O fluxo de recursos públicos para a educação superior privada no Brasil. São Paulo, 23 de setembro de 2015. Gil Vicente Reis de Figueiredo 1 O fluxo de recursos públicos para a educação superior privada no Brasil. 1. Expansão da educação superior pública [2003 em diante] REUNI (Decreto 6.096/07) Aumento substancial de recursos, por adesão, com cumprimento das metas: elevação das taxas de conclusão de curso para 90%; e elevação da relação aluno / professor para 18/1. Criação de Universidades e novos campi, com interiorização. 2003-2007: 10 Universidades [UNIFAL; UFVJM; UFTM; UFERSA; UTFPR; UFABC; UFGD; UFRB; UFCSPA; UNIPAMPA]. 2008-2012: 4 Universidades [UFFS; UFOPA, UNILA e UNILAB]. 2012-2014: 4 Universidades [UFOB; UFESBA; UNIFESSPA; UFCA]. Hoje há 63 Universidades Federais. Criação Institutos Federais (Ensino Básico,Técnico e Tecnológico]. De 1909 até 2002: 140 Campi; 2010: 354 Campi; 2014: 562 Campi. Gil Vicente Reis de Figueiredo 2 1. Expansão da educação superior pública [2003 em diante] Fonte: Dos gráficos acima e dos próximos dois gráficos e uma tabela – INEP/MEC. Gil Vicente Reis de Figueiredo 3 1. Expansão da educação superior pública [2003 em diante] Matrículas no Ensino Superior no Brasil (milhões) 1994 1995 1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013 A =Públicas B =Privadas T = A+B A/T 0,69 0,70 0,73 0,76 0,80 0,83 0,89 0,94 1,05 1,14 1,18 1,19 1,21 1,24 1,27 1,35 1,46 1,60 1,72 1,78 0,97 1,06 1,13 1,19 1,32 1,54 1,81 2,09 2,43 2,75 2,99 3,26 3,47 3,64 3,81 3,76 3,99 4,15 4,21 4,37 1,66 1,76 1,87 1,95 2,13 2,37 2,70 3,03 3,48 3,89 4,16 4,45 4,68 4,88 5,08 5,11 5,45 5,75 5,92 6,15 41,6% 39,8% 39,4% 39,0% 37,9% 35,1% 32,9% 31,0% 30,2% 29,2% 28,3% 26,8% 25,9% 25,4% 25,1% 26,4% 26,8% 27,8% 29,0% 28,9% Gil Vicente Reis de Figueiredo 4 1. Expansão da educação superior pública [2003 em diante] Gil Vicente Reis de Figueiredo 5 2. Recursos públicos para a educação privada – histórico. 1975 Ditadura Militar [1964-1985]: Programa de Crédito Educativo, que repassava diretamente para as Instituições Ensino Superior privadas. recursos 1992 Presidente Fernando Collor [1990-1992]: Através da Lei 8436, foi reformulado o Programa anterior, que passou a se chamar Programa de Crédito Educativo para estudantes carentes, CREDUC. Cobertura: 50% a 100% dos encargos. Inadimplência altíssima – em torno de 85%. 3. O programa de financiamento estudantil - FIES. 1999 Presidente Fernando Henrique Cardoso [1995-2002]: Criado, pela Medida Provisória 1827, transformada na Lei 10.260/2001, o Fundo de Financiamento ao Estudante de Ensino Superior – FIES, para financiar com recursos públicos a educação superior para estudantes matriculados em instituições não gratuitas (e logo, não estatais; no Brasil, estatal = gratuita). Gil Vicente Reis de Figueiredo 6 3. O programa de financiamento estudantil - FIES. 2003 Lula [2003-2010] e 2011 Dilma [2011-] Mantêm o programa e fazem, ao longo dos anos, modificações diversas: 2008 Bolsa parcial PROUNI: aluno pode custear o restante c/o FIES. 2009 Criado e regulamentado (2010 e 2011) o Fundo de Garantia de Operações de Crédito Educativo (FGEDUC), que destinava R$4bilhões para cobrir 80% de eventual inadimplência no FIES (mantenedoras arcavam com 7%). Em 2012 o FGEDUC passou a cobrir 90% (mantenedoras com percentual menor ainda). 2010 Redutor da dívida por trabalho: licenciados (docentes da rede pública) / médicos (Programa Saúde da Família) – 1% ao mês. Gil Vicente Reis de Figueiredo 7 3. O programa de financiamento estudantil - FIES. 2010 Alterada a taxa de juros do financiamento, que era de 6,5% à exceção de cursos prioritários (licenciatura, cursos superiores em tecnologia, medicina, engenharia e geologia), quando era aplicado o índice de 3,5%. A nova taxa passou a ser 3,4% para todos os cursos. 2012 Alterada carência para início pagamento empréstimo – de 6 para 18 meses e estendido o prazo de pagamento de 2 vezes o período financiado, mais 1 ano, para 3 vezes, mais 1 ano. 2012 Facilitado o acesso ao programa (antes não bolsista do PROUNI só ganhava FIES até 75%, para curso prioritário, e até 50% para os demais), da seguinte forma: a) b) c) Renda familiar igual ou menor a 10 Salários Mínimos (SM), financiamento de até 100%, se o comprometimento dessa renda for superior a 60%; até 75% para comprometimento 40%-60%; até 50% para comprometimento 20%-40%; renda 10-15 SM – até 75%, com comprometimento superior a 40%; até 50% financiamento com comprometimento 20%-40%; e Renda 15-20 SM, até 50%, com comprometimento superior a 20%. Gil Vicente Reis de Figueiredo 8 3. O programa de financiamento estudantil - FIES. 2013 Retirada exigência de ‘idoneidade cadastral’ do estudante. Dispensa de fiador c/opção pela garantia do FGEDUC em caso de: curso prioritário, renda até 1,5 SM, bolsista parcial do PROUNI. 2014 Ampliada abrangência para alunos de mestrado acadêmico e profissional e doutorado – credenciamento de mantenedoras com cursos recomendados pela CAPES. 2014 No final do ano (por conta já do ‘ajuste fiscal’ de 2015): Portaria 21, para solicitar, 450 pontos Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) e não zerar na redação. Portaria 23, depósito de 8 parcelas anuais, uma a cada 45 dias. 2015 Limitação da quantidade de financiamentos. Prioridades: cursos com nota 4 ou 5; áreas de interesse (como formação de professores, engenheiros, saúde) ou regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste. 2015 Segundo semestre: acesso só com renda familiar até 2,5 SM. Gil Vicente Reis de Figueiredo 9 3.1 Informações sobre o FIES – contratos novos. Elevação vertiginosa do número de contratos firmados, entre 2010 e 2014. Forte redução em 2015, por conta da crise e do ‘ajuste fiscal’. Contratos novos 2010 76.165 2011 154.350 2012 377.779 2013 559.907 2014 732.124 2015 313.942 2016* 310.000 * Projeção Fonte: FNDE, Prestações de contas ordinárias, SESu/MEC. Gil Vicente Reis de Figueiredo 10 3.2 Informações sobre o FIES – execução financeira. (Em milhões de reais) Elevação igualmente vertiginosa da execução financeira, entre 2010 e 2014. Forte redução em 2015, por conta da crise e do ‘ajuste fiscal’. 2010 810 2011 1.840 2012 4.480 2013 7.570 2014 13.750 2015* 12.417 2016** 21.233 * Já anunciado. ** Projetado. Fonte: MEC Gil Vicente Reis de Figueiredo 11 3.3 Informações sobre o FIES: Comparação Recursos do FIES / Orçamento das IFES. (Em percentual) Fonte: MEC Gil Vicente Reis de Figueiredo 12 3.4 Dados sobre quatro empresas educacionais brasileiras de capital aberto: Kroton, Estácio, Ser e Anima. Os dados que apresentaremos a seguir mostram o seguinte: As receitas dessas empresas triplicaram de 2010 a 2014. Em torno de 50% dessas receitas vieram do FIES. A estratégia das empresas foi elevar o percentual de alunos com contratos FIES – de 6%, em 2010, para mais de 40%, em 2014. O lucro subiu extraordinariamente a partir de 2010, atingindo, em 2014, R$ 1,789 bilhões, ou 23,3% da receita. Esse movimento foi acompanhado de redução drástica do peso da folha de pessoal docente frente à receita. A titulação do corpo docente das IES privadas pouco variou nos últimos 10 anos – desinteresse em investir em mão de obra mais cara. O maciço investimento de recursos no FIES não resultou em crescimento expressivo de matrículas privadas: entre 2002 e 2010, a taxa de crescimento anual das matrículas foi de 5,7%, e entre 2010 e 2013 (último ano com informações disponíveis), de 3,1%. Gil Vicente Reis de Figueiredo 13 3.4 Dados sobre quatro empresas educacionais brasileiras de capital aberto: Kroton, Estácio, Ser e Anima. Os valores abaixo correspondem, anualmente, entre 2010 e 2014, à soma das receitas das quatro empresas em estudo (em R$ bilhões). 2010 2,60 2011 2,95 2013 4,05 2013 5,10 2014 7,70 Fonte dos dados (à esquerda): Oscar Malvessi Consultoria. Publicado no Estado de SP, em 28 julho 2015. Gil Vicente Reis de Figueiredo 14 3.4 Dados sobre quatro empresas educacionais brasileiras de capital aberto: Kroton, Estácio, Ser e Anima. Participação percentual do FIES nas receitas das empresas em estudo: Alunos com contrato FIES Kroton Anima Estácio Ser Média 2010 9,5% 3,5% 8,0% 3,0% 6,0% 2011 19,0% 8,0% 18,0% 7,0% 13,0% 2012 35,5% 19,0% 30,0% 28,0% 28,1% 2013 43,5% 29,0% 40,0% 32,0% 36,1% 2014 59,0% 39,0% 46,0% 19,0% 40,8% Fonte dos dados (à esquerda): Oscar Malvessi Consultoria. Publicado no Estado de SP, em 28 julho 2015. Gil Vicente Reis de Figueiredo 15 3.4 Dados sobre quatro empresas educacionais brasileiras de capital aberto: Kroton, Estácio, Ser e Anima. Lucro líquido das empresas educacionais brasileiras com capital aberto, no ano de 2014, em bilhões de reais: Kroton 1,001 Estácio 0,426 Ser 0,214 Anima 0,148 Soma: 1,789 Fonte: Dados divulgados pelas empresas. Gil Vicente Reis de Figueiredo 16 3.4 Dados sobre quatro empresas educacionais brasileiras de capital aberto: Kroton, Estácio, Ser e Anima. Gastos com a folha de professores das empresas educacionais brasileiras com capital aberto, como percentual da receita: Gastos com professores / receita. Kroton Anima Estácio Ser Média 2010 52% 52% 49% 26% 45% 2011 48% 50% 48% 28% 44% 2012 39% 42% 45% 25% 38% 2013 33% 44% 43% 26% 36% 2014 29% 41% 42% 26% 35% Fonte dos dados (à esquerda): Oscar Malvessi Consultoria. Publicado no Estado de SP, 28 julho 2015. Gil Vicente Reis de Figueiredo 17 Dados sobre a evolução da titulação acadêmica dos docentes do setor privado: 2003 – 2013. Fonte: INEP / MEC. Gil Vicente Reis de Figueiredo 18 3.4 Dados sobre quatro empresas do setor educacional: desempenho de suas ações na Bovespa – Kroton. Gil Vicente Reis de Figueiredo 19 3.4 Dados sobre quatro empresas do setor educacional: desempenho de suas ações na Bovespa – Estácio. Gil Vicente Reis de Figueiredo 20 3.4 Dados sobre quatro empresas do setor educacional: desempenho de suas ações na Bovespa – Ser Educacional. Gil Vicente Reis de Figueiredo 21 3.4 Dados sobre quatro empresas do setor educacional: desempenho de suas ações na Bovespa – Anima. Gil Vicente Reis de Figueiredo 22 3.4 Dados sobre quatro empresas do setor educacional: desempenho de suas ações na Bovespa. Gráficos Kroton/Estácio começam em fins/2007: lançamento papéis. Preços caem até início 2009 – crise mercado financeiro. A partir de meados 2011, embalados pelas medidas que facilitaram a ampliação dos recursos FIES, sobem fortemente. É possível identificar nos gráficos efeitos da medidas anunciadas. Ações da Kroton vão de R$ 2,00 em agosto de 2011 até R$ 18,00 em novembro de 2014 – mais de 800% em 3 anos. Com anúncio de medidas restritivas, em dez/14, 2015 marca forte declínio – ações da Kroton caem de R$ 18,00 para R$ 9,00, preço atual (agosto de 2015), mantendo ainda assim ganho de 350% sobre 4 anos atrás. Gráficos Ser/Anima começam em fins/2013: lançamento papéis. Após fortes altas de 2014, amargam pesadas perdas após janeiro de 2015, acompanhando a Kroton e a Estácio, por conta das restrições aos contratos FIES. Estão hoje (ago/15) abaixo do preço de lançamento.. Gil Vicente Reis de Figueiredo 23 4 O programa de bolsas PROUNI. O Programa Universidade para Todos, PROUNI, foi lançado pelo governo Lula, em 2004, tendo como objetivo concessão de bolsas de estudo integrais ou parciais em cursos de graduação em instituições privadas – as quais recebem, em contrapartida, isenção de impostos federais. O PROUNI, portanto, não representa gastos orçamentários diretos para o MEC,. Os valores repassados indiretamente para as mantenedoras privadas são expressivos e têm aumentado bastante, mas não da forma exponencial ocorrida com o FIES. Gil Vicente Reis de Figueiredo 24 4.1 Evolução das bolsas concedidas pelo PROUNI. Ano Bolsas 2005 112.275 2006 138.668 2007 163.854 2008 225.005 2009 247.643 2010 241.273 2011 254.598 2012 284.622 2013 252.374 2014 306.726 Fonte: MEC – A democratização e expansão da educação superior no país 2003 – 2014. Gil Vicente Reis de Figueiredo 25 4.2 Recursos aportados indiretamente pelo PROIUNI. (em R$ milhões) Ano Recursos PROUNI 2005 170 2006 210 2007 350 2008 430 2009 520 2010 570 2011 460 2012 500 2013 740 2014 890 Fonte: MEC – A democratização e expansão da educação superior no país 2003 – 2014. Gil Vicente Reis de Figueiredo 26 5. Conclusão. Os recursos públicos repassados ao setor da educação privada no Brasil vem crescente de forma exponencial, desde 2010 e as perspectivas já são de que, em 2016, cheguem a 60% do montante destinado a todas as universidades e institutos federais. Esse fato, além de inaceitável politicamente, não tem gerado sequer um crescimento importante de matrículas no setor privado e, portanto, não tem contribuído para aumentar o acesso dos jovens ao ensino superior. Ao contrário, o Programa FIES se transformou, entre 2010 e 2014, numa fonte de lucro sem precedentes para o ensino superior privado, levando a lucros da ordem de 800% para os acionistas das empresas do setor educacional com capital aberto. Gil Vicente Reis de Figueiredo 27 5. Conclusão. Não há controle adequado de qualidade sobre o ensino superior privado, que tem em seus quadros um pequeno percentual de professores com titulação, não lhes proporciona carreiras atrativas e nem condições de trabalho dignas, ao mesmo tempo em que vem reduzindo de forma significativa sua folha de pagamento, frente às crescentes receitas obtidas. Essa situação precisa ser revertida imediatamente, com: A redução do ritmo de crescimento dos repasses ao setor privado; O estabelecimento de mecanismos de controle sobre esse setor; e A retomada de aporte crescente de mais recursos ao ensino superior federal, de forma a dar continuidade, com qualidade, ao anterior programa de expansão de Universidades e Institutos Federais públicos e gratuitos. Gil Vicente Reis de Figueiredo 28