A gravura nasce de uma técnica, uma das mais belas técnicas no
campo das artes, e uma das mais éticas. Sua ética repousa em dois
fundamentos.
O primeiro é o da exigência comandada pela matéria, pelos
instrumentos, pela precisão do gesto que compartilha força manual.
Maria Bonomi contou algumas vezes os imperativos que Lívio Abramo,
um de seus mestres formadores, impôs a ela: familiaridade com as
goivas, formões, buris; com os entintadores; com a resistência e as
seduções das matrizes. A mão devia aprender.
Mas o cérebro, por sua vez, tinha que antecipar o resultado.
Quando a matriz está pronta, aquilo que o papel dela recebe e depois
revela, guarda sempre uma surpresa. Nesse momento, a progressão do
processo artístico interrompe-se. Ocorre então uma ruptura decisiva. É
quando se termina o efêmero e amoroso acasalamento do papel com a
matriz, é quando ele, o papel, recebe as marcas da tinta, que a obra
surge, final, definitiva.
Criação e execução, engenho e manejo juntam-se, portanto, numa
dialética inseparável, mesclados num mesmo fluxo. Sem um desses
termos, a gravura não existe. Assim, por essas características
intrínsecas e rigorosas, o ofício do gravador impede a facilidade e a
trapaça.
O segundo fundamento repousa sobre a natureza social da
gravura. Como múltiplo, ela põe em cheque o original precioso e
insubstituível. É ao mesmo tempo única e é numerosa. Ubíqua, ela se
espalha por vários lugares, sem abdicar de si. Entrega-se ao mesmo
tempo a tantos olhares, em tantas paragens.
Duas éticas, portanto: uma artesanal, outra social. A trajetória de
Maria Bonomi conta uma fidelidade sem vacilo a ambas. A artista não
se contenta em se debruçar sobre matrizes com precisão e rigor, mas
segue todos os processos, até a impressão final, num controle cuidado.
Também não se contenta em assistir, tranqüila, aos desmandos do
mundo: denunciou, e denuncia, as injustiças sociais, os abusos
políticos. Essa força convicta invade sua arte e está nela sempre
presente, às vezes evidente, às vezes infiltrada no puro gesto criador.
Intensidade é um dos traços mais característicos de sua obra.
Brota de conflitos que se resolvem em tensão.
Numa entrevista recente, a artista declarou: “É o conflito da
matéria com a idéia. Você sabe que um fator inesperado pode ser
introduzido no trabalho, na medida em que você já tem em mente
alguma coisa. E isto pode acontecer ou não. A gravura, enquanto
resultado, se refere ao mundo visível, perceptível pela retina – e também
pelo tato. Mas enquanto conceito, enquanto idéia, ela se conclui
totalmente em nossa mente. Com isto, estou quase chegando a dizer
que há uma matriz mental e há uma matriz realizada. Nós as
transpomos para um terceiro suporte, através da técnica, uma
materialidade que era mental, que era uma verdade nossa, que era uma
imagem anterior ao que se fez. Assim, realizar uma gravura é, antes de
mais nada, ter uma idéia gráfica. E possuir valores gráficos,
antecedendo à sua materialidade. Quer dizer, a gravura poderia ser até
considerada imaterial, e não necessariamente gravura.”
Esse imaterial, porém, está tanto na idéia quanto no gesto. De lá
a seriedade, o rigor manual e mental, da gravura Mas de lá parte
também o princípio de que a gravura situa-se muito além da técnica. “A
gravura é um universo”, disse Maria Bonomi.
*
Na arte de Maria Bonomi a vocação social se dilata, como se
dilatam também os princípios artesanais. Nada ali é pequeno. O gesto
incisivo da gravadora, o sulco que traça, o vazio que impõe à madeira,
as formas que recorta, são sempre monumentais e tendem para o
ilimitado. As formidáveis estruturas formais que Maria Bonomi concebe
estão tanto na pequenina imagem (que pode ser ampliada quantas
vezes se quiser, pois se sustenta e guarda sempre a mesma força),
quanto nos vastos painéis que criou para locais públicos. O que está no
menor está no grande também, e pensar suas obras em escala é
compreender bem superficialmente essa arte épica.
*
Maria Bonomi formulou, com segurança1, que o artista gravador
cai num exercício de limitação “se não lhe são passados o exercício do
ideário e a atitude intrínsecas à gravura: a arrojada possibilidade
investigativa que contém, que pode ser garimpada infinitamente. Tudo o
mais é agônico.”
Está implícita aqui a idéia de que a gravura é um universo.
Cortar, entalhar, extrair, marcar, sulcar, eis o cerne. Dele, a grande
gravadora avança: a impressão sobre a folha se amplia, agiganta; o
papel pode ser substituído pelo cimento que se torna o receptor dessas
impressões. O metal recorta-se, remodelado, transformando-se numa
espécie de escultura-gravura. O poliéster, o vidro, o espelho, o azulejo,
latas de refrigerante, garrafas, uma fotografia significativa, tudo se
torna alimento para as invenções.
A idéia de arte pública, que é tão cara a Maria Bonomi, pressupõe
investimento público, espaço público, e energia coletiva. Essa energia é
fornecida
por
operários,
e
arquitetos,
colaboradores
paisagistas,
urbanistas,
inesperados,
cruciais,
engenheiros,
todos,
para
a
elaboração da obra.
No grande painel criado para a Estação da Luz e CPTM (São
Paulo), Maria Bonomi incorporou marcas de coisas perdidas há anos e
1
BONOMI, Maria –in seminário Gravura, história, técnica e linguagem”, São Paulo, Itaú Cultural, 2001,
apud LAUDANNA, Mayra (org) Maria Bonomi da gravura à arte pública, EDUSP/IOESP, São Paulo, 2007,
p. 290.
descobertas (exatamente como num sítio arqueológico) quando se fazia
a transformação do local: lembranças de velhos fantasmas descuidados.
Mas foram ainda acrescentados muitos objetos trazidos por gente a
mais diversa. O cimento conservou marcas e formas: no côncavo vazio,
o ninho da colaboração e da memória.
*
O ato gravador de Maria Bonomi é feito de liames, de laços, de
passagens, que não respeitam ou se acomodam em definições de gênero
artístico. A palavra ponte (título de uma de suas últimas obras) exprime
bem a idéia de travessia entre margens de outro modo inaccessíveis.
Encontramos o caráter primordial dessa arte entre as formas impressas
no papel e na enorme parede, entre os talhes da madeira e do cimento,
entre a superfície e o relevo, entre a gravura e a arte pública.
É assim que gravura, na obra de Maria Bonomi, nunca significa
apenas uma técnica. A artista cria, de fato, um universo em contínua
expansão. Nele, tudo se interliga, se responde, se sustenta. Ele existe
graças ao formidável poder inventivo próprio à artista.
Tudo parte de um sentimento amplo. Desde sempre. Não apenas
as diferenças de tamanho entre as obras significam pouco. Suas
posições na linha do tempo também são insignificantes, comparadas à
poderosa unidade criadora de onde provêm e à qual pertencem. Basta
ver as impressionantes ilustrações para Cobra Norato, de Raul Bopp,
com seus claros domínios da mancha, do vazio, da estrutura: quem
jamais poderia imaginar que essas obras fortes e maduras foram
realizadas por Maria Bonomi quando tinha 11 anos? Basta atentar para
a Paisagem urbana de São Paulo, feita aos 17 (época em que um crítico
descrevia “formosa vista de São Paulo, de autoria da gentil senhorita
Maria Bonomi”), e reveladora de um impressionante sentido de
construção sólida e viva.
O essencial já estava lá, nessas primeiras obras. Lina Bo Bardi
empregou a expressão metagênese, referindo-se à força criadora feita de
transformações, que caracteriza Maria Bonomi. A própria gravadora
afirmou que sempre faz o mesmo, e que, ao fazer o mesmo, sempre sai
algo novo. Assim como o pequeno está no grande, o ontem está no hoje.
Na vertigem fértil de sua criação, quantas vezes de uma obra
nascem outras. Esse processo ininterrupto e fecundo tem um exemplo
bem atual: está presente na Ponte. A grande xilo está fecundando as
Águas sólidas, unidades metálicas leves e transparentes, ainda
inacabadas em seu sentido pleno, mas em pleno desenvolvimento.
Outra bela frase de Maria Bonomi, que parece conter tão bem sua obra:
“Não creio que a realidade tenha começo e fim...”
*
Há um evidente sentimento de amplidão, tanto no modo de ser
pessoal de Maria Bonomi, quanto em suas obras. Ela trabalha de
maneira muito cuidadosa, mas o resultado não se confina em
minudências. Existem grandes artistas que se debruçam sobre
pequenas superfícies, criando mundos ao mesmo tempo reduzidos e
infinitos: Klee era assim, para citar um nome que Maria Bonomi
mencionou entre os que admira. Outros, ao contrário, necessitam
expandir-se na largueza da epopéia.
A energia que anima Maria Bonomi não a encaminha para a
gestualidade, para as manchas veementes, para os rastros de tinta no
papel. Ela tem, na xilo, seu meio de eleição (a gravura, disse ela, “nasce
‘dentro’ da madeira; não ‘sobre’ o papel. Madeira é receptiva, contém a
energia.”). Ora, a xilo impõe disciplina. A sua prática canaliza o gesto
para a estrutura.
Isso combina com o espírito, desconfiado do aleatório e do
desordenado, que preside às obras de Maria Bonomi. A energia
poderosa dirige-se para a busca de uma geometria pessoal e pulsante.
Vibrando graças aos impulsos e às efervescências da criação, o rigor
visual conduz a um resultado que contém sempre algo de heróico
Um poderoso sentido plástico vai ao essencial das formas, e as
organiza com clareza intensa, conferindo-lhes uma autoridade que não
se discute. Tal arte não poderia ficar confinada aos limites do papel,
capazes de se ampliar até certo ponto, mas não até o painel gigantesco.
As longas hastes que se inclinam, cruzam-se e se apóiam umas
nas outras, que ela criou em 1976 para a Igreja Mãe do Salvador (Cruz
Torta) em São Paulo, sua primeira obra pública, inserem-se no universo
da gravura. Os sucos paralelos que procuram um dinamismo tenso e
geométrico, no painel do Esporte Clube Sírio; ou o magnífico percurso
ondulado no pátio interno do Hotel Maksoud Plaza, em São Paulo; ou as
superfícies por ela criada para o metrô e para a estação da Luz; todas
as suas obras monumentais, enfim, gravitam na galáxia gravura. Nela
inserem-se ainda as instalações: a poesia simbólica de Sobre a essência:
7 horizontes do Homem; o riacho movente de reflexos, feito de espelhos
em fragmentos, que compõem o percurso da maravilhosa Passagem
pela imagem.
De todos os modos, o destino público das obras de Maria Bonomi
está marcado. Por uma razão simples. É a seguinte: suas obras
instauram o espaço que a envolve, definem o lugar em que estão.
Impõem seu entorno. Metamorfoseiam o lugar em que se situam. Criam
a própria atmosfera na qual se envolvem. Expandem-se em aura. Isso
provém de que, nelas, tudo é essencial. Foram banidos quaisquer
detalhes agradáveis ou ornamentais, para atingir a austera plenitude de
uma forma poderosa e decisiva.
*
Esta mostra é a mais completa até hoje realizada sobre a arte de
Maria Bonomi. Reuniu um número elevado de obras, não tanto para
traçar um percurso cronológico (embora muita produção de juventude
esteja presente, várias das quais nunca expostas até agora), mas para
revelar a permanência de suas preocupações e os laços que as une.
É preciso assinalar, porém, que suas importantes criações
cenográficas, por questões de espaço, não puderam ser incluídas. Tratase certamente da lacuna maior. É verdade também que, por seu caráter
específico, e pela raridade dos documentos conhecidos, elas exigiriam
pesquisas e estudos detalhados, ainda por serem feitos. Esperemos que,
no futuro, uma exposição cuidadosa sobre esse tema – Maria Bonomi eo
teatro - venha a ser realizada.
Nossa concepção (digo nossa não como plural de modéstia, mas
com o sentimento de que ela brotou de uma equipe), divide-se da
seguinte maneira.
Uma sala é consagrada à arte monumental. Nela, há uma
projeção de fotos das obras que, por razões evidentes, não podem ser
deslocadas. Nessa mesma sala são apresentadas algumas matrizes que
são admiráveis, verdadeiras obras de arte por si mesmas.
Na sala circular superior (que batizamos de “o útero”), reunimos
criações que, de algum modo, possuem um caráter “feminino”.
Na sala circular inferior (o “calabouço”), está a produção
vinculada às convicções políticas da artista.
A sala maior (o “panorama”) revela o amor essencial pela
xilogravura, técnica nuclear em seu percurso, mas ainda suas
incursões pelo desenho, pela lito, pelo óleo.
Maria Bonomi realizou algumas gravuras em versões diversas,
com variações sobretudo no colorido. Tomei o partido de mostrar todas
essas versões, pelo que segue: as variantes cromáticas são as
encarnações de uma mesma obra. O conjunto de tais metempsicoses
forma uma Ur-obra, que está para além do sensível, e da qual todas as
suas manifestações participam. São efeitos fragmentais de uma
transcendência formada por elas mesmas, e que as ultrapassam.
O impacto de uma série exposta em seqüência é enorme, ainda
mais
se
acompanhadas
pela
matriz,
(que
participa
dessa
transcendência original, como geradora, mas também como modo em
relevo, escultórico, da forma que foi impressa). Diante disto, se
deixássemos apenas uma gravura extraída da série, estaríamos
apresentando antes uma amostragem do que a obra plena.
Enfim,
em
espaços
exteriores,
estão
presentes
algumas
instalações e esculturas.
Quero assinalar aqui a Nu Design (especialmente Julio Mariutti,
Daniel Sene e Rodrigo Brancher) que transformou em soluções
expositivas as concepções norteadoras desta mostra: a jovem equipe
teve, com esta mostra, uma excelente ocasião para adquirir experiência
e exercer sua inventividade. Quero também sublinhar a coordenação e
produção de Lena Peres Oliveira, verdadeira locomotiva do projeto, sem
a qual ele nunca teria chegado a bom termo. Acima de tudo, quero
evocar, por fim, a presença constante e iluminadora de Maria Bonomi.
Jorge Coli
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