VIII Encontro de Iniciação Científica do LFS 03-04 maio de 2007, 20-25 Modelagem Matemática de Laminação a frio de alumínioEfeito do coeficiente de atrito sobre o Estado de Tensões F. A. Fabozzi, R. M. Souza, A. Sinatora Laboratório de Fenômenos de Superfície – LFS, Departamento de Engenharia Mecânica, Escola Politécnica, Universidade de São Paulo – USP E-mail para contato: [email protected] Resumo Este trabalho estudou o efeito do coeficiente de atrito, entre cilindro de trabalho e chapa em processo de laminação a frio, nas tensões que agem nos dois elementos por meio de modelamento matemático em software Abaqus. Foram feitas desconsiderações quanto à camada de óxido, geração de calor, encruamento do cilindro e não uniformidade do coeficiente de atrito ao longo do arco de contato. Foram realizados ensaios em 3D e em 2D, mudando-se apenas os coeficientes de atrito, mostrando as diferenças nos estados de tensões da chapa e do cilindro. Palavras-chave: Simulação, Laminação, tensões, coeficiente de atrito. Resumen Este trabajo estudió el efecto del coeficiente de fricción, entre cilindro de trabajo y chapa en un proceso de laminación en frio, en las tensiones que actúan en ambos elementos por intermedio de modelamiento matemático en el software Abaqus. Factores como las capas de óxidos, generación de calor, endurecimiento por deformación del cilindro y falta de uniformidad del coeficiente de fricción en todo el arco de contacto no fueron considerados en el modelamiento. Fueron realizadas simulaciones en 3D y en 2D, cambiando solo los coeficientes de fricción, mostrando las diferencias en los estados de tensiones tanto en la chapa y en el cilindro. Palabras clave: Simulación, laminación, tensiones, coeficiente de fricción. 1. INTRODUÇÃO Laminação é um processo de conformação mecânica onde um material de interesse é conduzido entre dois ou mais cilindros que introduzem tensões compressivas e cisalhantes, a fim de modificar a seção transversal obtendo formas como chapa, barra, tira ou outros. Um dos setores mais críticos da cadeia produtiva de uma siderúrgica é o da laminação, já que os equipamentos têm custo elevado e qualquer interrupção no seu funcionamento pode significar perdas de faturamento. Neste sentido os cilindros de laminação não podem falhar subitamente uma vez que interrompem a produção. Os motivos de falha de cilindros podem ser diversos, incluindo desgaste, fadiga e quebras devidas a falhas de processo e defeitos no material. Os resultados destas falhas são muitas vezes cilindros inutilizados e produto perdido. F. A. Fabozzi et al. / VIII Encontro de Iniciação Científica do LFS, 20-25 21 Modelos matemáticos de laminação por elementos finitos são desenvolvidos com diversos propósitos, como dimensionamento e otimização de máquinas e equipamentos, controle e melhoria de variáveis de processo e da qualidade do produto. A longo prazo, visa-se incorporar o método de elementos finitos no ambiente on-line do processo automatizado de laminação, a fim de se fazerem modificações rápidas e eficientes no processo. O coeficiente de atrito entre cilindro e chapa desempenha uma função muito importante na laminação, modificando o ponto neutro do arco de contato, sendo responsável pela magnitude das tensões cisalhantes que geram maior deformação superficial e modificam propriedades da chapa. O coeficiente de atrito tem ainda participação significativa no desgaste do cilindro. Se o coeficiente de atrito for muito baixo, pode haver escorregamento do laminado no cilindro, estragando tanto o produto como o cilindro, e pode não ocorrer a “mordida” do laminado pelos cilindros na entrada de chapa. Se esse coeficiente for muito alto, pode introduzir no sistema tensões acima do limite dos equipamentos e causar deformações excessivas na superfície da chapa. Caso o coeficiente de atrito varie pode ocorrer stic slip. Uma fórmula que correlaciona o coeficiente de atrito com a força de laminação necessária é a de Ekelund, sem correção para a deformação do raio do cilindro. (1) P representa a força de laminação, R o raio do cilindro, w a largura do laminado, h1 e h2 são as espessuras inicial e final. O último termo representa a tensão de escoamento do material com correção para diferentes temperaturas, sendo J e ε propriedades do material em função da temperatura. Nesta equação vemos que o coeficiente de atrito µ age aumentando a carga de laminação, para uma mesma redução. Ekelund ainda considera que µ=0,848-0,000222T para laminação de aço, sendo T a temperatura em graus Fahrenheit. O coeficiente de atrito na laminação pode ser modificado por parâmetros como tipo e intensidade de lubrificação, estado da superfície do cilindro, temperatura de processo, quantidade e tipos de óxido na superfície da chapa, entre outros. Os parágrafos acima são o mote deste trabalho, em uma tentativa de contribuir com o entendimento do desgaste dos cilindros de laminação e das características finais da chapa laminada em função do coeficiente de atrito. Para isso será investigada a variação do estado de tensões no cilindro e na chapa por meio de modelamento em elementos finitos, buscando conhecer como e em que sentido essa variação caminha. 2. MATERIAIS E MÉTODOS As simulações foram realizadas em software de elementos finitos Abaqus, utilizando-se o método explícito. Os ensaios 2D foram realizados em modo de estado plano de deformações. Os ensaios 3D foram em modo 3DStress. Para a validação do modelo foi utilizado o artigo de Lenard et al, de 1992, 22 F. A. Fabozzi et al. / VIII Encontro de Iniciação Científica do LFS, 20-25 onde o autor fez o modelamento de laminação a frio de uma chapa de alumínio, com redução de 21,77% e fator de atrito de 0,35 (μ=0,2021) em duas dimensões. Em 2004, Cheong et. al. realizou o mesmo modelamento e obteve os mesmos resultados. Considerou-se o cilindro rígido e calcularam-se as tensões na superfície da chapa. Os resultados obtidos neste trabalho para o mesmo modelamento apresentaram discrepância dos artigos de cerca de 10% na tensão normal e menor que 3% nas outras, valores considerados suficientemente próximos dos anteriores. Com a validação em mãos, modificou-se apenas o coeficiente de atrito para 0,5 e depois para 1, analisando-se sempre as tensões na chapa. Ainda utilizando-se o mesmo modelo, aplicaram-se propriedades elásticas-plásticas de um aço com E=215 GPa e limite de escoamento de 1200 MPa, a fim de calcular-se as tensões no cilindro. O processo foi realizado novamente com os mesmos fatores de atrito e as tensões também foram calculadas na superfície da chapa. Após este processo, utilizando-se a mesma metodologia das simulações 2D, realizou-se a simulação 3D do mesmo processo. Devido ao alto custo computacional das simulações 3D, foram realizadas apenas duas análises, com o cilindro rígido e com coeficientes de atrito de 0,2021 e 1. O material laminado foi alumínio Al 1100-H14, com E=68,2 GPa e limite de escoamento dado por σ = 36,75(1+726,7ε)0,2099 MPa, onde ε é a deformação. Assim como nos artigos de Lenard e Cheong, foram realizadas simulações em metade do sistema, dada sua simetria. Portanto, utilizou-se metade da espessura da chapa, economizando tempo de simulação sem alterar os resultados. As dimensões das partes constam na Tabela 1. Tabela 1: Dimensões utilizadas Raio do Cilindro Espessura inicial da chapa Espessura final da chapa Largura do cilindro Largura da chapa 2D 0,12709 m 0,00317 m 0,00248m X X 3D 0,12709 m 0,00317 m 0,00248 m 0,1 m 0,3 m As malhas utilizadas constam na Figura 1. 3. RESULTADOS Nos resultados abaixo, S11 representa as tensões cisalhantes máximas e S22 as tensões normais máximas. 23 F. A. Fabozzi et al. / VIII Encontro de Iniciação Científica do LFS, 20-25 a) Figura 1: Malhas de a) 2D; b) 3D. b) 3.1 Simulações 2D: Cilindro rígido Nas simulações em 2D com o cilindro rígido, fez-se a análise das tensões máximas na chapa, obtendo-se os resultados mostrados na Figura 2. 300 250 Tensões (MPa) 200 Von Mises 150 S11 S22 100 50 0 0.2 0.5 1 Coeficiente de atrito Figura 2: Gráfico de barras dos módulos das tensões máximas na chapa em função do coeficiente de atrito: Von Mises; S11; S22. As tensões de Von Mises permanecem constantes, independentemente da variação do coeficiente de atrito. Este resultado condiz com a teoria, uma vez que o coeficiente de atrito não faz parte das considerações do critério de Von Mises. As tensões normais e cisalhantes alteram-se de maneira não-linear, aumentando seu valor com o incremento do coeficiente de atrito. 3.2 Simulações 2D: Cilindro elástico-plástico Nas simulações em 2D com o cilindro não rígido, fez-se a análise das tensões no cilindro, obtendo-se os resultados mostrados na Figura 3. Nestas simulações a tendência das tensões continua a mesma do item 3.1, entretanto as tensões de Von Mises se modificam no cilindro. Isso ocorre por um desbalanceamento da diferença das tensões com a mudança do coeficiente de atrito, uma vez que a relação de tensões no critério de Von Mises é dada pela raiz quadrada da soma dos quadrados das diferenças das tensões nas três coordenadas. 300 Tensões (MPa) 250 200 Von Mises 150 S11 S22 100 50 0 0.2 0.5 1 Coeficiente de atrito Figura 3: Gráfico de barras dos módulos das tensões máximas no arco de contato em função do coeficiente de atrito: Von Mises; S11; S22. 24 F. A. Fabozzi et al. / VIII Encontro de Iniciação Científica do LFS, 20-25 3.3 Simulações 3D: Cilindro rígido Nas simulações em 3D com o cilindro rígido, fez-se a análise das tensões na chapa, obtendo-se os resultados mostrados na Figura 4. 250 Tensões (MPa) 200 Von Mises 150 S11 100 S22 50 0 0.2 1 Coeficiente de Atrito Figura 4: Gráfico de barras dos módulos das tensões máximas na chapa em função do coeficiente de atrito: Von Mises; S11; S22. Mais uma vez verificou-se a tendência de aumento não-linear das tensões S11 e S22 com o incremento do coeficiente de atrito. As tensões de Von Mises na chapa tem um ligeiro aumento de 5MPa, menos de 5%. Como nas mesmas simulações em 2D não houve variação nas tensões de Von Mises na chapa em função do coeficiente de atrito, e naquelas simulações foi utilizado estado plano de deformações (havendo tensões na terceira dimensão), este incremento de 5% da tensão de Von Mises pode ser considerado desprezível, como um erro computacional pontual. 3.4 Cilindro Rígido: 2D X 3D As diferenças dos resultados para as simulações em 2D e 3D constam na figura 5. 300 250 150 Von Mises 100 S11 S22 50 0 Tensões (MPa) Tensões (MPa) 200 200 Von Mises 150 S11 100 S22 50 0 3D 2D Dimensão 3D 2D Dimensão a) b) Figura 5: Gráfico de barras dos módulos das tensões máximas no arco de contato em função da dimensão da análise: a) μ=0,2021; b) μ=1 Na Figura 5 a) os valores obtidos em 2D e 3D são próximos, havendo a pequena diferença discutida no item 3.3. Na figura 5 b) há uma grande diferença nas tensões S11 e S22 em 2D e 3D, embora as tensões de Von Mises permaneçam as mesmas. Esta discrepância F. A. Fabozzi et al. / VIII Encontro de Iniciação Científica do LFS, 20-25 25 ainda não pode ser explicada e considerou-se que na simulação 3D valores de coeficiente de atrito próximos de 1 causam certa instabilidade no software. Esta diferença deve ser verificada no futuro. 4. CONCLUSÕES As tensões na chapa dadas pelo critério de Von Mises permanecem as mesmas com a variação do coeficiente de atrito. As tensões no cilindro dadas pelo critério de Von Mises aumentam com o aumento do coeficiente de atrito. O coeficiente de atrito age de modo a aumentar as tensões normais e de cisalhamento, tanto na chapa quanto no cilindro. O aumento das tensões normais e de cisalhamento em função do aumento do coeficiente de atrito mostrou-se não linear. O uso de coeficientes de atrito próximos de 1 podem provocar discrepâncias nos resultados dados pelas simulações 2D e 3D. 5. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Roy, R.; Uduguwa, V., “A review of rolling system design optimisation. Cranfield University - Reino Unido. Malinowski, Z.; Lenard, J. G.; "A Study of the state of stress during cold striprolling" – 1992 Tong, C. F. et. Al.”Simulação Numérica da laminação a frio de tiras de alumínio” - 2004 INTERNET: http://www.metalpass.com/metaldoc/paper.aspx?docID=385 Plaut, R. L. - Laminação dos aços - ABM - 1984.