O câncer entrou em meu lar
O CÂNCER ENTROU EM MEU LAR: SENTIMENTOS
EXPRESSOS POR FAMILIARES DE CLIENTES
CANCER AT HOME: PARENTS AND RELATIVES MAKE A CLEAN BREAST OF
THEIR FEELINGS
EL CÁNCER ENTRÓ EN MI HOGAR: SENTIMIENTOS EXPRESOS POR
FAMILIARES DE CLIENTES
Maria Raquel Bertoli da SilvaI
Katyellen BorgognoniII
Camila RoratoIII
Susana MorelliIV
Mara Rúbia Violin da SilvaV
Catarina Aparecida SalesVI
RESUMO: O objetivo deste estudo foi desvelar as concepções dos familiares ao serem notificados de que um ente
querido está com câncer. Utilizamos a abordagem qualitativa fundamentada na fenomenologia existencial, pois busca
compreender o ser humano em sua facticidade. Foram realizadas entrevistas com 10 familiares de clientes em seus
domicílios, no período de janeiro de 2006 a janeiro de 2007, em uma cidade situada no noroeste do Estado do Paraná.
Da linguagem dos familiares, emergiram três categorias: sentimentos avivados nos familiares ante a descoberta do
diagnóstico; compartilhar com o ente querido o tratamento; e a importância da espiritualidade para o entendimento da
situação. Através do estudo, apreendemos que os sentimentos vivenciados pelos familiares, na confirmação do diagnóstico
de neoplasia, expressam angústia, tristeza, incerteza e até mesmo esperança e o desejo de estar com o ente querido.
Palavras-chave: Visita domiciliar; relação familiar; oncologia, cuidado paliativo.
ABSTRACT
ABSTRACT:: Parents’ and relatives’ ideas on being notified that one of their members has cancer are provided. A
qualitative approach based on existential phenomenology has been used since it is a method for understanding people
in their daily experience. Residential interviews with ten relatives were undertaken between January 2006 and January
2007, all of which in a northwestern town in the state of Paraná. Relatives’ discourse may be subdivided into three
categories: relatives’ feelings upon acknowledgement of diagnosis; the partaking of feelings with the beloved one during
treatment; the importance of spirituality to make sense of the situation. Results showed that feelings experienced by
relatives when the diagnosis was confirmed demonstrated concern, sadness, uncertainty, and even hope. The desire to be
close to the ill relative was also very strong.
Keywords
Keywords: Home visit; relationships; oncology; palliative care.
RESUMEN: El objetivo de este estudio fue desvelar las concepciones de los familiares al ser notificados de que un ente
querido está con cáncer. Utilizamos un enfoque cualitativo fundamentado en la fenomenología existencial, pues ella
busca comprender el ser humano en su facticidad. Fueron realizadas entrevistas con 10 familiares de clientes en sus
domicilios, en el período de enero de 2006 a enero de 2007; en una ciudad situada en el noroeste del Estado de Paraná
- Brasil. Del lenguaje de los familiares, emergieron tres categorías: sentimientos avivados en los familiares ante la descubierta
del diagnóstico; compartiendo con el ente querido el tratamiento y la importancia de la espiritualidad para el entendimiento
de la situación. Por medio del estudio, aprehendemos que los sentimientos vivenciados por los familiares, en la confirmación
del diagnóstico de neoplasia, expresan angustia, tristeza, incertidumbre e incluso esperanza y el deseo de estar con el
ente querido.
Palabras Clave: Visita domiciliar; relación familiar; oncología; cuidado paliativo.
INTRODUÇÃO
Na concepção heideggeriana, o termo existência
designa o processo de abertura do ser humano consigo mesmo e com o mundo e, nessa existencialidade,
ele planeja seu próprio porvir, isto é, sua história no
mundo, imaginando um vir a ser feliz para si e sua
família. Nesse sentido, negligência as possibilidades
Discente do 4º ano do Curso de Graduação em Enfermagem da Universidade Estadual de Maringá – bolsista do Programa Institucional de Iniciação
Científica (PIBIC).
II
Discente do 4º ano do Curso de Graduação em Enfermagem da Universidade Estadual de Maringá – bolsista do projeto de extensão.
III
Discente do 3º ano do Curso de Graduação em Enfermagem da Universidade Estadual de Maringá.
IV
Discente do 4º ano do Curso de Graduação em Enfermagem da Universidade Estadual de Maringá.
V
Enfermeira, Mestranda em Enfermagem do Departamento de Enfermagem da Universidade Estadual de Maringá.
VI
Enfermeira, Doutora em Enfermagem, Profª. Adjunta do Departamento de Enfermagem da Universidade Estadual de Maringá. E-mail:
[email protected]
I
p.70 •
R Enferm UERJ, Rio de Janeiro, 2008 jan/mar; 16(1):70-5.
Silva MRB, Borgognoni K, Rorato C, Morelli S, Silva MRV, Sales CA
existenciais impostas pela própria condição humana
ou pelo espaço mundano que é lançado1.
Assim, apesar de considerar a doença um processo biológico normal da evolução humana, a descoberta de uma neoplasia maligna ou a simples possibilidade de confirmação do diagnóstico, em um
ente querido, provoca no seio familiar uma série de
vicissitudes relacionadas ao medo de perdê-lo. Nesses momentos, o mundo, como horizonte do cotidiano humano, surge diante do homem aniquilando
não apenas as coisas particulares à sua volta, mas
também seus sonhos de viver um porvir prazeroso,
que passa a apontar para o nada, pois o “câncer traz
consigo, ao longo do tempo, o estigma social de doença incurável”2:226.
A incerteza ante essa possibilidade desperta no
homem um paradoxo de sentimentos, muitas vezes
incompreendidos pelos profissionais de saúde, pois,
para a maioria deles, o êxito significa curar doenças
e salvar vidas; assim, apoiar uma pessoa e sua família no momento da confirmação do diagnóstico de
câncer se torna algo difícil de ser enfrentado pelos
profissionais envolvidos, pois no homem suscita a
aproximidade concreta de morte3.
A presença da possibilidade da morte é como a
de escrever uma ata sobre a própria vida: dando
forma e sentido. Observa-se, em algumas pessoas, que quando a obra da vida está terminada
ela pode morrer4:226.
Em nossa experiência, ao participar de um projeto de extensão e iniciação científica, que visa atender o doente com câncer e sua família, mediante a
utilização dos princípios dos cuidados paliativos, percebemos que, ao vivenciar a confirmação do diagnóstico de neoplasia, a pessoa sente o desejo de ser cuidado, amado, compreendido e, principalmente, de
compartilhar suas preocupações e seus medos.
Aprendemos, nas visitas realizadas, que os
princípios éticos, filosóficos e assistenciais fornecem
subsídios importantes para o cuidar desse ser, respeitando sua individualidade e suas necessidades essenciais. Nesses momentos, a família enfrenta um grande
conflito emocional, apoiar o ente querido e aceitar
o câncer em seu seio familiar. Nesse contexto, se não
levarmos em conta os sentimentos dos familiares no
momento da notificação do diagnóstico de
neoplasia de seu ente querido, não poderemos ajudálo com eficácia.
É necessário ter compaixão, porque sem esta simplesmente passamos pelas emoções, não importa
o quanto sejamos tecnicamente habilidosos.
Como enfermeira é difícil compreender como
alguém está se sentindo, no entanto, é possível
tentar imaginar a pessoa nessa condição colocando-se no seu lugar, e tentando fazer para o outro
o que se gostaria que se fizesse para nós5:8.
Atualmente, conviver com a possibilidade do
câncer no lar:
Vem tornando-se uma realidade no seio de muitas famílias. Nesses momentos, o grupo familiar
vivencia problemas emocionais, espirituais, sociais e financeiros, tendo que se adaptar às situações suscitadas pela doença; entretanto, a família desempenha um papel muito importante na
assistência ao Ser com câncer, particularmente na
promoção do conforto e segurança ao doente3:8.
Destarte, ao projetar este estudo, determinamos como objetivos apreender as percepções dos
familiares ao serem notificados sobre o diagnóstico
de câncer de entes queridos, não somente quanto
ao prisma dessa fatalidade, mas também refletir sobre a condição existencial desses indivíduos mediante o desvelamento do sofrimento por eles
vivenciado.
REFERENCIAL TEÓRICO-METODOLÓGICO
Este estudo se caracterizou como uma pesquisa
qualitativa embasada na fenomenologia que possibilita ao pesquisador apreender os sentidos atribuídos ao viver pelo homem entendido como um serno-mundo, isto é, um ser lançado à existência, que
vivencia de modo singular os acontecimentos do
cotidiano. Logo, buscar compreender o homem nessa
facticidade é procurar decifrar o modo de ser por ele
revelado em seu discurso, desvelando esse fenômeno que se manifesta a partir do próprio ser, pois o
mister do pensar fenomenológico é compreender o
ser humano em sua existencialidade, isto é, em sua
facticidade6.
A fenomenologia existencial
é uma filosofia que estuda a existência, o existir
do homem e não se pode compreender o homem,
senão na sua facticidade, ou seja, sua condição
de ser-no-mundo7:162.
Heidegger6 adverte, todavia, que essa manifestação pode ocorrer de modos diferentes, simplesmente como uma aparência que oculta a verdade
do ser, ou como uma forma desfigurada da realidade
que o ser-aí vivencia. Cabe, portanto, ao pesquisador procurar desvelar no fenômeno estudado o sentido do discurso do sujeito, isto é, colocar o ser em
evidência.
O estudo foi realizado em uma cidade situada
no noroeste do Estado do Paraná, no período de janeiro de 2006 a janeiro de 2007. A coleta de dados,
R Enferm UERJ, Rio de Janeiro, 2008 jan/mar; 16(1):70-5.
• p.71
O câncer entrou em meu lar
mediante entrevista, ocorreu durante as visitas aos
domicílios de 10 pessoas com entes queridos que
enfrentavam a dor da confirmação da presença do
câncer em seus lares.
Para desvelar os sentimentos dos depoentes,
formulamos a seguinte questão norteadora: O que
significou para você ser notificado de que um membro
de sua família estava com câncer? Após leituras
atentivas e individuais do depoimento de cada sujeito (S1,S2...), percebemos o emergir de três categorias: sentimentos avivados nos familiares ante a descoberta do diagnóstico; compartilhar com o ente querido o tratamento; e a importância da espiritualidade para
o entendimento da situação, as quais, interpretamos à
luz de algumas idéias de Heidegger6.
Esclarecemos que o presente estudo seguiu os
preceitos éticos e foi aprovado pelo Comitê Permanente de Ética em Pesquisa que Envolve Seres Humanos da Universidade Estadual de Maringá, como
determina a Resolução nº 196, de 10 de outubro de
1996, do Ministério da Saúde.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Os resultados são analisados e discutidos a partir das três categorias emergentes dos depoimentos
obtidos.
Sentimentos Avivados nos Familiares ante
a Descoberta do Diagnóstico
Heideegger6 alude que a existência humana pode
tornar-se alvo de questionamento, principalmente
quando o ser-aí vivencia alguma facticidade em seu
cotidiano, a qual não consegue enfrentar de imediato,
mas que gera sentimento de temor e padecimento.
Para o filósofo, o medo ou temor é um sentimento inquietante ante uma situação desconhecida, que
inesperadamente o homem tem que experienciar, o
que gera sensação de agonia6. Percebemos, então, que
esse sentimento de temor ao ser expresso pelo familiar revela preocupação com seu ente querido.
Eu fiquei muito assustada na hora, mas não pude
expressar meu medo, porque eu tinha que ser o apoio
para meu marido que estava esperando minha reação para poder demonstrar todo seu medo. (S1)
Segundo Heidegger6, a disposição ou tonalidade afetiva constitui um dos comportamentos fundamentais que o ser-no-mundo utiliza para se revelar
ao seu meio, contudo, a disposição não apenas promove a abertura do homem em seu estar-aí, lançado
no mundo, mas também preserva o mundo interior
já descoberto como morada de seu ser.
p.72 •
R Enferm UERJ, Rio de Janeiro, 2008 jan/mar; 16(1):70-5.
A morte é uma revelação crucial, apesar de termos dela uma certeza que sempre adiamos conscientemente. É assim que criamos nosso modo
existir. O homem não é apenas um ente que estáai, lançado no mundo, mas, sobretudo, está no
mundo para a morte. É preciso prever esse momento e não dissimulá-lo8:223.
Assim, distinguimos, nas falas a seguir, que as depoentes, apesar de terem consciência de que essa
facticidade pode acontecer a qualquer pessoa, não esperavam conviver com o câncer em seu seio familiar.
Quando minha mãe começou a apresentar os primeiros
sinais de que algo não ia bem com ela, uma dúvida se
plantou em minha cabeça e uma sensação ruim em meu
coração. A sensação que tivemos foi das piores, sempre
achamos que é possível acontecer, mas ao mesmo tempo
nunca achamos que vai acontecer com a gente. (S2)
O câncer quando acontece em alguém de nossa família, nos transporta para o medo, normalmente
acompanhado do desespero [...] Quando eu vi o resultado de uma biópsia dos exames de minha filha,
constatando a presença de um câncer, é lógico que a
fronte se trancou e o desespero se instalou. (S3)
Quando nós descobrimos esse tumor, nossa vida desabou, tudo o que você imaginasse e mais um pouco
passou pela nossa mente; abriu-se um abismo na nossa
vida. (S4)
Ao receber a notícia de que minha irmã estava com
câncer, eu me desesperei. Senti que o mundo havia
acabado, pois me lembrei de tudo que eu e ela passamos quando nossa mãe estava doente e com essa mesma doença. Perdi a alegria da vida, sentia muita tristeza e dor por saber que ia perder minha irmã que era
pra mim muito especial. [...] sofria muito também ao
pensar na dor que ela estava sentindo (não dor física), pois eu sei que no íntimo ela sabia o que ela tinha; isso me fazia sofrer muito. (S8)
Nessa perspectiva, Heidegger6 considera que o serai, em sua transcendência, pode revelar atitudes distintas para se apropriar do mundo ao seu redor. O termo, nessa conotação, indica estado existencial e pessoal. Nesse contexto, percebemos, no último discurso,
que a descoberta do câncer da irmã da depoente avivalhe o sofrimento vivenciado pela mãe no passado.
No pensamento heideggeriano, o ser humano
em seu existir-no-mundo teme qualquer ameaça que
possa vir ao seu encontro causando-lhe dor e sofrimento. Na medida em que essa ameaça se transforma em um ente real, o temor se transfigura em pavor, algo conhecido e familiar, com previsão da angústia futura6. Desse modo, distinguimos na linguagem de alguns depoentes que eles transcendem o
instante presente e vislumbram a morte como algo
concreto em seus lares.
Silva MRB, Borgognoni K, Rorato C, Morelli S, Silva MRV, Sales CA
Através do hemograma foi descoberta então a
leucemia, nesse momento, eu senti o chão sumir de
meus pés; meu corpo tremia, mas, eu tinha que tomar
algumas decisões para tentar resolver as coisas da
melhor forma possível, mas sabia que a morte estava
próxima. Como familiar, ao receber o diagnóstico,
acreditei que o sofrimento dele pudesse se estender por
alguns meses e isso me dava um pânico enorme. (S6)
Eu fui com minha mãe, no momento que o médico
disse que era câncer; fiquei passada, não enxergava
nada na minha frente, foi terrível; naquela hora eu
só pensava em sofrimento, morte; para mim a convivência com minha mãe estava chegando ao fim. (S7)
Compartilhando com Ente Querido o Tratamento
O homem enfrenta situações impostas a ele
independentemente de sua vontade. Contudo, no
pensamento heideggeriano, o homem é um ser que
pode escrever sua própria história, mas, ao receber a
confirmação existir-no-mundo com câncer, se sente
derrotado diante de sua própria nudez existencial,
pois, ao transcender-se a si próprio, vislumbra a
morte não como uma possibilidade, mas como algo
real em sua existência3. O tratamento surge como
uma tentativa de vencer a batalha contra o câncer;
essa terapia gera angústia tanto para o doente, como
para a família, que vivencia ao lado dele o sofrimento dos efeitos colaterais. Assim, observamos na fala
de alguns familiares a expressão dos seus sentimentos a esse respeito.
Durante alguns dias, a família ficou bastante transtornada. [...] com o passar dos dias, as preocupações
foram se transformando em ações, marcando nova
cirurgia e cumprindo a risca todo o tratamento. (S1)
Foi um dos piores momentos, pois com o coração angustiado tive que dizer a ele que aquilo não era nada.
[...] Mas o sentimento é sempre de incerteza, de angústia, pois todos sabemos como o câncer é ingrato;
ele vem, vai, mas quase sempre volta; a gente não
fica nunca mais em paz, fica sempre a dúvida de que
ele possa aparecer em outro lugar. (S2)
Ao estar-no-mundo, o homem existe numa situação de incerteza, isto é, ele é livre, mas é também
circunstancial. É apenas no âmbito dessa circunstancialidade que se constituem as condições humanas básicas de seu existir, ou seja, o de estar-no-mundo
independente de sua vontade e o de poder escolher;
o ser humano é estar em contínua situação de
escolha, de correr riscos nessa escolha, de assumir compromissos e de sofrer as conseqüências
das decisões tomadas9:53.
Dessa maneira, nas falas a seguir, apesar de
enfatizarem seus receios pelo sofrimento decorren-
te do tratamento, os familiares assumiram o
enfrentamento da doença, da terapia e suas conseqüências, buscando compreender o ser doente e articular-se com o mundo.
À medida que o tempo passou a doença progrediu.
Quando se tornou impossível esconder, ela me contou. [...] entendemos que tinha que enfrentar e correr
contra o tempo. Ela fez todo o tratamento necessário.
[...] minha mãe não queria que o meu pai fizesse o
tratamento, para que ele não sofresse mais do que já
estava; pedia a ela para que tentássemos, e assim
começou a nossa batalha. (S5)
[...] quando a doença foi descoberta já não havia
nenhuma possibilidade de tratamento devido a sua
idade e seu problema cardíaco. [...] eu tinha que tomar algumas decisões para tentar resolver as coisas
da melhor forma possível, mas sabia que a morte estava próxima. (S6)
[...] o médico falou com todas as letras: é câncer, ele
nem enrolou para dizer. [...] no começo do tratamento achei que fosse ver minha mãe emagrecer drasticamente e perder o cabelo, aquela cena horrível de
quem faz tratamento. (S7)
Ao meditar acerca dos sentimentos expressos
pelos familiares, apreendemos que:
A partir da facticidade da doença, a família organiza-se, procura compreender e interpretar o modo
de existir do ser doente, e busca alternativas para
articular-se com o mundo. Passa a relacionar-se
com o mundo de uma maneira autêntica – acolhe
a angústia e as suas revelações. O enfrentamento
da doença leva a família a redimensionar sua vida
para conviver com a doença e as implicações dela
decorrentes10:153.
A Importância da Espiritualidade para o
Entendimento da Situação
O homem em seu existir-no-mundo, geralmente, não questiona sua existência; subsistindo num
estado de queda, em que a afetividade se desvela
como mera curiosidade, a compreensão é enleada
pela ambigüidade e o discurso é limitado à palavra
vazia, ou seja, o ser-no-mundo vive uma existência
inautêntica9. Mas quando alguma vicissitude vem
ao seu encontro, e entendendo sua condição de ser
abandonado no mundo, o homem transcende essa
inautenticidade, existindo de uma forma autêntica.
Nesses momentos, busca-se, na fé, forças para enfrentar essa situação difícil.
A experiência mística revelaria ao homem a existência de Deus e levaria à descoberta dos conhecimentos necessários, eternos e imutáveis
existentes na alma. Implica, pois, a concepção de
um ser transcendente que daria fundamento à
verdade. Deus, assim encontrado, é, ao mesmo
R Enferm UERJ, Rio de Janeiro, 2008 jan/mar; 16(1):70-5.
• p.73
O câncer entrou em meu lar
tempo, uma realidade interna e transcendente
ao pensamento11:17.
Heidegger6 enfatiza que a esperança desenvolve
no homem um sentimento de bonum futurum, pois a
esperança traz ao ser-aí a força necessária para emergir
de sua angústia e vislumbrar novas possibilidades. O
caminho da esperança foi expresso pelos familiares através da fé, pois, em todos os depoimentos, observamos
que eles trazem em si a crença de que Alguém está olhando por todos, o que caracteriza a esperança como uma
possibilidade de cura ou de superação do sofrimento
própria de cada um. Ao adentrarmos no mundo dessas
pessoas, entendemos que elas procuram lutar para manter acesa a chama da esperança. As falas a seguir aclaram essa percepção.
Depois de alguns meses, finalmente, com a benção de
Deus, veio um diagnóstico final. Ela estava livre do
câncer. E, eu, livre da sensação de perda, de abandono. Ela iria viver, teria chance de conquistar seus
objetivos; terá uma nova oportunidade; e eu terei mãe
por mais tempo [...] é ela que me fortalece, que me
traz luz. (S1)
O momento seguinte ao desespero se restabelecer visto a competência dos profissionais e o apoio dos parentes e amigos e, evidentemente, pelo despertar da fé
em Deus. Tivemos a esperança, arraigada na fé, de
que a cirurgia seria bem sucedida. (S2)
Agarramo-nos em Deus, só ele podia dar a salvação
para o meu pai naquele momento, mas o que a gente
não sabia era que sua passagem por esta vida estava
chegando ao fim. (S3)
O homem, ser-no-mundo, visualiza e compreende seu próprio porvir e projeta não somente o mundo, como um horizonte significativo da preocupação
cotidiana consigo mesmo, mas também o seu poderser, isto é, aquilo que para ele já estava decidido ser
um ser-para-a-morte. Assim, apreendemos, no discurso do último depoente, que o entendimento da condição existencial de seu ente querido, lhe trouxe certa tranqüilidade ao coração, apesar de sua partida.
[...] a fé dela é tão grande que eu passei a acreditar
em Deus e passei a pedir para que Deus a curasse.
Falava para os irmãos da igreja orar, vamos por nas
mãos de Deus...Deus é o melhor remédio. (S8)
À noite eu levantava de madrugada, ajoelhava, pedia para Deus: ‘Senhor tenha compaixão, o Senhor
conhece a minha vida, o Senhor conhece o sofrimento
da minha filha’. (S10)
Para o ser humano, a fé é uma importante ferramenta para o enfrentamento do diagnóstico e tratamento do câncer. A fé ou a busca pela ajuda Divina faz com que os familiares se projetem em busca
de recursos na luta contra a doença. Notamos, nas
p.74 •
R Enferm UERJ, Rio de Janeiro, 2008 jan/mar; 16(1):70-5.
falas dos familiares, que refletir, orar ou rezar é uma
maneira de se aproximar de Deus e de ter forças para
suportar suas vicissitudes.
CONCLUSÕES
A vivência no cotidiano domiciliar das pessoas
com diagnóstico confirmado de neoplasia maligna
despertou novas ponderações que redimensionaram
nossas idéias a respeito do cuidar desses seres. Ao
acompanhá-los em suas trajetórias de luta contra a
doença, percebemos que eles:
Vivem o mundo a cada momento, e nesse viver
existencial experimentam sentimentos de tristeza
e alegria, os quais expressam através de sua linguagem, descobrindo assim em seu próprio viver,
o ser das coisas e pessoas ao seu redor12:50.
Na linguagem dos familiares, identificamos expressão de temor perante a incerteza do porvir de seu
ente querido, pois vislumbram a dimensão do sofrimento imposto pelo tratamento, padecimento que
afetará o seio familiar como um todo. Sentimos a preocupação estampada em suas faces e olhares de tristeza ante a possibilidade de perdê-los, mas, ao mesmo
tempo, distinguimos que o sentimento de angústia que
poderia levá-los a quedar-se perante o mundo avivalhes a esperança da possibilidade da cura.
Assim, notamos nas falas que, apesar de alguns
depoentes enfatizarem seus receios pelos padecimentos vivenciados com o tratamento, eles demonstram
confiança e visualizam nele um caminho para tornálos novamente uma pessoa sadia e livre do câncer.
Nas falas de alguns familiares, percebemos que
o cuidado também se manifesta por meio da linguagem, pois os mesmos exprimem o desejo de compreender sua situação pelo diálogo, bem como compartilhar seu pensar com outras pessoas. Em suas concepções, o cuidado deve expressar um viver harmônico, em que cada ser compartilha seu pensamento
e sentimento num processo de reciprocidade, em que
o falar e o escutar surgem como forma de cuidar.
Em suas mensagens, notamos o quanto que,
para os familiares, é importante estar com seus entes queridos. Nesses momentos, apesar do temor ante
a confirmação do diagnóstico de câncer, os familiares sentem que os seres doentes necessitarão de manifestações de solicitude para o enfrentamento do
inesperado.
A família saudável é a que se constitui a partir
de laços afetivos, expressos por gestos de carinho e
de amor,sendo capaz de manifestar sentimentos de
dúvidas, dividir conhecimentos, crenças e valores13.
Silva MRB, Borgognoni K, Rorato C, Morelli S, Silva MRV, Sales CA
Nessa perspectiva, a equipe de saúde, vivendo
um estar-no-mundo desses seres, traz em si as características básicas do existir cuidando com competência técnico-científica e ética. Em vista disso, a
afetividade pode ser apreendida como um modo de
a equipe de enfermagem captar e compreender não
apenas o seu existir-no-mundo, mas desvelar seu poder próprio de se relacionar com as pessoas ao seu
redor, promovendo a intersubjetividade e o vir-a-ser
mais humano.
A busca da compreensão das facticidades do viver do ser humano, sob o enfoque existencial,
possibilita aos profissionais da saúde descortinar
outras formas terapêuticas, cujo ponto de referência é o ser e suas relações com o mundo, valorizando a subjetividade e a intersubjetividade,
além do conhecimento técnico-científico10:155.
REFERÊNCIAS
1. Josgrilberg RS. A fenomenologia como novo
paradigma de uma ciência do existir. In: Pokladek DD,
organizadora. A fenomenologia do cuidar: prática dos
horizontes vividos nas áreas da saúde, educacional e
organizacional. São Paulo: Vetor; 2004. p.31-52.
2. Andrade VCC, Mikumi PK, Mello PS, Sales CA. O
estar-só e o estar-com um ente querido durante a
quimioterapia. R Enferm UERJ. 2006; 14:226-31.
3. Sales CA. O cuidado no cotidiano da pessoa com
neoplasia: compreensão existencial [tese de doutorado].
Ribeirão Preto (SP): Universidade de São Paulo; 2003.
4. Carvalho MVB. A morte: a arte de cuidar na despedida. In: Pokladek DD, organizadora. A fenomenologia
do cuidar: prática dos horizontes vividos nas áreas da
saúde, educacional e organizacional. São Paulo: Vetor;
2004: p.79-94.
5. Pessini L. A filosofia dos cuidados paliativos: uma
resposta diante da obstinação terapêutica. O Mundo
da Saúde. 2003; 27:15-32.
6. Heidegger M. Ser e tempo. 16a ed. Rio de Janeiro:
Ed.Universitária São Francisco; 2006.
7. Merleau-Ponty M. Fenomenologia da percepção. São
Paulo: Martins Fontes; 2006.
8. Carvalho MVB. Atravessando a dor existencial em
face do processo do morrer. In: Castro DSP, Pokladek
DD, Ázar FP, Piccino JD, Josgrilberg RS, organizadores.
Existência e saúde. São Bernardo do Campo (SP):
UMESP; 2002. p. 221-7.
9. Martins J. A ontologia de Heidegger. In: Martins J,
Bicudo MAV. Estudo sobre existencialismo, fenomenologia e educação. 2a ed. São Paulo: Centauro; 2006.
10. Motta CFS. O entrelaçar de mundos: família e hospital. In: Elsen I, Marcon SS, Silva MRS, organizadoras.
O viver em família e sua interface com a saúde e a doença. Maringá (PR): Eduem; 2004. p.153-67.
11. Santo Agostinho. Os pensadores. São Paulo: Círculo do Livro; 2007.
12. Zanoni ACN, Pereira FC, Sakamoto M, Sales CA.
O cuidado hospitalar e o cuidado domiciliar: vivência
expressa pelos doentes portadores de neoplasia maligna. R Enferm UERJ. 2006; 14: 48-53.
13. Elsen I. Saúde familiar: a trajetória de um grupo.
In: Bub L. Marcos para a prática de enfermagem com
família. Florianópolis (SC): Edufsc; 1994. p.61-7.
Recebido em: 11.07.2007
Aprovado em: 15.12.2007
R Enferm UERJ, Rio de Janeiro, 2008 jan/mar; 16(1):70-5.
• p.75
Download

O câncer entrou em meu lar: sentimentos