FILOSOFIA NO ENSINO MÉDIO – ENTRE A TEORIA RACIONALTECNOLÓGICA E A CONSTRUÇÃO DA ESPERANÇA CARLOS EDUARDO PINHEIRO BRITO UNISC [email protected] RESUMO O presente artigo busca refletir acerca da implantação da disciplina de filosofia nos três anos do ensino médio, relacionando-a com as outras formas de conhecimento – interdisciplinaridade – e as características gerais de algumas das diversas teorias pedagógicas modernas e contemporâneas e a relação deste contexto de ensino com o pensamento de Ernst Bloch sobre a possibilidade de construção dos sonhos acordados de cada sujeito, num otimismo militante de busca de transformação da realidade concreta a partir da prática docente. PALAVRAS CHAVE: Ensino de filosofia, Esperança em Bloch, teorias pedagógicas modernas e contemporâneas. INTRODUÇÃO Tendo presente que a educação é vista como apropriação pelo sujeito do patrimônio cultural construído pela humanidade observa-se que este processo se torna dialético ao construir o próprio homem. Ou seja, ao existir em sociedade o homem singulariza-se, constrói sua essência. Num processo que não o torna pronto, mas sempre o impulsiona a ser mais, a buscar mais, numa fome de ser, na esperança da utopia que se sonha e se deixa apenas como sonho ou que se pode buscar tornar realidade. Dessa forma, ao encontrar-se inacabado o homem é ser de esperança como propõe Ernst Bloch. Porém, este mesmo homem inacabado está inserido num mundo economicamente globalizado (os negócios se dão instantaneamente em qualquer parte do mundo, os lucros são transferidos de um lado a outro em segundos, os grupos financeiros são protegidos em detrimento do humano em seus direitos fundamentais como educação e saúde), que usa do processo educativo para aliená-lo e transformá-lo em trabalhador alienado. Um trabalhador alienado que sabe usar com maestria de suas habilidades e competências, aprendidas no sistema educacional que preza, por suas avaliações, uma forma de educar tecnológica-racional, onde se dá nova estampa a teoria moderna do tecnicismo. 1 Por outro lado, a filosofia tornou-se disciplina obrigatória no ensino médio brasileiro, com a justificativa de ajudar os educandos a desenvolverem senso ético e cidadão. Assim, o presente artigo visa justamente refletir acerca desse contexto educacional técnico-racional que abre espaço para disciplina questionadora de si e da realidade como a filosofia, e como, esta pode se tornar uma espécie de luz no fim do túnel quando tratada como forma de construir uma práxis utópica baseada na esperança concreta proposta por Bloch. Dessa forma o artigo pode ser dividido em análise das teorias pedagógicas modernas e contemporâneas, não analisadas particularmente, mas em suas características e conseqüências principais. Na reflexão acerca do ensino de filosofia no ensino médio, discutindo acerca do método de ensino: se aquele proposto por Hegel ou o proposto por Kant, o primeiro pela história do pensamento o outro pelo processo de racionalidade e a questão da interdisciplinaridade que se insere nesta questão, visto ser também a filosofia uma disciplina que questiona a todas as outras e serve como mote integrador para os diversos saberes. E por fim, a reflexão acerca do homem como ser de fome, de possibilidades, que pode construir sua práxis utópica numa esperança concreta, buscando sua essencialidade na pulsão de ser mais e, neste sentido, o próprio dever do docente de filosofia de estar consciente de seu papel como problematizador da realidade, mesmo que de forma tradicional. As teorias pedagógicas modernas e contemporâneas É o processo por meio do qual um membro da espécie humana, inacabado, desprovido dos instintos e das capacidades que lhe permitiriam sobreviver rapidamente sozinho se apropria, graças à mediação dos adultos, de um patrimônio humano de saberes, práticas, formas subjetivas, obras. Essa apropriação lhe permite se tornar, ao mesmo tempo e no mesmo movimento, um ser humano, membro de uma sociedade e de uma comunidade, e um indivíduo singular, absolutamente original. A educação,é assim, um triplo processo de humanização, de socialização e de singularização. Este triplo processo é possível apenas mediante a apropriação de um patrimônio humano. Isso que dizer que educação é cultura, em três sentidos que não podem ser dissociados. Charlot (2000). A citação acima, feita por Libanêo (2005), leva-nos a refletir não só acerca do conceito de educação, mas acerca do próprio conceito de homem, como ser inacabado, 2 insatisfeito, um ser original que ao mesmo tempo em que se humaniza pela convivência, se singulariza também por ela. Conceito este, tratado pela modernidade e seus filósofos onde a natureza humana é universal, o sujeito é autônomo e educável, emancipado pela própria razão. Onde a crença na capacidade humana de gerir seu próprio destino é inabalável. Assim, as diversas teorias pedagógicas procuram dar conta de educar a este homem racional e livre, que transforma o mundo e se transforma com o desenvolvimento do capitalismo enquanto sistema de economia hegemônico que age de acordo com seus preceitos para dominar, como reflexo do desenvolvimento natural do sistema que tem sua base na mais-valia, na exploração de uns pelos outros. Onde se destaca a contradição permanente entre a pobreza de muitos e a riqueza de poucos, entre a gestão empresarial e a inclusão social, que amplia as formas explícitas e ocultas de exclusão. A escola, em sua missão de promover o desenvolvimento humano, tem contribuído pouco para superação desta situação de exclusão. Se inserindo no sistema como sua reprodutora. Neste sentido, várias teorias procuram dar conta de como educar para alcançar os melhores resultados em vista do ser humano apregoado pelo pensamento moderno capitalista. Essas teorias perpassam, ainda que implicitamente o agir pedagógico no ambiente escolar e traduzem o que os profissionais da educação pensam de si, do lugar em que agem e do mundo. Na modernidade as teorias pedagógicas apresentam como características comuns o poder da atividade racional, a reprodução da cultura universal objetiva para com as gerações futuras, direitos humanos universais devem ser respeitados e os educadores como legítimos representantes dessa cultura e agir humanos. Sendo que problemas decorrentes desse pensamento são: a fragmentação do conhecimento acumulado em diversas disciplinas e a separação entre razão e subjetividade (que a sociedade acaba dissociando também o saber em diversos campos de conhecimento e vivencia: cultura, ética, política...). Esta forma de reproduzir a cultura e a própria sociedade trouxe como conseqüência, o avanço do capitalismo – a chamada pós-modernidade onde um novo contexto histórico-social se nos impõe, visto que a produção passa por um processo de intelectualização, exigindo-se mais conhecimento tecnológico do trabalhador, o poder dos meios e tecnologias de informação que causam a não-divisão entre o que é realidade e o que é imagem, entre a arte e a vida; a emergência de novos atores políticos que 3 suprimem as tradicionais como os partidos políticos ou sindicatos, bem como a relativização do conhecimento que acentua o poder da linguagem e a rejeição a grandes sistemas teóricos. Essas características trazem como conseqüências a idéia de sujeitos como produtores de conhecimento, o individualismo nas relações de busca de sucesso pessoal, mais do que saber usar o conhecimento adquirido, toda cultura tem igual valor, princípio de integração entre os diversos saberes, e o educador transforma-se de transmissor de conteúdos em mediador do conhecimento. Segundo Libâneo, são várias as teorias pedagógicas modernas e contemporâneas que permeiam os sistemas educacionais público e privado brasileiros. Sendo que, neste sentido, chama atenção a corrente racional-tecnológica que busca seu fundamento na racionalidade técnica e instrumental, visando a desenvolver habilidades e destrezas para formar o técnico. Sua organização curricular resulta de objetivos assentados em habilidades e competências a serem dominados pelos educandos no percurso de sua formação. Duas são as modalidades em que se traduz essa teoria pedagógica: ensino de excelência, para formar a elite intelectual e técnica para o sistema produtivo e formação de mão-de-obra intermediária, centrada na educação utilitária e eficaz para o mercado. Além, claro, do uso das mídias e tecnologia da informação como aparato para produção de um aluno como ser tecnológico. Ser este que seja apenas um homo faber, competente o suficiente para atuar no mercado sem questioná-lo, como conseqüência direta das exigências dos mecanismos internacionais de propagação do sistema capitalista. Onde, cada vez mais, os governos são reféns do sistema de capital, priorizando a sustentação de bancos e cada vez menos destinando recursos à questões como saúde e educação. Políticas estas que se refletem cada vez mais em testes que regulam a educação e tornam os currículos escolares engessados àquilo que é pensado pelo sistema predominantemente neoliberal em que vivemos. Por esse motivo, a teoria educacional tecnicista chama-nos atenção, visto que ela serve exatamente aos desígnios do capital, de forma a ter escolas de “excelência”, que alcançam ótimos resultados em testes como ENEM1, ENAD2, PROVA BRASIL3. 1 Exame Nacional do Ensino Médio – aplicado aos alunos concluintes do ensino médio Exame Nacional de Desempenho de Estudantes – aplicado aos alunos concluintes do Ensino Superior 3 Prova Brasil, aplicada aos alunos do nono ano do ensino fundamental 2 4 Essa prática/teoria pedagógica, assim como outras teorias educacionais modernas, criticada por sua racionalidade, ênfase na moral do dever, do autocontrole hoje assume-se também como interdisciplinar, que propõe o uso da razão sem esquecer a subjetividade e a emoção. Numa perspectiva epistemológica se trabalharia então no sentido de integração entre os saberes, contextualizando-os na realidade do aluno e buscando fugir de sua fragmentação. Dessa forma, o paradigma de aprendizagem centra-se no saber fazer, bem mais do que no saber. O pensar eficientemente seria uma questão de aprender fazendo, comunicando, usando. Assim, a meritocracia imbricada nesta escola de “excelência”, que ensina pela tecnologia, de forma interdisciplinar, pode ser vista nos resultados propagandeados pelo Ministério da Educação em seus testes avaliativos de alunos do ensino fundamental ao ensino superior, como sendo melhoria na qualidade da educação nacional. Não importando, para isso, se o aluno está crescendo como ser, ou apenas como trabalhador intelectualizado, especialista em usar tecnologia e alienado da realidade circundante ou do próprio processo econômico do qual é partícipe. Ensino de Filosofia no Ensino Médio Em 2008, sob o número 11.864 foi instituída a obrigatoriedade do ensino das disciplinas de filosofia e sociologia nos currículos escolares do ensino médio, como elementos necessários ao exercício da cidadania. Observando a realidade antes exposta, acerca das diversas teorias pedagógicas presentes em nosso sistema educacional principalmente da teoria racional-tecnológica, pode-se dizer que o ensino destas duas disciplinas se insere neste contexto de integração dos saberes e do aprendizado de vida em sociedade, o chamado aprender a conviver proposto pela UNESCO4. Porém, mesmo com estes objetivos, se o trabalho docente nestas áreas for desenvolvido de forma tradicional, com o aluno decorando conteúdo e o professor simplesmente transmitindo-o, numa educação bancária5 esses objetivos não poderão ser alcançados, visto que essas disciplinas são questionadoras por natureza, em seu próprio modus operandi, o status quo propalado pelo sistema hegemônico em que vivemos. Trata-se de formar um cidadão crítico, consciente de seus direitos e suas obrigações 4 5 Organização das Nações Unidas para Educação e Cultura Freire, Paulo... 5 enquanto ser humano, mas que está vinculado a uma eticidade maior dada pelos compromissos que assume na sociedade/comunidade. A filosofia, de forma mais particular, é questionadora desde suas características principais: a radicalidade na busca da raiz das coisas, a rigorosidade na aplicação da linguagem e a visão de conjunto da realidade. Sendo seu papel pensar aquilo que é e também aquilo que deve ser. Assim, por mais que o professor seja tecnicista, não conseguirá eximir-se da responsabilidade de fazer com que os alunos pensem, pois somente a apreensão de conceitos prontos já faz com que os educandos passem a problematizar a realidade em que vivem, seja comparando-a com o pensamento dos grandes mestres, seja apenas entendendo o porque dessa forma de pensar. Dessa forma, é importante discutir o método de ensino de filosofia. Dois pensadores se destacam neste sentido: Hegel e Kant. O primeiro propõe o ensino da história da filosofia; Kant, no entanto, propõe que [...]Não é possível aprender qualquer filosofia; pois onde esta se encontra, quem a possui e segundo quais caracteristicas se pode reconhece-la? Só é possível aprender a filosofia, ou seja, exercitar o talento da razao, fazendo-o seguir os seus princípios universais em certas tentativas filosóficas já existentes, mas sempre reservando à razão o direito de investiar aqueles princípios até mesmo em suas fontes, confirmando-os ou rejeitando-os... (KANT, 1980, p. 208-209) Propondo assim que o homem é um ser racional em busca de perfectibilidade, que pode se auto-formar. Esse pensamento kantiano permite leques de inferência, a exemplo da improcedência de se fazer com que o aluno tenha simplesmente erudição ou que memorize conteúdos. Isto apenas tornaria o aluno dependente, pois esta não é a maneira correta de usar a razão. Quando o professor se deixa levar por este tipo de displicência, tem-se a indicação de que ele não pensa, não tem coragem de posicionarse, permanece numa condição de absoluta menoridade; ele não pesquisa, não estuda e limita-se a passar esquemas prontos. É isto que Freire chama de educação bancária: “Para o ‘educador-bancário’, na sua antidialogicidade, a pergunta, obviamente, não é a propósito do diálogo, que para ele não existe, mas a respeito do programa sobre o qual dissertará a seus alunos. (...) Para o educador-educando, dialógico, problematizador, o conteúdo programático da educação não é uma doação ou uma imposição... (...) A educação autêntica, repitamos, não se faz de ‘A’ para ‘B’ ou de ‘A’ sobre ‘B’, mas de ‘A’ com ‘B’, mediatizados pelo mundo. (FREIRE,1975:98) 6 Mesmo considerando tudo isto, fica ainda uma questão, mais do que isto, um paradoxo: como aprender a pensar se o aluno ainda não possui conhecimentos suficientemente sólidos? Para Kant isto não é preocupação, visto que todo ser humano educador ou educando naturalmente é pré-condicionado a aprender. Ou seja, o ser humano atinge sua maturidade ou sua maioridade se ele conseguir pensar por si, colocar-se no lugar do outro e pensar de forma conseqüente. Este pressuposto pedagógico que vincula disciplina e conteúdos como ponto de partida para romper com o estado de inércia da primeira natureza — também entendido em Hegel como alienação — toma como palco de realização e aperfeiçoamento dos seres humanos, não tanto o indivíduo, mas a História. Hegel concorda com Kant de que a constituição humana acontece a partir de sua formação que tem seu sentido na perfectibilidade do gênero humano, no entanto, isto se insere numa totalidade maior que ora é o Estado, ora a sociedade civil, ora a própria história. Portanto, a ascensão cultural do espírito é resultado de um processo de formação com certo nível de complexidade. Consiste no esforço de elevar o indivíduo do em si, da imediaticidade, para uma posição superior na qual ele possa identificar-se seu este outro que é a cultura. Transpondo esta situação para o ensino, para que isto seja possível, o educando tem de aprender os conteúdos filosóficos e não apenas a filosofar. A partir destas duas posições, em princípio contrárias, podemos visualizar o quão desafiador é o ensino de filosofia num país como o Brasil, dependente de políticas educacionais muitas vezes impostas por organismos internacionais como o Banco Mundial. Neste sentido, pode-se refletir acerca do objetivo da filosofia como disciplina no ensino médio e o método a ser usado que alcance este objetivo. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação, Lei 9394/96, é ampla ao definir o papel da filosofia no ensino médio, mas tem por dever suscitar o desejo de conhecimento capaz de integrar o homem, o mundo e a natureza num projeto de compreensão existencial e transformação consciente. Neste sentido, é necessário identificar o papel da filosofia no processo educacional o que significa não tratá-la apenas como mais uma disciplina, pura e tão somente, mas como uma prática reflexiva (práxis), que auxilie na descoberta da identidade do homem diante da natureza, na construção da liberdade e na transformação consciente da realidade. É evidente que tarefas tão árduas e complexas não são privilégios da filosofia isoladamente. Tal empreitada exige uma relação minimamente interdisciplinar, cabendo 7 à filosofia uma tarefa definida entre as demais igualmente definidas, porém unidas quanto aos objetivos centrais. Portanto, o ensino de filosofia dialoga com as outras formas de conhecimento. O que, leva a pensar o ensino de filosofia também como diálogo entre educandos e entre estes e seus educadores. Portanto, pelo diálogo imprescindível filosofa-se e se conhece a cultura humana. Em outras palavras pode-se dizer que pelo diálogo há interação entre sujeitos-sociedade-conhecimentos. Ou seja, interdisciplinaridade exige atitude de abertura e responsabilidade. De forma que resgata a importância do “outro”, sem o qual não pode haver a troca mútua da evolução do pensamento e da linguagem, e amplia os horizontes dentro do processo sócio-histórico educacional, resgatando a importância do conhecimento das potencialidades, dos limites, das diferenças e do processo criativo de cada ciência, respeitando-se, assim, a relatividade entre elas. Há, pois, a transformação de um pensamento lógico formal em um pensamento dialético, porque não pressupõe a unificação de diferentes saberes, mas a construção incessante de relações entre os mesmos. Dentro desse âmbito de observação é cabível perceber que a prática da interdisciplinaridade está inteiramente relacionada à pesquisa, conforme podemos observar na seguinte citação: “O professor, na perspectiva da interdisciplinaridade, não é um mero repassador de conhecimentos, mas é reconstrutor juntamente com seus alunos; o professor é, conseqüentemente, um pesquisador que possibilita aos alunos, também, a prática da pesquisa. A problematização como metodologia para a reconstrução de construtos dá condições ao aluno de mover-se no âmbito das teorias, das diferentes áreas do saber, construindo a teia de relações que vai torná-lo autônomo diante da autoridade do saber. O professor pesquisador constitui-se, portanto, em agente necessário de uma formação calçada na interdisciplinaridade .”(Tomazetti, 1998, p. 13). Problematizar a realidade para ensinar filosofia, pressupõe dialogar acerca da mesma – tanto da filosofia quanto da realidade - ou seja, no ensino de filosofia, o docente e o sistema educacional, querendo ou não, possibilitam que o educando seja também dialógico-problematizador. Entender que a filosofia é ato político visto discutir as relações humanas e sociais, leva à consciência de ação transformadora, senão da realidade como um todo, da própria vida do educando. 8 Ser humano, ser de fome Desta forma, o filosofar denota que professor e aluno são seres de possibilidades, de esperança utópica. Que mesmo inseridos num processo de mundialização e de domínio do lucro, onde a educação é vista como construção de consumidores-cidadãos, são seres inacabados, por isso mesmo seres de possibilidades, que tem fome, não só de pão, mas de cultura, de vida autêntica, como retrata a música: Comida6 Bebida é água. comida é pasto. você tem sede de que? você tem fome de que? a gente não quer só comida a gente quer comida, diversão e arte. a gente não quer só comida, a gente quer saída para qualquer parte. a gente não quer só comida, a gente quer bebida, diversão, balé. a gente não quer só comida, a gente quer a vida como a vida quer. bebida é água. comida é pasto. você tem sede de que? você tem fome de que? a gente não quer só comer, a gente quer comer e quer fazer amor. a gente não quer só comer, a gente quer prazer pra aliviar a dor. a gente não quer só dinheiro, a gente quer dinheiro e felicidade. a gente não quer só dinheiro, a gente quer inteiro e não pela metade. bebida é água. comida é pasto. você tem sede de que? você tem fome de que? Na música citada pode-se entender pela arte que o homem é um ser inacabado que tem fome, não só de comida ou água, mas também de cultura, de arte, de amor. Fomes estas retratadas por Ernst Bloch em Espírito da Utopia, e citados por ALBORNOZ, 1998. Segundo a autora, o filósofo coloca que as fomes humanas se revelam em seus sonhos, em sua imaginação, não só como antecipação daquilo que se 6 Arnaldo Antunes... 9 projeta e se busca construir, mas como projetos de vida alternativa. Sonhos que sonhados acordados visualizam possibilidades futuras, que exigem que o humano os coloque em prática, os transforme em realidade. Podem ser sonhos individuais ou coletivos, alguns ideológicos, alienantes, no sentido marxista do termo, enquanto outros indicam o novo, o utópico, a realidade ainda não vivida. Mas este sonhar não é sonhar o impossível, é sonhar e buscar construir. Não sonhar com uma vida repleta de sucesso profissional ou de aquisições que enaltecem o Ter e não o Ser. Numa auto-reprodução do sistema baseado no consumismo exacerbado. O sonhar proposto por Bloch é o sonhar um sonho coletivo, que indica o novo, uma forma alternativa de viver, algo que ainda não é. Neste sentido, é preservar em seu âmago um otimismo militante, de que é possível, apesar dos obstáculos, imaginar a abertura do mundo, sua incompletude. Incompletude compartilhada entre homem e mundo, realidades passíveis de mudança. É o novo que germina no horizonte da utopia concreta que faz aparecer o real, que inclui possibilidades. Possibilidades estas que são múltiplas e se dão através da linguagem, que não ecoa em nosso espírito; o possível pensável mas que não há maneira de ser realizado e o possível objetivo-coisal, onde o objeto é parcialmente condicionado em seus comportamentos e relações como coisas. No quarto nível o possível realobjetivo “O filósofo reconhece a possibilidade objeitivamente real de algo, onde há a possibilidade formal e a presumibilidade em função do conhecimento dos fatos, mais a abertura determinada pela estrutura mesma do objeto real, existem também predisposições subjetivas a ponto de haver já uma determinação para realizar-se, ou seja, uma “determinidade de futuro”.(ALBORNOZ, 1998, p. 27) Ou seja, a possibilidade do real está contida na matéria mesmo estando esta em movimento. Melhor dizendo, segundo o filósofo a matéria é dinâmica e nela está o serem-possibilidade ou ser-segundo-as-possibilidades. Assim, a possibilidade objetivo-real é também a possibilidade essencial-real. O ser ainda não realizado, mas possível pela própria base material do ser aí que se mostro como possível. Essa forma de pensar a realidade como germe de mudança presente em si mesma, em sua materialidade concreta leva à valorização do homem como ser capaz de mais humanidade, que corresponde a isso em atitudes concretas em sua realidade. Em outras palavras, que aprende na busca de algo que ainda não conhece. Não vê como ato 10 de desespero ou de reminiscência, mas como ato de esperança, de possibilidades outras de relações entre homens e entre estes e a natureza. Uma possibilidade que se constrói numa nova forma de se relacionar que não a da exploração, a reificação ou fetichização denunciadas por Marx. Ensino de filosofia, possibilidade de esperança em meio à “excelência” técnicoracional Tendo por base que o conceito de educação de Charlot7, onde esta é vista como processo de apropriação do patrimônio humano que ajuda o sujeito, ser inacabado e desprovido de condições de sobrevivência imediata sozinho, pode-se observar que em meio a este processo de apropriação o homem se torna também um animal político, que convive e cria, que sonha e busca produzir sua realidade através de sua vivencia em sociedade. Nesse sentido, o homem como caniço pensante se coloca ou como ser que apenas está-aí ou como ser-aí, ser que se relaciona e transforma o ambiente onde vive. Segundo Bloch, comentado por ALBORNOZ (1998), é também um ser de esperança que tem fome de vida plena, pois suas pulsões o levam a querer viver sempre mais, viver com amor, cultura, comida, conhecimento, capacidade sempre maior de crescimento e de buscar seu essencial-real, a materialidade de seus sonhos e utopias construídas em alternativa ao sistema que está posto, onde se naturaliza o lucro em detrimento do próprio ser humano em suas necessidades e direitos, até mesmo aqueles mais prementes como os direitos básicos à educação, saúde e moradia. A escola, que segundo LIBANEO(p. 1, 2005) (...) existe para formar sujeitos preparados para sobreviver nesta sociedade, através dos testes avaliativos e da ideologia imposta aos currículos escolares por organismos internacionais através de acordos para financiamento, reproduz o sistema capitalista em sua ideologia e busca também o sucesso que se dá na quantificação do saber em estatísticas esquecendo de sua função de formadora de cidadão emancipado, que dialoga e questiona/problematiza sua própria realidade. Assume assim o papel de formadora de cidadãos que o são pelo grau de consumo que apresentam, pelo quanto de dinheiro tem para gastar. Inserida neste contexto, para servir como formadora de cidadãos éticos, que sabem relacionar seus conhecimentos, a filosofia se torna disciplina obrigatória no 7 Charlot, 2000, citado por Libaneo (2005) 11 ensino médio a partir de 2008, assume também (de forma não explicita), o papel de integrar diferentes disciplinas na chamada interdisciplinaridade, onde os diferentes saberes convergem e contextualizam a realidade do aluno e sua subjetividade. No entanto, por ser a busca pelo saber, seu ensino se coloca sempre entre dois métodos: aquele de Hegel, do ensino da história da filosofia e o de Kant, o ensino do filosofar, onde o humano usa de sua razão, sem necessariamente pensar o que já foi pensado. Métodos estes que sempre abrem a possibilidade de questionamento, de busca por respostas a perguntas sempre presentes na humanidade e sempre novamente refletidas. Ou seja, apesar de ter um objetivo claro e outro implícito, a disciplina de filosofia no ensino médio torna-se possibilidade de questionamento ao que está posto, torna-se possibilidade de, pelo questionamento, buscar a essencialidade real do sujeito, claro que sendo o docente um otimista militante, com seus pés fincados na realidade e buscando, através da práxis, “cutucar” as pulsões dos alunos, suas fomes de vida plena, em abundância de cultura, afeto, condições materiais de sustentação. Óbvio é que esse processo de crer na esperança, de construir uma práxis utópica, nesta situação, depende do professor de filosofia, em última instância de sua formação e de sua crença na transformação da realidade. Porém, o ato de conhecer, em se tratando de filosofia é sempre um ato político e de esperança na capacidade humana de buscar suas possibilidades, de sonhar acordado com o que pode vir-a-ser, com a busca da essência do humano em cada ser. O que destaca que por si só o ensino de uma disciplina com tempo exíguo no currículo escolar como a filosofia não irá causar uma revolução no sistema educacional, mas serve como contraponto crítico às teorias pedagógicas modernas e contemporâneas que apregoam este ou aquele aspecto científico ou utilitarista a ser pensado para o sistema educacional como forma de dar vazão ao que é apregoado pelo sistema capitalista. Conclui-se, então, com a certeza de que o docente que atua com a disciplina de filosofia é desafiado constantemente, seja pelos desafios inerentes à docência, seja pelos desafios da disciplina, a ser um sujeito otimista militante, que em sua própria busca pela sabedoria, se faz político, se faz ser de esperança concreta, que a torna seu sonho possível de transformação ou pelo menos de abertura das mentes adolescentes, principal público do ensino médio, a refletir acerca das diversas fomes humanas, da sensibilização para quem passa fome de alimentos, pelo questionamento do status quo naturalizado, à fome de cultura, de ser mais, de transcender aos sonhos de um mundo de práxis da esperança. 12 É utópico, porém, que seriam os humanos sem suas utopias, seus sonhos, e pior, sendo seres de possibilidade, sem seu otimismo militante, na busca de sua essênciareal? Que seria dos professores, principalmente de filosofia, se não sonhassem com uma práxis que levasse à construção de uma utopia concreta? Que será da própria filosofia se não conseguir questionar, provocar, quem a estuda? RERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS: ALBORNOZ, Suzana. Ética e Utopia: ensaio sobre Ernst Bloch. 2ed ver – Porto Alegre: Movimento; Santa Cruz do Sul, RS: Ed. Da UNISC.2006. ALBORNOZ, Suzana. O enigma da esperança. Ernst Bloch e as margens da história do espírito. Petrópolis, RJ. Vozes. 1999. ALVES. D. J. A Filosofia no Ensino Médio: raízes históricas e questões atuais. In: Seminário A Filosofia no Ensino Médio: legislação e conteúdo programático – parte II. Depto de Educação. UNESP/Rio Claro. 15/05/2003. Texto digitado. ARANHA, Mª Lucia de Arruda & MARTINS, Mª Helena Pires. Filosofando: Introdução à filosofia. 4. Ed ver. – São Paulo: Moderna, 2009. FREIRE, Paulo, Pedagogia do oprimido, Editora paz e Terra, 41 Edição, São Paulo, 2005. FREIRE, Paulo. 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