visa demonstrar que não se poderia compreender a sociedade Mexicana apenas como um conjunto de instituições nacionais. Ao contrário, foram as formas “alternativas” à aparente linearidade das relações entre Estado e comunidades locais que possibilitaram a unidade nacional imaginada. Wolf escreve: “Comunidades e instituições nacionais eram elementos componentes de uma rede abrangente de relações: os funcionários das instituições nacionais desciam até as comunidades, ao mesmo tempo que indivíduos e grupos das comunidades forjavam laços com controladores de recursos de poder fora das comunidades. (...) as instituições de nível nacional não eram meros mecanismos formais de execução de políticas nacionais. Elas constituíam também arenas em que grupos sociais estratégicos interagiam em conflito, acomodavam-se e atraíam aliados para sustentar essas relações. (...) o foco da investigação muda de comunidades e instituições para a questão de como os agrupamentos sociais, atuando em diferentes níveis da sociedade, envolvem uns aos outros” 69 Essas arenas – grifo meu -, podemos aproximá-las das “Comunidades de Argumentação” muito trabalhadas por R. Cardoso de Oliveira 70 . Por um lado os agentes das instituições do Estado iam às comunidades locais, objetivando a consolidação da unidade nacional. Por outro, as comunidades, na interação com aqueles, produziam significações diferentes das esperadas pelos 67 “A comissão de que trata o Art. 7º, além do plano ou projeto técnico propriamente dito, feito de acordo com organizações similares nacionais e estrangeiras, deverá indicar as bases para a execução das obras, o loteamento dos terrenos, a instalação e exploração de serviços para o turismo, determinando a parte que convenha ficar sob administração direta do Estado e a que deva ser adjudicada à iniciativa particular, e melhor forma para sua adjudicação.” 68 (Wolf, 2003; Feldman-Bianco e Ribeiro-orgs) 69 70 (Ibid:73) (RCO, caps I e II in Cardoso de Oliveira e L. Cardoso de Oliveira, 1996) 27 técnicos do governo. Nesse embate simbólico está pressuposta a produção de consensos mínimos, capazes de conectar a comunidade ao Estado, em maior ou menor grau, numa dada relação de poder. Menos regular e sincrônica do que possam parecer, essas relações – “os ossos, nervos e tendões que correm pela sociedade total, unindo-a e afetando-a em cada ponto” 71 – não são possíveis à priori. Para que se conecte a sociedade total – nacional – ao nível do entendimento local, criam-se espaços intermediários em que atores específicos atuam. Nesse jogo de interesses são criados também interesses intermediários aos do Estado e da comunidade. As arenas onde se arranjam e rearranjam esse interesses são comunidades de argumentação ou, no entendimento de Wolf, “terminais locais de uma rede de relações de grupos” 72 . É dessa perspectiva que descreverei a história do conflito desde a chegada de Dr. Barros, tentando perceber afetos da moralidade nessa comunidade de argumentação, na medida que a ética estabelecida é transgredida. Manoel Súia, um Pataxó que andava por Caraíva, encontrou um grupo de oito. Eles solicitavam homens para trabalhar abrindo picadas para demarcar a área 73 do então decreto de 1943. Ele, Chico Palha e Patrício, também Pataxós, foram contratados. Era o grupo de Dr. Barros, esse ilustre desconhecido 74 , que além dos índios contratou regionais para o trabalho aproximando, de certa forma, Pataxós e não índios: uma comunidade de argumentação formada, à primeira vista e a partir da perspectiva do intermediário do Estado, em função de relações de trabalho. Ao chegar em Caraíva o grupo percebeu a dificuldade de acesso e tiveram que criar alianças de outra ordem com os Pataxós, muito além das relações puramente “profissionais”. Segundo Carvalho, Dr. Barros só conseguiu contratar Pataxós para o trabalho porque alegou que estava ali para demarcar área para eles. De outra forma eles não concordariam. Ao concluir o serviço, Dr. Barros informou que os índios teriam que restringir o uso de certos lugares: “ia ser criado um parque florestal naquela área e, eles não deveriam mais derrubar árvores na mata. Só deveriam fazer roças nas capoeiras, mas o melhor mesmo seria procurar logo outras colocações pois todo mundo seria retirado de dentro do parque. Era o governo que queria assim. A floresta ia ficar por conta dos bichos”. 75 Sr. Manoel Santana diz que o grupo não foi solicitado a sair da área na época mas foi recomendado que não cortassem mais madeiras e que evitassem o trânsito por certas áreas. Sobre isso Carvalho afirma em entrevista: 71 Citado em Wolf: (STEWARD, J. H. 1950. “Area research: theory and practice” in “Social Science Research Bulletin, 63” in Wolf, ibid). Nova York 72 (Ibid) 73 (Vieira de Oliveira, 1985) 74 Nem mesmo Maria do Rosário Carvalho, que esgotou os documentos da época, sabe ao certo de quem se trata. Os documentos do IBAMA em Brasília não dão qualquer pista sobre a identidade do servidor. 75 (Ibid) 28 “(...) após a saída deles - da equipe de Dr. Barros - começa a haver uma certa inquietação. Os não índios também colaboraram nessa delimitação e, muito provavelmente, após a saída da equipe os não índios e os próprios índios começaram a demonstrar inquietação pois não voltaram. Então muito provavelmente começou um fator de humor de uma outra possível destinação para os índios. É justamente depois da visita dessa comissão que o Honório, famoso capitão Honório, que é avô do Turirim, empreende uma viagem ao Rio de Janeiro pra pedir ao governo que não deixasse o pessoal da Índia tomar suas terras. “Pessoal da Índia” uma representação que seguramente tem a ver com o descobrimento do Brasil. Ele vai a Niterói, provavelmente atrás de alguém do SPI e faz sugestões nesse sentido e também pedindo ferramentas para aldeia do bom jardimatual Barra Velha” 76 . A quebra do acordo / diálogo do grupo de demarcação no interior da Comunidade de Argumentação ainda germinal mobilizou toda a população Pataxó. Além disso, este fato desmoralizou na comunidade os intermediários indígenas que participaram da demarcação, afinal, como poderiam os próprios parentes contribuir para que “tomassem” o território?! A expectativa levantada quando da chegada do grupo foi completamente descaracterizada. Sr. Manoel Santana afirma que na época que estavam seus parentes – intermediários locais – em campo demarcando junto com os grupo de Dr. Barros – intermediários do Estado – o resto da comunidade fazia festa, dançava, preparava comidas, tudo porque criam estar próxima do fim a ameaça da demarcação promovida por Moura 77 . O grupo de Dr. Barros, tendo posteriormente negado a propriedade aos Pataxós, demonstrou que travava com eles uma relação nada dialógica e meramente utilitária. Os índios tinham levantado expectativas quanto à demarcação no sentido de se sentirem amparados / inseridos, por meio de políticas do Estado, já que percebiam que teriam seu território demarcado, em detrimento do que falava alguns regionais. Em verdade foram desconsiderados como parte da nação, não havendo qualquer negociação quanto à inclusão do grupo. Ao contrário, teria havido um desrespeito absoluto do acordo subentendido, quando da contratação dos trabalhadores e das dívidas mútuas firmadas – de um lado Dr. Barros jamais teria conseguido demarcar sem o conhecimento tradicional dos Pataxós, por outro acreditavam os índios estar demarcando seu território. Concordo com José Augusto L. Sampaio quando afirma – entrevista – que o “caso do Monte” é exemplar dessas dinâmicas dos anos 40 em que a idéia era preservar um sítio histórico nacional, sua natureza como exemplo da grandeza do Brasil e os Pataxós como artefatos museológicos, isto é, não como sujeitos cidadãos, mas alegorias de um passado que deve ser lembrado pela nação pois marca o início da diferenciação desse estado natural. Sentindo-se traídos, o medo coletivo forçou uma organização política nunca antes vivenciada pelo grupo. Juntaram esforços, economias e solicitaram a seu líder, o capitão Honório “mas sem patente que não tinha contato com o governo” 78 , empreender um viagem ao Rio de 76 (Carvalho em entrevista) Refiro-me aqui à demarcação promovida em nível local para constituição provavelmente do povoado de Caraíva que significaria a intensificação da extração de madeira por não índios e a perda do território pela expeculação imobiliária. Ver: 16 deste texto. 78 (Ibid) 77 29 Janeiro para maiores informações sobre a demarcação. Note-se que a mobilização para a realização da viagem durou pelo menos cinco anos. O capitão Honório não tem seus pedidos atendidos no Rio de Janeiro e volta sem respostas a dar para a comunidade. O chefe Pataxó de então foi “eleito” para intermediar – no sentido de Wolf – as relações e preocupações de seu povo com Estado. No entanto, este mesmo Estado, representado para os Pataxós como o Dr. Barros, que antes levantara expectativas coletivas, não o fizera com o intuito de negociar a identidade nacional com os índios, mas com a nação imaginada da qual sequer eram estes parte, já que nem mesmo como tutelados eram reconhecidos. Por isso Honório, ao chegar “de mãos vazias” começa a se sentir incapaz, movido pelas reações de seus parentes. Alguns meses depois chegam à aldeia dois homens que se identificavam, respectivamente, como engenheiro – “o branco” - como tenente – “o negro”. Eles vieram pela praia desde Porto Seguro. Ao chegar chamaram todos para uma reunião. Identificaram-se como funcionários do governo e estavam ali para ajudar. Novamente provocaram expectativas no grupo quanto à possibilidade de resolução de suas incertezas. Mandaram matar uma vaca de uma fazenda vizinha, dizendo que pagariam depois. Afirmaram também que ninguém tomaria a terra deles. Logo o engenheiro quis saber onde era o comércio mais próximo: “Corumbau, do Teodomiro”, que tinha comprado a serraria e mercearia. O branco mandou os índios se organizarem que pela manhã sairiam para lá e pediriam ajuda. Em verdade a dupla promoveu um saque que acabou ferindo Teodomiro à tiro. O revide da sociedade nacional desembocou em um trágico episódio em 1951 quando Barra Velha foi destruída pelas polícias de Prado e Porto Seguro, resultando na diáspora relativa dos Pataxós e sua perseguição pela sociedade local. O impacto foi tamanho que Agostinho 79 – em entrevista – afirma que, nos primeiros contatos que teve com os Pataxós, no início dos anos 70, eles não regrediam sua memória para antes de 51 80 . Segundo relatos Pataxós, a perda do território ocorre exatamente em função dessa Guerra. A “versão nativa” é que a Guerra teria sido um “mal entendido” 81 . Conforme Sampaio, cria-se um mito que justifica a perda das terras: “O fogo de 51 teria fornecido o pretexto para que governantes inescrupulosos – após a morte de Getúlio Vargas e Rondon, “protetores dos índios” – distorcessem o objetivo original, entregando o Parque para um órgão que a partir dos anos sessenta – após arbitrariedades policiais sofridas pelos Pataxó nos anos cinquenta -, assumiria a tarefa de “perseguir os índios e tomar suas terras como vêm fazendo até hoje”” 82 79 Pedro Agostinho foi o primeiro antropólogo a entrar em contato com os Pataxós. Entretanto reconhece que atualmente eles têm lembrado períodos anteriores, mas ainda muito tangencialmente. É relevante salientar que Agostinho percebe que a volta dos Pataxós para ABV é influenciada pela sua aparição e toda a carga de significados que tem a presença de um branco que se mostra solidário ao grupo, após serem caçados pelos “mesmos” 81 (Sampaio, José Augusto L., 2000) 82 (Ibid:5) 80 30 A diáspora, em verdade foi relativa já que os Pataxós jamais saíram completamente das terras, sempre fugindo para a mata e se entocando nas franjas dos rios. Em verdade entre 1951 e 1961 diversas outras aldeias que posteriormente se transformarão em povoados são criadas em função da fuga de bandos e famílias Pataxós 83 . Honório, que tinha sido preso em Salvador, foi para o Rio de Janeiro novamente conversar com autoridades, mas no caminho da volta foi alertado que todos achavam que ele era o culpado por tudo, dessa maneira fugiu da aldeia morrendo em uma cidade próxima anos depois. Entendo o “fracasso” de Honório como a impossibilidade de diálogo com o Estado, tão claro nas ações até então executadas na região do Monte Pascoal. Por muito tempo os Pataxós foram procurados pela polícia local, o que os estimulou a negar suas identidades. Estando dispersos e trabalhando em roças clandestinamente se apropriaram de novas identidades, mais adequadas às possibilidades de sobrevivência colocadas a eles. Isso também condicionou seu sistema produtivo posterior, concretizando práticas da agricultura recorrente no sul da Bahia que serão utilizadas como álibi aos ambientalistas das décadas seguintes para o não reconhecimento étnico dos Pataxós e os malefícios que sua presença causa ao ecossistema em extinção. Muitos Pataxós alegam que foi também nessa época que se “misturaram”, e perderam os traços fenotípicos de “índios”. Alguns anos depois Epifânio, uma jovem liderança, pai do atual cacique da Aldeia Barra Velha, empreende uma busca de parentes nas fazendas do sul do Estado e vagarosamente vão retornando famílias à aldeia. Encontram o “mato já alto” e se reúnem na Igreja, única construção ainda de pé. Encontram também alguns capixabas e mineiros na área como posseiros. Com poucos meses a agricultura se instalara nas capoeiras, assim como as criações começaram a reproduzir. A vida social temerosa vai se reconstituindo. O Parque até então existia apenas no papel. Não havia ainda qualquer iniciativa para sua consolidação como área de preservação, nem qualquer presença do governo federal na área. Em 1961, sob o curto regime parlamentarista, um novo decreto, considerado atualmente como o oficial, cria o Parque Nacional do Monte Pascoal, apenas com base no decreto anterior. A área original – demarcação de Dr. Barros – é reduzida e há indícios que não havia diso feita a demarcação quando da publicação do decreto 84 . Mais uma vez os Pataxós, que reconstruíam sua vida coletiva, agora já atentos à diferenciação étnica – mas ainda como caboclos – foram completamente desconsiderados. Não há qualquer citação de presença de populações indígenas no decreto. O Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal – IBDF, um dos órgãos que se fundiu criando o IBAMA, chegou à área e instalou certa infraestrutura em função do alarde 83 (Ibid) Art. 3.° - A área definitiva do Parque será fixada depois do indispensável estudo e reconhecimento da região, a serem realizados sob a orientação e fiscalização do Serviço Florestal do Ministério da Agricultura. 84 31 provocado por um incêndio numa das grandes secas da região 85 . Muitos Pataxós trabalharam voluntariamente, já que viam seu território e sua mata ameaçada. Mesmo sem qualquer identificação nominal um Pataxó sobrinho do cacique da Aldeia Barra Velha conta: “(...) alguém chegou pro meu avô e disse assim, ele era o capitão na época: ‘olha índio nós vamos demarcar suas terras, queremos saber se você aceita, a terra vai ser demarcada pra vocês saber onde é o seus né’. O cacique na época tinha que aceitar o plano né, porque eles iam demarcar a terra pro índios então ele autorizou a demarcação, então foram demarcou primeiro de avião por cima, depois de um mês voltaram de carro aqui por baixo e demarcando, quando terminaram de demarcar, foi quando eles fez uma reunião com o cacique, com o pessoal do IBDF na época e falou bem assim: ‘agora cacique você tem que reunir todos os seus filhos e quem mora dentro da área pra poder vir receber a sua indenização, a indenização tem que ser paga só por laranjeira, limoeiro, castanheiro, benzedeira, laranjeira isso são coisas que vem de raíz, isso nós paga. Agora, mandioca, abacaxi, cana, essas coisas que não tem futuro a gente não paga nada, quem tiver isso ai a gente não paga nada” Alguns aceitam a indenização, em sua maioria os posseiros não índios, o que até hoje é reconhecido por muitos Pataxós como a garantia do que existe até hoje de mata e de sua existência coletiva. Muitos índios também aceitam, outros fogem temendo uma nova “Guerra de 51”. As indenizações, no entanto, como diz Sr. Manoel Santana, não são pagas. Os discursos dos que não aceitaram são bastante interessantes pois demonstram a eminente consciência da condição do grupo como etnicamente diferenciado. No momento em que um grupo se reunia para receber as instruções sobre como e onde sacar os recursos da indenização Sra. Josefa, uma brava mulher Pataxó, se levanta e diz: “eu não vou lá receber não, eu não vou receber não porque isso aqui é meu, eu nasci e me criei aqui, meu pai nasceu e se criou aqui, os avôs tudo nascido e criado aqui dentro da área e essa área é nossa eu não tenho motivo de eu pegar essa mixaria de dez mil conto, e depois esse dinheiro não da pra eu comprar um terreno pra min morar, ai eu vou bater cabeça, depois eu quero o que é meu” A Aldeia perdeu boa parte de sua população no período das indenizações. Os que ficaram foram impedidos de plantar por guardas do Parque que se instalaram junto com toda a estrutura policial dos guardas florestais da época – transição do regime democrático para a ditadura militar. Foi um período considerado muito difícil por todos os senhores e senhoras entrevistados em campo. Por outro lado: “Se o IBDF prejudicou diretamente os Pataxó, tentando afastá-los, em última análise acabou por protegê-los, pois fez recuar e deteve, para além dos rios Caraíva e Corumbal, as frentes regionais de penetração. Não fosse isso, e elas teriam acabado por dispersá-los de vez” 86 Desde a Guerra de 51 os Pataxós passaram a ser conhecidos em âmbito nacional. Mas as notícias sobre os conflitos com os guardas do Parque só foram conhecidas em Brasília em função de um novo empreendimento investido pelos Pataxós. 85 (Vieira de Oliveira, Cornélio. 1985) 32 Como dito, a aldeia estava “vazia”, poucos estavam suportando as condições no conflito já que se viam impedidos de praticar agricultura ou extrativismo nas matas, sobrando apenas o mangue como fonte proteína animal. O líder do grupo, assim como na transição dos anos 40 para os 50, foi solicitado para empreender uma viagem à Brasília onde deveria procurar auxílio do governo. As possibilidades materiais do grupo eram restritas e muitos temeram não ser possível chegar à Brasília. Cacique Epifânio, já velho, se juntou a um grupo e rumou a pé para Brasília. Muitos voltaram no meio do caminho pois não suportaram a viagem. Epifânio continuava sozinho enquanto seus filhos pararam por duas semanas para trabalhar e levar dinheiro ao pai. Depois que se reencontraram pegaram carona até Belo Horizonte onde entraram em contato com um tal Sr. Leão, que era funcionário do órgão indigenista. Sr. Leão os levou até Brasília pessoalmente. Ao voltar Epifânio confidenciou a jornada para Sr. Manoel Santana e disse que em quinze dias estaria chegando alguém para tomar providências 87 . Sr. Manoel Santana diz que Epifânio e Luís, seu filho que o acompanhou na viagem, empolgados, solicitaram que se reunisse pessoas para recepcionar os agentes da FUNAI, já que haveria de mostrar pra eles que ali tinha mesmo índio e que eles mereciam a terra. Esse momento é fundamental para compreender as divisões internas do grupo. Disse Epifânio, segundo Sr. Manoel Santana: “é pra juntar os índios tudo que tão aí por fora, pra fazer uma força pra nós”. E assim foi feito, sendo construído inclusive um campo de pouso de aviões para receber os esperados “visitantes”. A família Bráz, uma das maiores entre os Pataxós de Barra Velha, chega na aldeia nesse período, mais uma vez conforme o relato do sábio Sr. Manoel Santana: Esses Brás são de Corumbal, que os Bráz, que aqui tem diversas etnia aqui dentro né, bom os Bráz vivem aí dentro eles são corrido da Guerra dos Canudos, bom então ficaram aí no Corumbal, mudaram pra Barra Velha em Barra Velha não deu certo mudaram pra Corumbal, fizeram a aldeia deles lá, então digo: “aí não dá certo porque esses pessoal é muito valente é muito valente, e se botar eles aqui não vai dar certo vai dar meia com esse povo”, então eu achava melhor fazer um grupo deles mandar eles enfrentar o Desejo 88 , nós enfrentava com eles pra levanatar aldeia lá, porque a gente não enfrentou só com briga e invasão não, a gente enfrenta com conversa e oração, ir pra lá nesse esquema e a gente bota eles lá, isso aqui é nosso nois bota esse povo lá, se botar aqui vai dar briga, então ele – Epifânio - achava que sabia do negócio pegou esse povo e botou tudo aqui, aí agora quem tava pelas fazenda espalhado começa a voltar, quem nunca tinha nem morado em aldeia começa a vir pra cá. Na mesma entrevista ele relata família por família a constituição da aldeia. Entendo a memória como seletiva e dinâmica, e não algo estanque. Dessa forma, Sr. Manoel Santana procura justificar sua originalidade em detrimento dos outros que chegaram depois. Isso reflete diretamente no conflito atual já que o líder da Frente de Resistência e Luta Pataxó, Joel Braz, movimento atualmente contra o IBAMA e a gestão compartilhada do Parque, rivaliza com seu 86 (Agostinho, 1980:2) Segundo Carvalho – entrevista - o SPI até tentou enviar um agente entre a guerra e a criação do Parque, mas ele não conseguiu chegar à aldeia Bom Jardim – como era conhecida Barra Velha - em função da chuva. 87 33 grupo, que foi responsável, em certa medida, pelo retorno do IBAMA após a retomada que se dará em 1999. Nesse contexto aparece na aldeia uma pessoa da FUNAI, identificada como Chico Sampaio 89 , ficou por um curto período pois foi flagrado roubando mercadorias destinadas aos índios. Um mês depois chega o avião com Rogério, o primeiro administrador, relatado por Agostinho 90 . No mesmo período o conflito com os guardas era mais intenso. Os Pataxós eram privados de seu próprio território pela violência que muitas vezes chegava às vias de fato. A situação de fome e miséria estava cada vez mais insuportável àquele povo. Os guardas reprimiam violentamente qualquer tentativa do grupo de estabelecer roças, o que foi tentado diversas vezes. A atividade econômica que predominou entre eles foi a venda de piaçava – uma palmeira. Ficavam entocados durante o início da noite e quando escurecia extraíam o produto, sempre se esquivando dos quardas. A primeira a “invadir” o Parque com roças foi a Sra. Josefa, que passara dois anos sem qualquer plantação. Quando os guardas descobriram levaram Josefa presa e na delegacia; ela logo se defendeu: “Eu não vim aqui ouvir liberdade de ninguém, vim pra vocês me prenderem se é que eu fiz alguma coisa aqui pra vocês me prenderem, vocês me prendem, agora eu não quero ir pra Itamaraju nem pra Porto Seguro, nem pra Eunápolis, nem pra essas cidadezinhas perto, me leve la pra Brasília que pelo menos lá tem lei, lá a lei tá de junta pelo menos eu tenho chance de contar o porque que vocês me porem na cadeia”. Brasília havia sido criada a pouco tempo e despertava a confiança da Sra. Josefa, em detrimento da administração municipal, além disso a aparição de intermediários do Estado após a visita de Epifânio reforçava tal confiança 91 . São sinais de que se sentiam como pertencentes à nação, não sendo isso levado em conta pelos governantes locais. O relato evidencia a consciência de uma identidade étnica diferenciada e do anseio por ter tal identidade reconhecida no nível do direito. Josefa foi solta e quando voltou à aldeia mandou o filho continuar a roça. Foi então que ele viu um outro índio indo rumo à sede do Parque. Logo chegaram os guardas novamente e botaram os cavalos para comer toda a recente plantação. Essa história é até hoje utilizada por aqueles que são contra os agentes ambientais indígenas que trabalham junto à administração do Parque. Eles mitificam dizendo que desde aquela época alguns parentes entregavam seu povo e jogavam índios contra índios. Diversas roças são “botadas” clandestinamente mas todas repreendidas. O enfrentamento dos guardas por parte de Firmo 92 e Josefa, são significativos 88 Uma localidade na área Essa figura aparece apenas nos relatos de dois velhos, um de Boca da Mata e outro de Barra Velha, não sendo apresentado em qualquer documento que eu tenha tido acesso ou qualquer artigo de Carvalho, Agostinho, Sampaio, Vieira de Oliveira ou Grunewald. 90 (Agostinho, 1980) 91 Aliás, a distinção e distinção entre o poder federal e o local parece reproduzir a visão, também encontrada no seio de outras populações indígenas, que caracterizaria a tensão com a população regional em oposição à recepção da cusa indígena nos grandes centros urbanos. (Ver L. Cardosode Oliveira, 2002: 71-93) 92 Firmo é filho de uma mulher não índia e pai índio, viveu um tempo fora da aldeia e tinha certo conhecimento do direito dos índios, tinha também maior facilidade de argumentação e apoiou Josefa no mutirão 89 34 exemplos do despertar dos Pataxós para seus direitos, principalmente quando organizam um mutirão para botar roças. Os guardas repreendem violentamente, mais uma vez. Dessa forma Sra. Josefa empreende uma viagem à Porto Seguro para mandar uma carta ao Presidente da República, o que consegue. À essa altura Rogério, o então administrador ligado ao IBDF e FUNAI rompe com o IBDF, optando por apoiar a FUNAI, já que percebia as atrocidades cometidas pelos guardas do Parque. Segundo Agostinho ele foi, como os índios, ameaçado pelos guardas e ficou numa situação com poucas possibilidades de mediação entre os guardas e os Pataxós. Mesmo assim, conseguiu um barco de pesca que finalmente afundou no mar com oito índios, por isso afastado da aldeia. Veio então outro administrador que animou os Pataxós pois conseguiu, sendo neutro entre IBDF e FUNAI, mediar a relação e instalar o posto indígena, em 1968. Os Pataxós tinham ainda medo de botar roça pois não acreditavam que os guardas teriam parado de os importunar, foi então que Sr. Manoel Santana foi chamado na delegacia de Porto Seguro, o delegado queria falar com ele. Ele foi e recebeu a notícia que poderia botar roça; depois confirmou para seus parentes. A partir de então o contingente populacional começa aumentar consideravelmente 93 , principalmente em função da chegada de “parentes” que estavam espalhados e ficam sabendo das notícias. Some-se a isso o contingente juntado para receber o pessoal da FUNAI já citado e um novo tratamento das autoridades para com eles. Mas a abertura das roças era considerada apenas provisória já que a FUNAI tramava com o IBDF a transferência da população para outra área. Convicção: somos parte da nação, evidenciada na subsequente visita de uma autoridade – não há certeza se foi o Presidente da República ou o Presidente da FUNAI - a Porto Seguro, ocorrida, segundo o filho da Sra. Josefa em função da sua carta: “Era um tal de, Médice. Aí ela mandou essa carta pra Brasília, aí quando foi com base de uma semana depois ai ele respondeu outra carta, mandando dizer que ela reunisse os índios tudo na aldeia e fosse esperar eles tudo em Porto Seguro em primeiro de junho, que ele tava chegando em Porto Seguro só pra conversar pessoalmente com essa índia. Ai foi daí, ô Guilherme, que chegou nesse dia que tava explicando pra você essa índia pegou tudo quanto é que foi índio dessa aldeia, tudo, fez uma fila. Rapaz já era nos anos setenta já. Ai ela reuniu os índio tudo, ficou algum índio aí tomando conta da casa e de alguma coisa dele, mais os outro foram tudo, aí rapaz pegamos um porco, era uma fila só daqui até bem em Porto Seguro era uma fila só de índio aí nessa praia aí,. Chegamos lá fomos bem recebido pelo prefeito, deram uma atenção ao índio que a gente não esperava que eles dessem todo apoio pra nós, ai nós ficamos no aeroporto pra receber o presidente, e recebemos esse presidente. Fez uma reunião lá na Igreja Nossa Senhora D’aJuda , a reunião foi lá dentro dessa igreja. É uma igrejona maior que esse colégio aqui. Aí fizeram a reunião a minha mãe, o irmão dela que era cacique, e muito mais índios participaram da reunião, e ele mandou chamar o Mirosvaldo, que era o diretor do Parque, que tinha dado aquela ordem pra ele fazer aquelas coisas com o índio. Foi a hora que o Presidente falou ao chefe do Parque que nem sabia que tinha índio dentro dessa área,aí ele falou“eu não sei, nem sabia que tinha índio e assim botei a palavra da mesa se não morreram até aqui vocês não morrem mais, se a necessidade não matou vocês até aqui não mata mais””. 94 93 94 (Carvalho, 1977) Um dos filhos da Sra. Josefa em entrevista. 35 No início dos anos 70 o Brasil passava por um dos piores momentos da ditadura, foram os chamados “anos negros” da ditadura, com os desaparecimentos e todo o contexto conhecido. A produção da etnologia indígena era prioritariamente amazônica. Fato bastante compreensível se já que ocupação da Amazônia era um dos principais interesses da época, com todas as consequência para as populações indígenas amazônicas. A FUNAI empossa o General Oscar Jeronymo Bandeira de Mello, gestão em que se promulgou o Estatuto do Índio. O contexto de ação da FUNAI à época era a consolidação do binômio desenvolvimento e segurança 95 sob o pressuposto da rápida integração dos índios à nação para que não fossem, estes, obstáculo à interiorização e consolidação da conquista territorial brasileira. O indigenismo da sociedade civil ainda se limitava à contestação apenas, não tinha, e não poderia ter, força política no regime do Estado, delegado exclusivamente aos militares. Sabendo das notícias dos conflitos em Barra Velha e do fluxo migratório de “caboclos”, rumo à aldeia, e tendo a FUNAI se interessado em negociar a transferência da população para outra área, em favor do Parque, Agostinho resolve empreender uma viagem de reconhecimento com um grupo de pesquisadores. Desembarcam em 8 de dezembro de 1971, data considerada como o início do Programa de Pesquisa sobre Povos Indígenas do Nordeste Brasileiro – PINEB, sito na Universidade Federal da Bahia. Foi então que novos atores, agora em defesa dos Pataxós, entraram na “arena”. A partir de então há uma mudança estrutural no conflito pois a chegada de Agostinho contribui para a tomada de consciência dos Pataxós de sua identidade indígena, no sentido do Estado, com legislação própria. Na época Carvalho se inscreve para o Mestrado sob orientação de Pedro Agostinho, o que dará origem à sua dissertação, tão utilizada neste trabalho. Se por um lado a ciência já imperava no lobby ambientalista 96 , foi a partir de então que se tornou possível pensar em lobby indigenista no Nordeste. Vocação bastante presente no relatório entregue por Agostinho à FUNAI 97 . O laudo seria encarado como um parecer científico sobre a questão, portanto, definitivo para qualquer decisão tomada, já que não houve contra-laudo. Agostinho verifica a presença de 274 indivíduos na aldeia, distribuídos em 25 casas mais concentradas no centro da aldeia e 25 dispersas. Os números confirmam o baixo contingente em função das indenizações de 1961, e, se comparado com os dados de Carvalho, produzidos poucos anos depois, atestam também o incremento populacional98 entre um e outro relatório. A situação econômica estava quase no nível da miséria. O mangue era a principal fonte de proteína animal, mas mais que isso um sinal diacrítico encontrado por Agostinho, dentre tantos outros. “É essa sua dependência do mangue que em grande parte motiva a opinião encontrada entre os membros daquele grupo, unanimemente contrária à sua transferência do local que habitam”. Concluindo o 95 (http://www.socioambiental.org/pib/portugues/indenos/presfunai.shtm#t2) Como visto, a produção de legislação ambiental foi imensa entre 1930 e 1950, e o papel do discurso científico, enquanto político, foi fundamental para tanto. 97 (Agostinho, 1971) 98 Entre 74 e 77 já eram mais de 650 indivíduos, aumentando consideravelmente na década de 80. 96 36 laudo, o antropólogo diz: “A transferência deveria ser adiada, pelo menos até haver elementos que permitam julgar com maior segurança(...)” 99 . Esses elementos seriam constituídos por Carvalho em sua dissertação. Na aldeia a chegada de Agostinho com o grupo dá firmeza às convicções dos Pataxós quanto a seu direito de permanecer na área. Mais ainda porque ele afirma contundentemente que são índios e têm direitos específicos. Segundo Sr. Manoel Santana: “Eu mesmo passei a entender esse negócio de índio foi na época do Agostinho. O Agostinho chegou sem ninguém esperar. Nós estávamos lá em Barra Velha aí pintou um barco lá na praia apitando lá, e todo barco que chegava nós íamos lá ver. Aí chegou esse barco lá nós fomos ver era um homem barbudo, e o pessoal tinha medo de barbudo. Chegou Agostinho chegou mais gente, capitão Paraíba , Agostinho, esse menino chamam de sargento e aí depois que Agostinho chegou lá tinha um campo de aviação em barra velha esse povo ficou embarracado por lá um bocado de dia lá. As explicações que o Agostinho trouxe, a FUNAI não tinha explicado nada”. A FUNAI, ao contrário do que se poderia esperar, sequer confirmava que os Pataxós eram índios e que tinham direito à terra, o que ia contra seus interesses para a área, qual seja mediar o conflito por meio da supressão explícita de uma das partes diretamente envolvida: os Pataxós. Depois da saída de Agostinho a administração de Porto Seguro entrou em acordo com a administração do Parque e demarcou uma pequena área onde poderiam plantar. Este momento é considerado oficialmente a reabertura das roças. No entanto, com o incremento da população o espaço foi ficando cada vez mais insuficiente. Muitos Pataxós que iam retornando da(s) diáspora(s) tinham algum conhecimento sobre direitos. Carvalho então já trabalhava na dissertação, objetivando, dentre outras coisas, dar subsídios para se pensar uma proposta de manejo para a área, sem que fosse necessário retirar os índios. O conflito com os guardas entre 1968 e 1971 já estava ameno, mas em função da pressão sobre o Parque daqueles que ameaçavam transgredir os limites do pequeno retângulo demarcado em 71, voltaram a importunar os índios. Em março de 1974 assume a presidência da FUNAI o General Ismarth Araújo de Oliveira, gestão em que os projetos comunitários se tornam centrais. Desde então Carvalho e Agostinho são chamados para auxiliar na execução de um acordo entre IBDF e FUNAI para resolver a situação do Parque: “Sobre esse estudo está sendo agora pensada uma política adequada à realidade de Barra Velha em seu contexto regional. Primeiro passo de tal política é o cálculo e delimitação da reserva, meio de produção básico do qual depende a existência dos Pataxó como entidade coesa e socialmente operante. Este acaba de ser submetido à FUNAI, como proposta, acompanhado da indicação precisa dos acidentes naturais em que se terão de apoiar as linhas demarcatórias” 100 99 (Ibid) (Agostinho, 1980) 100 37 Ao fecharem a proposta e apresentarem à FUNAI, os Pataxós imediatamente não a aceitaram. O objetivo era criar um sistema sustentável de energia necessária para a reprodução do grupo, ou seja, baseava-se no subsistema econômico anteriormente estudado por Carvalho. Era uma proposta para criar a autonomia do grupo do sistema econômico envolvente. Mas o cálculo da área necessária deixou o Monte de fora da demarcação, pois era caro às negociações junto ao IBDF, FUNAI e a sociedade nacional, firmes na posição de não incluir os Pataxós como parte dela, sendo encarados como “os outros”. Agostinho em entrevista: “(...) a gente vai lá – no momento do plano de manejo - junto com os índios, explica a importância do monte pros brancos, e aí uma índia se levanta e diz:“(...) não aceitamos a vossa demarcação, não vamos deixar o Monte pra lá. É que na proposta a gente deixou o Monte todo do lado dos não índios. Isso ocorreu porque eu – Agostinho – estava elaborando uma proposta econômica, ecológica e sustentável; eu tinha feito o cálculo da coisa, da distância, fizemos o reconhecimento aéreo... Então, quando se pôs a questão do Monte estar fora a índia falou: “nós também queremos metade do Monte, tem que tirar metade do Monte e trazer pra cá, metade fica conosco, metade com os brancos” é claro que era retórica. Não havia resposta, não houve como responder, não deu: empacou ali, foi ali que não houve mais relação com a FUNAI; sem dúvida nenhuma era um fator de conflito. Eu já estava no Rio; telefonaram pra Rosário – Carvalho - e deram um pito que ela num tinha nada que se meter (...) é um período em que estava em voga o desenvolvimento de projetos comunitários”. A recusa dos Pataxós em aceitar aquele território soma-se à invasão de uma área do Parque em 1980 por um grupo Pataxó. A área invadida seria a região onde hoje se encontram as aldeias Boca da Mata e Meio da Mata. Invasão ocorrida por dois fatores: primeiro em função da escassez de terras para plantio destinadas aos Pataxós, e em segundo lugar porque os Pataxós sentiram ameaçados de perder o Monte Pascoal, fundamental para sua identidade, ora se fortalecendo. Em verdade estava instalado o limite étnico entre “brancos” e “índios” e isso muito bem compreendido pelos Pataxós, o que antes não ocorria. É a partir de então que a luta pelo território sob a nomenclatura de Terra Indígena ou Reserva Indígena, ou em outros casos Parque Indígena 101 se inicia, e com ela a busca por cidadania. Rapidamente os conflitos com os guardas voltam a ser um grave problema e as incursões dos índios na área de Boca da Mata e Meio da Mata uma constante, o que não durará nem mesmo um ano inteiro. Além disso a BR 101, aberta em 1974, trazendo o ciclo madeireiro para a região, abriu o turismo na área e os Pataxós, incentivados por pesquisadores e pessoas que se sensibilizavam com sua situação, começaram a trabalhar suas tradicionais gamelas de madeira para a venda comercial. Atividade que mais preocupa os ambientalistas e indigenistas, já que tal prática envolve a retirada de madeira e pode ser utilizada contra este povo, descaracterizando seu trabalho histórico de preservação da Mata Atlântica do Monte Pascoal. É um período de efervescência política no país do qual não escaparam indigenistas e ambientalistas. Se por um lado a ditadura ainda era dura no final dos anos 70, a sociedade civil se mobilizava em favor da redemocratização. Na FUNAI é nomeado o famoso Coronel João Carlos 38 Nobre da Veiga 102 , responsável pela expulsão de diversos antropólogos e indigenistas críticos da atuação do órgão. Do tipo linha dura, afirmava que a disciplina seria implantada a qualquer custo, sendo a emancipação compulsória dos índios o principal mecanismo para completar a integração. Foi também ele que afastou Agostinho e Carvalho das negociações para a regularização da partilha do Parque. “(...) primeiro, a FUNAI tem, sempre, em vários níveis, um “ciúmes” de antropólogo e uma desconfiança do intelectual. É uma disputa de poder em que eles acham que, na medida em que o antropólogo está entrando nas áreas, está de certa forma interferindo no seu poder sobre índios, confundindo a tutela com dominação colonial.Em parte foi isso, em parte foi uma política deliberada por regime autoritário que era de acabar com índios, e uma proposta como a nossa iria dar a eles a possibilidade de se manterem como índios. Há uma diretiva na época, que era embranquecê-los.(...) o Costa e Silva 103 tinha assumido a idéia de em dois anos não haver mais índios(...)” 104 A proposta da emancipação política e econômica dos índios seria o golpe final que concretizaria a integração, como dito. Mas a proposta provocou o furor dos indigenistas, tanto da sociedade civil quanto muitos do próprio órgão estatal. Dessa forma o presidente da FUNAI recuou, não enviando a proposta para o Ministério do Interior 105 . Nesse período foram criadas diversas Associações Nacionais de Ação Indigenista ANAI’s em todo o Brasil. A ANAI-BA surge em 1979 e resiste à crise dos anos 80 quando quase todas as ANAI’s foram extintas, sobrando apenas a da Bahia. “Sobreviveram os que se profissionalizaram”, caso da atual ANAI, ISA, ou CTI, como aponta José Augusto L. Sampaio. A ANAI é considerada o braço político do PINEB, portanto sua sobrevivência se deve ao respaldo dos associados, em sua maioria antropólogos e pesquisadores ligados à academia. Na Amazônia sobreviveram mais organizações pois “é mais cara às simpatias européias” 106 . Dessa forma, no Nordeste e Sul ficaram instituições que investiram em voluntariado. Num caso ou noutro, a luta dos indigenistas se reconfigurou de um indigenismos de denúncia para um de participação democrática nos anos 80. Era o período em que se discutia a Constituição e, portanto, garantir um texto que contemplasse seus interesses – terra para os índios - era fundamental. O resultado dessa luta foram os artigos 231 e 232 da Constituição de 1988 107 . 101 o que é relevante aqui é a luta pelo território administrativamente delimitado para o grupo pelo Estado, tendo este a obrigação de dar condições aos índios de gestar e gerir seu território 102 (1979 a 1981) 103 (15/03/1967 a 31/08/1969) 104 (Agostinho em entrevista) 105 (http://www.socioambiental.org/pib/portugues/indenos/presfunai.shtm#t3) 106 (Ibid) 107 Art. 231. São reconhecidos aos índios sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradições, e os direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam, competindo à União demarcá-las, proteger e fazer respeitar todos os seus bens. § 1º - São terras tradicionalmente ocupadas pelos índios as por eles habitadas em caráter permanente, as utilizadas para suas atividades produtivas, as imprescindíveis à preservação dos recursos ambientais necessários a seu bem-estar e as necessárias a sua reprodução física e cultural, segundo seus usos, costumes e tradições. § 2º - As terras tradicionalmente ocupadas pelos índios destinam-se a sua posse permanente, cabendo-lhes o usufruto exclusivo das riquezas do solo, dos rios e dos lagos nelas existentes. 39 Os ambientalistas, por sua vez também procuravam ganhar espaços na luta por democracia. Segundo Renato Cunha, diretor da principal ONG ambientalista da Bahia, o Grupo de Ação Ambientalista da Bahia - GAMBÁ, havia na época diversos Comitês de Defesa da Amazônia - CDA espalhados pelo Brasil. Os ambientalistas começam a perceber que o problema ambiental – uma construção artefatual da relação homem natureza – não remetia somente à Amazônia. Dessa forma a luta se transfigura em conquistar espaços legais de proteção a outros biomas e inclusive nas cidades. O GAMBÁ é fundado em 1982, após diversas ações coletivas entre ambientalistas da Bahia. A conquista política dos ambientalistas que lutavam pela inclusão da Mata Atlântica na legislação ambiental se verifica na Constituição de 1988 § 4º, do Artigo 225: “A Floresta Amazônica brasileira, a Mata Atlântica, a Serra do Mar, o Pantanal Mato-Grossense e a Zona Costeira são patrimônio nacional, e sua utilização far-se-á, na forma da lei, dentro de condições que assegurem a preservação do meio ambiente, inclusive quanto ao uso dos recursos naturais”. Em 1980, sem o consentimento dos Pataxós, sem a intermediação de Agostinho e Carvalho, desconsiderando as duas excelentes pesquisas feitas na área que comprovam a ocupação e dão subsídios para pensar o território Pataxó, e a contra gosto de muitos ambientalistas; a FUNAI negocia com o IBDF uma partilha do Parque, cedendo pouco mais de 8.600ha aos Pataxós. Essa cessão provocou o acirramento das disputas entre ambientalistas e indigenistas, já que aqueles eram contra por ser a cessão incoerente com suas propostas para a constituinte de 88, e com tudo que se sabia sobre o sistema produtivo Pataxó. Muitos ambientalistas por sua vez, não concordavam que uma área daquele nicho de Mata Atlântica fosse “doado”, o que se afigura como uma perda de parte do ecossistema, ora preservado in situ. Os Pataxós, por sua vez, se dividiam nas opiniões. Segundo Sumário 108 a população da Aldeia Barra Velha aceitou prontamente, § 3º - O aproveitamento dos recursos hídricos, incluídos os potenciais energéticos, a pesquisa e a lavra das riquezas minerais em terras indígenas só podem ser efetivados com autorização do Congresso Nacional, ouvidas as comunidades afetadas, ficando-lhes assegurada participação nos resultados da lavra, na forma da lei. § 4º - As terras de que trata este artigo são inalienáveis e indisponíveis, e os direitos sobre elas, imprescritíveis. § 5º - É vedada a remoção dos grupos indígenas de suas terras, salvo, "ad referendum" do Congresso Nacional, em caso de catástrofe ou epidemia que ponha em risco sua população, ou no interesse da soberania do País, após deliberação do Congresso Nacional, garantido, em qualquer hipótese, o retorno imediato logo que cesse o risco. § 6º - São nulos e extintos, não produzindo efeitos jurídicos, os atos que tenham por objeto a ocupação, o domínio e a posse das terras a que se refere este artigo, ou a exploração das riquezas naturais do solo, dos rios e dos lagos nelas existentes, ressalvado relevante interesse público da União, segundo o que dispuser lei complementar, não gerando a nulidade e a extinção direito a indenização ou a ações contra a União, salvo, na forma da lei, quanto às benfeitorias derivadas da ocupação de boa fé. § 7º - Não se aplica às terras indígenas o disposto no art. 174, § 3º e § 4º. Art. 232. Os índios, suas comunidades e organizações são partes legítimas para ingressar em juízo em defesa de seus direitos e interesses, intervindo o Ministério Público em todos os atos do processo. 108 Representante do CIMI em Eunápolis 40 enquanto os demais Pataxós, do interior do Parque, afirmavam, desde a época que não estava certa aquela “medição” pois todo o território a eles pertencia. Mesmo descontentes, trataram de ocupálo, fundando a Aldeia Boca da Mata - BM e Meio da Mata - MM, uma extensão da primeira. Nota-se aí uma postura unilateral de FUNAI e IBDF, desconsiderando demais atores interessados nas discussões. Em 1982 a FUNAI instala um posto em Eunápolis pra tratar mais especificamente do caso e consolidar a territorialização administrativa dos Pataxós de Barra Velha. O Conselho Indigenista Missionário – CIMI, já tratava de questões em Pau Brasil, junto aos Hã Hã Hãe desde o mesmo ano, o eco das questões surgidas no Monte, principalmente fomentadas pela ANAI desde os 70’s atraiu o CIMI para a arena de conflitos referentes ao Monte. A criação das aldeias BM e MM parece ter deslocado o eixo da organização política Pataxó. Muitos habitantes da Aldeia Barra Velha – ABV, sita à beira mar, se juntam aos “parentes” que já se encontravam no Parque. A ABV fica numa situação bastante confortável se comparada com as demais pois as possibilidades produtivas são muito maiores, em função da proximidade do mangue, do mar e a maior disponibilidade de terras para plantar. BM e MM são aldeias que ficam numa estreita faixa entre fazendas particulares e o Parque, tendo menos terras para plantio de roças e ficando reféns dos fluxos turísticos, quando vendem artesanato. Livre da pressão dos guardas a ABV vai perdendo a disposição de lutar contra o IBAMA; disposição transferida à aldeia BM. Mas é um processo lento e gradual, não repentino. Internamente surgem também divisões. Muitos habitantes da ABV percebem que regiões onde o mato era fechado passam a ter uma vegetação mais rala. Como o artesanato com madeira vinha sendo uma atividade produtiva em expansão em BM, atribuem essa destruição, em parte à ABM. Aprovada a Constituição de 1988 novas demandas passaram a ocupar as pautas de ambientalistas e indigenistas, o que influenciou toda sua ação posterior. Os indigenistas começam a pressionar o Ministério Público por demarcação de Terras Indígenas, afirma José Augusto L. Sampaio: “(...) nos anos 90 começamos – os indigenistas em geral - a tentar uma atuação mais direta nos trabalhos indígenas e na política do novo Estado, agora democrático. De 90 para cá a gente se especializou em lobby indigenista. A gente tem o nome de uma regional específica, a gente trabalha de Minas Gerais ao Ceará, isso tudo para ver se a gente tem um respaldo de um contato próximo nas próprias áreas indígenas, mas a gente faz pouco trabalho de base nas áreas indígenas. O que a gente faz mesmo é usar esse vínculo para fazer lobby, lobby político no caso do Nordeste, lobby jurídico e, como a gente tem muito antropólogo aqui dentro, lobby com uma base técnica razoável. A ANAI costuma ser ouvida porque é tida como entidade que entende de índio no Nordeste Contamos com antropólogos que pesquisam isso na Universidade.Com isso a gente conseguiu o que eu acho que são os melhores ganhos da ANAI nesses últimos doze anos: o processo crescente de demarcação de terras na região Nordeste. Temos conseguido fazer isso, a gente claro né, a gente e vários outros aliados nesse processo. A gente participa muito disso, comparecer com laudo, com a administração pública, desde o Ministério Público que passou a atuar na questão da demarcação indígena de 93 para cá. Temos essa linha direta com o Ministério Público, o que o influencia muito. Enfim é isso que a ANAI faz ultimamente”. 41 Enquanto isso os ambientalistas conquistaram algumas vitórias, como a proibição de corte de madeira na Mata Atlântica em 1990109 . Há também, no início dos anos 90, a consolidação da Rede ONG’s da Mata Atlântica, um importante fórum de ONG’s que possibilitou diversos lobbies ambientalistas quanto à produção de leis de proteção à Mata Atlântica. Mas as conquistas no Congresso Nacional, assim como no caso dos indigenistas, não foram suficientes já que entre o planejamento de uma lei e sua execução há uma distância considerável, bem como mediações que escapam à previsão dos textos. “Na região do extremo sul que é um dos focos do trabalho nosso né e desde a década de 80 que a gente trabalha na região. Começou quando teve as primeiras notícias de instalação do pólo sucro-alcooleiro, usinas de álcool na região, teve essa notícia na época da implantação de 30 micro-usinas. Houve então uma resistência grande da comunidade local, a gente foi procurado e começou a se envolver, conseguindo tirar o pólo de lá. Depois o outro pólo que acabou começando e tá sendo implantado cada vez mais é o pólo de celulose, que é eucalipto e celulose que tem lá...que é um problema sério. Além do problema da monocultura de eucalipto na mata nativa há a questão do licenciamento. Pelo licenciamento ambiental que existe, não pode plantar eucalipto onde tem Mata Atlântica só que isso na prática... o controle não é muito bom e há o fomento da prática pelas empresas em que proprietários rurais recebem apoio pra plantar eucalipto e já com destino com madeira já colocada e comercializada no mercado. Acaba que muita gente tá desmatando e plantando eucalipto e num é mais um ônus para a empresa desrespeitar a lei pois quem fica a cargo disso são os pequenos proprietários, que também não têm controle. Há outros problemas ambientais na região. Do turismo predatório, uma ocupação urbana desordenada, como é o caso de Cabrália, Porto Seguro, Trancoso... o problema no extremo sul é que essas empresas de celulose que tem um poder muito grande, a inserção delas é assim...elimina qualquer outra possibilidade... ou desincentiva a oportunidade de você desenvolver de outra forma as Unidades de Conservação que sempre foi uma luta nossa de melhorar de viabilizar novas áreas. Há ainda dificuldade de implementação de manejo nos Parques já existentes” 110 . Em 1991 a TIBV é homologada 111 , mesmo sob pressão dos indigenistas para a revisão do território Pataxó. No mesmo período a ANAI que atuava sozinha na área ganha um importante aliado: o CIMI que se instala em Eunápolis com o objetivo de fomentar a discussão nas aldeias sobre a organização política dos Pataxós. Queriam, portanto, provocá-los, estimulá-los a constituir um grupo político. O que de fato ocorre, pois, como lembra L. Sampaio, a partir de então se iniciou denúncias sobre a ilegalidade da partilha e durante todos os 90’s lutou pela criação de um GT de identificação do território que levasse em consideração o território tradicionalmente ocupado. A demanda era de um estudo pra definir que território seria esse, já que não ocorreu quando da partilha. “(...) quando o CIMI chegou, era um povo fragmentado na suas comunidades. Na época eram 8 comunidades que não tinham uma relação política enquanto povo, é essa a leitura que o CIMI vai fazer no momento. Percebe-se a necessidade de contribuir com esse povo com alguma articulação política. (...) 109 Decreto Federal nº 99.547/90; ver também Projeto de Lei nº 3.285/92 e Decreto 750/93 Renato Cunha, diretor do GAMBÁ em entrevista. 111 A área assim "identificada" – em 1980 - seria, em seguida, submetida à apreciação do Grupo de Trabalho Interministerial criado pelo Decreto 94.945/87 que, em sua Resolução 02, de 20 de julho de 1988, resolveu "reconhecer" a área como "de posse imemorial indígena", recomendando sua regularização com a designação "Colônia Indígena Barra Velha". Por fim, a área seria homologada pelo Decreto 396 (24/12/91), da Presidência da República. 110 42 constantemente bombardeados com as informações de que o índio é que tava desmatando toda Mata Atlântica e não reagia enquanto povo; uma aldeia ou outra tinha uma ação individual. A FUNAI também exerce um papel aqui na região, não de contribuir efetivamente pra ação política do povo, mas pra dependência, né, marca tutelar. O CIMI também vem com essa leitura junto à FUNAI. O objetivo nosso nesse momento foi o de contribuir pra articulação do povo enquanto povo étnico (...) de 92 a 94 nosso papel ele se dá nesse sentido de promover a articulação política das comunidades, é um período de análise e articulação política. (...) “mas vocês são acusados de extração de madeira, como é que vocês respondem?”, a gente fomentava essa discussão” 112 . As articulações ocorriam principalmente em Boca da Mata desde a época. Os resultados foram logo sentidos pelos Pataxós que, pela primeira vez, atentando para seus direitos, afirmaram que queriam aquelas terras de volta e iriam lutar por isso. Para conseguir maior confiabilidade do Ministério Público o CIMI investiu nas discussões com os Pataxós Evidentemente a chegada do CIMI se somou às forças que já pressionavam o poder público para a demarcação legal da terra. A partir de 1994 o CIMI foi assessorando os Pataxós para remontarem o “histórico de perda de suas terras”. Essa iniciativa atentou muitos Pataxós para a necessidade de terem essas terras de volta já que consideravam que tinha sido tomada deles. A organização contínua não encerrou a fragmentação interna do grupo, já evidenciada, mas o nível político da fragmentação já contava com outras forças e outros atores, os Pataxós já compreendiam suas demandas, a partir do processo de assessoria da ANAI e CIMI. Não eram mais desconsiderados como índios e já se inseriam na arena como atores coletivos. A fragmentação interna acompanhou tal evolução. O levantamento do “histórico de perdas de suas terras” fortaleceu a auto-estima dos Pataxós. Percebendo que tinham apoio técnico e mais certo do que nunca de que o território era mesmo seu, um grupo Pataxó começa a planejar ações de Retomada dos territórios presentes no histórico. Essa posição não é unânime dentre os Pataxós, mas parte do novo centro de decisões políticas: ABM, que articula com todos pequenos aglomerados 113 , menos com a ABV que se posiciona contra qualquer ação que possa ensejar um “novo fogo de 51”. Nesse período retorna à aldeia Joel Braz, que se torna uma importante liderança Pataxó. No começo é recebido com bastante desconfiança e é tratado com o estrangeiro que pouco sabe e pouco compartilha da identidade Pataxó. Com o tempo se envolve nas discussões entre lideranças, ANAI e CIMI, conquistando a confiança de muitos. Dessa forma se torna um intermediário da comunidade fundamental nos acontecimentos que seguirão. À época se une com Alfredo Santana, então cacique de Boca da Mata e Zezito Pataxó, outra liderança influente na área, mas com pouca representatividade. Juntos formam um grupo que intermediará toda a ação política com os outros intermediários, ANAI e CIMI. Em 1994 o GAMBÁ finalmente se soma nas discussões, junto ao CEPEDS, uma outra instituição ambientalista da qual fazia parte o atual gerente do IBAMA de Eunápolis, ou seja, jurusdição do ParNaMP. 112 Sumário em entrevista 43 O Parque passava por sérios problemas na administração. Carecia de infra-estrutura mínima para receber turistas; carecia de uma sede administrativa minimamente equipada; carecia ainda de recursos humanos disponíveis pois o contingente de funcionários era pequeno para fiscalizar a área. Dessa forma, “a pressão sobre a área do Parque seja por motivos econômicos ou simbólicos, seja pelos Pataxós ou por outras populações locais, acirrou cada vez mais o conflito entre os índios e a administração da unidade”. 114 Não somente porque lutavam para a criação de um GT de identificação e revisão de limites da TIBV, mas também porque o descaso do IBAMA acirrava os conflitos internos entre os Pataxós. III.1. O Seminário Sabendo da situação da região, o Ministério do Meio Ambiente – MMA resolve realizar um seminário em 1996 com todos os atores envolvidos para discutir a situação e criar soluções emergenciais. GAMBÁ e CIMI firmaram o acordo, sendo os organizadores do seminário que ocorreu em Itamaraju, cidade mais próxima da região do conflito. Nesse momento é criada a Comunidade de Argumentação para mediar o conflito e resolvê-lo. Nele são estabelecidos acordos mínimos a partir de uma ética própria que envolvia os valores ambientalistas em toda sua diversidade, assim como indigenistas e das lideranças Pataxós. Esse conjunto de relações é o objeto de estudo desta pesquisa. Dessa forma, é a dinâmica das práticas dos atores inseridos nessa Comunidade e sua relação com os preceitos éticos e morais particulares a ela – as expectativas mútuas entre as partes - que nos interessa aqui. Participaram do seminário pelo menos quarenta lideranças indígenas de oito aldeia Pataxós dos sul da Bahia; GAMBÁ; CEPEDES; ANAI; CIMI; “Movimento de Defesa de Porto Seguro”, que lutava contra a indústria do álcool e depois do eucalipto; Terra Viva, outra ONG ambientalista da Bahia e FUNAI. O objetivo apresentado era: “Discutir a problemática do artesanato, apontando alternativas, a partir da realidade indígena, para a construção de propostas que venham superar os problemas ligados à produção de artesanato versus ParNaMP” 115 . A necessidade de discutir o artesanato era um consenso entre indigenistas e ambientalistas. Uma vez que o ciclo do artesanato se tornava importante na renda familiar entre os Pataxós, os indigenistas julgavam importante mapear todo o subsistema produtivo. Dentre diversas razões, duas caracterizo como mais relevantes: primeiro porque poderia proteger o artesanato Pataxó do plágio da sociedade local, que via nas peças uma eminente possibilidade de auferir lucros. A participação de atravessadores não índios abaixava o preço do artesanato e 113 (Ver lista apresentada por Samapio, 2000) (Faleiro, 2001) 115 (Relatório do Processo de Investigação das Relações entre o Povo Pataxó e o Parque Nacional de Monte Pascoal. Itamaraju, 1996) 114 44 colocava os Pataxós numa situação de dependência, já que boa parte dos meios de trabalho eram arrendados. O relativo sucesso da venda de artesanato com o incremento do turismo na região aumentou a extração de madeira ilegal do Parque por não índios, mas todo ônus foi cobrado aos índios, habitantes da área. Nesse sentido, discutir o artesanato teria um outro papel fundamental, daí o segundo ponto: delimitar mais claramente o papel dos Pataxós no sistema de produção de artesanato com madeira, para que então, ficasse caracterizado que os desmatadores “em grande escala” eram os não índios. Para os ambientalistas a pauta era relevante, mas por outra razão. Desde a demarcação da atual área designada aos índios a administração do IBAMA vinha tentando buscar meios de estancar a produção do artesanato, o que ocorre até hoje. Percebendo a impossibilidade disso, já que para tanto haveria de permitir abertura de novas roças, viam no seminário a possibilidade de constituir o inventário do estoque de recursos florestais que permitiriam, por meio de estatísticas, chegar a algumas acertivas do tipo: “em tantos anos, não haverá mais nenhuma árvore no ParNaMP, caso o ritmo da retirada de madeira continue”. Era um excelente momento para promover a “conscientização” dos Pataxós e convencê-los a executar um projeto de gestão sustentável para a área, o que já vinha sendo pensado. A posição dos Pataxós foi unânime: querem discutir a terra, não aceitam mais ser chamados de desmatadores. Num dos trabalhos de grupo os participantes tinham que responder como viam a relação do Parque com os índios. Os Pataxós, que compunham um dos grupos, responderam: “a criação do Parque só trouxe problemas; se os órgãos dessem manutenção e apoio não existiria fome e nem a necessidade de vender o artesanato; a fiscalização do Parque pelo IBAMA é ruim e o meio ambiente está abandonado”, dentre outros pontos. Curioso que nesse mesmo exercício a FUNAI alega que “os índios têm terra”. Enquanto as ONG’s ambientalistas afirmam que “é preciso preservar o Parque e os índios”. O aspecto mais relevante da reunião é que constituiu um espaço em que as diferenças deveriam ser explicitadas: terminal de argumentações em que se procura legitimar demandas frente às partes concorrentes, uma vez que visa construir soluções conjuntas. Não poderia haver uma arena moralmente mais legítima que aquela. Foi um momento em que todos passaram a se conhecer frente a frente, não sendo mais possível que qualquer ação considerada moralmente adequada ignorasse uma ou mais partes interessadas. Em termos pragmáticos os consensos criados praticamente inexistiram, mas a própria concepção do seminário tinha implícitos determinados consensos mínimos. Primeiro o reconhecimento de que as ações do IBAMA até então não tinham levado em conta os interesses dos índios. Como seqüência, em segundo lugar, que a mediação do conflito não poderia continuar sem a presença dos principais envolvidos: os Pataxós. Terceiro, os compromissos afirmados no seminário estavam sendo construídos para serem cumpridos. Por último, a administração do território, sob guarda do IBAMA e FUNAI, reconhecia o grupo como legítimo para indicar as 45 diretrizes de ação do Estado na área, entendendo que ali estavam representadas todas as aldeias e a sociedade civil. Os encaminhamentos finais acordados no seminário determinavam as seguintes ações: 1. Criar uma cooperativa dos artesãos Pataxó (foi criada uma comissão com representantes dos índios/APOINME 116 /CEPEDES/CIMI/Terra Viva, com o objetivo de aprofundar a questão junto às comunidades); 2. Estudar a viabilidade de patenteamento do artesanato. 3. Reflorestamento das áreas degradadas nas aldeias. 4. Inventário do estoque de recursos florestais. 5. Divulgação do artesanato indígena. 6. Projetos de sistemas agroflorestais – SAF’s e recomposição florestal. 7. Criação de um fórum de acompanhamento dos estudos e projetos com representação dos índios, IBAMA, FUNAI e entidades de apoio. 8. Entrar com uma representação contra o IBAMA, junto ao Ministério Público pela apreensão do artesanato indígena que o IBAMA vem fazendo na região. 9. Enviar documento à FUNAI e ao Ministério Público solicitando o reconhecimento do Parque Nacional do Monte Pascoal como área indígena. O relatório final é enviado ao IBAMA e este, como afirma Sumário, acusa o GAMBÁ e CEPEDES de ter utilizado o dinheiro do seminário para acirrar o conflito. O Estado visava resolvê-lo sem que suas contradições emergissem. O seminário foi compreendido, dessa forma, como “um tiro no pé”, como mostra os pontos 8 e 9 acima. Menos que acirrar o conflito, o seminário o reconfigurou, dando maior visibilidade aos Pataxós que finalmente completavam sua reorganização política desde os dois séculos anteriores, e deixando mais clara a impossibilidade de soluções que adiassem as discussões sobre a terra. As expectativas locais finalmente puderam ser ouvidas em nível nacional, resultado da intermediação dos indigenistas e ambientalistas, bem como das lideranças Pataxós que logo constituiriam o Conselho de Caciques. Os consensos mínimos e os pontos acima não foram suficientes para estabelecer uma ação conjunta. Até que algumas interfaces são criadas, mas sempre como subjacentes às perspectivas de cada ator. O seminário agrupa aliados dentro da Comunidade de Argumentação fortalecendo convicções e diferenças. De um lado os ambientalistas fortalecem as discussões de criar um plano de gestão sustentável para a área. ANAI e CIMI somam saldos para a criação do GT de identificação, claro que com o apoio pleno dos Pataxós. Estes, por sua vez, retomam sua organização política. Os Pataxós tinham a convicção da “propriedade” de seu território e portanto mantinham fidelidade com um plano de retomadas, criado a partir do levantamento da perda dos 116 Associação dos Povos Indígenas do Nordeste, Minas Gerais e Espírito Santo. 46 territórios. Outro fator é que se aproximava a comemoração dos 500 anos do descobrimento do Brasil e eles começavam a mobilização para receber “parentes” indígenas de todo o Brasil. As ações planejadas, principalmente as que visavam fortalecer o artesanato indígena, não foram viabilizadas; nem mesmo o plano de reestruturação do Parque. Continuaram as apreensões de artesanato. CIMI continuava o trabalho de articulação com as lideranças e o Conselho de Caciques. O Parque fecha para visitação para a reestruturação que não acontece de imediato. GAMBÁ e CEPEDES criticam o governo, afirmando que este não quer resolver o impasse. Os índios continuaram suas atividade normalmente, com a vantagem que podiam ter maior liberdade de trânsito e podiam se organizar politicamente sem serem vigiados diariamente. É então criado o Conselho de Caciques, pouco depois do fracasso de Retomada do Parque em 1997, quando foram os Pataxós surpreendidos pela Polícia Federal. Dessa maneira ocorre um “racha” no coletivo criado no seminário, já que a condição / situação foi completamente desfigurada pelo Estado. O Estado havia “financiado” a Comunidade de Argumentação e quando percebeu que as deliberações atentavam contra suas expectativas de resolução imediata do conflito, não se interessou em dar continuidade ao processo de mediação considerado por todos como moralmente procedente. Em função de dificuldades nas construção de diretrizes para ação comum, os atores trataram de buscar formas de atuação que recuperassem, a seu modo e em separado, a integridade das ações para o alcance de suas demandas. 47 IV – Retomada do Parque, Retorno do IBAMA, Termo de Cooperação Técnica: aspectos do projeto de desenvolvimento como mediador do conflito “War for territory War for territory” (Sepultura) Nesta seção, faço minhas as palavras de Sampaio: “Se discorri um tão longamente sobre a história do tradicional território dos Pataxó da aldeia de Barra Velha e da sua expropriação pela União sob a forma do Parque Nacional de Monte Pascoal, é que tais dados me parecem imprescindíveis a uma boa compreensão da sua atual cena sócio-econômica, marcada por uma quase total falência dos processos produtivos indígenas tradicionais - o que tem gerado uma situação de miséria e de dependência- e pela permanência de conflitos com os prepostos regionais do IBAMA, aparentemente insolúveis no atual quadro institucional e administrativo”. Apesar de ocorrer um certo distanciamento entre os “blocos” formados no seminário, até 1999 a divisão não impossibilitava certas interfaces entre eles. O seminário além de meio de fortalecimento de posições, permitiu certa sistematização das ações a serem tomadas separadamente e outras em parceria. É possível verificar, entretanto, que as razões práticas, e em consequência o que significaria agir eticamente, já não eram as mesmas para um e outro bloco. A separação relativa dos blocos seccionou a comunidade de argumentação e com ela os acordos firmados. Passam a atuar como comunidades de argumentação distintas com alguma interface. No interior de cada bloco a produção de consensos explícitos e paralelamente diretrizes para a ação se intensifica. Abaixo procuro estabelecer um panorama da construção das demandas e ações nos blocos e o enfraquecimento de sua interdependência como antes se afigurava no seminário. A Retomada, a volta do IBAMA e consolidação do termo de cooperação técnica são resultado da fissura dos acordos e mecanismos de mediação construídos no seminário de Itamaraju. Novas formas de mediação são tecidas, mas já descaracterizadas como consensual. A ANAI considera o CIMI como a principal aliança em nível local, “única outra grande ONG indigenista da região”. Nacionalmente está alinhada com o movimento indigenista, composto por CIMI Nacional, ISA, CCPY... “acho que tem umas quinze mais atuantes no Brasil”, diz José Augusto L. Sampaio. O Ministério Público, um dos alvos do lobby indigenista, é um órgão poderoso de ação nas áreas, principalmente na competência de pressionar por demarcação de terras indígenas. A ANAI estabelece com o órgão uma relação de assessoria e inclusive incentiva antropólogos a prestarem concurso público para o MP. Na ABA L. Sampaio é bastante atuante e, nesse sentido, também exerce, a partir dela, certa movimentação política de pressão sobre o MP e com isso a própria ANAI. 48 A recíproca é verdadeira para o CIMI, mas sua atuação é mais localizada; um trabalho “de base”, como afirma Sumário. Por presenciar o cotidiano mais freqüentemente, o CIMI se envolve no conflito intensamente. Declaradamente não intenciona mediar o conflito, mas incrementá-lo em favor da demarcação e pela organização política dos Pataxó, ou parte deles. Sua articulação com ANAI e Ministério Público, apesar de permanente, não é o foco da atuação. Se a ANAI faz lobby indigenista “para fora”, o CIMI procura trabalhar a mobilização política de grupos Pataxós, “preparando-os” para lutar pela terra, para pressionar os órgãos federais, formular táticas políticas e judiciais para promoção de Retomadas, dentre outras atividades de “lobby para dentro” 117 . O lobby para dentro é fundamental para o sucesso do lobby para fora. A criação do GT, por exemplo, dependia de uma certa capacidade instalada dos Pataxós para pressionar os órgãos competentes pela demarcação. Prova disso é que, como apresento mais a frente, somente quando Retomam o Parque em 1999 as negociações da consolidação do GT acontecem. A ação do grupo em nível local subsidiava e respaldava o argumento dos indigenistas, fundamentalmente a ANAI, junto ao MP. Assim, os principais agentes indigenistas da sociedade civil no conflito ficam caracterizados e sua aliança é decisiva para o sucesso da criação do GT de identificação e revisão de territórios. Após o seminário essas instituições promovem intensamente os lobbies pela criação do GT, principal “bandeira”, até 1999. A FUNAI é outro ator sobre o qual incidem lobbies indigenistas. Mas esses lobbies ocorrem em diferentes níveis. Há uma diferença de perspectiva quanto à FUNAI local e a nacional. Aquela é vista pelos indigenistas como “difícil desde sempre”, já que os dirigentes se alinham com os políticos do estado. Em nível nacional algumas parcerias são identificadas, principalmente no momento da criação do GT. De maneira geral, segundo Carvalho, a FUNAI nunca negou a presença e o território indígena. Fez, isso sim, se omitir na administração e na gestão desses direitos indígenas em algumas áreas, caso do Monte; só chegando lá quando o Parque estava criado. O CIMI, por seu turno, indica que a FUNAI procurou dificultar a criação do GT, já que representaria “uma dor de cabeça” aos administradores locais e seus interesses. Essas diferenças demonstram que aquilo que eu vinha genericamente chamando de “os indigenistas” é um complexo de diferentes atores em relação de aliança política, formada a partir de certos consensos. O principal deles: a defesa dos direitos indígenas pela demarcação do território. O mesmo ocorre com os ambientalistas e Pataxós, todos atores coletivos que mantém as diferenças internas omitidas quando se inserem na arena de disputas com atores externos. No caso dos órgãos da administração pública – FUNAI e IBAMA – é evidente a diferença entre a ação federal e local, e com isso a própria expectativa dos demais indigenistas e ambientalistas quanto à atuação local e nacional dos órgãos. Mas essa “defasagem” é a razão prática da existência 117 Mera oposição funcional ao “lobby para fora”, promovido pela ANAI. 49 simbólica desses órgãos; seu sentido mais amplo não é descaracterizado por “exceções”. A ação local é particular ao contexto e jogos de relações sociais e é nessa arena que o Estado se consolida, a partir de um argumento ético que engloba e torna inquestionável ao nível local seu interesses, pois seriam esses adequados ao interesse de todos. Na prática ocorre um embate das relações concretas locais com a expectativa do Estado, e o resultado é produzido na relação. Sendo, de perto, todas as intermediações exceções à ação idealizada no nível federal, ficam à amostra os ligamentos que unem e dão sentido ao “jogo” de criação do “nacional” e respaldam a ação política do Estado como moralmente neutra. A micro esfera 118 - da vida íntima, local - é acomodada nas relações com os intermediários do Estado 119 - meso-esfera. Tal acomodação não é apenas atribuída, mas negociada com os significados e sistemas políticos locais, por meio de processos de construção de consensos explícitos; pelo menos quando se trata de um Estado com pretensão de democrático. Nesse sentido, é importante repetir que mediações de conflitos ou criação de políticas públicas são democráticas quando estão representados todas as posições coletivas e tendo essa paridade, no mínimo comunicativa, com as demais vozes concorrentes. É obrigação do Estado democrático garantir tal condição. Fecha parêntese. Após a pressão das ONG’s citadas e do MP, a FUNAI finalmente reconheceu em Informação Técnica do DEID que a demarcação de 1980 era inconsistente tecnicamente e um equívoco administrativo, e que a demanda dos Pataxós era legítima 120 . Os ambientalistas, após o seminário, também trataram de apressar suas ações. O que os motivava, além da evidente preocupação da perda de biodiveridade, etc, era a possibilidade de territorializar a região como World Heritage Site, título concedido pelo Protected Areas Programme da UNESCO. Isso seria largamente relevante, pois internacionalmente a área não seria legitimada como território indígena e tornaria mais cara aos indigenistas a luta pela descaracterização da área como Parque. A região era considerada International Biopshere Reserve desde 1991 e os conflitos com os Pataxós e ações explícitas pela demarcação e aumento de territórios da TIBV e Corumbauzinho poderiam se apresentar como entraves políticos. A articulação para o projeto de gestão compartilhada exerceria um papel fundamental para manter a integridade do Parque. A leitura dos Pataxós e indigenistas sobre a articulação dos ambientalistas era a seguinte: alinhar o interesse dos índios com o dos ambientalistas sem que para isso fosse necessário estabelecer quem é “dono” do território, ou quem detém o direito de usufruto dele. Mesmo assim as duas propostas não eram compreendidas como excludentes, pelo menos para ANAI, GAMBÁ e CEPEDES, que por diferentes razões viam possibilidades vantajosas – do ponto de vista da gestão do território – no recebimento dos recursos do Estado, via órgão 118 Utilizo “micro” e “meso” esferas de H. Groenewold, apresentado por Roberto Cardoso, 1996. Aqui novamente alusão ao conceito de E. Wolf. 120 (Santos, 1997; citado em Sampaio, 2000) 119 50 ambientalista. O CIMI, pelo contrário, desde as deliberações no seminário se posicionou contra o projeto. O GAMBÁ, sendo um dos intermediários para a criação do Projeto de Cooperação Técnica, demonstra uma posição interessante quanto ao IBAMA. Referindo-se a alguns ambientalistas que acreditam que realmente as populações tradicionais devam ser retiradas de áreas demarcadas como Parque Nacional, Cunha afirma: “você tem que ganhar essas pessoas”; isto é, dentro de uma comunidade de argumentação inter pares é necessário construir consensos cognitivos que apontem que comparativamente é mais vantajoso manter as populações tradicionais na área das UC’s, fomentando junto a elas alternativas de desenvolvimento harmônicos com a conservação da natureza. As “batalhas” argumentativas entre os ambientalistas têm produzido certa flexibilidade do órgão ambientalista oficial, se compararmos as últimas gestões às anteriores. O sucesso de um projeto como a gestão compartilhada significaria para o GAMBÁ um exemplar demonstrativo da eficiência de seus argumentos em favor da presença dos Pataxós na área. Além disso o GAMBÁ atenta, após o seminário, que uma excelente possibilidade de articulação com os indigenistas, principalmente a ANAI, era argumentar em favor de corredores ecológicos. Se por um lado quanto à FUNAI os indigenistas consideram a administração local como difícil e problemática e a federal menos dispersa e possível parceira; por parte dos ambientalistas ocorre o contrário em suas expectativas quanto ao IBAMA. Por terem sede em Salvador, GAMBÁ e ANAI passam a dialogar mais e constroem consenso sobre a criação desses corredores ecológicos 121 , mas legitimam a necessidade dos mesmos de diferentes formas. Enquanto os indigenistas dizem: “(...) a terra sendo indígena, o IBAMA perde a posse do Parque, mas deve continuar atuando na área, porque é sua função, fomentando a preservação junto aos índios, donos da terras, e criando corredores ecológicos”122 . Já Cunha considera os corredores como complemento às unidades de conservação, insuficientes para preservar a Mata Atlântica. O projeto de cooperação é tido como a ação adequada, mas que fracassou inicialmente colocando em risco todo o empreendimento. Cunha percebe o rompimento dos acordos e delega a isso o fracasso do seminário enquanto instrumento de mediação: “(...) se na oportunidade quando a gente começou com os índios elaboramos a proposta a questão tivesse sido viabilizada rapidamente, a situação seria muito melhor em nível de um certo acordo, um acordo perfeito até entre o movimento de proteção ambiental lá tanto governamental quanto não, com os próprios índios e os indigenistas.. Mas houve um certo desgaste nisso aí pela demora de se viabilizar um projeto que já poderia estar funcionando há muito tempo. O importante lá não é só discutir exatamente quem é o proprietário daquela terra.. quer dizer. Eu acho que a gente tem que criar um consenso e criar diretrizes de proteção da 121 “O projeto Corredores Ecológicos, componente do Programa Piloto para Proteção das Florestas Tropicais Brasileiras – PPG7, tem como principal objetivo a conservação in situ da diversidade biológica das florestas tropicais do Brasil, por meio da integração de unidades de conservação públicas e privadas em corredores ecológicos selecionados. Os corredores ecológicos são definidos nesse projeto , como grandes áreas florestais biologicamente prioritários e viáveis para a conservação da diversidade biológica, composto por conjuntos de Unidades de Conservação, Terras Indígenas e áreas de interstício”. (Projeto Corredores Ecológicos. Termo de Referência para a Contratação de Consultoria: Levantamento de aspectos ecológicos de espécies carismáticas na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Amaná); http://www.mamiraua.org.br/arq/rdsa_pesquisa_especie_carismatica.pdf 122 L. Sampaio 51 região mesmo.. mesmo se virar uma terra (...) uma terra indígena, bota os índios lá e eles vão fazer o que quiserem aí...aí vão destruir a mata até porque a pressão em cima deles é muito grande e eles sabem que o apoio que a FUNAI dá é muito débil, limitado ou quase não existe...Então de repente botar lá uma comunidade indígena numa área complicada e até a sobrevivência é difícil pode ser o fim daquele remanescente florestal, então agente tá sempre disposto a conversar melhor e eu acho que esse projeto é uma alternativa importantíssima de ser viabilizado e ter sua gestão melhorada (...) aqui se pode fazer um projeto demonstrativo de gestão participativa entre a comunidade tradicional e proteção ambiental (...) veio o Ministro anterior aqui e criou a pareceria que é a gestão participativa do Parque, mas ficou num evento, se você num dá conseqüência fica complicado e esse desgaste dessa comunidade indígena foi um pouco por aí (...)”. 123 Grifo acima pontos de discordância entre o GAMBÁ e a ANAI para demonstrar que a legitimação de sua parceria percorrem caminhos cognitivos bem diferentes. Veja L. Sampaio: “o contato entre FUNAI e IBAMA é muito precário ou inexistente em nível federal, pouco se conhecem, pouco trocam informações sobre suas demandas. Outro agravante é a dinâmica dos significados de Parque e TI. Nos anos 60 pensava-se numa simbiose entre os conceitos, exemplo clássico do Xingu. Índio era pra ser preservado como um detalhe da natureza. Depois, quando conquistam a identidade de “homens como nós”, numa luta histórica por cidadania, passam a ser vistos como ameaça à preservação e risco à integridade das Unidades de Conservação. (...) o problema do IBAMA é esse, o IBAMA costuma dar muito aos “seus” parques ao invés de serem “nossos” parques, né...e não cuida da preservação da área que não sejam os nossos parques, nossas reservas, os nossos, aliás o IBAMA adora falar essas coisas. Quer dizer, área indígena pode ser devastada à vontade porque não é área do IBAMA? Na verdade o Ibama por lei tem atribuições de zelar pelo patrimônio ambiental em todo lugar do país (...)”. 124 Em 1998, a ANAI aceita compor uma equipe para se elaborar o projeto de gestão compartilhada. Para L. Sampaio – ANAI – tratava-se de garantir recursos para ações coletivas dos Pataxós, como a criação de cooperativa de artesanato, por exemplo. Segundo ele isso poderia contribuir para a mobilização e autonomia da população indígena, preparando-a para administrar seu território, logo depois da pretensa redefinição da área como Terra Indígena. Naquele ano Sampaio realizava junto a Jean – biólogo coordenador do projeto de cooperação técnica – um estudo de impacto em Coroa Vermelha, como preparação para a celebração dos 500 anos do Descobrimento. Milene, atual gerente do Parque, se aproxima dos Pataxós em Coroa Vermelha quando assume a Secretaria de Meio Ambiente de Porto Seguro na gestão PFL. Lá ela desenvolve com sucesso o Projeto da Jaqueira, que visava a comercialização do artesanato, dentre outras atividades. Esse grupo e ainda representantes do GAMBÁ e IBAMA – à época Milene não representava o órgão ambientalista – trabalho, portanto na proposta. A configuração do bloco dos ambientalistas é também heterogênea, como se percebe. Vendo o amadurecimento político dos Pataxós e a consolidação política pela criação do GT reagem argumentando em favor do projeto de gestão compartilhada, o que tem como preço, flexibilizar, pelo menos nesse caso, o conceito de Parque. Isso só se torna possível em nível local. Daí infere-se a maior facilidade que têm os ambientalistas da sociedade civil para dialogar e criar soluções alternativas junto ao IBAMA local. Em nível federal não há qualquer possibilidade 123 (Cunha em entrevista) (L. Sampaio em entrevista) 124 52 político-jurídica de modificar o conceito de Parque, dessa forma cria-se exceções locais que satisfaçam a demandas específicas. No caso de Terras Indígenas ocorre o contrário. Não há interesse dos indigenistas locais em negociar partes de territórios ocupados tradicionalmente. Administrações locais do órgão indigenista comumente são acusadas por populações indígenas de negociação de territórios, mediadores de arrendamentos, dentre outras práticas ilegais. Ao passo que no nível federal, onde são minimizadas ao máximo as redes de relações locais e “jogos” de lealdades, a FUNAI parece ter uma postura discursiva mais firme em favor das demarcações 125 . E assim artefatualmente, em processos de negociação de significados, categorias de território se reproduzem diferentemente. Com elas toda a significação do espaço e das relações humanas. Os Pataxós, frustrados pela malograda tentativa de Retomar o Parque em 97, se recolhem nas aldeias e retomam as articulações políticas entre eles, reforçando suas convicções. O processo de convencimento e amadurecimento político deixa à amostra as diferenças. No próximo sub tópico apresento os faccionalismos e suas modificações desde a tentativa por Retomada em 1997. A proposta articulada no seminário, acordada por todos e rapidamente inviabilizada fez com que os ambientalistas que insistiam no projeto caíssem em descrédito por parte dos Pataxós. Os ambientalistas percebiam isso e viam no apoio da ANAI, que tinha a confiança dos índios, uma oportunidade para modificar o quadro de expectativas. Os trabalhos de elaboração do projeto continuaram na parceria GAMBÁ/IBAMA/ANAI, uma vez que o MMA dava sinal verde em termos de recursos. A criação do GT também estava sendo esperada para muito breve. ANAI, CIMI, FUNAI e MP davam todos os indicativos que era inevitável sua criação. Percebendo a dinâmica das negociações tanto no caso do GT quanto na criação do projeto, os Pataxós marcam uma assembléia em Boca da Mata para se posicionarem. Já estamos em agosto de 1999. Esse seminário é o ápice da organização política Pataxó, desde o deslocamento geográfico do centro político Pataxó da ABV para ABM. É a consolidação tácita do posicionamento do grupo em favor do reconhecimento de suas demandas pelo Estado: cidadania e direitos. A maioria dos participantes era da ABM e aldeias, ou aglomerados subjacentes, ABV também foi representada. A reunião durou três dias. Em campo estimulei-os a falar sobre o conteúdo das discussões, mas muito pouco disseram. O volume de informações adquiridas não permitem dar um panorama completo sobre as discussões, mas atentam para alguns pontos interessantes. Primeiramente que a assembléia buscava decidir de uma vez por todas a Retomada do Parque. Segundo, que as deliberações a favor da Retomada apontavam duas justificativas: o tratamento dado aos Pataxós pelos guardas do Parque durante toda a história do conflito e porque consideravam que a administração do Parque não estava cuidando bem de suas matas. Não só uma 125 Não há dúvida que há diversas administrações / administradores com postura alinhada à sede em Brasília. Acima pretendo apenas caracterizar que administrar em nível local significa negociar os interesses ditos nacionais competentes ao órgão, o que necessariamente envolve mudanças de perspectiva pois os significados passam por lentes locais e arranjos de relações locais. 53 vez afirmaram que os “brancos” entravam no Parque para retirar madeira com o consentimento e acordo do “pessoal do IBAMA”. Cuidar do Parque como lugar em que a Mata deve ser protegida do desmatamento por parte dos não índios foi a demanda fundamental. Mais que isso, serem ouvidos pelo Estado sobre a gestão do Parque, serem reconhecidos como capazes de administrá-lo com recursos do Estado, “domesticarem” ao seu modo a ação do IBAMA local; enfim, serem sujeitos de sua própria história e incorporados pela nação como dignos e responsáveis cidadãos. A consciência de seus direitos encontra aí, como dito, seu cume. A fala de Zé Baraiá, cacique da ABV é ilustrativa disso: “Faz dezoito anos pra cá que nós já tinha tanta garantia que a terra era nossa. A gente achou que o IBAMA não tava cumprindo com o dever certo. Muitas vezes, as madeiras mais preferidas, o IBAMA fazia algumas influências. A gente sentia isso algumas influências tipo assim, atuar por um amigo pra tirar as melhores madeiras as melhores como jacarandá sim, ai dentro da área , ai eles trouxeram influência e deixaram esse pessoal tirar as madeiras melhores eles deixavam o pessoal caçar dentro da área. Fiscalizava a área só pela estrada de carro, não entrava dentro da área pra ver o que estava acontecendo dentro da área. Nesse momento a gente via - que a gente também como índio andava por dentro dessa área toda vida - que não tava sendo bem fiscalizada a área. Por esse motivo os índio chamaram a discussão todos os índios aqui da região pra que nós ocupássemos a área pra nós mesmos proteger a área, porque o índio quem mais conhece dessa área ali é ele porque ele já nasceu, criou nela e viveu não é, nós conhece isso ai que nem a palma da mão então nós achamos por bem ocupar a área para que nos mesmos preservasse a nossa terra.” 126 Chegamos a um ponto absolutamente relevante. Apresentei os dois capítulos anteriores para demonstrar como a história dos Pataxós é profundamente relacionada com a história e dinâmica de implantação do Parque. Procurei estabelecer indicativos da “tomada de consciência” dos Pataxós sobre seus direitos, o que foi feito na relação de conflito com os guardas. Temos a premissa que o conflito gera formas particulares de sociação, e sendo assim é dada a hora de expor minha percepção quanto à demanda que estava em jogo quando se decidiu pela Retomada, justamente na assembléia Pataxó. Defendo que não era propriamente a presença física do IBAMA que motivou os Pataxós a promover a Retomada, como simplificam os ambientalistas e até mesmo muitos indigenistas. Essa demanda é muito mais presente nos discursos de CIMI, ANAI, MP e atualmente FUNAI que na dos Pataxós. O IBAMA é tido como mal administrador do seu Parque – dos Pataxós. Além disso não leva em consideração o argumento Pataxó nas decisões que incidem diretamente no seu território e seu cotidiano. Não poderiam, do seu ponto de vista, aceitar tal situação, já que consideram o IBAMA, em nível local, um órgão que deveria governar para eles, porque é deles a área. A Retomada que virá em agosto é, ao contrário do que parece, a demonstração simbólica da apropriação de tudo o que representa IBAMA para os Pataxós, sua consideração como primordial para a preservação na área. Demonstram a partir disso, o cerne do conflito argumentativo: a diferença de perspectiva quanto a como e o que são preservação e Parque, e para que e quem se dirigem, por meio da administração do Estado. 126 Seu Zé Baraiá, cacique da ABV 54 Muitos relatos deixam claro a tensão que passam para tomar a decisão da Retomada pois percebem que a retirada da administração do IBAMA da área pode desprotegê-los dos fazendeiros e do poder político local, que àquela altura já pressionavam intensamente pela não demarcação da área como TI. Aliás, principalmente os mais velhos, alegam que se não fosse o Parque os Pataxós e seu território jamais teriam resistido às frentes de exploração cacaueira, sulco-alcooleira, madeireira e da celulose ou à Guerra de 51 e as indenizações dos anos 60. Muitos não índios foram indenizados e saíram definitivamente da área. Os Pataxós não tinham qualquer dúvida quanto a seus direitos sobre a área, não colocavam em discussão a “presença” do que o Estado considera como ParNaMP, mas sua própria competência administrativa, o direito de gestão sobre aqueles recursos. Os Pataxós não têm uma visão compartimentada da administração pública, e para eles são perfeitamente congruentes a administração pública de um UC de uso indireto e uma terra indígena. O objetivo da Retomada não é apresentado, portanto, como a expulsão do IBAMA, mas o poder sobre sua gestão, o controle social dos recursos do órgão ambientalista e a deliberada participação nos processos de decisão. Ações prático-objetivas são indissociáveis de um sistema ético. Nesse sistema Pataxó a Retomada representava mais a revolta dos índios por serem desconsiderados nos processos de decisão sobre a área e estarem pouco ou nada assessorados pela FUNAI na conquista de seu território do que a aniquilação do IBAMA ou sua expulsão literal. O IBAMA é uma instituição internalizada simbolicamente pelo grupo, ator central da história coletiva. A demanda da Retomada é a gestão do território; demanda essa passível de ser sentida no nível particular do conflito. Menos que expulsar o IBAMA queriam conquistá-lo, vencer o inimigo e exercer poder sobre ele. A falta de planejamento ou descumprimento de planejamentos sobre quando e como seria adequado proceder nas relações com o IBAMA após a Retomada permitiu arranjos que faccionaram o grupo, ou reconfiguraram faccionalismos anteriores. À parte regressões inatingíveis, como o descobrimento do Brasil, o IBAMA nunca foi pensado como ausente na região; pelo contrário, foi a falta de sua presença - o não cumprimento dos acordos firmados no seminário, o fechamento do Parque, dentre outros fatores - que motivou a Retomada. Os Pataxós sentiam-se feridos moralmente porque estavam no ápice de sua organização política em 1996/7, negociaram com o IBAMA, apresentaram suas demandas, esperavam ser reconhecidos como os protagonistas da gestão do território, quando em resposta viram desconsideradas tais expectativas/acordos. Além disso, a FUNAI estava desde 1991 inoperante na área, os únicos interlocutores vinham sendo CIMI e IBAMA, e mais perenemente ANAI, que trabalhava mais o “lobbie para fora”. Há ainda outro dado que considero o estopim da Retomada. Trata-se das comemorações dos 500 anos do descobrimento do Brasil que se aproximavam. Muitos povos indígenas se dirigiam para a região para protestar e tinham seus “parentes” Pataxós como anfitriões. 55 Quando tento demonstrar que os Pataxós não queriam a expulsão do órgão sobre a Retomada procuro situá-la na micro esfera, ouseja a partir da perspectiva da vida cotidiana dos Pataxós, suas relações imediatas e íntimas com o que chamam de Parque. Entretanto, no nível da meso-esfera, onde atua o Estado, “lugar” do planejamento de políticas, essa demanda não pode ser compreendida a priori. Primeiro porque o Estado não está comprometido com arranjos locais e não faria sentido como unidade nacional se o fizesse literalmente. Segundo porque não havia tal predisposição no caso dos Pataxós nem mesmo dos supostos intermediários locais até o seminário de Itamaraju. E finalmente porque TI e Parque são categorias excludentes de administração do território do ponto de vista legal (meso-esfera). Se no plano da vida cotidiana a presença do órgão ambientalista não é questionada às últimas conseqüências, na esfera “meso” os Pataxós defendem assiduamente a criação da TI em detrimento do ParNaMP. Entre as categorias de entendimento micro e meso não há instrumentos que estabeleçam um elo coerente, o que justifica a ambigüidade de posições de intermediários e um “livre” espaço para negociação de posições no conflito. A discordância de muitos Pataxós, principalmente da ABV quanto à realização da Retomada se dá exatamente por medo de que, saindo o IBAMA acabasse a mata e aumentasse a pressão da sociedade local. A grande maioria, entretanto, estava convicta que não poderia mais manter a (não) administração na área, pois além de atentar contra a integridade do território (no discurso político voltado para o nível meso), mantinham veladas as deliberações sobre a gestão. Os três dias foram de muita tensão, representando um esforço coletivo muito dispendioso. Tratava-se de uma “decisão conjunta e muito séria”, com o informou Seu Neto, um dos velhos entrevistados em Boca da Mata. No segundo dia de reunião chegam na assembléia L. Sampaio e a então gerente do Parque, Carmem, solicitando um espaço para apresentar o projeto de gestão compartilhada e discutir a composição do GT de identificação que estava para acontecer, sendo a ANAI responsável por indicar os nomes 127 . Os Pataxós ouvem, mas pedem que se retirem pois gostariam de continuar suas deliberações. Chamam L. Sampaio de lado e pedem que ele volte no dia seguinte sozinho, sem ninguém do IBAMA. Quando ele volta, “encostam-no na parede”: “O que que você estava fazendo aqui com esse pessoal do IBAMA?”. Havia uma plena indisposição contra ele pois não poderiam conceber que ele, logo ele, estivesse trabalhando num projeto que julgavam ser incongruente com a Retomada que ora planejavam. “(...) aquele momento foi um baque”, diz Sumário. L. Sampaio volta para Salvador sem ser avisado da Retomada, mas plenamente consciente que era aquilo que estava por acontecer. No mesmo dia é publicada no DOU a Portaria 685 de 18 de agosto de 1999 da FUNAI, que institui o GT de revisão de limites da TIBV. 127 Sampaio afirma que a FUNAI acreditava que a criação do GT poderia impedir a Retomada, já esperada. Em verdade o efeito foi contrário pois era mais um motivo para consolidar a agenda de Retomadas programada desde 1997. 56 Em verdade, todos os envolvidos estavam cientes que aconteceria, ou que poderia acontecer a qualquer momento. Não somente Sumário e L. Sampaio sabiam que aconteceria, mas o próprio Cunha e o Tosato do CEPEDES, atual gerente do IBAMA de Eunápolis. Inevitavelmente ocorreu. No terceiro dia da assembléia rumaram primeiramente 14 Pataxós seguidos de pelo menos uma centena de outros que foram num bloco separado dos primeiros. “A gente tava ali naquela igreja. Eu mesmo fiquei sem dormir três noites preocupado. Tinha sido criado o GT um dia antes e quando a gente tava em reunião veio a Carmen aqui e a gente perguntou o que ela tinha a oferecer. Ela disse que agente não podia continuar vivendo naquela situação, que queria fazer um projeto. (...) no dia mesmo ficamos a noite toda reunidos. Fomos para a igreja cuidar da tradição... ah, e tinha um guarda, filho do Siquara velho, que era a fera do IBAMA, a maioria dos índios eram revoltados com esse cara. Quatro da manhã, depois de ter tomado chuva e dançado o toré fomos lá pro Monte... cheguamos lá topamos nesse guarda que era o valentão dormindo que nem coragem de levantar da cama ele num teve... nós tudo pintado né.. reivindicar nosso direito pra ver se ele era valente mesmo, se ele guentava mesmo né(...)tinham dois seguranças lá.. acordados.. chegamos e ninguém ameaçou nada com eles e nós num fomos ameaçados.. pedimos para eles que daquele dia em diante era nós que iríamos assumir aquilo lá que eles já se afastassem. Nesse momento a diretora num tava, tava pra Itamaraju. A gente ficou lá, aguardando ela. Ligaram pra ela ela veio e chegou cá encontrou com a gente já lá no Monte, ela também num falou muita coisa né, que num devia falar que ela num ia falar mesmo também que a pressão tava forte e aí a gente tomou a responsabilidade de assumir o Monte. Mas agente sabia que num ia ter as pessoas indicadas pra trabalhar” 128 E ainda: “(...) eu cheguei no dia vinte de viagem ai quando foi no dia vinte e um eu fui pra lá ajudar os parentes que estavam lá, para dar assistência. Foi quando tava o doutor Márcio e Edson que na época era o procurador geral. Eu tava lá direto só vivia lá , Maria do Rosário tava lá também doutora Raquel a procuradora geral da republica de Brasília, o Guga tava lá nesse dia também o pessoal do CIMI, tava tudo lá nesse monte pascal. Se sentaram com os índios pra saber com que sentido nós tínhamos ocupado a área. As nossas propostas pra eles foi assim, que nós ocupamos área porque não estava sendo bem cuidada nas normas do IBAMA na época; mas que as nossas intenções não era pra desmatar a área mas pra preservar, de modo que nós tivéssemos sempre uma lembrança pra mostrar pros nossos filhos essa área ia ser uma área e pode ser uma área para que tanto faz os brancos ou os índios vai ver essa área toda vida verde sem desmatação. Tudo bem, ai o doutor Márcio Vilela falou bem assim, e tinha bem uns quinze Cacique nesse dia, ‘a gente concorda a gente não vai retirar os seus direitos de ser dono dessa área o direito assiste a vocês eu só digo uma coisa, não quero que vocês desmatem a área, nós não queremos que vocês desmatem, nós queremos que vocês preservem isso aqui. Tô lhe advertindo porque isso é o coração do Brasil certo se nós soubermos que vocês retiram uma madeira daí nós vamos e tomamos de novo. Isso doutor Márcio falou pra nós, isso eu ouvi e tô aqui na cabeça até hoje isso nunca sai . Aí tudo bem, assinamos um documento dizendo que essa área nós iríamos preservar , e estamos procurando, Guilherme, fazer o máximo pra ajudar(...)” 129 É possível identificar nos grifos que do ponto de vista Pataxó ocorre uma tomada de competências do IBAMA. Não procederam a retirada e expulsão do material do órgão, pelo contrário disseram que era pra tudo ficar lá que eles cuidariam. Nota-se então a ambigüidade de que eu falava a pouco: por um lado a Retomada representa uma ação no nível da meso-esfera, por parte dos Pataxós, para a retirada do órgão da área e a demarcação da TI, o que descaracterizaria necessariamente o Parque. Mas a ação se legitimava na micro-esfera da ação política do grupo, nas deliberações anteriores, nas convicções estabelecidas ao longo da história do conflito. O interstício entre micro e meso esferas é o palco que nos interessa para compreender como foram as 128 129 Júlio Iberê, cacique de Boca da Mata Zé Baraiá, cacique da ABV 57 articulações para mediar a situação pós Retomada. A ação dos intermediários que materializam o dilema da ambigüidade da construção da “nação”, o próprio objeto de minha preocupação. Na mesma manhã Carmem envia uma carta à Brasília informando os fatos. Os Pataxós enviam uma carta em que expressam seu desejo de tomar conta do Parque e asseguram que o faziam para preservar suas matas, o que o IBAMA não vinha fazendo; recuperar seu território e receber seus parentes no Brasil para rememorar o fato do descobrimento e comemorar sua resistência 130 . Ao assumirem categoricamente que preservariam o Parque tomaram consciência do desafio que os esperava. Os Pataxós sempre consideraram que eles já tomavam conta do Parque, que a área era preservada em função de sua relação com a natureza, completamente desestruturada pelo boom da madeira ocorrido quando da construção da BR101. Mas entendiam que não eram reconhecidos dessa forma pelo Estado, então se comprometem aos termos dele. Dão-se conta que não têm capacidade técnica para fazê-lo do ponto de vista das normas de gestão de um Parque. Sabem que qualquer defasagem de biodiversidade a partir da Retomada iria fortalecer o argumento ambientalista mais radical que considera os índios desmatadores e agentes malignos e oportunistas contra o direito difuso de um meio ambiente ecologicamente equilibrado. A dívida assumida coletivamente pelo grupo afigura-se como meio de pressão dos ambientalistas para negociar soluções, das quais a mais amadurecida até então era o projeto de cooperação técnica e gestão compartilhada do Parque. Os indigenistas, preocupados em agilizar a constituição do GT e o relatório de identificação, articulam com os Pataxós as possibilidades de ação imediata. A partir de então os blocos que ainda tinham alguma interface foram completamente cindidos. O GAMBÁ tenta manter o diálogo com a ANAI, mas esta já não aceitava trabalhar na concepção do projeto de gestão compartilhada, fechando bloco com o CIMI - desde o início contra a proposta. GAMBÁ e MMA – que se sentiu agredido politicamente – procuraram consolidar a proposta de parceria. Exemplo disso é a nota à imprensa publicada no dia 19 de agosto pelo Ministro do Meio Ambiente, José Sarney Filho. Os dois trechos abaixo demonstram o ambiente que se consolidou, pouco afeto à possibilidade de diálogo entre ambientalistas e indigenistas. O primeiro é uma fala de L. Sampaio, o segundo a nota do Ministro à imprensa. “(...) anteriormente eu estava numa posição de assessor técnico do IBAMA, convidado pra se esforçar para a produção de soluções. Ao mesmo tempo era visto como antropólogo que conhece os índios. Eu sabia que eles iam ocupar, era um dado que eu tinha como pesquisador, enquanto técnico, ninguém me disse isso, eu sabia porque eu sabia. O assessor técnico que eles tinham não denunciou o que sabia porque era e é compromissado com os índios e não ia prejudicar sua ação política. Nem fui perguntado sobre isso. Logo depois da ocupação do parque houve um certo rompimento inicial. Jean já achou que era um dado a mais pra propiciar a barganha que ele queria implantar, ou seja, a cooperação técnica e tal, ele achou que a ocupação ia ser um movimento de pressão pra poder emplacar a questão de cooperação técnica e tal. Carmem foi 130 O texto integral da “Carta do Povo Pataxó às Autoridades Brasileiras” é o Anexo I 58 embora, né, ela disse: tô expulsa do meu posto de gestão, ou o IBAMA garante minha presença aqui com a polícia ou vou embora.” 131 “Tenho receio de que a causa indígena, a qual todos nós apoiamos, seja instrumentalizada para transformar-se em ponta-de-lança da devastação de nossas florestas. O Parque Nacional do Monte Pascoal, onde existe uma das últimas vegetações remanescentes de Mata Atlântica, deve ser mantido, em sua integridade, como área de preservação permanente. Tenho certeza de que o Ministério da Justiça tomará as medidas cabíveis para retirar os índios da área”. Como dito o GT tinha sido criado e Carvalho, indicada para coordená-lo só foi saber da Retomada algum tempo depois. Seu relato sobre a primeira visita à área após a Retomada ilustra como se configurava a nova situação: (...) é isso é importante – quando soubemos de minha indicação – estávamos – eu e Pedro - fazendo um levantamento da situação educacional e em algum momento, acho que o próprio Joel Braz levanta a questão de que enfim se era criado um GT 132 e que eles gostariam que eu aceitasse a incumbência. Eu exito. Minha primeira impressão foi negativa, sinto que eles ficam muito chocados com isso. Eu não tinha muito conhecimento prévio da Retomada, tava envolvida com uma série de outras coisas e acho que moçada não quis me dar nenhuma notícia pra não comprometer a minha aceitação do GT. Quando eu soube da Retomada - eu sempre soube que em algum momento eles retomariam e sem dúvida nenhuma supunha que a proximidade do famoso 22 de abril seria talvez a data mais interessante pra esse objetivo - me surpreendeu a sintonia que algumas lideranças estavam mantendo e a sua articulação com algumas agências governamentais, fundamentalmente o próprio Joel Braz. T A mobilização dos Pataxós para ocuparem a área Retomada é intensa. Nesse período são criadas diversas aldeias nos arredores e dentro do Parque 133 , reconfigurando o espaço completamente. A partir de então uma nova oposição é criada: aldeias dentro da área já demarcada e homologada (1991) e aldeias fora dessa área, evidenciando novas construções artefatuais do espaço. Daí vão surgir todas as alianças posteriores e a divisão das facções em função das negociações dos ambientalistas para conceber finalmente o termo de cooperação técnica. Os intermediários do Estado assumiram certa autonomia nesse momento pois eram os únicos agentes considerados capazes de produzir soluções que não colocassem em risco a legitimidade do Estado unívoco e coeso. Jean e Milene assumem esse papel por parte dos ambientalistas; Sumário e Ádison do CIMI pelos indigenistas. No dia 20 de agosto, um dia depois da Retomada, o IBAMA local convoca o MMA e FUNAI para uma reunião por meio do ofício 411/99 – IBAMA/BA para solucionar o problema e discutir a viabilização imediata do projeto de cooperação. Note que o projeto antes incoerente com as expectativas do Estado, de difícil viabilização rapidamente surge como instrumento ideal para a mediação, mesmo sendo ele absolutamente contraditório já que consolida a sedentarização dos Pataxós na área do Parque. Procura-se uma solução imediata, capaz de conciliar duas pastas do 131 Sampaio em entrevista Líder da Frente de Resistência e Luta Pataxó, tem conhecimentos sobre táticas de retomada e foi fundamental figura na pressão política, junto com o Ministério Público, ANAI e CIMI para a criação do GT 133 Aldeia Nova do Monte (Pé do Monte), Guaxuma, Craveiro, Pequi, Barra do Caí, Alegria Nova e Corumuxatiba. 132 59 Estado que entraram em contradição, e que necessitavam rapidamente de reparo e “arquivamento”. O sub item 3 dos “Subsídios para a reunião de negociação” prevê a “(...)contratação de um determinado número de representantes da comunidade indígena para trabalhos no Parque Nacional, nos serviços de vigilância, fiscalização e guias turísticos. Com essa participação seria atribuído aos índios a conotação de guardiães da Mata Atlântica”. O grifo meu representa mote para a negociação do bloco dos ambientalistas e FUNAI com o Conselho de Caciques. Nesse momento o projeto de cooperação passa ao conhecimento de ambientalistas do Brasil inteiro, ganhando força política por meio do apoio, em notas, panfletos e jornais, resultado da articulação do IBAMA local e ONG’s ambientalistas locais. A Rede de ONG’s Mata Atlântica chega a afirmar que se trata de “um falso conflito, pois os poderes públicos não têm sido capazes, sequer, de fiscalizar adequadamente a área do PNMP frente ao assédio de madeireiros ou assegurar condições mínimas de subsistência aos índios(...)”. Tal percepção demonstra o esvaziamento de todo o significado do conflito e simplificação da complexidade de qualquer mediação que leve em consideração as demandas da micro-esfera. Aumenta a pressão pela desocupação do Monte, não pela violência mas pela negociação de vantagens aos Pataxós. A ata da reunião realizada em Eunápolis confirma 13 pontos de acordo entre os participantes. Dentre eles a constituição imediata do grupo de identificação e revisão de território da TI, treinamento de cinqüenta índios para fiscalização e guias do Parque, aquisição de cinco veículos para serem distribuídos na área, aquisição de dois barcos de pesca, implantação de 190 hectares de roças, construção de oito casas de farinha, instalação de energia elétrica em Boca da Mata e retorno imediato da gerência do Parque. Diante de tantas “vantagens” oferecidas inicia-se o processo de faccionalismo, ou reconfiguração de faccionalismos anteriores. O MMA procurou garantir os recursos imediatamente, pelo menos discursivamente. A reunião contou com lideranças Pataxós e diversas autoridades locais e federais como o Procurador de Ilhéus e foi realizada dia 24 de agosto de 1999. O preço a ser pago era a imediata desocupação do ParNaMP, o que não ocorreu. A imprensa chegou inclusive a divulgar que os Pataxós estariam se retirando do Parque. A resposta foi uma carta do Conselho de Caciques reiterando seis pontos fundamentais. O principal deles: “Denunciamos ainda a ação desrespeitosa da FUNAI que veio no dia 24 de agosto forçar a nossa retirada da terra, em troca de recursos que já são nossos, mas que até o momento os seus diretores não implementaram nem cumpriram com o seu papel, que é de proteção e resguardo dos nossos direitos. Por que a FUNAI não cumpriu desde antes no atendimento de nossas reivindicações? Por que só agora tenta nos dividir e oferecer recursos para nos impressionar?” Mas o impacto das propostas foi sentido pelo Conselho de Caciques que começa aí seu enfraquecimento político e cisão. 60 Àquela altura o CIMI tinha assessorado os Pataxós a imputar um processo de manutenção de posse que rapidamente perdeu a liminar. O IBAMA por sua vez entrou contra o CIMI e os Pataxós solicitando a reintegração de posse do Parque. O IBAMA consegue a liminar a seu favor e tem disponível mais um instrumento de manipulação política dos Pataxós pela cooperação. Há diversas reuniões para mediação do conflito estabelecido, com participação decisiva da 6º Câmara da PGR, que intervém no sentido de aconselhar que não seja feita a retirada violenta da população indígena. Muitos outros atores também se pronunciam como a WWF, IPHAN, EMBRAPA, etc. As negociações de gabinete para ações que viabilizassem a subsistência Pataxó em harmonia com a integridade do Parque tiveram uma dinâmica recorde. Em 15 de setembro de 1999, no ofício 1440/99-MMA/GM o Ministro do Meio Ambiente afirma que “poderá oferecer (...) recursos” para desenvolver ações similares às propostas anteriores e com o mesmo preço: a desocupação da área ou pelo menos a integridade do Parque. Evidentemente os Pataxós que promoveram a ocupação não concordaram com a desocupação, mas já se mostravam divididos quanto a aceitação ou não dos recursos. Temerosos de não conseguirem responder à preservação e a dívida assumida, as lideranças de Boca da Mata cedem por aceitar recursos, mas com a condição de que os próprios índios compusessem o quadro institucional. Por outro lado surgiam novas lideranças nas aldeias criadas em função da Retomada e fora da área demarcada. Muitas dessas lideranças não concordavam pois julgavam que a aceitação teria um preço muito alto. Mesmo assim o então cacique da aldeia BM, Alfredo Braz e Zezito Pataxó articulam com o IBAMA, FUNAI e MMA já bastante afastados de suas bases no que diz respeito a processos de decisão coletivos, como fora a Retomada. Concluem e assinam em outubro de 1999 uma proposta de manejo para o Monte junto ao administrador regional da FUNAI. Nessa proposta fica materializada as novas bases de negociação entre ambientalistas e esse pequeno grupo de lideranças Pataxós. A partir de então a cisão ocorrida na Retomada entre ambientalistas e indigenistas reflete na organização política Pataxó e é incrementada na medida em que as vozes de lideranças antes levadas em consideração passam a ser desconsideradas. O projeto perde todas as possibilidades de servir como instrumento de mediação, sendo a partir de então, o eixo do faccionalismo Pataxó. Os intermediários ambientalistas passam a representar o meio para alcançar vantagens políticas nas aldeias e inclusive desestruturar o Conselho de Caciques. Enquanto Alfredo e Zeito articulam a cooperação as demais lideranças da Retomada promovem pressões para a demarcação, cobram a criação e indicação dos nomes do GT imediatamente, o que segundo eles vinha sendo dificultado pela FUNAI, comprometida em negociar o termo de cooperação técnica. No dia 10 de novembro o Correio da Bahia noticia: 61 “Índios Pataxós ocupam sede da FUNAI em Eunápolis; a tribo reivindica maior empenho no processo de demarcação das terras do Parque do Monte Pascoal”. Rapidamente o MMA dá um novo formato à proposta de manejo anteriormente elaborada pelas então lideranças de BM. Essa proposta é utilizada internamente por eles para conquistar outras lideranças descontentes. De fato conseguem certo apoio político na área, mas não incluem as novas lideranças nas articulações que ocorrem no nível federal. Sua posição como intermediários passa a ser questionada intensamente, e a legitimidade moral de sua mediação enfraquece. Daí o distanciamento observado das lideranças que apóiam o projeto de cooperação de seus representados, enquanto os discordantes do mesmo representam e se legitimam dia a dia junto às bases. Uma das primeiras ações seria o treinamento de brigadistas de incêndios florestais, com possibilidades de contratação posterior. As duas lideranças começam a se apoderar gradativamente e ocupar a posição de intermediários que contemplam a diversidade de posições nas aldeias. Iniciam a articulação com Milene em função de sua experiência em Coroa Vermelha enquanto outras lideranças pressionam pela criação do GT e promovem Retomadas em fazendas vizinhas. Esta era a configuração do conflito no final de 1999, início de 2000. Alfredo e Zezito Pataxós articulavam com alguns aliados, principalmente o cacique da Aldeia Trevo do Parque para executarem o lobbie nas aldeias em favor de projetos de desenvolvimento. Enquanto isso, mais próximo às bases, outras lideranças pressionavam pelo início imediato dos trabalhos do GT de identificação. A FUNAI era acusada de dificultar os trabalhos e tentar negociar a terra indígena. CIMI e ANAI foram incisivos nesse sentido. Muitas Retomadas foram promovidas pelo grupo de lideranças Pataxós que não se alinharam a Zezito e Alfredo. A mídia divulgava rapidamente as “invasões” a fazendas vizinhas do ParNaMP e indicava que poderiam atrapalhar os preparativos para a comemoração dos 500 anos. Os intermediários ambientalistas locais utilizavam as armas que tinham para legalizar o projeto de gestão compartilhada e justificar sua posição. Muito esforço foi feito para negociar a não retirada dos índios pela justiça. Isso significou a própria negociação do conceito de Parque para a área, pois os Pataxós permaneceriam. As lideranças de BM colocavam como condição de apoio ao projeto sua incorporação no quadro administrativo do Parque. A articulação dos intermediários do IBAMA na meso-esfera consistia em apresentar o sucesso que vinham tendo na micro esfera, junto aos Pataxó. São nos níveis interemediários que ocorrem os ajustes e arrumações da micro-esfera na meso, por meio de acordos promovidos em comunidades de argumentação particulares ao nível intermediário. 62 Tomemos um exemplo. Milene em e-mail 134 , à época confidencial, encaminhado a Inah Simonetti, do MMA procura convencer o órgão de apresentar por escrito a desistência em cumprir a liminar, já que funcionava como impedimento do diálogo entre ela e as lideranças de BM. Mas ela afirma que “(...) a proposta de termo de acordo com o governo estah, cada vez mais, aceita por todos, o que irah facilitar muito o fechamento de um acordo”. E continua, “esses são resultados de um trabalho de construção participativa, sensibilização e fortalecimento de uma confiança recíproca, que há meses estamos construindo e acreditamos profundamente que essa eh a única via possível de salvamento das florestas do parque” 135 Como apresentarei na seção seguinte, não houve qualquer processo de construção de consensos nas aldeias. Além da ausência completa de documentos sobre supostos processos, a própria comunidade massivamente afirma que não participou de qualquer reunião para a concepção do termo de cooperação técnica. A confiança recíproca estabelecida era apenas entre intermediários do Estado e intermediários da comunidade, selecionados como tal como interlocutores “capazes” de criar consensos. O processo de negociação é bastante questionado pela comunidade de maneira geral, CIMI e ANAI. As relações de confiança e reciprocidade não ocorrem entre nível micro e meso, mas no nível intermediário. Houve, isso sim, reuniões preparativas para a criação da brigada e a execução dos cursos, mas nada além. Assim percebe-se como o conceito de Parque, enquanto exceção, é tecido artefatualmente por meio de articulações político-simbólicas em função de relações humanas estabelecidas numa arena de interesses em jogo. O mais interessante na fala de Milene é o último grifo. Nele se verifica como a intermediária funciona como um amortecedor entre a nação e os intermediários indígenas. Salvar as florestas é um objetivo supracomunitário, para utilizar Wolf, mas “a única via possível” de fazê-lo é manter a intermediação. Ou seja, o objetivo não é solucionar o conflito estruturalmente, o que tornaria supérflua a mediação, mas manter uma situação ambígua administrável apenas por intermediários que ocupam determinadas posições na rede de relações. Sua função era tornar viável a preservação mesmo em face do conflito; administrando-o. Seria atributo dessa intermediária, assim como no caso do México analisado por Wolf, mobilizar “homens cujas posição e personalidade lhes permitem aceitar os novos padrões de comportamento orientado para a nação”, no caso para a ação do IBAMA e MMA na área. Milene planta as bases para o estabelecimento, junto aos Pataxós a seu favor, de relações patronocliente, modelo cunhado por Wolf que trabalharei no próximo sub título. Segundo Wolf os intermediários do Estado “agem amiúde como amortecedores entre grupos, mantendo as tensões que alimentam a dinâmica de suas ações”. O trecho acima parece ilustrativo desse papel dos intermediários do Estado. 134 Arquivo da Secretaria de Biodiversidade e Florestas - SBF E-mail encaminhado em 09 de fevereiro de 2000, às 23:35h, quarta feira do e-mail [email protected] para [email protected] 135 63 Sobre intermediários da comunidade selecionados para atuar junto aos intermediários da nação Wolf afirma: “O indivíduo que busca poder e reconhecimento fora de sua comunidade local deve modelar seu comportamento para adequar-se a essas novas expectativas. Ele precisa aprender a atuar numa arena de amizades e alianças em mudança contínua, que se formam e se dissolvem com o aparecimento ou desaparecimento de novas oportunidades políticas ou econômicas. (...) ele precisa, portanto, aprender também as formas culturais em que esse comportamento manipulador se expressa. Os indivíduos capazes de atuar em termos de expectativas tanto orientadas para a comunidade como para a nação tendem a ser selecionados para a mobilidade. Eles se tornam os “intermediários” econômicos e políticos das relações nação-comunidade, função que traz suas recompensas”. 136 As lideranças Pataxó de maneira geral e de Boca da Mata particularmente atentaram que o cumprimento do acordo proposto na carta da Retomada só poderia ser cumprido com a ampliação das redes de relação. E se as expectativas da comunidade dependem de novas alianças, essa comunidade deve se preparar para responder as expectativas dos novos atores. Entre os Pataxós esse processo é caracterizado pelo surgimento de novas lideranças. O IBAMA, pretensamente o mediador do conflito e responsável moral pela garantia de representação das diferentes posições políticas na construção do projeto, parcializa as alianças, o que é considerado pelos excluídos como um insulto moral 137 . Os intermediários do IBAMA atuavam, portanto no convencimento do projeto tanto junto aos índios como com os demais atores. Os ambientalistas mais radicais exigiram a retirada dos índios da área, justamente no período que se aproximava a comemoração dos 500 anos. Como dito, a ação foi movimentada na justiça e venceram os ambientalistas, conseguindo uma liminar de reintegração de posse. Mas não executaram, configurando uma orientação política nova. Havia, em verdade, a impossibilidade de retirar a população da área. Primeiro porque os Pataxós estavam dispostos às últimas conseqüências para ficar no território. Segundo porque não poderia haver pior “propaganda” que retirar os índios justamente quando se comemoravam os 500 anos, quando todo o país teria sua atenção voltada para o Monte. Mesmo a contragosto dos radicais a única forma de assegurar a intermediação e a continuação do IBAMA na área era mesmo investir no plano de cooperação técnica e “friccionar” o conceito de Parque. Do ponto de vista dos socioambientalistas isso representou uma vitória considerável, e fortaleceu os intermediários do Estado. Todas as entidades sociambientalistas apóiam o projeto de cooperação técnica porque, habilidosamente, seus administradores mantêm velado o faccionalismo gerado por ele, enquanto procuram conquistar espaços nas aldeias. A impressão de Carvalho sobre as articulações para a volta do IBAMA e implantação do projeto de gestão compartilhada: 136 137 (Wolf, 2003:83) (L. Cardoso) 64 (...) num sei como é que essa coisa tem sido feita – a volta do IBAMA e o projeto de gestão compartilhada - ou seja, uma espécie de pressão, uma presença efetiva, com uma representação discreta que efetivamente não implicasse numa ausência muito grande do IBAMA, nesse período de clímax da coisa. É aí que entra a Milene que já tinha uma certa experiência, eu num sei como estes trâmites foram feitos, mas ela e o marido são pessoas quem tem boas relações com o Ministério da Cultura (...) que mais de uma vez procurou o IBAMA, pra evitar uma solução de força e eles efetivamente emergem como duas pessoas confiáveis e com alguma preocupação social-ambiental. Isso gerou novas dissensões, não houve consenso, muito pelo contrário, o número daqueles que apoiaram o termo de cooperação, ou que apoiaram a presença no Parque ali, é muito pequeno, a maioria efetivamente tem uma atitude muito negativa, mesmo inamistosa em relação a essa questão. Criou-se um problema também porque Jean era o técnico ambientalista que compunha o GT. No início de 2000 é elaborada uma versão do acordo de cooperação técnica Nele estavam envolvidos o MP, por meio das 4º e 6º câmaras, FUNAI, MMA, IBAMA e até o MinC. É a versão adaptada juridicamente do plano de manejo proposto anteriormente pelo administrador da FUNAI, Zezito e Alfredo – lideranças de Boca da Mata. Ao final o MP se retira do acordo pois o considera ilegal. Em abril de 2000 o decreto 3.421 do presidente da república altera o nome do Parque para Parque Nacional e Histórico do Monte Pascoal, já que havia sido concedido o título da UNESCO em 1999. Os ambientalistas ganham, dessa forma, mais um instrumento poderoso para negociação de seus interesses. Nota-se que toda a articulação dos ambientalistas passam desapercebidas pelos indigenistas que se ocupavam por pressionar pela identificação da TI. Exemplo disso é o protesto da ANAI, na pessoa de L. Sampaio que afirma que somente em outubro de 2000 fora informado que estavam sendo viabilizados “acordos ilegais” de negociação da terra indígena. O pouco diálogo mantido após a Retomada pode ter sido o responsável pela maior mobilidade e independência de ambos em função de suas demandas. As interfaces eram poucas. Apenas Jean gozava mobilidade pois era membro do GT, como dito, e cabeça das negociações do termo de cooperação técnica. Curiosamente no final do ano entidades ambientalistas nacionais radicalizam a posição contra a presença indígena em unidades de conservação. Há folhetos da WWF, por exemplo, acusando os Pataxós de representarem risco ao Parque, etc. O CONAMA convoca reuniões extraordinárias para discutir a sobreposição de terras indígenas e unidades de conservação, mas os consensos não encontram bases de ação prática, apenas um GT que até hoje pouco evoluiu. Ocorrem as comemorações dos 500 anos com episódios bastante conhecidos em que os índios foram proibidos de chegar a Porto Seguro pelo exército. É um momento de muita tensão para os povos indígena no Brasil, e particularmente para os Pataxós, que se sentiam ameaçados de perder o território da Retomada. Em 2001 ocorre um grande incêndio no ParNaMP e a brigada Pataxó lidera, com apoio de muitos parentes voluntários, o combate ao incêndio. É um momento lembrado por todas as facções como heróico e digno, já que demonstra a capacidade dos Pataxós de gerirem seu território. O reflexo disso é a confiança que ganham no nível federal e, portanto, novos 65 investimentos no termo de cooperação. Desde então ficam também consolidados os nomes de Milene e Jean como as pessoas certas para mediar o conflito na área em nome do IBAMA e MMA. Em 27 de março de 2001 Milene Maia é indicada pela portaria do IBAMA 401 da mesma data como gerente do Parque. As intensas negociações e investidas dos ambientalistas finalmente recolocam a gerência da área sob o comando do IBAMA. Os processos de negociação junto às aldeias não são claros, mas é possível verificar indicativos a partir dos relatos coletados em campo. O acordo de cooperação técnica não estava concluído, mas era inevitável. aqui e ali...” 138 . Entretanto, quando os intermediários retornam às aldeias, colocam a seguinte questão: quem é a favor e quem é contra o projeto, dividindo literalmente a população nesses termos. Muito poucos apoiavam o projeto, conforme os interlocutores em campo; entre as lideranças o caso era outro. As diferenças refletem no Conselho de Caciques que sofre mudanças. Desde então a FUNAI local se ausenta da discussão e passa a nem mesmo dar a assistência mínima costumeira. O IBAMA, entretanto intensifica sua posição pela cooperação. Sumário, que trabalha mais de perto com os Pataxós contrários a volta do IBAMA e contra o termo de cooperação técnica diz: “Pra tirar os índios né.. a questão jurídica.. e tal..bom..aí tem um segmento a discussão do foco fica muito mais interna nesse momento vamos dizer assim. O GT toca o serviço, mas o Jean passa trabalhar numa proposta de acordo de gestão compartilhada do Parque; ele chega fazer seis versões de uma minuta. Abrem o Parque pra visitação, passam a cobrar entrada, os próprios índios, logo no quente da ocupação e aqui surge um problema interno político que é de domínio desse território do Parque. Isso também é que vai provocar essas divisões e o papel de Jean é de suscitar essas divisões pra poder trabalhar um acordo né. Aí quem manda investir nessa região aqui da entrada do Parque, quem vai dominar politicamente é o Alfredo e o Zezito, que eram da família de Boca da Mata que vem pra cá, mas ao mesmo tempo junto com eles vem outro grupo que também vai disputar o território aqui, são lideranças novas que até então não tinham aparecido; aí o Joel Braz é que tá mais à frente pra disputar esse domínio territorial, não fecham com o povo e então começam a promover retomadas em fazendas próximas. Aí já vem a questão dos 500 anos, tudo acaba brigando, a área ainda tá em disputa porque no programa do governo, o Monte Pascoal tava marcado com listra ministerial o Conselho de Caciques muda, sai o Nailton numa manobra e eles elegem Zezito que num é nem cacique.” A fala de Sumário caracteriza contundentemente a situação de conflito que se estabelece, não só entre indigenistas e ambientalistas, mas entre os próprios Pataxós. De um lado o CIMI passa a atuar somente junto ao grupo liderado por Joel Braz, que criará a Frente de Resistência e Luta Pataxó. De outro IBAMA, MMA e menos frequentemente FUNAI começam a trabalhar o convencimento do máximo de lideranças possíveis pra efetivar a cooperação técnica. Peço licença ao leitor para uma citação um pouco mais longa, mas que é fundamental para compreendermos as reconfigurações políticas dos Pataxós ocorridas em função da suposta mediação do conflito por meio da gestão participativa e compartilhada do território. Além disso, demonstra as diferenças e conflitos de opinião de maneira muito clara e aberta que se estabeleceu entre ANAI e CIMI, por 66 um lado e os socioambientalistas de outro, primordialmente o IBAMA local, Jean e GAMBÁ. Sumário do CIMI: (...) tinha falado “poxa na esfera do Ministério do Meio Ambiente parece que é mais possível um outro tipo de discussão, que não do IBAMA”. Aí sai a chefe do Parque e quebra o diálogo, mas o Jean e a Milene eles, a gente tira o chapéu pra eles, eles foram muito espertos. Porque na verdade o interesse da Milene é unicamente pessoal, um fisiologismo. A gente não se bate, num tem jeito, a prática dela é uma prática de barganha é muito ruim e deseducativa. Milene, pra você vê, ela sai de uma ONG, vai ser da prefeitura do PFL, pra ela é normal, pra gente aí já entra princípios, e ela consegue transitar normalmente. Passa a fazer críticas às ações de retomadas dos índios dizendo que “são invasores, agressores”, e ao mesmo tempo então vem pro Parque, e vem com o mesmo discurso de barganha: “um projeto que tem tanto, que você vai ter emprego”. Por isso que ela ganha algumas pessoas, ela vai trazer ao redor dela no máximo cinco índios aí que cada um prometido emprego. Índios estratégicos, obviamente, é o presidente do Conselho e o cacique de Boca da Mata que é o homem de maior influência. E aí ela passa a uma campanha contra os outros, contra o CIMI, contra ANAI, contra todo mundo. Então é uma questão de falar dela pessoalmente mesmo, a gente tá numa campanha de tirar eles de lá. Nesse novo governo ela tinha que, por princípio, sair de lá. O Jean passa mais ou menos um mês representando a FUNAI na área e logo em seguida eles passam a atuar representando uma entidade chamada Flora Brasil. É nesse meio que ele entra também pra UNESCO e ela garante o emprego no Parque e diz aos outros que também podem ter emprego, que podem ter roupa, radinho de comunicação... (...) então me parece que o IBAMA trabalhou no esquema do convencimento com o próprio Ministério do Meio Ambiente, coisa do tipo: “se não anda aqui, então vamos criar um termo de cooperação técnica entre FUNAI e IBAMA e aí a gente toca independentemente do que que dá, com tempo os índios aceitam”. Nossa pergunta é: como a Milene e o Jean continuam trabalhando nesse projeto e que projeto é esse que até hoje a gente não sabe o que tá acontecendo? A FUNAI chega com um carro com uma tarja lá “Projeto Pataxó” que garante o emprego de motorista pra um, que é pro Alfredo; tanto que o Zezito não aceita porque ele queria um emprego no nível de escritório. A gente não sabe se esse termo de cooperação é o mesmo que é tocado pela Milene, que tem seus emblemas, eu num sei o que que é, nunca conseguimos acertar documentos que diga com que recursos que a Milene tá atuando. O fato é que ela tem tocado o serviço enquanto chefe e muito bem, é uma atuação de intervenção clara, porque o IBAMA tinha uma ação localizada na área do Parque, hoje, age diretamente nas aldeias ali ao redor, em algumas né, age de forma quase no nível da proibição mesmo. Esse é o clima que tem. A Milene dialoga com outras pessoas, sempre nesse nível de promessa. Tanto que quando surge o governo Lula, e com a possível ameaça dela deixar o cargo, ela passa a distribuir sementes e a terra pros índios e junto a isso um abaixo assinado pra que ela continue no cargo. Muitos se recusaram a receber a semente e trator e se recusaram a assinar. São pessoas com posições mais claras e definidas que procuram atender as demandas de retomadas, e nesse processo da luta é que nasce a Frente de Resistência. É fruto do desacordo e dessa ação do IBAMA e do grupo próximo à Milene, assim como o descontentamento com o Conselho de Caciques. (...) a Frente de Resistência foi criada em 2002, mas em 2001 o pessoal já vinha discutindo. Fizeram um encontro pra decidir a criação e naquele momento eles decidem que não vão criar pra não haver confronto interno. Aí se vai fazer o processo de discussão em algumas aldeias e em 2002 criam. A ação do CIMI ela vai se dar nesse sentido, de prever um cenário. Primeiro o Conselho de Caciques, uma organização mínima do povo, mas ela se tornou viciada, ocorrem as manobras externas, essa eleição do Zezito vai trazer descrédito pra organização, pros próprios índios. Alguns vão falar “ah... precisa eleger um novo presidente que esse num presta”. E aí a ação do CIMI prevendo um cenário de discussão mais fundamental, que é a demarcação do território do Monte Pascoal como um todo, então a gente passa a apostar num modelo de movimento, com o pé na base, nas comunidades. Aí a gente dialoga com esses grupos que não fecham com ninguém, nem com Milene nem com ninguém. A gente ai discutir um modelo onde as vozes das comunidades que estão descontentes passem a ser ouvidas. A Frente ela nasce com o pessoal definindo uma carta de princípios em assembléia. Aí vem a questão da forma e conteúdo que eu tinha falado. O movimento do Zezito, do Alfredo, num primeiro momento, depois vem Joel Braz. O pessoal do Zezito, a gente vai perceber que supõem que é possível garantir todos estes recursos, assinar qualquer documentos com o governo e depois fugir dele e continuar ali no Monte dominando e fazendo da mata como sempre fizeram, acreditam que é possível falar e lutar para o território aceitando as coisas dessa forma. Do outro lado a Frente vai dizer: “num queremos o IBAMA agora, nesse momento num queremos. Nós sabemos que o IBAMA vai ter um papel aqui, mas um outro papel, que vai ser depois. Nesse momento a gente quer a demarcação da terra”. Se o conteúdo é a garantia da terra ou ameaça da demarcação, se esse é o conteúdo do argumento, o acordo e a cooperação técnica ameaça a demarcação e o domínio daquela área chamada de Parque, e a forma pra se tocar nisso é nesse nível de relações de gabinetes e relações de barganha. Para o pessoal da Frente o conteúdo é a ação política de não 138 Sumário 67 abrir mão da demarcação enquanto terra indígena e a forma é a luta incessante: “enquanto o governo demora pra demarcar, a gente faz ações de retomada”, inclusive fora da área do Parque, em fazendas e tal.” 139 O momento crucial da quebra do acordo estabelecido e das conquistas dos Pataxós até 1996/7 foi a consolidação do termo de cooperação técnica. Enquanto processo de mediação supostamente eficiente para o conflito o termo de cooperação é parcial, já que seguramente não foi articulado com as bases e de maneira alguma representa as diferentes vozes Pataxós no conflito. Pelo contrário é o pivô do faccionalismo, e da cisão do Conselho de Caciques, que repousa em descrédito na micro esfera, o cotidiano das aldeias. Em campo era evidente que ninguém sequer tinha conhecimento sobre o processo de construção do termo de cooperação técnica, ou seu andamento atual, o que também é atestado pelos questionários de campo. O termo é assinado em 28 de fevereiro de 2002. A partir da aprovação feita em Brasília, Jean, o coordenador do projeto, passa então a criar alianças para aplicar os recursos disponíveis, também bastante adequadas às relações partono-cliente de Wolf. Isso contribui decisivamente para o atual faccionalismo entre aldeias de dentro da área demarcada e as de fora, já que os clientes são apenas parte da população Pataxó. O projeto atua prioritariamente ns primeiras, ficando as outras de fora. Não só os Pataxós foram desconsiderados no termo, mas todos os envolvidos anteriormente na articulação. “(...) há uma carta da ABA que recomenda ao MP que não faça... na verdade quando o IBAMA começa a articular o acordo; rola FUNAI, MP, Ong, IBAMA... no final saiu o acordo só com IBAMA e FUNAI. O MP saiu do acordo, ele, que deveria ser avalista do acordo, não foi. Não foi porque resolveu denunciar o acordo como ilegítimo, entende-se que a área é terra indígena com base naquele documento de 93 quando pressionávamos o MP para a criação de um GT de identificação, que é uma coisa de seis páginas, em que a gente reza uma historinha, dizendo que ali há um forte indício de terra indígena e eles dizem: ‘se existe pretensão de que é terra indígena, se existe um GT estudando isso, a FUNAI não pode reconhecer a posse do IBAMA na área, então a FUNAI não pode assinar nenhum acordo. Então com base nisso, o acordo foi longamente protelado, inclusive na época que o Marés esteve na FUNAI ele não assinou o acordo e disse que não assinaria. Depois o próprio IBAMA conseguiu fazer com que a FUNAI assinasse, inclusive a advogada do IBAMA que trabalhou nisso é hoje da FUNAI”. 140 A dita advogada afirma que defendeu o termo de cooperação como medida imediata para os Pataxós pois a identificação da terra demoraria. É o que L. Sampaio entende como um argumento pragmático, o fazer “aqui e agora”. “Eu sabia que ia gerar conflito interno”, afirma. Segundo ele os recursos ficaram como forma de aceno das possibilidades para os Pataxós. “Claro que os índios iam ser assolados. E a Milene faz isso muito bem, ela começou a assolar os índios para enfim botar a mão no dinheiro, ela era gestora do Parque”. Com o passar do tempo chega mais recursos e então “a Milene agora tá investindo numa certa polícia indígena, com outros índios e esse que é um grande dano dessa iniciativa, ela criou uma brigada de índios dela, que ela usa para reprimir outros”. 139 (Sumário em entrevista) 140 (L. Sampaio em entrevista) 68 Uma vez implantado o termo e consolidado a presença do IBAMA na área sem que a questão da terra fosse resolvida e inserida nos processos de “mediação”, o projeto estacionou. Apenas no final do primeiro semestre de 2003 começaram os plantios de roça, pouco antes de minha chegada a campo. O projeto de cooperação, longe de criar condições para a solução do conflito, afigura-se como instrumento de barganha político que enfraquece a organização política Pataxó faccionandoa. Sua função primordial é administrar o conflito já que sua solução definitiva não pode ser criada no nível dos acordos firmados na micro-esfera. Qualquer solução que se pretenda definitiva só poderá ter eficiência caso estejam envolvidos atores da meso-esfera que de fato garantam a democracia nas negociações, pela inserção das vozes marginalizadas e criem instrumentos estruturais e permanentes (meso-esfera) de ação política. Isso significaria uma reestruturação em todo o sistema de criação de espaços protegidos ou reservados e administrados pelo Estado. A criação do SNUC é uma tentativa, as sobreposições não são solucionadas pois dependem da articulação com as FUNAI, administradora das TI’s. Essa interface e as bases argumentativas para produção de consensos parecem pouco avançadas, e até que sejam, as mediações do conflito do Monte produzirão soçuções paleativas. Enquanto isso o povo Pataxó fica alheio ao sistema econômico envolvente, à sazonalidade do turismo, ao roubo de madeira por não índios de seu território, à acusação de serem desmatadores e à ambiguidade e confusão promovida pela falta de soluções. IV.1 – Caracterizando o faccionalismo Nesta seção procurarei dialogar mais de perto com a experiência de campo e o material produzido a partir dela. Foram questionários, entrevistas, fotos e anotações. Antes procuro caracterizar brevemente a situação econômica do grupo e ambiental do território. Os estudos técnicos ambientais na área definem a importância da região do Monte Pascoal – ver mapa em anexo – da seguinte forma: “O Parque Nacional do Monte Pascoal se situa num dos três focos de endemismo descritos para a Mata Atlântica: o do Sul da Bahia/Norte do Espírito Santo, do queal constitui um dos principais remanescentes. Esse foco se caracteriza por uma taxa de endemismo altísisma e uma diversidade de árvores por hectare recorde mundial. (...) Tamanha riqueza e terrenos de fácil acesso fomentaram um processo de desmatamento intenso desde 1945 até o final da década de 80. (...) O Parque Nacional do Monte Pascoal contém atualmente mais de 5.000ha de floresta hombrófila densa, além de vários ecossistemas degradados e de transição para ecossistemas costeiros. Trata-se da única unidade de conservação na região que inclui todos os estágios dessa transição ecológica, desde a floresta ombrófila até o mar” 141 141 Revisão Orçamentária da Agenda Positiva para o Setor Florestal do Brasil. UTF/BRA/047 - I 69 Esse contexto demonstra o mote do argumento dos ambientalistas de maneira geral pela necessidade de intervenção governamental na área. Da mesma forma os indigenistas recorrem à história para legitimar seu argumento em favor do reconhecimento da ocupação tradicional do território. Como expus nas páginas anteriores o que chamo de ambientalistas e indigenistas não constituem uma posição discursiva coletiva única em cada caso, mas aspectos de consensos mínimos criados. Entre os ambientalistas que procuram conciliar a presença indígena com a preservação ambiental e indigenistas de maneira geral há um consenso mínimo estabelecido sobre a situação dos Pataxós e seu território: há pressões à capacidade de reposição dos recursos naturais mínimos capazes de permitir a reprodução social dos Pataxó. Além disso reconhecem que as possibilidades produtivas estão cada vez mais escassas, tornando-os reféns de atravessadores de artesanato com madeira. No território temos a seguinte situação: as aldeias localizadas a leste, como BM, MM, Trevo do Parque, Pé do Monte, dentre muitas outras, são dependentes quase que exclusivamente do trabalho com artesanato em madeira. Na ABV, fronteiriça ao mar, as possibilidades produtivas são maiores. Essa relação com o meio ambiente perpassa toda a argumentação dos Pataós de uma e outra parte do território. A configuração do faccionalismo existente antes da Retomada e Termo de Cooperação baseava-se nas relações de parentesco e num jogo de relações de reciprocidade mais voltado para dentro. A partir da constituição de mediadores interessados em produzir consensos – como no caso do seminário – os faccionalismos são processados além das relações de parentesco, a partir dos aliados externos. Braz, Ferreira e Santana são as famílias mais recorrentes e, tradicionalmente, os líderes políticos nas aldeias se revesam balanceando a participação e o poder desses grupos familiais. As diferenças entre grupos do período anterior à cooperação se legitimavam a partir de consensos criados coletivamente nas aldeias e por isso contribuiu para a reorganização política do grupo até o início dos anos 90. A concorrência entre grupos tinha como mote as origens de cada um. Concluindo análise quantitativa em seu trabalho 142 angular para a pesquisa dos Pataxós de Barra Velha, Carvalho afirma: “É esta, por todos os fatos analisados, uma população estruturalmente apta a crescer vegetativamente. Relacionando-se tal dado àquele já registrado com respeito à potencial capacidade de expansão da população Pataxó por força do incremento demográfico provocado pela imigração dos membros que ainda se encontram espacialmente fora do grupo, conclui-se que qualquer tentativa visando a melhoria de suas condições de vida terá que levar em consideração a necessidade de uma margem de disponibilidade de recursos econômicos – especialmente a terra -, que possa atender à sua provável expansão, sob pena de colocar em risco a própria sobrevivência coletiva.” 142 (Carvalho, 1977) 70 Entre 1968 143 ou 1971 144 e os dias atuais a população Pataxó de Barra Velha cresceu “exponencialmente”. Uma população que antes não ultrapassava mil indivíduos hoje conta com cerca de quatro mil. Esse crescimento por si só confirma a hipótese levantada por Carvalho. Por um lado, o crescimento se deve à volta dos imigrantes de 1951 e entre 1961 e 1968 quando saíram em função, no primeiro caso, de uma perseguição do grupo pelo Estado, e no segundo por conflitos com guardas do Parque e indenizações. A chegada da FUNAI e consequente abertura de roças resignificou o espaço dando novamente condições produtivas e políticas de sobrevivência. Desde a época até hoje se verifica a chegada de antigos imigrantes que, menos inseguros, se reafirmam etnicamente voltando ao território. Pode-se considerar a Retomada como resultado da reorganização política do grupo, iniciada desde então. Outros imigrantes Pataxós, geralmente homens adultos 145 , não saíram (saem) em função dos conflitos, mas como parte do ciclo produtivo do artesanato. O número de Pataxós envolvidos na atividade cresceu muito desde a chegada do órgão indigenista, elevando a importância do artesanato para a sobrevivência do grupo. Em alguns casos, voltam da comercialização nas cidades vizinhas já acompanhados de parentes que estavam dispersos pelos caminhos que passaram e que, motivados, resolvem retornar. O artesanato com madeira se concretiza como prática Pataxó a partir dos anos setenta acompanhando a exploração madeireira promovida na região. São estimulados a confeccionar peças – que são belíssimas – para fins comerciais. As aldeias mais afastadas do mar viram no artesanato a única forma de sobrevivência em face da privação de terras para estabelecimento de roças. Mas o ciclo do artesanato de madeira tem como pressuposto – em termos de maios de produção – a presença dos atravessadores. Isso porque demanda equipamentos pouco acessíveis aos Pataxó – para uma produção comercial. Nesse sentido arrendam tais equipamentos a um alto custo, o que torna a atividade pouco lucrativa aos Pataxós em face de seu custo de produção, principalmente, o custo político. As formas de ocupação do território a relação dos Pataxós com o meio ambiente seria outro fator relevante para caracterizar o faccionalismo anterior à gestão compartilhada. Nesse sentido, Carvalho separa a população em blocos: Aldeia Barra Velha e População do Parque 146 . Não havia ainda aldeamentos constituídos no entorno do Parque, havia apenas famílias dispersas. Na dissertação ela aponta que havia seis grupos domésticos no Pé do Monte e quarenta indivíduos na região onde hoje é a aldeia Águas Belas, formada por Édson e Manoel Braz em função de conflitos com os guardas no período das indenizações. 143 Chegada do Posto Indígena da FUNAI Abertura de roças, que foram proibidas desde 1961 145 Entre 18 e 65 anos, nos parâmetros de Carvalho (Ibid) 146 “Embora as duas populações tendam a formar uma unidade, pois a sociedade Pataxó é o resultado concreto da ação desses dois segmentos, o fato de serem espacialmente distintos, um localizado fronteiriço ao mar e o outro mais para o interior, do mesmo modo que também distinta é a época da formação dos dois núcleos espaciais, sendo inclusive o último, ou seja, aquele da área do Parque, composta por uma população que aí se fixou mais recentemente, consideramos que tratá-los num primeiro momento em separado é o melhor procedimento, só ao final analisando o conjunto que eles compôem” 144 71 Dada a reorganizão política do grupo após as relativas diásporas, o que culmina na Retomada do Parque, os interlocutores não índios haviam consolidado posições bem definidas no conflito como apresentado anteriormente. A unidade política Pataxó alcançada teria reflexos dessas divisões e, assim como os acordos estabelecidos, seria dividida. Esse processo marca a seleção ou “capacitação” de intermediários capazes de compor jogos de reciprocidade e produção de consensos em cada bloco. Por um lado os indigenistas de CIMI e ANAI procuram estabelecer interfaces com lideranças que, como eles, se posicionam contra as negociações para o retorno do IBAMA na área. Os ambientalistas de GAMBÁ e fundamentalmente Jean e Milene, por seu turno buscam intermediar soluções para o conflito junto, principalmente, às lideranças de Boca da Mata. Nesse sentido procuram intermediar com Estado e Pataxós a legitimitade, num caso, da presença indígena numa área de conservação. Noutro a necessidade moral e física de preservar a integridade ambiental do território. Nesse sentido, afirmam que são pilares de uma mediação justa e democrática porque não interefre objetivamente nas diferenças locais, chamando todos a compor arenas de discussão. É interessante aqui caracterizar essa perspectiva no discurso de Jean, já que traz elementos pertinentes para a compreensão do processo de negociação em questão. Jean é um ator que tem certa mobilidade no conflito por pertencer tanto ao grupo do termo de cooperação técnica quanto ao do GT de revisão de territórios. É a partir desse ‘locus’ que produz toda a argumentação em favor do projeto. Seu processo de convencimento marca a construção artefatual da área. Segundo ele: “(...) a gente trabalha com a figura de parque porque ela está existente agora, e ela permite drenar recursos que são indispensáveis pra evitar um estrago imediato, na nossa visão esse é um trabalho de transição, é, nós vimos e participei do GT da Rosário, eu vi claramente desde o início que não tinha nem como negar a qualidade de terra indígena do parque nacional do Monte Pascoal (...)” A promessa feita pelos Pataxó de que preservariam o Parque os fez se dar conta que para isso seria necessário assistência técnica. Trata-se de um compromisso moral, como dito, pois é a base do acordo proposto por eles numa carta voltada à nação por meio de suas autoridades. Essa necessidade permitiu ao Estado negociar recursos disponíveis e a preparar intermediários da comunidade para gerenciá-los, o que teve como consequências profundas divisões políticas entre o grupo. Procurando legitimar a posição de mediação para o conflito Jean continua; licença ao leitor para mais uma citação mais longa: “(...) a gente gravou o compromisso de cada cacique de preservar o Parque. Então, é uma bandeira, é uma questão de honra pra eles...então isso que nos deu o nosso mote de trabalho desde o primeiro dia. Eu me lembro sempre de ter dito: “então se é assim, nós ambientalistas nós vamos dar voto de confiança pra ajudar vocês a cumprir esse compromisso, de todas as formas e com todos os meios concretos pra isso, inclusive com recursos que são canalizados através de uma figura legal que é o Parque Nacional” O que a gente não pode é deixar que os recursos não cheguem lá, porque preservar a Mata Atlântica custa caro, bastante caro, e pra eles é uma responsabilidade assustadora. Eles agora se dão conta do que é, como é difícil você segurar uma floresta quando ela é cercada de pressões, quando ela é completamente ilhada, e ainda enfraquecida pelo extrativismo de 72 madeira lá dentro e com uso de fogo generalizado. (...) Nosso discurso é sempre o mesmo: “vocês não são empregados nossos, vocês não foram tirados do nosso Parque, foram tirados da sua casa, o mínimo que vocês podem fazer...você negar o sentimento de pertencimento, de posse, é completamente contra-producente do ponto de vista ambiental (...)” Então pra nós não importa de quem é o parque. A gente, como ambientalista, verdadeiro, quer é que a mata esteja preservada. (...) então, dignidade, cidadania e preservação são inseparáveis e mutuamente interdependentes, não existe essa oposição entre meio ambiente, dignidade humana autonomia, autodeterminação, é um falso problema, você não consegue preservar se você não tem cidadania real. A violência em torno do Monte Pascoal, é melhor que expressa tanto pra vida, pra vida, seja ela no meio ambiente seja ela no homem é a mesma vida, é o mesmo tecido, ou ele é doente ou ele tá sadio, se ele tá sadio, se ele está sadio essas duas, a cidadania, a preservação e a dignidade estão presentes. O que nós tamos enfrentando ali, são latifúndios, eucalipto, mega, mega mega mega mega coisas, também reacionários do ambientalismo que na verdade tão torcendo pra tudo dar errado e para o Parque queimar todo, e são “trocentos” ambientalistas torcendo pra mata queimar, entendeu? A gente tá pensando mais nas conseqüências concretas do que a gente tá fazendo que do que, por exemplo por um nome de Parque Nacional. Para atuar na área então vamos ser bem pragmáticos, como os índios são, olhar então a maioria.” Nota-se que a ação de mediação é compreendida por Jean como “um voto de confiança” dos ambientalistas. Esse é o gancho fundamental para compreender como e porque as lideranças de BM se alinharam ao projeto de cooperação. Posteriormente o Conselho de Caciques muda seu presidente e é eleito Zezito Pataxó. Na mesma época Alfredo Pataxó é selecionado como possível mediador da comunidade para dialogar com Jean e Milene. Esse processo entretanto é bastante questionado nas aldeias e promove a divisão de lideranças que antes constituiam uma certa homogeneidade de posições. A Frente de Resistência surge daí. Segundo Wolf: “Quando a amizade instrumental atinge um ponto máximo de desequilíbrio, de sorte que um dos parceiros está claramente numa posição superior quanto à capacidade de conceber bens e serviços, aproximamonos do ponto em que a amizade cede lugar à relação patrono-cliente (...) Os parceiros do contrato patronocliente, porém, não trocam mais serviços e bens equivalentes. As ofertas do patrono são mais imediatamete tangíveis” Essa categoria de relação parece ter motivado todo processo de implantação do termo de cooperação técnica. As facções que se formam nas aldeias – clientes – reproduzem uma competição entre potenciais patronos, capazes de contribuir para o alcance dos objetivos menos tangíeveis das ansiedades da comunidade. Em seu discurso Jean se refere aos Pataxós de maneira geral, ocultando as posições das lideranças contrárias ao projeto. Ocorre que após as negociações da volta do BAMA e projeto de cooperação Zezito num primeiro momento é a favor do retorno do órgão e do projeto, mas rompe com Milene e Jean. Alfredo, ex-cacique de BM mantém-se firme na sua posição e funciona como pivô para selecionar agentes ambientais e brigadistas. O processo de seleção, ao contrário da inclusão das diferenças, caracteriza-se por uma disputa por contingente político em apoio à proposta. A outra facção é liderada por Joel Braz, que chega às aldeias a pouco mais de cinco ou seis anos, se coloca radicalmente contra o projeto. Em Boca da Mata, entretanto, ocorre novas “eleições” para cacique e Iberê assume o posto. Ele é adversário de Alfredo. Rapidamente se estabelece um conflito 73 interno pois Alfredo mantém o status de cacique, apesar de não sê-lo. Por ter acesso aos ‘patronos’ com maiores possibilidades de aquisição de recursos a comunidade ambiguamente o trata como líder vigente, assim como os brigadistas, principalmente na ABV. Em campo pude perceber que os pretensos mediadores eram parte do conflito rapidamente. Sob ordens da chefia do Parque um agente ambiental deveria acompanhar o trabalho de campo de perto, de maneira que em nenhum momento pude realizar o trabalho sozinho. Esse fato foi fundamental para minha expulsão da área pois apliquei questionários encarados como negativos para o cumprimento da dívida dos Pataxós por meio do termo de cooperação técnica. Os questionários são divididos em quatro partes. Na primeira procuro identificar meu entrevistado. Nome, número de pessoas com que mora na mesma casa, idade sua e das pessoas da casa, ocupação sua e das pessoas da casa e estado civil. Na segunda etapa pergunto sobre a atual situação das famílias: quantas vezes se alimentam por dia, a base econômica da família, se as crianças estudam e questões sobre assistência da FUNASA, órgão do Ministério da Saúde que executa programas de saúde indígena. Já no segundo dia abandonei as perguntas de saúde porque a freqüência da assistência é permanente para toda as aldeias: uma vez por semana. Adianto, entretanto, a reclamação unânime que falta medicamentos e que nem todos são atendidos como gostariam. Não há equipamentos para casos mais graves e, como disseram, principalmente as mulheres entrevistadas, “só levam pro hospital em Itamaraju se tiver quase morrendo”. O terceiro bloco se refere à Retomada. Pergunto se o entrevistado concordou com a Retomada, se participou das discussões anteriores à ação, se concordavam com a presença do IBAMA, como foi o processo de discussão e da ação propriamente dita. Continuo indagando se o interlocutor participou de alguma discussão para a nomeação da atual gerência do Parque e se concordou com ela. Por que o IBAMA não retirou os índios mesmo depois de vencer a liminar na justiça? Ficou com medo do “troco” depois da retomada? No quarto bloco inquiro sobre o processo político de constituição do Termo de Cooperação (Gestão Compartilhada do Parque). Houve discussões na comunidade para a constituição do Termo? Você participou? Que nota, de zero a seis, você dá para a Cooperação? E para a gerência do Parque? Você já se beneficiou das ações? Como? O que deve ser prioridade para aplicação dos recursos? As lideranças refletem a opinião da comunidade? Qual a importância da mata para você e sua família? A primeira aldeia visitada foi BM. Lá, 81,81% dos chefes de família entrevistados 147 consideram que a maior parte dos recursos familiares destinados a compra de alimentos provêm 147 No caso deste trabalho, minha pretensão inexperiente de que algumas pessoas poderiam preencher sozinhas os espaços em branco foi rapidamente frustrada. Doze questionários foram preenchidos solicitamente pelos agentes ambientais em Boca da Mata. No conjunto de “kijemes” denominado Pará, uma espécie de satélite da Aldeia Barra Velha, os brigadistas contribuíram no preenchimento de dez questionários, que foram respondidos após uma reunião com pessoas da localidade. Algumas respostas dos referidos ficaram em branco, ao que se deve, em parte, os índices de abstinência a algumas perguntas. 74 do artesanato com madeira. As primeiras entrevistas foram fundamentais para a sistematização de todas as outras que se seguiram. Logo na primeira casa minha entrevistada disse que o artesanato já não estava rendendo mais nada, dava muito trabalho fazê-lo, muita gente se machucava indo buscar madeira e que ainda por cima acabava com a mata, o que era muito ruim. “(...) eles querem que a gente pare de vez com o artesanato, mas como é que faz? Morre de fome? A gente também não quer sair matando vaca da fazenda dos outros como o pessoal da Frente. Se agente pudesse a gente parava com o artesanato, mas não pode. (..) Nem o ‘IBAMBA’ nem a FUNAI tá dando alimento pra gente, então tem que continuar com o artesanato”. A passagem acima foi recorrente, evidentemente dita de formas diferentes em cada caso. Em resumo, no primeiro dia de entrevistas, unanimemente afirmaram que não podem parar com o artesanato, respondendo à demanda do IBAMA e por outro, não aprovam as Retomadas de fazendas promovidas pela Frente de Resistência. Essa divisão caracteriza o que antes atentei para uma divisão entre aldeias dentro da área demarcada como TIBV atualmente e aldeias de fora dessa mesma área. Nas relações políticas externas ao cotidiano das aldeias, a Frente tem uma visibilidade mais ampla. Esse “bloco” discute em nível nacional a demarcação das terras, têm publicação e gozam certa mobilidade mídica junto ao CIMI e ANAI. Em nível interno a Frente Os vinte e dois questionários preenchidos sob cooperação dos Pataxós representam 18,33% do total de 120 entrevistados, 19,04% do total em Boca da Mata e 17,54% na ABV. Note-se que o que Rosário considerava “população da área do Parque” é aqui representada por Boca da Mata, maior concentração de Pataxós à oeste de Barra Velha. A representatividade das amostras é diferente numa aldeia e noutra. Em Boca da Mata temos uma amostra de pouco menos de 40% se denominamos o número de famílias em 170. Na Aldeia Barra Velha a amostra é proporcionalmente menor, sendo menos da metade de Boca da Mata. Dessa forma, a margem de erro em BM é menor que na ABV. Os entrevistados em sua maioria foram os “chefes” de cada casa que respondiam por todos, mesmo nos casos em que habitavam mais de uma família imediata (pai, mãe e filhos). Segue abaixo uma pequena estrutura demográfica a partir, resultados da primeira etapa do questionário. Total Boca da Mata 63 Velhos: 11,11% (100%) H Pirâmede Etária147 (80,96%) 30-35anos(12,69%) M 12 (19,04%) 51 25-30 anos (14,28%) 20-25 anos (20,63%) Barra Velha 57 Velhos: 12,28% (100%) 19 (33,33%) 38 (66,67%) 45-50 anos (14,03%) 35-40 anos (14,03%) 25-30 TOTAL 120 (100%) 31 (25,83%) anos (15,78%) 89 (74,17%) 75 realiza assembléias e são responsáveis por discussões sobre a situação atual, representando um montante considerável de Pataxós sitiados fora da área demarcada, muitas vezes dentro do Parque. A Retomada do Monte, por outro lado, teve uma adesão muitíssimo maior e é diferente das retomadas de fazendas que vêm acontecendo. Em BM concordaram com a Retomada do Parque 95,45%; na ABVsão 84,21%. Nenhuma retomada mobilizou todo o povo Pataxó, fazendo com que criassem aldeias e ocupassem territórios, como a da sede do Parque. Os Pataxós acreditam que o principal meio de diminuir o artesanato é a criação de roças – 86,36% em BM e 82,45 na ABV. Foi essa a primeira atividade após o início do termo de cooperação, mas muitos não aceitaram receber insumos do IBAMA em função de representar a quebra de princípios e posições no conflito. Sem dúvida Jean sabe da demanda por roças e, por isso, iniciou daí o trabalho. Não há necessidade de se passar mais que um dia andando na aldeia para perceber tal demanda. No entanto, no período em que eu estava lá esse trabalho foi muito criticado. “(...) se a gente tiver assistência trabalha mais na roça, mas comprar sapato e roupa tem que ser artesanato”. O espaço para roça é reduzido, já que a Aldeia está praticamente dentro do Parque. “A gente quer proteger a mata, mas tem que ter condições. De tudo que tinha antes só existe a mata aqui na nossa terra”. Sobre o artesanato, portanto, foi esse o mote das respostas, não só daquela manhã, mas de toda a semana em Boca da Mata. Quando eu indagava sobre o processo político da retomada do Parque e a volta da Milene muitos ficavam arredios, mas ainda assim respondiam, pedindo, em alguns casos, para guardar segredo. Sobre a Retomada e o proceso posterior afirmou um entrevistado: “Morava gente lá no mato, lá no parque. A capoeira está lá para provar. Por isso é que resolvemos retomar”. “Uns concordavam e outros não. Quem foi foi meu irmão. Na hora da retomada a gente tava todos juntos e agora, quando é hora de usufruir só alguns usufruem”. “Reunimos umas vinte vezes, não era só com dois ou três dias não. Aí a coisa foi tomando forma” “Discutimos como seria a retomada, como administrar o Parque e fomos”. Chamou a atenção a afirmação de que “na hora de usufruir só alguns usufruem”. Se usufruir significa ter algum proveito sobre a cooperação técnica ou ser empregado pelo IBAMA, então os Pataxó que participaram da Retomada tinham em mente, não descaracterizar a área como Parque, mas reorganizar suas relações com o órgão ambientalista. O que de fato aconteceu. Sobre a nomeação da nova gerente do Parque todos afirmaram que a maioria não concordava. Houve inclusive acusações graves como a de que Alfredo, Zezito, Manoel Santana e Milene apresentaram ao IBAMA uma lista de presença de reunião como se fosse uma ata de aprovação da sua nomeação. Nessa reunião “ninguém apoiava a Milene, até na Igreja ela chorou porque ninguém queria apoiar ela. Aí, Zezito, Alfredo e Manoel Santana apoiaram ela e levaram umas assinaturas que tinham pegado nessa reunião para 76 apoiar ela”. “Por que eles colocaram a Milene sem o apoio da comunidade? Porque eles tinham a conversa com o pessoal lá de cima. Antes queriam ajudar, mas hoje não fazem nada”. A cooperação técnica foi atribuída a negociações em que só participaram Zezito, Alfredo e Manoel Santana. “Chegaram já com papel assinado, ninguém ficou sabendo de nada”. O projeto original, que se inicia em 96, contou com consultas à comunidade, seminários, etc. Entretanto o Termo assinado em fevereiro de 2002 não aprova o projeto, mas autoriza a criação de um GT para estabelecer diretrizes para a solução do conflito. Os Pataxós que tive contato afirmaram que não houve qualquer consulta à comunidade sobre a forma de distribuição das sementes, etc. Talvez o despreparo dos envolvidos na negociação, não só em nível local, mas federal, não permitiu que soubessem da situação política dos Pataxós, ou seja, do relativo afastamento das lideranças que serviam como mediadoras com relação à comunidade, que ficou invisível. “Eu vim de Barra Velha, moro dezenove anos na Boca da Mata. Quando eu vim só três famílias tinham aqui. A vida é dura, se agente não fizer o artesanato morre de fome. Antes de vim para cá era proibido vir aqui. Viemos para ocupar o território desde a demarcação da terra. Aqui já era capoeira. O pessoal tinha saído na época do Parque e quando voltou era tudo capoeira. A gente vivia aqui e o IBAMA proibia tudo. A Milene veio querer ensinar plantar mandioca, mas na verdade ela jogou índio contra índio, juntou um pessoal Pataxó para fiscalizar os irmãos. Foi só uma turma que aceitou a Milene, a maior parte não queria porque ela queria empatar nosso artesanato. Não houve discussão para aprovar o termo. (...) Acho ruim a cooperação porque não tem alimento e quando acabar esse feijãozinho aí? Vamos ter que pedir de novo pro ‘IBAMBA’?”. Jean afirmou a alguns de meus interlocutores que a semente não tinha chegado a tempo porque ele soube de um lugar onde o preço era melhor, e portanto, resolveu esperar. As que tinham sido compradas foram distribuídas entre parte dos Pataxó. Isso gerou certo conflito entre os que receberam primeiro e os que receberiam depois. Muitos acusaram Jean de dar preferência a um ou a outro, o que creio não ter sido o caso. Outro fator agravante é que distribuiu-se as sementes para algumas pessoas que seriam ‘coordenadores’ dos grupos que iam plantar 148 . No entanto esses líderes muitas vezes eram ‘cabeças de chave’ de certos grupos parentais. Da mesma maneira, os agentes ambientais que participaram da distribuição são acusados de distribuir primeiro para seus parentes e depois para os grupos mais próximos de sua família. Não é o nosso interesse julgar a veracidade desses fatos, mas atentar que as falas revelam faccionalismos promovidos em função do conflito. A seleção das roças como prioridade das ações em Boca da Mata, sozinha, mesmo que sendo a atividade mais exigida, causou certo desequilíbrio na população. Os caciques se sentem enfraquecidos frente ao poder do IBAMA. Segundo Júlio o IBAMA traz para Brasília só o pessoal que trabalha no órgão, fazendo “o pessoal de lá” acreditar que eles representam os Pataxós “Mas 148 Dividiu-se a comunidade em grupos comunitários que dividiam um certo número de tarefas de terra para o plantio comunitário. 77 quem escolheu os caciques foram a comunidade, e quem escolheu o IBAMBA foram só uns dois ou três”. As roças foram motivo para que se pudesse pressionar o fim do artesanato. Esse tipo de exigência, sem dúvida é descabido, se se tem um discurso de fortalecimento e de criação de condições de sustentabilidade para os Pataxó. Primeiro porque o artesanato é colocado como a ovelha negra da Mata Atlântica, e prática exclusiva dos Pataxó. Na verdade, a relação deles com madeira começa há muito tempo atrás, quando madeireiras contratavam Pataxós para trabalharem no corte e beneficiamento das toras. Em pouco tempo a mata foi acabando pois esses madeireiros e o IBAMA não estabeleceram qualquer tipo de manejo da madeira. Não é de se estranhar que somente na região ocupada pelos Pataxó a mata foi conservada, até que a situação de contato e conflito tirarou toda a possibilidade de sobrevivência do grupo, deixando a exploração de madeira como herança. As relaçòes de dependência entre a facção pró cooperação são bastante evidentes. Os brigadistas têm contrato de apenas seis meses. Quando ainda não havia contratos, eram voluntários. A contratação de alguns, em detrimento de outros que serviram da mesma forma, também foi motivo de conflitos entre eles. Quando o contrato acaba, as má impressões entre uns e outros continua, significando, ao contrário do que se espera, o faccionamento do grupo. Se o objetivo era dar condições melhores aos Pataxó, e se entendemos que essas condições estão ligadas à estabilidade das relações político-culturais do grupo, creio que o projeto vem fracassando. O processo conflituoso de negociação do “caminho do meio”, como Jean caracteriza a tentaiva de mediação por meio do projeto fez com que a legitimação desse caminho não ocorresse em nível local. Por isso e por terem sido excluídos do conflito em nível nacional, muitas dúvidas tinham os Pataxós quanto à administradora do Parque e quanto ao Projeto. “Não sei se ela tá protegendo para depois meter o pé na gente, não sei não”. A primeira atividade de peso desenvolvida por Milene foi formar equipes da brigada de incêndio. Essa atividade, em verdade, foi a única executada de imediato pois satisfazia as expectativas dos ambientalistas que defenderam sua nomeação, inclusive se arriscando no contexto do IBAMA. Numa reunião promovida na Igreja foi cogitada a hipótese de retirar a Milene, que aceitaria sair se fosse ordenada pelos índios. Mas deram um prazo de dois anos para ela trabalhar. “O acordo inicial era que dois índios trabalhariam com ela e seriam iguais para mandar”. “Hoje, ela sendo chefe, ela quer mandar na comunidade toda, quer ultrapassar os limites do acordo”. Naquela tarde, conversei com uma Pataxó “bem negra”, como ela mesma afirmou. Ela disse que “(...) tem índio aqui que quer ser mais índio que os outros”. Nos apontamentos de alguns interlocutores Alfredo aparece como o cacique, mesmo não sendo mais o líder político oficial dos Pataxó de Boca da Mata. Sua autoridade e respeitabilidade perante os parentes é 78 confundida com o exercício de certos papéis que não mais cabe a ele. Outros entrevistados afirmam que “os índios que procuram esse que tá no IBAMA está errados, temos que lutar pelo atual cacique. A comunidade não dá força ao cacique porque ele não pode conseguir coisas ainda, esse é o problema. Temos que procurar é o cacique, e não quem tá no IBAMA”. Depois do almoço no penúltimo dia de estadia em BM, Iberê disse que iria à Itamaraju comprar mantimentos. Pedi para ir com ele. Saímos às 14:00 horas. Na volta paramos em Pé do Monte e tive o único contato com pessoas que se identificavam como membros da Frente Resistência e Luta Pataxó. Ficamos até de noite na Aldeia. Subimos uma pequena ladeira e sentamos numa espécie de pavilhão circular, sem paredes, algo similar a um quiosque. As redes eram amarradas nas pilastras, o que fazia com que formassem um círculo – ou quase isso.Minha identidade de pessoa “do meio ambiente” proporcionou uma discussão em que se evidenciava a indisposição contra os parentes “ambientalistas”. Estava diante de um grupo politizado no conflito e, de certa forma, clientes do CIMI/ANAI. Antes que pudéssemos conversar pacificamente me ‘encostaram na parede’ querendo saber de minhas reais intenções e afirmando que não aceitariam qualquer forma de acordo om o “Meio Ambiente” antes que as terras fossem demarcadas como indígenas. Eles diziam que, como os outros ambientalistas eu estava ali para ganhar meu dinheiro mensal e pesquisá-los como a ratos no laboratório. Que eu iria me formar às suas custas. Afirmaram que era mais uma tentativa do ‘meio ambiente’ para enganar os índios e não discutir o território. Foi uma situação bastante complicada, mas fez-se perceber maior organização política do grupo e uma proximidade de suas lideranças e as bases que a legitimam. Joel Brás iniciou a frente depois que as negociações para a volta do IBAMA foram evidenciadas. Na época da retomada ele era membro do Conselho de Caciques e junto com Alfredo, Zezito, Manoel Santana e outras lideranças ele participou da organização e das reuniões ativamente. Segundo meus interlocutores, ele rompeu com todos eles porque “debandaram para o outro lado”. A frente lidera diversas retomadas, inclusive a do Parque do Descobrimento recentemente ‘invadido’. Atualmente vive escondido nas matas pois as Retomadas o rendeu adjetivos de criminoso, dentre outros, como disseram seus “liderados”: “Tudo na luta por nosso território”. Aceitam a presença do IBAMA desde que a posse do território seja deles. O IBAMA deveria funcionar, segundo suas opiniões, apenas como uma espécie de agência de apoio. “Nós podemos cuidar da nossa mata, é só dar equipamento, e condições para esse povo comer, é só isso, você não viu que tem gente passando fome aqui não?”. As lideranças de Pé do Monte são radicalmente contra a presença da Milene na gerência do Parque e contra o termo de cooperação porque julgam não servir para nada, apenas para adiar o conflito. “Quando isso aqui for demarcado aí é que começa nossa luta, não só com o Parque, mas com os fazendeiros todos aqui em volta, eles vão ter que sair e vamos ter que discutir essa gestão compartilhada pois não 79 sabemos nada dela, tudo fica lá em Brasília e em outros cantos, mas aqui ninguém sabe nada que acontece nas reuniões”. Voltei com Iberê para Boca da Mata por volta de nove horas da noite. Fomos jantar e perguntei a ele se ainda daria tempo de gravar uma entrevista com ele. Ele concordou prontamente. Fomos para a sala dos fundos de sua mercearia. “Hoje nós precisamos de mudar o sistema de trabalho das lideranças com a comunidade, a gente quer trabalhar com a associação. Nós sabemos que o artesanato prejudica a arrumação de parcerias e prejudica nós mesmos porque não tem mais caça nem nada. O preço do artesanato tá baixo demais e se continuar assim a gente vai ficar na pior. (...) nada de desenvolvimento porque as pessoas que eram competentes para desenvolver alguma coisa – a cacique anterior - não conseguiram fazer uma associação, a comunidade confiou em mim de tomar a frente para fazer a associação. Estamos fazendo o que a gente acha que é o certo, que vai resolver nosso problema. Se a gente tem objetivo a gente pode mostrar que pode cuidar da mata. Do jeito que tá num tem condição. (...) chega nessa época de baixa temporada, no inverno... o índio mais sofre é aí. Num tem turista, o atravessador não vem buscar artesanato a gente quer é parar de depender disso. Só se a gente diminuir o artesanato é que ele vai ser valorizado como nossa tradição e não como mercado” Percebe-se aí uma terceira orientação política ocorrida em função do experimento do termo de cooperação técnica: o Associativismo. Iberê todo o tempo procurava se diferenciar do antecessor, Alfredo: “Hoje a gente não olha como eles olhavam antigamente. Hoje o índio tem que ser índio e não mostrar que ele não é índio. Eu mesmo onde eu vou eu falo logo que sou índio, até me pinto quando viajo para cobrar o futuro do povo. Mas eu num cobro individual não, eu cobro para a comunidade. Para mim sozinho eu num quero nada, num aceito nada. Pois eu sinto que a comunidade tá prejudicada, num é só eu não. (...) Eu não trabalho para eles nem morto - IBAMA. Eu não tenho interesse em ganhar dinheiro não, quero é desenvolver a comunidade. Eu faço esse negócio de preservação é diariamente, sem ter que ganhar nada não. Eu até agradeço o curso dos agentes que eu participei, mas não ganhar dinheiro com isso. Num aceito ser mandado pelo povo lá do IBAMA, do meio ambiente. Agradeço o curso mesmo... porque coisa que eu num sabia agora eu sei, se eles quiserem fazer mais cursos eu agradeço. No curso a gente aprendeu o que é direito nosso aqui, sobre o mato, entender o que que é a natureza, entendeu?” A necessidade de buscar recursos, de estabelecer alianças políticas com os “brancos” faz com que tenham a sensação que nada sabem da natureza, já que somente conceitos “brancos” servem como “bom conhecimento”. Mas a forma de aliança com os não índios é que motivou as divisões. Iberê continua: “(...) essa Milene, rapaz, apareceu lá por causa de nossos diretores antigos que eram comandantes aqui o cacique o pajé e o presidente do conselho dos cacique que topou esses apoio e aí colocaram ela.. lá.. Não teve nenhuma reunião, só depois que ela já tava lá, fomos pegos de surpresa. Acabou que ela ficou porque ninguém sabia lidar mesmo com a administração, mas ela beneficia uns e outros, dá um cargo.. por isso que eu num aceitei ser funcionário lá. O que adianta eu trabalhar seis mêses e parar dentro desses seis, sem emprego sem saber nem se voltar pra casa vai ter de novo o que? Num adianta nada eu falei pra eles na reunião que teve esses dia...que num adiantava nada eles tá fazendo uma coisa que tava completamente errado porque se a lei permite fazer desse jeito a gente tem que melhorar..se tem condição pra contratar o índio porque num contrata o índio pra sempre lá...? largar ele trabalhando que esse aí nós tamo sabendo que tá aliviando o meio ambiente ele num vai largar o trabalho dele lá pra vir fazer artesanato... porque ele é um funcionário também... e aí a gente tem como cobrar dele que ele é um funcionário. Porque acho que dessa maneira num tá ajudando nem o índio nem tá ajudando o meio ambiente..porque tá separando a comunidade.. porque emprega um, dois ou três e pega o resto e joga pra lá..como é que a gente vai sobreviver se eu tenho um bom ganho e minha comunidade num 80 tem e eu tô olhando só o meu lado minha comunidade eu num tô? Eu num tô aqui pra isso eu tô aqui pra olhar pra mim e pra própria comunidade...”. Terminamos a conversa e fomos para casa descansar do dia cheio. No dia seguinte entrevistei o vice-cacique de Boca da Mata, Josafá. Sobre a nomeação da gerência do Parque e do termo de cooperação ele diz: “(...) porque tem assim também aquele assunto das pessoas que eles quando faz um papel um documento.. e quando a gente sabe já tá feito. Eu acho que eu sou contrário disso.. porque eu hoje, tomando a minha responsabilidade de trabalhar é.. de vice cacique ou de liderança de qualquer maneira pela comunidade eu acho que tem que fazer aquilo que a comunidade aceita. Então existe muitas pessoas aqui que foram contrariadas. e tão contrariado ainda,.foram e tão até hoje. A gente num sabe como que tá andando as coisas, porque tem hora que quando a gente sabe, as pessoas foram em Brasília, já voltaram e a gente nem sabe...o qual assunto foram tratar (...) essa cooperação que você fala.... quando foi feito isso aí nós aqui num tomamos conhecimento eu nem sabia.. eles apresentam já funcionando os trabalhos. Essa parceria eu achei que é uma coisa que num valeu quase nada.” O vice-cacique é membro fundador da Associação criada por Iberê, Epifânio e Nelson. Sua posiçào no conflito é similar à de Iberê. Outra entrevista fundamental foi a de Manoel Santana. Ele foi um dos avalistas da volta do IBAMA e portanto recorto abaixo trechos sobre sua perspectiva quanto à volta do IBAMA na área: “A Milene chegou nesse tempo também, chegou dando risada pro lado da gente, dando risada. Na retomada, ela apareceu, até antes da Retomada ela chegou, chegou assim simples sem declarar o que ela queria, depois que ela declarou, que queria trabalhar com a gente aqui que queria trabalhar com agente, e dando risada e tá, e tá, que era o sonho dela trabalhar conosco, e a gente vacilou, apoiou ela e ia dando apoio a ela. Quem apoiou ela foi eu mesmo e o Alfredo e o Zezito. Nós fizemos duas reunião, ou três com a comunidade, metade não queria não. Quem implicou mais foi o Catitu e o Antônio Brás 149 que são primos. Eu acho que no momento em que você tira os guardas, precisa aqui outra pessoa que conhecesse, sabe o que acontece no meu ponto de vista, o índio não sabe ler nem escrever, é que nem eu bater naquele negócio das máquinas com computador essas coisas... tem que ter uma pessoa, tem que ter uma pessoa, tem ou não tem ? Tem que ter alguém já pronto pra ficar no lugar daquele outro, e a maioria dos índios não pensa isso, é tirar, quer dizer é tirar e ficar sem um mestre não pode. É por isso que a gente tá eceitando a Milene, ela disse que se ficar ia quatro índio com ela, trabalhar quatro índio com ela, e no momento ela não garantiu, era pra ficar Alfredo, Zezito, esse preto aí, e Alfredinho o que teve lá em Eunápolis, ia ficar cheio de preto, mais até esse canto não aconteceu isso, quando entrou ela botou logo duas brancas, a filha de preta não aceitou, e nem o Zezito ela não aceitou. Bom e por ai eu não tô acreditando no trabalho dela, não tô gostando do trabalho dela não, não, não. LG_Como é que foi a parceria com o IBAMA? MS _Eu não participei não. LG_Mas como é que foi, já chegou o trem pronto aqui ? MS_É eu não participei da reunião deles não, porque não tinha carro pra ir lá não. (...) eu pensava que o índio ia aprender, porque tem índio ai que entende alguma coisa mais ela não procurou ensinar, isso tudo depende da pessoa, as vezes a pessoa pensa que o outro não a repara e a pessoa sabe meter o índio no negocio, esses menino mesmo não queria , metade queria por que queria, dois não queriam, mais não liga pra eles não que são bobos - refere-se a Sumário e Adson do CIMI - não sabem nem o que estão dizendo não é, bom mais o sujeito lá de Salvador também não queria esse menino que tem lá o ... Guga. – L. Sampaio Manoel Santana já está descontente com a administraçào do IBAMA pois parece ter descumprido acordos firmados quando da negociação de sua volta e isso significa primeiramente 81 um descumprimento de acordo, segundo a avalização de diferenças com seus parentes que não “compensam” a permanência da gerência no Parque. Em BM pude conversar ainda com um grupo de três velhos Pataxós. Segundo eles a Retomada é identificada como uma válvula de escape, a resposta a uma situação insustentável. Em função das humilhações, insultos morais e físicos à integridade dos Pataxós, por parte do IBDF e depois IBAMA. Segundo Seu Menininho durou muito pouco tempo a Retomada porque logo depois “já vieram com de volta o IBAMA”. “A gente é criança por acaso? A gente vai lá se reúne, sofre, retoma e depois eles volta achando o que? Que a gente é criança? Que num entende nada? Que é bobo? Pois é isso que fica parecendo(...)”, completa Seu Neto. Perguntei então: LG – “Na época o povo concordava com a Milene ? Com a vinda dela pra cá?” SM – “Não, não uns concordavam, a maioria não concordou. Ela veio para aqui, porque existia uma tapeação nessas assinaturas – refere-se a assinaturas colhidas em reunião -, no apoio que ela disse que ia dar, ai nesse meio tempo eu não posso descobrir, mas certo que existiu um problema ai no meio, que ela resolveu entrar em parceria com os índios mas sem a presença da maioria dos índios. Eu acho que aqui tendo quatro mil índios ou mais, se ela teve apoio de uns vinte foi muito. Tomou a palavra Seu Neto pois estava quase de saída e “queria deixar umas palavras”. E de fato as deixou com muita propriedade. Seu Neto acha que o IBAMA não devia ficar ‘cuidando’ dos índios porque essa é a função da FUNAI. Pode-se identificar como a ação do órgão indigenista viciou, com a tutela, a perspectiva do Estado que nos apresenta Seu Neto. Há um embate cognitivo entre busca da autonomia política e relações tutoriais com o Estado. A figura da FUNAI, é ainda a da instituição provedora. Entretanto, órgão agora é visto como empregado. “O branco, dessa parte do meio ambiente e da FUNAI, eles é que têm que ser empregado da gente, por isso é que a FUNAI ganha do governo, para tomar conta de toda responsabilidade nossa”. A situação de conflito põe a FUNAI no centro de reflexões. A questão é que como há Pataxós trabalhando no IBAMA, eles são identificados como empregados de Milene e de Jean. Continua Seu Neto: “O meio ambiente também é empregado nosso e também quem paga é o governo. Mas você vê, é o contrário, nós índios é que banca tolo, tolice, eles tá sendo empregado do IBAMA pra poder ser mandado pelo IBAMA pelo meio ambiente. O nosso direito é ter eles como empregado e eles fazerem o que nós quiser, pelo direito pela lei, pelo direito que assiste a gente, o direito deles é pra nós dizer assim : olha fulano nós estamos querendo isso assim, assim , assim, que é pra nós trabalhar, vocês que estão de junto do governo vão cobrar pra trazer isso pra nós entendeu, isso é mandado. Sser tipo um porta voz pra cobrar o que nós precisa, e eles cobrar e receber e trazer, então entregar pra nós e nós mesmo caçar uma pessoa de responsabilidade pra dirigir aquelas coisas que eles trouxeram, né, mais não eles saíram e voltaram, e eles estão mandando o índio novamente, e sempre maltratando o índio. Estou falano isso que é pra e repartição saber o que que trata, porque lá fora na repartição lá fora, em Brasília, quem trabalha são só os elogiado pela Milene, e outros que é eles mesmo do meio ambiente, só falam lá fora com ministro presidente na nação deles lá, só falam que 149 Não tenho certeza sobre esses nomes pois a gravação permite confusão 82 aqui na Boca da Mata, Barra Velha, e em todas as aldeias, eles só falam que está tudo bem, que ta dando muita ajuda ao índio, mais eles negativo que eles estão dando ajuda (...)” A afirmação das diferenças são percebidas em “repatição saber o que que trata” e toda a parte em negrito. Não hádúvidas quanto à deicsiva influência do projeto na atual configuração política em BM. Continua Menininho em respaldo a minha afirmação: “O negocio da Milene foi o seguinte, nos fizemos uma reunião aí pra Milene trabalhar junto do pessoal, muito índio apoiou, outros não apoiou, eu mesmo não apoiei eu falei com o pessoal que eu nunca apoiava a Milene porque nós tiramos o pessoal do IBAMA porque não tava agradando, tava maltratando, então nós, depois que tiramos o pessoal do IBAMA vamos voltar com o mesmo órgão de junto com nós, tirar eles pra depois ficar junto com nós. Quer dizer, nós não tiremos, nós não tiremos, nós troquemos de funcionário, tiremo o pessoal velho e colocamos outro novo, então não adiantou. O índio tinha que pensar, era fazer uma reunião com os órgão, falando com o pessoal da FUNAI, falar com o delegado da FUNAI o seguinte, o IBAMA tá fora, nos não queremos mais o IBAMA aqui, porque você sempre cuidou de nós, todos os movimentos nossos, vocês vão trabalhar junto com nós aqui na floresta, quem vai trabalhar aqui é nós e vocês, né.. Não sei se foi porque foi através desse negócio de emprego, ganhar muito, ganhar salário não sei o que e tal, mas sei eu eles se envolveram com esse pessoal, e a Milene tá pelo meio e eu mesmo falo na verdade. Eu não vou falar nada com ela se ela tá ou se não, mais por mim ela não fica por aí, mas eu não quero nem conversa com ela, de jeito nenhum, e quando eu tiver mexendo no meu negocinho - artesanato - por favor ela não vai lá no meu não. Quando eu tiver fazendo meus artesanatos por lá, ela pode ela passar lá ele não me diz não, nada não, pode passar a vontade, porque eu não to ganhando nada eu não to dando nada também pra ela, então ela vive pra lá e eu vivo pra cá. É evidente o reflexo do faccionalismo estabelecido em BM em função do Retorno do IBAMA e estabelecimento do termo de cooperação técnica. Interessante notar que muitas vezes a identidade dos Pataxós que compõem o quadro do IBAMA local passa desapercebida, considerando parentes como ös outros”. Eis a breve apresentação de apontamentos que demonstram o faccionalismo em BM. Segui para ABV e a vida econômica foi de imediato apresentada como prioritariamente ligada ao artesanato sem o uso de madeira e roças. As possibilidades de subsistência nessa aldeia são muito maiores como mostra o quadro de respostas ao questionário apresentado em anexo. Essa maior possibilidade permitiu que a demanda do IBAMA pela diminuição do artesanato com madeira alcançasse certo sucesso. Me hospedei na casa de Sanaré, que é um brigadista que inicialmente trabalhava como voluntário, depois foi contratado pelo Prev-Fogo, um programa de combate à incêndios florestais por seis meses. Não pude saber sobre sua situação contratual, apesar de ter me hospedado em sua casa por quatro dias. Os brigadistas de ABV constituem um grupo que tem uma história coletiva de resistência às críticas dos demais Pataxós. Juntos também participaram do mutirão para apagar fogo que trabalhou por dias, muito presente em suas memórias, havendo recorrências do relato inclusive em Boca da Mata. A gerência do projeto e do Parque é encarada como a grande fomentadora ou, se quisermos, viabilizadora das ações do grupo. Percebem ao órgão como parceiros numa luta que travam para conscientizar ambientalmente os Pataxó. Sem dúvida a situação desse grupo é de tensão constante no conflito pois o habitus que ocupam na aldeia é um ponto central do conflito atual. Por um lado indigenistas os colocam numa posição de “bodes espiatórios” do IBAMA. Por outro, muitos parentes questionam suas atividades 83 como “funcionários do IBAMA”. O espírito ideológico que os motiva no trabalho é o cumprimento do compromisso que os Pataxós assumiram com o povo brasileiro e com os órgãos responsáveis, que cuidariam da Mata, quando da Retomada do Monte. Entretanto, simbolicamente são vistos como o próprio órgão nas aldeias. Encontramos com os demais brigadistas, logo que descemos as malas. Tamanduá, ou Walter, foi chefe da brigada de incêndio, onde comandou vinte e cinco brigadistas voluntários. Também foi contratado por seis meses pelo Prev-Fogo e hoje é coordenador dos trabalhos do Termo de Cooperação em ABV. Em muitas entrevistas ele é identificado como uma pessoa autoritária; em outras como uma pessoa de punho firme para “enfrentar o que tem que enfrentar, porque se não a mata acaba mesmo(...)”, o fato é que ele incorpora e representa o projeto na aldeia. Sempre que falavam do projeto nas entrevistas, os interlocutores perguntavam para confirmar: “O projeto que você fala é esse do Walter aí, dos meninos, não é, das roças...?”, ou coisa parecida, confirmando a incorporação simbólica do projeto. Walter é bastante orgulhoso “da luta que tivemos com esse fogo aí”. Como afirmei, ele e os demais estão trabalhando juntos há pelo menos quatro anos, e consolidam um grupo de afinidades políticas muito forte na ABV. Estão hoje trabalhando sob orientação do IBAMA e do MMA, vêem neles parceiros indispensáveis na luta que travam. As conversas que tivemos leva-me a crer, entretanto, que mesmo em outras condições – sem o IBAMA por exemplo – eles continuariam a constituir um grupo político e de trabalho fortalecido na Aldeia, porque realmente têm como objetivo conservar a Mata, demanda que tem respaldo em toda a comunidade Pataxó. O trecho abaixo mostra a indignação de Tamanduá quando acusado de ser empregado do IBAMA: “(...) a gente tamo trabalhando mesmo, a comunidade fala que nós somos funcionários do IBAMA, mas não sei quanto, pois a gente somo funcionário mesmo da comunidade, que a comunidade fica assim a de garantir a sua palavra que foi dada em noventa e nove com a Retomada do Monte Pascal, então a gente tá aqui pra poder garantir essa palavra que foi a da preservação.” Veja Sanaré: “(...)E acabou o contrato foi um trabalho excelente, ajudou a gente bastante, a gente teve um conhecimento bem avançado que a gente não sabia, a gente não tinha, não tinha treinamento de brigadista e hoje em dia a gente já temos. Agora – subentende-se: que já temos o conhecimento avançado - estamos trabalhando como agente ambiental, pra ajudar os parente da gente fazer um trabalho de conscientização, dentro da nossa aldeia e todo o entorno do parque, né, e a gente dá graças a deus ao apoio que o IBAMA tem dado a gente e estamos ai pra lutar, pelas terras da gente e ter um futuro melhor pros parentes da gente”. A infraestrutura trazida pelo IBAMA deu a sensação aos brigadistas 150 de terem passado para um estado em que são homens conhecedores dos problemas ambientais, já que foram 150 Refiro-me à brigadistas todos os brigadistas e agentes ambientais, pois é assim que são reconhecidos nas aldeias. Pouco ouvi os Pataxós se referirem a agentes ambientais como agentes. Sempre se referiram a eles como brigadistas. 84 ensinados ‘por quem mais entende do assunto’, os brancos ambientalistas da cidade. A situação de brigadistas os colocam diante do desafio de conquistar aliados, o que caracteriza o projeto de cooperação como parte do conflito. Romildo é outro brigadista. Foi vice-chefe da brigada desde o início. Há ainda o Mário e o Clóvis. A luta desse grupo, a legitimidade de sua demanda e a força de suas vontades os mantém sempre respeitados e temidos na aldeia. Entretanto, as descontinuidades e incertezas de seu trabalho, a dificuldade de “conscientizar” a comunidade prioritariamente madeireira das demais aldeias Pataxó e os conflitos com parentes, os deixaram vulneráveis. Nesse sentido, têm Milene e Jean como o caminho possível para a satisfação de suas demandas. Contam com eles porque os entendem como fomentadores e educadores da ação. Para isso, entretanto, se isolam da comunidade, fechando-se e sendo identificados como “o pessoal da Milene ou do Jean”. O potencial político deles junto à comunidade poderia ser melhor aproveitado caso não fossem identificados como parte ambígua entre nós e o outro. “Esses aí não é índio mais não”, disse um dos entrevistados. Logo que chegamos Milene chamou no rádio da Toyota. Perguntou como estava o trabalho comigo. Sanaré disse que estava tudo bem, que eu tinha chegado naquela hora em ABV. Milene pediu para falar comigo. Perguntou como estava indo os questionários, e quis imediatamente saber se eu podia disponibilizar um exemplar para ela. Eu disse que sim, e afirmei que a aplicação dos questionários ia muito bem, que iria começar a aplicação em ABV no dia seguinte. Ela pediu para falar com Sanaré. Passei pra ele. Ela deu ordens para que ele orientasse os brigadistas a me acompanharem durante todo o trabalho e emitissem relatórios sobre o que eu e eles estávamos fazendo. Conforme fui informado por Jean numa ocasião em Brasília, meu problema de pesquisa ia contra todos os esforços de Milene e dele, já que visa compreender um conflito que eles trabalham para “solucionar”, prolongando ao seu modo. Eu era “funcionário do meio ambiente” que veio de Brasília, do órgão onde Jean é consultor. As conversas, controvérsias e discussões que eu estava “fomentando”, segundo Jean, eram particulares ao cotidiano desses atores locais. Nesse sentido eu estava estimulando as pessoas a falarem sobre o IBAMA, o Parque, Milene e Jean, o projeto, etc; fazendo com que o conflito cotidiano se tornasse público. Isso parece ter incomodado profundamente o bloco a favor do projeto. A interpretação que tiveram de minha atuação foi que eu estava ‘reavivando o conflito’, quando em verdade ele é componente da vida cotidiana dos Pataxó. Logo que pude comecei aplicar questionários na ABV. As opiniões em Barra Velha são mais variadas que em Boca da Mata, evidenciando menos coesão política das opiniões a respeito da Retomada e do projeto de cooperação. Muitos concordam com o IBAMA, com a Gestão Compartilhada. Outros discordam profundamente. Há certo equilíbrio nesse sentido, mas a ABV é 85 considerada um “terreno”pró IBAMA, como afirmam Sumário e L. Sampaio em entrevistas. A ABV participou muito mais timidamente da retomada do que BM. Na ABV muitas mais pessoas negaram responder o questionário que em BM. É a aldeia mãe, por isso é onde vive mais intensamente os conflitos de 51, marco original da história recente na tradição oral Pataxó. Talvez por isso os questionários tenham permitido diálogos mais informais em BM. As demandas de roça se repetiram, assim como a afirmação de que o governo deveria dar condições de sobrevivência. Entretanto a preocupação com a mata e com a “tiração de madeira” foi mais recorrente. Entendi que os questionários não eram um bom meio de apresentação e entrada numa conversa informal naquela aldeia, entretanto sua realização era necessária para a constituição de dados quantitativos e para comparação com os questionários de BM. O ponto alto da estadia na ABV foi a reunião com os velhos da Aldeia. Estavam presentes o Cacique, Palmiro, Mané Súia e outros dois senhores que compareceram. A “reunião” foi muito interessante. Pude passar quase duas horas ouvindo os relatos sobre a história Pataxó. Nessa conversa todos os cinco agentes ambientais estavam presentes, com caderno na mão. A erta altura da entrevista o cacique diz: Aí tudo bem, assinamos um documento dizendo que essa área nós iríamos preservar , e estamos procurando, Guilherme, fazer o máximo pra ajudar inclusive, ta aqui o grupo da brigada eu vou tocar o nome deles. Queria que você fique aqui – falando para um dos brigadistas - se tiver alguma dúvida você completa, se eu não tiver falando o normal você corrige porque chegou num negocio sério agora. (...) a gente leva os pranto e replica lá nós gabinetes dos homens lá em cima e ai vamos esperar, esperar e a gente sempre cobrando pra ver se aquilo um dia chega. Bom, então chegou o plano com a FUNAI e a gente ficou esperando, esperando e cobrando direto quando os índios invoca e ia na mata pra tirar um pau a gente falava não tira não que o IBAMA tá querendo ajudar aí, mas nunca aparecia, nunca aparecia. Chegou um ponto que os índio ficou meio bravo era com eles aqui – a brigada -, era comigo na época, com o cacique. Eles diziam assim: ‘esses cara tão enrolando a gente eles dizem que vão mandar as coisas, agora não manda, o tempo tá passando, tá passando mal, e como é que fica pra tirar nosso sustento?’. A gente ficava tentando explicar de alguma maneira, mas eles não estavam mais acreditando na gente ,e na verdade, ô Guilherme, tem hora, tem coisa que um sábio tem como jogar um índio contra o outro. Esses pessoal todo fez foi enganar a gente parece que ganha salário pra enrolar, ai o que acontece, eles cobravam da gente e o índio passando mal olha vocês prometeram uma coisa que vocês não tão cumprindo com os deveres, a gente tá tentando segurar a eles mas como é que segura se vocês não dão condições a eles então nós vamos soltar se vocês não providenciarem o que prometeram a gente vai largar os índios porque quem ta lá levando a pressão é a gente que ta lá com eles (...). Terminada a mesa redonda os brigadistas demonstravam certo cansaço e receio das histórias que os velhos contaram. Pela tarde continuei os questionários, mais uma vez acompanhado por um dos brigadistas. Ocorreram pelo menos duas discussões com pessoas da aldeia que os acusaram de vigiarem os parentes, de tomarem sementes, impedirem que trabalhem com madeira morta, etc. Foi bastante constrangedor, não só para mim, mas para o agente que me acompanhava e os entrevistados. No final da tarde conheci um jovem de uma aldeia satélite de Barra Velha, conhecida como Pará. Perguntei a ele se eu poderia ir lá conversar com o pessoal. Ele disse que sim. Ficamos então de marcar um dia. 86 O faccionalismo já era evidente para mim. A divisão entre ABV e BM eafigurava um forte indício dele. Se o leitor comparar os resultados comparativos dos questionários entre uma e outra aldeia poderá notar a grande diferença de perspectiva dessas populações. Primeiramente porque se relacionam diferentemente com o meio ambiente. Depois porque são “campos” de atuação de diferentes grupos. Na ABV o consenso pelo Parque parece ter velado mais concretamente qualquer foco de discordância, enquanto BM retoma as discussões desde a eleição do novo cacique. Em BM a facções são mais facilmente visualizadas pois é uma área que apesar de fazer parte da área demarcada ainda guarda muitos Pataxós que moraram ou vivenciam mais cotidianamente discussões em outras aldeias. No dia seguinte encontrei com os brigadistas na casa da brigada e seguimos para o ‘Pará’. Não pensava visitar as casas da aldeia, já que a visita seria rápida. Então nos reunimos numa espécie de quiosque. Eram aproximadamente 25 pessoas, os brigadistas e eu. Na oportunidade eu levei o arquivo disponibilizado pela FUNAI em Brasília. Vendo que eu tinha material, solicitaram que eu ‘explicasse’ o termo de cooperação. Mostrei o projeto original, com as sete ações. Depois mostrei o termo de cooperação técnica assinado. Eles olharam, perguntaram porque o projeto original não tinha sido aceito, porque o dinheiro estava demorando, etc. Não pude responder, já que compartilhávamos tais questões. Ao final preencheram questionários. Nesse momento os brigadistas que me acompanhavam ajudaram a preenchê-los. No caminho de volta para Barra Velha Alfredo chamou no rádio. Ele estava em Itamaraju. Parecia irritado comigo. Pediu que eu mandasse para ele questionários respondidos imediatamente. Eu respondi que não poderia encaminhar questionários respondidos, pois estaria comprometendo as pessoas que responderam, uma vez que as questões referem-se diretamente ao trabalho do IBAMA, do qual Alfredo é o principal Pataxó. Ele respondeu irritado que eu tinha que mandar de qualquer jeito porque ele me autorizou entrar na aldeia e queria saber o que as pessoas tinham respondido no questionário. Tentei insistir em enviar um questionário em branco, mas ele ficou ainda mais irritado. Então eu disse a ele que faria o seguinte, pediria a três de meus entrevistados em ABV que autorizassem por escrito a publicação dos respectivos questionários e então mandaria para ele. Assim foi. Sanaré foi a Itamaraju no mesmo dia, quando voltou já era tarde da noite. Pressenti que minha estadia na aldeia estava sendo questionada. Logo cedo fomos à casa da brigada e Walter me trouxe colares de presente, feitos por sua esposa. Aceitei e agradeci, percebendo que aquilo era uma despedida. Logo perguntei o que estava acontecendo. Walter respondeu que Alfredo queria falar comigo e que era para eu arrumar minhas coisas. Fiquei muito constrangido, mas fiz conforme solicitado. Seguimos para Itamaraju. Todos os brigadistas foram juntos, inclusive Téo, de Boca da Mata. Chegando no escritório do IBAMA sentamos na sala de reuniões e Alfredo logo disse que ele achava que o número de questionários que eu tinha era suficiente para a pesquisa e portanto poderia parar a 87 pesquisa. Afirmei que a pesquisa não estava concluída, pois faltava conversar com o pessoal da Frente de Resistência na Aldeia Meio da Mata, e visitar as aldeias de cima, como Pé do Monte, Trevo do Parque, Guaxuma; ou as de baixo como Águas Belas, por exemplo. A decisão parecia coletiva dos brigadistas. Nesse momento Téo se solidarizou a mim e disse que talvez seria melhor permitir que eu ficasse, afinal faltava apenas cinco dias para a conclusão da pesquisa de campo. Entretanto Alfredo discordou e deu a palavra final. Além de minha retirada da área exigiu que eu deixasse cópias dos questionários na sede do Parque. Eis então o relato que caracteriza minha pesquisa de campo junto aos Pataxós. Se somarmos a esse relato as comparações dos resultdos dos questionários constantes no anexo, podemos ter uma base de referência para compreender como o termo de cooperação e todo o processo de retorno do IBAMA representam pilares do conflito e não mecanismos de mediação do mesmo. IV.2 – Breve Conclusão O conflito aqui analisado afigura-se como de difícil e complexa resolução. Primeiro porque o Estado não criou bases de mediação capazes realizar uma acomodação da micro-esfera adequadas ao que se considera uma mediação democrática. Segundo porque os atores envolvidos não consolidaram consenso. O termo de cooperação técnica menos que um mecanismo de mediação, é parte no conflito, sendo pivô de relações conflituosas entre os Pataxós. Os acordos estabelecidos nas comunidades de argumentação criadas ao longo da história Pataxó não foram capazes de manter a estabilidade já que sempre foram modificados, não só eles mas a própria estrutura de tais Comunidades. É uma complexidade de posições e (re) posicionamentos muito particulares e que dificilmente poderão ser contemplados em discussões voltadas à meso-esfera, que procura estabelecer ações consideradas neutras ou que não perpassam a moralidade das relações da micro-esfera. Os Pataxós querem seu Parque bem gerido e gestado, sendo eles tais gestores. Entretanto estão diante de uma longa espera pelo relatório de identificação, o que agita os ânimos e as expectativas quanto ao seu futuro. Qualquer mediação propriamente democrática para o conflito deve levar em consideração a complexidade dos atores envolvidos e, sendo o Estado avalita de tal mediação dele ele próprio ser responsável pela contemplação das vozes em disputa, papel que não tem sido cumprido. O problema da atual administração do IBAMA e projeto de cooperação técnic inviabiliza qulquer acordo junto à Frente de Resistência e indigenistas de maneira geral. Não somente pelas mazelas do processo de retorno do IBAMA para a área, mas também porque acordos anteirores foram descumpridos. Este texto procura contribuir para processos de mediação do conflito, por meio da compelxificação de sua discussão visa atentar para certos dilemas colocados em questão. Primeiro 88 que os Pataxós têm uma dívida com a sociedade nacional. Ocorrendo defasagem na biota após a Retomada até a liberação do relatório de identificação toda a demarcação estará comprometida. Dessa forma o termo de cooperação é utilizado ambiguamente como instrumento de mediação e de contenção do uso do Parque. Serve também como forma de barganha política dos administradores não só junto aos Pataxós, mas também junto aos indigenistas que sabem da importia em manter a integridade do Parque. Anexo I CARTA DO POVO PATAXÓ ÀS AUTORIDADES BRASILEIRAS Nós, representantes dos povos Pataxó e Pataxó Hã Hã Hãe reunidos entre os dias 16 a 18 de agosto do 1999, lideranças do nosso povo, discutimos os problemas por que passam hoje as comunidades indígenas, principalmente na luta pela Demarcação de nossa terra. Nessa assembléia do Conselho de Caciques, nós confirmamos a necessidade de ampliação e recuperação do nosso território tradicional, dentre estes a área que compreende parte das aldeias Boca da Mata, Barra Velha, Corumbauzinho, Meio da Mata e Águas Belas, aldeias ao redor do Parque Nacional do Monte Pascoal, terra dos nossos antepassados, que hoje está sendo recuperado por nosso povo. Depois do muita conversa bonita, cansados de esperar por nossos governantes, e conscientes que, o suposto Parque Nacional está dentro dos limites do nossa terra) conforme a hist6ria dos nossos anciãos, decidimos imediatamente RETOMAR o nosso território, neste dia 19 do agosto de 1999, quinta feira, protegidos pela memória dos antepassados, protegidos polo direito Constitucional e forçados a dar respostas aos atos falhos do estado brasileiro e os seus governantes que nunca olharam nem se preocupam com a nossa situação. É impossível falar em comemoração dos 500 anos de invasão de nossa terra, sem lembrar do sofrimento e violência contra os povos indígenas até os dias do hoje; a falta de uma assistência adequada e o descaso total dos órgãos responsáveis, também motivou a nossa decisão. Nosso principal objetivo é garantir a nossa terra; pretendemos transformar o que as autoridades chamam de Parque Nacional do Monte Pascoal, em Parque Indígena, terra dos Pataxó para preservá-lo e recupera-lo, da situação que hoje o governo deixou a nossa terra depois de anos nas mãos do IBDE, atual IBAMA, que nada fez a não ser reprimir os índios e desrespeitar Os nossos direitos. Queremos deixar claro para a sociedade brasileira, para os ambientalistas, para as demais autoridades que não somos destruidores da floresta, como tem sido proclamado pela chefe do Parque, que muito tem desrespeitado os nossos direitos; queremos também contar com o apoio de todos, entidades, igrejas, parlamentares, órgãos federais, estaduais e municipais para construir o futuro do nosso povo dentro do nosso território tradicional. Vamos celebrar os 500 anos em nossa terra, receberemos os nossos parentes do todo o Brasil aqui, no Monte Pascoal, único local possível para construirmos o futuro com dignidade. 89 Solicitamos que a Procuradoria da República e a imprensa em geral possa acompanhar os nossos trabalhos nestes primeiros meses, dentro de nossa terra. Mais uma vez pedimos o apoio do toda a sociedade brasileira. O MONTE PASCOAL É TERRITÓRIO DOS PATAXÓ!! Aldeia do Monte Pascoal, 19 do agosto de 1999. Assina o Conselho de Caciques Pataxó Anexo II Questionário aplicado em campo I – Identificação II – Condição Atual a)nome: a) Quantas vezes se alimentam por dia? b) A partir de que atividade adquire alimentos? c) Qual atividade você considera a base econômica da família? d) Recebe assistência médica da FUNASA? e) Com que frequência? f) As crianças e adolescentes estudam? b)Idade: c) pessoas na casa (nome, ocupação e idade) d) atividade e) estado civil III – Retomada a)Você concordou com a Retomada? b)Você concorda com a presença do IBAMA no território Pataxó? c) Você e sua família participaram da discussão sobre a Retomada? d)Como foi o processo da Retomada? (discursiva) e)Você participou de alguma discussão para a nomeação da gerência do Parque? e.1) Concordou ou discordou da nomeação de uma nova gerência? f) Por que você acha que o IBAMA não retirou os índios mesmo vencendo na justiça? IV – Termo de Cooperação e Gerência do Parque a) Você e sua família participaram das discussões sobre o Termo de cooperação técnica? b) Que nota você daria para as pessoas que executam o termo de cooperação técnica? c) Você se beneficiou do projeto de gestão compartilhada? d) Que nota você daria para a gestão compartilhada do Parque? e)O que deve ser prioridade para projetos que queiram ajudar os Pataxós? f) As lideranças têm refletido a opinião da comunidade nas discussões com IBAMA e FUNAI? 90