FAMILIARE INSTITUTO SISTÊMICO O JOVEM ADULTO SOLTEIRO E A TERAPIA RELACIONAL SISTÊMICA Trabalho apresentado ao Familiare Instituto Sistêmico para a conclusão do curso de Especialização em Terapia Relacional Sistêmica. Carolina Duarte de Souza Orientadora: Dra. Maria Aparecida Crepaldi Florianópolis 2010 Aos homens amorosos de minha vida, que me fizeram crer que família é lugar de amor, pertença e alegria: Tios Gegê e Zeca, Vôs Edeonídio e Getúlio. 2 Agradecimentos Ao meu grande amor Erikson por me acompanhar, incentivar, questionar, apoiar e vibrar com minhas conquistas durante este percurso de formação em terapia relacional sistêmica. A minha família nuclear que sempre me apoiou e me proporcionou o privilégio de ter realizado um processo de terapia familiar. Aos meus pais que demonstraram amor incondicional e me ensinaram que sempre é tempo de aprender e mudar. Ao Gui, meu eterno companheiro de batalhas, seja no mesmo time ou em lados opostos: com ele aprendi muitas das grandes lições que levo para minha prática clínica. Ao Fernando, o caçulinha, que espalha alegria por onde passa e cria ótimas metáforas familiares. A minha doce cunhada Luísa, que torceu pelo meu sucesso. A toda minha família estendida por fazer parte presente de minha história, por me ajudarem a conhecer as crenças, mitos e legados familiares. Amo todos vocês! As(o) grandes terapeutas de família que ministraram aulas e me supervisionaram contribuindo para que esta monografia pudesse ser escrita: Edla Grisard, Carmen Moré, Maria Isabel Caminha, Denise Duque, João David Mendonça e Maria Aparecida Crepaldi. A esta última terapeuta um especial agradecimento: pela excelente professora, pela ótima supervisão, pela estimada companheira de trabalho de supervisão de estágio, e por fim pela orientação desse trabalho. À turma 7 do Familiare, a todas as meninas meu muito obrigada pelas caronas, conversas, confiança, amizade, apoio e confraternizações. Cada uma de vocês tem um lugar especial na minha construção de terapeuta de família. Ao Ciranda que proporcionou não apenas ampliar o olhar relacional sistêmico para além da clínica, como também sempre foi um grupo acolhedor em que fiz grandes amigas. 3 Às pessoas que cuidaram de mim durante essa caminhada em diferentes contextos e de diversas maneiras: Lia, Marli, Sandra, Saula, Liliane e Tirssá. A equipe do Educandário Santa Catarina que me incentivou a fazer a especialização e permitiu que eu colocasse em prática as reflexões construídas na formação. A todos os meus pacientes que depositaram um voto de confiança em meu trabalho, dividiram comigo parte de suas vidas e me proporcionaram aprendizagens e crescimento como terapeuta e também como pessoa. Obrigada a todos vocês por fazerem parte da minha formação como terapeuta de família, concretizada nas páginas seguintes dessa monografia. 4 Resumo Este trabalho é um estudo teórico, exploratório com discussão de vinhetas de casos clínicos que objetiva descrever possibilidades de intervenções psicoterapêuticas ancoradas na perspectiva relacional sistêmica, num processo terapêutico individual com adulto jovem solteiro. Contextualizou-se o adulto jovem dentro da perspectiva relacional sistêmica por meio do modelo bioecológico do desenvolvimento humano, do ciclo de vida da família, e dos subsistemas e fronteiras familiares. Foram discutidas as possibilidades de realização de terapia individual relacional sistêmica e a utilização do genograma e workshop de fotos nesse processo. Conclui-se que a terapia relacional sistêmica está atrelada a terapia de família, principalmente pela importância fundamental que esta ocupa no processo de saúde e doença do indivíduo. E que a confecção do genograma e do workshop de fotos possibilita que se mantenha o enfoque relacional sistêmico no setting dando destaque nas relações familiares do cliente. Palavras chave: terapia relacional sistêmica individual, emancipação do jovem adulto, genograma, workshop de fotos. 5 Abstract This work is a theoretical study, exploratory discussion of parts of clinical cases which aims to describe possibilities for psychotherapy interventions in systemic relational perspective, in a therapeutic process with single young adult. The contextualized of the young adult in the relational systemic perspective through bioecological model of human development, life cycle of the family, and family subsystems and boundaries. Discussed the possibilities of realization of individual therapy relational and systemic, and the use of the genogram and workshop photos in this process. We conclude that systemic relational therapy is linked to family therapy, especially because the fundamental importance place that it occupies in the process of health and illness of the individual. The genogram and the photos’s workshop makes possible to keep the focus on systemic relational in the therapy, focusing on family relations of the client. Key words: individual systemic relational therapy, emancipation of the young adult, genogram, photo workshop. 6 Sumário 1 INTRODUÇÃO ......................................................................................................... 8 2 OBJETIVOS ........................................................................................................... 11 2.1 OBJETIVO GERAL .......................................................................................... 11 2.2 OBJETIVOS ESPECÍFICOS............................................................................ 11 3 MÉTODO................................................................................................................ 12 4 O ADULTO JOVEM SOLTEIRO E O PENSAMENTO SISTÊMICO ....................... 13 4.1 A TEORIA BIOECOLÓGICA DO DESENVOLVIMENTO HUMANO ................ 13 4.2 O CICLO VITAL DA FAMÍLIA .......................................................................... 16 4.3 A FAMÍLIA, O INDIVÍDUO E AS FRONTEIRAS FAMILIARES ........................ 20 5. A TERAPIA INDIVIDUAL SITEMICA COM ADULTO JOVEM SOLTEIRO ........... 24 5.1 AS (IM)POSSIBILIDADES DA TERAPIA INDIVIDUAL SISTÊMICA ............... 24 5.2 o GENOGRAMA NA TERAPIA COM ADULTO JOVEM SOLTEIRO ............... 26 5.3 O WORKSHOP DE FOTOS COM ADULTO JOVEM ...................................... 32 6 CONCLUSÕES E CONSIDERAÇÕES FINAIS ...................................................... 35 REFERÊNCIAS ......................................................................................................... 37 7 ANEXO 1 ................................................................................................................ 39 8 ANEXO 2 ................................................................................................................ 40 7 1 INTRODUÇÃO A terapia relacional sistêmica se iniciou e continua até a atualidade desenvolvendo pesquisas e propostas de intervenções psicoterapêuticas principalmente acerca da terapia com famílias. Segundo Tronco (2008), apesar de processos psicoterapêuticos individuais ancorados no paradigma sistêmico serem comuns nos atendimentos clínicos, são poucos os trabalhos, especialmente na literatura nacional, que versam sobre o tema e procuram fornecer bases para uma prática fundamentada nesta modalidade. Devido a essa carência, de acordo com a mesma autora, os terapeutas sistêmicos que atendem pacientes individuais se vêem obrigados a utilizar as contribuições deste enfoque teórico referentes a outras formas de atendimentos como a terapia familiar e de casal. Segundo Osório e Valle (2002) os precursores da terapia familiar, nos anos de 1950, objetivavam descobrir se a alteração nos padrões de relacionamento entre os membros do sistema familiar produziria também modificações no comportamento individual dos sujeitos da família, inclusive nos comportamentos disfuncionais dos pacientes psiquiátricos. Visando responder a esse questionamento, e buscando formas de modificação dos padrões relacionais, os terapeutas de família vêm criando, desde então, várias técnicas e estratégias que configuram as diversas correntes presentes na terapia familiar sistêmica hoje. De acordo com Nichols e Schwartz (1998), naquela época, diversos estudos que buscavam compreender o sofrimento psicológico concorreram para entendê-lo a partir de um novo conceito de família, qual seja, como “um sistema vivo, um todo orgânico” (p. 67). As pesquisas e práticas apontavam que alterações no jeito de comportar-se de uma pessoa do sistema familiar, produziam mudanças em toda a família. Logo, se considerou que para mudar o indivíduo seria mais eficaz trabalhar com todo sistema familiar. Para esses autores (1998) a diversidade de abordagens existentes na terapia familiar se deve ao fato desta ter sido iniciada independentemente em quatro lugares distintos, por terapeutas com diferentes formações e orientações. Os pioneiros foram: John Bell, com grupos de terapia familiar; Murray Bowen, com famílias de esquizofrênicos; Nathan Ackerman, com a terapia familiar psicanalítica e Don Jackson e Jay Halley, com a terapia familiar das comunicações. 8 Os dois últimos terapeutas citados, junto com Gregory Bateson, que se dedicou mais ao âmbito da pesquisa sobre a dinâmica familiar e a esquizofrenia, eram os principais nomes do grupo de Palo Alto (Nichols & Schwartz,1998). A terapia familiar sistêmica criada por este grupo era fundamentada conceitualmente nos trabalhos de Von Bertalanfy acerca da Teoria Geral dos Sistemas de 1950, de Norbert Wiener sobre a Cibernética em 1948 e da Teoria da Comunicação elaborada pelo próprio grupo de Palo Alto (Osório & Valle, 2002). Estudos estes que também formam a base do pensamento sistêmico, que posteriormente agregou os estudos sobre a cibernética de segunda ordem ao seu desenvolvimento atual (Vasconcellos, 2002). Ao discorrerem sobre a história da terapia familiar sistêmica, Nichols e Schwartz (1998), afirmam que esta iniciou na década de 1950 e ampliou seus trabalhos nos anos de 1960, com as investigações e experimentos do grupo de Palo Alto orientando a maioria dos terapeutas de família. Seu apogeu se deu na década de 1970 até meados de 1980, com destaque os trabalhos dos seguintes autores: Minuchin; Haley; Madanes; Watzlawick, Weakland e Fisch; e Palazzoli, Cecchin, Boscolo e Prata – os associados de Milão. Desde os anos 1990, quando aumentaram as divergências entre as diversas abordagens existentes na área, os terapeutas de família têm voltado sua atenção aos trabalhos acerca do construcionismo social, a busca por abordagens integrativas e a inquietação com o contexto mais amplo, ou seja, questões políticas e sociais. Conforme Osório e Valle (2002), todas as escolas de terapia familiar receberam influências diretas ou indiretas dos trabalhos do grupo de Palo Alto. Além disso, têm como foco principal de suas intervenções terapêuticas a mudança nas relações, procurando descobrir “como” o sofrimento se apresenta e não o “porquê”. Nichols e Schwartz (1998) afirmam que o que define o campo da terapia familiar é a compreensão de que a família é maior que a soma de seus membros, sendo ela o contexto em que os problemas individuais aparecem, e seus estudos e intervenções se centram em duas categorias de análise: estrutura – triângulos relacionais, subsistemas e fronteiras – e processo – circularidade das ações: mudanças e contra-mudanças. Segundo Nichols e Schwartz (1998) a partir dos anos de 1990 as primeiras abordagens de terapia de família passaram a ser contestadas e seu alcances 9 obscurecidos de tal maneira que os terapeutas atuais dificilmente intitulam-se como pertencentes a apenas uma escola. Ademais, a própria fronteira entre terapeutas individuais e terapeutas de família tem sido menos nítida, visto que muitos profissionais atuam em ambos os terrenos. Foi no fim, dos anos 1980 que surgiram os primeiros escritos acerca da utilização dos conceitos e técnicas sistêmicas em uma terapia individual em resposta as dificuldades de poder trabalhar sempre com todos os membros da família presentes (Tronco, 2008). Atualmente, várias clínicas escola e centros de formação em terapia familiar recebem demandas por psicoterapias individuais de jovens adultos sem ter um escopo teórico consistente sobre o tema para orientar o trabalho desenvolvido. Tronco (2008) afirma que as poucas referências que embasam teoricamente e apostam nesta modalidade de atendimento nesta perspectiva são todas internacionais, e derivam de uma prática já estabelecida na clínica: Weber e Simon, com o artigo Terapia individual sistêmica; Boscolo e Bertrando, terapeutas familiares italianos que escreveram Terapia sistemica individuale, e Maldonado com o trabalho Bosquejos en progreso hacia una teoría relacional del self: bases para una terapia individual sistêmica. Dessa forma, segundo a autora (2008) existe uma carência em âmbito nacional de direcionamentos que orientem a terapia relacional sistêmica individual adaptadas as especificidades da cultura brasileira. A falta de publicações na área pode levar ao fato de terapeutas desenvolverem trabalhos por meio de transferência de conceitos e técnicas da terapia familiar para o campo individual, sem realizar as devidas adaptações para esse contexto. Assim, a partir desse breve panorama histórico e contextual da terapia relacional sistêmica atrelada principalmente ao trabalho com famílias, e da necessidade de enriquecer as discussões relacionadas a terapia relacional sistêmica voltadas ao contexto individual, o presente trabalho se propõe a seguinte questão: É possível utilizar o referencial teórico da terapia relacional sistêmica num processo psicoterapêutico individual com jovem adulto solteiro? 10 2 OBJETIVOS 2.1 OBJETIVO GERAL Descrever possibilidades de intervenções psicoterapêuticas ancoradas na perspectiva relacional sistêmica, num processo terapêutico individual com adulto jovem solteiro. 2.2 OBJETIVOS ESPECÍFICOS • Caracterizar o adulto jovem dentro da perspectiva relacional sistêmica. • Descrever a utilização do genograma e do workshop de fotos na terapia individual de um adulto jovem. • Apresentar possíveis implicações dos contextos culturais da família de origem do adulto jovem e dos outros sistemas nos quais faz parte para o processo terapêutico. 11 3 MÉTODO O presente trabalho trata-se de um estudo teórico, com discussão de determinados elementos de casos para elucidar os objetivos, e de caráter exploratório, pois visa uma aproximação com o tema para criar hipóteses e ampliar o conhecimento sobre o mesmo (Gil, 2007). Para tanto se realizou uma pesquisa bibliográfica de levantamento de dados na biblioteca do Familiare Instituto Sistêmico e nas bases de dado Biblioteca em Saúde Virtual – Psicologia Brasil (BVS-PSI, 2010) que pesquisa ao mesmo tempo a bases – index-psi, Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde, Periódicos Eletrônicos em Psicologia e Scielo, pesquisou-se também no Google Acadêmico. Os descritores utilizados para a pesquisa em português foram “terapia relacional sistêmica e adulto”, “terapia sistêmica individual”, “emancipação do jovem adulto”, “genograma”, “workshop de fotos”, “estudo de fotos”. Nas buscas em língua inglesa foram "Systemic relational therapy and adult", "systemic individual therapy," emancipation of the young adult", "genogram", "photo workshop", “the study of pictures". Dentre os documentos encontrados foram selecionados apenas aqueles que tinham como foco principal os descritores acima. A partir desse material, realizou-se um estudo de revisão de literatura com discussão de alguns aspectos de atendimentos clínicos para caracterizar melhor os objetivos. As vinhetas utilizadas como exemplos pertencem a casos atendidos em instituição de assistência social e consultório privado, e têm o sigilo garantido a partir da utilização de nomes fictícios e não descrição de dados que possam identificar os sujeitos de acordo com a resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde sobre pesquisas com seres humanos. 12 4 O ADULTO JOVEM SOLTEIRO E O PENSAMENTO SISTÊMICO Muitas das contribuições da teoria relacional sistêmica para a realização de um processo psicoterapêutico individual com um jovem adulto não dizem respeito diretamente a técnicas de intervenção clínica, mas referem-se a embasamentos teóricos que orientam a compreensão do terapeuta acerca de sua concepção sobre o cliente e as dificuldades trabalhadas no processo terapêutico. De início, é necessário considerar a complexidade de fatores em interação envolvidos nas situações vivenciadas pelo adulto jovem solteiro e assim recorrer a uma compreensão contextualizada dos fenômenos que aparecem no processo terapêutico. Ademais, deve-se ponderar que transformações ocorridas no indivíduo repercutem em mudanças em todos os sistemas aos quais ele faz parte (familiar, educacional, laboral, recreativo, político, cultural, religioso, entre outros), e que, essas alterações, por vezes são imprevisíveis e dessa forma é preciso estar atento aos efeitos do processo terapêutico nesses sistemas (Vasconcellos, 2002; Morin, 2005, Najmanovich, 1995; Minayo, 2006). É importante também, lembrar-se que a realidade é multi-versa, ou seja, não é possível conceber a existência de apenas uma versão válida dos fatos. Isso faz com que o terapeuta, ao mesmo tempo respeite e considere as versões dos fatos trazidas pelo adulto jovem, e questione que outras narrativas poderiam surgir daquela situação se outras pessoas estivessem narrando o mesmo evento (Vasconcellos, 2002; Najmanovich, 1995). 4.1 A TEORIA BIOECOLÓGICA DO DESENVOLVIMENTO HUMANO Ao refletir sobre a caracterização do adulto jovem dentro da abordagem sistêmica, é pertinente atentar-se aos trabalhos de Urie Bronfenbrenner, principal teórico do modelo bioecológico, que focalizou suas pesquisas acerca do desenvolvimento humano nas trocas e processos que se dão entre o indivíduo e os outros elementos do sistema (Narvaz & Koller, 2004). 13 Este modelo considera que o desenvolvimento acontece através de processos de intercâmbios mútuos e dinâmicos que complexificam-se cada vez mais, promovendo as transformações da pessoa em seus aspectos biopsicológicos e dos indivíduos, elementos e símbolos de seu meio imediato. Concebe-se, então o desenvolvimento humano a partir da interação dinâmica de quatro núcleos multidirecionais e interdependentes: o Processo, a Pessoa, o Contexto e o Tempo (PPCT) (Wendt, 2006). O processo ocupa lugar de destaque no desenvolvimento, sendo composto pelas trocas de energia entre os diversos níveis, funções e atividades cotidianas do sujeito. É necessário que o indivíduo participe ativamente de inter-relações cada vez mais complexas com outras pessoas, objetos e símbolos para desenvolver-se integralmente em seus aspectos intelectual, emocional, social e moral. Porém, essas inter-relações serão eficazes apenas se ocorrerem sob um alicerce bastante constante através de períodos estendidos de tempo. Os processos que acontecem freqüentemente no meio imediato com participação efetiva, face a face, recíproca e progressivamente mais complexa, são conhecidos como processos proximais, e são considerados as forças propulsoras do desenvolvimento humano (Narvaz & Koller, 2004). Desse modo, as relações com os membros do sistema familiar são relevantes no processo desenvolvimental do adulto jovem, visto que têm uma constância e historicidade únicas. O núcleo da pessoa contém suas características cognitivas, motivacionais e socioemocionais, que interferem nos processos proximais, ao mesmo tempo em que são constituídas por eles. O curso do desenvolvimento humano é influenciado e moldado por três dimensões dessas características: a) as disposições comportamentais ativas, que podem tanto colocar os processos proximais em movimento e sustentar a sua operação como atrasar e impedir sua ocorrência; b) os recursos biopsicológicos, que são as deficiências (condições limitadoras do funcionamento integral do organismo) e habilidades psicológicas (capacidades, conhecimentos e experiências) que contribuem ou não para a efetividade dos processos proximais em determinada fase de desenvolvimento e, 14 c) as demandas pessoais, compostas pela aparência e personalidade da pessoa, e que encorajam ou desestimulam reações do contexto social, podendo assim nutrir ou romper com os processos proximais (Wendt, 2006). O terceiro núcleo é composto pelos contextos de vida da pessoa, e abrange as inter-relações entre quatro níveis ambientais, articulados em estruturas concêntricas contidas umas nas outras, e que formam o ambiente global em que o indivíduo está inserido e em que se desenrolam os processos desenvolvimentais (Narvaz & Koller, 2004). Esses níveis ambientais, também denominados de subsistemas são: microssistema (contextos de relações imediatas do sujeito, como família, trabalho, grupo de amigos, cuja estrutura e conteúdo influenciam os processos proximais), mesossistema (inter-relações entre os ambientes do microssistema, altera-se quando a pessoa começa ou deixa de fazer parte de um meio), exossistema (contextos em que, embora a pessoa não participe diretamente, como família e trabalho dos amigos, podem ocorrer eventos que a afetem) e macrossitema (engloba todos os outros meios, são as interconexões entre as culturas, subculturas, crenças e valores presentes no dia-a-dia da pessoa) (Narvaz & Koller, 2004). É necessário que o terapeuta esteja atento às interações que ocorrem entre os diferentes contextos de vida do adulto jovem para poder auxiliá-lo a se localizar dentro das diversas inter-relações que estabelece, influenciando e sendo influenciado pelas mesmas. O tempo é o último núcleo do modelo PPCT, e envolve as influências das permanências, rupturas e alterações nos eventos no decorrer dos tempos sobre o desenvolvimento humano. A análise deste núcleo se dá em três níveis: a) microtempo, em que ocorrem as (des)continuidades dos episódios dos processos proximais; b) mesotempo, diz respeito a freqüência e regularidade dos processos proximais ao longo de dias e semanas; e c) macrotempo, que refere-se aos fatos em transição na sociedade ao longo das gerações, bem como a forma como estes afetam a pessoa em desenvolvimento (Narvaz & Koller, 2004). Essa análise temporal dos eventos que ocorrem na vida do adulto jovem é fundamental para a compreensão do valor das diferentes situações vivenciadas para o sujeito. O Modelo Bioecológico – PPCT – se constitui, assim, em uma teoria por meio da qual se pode compreender que o desenvolvimento individual e familiar se 15 influenciam mutuamente, sendo que se destacam e se consideram todas as interações que o sujeito estabelece, tanto na família, como com outros sujeitos, objetos e símbolos em qualquer momento de seu ciclo de vida (Wendt, 2006). Este lembra ao terapeuta de forma bastante didática a complexidade do desenvolvimento humano, colocando variáveis que não podem ser deixadas de fora do processo terapêutico. 4.2 O CICLO VITAL DA FAMÍLIA Outro conceito que contribui para a contextualização do jovem adulto na perspectiva sistêmica é a noção de ciclo vital da família, discutida amplamente na terapia familiar. De acordo com Duque (1996) quando se acompanha uma família por um período temporal espaçado, nota-se seu desenvolvimento como um sistema aberto, que passa por estágios de transformações que influenciam tanto cada membro do sistema em suas singularidades, como a família em sua totalidade. Segundo Carter e McGoldrik (2001) o ciclo vital do indivíduo ocorre circunscrito ao ciclo de vida da família, visto que o último é o espaço principal de crescimento humano. Dessa forma, os comportamentos individuais são compreendidos em relação às transições que o sistema familiar como um todo sofre ao longo da vida. A família, enquanto conjunto de inter-relações que se movimenta ao longo do tempo, possui características peculiares que a distingue de qualquer outro sistema: seus integrantes entram pelo nascimento e só podem deixar de participar do grupo quando morrem. Assim, segundo Carter e McGoldrik (2001), o sistema familiar abarca ao menos três gerações que coexistem, cada uma tendo suas funções desenvolvimentais próprias por cumprir que influenciam e são influenciadas pelas tarefas das outras gerações. Os estressores familiares são analisados por Carter e McGoldrik (2001) nos sentidos horizontal e vertical. Em termos verticais encontram-se os padrões, mitos, segredos e legados familiares que são transmitidos através das gerações. Já os estressores horizontais dizem respeito aqueles que afetam a família ao longo do tempo em suas mudanças e transições, tanto esperadas (estágios do ciclo vital), como inesperadas (desemprego, acidentes, doenças crônicas, morte precoce). Para essas autoras, o nível de estresse produzido nos pontos de encontro dos 16 estressores horizontais e verticais é decisivo para a maneira como a família irá lidar com os períodos transitórios ao longo de seu ciclo vital. Nas fases de transição, a estabilidade e o arranjo familiar são desafiados por novas situações que requerem uma alteração nas regras e funções vigentes no sistema familiar. Esses períodos de passagem são muitas vezes acompanhados de conflitos e angústia entre os membros, caracterizando momentos de crise, que se espera, cedam espaço a padrões de interação mais complexos de crescimento no relacionamento familiar (Duque, 1996; Minuchin, Colapinto & Minuchin, 1999). Carter e McGoldrik (2001) ao pesquisarem, desde meados dos anos 1970, famílias de classe média norte-americanas propuseram estágios de transição pelas quais a maioria das famílias passa. Esses estágios têm o propósito de destacar o movimento implícito essencial de ampliação, retração e rearranjo do sistema para dar conta dos movimentos de chegada de novos membros, partida de outros e desenvolvimento dos demais de maneira adequada. Essa classificação em estágios se deu a partir de certa regularidade encontrada nos padrões familiares, mas não deve ser tomada rigidamente, como norma, e sim como auxílio ao terapeuta a compreender quais tarefas desenvolvimentais a família precisa cumprir em cada momento. Os estágios propostos são: o lançamento do jovem adulto solteiro; o novo casal; famílias com filhos pequenos; famílias com adolescentes; lançando os filhos e seguindo em frente; e famílias no estágio tardio da vida. Existem, ainda, variações, também previsíveis, desse ciclo, que diriam respeito, por exemplo, as questões relativas ao gênero, cultura, divórcio e recasamento, alcoolismo, situação sócio-econômica da família (Carter & McGoldrik, 2001). As autoras (2001) descrevem algumas implicações acerca de mudanças específicas com as quais a família necessita trabalhar para seguir em seu processo de desenvolvimento, em cada estágio do ciclo. Essas mudanças requeridas são de duas ordens diferentes: as de primeira ordem são aquelas que pedem uma reestruturação da família com acréscimo de competências ao sistema; já as de segunda ordem dizem respeito a mudanças no padrão de relacionamento do próprio sistema familiar. Um processo psicoterapêutico com famílias em fases de transição deve direcionar seus esforços para que as mudanças de segunda ordem ocorram, 17 pois são elas que propiciarão a reorganização das relações familiares que responderão aos desafios dessa etapa do ciclo de vida familiar. Para os objetivos do presente trabalho, será feita uma descrição da etapa do lançamento do jovem adulto solteiro, porém é importante lembrar que este sofre impactos das ansiedades produzidas pelas transições que os outros membros do sistema familiar estão passando. Para exemplificar, poder-se-ia ter uma família que também estivesse com os pais do jovem adulto solteiro enfrentando o desafio de lançar os filhos e seguir em frente; enquanto seus avós encontram-se no estágio tardio da vida. A princípio, a fase de lançamento do adulto jovem solteiro pode ser considerada a mais individual do ciclo vital da família, porém a sua passagem adequada requer, talvez, algumas das maiores renegociações de padrões relacionais com a família de origem (Aylmer, 2001). Ademais, a resolução desse estágio implicará profundamente nas escolhas futuras que o indivíduo fará nos próximos períodos de transição (Carter & McGoldrik, 2001). Três são as principais mudanças de segunda ordem referidas como tarefas desenvolvimentais deste estágio do ciclo de vida familiar: a) que o sujeito se veja como uma pessoa distinta de sua família de origem; b) que o indivíduo estabeleça relações íntimas com outros adultos que estejam passando pelo mesmo momento do ciclo de vida familiar; e, c) que a pessoa se posicione diante das questões profissionais e se independize financeiramente de sua família de origem (Carter & McGoldrik, 2001). Nessa fase do ciclo vital da família o adulto jovem solteiro volta sua atenção para a definição de metas individuais para sua vida, para o desafio de reconhecer-se como um indivíduo singular, que, então, posteriormente possa unir-se a outra pessoa dando início a um novo sistema a partir do casamento. Menos serão os estressores verticais que acompanharão o sujeito nas próximas etapas de sua vida, quanto melhor ele conseguir, nesse momento, diferenciar-se do roteiro emocional de sua família de origem. Esta é a oportunidade dada ao adulto jovem para que este analise e escolha em sua família de origem, os legados transgeracionais que trará consigo, os padrões de relacionamento que abandonará e o que ele criará individualmente (Carter & McGoldrik, 2001). 18 A finalização esperada dessa fase do ciclo vital requer que o adulto jovem solteiro possa separar-se de sua família de origem sem haver um corte das relações ou uma fuga reativa para um esconderijo afetivo substituto. Geralmente, as dificuldades nessa etapa se dão em uma das partes não conseguir identificar a necessidade de estabelecer estilos relacionais menos hierárquicos entre pais e filhos, agora adultos. Pode ocorrer que os pais incentivem seus filhos a permanecer dependentes deles tanto emocionalmente como financeiramente, assim como, os filhos podem querer essa dependência ou se revoltar e romper relações com sua família de origem numa falsa independência (Carter & McGoldrik, 2001). Para Carter e McGoldrik (2001) esses rompimentos, que acontecem em reação a conflitos mal resolvidos, não promovem a desvinculação afetiva do jovem adulto solteiro dos padrões interativos da família de origem. Assim, ao invés do indivíduo criar soluções adequadas aos relacionamentos afetivos estabelecidos, prosseguirá reproduzindo os mesmos padrões com os quais rompeu, e com os quais não está de acordo. Por outro lado, ao invés de romper, muitos filhos jovens adultos têm prolongado sua permanência na casa dos pais. Este movimento que tem ocorrido no país com mais freqüência nos últimos anos, tem sido objeto de estudo de pesquisas brasileiras (Henriques, Jablonski & Féres-Carneiro, 2004; Silveira & Wagner, 2006; Henriques, Féres-Carneiro & Magalhães, 2006; Borges & Magalhães, 2009). Nesses trabalhos se têm discutido as funções e conseqüências desse fenômeno que tem sido chamado tanto de “geração canguru”, como “fase do ninho cheio” e apontam que a questão central não está no fato do jovem adulto morar com os pais, mas sim no tipo de relação este estabelece com os mesmos em questões referentes à sua diferenciação, intimidade, escolha profissional e independência financeira. A reorganização das relações familiares de adultos-adolescentes para adultos-adultos demanda um estilo interativo pautado no respeito e em padrões comunicativos singulares. É necessário que o adulto jovem aceite seus pais como são, sem querer modificá-los naquilo que ele gostaria que eles fossem, e sem cobrálos por aquilo que não conseguiram ser ou fazer. Por outro lado, os pais também precisam reconhecer no jovem adulto alguém com objetivos e desejos próprios, sem esperar que estes respondam as demandas e anseios parentais (Carter & McGoldrik, 2001). 19 Aylmer (2001) ressalta que a resposta dos pais em relação às necessidades impostas por esta fase do ciclo vital familiar dependerá em parte de como estes vivenciaram esta etapa da sua própria vida e das questões que lhe são impostas neste momento em seu relacionamento conjugal e com seus próprios pais. Dessa maneira, a terapia com jovens adultos costuma centrar-se na construção por parte do sujeito de novas formas de relacionamento com sua família de origem, que lhe permitam ocupar uma função diferente dentro deste sistema (Carter & McGoldrik, 2001). 4.3 A FAMÍLIA, O INDIVÍDUO E AS FRONTEIRAS FAMILIARES Aliada a compreensão bioecológica do desenvolvimento e a noção de ciclo vital da família está o conceito de fronteiras familiares desenvolvido por Salvador Minuchin. Em sua compreensão do sistema familiar destacam às seguintes propriedades do mesmo: as formas particulares de conexão entre seus membros, ao modo como o mesmo está estruturado, aos seus padrões de repetição1, a existência de subsistemas que se influenciam mutuamente e o fato deste passar por períodos de constância e transição ao longo do tempo2. É por meio de seus subsistemas – subdivisões de um sistema maior – que a família desempenha suas funções e os objetivos. Esses podem ser definidos pelo gênero, geração, função ou interesse, comumente, no sistema familiar encontram-se os subsistemas parental, conjugal, fraternal, individual, das mulheres, dos homens, das crianças, dos adolescentes, dos adultos, ou subsistemas formados por outros critérios, como, por exemplo, o dos que apreciam a leitura, entre outros. Assim, um membro familiar participa de vários subsistemas ao mesmo tempo. Um adulto jovem solteiro provavelmente faz parte minimamente dos subsistemas individual, fraternal, dos homens (ou mulheres), dos adultos, dos filhos adultos (Minuchin, 1990). A participação ou não e a forma como o adulto jovem solteiro integra esses subsistemas é determinada por regras implícitas e explícitas que são estabelecidas 1 Ao falar em estrutura familiar, Minuchin, Colapinto e Minuchin (1999) referem-se a modos relacionais repetitivos e predizíveis que se estabelecem entre os membros do sistema. Essas formas de relacionar-se dizem respeito a alianças, conflitos e divisões hierárquicas relevantes dentro da família que repercutem nas condutas e padrões interativos de cada membro familiar. 2 Este tópico já foi discutido no ponto 4.2 desse trabalho. 20 pelas fronteiras entre os sistemas e subsistemas. Essas têm a função de assegurar a diferenciação dos membros do sistema e manter as características que marcam a distinção de um subsistema dos demais (Minuchin, 1990). As fronteiras familiares variam quanto à sua permeabilidade de abertura ou restrição em relação aos demais sistemas, configurando-se diferentemente de acordo com as características de cada família, podendo ser rígidas, difusas ou nítidas (Minhucin, Colapinto & Minuchin, 1999). Quando se consegue determinar claramente as funções e o espaço que cada integrante de um subsistema desempenha e ocupa, e a possibilidade de trocas comunicacionais do subsistema com o meio, se afirma que as fronteiras dessa família estão nítidas (Minuchin, 1990). Neste caso, o adulto jovem sabe que faz parte e como participa do subsistema de adultos, podendo trazer novos elementos aprendidos em outros sistemas a esse grupo, mas tem clareza que não é integrante do subsistema parental, que deve ser composto pelos responsáveis pelos cuidados e educação dos filhos. Uma família que esteja com suas fronteiras difusas, porém, possui regras não muito bem definidas quanto à participação dos membros nos subsistemas o que acarreta num emaranhamento das funções dos integrantes e uma indiferenciação desse sistema em relação ao meio (Minuchin, 1990). Para exemplificar, imagine que uma família não tenha uma fronteira nítida entre os subsistemas adulto e parental, dessa forma confunde-se ser adulto e ter uma opinião própria sobre diferentes assuntos, com opinar sobre a educação e cuidado dos filhos, assim, provavelmente ora o jovem adulto será incluído no subsistema adulto, ora será banido desse grupo,sem poder definir-se claramente como sujeito integrante ou não do subsistema. As famílias com fronteiras rígidas, por outro lado, cessam os canais de comunicação entre seus subsistemas, não permitindo trocas entre estes e o meio (Minhucin, 1990). Tomando um exemplo caricatural, pode acontecer que não seja permitida a entrada do adulto jovem no subsistema familiar adulto, pois a necessidade de mudanças pelas transições do ciclo de vida familiar não é reconhecida pela família. Assim, se o indivíduo fazia parte do subsistema criança, não poderá deixar de participar do mesmo e ingressar em outros subsistemas, primeiramente de adolescente e posteriormente de adulto, será sempre tratado de 21 acordo com as regras para criança. A dificuldade em definir fronteiras nítidas e claras, com regras e hierarquias de relações bem estabelecidas, é um fator que contribui para vários problemas encontrados na terapia relacional sistêmica com jovem adulto solteiro. O indivíduo é considerado o menor subsistema familiar, este é concebido como uma unidade destacada, porém sempre analisado como parte de um sistema maior. Isso porque cada integrante é influenciado, assim como influencia a formação das regras sobre as expectativas, permissões e restrições estabelecidas pela família. Ademais, as características que diferenciam cada membro da família são determinadas em parte pelas qualidades e funções que são atribuídas ao indivíduo pelos outros familiares, sendo este um processo ao mesmo tempo de reconhecimento do sujeito e limitador de sua identidade. É necessário então, num processo terapêutico trabalhar com o sujeito contextualizado nos diferentes sistemas nos quais participa, sejam estes família, comunidade, trabalho, entre outros, para que se possa conhecer diferentes facetas do mesmo (Minhucin, Colapinto & Minuchin, 1999). A compreensão do adulto jovem pelos terapeutas italianos Andolfi, Angelo, Menghi e Nicolo-Corigliano (1989), também parte de uma perspectiva relacional, colocando-o como integrante do sistema familiar. Esses autores afirmam que em seus trabalhos com famílias objetivam entender a complexidade dos comportamentos de seus membros, bem como o desenvolvimento de cada um no seio da família. Assim, consideram que o indivíduo e seu processo de diferenciação – “necessidade de auto-expressão” (p.18) de cada pessoa – ocupam lugar central na terapia familiar, por entender que existe uma conexão essencial entre essas necessidades pessoais e as demandas contextuais de manutenção da união da família. É nas relações com outras pessoas, tanto do sistema familiar como de outros contextos, que o sujeito pode diferenciar-se, ou seja, construir uma identidade própria, ocupar um lugar singular nos diferentes grupos dos quais faz parte. A riqueza dessa diferenciação depende da diversidade dos relacionamentos estabelecidos. Ou seja, o quanto esses agregam aprendizados de novas formas de interação, que proporcionem ao indivíduo desempenhar diferentes funções em diferentes subsistemas, sem perder a noção integrada de si mesmo. As mudanças 22 nos padrões de relacionamento de uma pessoa implicam em alterações concomitantes na interação complementar dos outros membros do sistema. E é essa dinâmica contínua de renegociações das funções dos sujeitos no sistema, que marca tanto o desenvolvimento individual como familiar ao longo do tempo (Andolfi et al., 1989). Somente levando em conta as reflexões acima tecidas que um terapeuta relacional sistêmico pode iniciar um trabalho psicoterapêutico com um jovem adulto solteiro, e não vendo como um ser com uma estrutura intrapsiquíca e que terá apenas a relação terapêutica como redefinidora de seus padrões interacionais. Entretanto, ter essa compreensão sobre o indivíduo não garante que se realize um trabalho sistêmico, nem que se inclua a família na psicoterapia. Com vistas a resolver esta dificuldade que o próximo tópico deste trabalho versará sobre a terapia individual sistêmica propriamente dita. 23 5. A TERAPIA INDIVIDUAL SITEMICA COM ADULTO JOVEM SOLTEIRO 5.1 AS (IM)POSSIBILIDADES DA TERAPIA INDIVIDUAL SISTÊMICA Para iniciar a apresentação e discussão dos achados desse trabalho, é importante atentar-se aos escritos de Vasconcellos (2005) acerca das impossibilidades de se realizar um processo de terapia sistêmica individual. A autora, em consonância com Minuchin (1998, como citado em Vasconcellos, 2005) discorre que essa modalidade terapêutica estaria fundamentada no construcionismo social3 e nas terapias narrativas4, correntes de pensamento criadas nos anos 1990, atualmente utilizadas por muitos terapeutas de família em suas práticas, e que enfocam seus trabalhos nos significados e narrativas do indivíduo sobre seus problemas. Reflexões estas corroboradas por Andolfi (2001) ao discutir a obra de Boscolo e Bertrando (1996) entitulada Terapia sistemica individuale5. O fato de o indivíduo modificar as histórias (a compreensão) sobre suas relações nos diferentes sistemas, segundo Vasconcellos (2005) e Andolfi (2001) não implica necessariamente que o mesmo modificará literalmente sua forma de relacionar-se com os demais membros. Além disso, Vasconcellos (2005) defende que ao se trabalhar com as narrativas seria necessário ter acesso aos discursos de todos os membros do sistema que fazem parte do problema. E coloca que quando se trabalha com apenas um membro do sistema, o terapeuta não participa do “sistema em mudança”, pois não estará co-construindo as alterações no sistema, e argumenta que essas mudanças então se desintegram quando a terapia finda. A proposta de terapia sistêmica individual de Weber e Simon (1989, como citado em Tronco, 2008), entretanto, centra-se não nas narrativas, mas nas relações que o cliente estabelece com os diferentes membros dos diversos sistemas dos quais participa. Ademais, os esforços terapêuticos voltam-se para um protagonismo do cliente e de sua família no processo de mudança, e não do terapeuta. Pois, a maioria das alterações ocorre entre as sessões terapêuticas, quando o sujeito, por exemplo, relaciona-se nos diferentes sistemas em que atua, questionando os 3 Para aprofundamento vide: McNamee, S. & Gergen, K. J. (1998) A Terapia como Construção Social. Porto Alegre: Artes Médicas. 4 Para aprofundamento vide: White, M. & Epston, D. (1993) Medios narrativos para fines terapéuticos. Barcelona: Paidós. 5 Boscolo, L. & Bertrando, P. (1996). Terapia sistemica individuale. Milão: Rafaello Cortina. 24 padrões relacionais estabelecidos e propondo diferentes arranjos, que são então trabalhados nas sessões subseqüentes. Esses autores ainda ressaltam que, desde o início da terapia, podem-se convidar membros da família ou de outros sistemas importantes para o indivíduo para participarem de uma ou mais sessões a fim de contribuir para o processo terapêutico. Andolfi (2001), afirma ser mais simples trabalhar com apenas um indivíduo por vez, pois o grau de complexidade de interações presentes no setting terapêutico diminui consideravelmente. Este autor, assim como Vasconcellos (2005), criticam principalmente o fato de terapeutas que se dizem sistêmicos, fazerem uma opção deliberada de atender apenas um membro do sistema familiar. Ponto este com o qual o presente trabalho está de acordo, assim como com Vasconcellos (2005) quando esta coloca que o trabalho terapêutico com os vários integrantes de um sistema é muito mais rico, porém, nem sempre se tem a possibilidade de contar com a presença de mais de um membro na terapia. Nesse caso, as opiniões expostas acima são alertas importantes para a prática clínica individual e discutidas em outros trabalhos (Maldonado, 1999; Vidal, 2005; Vidal, 2006; Levy, 2006; Tronco, 2008). De fato nem toda a terapia individual que se diz sistêmica, ou relacional sistêmica dá a família do cliente o devido grau de destaque e importância ressaltados no ponto quatro deste trabalho. Uma das hipóteses formuladas por Andolfi (2001) para a opção de terapeutas sistêmicos trabalharem apenas com terapia individual é a falta da inclusão nos cursos de formação em terapia familiar do estudo da família de origem do próprio terapeuta. A partir do momento em que o terapeuta entra em contato com as dificuldades de sua própria família, e compreende-se como inserido nesta teia de relações, torna-se mais fácil identificar e auxiliar outras famílias neste trabalho. Para tanto, Andolfi cita as seguintes técnicas a serem aplicadas nos cursos de formação: genograma, escultura familiar e workshop das fotos familiares. Em consonância com esta proposta Wendt e Crepaldi (2008) colocam que, a confecção do genograma da família de origem do profissional que está se formando em cursos de especialização para terapeutas é uma prática comum nos centros formadores brasileiros. Essa visa investigar a configuração e dinâmica familiar, explicitando padrões relacionais, crenças, mitos, valores e regras que podem ser facilitadores e dificultadores em seu trabalho profissional com outras famílias. 25 O presente trabalho pressupõe que esta mesma estratégia deva ser utilizada em uma terapia individual a fim de manter o enfoque relacional sistêmico no setting dando destaque nas relações familiares do cliente. Além disso, grande parte da demanda por atendimentos individuais clínicos concentra-se na população de adultos jovens solteiros. Nesta fase do ciclo vital familiar, descrita no item 4.2 desse texto, pode-se considerar que a terapia individual pode trazer contribuições no processo de diferenciação do indivíduo, quando este é visto como parte do sistema familiar com o qual precisa estabelecer novos padrões relacionais. Para tanto, este trabalho propõem a utilização das técnicas de construção do genograma e a realização do workshop de fotos como possibilidades de intervenções sistêmicas em um processo psicoterapêutico com adulto jovem. A escultura familiar não será abordada, primeiramente pela pouca familiaridade da autora com a técnica, e também porque esta depende da presença de mais de um cliente no setting para poder ser posta em prática. 5.2 O GENOGRAMA NA TERAPIA COM ADULTO JOVEM SOLTEIRO O genograma, ou genetograma, é um instrumento desenvolvido por terapeutas de família que tem sido utilizado em diversas práticas de diferentes profissões nas áreas de pesquisa e intervenção em saúde com famílias. É um mapa familiar, ou seja, uma representação gráfica de dados acerca de uma família, com símbolos e códigos padronizados (conforme anexo 1) que permitem a visualização da estrutura e dinâmica familiar6 num dado momento de sua história (McGoldrick & Gerson, 2001; Nascimento, Rocha & Hayes 2005; Mello, Vieira, Simpionato, BiasoliAlves & Nascimento, 2005; Wendt & Crepaldi, 2008). Essas informações são fornecidas por meio de uma sistematização complexa de vários dados sobre a família que só podem ser obtidos a partir de entrevistas. Dependendo do objetivo que se pretende com a construção do genograma, o mesmo apresentará elementos variados. Pode conter aspectos 6 Entende-se dinâmica familiar como o modo por meio do qual os integrantes familiares interagem, criam e mantêm vínculos, lidam com as dificuldades e divergências, os ritos que preservam, as características das regras que governam a família, os padrões hierárquicos e o desenho das funções atribuídos a cada membro (Cerveny & Berthoud, 2002, como citado em Wendt & Crepaldi, 2008). 26 demográficos de ao menos três gerações da família como: nomes completos, idades, datas de nascimento, de casamentos, de separações, de divórcios, de morte, as profissões e atividades dos diferentes membros, abortos, doenças, origem étnica, local de origem e de residência atual. Além disso, interessa ao uso psicoterapêutico do genograma anotar os padrões interacionais e comunicacionais, posição que cada membro ocupa, contexto de vida da família, fatos significativos na história familiar, os meios pelos quais a família costuma vivenciar momentos de crise e de transições do ciclo de vida familiar (McGoldrick & Gerson, 2001; Nascimento, Rocha & Hayes 2005; Mello, Vieira, Simpionato, Biasoli-Alves & Nascimento, 2005; Wendt & Crepaldi, 2008). Na terapia familiar utiliza-se o genetograma para esclarecer os motivos pelos quais a família procurou auxílio, e formular hipóteses acerca das relações e processo evolutivo entre os problemas relatados pela família e o contexto maior em que a mesma vive. Além disso, é uma estratégia para vincular a família no processo terapêutico, conhecer a estrutura familiar, bem como a família extensa, além de permitir uma nova compreensão sobre os problemas familiares e entrar em contato com os mitos e crenças compartilhados por seus membros e que regulam suas ações (McGoldrick & Gerson, 2001; Wendt & Crepaldi, 2008). Numa terapia individual com um jovem adulto solteiro, os benefícios desse instrumento são potencializados, tanto para auxiliar o terapeuta, bem como o próprio cliente a contextualizar o indivíduo dentro de um sistema complexo de interações, como um meio pelo qual o terapeuta pode incentivar o paciente a interagir com outros membros da família para enriquecer e questionar situações apresentadas neste mapa. Nem sempre é possível ou conveniente construir o mapa esquemático da família propriamente dito, seja por falta de tempo, recursos materiais, ou mesmo indisponibilidade do cliente para tal atividade. Porém, esta impossibilidade não inviabiliza que se façam as questões necessárias à sua confecção e que conseqüentemente se reflita a respeito das respostas. É comum que ao serem questionados na terapia sobre suas famílias ampliadas, ou mesmo sobre sua história familiar, adultos jovens solteiros respondam que não sabem nada, ou muito pouco a respeito. 27 Foi o que aconteceu em um caso atendido em clinica particular pela autora. 7 Carlos , um professor de ensino médio de 27 anos, trazia como queixa o fato de não conseguir terminar um relacionamento por temer as reações de sua noiva, dizendo que este era apenas mais um exemplo de sua dificuldade em falar coisas difíceis, ou que poderiam magoar os outros. Diante das inúmeras respostas de incerteza sobre a dinâmica e estrutura de sua família, foi solicitado que ele fizesse uma pesquisa junto aos membros familiares sobre as questões levantadas e outras histórias que pudessem interessá-lo, para que na sessão posterior se construísse o seu genograma. Independente da confecção do genetograma, esta tarefa permitiu que Carlos tivesse um bom motivo para comunicar-se com sua mãe e seu pai, situação incomum em sua família. Este foi material trabalhado no início da sessão seguinte, visto que ao ser questionado sobre como foi fazer a investigação, ele trouxe que se surpreendeu pela abertura de seus pais para conversa e também com suas respostas, que lhe suscitaram outros questionamentos. Uma importante contribuição para a utilização psicoterapêutica do genograma foi fornecida por Wendt e Crepaldi (2008) ao rever e ampliar, ancoradas na experiência clínica, os diferentes padrões transacionais8 estabelecidos na família e que podem ser evidenciados nesse mapa esquemático. Esses padrões, embora repetitivos, podem sofrer alterações na história familiar, especialmente nas fases de mudanças do ciclo de vida família, para garantir a manutenção da família e individuação de seus integrantes. Os padrões caracterizados pelas autoras foram: relacionamento harmônico, relacionamento muito estreito ou superenvolvimento, relacionamento fundido e conflitual, aliança, relacionamento conflituoso, relacionamento vulnerável, relacionamento distante, rompimento, triangulação, e coalizão. Considera-se um relacionamento harmônico quando dois ou mais integrantes da família sentem-se emocionalmente unidos, mantém uma estima recíproca, têm interesses, modos ou valores em comum, mas conseguem ver-se como distintos entre si e das famílias de origem (Wendt & Crepaldi, 2008). Pode-se dizer que alcançar este padrão interacional é o um dos objetivos de qualquer 7 Como exposto no método todos os nomes utilizados são fictícios. Tipos de relacionamento repetitivos e cristalizados entre alguns integrantes do sistema familiar (Wendt & Crepaldi, 2008). 8 28 processo terapêutico, quer familiar, quer individual, visto que este propicia os sentimentos de pertença a uma família (coesão) bem como, de diferenciação – verser como ser singular dentro daquele grupo. Quando, porém, os membros não conseguem perceber-se como diferente do outro e das famílias de origem, o relacionamento é muito estreito ou um superenvolvimento, os integrantes são fusionados, ou seja, dependem emocionalmente uns dos outros (Wendt & Crepaldi, 2008). Em um caso atendido em clínica particular, Elaine, de 27 anos, graduada, mas não exercendo a profissão, procurou ajuda para lidar com o luto pela morte de sua mãe. Com essa cliente não se chegou a fazer efetivamente a construção do genograma, mas foram formuladas questões e reflexões para posterior construção do mesmo fora da sessão. Ao se investigar a estrutura familiar de Elaine, verificouse um superenvolvimento entre esta e sua mãe, que não lhe permitia realizar tarefas cotidianas simples como separar a roupa para pôr na máquina para lavar, ou comprar calçados para si mesma. Há ainda, famílias em que além da indiferenciação e dependência emocional entre os membros existem conflitos constantes entre os mesmos, no caso são os relacionamentos fundidos e conflituais (Wendt & Crepaldi, 2008). Em outro caso atendido em clínica particular, Valmor, de 37 anos, mantinha com seu pai uma relação fusional e conflituosa. Os dois estavam fazendo uma segunda tentativa de trabalharem juntos na empresa paterna, após uma crise psicológica vivenciada por Valmor, sendo que ao mesmo tempo em que o pai se mostrava muito preocupado com a saúde do filho, dizia que não era possível pai e filho trabalharem juntos, que Valmor deveria retornar para a outra cidade em que este residia anteriormente. Pôde-se ter uma nova compreensão da situação estabelecida ao constatar-se pelo genograma que o padrão interacional, não apenas do pai de Valmor, mas também de seus tios paternos com todos os filhos se repetia. Esses continuavam a tratar os filhos adultos como pequenos, e os filhos por sua vez aceitavam esta proposta de relação em alguma medida. Esta situação posta gerava conflito e dependência entre os membros do sistema. Ao se trabalhar essa hipótese com o cliente este convidou o pai para participar de algumas sessões em que a relação dos dois, e também do pai com os outros quatro filhos pôde ser repensada. 29 A aliança é outro importante padrão transacional que se refere a uma união entre os membros fundamentada em lealdades invisíveis9 que influenciam no processo de diferenciação dos mesmos com menor intensidade que o superenvolvimento. Já o relacionamento conflituoso é marcado por grande angústia e desacordos gerados por constantes brigas por problemas de comunicação entre os membros, que podem resultar inclusive em agressões físicas (Wendt & Crepaldi, 2008). Quando esses conflitos não acontecem de maneira clara, mas a família vive sob o risco deles aparecerem em situações difíceis ou em períodos de transição, dizse que é um relacionamento vulnerável (Wendt & Crepaldi, 2008). Como no caso de Vivian, de 25 anos, que morava com seus pais, e por mais que se esforçasse tinha dificuldades em trazer informações sobre sua família para as sessões terapêuticas. Em dada sessão se trabalhou com Vivian como eram essas relações entre os membros familiares em outros momentos de sua história familiar. Foi quando a mesma relatou que quando era pequena seu pai apresentava episódios de abuso de bebidas alcoólicas em que se mostrava agressivo verbalmente e, por vezes, fisicamente com sua mãe e irmão. Nesta ocasião Vivian disse que não se recordava desses episódios, e que parecia fazer mais sentido a sensação de tensão que sentia viver constantemente em seu sistema familiar. Em famílias com fronteiras rígidas, geralmente encontra-se um padrão de relacionamento distante, pois esse se caracteriza pela escassez de contatos, especialmente em termos emocionais, entre os membros, são ditas famílias desligadas. Para exemplificar essa relação em termos sistêmicos convido o leitor a retornar ao caso de Elaine. Como alertado por Vasconcellos (2005), o fato de Elaine reconhecer o padrão de relacionamento muito estreito com sua mãe não foi suficiente para que ocorressem mudanças na relação de Elaine entre elas, coma figura materna não mais presente fisicamente. Situação esta que evidencia a importância de continuar contextualizando esse padrão de relacionamento nas diversas gerações. Ao se investigar a relação entre sua mãe e sua avó materna, 9 O conceito refere-se a interiorização de expectativas familiares com atitudes que visam cumprir os mandatos familiares. Se o sujeito as não cumpre, sente-se culpado, e assim, as lealdades são um mecanismo de forças secundárias que regulamos padrões mudança e continuidade dentro da família. Para aprofundamento do conceito ver Boszormenyi-Nagy, I., & Spark, G. M. (2003). Lealtades invisibles. Madrid, España: Amorrortu. 30 percebeu-se que o padrão de relação entre as duas era oposto, ou seja, distante. As duas não tinham uma relação de intimidade, o que ficou bastante evidente pela ausência da avó no velório da mãe. Ter essa informação levou terapeuta e cliente a trabalhar com a hipótese de que sua mãe procurava estabelecer com ela e os irmãos uma relação diferente – melhor com seus filhos que aquela que havia experienciado enquanto filha. Olhando a situação desse ângulo foi possível a Elaine começar a pôr em questão as vantagens e desvantagens que tinha ao manter esse padrão de dependência e indiferenciação em relação à figura materna. No caso do rompimento, os membros não estabelecem contato, mas continuam ligados emocionalmente, principalmente por sentimentos aversivos (Wendt & Crepaldi, 2008). Para compreender os efeitos desse padrão relacional peço para que o leitor retome o caso de Carlos. Ao construir o genograma no setting verificou-se que existia um padrão de rompimento em toda a família materna. Tanto dos avós para com os filhos como dentro do subsistema fraterno. Ao perceber isso Carlos pode compreender alguns dos bons motivos que tinha para não falar aquilo que pensava independente de ser agradável ou não para quem escutaria. Como colocado pela literatura (Carter & McGoldrick, 2001) o fato de a mãe de Carlos ter relações rompidas com suas tias, não impedia que esta continuasse nutrindo sentimentos de raiva e ressentimentos em relação às irmãs. Isso ficou bem evidente, no protesto materno contra a tentativa de Carlos de aproximar-se de sua tia, e também madrinha com quem a mãe tinha rompido. Um padrão transacional de triangulação refere-se à relação permeada de insegurança entre três membros da família em que um media perifericamente o conflito explícito, ou na eminência de ocorrer entre os outros dois integrantes do triângulo (Wendt & Crepaldi, 2008). Para ilustrar essa situação trago um caso atendido em instituição de assistência social de Milena, uma professora de 23 anos, que está com data de casamento e de saída de casa marcada e que relata sentimentos de angústias que não consegue explicar, dizendo estar acontecendo tudo certo em sua vida. Ao desenhar o genograma com a cliente logo se constata que esta estava triangulada na relação entre seus pais e entre cada cônjuge e seus irmãos. Milena era filha mais velha e desde a infância foi designada por seus pais pelo cuidado dos três irmãos homens na ausência dos mesmos, situação cotidiana, visto que seu pai era vigia e permanecia no emprego durante a semana e sua mãe 31 era professora e lecionava em turno integral. Atualmente, seus pais estão afastados do trabalho por adoecimento e passam grande período de tempo em casa, porém grande parte da comunicação entre o casal se dá por queixas à Milena para esta transmita “o recado” ao cônjuge. Ao observar isso Milena chorou e disse que não podia abandonar sua família. De fato, sua identidade estava atrelada a este papel que ocupava nos diferentes triângulos familiares. Neste caso foi de suma importância ampliar a investigação não apenas à família estendida, mas aos outros sistemas em que a mesma participava, para poder resgatar aquilo que diferenciava Milena desta família, e poder repensar sua função nesse sistema, sem implicar na desintegração do self da cliente. Por sua vez, a coalizão, também é uma relação triádica e se caracteriza pela formação de uma aliança entre dois membros da família contra um terceiro (Wendt & Crepaldi, 2008). Fato este evidenciado no sistema familiar de Elaine, que agora vivia uma relação conflituosa com seu pai como conseqüência de anos de coalisão com sua mãe contra o mesmo. Era muito difícil para Elaine, nos primeiros meses de terapia conseguir identificar algo de positivo, ou mesmo de fragilidade em seu pai, pois havia um discurso saturado construído por ela e sua mãe contra o mesmo, que impedia a mesma de empatizar-se com a figura do pai. Somente quando a cliente começou a questionar a fusão com a mãe, que se pode pensar em uma nova relação com o pai, menos conflituosa, e mais apoiadora para ambos. 5.3 O WORKSHOP DE FOTOS COM ADULTO JOVEM O workshop de fotos é uma técnica utilizada principalmente em cursos de formação em terapia familiar que, aliado ao genograma, permite a análise da estrutura e dinâmica da família de origem do terapeuta em formação, contribuindo para identificação de potencialidades e problemas que o profissional pode encontrar na prática clínica com famílias (Andolfi, 2001; Wendt & Crepaldi, 2008). Não foi possível encontrar outros escritos sobre esse instrumento comumente utilizado por terapeutas de família em consultório. Para tanto, a técnica aqui descrita foi aquela em que a autora participou como terapeuta em formação no Familiare Instituto Sistêmico coordenada pelos terapeutas Denise Franco Duque, Maria Aparecida Crepaldi e João David Mendonça. Esta atividade consiste em pedir 32 ao cliente que escolha fotos de momentos importantes de sua vida que este queira compartilhar com o terapeuta. Sugere-se que traga fotos de sua família, tanto nuclear como extensa, e também de outras pessoas que foram importantes em algum momento de sua vida. Pode-se questionar a necessidade de se realizar esse exercício depois das informações que podem ser obtidas no genograma. Existem três vantagens fornecidas por essa técnica, primeiramente, quando se constrói o genograma esse proporciona uma fotografia instantânea das relações familiares (Wendt & Crepaldi, 2008), já as fotos permitem a visualização de processos de continuidade e mudanças na história da família. Além disso, a seleção de fotos realizada pelo cliente abre espaço para que se investiguem outros sistemas significativos para o adulto jovem solteiro que podem contribuir no processo terapêutico. E por fim podese ter uma noção da coerência entre o relato da trama interacional da qual o individuo participa e aquilo que as imagens revelam. Esse último ponto é um dos principais motivos pelo qual a autora considera importante a inclusão dessa técnica num processo de terapia individual e relacional sistêmica com adulto jovem. Em vista da impossibilidade de trazer à terapia os membros, de diferentes sistemas, com os quais o indivíduo estabelece padrões interacionais significativos para sua vida, ao menos pode-se conhecer flashes dessas relações que podem gerar curiosidades, hipóteses e reflexões acerca desses momentos. O workshop de fotos é uma técnica que se adéqua aos meios terapêuticos propostos pelo construcionismo social e pelas terapias narrativas, bem como para o alcance de seus propósitos de que os clientes reescrevam as histórias de suas vidas. Também servem de base para a formulação de descrições e boas perguntas que conduzam a processos reflexivos propostos por Tom Andersen (2002). Isso porque diante das fotos escolhidas pelo cliente podem-se formular várias perguntas, cujas respostas darão indícios dos padrões interacionais, crenças, valores, e sentimentos envolvidos nas situações apresentadas. O que o levou a escolher cada fotografia? Por que trouxe essas fotos e não outras? Quem está nesta foto? Que momento essa imagem retrata? Que sentimentos provocam essa foto? Se estas pessoas da foto estivessem aqui, o que elas diriam? 33 Assim, pode-se entender a seleção de imagens do cliente como peças de um quebra-cabeça em que é necessário a curiosidade do terapeuta para elaborar boas perguntas que possam ser as peças que faltam para compor o contexto do qual o adulto jovem solteiro em terapia individual faz parte. Essa técnica tem um aspecto lúdico e traz leveza ao processo terapêutico. Recursos esses que eram necessários no caso de Elaine. Realizar o workshop de fotos foi um modo de responder a ansiedade de Elaine em falar de sua mãe. Ao mesmo tempo, permitiu que a terapeuta indagasse sobre os outros membros da família, motivando a cliente a ampliar seu foco de compreensão de suas histórias familiares. Além de possibilitar a lembrança da cliente de outras memórias que não apenas do processo de adoecimento e morte de sua mãe. No caso de Carlos entrar em contato com suas fotos proporcionou que este rememorasse relações de amizade que foram importantes em sua infância, mas que o mesmo havia esquecido ao longo do tempo. Ao retomar essas relações Carlos pôde refletir sobre características pessoais suas que só emergiam nesses contextos, ampliando assim os aspectos que considera como identificadores de si. Ademais, no estudo das fotos que este trouxe para a terapia, foi possível aprofundar as reflexões sobre o padrão de rompimento presente na dinâmica de sua família. Pode-se questionar mais sobre a posição dos outros membros familiares diante desses relacionamentos rompidos. 34 6 CONCLUSÕES E CONSIDERAÇÕES FINAIS Conforme exposto no início desse trabalho a terapia relacional sistêmica ainda está bastante atrelada à intervenções com famílias. Isso acontece não apenas em decorrência da historicidade desta modalidade terapêutica, nem somente, como sugerido no início deste texto, pela dificuldade em se escrever e encontrar literatura sobre processos individuais que se baseiem nessa perspectiva terapêutica. Por um lado isso decorre de motivos ideológicos, como o fato da terapia sistêmica ter se desenvolvido como o avessa à psicanálise e, historicamente, ter se definido como terapia familiar. Além disso, pode-se traçar um paralelo entre a modificação da técnica de intervenção de famílias para indivíduos na terapia sistêmica com as mudanças da psicanálise tradicional para à terapia psicodinâmica de orientação psicanalítica, em que se mantém o mesmo marco teórico, mas a técnica é modificada. Por fim, após ler, refletir e elaborar esta monografia credita-se ainda parte dessa realidade à importância fundamental que, ainda hoje a família ocupa no processo de saúde e doença psíquica do indivíduo. E ao chegar a essa conclusão, reafirma-se o desafio que está posto aos terapeutas relacionais sistêmicos de lidar com a demanda por atendimentos individuais de pessoas que estão em sofrimento psíquico e não podem contar com a colaboração de outros membros da família em sua busca por auxílio. Nesse caso, não se trata apenas de adultos jovens solteiros, que foi foco do presente trabalho, mas de outras populações que se encontram em situações similares. Quando os pais de crianças não aceitam/podem participar integralmente do processo terapêutico, irá se negar a possibilidade de escuta a essas crianças? Se mesmo sob essas condições este espaço é aberto a criança, como ocorrerá o processo de implicação dos pais no processo: o terapeuta se responsabilizará por completo pela terapia da criança? Existem ainda poucos escritos acerca dessas realidades árduas com as quais o terapeuta depara-se em sua prática cotidiana. Como todo trabalho este também possui limitações. Primeiramente, trata-se de um recorte feito por essa autora que não abarca a complexidade do tema estudado, mas pretende acrescentar reflexões que contribuam para o desenvolvimento de práticas mais bem fundamentadas na área de atendimento individual relacional sistêmico. Outro limite deste texto foi o fato de não explorar o 35 conceito de diferenciação de Bowen que poderia ter enriquecido a compreensão relacional sistêmica do jovem adulto solteiro, entretanto para aprofundamento nesse tema recomendam-se as obras de Santos (2008) e Silveira e Ferreira (2005). Outro ponto não tratado nesta monografia foi às questões relativas às escolhas profissionais vivenciadas pelo adulto jovem solteiro, tema dos escritos de Gabel e Soares (2006) e Diniz (2007). Como articulado no texto a construção do genograma familiar em um processo terapêutico individual com adulto jovem exige que o profissional seja criativo e esteja atento as especificidades de cada caso para decidir os aspectos que devem ser aprofundados e aqueles não fundamentais da estrutura e dinâmica da família do cliente. Essas considerações também são válidas para o workshop de fotos, que possui uma limitação referente a dependência do terapeuta em relação à disponibilidade do sujeito em aceitar o trabalho e lembrar de trazer as fotografias, caso contrário, esse trabalho fica impossibilitado. Quanto a esse último instrumento, vale ressaltar sua validade também na terapia familiar, principalmente com famílias de crianças pequenas e de adolescentes. Nesse caso a experiência é enriquecida pelo fato de diferentes membros poderem fazer os questionamentos em relação a seleção de fotografias de cada integrante da família, disparando novas reflexões para o processo terapêutico. As terapias narrativas e o construcionismo social são importantes ferramentas para o trabalho em clínica individual. Porém, sempre que preciso, devese relembrar que o individuo é parte de um sistema e que este é o pressuposto básico para qualquer trabalho psicoterapêutico que se diga fundamentado na terapia relacional sistêmica. 36 REFERÊNCIAS Andersen, T. (2002). Processos Reflexivos. Rio de Janeiro,RJ: Intituto NOOS: ITF. Andolfi, M., Angelo, C., Menghi, P., & Nicolo-Corigliano, A. M. (1984). Por trás da máscara familiar: um novo enfoque em terapia da família. Porto Alegre, RS: Artes Médicas. Andolfi, M. (2001). Terapia con el individuo y terapia con la familia. Sistemas Familiares, 17(1), 29-42. Aylmer, R. (2001). O lançamento do adulto jovem solteiro. In B. Carter & M. McGoldrick. As mudanças do ciclo de vida familiar: uma estrutura para a terapia familiar (Cap. 9, pp. 169-183). Porto Alegre, RS: Artes Médicas. Borges, C. de C. & Magalhães, A. S. (2009) Transição para a vida adulta: autonomia e dependência na família. Psico, 40(1), 42-49. Carter, B., & McGoldrick, M. (2001). As mudanças no ciclo de vida familiar: uma estrutura para terapia familiar. In B. Carter & M. McGoldrick. As mudanças do ciclo de vida familiar: uma estrutura para a terapia familiar (Cap. 1, pp. 7-29). Porto Alegre, RS: Artes Médicas. Diniz, C. F. N. (2007). As narrativas do jovem e sua família: tecendo redes entre a terapia familiar sistêmica e a orientação profissional. Dissertação de mestrado, Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, Belo Horizonte, MG, Brasil. Duque, D.F. (1996). Crises normais do ciclo de vida familiar. Revista da Assoc. Brasileira de Psicoterapia Analítica de Grupo. 5, 78-86. Gabel, C. L. M. & Soares, D. H. P. (2005) Contribuições da terapia familiar sistêmica para a escolha profissional. Rev. bras. orientac. prof 7(1). Gil, A. C. (2007). Como elaborar projetos de pesquisa. São Paulo, SP: Atlas. Henriques, C. R.; Jablonski, B. & Feres-Carneiro, T. (2004). A geração canguru: algumas questões sobre o prolongamento da convivência familiar. Psico, 35(2),195-205. Henriques, C. R; Feres-Carneiro, T. & Magalhães, A. S. (2006). Trabalho e família: o prolongamento da convivência familiar em questão. Paidéia, 16(35), 327-336. Levy, L. (2006). Comentário sobre o artigo a diferença que fez a diferença. Pensando Famílias, 10(2), 135-139. McGoldrick, M., & Gerson, R. (2001). Genetogramas e o ciclo de vida familiar. In B. Carter & M. McGoldrick. As mudanças no ciclo de vida familiar: uma estrutura para a terapia familiar (Cap.8, pp. 144-166). Porto Alegre, RS: Artes Médicas. Mello, D. F. de; Viera, C.S.; Simpionato, E.; Biasoli-Alves, Z. M. M.; Nascimento L. C. (2005). Genograma e Ecomapa: possibilidades de utilização na estratégia de saúde da família. Rev Bras Cresc Desenv Hum, 15(1), 79-89. Minayo, M. C. de S. (2006). Correntes de pensamento. In: M. C. de S. Minayo. O desafio do conhecimento científico: Pesquisa qualitativa em saúde. 9. ed. revista e aprimorada. (Cap.4, pp.81-142). São Paulo: Hucitec. Minuchin, S. (1990). Famílias: funcionamento e tratamento. Porto Alegre: Artes Médicas. Minuchin, P.; Colapinto, J.; Minuchin, S. (1999). Trabalhando com famílias pobres. Porto Alegre: Artes Médicas. Morin, E. (2005). Os saberes necessários à Educação do Futuro. São Paulo: Cortez. 37 Nascimento, L.C.; Rocha, S. M. M.; Hayes, V. E. (2005). Contribuições do genograma e do ecomapa para o estudo de famílias em enfermagem pediátrica. Texto Contexto Enferm, 14(2), 280-286. Najmanovich, D. (1995) El lenguaje de los vínculos: De la independencia absoluta a la autonomia relativa. In. E. Dabas, D. Najmanovich. Redes El lenguaje de los vínculos: hacia la reconstrucción Y el fortalecimiento de la sociedad civil. Buenos Aires: Paidós. Narvaz, M.G. & Koller, S. H. (2004) O Modelo Bioecológico do desenvolvimento Humano. In S. H. Koller (org.) Ecologia do Desenvolvimento Humano: Pesquisa e Intervenção no Brasil (pp.51-55). São Paulo, SP: Casa do Psicólogo. Nichols, M.P., & Schwartz, R.C. (1998). O contexto histórico da terapia familiar. In M. P. Nichols & R. C. Schwartz (Eds.) Terapia Familiar: Conceitos e Métodos (pp.2174). Porto Alegre, RS: Artmed. Osório, L. C. e Valle M. E. (2002). Terapia de famílias: novas tendências. Porto Alegre, RS: Artmed. Santos, N. E. B. (2008) A triangulação e seus múltiplos aspectos no contexto familiar: um olhar relacional sistêmico. Monografia de especialização, Familiare Instituto Sistêmico, Florianópolis, SC. Silveira, P.G. & Wagner, A. (2006). Ninho cheio: a permanência do adulto jovem em sua família de origem. Estudos em Psicologia, 23(4), 441-453. Silveira, J. A. & Ferreira, M. O. A. (2005). A formação do apego e suas implicações na construção de vínculos futuros. Monografia de especialização, Familiare Instituto Sistêmico, Florianópolis, SC. Tronco C. B. (2008). Contribuições para uma Terapia Sistêmica Individual. Pensando Famílias, 12(1), 133-142. Vasconcellos, M. J. E. de (2002). Pensamento sistêmico: o novo paradigma da ciência. Campinas, SP: Papirus. ______________________ (2005). Pensamento sistêmico novo-paradigmático e a questão da terapia sistêmica individual. In J. G. Aun, M. J. Esteves de Vasconcelos & S. V. Coelho. Atendimento sistêmico de famílias e redes sociais: fundamentos teóricos e epistemológicos (Vol. 1, Parte 2, pp. 91-97). Belo Horizonte, MG: Ophicina de Arte & Prosa. Vidal, A. B. (2005). A Diferença que Fez a Diferença: o uso incomum da equipe reflexiva de Tom Andersen. Monografia de Especialização, DOMUS - Centro de Terapia de Casal e Família, Porto Alegre, RS. __________ (2006). A Diferença que Fez a Diferença: o uso incomum da equipe reflexiva de Tom Andersen, Pensando Famílias, 10(2), 117-134. Wendt, N. C. (2006). Fatores de risco e de proteção para o desenvolvimento da criança durante a transição para a parentalidade. Dissertação de mestrado, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, SC, Brasil. Wendt, N. C. & Crepaldi, M. A. (2008). A Utilização do Genograma como Instrumento de Coleta de Dados na Pesquisa Qualitativa. Psicologia: Reflexão e Crítica, 21(2), 302-310. 38 7 ANEXO 1 Símbolos Genetograma (Baseado em Wendt & Crepaldi, 2008). Outras informações familiares de especial importância também podem ser anotadas (McGoldrick & Gerson, 1995, como citado em Wendt & Crepaldi, 2008): 1. Background étnico; 2. Religião ou mudança religiosa; 3. Educação; 4. Ocupação ou desemprego; 5. Serviço Militar; 6. Aposentadoria; 7. Problemas com a lei; 8. Abuso físico ou incesto; 9. Obesidade; 10. Fumo; 11. Data que membros da família deixaram a casa: DC’ 74. 39 8 ANEXO 2 PARECER Título do trabalho: O jovem adulto solteiro e a terapia relacional sistêmica Orientador: Profª Drª Maria Aparecida Crepaldi 1. O trabalho é relevante e original; está bem estruturado e bem fundamentado. 2. De forma geral está bem escrito (o que é cada vez mais raro) pelo menos até cerca da sua metade. A partir daí começam a aparecer mais erros. Os erros gramaticais ou de estilo foram assinalados em vermelho, e até certa altura propus alternativas. Depois, deixo de corrigir ou apenas assinalo onde há problemas. 3. Marquei em azul no texto partes que considero mais relevantes do trabalho. 4. A autora é corajosa e intelectualmente honesta ao explicitar posições antagônicas e posicionar-se em relação a elas (p.24), assim como antecipar pontos não abordados (final), o que acho até excessivo, pois se trata de uma monografia, e como tal está teoricamente até muito robusta. 5. Os exemplos são pertinentes. Entretanto, ainda que não seja um relato de caso, seria importante dar pelo menos um exemplo de genograma (ao invés de apresentar apenas os símbolos), assim como entrar em detalhes sobre pelo menos um caso em que se usou as fotos. 6. A autora e a orientadora estão de parabéns. Florianópolis, 09 de novembro de 2010. Prof. Dr. Ercy José Soar Filho Declaro que a aluna fez as modificações sugeridas excetuando-se a inclusão do genograma por motivos de preservação do sigilo e da ética profissional. Maria Aparecida Crepaldi Orientadora 40 41