Projeto de Pesquisa Arranjos e Sistemas Produtivos Locais e as Novas Políticas de Desenvolvimento Industrial e Tecnológico Estudos Empíricos Nota Técnica 17 Arranjo Produtivo Local – o caso da soja Fábio Doria Scatolin José Gabriel Porcile Meirelles Nilson Maciel de Paula (Universidade Federal do Paraná) Coordenação dos Estudos Empíricos Arlindo Villaschi Filho Renato Ramos Campos Marina Honório de Souza Szapiro Cristina Ribeiro Lemos Coordenação do Projeto José Eduardo Cassiolato Helena Maria Martins Lastres Patrocínio: Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP) Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro – IE/UFRJ Rio de Janeiro, julho de 2000 Arranjo Produtivo Local – o caso da soja Fábio Doria Scatolin José Gabriel Porcile Meirelles Nilson Maciel de Paula 1. Introdução A delimitação do arranjo produtivo referente ao complexo soja seguiu os critérios de densidade inovativa presente nas relações entre os agentes e as atividades que o compõem. Nesse sentido prioridade foi dada ao processo de inovação e difusão tecnológicas embutidas na produção de sementes. Um complexo conjunto de relações foi identificado entre instituições de pesquisa, empresas privadas nacionais e estrangeiras, produtores de novas variedades e seus reprodutores. Por outro lado, apesar de sua importância na geração de renda e de divisas, o processo de comercialização e processamento de soja no Paraná ocupa um espaço secundário nessa investigação tendo em vista seu relativamente pequeno dinamismo inovativo. Período da pesquisa : 26 Março – 5 Julho Inicialmente foram consultados papers e relatórios publicados e não publicados sobre o setor de soja no Brasil e em outros países. Subsequentemente, foram obtidas mais informações sobre firmas específicas, agências públicas para R&D e associações de negócios. Em terceiro lugar, foram contactadas associações com a finalidade de alcançar mais facilmente as firmas e assegurar uma melhor receptividade para as solicitações referentes à pesquisa. Os questionários estão em fase de processamento, na medida em que as respostas vão sendo enviadas pelas firmas e cooperativas. Dificuldades A pesquisa foi muito bem recebida pela indústria cooperativista, pelas associações de negócios e pelos agentes públicos envolvidos na produção e difusão de tecnologia. A receptividade das firmas pertencentes à ABIOVE tem sido bastante insatisfatória, requerendo uma nova aproximação para aplicação dos questionários. Firmas e Instituições entrevistadas 1- FAEP – (Federação da Agricultura do Paraná) – Diretor Técnico: Sr. Carlos Albuquerque 2- Ocepar (Organização das Cooperativas do Paraná)–15 abril – Nelson Costa, Diretor 3- Secretaria de Agricultura – 18 abril – Otimar, Osnir, técnicos da área de sementes 4- ABIOVE/ São Paulo (Associação Brasileira de Óleos Vegetais)– 30 de maio – Fábio Trigueirinho, Diretor 5- Embrapa-Soja 1, Londrina – 8 junho – Paulo Galerani, Chefe de Pesquisa Diretor 1 Neste trabalho as referências à Embrapa dizem respeito à Embrapa-Soja, o centro nacional de pesquisa em soja, localizado em Londrina, Norte do Paraná. 2 6- Emater (Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural)- 19 jun. – José Maurina, Técnico de extensão especialista em soja. 7- IAPAR (Instituto Agronômico do Paraná) – 28- 29 der maio - Paulo Kola, Laurenti (Técnicos) e Paulo Sendin (Diretor), 8- APASEM (Associação Paranaense de Sementes e Mudas) – 03 de Julho – Sr. Eugênio Bohacht , Diretor. 2- Principais características do arranjo produtivo local 2.1. Origem do arranjo produtivo da soja A origem desse arranjo produtivo, do ponto de vista tecnológico, foi fortalecido depois do recente desenvolvimento na inovação de novas variedades de sementes e um novo conjunto de regulações implementado pelo governo através da nova lei de proteção de cultivares no final de 1997. Em termos do desenvolvimento industrial e da própria formação do complexo soja, a origem do arranjo local está associada à expansão da capacidade de esmagamento durante os anos 70, quando mercado internacional da soja se tornou altamente atrativo. O desenvolvimento tecnológico promovendo aumento das exportações, foi inicialmente apenas suficiente para reproduzir e adaptar variedades e insumos modernos às condições de solo e clima no país. Dessa perspectiva, o arranjo local apenas tomou forma nos anos recentes quando uma rede mais complexa nos termos descritos no diagrama abaixo foi construído. Os principais fatores dessa evolução ocorrida no complexo soja são institucionais, após a introdução de mudanças sistema de regulação e abertura do setor para atrair investimentos de larga escala, o que acabou gerando uma concorrência mais intensa entre uma companhia de controle estatal, a Embrapa, e as novas firmas, algumas delas multinacionais. Nesse novo contexto, formas diferentes parceria e cooperação entre os criadores e também produtores de semente vem se desenvolvendo. A indústria processadora de soja contém dois segmentos distintos com impactos diferentes na sua performance em termos de competitividade. Por um lado há um forte complexo industrial cuja dinâmica é determinada pelo mercado internacional de commodities. Mais ainda, o padrão tecnológico é basicamente definido pelo fato de que o produto é homogêneo – grão, farelo e óleo bruto – limitando portanto as perspectivas de diferenciação de produto. Competitividade nesse contexto é um resultado de fatores relacionados a produtividade, custos e escala. Adicionalmente, políticas governamentais têm afetado esses fatores através de incentivos, preço de suporte, subsídios, etc. Definindo competitividade como sendo a habilidade de um país de manter ou aumentar a fatia de mercado de uma determinada indústria de forma sustentável durante um período de tempo, é importante investigar, no contexto de uma atividade específica, os fatores determinantes da competitividade. A indústria processadora no Brasil está essencialmente articulada com o mercado internacional de commodities na qual mudanças tecnológicas tem sido bastante similar a outros país exportadores como a Argentina e Estados Unidos. Na realidade, mudanças tecnológicas na indústria esmagadora entre aqueles países têm se tornado irrelevantes para justificar seus diferentes níveis de competitividade. Entretanto, mudanças mais significativas em curso na produção agrícola, mais especificamente na produção de sementes, vem indicando uma nova dinâmica no setor como alguns estudos sobre soja no Brasil têm enfatizado. De acordo com Castro2, progressos na indústria de sementes através da 2 CASTRO, A. C. (1992) “A Competitividade brasileira nos mercados da soja”, Revista de Economia Política, vol 12. 3 introdução de características oriundas de outras plantas capazes de alterar o sabor, o cheiro e a consistência, pode exercer grande influência no nível de competitividade nessa indústria. Uma questão importante a ser tratada neste ponto é que quanto mais desenvolvidas forem essas mudanças mais extensivos tendem a ser as ligações entre as inovações na base agrícola com o uso industrial de matéria prima. Portanto, demandas específicas pela indústria a montante pode implicar num processo inovativo na agricultura. Por outro lado há uma grande diferença entre países em termos de produção de subprodutos. De fato o mercado internacional de produtos diferenciados é ainda pequeno, restrito a contratos diretos entre importadores e produtores. Em geral, o mercado doméstico tem sido o ambiente onde farelo e óleo tem sido comercializado através de uma complexa rede de relações entre segmentos industriais através das quais requisitos específicos do processamento industrial são sinalizados ao processo de inovação na agricultura. Apesar desses dois ambientes competitivos diferentes, do ponto de vista do arranjo produtivo local deve ser dada ênfase às mudanças ocorridas na relação entre a produção de matéria prima e a pesquisa, inovação e difusão na esfera do aproveitamento industrial. Nesse contexto três conjuntos de relação e seus respectivos agentes podem ser identificados. Em primeiro lugar, há uma relação entre agricultores, produtores de sementes e variedades e a indústria esmagadora, a qual tem sido essencialmente comercial, ou determinada pelas condições de mercado. Em outras palavras, agricultores são abastecidos com novas variedades através de uma rede de firmas atuando na distribuição de insumos, e também vendem suas safras à indústria esmagadora através de vínculos estritamente comerciais. Apesar desse sistema através do qual as cooperativas têm suas plantas esmagadoras abastecidas através de relações exclusivas com seus afiliados, o mecanismo de preço tende a ser decisivo aos produtores para determinar qual o destino de suas safras. Dessa forma as relações comerciais são complementadas pela demanda de características específicas nos termos definidos acima. Em segundo lugar, há uma relação definida em termos sociais e políticas, em geral sustentada por organizações atuando em benefício dos interesses de agricultores e firmas processadoras e inovadoras em suas respectivas áreas de atuação. Em terceiro lugar, e mais significativamente, a relação baseada no processo de inovação, a qual envolve institutos de pesquisa, fundações, indústrias processadoras e organizações agrícolas. A partir dessa segmentação, refletindo três dinâmicas diferentes e interrelacionadas, é importante descrever as principais características dos agentes que tomam parte do arranjo produtivo local, de acordo com o diagrama abaixo. 4 Institutos de Tecnologia e produtores de novas variedades Produtores de sementes Comércio de sementes Fundações e Cooperativas Associação de produtores de sementes Agricultores Indústria Esmagadora Associação de Agricultores Associação da indústria esmagadora Mercado externo Indústria de sub-produtos 2.2. Interações e Estratégias Competitivas O diagrama acima representa as diversas partes do arranjo produtivo da soja. As setas pretas indicam direções nas quais as interações tecnológicas são mais intensas. As setas brancas mostram direções nas quais a interdependência entre os atores adota a forma dos mecanismos convencionais de mercado – preços e quantidades. A dinâmica tecnológica, institucional e produtiva de cada um desses mercados é diferente e será analisada mais detalhadamente nas próxima seções. Os interesses dos agentes e a natureza de suas demandas são também diferenciadas nos distintos âmbitos do arranjo. As setas pretas estão concentradas no setor agrícola, mais especificamente, no setor de produção de novos cultivares de soja e de produção de sementes. As setas tornam-se mais claras na direção das relações entre os produtores de grãos e a indústrias de esmagamento, especialmente daquela indústria não organizada em cooperativas. A tecnologia não é um aspecto chave na competitividade desse setor. No entanto, a indústria não é homogênea: existem nichos de mercado (especialmente do mercado externo) que demandam produtos mais intensivos em P&D. Por essa razão, as setas que ligam a agricultura com a indústria são cinza. O diagrama não inclui os produtores de maquinaria e insumos químicos para a agricultura e para a indústria. Esses produtores não pertencem ao arranjo local na medida em que estão localizados fora do estado do Paraná. Deve-se lembrar que existe um corte territorial na pesquisa que circunscreve o âmbito das interações relevantes para este trabalho. 5 O mapa dos fluxos tecnológicos mostra uma forte correspondência com as mudanças observadas nas estruturas de mercado. Três setores podem ser identificados com base na altura e na origem das barreiras à entrada em cada um deles: o setor de sementes (analisado no item 3), o setor de produção de grãos e a indústria de esmagamento (analisados conjuntamente no item 4.). De uma maneira geral, o arranjo contemplado no diagrama acima contém a seguinte composição em termos dos agentes: a- agentes de inovação tecnológica: a maior parte das inovações nesse setor tem se concentrado no campo das sementes através do desenvolvimento de novas variedades com o objetivo de aumentar a produtividade e introduzir novas características genéticas mais adaptadas a herbicidas, solo e clima e mais resistentes a doenças e pragas. A Embrapa, como o integrante mais importante desse arranjo, Coodetec, e algumas empresas multinacionais, são os agentes líderes do processo de inovação tecnológica da soja através da introdução de novas variedades. A Embarra/Soja sediada em Londrina, é uma das 39 unidades que compõem o conjunto da empresa, cuja principal prioridade é o desenvolvimento de novas tecnologias, serviços e produtos relacionados à soja. Além da inovação no desenvolvimento de novas variedades, a Embrapa tem também desenvolvido programas com o objetivo de aumentar o uso de soja como ingrediente alimentar. O principal obstáculo a ser superado nesses programas se refere à necessidade de eliminar o sabor desagradável da soja criado por uma enzima bastante sensível ao calor. Outro agente de inovação é o Coodetec, cujo foco tem sido também a geração de novas variedades. A particularidade desse instituto é sua relação próxima com o sistema cooperativista. Além desses dois agentes, responsáveis pela criação de material genético, as seguintes firmas vem investindo pesadamente nesse campo no estado do Paraná: Monsoy, Novartis (Multinacionais); F. Terazawa, Rudiger Boye (produtores locais). Mais ainda, uma parceria tanto da Embrapa como do Coodetec com grandes empresas privadas tem sido formada. Outra importante ligação tem sido estabelecida entre Embrapa e fundações de produtores de sementes em diversas regiões do país. Existem 7 fundações distribuídas entre os estados do Maranhão, Bahia, Distrito Federal, Goiás, Minas Gerais, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, com as quais a Embrapa desenvolveu até agora 67 novas variedades. No Paraná, uma recente parceria foi criada com a Fundação Meridional cujos resultados ainda estão por vir. b- produtores de sementes: existem no Paraná 95 produtores de sementes, reproduzindo material básico já desenvolvido por produtores de novas variedades. Esses agricultores estão portanto bastante integrados com o processo de inovação, na medida em que eles multiplicam tecnologias e realizam os testes das especificações técnicas das variedades ainda a serem lançadas no mercado. c- agricultores: a atividade agrícola está no centro do arranjo produtivo em termos da materialização final das inovações e também em termos econômicos. Em outras palavras, é na agricultura que as novas variedades são reproduzidas e testadas comercialmente. Mais ainda, os agricultores estão diretamente envolvidos nas relações com a indústria processadora, basicamente através do comércio, embora contratos para comprometimento antecipado da safra contra parte do pagamento, seja uma prática. A Tabela 1 a seguir contém dados sobre a distribuição dos produtores de soja de acordo com o tamanho da área total para o Paraná e Brasil. 6 Tabela 1 – Área de soja de acordo com grupos de área total, – Paraná and Brasil – 1996, em hectares and %. Grupos de área Paraná Total 0 – 20 277.966.452 20- 50 439.850.878 50-100 355.978.855 100-500 755.790.169 500-1000 251.517.998 1000-5000 176.529.457 +5000 9.956.172 Total 2.267.589.981 3 Fonte: IBGE % Brasil % 12,2 19,4 15,7 33,4 11,1 7,8 0,4 100,0 701.283.398 1.021.683.155 809.210.842 2.437.870.795 1.321.949.399 2.315.867.669 880.119.906 9.487.985.164 7,4 10,8 8,5 25,7 13,9 24,4 9,3 100,0 Um aspecto importante a ser observado na tabela acima é que a maioria doas agricultores do Paraná estão concentrados nos grupos até 500, enquanto para o Brasil como um todo os produtores de soja estão concentrados nos grupos de mais de 100 hectares. Portanto, a produção de soja no Paraná e consequentemente seu arranjo produtivo local está baseada numa estrutura fundiária na qual predomina pequenas unidades e como tais abaixo do nível de escala que prevalece por exemplo no Centro-Oeste (Mato Grosso do Sul e Goiás. Esse aspecto pode estar indicando uma limitação na produção de soja com impactos relativamente negativos nos custos existentes ao longo da cadeia produtiva d- associações: a representação social política é o papel principal da FAEP (Federação da Agricultura do Paraná), um agente representando 194 sindicatos rurais e 82 mil agricultores. Seus principais objetivos incluem representação legal dos interesses econômicos e políticos dos agricultores. Essa associação vem também implantando programas com o objetivo de promover o desenvolvimento rural, com o objetivo implícito de adaptar os agricultores a novas formas de gerenciamento e procedimentos inovativos a fim de se poderem enfrentar os desafios da concorrência internacional. De forma similar, a ABIOVE fundada em 1981 é uma associação representando 18 firmas responsáveis por 80% do esmagamento de soja do Brasil. Sua principal finalidade é canalizar as reivindicações de seus associados aos policy-makers e promover o produto brasileiro nos mercados internacionais. De uma maneira geral os temas principais de representação por parte da Abiove estão relacionados com redução de impostos pagos e outros benefícios que possa contribuir para a elevação do nível de competitividade da indústria. A Abiove também manter interfaces com associações semelhantes de outros países, integrando a IASC (International Association of Seed Crushers) entidade reunindo as associações nacionais. Por outro lado, do ponto de vista tecnológico, não há um papel significativo, ficando o esforço de inovação restrito às empresas filiadas. Outra associação digna de ser mencionada é a APASEM Associação Paranaense de Sementes e Mudas), criada em 1971, entidade integrada no sistema ABRASEM, sua correspondente nacional. Sua finalidade no arranjo produtivo é a de agregar produtores de variedades e sementes, atuando dessa forma mais propriamente como representante político desses produtores4. 3 IBGE- Censo Agropecuário – SIDRA (www.sidra.ibge.gov.br) Associação Brasileira dos produtores de Sementes - ABRASEM (2000) Anuário. Brasília: ABRASEM. 4 7 e- indústria esmagadora: essa é uma atividade central do complexo soja, do ponto de vista da geração de valor adicionado. Apesar do fato de que o processo de inovação tecnológico está largamente disseminado entre as firmas, essa indústria encontra-se fortemente concentrada, sendo as firmas integrantes oriundas de capital multinacional. Como já indicado acima a dinâmica dessa indústria é principalmente determinada pela redução de custo e economias de escala 5. A tabela a seguir contém dados referentes à indústria de esmagamento no Paraná, a qual está bastante concentrada na região de Ponta Grossa, ponto estratégico do ponto de vista do escoamento da safra para o porto de Paranaguá. Tabela 2: Capacidade instalada de plantas esmagadoras existentes no Paraná – 1999 Cap.Inst.(ton/dia) Localização Região Cargill Agrícola S/A Bunge & Santista S/A Coinbra (Grupo Dreyfus) Coinbra (Grupo Dreyfus) Olvepar (Coopersul) Total em Ponta Grossa Empresa 1900 3100 1600 1900 700 9200 Ponta Grossa Ponta Grossa Ponta Grossa Ponta Grossa Ponta Grossa C. Sul C. Sul C. Sul C. Sul C. Sul Ceval Alimentos S/A Bunge & Santista S/A Braswey Cocamar (planta da Coamo) 2200 450 400 1500 Maringá Maringá Maringá Maringá Norte Novo Norte Novo Norte Novo Norte Novo Total em Maringá 4550 Coinbra (Grupo Dreyfus) Granosul (planta alugada) Braswey 1450 750 1800 Londrina Cambé Cambé Norte Novo Norte Novo Norte Novo Total em Londrina/Cambé 4000 ADM (ex. Sadia) Coamo Total em Paranaguá 1200 2000 3200 Paranaguá Paranaguá Litoral Litoral Sadia Sadia Coopersul Coamo Cotrefal Coopavel Sperafico 460 700 1300 1100 1000 600 600 Dois Vizinhos Toledo Guarapuava C. Mourão Céu Azul Cascavel M.C.Rondon Sudoeste Ext. Oeste C. Oeste Noroeste Ext. Oeste Ext. Oeste Ext. Oeste 6 Fonte: J.J. Hinrichsen S/A, 1999 5 Cf. L.C. Magalhães (1998) “Soja”, in Gasques et al, “Competitividade de Grãos Selecionados e de Cadeias Selecionadas do Agribuisiness”, Texto Para Discussão n. 538, IPEA, janeiro de 1998. 6 J.J. Hinrischsen ( 1999) Relatório XXXIV. Buenos Aires, Argentina. 8 f- Cooperativas: esses agentes são importantes componentes do complexo soja sob dois pontos de vista. Por um lado, detém uma grande estrutura industrial, bastante integrada com a indústria processadora a montante e as firmas produtoras de ração abastecedoras do sistema integrado de criação de frangos e suínos. As cooperativas são também grandes competidores na exportação de farelo e óleo para ambos os mercados doméstico e internacional. Por outro lado, a existência da OCEPAR, e do COODETEC, tem propiciado ao sistema cooperativista um ganho competitivo importante do ponto de vista inovativo, gerando uma espécie de arranjo produtivo local. 3. O setor de sementes 3.1. Uma visão panorâmica O setor de sementes inclui os produtores de novas variedades e os produtores de sementes. O mercado de novas variedades de soja é um oligopólio diferenciado no qual as barreiras á entrada estão vinculadas ao acesso ao material genético, e às capacidades técnicas e financeiras requeridas para a produção e avaliação dos novos cultivares. A complexidade e os custos do processo de criação e teste de novas variedades de soja, assim como o tempo requerido para obter um novo cultivar, implicam na existência de importantes economias de escala relacionadas com a tecnologia e com o financiamento necessários para sustentar a pesquisa durante vários anos. A estrutura de mercado está altamente concentrada num grupo pequeno de produtores de variedades (obtentores) que inclui agentes públicos e privados, nacionais e multinacionais. A Embrapa-Soja (ES) de Londrina representa 65% do mercado, a multinacional Monsanto representa 18% do mercado (após da compra de Sementes Hatã e da FT Sementes), a Cooperativa Central Agropecuária de Desenvolvimento Tecnológico (Coodetec) responde por 6 % do mercado e a Pioneer/DuPont, Novartis, AgrEvo e outras firmas atendem 10% do mercado7. Como em toda estrutura de mercado dominada por poucos agentes de grande peso específico, as estratégias e as formas institucionais das firmas, assim como o marco regulatório em que operam, desempenham um papel chave no seu comportamento. Em particular, a regulamentação, no final de 1997, da Lei de Proteção de Cultivares (LPC, Lei No. 9456/97, aprovada pelo congresso em abril de 1997), garantindo a propriedade intelectual dos cultivares e obrigando os produtores ao pagamento de royalties e taxas de utilização da tecnologia, teve um impacto muito importante no setor de sementes, como será discutido mais à frente. Além da produção de novos cultivares, o setor de sementes inclui a reprodução em escala comercial das sementes que serão vendidas aos produtores de grãos. Os obtentores entregam a semente básica ao produtor de sementes, que deverá posteriormente produzir a semente registrada, a semente certificada (na geração posterior) e a semente fiscalizada (a semente colhida a partir da semente certificada). Essa reprodução comercial é realizada por um grupo de produtores de elite que se diferenciam dos produtores de grãos em termos tecnológicos e institucionais. Tecnologicamente, a produção de sementes tem exigências mais estritas, o que obriga esses produtores a manterem uma assistência técnica permanente a qual tem sido basicamente privada, sem uma participação efetiva da Emater (Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural). Para registrar um agricultor como produtor de sementes, o governo do estado exige que ele disponha de uma certa infra-estrutura, especialmente com relação ao beneficiamento e 7 “Multis controlam sementes de milho”, Gazeta Mercantil, 16 de junho de 1999. 9 armazenamento da semente. Além do mais, esse produtor está sujeito à fiscalização pública8, como forma de conferir que sejam adotadas certas técnicas de manejo de pragas e que possam evitar problemas de mistura varietal. Do ponto de vista institucional, esses produtores mantém contratos de exclusividade e em ocasiões de co-titularidade com os produtores de sementes (obtentores). Em muitos casos estão organizados em fundações (aspecto discutido adiante) e dessa forma mantêm uma relação tecnológica e institucional estreita e de longo prazo com os obtentores – especialmente com a Embrapa/Soja e a Coodetec. 3.2. Vantagens Competitivas É na produção de novas variedades que o insumo tecnológico desempenha um papel chave na competitividade da firma. Para desenvolver e testar um novo cultivar de soja são necessários os seguintes ativos competitivos que representam barreiras à entrada nessa indústria: i) ii) iii) iv) recursos genéticos; melhoradores técnicos especializados na seleção de cultivares; técnicos capazes de testar e avaliar o desempenho dos cultivares em diferentes condições de solo, clima e manejo do cultivo (controle de pragas, fertilização, rotações etc); recursos financeiros para sustentar o processo de produção de um novo cultivar testado, que pode durar vários anos alcançando um custo total de até US$ 800.000, da concepção até a comercialização da semente. A escala tecnológica e financeira da atividade é substancial e isso explica a forte concentração que se observa nesse mercado. A importância da variável financeira na luta competitiva não deve ser subestimada. Um exemplo claro disso é o desenvolvimento recente no setor de sementes de milho. A redução dos créditos oficiais e dos Empréstimos do Governo Federal (EGF) para os produtores brasileiros de sementes facilitou a rápida concentração nas mãos de grandes firmas multinacionais, que hoje dominam 90% do mercado 9. Não é evidente, no entanto, que as rápidas transformações observadas na propriedade das firmas no setor de sementes de milho também deverão ocorrer no setor de sementes de soja. Embora a compra da TC Sementes pela Monsanto mostre um avanço das empresas multinacionais no setor, o papel chave desempenhado pela Embrapa/Soja e suas “Fundações”, e a diversidade regional do cultivo, têm preservado um espaço para os produtores nacionais. Deve-se observar que o orçamento da Embrapa/Soja (US$ 500 milhões) a torna um ator de primeira linha, ainda quando comparada com as grandes multinacionais do setor. O desenvolvimento de uma nova cultivar de soja produz benefícios privados na forma de royalties e em alguns casos da venda (diretamente ou através de contratos) das sementes do cultivar. A concorrência tem como foco o desenvolvimento de novos cultivares com melhor desempenho em termos da resistência a pragas, resposta à fertilização, resposta aos herbicidas, produtividade e qualidade do grão (conteúdo de proteína, conteúdo de óleo, color, sabor, componentes anti-nutricionais). A habilidade de um cultivar para resistir a pragas é um objetivo chave da seleção. Para muitas pragas não existe um controle químico efetivo, e quando ele existe, o uso de cultivares resistentes permite reduzir a quantidade de veneno a ser aplicado, com forte impacto sobre os custos. Um exemplo são as variedades resistentes ao cancro-da-haste, que 8 Uma nova lei que está sendo estudada no congresso prevê o fim da fiscalização na produção. Ela seria realizada no futuro na fase de comercialização. 9 Os produtores locais pagam taxas de juros de 50% ao ano no mercado privado de crédito, enquanto que as firmas multinacionais, com fácil acesso ao mercado internacional de crédito, pagam taxas de juros de 7-8% ao ano. Isso representa uma forte desvantagem competitiva para o produtor local que acaba vendendo a firma para o produtor estrangeiro. 10 provocava perdas estimadas em US$ 300 milhões até 1996, e as resistentes ao nematode-docisto, que afetava 10% dos cultivos brasileiros até 1997. Mais recentemente a ES está trabalhando no desenvolvimento de uma variedade capaz de resistir o fungo Fusarium. Desde a sua criação em 1975, a Embrapa/Soja tem produzido mais de 80 cultivares, 40 dos quais em parceria com as Fundações, com associações de produtores ou com instituições de pesquisa. A capacidade de desenvolver novos cultivares não é o único ativo competitivo que conta nesse mercado. Existem outros que também são estratégicos: i) ii) iii) capacidades mais tradicionais na tecnologia de manejo do solo, fertilizantes etc; técnicas de controle biológico de pragas; capacidades tecnológicas no campo da biotecnologia. Com relação ao ponto (i), a experiência de Embrapa/Soja é interessante. Ela não oferece apenas a semente, mas um pacote que inclui um conjunto de tecnologias. Por um lado, esse pacote representa uma bem público no sentido econômico estrito do termo. É um conhecimento que está livremente disponível para os produtores e que pode ser utilizado não apenas com os cultivares da Embrapa/Soja, mas também com outros cultivares de soja (e em alguns casos inclusive com outras culturas). Deve-se ressaltar nesse sentido o papel desempenhado por uma instituição com as características da Embrapa/Soja, capaz de desenvolver uma tecnologia da qual não obtém um benefício direto, mas que tem um impacto amplo sobre a produtividade agrícola 10. Por outro lado, o papel da ES na geração e difusão de tecnologia em áreas não diretamente associada aos cultivares serve como um fator de atração dos produtores e acaba também tendo um impacto sobre o próprio sucesso das cultivares da Embrapa/Soja no mercado. Para seus técnicos, o fato da instituição oferecer um pacote tecnológico que não se limita à semente, tem sido um das chaves da rápida expansão de suas cultivares, que em poucos anos aumentou sua fatia do mercado de 10% do mercado para 65% atualmente. Existe ainda um benefício adicional que a Embrapa/Soja obtém de seu papel na geração e difusão de tecnologia. Trata-se dos feed-backs que os usuários dessa tecnologia (os produtores de sementes e de grãos) proporcionam aos seus pesquisadores e melhoradores. Como foi mencionado, informação sobre o desempenho das cultivares nas mais diversas condições de solo, clima e manejo é chave para dar continuidade ao processo de melhoramento das novas variedades daí resultantes. Essa informação chega à Embrapa através de sua relação com Emater, Iapar, Coodetec e outras instituições de pesquisa e extensão, e através das parcerias da Embrapa/Soja com produtores de sementes nas Fundações, como será analisado mas tarde. Com relação ao ponto (b), a pesquisa da Embrapa/Soja tem utilizado métodos de controle biológico com bastante sucesso em alguns casos, como no controle de lagartas através do Baculovirus anticarsia, que permitiu a redução do uso de inseticidas em até 1,2 millhões de litros por cada 1 milhão de hás plantadas de soja. É também o caso do Trsissolcus Bassalis, um parasita dos ovos do percevejo da soja 11. 10 Por exemplo, um certo método de manejo de solos (o plantio direto ou um sistema de rotação de cultivos) pode ser utilizado em distintas culturas, sem que o produtor da tecnologia possa se apropriar dos benefícios – até porque em alguns casos basta a simples observação para que essa tecnologia seja imitada por outros produtores. Trata-se tipicamente de um bem público, um tipo de bem que se encontra com freqüência na produção agrícola. O investimento nesse tipo de bens seria sub-ótimo se ele fosse inteiramente pautado pelo cálculo privado. 11 “Pesquisa: Pioneirismo e Criatividade”, Agroanalysis, vol. 18, n.7, 15 de julho de 1998, pp.37-40. 11 Com relação á biotecnologia (o ponto c), o Brasil ainda não permite o plantio de soja transgênica em escala comercial, razão pela qual esse tipo de tecnologia não teve ainda um impacto significativo na competitividade das firmas. Existe um debate com relação a qual seria o efeito da soja transgênica sobre os custos de produção, mas estima-se que seria possível obter uma redução de até 20%. Já do ponto de vista do rendimento por unidade de área não há expectativa de qualquer ganho. No entanto, alguns consumidores poderiam estar dispostos a pagar um pouco mais pelos cultivares convencionais, em função de que eles apresentariam riscos menores para a saúde e o meio ambiente12. Sem dúvida, a situação nessa área é muito dinâmica e as percepções sobre o problema deverão mudar na medida dos progressos em pesquisas na engenharia genética e nos possíveis efeitos negativos dos alimentos transgênicos na alimentação humana e animal. Até hoje, o Brasil adotou uma posição de cautela com relação aos transgênicos, seguindo nessa matéria o exemplo europeu. Mas o fato de que seus principais concorrentes no mercado internacional, Argentina e Estados Unidos, já usam extensivamente a soja transgênica coloca um fator de pressão a mais no sentido de flexibilizar a legislação brasileira. De qualquer forma foi possível constatar junto a pesquisadores da área um certo consenso favorável ao plantio da Soja transgênica com base no argumento de que a biotecnologia é um processo inovativo irreversível. Questões relativas ao meio ambiente e aos impactos sobre a saúde humana ainda permanecem fora dessa perspectiva meramente tecnológica. Entende-se entretanto que essa não é uma questão cujos desdobramentos se darão no terreno da inovação tecnológica apenas, mas dependerá também de um complexo embate político e institucional no âmbito do comércio internacional. Um acordo recente assinado entre Embrapa/Soja e a Monsanto mostra a preocupação dos pesquisadores brasileiros com o tema das cultivares transgênicas. Através desse acordo a Monsanto autoriza a Embrapa/Soja a utilizar o gene que confere resistência ao glifosfato (princípio ativo do herbicida Roundup) para desenvolver uma nova cultivar da Embrapa/Soja. A soja resistente permite o uso direto de Roundup no cultivo, com queda significativa dos custos de produção. As duas empresas mantém a sua completa autonomia, já que a Monsanto tem o sua própria cultivar resistente, a Roundup Ready. O interesse da Monsanto reside na possibilidade de um aumento da venda do herbicida Roundup na medida em que sejam produzidos cultivares resistentes. A Embrapa/Soja por sua vez avança no domínio de uma tecnologia que deverá se tornar importante no futuro. Um outro âmbito em que a biotecnologia poderia desempenhar um papel importante é na melhoria da qualidade do grão de soja – conteúdo protéico, conteúdo de componentes antinutricionais, color, sabor etc. Trata-se de um nicho de mercado onde vigoram preços mais altos e onde o potencial de crescimento é muito elevado. 3.3. Estratégias Competitivas As estratégias vêm mudando nos últimos dois anos como resultado da aprovação da nova Lei de Proteção de Cultivares. Os principais atores e suas estratégias são os seguintes: i) 12 A Embrapa/Soja é um ator chave pela sua posição de liderança no mercado de sementes e pela sua liderança tecnológica. No momento, essa empresa enfrenta delicado processo de transformação das condições institucionais em que opera. Por um lado, é exigida dessa empresa uma maior capacidade de autofinanciamento a partir de fontes privadas. Ao mesmo tempo, ela enfrenta um ambiente competitivo diferente em função da Lei de Cultivares e da impossibilidade de oferecer a co-titularidade dos cultivares a seus parceiros de pesquisa e de produção de sementes. A principal resposta da ES a esses desafios são as Fundações, às quais oferecem exclusividade na produção de sementes e que financiam toda a fase de testes das novos cultivares, enquanto que a ES financia a “Muitos produtores não se empolgam”, Gazeta Mercantil, 31 de maio de 2000. 12 parte de pesquisa básica. Como já foi observado, esse tipo de parcerias é importante não apenas do ponto de vista financeiro, mas também tecnológico, já que é um mecanismo de coleta de informação crucial para o melhoramento das cultivares. Essa estratégia, como já foi observado, não exclui a possibilidade de parcerias com as grandes firmas multinacionais em tópicos localizados de pesquisa. ii) As grandes multinacionais Monsanto e Novartis tem procurado aumentar sua participação no mercado de sementes de soja após da aprovação da Lei de Proteção de Cultivares. No momento a estratégia dessas firmas na cultura da soja tem sido mais cautelosa que no caso do milho, mas espera-se que isso mude nos próximos anos, acirrando a concorrência no setor de sementes de soja. Uma grande questão é em que medida essas empresas tentarão estabelecer convênios com as fundações similares aos da Embrapa ou ainda desenvolver suas próprias fundações. iii) Os produtores nacionais de sementes são o elo relativamente mais fraco nessa estrutura de mercado. Pode-se diferenciar a situação daquelas Fundações já existentes, que desenvolveram capacidades técnicas e financeiras substanciais a partir de sua cooperação passada com a Embrapa/Soja, das novas fundações que se estão criando, para as quais a permanência do vínculo com a Embrapa é chave para sua competitividade e sobrevivência. No entanto, ainda no caso das Fundações mais fortes é possível esperar que, num ambiente competitivo mais acirrado como o que se está configurando no setor, a cooperação tecnológica com a Embrapa permaneça como o ativo competitivo chave para permanecer no mercado. Em menor medida esse também é o caso da Coodetec, uma instituição cooperativa com uma participação importante no mercado de sementes de soja. Entretanto, nesse caso já existe um ambiente propício para o desenvolvimento tecnológico no interior da cooperativas e de seu quadro social. Ou seja, há um forte suporte financeiro e institucional viabilizado pela Ocepar e a rede de cooperativas. 4. Os produtores de grãos e a indústria esmagadora A indústria esmagadora é um oligopólio concentrado com barreiras à entrada associadas a economias de escala. O setor produtor de grão é um setor competitivo, embora crescentemente se observe que as economias de escala também se tornaram importantes, com o abandono do cultivo de muitos pequenos produtores. As relações entre a indústria e os produtores são relações convencionas de mercado, sobre preços e quantidades, e muitas vezes conflituosas. Uma análise cuidadosa desse setor revela que na verdade ele é menos convencional do que parece. Por um lado, existem várias distorções no funcionamento do mercado em função do sistemas de taxas e de impostos sobre o produto industrial, no Brasil e nos principais mercados da soja nos países desenvolvidos, que penalizam a industrialização local. A maior parte dos esforços da Abiove estão neste momento dirigidos a corrigir as conseqüências sobre a indústria da chamada Lei Kandir. Vale a pena relatar brevemente o sistema de taxas que resultou da aprovação da Lei Complementar No. 87 (Lei Kandir) para ilustrar as distorções que se observam no setor. Por essa lei, que procura desonerar a exportação, os exportadores não pagam ICMS. Mas se uma indústria, por exemplo, do Paraná, compra soja de um produtor de Goiás, essa indústria paga 12% de ICMS inter-estadual ao estado de Goiás. Como contrapartida, recebe um crédito fiscal por parte do estado do Paraná. Se o industrial exporta pelo porto de Paranaguá ou vende farelo no mercado interno, não paga impostos. Se vende óleo no mercado interno, pagará 7%, por ser o óleo um bem da cesta básica. O estado de Paraná, por sua vez não tem pressa em pagar esse 13 crédito fiscal, o que gerou um mercado para esses títulos no qual os industriais com necessidades de recursos líquidos os vendem com deságio. A análise das relações entre a indústria e a agricultura não permite identificar um arranjo institucional capaz de promover a inovação. Os industriais estão basicamente preocupados com as condições de oferta de grão para a indústria (preços e quantidades), o que inclui os temas da infra-estrutura de transporte e de portos, das já mencionadas distorções associadas a à Lei Kandir e à política protecionista dos países desenvolvidos. Como a tecnologia utilizada é estável e amplamente difundida, não há um foco nessa variável no processo competitivo. No entanto, a indústria não é homogênea. Por um lado, algumas firmas estão se especializando na produção de margarinas e de outros bens de maior valor adicionando, abandonado os ramos de produção de commodities industriais (farelo e óleo bruto). Essas firmas basicamente localizam-se no estado de São Paulo. Por outro lado, surgem certos nichos no mercado externo que demandam produtos com características especiais, de mais alto preço, como é o caso da soja com menos pigmentação demandada pelo mercado japonês. Finalmente, o padrão de relações distantes que se percebe entre a agricultura e a indústria, onde o componente tecnológico tem uma importância muito pequena, muda quando se analisa o segmento cooperativo da indústria esmagadora. Neste caso, a indústria parece ter um contribuição importante na preservação do pequeno agricultor de soja. Com efeito, o fato de existir um conjunto de plantas esmagadoras de pequena capacidade distribuídas em diversos pontos do estado do Paraná, permite ao agricultor uma redução de custos de transporte e uma competitividade que de outra forma não teria. Isso ajuda a explicar a importância que ainda mantém o pequeno produtor de soja no Paraná. Ao mesmo tempo, as cooperativas está também presente no ramo mais nobre da produção de variedades através da Coodetec, o que também indica uma inserção especial da indústria cooperada na cadeia da soja, diferente das firmas não cooperadas. 5. Aprendizado Tecnológico 5.1- Embrapa-Soja Essa empresa está claramente na fronteira da pesquisa internacional sobre novas variedades e sobre tecnologia no cultivo de soja. Possui 67 técnicos em sua maioria com mestrado e doutorado. No passado, a Embrapa adotou uma política ativa de treinamento de seus técnicos, concedendo bolsas e abrindo a eles a possibilidade de realizar cursos de pós-graduação no Brasil e no exterior. Essa política tem-se tornado mais restritiva nos últimos anos, na medida em que aumentaram as pressões por reduzir o orçamento da empresa. Por outro lado, hoje a Embrapa somente contrata pessoas com título de Doutor, tendo uma parcela muito pequena de sua equipe sem titulação. Um movimento paralelo tem sido estabelecer critérios mais rigorosos para a avaliação da produtividade dos técnicos, assim como tornar a posição deles menos estável na instituição. Não está claro, no entanto, em que medida isso terá um impacto sobre a produtividade da empresa, já que a redução paralela de recursos tem um efeito contrário ao anterior. Os cargos de direção das regionais da Embrapa são preenchidos através de um concurso aberto no qual se permite a participação de técnicos de fora da instituição. 14 A Embrapa tem uma política ativa de cooperação e parecerias com outros agentes, tanto no Brasil como no exterior. Ela participa de 155 convênios bilaterais com mais de 50 países. A empresa também participa de acordos de cooperação multilateral no marco do Grupo Consultivo Internacional de pesquisa Agrícola (CGIAR). Com o objetivo de permanecer mais próxima da fronteira científica internacional, a empresa mantém, através de um convênio com o Departamento de Agricultura dos EUA, um escritório em Washington, com a finalidade de acompanhar os avanços científicos mais recentes. Em nível nacional, a empresa define a parceria com as fundações como o “ovo de Colombo” dos resultados alcançados na pesquisa sobre novas cultivares de soja. Como mencionado, isso permite à empresa testar suas cultivares nas mais variadas condições de solo, clima e manejo, obtendo assim informação crucial para o melhoramento das cultivares a partir dos feed-backs dos produtores dispersos em diversas regiões do Brasil. Essa rede tecnológica é reforçada pelos convênios firmados com outras instituições de pesquisa e difusão de tecnologia, públicas e privadas, inclusive municípios e associações de produtores. Um mecanismo interessante para o desenvolvimento de uma interação produtor-usuário mais estreita, e para recolher informação tecnológica de uma forma mais sistemática, é a alocação de dois técnicos da Emater de forma permanente na sede da ES. Esses técnicos são treinados nas tecnologias da Embrapa e fazem a ligação com técnicos de campo e produtores rurais. Outros instrumentos mais convencionais de difusão também são utilizados (dias de campo, e programa de treino-visita), mas, na avaliação dos técnicos da Embrapa, o vínculo direto com os técnicos da Emater tem-se revelado particularmente bem-sucedido. Finalmente, deve-se observar que a Emater atua como um vínculo entre a Embrapa e um conjunto numeroso de produtores de grão. Os produtores de semente, no entanto, mantém seu próprio corpo técnico e se vinculam com a Embrapa de forma eficiente através das Fundações. 6- Evolução Recente do Arranjo. Em anos recentes, o setor produtor de sementes passou por mudanças substanciais como resultado da aprovação da Lei de Proteção de Cultivares (LPC), regulamentada no final de 1997. Antes da LPC, existia um sistema cooperativo de recomendação de novas cultivares. Essa recomendação era necessária para que o Banco do Brasil concedesse financiamento ao produtor para realizar seu plantio. A instituição que coordenava a cooperação nessa área era o CRC (Conselho Regional de Cultivares), integrado por representantes de Embrapa, das firmas privadas produtoras de sementes, das cooperativas e do Ministério da Agricultura. Essas instituições formavam uma rede para testar os cultivares nas mais variadas condições de solo, clima e manejo. Essa rede definia também critérios sobre que cultivares seriam testados e quais seriam eventualmente recomendados. Por exemplo, o nível de produtividade da cultivar recomendado não podia ser menor que a produtividade de uma cultivar de referência, que era normalmente uma dos melhores já em uso. Também exigia-se da cultivar um nível de desempenho num conjunto de características produtivas (que hoje integrariam o Valor de Uso do Cultivar -VUC) como forma de evitar a entrada de cultivares inferiores no mercado. É interessante observar que esse mecanismo cooperativo permitia que se tornassem disponíveis todas as informações sobre a cultivar no contexto da rede, difundindo informação chave para futuros melhoramentos entre seus membros. A LPC acabou com essa rede cooperativa. Hoje cada produtor responde pelo seu próprio cultivar e não é obrigado a dividir as suas informações com os outros produtores. O desempenho da 15 cultivar que leva ao mercado deve ser consistente com o VUC, mas ele não precisa abrir os resultados de seus testes da cultivar. Está, no entanto, sujeito a responder legalmente pelo desempenho da cultivar e deve ser fiscalizado pelo Ministério da Agricultura. A LPC teve o mérito inegável de acirrar a concorrência no mercado de cultivares com efeitos sobre a produtividade do setor. O ingresso de novas empresas no mercado (no milho de forma mais agressiva e de forma menos intensa na soja), resultou num aumento do número e a frequência de cultivares lançados. No entanto, se de uma perspectiva mercantil ocorreu um maior dinamismo na produção de novas variedades, alguns efeitos negativos passaram a afetar diretamente o setor, dentro os quais podem ser mencionados os seguintes: - primeiramente, perdeu-se a rede de testes que possibilitava externalidades em termos da circulação de informações e da interação produtor-usuário; - segundo, o comprador da semente terá agora menos informação sobre as cultivares que compra, reforçando o problema de assimetria de informação característico do mercado de tecnologia; - finalmente, como há uma grande atomização dos produtores de soja, há uma dificuldade inerente para se demonstrar num processo judicial que uma determinada variedade não atende o padrão de VUC prometido especificado no rótulo do produto. Todos esses aspectos sugerem a necessidade de acompanhar de perto o setor de produção de sementes de soja nos próximos anos, para minimizar eventuais efeitos negativos da LPC. Em particular, deveria ser reforçada a capacidade de fiscalização e de avaliação de cultivares por parte das agências públicas. A peça central do arranjo para a inovação no setor de sementes de soja é a relação entre Embrapa e as Fundações. Inicialmente a Embrapa oferecia às Fundações a co-titularidade sobre as novas cultivares desenvolvidas em parceria com as Fundações. Isso, por sua vez, exigiu da Embrapa a realização de uma transferência de tecnologia em grande escala para as fundações, que podia disponibilizar o material genético da ES e treinar os melhoradores das Fundações. Por sua vez, as Fundações pagavam royalties a Embrapa (que naquele momento eram voluntários) e financiavam a fase de testes das cultivares. Esse sistema funcionou de forma satisfatória até 1997. 16 Referências Bibliográficas CASTRO, A. C. (1992) A Competitividade brasileira nos mercados da soja, Revista de Economia Política, vol 12. 17 APÊNDICE: ACORDOS DE COOPERAÇÃO DA EMBNRAPA FUNDAÇÕES Fundação Cerrados (DF) Fundação Matto Grosso (MT) Fundação de Apóio à Pesquisa Agropecuária do Triângulo e Alto Paranaíba (Funap, ) Fundação Chapadâo (MS) Associação de Produtores de Semenstes de Goiás, Agrosem (GO) Fundação Bahia (BA) Funao (MG) Fapsem (MA) Fundação Meridional (PR) ACORDOS COM O SETOR PRIVADO Cooperativa Central Agropecuária de Desenvolvimento Tecnológico e Econômico – Coodetec Federação das Cooperativas Agropecuárias do Rio Grande do Sul – Fecoagro Monsanto ACORDOS COM INSTITUIÇÕES PÚBLICAS Fundação Esatdual de Pesquisa Asgropecuária do Rio Grande do Sul – Fepagro Empresa de Pesquisa Agropecuária e de Extensão Rural de Santa Catarina – Epagri Instituto Agronômico de Campinas – IAC Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais – Epamig EMATER IAPAR 18