Hedonismo Aparentemente o hedonismo constitui uma das mais óbvias alternativas instrumentalistas ao formalismo discutido na secção anterior. Também aqui não estamos propriamente perante uma teoria estética em sentido estrito, tratando-se sobretudo de uma perspectiva geral segundo a qual a arte não tem valor em si; o valor das obras de arte consiste no prazer que retiramos delas. O prazer é algo que tem valor em si e a arte é um meio para obter prazer. Consoante a noção de prazer em causa – prazeres sensoriais ou intelectuais, inferiores ou superiores – assim também podemos falar de diferentes tipos de hedonismo. De um modo geral, o hedonista subscreve o seguinte argumento tipicamente instrumentalista: 1. Todos os artefactos são concebidos com um propósito 2. As obras de arte são artefactos 3. Logo, as obras de arte têm um propósito. Ao concluir que a arte tem um propósito, o hedonista alega que o valor da arte depende da importância que atribuímos a tal propósito. Este argumento não é exclusivo dos hedonistas, sendo um argumento comum a diferentes concepções instrumentalistas da arte, pelo que a sua aceitação não nos compromete ainda com a perspectiva hedonista. Podemos, pois, aceitar este argumento sem ser hedonistas. O que distingue o hedonista de outros instrumentalistas é a convicção de que o propósito das obras de arte – e, consequentemente, o seu valor – só pode ser o prazer. Tal convicção apoia-se na conjunção das seguintes duas teses: i) a arte proporciona prazer a quem a aprecia ii) as pessoas dão muita importância ao prazer e Se a arte proporciona prazer e o prazer é algo que valorizamos, segue-se que o prazer constitui uma justificação adequada do valor que reconhecemos à arte. Resta saber se i) e ii) são verdadeiras. E esta parece ser apenas uma questão empírica: por um lado, trata-se de verificar se, de facto, a arte dá prazer às pessoas e se, por outro lado, as pessoas dão ao prazer uma importância equiparável à da arte. Há, contudo, uma questão prévia a que é preciso responder e que não é de ordem empírica: de que estamos exactamente a falar quando falamos de prazer? Aires Almeida Hedonismo ____________________________________________________________________________________ Há diferentes noções de prazer, a mais comum das quais consiste em identificar prazer com felicidade ou ausência de dor. Só que a noção de felicidade é talvez ainda mais problemática do que a noção de prazer, assim como é perfeitamente razoável falar de ausência de dor ou sofrimento sem estar a falar de prazer. Não dizemos, por exemplo, que os analgésicos servem para nos dar prazer, apesar de servirem para dissipar as dores. E também não dizemos que temos prazer quando dormimos, apesar de não sofrermos durante o sono. Um sentido mais preciso de prazer geralmente associado à arte é sugerido por R. G. Collingwood em The Principles of Art e é o de prazer como divertimento ou entretenimento (amusement)1. É um facto que muitas pessoas procuram divertir-se quando lêem romances e quando frequentam salas de cinema, de teatro e de concertos. E entre as chamadas «indústrias de entretenimento» contam-se as editoras discográficas, as empresas promotoras de espectáculos musicais e teatrais, assim como as produtoras cinematográficas e outras indústrias ligadas às artes. A relação entre arte e divertimento parece, pois, ser algo mais do que acidental. Mas o facto de muitas obras de arte nos divertirem e de isso contribuir efectivamente para as valorizarmos mais do que se não nos divertissem não mostra que a arte é divertimento. E, mais importante ainda, também não mostra que a medida do valor geralmente atribuído às obras de arte seja o seu valor de entretenimento. Não há qualquer evidência empírica de que as pessoas que apreciam a Missa em Dó Menor de Mozart, que lêem Ana Karenina de Tolstoi, que observam Retrato do Dr. Gachet de Van Gogh, e que vêem o filme Barry Lyndon, de Stanley Kubrick, o façam com fins recreativos ou por simples diversão. Pelo contrário, muitas dessas pessoas afastam liminarmente a ideia de que seja isso que buscam em tais obras, o que mostra que nem sempre a arte proporciona prazer, ou divertimento, a quem a aprecia e que, portanto, a tese i) não é verdadeira. Mostra também que as pessoas valorizam a arte mesmo quando esta não lhes proporciona divertimento, e que a importância que, em geral, atribuem ao divertimento está longe de se equiparar ao prestígio e ao estatuto social da arte. Se assim fosse, os jogos de cartas, os espectáculos de circo e os concursos de anedotas, gozariam do mesmo tipo de apoio dispensado pelas mais diversas instituições estatais e não estatais ao estudo, fomento e divulgação da música, da pintura e da literatura. Além disso, a ideia de que a arte serve para divertir também não costuma ser utilizada para justificar os recursos públicos despendidos com a promoção e desenvolvimento das artes. A importância 1 Collingwood acaba, contudo, por rejeitar a ideia de que a arte é divertimento. Toda a primeira parte de The Principles of Art é dedicada à distinção entre os vários tipos de “art falsely so called” (“art as craft”, “art as representation” e “art as amusement”) e “art proper” (“art as expression” e “art as imagination”). 2 Aires Almeida Hedonismo ____________________________________________________________________________________ efectivamente dada ao divertimento está longe de se equiparar à importância que reconhecemos às artes e é por isso que geralmente se distingue o artista do simples entretainer. E até no interior do mundo da arte, como sublinha Gordon Graham (1997, p. 17) «a própria discriminação entre obras e formas de arte maiores e menores» -por exemplo, entre uma comédia de costumes e uma tragédia shakespeariana, ou entre uma peça de arte decorativa e um quadro de Vermeer, ou entre as artes populares e as chamadas «artes sérias» -- assenta na ideia de que «a arte é mais importante do que uma mera fonte de divertimento». Assim, a importância do divertimento referida na tese ii) não é equiparável à importância habitualmente atribuída à arte, pelo que também não nos podemos apoiar aí para justificar o valor da arte. É preciso, contudo, sublinhar que as afirmações «o valor da arte não reside no prazer que proporciona» e «o prazer que certas obras nos proporcionam contribui para o valor que lhes atribuímos» não são inconsistentes. Do facto de o valor da arte não residir no prazer que proporciona não se segue que o prazer proporcionado por certas obras de arte não as possa tornar mais valiosas. Segue-se apenas que o prazer não constitui uma justificação adequada para o valor da arte em geral. Pelo menos se entendermos o prazer como simples divertimento. Mas esta não é a única forma de hedonismo. Um hedonista como Mill, por exemplo, estabelece claramente a distinção entre prazeres inferiores e prazeres superiores. Em Utilitarianism (p. 12), Mill argumenta que tal distinção não é apenas uma questão de grau, intensidade, ou quantidade de prazer obtido. Nenhuma quantidade de prazeres inferiores pode substituir um prazer superior. Caso fosse possível compensar a falta de prazeres superiores com uma maior quantidade de prazeres inferiores, não haveria qualquer diferença substancial entre uns e outros. Trata-se, pois, de superioridade em qualidade. O simples divertimento não passa de uma forma inferior de prazer, além do qual existe outro tipo de prazer mais elevado. Mill diria que é esse tipo de prazer superior que a arte provoca em nós e que nos leva a valorizá-la do modo como a valorizamos2. Diria que a Missa em Dó Menor de Mozart não é divertida, mas que a ouvimos por prazer; que Ana Karenina de Tolstoi não é um romance divertido, mas que a sua leitura nos dá prazer; que olhamos com prazer para Retrato do Dr. Gachet de Van Gogh, mas não achamos o quadro divertido. O prazer proporcionado pela arte é um prazer diferente do prazer recreativo. E esse é um prazer superior precisamente porque é mais desejável por parte de quem conhece bem os dois tipos de prazer. Tomem-se dois prazeres, «se um dos dois for, por 2 Mill fala da distinção entre prazeres superiores e inferiores em termos gerais, mas também se pode aplicar à questão do valor da arte. 3 Aires Almeida Hedonismo ____________________________________________________________________________________ aquelas pessoas que estão competentemente familiarizados com ambos, claramente colocado acima do outro de tal modo que o prefiram», diz Mill, «estamos justificados para atribuir ao modo de agrado preferido uma superioridade em qualidade» (p.15). Contudo, o critério indicado por Mill para distinguir os prazeres inferiores dos superiores é insatisfatório, visto o prazer ser essencialmente um sentimento subjectivo e o que é mais aprazível para umas pessoas poder não o ser para outras. Imagine-se duas pessoas que gostam de jogar xadrez e apreciam também a Nona Sinfonia de Beethoven. É perfeitamente possível acontecer que enquanto uma prefere o prazer de escutar a Nona Sinfonia, a outra prefira o prazer de jogar xadrez, apesar de as duas estarem familiarizadas com ambos os prazeres. Uma resposta possível a uma objecção como esta seria dizer que, apesar de as duas pessoas estarem familiarizadas com esses prazeres, talvez alguma delas não esteja «competentemente familiarizada» com ambos. Mas o que significa tal coisa? Se alegarmos que as pessoas competentemente familiarizadas com ambos os prazeres são aquelas que conseguem distinguir os prazeres superiores dos inferiores, então estamos a raciocinar de forma circular. Uma forma de evitar a circularidade é abandonar essa ideia e alegar que os prazeres superiores, ao contrário dos inferiores, envolvem faculdades superiores. As faculdades superiores seriam as faculdades reflexivas ou intelectuais e as faculdades inferiores seriam as faculdades sensíveis. Isto parece, de resto, confirmar a ideia comum de que os prazeres dos seres racionais não são do mesmo tipo que os prazeres dos animais. Apesar de partilharmos alguns dos prazeres com os porcos e outros animais – também somos animais como eles –, temos acesso a um tipo de experiências aprazíveis que são inacessíveis a um porco. É precisamente isso que leva Mill a dizer que um porco satisfeito e um ser humano satisfeito são coisas muito diferentes. A experiência estética seria, assim, uma experiência de ordem superior, própria de seres racionais, envolvendo as nossas faculdades superiores. Ao evitar deste modo a referida circularidade estamos, contudo, a apelar a um critério exterior aos próprios prazeres – a intervenção das nossas faculdades superiores –, sendo, também por isso, independente do seu grau de maior ou menor aprazibilidade. Só que fazer tal coisa equivale a abandonar o hedonismo. Esta é, de resto, uma objecção recorrente ao hedonismo, o que o coloca perante o seguinte dilema: 1. Ou a qualidade do prazer se reduz à quantidade 2. Ou a qualidade do prazer se reduz a valores não hedonistas 4 Aires Almeida Hedonismo ____________________________________________________________________________________ Mill recusa explicitamente 1, até porque isso implica que um prazer superior possa ser substituído sem qualquer prejuízo por uma maior quantidade de prazeres inferiores – caso em que prazeres alegadamente superiores, como ouvir a Nona Sinfonia de Beethoven, ler Ana Karenina de Tolstoi e apreciar o Retrato do Dr. Gachet, de Van Gogh não seriam insubstituíveis e aquelas pessoas que nunca experimentassem tais prazeres não teriam muito a perder – o que parece inaceitável. Por sua vez, 2 também é inaceitável para o hedonista, pois implica que a qualidade dos prazeres não faz parte das suas características intrínsecas, o que constitui uma falsificação do hedonismo. Em qualquer dos casos, a justificação hedonista para justificar a distinção entre prazeres superiores e prazeres inferiores acaba por falhar. O que retira ao hedonismo qualquer poder explicativo acerca da questão do valor da arte. Além disso, ainda que o hedonismo se mantivesse de pé, a distinção entre prazeres inferiores e superiores baseada na intervenção de faculdades apropriadas – as faculdades sensíveis, no caso dos prazeres inferiores e as faculdades intelectuais, no caso dos prazeres superiores –, não permitiria distinguir entre o prazer de ouvir a Nona Sinfonia de Beethoven e o prazer de jogar xadrez, dado que em ambos os casos intervêm as chamadas faculdades superiores. Contudo, habitualmente não colocamos estes dois prazeres ao mesmo nível, nem isso poderia servir para justificar o valor da arte. Tal como não justificamos da mesma maneira o prazer estético e o prazer de descobrir a demonstração de um teorema matemático, o prazer de encontrar a solução para um problema científico ou o prazer de superar uma dificuldade escolar. Vale a pena insistir mais uma vez que nada do que foi dito implica que o prazer seja irrelevante para o valor de muitas obras de arte. A ideia de que retiramos prazer das nossas experiências estéticas e de que o valor da arte está relacionado com esse prazer não é de todo implausível. É perfeitamente natural que, se a par de outras coisas tão ou mais valiosas, um compositor, pintor, actor ou romancista puder ao mesmo tempo proporcionar prazer aos destinatários das suas obras, isso se reflicta na apreciação global que delas se faz. Ainda que o prazer não seja uma condição necessária nem suficiente para o valor da arte, pode mesmo assim ser um aspecto importante na avaliação da maioria das obras de arte. Visto que o prazer obtido pela apreciação das obras de arte não é o mesmo tipo de prazer proporcionado pelo sexo, por uma boa refeição, pela participação num jogo de futebol ou numa partida de xadrez, impõe-se uma caracterização da noção de prazer estético, de modo a distinguir este daqueles, evitando as armadilhas do hedonismo. É precisamente isso que Jerrold Levinson propõe no ensaio intitulado Pleasure and the Value of Works of Art, incluído no seu livro The Pleasures of Aesthetics. 5 Aires Almeida Hedonismo ____________________________________________________________________________________ Levinson apresenta cinco características principais do prazer estético. Em primeiro lugar, considera que o prazer estético está ligado ao valor artístico, na medida em que o valor da arte é geralmente associado ao prazer que ela consegue proporcionar. Esta associação só é plausível se houver alguma capacidade duradoura e não esporádica das obras de arte para propiciar prazer às pessoas. O que significa que o prazer estético depende de alguma característica presente na própria obra capaz de propiciar prazer. Não sendo o prazer estético fortuito nem ocasional, a sua compreensão não se pode reduzir aos aspectos subjectivos do sentimento de prazer. Geralmente uma obra dá prazer estético porque tem valor estético e não tem valor estético porque dá prazer estético. Apesar de o prazer estético e o valor artístico prazer estético estarem ligados, o prazer estético não constitui uma justificação para o valor artístico. O prazer e o valor da arte estão ligados «apenas quando está demonstravelmente presente na própria obra uma propensão para propiciar prazer» (p. 13). Em segundo lugar, o prazer estético é um prazer activo e não meramente contemplativo ou sensorial. O prazer que experimentamos perante Bolero de Ravel é algo que não se pode reduzir ao simples registo auditivo (aurally registering) dos sons produzidos, pois trata-se do processo de escutar activamente essa peça – se assim não fosse, a peça seria provavelmente aborrecida e enfadonha, dado o seu carácter repetitivo. Assim, o prazer estético é tipicamente o prazer em fazer algo: escutar (e não ouvir), observar (e não ver), organizar, projectar, relacionar, imaginar, descobrir, conjecturar, especular, etc. Não é apenas uma questão de deixar as coisas acontecer a um nível sensorial. Em terceiro lugar, o prazer estético não é um prazer qualquer; é um prazer de um certo tipo. O tipo de prazer adequado ao valor artístico a que se encontra ligado – e que não é apenas estético no sentido de ser desinteressado –, é um prazer informado que decorre da percepção da obra como um todo inserido num contexto histórico. O prazer estético que retiramos de uma obra musical como Gymnopédies de Erik Satie é diferente quando somos capazes de apreender aspectos como estilo, forma e originalidade. Em quarto lugar, o prazer estético não é hedonístico em sentido estrito, pois não consiste numa resposta positiva imediata aos objectos artísticos. Frequentemente as nossas reacções não podem ser descritas como aprazíveis, até porque consideramos muitas obras de arte perturbantes, agressivas e provocadoras. Mesmo assim, podemos encontrar satisfação nelas indirectamente, como meta-resposta a às respostas de primeira ordem. Isso explica por que razão podemos dizer que retiramos prazer de uma melodia triste ou de uma tragédia grega. 6 Aires Almeida Hedonismo ____________________________________________________________________________________ Por último, o prazer estético não é a única medida do valor artístico. Apesar de duradouro, activo, informado e correctamente direccionado, o prazer estético, só por si, não justifica o valor da arte, dado que valorizamos muitas das grandes obras de arte acima do prazer que elas alguma vez são capazes de nos propiciar. Se considerarmos adequada a caracterização do prazer estético apresentada por Levinson, ficamos em condições de compreender as duas ideias principais que procurei defender ao longo desta secção: em primeiro lugar, que os hedonistas estão errados, pelo que o prazer não é uma boa justificação do valor da arte em geral; em segundo lugar, que apesar disso há uma relação estreita entre o prazer e o valor da arte. E que, afinal, estas duas coisas, ao contrário do que às vezes se supõe, não são incompatíveis. 7