CAPÍTULO 2 – ANDAMENTO DO PROJETO BÁSICO AMBIENTAL DO COMPONENTE INDÍGENA Anexo 9.1 - 1 – Mapeamento da Educação Escolar Indígena no Médio Xingu ANEXO 1 MINISTÉRIO DA JUSTIÇA FUNDAÇÃO NACIONAL DO ÍNDIO COORDENAÇÃO REGIONAL DE BELÉM Mapeamento da Educação Escolar Indígena no Médio Xingu Relatório Final (Ano 2011) Altamira – Pará Março de 2012 MINISTÉRIO DA JUSTIÇA FUNDAÇÃO NACIONAL DO ÍNDIO COORDENAÇÃO REGIONAL DE BELÉM Apresentação O presente relatório apresenta os resultados gerais do Mapeamento da Educação Escolar Indígena no Médio Xingu, realizado pela Coordenação Regional de Belém (CRBEL) da Fundação Nacional do Índio (FUNAI), em parceria com a Secretaria de Educação da Prefeitura Municipal de Altamira (SEMED/Altamira), e com o apoio da Norte Energia S.A., nos meses de outubro e novembro de 2011. O objetivo da ação foi traçar um panorama da situação da educação escolar nas aldeias da região, a fim de coletar as informações necessárias à formulação de políticas públicas voltadas à melhoria e ao aperfeiçoamento da educação escolar indígena no Médio Xingu. A região do Médio Xingu compreende 13 terras indígenas: Paquiçamba, Arara da Volta Grande do Xingu, Juruna do KM 17, Trincheira Bacajá, Koatinemo, Araweté Igarapé Ipixuna, Apyterewa, Arara, Cachoeira Seca, Kararaô, Xipaya, Kuruaya, e ItunaItatá, sendo esta última uma área interditada para estudo de referências sobre a presença de povos indígenas isolados, isto é, sem contato com a sociedade brasileira. Nas demais terras indígenas, habitam nove povos: Juruna, Xipaya, Kuruaya, Arara, Kayapó, Xikrin, Assurini, Araweté e Parakanã, muito diversas entre si e com diferentes histórias de contato – algumas etnias (como Arara, Araweté e Parakanã) podem ser considerados povos de recente contato, enquanto outras (como Juruna, Xipaya e Kuruaya) possuem séculos de interação com a sociedade envolvente. As 34 aldeias,1 hoje, existentes situam-se ao longo dos rios Xingu, Iriri e Bacajá, com exceção da aldeia Boa Vista (TI Juruna no KM 17), que se localiza nas margens da rodovia PA 415, que liga Altamira à Vitória do Xingu. Embora as terras indígenas da região abranjam os territórios de nove municípios – Altamira, Senador José Porfírio, Vitória do Xingu, São Félix do Xingu, Anapu, Placas, Uruará, Brasil Novo e Medicilândia – a Secretaria de Educação do Município de Altamira mantém quase todas 1 No momento da realização do mapeamento, contavam-se 32 aldeias. A aldeia Arara, TI Arara, subdividiu-se, posteriormente, em três aldeias, sendo, portanto, hoje, 34 aldeias. MINISTÉRIO DA JUSTIÇA FUNDAÇÃO NACIONAL DO ÍNDIO COORDENAÇÃO REGIONAL DE BELÉM as escolas existentes, com exceção de uma: a da aldeia Terrã-Wangã, sob responsabilidade da Secretaria de Educação do Município de Senador José Porfírio.2 No quadro abaixo, é possível ter uma visão geral das escolas e aldeias do Médio Xingu, divididas por grupos (a primeira não pertence a nenhum grupo, as demais são repartidas em quatro grupos: Volta Grande do Xingu, Bacajá, Xingu e Iriri): Quadro 1. Terras indígenas, aldeias e escolas indígenas do Médio Xingu. Aldeia Terra Indígena Povo Indígena Boa Vista Paquiçamba Muratu Terrã-Wangã Juruna do KM 17 Paquiçamba Paquiçamba Arara da Volta Grande do Xingu Trincheira Bacajá Trincheira Bacajá Trincheira Bacajá Trincheira Bacajá Trincheira Bacajá Trincheira Bacajá Trincheira Bacajá Trincheira Bacajá Koatinemo Koatinemo Araweté Ig. Ipixuna Araweté Ig. Ipixuna Araweté Ig. Ipixuna Araweté Ig. Ipixuna Araweté Ig. Ipixuna Araweté Ig. Ipixuna Apyterewa Apyterewa Apyterewa Apyterewa Kararaô Arara Cachoeira Seca Cachoeira Seca Xipaya Xipaya Kuruaya Kuruaya Total de Aldeias: 32 Juruna Juruna Juruna Arara Pyakayaká Krãeh Kenkudjô Potikrô Kamot-krô Pytakó Bakajá Mrotidjãm Koatinemo Itaaka Aradití Djuruantí Ipixuna Pakanã Paratatim Taakati Apyterewa Xingu Kwaraya-pya Paranopiona Kararaô Arara Iriri Cojubim Tukamã Tukaya Curuá/Cajueiro Irinapane 2 Xikrin/Kayapó Xikrin Xikrin Xikrin Xikrin Xikrin Xikrin Xikrin Assurini Assurini Araweté Araweté Araweté Araweté Araweté Araweté Parakanã Parakanã Parakanã Parakanã Kayapó Arara Arara Xipaya Xipaya Xipaya Kuruaya Kuruaya Escola Município responsável Sim, desativada Vitória do Xingu Sim Altamira Sim Altamira Sim Senador José Porfírio Sim Altamira Não Não Sim Altamira Não Sim Altamira Sim Altamira Sim Altamira Sim Altamira Não Sim Altamira Sim Altamira Sim Altamira Sim Altamira Sim Altamira Não Sim Altamira Sim Altamira Não Não Sim Altamira Sim Altamira Sim Altamira Sim Altamira Sim Altamira Sim Altamira Sim Altamira Não Total de escolas: 23 A escola da Aldeia Boa Vista, localizada na TI Juruna do KM 17, era de responsabilidade do município de Vitória do Xingu, mas está desativada. MINISTÉRIO DA JUSTIÇA FUNDAÇÃO NACIONAL DO ÍNDIO COORDENAÇÃO REGIONAL DE BELÉM Para mapear a situação da educação escolar na região, formaram-se três equipes interinstitucionais, com servidores e funcionários da FUNAI e da SEMED/Altamira, que se deslocaram para cada um dos rios do Médio Xingu: (1) a primeira equipe, formada por Tatiana Botelho (FUNAI) e Gilson Curuaia (SEMED), mapeou as escolas do Rio Bacajá; (2) a segunda equipe, composta por Moahra Fagundes (FUNAI) e Aloíza Karajá (SEMED) trabalhou no Rio Xingu; e (3) a terceira equipe, formada por Liliane Chipaya (FUNAI) e Cecília Batista (SEMED), trataram das escolas do Rio Iriri e da Volta Grande do Xingu. O mapeamento na aldeia Boa Vista foi feito em conjunto, pelas três equipes, no dia 10.10.2011, como piloto da ação, a fim de afinar a metodologia de trabalho com toda a equipe. Em relação à metodologia de trabalho, o ponto de partida do Mapeamento foram reuniões realizadas com as comunidades indígenas, envolvendo não apenas os adultos, como também as crianças, nas quais se trabalhou, por meio de conversas e desenhos, a relação das comunidades com as escolas indígenas; o significado da escola para cada comunidade; as dificuldades, as expectativas e as demandas dos povos indígenas em relação à educação escolar, entre outros temas. Ademais, foram realizadas conversas com lideranças indígenas e professores não indígenas. Tais atividades, aliadas à observação das equipes, permitiu coletar um grande número de informações, sendo algumas sistematizadas por meio do preenchimento de formulários-padrão do Ministério da Educação (MEC), referentes aos recursos humanos e materiais das escolas, os quais servirão de base para a formulação do Plano de Ação do Território Etnoeducacional do Médio Xingu, que será pactuado no primeiro semestre de 2012. Discussão dos resultados O objetivo principal da ação foi mapear a situação da educação escolar no Médio Xingu, oferecendo tanto um diagnóstico em relação à estrutura física das escolas, aos recursos materiais disponíveis, e aos recursos humanos das escolas, como também, as expectativas e as demandas das comunidades indígenas da região em relação à educação escolar. MINISTÉRIO DA JUSTIÇA FUNDAÇÃO NACIONAL DO ÍNDIO COORDENAÇÃO REGIONAL DE BELÉM O objetivo foi alcançado, uma vez que, a partir deste trabalho, foi possível conseguir informações atualizadas sobre: a estrutura física das escolas; a merenda escolar oferecida; os equipamentos, mobiliários e materiais didáticos disponíveis; a existência de professores indígenas ou somente não indígenas, bem como a sua formação; a presença ou não de outros profissionais nas escolas indígenas; e a oferta de ensino. Além disso, se obteve a demanda das comunidades em relação a cada um desses pontos. Como dito, tais informações foram sistematizadas nos formulários-padrão do MEC, que seguem anexos a este relatório. Em primeiro lugar, é preciso ressaltar que, das 32 aldeias existentes, apenas 23 possuem escolas em atividade. Com exceção da escola da Aldeia Boa Vista, da TI Juruna do KM 17, que foi desativada, segundo a Secretaria de Educação de Vitória do Xingu, em razão da inexistência de demanda, as outras oito aldeias foram formadas recentemente, no ano de 2011, por meio da subdivisão de aldeias maiores, e é este o motivo apresentado pela SEMED/Altamira para a ausência de escolas em funcionamento nestas aldeias. Em relação à estrutura física das escolas, destaca-se a necessidade de reformas profundas ou construção de novas escolas em todas as aldeias, pois quase a totalidade dos prédios onde hoje funcionam as escolas forma improvisados pelas comunidades ou adquiridos por meio de doação, o que faz com que a estrutura física das mesmas seja inadequada ou inferior à demanda das comunidades, quanto à quantidade de salas de aula. As escolas não possuem gerador de energia próprio, utilizando-se o gerador da comunidade e o combustível disponível não é suficiente para as aulas noturnas. Ademais, grande parte das escolas não possui sistema de abastecimento de água, o que, na verdade, é consequência da ausência de saneamento em muitas aldeias, que não possuem sequer poço artesiano. Em relação à merenda escolar, além desta não ser em quantidade suficiente em muitas aldeias, a totalidade da merenda nas aldeias é comprada na cidade, industrializada, sendo demandado pelas comunidades que parte da merenda seja comprada nas próprias aldeias indígenas, como forma de melhorar a alimentação e gerar renda para as comunidades. MINISTÉRIO DA JUSTIÇA FUNDAÇÃO NACIONAL DO ÍNDIO COORDENAÇÃO REGIONAL DE BELÉM Quanto ao mobiliário, é em quantidade muito inferior às necessidades das escolas, necessitando-se da aquisição de muitas carteiras, estantes, quadros, entre outros itens. Os equipamentos multimídias (televisão, DVD, datashow, câmera) são praticamente inexistentes, sendo que algumas escolas possuem, apenas, televisor. Algumas escolas possuem computadores adquiridos recentemente; contudo, em muitas delas, estes não foram instalados pela ausência de mobiliário e espaço físico adequado. No que se refere ao material didático, nota-se, com rara exceção, a ausência de materiais produzidos pelas comunidades indígenas, e de materiais audiovisuais indígenas ou não indígenas. O único material didático disponível em quase todas as aldeias são os livros didáticos enviados pelo MEC, que não são adequados à realidade das aldeias, o que faz com que muitos professores tentem criar algum material didático para lecionarem. Quanto aos recursos humanos das escolas indígenas do Médio Xingu, não há professores indígenas contratados pelas Secretarias de Educação, havendo, em algumas delas, apenas um estudante de Magistério Indígena que atua como “monitor”, não se responsabilizando efetivamente pela sala de aula, e prestando apenas auxílio ao professor não indígena (no preparo da merenda, na limpeza da escola, e na tradução para a língua materna indígena). Na maioria das aldeias, existe apenas o professor não indígena, que não conta com o auxílio de nenhum outro profissional (indígena ou não indígena), e que executa todas as atividades necessárias ao funcionamento da escola, incluindo a limpeza, o preparo da merenda, o planejamento de aula e a produção de material didático complementar (quando este é produzido). Uma das principais dificuldades e demandas das comunidades indígenas da região se refere à oferta do segundo ciclo do ensino fundamental (6º ao 9º ano), que, até o momento, é inexistente em todas as aldeias do Médio Xingu. Ao término do 5º ano, os indígenas são obrigados a interromper os estudos, o que têm obrigado alguns adultos a se deslocarem à cidade de Altamira para concluir o ensino fundamental e o ensino médio, ou a levarem seus filhos para a cidade, com este propósito. A oferta de Ensino de Jovens e Adultos em algumas aldeias tem atendido parte da demanda, mas é insuficiente, considerando a enorme quantidade de crianças e adolescentes que MINISTÉRIO DA JUSTIÇA FUNDAÇÃO NACIONAL DO ÍNDIO COORDENAÇÃO REGIONAL DE BELÉM interromperam os estudos no 5º ano. Ademais, muitos indígenas optaram por cursar o Magistério Indígena para concluírem os estudos, apesar de não pretenderem se professores. Considerações finais O Mapeamento da Educação Escolar Indígena no Médio Xingu pode ser considerado uma etapa preparatória para o I Encontro de Educação Escolar Indígena do Médio Xingu, ocorrido entre os dias 28 de novembro e 02 de dezembro de 2011, no qual se discutiu experiências de educação escolar indígena e foi realizada a consulta sobre os territórios etnoeducacionais com os povos do Médio Xingu. Tanto o Mapeamento da Educação Escolar Indígena no Médio Xingu como o I Encontro de Educação Escolar Indígena do Médio Xingu devem ser compreendidos como momentos iniciais de reflexão e problematização, pelas comunidades indígenas, da escola que se tem e da escola que se deseja ter. Embora, num primeiro momento, as escolas estivessem sendo pensadas, prioritariamente, como um espaço do “branco”, onde se aprendem coisas do “branco”, e as demandas dos povos indígenas da região estivessem centradas em estrutura física e oferta de ensino, as discussões surgidas tanto no Mapeamento como no Encontro – em relação à necessidade de professores indígenas e de materiais didáticos próprios – levam a outras formas de pensar a (e de se apropriar da) escola indígena, o que, no entanto, ainda exige amadurecimento, com muitos debates e reflexões coletivos. As informações obtidas por meio do Mapeamento servirão como subsídio para formulação do Plano de Ação do Território Etnoeducacional do Médio Xingu, cuja pactuação está prevista para o primeiro semestre de 2012. A pactuação do TEE Médio Xingu deverá dar início a um novo modelo de gestão da educação escolar indígena, pautada no reconhecimento da territorialidade dos povos indígenas, em suas tradições e formas de vida, portanto, uma educação escolar intercultural, diferenciada, adaptada às necessidades e expectativas das comunidades indígenas. MINISTÉRIO DA JUSTIÇA FUNDAÇÃO NACIONAL DO ÍNDIO COORDENAÇÃO REGIONAL DE BELÉM _______________________________________ ESTELLA LIBARDI DE SOUZA Assistente Técnica – CRBEL/FUNAI _______________________________________ TATIANA DE ALMEIDA BOTELHO Indigenista Especializada – CRBEL/FUNAI _______________________________________ MOAHRA FAGUNDES Agente em Indigenismo – CRBEL/FUNAI _______________________________________ LILIANE DA CUNHA CHIPAIA Assistente Administrativa – CRBEL/FUNAI