ALESSANDRA CRISTINA FERREIRA DE MORAES Prevenção ao HIV/Aids para idosos: um desafio programático. Monografia apresentada no Curso de Especialização em Prevenção ao HIV/Aids no Quadro da Vulnerabilidade e dos Direitos Humanos do Núcleo de Estudos para a Prevenção da Aids da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo Orientadora: Castro São Paulo 2011 Ms. Mildred Pitman de 2 Ficha catalográfica MORAES, Alessandra Cristina Ferreira. Prevenção ao HIV/Aids para idosos: um desafio programático. – São Paulo. 2011. Monografia (Especialização)- Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Núcleo de Estudos para a Prevenção da Aids. Orientador: Ms. Mildred Pitman de Castro. Descritores: 1. Campanhas;2. HIV; 3. Idoso; 4. Vulnerabilidade. 3 Dedicatória Ao meu filho Daniel meu amor incondicional. A minha mãe Adalgiza companheira fiel e incansável em me amar. A minha irmã Amanda minha melhor amiga. A minha tia Anita por me encorajar sempre. 4 AGRADECIMENTOS A Deus por me amar incondicionalmente. A minha mãe, irmã, tias, primos e filho que em todo tempo me animaram, fortaleceram e me inspiraram a prosseguir. A minha orientadora Mestra Mildred Pitman de Castro por ter acreditado nesse estudo e me norteado em todo tempo. Ao Departamento Nacional de DST/Aids pela confiança e oportunidade. A Secretaria Estadual de Saúde de Mato Grosso pela oportunidade de realização deste curso. As minhas amigas Celma Lara, Claudia Braga, Marlene Plaster, Miriam Freire e Valéria Cristina pela força, ajuda e carinho durante esse período. A minha monitora Eliana Zucchi pelo apoio e incentivo. A Karinna Souza e Elseni Barbosa pela amizade e companheirismo. A todos aqueles que direta e indiretamente contribuíram para realização deste estudo. 5 Nós não somos gente que volta atrás e se perde. Ao contrário temos fé e somos salvos. Hebreus 10.39. 6 LISTA DE SIGLAS Aids – Síndrome da Imunodeficiência Adquirida ANVISA – Agência Nacional de Vigilância Sanitária BVS – Bibliotecas Virtuais de Saúde CF – Constituição Federal DEDALUS – Banco de Dados Bibliográficos da Universidade de São Paulo DST – Doença Sexualmente Transmissível HIV – Vírus da Imunodeficiência Humana IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística INPS – Instituto Nacional de Previdência Social MS – Ministério da Saúde OMS – Organização Mundial de Saúde ONU – Organização das Nações Unidas OSC – Organização da Sociedade Civil PAISM – Programa de Assistência Integral à Saúde da Mulher RMV – Renda Mensal Vitalícia SCIELLO – Scientific Eletronic Library SUS – Sistema Único de Saúde 7 LISTA DE ABREVIATURAS ed. edição et al. e outros etc. e outras coisas mais ex. exemplo Ms. Mestre 8 LISTA DE TABELAS Tabela 1: Casos notificados de idosos de 1980 a 2010................................................... 24 Tabela 2: Campanhas Nacionais de Prevenção ao HIV/Aids nos últimos 10 anos...... 32 9 LISTA DE GRÁFICO Gráfico 1. Projeções da pirâmide populacional brasileira nos anos de 2010, 2020 e 2050.................................................................................................................................. 13 Gráfico 2: Taxa de detecção (por 100.000 hab.) dos casos de Aids segundo faixa etária e sexo. Brasil, 2009............................................................................................................. 24 10 RESUMO MORAES, Alessandra Cristina Ferreira de. Prevenção ao HIV/Aids para idosos: um desafio programático. São Paulo: Faculdade de Medicina, Universidade de São Paulo: 2011. O presente estudo objetivou através de uma pesquisa bibliográfica, analisar a vulnerabilidade programática do idoso devido o aumento significativo da infecção pelo HIV nessa faixa da população brasileira. O idoso é atualmente o grupo que mais cresce mundialmente, daí a importância de criação de políticas públicas voltadas a esse segmento. Em relação à infecção pelo HIV, o aumento da expectativa de vida, as oportunidades sociais, a disponibilização de medicamentos para disfunção erétil tem impulsionado a vida sexual do idoso o que o torna vulnerável ao HIV/Aids. Associado a isso ainda tem-se a carência de informação a respeito da infecção, a resistência ao uso do preservativo, falta de ações de prevenção voltadas a este segmento etário e profissionais mal qualificados contribuem para aumentar a vulnerabilidade do idoso. Mesmo com os dados epidemiológicos indicando o crescimento de infecção pelo HIV e a vulnerabilidade que se encontra essa população, nesses últimos 10 anos só aconteceram duas campanhas voltadas a esse público, campanhas pontuais e com curto período de duração. As estratégias para a prevenção do HIV/AIDS são caracterizadas pela identificação dos comportamentos envolvidos na transmissão desta doença, análise dos determinantes dos comportamentos nos diferentes grupos sociais e intervenções comportamentais para induzir e manter as alterações do comportamento. Então é importante que governos, profissionais de saúde e sociedade reflitam sobre os indicadores, analisando a mudança de comportamento que sofreu o idoso e propicie a melhoria de vida dos mesmos, sanando as deficiências na pratica da prevenção ao HIV para o idoso. Palavras chaves: HIV; idoso; campanhas; vulnerabilidade. 11 SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO.......................................................................................... 12 2 OBJETIVOS.............................................................................................. 17 2.1 OBJETIVO GERAL................................................................................. 17 2.2 OBJETIVOS ESPECÍFICOS.................................................................. 17 3 MÉTODOS................................................................................................. 18 3.1 FONTE DE DADOS................................................................................ 18 3.2 CRITÉRIOS DE SELEÇÃO.................................................................... 19 3.3 CRITÉRIOS DE INCLUSÃO ................................................................. 19 CAPÍTULO I................................................................................................. 21 1 VULNERABILIDADE................................................................................ 21 1.1 VULNERABILIDADE INDIVIDUAL......................................................... 25 1.2 VULNERABILIDADE SOCIAL................................................................ 26 1.3 VULNERABILIDADE PROGRAMÁTICA................................................ 28 1.3.1 CAMPANHAS...................................................................................... 29 1.3 .1.1CAMPANHAS NACIONAIS.............................................................. 31 CAPÍTULO II................................................................................................ 36 1 POLÍTICAS PÚBLICAS............................................................................ 36 CAPÍTULO III............................................................................................... 42 1 PREVENÇÃO............................................................................................ 42 2 POLÍTICA DE INCENTIVO AS AÇÕES EM DST/AIDS........................... 44 3 PRÁTICAS DE PREVENÇÃO................................................................... 46 4 CONCLUSÃO............................................................................................ 49 REFERÊNCIAS............................................................................................ 52 12 1 INTRODUÇÃO A Aids não é apenas uma doença, mas um fenômeno social de grandes proporções que causam impacto nos princípios morais, religiosos e éticos, procedimentos de saúde pública e de comportamento privado, nas questões relativas a sexualidade, ao uso de drogas e a moralidade conjugal (Seffner, 2005). É uma doença que tem a característica de dinamizar a forma como a sociedade lida com ela. Desde o inicio da epidemia, nos anos de 1980, a Aids exige das autoridades competência para levar a mensagem do sexo seguro à população em geral e principalmente aos grupos aparentemente mais vulneráveis. Foi assim com gays, profissionais do sexo, usuários de drogas injetáveis, jovens heterossexuais e, mais recentemente, com mulheres casadas. Agora a doença avança sobre uma parcela da população fisicamente fragilizada e de abordagem complexa: os idosos (Caldas et al, 2005). A Organização Mundial de Saúde (OMS) define como idosas as pessoas com 60 anos e mais nos países em desenvolvimento e com mais de 65 anos nos países desenvolvidos. A Política Nacional do Idoso do Brasil está em consonância com a OMS, e também define como idosa a pessoa de 60 anos e mais. O envelhecimento, no entanto, não começa aos 60 anos, mas sim desde o momento do nascimento. A atenção se volta para a rapidez da mudança do perfil epidemiológico que vem ocorrendo no Brasil e que não estamos preparados para enfrentar. 13 A perspectiva de crescimento da população acima de 60 anos colocará o Brasil, dentro de 25 anos, como a 6ª- maior população de idosos no mundo em números absolutos, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Gráfico 1. Projeções da pirâmide populacional brasileira nos anos de 2010, 2020 e 2050 14 FONTE: IBGE – Projeção da População do Brasil: 1980-2050. http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/estimativa2006/estimativa.shtm E junto a essa mudança demográfica ocorre a mudança comportamental, onde os homens idosos em decorrência dos medicamentos para tratamento de disfunção erétil, a disposição no mercado desde os anos de 1990, que lhes proporcionou uma atividade sexual mais intensa. Em relação às mulheres, pesquisas demonstram que em função da menopausa tem sua atividade sexual diminuída, porém não deixam de realizá-las, mas enfrentam a dificuldade de negociar o uso do preservativo com o parceiro como a maioria das mulheres. (Figueiredo et al, 2007) . O envelhecimento e Aids no Brasil passam por uma questão cultural e de exclusão e concentra-se principalmente no preconceito social relacionado ao sexo nessa idade, já que tem-se a concepção que sexo é prerrogativa da juventude, o que contribui para manter essa população fora das prioridades de prevenção ao HIV/Aids. Prevenção essa que entre os idosos é algo muito complexo e representa um desafio para as atuais políticas de saúde pública, que concentram sua atenção na população jovem (Brito et al, 2000). 15 Outro ponto a ser considerado são os profissionais de saúde que não abordam as questões de sexualidade com este segmento, por terem concepções errôneas formadas a respeito de práticas sexuais, atrelado a isso existe por parte dos idosos uma grande falta de informação sobre a doença, preconceitos quanto ao uso do preservativo, ausência de ações preventivas e as campanhas realizadas serem sempre voltadas para o público mais jovem (Bertoncini et al, 2008). É evidente que o estado de saúde das pessoas depende de forma significativa da alocação de recursos em setores como a educação, alimentação, infra-estrutura sanitária e habitacional, incentivos ao trabalho, promoções ao estilo de vida saudável com atividades de lazer e cuidados com o meio ambiente. Daí a importância de se pensar ações que ao atuar na prevenção ao HIV considerem os aspectos psicológicos, socioeconômicos e culturais que interferem na vulnerabilidade deste grupo etário, antes e depois da infecção. O idoso vivência os três aspectos de vulnerabilidade, o individual (quando apresentam os valores pessoais impedindo de dispor das tecnologias de prevenção disponível), social (quando enfrentam o preconceito, falta de informação e pobreza entre outros) e programático (quando enfrentam a falta de elaboração de programas de prevenção destinados aos mesmos) (Ayres, 2002). Portanto, o envelhecimento populacional apresenta-se como um fenômeno atual de grande relevância para o Brasil, pois à medida que a sociedade envelhece os problemas aumentam e desafiam o sistema de saúde. Em relação ao HIV não é diferente daí a necessidade da construção 16 de uma política de saúde consistente para a prevenção da infecção da população idosa pelo HIV. E apesar dos indicadores epidemiológicos demonstrarem o avanço da doença nesse segmento etário, observa-se que estratégias de prevenção não têm sido adotadas para esse público e os resultados advindos desta análise documental poderão proporcionar compreensão a fim de que possam ser implementadas. 17 2 OBJETIVOS 2.1 OBJETIVO GERAL Conhecer a vulnerabilidade individual, programática e social do idoso frente a Aids. 2.2 OBJETIVOS ESPECÍFICOS Caracterizar as práticas de prevenção ao HIV/Aids voltada ao idoso. Analisar as campanhas de prevenção ao HIV destinada à população idosa, nos últimos dez anos no Brasil; Apresentar o número de campanhas produzidas para idosos no período de 2000 a 2010 pelo governo federal; 18 3 MÉTODO O estudo foi realizado através de uma pesquisa bibliográfica, exploratória com abordagem qualitativa. Considerando a relevância do tema buscou-se conhecer sob o olhar de alguns autores, a vulnerabilidade da população idosa em contrair o HIV/Aids, caracterizando assim, as práticas de prevenção a essa população e identificando o número de campanhas de prevenção ao HIV/Aids voltadas aos idosos a fim de atender aos objetivos propostos. 3.1 FONTE DE DADOS Foram utilizadas fontes de dados primárias e secundárias. Como fonte primária documentos os quais fundamentam a pesquisa documental que na definição de Lakatos e Marconi (2007) é a que tem como fonte de coleta de dados documentos, escritos ou não, constituindo o que se denomina de fontes primárias. A coleta de dados primária foi realizada nos seguintes documentos: Lei nº. 8.842 de 04/01/1994 – Política Nacional do Idoso; Portaria nº. 1.395 de 09/12/1999 – Política Nacional de Saúde do Idoso; Lei nº. 10.741 de 01/10/2003 – Estatuto do Idoso; Direitos dos Usuários dos Serviços e das Ações de Saúde no Brasil – Ministério da Saúde e Constituição da Republica Federativa do Brasil – 1988. 19 Foi utilizado como fonte de dados secundários publicações veiculadas no Banco de Dados Bibliográficos da Universidade de São Paulo/USP (DEDALUS); SCIELO – Scientific Electronic Library Online; Bibliotecas Virtuais de Saúde (BVS), que têm por objetivo promover acesso online eficiente, universal e eqüitativo à informação científica e técnica relevante para o desenvolvimento da saúde. Foram utilizadas as seguintes palavras-chave: envelhecimento e AIDS; Aids em idosos; Campanhas Aids para idosos. 3.2 CRITÉRIOS DE SELEÇÃO Para o alcance dos objetivos propostos elencamos alguns critérios para a eleição das publicações analisadas obtidas em fontes primárias. Assim, estes se configuraram conforme as características descritas na seqüência: documentos de âmbito nacional; documentos em vigor; documentos que tratam das políticas públicas para idosos. Como fontes de dados secundários foram utilizadas publicações no período de 1990 a 2010. 3.3 CRITÉRIOS DE INCLUSÃO - Tipo de publicação: artigo científico, tese ou dissertação; - Características quanto à periodicidade das publicações: periódicos nacionais; 20 - Período de publicação: janeiro de 1990 a dezembro de 2010; - Idioma de publicação: português; - Temática central – Vulnerabilidade individual, social e programática do idoso frente a Aids. Para tanto, buscamos publicações que atendiam aos objetivos específicos da pesquisa. Observamos assim, sua natureza e classificação, modalidade de produção cientifica; enfoque na abordagem da contextualização de vulnerabilidades dos idosos a infecção pelo HIV/Aids; e abordagem quanto à promoção de medidas de prevenção dos idosos ao HIV/Aids 21 CAPÍTULO I 1. VULNERABILIDADE Os primeiros casos conhecidos de Aids ocorreram nos Estados Unidos da América, Haiti e África Central. Naquela ocasião, os segmentos da população atingidos se concentravam nos grandes centros urbanos e eram constituídos principalmente por homossexuais. A doença foi caracterizada pela ciência e enfatizada pela mídia, que naquele momento era a única fonte de informação, como “Câncer Gay” ou “Peste Gay”, e deu inicio ao advento social da doença como “grupo de risco”. Posteriormente outras populações foram sendo afetadas pela doença como: usuários de drogas injetáveis e indivíduos hemofílicos expostos a sangue e hemoderivados contaminados com o HIV, mulheres e crianças (estas últimas por transmissão vertical). (Galvão, 2000) Alguns anos para frente percebeu-se que a Aids não se restringia somente a uma população específica, portanto não sustentando mais a concepção de “grupos de riscos”; daí, surgiu a expressão comportamentos de riscos, um avanço em relação ao conceito anterior mas ainda assim, atribuindo ao “indivíduo” a responsabilidade pela prevenção e não em relação à doença; neste momento, as campanhas de prevenção concentraram-se em dizer quais os comportamentos “seguros” e quais os que deveriam ser modificados pelas pessoas; posteriormente e até a atualidade o conceito de vulnerabilidade foi retomado com novo significado - 22 de suscetibilidade dos indivíduos e grupos sociais a agravos ou riscos em relação a doenças – sendo definido a partir de três planos interdependentes de determinação: comportamento pessoal (ou vulnerabilidade individual), contexto social (ou vulnerabilidade social) e programas de prevenção (vulnerabilidade programática). (Ayres, et al, 1996) É interessante notar que as mídias não divulgaram os conceitos de “comportamentos de riscos” e “vulnerabilidade” com a mesma intensidade com que divulgaram o conceito de “grupos de risco”, e nem a própria sociedade os incorporou tão largamente (Galvão, 2000). Ainda hoje, quando se pensa em prevenção, parece que a maioria das pessoas se coloca como não estando inseridas nos chamados “grupos de riscos” – o que as isentaria de qualquer relação com a Aids, desconsiderando, assim, o conceito de “comportamentos de riscos” e, mais ainda, o de “vulnerabilidade” (Soares, 2005). No que tange a vulnerabilidade, há mais uma vez o reforço de que prevalece a questão do idoso ser assexuado. No entanto, dados do Ministério da Saúde sobre a sexualidade do brasileiro, afirmam que 67% da população entre 50 e 59 anos se diz sexualmente ativa. E na população acima de 60 anos, o índice também é expressivo: 39%. A média de relações na parcela acima de 50 anos é de 6,3 ao mês (ANVISA, 2005). Esse fato provavelmente deve-se ao desenvolvimento de medicamentos para a disfunção erétil, assim como o aumento da longevidade sexual, que de certa forma aumenta também a possibilidade de contrair doenças sexualmente transmissíveis, sobre as quais se devem intensificar a prevenção em saúde. 23 Um fato que merece destaque é que são muitos os obstáculos ao uso da camisinha: os homens temem perder a ereção e ainda acham que o cuidado só é necessário nas relações com as profissionais do sexo. Já as mulheres não sentem necessidade de exigir o preservativo porque já perderam a capacidade de engravidar, considerando que não necessitam mais de prevenção. Fato que complica ainda mais, pois fazer sexo sem camisinha é particularmente arriscado depois da menopausa, devido ao ressecamento das paredes vaginais, as quais se tornam mais finas, e isto favorece o surgimento de ferimentos que abrem caminho para o HIV (Kitner, Melo & Figueiredo, 2006). Por essas razões, esses indivíduos se expõem, cada vez mais, a situações de vulnerabilidade, que além de estarem relacionadas às atitudes individuais, pois não se percebem próximo à doença, se estendem à dificuldade de diagnosticar precocemente o vírus nesta faixa etária. Exatamente porque, a vida sexual deles nem sempre é questionada nas consultas, em função do mito de que são monogâmicos, têm um ritmo sexual diminuído ou já não fazem sexo (Souza, et al, 2007). De acordo com o Boletim Epidemiológico DST/Aids 2010, em relação às faixas etárias, observa-se que a maior proporção dos casos de Aids se encontra entre os 40 e 49 anos de idade. 24 Gráfico 2: Taxa de detecção (por 100.000 hab.) dos casos de aids segundo faixa etária e sexo. Brasil, 2009 FONTE: Boletim Epidemiológico – DST/Aids 2010 - MS/SVS/Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais. NOTAS: Casos notificados no Sinan e registrados no Siscel até 30/06/2010 e no SIM de 2000 a 2009. Dados preliminares para os últimos cinco anos. POPULAÇÃO: MS/SE/DATASUS, disponível em <www.datasus.gov.br> no menu Informações de saúde > Demográficas e socioeconômicas, acesso em 09/11/2010. Nos indivíduos com 60 anos e mais, verifica-se um aumento importante dos casos de Aids em ambos os sexos, que passaram de 3480 casos no período de 1980 a 2000 para 7066 casos de 2001 a 2010 no sexo masculino, e, no feminino, de 1281 casos no período de 1980 a 2000 para 4400 casos de 2001 a 2010, duplicando o número de casos em dez anos entre os homens e triplicando entre as mulheres. Tabela 1: Casos notificados de idosos de 1980 a 2010 Sexo/Período 1980/2000 2001/2010 Total Homem 3480 7066 10546 Mulher 1281 4400 5681 FONTE: Boletim Epidemiológico DST/AIDS 2010 25 Não se pode esquecer que vulnerabilidade envolve comportamento individual, mas também o contexto social e político quando se pretende avaliar as chances que um indivíduo tem de se infectar, sendo importante, portanto avaliar as condições sociais, o acesso aos serviços de saúde e a existência de políticas públicas. 1.1 VULNERABILIDADE INDIVIDUAL A vulnerabilidade individual envolve tanto a dimensão cognitiva quanto a comportamental, estando dessa forma, associada às informações sobre a doença, percepção de risco, valores e crenças que determinarão as formas de prevenir a infecção e a possibilidade de execução de práticas seguras (Ayres et al, 2003). Entretanto, para além de uma análise subjetiva, a vulnerabilidade individual também se estende às características biológicas. Dessa forma, as mulheres se mostram mais suscetíveis à infecção pelo HIV do que os homens, pois além do sêmen apresentar maior concentração de HIV, a superfície vaginal é relativamente extensa (Silveira et al, 2002). Segundo Brasil (2006), do ponto de vista da Aids, não é a sexualidade que os torna vulneráveis ao HIV/Aids, mas as práticas sexuais que são realizadas de forma desprotegida, e este é um pressuposto válido para todas as idades. 26 A possibilidade de uma pessoa idosa ser infectada pelo HIV parece ser invisível aos olhos da sociedade e dos próprios idosos, visto que a sexualidade, nesta faixa etária, ainda é tratada como tabu tanto pelos idosos quanto pela sociedade em geral (Fontes e Silva, 2004). Um dos desafios da prevenção do HIV/Aids entre os idosos é a crença errônea de que estes não estão em risco de contrair HIV ou outras doenças sexualmente transmissíveis. Também a falta de consciência dos profissionais de saúde é uma barreira à educação dos idosos sobre os riscos do HIV (Gomes e Silva, 2008). O fato dos próprios idosos não se perceberem como possíveis de infecção e as crenças equivocadas sobre a AIDS apresentam-se como aspectos que potencializam a vulnerabilidade, principalmente quando tal percepção é associada ao preconceito, ao baixo nível de escolaridade e pouca informação/discussão dessa temática entre os idosos. Além disso, a percepção de vulnerabilidade e o preconceito, decorrentes de crenças equivocadas, apontam para o papel das esferas sociais e políticoinstitucionais, demandando a necessidade de ações em saúde pública específicas para essa categoria social (Silva e Paiva, 2000) 1.2 VULNERABILIDADE SOCIAL A vulnerabilidade social esta ligada a questão sócio-econômica, culturais, políticas e as relações de gênero do individuo, porém quando trazemos isso para o idoso não podemos esquecer que este é alvo de 27 discriminação no nosso país. Também não podemos esquecer que essa população é em geral muito pobre, pois muitos sustentam a família com seus pequenos salários e ainda tendo que usá-lo para aquisição de medicamentos. Esta situação de vulnerabilidade social implica em dificuldades de acesso aos meios de informação, saúde e outros indicadores importantes (Silva e Paiva, 2000). Porém não podemos esquecer a relação de gênero, fator importante para a vulnerabilidade dessa população. Para Scott (1990) a definição de gênero baseia-se na conexão integral entre duas proposições: [1] gênero é um elemento constitutivo de relações sociais baseado nas diferenças percebidas entre os sexos, e [2] o gênero é uma forma primeira de significar as relações de poder. Sobre o assunto também trata Motta (1999): gênero e idade/geração são dimensões fundamentais de análise da vida social. Expressam relações básicas, por onde se (entre)tecem subjetividades, identidades e se traçam trajetórias. Pesquisas têm demonstrado o quanto à questão comportamental interfere no combate a epidemia de Aids, pois a cultura machista muitas vezes tem impedido a prevenção. Esse público não viveu a aclamação pelo uso do preservativo e ainda associa essa prática ao medo de perder a ereção ou de não satisfazer sexualmente suas parcerias, então concorda em não utilizar o preservativo a fim de não “atrapalhar o prazer” (Paiva et al, 1998). 28 “Culturalmente espera-se que o homem satisfaça sexualmente uma(s) mulher(es), jamais recuse insinuações de uma parceira, e que consiga ereções imediatas e bem sucedidas” (Silva et al 2006). Não se pode esquecer dos homens com desejos homoeróticos, segundo Paiva et al,1998) eles vão vivenciar suas experiências de forma clandestina e dessa forma não aderindo a sexo seguro. Já em relação às mulheres as relações de poder são fator predominante para limitação do acesso a informação e prevenção a doença, pois muitas mulheres não conseguem negociar o uso do preservativo com o parceiro, devido sua condição na relação, já que muitas são: economicamente dependentes, pela religiosidade e para não colocar em questão a fidelidade conjugal. 1.3 VULNERABILIDADE PROGRAMÁTICA Vulnerabilidade programática reporta-se a disponibilidade de ações que o serviço de saúde coloca a favor da sociedade para diminuir a vulnerabilidade frente ao agravo, para Ayres (2005) é o acesso aos serviços de saúde, qualidade da atenção, e implantação e implementação de programas de combate à aids e outros desta natureza, que propiciam a existência de contextos sociais favorecendo a adoção de medidas de proteção. No Brasil o serviço de saúde é ligado ao Sistema Único de SaúdeSUS, e este têm como princípio a universalização do acesso, a integralidade da atenção, a eqüidade, a descentralização da gestão, a hierarquização dos serviços e o controle social. 29 Quando se discuti esta questão não se pode esquecer que essa estratégia tem que acontecer nas três esferas de governo federal, estadual e municipal, porém Paiva, 2002, “... os serviços continuam basicamente organizados para dar conta dos fatos biomédicos e da educação centrada nas vias de transmissão e na promoção dos instrumentos de proteção (preservativos, abstinência, seringas descartáveis etc), ou no controle clínico da infecção e da adesão.” É necessário que o serviço se organize para enfrentar o problema (planejamento, recursos, capacidade, gerência e avaliação), pois a falta destes impede a intervenção sobre os fatores sociais que levam o indivíduo ao modo de pensar, fazer e querer que os expõem aos agravos. Esperar que somente o programa de DST/Aids, de conta de enfrentar o aumento da doença na população idosa é negligência. É preciso que os programas sejam devidamente implementados por todas as instâncias, sobretudo, pelas unidades de saúde que oferecem serviços voltados à atenção primária, pois na praticas eles tem acesso mais fácil aos idosos e a possibilidade de realizar uma pratica de prevenção apurada. As campanhas por exemplo poderiam ser melhor exploradas tanto pelo departamento de DST/Aids quando pelas esferas: estadual e municipal. 1.3.1CAMPANHAS “A comunicação em saúde e meio ambiente tornou-se a matriz de um novo padrão de relações sociais entre agentes de saúde e cidadãos, baseada na interlocução, participação e coresponsabilidade nas decisões de saúde (Ratzan, 1997).” (Kucinski, 2000) 30 Na metade da década de 1980, com desinformação, ausência de um programa organizado de prevenção, demora da resposta do governo em iniciativas mais claras e incisivas no campo da saúde (Paz, 2007) a situação epidemiológica da Aids começou a se agravar. E por outro lado, os registros de casos começaram a se tornar mais rigorosos, dando maior visibilidade a uma epidemia até então silenciosa. Com tudo isso a tona a população exigia informações sobre a doença e o governo no medo que se instalasse aqui o mesmo pânico que estava nos Estados Unidos, adota a veiculação de campanha de massa. Algumas das primeiras campanhas tiveram como slogan “Quem vê cara, não vê Aids. Previna-se” e “Não morra de Aids, Use camisinha” todas de 1988. Desde então as campanhas passaram a ser uma pratica comunicativa incorporada à agenda do governo que em geral acontecem no período de Carnaval e na data de 1º de dezembro, Dia Mundial de Luta Contra a Aids. As campanhas publicitárias consomem do Programa Nacional de DST/Aids um percentual alto de aplicação financeira, o que muitas vezes foi questionado pelas Organizações Não Governamental – ONG/Aids ao longo desses anos, pois apesar do alto investimento não houve retorno. Uma delas é a campanha do “Bráulio” 1995. “Pela ótica da campanha do o país e se Nacional de 22/10/1995” Aids é fácil perceber os descaminhos. A desastrosa “Bráulio”, com custo superiora R$ 4 milhões, choca torna o mais retumbante fracasso do Programa Aids desde sua criação, em 1986. O Globo, Segundo Paz (2007) – a definição de campanha remete ao “conjunto de peças e estratégias publicitárias” que comunicam a mensagem de um 31 determinado anunciante através dos meios de comunicação de massa e, assim, à população. Em relação ao HIV, a campanha chegou antes que houvesse uma campanha publicitária propriamente dita, pois a impressa já procurava informar a população a respeito da Aids e com objetivo de redução dos riscos de infecção. É certo que nos dias atuais não há como pensar a saúde pública sem o campo de comunicação, principalmente quando está ligada a saberes e práticas, no caso da Aids ligada diretamente com comportamentos carregados de significados. Na visão de Pereira, “o fundamental não é simplesmente dominar as técnicas ou tecnologias de comunicação, mas compreender o real estatuto e o peso da informação na sociedade hoje, bem como poder se mover, com relativa agilidade, na intrincada rede de discursos e contra discursos através da qual e sobre a qual se constrói a solidez de nossa sociedade contemporânea”. 1.3.1.1 CAMPANHAS NACIONAIS Segue abaixo as campanhas realizadas pelo Ministério da Saúde, através do programa de DST/Aids, nos últimos 10 anos e o enfoque de cada campanhas de prevenção realizada. 32 Tabela 2: Campanhas Nacionais de Prevenção ao HIV/Aids nos últimos 10 anos 33 34 35 FONTE: site Departamento www.aids.gov.br/publicações. Nacional de DST/Aids e Hepatites Virais, 36 CAPÍTULO II 1 POLÍTICAS PÚBLICAS “De acordo com Lucchesi e Aguiar (2004) as políticas públicas definem-se como conjunto de disposições, medidas e procedimentos orientados pelo Estado e regulam as atividades governamentais relacionadas às tarefas de interesse público, integrando o campo da ação social do Estado, orientando para a melhoria da saúde da população e dos ambientes naturais, social e do trabalho para a promoção, proteção e recuperação da saúde do indivíduo e da coletividade. Pensar em saúde, não é mais um conceito que remete à ausência de doença, mas abrange diversas esferas, desde comportamento, contexto no qual o individuo se insere na sociedade, suas expectativas de vida, acesso aos serviços de saúde, lazer e trabalho (CRISTIANO, 2008) por (Andrade, 2009). ” A política de saúde para o idoso tem dois momentos importantes Internacionalmente, duas assembléias das Nações Unidas são consideradas significativas para a agenda de políticas públicas da população idosa – Viena, 1982 e Madri, 2002. Em Viena no ano de 1982, a Assembléia Mundial sobre o Envelhecimento, foi o primeiro fórum global intergovernamental voltado para essa questão e que resultou na aprovação de um plano global de ação que foi considerado um avanço. “Pois até então a questão do envelhecimento não era foco de atenção nem das assembléias gerais, nem de nenhuma agência especializada das Nações Unidas (Zornita, 2008)”. O plano 37 objetivou a garantia da segurança econômica e social das pessoas idosas e identificou oportunidades para integrar os idosos ao processo de desenvolvimento dos países, tendo por referência a Conferência dos Direitos Humanos de Teerã, de 1968. Desde então, foram surgindo mudanças no cenário internacional, a partir dessa assembléia alguns países, em geral os em desenvolvimento, passaram a incorporar, gradativamente, a questão do envelhecimento em suas agendas políticas e alguns governos da América Latina modificaram suas constituições, em diferentes graus, estabelecendo leis que favoreciam a população idosa: Brasil (1988), Peru (1993), Bolívia (1994), Equador (1998), Venezuela (1999). Outro fato importante foi que em 1992 quando foi aprovada a Proclamação sobre o Envelhecimento na Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), sendo estabelecido o ano de 1999 como o Ano Internacional dos Idosos e foram definidos os parâmetros para o início da elaboração de um marco conceitual sobre a questão do envelhecimento. Então, os anos 90 foram quando gradualmente os idosos passam a ter maior visibilidade e outros fóruns começam a estabelecer políticas voltadas aos idosos e os países membros foram incentivados a aplicar os cinco princípios básicos em favor dos idosos, já adotados na Assembléia Geral de 1991: independência, participação, cuidados, auto-realização e dignidade. Na Segunda Assembléia Mundial sobre Envelhecimento, em Madri, 2002, o relatório do conselho econômico e social da ONU ressaltou a atenção para as mudanças sociais, culturais e tecnológicas em curso em todo o mundo 38 que implicam mudanças nas estruturas de valores – como, por exemplo, as mudanças nos códigos de valores que regem cada uma das gerações e na forma de transmissão de valores, conhecimentos e responsabilidades de uma geração para a subseqüente, pois “as gerações mais jovens adquirem boa parte de seu código de valores de seus próprios companheiros (Zornitta, 2008)”. No Brasil a primeira iniciativa do governo federal ocorreu em 1974 onde – “se constituía de ações preventivas realizadas em centros sociais do Instituto Nacional de Previdência Social (INPS) e da sociedade civil - bem como de internação custodial dos aposentados e pensionistas do INPS a partir de 60 anos. A admissão era feita considerando o desgaste físico e mental dos idosos, a insuficiência de recursos próprios e familiares e a inexistência de família ou abandono por ela (Zornitta, 2008)”. O governo federal também cria em prol dos idosos carentes durante os anos 70 os benefícios não-contributivos: as aposentadorias para os trabalhadores rurais e a renda mensal vitalícia (RMV) para os necessitados urbanos e rurais. Porém em 1976 o governo federal criou o primeiro documento com diretrizes para política social para essa população – “Política social para o idoso: diretrizes básicas (Brasil, 2002)” - objetivando a identificação das condições de vida dessa população de brasileiro e do apoio assistencial existente para prover suas necessidades. Todos esses movimentos iriam culminar com a Reforma Sanitária, que posteriormente levaria a promulgação da Constituição Federal de 1988, que em seu artigo 196 garante a saúde como “direito de todos e dever do 39 Estado”. Outro ponto importante a se ressalta na Carta Magna é que apesar de trazer à garantia de um direito a saúde, ela acabou excluindo o idoso no seu artigo 227 do capitulo VII, que explicita a absoluta prioridade do direito à vida, entre outros, das crianças e dos adolescentes. E, apesar deste artigo fazer parte do capítulo sobre a família, a criança, o adolescente e o idoso, este último foi completamente suprimido. “É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança e ao adolescente, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão. CF 1988” Em 1994 foi aprovada a Lei Nº 8.842 de 04/01/1994 sobre a Política Nacional do Idoso, que consistia em um conjunto de ações governamentais com o objetivo de assegurar os direitos sociais dos idosos a partir do princípio de que “o idoso é um sujeito de direitos e deve ser atendido de maneira diferenciada em cada uma de suas necessidades: físicas, sociais, econômicas e políticas (Camarano e Pasinato, 2004)”. No plano da saúde somente em 1999 o Ministério da Saúde (MS) elaborou a Política Nacional de Saúde do Idoso, através da publicação da Portaria Nº 1.395 de 09/12/1999. Segundo Camarano e Pasinato: “esta foi conseqüência do entendimento de que os altos custos envolvidos no tratamento médico dos pacientes idosos pelo Sistema Único de Saúde (SUS) não estavam resultando no real atendimento das suas necessidades específicas. A política apresenta dois eixos norteadores: medidas preventivas com especial destaque para a promoção da saúde e atendimento multidisciplinar específico para esse contingente”. 40 E então no ano de 2003 foi sancionado o Estatuto do Idoso, que representou um passo importante da legislação brasileira no contexto de sua adequação às orientações do Plano de Madri. Para Uriona e Hakkert, a criação de uma lei especifica para os idosos dá possibilidade para que se construa um ambiente mais justo para todos independente da idade (Zornitta, 2008). Em relação às políticas de saúde, a população idosa difere radicalmente do morbimortalidade, restante da requerendo população políticas quanto de saúde aos padrões especiais, e de se caracterizando primordialmente por enfermidades crônicas, que resultam em um maior número de consultas médicas, internações hospitalares (número e tempo de permanência), exames periódicos, medicamentos, etc. Por outro lado desde 1997 a OMS tem recomendado “que os programas de envelhecimento e saúde considerem o envelhecimento como uma parte do ciclo vital, o que implica não considerar os idosos como um grupo estático, separado do resto da população (Zornitta, 2008)”. Porém mesmo diante de todas essas ações e políticas na área de envelhecimento, de Integração Social, de Educação e Cultura, de Associações de aposentados e pensionistas e de Esporte e Turismo, quando se trata de saúde sexual o idoso ainda é visto pelos profissionais e sociedade como assexuado, mantendo um estereótipo que não é verdadeiro. Daí a necessidade que a pratica de assistência seja revista, pois essa questão não é simples, merecendo maior vontade e comprometimento por parte de todos. 41 Com a ampliação da longevidade, tratamentos hormonais, às próteses e aos medicamentos como o Viagra, os idosos passaram a ter vida sexual mais intensa. Só que por outro lado existe a falta de informação sobre a doença, preconceitos contra o uso de preservativos e ausência de ações preventivas voltadas para a terceira idade. E a maioria dos idosos ainda acredita que não tem possibilidades de contraírem o vírus nem tão pouco que existam pessoas soropositivas em seu convívio. Este “mito”, “mesmo após dez anos de estudo, continua pairando no imaginário das pessoas, especialmente em se tratando de pessoas idosas (Mann, et al 1993)”. Por isso se faz necessário a adoção de políticas de saúde publica que concentrem sua atenção na população mais velha, para conter o avanço da doença entre eles. É importante termos em mente que com o aumento dessa população no país, a modificação cultural sobre o envelhecimento, as conquistas de direitos pela terceira idade, garantidas pela constituição de 1988 e pela Política Nacional do Idoso, as transformações do papel do idoso, entre outros, merecem um novo olhar. “Conhecer a vulnerabilidade de grupos populacionais possibilita mobilizar profissionais e população civil, por meio de um processo educativo construtivista, para transformações sociais. Tais transformações devem ser alicerçadas nas relações intersetoriais e na ação comunicativa entre os sujeitos sociais. Assim, acreditase na importância de diferentes formas de enfrentamento, em termos não somente assistencial, de tratamento clínico e de reabilitação, mas também na implementação de políticas públicas e de ações de prevenção de doenças, bem como promoção de saúde da população de forma integral e resolutiva (Paz et al, 2006).” 42 CAPÍTULO III 1 PREVENÇÃO Igualdade, liberdade, diversidade, participação e solidariedade: “Uma sociedade só é democrática se esses cinco princípios existirem simultaneamente,não separadamente. Nenhum deles é limitado.[...] Não chegaremos jamais à sua realização completa, mas seus princípios nos inspiram e iluminam nosso caminho. (Herbert de Souza, o Betinho)” Nessa ótica percebesse que a prevenção passa pela discussão de políticas públicas de saúde, e não se pode deixar de mencionar que a luta contra o HIV/Aids é o resultado de um movimento social amplo que procurou articular os cinco princípios mencionados (Brito, 2010). “É preciso deixar claro que os espaços onde se produz os conhecimentos e intervenções para conter e evitar a epidemia são contextos políticos e de disputa de poder – logo, se revestem de possibilidades que podem ou não responder às necessidades das pessoas diretamente envolvidas (Brito, 2010).” Segundo Brito , no Brasil a pratica de prevenção ao HIV/Aids, está voltado para uma abordagem que privilegia um ou outro dos eixos relacionados a construção da democracia e de seus efeitos no que se refere à autonomia e emancipação dos sujeitos. A democratização do país e a criação do Sistema Único de Saúde (SUS) acontece no mesmo período do inicio da epidemia de Aids, porém o processo de democratização não consegue suprir todas as demandas de uma sociedade cheia de desigualdades sociais. Isso é evidente quando 43 temos na agenda de prevenção questões como: “criminalização de pessoas que vivem com HIV/Aids, as restrições de viagem, as restrições quanto aos direitos sexuais e reprodutivos, a judicialização como recurso extremo para a obtenção do acesso aos medicamentos e suas contradições em sistemas de acesso universal, e o conflito federativo relacionado à distribuição dos recursos para o setor saúde. (Brito, 2010). Outro fator importante que interfere no aspecto democrático é a fragilidade da representação dos interesses da sociedade civil, através do movimento, que tem buscado o fortalecimento individual e não do todo fragmentando a resposta à epidemia. É importante que o campo da prática de prevenção retome o movimento no sentido de recompor os eixos anteriormente citado e acabe com a fragmentação ocorrida. 44 2 POLÍTICA DE INCENTIVO AS AÇÕES EM DST/AIDS No inicio denominado primeira fase, anos 90, foram feitos acordos de empréstimo com o Banco Mundial. “Os objetivos desses acordos visavam à criação e o fortalecimento de estruturas locais de gerenciamento da resposta à epidemia, implantação de redes de vigilância epidemiológica e de atenção à saúde das pessoas com HIV e o desenvolvimento de ações governamentais e não governamentais de prevenção ”(Paz, 2007). Os Programas de DST/Aids estaduais e municipais foram se desenvolvendo com a atuação de técnicos militantes da saúde pública e dos movimentos sociais, apoiados por convênios financiados por esses Acordos de Empréstimo, e foram instituindo no cenário da saúde, mesmo que de forma incipiente, políticas públicas baseadas no compromisso com metas e planos, assim como na integralidade de assistência/prevenção, na prevenção extramuros e entre pares, na redução de danos, na oferta do insumo “preservativos” para fins que não o planejamento familiar do Programa de Assistência Integral à Saúde da Mulher - PAISM, além de outras estratégias, mesmo que pontuais, até então pouco freqüentes na saúde (Silva, 2010). O primeiro acordo, denominado AIDS I, significou o aporte de 160 milhões de dólares, com uma contrapartida de 90 milhões composta de 60% oriundo de Estados e municípios e 40% do governo federal. “Foram envolvidos, nessa fase, 27 secretarias estaduais e 150 municípios, priorizados por reunirem parte significativa dos casos de Aids do país (Silva, 2010).” De acordo com Silva (2010) apesar desse recurso ser um parcela pequena, ele foi responsável pela: “formatação qualificada e adaptada às características loco regionais”, na época e possibilitou “a compra de insumos, a elaboração e a confecção de material educativo, a capacitação de pessoal, a contratação de agentes de saúde para ações de prevenção entre pares e extramuros, a defesa de direitos e o combate à discriminação são alguns dos exemplos que podem ser lembrados, cuja sustentabilidade foi sendo construída por técnicos, gestores e ativistas, a partir de bases muitas vezes iniciadas durante o próprio processo de elaboração, qualificação e execução dos planos exigidos para o recebimento destes recursos por estados e municípios. 45 A segunda fase se dá através da Política de Incentivo no âmbito do Programa Nacional de DST/Aids, com a descentralização da resposta à Aids, iniciada em 2003, onde: “ampliou o número de municípios com programas estruturados, transferiu para estados a responsabilidade e os recursos para o financiamento das ações das ações de organizações da sociedade civil (OSC) e reorganizou os princípios de gestão da política, vinculando o financiamento federal à definição de metas pactuadas entre gestores e movimentos sociais, ao cofinanciamento das ações e à obrigatoriedade da manutenção de equipes e estruturas organizacionais específicas para a Aids.(Silva, 2010)” Essa iniciativa resultou na aprovação de 440 municípios brasileiros para recebimento do recurso, que consolidou através da publicação das portarias GMS Nº 2313 e 2314 de 18 de dezembro de 2002. Após esse período não houve ampliação do número de municípios para recebimento, nem tão pouco existe atualmente algum movimento oficial para a ocorrência deste. 46 3 PRÁTICAS DE PREVENÇÃO O advento da epidemia da AIDS, no inicio da década de 1980, trouxe para política em saúde a manifestação de assuntos que pareciam estar superadas, e por causa dessas manifestações houve um reposicionamento dos termos do debate da reforma do setor da saúde no país, questionando os dispositivos de controle sobre a sexualidade e as abordagens médicas sobre a epidemia. Segundo Foucault (1982), as práticas em saúde pública sempre foram construídas a partir do saber médico, que resultaram em modelos nem sempre favoráveis a necessidade de saúde da população. Essa manifestação resultou em avanços para a prática de saúde pública, principalmente na área de prevenção e promoção. Os avanços se dão em duas ordens: ativismo e mobilização social da sociedade civil em relação aos direitos humanos e sociais das pessoas que vivem com HIV/Aids; e a importância dos estudos e intervenções dirigidas para a promoção de práticas sexuais seguras, redução de danos e aconselhamento (Brito, 2010). Para a política nacional de DST/Aids a noção de vulnerabilidade é o seu principal referencial teórico (Ferraz e Nemes, 2010). Então as respostas a prevenção ao HIV/Aids devem contribuir para a redução de vulnerabilidade nos níveis individual, social e programático.De acordo com Ferraz e Nemes (2010): “a política nacional de controle das DST/Aids estabeleceu diretrizes que radicalizaram o direito à saúde, por exemplo, ao estabelecer a possibilidade de realização de testes anti-HIV de 47 forma anônima nos serviços públicos de saúde e ao garantir às pessoas que vivem com HIV o acesso universal ao tratamento antirretroviral. Da mesma maneira, adotou a promoção do uso de preservativo como a principal estratégia de prevenção (contrapondo-se a alternativas como a redução de parceiros ou a abstinência sexual, que violam o exercício dos direitos sexuais) e legitimou a redução de danos como a principal tecnologia para o controle das infecções entre usuários de drogas injetáveis no país.” A esse respeito Paiva (2002) relata que os “programas governamentais e não-governamentais têm se dedicado corretamente a promover políticas não discriminatórias, defendendo os direitos dos portadores, ampliando a consciência de que a Aids atinge igualmente a todos. Mas no que diz respeito à sexualidade a abordagem é feita para todos da mesma forma, como se “todos fôssemos igualados pelas mesmas práticas, sem considerar que práticas sexuais tem seus sentidos particulares em cada cena sexual, em cada contexto sócio–cultural, não existem (Paiva, 2002)”, e essa visão é muito simplista, reduzindo a compreensão acerca da dinâmica da epidemia e dos fatores que potencialmente levam as pessoas a se infectarem. E encontram-se questões como: “a dificuldade de o portador fazer o teste ou reconstruir-se para uma nova vida, protegendo os outros ou a si mesmo de reinfecção nunca são discutidas abertamente, como se pertencessem à outra nação. Os direitos reprodutivos dos portadores permanecem marcados pelo silêncio ou restritos às controvérsias de corredores e não têm sido debatidos mais sistematicamente nos programas de Aids, ratificando sua morte civil (Santos et al., 1998). Na literatura disponível, os poucos estudos encontrados sobre a sexualidade das pessoas vivendo com HIV confirmam que os determinantes sócio-culturais da sexualidade e vida reprodutiva, inclusive do sexo não-protegido, são os mesmos entre os portadores e não-portadores (Schiltz & Sandforth, 2000). (Paiva, 2002). No debate sobre a dinâmica da transmissão sexual do HIV permanece com vida longa a descrição de condutas sexuais ainda 48 acusadas de “promíscuas”, ou sob suspeita, numa visão mais conservadora, e a vida afetivo-sexual dos portadores segue desconsiderada ou reprimida (punida?) quando a pessoa chega a um serviço de saúde ao se descobrir portador. Nos centros de referência, encontramos profissionais que espelham valores e significados para o sexo e para a Aids em que foram socializados, em geral conservadores, estigmatizadores daqueles com opções diferentes da sua. Encontramos, também, profissionais que se identificam com valores mais abertos à diversidade, mas que muitas vezes tratam a conduta sexual como irresponsavelmente culpada porque “não usou a camisinha”, como se fazer sexo seguro dependesse sempre da vontade e da razão informada, acusando os que não absorvem adequadamente (“desconsideram”) os guias para a proteção do sexo (Paiva et al., 2001)” (Paiva, 2002). Essa realidade ainda é enfrentada após a terceira década da epidemia de Aids, mesmo diante de todo avanço para o enfrentamento a Aids a prática da prevenção ainda esbarra nesses conceitos e acaba permitindo a evolução da doença. Para Seffner: “analisando o que foi feito até hoje em prevenção, creio que podemos afirmar que talvez estejamos politizando e pedagogizando pouco a prevenção. Desta maneira, abrimos espaço para que ela seja vista como uma atividade eminentemente técnica. Dito de outra forma, talvez a maioria das campanhas de prevenção tenha visado à formação de consumidores de camisinhas, e não de cidadãos educados para a autonomia nas decisões de saúde sexual. Esta é uma espécie de “questão arriscada”: estamos formando cidadãos ou consumidores de camisinhas? Se a AIDS tem-se verificado um marcador muito eficiente da opressão social e sexual, não temos saída senão politizar as campanhas de prevenção.” É necessário ampliar o conceito de prevenção, saindo da práxis médica e individual e adentrando por caminhos da psicologia, pedagogia entre outros, acessando tecnologias para melhoria das ações de prevenção ao HIV/Aids (Ferraz e Nemes, 2010) 49 4 CONCLUSÃO O estudo revelou que as políticas dirigidas a esta camada da população, no caso a idosa, têm sido pouco enfatizada pelas políticas de saúde. O desafio que se coloca às políticas públicas relacionadas ao aumento da população acima de 60 anos infectadas com HIV/Aids, está voltada à necessidade de articular as intervenções sociais com a dimensão ética que esse problema exige, já que essas ações estão direcionadas a alterar a maneira dos idosos exercitarem seus direitos. E esse desafio cresce tendo em vista que os números demográficos apontam para um aumento expressivo dessa população nas próximas décadas, daí a importância de estudar este novo contexto, com intuito de fornecer subsídios para a elaboração de medidas efetivas visando promover um melhor atendimento aos idosos. É notório a condição de vulnerabilidade que se encontra esse segmento, apesar da legislação para garantia de direitos ter avançado nesses últimos anos, ainda assim as questões individuais, sociais e de programas afetam os mesmos ampliando a oportunidade para que os mesmo sejam infectados. Por isso há necessidade que o Programa Nacional de DST/Aids e a Saúde do idoso estreitarem a discussão para efetivação de políticas públicas de saúde que atendam as especificidades que essa população requer. 50 É preciso conhecer a vulnerabilidade e a exposição do idoso ao HIV/Aids e compreender o contexto em que ele vive e os fatores que os deixam suscetíveis a infectar-se. A estratégia de campanhas de massa adotada pelo programa nacional ao longo desses anos da epidemia tem abordado a cada ano populações específicas, sendo que ao longo desses anos somente em dois momentos obteve-se campanhas voltadas aos idosos, mesmo com os dados epidemiológicos apontando para o crescimento da doença nessa faixa etária. Sendo a primeira em 2008 no dia mundial de luta contra Aids, para homens maduros acima de 50 anos e a segunda no Carnaval de 2009 para mulheres maduras acima de 50 anos. Depois desses momentos não houve outras ações direcionadas aos idosos, porém o programa nacional destina anualmente um valor considerável à publicidade para as campanhas. Mesmo com valor bastante alto nem sempre as campanhas surtiram o efeito desejado e muitas vezes foram criticadas pelos movimentos sociais. É valido salientar que as campanhas iniciaram por meio dos próprios veículos de comunicação, que enfatizaram a doença de inicio denominando de “peste gay”, e as informações veiculadas eram sempre com slogans impactantes, que fez com que a sociedade associasse a “doença” com “morte”, “pecado” a “aquilo que é errado, promiscuo”. Quanto ao investimento financeiro, sempre com valores enormes, cabe pensar se não seria melhor direcionar esse investimento para outras áreas que poderiam trazer mais benefícios ao controle desse agravo. Mas, é 51 notório que essa é também uma forma do governo demonstrar que está realizando algo para combater à doença. No entanto o cidadão continua a realizar, distante desse movimento, suas máximas, seus papéis, suas praticas, suas relações muitas vezes multifacetadas, algumas vezes muito distante da definição de “homo” ou “hetero” do que “certo” ou do que é “errado”, porém os agentes de marketing ainda preferem criar suas campanhas na distância e a distância dessa população. É preciso saber que a Aids está muito além de uma definição científica, mas com diferentes saberes, em diferentes campos e diferentes contextos, é necessário refletir nesse aspecto, entre produção e necessário. Ou então como diz Sffener (2002) “estaremos criando consumidores de camisinha e não cidadãos educados que tenham autonomia em decidir sobre saúde sexual”. 52 REFERÊNCIAS ARAÚJO, Ludgleydson; SALDANHA, Ana. A Aids na Terceira Idade na Perspectiva dos Idosos, Cuidadores e Profissionais de Saúde, 2006. Disponível em:<http://www.aidscongress.net/article.php?id_comunicacao=294>. Acesso em: 11 de agosto de 2011. 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