Área: Tecnologia de sementes. EFEITO DE DOSES DE MOLIBDÊNIO E COBALTO SOBRE O POTENCIAL FISIOLÓGICO DE SEMENTES DE FEIJÃO-CAUPI Ricardo Pereira da Cunha1; José de Souza Abreu Junior1; Verônica Duarte Brasil2; Diego de Marco Flório3; Roberto Caetano de Oliveira3; Carlos Eduardo da Silva Pedroso4; Alex Leal de Oliveira5 1 Engº Agrônomo, Doutorando em Ciência e Tecnologia de Sementes da Universidade Federal de Pelotas; 2 Técnica em Agropecuária; 3 Acadêmico do Curso de Agronomia Universidade Federal de Pelotas; 4 Docente da Universidade Federal de Pelotas; 5 Engº Agrônomo EBDA – Empresa Baiana de Desenvolvimento Agrícola / Em mestrado na UFPel. E-mail:[email protected] Resumo – A produção e consumo de feijão-caupí (Vigna unguiculata) é um habito comum entre os agricultores do norte e nordeste brasileiro, sendo também utilizado como fonte de proteína animal em outras regiões. A espécie vem sendo pesquisada e utilizada na complementação da dieta animal, especialmente a voltada para a produção de leite. O uso do feijão-caupí como planta recuperadora do solo, também e foco de novas pesquisas, uma vez que a planta se adaptada bem a solos com baixa fertilidade. O experimento foi conduzido na FAEM/UFPel, utilizando-se sementes de feijão-caupí (Cultivar Baio), de dois lotes com vigor distinto. As sementes receberam doses de molibdênio (Mo) e cobalto (Co) e foram avaliadas em Primeira contagem da germinação (PCG), Germinação final (G), Comprimento de Parte Aérea (CPA) e Comprimento de Raiz (CR). Resultados superiores foram obtidos para PPG, G, CPA e CR, no lote de baixo vigor em concentrações próximas a 2 doses, de Mo e Co (produto comercial Leg extra). Para o lote de alto vigor , observou-se que a dose T2 apresentou resultado satisfatório, enquanto que as sementes provenientes de lotes de baixo vigor, respondem satisfatoriamente quando dobra-se a dose de micronutrientes (Mo e Co).. Palavras-chave: Vigna unguiculata, cobalto, molibdênio, forrageira. Introdução O feijão-caupí (Vigna unguiculata) responde por cerca de 20% do feijão consumido no Brasil, sendo uma das principais fontes de alimentação proteica nas regiões Nordeste e Norte do Brasil. É cultivada e consumida em outras regiões, onde raramente é utilizada para o consumo humano na forma de grãos. (BEVILAQUA et al., 2007). Produz grande quantidade de biomassa, sendo utilizada diretamente para pastejo pelo gado, além de proporcionar a fixação de até 100kg. ha-1 de nitrogênio, diminuindo a adubação nitrogenada (ARAÚJO & WATT, 1991). A espécie vem sendo pesquisada e utilizada como forrageira para bovinos, principalmente na produção leiteira, e como recuperadora do solo, caracterizando-se como altamente adaptada a solos com baixa fertilidade, como os que ocorrem na planície costeira do Rio Grande do Sul e no Nordeste brasileiro. Nestas condições, adaptou-se a solos arenosos, de baixa fertilidade, com deficiência hídrica recorrente e ventos fortes, desenvolvendo sua condição de planta recuperadora de solos de baixa fertilidade. Suas características a colocam como ótima recuperadora de solos, propiciando boa quantidade de matéria seca para o sistema (BEVILAQUA et al., 2007). Estudos realizados em diferentes regiões do Brasil têm demonstrado deficiência de vários elementos no solo. O molibdênio (Mo) e o cobalto (Co), entre outros, são os elementos com maior frequência de deficiência, afetando drasticamente as espécies cultivadas (SFREDO E OLIVEIRA, 2010). Como as quantidades de Mo e Co requeridas pelas plantas são pequenas, a sua aplicação via semente, através da 1 peletização, constitui-se na forma mais prática e eficaz de adubação (GUPTA & LIPSETT, 1981 e REISENAUER, 1963). Neste caso, deverão ocorrer uma excelente nodulação e um aumento considerável na produção de forragem e de sementes. Diversos estudos estão sendo desenvolvidos sobre a utilização de micronutrientes em sementes de fabaceas e devido a crescente valorização do Feijão-caupí para produção de forragem no período estival, existe a necessidade de estudar novas técnicas, que objetivem o melhor e mais rápido estabelecimento da pastagem. Material e Métodos O experimento foi implantado no dia 03/10/12 no Laboratório de Análise de Sementes “Prof. Flávio Rocha”, no Departamento de Fitotecnia da Faculdade de Agronomia Eliseu Maciel, UFPel. Para tal, utilizaramse sementes de feijão-caupí cv. Baio, de dois lotes com diferente vigor, definidos como: a)Baio 7 = baixo vigor (82%) e b)Baio 33 = alto vigor (94%). O tratamento das sementes foi realizado com diferentes doses de molibdênio (12%) e cobalto (2%) p/p - d=1,40g.cm-³ (produto comercial, Leg Extra), definidos como: T1= 0mL.100kg sementes = 0 dose; T2= 200mL.100kg sementes = 0,5 dose; T3= 400mL.100kg sementes = 1 dose; T4= 800mL.100kg sementes = 2 doses. Após a preparação das sementes, foram montados os testes, conforme a orientação das regras para análise de sementes (BRASIL, 2009), para verificação das seguintes variáveis: - Primeira contagem da germinação (PCG): 50 sementes em substrato de rolo de papel, a temperatura de 25°C, sendo a primeira contagem feita aos 5 dias (08/10/12). Os valores foram transformados, multiplicando o número observado por 2. - Germinação final: utilizando-se as mesmas amostras da PCG, sendo a última contagem aos 8 dias (11/10/12). Os valores finais representam a soma das duas contagens, transformados e multiplicados por 2. - Comprimento de parte aérea (CPA): 20 sementes em substrato de rolo de papel, a temperatura de 25°C. As medições foram feitas com auxilio de régua graduada aos 8 dias após a semeadura (11/10/12). - Comprimento de raiz (CR): 20 sementes em substrato de rolo de papel, a temperatura de 25°C. As medições foram feitas com auxilio de régua graduada aos 8 dias após a semeadura (11/10/12). Os dados foram submetidos à análise de variância (p≤0,05) e não havendo significância foram analisados somente os efeitos principais. A comparação entre a média das cultivares foi analisada utilizando o teste T (p≤0,05) e as doses analisadas por regressão polinomial (p≤0,05). A análise de variância foi realizado através do programa estatístico Sisvar e a regressão polinomial e o teste T com a utilização do Winstat 1.0. . Resultados e Discussão Analisando-se a Fig. 1, observa-se a diferença de vigor entre os lotes na testemunha. O tratamento com meia dose (200mL.100 kg sementes) foi benéfico para a primeira contagem da germinação em ambos os lotes, conseguindo elevar em mais de 10% a PCG do Baio 7, bem como, elevando ao máximo o Baio 33. Segundo Sfredo e Oliveira (2010) em soja, não há indicações de que haja toxidez ao rizobium, quando a peletização com baixas quantidades de Mo e Co é feita imediatamente antes da semeadura. De forma contrária, ao dobrarmos a dose (uma dose) ocorre uma queda de vigor do lote de alto vigor (Baio 33), não se diferenciando significativamene do lote Baio 7, visto que este último mantem o seu vigor ao aumentarmos a dose. A linha de tendência demonstra que a melhor dosagem para o Baio 7 é de 1,5 dose (600mL.100 kg sementes), representado pelo I máximo. Resultados similares podem ser observados na Fig. 2, onde a germinação na dose 0, demonstra a diferença significativa entre o Baio 33 e o Baio 7. Ao aumentarmos a 2 dose para 0,5 (200mL.100kg sementes), observa-se que a germinação é a mesma para lotes de diferentes vigor (Fig. 2), e que, a diferença estatística anteriormente existente na primeira contagem de germinação (Fig. 1), não mais é constatada, efeito de uma melhora dos níveis em lotes de menor vigor. Apesar disso, Hungria et al, 2007 detectaram algum problema na aplicação de Mo e Co nas sementes de soja. Seus estudos apontam que a aplicação de formulações salinas ou com pH baixo pode afetar drasticamente a sobrevivência da bactéria, a nodulação e a fixação do N2. Esses problemas podem ser evitados com a aplicação desses micronutrientes via foliar ou, se aplicado às sementes, escolher produtos que tenham controle de qualidade da empresa fornecedora (SFREDO E OLIVEIRA, 2010). Efeito interessante do aumento da dose, para uma (400mL.100kg sementes), pode ser observado na (Fig. 2), onde o lote com baixo vigor ultrapassa o de alto vigor, com diferença estatística benéfica para o primeiro, porém com uma queda nos níveis de germinação próximos a 15% para ambos, o que torna tal prática sem interesse. Ao verificarmos a aplicação de duas doses (400mL.100kg sementes), nota-se que novamente houve um aumento de germinação para os lotes, sem diferença estatística entre eles e em níveis menores que o verificado com meia dose, o que novamente comprova a ineficiência econômica do aumento da dose para duas. Para a variável comprimento de parte aérea (Fig. 3), observa-se que na testemunha (dose 0) não há diferença estatística entre os lotes. Ao aumentarmos a dose até uma (400mL.100kg sementes), há um aumento significativo na CPA, sendo que lote de alto vigor passa de 4cm para 8,5cm, ou seja, mais que o dobro do CPA inicial. Trabalhando com soja, Vitti et al. (1984) obtiveram aumentos de até 32,7% no rendimento de grãos, pela utilização de doses crescentes de um produto comercial contendo 10% de Mo e 1% de Co. Hungria et al. (2007) mostram ganhos de rendimento de grãos de soja de 492 kg.ha1 (20%) em relação ao tratamento inoculado, pela aplicação de Mo e Co. O mesmo lote (Baio 33), com meia dose (200mL.100kg sementes) já diferencia-se significativamente do lote de baixo vigor. O CPA para o lote de baixo vigor é similar, porém bem menos intenso, apresentando melhor resultado na dose de 800mL.100kg sementes. Tais resultados vão de encontro com os resultados obtidos em soja por Bellintani Neto & Lám-Sanchez (1974); Borges et al. (1974); Kolling et al. (1981); Lám-Sanchez & Awad, (1976); Mascarenhas et al., (1973), onde as respostas à adubação com Mo e Co, no Brasil, têm sido variáveis. Diversos experimentos, não apresentaram aumentos de rendimento de grãos ou de matéria seca, embora tivesse ocorrido um aumento significativo na nodulação em uma das pesquisas de Bellintani Neto & Lám-Sanchez, (1974). Para comprimento de raiz, novamente não há diferença significativa entre os lotes na dose 0. Esta começa a ser caracterizada na dose de (200mL.100kg sementes), com um aumento quase linear para o lote Baio 33, conforme (Fig. 4). Efeito contrario, é verificado ao dobrarmos a dose para (400mL.100kg sementes), onde há um aumento no CR do lote Baio 7 e uma queda drástica para o Baio 33, diferenciando-os significativamente. A melhor dose verificada para o lote de baixo vigor foi de uma dose e meia (600mL.100kg sementes), tendo uma leve queda ao aumentarmos novamente a dose. Segundo documentos publicados pela Embrapa, a partir de novos estudos com Mo e Co, os resultados mostraram que há respostas à aplicação desses nutrientes mesmo em pH acima de 4,8. e, em doses maiores. Com isso recomendou-se a aplicação de Mo via sementes, na dose de 12 a 25g.ha-1 e de 2 a 3g.ha-1 de Co. Com os resultados, obtidos com aplicação foliar desses nutrientes, na safra 2000/01 foi recomendada a sua aplicação via foliar, nas mesmas doses das usadas nas sementes. A recomendação permanece, e é citada por Sfredo e Oliveira (2010). 3 Conclusões Os melhores resultados obtidos, para primeira contagem de germinação, germinação, comprimento de parte aérea e comprimento de raiz, para o lote de baixo vigor (Baio 7), foram em concentrações próximas a 2 doses, de molibdênio e cobalto (produto comercial Leg extra). Para o lote de alto vigor (Baio 33), observou-se que a dose de 0,5 (200mL.100kg sementes) de molibdênio e cobalto (produto comercial Leg extra) foi efetiva para exploração de ambas as variáveis analisadas. Sementes de feijão-caupí provenientes de lotes de baixo vigor, respondem satisfatoriamente quando dobra-se a dose de micronutrientes (Mo e Co), mas eleva os custos de implantação da forrageira. Conclui-se que sementes de feijão-caupí provenientes de lotes de alto vigor devem ser tratadas com molibdênio e cobalto, na dose de 200mL.100kg sementes, para a máxima expressão de seu potencial. Figura 1 – Primeira contagem de germinação de sementes de feijão-caupí submetida aos tratamentos com diferentes nas diferentes doses de Mo e Co (Leg Extra). Figura 3 – Comprimento de parte aérea de plântulas de feijão-caupí submetida aos tratamentos com diferentes doses de Mo e Co (Leg Extra). Figura 2 – Germinação de sementes de feijão-caupí submetida aos tratamentos com diferentes doses de Mo e Co (Leg Extra). Figura 4 – Comprimento de raiz de plântulas de feijão-caupi submetida aos tratamentos com diferentes doses de Mo e Co (Leg Extra). 4 Referências ARAÚJO, J.P.P.; WATT, E.E. O caupí no Brasil. 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