NA MARGEM DA CIDADE ESTIGMAS E REINVENÇÕES DA VIDA URBANA CONTEMPORÂNEA João Felipe Pereira Brito PPGSA – IFCS / UFRJ [email protected] Introdução Este artigo tem o intuito de discutir questões levantadas durante as aulas do curso Desenvolvimento, Trabalho e Ambiente (PPGSA-UFRJ), ministrado pelos professores Neide Esterci, Horácio Sant’Ana e José Ricardo Ramalho. A partir do trabalho de campo, das leituras e reflexões que venho fazendo ao longo de minha pesquisa para dissertação de mestrado, pretendo criar um nexo com alguns autores presentes na bibliografia do curso citado e desenvolver uma argumentação bem sustentada sobre meus estudos. Sendo a cidade do Rio de Janeiro, seus dilemas e particularidades, meu objeto de maior interesse e um de seus bairros mais pobres minha área de trabalho de campo, pretendo discutir a vida urbana contemporânea, suas condições, suas possibilidades e suas desigualdades. Analisando o subúrbio, quero pensar a metrópole; analisando a periferia do Rio, quero pensar as cidades periféricas do capitalismo mundial; analisando os lugares, quero pensar nas pessoas e suas relações. O trabalho que aqui segue é também uma tentativa de tornar mais inteligível o conjunto de informações que já acumulei para minha dissertação ao longo de quase dois anos de pesquisa. Portanto, evitei ao máximo utilizar autores que não foram discutidos ao longo do curso. Daqueles que fiz uso, posso dizer que o fiz não por serem os mais expoentes sobre o tema ou os mais úteis a minhas reflexões, mas porque foram, neste caso, essenciais para certas referências e afirmações que defendo ao longo do texto e que, de outra forma, careceriam de uma base teórica de sustentação e compreensão. Fiz questão de utilizar notícias de jornais, revistas e internet para que se demonstrasse a atualidade e o alcance do debate. Ademais, não há trechos de minhas entrevistas pois estas ainda não foram transcritas – possuo, neste momento, apenas o áudio e as anotações que faço no campo. Caso algumas das descrições sobre o lugar e sobre o pensamento das pessoas analisadas careçam de compreensão, creio que a exposição deste trabalho (com imagens) no seu devido Grupo de Trabalho (GT) no CONLAB possibilitará maiores esclarecimentos – inclusive por conta do acréscimo de tempo para a pesquisa, indispensável para seu aprofundamento. O Lugar O recém criado bairro Gericinó – outrora parte do tradicional bairro suburbano de Bangu, na zona oeste do Rio de Janeiro - é o único bairro deste país que possui um complexo penitenciário (de alta segurança) e um aterro sanitário (para os moradores do local, o Lixão), ou seja, um lugar onde se aloca aquilo que é socialmente rejeitado, pessoas e materiais. Criado por um projeto de lei procedente do poder executivo no ano de 2004, Gericinó concentra, entre outras coisas, 17 unidades prisionais (14 presídios e 3 hospitais penitenciários), com mais da metade da população carcerária do estado. Além destes, encontram-se ainda no novo bairro a sede do 14º Batalhão da Polícia Militar, responsável pelo policiamento da região de Bangu e seus arredores, parte da Serra de Gericinó (que faz parte da Área de Proteção Ambiental Mendanha-Gericinó) com seu campo de treinamento do Exército e um aterro sanitário (Centro de Tratamento de Resíduos de Gericinó / CTRG). Conversando com alguns moradores locais que têm conhecimento sobre a mudança de nome do lugar, me foi dito, de diferentes maneiras, que Gericinó foi criado para que se retirasse de Bangu aquilo que mais lhe estigmatizava: os presídios e o aterro sanitário. Na palavra de um dos moradores, Gericinó ficou com a “banda podre de Bangu”. Esta percepção sobre o fato também aparece em notícias veiculadas na imprensa durante o período da criação do bairro, como esta do Jornal do Brasil: “(...) Um novo bairro, para separar de Bangu a sua pior parte: os presídios. Para isso, o prefeito César Maia assinou ontem a lei que cria o bairro de Gericinó, na Zona Oeste. A medida atende a uma antiga reivindicação de moradores do bairro, preocupados com o estigma da associação de Bangu com o complexo penitenciário da região.” 1 O jornal O Dia também fez referência aos estigmas do lugar: “(..) A reivindicação dos banguenses é antiga em função do constrangimento de morar num bairro visto pelo resto da cidade com uma imagem de violência – além da vizinhança com um lixão e o Centro de Treinamento de Gericinó, do Exército.” 2 Outrora conhecido pela enorme fábrica de tecidos que lhe deu origem e mais recentemente pelos presídios, Bangu passa por grandes transformações na sua infraestrutura urbana3. A antiga fábrica tornou-se um shopping center (cujo projeto já era conhecido no ato da criação de Gericinó) e isso desencadeou inúmeras modificações na paisagem e no estilo de vida do bairro. Praças e avenidas são reformadas, os imóveis são valorizados, novas lojas e serviços migram para o lugar, muitos empregos são gerados. Há uma sensação geral de que o bairro melhora sua qualidade de vida a passos largos e, neste ritmo, a exclusão das instituições e espaços que sempre lhe deram má fama era uma demanda geral das pessoas que vivem no centro do bairro, dos comerciantes e dons de imóveis locais. Tal situação é também observada por alguns autores em várias cidades ao redor do mundo, como constata o geógrafo belga Van Criekingen: “Quando um bairro torna-se descolado e entra na moda, isso implica que parte dos seus moradores será ‘descartada’. A região ‘melhora’, mas não para as mesmas pessoas.”(apud Garnier, 2010). 1 Conferir “César deixa Bangu sem presídio”. Jornal do Brasil, 24 de novembro de 2004. Extraído de http://ademi.webtexto.com.br/article.php3?id_article=6073, acessado em 16 de dezembro de 2010. 2 Conferir “Novo bairro da zona oeste”. Jornal O Dia, 24 de novembro de 2004, p. 3. 3 Para mais detalhes sobre a história de Bangu, ver Mansur (2009). Em Bangu, a “melhoria” do bairro, aparentemente, trouxe consigo o “descarte” de um pedaço inteiro de seu território, e desta maneira, sem qualquer remoção, milhares de pessoas que se identificavam com o bairro foram também “descartadas”. É importante salientar que a maioria dos moradores abordados em Gericinó não sabia da mudança de nome do lugar onde vive. Além disso, estes moradores, e também aqueles que tinham conhecimento dessa mudança, continuam se referindo ao lugar como parte de Bangu, seja nos endereços de suas cartas ou em conversas informais com pessoas de fora. Afinal, é em Bangu que eles encontram a cidade; é no centro daquele bairro que eles vão a bancos, têm acesso a serviços públicos e privados essenciais, têm acesso à estação ferroviária que os leva ao Centro, etc. Também reforça essa identidade “banguense” dos moradores de Gericinó o fato de que existem no bairro algumas instituições cujos nomes ainda se referem a Bangu, como o Bangu Campestre Clube e a escola municipal José Mauro de Vasconcelos (autor do clássico “Meu Pé de Laranja Lima”, romance que se passa em Bangu, onde viveu). A cidade tampouco assimilou esta mudança, já que a população de outros bairros e o noticiário continuam referindo-se aos presídios como “Bangu 1”, “Bangu 2”, “complexo penitenciário de Bangu”, e ao Lixão como “Aterro sanitário de Bangu”... etc. Tanto o prefeito quanto as outras pessoas entrevistadas pela reportagem do Jornal do Brasil acreditavam que as mudanças definitivas propostas pela separação só viriam a longo prazo e que a nomeação, naquele momento, tinha um caráter apenas simbólico. Contudo, é imprescindível dizer que o poder simbólico é o primeiro a ser utilizado nessas lutas por classificações e reclassificações da realidade. E, citando Bourdieu, “a fronteira, este ato jurídico de delimitação, produz a diferença cultural do mesmo modo que é produto desta” (Bourdieu, 2009:115). Portanto, é razoável a espera daqueles que almejam estas reclassificações. Território Marginal e Segregado, Lugar de Estigmas Sem precisar discorrer sobre as condições que levaram os habitantes das cidades modernas a abominarem os materiais residuais de sua produção e consumo - o lixo -, pode- se aceitar a premissa de que a descartabilidade é ainda o paradigma dominante das sociedades industriais e a aversão ao lixo uma máxima também dominante – ainda que, em situações ímpares, o lixo tenha outros usos, tornando-se arte, utensílios para o lar, brinquedos, etc. Indo além, o lixo e tudo aquilo que o envolve (o trabalho com ele e os lugares onde ele é depositado) são, nas cidades contemporâneas, contaminadores por excelência, passíveis de rejeição e distanciamento. Excetuando o sentimento de nojo comum a esses trabalhos e lugares ligados ao lixo e acrescentando outro tipo de sentimento de perigo, tal distanciamento social do lixo e de suas instituições também é observado com os criminosos e suas instituições, em especial com os presídios. Mesmo quando alocadas em lugares ermos, próximos a áreas rurais, estas instituições podem gerar traumas, medos, desconfortos em geral, tanto pela presença da arquitetura imponente de seus prédios e dos agentes (também imponentes) que lá trabalham e que circulam pela região, quanto pelos novos visitantes que surgem - advogados, cônjuges e demais parentes dos presos. Esta realidade pode ser constatada em uma matéria do jornal O Globo sobre Catanduvas, no interior do Paraná, localidade agrária que recebeu o primeiro presídio federal de segurança máxima. Diz a reportagem: “Apesar do reconhecimento à rigidez na segurança da instituição penal federal, há um nítido desconforto com as constantes transferências de presos para Catanduvas. Cada nova leva de detentos resulta na ida de familiares. Essa convivência é o ponto mais sensível na rotina da cidade. Os moradores rejeitam a presença dos visitantes. Uma hostilidade, em parte, disfarçada pelo temor das retaliações.” 4 Pois bem, todas as sociedades possuem suas normas e critérios para a escolha dos espaços onde lixo e criminosos devem ficar. O que se pode perceber com clareza é que, nas cidades, estes espaços são tidos como marginais e devem permanecer longe da rotina da urbe. Porém, pela densidade populacional e pelas complexas redes de produção e circulação de mercadorias e pessoas próprias das áreas urbanas, tais espaços e instituições são constantemente cercados de habitações e outros empreendimentos. 4 Conferir “Vizinhos do Crime”. Revista O Globo, JORNAL O GLOBO de 19 de dezembro de 2010. No Rio de Janeiro, cidade onde a frequente pergunta “Tu mora onde?” revela a “importância da territorialidade no sistema de classificação dos moradores” (Cecchetto e Farias, 2009, p. 219), o bairro de Gericinó é, como nenhum outro, aquele que possui a identidade mais deteriorada pelos estigmas advindos dessas instituições tidas como marginais, perigosas e contaminadoras. O que parece se afirmar é que esta cidade depende de Gericinó para que suas toneladas de lixo produzidas diariamente não contaminem seu cotidiano, suas praças e ruas, para que as montanhas de lixo despejadas a cada dia nesse espaço extremo do município, situado no sopé de uma serra e ao lado de uma gigantesca área militar, não interfiram no vai-e-vem de seus habitantes, tão orgulhosos da beleza e da imagem saudável da cidade. A cidade também depende deste espaço para alocar seus criminosos mais perigosos. Sendo longe do Centro e em área pouco valorizada, a região periférica de Bangu parece ser o destino ideal para penitenciárias e sanatórios penais. O contrário, por exemplo, se observou com o presídio da rua Frei Caneca, no Centro. Desativado, seu terreno possui um enorme potencial para o mercado imobiliário, devido à proximidade de uma grande oferta de postos de emprego, de infraestrutura e equipamentos urbanos (hospitais, centros culturais e de lazer, metrô, diversas linhas de ônibus...).5 Um dos motores da “revitalização” proposta pelo poder público para as áreas centrais da cidade é o acréscimo de habitações em espaços outrora ocupados por instituições julgadas inadequadas para aquelas áreas, como o presídio da rua Frei Caneca ou os armazéns e galpões subutilizados da zona portuária. Em Gericinó, bairro recebedor dos últimos presos outrora encarcerados na Frei Caneca, presídios, enormes galpões de reciclagem e novas moradias populares são parte da mesma paisagem, o que desperta em seus moradores uma maneira ímpar de se viver a cidade e de ser acolhido por ela. Reinventando (ou não) o Território 5 Conferir “Frei Caneca, mais antigo presídio do país, é implodido”, Portal G1, 13 de março de 2010. Há um fenômeno que ocorre em Gericinó e que também é amplamente observado em diversos territórios detentores de instituições e lugares marginais e estigmatizados: parte das populações que se avizinha a estes espaços e instituições aprende a lidar com a rotina destes, podendo beneficiar-se, até certo ponto, de sua presença. Em Planeta Favela, Mike Davis cita algumas iniciativas de reapropriação desses territórios, como a Cidade dos Mortos, no Cairo, lugar onde as moradias foram construídas em cima de cemitérios e a partir dos enormes e suntuosos túmulos e lápides de antigos governantes da cidade (Davis, 2006). Em Gericinó, muitas pessoas vivem direta e indiretamente da renda oriunda da catação e da separação de materiais recicláveis (metais, plásticos, papelão...) realizadas por centenas de trabalhadores no Lixão e nos abafados, mal-cheirosos e também insalubres galpões de reciclagem, além dos empregos (seguranças, motoristas, etc) gerados no lugar pela empresa administradora do Lixão e pelas redes desse grande negócio (para os empresários) que é a reciclagem.6 Arrisco a dizer que todos os negócios do bairro, de padarias a mecânicas de automóveis, recebem, em menor ou maior proporção, parte da renda bruta gerada pelos negócios da catação e da separação dos recicláveis do Lixão. Em relação aos presídios, uma matéria do jornal Extra de junho do último ano revela que, além de conseguirem viver em paz ao lado dos criminosos mais perigosos da cidade e superando os transtornos semelhantes àqueles observados em Catanduvas, muitos moradores de Gericinó retiram dessa situação sua subsistência através da prestação de serviços (pequenas lojas, salões de beleza, pensões, etc) aos visitantes do presídio, aos policiais e aos agentes penitenciários.7 Estas são, sem dúvida, sociabilidades que conseguem ir além da lógica dominante de distanciamento e aversão diante destas instituições e espaços. De fato, são exemplos de produção de lugares, que se definem como “espaços vividos” (Escobar, 2005, p.8). Porém, o que parece ocultar-se nesse panorama é que para estas pessoas, vulneráveis e segregadas, foi oferecido, ou melhor, designado, por sua classificação na hierarquia social e por sua localização na cidade (condições interdependentes), o trabalho com aquilo que é 6 7 Para um aprofundamento dos negócios da reciclagem de resíduos, ver Magera (2005). Conferir “Que tranquilidade...”. Caderno Zona Oeste, JORNAL EXTRA de 26 de junho de 2010. socialmente descartado e classificado como impuro e perigoso. E na medida que vivenciam a presença destas instituições, porque têm contato com elas que podem, então, reinterpretá-las e com elas trabalhar.8 Os lugares e as localidades, como defende Arturo Escobar, podem produzir diferentes significados sobre si próprios e sobre estas instituições tidas como detentoras de características e propósitos universais. Ainda assim, há uma grande parte dos moradores de Gericinó que sente um certo incômodo - por vezes, inclusive, a já comentada aversão - pela presença destas instituições no seu bairro. São na maioria dos casos as pessoas que trabalham ou estudam longe do bairro e que têm maior escolaridade. Elas demonstram ainda um forte desejo de se mudar dali assim que conseguirem as condições econômicas necessárias, ou, quando a descrença é muita, têm ao menos a esperança de que seus filhos um dia possam fazê-lo. Para estas pessoas, o bairro é motivo de constrangimentos nas conversas com os amigos do trabalho, do colégio, da faculdade. Quase nunca recebem visitas, pois mesmo quando estes constrangimentos são superados, existe ainda a distância da cidade, que parece ser maior do que aquela que a geografia aponta. Para elas, o bairro, tão próximo, é algo pelo qual se esforçam para distanciar de suas vidas. Quase nunca frequentam os espaços públicos do local, são até mesmo vistas como estranhas por alguns moradores do lugar. Não têm apreço pelo bairro, mas apenas por pessoas que vivem nele, e, tão logo possam, procurarão afastálo de suas vidas e buscarão uma melhor inserção na cidade. Uma Desterritorialização Imposta Nas pesquisas, visitas e conversas que realizei em Gericinó, pude perceber que, assim como a cidade depende de Gericinó, o bairro também depende de sua situação marginal para que receba alguma atenção da cidade. Num resgate da história da região, observa-se que Gericinó, outrora parte de Bangu, permaneceu isolado e esquecido desde sua primeira fase de crescimento há mais de três 8 Esta conclusão baseia-se nas reflexões sobre modelos classificatórios e afetividade presentes em O Pensamento Selvagem, de Lévi-Strauss (1997, p.29). Ver ainda a aplicação dessa “ciência do concreto” em Florestania: a saga acreana e os povos da floresta (Sant’Ana Júnior, 2004) e Enciclopédia da Floresta (Almeida e Cunha, sem data). décadas, quando da inauguração da Avenida Brasil, importante via que liga o Centro do Rio ao bairro de Santa Cruz, o último do município. Desde este período, sua fase mais vibrante deu-se durante a construção e o funcionamento de uma fábrica de refrigerantes, há muito desativada, que, se não trouxe um grande desenvolvimento ao bairro, ao menos gerou empregos e aqueceu a economia local. Tornando-se um novo bairro, coincidentemente ou não, na mesma época em que se tornava o maior recebedor dos resíduos do Rio de Janeiro, Gericinó adquiriu nos últimos anos algumas instituições tão desejadas pelos bairros mais carentes e mais distantes da cidade, como um posto de saúde da família, uma creche, um centro de reabilitação para idosos e, atualmente em fase de construção, uma centena de pequenas casas populares que serão distribuídas aos moradores das áreas mais precárias do bairro. Também houve obras para mudar o traçado de algumas ruas que se encontram às margens do rio Sarapuí, que nasce no Maciço da Pedra Branca, em Bangu, e que já se encontra completamente poluído ao passar em Gericinó – e mais poluído ainda seguirá até a Baía de Guanabara, onde deságua. A cidade pouco se lembrava desse território. Quando muito, ele aparecia numa nota ou notícia das páginas policiais. Voltou-se a ele quando precisou aumentar o volume do despejo de lixo por conta da saturação do Lixão de Gramacho, antigo recebedor do lixo da cidade do Rio de Janeiro, situado no município de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. A partir daí, o poder público municipal livrou Bangu de suas mazelas e o território em questão, agora com um novo nome, conseguiu algumas benesses da cidade, ao preço de sublinhar sua identidade já estigmatizada e contribuir para o bem-estar da urbe. Interdependências, com um jogo de xadrez bem jogado (Elias, 2001, p.158). Consta a seguinte sentença no projeto de lei enviado pelo então prefeito César Maia à Câmara Municipal do RJ para a criação do bairro Gericinó: “A criação do Bairro de GERICINÓ, a partir da subdivisão do atual Bairro de Bangu na XVII R.A – Bangu, tem por objetivo reconhecer e formalizar a particular identidade desta região, já reconhecida pela população local com este mesmo nome. Tal iniciativa encontra fundamento na especificidade das atividades aí exercidas, predominantemente de caráter institucional, que, ao longo do tempo, vieram a transformar este território em unidade espacial distinta” (grifos meus). E ainda: “(...) Tais indicadores vêm a confirmar a oportunidade da iniciativa, pois possibilitará melhores condições para diagnóstico e organização das informações regionais e, em especial, favorecer a articulação das intervenções públicas e a proposição de soluções a nível microlocal” (grifos também meus). 9 De fato, a Prefeitura deu mais atenção a este território depois de transformá-lo oficialmente na tal “unidade espacial distinta”. Entretanto, algumas observações merecem ser destacadas: a) A criação do bairro se deu de maneira autoritária, sem qualquer sinal de preocupações democráticas. Não houve consulta popular e tampouco foram procuradas as associações de moradores dos sub-bairros - legítimas representantes das pessoas que vivem no local. Este modelo de ação pública é contrário ao que orienta o Estatuto da Cidade10 e dá ênfase ao argumento de Escobar sobre as necessidades de políticas situadas no lugar (Escobar, 2005, p.8). Uma cidade que parece pensar mais no global - por conta de sua preparação para os Jogos Olímpicos de 2016 ou pela histórica ânsia de inserir-se no imaginário mundial como uma cidade indispensável ao turismo - não consegue, ou não quer, resolver seus problemas a nível local, mesmo quando as soluções pretendidas se dão “a nível microlocal”. O lugar (o bairro do subúrbio, a comunidade distante), também no Rio de janeiro, ainda segundo Escobar, é “o outro” da globalização. b) As pessoas que vivem no que é hoje chamado oficialmente de Gericinó podem perder, mesmo sem saber, aquilo que Haesbaert chama de “imaginário geográfico” (Haesbaert, 2006, p.67). Pouco se sentiam no Rio de Janeiro, e espera-se agora, a partir da criação deste novo bairro, que pouco se sintam em Bangu. Seguindo Haesbaert, estas pessoas foram desterritorializadas de Bangu porque o lugar onde vivem é precário. E ademais, citando Bonnemaison e Cambrèzy, o autor sublinha que perder seu território é 9 Projeto de Lei Nº 11167/2003, Mensagem Nº 171 de 19 de fevereiro de 2003. Lei federal n° 10.257, de 10 de julho de 2001. 10 desaparecer, pois “o território não diz respeito apenas à função ou ao ter, mas ao ser”. Portanto, desterritorializadas de um bairro tradicional em ascensão, que fazia parte de seu “território cultural” (Haesbaert, 2006, p.50) - com afeto e histórias de vida a ele ligadas - , e territorializadas num bairro precário, a reconstrução das identidades destas pessoas se mostra ainda mais problemática. c) Ainda que muitas pessoas do local tenham experimentado alguma melhora em suas vidas com as obras promovidas pela Prefeitura, nada mudou no que se refere à segregação do lugar e ao estigma que ele sofre – e que, consequentemente, transfere aos seus habitantes. Não foi pensando no bem-estar das pessoas que vivem no entorno do Lixão e dos presídios que a Prefeitura criou Gericinó, afinal, as obras de melhoria desse lugar poderiam e deveriam ser feitas sob qualquer circunstância, por força da lei.11 O fato se deu para melhor inserir na urbe os moradores e donos de imóveis do centro de Bangu, num esforço para reconhecer estes últimos a partir de uma nomeação pública, um “ato efetivamente mágico” (Bourdieu, 2009, p.118), porém dotado de eficácia (evidentemente a longo prazo, como se espera). Em relação aos excluídos de Bangu, nada ainda foi feito para reaproximá-los da cidade. Pois, se por um lado as obras no local aliviam sua pobreza, a segregação socioespacial só pode ser combatida através do acesso destas pessoas às redes e espaços públicos da cidade (Haesbaert, 2006, p.67). Só assim quebra-se a apartação e os estigmas e se promove o direito à cidade (Lefebvre, 2001). d) Além dos presídios e do Lixão, este território possui algo que o distingue dos demais bairros ao redor (e também da maioria dos bairros da cidade) e que não foi sequer considerado como capaz de promover um real desenvolvimento no local e uma reaproximação da cidade com este seu lugar periférico: o Parque Natural Municipal do Mendanha. É sobre este último item que se apoiará o restante da argumentação. Desenvolvimento a partir do Lugar: uma nova proposta para a cidade 11 O Estatuto da Cidade em seu Art. 2, Item IX, diz que a cidade precisa promover uma “justa distribuição dos benefícios e ônus decorrentes do processo de urbanização”. O Parque Natural Municipal do Mendanha situa-se na APA (Área de Proteção Ambiental) Mendanha-Gericinó, que engloba as florestas de Mata-Atlântica presentes nesses maciços situados na zona oeste do Rio de Janeiro e que se estendem para os municípios de Mesquita e Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense. O Parque possui uma área de 1.323, 47 hectares. Foi criado em 1993 com o objetivo de “preservar uma importante gleba de Mata-Atlântica do Estado do Rio de Janeiro e manter um dos considerados primordiais fatores equilibrantes do microclima regional urbano” (Tomiazzi e Villarinho, 2006) Situado na Estrada do Guandu do Sena, o Parque fazia parte do bairro de Bangu, numa distância de aproximadamente 15 minutos de carro de sua estação ferroviária, no centro do bairro. Atualmente, pertence ao território designado para o novo bairro de Gericinó. Bangu e seus arredores formam um dos ambientes mais áridos do Rio de Janeiro e registram com freqüência as temperaturas mais altas da cidade – o que, a partir de ironias ou não, também dá fama ao bairro. Isso se explica tanto pela falta de cobertura vegetal da região quanto pela dificuldade natural de circulação dos ventos, o que impede a chegada de ventos marinhos e a saída dos poluentes emitidos nesta região – esta situa-se entre dois maciços, o da Pedra Branca e o do Gericinó. Contendo piscinas de águas naturais, o Parque é um oásis nesse bairro quente e distante das praias que caracterizam o estilo de vida da cidade. A partir de um estudo sobre o perfil dos visitantes do Parque do Mendanha realizado no verão entre os anos de 2004 e 2005 por pesquisadores da Universidade Federal de Lavras, farei algumas ponderações sobre a importância do Parque para o a região e sua subutilização em prol da quebra da segregação e dos estigmas do bairro de Gericinó. O Perfil dos Visitantes do Parque Natural do Mendanha Alguns dados dessa pesquisa chamam a atenção. Das 407 pessoas acima de 11 anos entrevistadas durante o trabalho de campo, realizado em fins-de-semana e feriados, vemos: - 42% tinham mais de 40 anos; - 71% tinham, ao menos, o ensino médio completo (24% com nível superior); - 79% eram moradores da zona oeste do Rio de Janeiro (nenhum era da Zona Sul); - 81% visitaram o Parque de 1 (uma) a 3 (três) vezes no último ano; - 30% disseram que foram ao Parque porque o “clima é agradável” (20% foram por indicação de amigos); - 33% se disseram a favor de cursos e palestras com temas ambientais (a opção mais escolhida na questão “Dê uma Sugestão para Melhorar o Parque”). O que se percebe, primeiramente, é o que o Parque é uma boa opção de lazer para a população local, independente da idade ou do nível de escolaridade. E mesmo em seus dias de folga, as pessoas procuraram conhecer o lugar. Também se observa um desejo de estar mais próximo do Parque, já que a imensa maioria voltou ao lugar e indicou que seria bom ter ali outros tipos de atividades além do lazer – atividades estas de caráter ambiental. No entanto, como bem observaram os pesquisadores, mesmo a população local tem dificuldades de chegar ao Parque. Há o custo dos transportes e nenhum incentivo para o uso de bicicletas: não há ciclovias e o trânsito de carros é intenso pela proximidade dos presídios, batalhão de polícia e comércio ali perto (o Parque fica a 20 a pé da entrada dos presídios). A Prefeitura tampouco faz propagandas e incentivos para o uso do lugar, ainda que fossem direcionados aos moradores da própria zona oeste. Parece que a sustentabilidade nesta cidade, quando invocada, designa apenas a “capitalização da natureza” (Leff, 2001), num pacote turístico pomposo que só contempla as áreas nobres da cidade. Desenvolvimento Local: possibilidade de inserção e emancipação Como se não bastassem para sua singularidade as instituições que a imensa maioria dos bairros não possuem (presídios e aterro sanitário), Gericinó também possui um Parque Natural urbano com extensa área de Mata-Atlântica. Diante dos já citados e comentados problemas vividos pela população do bairro, este poderia ser o bilhete de acesso à cidadania plena das pessoas que lá vivem e que experimentam diversas situações de subcidadania (Souza, 2006). Numa época em que se discute amplamente a relação entre o homem e os recursos naturais, época em que se começa a sentir os efeitos do descaso que o processo de industrialização teve e ainda tem com o planeta, a proximidade de ambientes livres de grandes estruturas de concreto e aço, lugares onde o clima é mais ameno e onde vegetação e recursos hídricos são protegidos são, certamente, amplamente valorizados. Isso se dá de maneira efetiva no Rio de Janeiro, tanto em relação aos bairros perto das praias como naqueles perto das florestas, como constataram Cecchetto e Farias (2009, p.223) O Parque do Mendanha é uma oportunidade verde para Gericinó. Poderia tornar-se um enorme “ativo específico” (Pecqueur, 2005). No entanto, para tal, é necessária a objetivação deste recurso específico do lugar pelos atores locais. Como já podemos perceber, este é o principal empecilho, pois o momento histórico é favorável, o lugar em questão é detentor de muitas particularidades, mas a participação política nas decisões sobre o próprio lugar onde vivem não é algo comum para as pessoas de Gericinó. O meio-ambiente deveria ser uma questão central para as discussões sobre desenvolvimento deste lugar e de outros lugares da metrópole do Rio de Janeiro, como o próprio Jardim Gramacho, em Duque de Caxias, lugar de Lixão e de manguezais. Não só porque nestes lugares a cidade despeja seus resíduos e porque é lá que se sente as “externalidades do sistema” (Leff, 2001, p.1), mas também porque as populações que lá vivem estão apartadas da cidade, pelo distanciamento espacial e simbólico, pela degradação dos ambientes e das identidades. Em seu livro Caminhos para o Desenvolvimento Sustentável, Ignacy Sachs parece descrever as possibilidades abertas diante do caso de Gericinó, possibilidades que, numa cidade mais democrática e menos desigual, poderiam se tornar políticas públicas: “... o objetivo deveria ser o do estabelecimento de um aproveitamento racional e ecologicamente sustentável da natureza em benefício das populações locais, levando-as a incorporar a preocupação com a conservação da biodiversidade aos seus próprios interesses, como um componente de estratégia de desenvolvimento” (Sachs, 2009, p.53). Conclusão Este artigo buscou articular percepções e análises sobre a cidade do Rio de Janeiro e sobre um de seus espaços mais degradados e marginalizados a conceitos e questões oriundos do curso Desenvolvimento, Trabalho e Ambiente. Com o objetivo de levantar reflexões sobre a cidade e sobre as conexões entre seus espaços e grupos, por vezes tão ocultas, procurei discutir sobre temas que são atuais e que ainda assim pouco aparecem nos debates acadêmicos. Evitando uma enxurrada de números e citações, tentei ser o mais sucinto possível na argumentação. Entretanto, sei que este artigo não contempla toda a problemática proposta e nem encerra as reflexões possíveis sobre os temas. Com novas pesquisas, novas perspectivas sociológicas e antropológicas e novos espaços para debates, espero dar seguimento aos estudos sobre a cidade e sua complexidade e, por que não, contribuir para uma melhor compreensão de sua conjuntura atual e das mudanças que constantemente atravessam-na. O curso Desenvolvimento, Trabalho e Ambiente me enriqueceu com autores que eu desconhecia e me fez voltar a certos clássicos indispensáveis, instigando-me num esforço intelectual que me permitiu não só um novo acesso a textos e conceitos ignorados por mim ao longo desta pesquisa, mas também a outras considerações de hipóteses e abordagens dos problemas. Fico, então, na expectativa de levar este trabalho adiante e de aproveitá-lo na futura dissertação ou ainda em outros projetos acadêmicos. Espero não encontrar grandes empecilhos nestas tarefas. Referências: ALECRIM, Michel. “Novo Bairro na Zona Oeste”. Jornal O Dia. Rio de Janeiro, p. 3, 24 de nov. de 2011. ALMEIDA, M. B. de. e CUNHA, M. C. da. Enciclopédia da Floresta. Companhia das Letras. BOURDIEU, P. O Poder Simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2009. BRISOLLA, Fábio. “Vizinhos do Crime”. Jornal O Globo - Revista O Globo. Rio de Janeiro, Pp. 44-51, 19 de dez. de 2010. CARNEIRO, S. de S. e SANT’ANNA, M. J. G.. (orgs.) 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